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arquitetura

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 7

CONCEITUAÇÃO 17

TRADIÇÃO OCIDENTAL 25

TRADIÇÃO LOCAL 33

A N O T A Ç Õ E S A O C O R R E R D A LEMBRANÇA 41

INTERMEZZO — Catas Altas do Mato Dentro 75

INTERMEZZO — Rott am Inn 85

A N T Ô N I O F R A N C I S C O LISBOA, O A L E I J A D I N H O 87

RUPTURA E REFORMULAÇÃO 103

E D I F Í C I O G U S T A V O CAPANEMA 109

ADDENDUM URBANÍSTICO 115

5
ARQUITETURA

BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA (Memória Descritiva) 1I7

APÊNDICE 143

ORIENTAÇÃO PARA O PROFESSOR 147

GLOSSÁRIO 149

6
APRESENTAÇÃO

Na sucessão dos s i n t o m a s que prenunciavam o f i m

do regime de exceção, o r e s t a b e l e c i m e n t o da abertura e

da o r d e m democrática, é j u s t o assinalar o l a n ç a m e n t o da

B i b l i o t e c a E d u c a ç ã o É C u l t u r a . A iniciativa resultou de

uma parceria do M E C - F e n a m e e da B l o c h E d i t o r e s S.A.,

em 1 9 8 0 . A publicação desses o p ú s c u l o s , cada um de per

st quase um vadt-mécum, era dirigida aos professores da rede

de e n s i n o médio, c o m o ferramenta de i n f o r m a ç ã o a f i m

de despertar o interesse dos alunos para uma m e l h o r c o m -

preensão de suas vocações. F o r a m escolhidas figuras re-

presentativas para a elaboração das monografias. E r a m dez

títulos: I. Realidade brasileira/Gilberto Freyre; 2. Literatura/

J o s u é M o n t e l l o ; 3. M ú s i c a / F r a n c i s c o M i g n o n e ; 4* Folclore/

M a r i a de L o u r d e s Borges R i b e i r o ; 5. Cinema/Wilson C u -

nha; 6. Teatro I/Raymundo Magalhães J ú n i o r ; 7. Teatro II/

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ARQUITETURA

M a r i a Clara M a c h a d o ; 8. Artes plásticas I/Flávio D ' A q u i n o ;

9. Artes plásticas II/Wladimir Alves de S o u z a e, finalmente,

1 0 . Arquitetura/Lucio Costa.

O aparecimento do volume IO — Arquitetura — inter-

rompia o hiato provocado p o r razoável silêncio. P o r esse

t e m p o , só t í n h a m o s acesso à palavra de L ú c i o C o s t a atra-

vés de garimpagem em alguns p o u c o s livros, entrevistas e

e s c r i t o s esparsos, sendo a principal f o n t e os i m p o r t a n t e s

e s t u d o s publicados nos primeiros n ú m e r o s da Revista do

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ( S P H A N ) , iniciada

em 1 9 3 7 -

C o m m e n o s de sessenta páginas em sua edição o r i -

ginal, este pequeno grande livro é uma declaração de amor,

um o b j e t o de conquista e um m a n i f e s t o . E perpassado

p o r uma simplicidade calma e clara. E, sem t e r essa in-

tenção, naturalmente a u t o b i o g r á f i c o . O índice espicaça

nossa curiosidade. Na " C o n c e i t u a ç ã o " , o livro n o s m o s -

tra q u e a arquitetura é parte fundamental da criação a r -

tística c o m o manifestação normal de vida, c o n s t i t u i n d o

uma espécie de "álbum de família" da humanidade. E x -

8
APRESENTAÇÃO

plícita o desafio do artista, do t é c n i c o e do h o m e m na

adequação do meio f í s i c o e social. C o n d u z - n o s a p e r c e -

ber a arquitetura c o m o bem durável, c o n c e b i d o de m a -

neira estrutural e orgânica, na medida do corpo do homem,

sentido em t e r m o s de espaço e volume, enfim, c o m o algo

para ser vivido.

Em " T r a d i ç ã o o c i d e n t a l " , o a u t o r apresenta dois e i -

xos de influência cultural: o n ó r d i c o - o r i e n t a l e o m e s o -

p o t â m i c o - m e d i t e r r â n e o , do qual descende o n o s s o g e s t o

do saber fazer. Em " T r a d i ç ã o l o c a l " , deparamos c o m a

m e m ó r i a saudosa e sofrida dos primeiros c o l o n o s trans-

migrando para a nova terra, onde t u d o era adverso — c l i -

m a , í n d i o e b i c h o . As diversas t é c n i c a s h e r d a d a s das

diferentes regiões de Portugal, t o d a s e n c o n t r a n d o sua

expressão própria, adaptam-se aos p o u c o s , ao sabor do

t e m p o , aprendendo c o m o índio, a luz e a paisagem: os

f o r t e s , os o r a t ó r i o s e as igrejas, a casa-cofre dos bandei-

rantes c o m sua planta o r t o g o n a l e assentada no c h ã o . A

casa-grande d o s engenhos de açúcar; a casa-gaiola das c i -

dades do o u r o , de estrutura de madeira, adaptando-se ao

9
ARQUITETURA

relevo caprichoso das serras mineiras e que, p o r falta de

e s p a ç o , ombreavam-se em trama de densa organização

urbana. E m e s m o mais tarde, nas casas das fazendas de

M i n a s , S ã o Paulo ou R i o de Janeiro, e n c o n t r a m o s as ca-

racterísticas de nossa arquitetura, sempre a revelar força,

coerência, r o b u s t e z e saúde plástica.

N a s "Anotações ao correr da lembrança", b e m c o m o

n o s "Intermeçgos", a memória construída c o m o exercício

da contemplação, lucidez e aguda sensibilidade estão s e m -

pre presentes, ao lado de humanidade e compaixão. Há

ainda o luminoso e comovente ensaio sobre A n t ô n i o Fran-

c i s c o Lisboa, o n o s s o Aleijadinho, a r q u i t e t o e escultor, o

m a i o r artista brasileiro do t e m p o da colônia.

Falando da contribuição do escravo, seja ele índio ou

negro, L ú c i o C o s t a n o s lembra que a qualidade artística

de seu trabalho não se origina apenas da fé e do o f í c i o

t r a n s m i t i d o s pelo mestre português, mas sim da parcela

de liberdade que colocavam no que faziam, e isso ninguém

lhes poderia tirar.

" R u p t u r a e r e f o r m u l a ç ã o " m o s t r a um processo e v o -

10
APRESENTAÇÃO

lutivo que se rompeu n o s dois á l t i m o s séculos, c o m o

progresso c i e n t í f i c o e industrial i n t r o d u z i n d o novos m o -

d o s de fabricar, c o n s t r u i r e viver. O artesanato perde sua

força telúrica e o antigo escravo, que fazia papel de má-

quina, ingressa de f o r m a tímida em uma nova o r d e m s o -

cial, habituada às tradicionais injustiças e despreparada

para isso.

" E d i f í c i o G u s t a v o C a p a n e m a " é o relato da c o r a j o -

sa aventura de um g r u p o de j o v e n s a r q u i t e t o s , s o b a l i -

derança do autor, a explicitarem sua fé n o s p o s t u l a d o s

contemporâneos, e a solicitarem e obterem o conselho e

a conivência de Le C o r b u s i e r no r i s c o q u e originaria o

p r o j e t o do a n t i g o M i n i s t é r i o da E d u c a ç ã o e S a ú d e , h o j e

Palácio G u s t a v o Capanema, m a r c o n a a r q u i t e t u r a b r a -

sileira. S e g u n d o L ú c i o C o s t a , a a r q u i t e t u r a j a m a i s p a s -

sou, em espaço de t e m p o semelhante, por tamanha

transformação.

"Addendum u r b a n í s t i c o " apresenta a cidade c o m o ex-

pressão palpável da necessidade humana de c o n t a t o e c o -

municação. A inter-relação cidade/campo e campo/cidade,

11
ARQUITETURA

o equilíbrio entre quantidade e qualidade da vida indivi-

dual, atendendo sempre o valor do h o m e m c o m o pessoa,

"Brasília, cidade inventada" ( M e m ó r i a D e s c r i t i v a )

P o r ocasião do C o n c u r s o Internacional para o P l a n o

P i l o t o de Brasília, Lúcio C o s t a envia, no dia marcado para

o seu encerramento, os d o c u m e n t o s gráficos acompanha-

d o s da M e m ó r i a Descritiva e uma carta dirigida à c o m -

panhia urbanizadora da nova capital e à comissão julgadora

do concurso.

Desculpa-se pela apresentação sumária do partido su-

gerido e justifica-se. D i z que não pretende concorrer, mas

apenas "desvencilhar-se de uma solução possível, que não

foi procurada mas surgida, p o r assim dizer, pronta". C o m -

parece c o m o simples maquisarã do urbanismo e a idéia, ape-

sar de e s p o n t â n e a , f o i d e p o i s i n t e n s a m e n t e pensada e

desenvolvida, c o n t i n u a ele.

A cidade fora concebida não apenas c o m o urbs, preen-

c h e n d o as c o n d i ç õ e s satisfatórias a um simples o r g a n i s -

12
APRESENTAÇÃO

mo capaz de atender as diversas f u n ç õ e s vitais, mas c o m o

civitas, possuidora dos a t r i b u t o s inerentes a uma capital.

Para isso, é necessário que o urbanista se ache imbuído

de certa dignidade e nobreza de intenção, p o r q u a n t o des-

sa atitude decorre a ordenação e o senso de conveniência

e medida capazes de c o n f e r i r ao c o n j u n t o p r o j e t a d o o

desejável caráter m o n u m e n t a l .

D i t o isso, L ú c i o C o s t a m o s t r a c o m o nasceu a s o -

l u ç ã o : do g e s t o p r i m á r i o do e n c o n t r o de dois e i x o s , a

assinalar a p o s s e de um lugar, ou seja, o p r ó p r i o sinal-

da-cruz.

Segue-se a seqüência numerada de t o d o o plano p i -

l o t o . Lá está ele de corpo inteiro, desde a adequação à si-

tuação topográfica, aos princípios da técnica rodoviária

c o m suas implicações modernas. Os c e n t r o s cívicos e ad-

ministrativos. O eixo m o n u m e n t a l , a plataforma dos M i -

nistérios, a Praça dos Três Poderes, a Catedral, a localização

d o s palácios e p o r fim das unidades de vizinhança — as

superquadras. T u d o descrito de maneira absolutamente

fluida e segura. Lúcio C o s t a propõe a numeração referida

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ARQUITETURA

ao eixo m o n u m e n t a l , distribuindo a cidade nas vertentes

N o r t e e S u l . As quadras seriam assinaladas p o r n ú m e r o s ,

os b l o c o s residenciais p o r letras e, p o r ú l t i m o , o n ú m e r o

do apartamento, da f o r m a usual.

Há ainda detalhes c o m o o caminho facilitado das ins-

talações, nas faixas verdes, ao l o n g o das pistas de rola-

m e n t o . E n f i m , a descrição de uma cidade pronta.

Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade-parque. S o -

n h o arquissecular do patriarca José B o n i f á c i o , que já p r o -

punha a transferência da capital para G o i á s nos idos de

1823.

No " A p ê n d i c e " , o m e s t r e n o s adverte q u e o d e s e n -

v o l v i m e n t o c i e n t í f i c o não é o p o s t o à n a t u r e z a . T r a n s -

m i t e sua t o t a l c o n f i a n ç a no i n t e l e c t o e na c o n s c i ê n c i a

do h o m e m , c a p a z e s de e n c o n t r a r a c o m p a t i b i l i d a d e

desse p r e t e n s o a b i s m o . M e s m o n o caos aparente e m que

cada g e r a ç ã o p o d e mergulhar, p o r e f e i t o d o q u e talvez

s e p o s s a c h a m a r " l e i das r e s u l t a n t e s c o n v e r g e n t e s " ,

novas p e r s p e c t i v a s se a b r e m e t u d o parece de n o v o f á -

cil e c l a r o .

14
APRESENTAÇÃO

Na " O r i e n t a ç ã o para o p r o f e s s o r " , o a u t o r desenvol-

ve, c o m zelo, o que lhe parece fundamental para o m e l h o r

desempenho de um magistério vivo. S ã o práticas que vão

desde a identificação da arquitetura, à interação h o m e m /

m e i o ambiente e equilíbrio e c o l ó g i c o . P r o p õ e o estudo

comparativo dos diversos t i p o s de comunidade. A c o n s e -

lha a p r o m o ç ã o de debates, análise de plantas, trabalhos

gráficos e maquetes, facilitando a percepção das variações

de forma, dimensão e espaço. Convida ao c o n h e c i m e n t o

das cidades históricas brasileiras através de publicações

ou excursões organizadas.

P o r fim, L ú c i o C o s t a encerra o livro c o m um s a b o -

roso glossário, em que traduz as palavras estrangeiras e

explica as de uso limitado, p o r é m tão naturais ao seu pen-

samento que, se substituídas, este perderia sua força.

L ú c i o C o s t a , a r q u i t e t o , urbanista, humanista, p r o -

fessor, escritor e poeta. De onde lhe vem tanta força para

expressar a essência da realidade brasileira? Talvez de sua

condição de peregrino, primeiro na infância e juventude

passadas na Europa. Ainda peregrino no e n c o n t r o c o m sua

15
ARQUITETURA

pátria, onde, de surpresa em surpresa, lembra-se de c o i -

sas esquecidas, de coisas jamais sabidas, mas q u e estavam

lá, em seu coração.

Jorge de Souza H u e

Arquiteto e sociólogo, amigo e


colaborador do mestre Lúcio Costa.

16
CONCEITUAÇÃO

A história da arte mostra que a arquitetura sempre foi

parte integrante fundamental no processo da criação artísti-

ca c o m o manifestação normal de vida. Ela engloba, portan-

to, a própria história da arquitetura, constituindo-se, então,

por assim dizer, no "álbum de família" da humanidade. É

através dela, através das coisas belas que nos ficaram do pas-

sado, que podemos refazer, de testemunho em testemunho,

os itinerários percorridos nessa apaíxonante caminhada, não

na busca do tempo perdido, mas ao encontro do tempo que

ficou vivo para sempre porque entranhaâo na arte.

O que caracteriza a obra de arte é, precisamente, esta

eterna presença na coisa daquela carga de amoreâe saber que,

um dia, a c o n f i g u r o u . I m p o r t a , pois, antes de mais nada,

a distinção entre essência e origem, porque nesta diferencia-

ç ã o preliminar reside a chave do e n t e n d i m e n t o do que seja

verdadeiramente arte.

17
ARQUITETURA

Se é indubitável que a origem da arte ê interessada, p o i s

a sua ocorrência depende sempre de fatores q u e lhe são

alheios — o m e i o f í s i c o e e c o n ô m i c o - s o c i a l , a época, a

técnica utilizada, os recursos disponíveis e o programa

e s c o l h i d o o u i m p o s t o — , não é m e n o s verdadeiro que n a

sua essência, naquilo p o r que se distingue de t o d a s as d e -

mais atividades humanas, é manifestação isenta, p o r q u a n -

to n o s sucessivos processos de escolha a que afinal se reduz

a elaboração da obra, escolha indefinidamente renovada

e n t r e duas c o r e s , duas t o n a l i d a d e s , duas f o r m a s , d o i s

p a r t i d o s igualmente apropriados ao f i m p r o p o s t o , nessa

e s c o l h a última, ela t ã o - s ó — arte pela arte — intervém e

opta.

C o n q u a n t o manifestação natural de vida e, c o m o tal,

parte integrante e significativa da obra c o n j u n t a elabora-

da pelo c o r p o social a que pertence, esse caráter suigeneris

da criação artística dificulta a sua abordagem pelas s i s t e -

m a t i z a ç õ e s fUocientíficas, e a torna, p o r ve2es, refratária

aos e n q u a d r a m e n t o s filopartidários. É que, e n q u a n t o a

criação científica é parcela revelada de uma totalidade s e m -

1B
CONCE1TUAÇÃO

pre maior que se furta às balizas da delimitação i n t e l i g í -

vel, não passando p o r t a n t o o c i e n t i s t a de uma espécie de

intermediário credenciado do h o m e m c o m os demais f e n ô -

m e n o s naturais — donde o f u n d o de humildade, afetada

ou verdadeira, peculiar à sua atitude — a criação a r t í s t i -

ca, ou melhor, o c o n j u n t o da obra criada p o r um d e t e r m i -

nado artista, se c o n s t i t u i n u m todo a u t o - s u f i c i e n t e , e ele

— o p r ó p r i o artista — é l e g í t i m o criador desse m u n d o à

parte epessoal, pois não existia antes, e idêntico não se refará

j a m a i s . D a í a vaidade inata, aparente ou velada, inerente à

personalidade de t o d o artista a u t e n t i c a m e n t e criador.

N ã o cabe indagar, c o m i n t e n ç õ e s discriminatórias,

"para q u e m o artista trabalha", p o r q u e , a serviço de u m a

causa ou de alguém, p o r ideal ou p o r interesse, ele traba-

lha sempre apenas, no f u n d o — quando verdadeiramente

artista — p a r a si mesmo, p o i s se alimenta da própria cria-


t

ção, m u i t o embora anseie pelo e s t í m u l o da repercussão e

do aplauso c o m o pelo ar que respira.

A mais tolhida das artes, a arquitetura é, antes de mais

nada, construção; mas c o n s t r u ç ã o concebida c o m o p r o p ó -

19
ARQUITETURA

s i t o primordial de organizar e ordenar o espaço para d e -

terminada finalidade e visando a determinada intenção.

E nesse p r o c e s s o f u n d a m e n t a l de organizar, o r d e n a r e

expressar-se ela se revela igualmente arte plástica, p o r q u a n t o

n o s inumeráveis problemas c o m q u e se d e f r o n t a o arqui-

t e t o desde a germinação do p r o j e t o até a conclusão e f e t i -

va da obra, há sempre, para cada caso e s p e c í f i c o , certa

margem final de o p ç ã o entre os limites — m á x i m o e m í -

n i m o — determinados pelo cálculo, p r e c o n i z a d o s pela

técnica, condicionados pelo m e i o , reclamados pela f u n -

ção ou i m p o s t o s pelo programa, cabendo e n t ã o ao senti-

mento individual do a r q u i t e t o — c o m o artista, p o r t a n t o

— escolher, na escala dos valores c o n t i d o s entre tais l i -

m i t e s extremos, a forma plástica apropriada a cada p o r -

m e n o r em função da unidade última da obra idealizada.

A intenção plástica que semelhante escolha subentende

é precisamente o que distingue a arquitetura da simples

construção.

P o r o u t r o lado a a r q u i t e t u r a depende ainda, n e c e s -

sariamente, da época da sua o c o r r ê n c i a , do meio f í s i c o e

20
CONCEITUAÇÀO

social a q u e p e r t e n c e , da técnica d e c o r r e n t e d o s materiais

empregados e, f i n a l m e n t e , d o s o b j e t i v o s visados e d o s

recursos financeiros disponíveis para a realização da obra,

ou seja, do programa p r o p o s t o . P o d e - s e e n t ã o d e f i n i r a

a r q u i t e t u r a c o m o construção concebida com o propósito de or-

ganizar e ordenarplasticamente o espaço e os volumes decorrentes,

em função de uma determinada época, de um determinado meio, de

uma determinada técnica, de um determinado programa t de uma

determinada intenção.

Assim, p o r t a n t o , se, p o r um lado, arquitetura não é

coisa suplementar usada para enriquecer mais ou m e n o s o

e d i f í c i o , não é t a m p o u c o a simples satisfação de i m p o s i -

ç õ e s de o r d e m t é c n i c a e f u n c i o n a l . F r u t o de i n t u i ç ã o

instantânea ou de procura paciente, para q u e seja ver-

dadeiramente arquitetura é preciso que, além de satisfazer

rigorosamente — e só assim — a tais imperativos, uma

intenção de outra o r d e m e mais alta acompanhe paripassu

o trabalho de criação em t o d a s as suas fases. N ã o se trata

de sobrepor à precisão de uma obra tecnicamente p e r f e i -

ta a dose julgada conveniente dc gosto artístico. Aquela in-

21
ARQUITETURA

t e n ç ã o deve estar sempre presente desde o i n í c i o , sele-

c i o n a n d o , n o s m e n o r e s detalhes, entre duas e t r ê s s o l u -

ç õ e s possíveis e t e c n i c a m e n t e c o r r e t a s , aquela q u e não

desafine — antes, p e l o c o n t r á r i o , m e l h o r c o n t r i b u a , c o m

a sua parcela m í n i m a , para a intensidade expressiva da

obra total.

E n q u a n t o s a t i s f a z apenas às exigências t é c n i c a s e

funcionais, não é ainda arquitetura; quando se perde em

i n t e n ç õ e s meramente decorativas, t u d o não passa de c e -

nografia; mas quando — popular ou erudita — aquele

q u e a ideou pára e hesita ante a simples escolha de um

espaçamento de pilares ou da relação entre a altura e a

largura de um vão, e se d e t é m na obstinada procura de

uma j u s t a medida entre cheios e vazios, na Fixação d o s v o l u -

m e s e subordinação deles a uma lei, e se d e m o r a a t e n t o

ao j o g o dos materiais e a seu valor expressivo, quando t u d o

i s t o se vai p o u c o a p o u c o somando em obediência aos mais

severos p r e c e i t o s t é c n i c o s e f u n c i o n a i s , mas, t a m b é m ,

àquela intenção superior que escolhe, coordena e orienta

no s e n t i d o da idéia inicial t o d a essa massa c o n f u s a e

22
CONCEITUAÇÀO

contraditória de pormenores, t r a n s m i t i n d o assim ao c o n -

j u n t o , r i t m o , expressão, unidade e clareza — o q u e c o n -

fere à o b r a o seu caráter de p e r m a n ê n c i a — i s t o sim, é

arquitetura.

O u , e m o u t r o s t e r m o s , c o m o lembrete:

arquitetura é coisa para ser exposta à intempérie;

arquitetuta é coisa para ser concebida c o m o um t o d o

orgânico e funcional;

arquitetura é coisa para ser pensada, desde o início,

estruturalmente;

arquitetura é coisa para ser encarada na medida das

idéias e do corpo do homem;

arquitetura é coisa para ser sentida em t e r m o s de es-

paço e volume;

arquitetura é coisa para ser vivida.

23
TRADIÇÃO OCIDENTAL

O m i t o e o p o d e r sempre estiveram na o r i g e m das

grandes realizações de sentido arquitetônico. E l e s se c o n -

substanciam numa útôa-força da qual resulta a intenção que

orienta e determina a expressão arquitetônica. A realização

arquitetônica é assim a expressão palpável desse c o n t e ú -

do ideológico no seu mais amplo sentido.

C o n s t a t a - s e , p o r é m , nesta c o m o que materialização

da idéia, a p r e s e n ç a de um c o m p o n e n t e t e l ú r i c o q u e

c o n d i c i o n a e propicia, do p o n t o de vista da c o n c e p ç ã o

f o r m a l , uma preferência " i n s t i n t i v a " p o r d e t e r m i n a d o s

t i p o s de configuração. Assim, na bacia do M e d i t e r r â n e o ,

t a n t o no sul da Europa q u a n t o no norte da África, bem

c o m o nas áreas do O r i e n t e p r ó x i m o e da M e s o p o t â m i a ,

prevalece, na arquitetura erudita c o m o na popular, o sen-

t i d o da c o e s ã o plástica, da f o r m a g e o m é t r i c a pura, da

c o n t e n ç ã o ; ao passo que no norte da Europa e n o s países

25
ARQUITETURA

eslavos e orientais observa-se, pelo c o n t r á r i o , c e r t a pre-

disposição à plástica de sentido dinâmico, ao perfil m í s -

t i c o , elaborado ou c o n v u l s o , à dispersão, p o d e n d o - s e ,

p o r t a n t o , considerar dois eixos culturais latentes q u a n t o

à c o n c e p ç ã o p l á s t i c a da f o r m a : o e i x o m e s o p o t â m i o -

mediterrâneo, próprio da c o n c e p ç ã o estática, e o eixo n ó r -

d i c o - o r i e n t a l , que abrange as diferentes modalidades da

concepção dinâmica.

Esse condicionamento inicial, juntamente c o m os d e -

mais fatores de natureza cultural, racial e histórica envol-

vidos, faz c o m que a arte de cada civilização se c o n s t i t u a

num t o d o íntegro e a u t ô n o m o que impede a sua avalia-

ção p o r padrões o u t r o s que não os p r ó p r i o s , não c o m -

p o r t a n d o , p o r t a n t o , aferição ou j u í z o de valor na base de

cânones de outra cultura, c o m o , p o r exemplo, os o r i u n -

d o s da arte greco-latina, dita "clássica", em relação à arte

das civilizações orientais ou das culturas africanas.

É difícil compreender c o m o a civilização-matriz da

nossa cultura ocidental, a civilização grega, pôde m a n t e r

— apesar da trama p o r vezes perversa, f e r o z e torpe da

26
TRADIÇÃO OCIDENTAL

27
ARQUITETURA

sua história c d o s seus m i t o s — tamanha integridade e

serena constância na evolução da sua arte, repetindo d u -

rante mais de q u a t r o c e n t o s anos os m e s m o s temas, ape-

nas cada vez c o m maior apuro. Assim, q u a n d o passou a

c o n s t r u i r os seus t e m p l o s , de preferência de mármore, se

ateve ao esquema das suas primitivas estruturas de m a -

deira, ou seja, ao mais singelo dos partidos a r q u i t e t ô n i c o s

possíveis: planta retangular, telhado de duas águas c o m

f r o n t õ e s n o s t o p o s , colunas e arquitrave, ou viga-mestra.

T u d o sempre na base da c o n t e n ç ã o e da verga reta.

P o r dispor do m e l h o r calcário para peças de p o r t e , o

grego ignorou acintosamente o arco — e esta c o n s t a t a ç ã o

é fundamental.

O helenismo rompeu essa c o n t e n ç ã o secular e pre-

parou t e r r e n o para o p r e d o m í n i o do poder, que passou a

" u s a r " o m i t o , quando a n t e r i o r m e n t e o p o d e r derivava do

m i t o , cabendo e n t ã o , e m t e r m o s c o n s t r u t i v o s , à s e s t r u -

turas concebidas na base de arcos e abóbadas, traduzir a

obsessão romana pelos grandes espaços e pelo m o n u m e n -

tal. C o m o , p o r é m , a inspiração cultural — o m o d e l o —

28
TRADIÇÃO OCIDENTAL

ainda provinha da G r é c i a , passaram os a r q u i t e t o s locais,

c o m o Vitrúvio, a usar os e l e m e n t o s c o n s t r u t i v o s gregos,

ou sejam, as suas ordens arquitetônicas — dórica, jônica,

c o r í n t í a — que eram a expressão viva de intenções bem

definidas, tais c o m o as de força, de graça, de riqueza, às

quais os próprios romanos acrescentaram as ordens

" t o s c a n a " , de sentido utilitário, e " c o m p ó s i t a " , para sa-

tisfazer o seu g o s t o pela opulência — já não apenas c o m

a sua função estrutural específica de suporte, mas c o m o

e l e m e n t o s complementares de c o m p o s i ç ã o arquitetônica

entrosados n u m sistema c o n s t r u t i v o de outra natureza.

Revestiram assim a nudez sadia d o s seus m o n u m e n t o s

c o m uma c r o s t a erudita de colunas e platibandas de már-

more e travertino — vestígios de um processo de edificar

o p o s t o . E f o r a m precisamente os gregos em B i z â n c i o —

S a n t a S o f i a — que aproveitaram, t i r a n d o - l h e t o d o o par-

t i d o da extraordinária beleza — a nova técnica.

O d e s m a n t e l o do I m p é r i o levou os s a c r o s s a n t o s

dogmas acadêmicos de roldão e foram então surgindo, aos

p o u c o s , as estruturas de grossas paredes c o m c o n t r a f o r -

29
ARQUITETURA

tes para resistir ao e m p u x o dos arcos e abóbadas, numa

arquitetura severa e c o n t r i t a , c o m denso c o n t e ú d o espi-

ritual, chamada " r o m â n i c a " , que se f o i definindo e apu-

rando n o s g r a n d e s r e d u t o s m o n á s t i c o s o n d e o f i o da

meada cultural greco-latina se preservou. E isto, até que

novas e sábias experiências construtivas conduziram a um

arcabouço estrutural externo, independente das paredes

de sustentação, e capaz de absorver os e s f o r ç o s laterais

resultantes do alteamento das naves, estilo d i t o ogival ou

" g ó t i c o " , o que t o r n o u possível a impressionante seqüên-

cia das catedrais.

C o m a expedição t u r í s t i c o - m i l i t a r de C a r l o s V I I I à

Itália, seguida pelas de Luís X I I e F r a n c i s c o I, a E u r o p a

— já então saturada d o s malabarismos g ó t i c o s — d e s -

cobriu a clareza racional, as graças do espírito novo e o

h u m a n i s m o erudito da Renascença, o c o r r e n d o assim um

renovado entusiasmo que, c o m a expansibilidade de um gás

e o patrocínio pedante dos cortesãos, penetrou t o d o s os

r e c a n t o s do m u n d o ocidental, inebriando as c o r t e s e a

sociedade culta.

30
TRADIÇÃO OCIDENTAL

C o n q u a n t o o R e n a s c i m e n t o tenha adquirido p e c u -

liaridades diferenciadas n o s vários países europeus, o e m -

prego c o n t i n u a d o do receituário acadêmico f o i , c o m o

correr do t e m p o , cansando e provocando c o n t e s t a ç õ e s ,

pois, c o m e f e i t o , desde que os vários e l e m e n t o s de que se

c o m p õ e cada u m a das o r d e n s gregas — as c o l u n a s , o

e n t a b l a m e n t o , os f r o n t õ e s — perderam as suas caracte-

rísticas funcionais primitivas, i s t o é, deixaram de c o n s t i -

tuir a própria estrutura do e d i f í c i o , nenhuma razão mais

justificava o apego intransigente às f ó r m u l a s c o n v e n c i o -

nais e vazias de sentido então em vigor. Se o f r o n t ã o não

era mais t ã o - s o m e n t e uma empena, a coluna um apoio, a

arquitrave uma viga, mas simples f o r m a s plásticas de que

os a r q u i t e t o s se serviam para dar expressão e caráter às

c o n s t r u ç õ e s — p o r que não encarar de frente a q u e s t ã o e

tratar cada um desses e l e m e n t o s c o m o f o r m a s plásticas

a u t ô n o m a s , criando-se c o m elas relações espaciais d i f e -

rentes e garantindo-se assim novo alento de vida ao velho

f o r m u l á r i o g r e c o - r o m a n o "à bout de forces"?

E aí então — época da C o n t r a - R e f o r m a e de muita

31
ARQUITETURA

c o n s t r u ç ã o — que surge o chamado " b a r r o c o " , que não

f o i uma arte bastarda, c o m o se pretendeu, mas uma nova

c o n c e p ç ã o espacial e plástica, liberta dos p r e c o n c e i t o s an-

teriores e que, apesar de aparente irracionalidade, baseou-

se numa formulação perfeitamente racional.

É neste ciclo que a nossa arte c o l o n i a l se insere.

32
TRADIÇÃO LOCAL

"Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpre-


sa, a gente como que se encontra, fica contente, feli^ e se lem-
bra de coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube,
mas que estavam lá dentro de nós."

092-9)

A arquitetura regional autêntica t e m as suas raízes

na terra; é p r o d u t o espontâneo das necessidades e conve-

niências da e c o n o m i a e do m e i o físico e social e se desen-

volve, c o m tecnologia a um t e m p o incipiente e apurada, à

feição da índole e do engenho de cada povo; ao passo que

aqui a arquitetura veio já p r o n t a e, e m b o r a beneficiada

pela experiência anterior africana e oriental do c o l o n i z a -

dor, teve de ser adaptada c o m o roupa feita, ou de m e i a -

c o n f e c ç ã o , ao c o r p o da nova terra.

À vista desta constatação fundamental, i m p o r t a p o i s

conhecer, antes de mais nada, a arquitetura regional p o r -

33
ARQUITETURA

tuguesa no p r ó p r i o b e r ç o , porque é na c o n s t r u ç ã o p o p u -

lar de aspecto viril e m e i o rude, mas acolhedor, das suas

aldeias que as qualidades da raça se m o s t r a m melhor, per-

c e b e n d o - s e , desde l o g o , no a c e r t o das p r o p o r ç õ e s e na

ausência de a r t i f í c i o s , uma saúde plástica perfeita, se é

q u e se pode dizer assim.

Constata-se, de saída, nessa volta às origens, acentuada

diferença entre a arquitetura do norte e a do sul. Da Beira

Baixa, ou cintura do país, para cima prevalece o contraste da

pedra c o m a caiação, c o m o no Entre D o u r o e M i n h o , senão

mesmo o emprego exclusivo do granito em grandes blocos

toscos ou aparelhados c o m o ocorre na Beira Alta e em Trás-

o s - M o n t e s ; o ponto, ou seja, a inclinação dos telhados de

tacaniça — quatro águas —, é geralmente amortecido graças

ao recurso do chamado "contrafeito", que é pequeno caibro

complementar destinado precisamente a adoçar o p o n t o e a

dar maior graça ao telhado na aproximação dos beirais.

Na Estremadura, Lisboa e Ericeira, por exemplo, essa

graciosa concavidade das coberturas, tipicamente portugue-

sa — possivelmente por simbiose oriental, pois não existe

em nenhum outro país mediterrâneo —, se acentua, já então

34
TRADIÇÃO LOCAL

35
ARQUITETURA

associada ao predomínio da caiação; mas no Alentejo, onde

as construções são de taipa ou tijolo e domina inconteste

uma impecável brancura, os telhados são de uma só água,

desempenados e retos, e avultam as grandes chaminés retan-

gulares, com arranque oblíquo na prumada das fachadas s o -

bre a rua por onde se acede à intimidade dos pequenos pátios

murados; finalmente no Algarve — extremo sul — surgem

os terraços ou soteias, e as chaminés circulares c o m os seus

caprichosos coroamentos amouriscados.

Era de onde eles vinham, para a grande aventura in-

c o n s c i e n t e de c o m e ç a r a fazer um novo país.

Cada mestre, oficial ou a p r e n d i z — p e d r e i r o , taipeiro,

carpinteiro, alvanéu — trazia c o n s i g o a lembrança da sua

província e a experiência do seu o f í c i o , daí a simultânea

adoção, l o g o de início, das diferenciadas feições a r q u i -

t e t ô n i c a s próprias de cada m o d o de c o n s t r u i r : a taipa de

pilão, a taipa de sebe, ou de m ã o — pau-a-pique —, o

adobe, a alvenaria de t i j o l o , a pedra e cal.

S e m embargo dessa variada aplicação de p r o c e s s o s

c o n s t r u t i v o s n o s dois primeiros séculos, c o m o t e m p o e

as circunstâncias locais a preferência p o r uma determina-

36
TRADIÇÃO LOCAI

da técnica se f o i definindo; a taipa de pilão, e n c o n t r a n d o

terreno propício, fixou-se principalmente em S ã o Paulo;

a alvenaria de t i j o l o floresceu mais em Pernambuco e na

Bahia; nas terras acidentadas de M i n a s , o n d e os c a m i n h o s

acompanhavam as cumeadas, c o m as casas despencando

pelas e n c o s t a s , o pau-a-pique sobre baldrames de pedra

f o i a solução natural; já no R i o de Janeiro, a fartura de

g r a n i t o m a r c o u a perspectiva urbana c o m a seqüência

r i t m a d a das o m b r e i r a s e vergas de pedra — s u p o r t e e

arquitrave — , p r i n c í p i o c o n s t r u t i v o d a G r é c i a antiga,

Se o negro, mais dócil e servil na sua condição de escra-

vo, pôde colaborar c o m o colono, inclusive no aprendizado

dos ofícios, já o índio, habituado a um estilo de vida diferen-

te, que lhe permitia vagares na confecção limpa e cuidada de

armas, utensílios e enfeites, estranhou, c o m certeza, a gros-

seira maneira de fazer dos brancos apressados e impacientes,

A identificação c o m o indígena restringiu-se ao " p r o -

grama" dos abrigos iniciais à guisa de casas — grandes e s -

paços cobertos nas feteorias ou ranchos, c o m o nos " m o n t e s "

do Alentejo — onde acolher as levas de c o l o n o s trazidos

pelas frotas. Por seu tamanho, esses telhadões pouco afasta-

37
ARQUITETURA

dos do chão, c o m o nos próprios engenhos, rompiam c o m

a tradição metropolitana — que consistia em d e c o m p o r a

cobertura das edificações de maior porte em telhados m e -

nores — , aproximando assim tais estruturas, p o r sua p u -

reza f o r m a l e p r o p o r ç õ e s , das o c a s m o n u m e n t a i s d o s

nativos, tanto mais que eram implantadas em clareiras, c o m o

o terreiro das malocas, uma vez que o inimigo — bicho ou

índio — vinha da mata. É que houve uma curiosa c o i n c i -

dência gerada pela presença do f o c o de calor, o f o g o — o

foyer. O transmontano e o indígena procediam de m o d o se-

melhante para manter a casa toda aquecida c o m o aprovei-

t a m e n t o do próprio f o g o da cozinha e da defumadura,

deixando simplesmente a fumaça escapar pela telha-vã ou

p o r e n g e n h o s o dispositivo na cumeeira das ocas. D a í a

paradoxal contradição observada em Portugal da ausência

de chaminés nas áreas frias do norte e a presença ostensiva

delas no sul, onde o calor concentra-se apenas na lareira

para que não se espraie pelo resto da casa.

De f a t o , ao entrar no país certa vez p o r Bragança d i -

visei do a l t o da serra ao crepúsculo, no f u n d o do vale, os

telhados do casario a fumegar, associando e n t ã o a tal c o s -

38
TRADIÇÃO LOCAL

tu me a ausência de puxados ou cozinhas n o s exemplares

mais puros das casas s e i s c e n t i s t a s preservadas em S ã o

Paulo, cuja planta retangular e simétrica dispõe de um

salão central de chão de terra batida e telha-vã e de duas

varandas e m b u t i d a s no c o r p o da casa c o m o as loggias

paladianas; a dos fundos, caseira e de serviço, a da f r e n t e ,

social e de receber, tendo n u m extremo a capela e no o u -

t r o uma camarinha, sem acesso ao c o r p o da casa, para

p o u s o eventual de viajantes. No a l t o salão ficava a c o m -

prida mesa de pranchões c o m seus bancos; é aí, nesse gran-

RANCHO OE FEITOR IA

MONTfc ALeNTEJAftO

39
ARQUITETURA

de bali medieval, c o m f o g o sempre aceso no inverno, que

armavam as t r e m p e s e assavam a rês ou a caça do dia.

É interessante assinalar que esse esquema f o i o e m -

brião da casa rural brasileira. E não só a rural c o m o t a m -

b é m a de arrabalde, até fins do s é c u l o X I X — apenas

acrescida do puxado de serviço; sala de j a n t a r aos f u n d o s

dando para a varanda doméstica e o quintal, e sala da frente

c o m varanda ou terraço de receber; as duas articuladas p o r

e x t e n s o corredor, c o m q u a r t o s de u m a banda e de outra,

o que garantia, no verão, boa tiragem. Assim, pois, de c e r t o

m o d o , t u d o se e n t r o s a — a oca indígena, a casa t r a n s -

m o n t a n a , a casa chamada do bandeirante, a casa de f a z e n -

da, a casa de arrabalde, a casa urbana de bairro.

Há certa tendência a considerar " i m i t a ç õ e s " de obras

reinóis as obras e peças realizadas na colônia. Na verdade,

porém, são obras tão legítimas quanto as de lá, p o r q u a n t o

0 colono, par âroit de eonquête, estava em casa, e o que fazia de


1

semelhante ou já diferenciado era o que lhe apetecia fazer

— assim c o m o ao falar português não estava a imitar nin-

guém, senão a falar, c o m sotaque ou não, a própria língua.

1
Por direito de conquista.

40
ANOTAÇÕES AO CORRER DA LEMBRANÇA

I — Tanto a taipa de p i l ã o — b a r r o socado entre taipais

de madeira — quanto a de sebe, ou pau-a-pique — trama

de madeira barreada a m ã o — e x i g e m proteção contra a cor-

tina de água despejada dos telhados, daí a necessidade dos

grandes beirais que não visavam primordialmente defender

do sol, mas da chuva, tanto assim que nos países onde o sol

também é muito mas a chuva escassa, eles, quando existem,

se reduzem muitas vezes ao simples saque da telha. E c o m o

a parede espessa de barro requer duplojrecfca/ — barrote que

recebe o madeiramento do telhado — um em cada face, re-

sultou não somente que os caibros apoiados neles para su-

porte do beirai, chamados "cachorros", ficaram de nível, c o m o

também que o maior comprimento do " c o n t r a f e i t o " trans-

feriu a quebra do telhado, e seu conseqüente galbo, mais para

cima, de m o d o que, mesmo a distância, pode-se identificar a

estrutura da casa c o m o de taipa de pilão.

41
ARQUITETURA

Já no pau-a-pique o cachorro t e m ligeira inclinação

porque é apenas travado, internamente, p o r um pau roli-

ço i n t e r p o s t o entre ele e o caibro, aos quais vem se a j u s -

tar a cornija sanqueada que delimita o e n c o n t r o do f o r r o

do c ô m o d o c o m a parede. O arcabouço é t o d o de madeira

e independe dessas paredes que são m e r o e n c h i m e n t o

c o m o ocorre hoje c o m o concreto armado, e a casa se apoia

n o s p r ó p r i o s esteios, o u p i l o t i s .

E s t e processo construtivo foi intensivamente empre-

gado em grande parte do estado do R i o e em Minas, t a n t o

c o m esmerado apuro em casas de fazenda e urbanas —

Diamantina, p o r exemplo, é toda de pau-a-pique —, c o m o

na sua forma mais rudimentar, na casa do pobre. Ainda agora

é só andar pelo interior que elas logo surgem ao l o n g o das

estradas. Feitas c o m pau do m a t o p r ó x i m o e da terra do

chão, mal barreadas, c o m o casas de bicho, dão abrigo a toda

a família — crianças de colo, garotos, meninas, os velhos,

42
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

tudo de mistura e c o m aquele ar doente e parado, esperan-

do... E ninguém liga de tão habituado que está, pois aquilo

faz parte da terra c o m o formigueiro, fígueira-brava e pé de

m i l h o — é o chão que continua.

2 — As construções integralmente de alvenaria de t i -

.jolo, ensejando arcos, c o m o a casa-grande de Megajipe, em

Pernambuco — criminosamente destruída —, e abóbadas,

c o m o na parte quinhentista da chamada Casa da Torre de

Garcia d'Ávila, em Tatuapé, na Bahia, seriam, ao que parece,

menos freqüentes. O mais c o m u m era fazer-se apenas a fa-

chada de alvenaria maciça; no corpo da casa a carga concen-

trava-se em robustos pilares, c o m as paredes montadas sobre

o próprio barroteamento. As telhas do beirai assentavam

sobre cornijas "ameaçadas" c o m t i j o l o e revestidas c o m

perftlatura de massa corrida, ou sobre fiadas da mesma telha

altemadamente acavaladas à m o u r í s c a — b e i r a , sobeira e bica.

Q u a n t o ao adobe, ou tijolo cozido ao sol, c o n q u a n t o

mais usado em M a t o G r o s s o e Goiás, t a m b é m foi c o m u m

em outras áreas c o m o o comprova o grande sobrado dos

Ta na jura, na Bahia, c o m capela interna, janelas rasgadas, ou

43
ARQUITETURA

seja, c o m g u a r d a - c o r p o de madeira entalado no vão, e

pranchões, ou padieiras, à guisa de verga chanfrada para cima

e que se diz "capialçada", c o m o na taipa de pilão.

A parte monumental, seiscentista, das ruínas da referi-

da Casa da Torre, próxima da praia, pouco acima de Salva-

dor, mostra c o m clareza a técnica construtiva da alvenaria de

pedra e cal e cantaria. Além da seqüência de arcos no rés-do-

chão e dos enquadramentos dos vãos c o m os respectivos

assentos laterais, ou conversadeiras, lá estão, nos dois anda-

res do corpo central destelhado, os renques de consolos —

ou cães de p e d r a — e n g a s t a d o s nas paredes ao nível de cada

piso, p r o n t o s para receber as madres que sustentavam os

barrotes onde se apoiaria o tabuado do pavimento. Tudo

preparado para os pedreiros e canteiros cederem a vez aos

mestres-carp inteiros e seus oficiais, cada qual cuidando exem-

plar e limpamente, no devido tempo, da sua tarefa.

3 — E expressivo o contraste, que ainda perdura, assi-

nalado nas preciosas pranchas da Viagem Filosófica de Alexan-

dre Rodrigues Ferreira, entre o leve casario de duas águas

c o m empenas vazadas e vedação arejada de folhas trançadas

44
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

de palmeira — vedação que respira —, sobre palafitas à

margem dos rios, e o pesado casario de cunhais em bossagem,

cornijas, faixas, cordões de estuque e elegantes sacadas de

ferro com desenhos à francesa, da escola acadêmica de Landi,

o bolonhês. Portadas e calçadas de pedra de lioz, trazidas como

lastro, são comuns em todo o litoral, mas não tanto quanto

em Belém do Pará por estar mais ao alcance da metrópole. A

identificação desse belo calcário marmóreo c o m o pedra de lioz_

resultou da expressão "pierre de liais" usada pelos escultores

franceses que, c o m o Chanterenne, tanto f i z e r a m pelo apuro

da arte quinhentista portuguesa, para designar o calcário duro

e compacto, porém macio ao corte a que estavam afeitos no

seu país, e c o m o na época o fonema " a i s " ainda se escrevia

"oys", a leitura das especificações pelos portugueses consa-

grou a pedra c o m o lioz.

4 — C o n q u a n t o o casario de S ã o Luís seja mais c o -

nhecido pela azulejaria oítocentista que lhe reveste as facha-

das, o fundo menosprezado das casas, revelado ao antigo

SPHAN 2
pela documentação fotográfica trazida por um

2
S P H A N — Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — hoje. I P H A N .

45
ARQUITETURA

estudante francês das Beaux Arts, chamado Kiss, que foi até

lá de caminhão pedindo carona — embora já em grande par-

te desmantelado —, tem para o arquiteto de hoje grande valor,

é uma lição. Contrastando c o m o denso paramento das fa-

chadas sobre a rua, regularmente cortadas pela seqüência de

vãos, e rematadas por elegantes beirais, elas se abrem, rasga-

das de fora a fora, apoiadas em pilares no quintal, ou em

balanço, formando um avarandado — trama contínua de

venezianas, treliças ou caixilharia — protegido por enormes

46
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

beirais e sobreposto à estrutura maciça da casa. E para aí que

convergem, na forma usual, a sala de jantar, o serviço e a par-

te comunitária mais íntima da vida caseira.

O u t r a particularidade exclusiva do M a r a n h ã o é a

superposição da concavidade de duas telhas a fim de au-

m e n t a r o balanço da chamada bica do beirai, e n g e n h o s o

artifício que em Portugal t a m b é m só ocorre numa região

— a de S e t ú b a l .

5 — F o i o engenheiro francês Vauthier, desencavado

p o r G i l b e r t o Freyre que, descrevendo os estreitos e altos

47
ARQUITETURA

sobrados do R e c i f e — de íngremes telhados retos, c u j o

e n c a i b r a m e n t o era simplesmente apoiado em possantes

terças entaladas entre o s o i t õ e s — , revelou o c u r i o s o c o s -

t u m e de localizar a sala de jantar no ú l t i m o p i s o da casa,

j u n t a m e n t e c o m o serviço que t a m b é m ocupava o s ó t ã o ,

onde moravam as mucamas, ficando os escravos e casais

n o s baixos da edificação ou na senzala, n o s f u n d o s do

quintal, j u n t a m e n t e c o m a cocheira. Havia passagem de

serviço acessível pela entrada, c o n q u a n t o fosse vedado

c o m porta vazada o acesso aos andares pela escada d i s -

posta c o m o devido recuo e atravessada em relação ao l o t e

para dar lugar à loja e às salas de cima, de f r e n t e para a

rua. N ã o havendo c o m é r c i o , formava-se o saguão c o m pa-

tamar de convite para o lanço de altos degraus resguarda-

d o s p o r treliça ou r e c o r t e s de madeira, senão de t o d o

escondidos; nesse saguão ficava eventualmente a cadeiri-

nha, t u d o na f o r m a usual, c o m o em M i n a s , no R i o e alhu-

r e s . A s s i m , o e s c r i t ó r i o , as salas de r e c e b e r e o u t r o s

a p o s e n t o s ocupavam o primeiro andar, e os demais quar-

t o s e alcovas o piso intermediário. C o n s t r u ç õ e s geralmente

48
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

feitas c o m alvenaria de tijolo. O maior apego p o r esse m a -

terial fabricado em vários tamanhos e sempre da melhor

qualidade, embora o seu emprego fosse c o m u m em P o r t u -

gal, m o r m e n t e no sul, deveu-se, sem dúvida, ao prolonga-

do convívio c o m o "flamengo", c o m o então se dizia.

O u t r a característica desses sobrados de Recife e Olinda

são os robustos consolos de pedra para apoio do piso de

tábuas das sacadas c o m painéis de almofadas e treliça onde

assentavam as caixas dos muxarabies, ou muxarabis, e, vez p o r

outra, os pontaletes de sustentação de uma coberta alpen-

drada, havendo então encaixes, rente à parede e também de

pedra, d i s p o s t o s lateralmente na altura das vergas, para

receber o devido frechal. Ao contrário do que ocorre em

Pernambuco, na Paraíba o piso da sacada é sempre de pe-

dra c o m perfllatura n o s bordos, o que confere ao c o n j u n t o

aparência diferente, mais pesada.

Essas caixas sacadas ou rasas, i s t o é, s i m p l e s m e n t e

s o b r e p o s t a s a o e n q u a d r a m e n t o d o s vãos, d e t r a d i ç ã o

m u ç u l m a n a , que p e r m i t e m resguardo sem p r e j u í z o da

ventilação, foram usadas em toda a colônia, sobretudo nas

49
ARQUITETURA

ruelas estreitas o n d e os c ô m o d o s se devassavam. F o t o -

grafias d e 1 8 6 0 m o s t r a m que eram c o m u n s e m S ã o P a u -

l o , j u n t a m e n t e c o m os grandes beirais de nível e forrados.

C o m a vinda da c o r t e , esse c o s t u m e que c o n f e r i a à

cidade c e r t o ar oriental c h o c o u os fidalgos e elas f o r a m

o b r i g a t o r i a m e n t e arrancadas e substituídas p o r venezia-

nas e vidraças de guilhotina ou de abrir "à francesa", sur-

g i n d o então, no R i o , principalmente, as graciosas sacadas

de ferro dispondo nos cantos de barras verticais espiraladast

para pendurar luminárias. Assim, essas reixas de madeira

f o r a m s u m i n d o , e dos s i m p á t i c o s muxarabis avulsos de

encaixar nas sacadas sobrou apenas um, em t o d o o país

— o de D i a m a n t i n a .

6 — A cidade de Salvador do século X V I I e p r i m e i -

ra metade de s e t e c e n t o s , quando ainda sede do G o v e r n o

Geral, era uma cidade marcadamente aristocrática, de uma

aristocracia a um t e m p o rural e urbana, de s e n h o r e s e

escravos; e a arquitetura de suas grandes casas, de p o r t e

severo e nobre, onde avultam belas portadas e l e n ç o s de

50
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

pedra, quer dizer, peitoris inteiriços de cantaria, não teve

paralelo no país, salvo a i m p o n e n t e casa chamada " d o s

C o n t o s " , em O u r o P r e t o , c o m o seu senhorial saguão t i -

picamente português.

E s t e caráter p r ó p r i o e inconfundível, e m b o r a ainda

acentuadamente lusitano, foi aos poucos se diluindo,

minado p o r uma crescente burguesia m e n o s c o m p r o m e -

tida c o m os antigos dogmas e valores, e pela miscigena-

ção. Assim, passo a passo, aquela solidez, aquela carrure

foi se perdendo e a graça e o dengue c r i o u l o se f o r a m in-

sinuando na feição arquitetônica das casas, não s o m e n t e

em Salvador, c o m o em Cachoeira, principalmente: os vãos

se alteiam e os seus enquadramentos enfeitados são d e -

cepados no e n c o n t r o das tábuas extravasadas d o s p e i t o -

ris, c o m simples palmetas de remate, característica esta

exclusivamente baiana que plasticamente os enfraquece;

os c o r d õ e s das caixilharias se entrecruzam em c a p r i c h o -

sos e alegres arranjos e a c o r intervém.

T u d o i s t o c o n t r i b u i para dar à cidade a sua graça, e

c o n q u a n t o a presença sóbria e aristocrática da casa, de

51
ARQUITETURA

c o m e ç o de setecentos, que sobreviveu c o m as suas saca-

das de ferro batido, sua rica portada e seteiras, possa pa-

recer, à primeira vista, m e i o contrafeita, é precisamente

esse variado e c o n s e n t i d o convívio — esta simultaneida-

de — que atrai e seduz e faz da Bahia o que ela é.

7 — Na região do R i o de Janeiro floresceu — o ter-

mo é bem este — uma arquitetura rural alpendrada c o m

colunas toscanas à moda do M i n h o , mas t u d o caiado de

branco à maneira da Estremadura, de que a casa de fazen-

da do Colubandê c o m a sua importante capela anexa, cuja

imagem de Sant'Anna consta do Santuário Mariano, é,

sem favor, o mais gracioso e puro exemplar. D e b r e t dedi-

ca a prancha 42 do seu precioso d o c u m e n t á r i o a esse e s -

tilo de casa típico da região, c o n f r o n t a n d o a sua planta

c o m o esquema da casa romana — operistilo, o impluviutn. o

tricltntOy ou sala de jantar, aos fundos, c o m o f i c o u na n o s -

sa tradição. E x i s t e algo semelhante em outras áreas do

país, mas não c o m o m e s m o apuro e constância, e geral-

m e n t e são casas c o m o avarandado t o d o à volta, c o m o no

52
ANOTAÇÕES AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

Ceará, p o r exemplo, e de c o n s t r u ç ã o mais simples: f u s t e s

cilíndricos praticamente sem base n e m capitei, e encai-

b r a m e n t o apertado, de pau rolíço, j u s t o o necessário para

receber de cada vez uma fiada apenas de telha-vã.

No c a m i n h o da serra, as a n t i g a s e b e l a s f a z e n d a s

da S a m a m b a i a , do Padre C o r r e i a e de S a n t o A n t ô n i o

j á t ê m o s s u p o r t e s das varandas d e m a d e i r a , d e s e ç ã o

quadrada, c o m o b i s e l nas arestas l i m i t a d o à p a r t e c o r -

r e s p o n d e n t e ao f u s t e , ainda c o n f o r m e a velha t r a d i ç ã o

medieval; e em M i n a s , e n t ã o , prevalece d e f i n i t i v a , t a n -

t o nas p e q u e n a s c o m o nas g r a n d e s f a z e n d a s , u m a a p u -

rada t é c n i c a de p a u - a - p i q u e , c o m a p a r t i c u l a r i d a d e d e ,

m a n t i d a s a s tacaniças n o s t o p o s d o t e l h a d o , d e s c e r c o m

as águas m a i o r e s a fim de c o b r i r o l a n ç o das varandas

à f r e n t e e a o s f u n d o s , o n d e e s t ã o as escadas de a c e s s o .

M e s m o p e r t o de Brasília ainda existe a robusta c o n s -

t r u ç ã o da casa c o m e n g e n h o q u e f o i de J o a q u i m Alves de

Oliveira — h o j e conhecida c o m o Babilônia — , louvada

p o r S a i n t - H i l a i r e pela sua exemplar organização, e, até

m e s m o para os lados da Chapada dos Guimarães, em M a t o

53
ARQUITETURA

G r o s s o , a rústica fazenda do A b r i l o n g o t a m b é m c o m e n -

g e n h o i n c o r p o r a d o à casa.

C u r i o s o é que e m b o r a a i m p o r t a n t e fazenda de Pau-

d'Alho, no vale do Paraíba, ainda o s t e n t e a sua varanda

recuperada p o r L u i z Saia, em toda a área p a u l i s t o - f l u m i -

nense no chamado c i c l o do café, os ca saro es rurais passa-

r a m a i g n o r a r a t r a d i ç ã o das varandas, p r e f e r i n d o os

renques c o n t í n u o s de janelas, apenas i n t e r r o m p i d o s pelo

pequeno terraço central de acesso e pela escada de pedra,

c o m guarda-corpo de ferro se abrindo em leque.

Conquanto nas grandes fazendas a implantação das casas

c o m os seus engenhos, terreiros, oficinas e senzalas variasse

m u i t o — e sobraram exemplares de alto significado arquite-

t ô n i c o c o m o , além da referida Pau-d'Alho e da opulenta fa-

zenda do Resgate, a do R i o de S ã o João, a do Manso e a de

Boa Esperança, em Minas, a do P o ç o Comprido, em Per-

nambuco, os dois chamados sítios de S a n t o Antônio e do

Padre Inácio em São Paulo, e tantas m a i s — , o seu arcabouço

estrutural, mormente n o s casos de construções de pau-a-

pique ou de pilares autônomos de alvenaria, obedecia ao es-

54
ANOTAÇÕES AO CORRER DA LEMBRANÇA

quema de crescimento retangular em t o r n o de um niicleo

central, servindo os esteios intermediários de apoio ao a m -

plo telhado, independentemente do emprego da clássica t e -

soura então ainda desconhecida dos colonos, uma vez que o

seu uso processou-se lentamente depois de estreada na igre-

ja jesuíta de S ã o R o q u e , em Lisboa.

O u t r a característica marcante da arquitetura rural é

a c o n s t a n t e presença da capela, seja incorporada à casa,

c o m vão de treliça para peça contígua, a f i m de a família

p o d e r assistir à missa na intimidade, e n q u a n t o os " o u -

t r o s " , inclusive os escravos, dispunham da varanda, c o m o

nave, ou e n t ã o desgarrada, algumas de grande p o r t e , o u -

tras c o m r i q u í s s i m a talha, c o m o a d o E n g e n h o B o n i t o ,

em P e r n a m b u c o , a casa se f o i , a capela f i c o u .

8 — O revestimento d e azulejos nas fachadas das casas,

característica do século X I X , ocorreu em toda a faixa l i t o -

rânea — em M i n a s não há exemplo — de Belém e de S ã o

Luís, onde foi mais freqüente, a Porto Alegre, onde foi mais

elaborado, c o m azulejos especiais para pilastras e capiteis.

55
ARQUITETURA

N o R i o d e Janeiro foram c o m u n í s s i m o s j u n t a m e n t e c o m

vasos e estatuetas no c o r o a m e n t o das platibandas e telhões

esmaltados, de fundo azul ou branco, nos beirais. C o n q u a n -

to procedentes na sua maioria da fábrica de S a n t o A n t ô -

nio, no Porto, lá são raríssimos, isto porque a cidade já estava

pronta — vinha tudo para cá.

É, aliás, interessante assinalar o importante papel dessa

cerâmica no processo de assimilação do neoclássico no país.

Imposto pela missão francesa, embora prenunciado p o r ar-

quitetos reinóis — um deles, consultado à vista do risco da

"obra já feita até a empena", sobre o m o d o c o m o rematá-la

— risco bisonho mas gracioso da igreja do Carmo de S ã o

João dei Rei, conservado n o Museu d e O u r o Preto — , foi

taxativo: só demolindo tudo para refazer de acordo c o m as

regras. E que o despojamento e a contida sobriedade do novo

estilo haviam violentado, de certo modo, os laivos remanes-

centes do gosto rococó do período anterior. Assim, o brilho

e a c o r do revestimento azulejado dos panos nus de parede,

das platibandas e frontões das eruditas e severas fachadas

neoclássicas contribuíram para amenizar-lhes o impacto do


A N O T A Ç Õ E S AO CORRER DA LEMBRANÇA

confronto c o m os telhões de louça dos beirais renascidos e

para integrá-los tanto na paisagem urbana quanto na dos

arrabaldes, onde passaram a conviver muito bem c o m as man-

gueiras, a jaqueira e o pé de fruta-pão.

9 — Sacadas sobre bacias de pedra nas c o n s t r u ç õ e s

de alvenaria, ou sobre barrotes em balanço nas de pau-a-

pique, b e m c o m o balcões corridos, f o r a m c o m u n s , p r i -

meiramente protegidos p o r f o r t e guarda-corpo de ferro

f o r j a d o , c o m a característica portuguesa de dispor uma

barra h o r i z o n t a l a um t e r ç o da altura da sacada, levando-

se apenas as peças verticais extremas e uma ou duas in-

termediárias até a barra de p e i t o . Essa disposição peculiar

se repete nas sacadas c o m balaústres de madeira torneada,

solução corrente e m O u r o P r e t o , p o r exemplo. Sacadas,

c o m o a de Sabará, c o m elegantes balaústres de perfil si-

m é t r i c o de g o s t o ainda renascentista, de uso tão genera-

l i z a d o n o n o r t e d e P o r t u g a l , são raras a q u i . E m S ã o

Cristóvão, antiga capital de Sergipe, rica em obras de arte,

há dois exemplos valiosos, um de sacadas isoladas c o m

57
ARQUITETURA

robusta e b e m desenhada perfilatura, o u t r o c o m balcão

c o r r i d o , de madeira entalhada e risco apuradíssimo. As

reixas graúdas de madeira e os c a p r i c h o s o s recortes, e n -

talados n o s vãos, são t a m b é m c o m u n s . D u r a n t e o I m p é -

rio multiplicaram-se as sacadas de barras finas de f e r r o

de elaborado e repetido d e s e n h o , até que as grades de

f e r r o f u n d i d o , iniciadas p e l o s a r t í f i c e s d a M i s s ã o L e -

b r e t o n , c o m moldes clássicos, passaram a prevalecer mas

já então c o m densos m o d e l o s de estilo indefinido.

10 — N a s casas mais antigas, presumivelmente nas

dos fins do século X V I e durante t o d o o século seguinte,

predominavam os cheios na relação dos vãos c o m as pare-

des; à medida, porém, que a vida se tornava mais fácil e

policiada, o número de janelas ia aumentando; já no século

X V I I I , cheios e vazios se equilibram, e no c o m e ç o do sécu-

l o X I X , predominam francamente o s vãos; d e 1 8 5 0 e m

diante as ombreiras quase se tocam, até que a fachada, no

final do século, se apresenta praticamente toda aberta, ten-

d o o s vãos m u i t a s vezes o m b r e i r a c o m u m . C o n t u d o ,

58
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

caixilharia inteira, de fora a fora e de a l t o a baixo, c o m o

ocorre na bela frontaria tão atual da Misericórdia de Parati,

é coisa rara. Cronologicamente, a proporção d o s vãos t e n -

de a se altear, as vergas mantêm-se retas até meados de se-

t e c e n t o s , quando passam a ser arqueadas e acrescidas de

cornija. N o c o m e ç o d o século X I X , j á p o r influência d o

neoclassicismo, voltam a ser retas c o m enquadramento l i -

geiramente mais leve, e surgem os vãos de volta redonda,

ou seja, de meio círculo. É então que as bandeiras ou a parte

superior dos caixilhos passam a se enfeitar c o m elegantes e

caprichosos desenhos, o que confere à arquitetura do S e -

gundo Reinado um encanto m u i t o especial.

No Mapa Arquitetural do Rio de Janeiro dessa época, ela-

borado p o r J o ã o da R o c h a Fragoso, o c e n t r o da cidade de

repente ressurge, figurado de corpo inteiro c o m as suas

fachadas perfiladas o m b r o a o m b r o , casa p o r casa, rua p o r

rua, a n o s revelar a unidade arquitetônica e urbanística que

para sempre se perdeu. D a t a d o de 1&74, sete anos antes

do seu autor perder a razão — em 1 8 8 l f o i "julgado s o -

frer de alienação mental incurável" —, esse precioso d o c u -

59
ARQUITETURA

mentário iconográfico mostra c o m imorredoura precisão

c o m o era então a cidade, dando assim sobrevivência e uma

razão maior, imprevista, à sua própria vida.

II — O aqueduto d o s arcos dominava a paisagem

urbana, levando l e n t a m e n t e no seu d o r s o as águas do rio

C a r i o c a até alcançar o gracioso chafariz barroco fielmen-

te " r e t r a t a d o " , p o r T h o m a s Ender, esse admirável e b e n e -

m é r i t o d o c u m e n t a d o r do R i o de J a n e i r o e das demais

regiões p o r onde andou.

F o i m u i t o desigual o tratamento dado aos chafarizes,

ou bicas, nas cidades coloniais. Se em S ã o Luís, no M a -

ranhão, o seu adro rebaixado serve agora para demonstra-

ç õ e s de B u m b a - m e u - B o i , e em G o i á s Velho o imponente

chafariz da praça triangular em aclive ainda funciona; se no

R i o eles foram vários, alguns arquitetonicamente valiosos,

c o m o o do antigo Largo do Paço, onde à moda portuguesa

o granito se associou ao calcário de lioz, tal c o m o t a m b é m

ocorreu no portão do Passeio Público e na igreja da Santa

C r u z dos Militares, obras onde mestre V i l e n t i m deixou a

60
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

sua marca, em cidades importantes c o m o Salvador, Recife,

Olinda etc. foram de certo m o d o menosprezados, ao c o n -

trário do que sucedeu em Minas Gerais, onde avultam,

principalmente na antiga Vila R i c a , e por sua variedade e

beleza contribuem, juntamente c o m as pontes, para tornar

a cidade mais humana e acolhedora. Desde o da Casa dos

C o n t o s , que impressiona por sua desenvoltura plástica e

robustez, ao pitoresco chafariz do Largo de Marília que,

num pseudo-restauro simplista, chegou a sofrer a sumária

amputação do seu delicado coroamento, apenas porque era

de massa e não de pedra. Mutilação depois c o m p e t e n t e -

mente "reimplantada" pelo antigo Sphan, na base de d o c u -

mentação fotográfica, graças a outro austríaco de nascença,

c o m o Ender, o escultor Max Grossman, h o m e m discreto,

calado e b o m : proibido pelo médico de nadar por ter sofri-

do enfarte, salvou uma moça que, sozinha, se afogava na

praia de Copacabana e, em seguida, morreu.

12 — A i n d a que os grandes senhores de engenho dis-

pusessem, desde o primeiro século, de ricas alfaias vindas

61
ARQUITETURA

da metrópole e do O r i e n t e , c o n f o r m e constatou Cardim,

na maioria das casas o mobiliário era de início sóbrio: além

de pequeno oratório c o m o santo de confiança, camas, ca-

deiras, bancos, mesas e arcas; arcas e baús ou caixões, c o m o

então se dizia, para ter onde meter a tralha toda, E isto não

só porque as modas da corte chegavam aqui c o m m u i t o

atraso e se infiltravam pela vastidão do território da c o l ô -

nia ainda com maior lentidão, mas também porque não havia

nenhum interesse particular que estimulasse e justificasse

a adoção apressada de formas novas em substituição de o u -

tras já consagradas, quando a maneira de viver e t o d o o

quadro social continuavam não somente inalterados, mas

sem perspectivas próximas de alteração. E tanto mais que

o clima, geralmente quente, o uso das redes e o costume

nativo e oriental de sentar sobre esteira — ou tapete — no

chão não estimulavam o aconchego dos interiores, nem os

arranjos supérfluos ou de aparato.

Contudo, as peças em si eram trabalhadas com gosto e

o devido apuro, não só porque a tradição do ofício era fazê-

las assim, c o m o porque os oficiais e seus ajudantes eram,

62
anotações ao correr da lembrança

muitas vezes, gente da casa, escravos, cujos dotes naturais,

em boa hora revelados, a conveniência do senhor havia sabi-

do aproveitar. Trabalhando sem pressa nem possibilidade de

lucro, o prazer defazer bem-feito era tudo que importava: isto ao

menos era deles — o dono não podia tirar.

C o m o correr do t e m p o os m o d i s m o s importados,

correspondentes às mudanças de g o s t o e de estilo peculia-

res a cada reinado — D. Pedro II, D. J o ã o V D. J o s é , D o n a

Maria — , foram adquirindo feição própria local, diferen-

ciada, o que permite aos entendidos identificá-las c o m o

procedentes de G o i á s , de Minas, da Bahia, do N o r t e ou

do Sul. A esse p r o p ó s i t o é preciso acabar c o m o t o l o c o s -

tume de chamar de "holandesas" mesas tipicamente l u s o -

mineiras, devidas ao afluxo de sangue novo da m e t r ó p o l e

— de Guimarães e de outros t e r m o s — atraído pela gran-

de procura de carpinteiros e marceneiros nas terras de

M i n a s , n o chamado C i c l o d o O u r o .

13 — As casas de câmara e cadeia, da mínima de Pilar

de G o i á s , à mais opulenta da antiga Vila R i c a e à mais

63
arquitetura

bela e genuinamente portuguesa, de Mariana, obedeciam

ao o d i o s o c o s t u m e lusitano de assentar sem rodeios o

p o d e r sobre a cadeia — embaixo, no térreo, c o m vãos

f o r t e m e n t e gradeados e paredes, pisos e f o r r o s reforça-

dos, os presos; em cima, no andar, os senhores c o n s e l h e i -

ros. M a s c o m o toda medalha t e m seu reverso, o sistema

o f e r e c i a c e r t a s vantagens c o m o a c o n t í n u a ciência das

autoridades pelo que ocorresse, e a acessibilidade aos p r e -

sos, através das grades, da família ou de quem passasse:

um bilhete, um d o c e , um olhar — uma flor.

14 — Foram numerosas as fortificações ao longo do

litoral, mas nenhuma do porte espetacular de Macapá, na

f o z do Amazonas, ou impressionante c o m o , no interior, o

F o r t e Príncipe da Beira, na Rondônia, à margem do G u a -

poré, ou, ainda, da pureza formal do S ã o M a r c e l o , na baía

de T o d o s os S a n t o s . Sólidas e bem projetadas estruturas,

baseadas em especificações minuciosas e, no caso do belo

F o r t e dos R e i s M a g o s , manuscritas e m u i t o b e m redigidas

pelo erudito arquiteto Frias de M e s q u i t a , o m e s m o que

64
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA L E M B R A N Ç A

projetou o M o s t e i r o de S ã o B e n t o , no R i o , nunca serviram

para nada, tal qual os dispendiosos armamentos de hoje,

destinados a sucata. A sua finalidade foi meramente sim-

bólica, c o m o selos da presença real de sua majestade.

15 — T a n t o na construção das f o r t i f i c a ç õ e s e d o s

edifícios públicos, c o m o , principalmente, na das igrejas de

irmandades, os projetos, ou riscos c o m o então se dizia, eram

sempre acompanhados de minuciosas e precisas especi-

ficações. Essa expressão risco não deve ser interpretada c o m o

simples " d e s e n h o " , mas c o m o desenho visando ao f e i t i o

ou à elaboração de alguma coisa, correspondendo assim à

expressão inglesa design.

Aprovado o p r o j e t o , era feita c o n c o r r ê n c i a para e s -

colha do mestre do o f í c i o em causa — pedreiro, carpin-

t e i r o , e n t a l h a d o r — p o r e m p r e i t a d a ou a j o r n a l e os

trabalhos eram conduzidos c o m exemplar cuidado e a c o m -

panhados de c o n s t a n t e s louvações para dirimir dúvidas e

conferir medições, sendo os louvados profissionais já c o n -

sagrados, inclusive " p r o f e s s o r e s " , c o m o c o n s t a em alguns

65
ARQUITETURA

d o c u m e n t o s . T u d o levado m u i t o a sério e até m e s m o c o m

exagerado rigor, a p o n t o de — segundo c e r t o s t e s t a m e n -

t o s — m u i t o mestre, depois de uma vida p e n o s a de c o n s -

t a n t e t r a b a l h o , m o r r e r na miséria e endividado.

16 — D e p o i s das improvisadas capelas "de p o u c a

dura", f o r a m construídas, ainda n o s anos de q u i n h e n t o s

e seiscentos, numerosas capelas alpendradas, c o m o era c o -

m u m e m Portugal. Frei Palácios f o i sepultado n o "alpen-

dre da capela", no c o n v e n t o que se iniciava no a l t o da

Penha, no E s p í r i t o S a n t o . C o m p u n h a m - s e de adro, alpen-

dre c o m p o r t a e duas pequenas janelas gradeadas, de p e i -

toríl baixo para que os fiéis, m e s m o de fora, pudessem

divisar o altar separado da nave p o r um arco e, m u i t a s

vezes, c o r o a d o p o r pequena cúpula definidora do espaço

sagrado, c u j o extradorso era c o b e r t o de telhas, e, f i n a l -

mente, da sacristia num c o r p o lateral mais baixo c o m água

própria, sendo o acesso à sineira e ao c o r o p o r escada e x -

terna, eventualmente c o b e r t a . A própria Penha do R i o

c o m e ç o u c o m uma capela desse t i p o .

66
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA L E M B R A N Ç A

A Sé de O l i n d a , c o m o a do Castelo, ainda f o i c o n s -

truída c o m arcos sobre colunas de ordem toscana f o r m a n -

do naves, n o s m o l d e s usuais da m e t r ó p o l e , antes que os

jesuítas inovassem a nave única c o m visão d e s o b s t r u í d a

para o pregador e para o altar, inovação desde l o g o trazida

pelo irmão a r q u i t e t o Francisco D i a s quando, e m 1 5 8 0 ,

p r o j e t o u e c o n s t r u i u a nossa primeira igreja c o m pedigree,

a da G r a ç a , em O l i n d a , martirizada pelo holandês.

Assim, as nossas igrejas, no c o m e ç o , f o r a m simples

e claras, c o m o óculo inicial do frontispício da Graça trans-

ferido para a empena de f r o n t ã o reto, duas janelas no c o r o

e u m a porta só.

C o m o c o r r e r d o t e m p o esse e s q u e m a singelo f o í

sendo alterado: surgiram o s corredores laterais c o m t r i -

bunas no andar e a nave escureceu; a talha alastrou; m u l -

tiplicaram-se as portas e janelas na fachada e a primitiva

unidade se perdeu. Só dois séculos depois, em M i n a s , ele

f o i retomado, no princípio de s e t e c e n t o s , até desabrochar

— claro e m i s t i c a m e n t e alegre de novo — na o b r a - p r i m a

que é a igreja de S ã o F r a n c i s c o de Assis, em O u r o P r e t o .

67
ARQUITETURA

ISSO S.JCVH 1766

17 — No Nordeste, c o m o constatou Ayrton Carva-

lho, as igrejas de pedra e cal, tanto antes c o m o depois da

ocupação, tiveram seu espaço interno compartimentado numa

trama arquitetônica de cantaria — pilastras, arcos, cornijas,

enquadramento de vãos — que contrastava c o m o branco

das paredes caiadas e delimitava as reentrâncias de maior ou

menor profundidade destinadas a receber os altares laterais

e seus retábulos, os primeiros ainda de pedra, c o m o era c o -

mum na fase renascentista — ou, melhor, " m a n e i r i s t a " —

em seguida os de madeira dourada. C o m o tempo, essa talha

extravasou dos limites que lhe eram impostos e passou a

recobrir os próprios elementos arquitetônicos moldurados

que a enclausuravam, constituindo-se assim, essa forração

de alto a baixo, num monumental cofre de madeira esculpi-

68
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA L E M B R A N Ç A

da, encaixado no corpo original de alvenaria de pedra, fican-

do desse m o d o encobertos os pormenores já prontos e aca-

bados da comodulação de cantaria.

O forro era c o m o que a tampa desse c o f r e revestido

de ouro, inicialmente formando painéis enquadrados para

receber pintura, depois c o m tabuado liso contínuo para per-

mitir a livre expansão dos arabescos florais, e, finalmente,

a perspectiva arquitetônica, c o m o se o t e t o t o d o se abrisse

numa explosão de balaustradas, colunas e arcos entremea-

dos de guirlandas floridas, de anjos, de nuvens para a g l o -

rifícação dos santos e de N o s s a Senhora em pleno céu.

Assim, a a m b i e n t a r ã o m í s t i c a e s t r u t u r a l m e n t e o b -

tida nas catedrais g ó t i c a s c o m o s a l t o s feixes d e pilares

q u e se abriam em ogivas nas abóbadas, e c o m o rendi-

l h a d o das rosáceas e d o s t ê n u e s mainéis o n d e resplen-

diam os vitrais, passara c o m a o r d e m nova d o s j e s u í t a s ,

d e p o i s da C o n t r a - R e f o r m a , e graças ao a r t i f í c i o s o e n -

g e n h o de artistas c o m o o padre P o z z o e T i e p o l o , a ser

alcançada através do c o n t a t o d i r e t o c o m a visualização

idealizada da própria a t m o s f e r a c e l e s t e .

69
ARQUITETURA

MliTltlinO GÓTICO MISTICUMO tlAMMXà.

Tal c o m o na Idade Média, quando os escultores trata-

vam c o m igual apuro tanto as ilhargas e os tímpanos das

monumentais portadas, c o m o as figuras perdidas nos mais

altos pináculos, ao alcance visual apenas dos anjos, também

no interior das igrejas barrocas, lado a lado c o m o despo-

jamento pessoal dos religiosos, prevalecia o propósito de que-

rer sempre aplicar o que fosse melhor, mais rico, mais belo,

sem poupar esforços e sacrifícios, num esbanjamento ma-

70
A N O T A Ç Õ E S AO C O R R E R DA LEMBRANÇA

terial, paradoxalmente legítimo, porque em honra e louvação

de uma simples idéia, de uma profunda convicção do espírito.

18 — E n q u a n t o na colônia anglo-saxã do n o r t e , o

p u r i t a n i s m o associado ao p r a g m a t i s m o e à industriosa

busca da felicidade terrena c o n d u z i r a m à prosperidade

coletiva e à riqueza pessoal, nas c o l ô n i a s latinas, afora a

obsedante busca do ouro, da prata e das pedras preciosas,

toda a atividade d o s vários o f í c i o s e energia criativa f o i

principalmente concentrada no fabrico de igrejas e c o n -

ventos — igrejas matrizes, igrejas de irmandades e de ir-

mãos terceiros, m o r m e n t e em M i n a s onde o acesso direto

das ordens religiosas ao o u r o fora vedado pelo rei.

Avultam, de fato, nas cidades coloniais, o perfil das igre-

jas e a massa edificada dos mosteiros e conventos. Assim,

por exemplo, em Salvador, o colégio e a solene igreja dos j e -

suítas, c o m a sua imponente sacristia que, c o m o a da rica e

bela igreja do Carmo de Cachoeira, não tem nada que se lhes

compare; a opulenta igreja do monumental convento fran-

ciscano, c o m o seu belíssimo claustro azulejado, o que tam-

bém caracteriza, embora em menores proporções, mas c o m a

71
ARQUITETURA

mesma graça, os numerosos conventos da ordem no N o r -

deste, cujas igrejas apresentam em c o m u m a particularidade

de ter as fachadas escalonadas, c o m o coro montado sobre a

parte central de um pórtico de cinco arcos, e uma só torre,

recuada, bem c o m o a de dispor de adro e cruzeiro, além das

preciosas capelas anexas; os mosteiros beneditinos, o do R i o ,

valioso relicário de arte sacra, o de O l i n d a , c o m a sua

apuradíssima talha portuguesa; as matrizes mineiras, pobres

p o r fora, ricas por dentro, c o m o as do Pilar em O u r o Preto,

a da Conceição de Sabará — c o m a jóia de N o s s a Senhora

do Ó, mais além —, a de Tiradentes dispondo de órgão e de

fabuloso retábulo devido a mestre Sampayo; ou mesmo em

lugares perdidos c o m o Brumai, um esplêndido exemplar

intacto da primeira metade de setecentos, ou, em Santa R i t a

Durão, a linda igreja de Nossa Senhora do Rosário.

A talha dos retábulos evolui, passando do maneirismo

ainda renascentista da primeira fase, e do p r o t o b a r r o c o

de colunas t o r s a s e arquivoltas concêntricas, à explosão

do barroco propriamente d i t o , até alcançar a graça final

do c h a m a d o " r o c o c ó " que antecede a volta à linha reta e à

c o n c i s ã o d o neoclassicismo.

72
73
ARQUITETURA

S ã o tantas, porém, as preciosidades arquitetônicas es-

palhadas pelo país que é impossível enumerá-las nestas sim-

ples anotações, e se desse aparente desperdício resultou —

de par c o m o acervo monumental — a pobreza, há contudo

algo de positivo a ressaltar, do p o n t o de vista comunitário e

social, em tão chocante constatação. E que, durante a C o l ô -

nia e o I m p é r i o — c o m o ainda a g o r a — t o d a essa opulência,

toda essa riqueza física e espiritual contida nas igrejas anti-

gas, esteve sempre — e ainda está — à disposição de qual-

quer um, ao alcance do povo. Seja qual for o seu estado de

espírito, qualquer que seja a sua condição, você pode usu-

fruí-la, ela é sua — é só entrar e ficar lá.

74
INTERMEZZO
C a t a s Altas do M a t o Dentro

E m 1 9 2 7 passei cerca d e u m mês n o Caraça.

N o ú l t i m o dia d o a n o , c o m o j u m e n t o resvalando

nas pedras soltas da serra, desci até C a t a s A l t a s do M a t o

D e n t r o , para visitar a rica m a t r i z .

Estava deserta. Apenas uma velhinha sentada num dos

bancos.

Em m e i o ao esplendor da talha, dos dourados, das

imagens, das pinturas, ela se sentia visivelmente em casa.

Estava ali à vontade, c o m o se t u d o aquilo tivesse sido c o n -

cebido para o seu uso e g o z o exclusivo, c o m o se t u d o lhe

pertencesse.

Morava n u m casebre, mas dispunha da imensa nave

e d o s gigantescos retábulos para sua conversa diária —

em clima de graça, louvor e glória — c o m N o s s a S e n h o r a

e o Senhor.

75
ARQUITETURA
INTERMEZZO — CATAS ALTAS DO MATO DENTRO

19 — Cabe, finalmente, uma referência especial à gran-

de obra realizada pelos padres nos chamados Sete Povos

das M i s s õ e s , obra que, pertencendo embora à Província

Jesuítica do Paraguai, f i c o u definitivamente encravada no

país, constituindo assim um setor a u t ô n o m o no c o n j u n t o

dos m o n u m e n t o s coloniais brasileiros.

Cada povo — i s t o é, cada burgo — era c o n s t i t u í d o

pela igreja que compunha c o m a residência dos padres, o

asilo, a enfermaria, as aulas, as oficinas, as cocheiras e t c ,

e t a m b é m c o m o c e m i t é r i o , um grande c o n j u n t o a r q u i t e -

t ô n i c o , servido p o r vários pátios, tudo murado, m u r o que

se continuava para os f u n d o s das c o n s t r u ç õ e s abarcando

a e n o r m e área ocupada pelo p o m a r e pela horta, ou seja, a

q u i n t a d o s padres.

Em frente à igreja, havia um grande terreiro ou pra-

ça, em volta do qual eram d i s p o s t o s n u m e r o s o s b l o c o s

de habitação coletiva, c o m p o s t o s de m u i t a s células de

c i n c o m e t r o s p o r sete, a p r o x i m a d a m e n t e , verdadeiros

apartamentos c o m porta e janela e c o n s t r u í d o s c o m pare-

des de pedra ou de barro, morando em cada um deles uma

77
ARQUITETURA

família de índios. Um passeio alpendrado circundava es-


ses blocos de habitação que correspondiam a verdadeiras
quadras. Os primeiros blocos construídos eram os que
formavam a praça; depois, à medida que o povo crescia,
novos blocos eram edificados paralelamente aos primei-
ros, surgindo dessa forma, entre eles, numerosas ruas,
todas em esquadro, à moda espanhola.

Estes povos, com as respectivas estâncias para criação


de gado, ficavam a uma distância razoável uns dos outros,
formando a seqüência deles um todo orgânico e perfeita-
mente articulado. Os jesuítas revelaram-se, nestas Missões,
urbanistas notáveis, e a obra deles, tanto pelo espírito de
organização como pela força e pelo fôlego, faz lembrar a
dos romanos nos confins do Império. Apesar do atual des-
mantelo, ainda se adivinha nos menores fragmentos uma
seiva, um vigor, um "impulso", digamos assim, que os tor-
na — estejam onde estiverem — inconfundíveis. A nossa
interferência no caso foi apenas demolidora: conseguimos
desmontar, peça por peça, a obra singular criada pelo gênio
colonizador e sob a tutela dos padres.

78
INTERMEZZO — CATAS ALTAS DO MATO DENTRO

Só mesmo quando se percorreu, um a um, esses p o -

vos, repetindo a peregrinação feita em fins do século pas-

sado por H e m e t é r i o Veloso, cujo depoimento é, hoje, dos

mais valiosos, pois que ainda havia ali, então, muita coisa

para ver; quando se estuda a história dramática da instala-

ção das primeiras "reduções" e das lutas que antecederam

ao definitivo abandono e, ainda, documentação antiga re-

ferente à arquitetura missioneira, é que se pode ajuizar e

reconstituir mentalmente o que foram esses povos na é p o -

ca do seu florescimento, quando, na bruma da manhã, cada

dia, t o d o s aqueles índios saíam das casas, atravessando o

terreiro em direção da igreja: S a n t o  n g e l o , S ã o L u i z

Gonzaga, São Borja — cidades que, não fossem a praça e

uns poucos vestígios isolados, já teriam esquecido c o m -

pletamente o aspecto primitivo; S ã o J o ã o Baptista, S ã o

Miguel Arcanjo, S ã o Lourenço e S ã o N i c o l a u — ruínas

perdidas naquele e r m o da campanha rio-grandense, c o m

uma ou outra casa próxima, construída c o m material anti-

go, ou certo número delas formando novo povoado.

C o m exceção das ruínas monumentais de S ã o Miguel,

79
ARQUITETURA

recuperadas pelo antigo S P H A N , pouca coisa f i c o u ; p e -

ças que, sobrevivendo à catástrofe, p o r assim dizer, " d e -

ram à praia": capiteis, cartelas partidas vermelho-ferrugem,

ainda c o m o I H S , os três cravos e a cruz, imagens m u t i -

ladas e já sem c o r — peças cuja vista n o s deixa uma i m -

p r e s s ã o p e n o s a e c e r t o m a l - e s t a r , c o m o se r e a l m e n t e

estivéssemos diante dos d e s t r o ç o s de algum naufrágio.

C o m o remate destas anotações avulsas referentes à

nossa tradição, c u j o objetivo f o i apenas facilitar o e n t e n -

d i m e n t o e despertar a curiosidade, cabem algumas c o n s t a -

tações de alcance mais abrangente:

I — É, na verdade, impressionante que um programa

tão simples c o m o o da igreja — nave, altar e sacristia —

tenha comportado, através dos tempos, tamanha variedade

de soluções — desde as primeiras, ainda inspiradas nas an-

tigas basílicas, seguidas das inovadoras cúpulas bizantinas,

das severas naves românicas, dos luminosos transeptos góti-

cos, da volta à clareza geométrica renascentista e do desaba-

fo barroco —, até chegar à comovente capela de Ronchamp,

na França, e à bela estrutura da catedral de Brasília.

80
INTERMEZZO — CATAS ALTAS DO MATO DENTRO

2 — S ã o Pedro de R o m a é um e x e m p l o de c o m o a

arquitetura pode ajustar-se tão integralmente à idéia q u e

lhe cabe expressar, q u e , já agora, se t o r n a i m p o s s í v e l

d i s s o c i a r o c o n c e i t o de papado, c o m o principal veículo

e s í m b o l o universal da fé cristã, da imagem a r q u i t e t ô n i c a

que sucessivos artistas lhe c o n f e r i r a m : a dbside e a c ú p u -

la de M i g u e l  n g e l o , a nave acrescida p o r M a d e r n a , o

a d r o e a praça f r o n t e i r a d e l i m i t a d a pela m o n u m e n t a l

colunata de Bernini, que ainda c o n t r i b u i u c o m o resplen-

d o r do retábulo e o imenso e fabuloso baliaquino de b r o n -

ze, na j u s t a medida e no lugar c e r t o . C a b e n d o igualmente

c o n s t a t a r a incrível c o r a g e m e visão desses h o m e n s —

papas e artistas — capazes de e n f r e n t a r c o m paixão t a -

m a n h o e m p r e e n d i m e n t o . Basta c o n s i d e r a r o caso da fa-

m o s a cúpula q u e , c o m o sua a n t e c e s s o r a , a o b r a - p r i m a

do B r u n e l l e s c o , em F l o r e n ç a , é i m e n s a t a n t o vista de

longe c o m o d e p e r t o , t o d o s s e p e r g u n t a n d o c o m o f o i

possível fazer t u d o aquilo naquela altura c o m o s m e i o s

r e s t r i t o s da época; c o m o t a m b é m o caso dessa b e l í s s i m a

praça nascida do g e s t o inspirado de um s i m p l e s r i s c o

81
ARQUITETURA

— assim c o m o p r o c e d e o n o s s o O s c a r * — , s e m c o n s i -

derar secjuer a perspectiva do l o u c o e l e n t o t r a b a l h o de

a n o s e a n o s a f i o : t r a z e r os m a t a c õ e s da pedreira para o

c a n t e i r o da o b r a ; lavrar, suspender e ajustar c o m p r e c i -

são cada t a m b o r , ou seja, cada b l o c o do f u s t e , à f e i ç ã o

do galbo das 3 2 8 enormes colunas, rematadas pelo

e n t a b l a m e n t o — arquitrave, f r i s o , c o r n i j a — c o m a sua

alta balaustrada, m a r c a n d o - s e , ainda, o p r u m o de cada

u m a das c o l u n a s voltadas para a praça, c o m o g e s t o e l o -

q ü e n t e de u m a gigantesca e s t á t u a .

E t u d o i s t o p o r determinação do d e t e n t o r da heran-

ça de Pedro, e c o m t a n t o maior propriedade p o r q u a n t o ,

na sua ovalada configuração, c o m o q u e simboliza a p r ó -

pria rede lançada para arrebanhar os fiéis, tal c o m o ainda

agora, quase q u a t r o séculos depois, tranqüilamente em

casa, t e m o s assistido nas c e r i m ô n i a s divulgadas para o

m u n d o t o d o graças ao milagre — este sim — da ciência

e da tecnologia.

'O autor se refere ao arquiteto Oscar Niemeyer.

82
INTERMBZZO — CATAS ALTAS DO MATO DENTRO

3 — A obra de A n t ô n i o Francisco Lisboa, o Aleija-

dinho, foi, no parecer de G e r m a i n Bazin, antigo conser-

vador-chefe do Museu do L o u v r e — p a r e c e r que subscrevo

integralmente —, a última manifestação válida de arqui-

tetura e escultura cristãs, no â m b i t o mundial da história

da arte, a n t e s do l o n g o h i a t o q u e precedeu à l e g í t i m a

reformulação arquitetônica contemporânea.

83
INTERMEZZO
Rott-am-lnn

P o u c o depois do fim da guerra, em 1 9 4 8 , fui ao sul

da Alemanha para c o n h e c e r as igrejas barrocas da região

c o n t i d a entre o D a n ú b i o e os Alpes, tais c o m o o i m e n s o

e belíssimo interior de O t t o b e u r e n e a insuperável graça

r o c o c ó de W i e s , sozinha no descampado.

M a s o q u e principalmente me interessava era ver o

retábulo de R o t t - a m - l n n , porque pelo exame f o t o g r á f i c o

era o ú n i c o que, de f a t o , apresentava alguma afinidade

q u a n t o ao partido geral, inclusive a figuração no f e c h o da

c o m p o s i ç ã o , c o m o s retábulos mineiros.

D e p o i s de m u i t o rodar fui bruscamente impedido de

prosseguir — a "autobahn atingida pelos bombardeios,

terminava bruscamente a pique. Foi necessário retroceder

a fim de pegar um atalho, estrada vicinal que não acabava

85
ARQUITETURA

mais, até que, já escurecendo, avistei ao longe o perfil bar-

r o c o da igreja t a m b é m solta na paisagem c o m o W i e s .

Ao me aproximar, pressenti o malogro: estava fecha-

da. Apesar da frustração, caminhei em direção à porta e,

para meu e s p a n t o , ela se abriu. Percebi então ao fundo,

na penumbra, o retábulo. C o n t e n d o a e m o ç ã o entrei na

nave vazia. De repente as luzes se acendem, e quando, c o m

o p e n s a m e n t o no Aleijadinho, encaro de p e r t o o retábulo,

o u ç o o s primeiros acordes d e u m c a n t o c h ã o .

E r a sábado e o organista ensaiava para a missa da

manhã.

66
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA,

O ALEIJADINHO

A n t ô n i o F r a n c i s c o L i s b o a nasceu e m O u r o P r e t o ,

antiga Vila R i c a , a 29 de a g o s t o de 17 3 8, f i l h o de M a n o e l

Francisco Lisboa, carpinteiro-arquiteto, empreiteiro e

mestre das obras reais, e de Isabel, sua escrava. S e g u n d o 4

descrição de Joana, nora do artista, registrada p o r seu

b i ó g r a f o , R o d r i g o J o s é Ferreira Bretas, "Antônio F r a n c i s -

co era p a r d o - e s c u r o , tinha voz f o r t e , a fala arrebatada e o

gênio agastado; a estatura era baixa, o c o r p o c h e i o e mal

configurado, o r o s t o e a cabeça redondos, e esta v o l u m o -

sa, o cabelo p r e t o e anelado, o da barba cerrado e b a s t o , a

testa larga, o nariz regular e algum t a n t o p o n t i a g u d o , os

beiços grossos, as orelhas grandes e o p e s c o ç o c u r t o . Até

cerca dos 40 anos teve boa saúde, t a n t o que cuidava s e m -

pre em ter mesa farta e era visto m u i t a s vezes t o m a n d o

*Afirmaç,3o nâo confirmada.

87
ARQUITETURA

parte nas danças vulgares". Vila R i c a a esse t e m p o ainda

não apresentava o perfil que c o n h e c e m o s e t a n t o lhe deve.

A Casa da Câmara, atual M u s e u da Inconfidência, as igre-

jas de N o s s a S e n h o r a do C a r m o , de S ã o F r a n c i s c o de

Assis, de N o s s a S e n h o r a do R o s á r i o e de S ã o Francisco

de Paula ainda não existiam; mas a casa dos G o v e r n a d o -

res, c o m seus baluartes e rampa de acesso c o m o se vê na

fiel r e c o n s t i t u i ç ã o de W a s t h R o d r i g u e s , projetada p o r

A l p o i m e construída precisamente pelo pai de A n t ô n i o

Francisco, já comandava a perspectiva urbana. Nascida da

busca do o u r o e vencido o período inicial da implanta-

ção, estava então na sua fase de prosperidade e consolida-

ção, afluindo diretamente da metrópole mestres dos vários

o f í c i o s para atender à intensa procura de m ã o - d e - o b r a

qualificada. As matrizes de N o s s a S e n h o r a do Pilar e dc

N o s s a Senhora da Conceição, de A n t ô n i o Dias, bem c o m o

a i m p o r t a n t e Capela de N o s s a S e n h o r a do R o s á r i o d o s

P r e t o s , no A l t o da C r u z , estavam sendo concluídas, e a

riquíssima talha dourada d o s interiores contrastava d e -

liberadamente c o m a taipa caiada e o pau-a-pique das fa-

88
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

chadas de f r o n t ã o r e t o e torres sineiras ainda cobertas de

telha. C o n t u d o , nesse meado de século, estava-se às vés-

peras de novo s u r t o a r t í s t i c o , verdadeiro renascimento,

d e c o r r e n t e ainda d o i m p u l s o e c o n ô m i c o anterior, m a s

motivado, desta vez, pela emulação entre as irmandades

empenhadas na c o n s t r u ç ã o das respectivas capelas, já de

pedra e cal e mais claras, elegantes e " m o d e r n a s " c o m o se

dizia t a m b é m então, m o v i m e n t o iniciado e m 1 7 5 2 e m

Mariana c o m a nova capela do R o s á r i o , cuja talha seria

executada e m 1 7 7 0 p o r F r a n c i s c o Vieira Servas, c o n t e m -

porâneo de A n t ô n i o F r a n c i s c o L i s b o a . É que, e n q u a n t o

na primeira metade do século ainda prevalecia a velha e

b o a tradição medieval dos arquitetos se f o r m a r e m atra-

vés dos o f í c i o s da c o n s t r u ç ã o , vai finalmente ocorrer em

Vila R i c a , nesta segunda fase, o q u e sucedera na R e n a s -

cença, ou seja, a interferência e s t i m u l a n t e de a r q u i t e t o s

oriundos do meio dos artistas plásticos. S u r t o propiciado

ainda pela sedimentação da cultura e conseqüente tendên-

cia à especulação intelectual e, finalmente, pelo despertar

da consciência cívica; pois apesar da clausura imposta à

89
ARQUITETURA

colônia, as idéias nascidas do enciclopedismo, do enligbten~

mtnt e o eco das revoluções libertárias vararam o espaço

através dos mares e m o n t e s e vales e, encontrando c o n d i -

ções adequadas, aninharam-se ali. Poetas e eruditos, prela-

dos e bacharéis, músicos, arquitetos, pintores, escultores,

professores de artes mecânicas e mestres de o f í c i o s — t o -

dos conviviam, e esse desenvolvimento intensivo, no deli-

mitado espaço urbano, levou naturalmente àquele anseio

de independência que o Tiradentes, afinal, catalisou.

F o i nesse ambiente saturado de vitalidade que A n t ô -

nio Francisco se formou. E não lhe faltaram mestres qua-

lificados. O risco arquitetônico e as técnicas da carpintaria

e da marcenaria aprendeu desde cedo c o m o próprio pai e o

tio, A n t ô n i o Francisco Pombal. C o m o mestres de escultu-

ra e talha, além de ter visto, ainda menino, Francisco Xavier

de B r i t o trabalhar no Pilar e no A l t o da Cruz, teria feito o

aprendizado t a n t o c o m J e r ô n i m o Félix ou Felipe Vieira,

c o m o , principalmente, c o m J o s é C o e l h o de N o r o n h a , a

q u e m assistiria em M o r r o Grande e Caeté; finalmente, n o s

segredos do desenho "irregular, do melhor g o s t o francês",

90
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

quer dizer, n o estilo Luís X V — c o n f o r m e refere e m 1 7 9 0

o vereador de Mariana, J o a q u i m J o s é da Silva, no precioso

d o c u m e n t o transcrito p o r Bretas —, c o m o artista grava-

dor, exilado da metrópole, J o ã o G o m e s Baptista.

Assim aparelhado para o exercício da sua vocação,

p o d e - s e identificar a marca inicial da sua presença no r i s -

co de chafariz f e i t o quando tinha apenas 13 anos para o

pátio da casa do governador, e onde já estão definidos dois

traços característicos do seu estilo pessoal: a graça ( n o

p e r f i l ) , e a veemência (na c a r r a n c a ) ; e no daquele o u t r o

c o n s t r u í d o ao pé da escadaria de S a n t a Efigênia, no A l t o

da Cruz. E que o risco desse chafariz apresentado em 1 7 5 7

p o r seu pai é, t u d o indica, de autoria, tal c o m o o anterior,

91
ARQUITETURA

d o próprio A n t ô n i o F r a n c i s c o , j á e n t ã o c o m 1 9 anos. I s t o

porque na sua c o m p o s i ç ã o ocorre t a m b é m um p o r m e n o r

revelador da intenção plástica que lhe vai marcar a obra

futura, e que é o m o d o peculiar c o m o os coruchéus f o r a m

implantados: em vez de assentarem diretamente sobre as

pi lastras, na forma usual, f o r a m criados lateralmente, num

plano recuado, dois c o n s o l o s para recebê-los, ficando eles,

p o r t a n t o , f o r a da prumada das pilastras. R e s u l t a desse

artifício um duplo m o v i m e n t o — a c o m p o s i ç ã o se abre

para os lados e projeta-se à frente ao m e s m o t e m p o , a d -

quirindo assim sentido d i n â m i c o , apesar da sua e s t r u t u -

ração estática fundamental. O u t r a circunstância corrobora

a autoria do risco desse chafariz. E que não o b s t a n t e a

sua execução, p o r oficiais canteiros, ser um t a n t o g r o s -

seira, acha-se c o r o a d o p o r um imprevisto b u s t o de m u -

l h e r em p e d r a - s a b ã o d a t a d o de I 7 6 I . O i n u s i t a d o da

figuração, o galbo do plinto e o talhe dos algarismos são

o u t r o s t a n t o s indícios veementes de afirmação precoce da

personalidade singular de A n t ô n i o F r a n c i s c o L i s b o a . E

s a b e n d o - s e que seu pai, M a n o e l F r a n c i s c o , vivia e n t ã o

92
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

assoberbado de c o m p r o m i s s o s , nada mais natural senão

confiar ao filho, que se estava iniciando na profissão, a

desincumbência da pequena tarefa.

Trabalho talvez atribuível a esse primeiro período é o

oratório de jacarandá, na sacristia do Pilar, cujo fundo é

tratado em caneluras, solução só encontrada, depois, no la-

vatório de S ã o Francisco de Assis, em O u r o Preto. Época

em que atuou na igreja que prometia, mas arquitetonica-

m e n t e enjeítada de M o r r o Grande, onde possivelmente

interferiu no partido de implantação das torres, e elaborou

o risco do arco da capela ainda c o m pés-direitos e tímpa-

nos à moda antiga, c o m o os fazia seu pai, mas com umas

tantas inovações, além de esculpit os anjos da tarja e a ima-

gem do frontispício; e, ainda, em Caeté, onde deu o risco

para os dois ú l t i m o s r e t á b u l o s da empreitada geral de

C o e l h o de N o r o n h a , executando o do lado da epístola, in-

clusive as imagens. S ã o numerosas as imagens avulsas cuja

autoria se lhe pode atestar, sendo das mais belas uma pe-

quena Sant'Ana, onde c o m refinado apuro plástico se con-

trapõem a serena desprevenção e a tensão premonitória.

93
ARQUITETURA

Em 1 7 6 6 a sua reputação já se Firmara, t a n t o as-

sim que, havendo a Irmandade C a r m e l i t a e n c o m e n d a d o

ao velho e c o n s a g r a d o M a n o e l F r a n c i s c o L i s b o a o r i s c o

para a sua igreja, os irmãos t e r c e i r o s de S ã o F r a n c i s c o ,

esclarecida irmandade que congregava a maioria d o s in-

t e l e c t u a i s , não hesitaram em c o n f i a r ao f i l h o a r e s p o n -

sabilidade de p r o j e t a r capela capaz de c o n f r o n t á - l a .

R e s u l t o u dessa prova de c o n f i a n ç a a sua o b r a - p r i m a

a r q u i t e t ô n i c a , na qual e x e c u t o u p e s s o a l m e n t e , além do

f r o n t i s p í c i o c o m a portada e do lavatório da sacristia, o

r e t á b u l o da capela-mor, o barrete e os p ú l p i t o s de pedra

inseridos de f o r m a inusitada nas aduelas do arco-real. V ê -

se, p e l o c o r t e preservado de uma cópia c o n t e m p o r â n e a

do r i s c o original, que, i n i c i a l m e n t e , apenas a taça d e s -

ses p ú l p i t o s fora, na f o r m a do c o s t u m e , prevista de p e -

dra; a deliberação de f a z ê - l o s i n t e g r a l m e n t e de esteatita,

c o m o o p r ó p r i o arco, teria o c o r r i d o durante a c o n s t r u -

ç ã o . A i n t e g r a ç ã o do e x p r e s s i o n i s m o d r a m á t i c o das fi-

gurações bíblicas no elaborado requinte ornamental,

p r ó p r i o do e s t i l o da época, é uma c a r a c t e r í s t i c a c o n s -

94
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

tante da obra de Antônio Francisco Lisboa e o que lhe


confere a típica veemência. Lamentavelmente, apesar da
esplêndida complementação arquitetônica da pintura de
Manoel da Costa Athayde, a igreja ficou inconclusa, fal-
tando-lhe o coro, as grades e os próprios altares cola-
terais, que só foram executados mal e tardiamente,
embora segundo risco original. Também externamente,
as varandas laterais previstas com balaustrada e pirâmi-
des de pedra-sabão, tal como consta nas minuciosas
especificações preservadas, não se fizeram, e foram in-
devidamente cobertas, já em l 8 0 I , com telhado sobre
arcadas a pretexto de infiltração.

Data da mesma época dos púlpitos (1771-72), além


do risco para o retábulo da capela de São José, a portada
carmelita de Sabará, seguida da portada, também dos ir-
mãos terceiros do Carmo, de Ouro Preto, onde, após a
morte de seu pai, elaborou, por insistência dos irmãos, novo
risco para o corpo da igreja e respectivo frontispício, em
que alteia e altera fundamentalmente o anterior, adaptan-
do assim a composição arquitetônica ao seu estilo pessoal.

95
ARQUITETURA

Voltando a Sabará executa, sempre para o Carmo, p o s -

sante e magistral empena de serpentina c o r de b r o n z e ,

ainda vazada, apesar da rocalba, no arrogante espírito do

estilo D . J o ã o V , o u L u í s X I Y e n q u a n t o n o risco apre-

sentado após a c o n c l u s ã o dessa obra, em 1 7 7 4 * para a

igreja franciscana de S ã o J o ã o dei R e y — e que não c h e -

gou a ser realizado tal c o m o fora c o n c e b i d o —, a e m p e -

na, de partido semelhante, já revela a intenção de graça

peculiar a o estilo L u í s X Y o u D . J o s é .

A portada figurada nesse risco, apesar do seu inexce-

dível apuro, c o m o desenho e c o m p o s i ç ã o , parece ainda

incompleta, pois ainda não havia então o c o r r i d o a A n t ô -

nio F r a n c i s c o a solução que afinal a d o t o u na sua volta a

O u r o P r e t o , quatro meses depois, quando convenceu o s

irmãos da necessidade de desfazer as ombreiras e a verga

da p o r t a e de afastar as janelas do c o r o , já feitas, a f i m de

poder realizar o novo risco de portada que trouxera. Q u e

teria sucedido de tão decisivo em tão c u r t o espaço de t e m

p o , a p o n t o de j u s t i f i c a r t a m a n h o e m p e n h o e decisão?

P r e s u m e - s e que de S ã o J o ã o haja prosseguido viagem até

96
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

o R i o , a fim de conhecer a famosa portada de pedra de

lioz trazida de L i s b o a em 1 7 6 1 e que, p o r seu p o r t e e

beleza, avultava na frontaria inacabada da igreja carmelita

carioca. E s s e i m p a c t o sugeriu-lhe então sobrepor, naque-

le seu risco, às armas da ordem franciscana, o medalhão

de N o s s a S e n h o r a encimado pela c o r o a real, c o m p l e t a n -

do a c o m p o s i ç ã o triangular c o m dois anjos pousados s o -

bre as cornijas das pilastras laterais. E s t e risco inicial para

S ã o J o ã o dei R e y é, pois, uma realização a meio c a m i n h o ,

o estágio intermediário de uma obra ainda em p r o c e s s o

de elaboração; o artista é, p o r assim dizer, surpreendido

em flagrante ao c o m e t e r o " d e l i t o " da criação, que resul-

t o u na obra-prima realizada em O u r o P r e t o . E, assim, esta

capela franciscana adquiriu a sua feição definitiva, obra

sem paralelo, em que a energia, a força, a elegância e a

finura se irmanam, conferindo à criação arquitetônica pal-

pitação de coisa viva.

Ainda em Vila. R i c a executou, depois, o b e l o lavató-

r i o para a sacristía da Igreja do C a r m o ; em seguida, t a m -

b é m em pedra-sabão, o u t r o , para a de S ã o F r a n c i s c o , ao

97
ARQUITETURA

q u e parece doado pelos sacristãos, p o i s não c o n s t a n o s

livros q u a l q u e r referência a p a g a m e n t o . O b r a - p r i m a e

c o m o v e n t e p o r q u e f o i no t r a n s c u r s o da sua demorada

execução ( 1 7 7 7 - 7 8 - 7 9 ) que a doença o a c o m e t e u e d e -

f o r m o u . Perdeu o " u s o dos dedos, t a n t o dos pés c o m o

das m ã o s , c o m exceção dos polegares e índices", e teve o

r o s t o desfigurado, o que lhe c o n f e r i u , no dizer da nora,

"expressão asquerosa e sinistra que chegava a assustar a

q u e m q u e r q u e o e n c a r a s s e i n o p i n a d a m e n t e " , daí " a

acrimônia d o seu humor, p o r vezes c o l é r i c o " . J á e m 1 7 7 7 -

78 há registro do que se despendeu c o m dois p r e t o s para

carregá-lo numa inspeção de serviço, e o d o c u m e n t o o f i -

cial d e 1 7 9 0 , j á referido, c o n s t a t a : " T a n t a preciosidade

se acha depositada em c o r p o e n f e r m o que precisa ser c o n -

d u z i d o a qualquer parte e atarem-se-lhe os f e r r o s para

p o d e r trabalhar." Passou então a ser c o n h e c i d o pela alcu-

nha de Aleijadinho.

Parece que a moléstia ainda o apegou mais ao traba-

l h o , p o i s a sua obra se avoluma e avulta. C o n c l u i n d o o

frontispício de São Miguel e Almas, em O u r o Preto,

98
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

retorna a Sabará, o n d e faz o elegante coro, a grade, os

púlpitos e duas imagens; fornece o risco — que não teria

sido obedecido — para o altar-mor de S ã o Francisco em

S ã o J o ã o dei Rey, atendendo assim à solicitação dos ir-

m ã o s empenhados na procura do arquiteto " e m Vila R i c a ,

ou em qualquer parte onde se achasse". E depois de o u -

tros trabalhos, na encantadora igreja do Rosário, em S a n t a

R i t a D u r ã o , e na importante capela da fazenda da Jaguara,

c o n c e n t r a - s e finalmente de novo na sua obra-mestra, S ã o

F r a n c i s c o de O u r o P r e t o , a fim de executar o m o n u m e n -

tal retábulo da capela-mor, obra plástica de inexcedível

apuro e vigor, sonora e vibrante c o m o um c a n t o p u n g e n -

te de glória; obra que durou de 1 7 9 0 a 9 4 . V i n t e anos

depois da sua primeira visita, quando ainda são, volta a

S ã o J o ã o , onde os seus p r o j e t o s foram indevidamente al-

terados p o r Francisco de Lima Cerqueira, o respeitado

mestre-canteiro responsável pelas obras, e trabalha a j o r -

nal, c o m o de c o s t u m e , de 94 a 9 5 . nas portadas do C a r m o

e de S ã o F r a n c i s c o .

A contradição fundamental entre o estilo da época —

99
ARQUITETURA

elegante e maneirado — e o ímpeto poderoso do seu t e m -

peramento apaixonado e tantas vezes místico, contradição

magistralmente superada, mas latente e que, p o r isto, de

quando em quando extravasava, é a marca indelével da sua

obra, o que lhe dá o t o m singular e faz deste brasileiro das

Minas Gerais a mais alta expressão individualizada da arte

portuguesa do seu tempo. Deve-se aliás assinalar que essa

modalidade mineira da arte colonial portuguesa no Brasil

apresenta, por vezes, maior afinidade com o barroco-rococó

de entre o Danúbio e os Alpes do que com a arte m e t r o p o -

litana que a gerou.

A religiosidade do Aleijadinho cresceu na medida do

seu í n t i m o convívio c o m a hagiografia e c o m a Bíblia; e

do isolamento a que se impôs em conseqüência da m o -

léstia resultou uma profunda c o m u n h ã o da sua arte c o m

a fé. As inúmeras sentenças e os versículos que partici-

pam da composição dos púlpitos e retábulos de sua au-

toria se devem indubitavelmente à sua própria iniciativa

e escolha, p o r q u a n t o não o c o r r e m na obra de n e n h u m

o u t r o entalhador.

100
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA

D e d i c a - s e , p o r f i m , a o santuário d e N o s s o S e n h o r

d o B o m Jesus d e M a t o s i n h o s , e m C o n g o n h a s , para e m -

preender, sexagenário, a e n o r m e tarefa de encenar, em t a -

manho natural, os Passos da Paixão, figuração onde

avultam, entre a comparsaria, as imagens em c o r p o i n t e i -

ro do S e n h o r e seus discípulos, c o n j u n t o s que só f o r a m

definitivamente m o n t a d o s quando se concluíram as ca-

pelas, depois da sua m o r t e .

E c o m o se não bastasse c o m o remate de uma vida

inteira dedicada à arte, ainda c o m p õ e a r q u i t e t o n i c a m e n -

te o adro do santuário e, no e r m o da colina, enfrenta n o -

vamente os t o s c o s b l o c o s azulados de pedra tenra de o n d e

extrai, sem lhes roubar a íntegra consistência, c o m a a j u -

da dos seus oficiais — um deles, M a u r í c i o , m o r r e nesse

e m p e n h o , as figuras bíblicas, gravando-lhes no gesto, nas

cartelas e na face as s e n t e n ç a s p r o f é t i c a s — J e r e m i a s ,

E z e q u i e l , H a b a c u c , N a h u m , J o e l , O s e a s , Baruc, J o n a s ,

Daniel, A m o s , Abdias, Isaías.

De volta a O u r o P r e t o dá o risco para os dois ú l t i -

m o s altares colaterais do C a r m o e neles trabalha c o m

101
ARQUITETURA

J u s t i n o , c o m q u e m se desentende p o r q u e s t õ e s de paga-

m e n t o . D a t a igualmente desse período final o p r o j e t o da

nova frontaria para a M a t r i z de T i r a d e n t e s , e a c o n s u l t a

d o s carmelitas de Sabará, quando e n t ã o p r o p ô s ( s e m êxi-

t o ) o a l t e a m e n t o da capela-mor para que nela coubesse o

retábulo que concebera.

D e p o i s , c o m o c o r p o chagado, amargurado e s ó , j a -

zeu p o r quase dois anos num estrado de tábuas sobre dois

c e p o s em pequena ale ova o n d e conservava, no dizer de

J o a n a Francisca, sua nora, a imagem do S e n h o r a q u e m

apostrofava, na sua lenta agonia, pedindo q u e " s o b r e ele

pusesse os seus divinos p é s " .

102
RUPTURA E REFORMULAÇÃO

C o m o advento da R e v o l u ç ã o Industrial, o p r o c e s s o

evolutivo se r o m p e u , já agora p r o p o r c i o n a n d o a f o r m u l a -

ção de novas proposições de fundo científico e tecnológico

ainda mais revolucionárias, cujas implicações de o r d e m

ética e f i l o s ó f i c a afetam e c o n d i c i o n a m o grande drama

humano, e c o n ô m i c o e social em que o m u n d o se debate

— esse i m e n s o puzgle que se veio armando p a c i e n t e m e n -

t e , peça p o r peça, durante t o d o o século passado e neste

final de século se c o n t i n u a a armar c o m m u i t o m e n o s

paciência, não n o s p e r m i t i n d o as peças que ainda f a l t a m

a segurança de a f i r m a r se é m e s m o de um a n j o sem asas

que se trata, c o m o querem uns, o u , c o m o asseveram o u -

t r o s — igualmente c o m p e n e t r a d o s — , d e u m d e m ô n i o

imberbe.

Poderá parecer f o r a de p r o p ó s i t o , t r a t a n d o - s e aqui

103
ARQUITETURA

de um tema restrito, alusão a ocorrência tão distante no

tempo, mas é que, apesar da sua remota origem, ela se faz

cada vez mais presente e está na fardos grandes e peque-

nos problemas atuais, não apenas os que afetam o n o s s o

egoísmo, porventura legítimo, e nos afligem cada dia a cons-

ciência e o coração, mas também aqueles de cuja solução

depende a própria feição material da cidade futura.

N u m a perspectiva mais ampla, esse desajuste p r o -

f u n d o provocado pela industrialização agravou-se devido

ao f a t o do espírito agnóstico se haver antecipado ao espí-

rito religioso na inteligência do seu verdadeiro sentido e

alcance.

C o m e f e i t o , quando a produção era obra manual de

artesanato — ou seja, necessariamente limitada — só u n s

p o u c o s privilegiados podiam usufruí-la, cabendo assim

ao padre, já que não havia o u t r o remédio, aconselhar re-

signação. C o m as novas técnicas revolucionárias de p r o -

dução, esse esquema imemorial se inverteu e, c o m p o u c o s ,

se p r o d u z em massa aquilo de que t o d o s t ê m precisão.

P o r t a n t o , a reivindicação do que lhe é devido, da parte de

104
RUPTURA E REFORMULAÇÃO

q u e m trabalha, passou a ser legítima, t o r n a n d o - s e já en-

tão imoral — e c í n i c o — aquele apelo à resignação. D a í

a coincidência de p r o p ó s i t o s que se observa, na atual fase

do processo de reformulação e c o n ô m i c o - s o c i a l , entre o

crente e o que descrê. C o n t i n u a r ã o j u n t o s até q u e , c o m

o b e m alcançado, um já se dê p o r satisfeito e o o u t r o p r o s -

siga, porque o seu verdadeiro o b j e t i v o está além.

A distinção entre transformações estilísticas de cará-

ter evolutivo, embora p o r vezes radicais, processadas de um

período a o u t r o na arte do m e s m o ciclo econômico-social

— e, portanto, de superfície — e transformações c o m o

esta, de feição nitidamente revolucionária, porquanto decor-

rente de mudança fundamental na técnica da produção, ou

seja, nos m o d o s de fabricar, de construir, de viver, é indis-

pensável para a compreensão da verdadeira natureza e m o -

tivo das substanciais modificações por que vem passando

a arquitetura e, de um m o d o geral, a arte contemporânea,

pois, no primeiro caso, o próprio gosto, já cansado de re-

petir soluções consagradas, t o m a a iniciativa cguia a inten-

ção formal no sentido da renovação do estilo, ao passo que,

105
ARQUITETURA

no segundo, é a nova técnica e a economia decorrente dela

que impõem a alteração e lhe determinam o r u m o — o gosto

acompanha. N u m , simples mudança de cenário; no o u t r o ,

estréia de peça nova em temporada que se inicia.

Assim, a técnica tradicional do artesanato, c o m os

seus p r o c e s s o s de fazer manuais, e, p o r t a n t o , impregna-

dos de c o n t r i b u i ç ã o pessoal, p o i s não prescindiam no p o r -

menor, da iniciativa, do engenho e da invenção do próprio

obreiro, estabelecendo-se deste m o d o um vínculo de par-

ticipação efetiva entre o artista maior, a u t o r da c o n c e p -

ção m e s t r a da peça ou da obra e o c o n j u n t o d o s artistas

especializados que a executavam — os artesãos —, f o i

bruscamente substituída pela técnica da produção indus-

trializada, onde o processo inventivo se restringe àqueles

p o u c o s que c o n c e b e m e elaboram o m o d e l o original, não

passando a legião dos que o p r o d u z e m de a u t ô m a t o s , em

perene j e j u m de participação artística, alheios c o m o são à

iniciativa criadora.

Estabeleceu-se, p o r t a n t o , o divórcio entre o artista e

o povo: e n q u a n t o o povo artesão era parte consciente na ela-

106
RUPTURA E REFORMULAÇÃO

boração e evolução do estilo da época, o povo proletário per-

deu c o n t a t o c o m a arte.

Assim, p o i s , t a m b é m aqui, a f o r ç a viva avassaladora

da idade industrial, n o s seus p r i m ó r d i o s , é que d e t e r m i -

nava o curso novo a seguir, t o r n a n d o o b s o l e t a a experiên-

cia tradicional acumulada nas lentas e penosas etapas da

C o l ô n i a e do I m p é r i o , a p o n t o de lhe apagar até m e s m o a

lembrança.

T a n t o mais que, c o m a abolição da escravatura, a " m á -

q u i n a brasileira de m o r a r " , a casa antiga, f o i aos p o u c o s

d e i x a n d o de funcionar, t o r n a n d o - s e m e s m o inabitável

devido ao d e s c o n f o r t o . É que ela dependia essencialmen-

te da presença dessa mistura de coisa, de b i c h o e de gen-

t e , que era o escravo: havia negro para t u d o — desde os

negrinhos sempre à m ã o para recados, até negra velha, babá.

O negro era e s g o t o , era água corrente no q u a r t o , q u e n t e

e fria, era interruptor de luz e b o t ã o de campainha; o negro

tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador a u t o -

m á t i c o e abanava que n e m ventilador. E r a ele que fazia a

casa funcionar.

107
ARQUITETURA

M e s m o durante a primeira fase republicana, os víncu-

l o s de dependência e os hábitos c ô m o d o s da vida patriarcal

de tão vil fundamento perduraram, e o c u s t o baixo da m ã o -

d e - o b r a d o m é s t i c a ainda p e r m i t i u à burguesia manter,

m e s m o sem escravos oficiais, o trem fácil de vida do p e r í o -

do imperial, mas depois — c o m o t e m p o — t u d o mudou.

108
EDIFÍCIO GUSTAVO CAPANEMA

O edifício construído por Gustavo Capanema para

sede do antigo Ministério da Educação e Saúde surgiu c o m o

que de repente e a sua serena beleza surpreendeu quando,

terminada a guerra, o mundo t o m o u c o n h e c i m e n t o da sua

insólita presença. M a r c o definitivo da nova arquitetura

109
ARQUITETURA

brasileira, revelou-se igualmente, apenas construído, padrão

internacional da reformulação arquitetônica, e demonstrou

que o engenho nativo já está apto a apreender a experiência

estrangeira, não mais somente c o m o eterno cauâatdrio ideo-

lógico, mas antecipando-se na própria realização.

Baseado no risco original de Le Corbusier para outro

terreno, motivado pela consulta prévia a pedido dos respon-

sáveis pela obra, tanto o projeto definitivo quanto a c o n s -

t r u ç ã o do e d i f í c i o , desde o primeiro e s b o ç o até a sua

conclusão, foram levados a cabo sem a mínima assistência

do mestre, c o m o espontânea contribuição nossa para a pú-

blica consagração dos princípios por que sempre se bateu.

C o n s t r u í d o n a mesma época, c o m o s m e s m o s m a -

teriais e para o m e s m o f i m u t i l i t á r i o , avultou, no e n -

t a n t o , o e d i f í c i o do M i n i s t é r i o em m e i o à e n t ã o espessa

vulgaridade das edificações circunvizinhas, c o m o algo que

ali pousasse serenamente, apenas para o eventual enlevo do

transeunte despreocupado e, vez por outra, surpreso à vis-

ta de tão sublimada manifestação de pureza formal e d o -

mínio da razão sobre a inércia da matéria.

110
EDIFÍCIO GUSTAVO CAPANEMA

É belo, pois. E não apenas belo, mas s i m b ó l i c o , p o r -

q u a n t o a sua c o n s t r u ç ã o — levada avante e n q u a n t o o

m u n d o em guerra empenhava-se em destruição — só foi

possível na medida em que desrespeitou t a n t o a legisla-

ção municipal vigente, q u a n t o a ética profissional e até

m e s m o as regras mais c o m e z i n h a s do saber viver e da

normal conduta interesseira.

A lei exigia o limite de sete pavimentos alinhados em

quadra c o m área interna — os pisos concentraram-se em al-

tura no centro de terreno devolvido ajardinado para g o z o

dos contribuintes; a ética profissional mandava que a obra

fosse atribuída a um dos premiados no c o n c u r s o havido,

ainda que f o s s e m sacrificados os melhores princípios da

arte de c o n s t r u i r — os prêmios foram efetivamente pa-

gos, mas venceu a arquitetura; feita pessoalmente a e n c o -

menda, o e g o í s m o determinava limitação da partilha —

o número de associados se ampliou; aprovado o primeiro

p r o j e t o , mandava o c o m o d i s m o e a eficiência fosse a obra

atacada sem tardança — reclamaram os próprios autores

a sua revisão e, em conseqüência, foi necessário r e c o m e -

111
ARQUITETURA

çar da estaca zero; prevenia a experiência eme não se devia

c o n f i a r a a r q u i t e t o s novos, sem t i r o c í n i o , a responsabili-

dade de tamanha empresa — a obra resultou sólida e de

esmerada execução; alertava o i n s t i n t o p o l í t i c o de a u t o -

preservação e a prática da vida, no sentido da transigên-

cia ante a critica d o s grandes, a insinuação malévola d o s

medíocres e o divertido sarcasmo dos demais — t a n t o a

autoridade quanto os profissionais mantiveram-se intran-

sigentes em favor da realização da obra tal c o m o fora o r i -

ginariamente concebida; finalmente, insinuava a vaidade,

amparada na verdade d o s fatos, discrição q u a n t o à p a r t i -

cipação pessoal de Le C o r b u s i e r — ela não f o i apenas

destacada, mas acrescida, em atenção ao vulto de sua obra

criadora e doutrinária, e a inscrição comemorativa deixa

intencionalmente presumir a participação do mestre no

r i s c o o r i g i n a l d o e d i f í c i o c o n s t r u í d o , q u a n d o s e refere

a risco diferente, destinado a o u t r o local, mas que serviu

efetivamente de guia ao p r o j e t o definitivo.

O episódio vale c o m o advertência, pois parece insi-

nuar que, quando o estado normal é a doença organizada,

112
EDIFÍCIO GUSTAVO CAPANEMA

c o erro, lei — o a f a s t a m e n t o da n o r m a se impõe e a ile-

galidade, apenas, é fecunda.

Entretanto, o êxito integral do empreendimento só foi

assegurado devido à circunstância de estar incluída entre

os seus legítimos autores a personalidade que se revelaria a

seguir decisiva na formulação objetiva, pelo exemplo e al-

cance da própria obra, do r u m o novo a ser trilhado pela

arquitetura brasileira contemporânea. Pois se o sentido geral

dos a c o n t e c i m e n t o s é, de fato, determinado p o r fatores de

ordem vária, cuja atuação convergente assume, n u m dado

m o m e n t o , aspecto de inelutabilidade, ocorre ponderar que,

na falta eventual da personalidade capaz de captar as p o s -

sibilidades latentes, a oportunidade pode perder-se e o r u m o

da ação irremediavelmente alterar-se, devido ao fracasso no

m o m e n t o decisivo da primeira prova.

A personalidade de O s c a r Niemeyer Soares, arquiteto

de formação e mentalidade genuinamente cariocas — c o n -

quanto, j á agora, internacionalmente consagrado — , sou-

be e s t a r p r e s e n t e na o c a s i ã o o p o r t u n a e d e s e m p e n h a r

integralmente o papel que as circunstâncias propícias lhe

113
ARQUITETURA

reservaram e que avultou, a seguir, c o m as obras da distan-

te Pampulha e do Pavilhão do Brasil na Feira Internacional,

de 1 9 3 9 . na longínqua Nova York.

E , n o e n t a n t o , apenas 2 6 a n o s antes, havia sido inau-

gurado o edifício da E N B A ( E s c o l a N a c i o n a l de Belas-

A r t e s ) , atual museu, padrão acadêmico impecável.

A arquitetura jamais passou, n o u t r o igual espaço de

t e m p o , p o r tamanha transformação.

114
ADDENDUM URBANÍSTICO

1 — Cidade é a expressão palpável da humana n e -

cessidade de c o n t a t o , c o m u n i c a ç ã o , organização e troca,

n u m a determinada circunstância f í s i c o - s o c i a l e num c o n -

texto histórico.

2 — U r b a n i z a r c o n s i s t e em levar um p o u c o da c i -

dade para o c a m p o , e trazer um p o u c o do c a m p o para

d e n t r o da cidade.

3 — N a s tarefas do engenheiro, o h o m e m é prin-

cipalmente considerado c o m o ser coletivo, c o m o " n ú m e -

r o " , prevalecendo o critério de quantidade; ao passo que nas

tarefas do a r q u i t e t o o h o m e m é encarado, antes de mais

nada, c o m o ser individual, c o m o " p e s s o a " , predominando

então o c r i t é r i o de qualidade.

P o r o u t r o lado, o s interesses d o h o m e m c o m o indi-

115
ARQUITETURA

víduo nem sempre coincidem c o m os interesses desse m e s -

mo h o m e m c o m o ser coletivo; cabe então ao urbanista

procurar resolver, na medida do possível, esta c o n t r a d i -

ção fundamental.

116
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA
(Memória Descritiva)

Desejo, inicialmente, desculpar-me perante a direção da

Companhia Urbanizado ra e a Comissão Julgadora do C o n -

curso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido

para a nova Capital, e também justificar-me,

N ã o pretendia c o m p e t i r e, na verdade, não c o n c o r r o

— apenas me desvencilho de u m a solução possível, q u e

não f o i procurada m a s surgiu, p o r assim dizer, já p r o n t a .

C o m p a r e ç o , não c o m o técnico devidamente aparelha-

d o , p o i s n e m sequer d i s p o n h o d e e s c r i t ó r i o , mas c o m o

simples maquisard do urbanismo, que não pretende p r o s -

seguir no desenvolvimento da idéia apresentada senão,

eventualmente, na qualidade de m e r o consultor. E se p r o -

cedo assim candidamente é porque me amparo n u m racio-

c í n i o igualmente s i m p l ó r i o : se a sugestão é válida, estes

117
ARQUITETURA

d a d o s , c o n q u a n t o s u m á r i o s n a sua aparência, j á serão

suficientes, p o i s revelarão que, apesar da espontaneidade

original, ela f o i , depois, i n t e n s a m e n t e pensada e resolvi-

da; se não o é, a exclusão se fará mais facilmente, e não

terei perdido o meu t e m p o nem t o m a d o o t e m p o de nin-

guém.

A liberação do acesso ao c o n c u r s o reduziu de c e r t o

m o d o a c o n s u l t a à q u i l o q u e de f a t o i m p o r t a , ou seja, à

c o n c e p ç ã o urbanística da cidade p r o p r i a m e n t e dita, p o r -

q u e e s t a não será, n o c a s o , u m a d e c o r r ê n c i a d o p l a n e j a -

m e n t o regional, mas a causa dele: a sua f u n d a ç ã o é q u e

dará e n s e j o a o u l t e r i o r d e s e n v o l v i m e n t o p l a n e j a d o d a

região. T r a t a - s e de um ato deliberado de p o s s e , de um

g e s t o de s e n t i d o ainda desbravador, n o s m o l d e s da t r a -

d i ç ã o c o l o n i a l . E o q u e se indaga é c o m o no e n t e n d e r de

cada c o n c o r r e n t e uma tal cidade deve ser c o n c e b i d a .

Ela deve ser concebida não c o m o simples o r g a n i s m o

capaz de preencher s a t i s f a t o r i a m e n t e e sem e s f o r ç o as

f u n ç õ e s vitais próprias de uma cidade moderna qualquer,

não apenas c o m o Urb$ mas c o m o Chitas, p o s s u i d o r a d o s


f

118
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

a t r i b u t o s inerentes a uma capital. E, para t a n t o , a c o n d i -

ção primeira é achar-se o urbanista i m b u í d o de certa dig-

nidade e n o b r e z a de intenção, p o r q u a n t o dessa a t i t u d e

fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveni-

ência e medida capazes de conferir ao c o n j u n t o projetado

o desejável caráter monumental. M o n u m e n t a l não no sen-

t i d o de o s t e n t a ç ã o , mas no sentido de expressão palpável,

p o r assim dizer, c o n s c i e n t e , daquilo que vale e significa.

Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas

ao m e s m o t e m p o cidade viva e aprazível, própria ao deva-

neio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, c o m

o tempo, além de centro do governo e administração, num

f o c o de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país.

D i t o isto, vejamos c o m o nasceu, se definiu e resol-

veu a presente solução.

1 — N a s c e u d o g e s t o p r i m á r i o d e q u e m assinala u m

lugar ou dele t o m a posse: dois eixos c r u z a n d o - s e em ân-

gulo reto, ou seja, o próprio sinal da c r u z .

2 — P r o c u r o u - s e depois a adaptação à t o p o g r a f i a

local, ao e s c o a m e n t o natural das águas, à m e l h o r o r i e n t a -

119
ARQUITETURA

ção, arqueando-se um d o s eixos a f i m de c o n t ê - l o no t r i -

ângulo eqüilátero que define a área urbanizada.

3 — E houve o p r o p ó s i t o de aplicar os princípios

francos da técnica r o d o v i á r i a — i n c l u s i v e a eliminação dos

c r u z a m e n t o s — à técnica ubanística, conferindo-se ao eixo

arqueado correspondente às vias naturais de acesso a f u n -

ção circulatória t r o n c o , c o m pistas centrais de velocidade

e pistas laterais para o t r á f e g o local, e d i s p o n d o - s e ao

l o n g o desse eixo o grosso d o s setores residenciais.

4 — C o m o d e c o r r ê n c i a dessa c o n c e n t r a ç ã o r e s i -

dencial, os c e n t r o s cívico e administrativo, o s e t o r c u l t u -

ral, o c e n t r o de diversões e c e n t r o e s p o r t i v o , o s e t o r

administrativo municipal, os quartéis, as z o n a s d e s t i n a -

das à armazenagem, ao a b a s t e c i m e n t o e às pequenas i n -

dústrias locais, e p o r f i m , a estação ferroviária, f o r a m - s e

n a t u r a l m e n t e o r d e n a n d o e d i s p o n d o ao l o n g o do e i x o

transversal que passou assim a ser o eixo m o n u m e n t a l do

sistema. L a t e r a l m e n t e à interseção d o s dois eixos, m a s

participando f u n c i o n a l m e n t e e em t e r m o s de c o m p o s i -

ç ã o u r b a n í s t i c a do eixo m o n u m e n t a l , localizaram-se o

120
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

s e t o r bancário e comercial, o s e t o r dos e s c r i t ó r i o s de e m -

presas e p r o f i s s õ e s liberais, e ainda os amplos setores de

varejo comercial.

5 — O c r u z a m e n t o desse eixo m o n u m e n t a l , de c o t a

inferior, c o m o eixo rodoviário-residencial i m p ô s a cria-

ç ã o de uma grande plataforma liberta do tráfego que não

se destine ao e s t a c i o n a m e n t o ali, remanso onde se c o n -

centrou logicamente o c e n t r o de diversões da cidade, c o m

o s cinemas, o s teatros, o s restaurantes e t c .

6 — O tráfego destinado aos demais setores p r o s -

segue, o r d e n a d o em m ã o única, na área térrea i n f e r i o r

c o b e r t a pela plataforma e entalada n o s dois t o p o s mas

aberta nas faces maiores, área utilizada em grande parte

para o e s t a c i o n a m e n t o de veículos e onde se localizou a

estação rodoviária interurbana, acessível aos passageiros

pelo nível superior da plataforma. Apenas as pistas de

velocidade mergulham, já e n t ã o subterrâneas, na parte

central desse piso inferior que se espraia em declive até

se nivelar c o m a esplanada do s e t o r dos m i n i s t é r i o s .

7 — D e s s e m o d o e c o m a introdução de três trevos

121
ARQUITETURA

c o m p l c m e n t a r e s em cada ramo do eixo rodoviário e o u -

tras tantas passagens de nível inferior, o tráfego de a u t o -

móveis e ônibus se processa t a n t o na parte central q u a n t o

n o s s e t o r e s residenciais sem qualquer cruzamento, Para o trá-

fego de caminhões estabeleceu-se um sistema secundário

a u t ô n o m o c o m c r u z a m e n t o s sinalizados mas sem cruza-

m e n t o ou interferência alguma c o m o sistema anterior,

salvo acima do s e t o r esportivo, e que acede aos e d i f í c i o s

do s e t o r comercial ao nível do subsolo, c o n t o r n a n d o o

c e n t r o cívico em c o t a inferior, c o m galerias de acesso p r e -

vistas no terrapleno.

8 — Fixada assim a rede geral do tráfego de a u t o -

móvel, estabeleceram-se, t a n t o n o s setores centrais c o m o

n o s residenciais, tramas a u t ô n o m a s para o t r â n s i t o local

dos pedestres a f i m de garantir-lhes o uso livre do chão,

sem c o n t u d o levar tal separação a e x t r e m o s s i s t e m á t i c o s

e antinaturais, p o i s não se deve esquecer que o a u t o m ó -

vel, hoje em dia, deixou de ser o i n i m i g o inconciliável do

h o m e m , d o m e s t i c o u - s e , já faz, p o r assim dizer, parte da

família. E l e só se desumaníza, readquirindo vis-à-vis do

122
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

pedestre feição ameaçadora e hostil, quando incorporado

à massa anônima do tráfego. Há então que separá-los, mas

sem perder de vista que em determinadas condições e para

comodidade recíproca a coexistência se i m p õ e .

9 — Veja-se agora c o m o nesse arcabouço de circula-

ção ordenada se integram e articulam os vários setores.

D e s t a c a m - s e n o c o n j u n t o o s edifícios destinados aos

poderes fundamentais que, sendo em n ú m e r o de três e

a u t ô n o m o s , encontraram no triângulo eqüilátero, vincu-

lado à arquitetura da mais r e m o t a antigüidade, a f o r m a

elementar apropriada para c o n t ê - l o s . C r i o u - s e e n t ã o um

terrapleno triangular, c o m arrimo de pedra à vista, s o b r e -

levado na campina circunvizinha a que se t e m acesso pela

própria rampa de auto-estrada que c o n d u z à residência e

ao a e r o p o r t o . Em cada ângulo dessa praça — Praça d o s

T r ê s Poderes, poderia chamar-se — localizou-se u m a das

casas, ficando as do governo e do S u p r e m o Tribunal na

base e a do C o n g r e s s o no vértice, c o m frente igualmente

para uma ampla esplanada disposta n u m segundo terra-

pleno, de f o r m a retangular e nível mais alto, de a c o r d o

123
ARQUITETURA

c o m a topografia local, igualmente arrimado de pedras em

t o d o o seu perímetro. A aplicação, em t e r m o s atuais, des-

sa técnica oriental milenar dos terraplenos garante a c o e -

são do c o n j u n t o e lhe confere uma ênfase m o n u m e n t a l

imprevista. Ao longo dessa esplanada — o Mall, dos ingle-

ses —, extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e

a desfiles, foram d i s p o s t o s os m i n i s t é r i o s e autarquias.

124
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

Os das Relações E x t e r i o r e s e J u s t i ç a ocupando os c a n t o s

i n f e r i o r e s , c o n t í g u o s ao e d i f í c i o do C o n g r e s s o e c o m

enquadramento c o n d i g n o , o s ministérios militares c o n s -

t i t u i n d o uma praça a u t ô n o m a , e os demais ordenados em

seqüência — t o d o s c o m área privativa de estacionamen-

to —, sendo o ú l t i m o o da Educação, a f i m de ficar vizi-

n h o do s e t o r cultural, tratado à maneira de parque para

melhor ambientação dos museus, da biblioteca, do planetá-

rio, das academias, dos institutos e t c , setor este também

c o n t í g u o à ampla área destinada à Cidade Universitária

c o m o respectivo H o s p i t a l de Clínicas, e onde t a m b é m se

prevê a instalação do C o n s e r v a t ó r i o . A C a t e d r a l f i c o u

igualmente localizada nessa esplanada, mas numa praça

a u t ô n o m a disposta lateralmente, não só p o r questão de

p r o t o c o l o , u m a vez que a Igreja é separada do E s t a d o ,

c o m o p o r uma q u e s t ã o de escala, t e n d o - s e em vista valo-

rizar o m o n u m e n t o , e ainda, principalmente, p o r outra

razão de o r d e m arquitetônica: a perspectiva de c o n j u n t o

da esplanada deve prosseguir desimpedida até além da

plataforma onde os dois eixos u r b a n í s t i c o s se cruzam.

125
ARQUITETURA

10 — Nesca plataforma onde, como se viu anterior-


mente, o tráfego é apenas local, situou-se então o centro
de diversões da cidade (mistura em termos adequados de
Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées). A face
da plataforma debruçada sobre o setor cultural e a es-
planada dos ministérios não foram edificadas, com exce-
ção de uma eventual casa de chá e da Ópera, cujo acesso
tanto se faz pelo próprio setor de diversões como pelo
setor cultural contíguo, em plano inferior. Na face fron-
teira foram concentrados os cinemas e teatros, cujo ga-
barito se fez baixo e uniforme, constituindo assim o
conjunto deles um corpo arquitetônico contínuo, com
galeria, amplas calçadas, terraços e cafés, servindo as res-
pectivas fachadas em toda a altura de campo livre para a
instalação de painéis luminosos de reclame. As várias ca-
sas de espetáculo estarão ligadas entre si por travessas no
gênero tradicional da rua do Ouvidor, das vielas venezia-
nas ou de galerias cobertas (arcadas) e articuladas a pe-
quenos pátios com bares e cafés, e loggias na parte dos
fundos com vista para o parque, tudo no propósito de

12Ó
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

propiciar ambiente adequado ao convívio e à expansão. O

pavimento térreo do setor central desse c o n j u n t o de tea-

tros e cinemas manteve-se vazado em toda a sua exten-

são, salvo os núcleos de acesso aos pavimentos superiores,

a fim de garantir continuidade à perspectiva, e os andares

se previram envidraçados nas duas faces para que os res-

taurantes, clubes, casas de chá e t c . t e n h a m vista, de um

lado para a esplanada inferior, e de o u t r o para o aclive do

parque no p r o l o n g a m e n t o do eixo m o n u m e n t a l e onde

ficaram localizados os h o t é i s comerciais e de t u r i s m o e,

mais acima, para a torre m o n u m e n t a l das estações r a d i o -

emissoras e de televisão, tratada c o m o e l e m e n t o plástico

integrado na c o m p o s i ç ã o geral. Na parte central da pla-

t a f o r m a , p o r é m d i s p o s t o lateralmente, acha-se o saguão

da estação rodoviária c o m bilheteria, bares, restaurantes

e t c , c o n s t r u ç ã o baixa, ligada p o r escadas rolantes ao bali

inferior de embarque separado por envidraçamento do cais

p r o p r i a m e n t e d i t o . O sistema de m ã o única obriga os

ô n i b u s na saída a uma volta, n u m ou n o u t r o sentido, fora

da área coberta pela plataforma, o que permite ao viajan-

127
ARQUITETURA

te uma última vista do eixo m o n u m e n t a l da cidade antes

de entrar no eixo rodoviário-residencial — despedida psi-

cologicamente desejável. Previram-se igualmente nesta ex-

tensa plataforma destinada principalmente, tal c o m o no

piso térreo, ao estacionamento de automóveis duas a m -

plas praças privativas dos pedestres, uma fronteira ao tea-

tro da Ó p e r a e outra, simetricamente disposta, em frente

a um pavilhão de pouca altura, debruçado sobre os jar-

dins do setor cultural e destinado a restaurante, bar e casa

de chá. N e s t a s praças, o p i s o das pistas de rolamento,

sempre de sentido único, foi ligeiramente sobrelevado em

larga extensão, para o livre cruzamento dos pedestres n u m

e n o u t r o sentido, o que permitirá acesso franco e direto

t a n t o aos setores do varejo comercial q u a n t o ao setor dos

bancos e e s c r i t ó r i o s .

11 — Lateralmente a esse setor central de diversões,

e articulados a ele, e n c o n t r a m - s e dois grandes núcleos

destinados exclusivamente ao comércio — lojas e magazi-

nes, e dois setores d i s t i n t o s , o bancário-comercial, e o dos

e s c r i t ó r i o s para profissões liberais, representações e e m -

128
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

presas, onde f o r a m localizados, respectivamente, o B a n c o

do Brasil e a sede dos C o r r e i o s e Telégrafos. E s t e s n ú -

cleos e setores são acessíveis aos automóveis diretamente

das respectivas pistas, e aos pedestres p o r calçadas sem

cruzamento, e dispõem de a u t o p o r t o s para estacionamen-

to em dois níveis, e de acesso de serviço pelo subsolo, c o r -

respondente a o p i s o inferior d a plataforma central. N o

s e t o r d o s bancos, tal c o m o n o dos escritórios, previram-

se três b l o c o s altos e quatro de m e n o r altura, ligados entre

si p o r extensa ala térrea c o m sobreloja, de m o d o a p e r m i -

t i r i n t e r ç o m u n i c a ç ã o c o b e r t a e amplo espaço para i n s t a -

lação de agências bancárias, agências de empresas, cafés,

restaurantes etc. Em cada núcleo comercial, propõe-se uma

seqüência ordenada de b l o c o s baixos e alongados e um

maior, de igual altura dos anteriores, t o d o s interligados

p o r um amplo c o r p o térreo c o m lojas, sobrelojas e galeri-

as. D o i s braços elevados da pista de c o n t o r n o p e r m i t e m ,

aqui, acesso franco c o m pedestres.

12 — O s e t o r esportivo, c o m extensíssíma área d e s -

tinada exclusivamente ao e s t a c i o n a m e n t o de automóveis,

129
ARQUITETURA

instalou-se entre a praça da municipalidade e a torre ra-

d i o e m i s s o r a , q u e s e prevê d e p l a n t a t r i a n g u l a r , c o m

embasamento monumental de c o n c r e t o aparente até o piso

d o s estúdios e mais instalações, e superestrutura m e t á l i -

ca c o m mirante localizado a meia altura. De um lado o

estádio e mais dependências, t e n d o aos f u n d o s o J a r d i m

B o t â n i c o ; do o u t r o o h i p ó d r o m o c o m as respectivas t r i -

bunas e vila hípica e, c o n t í g u o , o Jardim Z o o l ó g i c o , c o n s -

t i t u i n d o estas duas imensas áreas verdes, simetricamente

dispostas em relação ao eixo m o n u m e n t a l , c o m o que os

p u l m õ e s da nova cidade.

1 3 — N a praça municipal, instalaram-se a P r e f e i t u -

ra, a Polícia Central, o C o r p o de B o m b e i r o s e a A s s i s t ê n -

cia Pública. A penitenciária e o hospício, c o n q u a n t o

afastados do c e n t r o urbanizado, f a z e m igualmente parte

deste setor.

14 — Acima do setor municipal f o r a m dispostas as

garagens da viação urbana, em seguida, de u m a banda e

de outra, os quartéis, n u m a larga faixa transversal ao s e -

t o r destinado ao a r m a z e n a m e n t o e à instalação das p e -

130
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

quenas indústrias de interesse local, c o m setor residencial

a u t ô n o m o , zona esta rematada pela estação ferroviária e

articulada igualmente a um d o s r a m o s da rodovia d e s t i -

nada aos c a m i n h õ e s .

15 — Percorrido assim de ponta a ponta esse eixo dito

monumental, vê-se que a fluência e unidade do traçado,

desde a praça do G o v e r n o até a praça Municipal, não exclui

a variedade, e cada setor, p o r assim dizer, vale p o r si só c o m o

o r g a n i s m o plasticamente a u t ô n o m o n a c o m p o s i ç ã o d o

c o n j u n t o . Essa autonomia cria espaços adequados à escala

do h o m e m e permite o diálogo monumental localizado, sem

prejuízo do desempenho arquitetônico de cada setor na har-

moniosa integração urbanística do t o d o .

16 — Q u a n t o ao problema residencial, ocorreu a s o -

lução de se criar uma seqüência contínua de grandes qua-

dras dispostas, em ordem dupla ou singela, de a m b o s os

lados da faixa rodoviária, e emolduradas p o r uma larga c i n -

ta densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo

em cada quadra determinada espécie vegetal, c o m chão gra-

mado e uma cortina suplementar intermitente de arbustos

131
ARQUITETURA

e folhagens, a f i m de resguardar melhor, qualquer que seja

a posição do observador, o c o n t e ú d o das quadras, visto

sempre num segundo plano ê c o m o que a m o r t e c i d o na

paisagem. Disposição que apresenta a dupla vantagem de

garantir a ordenação urbanística m e s m o quando varia a

densidade, categoria, padrão ou qualidade arquitetônica dos

edifícios, e de oferecer aos moradores extensas faixas s o m -

132
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

breadas para passeio e lazer, independentemente das áreas

livres previstas no interior das próprias quadras.

D e n t r o dessas "superquadras" o s b l o c o s residenciais

podem dispor-se de maneira mais variada, obedecendo, p o -

rém, a dois p r i n c í p i o s gerais: gabarito m á x i m o u n i f o r m e ,

talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do t r á f e g o

de veículos do trânsito de pedestres, m o r m e n t e o acesso

à escola primária e às comodidades existentes no interior

de cada quadra.

Ao f u n d o das quadras estende-se a via de serviço para

o tráfego de caminhões, destinando-se ao longo dela a frente

oposta às quadras à instalação de garagens, oficinas, d e -

p ó s i t o s de c o m é r c i o em grosso e t c , e reservando-se uma

faixa de terreno, equivalente a uma terceira ordem de qua-

dras, para floricultura, horta e pomar. Entaladas entre essa

via de serviço e as vias do eixo rodoviário, intercalaram-se

então largas e extensas faixas c o m acesso alternado, ora p o r

uma, ora p o r outra, e onde se localizaram a igreja, as e s c o -

las secundárias, o cinema e o varejo do bairro, disposto c o n -

f o r m e a sua classe ou natureza.

133
ARQUITETURA

O mercadinho, os açougues, as vendas, quitandas, ca-

sas de ferragens e t c , na primeira metade da faixa corres-

pondente ao acesso de serviço; as barbearias, cabeleireiros,

modistas, confeitarias e t c , na primeira seção da faixa de

acesso privativa dos automóveis e ônibus, onde se e n c o n -

tram igualmente os p o s t o s de serviço para venda de g a s o -

lina. As lojas dispõem-se em renque c o m vitrinas e passeio

c o b e r t o na face fronteira às cintas arborizadas de enqua-

dramento dos quarteirões e privativas dos pedestres, e o

estacionamento na face oposta, c o n t í g u o às vias de acesso

motorizado, prevendo-se travessas para ligação de uma parte

a o u t r a , f i c a n d o assim as l o j a s geminadas duas a duas,

embora o seu c o n j u n t o constitua um corpo só.

Na c o n f l u ê n c i a das q u a t r o quadras l o c a l i z o u - s e a

igreja do bairro, e aos f u n d o s dela as escolas secundárias,

ao passo que, na parte da faixa de serviço fronteira à r o -

dovia, se previu o cinema, a f i m de t o r n á - l o acessível a

quem proceda de o u t r o s bairros, ficando a extensa área

livre intermediária destinada ao clube da juventude, c o m

campo de j o g o s e recreio.

134
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

1 7 — A gradação social poderá ser dosada facilmente,

a t r i b u i n d o - s e maior valor a determinadas quadras c o m o ,

p o r exemplo, às quadras singelas c o n t í g u a s ao s e t o r das

embaixadas, s e t o r que se estende de a m b o s os lados do

eixo principal paralelamente ao eixo rodoviário, c o m ala-

meda de acesso a u t ô n o m o e via de serviço para o tráfego

de c a m i n h õ e s c o m u m às quadras residenciais. E s s a ala-

meda, p o r assim dizer, privativa do bairro das embaixa-

das e legações, se prevê edificada apenas n u m d o s lados,

d e i x a n d o - s e o o u t r o c o m a vista d e s i m p e d i d a sobre a

paisagem, excetuando-se o hotel principal localizado nesse

s e t o r e p r ó x i m o do c e n t r o da cidade. No o u t r o lado do

eixo rodoviário-residencial, as quadras c o n t í g u a s à r o d o -

via serão naturalmente mais valorizadas que as quadras

internas, o que permitirá as gradações próprias do regi-

me vigente; c o n t u d o , o agrupamento delas, de quatro em

quatro, propicia n u m c e r t o grau a coexistência social, evi-

t a n d o - s e assim uma indevida e indesejável estratifícação.

E, seja c o m o for, as diferenças de padrão de uma quadra

a o u t r a serão neutralizadas p e l o p r ó p r i o a g e n c i a m e n t o

135
ARQUITETURA

urbanístico p r o p o s t o , e não serão de natureza a afetar o

c o n f o r t o social a eme t o d o s t ê m direito. Elas decorrerão

apenas de uma m a i o r ou m e n o r densidade, do m a i o r ou

m e n o r espaço atribuído a cada indivíduo e a cada família,

da escolha dos materiais e do grau e requinte do acaba-

m e n t o . N e s t e sentido deve-se impedir a enquistação de

favelas t a n t o na periferia urbana q u a n t o na rural. C a b e à

c o m p a n h i a urbanizadora prover, d e n t r o do esquema p r o -

p o s t o , acomodações decentes e e c o n ô m i c a s para a t o t a l i -

dade da população.

18 — Previram-se igualmente setores ilhados, c e r -

cados de arvoredo e de campo, destinados a l o t e a m e n t o

para casas individuais, sugerindo-se uma disposição d e n -

tada em cremalheira, para que as casas construídas n o s

l o t e s de t o p o se destaquem na paisagem, afastadas umas

das outras, disposição que ainda permite acesso a u t ô n o -

mo de serviço para t o d o s os lotes. E admitiu-se igual-

m e n t e a c o n s t r u ç ã o eventual de casas avulsas isoladas de

a l t o padrão a r q u i t e t ô n i c o — o que não implica tamanho

— estabelecendo-se porém c o m o regra, nestes casos, o

136
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

a f a s t a m e n t o m í n i m o de um q u i l ô m e t r o de casa a casa, o

que acentuará o caráter excepcional de tais c o n c e s s õ e s .

19 — Os cemitérios localizados nos extremos do eixo

rodoviário-residencial evitam aos cortejos a travessia do centro

urbano. Terão chão de grama e serão convenientemente

arborizados, c o m sepulturas rasas e lápides singelas, à ma-

neira inglesa, tudo desprovido de qualquer ostentação.

20 — Evitou-se a localização dos bairros residenciais

na orla da lagoa, a fim de preservá-la intata, tratada c o m

b o s q u e s e c a m p o s de feição naturalista e rústica para os

passeios e amenidades bucólicas de toda a população ur-

bana. Apenas o s c l u b e s e s p o r t i v o s , o s r e s t a u r a n t e s , o s

lugares de recreio, os balneários e núcleos de pesca p o d e -

rão chegar à beira d*água. O clube de g o l f e s i t u o u - s e na

extremidade leste, c o n t í g u o à residência e ao hotel, a m -

b o s em c o n s t r u ç ã o , e o Iate C l u b na enseada vizinha, e n -

tremeados p o r denso bosque que se estende até a margem

da represa, bordejada nesse t r e c h o pela alameda de c o n -

t o r n o que intermitentemente se desprende da sua orla para

embrenhar-se pelo campo que se pretende eventualmente

137
ARQUITETURA

f l o r i d o e m a n c h a d o de arvoredo. E s s a estrada se articula

ao e i x o rodoviário e t a m b é m à pista a u t ô n o m a de acesso

direto do a e r o p o r t o ao c e n t r o cívico, p o r o n d e entrarão

na c i d a d e os v i s i t a n t e s i l u s t r e s , p o d e n d o a r e s p e c t i v a

saída processar-se, c o m vantagem, p e l o p r ó p r i o eixo r o -

doviário-residencial. P r o p õ e - s e , ainda, a localização do ae-

r o p o r t o d e f i n i t i v o na área interna da represa, a fim de

evitar-lhe a travessia ou o c o n t o r n o .

21 — Q u a n t o à numeração urbana, a referência deve

ser o eixo m o n u m e n t a l , d i s t r i b u i n d o - s e a cidade em m e -

tades Norte e Sul: as quadras seriam assinaladas p o r n ú -

meros, os b l o c o s residenciais p o r letras, e finalmente o

n ú m e r o do apartamento na f o r m a usual, assim, p o r exem-

p l o , N - Q 3 - L ap. 2 0 1 . A designação d o s b l o c o s e m rela-

ção à entrada da quadra deve seguir da esquerda para a

direita, de a c o r d o c o m a n o r m a .

22 — R e s t a o problema de c o m o dispor do terreno e

t o r n á - l o acessível ao capital particular. E n t e n d o que as

quadras não devem ser loteadas, sugerindo, em vez da ven-

da de lotes, a venda de quotas de terreno, c u j o valor depende-

138
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

rá* do setor em causa e do gabarito, a fim de não entravar o

planejamento atual e possíveis remodelações futuras no

delineamento interno das quadras. E n t e n d o t a m b é m que

esse planejamento deveria de preferência anteceder a venda

das quotas, mas nada impede que compradores de um n ú -

mero substancial de quotas submetam à aprovação da c o m -

panhia projeto próprio de urbanização de uma determinada

quadra, e que, além de facilitar aos incorporadores a aqui-

sição de quotas, a própria companhia funcione, em grande

parte, c o m o incorporadora. E entendo igualmente que o

preço das quotas, oscilável c o n f o r m e a procura, deveria

incluir uma parcela c o m taxa fixa, destinada a cobrir as des-

pesas do projeto, no intuito de facilitar t a n t o o convite a

determinados arquitetos c o m o a abertura de concursos para

u r b a n i z a ç ã o e e d i f i c a ç ã o das q u a d r a s q u e n ã o f o s s e m

projetadas pela divisão de arquitetura da própria c o m p a -

nhia. E sugiro ainda que a aprovação dos projetos se p r o -

cesse em duas etapas — anteprojeto e p r o j e t o definitivo,

no i n t u i t o de permitir seleção prévia e melhor controle da

qualidade das construções.

139
ARQUITETURA

Da mesma f o r m a quanto ao setor do varejo comercial

e aos setores bancários e dos escritórios das empresas e

profissões liberais, que deveriam ser projetados previamente

de m o d o a se poderem fracionar em subsetores e unidades

autônomas, sem prejuízo da integridade arquitetônica, e

assim se submeterem parceladamente à venda no mercado

imobiliário, podendo a construção propriamente dita, ou

parte dela, correr por conta dos interessados ou da c o m p a -

nhia, ou ainda, conjuntamente.

23 — R e s u m i n d o , a solução apresentada é de fácil

apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza

do risco original, o que não exclui, c o n f o r m e se viu, a va-

riedade no tratamento das partes, cada qual concebida s e -

gundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando

daí a harmonia de exigência de aparência contraditória. É

assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficien-

t e , acolhedora e íntima. E ao m e s m o t e m p o derramada e

concisa, bucólica e urbana, lírica e f u n c i o n a l O tráfego de

automóveis se processa sem cruzamentos, e se restitui o

chão, na justa medida, ao pedestre. E por ter o arcabouço

140
BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA

tão claramente definido, é de fácil execução: dois eixos, dois

terraplenos, uma plataforma, duas pistas largas num senti-

do, uma rodovia no outro, rodovia que poderá ser construída

p o r partes — primeiro as faixas centrais c o m um trevo de

cada lado, depois as pistas laterais, que avançariam c o m o

desenvolvimento normal da cidade. As instalações teriam

sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de

rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paísagis-

t i c a m e n t e definidas, c o m as respectivas cintas plantadas

de grama e desde logo arborizadas, mas sem c i l ç a m e n t o de

qualquer espécie, nem meios-fios. De uma parte, técnica

rodoviária; de outra, técnica paisagística de parques e jar-

dins.

Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade-parque.

S o n h o arquissecular do patriarca.

José Bonifácio, em i ÔZJ, propõe a transferência da capital para


Coiás e sugere o nome de BRASÍLIA.

141
APÊNDICE

O desenvolvimento científico e tecnológico não éo oposto da na-


tureza, mas a própria natureza que, através do seu estado lúcido, que
somos nós, revela o lado oculto, virtual.

O desenvolvimento c i e n t í f i c o e t e c n o l ó g i c o não se

c o n t r a p õ e à natureza, de que é, na verdade, a face o c u l t a

— c o m todas as suas potencialidades virtuais — revela-

143
ARQUITETURA

da através do i n t e l e c t o do h o m e m , vale dizer, através da

própria natureza no seu estado de lucidezj de consciência. O

h o m e m é, então, o elo racional entre dois abismos, o micro

e o m a c r o c o s m o s , a m b o s f e n ô m e n o s naturais, c u j o s p r o -

d u t o s " e l a b o r a d o s " são a contrapartida do f e n ô m e n o na-

tural "palpável".

Assim t e m o s , de um lado, a natureza ao alcance dos sen-

tidos, ao alcance da mão; e, de o u t r o , a natureza ao alcance do

intelecto e da tecnologia. O i n t e l e c t o e a consciência do h o -

m e m são a quinta-essência da natureza tomada como um todo.


R a z ã o p o r que t u d o se liga e entrosa — i m a n e n t e m e n t e

ou transcendentalmente — e o desenvolvimento c i e n t í -

f i c o e t e c n o l ó g i c o , quando livre de seguir sua própria t e n -

dência em busca de uma conclusão normal, não pode ser

" c o n t r a " o h o m e m , uma vez que ele é a peça-chave desse

p r o c e s s o , no qual o drama da vida se insere. N a t u r a l m e n -

te intervenções constantes, devidas a toda espécie de in-

t e r e s s e s — e c o n ô m i c o s , comerciais, políticos, ideológicos

— , atuam n o sentido d e afastar o desenvolvimento c i e n -

t í f i c o e t e c n o l ó g i c o do seu curso natural. M a s não se pode

144
APÊNDICE

manter, indefinidamente, tais desvios: o h o m e m é trazi-

do de volta, c o m o que atraído p o r uma " i m p o n d e r á v e l "

força de gravidade que o faz perder, então, gradualmente,

aqueles impulsos centrífugos, e aceitar, c o m o por consenso,

a resultante de uma imposição c i e n t í f i c o - t e c n o l ó g i c a in-

trínseca.

S e , c o n f u n d i d o pelas múltiplas contradições decor-

rentes desses desvios da normalidade racional, científica

e tecnológica, o h o m e m tenta deter-se a m e i o caminho, o

resultado é o caos. E s t e é, precisamente, o estado em que

os n e g ó c i o s do m u n d o — e o próprio m u n d o — h o j e se

encontram.

N ã o se deve, contudo, desesperar. É justamente quan-

do a perplexidade atinge seu clímax que, p o r e f e i t o do

que talvez se pudesse chamar "lei das resultantes conver-

g e n t e s " , novas perspectivas se abrem de repente em meio

à configuração intricada e ilógica d o s a c o n t e c i m e n t o s , e

t u d o parece, de novo, fácil e claro. O desenvolvimento

c i e n t í f i c o e t e c n o l ó g i c o e a ecologia, i n t e l i g e n t e m e n t e

c o n f r o n t a d o s , são sempre compatíveis.

145
O R I E N T A Ç Ã O PARA O P R O F E S S O R

1 — OBJETIVOS GERAIS:

— Identificar a Arquitetura c o m o arte, valorizan-


d o - a e n q u a n t o representativa da nossa cultura.

— C o m p r e e n d e r a importância da Arquitetura den-

t r o do c o n t e x t o h i s t ó r i c o e social.

— Valorizar o trabalho a r q u i t e t ô n i c o , identifican-

d o - o c o m ideais, valores e necessidades sociais.

2 — OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

— Identificar as principais características de e s t i -


los a r q u i t e t ô n i c o s e sua época.

— C o m p r e e n d e r a interação homem/meio ambien-

te e o reflexo no equilíbrio e c o l ó g i c o .

— Identificar t i p o s de habitação, localização, m a -

teriais de c o n s t r u ç ã o , levando em consideração as n e c e s -

sidades de abrigo e proteção.

— C o n h e c e r as características de sua comunidade,

147
ARQUITETURA

estabelecendo comparações c o m as de outras c o m u n i d a -

des e em especial c o m as de Brasília.

3 — S U G E S T Ã O DE A T I V I D A D E S :

— Promover debates sobre temas apresentados pelo

autor, em especial, n o s t e x t o s :

• Conceituação • Tradição local • Ruptura e

R e f o r m u l a ç ã o • Apêndice

— Observar variações de forma, dimensão e relação

de espaço.

— Representar espaços, através de maquetes, dese-

nhos, croquis, gráficos, tabelas e linhas de espaço.

— Promover entrevistas, excursões, pesquisas, aná-

lise de plantas, organização de murais e exposições visando

à compreensão dos processos relativos à "criação", em ter-

mos de arquitetura.

— Reunir informações sobre a vida e a obra do Alei-

jadinho, O s c a r N i e m e y e r e o u t r o s .

— C o m p a r a r a vida da comunidade c o m o u t r o s t i -

pos de vida, atuais ou não.

— Procurar conhecer, através de publicações, as cida-

des históricas brasileiras, o R i o antigo e o R i o moderno, Brasília.

148
GLOSSÁRIO

À bout de forces: exaurido, s e m forças.

Ábiside, abiside: extremidade, em semicírculo, de uma basílica

romana, e, por analogia, do coro em igrejas não brasileiras.

Aduelas: pedra em f o r m a de cunha secionada que se e m -

prega na c o n s t r u ç ã o de arcos e abóbadas de cantaria. F a -

ces laterais de um vão.

Baldaquino: baldaquim. Espécie de palio ou dossel. O b r a

de arquitetura ou de marcenaria que serve de coroa a um

t r o n o , a um altar.

Carrure: largura dos o m b r o s . Figurado: vigor, nitidez, fran-

queza.

Cornija: modulação que assenta sobre o friso de uma obra.

Molduras sobrepostas, que formam saliências na parte su-

perior da parede, porta e t c .

149
ARQUITETURA

C o r u c h é u : remate piramidal do cunhai de edifício.

E m p e n a : porção triangular acima do forro formada pelas

duas águas do telhado.

Enlightenment: I l u m i n i s m o . C o n j u n t o de opiniões p r e c o -

nizadas no século X V I I I , visando " i l u m i n a r " e liberar as

pessoas do p r e c o n c e i t o e da superstição.

Frechal: viga q u e arremata o t o p o das paredes e que serve

de a p o i o aos caibros e vigas do telhado.

Foyer: lareira. Lar, família. Sala de espera, saguão (de um

teatro). Foco. Sede.

Impluvium: no átrio das casas romanas espaço aberto às

águas pluviais, que caíam numa abertura central e retan-

gular chamada complúvio.

Mainel: face interna do pé-díreito de um arco. Pilarete

q u e decompõe um vão em seções menores.

M u x a r a b i o u muxarabiê: balcão m o u r i s c o , p r o t e g i d o e m

t o d a a altura da janela p o r treliça de madeira, através do

150
GLOSSÁRIO

q u a l se p o d e ver sem ser v i s t o . ( O s muxarabiês, t r a z i -

d o s p e l o s p o r t u g u e s e s para o Brasil, ainda h o j e p o d e m

ser v i s t o s em residências baianas e m i n e i r a s do t e m p o

colonial.)

Pedigree: genealogia de um animal de raça. P o r analogia, p u -

reza de estilo.

Perístilo: galeria de colunas isoladas, à frente de um edi-

f í c i o . C o n j u n t o de colunas da fachada de um edifício.

P l i n t o : peça quadrangular que serve de base a uma coluna

ou a um pedestal.

Puzzle: adivinhação, enigma, enredo, quebra-cabeça, e m -

baraço, perplexidade.

Reixas: trama de ripas cruzadas.

R e t á b u l o : decoração de madeira, de pedra ou de pintura

que reveste a parede p o r detrás do altar.

R o c a l h a : do francês rocaille, roc, rocha. F o r m a s decorativas

interpretadas dos c o n t o r n o s de pedras, c o n c h a s e t c .

151
ARQUITETURA

Tacaniça: lanço de telhado m e n o r em telhado de quatro

águas.

T r a n s e p t o : galeria transversal de uma igreja, que separa a

capela-mor da nave e f o r m a os braços da c r u z .

Tridinium: sala de refeições dos antigos romanos, na qual

havia três leitos inclinados, d i s p o s t o s em volta de uma

mesa.

152
LUCIO COSTA (1901-1998)
O percurso
(resumo organizado por Maria Elisa Costa com supervisão de Lúcio Costa)

Anos 10

Nascido em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1 9 0 2 , filho do enge-


nheiro naval Joaquim Ribeiro da Costa, natural de Salvador, Bahia, e de
Alina Ferreira da Costa, natural de Manaus, Amazonas.

C o m p o u c o s meses de idade vem para o R i o de Janeiro c o m os pais,


retornando à Europa aos 8 anos, onde permanece de 1910 a 1916 e cursa
a escola básica (Newcastle-on-Tyne na Inglaterra e Montreux na Suíça),

Volta ao Brasil definitivamente aos 15 anos quando é matriculado pelo pai


— que "estranhamente queria ter um filho artista" — na Escola Nacional de
Belas-Artes, no R i o de Janeiro, em 1917.

Anos lo

Ainda estudante, trabalha nas firmas Rabecchi e Escriptorio Technico


Heitor de Mello.

1 9 2 4 - Forma-se arquiteto.

192.1 — Antes de concluir o curso, tem seu primeiro escritório c o m


Fernando Valentim. "Era a época do chamado ecletismo arquitetônico, os
estilos 'históricos' eram aplicados sansfaçon de acordo com a natureza do
programa em causa", e também do movimento "neocolonial", patrocinado
por José Marianno Filho, visão acadêmica e equivocada da arquitetura
colonial brasileira.

1911/11 — Primeiro projeto construído: Casa Rodolfo Chambelland,


Rio de Janeiro. Colaboração Evaristo de Sá.

1 9 2 4 — Primeiro contato direto c o m a arquitetura autêntica do período


colonial em viagem de estudos à Diamantina. Revelação.
"Li chegando» caí em cheio no passado, no seu sentido mais despojado,
mais puro; um passado de verdade, que era novo em folha para mim,"
( 9 2 6 / 2 7 — Viagem de um ano à Europa, a passeio, sem cogitar os movi-
mentos intelectuais de vanguarda que já ocorriam, inclusive na arquitetura.

1926729 — Não se sente satisfeito com a arquitetura que faz — dissociada


da verdade construtiva, ou seja, o contrário daquilo que viu e constatou
em Diamantina. Nessa época, por acaso, em revista não especializada, vê
foto da "casa modernista" de Gregori Warchavchilc, então exposta em São
Paulo. E a primeira revelação da potencialidade de uma arquitetura coeren-
te com as novas tecnologias construtivas.

Anos jo

í 9 j o — Ano da ruptura em termos profissionais, nitidamente representa-


da pelos dois projetos para uma mesma casa no Rio de Janeiro—casa E.
G. Fontes—, sendo um a "última manifestação de sentido eclético acadê-
mico", e o outro a "primeira proposição de sentido contemporâneo".

/ 9j o - Projeto de casa de campo para Fábio Carneiro de Mendonça.

' 93°— O governo Vargas decide renovar o ensino das artes no país, caben-
do a Lúcio, então com apenas 28 anos, a responsabilidade de reformular o
ensino das Belas-Artes, dirigindo a escola onde se formara seis anos antes.
Esta experiência dura menos de dois anos, interrompida por questões polí-
tico-administrativas, o que leva os alunos a um ano de greve.

193 1 — Ainda diretor da Escola de Belas-Artes faz o Salão de 19 3 1 , no


Rio de Janeiro, primeiro Salão oficial de Belas-Artes, onde expõem os
artistas plásticos de vanguarda, como Portínari, Guignard, Tarsila do
Amaral, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, entre outros.
1
93 '/j ~ Escritório com Gregori Warchavchilc, no Rio: casa Schwartz,
z

cujo terraço-jardim é o primeiro projeto do paisagista Roberto Burle Marx;


apartamentos proletários na Gamboa; casa Cesárío Coelho Duarte (pro-
jetos: Lúcio Costa; construção: Warchavchik & Lúcio Costa).

1 9 3 2 / 3 6 — Escritório com Carlos Leão. Período de trabalho escasso: a


clientela quer casas de "estilo" que já não consegue fazer. Projeta então
uma série de casas "teóricas" para lotes urbanos de tamanho padrão —
"Casas sem dono". Por outro lado, exatamente esta disponibilidade de
tempo permite o estudo a fundo da obra dos precursores—Gropius, Mies
van der Rohe e, sobretudo, a de Le Corbusier, com a qual se engaja de
forma apaixonada. Concomitantemente, amadurece a tomada de cons-
ciência política e social.

1934—Professor, pela única vez, na Universidade do Distrito Federal,


curso consolidado no ensaio Radies da nova arquitetura.

1934 — Projeto de vila operária em Monlevade. Minas Gerais, recusado.

í 936—Data fundamental para a moderna arquitetura brasileira. O minis-


tro Gustavo Capanema convida Lúcio Costa para projetar o edifício-sede do
recém-criado Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro. Lúcio
constitui uma equipe (Carlos Leão, Afonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira,
Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer) e é aprovado o primeiro projeto.
No entanto, como se trata da primeira oportunidade internacional de se
construir um edifício deste porte de acordo com os princípios da nova
doutrina de Le Corbusier, Lúcio insiste junto ao governo e consegue a vinda
do mestre ao Rio, por quatro semanas, para que avaliasse o projeto feito.

Le Corbusier propõe outro terreno, mais perto do mar, para o qual faz
belo risco que balizará o projeto definitivo no terreno inicial - único viável
— feito pelos arquitetos brasileiros desde a estaca zero e construído du-
rante a I Guerra Mundial. Le Corbusier só conheceu o projeto depois de
pronto quando veio ao Brasil, em 1963, para projetar a Embaixada da
França em Brasília. A vinda de Le Corbusier em 193 6 teve ainda influência
determinante na eclosão do gênio até então "incubado" de Oscar Niemeyer.

(937 — Início da colaboração no Serviço do Patrimônio Histórico e


Artístico Nacional - SPHAN - criado no mesmo ano. O primeiro traba-
lho para o SPHAN, contemporâneo ao projeto do Ministério da Educa-
ção, foi nas Missões Jesuítas, no sul do país, e dele resultou o projeto de
um pequeno museu, inovador no conceito e na forma. Esta colaboração
com Rodrigo M. F. de Andrade perdurou ao longo de 35 anos, até 1972,
quando se aposenta.

(937—Primoroso projeto para a Cidade Universitária, no Rio de Janeiro


(onde hoje fica o Jardim Zoológico), sumariamente recusado pelos
preconceicuosos responsáveis. (Prenuncio da Esplanada dos Ministérios
de Brasília.)

í gj 8 — Pavilhão do Brasil para a New York World's Fair de 19 3 9. que


propicia o lançamento internacional de Oscar Niemeyer, convidado a par-
ticipar do projeto.

1936/39 —Entre os trabalhos para o SPHAN, os ensaios Documentação


necessária e Notas sobre o mobiliário luso-brasileiro, além da definição de critérios
para o tombamento e proteção de bens de excepcional valor.

Anos 40

Vários projetos de arquitetura que caracterizam e confirmam a integração


das duas raízes fundamentais — a tradição autêntica e a renovação
arquitetônica:

• Conjunto de edifícios residenciais no Parque Guinle, Rio de Janeiro


(seis andares sobre pílotís abertos, fachada do poente protegida por
"claustra" em toda a extensão). Este conjunto de edifícios, no meio de um
parque, está na origem da concepção das superquadras de Brasília.

* Park Hotel, Friburgo, estado do Río, pequena pousada com estrutura


de madeira e alvenaria de pedra, belo espaço interno e inclusive os móveis
projetados por Lúcio.
* Residências Hungria Machado, no Rio, e Saavedra, em Corrêas, esta-
do do Rio.
Textos:

• Ensaio A arquitetura dos jesuítas no Brasil, para o SPHAN.

• Ensaio Considerações sobre arte contemporânea, só publicado em 1952 nos


Cadernos de Cultura do Ministério da Educação.

Intervenção urbana:

* Proposta de remanejamento do tráfego no Centro do Rio de Janeiro,


que resolveu, sem nenhuma obra e durante longo tempo, o problema dos
engarrafamentos constantes.
Anos jo

Arquitetura:

• Anteprojeto da Casa do Brasil na Cite Universitaire. Paris, proposta


que serviu de base ao projeto desenvolvido e executado por Le Corbusier.

• Sede social do Jockey Club Brasileiro, Rio de Janeiro - edifício com


garagem em todos os andares na parte central (700 vagas).

• Sede do Banco Aliança (hoje Itaú), Rio de Janeiro, Centro.


• Risco original para o altar do Congresso Eucarístico de 1955, desen-
volvido por Alcides da Rocha Miranda.

Textos:

• Depoimento sobre arquitetura no Rio de Janeiro na primeira metade


do século — "Muita construção, alguma arquitetura e um milagre" - para
o jornal Correio da Manhã.

• Ensaio Arquitetura de Antônio Francisco Lisboa, oAltijadinbo, para o SPHAN.


• Ensaio O arquiteto e a sociedade contemporânea, por solicitação da Unesco.

1 9 J 7 — Vence o concurso para o Plano-Piloto de Brasília, nova capital do


país, que viria a ser inaugurada três anos depois, em 1960.

Atuação internacional:

. Membro do "Grupo dos Cinco", que orientou o projeto da nova sede


da Unesco em Paris, junto com Gropius, Le Corbusier, Rogers e Mar-
kelius.

Anos 6o

1957/ 66 — Supervisão direta do desenvolvimento do Plano-Piloto de


Brasília, coordenado pelo engenheiro Augusto Guimarães Filho, indicado
por Lúcio Costa para assumir a tarefa.

1960 — Doutor Honoris Causa pela Universidade de Harvard.


tgôi — Tese O MOVO humanismo cientifico c tecnológico — Teoria das resultantes
convergentes, por solicitação do M.I.T. (Massachussets Institute of
Technology).

' 963 — Apartamento de cobertura para a filha Maria Elisa, Rio de Janeiro.

(964— Pavilhão do Brasil na XIII Trienal de Milão, cujo tema era o lazer.

1965 - Projeto das rampas de acesso ao Outeiro da Glória e restauro da


igreja. Rio de Janeiro, para o S P H A N .

1967 — Ensaio Proposte per Firenze, Itália.

/96a — Roteiro e texto para curta-metragem sobre Antônio Francisco


Lisboa, o Aleijadinho, realizado por Joaquim Pedro de Andrade.

1 9 6 9 - Plano-Piloto para a baixada de Jacarepaguá (Barra), Rio de Janeiro.

Anos 70
• Legião de Honra do governo francês, no grau de Commandeur.
• Proposta para um Museu de Ciência e Tecnologia no R i o de Janeiro.

• P r o p o s i ç õ e s relativas à expansão urbana de Salvador, Bahia -


notadamente a concepção de "quadras populares" c o m trama viária
losangular para resolver o problema dos Alagados.

• M o n u m e n t o a Estácio de Sá no Aterro do Flamengo, R i o de Janeiro.

• Projeto da Fonte da Torre de TV e das Praças de Pedestres da Rodoviá-


ria, Brasília.

• Casa T h i a g o de Mello, Barreirinha, Amazonas.

• Proposta urbana para a nova capital da Nigéria, com L o t t i e Nervi.

• Proposta para novo Pólo Urbano em São Luís, Maranhão.

• Atuação no Conselho Superior de Planejamento Urbano — C S P U —no


R i o de Janeiro, em que. entre outras coisas, impediu a construção de
edifícios altos na área em frente ao terminal Menezes Cortes, no Centro,
para assegurar a vista livre para o Convento de Santo Antônio.
Anos 8o

• Proposições para o agenciamento da Comiche, de Casablanca, a con-


vite do rei do Marrocos Hussein II.
• Casa para a filha Helena, Rio de Janeiro.

• Casa Edgard Duvivíer, Rio de Janeiro.


• Brasília revisitada, conjunto de recomendações relativas à preservação,
complementação, adensamento e expansão urbana de Brasília, apresenta-
das ao governador José Aparecido de Oliveira em 1986.

• Supervisão do desenvolvimento do projeto das quadras propostas para


os Alagados de Salvador em Brasília — as "Quadras Econômicas" , no
Guará, projeto desenvolvido pelo arquiteto Fernando Andrade,

Anos go

• Agenciamento interno do Espaço Lucío Costa proposto por Oscar


Niemeyer na Praça dos Três Poderes, Brasília. Projeto desenvolvido pelo
arquiteto Fernando Andrade.

• Concepção editorial e gráfica, textos, ilustrações, roteiro e diagramação


de seu único livro: Lúcio Costa—Registro de uma vivência (I * edição 1994.2 a

edição 1997, Empresa das Artes). Projeto gráfico desenvolvido por Maria
Elisa Costa.
Este livro foi impresso nas oficinas da
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S . A .
Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ
para a
EDITORA JOSÉ OLYMPIO L T D A .
emjulhode2006

74° aniversário desta Casa de livros, fundada em 29.11.1931