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arquitetura

arquitetura

SUMÁRI O

APRESENTAÇÃO

7

CONCEITUAÇÃO

1 7

TRADIÇÃO

OCIDENTAL

2 5

TRADIÇÃO

LOCAL

3 3

ANOTAÇÕES

AO CORRER DA LEMBRANÇA

41

INTERMEZZO — Catas Altas do Mato Dentro

75

INTERMEZZO — Rott am

Inn

85

ANTÔNI O FRANCISCO LISBOA, O ALEIJADINHO

87

RUPTURA

E REFORMULAÇÃO

10 3

EDIFÍCIO

GUSTAVO CAPANEMA

10 9

ADDENDUM

URBANÍSTIC O

115

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ARQUITETUR A

BRASÍLIA, CIDADE INVENTADA (Memória Descritiva)

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I 7

APÊNDICE

143

ORIENTAÇÃO PARA O PROFESSOR

147

GLOSSÁRIO

149

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APRESENTAÇÃ O

Na sucessão dos sintomas que prenunciavam o fim do regime de exceção, o restabelecimento da abertura e da ordem democrática, é justo assinalar o lançamento da Biblioteca Educação É Cultura. A iniciativa resultou de uma parceria do MEC-Fenam e e da Bloch Editores S.A., em 1980 . A publicação desses opúsculos, cada um de per st quase um vadt-mécum, era dirigida aos professores da rede de ensino médio, como ferramenta de informação a fim de despertar o interesse dos alunos para uma melhor com- preensão de suas vocações. Foram escolhidas figuras re- presentativas para a elaboração das monografias. Eram dez títulos : I. Realidade brasileira/Gilberto Freyre; 2. Literatura/ Josué Montello; 3. Música/Francisco Mignone ; 4* Folclore/ Maria de Lourdes Borges Ribeiro; 5. Cinema/Wilson Cu - nha; 6. Teatro I/Raymundo Magalhães Júnior; 7. Teatro II/

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ARQUITETUR A

Maria Clara Machado; 8. Artes plásticas I/Flávio D'Aquino; 9. Artes plásticas II/Wladimir Alves de Souza e, finalmente,

1 0 . Arquitetura/Lucio

Costa.

O aparecimento do volume IO — Arquitetura — inter- rompia o hiato provocado por razoável silêncio. Por esse

tempo, só tínhamos acesso à palavra de Lúcio Costa atra- vés de garimpagem em alguns poucos livros, entrevistas e escritos esparsos, sendo a principal fonte os importantes estudos publicados nos primeiros números da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) , iniciada

em

1937 -

C o m menos de sessenta páginas em sua edição ori- ginal, este pequeno grande livro é uma declaração de amor, um objeto de conquista e um manifesto. E perpassado por uma simplicidade calma e clara. E, sem ter essa in- tenção, naturalmente autobiográfico. O índice espicaça nossa curiosidade. Na "Conceituação", o livro nos mos - tra que a arquitetura é parte fundamental da criação ar- tística como manifestação normal de vida, constituindo uma espécie de "álbum de família" da humanidade. Ex -

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APRESENTAÇÃ O

plícita o desafio do artista, do técnico e do homem na adequação do meio físico e social. Conduz-nos a perce- ber a arquitetura como bem durável, concebido de ma- neira estrutural e orgânica, na medida do corpo do homem, sentido em termos de espaço e volume, enfim, como algo para ser vivido.

Em "Tradição ocidental", o autor apresenta dois ei- xos de influência cultural: o nórdico-oriental e o meso- potâmico-mediterrâneo, do qual descende o nosso gesto do saber fazer. Em "Tradição local", deparamos com a memória saudosa e sofrida dos primeiros colonos trans- migrando para a nova terra, onde tudo era adverso — cli- ma, índio e bicho. As diversas técnicas herdadas das diferentes regiões de Portugal, todas encontrando sua expressão própria, adaptam-se aos poucos, ao sabor do tempo, aprendendo com o índio, a luz e a paisagem: os fortes, os oratórios e as igrejas, a casa-cofre dos bandei- rantes com sua planta ortogonal e assentada no chão. A casa-grande dos engenhos de açúcar; a casa-gaiola das ci- dades do ouro, de estrutura de madeira, adaptando-se ao

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ARQUITETUR A

relevo caprichoso das serras mineiras e que, por falta de espaço, ombreavam-se em trama de densa organização urbana. E mesmo mais tarde, nas casas das fazendas de Minas , São Paulo ou Ri o de Janeiro, encontramos as ca- racterísticas de nossa arquitetura, sempre a revelar força, coerência, robustez e saúde plástica. Na s "Anotações ao correr da lembrança", bem como nos "Intermeçgos", a memória construída com o exercício da contemplação, lucidez e aguda sensibilidade estão sem- pre presentes, ao lado de humanidade e compaixão. Há ainda o luminoso e comovente ensaio sobre Antônio Fran- cisco Lisboa, o nosso Aleijadinho, arquiteto e escultor, o maior artista brasileiro do tempo da colônia. Falando da contribuição do escravo, seja ele índio ou negro, Lúcio Costa nos lembra que a qualidade artística de seu trabalho não se origina apenas da fé e do ofício transmitidos pelo mestre português, mas sim da parcela de liberdade que colocavam no que faziam, e isso ninguém lhes poderia tirar. "Ruptura e reformulação" mostra um processo evo-

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APRESENTAÇÃ O

lutivo que se rompeu nos dois áltimos séculos, com o progresso científico e industrial introduzindo novos mo - dos de fabricar, construir e viver. O artesanato perde sua força telúrica e o antigo escravo, que fazia papel de má- quina, ingressa de forma tímida em uma nova ordem so- cial, habituada às tradicionais injustiças e despreparada para isso. "Edifício Gustavo Capanema" é o relato da corajo- sa aventura de um grupo de jovens arquitetos , sob a li- derança do autor, a explicitarem sua fé nos postulados contemporâneos , e a solicitarem e obterem o conselho e a conivência de Le Corbusier no risco que originaria o projeto do antigo Ministério da Educação e Saúde, hoj e Palácio Gustavo Capanema, marco na arquitetura bra- sileira. Segundo Lúcio Costa, a arquitetura jamais pas - sou, em espaço de temp o semelhante , po r tamanha transformação. "Addendum urbanístico" apresenta a cidade como ex- pressão palpável da necessidade humana de contato e co - municação. A inter-relação cidade/campo e campo/cidade,

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ARQUITETUR A

o equilíbrio entre quantidade e qualidade da vida indivi- dual, atendendo sempre o valor do homem como pessoa,

"Brasília, cidade inventada"

(Memória Descritiva)

Por ocasião do Concurso Internacional para o Plano Piloto de Brasília, Lúcio Costa envia, no dia marcado para o seu encerramento, os documentos gráficos acompanha- dos da Memória Descritiva e uma carta dirigida à com- panhia urbanizadora da nova capital e à comissão julgadora do concurso. Desculpa-se pela apresentação sumária do partido su- gerido e justifica-se. Di z que não pretende concorrer, mas apenas "desvencilhar-se de uma solução possível, que não foi procurada mas surgida, por assim dizer, pronta". Com - parece como simples maquisarã do urbanismo e a idéia, ape- sar de espontânea, foi depois intensamente pensada e desenvolvida, continua ele. A cidade fora concebida não apenas como urbs, preen- chendo as condições satisfatórias a um simples organis-

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APRESENTAÇÃ O

mo capaz de atender as diversas funções vitais, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital. Para isso, é necessário que o urbanista se ache imbuído de certa dignidade e nobreza de intenção, porquanto des- sa atitude decorre a ordenação e o senso de conveniência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental.

Dit o isso,

Lúcio Costa mostra como nasceu a so -

lução: do gesto primário do encontro de dois eixos, a

assinalar a posse de um lugar,

ou

seja, o próprio sinal-

da-cruz. Segue-se a seqüência numerada de todo o plano pi- loto. Lá está ele de corpo inteiro, desde a adequação à si- tuação topográfica, aos princípios da técnica rodoviária com suas implicações modernas. Os centros cívicos e ad- ministrativos. O eixo monumental, a plataforma dos Mi- nistérios, a Praça dos Três Poderes, a Catedral, a localização dos palácios e por fim das unidades de vizinhança — as superquadras. Tudo descrito de maneira absolutamente fluida e segura. Lúcio Costa propõe a numeração referida

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ARQUITETUR A

ao eixo monumental, distribuindo a cidade nas vertentes Nort e e Sul. As quadras seriam assinaladas por números, os blocos residenciais por letras e, por último, o número do apartamento, da forma usual. Há ainda detalhes como o caminho facilitado das ins- talações, nas faixas verdes, ao longo das pistas de rola- mento. Enfim, a descrição de uma cidade pronta. Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade-parque. So - nho arquissecular do patriarca José Bonifácio, que já pro- punha a transferência da capital para Goiás nos idos de

1823.

No "Apêndice", o mestre nos adverte que o desen- volvimento científico não é opost o à natureza. Trans - mite sua total confiança no intelecto e na consciência do homem, capazes de encontra r a compatibilidade desse pretenso abismo. Mesmo no caos aparente em que cada geração pode mergulhar, por efeito do que talvez se poss a chama r "le i das resultante s convergentes", novas perspectivas se abrem e tudo parece de novo fá- cil e claro.

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APRESENTAÇÃ O

Na "Orientação para o professor", o autor desenvol- ve, com zelo, o que lhe parece fundamental para o melhor desempenho de um magistério vivo. São práticas que vão desde a identificação da arquitetura, à interação homem/ meio ambiente e equilíbrio ecológico. Propõe o estudo comparativo dos diversos tipos de comunidade. Aconse- lha a promoção de debates, análise de plantas, trabalhos gráficos e maquetes, facilitando a percepção das variações de forma, dimensão e espaço. Convida ao conhecimento das cidades históricas brasileiras através de publicações ou excursões organizadas. Por fim, Lúcio Costa encerra o livro com um sabo- roso glossário, em que traduz as palavras estrangeiras e explica as de uso limitado, porém tão naturais ao seu pen- samento que, se substituídas, este perderia sua força. Lúcio Costa, arquiteto, urbanista, humanista, pro- fessor, escritor e poeta. De onde lhe vem tanta força para expressar a essência da realidade brasileira? Talvez de sua condição de peregrino, primeiro na infância e juventude passadas na Europa. Ainda peregrino no encontro com sua

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ARQUITETUR A

pátria, onde, de surpresa em surpresa, lembra-se de coi- sas esquecidas, de coisas jamais sabidas, mas que estavam lá, em seu coração.

Jorge de Souza Hue

Arquiteto e sociólogo, amigo e colaborador do mestre Lúcio Costa.

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CONCEITUAÇÃ O

A história da arte mostra que a arquitetura sempre foi parte integrante fundamental no processo da criação artísti- ca como manifestação normal de vida. Ela engloba, portan- to, a própria história da arquitetura, constituindo-se, então, por assim dizer, no "álbum de família" da humanidade. É através dela, através das coisas belas que nos ficaram do pas- sado, que podemos refazer, de testemunho em testemunho, os itinerários percorridos nessa apaíxonante caminhada, não na busca do tempo perdido, mas ao encontro do tempo que ficou vivo para sempre porque entranhaâo na arte.

O que caracteriza a obra de arte é, precisamente, esta eterna presença na coisa daquela carga de amoreâe saber que, um dia, a configurou. Importa, pois, antes de mais nada, a distinção entre essência e origem, porque nesta diferencia- ção preliminar reside a chave do entendimento do que seja verdadeiramente arte.

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ARQUITETUR A

Se é indubitável que a origem da arte ê interessada, pois a sua ocorrência depende sempre de fatores que lhe são alheios — o meio físico e econômico-social, a época, a técnica utilizada, os recursos disponíveis e o programa escolhido ou imposto —, não é menos verdadeiro que na sua essência, naquilo por que se distingue de todas as de- mais atividades humanas, é manifestação isenta, porquan- to nos sucessivos processos de escolha a que afinal se reduz a elaboração da obra, escolha indefinidamente renovada entre duas cores , duas tonalidades, duas formas , doi s partidos igualmente apropriados ao fim proposto, nessa escolha última, ela tão-só — arte pela arte — intervém e opta.

Conquanto manifestação natural de vida e, como tal, parte integrante e significativa da obra conjunta elabora- da pelo corpo social a que pertence, esse caráter suigeneris da criação artística dificulta a sua abordagem pelas siste- matizações fUocientíficas, e a torna, por ve2es, refratária aos enquadramentos filopartidários. É que, enquanto a criação científica é parcela revelada de uma totalidade sem-

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CONCE1TUAÇÃ O

pre maior que se furta às balizas da delimitação inteligí- vel, não passando portanto o cientista de uma espécie de intermediário credenciado do homem com os demais fenô- menos naturais — donde o fundo de humildade, afetada ou verdadeira, peculiar à sua atitude — a criação artísti- ca, ou melhor, o conjunto da obra criada por um determi- nado artista, se constitui num todo auto-suficiente, e ele — o próprio artista — é legítimo criador desse mundo à parte epessoal, pois não existia antes, e idêntico não se refará jamais. Da í a vaidade inata, aparente ou velada, inerente à personalidade de todo artista autenticamente criador. N ã o cabe indagar, com intenções discriminatórias, "para quem o artista trabalha", porque, a serviço de uma causa ou de alguém, por ideal ou por interesse, ele traba- lha sempre apenas, no fundo — quando verdadeiramente artista — t par a si mesmo, poi s se alimenta da própria cria- ção, muito embora anseie pelo estímulo da repercussão e do aplauso como pelo ar que respira. A mais tolhida das artes, a arquitetura é, antes de mais nada, construção; mas construção concebida com o propó-

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ARQUITETUR A

sito primordial de organizar e ordenar o espaço para de- terminada finalidade e visando a determinada intenção. E nesse processo fundamental de organizar, ordenar e expressar-se ela se revela igualmente arte plástica, porquanto nos inumeráveis problemas com que se defronta o arqui- teto desde a germinação do projeto até a conclusão efeti- va da obra, há sempre, para cada caso específico, certa

margem final de opção entre os limites — máximo e mí- nimo — determinados pelo cálculo, preconizados pela técnica, condicionados pelo meio, reclamados pela fun- ção ou impostos pelo programa, cabendo então ao senti- mento individual do arquiteto — como artista, portanto

— escolher, na escala dos valores contidos entre

tais li-

mites extremos, a forma plástica apropriada a cada por- menor em função da unidade última da obra idealizada. A intenção plástica que semelhante escolha subentende é precisamente o que distingue a arquitetura da simples construção. Por outro lado a arquitetura depende ainda, neces - sariamente, da época da sua ocorrência, do meio físico e

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CONCEITUAÇÀ O

social a que pertence, da técnica decorrente dos materiais empregados e, finalmente, dos objetivos visados e dos recursos financeiros disponíveis para a realização da obra,

ou seja, do programa proposto. Pode-se então definir a arquitetura com o construção concebida com o propósito de or- ganizar e ordenarplasticamente o espaço e os volumes decorrentes, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica, de um determinado programa t de uma determinada intenção.

Assim, portanto, se, por um lado, arquitetura não é coisa suplementar usada para enriquecer mais ou menos o edifício, não é tampouco a simples satisfação de imposi- çõe s de ordem técnica e funcional. Fruto de intuição instantânea ou de procura paciente, para que seja ver- dadeiramente arquitetura é preciso que, além de satisfazer rigorosamente — e só assim — a tais imperativos, uma intenção de outra ordem e mais alta acompanhe paripassu o trabalho de criação em todas as suas fases. Nã o se trata de sobrepor à precisão de uma obra tecnicamente perfei- ta a dose julgada conveniente dc gosto artístico. Aquela in-

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ARQUITETUR A

tenção deve estar sempre presente desde o início,

sele-

cionando, nos menores detalhes, entre duas e três solu-

ções possíveis e

tecnicamente corretas, aquela que

não

desafine — antes, pelo contrário, melhor contribua, com

a sua parcela mínima, para a intensidade obra total.

expressiva da

Enquant o satisfaz apenas às exigências técnicas e funcionais, não é ainda arquitetura; quando se perde em intenções meramente decorativas, tudo não passa de ce- nografia; mas quando — popular ou erudita — aquele que a ideou pára e hesita ante a simples escolha de um espaçamento de pilares ou da relação entre a altura e a largura de um vão, e se detém na obstinada procura de uma justa medida entre cheios e vazios, na Fixação dos volu- mes e subordinação deles a uma lei, e se demora atento ao jogo dos materiais e a seu valor expressivo, quando tudo isto se vai pouco a pouco somando em obediência aos mais severos preceitos técnicos e funcionais, mas, também, àquela intenção superior que escolhe, coordena e orienta no sentido da idéia inicial toda essa massa confusa e

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CONCEITUAÇÀ O

contraditória de pormenores, transmitindo assim ao con- junto , ritmo, expressão, unidade e clareza — o que con-

fere à obra o seu caráter de permanência — isto sim, é

arquitetura.

Ou, em outros termos, como lembrete:

arquitetura é coisa para ser exposta à intempérie;

arquitetuta é coisa para ser concebida como um todo orgânico e funcional;

arquitetura é coisa para ser pensada, desde o início,

estruturalmente;

arquitetura é coisa para ser encarada na medida das idéias e do corpo do homem;

arquitetura é coisa para ser sentida em termos de es- paço e volume;

arquitetura é coisa para ser vivida.

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TRADIÇÃO

OCIDENTAL

O mito e o poder sempre estiveram na origem das grandes realizações de sentido arquitetônico. Eles se con- substanciam numa útôa-força da qual resulta a intenção que orienta e determina a expressão arquitetônica. A realização arquitetônica é assim a expressão palpável desse conteú- do ideológico no seu mais amplo sentido.

Constata-se, porém, nesta como que materialização da idéia, a presença de um component e telúrico que condiciona e propicia, do ponto de vista da concepção formal, uma preferência "instintiva" por determinados tipos de configuração. Assim, na bacia do Mediterrâneo, tanto no sul da Europa quanto no norte da África, bem como nas áreas do Oriente próximo e da Mesopotâmia, prevalece, na arquitetura erudita como na popular, o sen- tido da coesão plástica, da forma geométrica pura, da contenção; ao passo que no norte da Europa e nos países

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ARQUITETUR A

eslavos e orientais observa-se, pelo contrário, certa pre- disposição à plástica de sentido dinâmico, ao perfil mís - tico, elaborado ou convulso, à dispersão, podendo-se, portanto, considerar dois eixos culturais latentes quanto à concepção plástica da forma: o eixo mesopotâmio - mediterrâneo, próprio da concepção estática, e o eixo nór- dico-oriental, que abrange as diferentes modalidades da concepção dinâmica.

Esse condicionamento inicial, juntamente com os de- mais fatores de natureza cultural, racial e histórica envol- vidos, faz com que a arte de cada civilização se constitua num todo íntegro e autônomo que impede a sua avalia- ção por padrões outros que não os próprios, não com- portando, portanto, aferição ou juízo de valor na base de cânones de outra cultura, como, por exemplo, os oriun- dos da arte greco-latina, dita "clássica", em relação à arte das civilizações orientais ou das culturas africanas.

É difícil compreender como a civilização-matriz da nossa cultura ocidental, a civilização grega, pôde manter — apesar da trama por vezes perversa, feroz e torpe da

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TRADIÇÃ O

OCIDENTA L

TRADIÇÃ O OCIDENTA L 27

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ARQUITETUR A

sua história c dos seus mitos — tamanha integridade e serena constância na evolução da sua arte, repetindo du- rante mais de quatrocentos anos os mesmos temas, ape- nas cada vez com maior apuro. Assim, quando passou a construir os seus templos, de preferência de mármore, se ateve ao esquema das suas primitivas estruturas de ma- deira, ou seja, ao mais singelo dos partidos arquitetônicos possíveis: planta retangular, telhado de duas águas com frontões nos topos , colunas e arquitrave, ou viga-mestra. Tudo sempre na base da contenção e da verga reta.

Por dispor do melhor calcário para peças de porte, o grego ignorou acintosamente o arco — e esta constatação é fundamental. O helenismo rompeu essa contenção secular e pre- parou terreno para o predomínio do poder, que passou a "usar" o mito, quando anteriormente o poder derivava do mito, cabendo então, em termos construtivos, às estru- turas concebidas na base de arcos e abóbadas, traduzir a obsessão romana pelos grandes espaços e pelo monumen- tal. Como , porém, a inspiração cultural — o modelo —

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TRADIÇÃ O

OCIDENTA L

ainda provinha da Grécia, passaram os arquitetos locais, como Vitrúvio, a usar os elementos construtivos gregos, ou sejam, as suas ordens arquitetônicas — dórica, jônica, coríntía — que eram a expressão viva de intenções bem definidas, tais como as de força, de graça, de riqueza, às quai s os próprios romanos acrescentaram as ordens "toscana", de sentido utilitário, e "compósita", para sa- tisfazer o seu gosto pela opulência — já não apenas com a sua função estrutural específica de suporte, mas como elementos complementares de composição arquitetônica entrosados num sistema construtivo de outra natureza. Revestiram assim a nudez sadia dos seus monumentos com uma crosta erudita de colunas e platibandas de már- more e travertino — vestígios de um processo de edificar oposto. E foram precisamente os gregos em Bizâncio — Santa Sofia — que aproveitaram, tirando-lhe todo o par- tido da extraordinária beleza — a nova técnica. O desmantelo do Império levou os sacrossantos dogmas acadêmicos de roldão e foram então surgindo, aos poucos , as estruturas de grossas paredes com contrafor-

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ARQUITETUR A

tes para resistir ao empuxo dos arcos e abóbadas, numa arquitetura severa e contrita, com denso conteúdo espi- ritual, chamada "românica", que se foi definindo e apu- rando nos grandes redutos monásticos onde o fio da meada cultural greco-latina se preservou. E isto, até que novas e sábias experiências construtivas conduziram a um arcabouço estrutural externo, independente das paredes de sustentação, e capaz de absorver os esforços laterais resultantes do alteamento das naves, estilo dito ogival ou "gótico", o que tornou possível a impressionante seqüên- cia das catedrais.

C o m a expedição turístico-militar de Carlos VIII à Itália, seguida pelas de Luís XII e Francisco I, a Europa — já então saturada dos malabarismos góticos — des- cobriu a clareza racional, as graças do espírito novo e o humanismo erudito da Renascença, ocorrendo assim um renovado entusiasmo que, com a expansibilidade de um gás e o patrocínio pedante dos cortesãos, penetrou todos os recantos do mundo ocidental, inebriando as cortes e a sociedade culta.

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TRADIÇÃ O

OCIDENTA L

Conquanto o Renascimento tenha adquirido pecu- liaridades diferenciadas nos vários países europeus, o em- prego continuado do receituário acadêmico foi, com o correr do tempo, cansando e provocando contestações, pois, com efeito, desde que os vários elementos de que se compõe cada uma das ordens gregas — as colunas, o entablamento, os frontões — perderam as suas caracte- rísticas funcionais primitivas, isto é, deixaram de consti- tuir a própria estrutura do edifício, nenhuma razão mais justificava o apego intransigente às fórmulas convencio- nais e vazias de sentido então em vigor. Se o frontão não era mais tão-somente uma empena, a coluna um apoio, a arquitrave uma viga, mas simples formas plásticas de que os arquitetos se serviam para dar expressão e caráter às construções — por que não encarar de frente a questão e tratar cada um desses elementos como formas plásticas autônomas, criando-se com elas relações espaciais dife- rentes e garantindo-se assim novo alento de vida ao velho formulário greco-romano "à bout de forces"?

E aí então — época da Contra-Re forma e de muita

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ARQUITETUR A

construção — que surge o chamado "barroco", que não foi uma arte bastarda, como se pretendeu, mas uma nova concepção espacial e plástica, liberta dos preconceitos an- teriores e que, apesar de aparente irracionalidade, baseou- se numa formulação perfeitamente racional.

É neste

ciclo que a nossa arte colonial se insere.

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TRADIÇÃ O

LOCA L

"Vendo aquelas casas, aquelas igrejas, de surpresa em surpre- sa, a gente como que se encontra, fica contente, feli^ e se lem- bra de coisas esquecidas, de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós."

092-9)

A arquitetura regional autêntica tem as suas raízes na terra; é produto espontâneo das necessidades e conve- niências da economia e do meio físico e social e se desen- volve, com tecnologia a um tempo incipiente e apurada, à feição da índole e do engenho de cada povo; ao passo que aqui a arquitetura veio já pronta e, embora beneficiada pela experiência anterior africana e oriental do coloniza- dor, teve de ser adaptada como roupa feita, ou de meia- confecção, ao corpo da nova terra.

À vista desta constatação fundamental, importa pois conhecer, antes de mais nada, a arquitetura regional por-

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ARQUITETUR A

tuguesa no próprio berço, porque é na construção popu- lar de aspecto viril e meio rude, mas acolhedor, das suas aldeias que as qualidades da raça se mostram melhor, per- cebendo-se, desde logo, no acerto das proporções e na ausência de artifícios, uma saúde plástica perfeita, se é que se pode dizer assim.

Constata-se, de saída, nessa volta às origens, acentuada diferença entre a arquitetura do norte e a do sul. Da Beira Baixa, ou cintura do país, para cima prevalece o contraste da pedra com a caiação, como no Entre Douro e Minho, senão mesmo o emprego exclusivo do granito em grandes blocos toscos ou aparelhados como ocorre na Beira Alta e em Trás- os-Montes; o ponto, ou seja, a inclinação dos telhados de tacaniça — quatro águas —, é geralmente amortecido graças ao recurso do chamado "contrafeito", que é pequeno caibro complementar destinado precisamente a adoçar o ponto e a dar maior graça ao telhado na aproximação dos beirais.

Na Estremadura, Lisboa e Ericeira, por exemplo, essa graciosa concavidade das coberturas, tipicamente portugue- sa — possivelmente por simbiose oriental, pois não existe em nenhum outro país mediterrâneo —, se acentua, já então

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TRADIÇÃ O

LOCA L

TRADIÇÃ O LOCA L 35
TRADIÇÃ O LOCA L 35

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ARQUITETUR A

associada ao predomínio da caiação; mas no Alentejo, onde as construções são de taipa ou tijolo e domina inconteste uma impecável brancura, os telhados são de uma só água, desempenados e retos, e avultam as grandes chaminés retan- gulares, com arranque oblíquo na prumada das fachadas so- bre a rua por onde se acede à intimidade dos pequenos pátios murados; finalmente no Algarve — extremo sul — surgem os terraços ou soteias, e as chaminés circulares com os seus caprichosos coroamentos amouriscados.

Era de onde eles vinham, para a grande aventura in- consciente de começar a fazer um novo país. Cada mestre, oficial ou aprendiz—pedreiro, taipeiro, carpinteiro, alvanéu — trazia consigo a lembrança da sua província e a experiência do seu ofício, daí a simultânea adoção, logo de início, das diferenciadas feições arqui- tetônicas próprias de cada modo de construir: a taipa de pilão, a taipa de sebe, ou de mão — pau-a-pique —, o adobe, a alvenaria de tijolo, a pedra e cal. Sem embargo dessa variada aplicação de processos construtivos nos dois primeiros séculos, com o tempo e as circunstâncias locais a preferência por uma determina-

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TRADIÇÃ O

LOCA I

da técnica se foi definindo; a taipa de pilão, encontrando terreno propício, fixou-se principalmente em São Paulo; a alvenaria de tijolo floresceu mais em Pernambuco e na Bahia; nas terras acidentadas de Minas, onde os caminhos acompanhavam as cumeadas, com as casas despencando pelas encostas, o pau-a-pique sobre baldrames de pedra foi a solução natural; já no Ri o de Janeiro, a fartura de granito marcou a perspectiva urbana com a seqüência ritmada das ombreiras e vergas de pedra — suporte e arquitrave —, princípio construtivo da Grécia antiga, Se o negro, mais dócil e servil na sua condição de escra- vo, pôde colaborar com o colono, inclusive no aprendizado dos ofícios, já o índio, habituado a um estilo de vida diferen- te, que lhe permitia vagares na confecção limpa e cuidada de armas, utensílios e enfeites, estranhou, com certeza, a gros- seira maneira de fazer dos brancos apressados e impacientes, A identificação com o indígena restringiu-se ao "pro- grama" dos abrigos iniciais à guisa de casas — grandes es- paços cobertos nas feteorias ou ranchos, como nos "montes " do Alentejo — onde acolher as levas de colonos trazidos pelas frotas. Por seu tamanho, esses telhadões pouco afasta-

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ARQUITETUR A

dos do chão, como nos próprios engenhos, rompiam com a tradição metropolitana — que consistia em decompor a cobertura das edificações de maior porte em telhados me- nores —, aproximando assim tais estruturas, por sua pu- reza formal e proporções , das ocas monumentai s dos nativos, tanto mais que eram implantadas em clareiras, como o terreiro das malocas, uma vez que o inimigo — bicho ou índio — vinha da mata. É que houve uma curiosa coinci- dência gerada pela presença do foco de calor, o fogo — o foyer. O transmontano e o indígena procediam de modo se- melhante para manter a casa toda aquecida com o aprovei- tamento do próprio fogo da cozinha e da defumadura, deixando simplesmente a fumaça escapar pela telha-vã ou por engenhoso dispositivo na cumeeira das ocas. Da í a paradoxal contradição observada em Portugal da ausência de chaminés nas áreas frias do norte e a presença ostensiva delas no sul, onde o calor concentra-se apenas na lareira para que não se espraie pelo resto da casa.

De fato, ao entrar no país certa vez por Bragança di- visei do alto da serra ao crepúsculo, no fundo do vale, os telhados do casario a fumegar, associando então a tal cos -

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TRADIÇÃ O

LOCAL

tu me a ausência de puxados ou cozinhas nos exemplares mais puros das casas seiscentistas preservadas em Sã o Paulo, cuja planta retangular e simétrica dispõe de um salão central de chão de terra batida e telha-vã e de duas varandas embutidas no corpo da casa com o as loggias paladianas; a dos fundos, caseira e de serviço, a da frente, social e de receber, tendo num extremo a capela e no ou- tro uma camarinha, sem acesso ao corpo da casa, para pouso eventual de viajantes. No alto salão ficava a com- prida mesa de pranchões com seus bancos; é aí, nesse gran-

RANCHO OE FEITOR IA
RANCHO
OE FEITOR IA
MONTfc ALeNTEJAftO
MONTfc
ALeNTEJAftO

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ARQUITETUR A

de bali medieval, com fogo sempre aceso no inverno, que

armavam as

trempes e

assavam a rês ou

a

caça do

dia.

É interessante assinalar que esse esquema foi o em- brião da casa rural brasileira. E não só a rural como tam- bém a de arrabalde, até fins do século XI X — apenas acrescida do puxado de serviço; sala de jantar aos fundos dando para a varanda doméstica e o quintal, e sala da frente com varanda ou terraço de receber; as duas articuladas por extenso corredor, com quartos de uma banda e de outra, o que garantia, no verão, boa tiragem. Assim, pois, de certo modo, tudo se entrosa — a oca indígena, a casa trans- montana, a casa chamada do bandeirante, a casa de fazen- da, a casa de arrabalde, a casa urbana de bairro.

Há certa tendência a considerar "imitações" de obras reinóis as obras e peças realizadas na colônia. Na verdade, porém, são obras tão legítimas quanto as de lá, porquanto 0 colono, par âroit de eonquête, 1 estava em casa, e o que fazia de semelhante ou já diferenciado era o que lhe apetecia fazer — assim como ao falar português não estava a imitar nin- guém, senão a falar, com sotaque ou não, a própria língua.

1 Por direito de conquista.

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I — Tanto a taipa de pilão—barro socado entre taipais de madeira — quanto a de sebe, ou pau-a-pique — trama de madeira barreada a mão—exige m proteção contra a cor- tina de água despejada dos telhados, daí a necessidade dos grandes beirais que não visavam primordialmente defender do sol, mas da chuva, tanto assim que nos países onde o sol também é muito mas a chuva escassa, eles, quando existem, se reduzem muitas vezes ao simples saque da telha. E como a parede espessa de barro requer duplojrecfca/ — barrote que recebe o madeiramento do telhado — um em cada face, re- sultou não somente que os caibros apoiados neles para su- porte do beirai, chamados "cachorros", ficaram de nível, como também que o maior comprimento do "contrafeito" trans- feriu a quebra do telhado, e seu conseqüente galbo, mais para cima, de modo que, mesmo a distância, pode-se identificar a estrutura da casa como de taipa de pilão.

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ARQUITETUR A

ARQUITETUR A Já no pau-a-pique o cachorro tem ligeira inclinação porque é apenas travado, internamente, por

Já no pau-a-pique o cachorro tem ligeira inclinação porque é apenas travado, internamente, por um pau roli- ço interposto entre ele e o caibro, aos quais vem se ajus- tar a cornija sanqueada que delimita o encontro do forro do cômodo com a parede. O arcabouço é todo de madeira e independe dessas paredes que são mero enchimento como ocorre hoje com o concreto armado, e a casa se apoia nos próprios esteios, ou pilotis.

Este processo construtivo foi intensivamente empre- gado em grande parte do estado do Ri o e em Minas, tanto com esmerado apuro em casas de fazenda e urbanas — Diamantina, por exemplo, é toda de pau-a-pique —, como na sua forma mais rudimentar, na casa do pobre. Ainda agora é só andar pelo interior que elas logo surgem ao longo das estradas. Feitas com pau do mato próximo e da terra do chão, mal barreadas, como casas de bicho, dão abrigo a toda a família — crianças de colo, garotos, meninas, os velhos,

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tudo de mistura e com aquele ar doente e parado, esperan-

do

E ninguém liga de tão habituado que está, pois aquilo

... faz parte da terra como formigueiro, fígueira-brava e pé de milho — é o chão que continua.

2 — As construções integralmente de alvenaria de ti- .jolo, ensejando arcos, como a casa-grande de Megajipe, em Pernambuco — criminosamente destruída —, e abóbadas, como na parte quinhentista da chamada Casa da Torre de Garcia d'Ávila, em Tatuapé, na Bahia, seriam, ao que parece, menos freqüentes. O mais comum era fazer-se apenas a fa- chada de alvenaria maciça; no corpo da casa a carga concen- trava-se em robustos pilares, com as paredes montadas sobre o próprio barroteamento. As telhas do beirai assentavam sobre cornijas "ameaçadas" com tijolo e revestidas com perftlatura de massa corrida, ou sobre fiadas da mesma telha altemadamente acavaladas à mourísca—beira, sobeira e bica.

Quanto ao adobe, ou tijolo cozido ao sol, conquanto mais usado em Mato Grosso e Goiás, também foi comum em outras áreas como o comprova o grande sobrado dos Ta na jura, na Bahia, com capela interna, janelas rasgadas, ou

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ARQUITETUR A

seja, com guarda-corpo de madeira entalado no vão, e pranchões, ou padieiras, à guisa de verga chanfrada para cima e que se diz "capialçada", como na taipa de pilão. A parte monumental, seiscentista, das ruínas da referi- da Casa da Torre, próxima da praia, pouco acima de Salva- dor, mostra com clareza a técnica construtiva da alvenaria de pedra e cal e cantaria. Além da seqüência de arcos no rés-do- chão e dos enquadramentos dos vãos com os respectivos assentos laterais, ou conversadeiras, lá estão, nos dois anda- res do corpo central destelhado, os renques de consolos — ou cães de pedra—engastados nas paredes ao nível de cada piso, prontos para receber as madres que sustentavam os barrotes onde se apoiaria o tabuado do pavimento. Tudo preparado para os pedreiros e canteiros cederem a vez aos mestres-carp inteiros e seus oficiais, cada qual cuidando exem- plar e limpamente, no devido tempo, da sua tarefa.

3 — E expressivo o contraste, que ainda perdura, assi- nalado nas preciosas pranchas da Viagem Filosófica de Alexan- dre Rodrigues Ferreira, entre o leve casario de duas águas com empenas vazadas e vedação arejada de folhas trançadas

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de palmeira — vedação que respira —, sobre palafitas à margem dos rios, e o pesado casario de cunhais em bossagem, cornijas, faixas, cordões de estuque e elegantes sacadas de ferro com desenhos à francesa, da escola acadêmica de Landi, o bolonhês. Portadas e calçadas de pedra de lioz, trazidas como lastro, são comuns em todo o litoral, mas não tanto quanto em Belém do Pará por estar mais ao alcance da metrópole. A identificação desse belo calcário marmóreo como pedra de lioz_ resultou da expressão "pierre de liais" usada pelos escultores franceses que, como Chanterenne, tanto fizeram pelo apuro da arte quinhentista portuguesa, para designar o calcário duro e compacto, porém macio ao corte a que estavam afeitos no seu país, e como na época o fonema "ais " ainda se escrevia "oys", a leitura das especificações pelos portugueses consa- grou a pedra como lioz.

4 — Conquanto o casario de São Luís seja mais co- nhecido pela azulejaria oítocentista que lhe reveste as facha- das, o fundo menosprezado das casas, revelado ao antigo SPHAN 2 pela documentação fotográfica trazida por um

2 SPHA N — Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — hoje. IPHAN.

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ARQUITETUR A

ARQUITETUR A estudante francês das Beaux Arts, chamado Kiss, que foi até lá de caminhão pedindo

estudante francês das Beaux Arts, chamado Kiss, que foi até lá de caminhão pedindo carona — embora já em grande par- te desmantelado —, tem para o arquiteto de hoje grande valor, é uma lição. Contrastando com o denso paramento das fa- chadas sobre a rua, regularmente cortadas pela seqüência de vãos, e rematadas por elegantes beirais, elas se abrem, rasga- das de fora a fora, apoiadas em pilares no quintal, ou em balanço, formando um avarandado — trama contínua de venezianas, treliças ou caixilharia — protegido por enormes

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beirais e sobreposto à estrutura maciça da casa. E para aí que convergem, na forma usual, a sala de jantar, o serviço e a par- te comunitária mais íntima da vida caseira.

ANOTAÇÕE S AO CORRE R DA LEMBRANÇ A beirais e sobreposto à estrutura maciça da casa.

Outr a particularidade exclusiva do Maranhão é a superposição da concavidade de duas telhas a fim de au- mentar o balanço da chamada bica do beirai, engenhoso artifício que em Portugal também só ocorre numa região — a de Setúbal.

5 — Foi o engenheiro francês Vauthier, desencavado por Gilberto Freyre que, descrevendo os estreitos e altos

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ARQUITETUR A

sobrados do Recife — de íngremes telhados retos, cujo encaibramento era simplesmente apoiado em possantes terças entaladas entre os oitões —, revelou o curioso cos - tume de localizar a sala de jantar no último piso da casa, juntamente com o serviço que também ocupava o sótão, onde moravam as mucamas, ficando os escravos e casais nos baixos da edificação ou na senzala, nos fundos do quintal, juntamente com a cocheira. Havia passagem de serviço acessível pela entrada, conquanto fosse vedado com porta vazada o acesso aos andares pela escada dis- posta com o devido recuo e atravessada em relação ao lote para dar lugar à loja e às salas de cima, de frente para a rua. Nã o havendo comércio, formava-se o saguão com pa- tamar de convite para o lanço de altos degraus resguarda- dos por treliça ou recortes de madeira, senão de todo escondidos; nesse saguão ficava eventualmente a cadeiri- nha, tudo na forma usual, como em Minas, no Ri o e alhu- res. Assim, o escritório, as salas de receber e outros aposentos ocupavam o primeiro andar, e os demais quar- tos e alcovas o piso intermediário. Construções geralmente

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feitas com alvenaria de tijolo. O maior apego por esse ma- terial fabricado em vários tamanhos e sempre da melhor qualidade, embora o seu emprego fosse comum em Portu- gal, mormente no sul, deveu-se, sem dúvida, ao prolonga- do convívio com o "flamengo", como então se dizia. Outra característica desses sobrados de Recife e Olinda são os robustos consolos de pedra para apoio do piso de tábuas das sacadas com painéis de almofadas e treliça onde assentavam as caixas dos muxarabies, ou muxarabis, e, vez por outra, os pontaletes de sustentação de uma coberta alpen- drada, havendo então encaixes, rente à parede e também de pedra, dispostos lateralmente na altura das vergas, para receber o devido frechal. Ao contrário do que ocorre em Pernambuco, na Paraíba o piso da sacada é sempre de pe- dra com perfllatura nos bordos, o que confere ao conjunto aparência diferente, mais pesada. Essas caixas sacadas ou rasas, isto é, simplesmente sobrepostas ao enquadramento dos vãos, de tradição muçulmana, que permitem resguardo sem prejuízo da ventilação, foram usadas em toda a colônia, sobretudo nas

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ARQUITETUR A

ruelas estreitas onde os cômodos se devassavam. Foto - grafias de 1 8 6 0 mostram que eram comuns em São Pau- lo, juntamente com os grandes beirais de nível e forrados. C o m a vinda da corte, esse costume que conferia à cidade certo ar oriental chocou os fidalgos e elas foram obrigatoriamente arrancadas e substituídas por venezia- nas e vidraças de guilhotina ou de abrir "à francesa", sur- gindo então, no Rio , principalmente, as graciosas sacadas de ferro dispondo nos cantos de barras verticais espiraladast para pendurar luminárias. Assim, essas reixas de madeira foram sumindo, e dos simpáticos muxarabis avulsos de encaixar nas sacadas sobrou apenas um, em todo o país — o de Diamantina.

6 — A cidade de Salvador do século XVII e primei- ra metade de setecentos, quando ainda sede do Governo Geral, era uma cidade marcadamente aristocrática, de uma aristocracia a um tempo rural e urbana, de senhores e escravos; e a arquitetura de suas grandes casas, de porte severo e nobre, onde avultam belas portadas e lenços de

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pedra, quer dizer, peitoris inteiriços de cantaria, não teve paralelo no país, salvo a imponente casa chamada "dos Contos", em Ouro Preto, com o seu senhorial saguão ti- picamente português. Est e caráter próprio e inconfundível, embora ainda acentuadamente lusitano, foi aos poucos se diluindo, minado por uma crescente burguesia menos comprome- tida com os antigos dogmas e valores, e pela miscigena- ção. Assim, passo a passo, aquela solidez, aquela carrure foi se perdendo e a graça e o dengue crioulo se foram in- sinuando na feição arquitetônica das casas, não somente em Salvador, como em Cachoeira, principalmente: os vãos se alteiam e os seus enquadramentos enfeitados são de- cepados no encontro das tábuas extravasadas dos peito- ris, com simples palmetas de remate, característica esta exclusivamente baiana que plasticamente os enfraquece; os cordões das caixilharias se entrecruzam em capricho- sos e alegres arranjos e a cor intervém. Tudo isto contribui para dar à cidade a sua graça, e conquanto a presença sóbria e aristocrática da casa, de

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ARQUITETUR A

começo de setecentos, que sobreviveu com as suas saca- das de ferro batido, sua rica portada e seteiras, possa pa- recer, à primeira vista, meio contrafeita, é precisamente esse variado e consentido convívio — esta simultaneida- de — que atrai e seduz e faz da Bahia o que ela é.

7 — Na região do Ri o de Janeiro floresceu — o ter- mo é bem este — uma arquitetura rural alpendrada com colunas toscanas à moda do Minho, mas tudo caiado de branco à maneira da Estremadura, de que a casa de fazen- da do Colubandê com a sua importante capela anexa, cuja imagem de Sant'Anna consta do Santuário Mariano, é, sem favor, o mais gracioso e puro exemplar. Debret dedi- ca a prancha 42 do seu precioso documentário a esse es- tilo de casa típico da região, confrontando a sua planta com o esquema da casa romana — operistilo, o impluviutn. o tricltntOy ou sala de jantar, aos fundos, como ficou na nos - sa tradição. Existe algo semelhante em outras áreas do país, mas não com o mesmo apuro e constância, e geral- mente são casas com o avarandado todo à volta, como no

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Ceará, por exemplo, e de construção mais simples: fustes cilíndricos praticamente sem base nem capitei, e encai- bramento apertado, de pau rolíço, justo o necessário para receber de cada vez uma fiada apenas de telha-vã. No caminho da serra, as antigas e belas fazendas da Samambaia, do Padre Correia e de Sant o Antôni o já têm os suporte s das varandas de madeira, de seção quadrada, co m o bisel nas arestas limitado à parte cor- respondente ao fuste , ainda conforme a velha tradição medieval; e em Minas , então, prevalece definitiva, tan- to nas pequenas com o nas grandes fazendas , uma apu- rada técnica de pau-a-pique, co m a particularidade de, mantidas as tacaniças nos topos do telhado, descer com as águas maiore s a fim de cobrir o lanço das varandas à frente e aos fundos , onde estão as escadas de acesso. Mesmo perto de Brasília ainda existe a robusta cons - trução da casa com engenho que foi de Joaquim Alves de Oliveira — hoje conhecida como Babilônia —, louvada por Saint-Hilaire pela sua exemplar organização, e, até mesmo para os lados da Chapada dos Guimarães, em Mato

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ARQUITETUR A

Grosso, a rústica fazenda do Abrilongo também com en- genho incorporado à casa. Curioso é que embora a importante fazenda de Pau- d'Alho, no vale do Paraíba, ainda ostente a sua varanda recuperada por Luiz Saia, em toda a área paulisto-flumi- nense no chamado ciclo do café, os ca saro es rurais passa- ram a ignorar a tradição das varandas, preferindo os renques contínuos de janelas, apenas interrompidos pelo pequeno terraço central de acesso e pela escada de pedra, com guarda-corpo de ferro se abrindo em leque. Conquanto nas grandes fazendas a implantação das casas com os seus engenhos, terreiros, oficinas e senzalas variasse muito— e sobraram exemplares de alto significado arquite- tônico como, além da referida Pau-d'Alho e da opulenta fa- zenda do Resgate, a do Rio de São João, a do Manso e a de Boa Esperança, em Minas, a do Poço Comprido, em Per- nambuco, os dois chamados sítios de Santo Antônio e do Padre Inácio em São Paulo, e tantas mais—, o seu arcabouço estrutural, mormente nos casos de construções de pau-a- pique ou de pilares autônomos de alvenaria, obedecia ao es-

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quema de crescimento retangular em torno de um niicleo central, servindo os esteios intermediários de apoio ao am- plo telhado, independentemente do emprego da clássica te- soura então ainda desconhecida dos colonos, uma vez que o seu uso processou-se lentamente depois de estreada na igre- ja jesuíta de São Roque, em Lisboa. Outr a característica marcante da arquitetura rural é a constante presença da capela, seja incorporada à casa, com vão de treliça para peça contígua, a fim de a família poder assistir à missa na intimidade, enquanto os "ou- tros", inclusive os escravos, dispunham da varanda, como nave, ou então desgarrada, algumas de grande porte, ou- tras com riquíssima talha, como a do Engenho Bonito, em Pernambuco, a casa se foi, a capela ficou.

8 — O revestimento de azulejos nas fachadas das casas, característica do século XIX , ocorreu em toda a faixa lito-

rânea — em Minas

não

exemplo — de

Belém e

de São

Luís, onde foi mais freqüente, a Porto Alegre, onde foi mais

elaborado, com azulejos especiais para pilastras e capiteis.

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ARQUITETUR A

No Ri o de Janeiro foram comuníssimos juntamente com vasos e estatuetas no coroamento das platibandas e telhões esmaltados, de fundo azul ou branco, nos beirais. Conquan- to procedentes na sua maioria da fábrica de Santo Antô- nio, no Porto, lá são raríssimos, isto porque a cidade já estava pronta — vinha tudo para cá.

É, aliás, interessante assinalar o importante papel dessa cerâmica no processo de assimilação do neoclássico no país. Imposto pela missão francesa, embora prenunciado por ar- quitetos reinóis — um deles, consultado à vista do risco da "obra já feita até a empena", sobre o modo como rematá-la — risco bisonho mas gracioso da igreja do Carmo de São João dei Rei, conservado no Museu de Ouro Preto —, foi taxativo: só demolindo tudo para refazer de acordo com as regras. E que o despojamento e a contida sobriedade do novo estilo haviam violentado, de certo modo, os laivos remanes- centes do gosto rococó do período anterior. Assim, o brilho e a cor do revestimento azulejado dos panos nus de parede, das platibandas e frontões das eruditas e severas fachadas neoclássicas contribuíram para amenizar-lhes o impacto do

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confronto com os telhões de louça dos beirais renascidos e para integrá-los tanto na paisagem urbana quanto na dos arrabaldes, onde passaram a conviver muito bem com as man- gueiras, a jaqueira e o pé de fruta-pão.

9 — Sacadas sobre bacias de pedra nas construções de alvenaria, ou sobre barrotes em balanço nas de pau-a- pique, bem como balcões corridos, foram comuns, pri- meiramente protegidos por forte guarda-corpo de ferro forjado, com a característica portuguesa de dispor uma barra horizontal a um terço da altura da sacada, levando- se apenas as peças verticais extremas e uma ou duas in- termediárias até a barra de peito. Essa disposição peculiar se repete nas sacadas com balaústres de madeira torneada, solução corrente em Ouro Preto, por exemplo. Sacadas, como a de Sabará, com elegantes balaústres de perfil si- métrico de gosto ainda renascentista, de uso tão genera- lizado no nort e de Portugal, são raras aqui. Em Sã o Cristóvão, antiga capital de Sergipe, rica em obras de arte, há dois exemplos valiosos, um de sacadas isoladas com

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ARQUITETUR A

robusta e bem desenhada perfilatura, outro com balcão corrido, de madeira entalhada e risco apuradíssimo. As reixas graúdas de madeira e os caprichosos recortes, en- talados nos vãos, são também comuns . Durante o Impé - rio multiplicaram-se as sacadas de barras finas de ferro de elaborado e repetido desenho, até que as grades de ferro fundido, iniciadas pelos artífices da Missão Le - breton, com moldes clássicos, passaram a prevalecer mas já então com densos modelos de estilo indefinido.

10 — Nas casas mais antigas, presumivelmente nas dos fins do século XV I e durante todo o século seguinte, predominavam os cheios na relação dos vãos com as pare- des; à medida, porém, que a vida se tornava mais fácil e policiada, o número de janelas ia aumentando; já no século XVIII, cheios e vazios se equilibram, e no começo do sécu- lo XIX , predominam francamente os vãos; de 185 0 em diante as ombreiras quase se tocam, até que a fachada, no final do século, se apresenta praticamente toda aberta, ten- do os vãos muitas vezes ombreira comum. Contudo ,

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caixilharia inteira, de fora a fora e de alto a baixo, como ocorre na bela frontaria tão atual da Misericórdia de Parati, é coisa rara. Cronologicamente, a proporção dos vãos ten- de a se altear, as vergas mantêm-se retas até meados de se- tecentos, quando passam a ser arqueadas e acrescidas de cornija. No começo do século XIX, já por influência do neoclassicismo, voltam a ser retas com enquadramento li- geiramente mais leve, e surgem os vãos de volta redonda, ou seja, de meio círculo. É então que as bandeiras ou a parte superior dos caixilhos passam a se enfeitar com elegantes e caprichosos desenhos, o que confere à arquitetura do Se - gundo Reinado um encanto muito especial.

No Mapa Arquitetural do Rio de Janeiro dessa época, ela- borado por João da Rocha Fragoso, o centro da cidade de repente ressurge, figurado de corpo inteiro com as suas fachadas perfiladas ombro a ombro, casa por casa, rua por rua, a nos revelar a unidade arquitetônica e urbanística que para sempre se perdeu. Datado de 1&74, sete anos antes do seu autor perder a razão — em 1 8 8 l foi "julgado so- frer de alienação mental incurável" —, esse precioso docu-

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mentário iconográfico mostra com imorredoura precisão como era então a cidade, dando assim sobrevivência e uma razão maior, imprevista, à sua própria vida.

II — O aqueduto dos arcos dominava a paisagem urbana, levando lentamente no seu dorso as águas do rio Carioca até alcançar o gracioso chafariz barroco fielmen- te "retratado", porThoma s Ender, esse admirável e bene- mérito documentador do Ri o de Janeiro e das demais regiões por onde andou.

Foi muito desigual o tratamento dado aos chafarizes, ou bicas, nas cidades coloniais. Se em São Luís, no Ma - ranhão, o seu adro rebaixado serve agora para demonstra- ções de Bumba-meu-Boi, e em Goiás Velho o imponente chafariz da praça triangular em aclive ainda funciona; se no Ri o eles foram vários, alguns arquitetonicamente valiosos, como o do antigo Largo do Paço, onde à moda portuguesa o granito se associou ao calcário de lioz, tal como também ocorreu no portão do Passeio Público e na igreja da Santa Cruz dos Militares, obras onde mestre Vilentim deixou a

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sua marca, em cidades importantes como Salvador, Recife, Olinda etc. foram de certo modo menosprezados, ao con- trário do que sucedeu em Minas Gerais, onde avultam, principalmente na antiga Vila Rica, e por sua variedade e beleza contribuem, juntamente com as pontes, para tornar a cidade mais humana e acolhedora. Desde o da Casa dos Contos , que impressiona por sua desenvoltura plástica e robustez, ao pitoresco chafariz do Largo de Marília que, num pseudo-restauro simplista, chegou a sofrer a sumária amputação do seu delicado coroamento, apenas porque era de massa e não de pedra. Mutilação depois competente- mente "reimplantada" pelo antigo Sphan, na base de docu- mentação fotográfica, graças a outro austríaco de nascença, como Ender, o escultor Max Grossman, homem discreto, calado e bom: proibido pelo médico de nadar por ter sofri- do enfarte, salvou uma moça que, sozinha, se afogava na praia de Copacabana e, em seguida, morreu.

12 —Aind a que os grandes senhores de engenho dis- pusessem, desde o primeiro século, de ricas alfaias vindas

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ARQUITETUR A

da metrópole e do Oriente, conforme constatou Cardim, na maioria das casas o mobiliário era de início sóbrio: além de pequeno oratório com o santo de confiança, camas, ca- deiras, bancos, mesas e arcas; arcas e baús ou caixões, como então se dizia, para ter onde meter a tralha toda, E isto não só porque as modas da corte chegavam aqui com muito atraso e se infiltravam pela vastidão do território da colô- nia ainda com maior lentidão, mas também porque não havia nenhum interesse particular que estimulasse e justificasse a adoção apressada de formas novas em substituição de ou- tras já consagradas, quando a maneira de viver e todo o quadro social continuavam não somente inalterados, mas sem perspectivas próximas de alteração. E tanto mais que o clima, geralmente quente, o uso das redes e o costume nativo e oriental de sentar sobre esteira — ou tapete — no chão não estimulavam o aconchego dos interiores, nem os arranjos supérfluos ou de aparato. Contudo, as peças em si eram trabalhadas com gosto e o devido apuro, não só porque a tradição do ofício era fazê- las assim, como porque os oficiais e seus ajudantes eram,

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anotaçõe s

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lembranç a

muitas vezes, gente da casa, escravos, cujos dotes naturais, em boa hora revelados, a conveniência do senhor havia sabi- do aproveitar. Trabalhando sem pressa nem possibilidade de lucro, o prazer defazer bem-feito era tudo que importava: isto ao menos era deles — o dono não podia tirar.

Com o correr do tempo os modismos importados, correspondentes às mudanças de gosto e de estilo peculia- res a cada reinado — D. Pedro II, D. João V D. José, Dona Maria —, foram adquirindo feição própria local, diferen- ciada, o que permite aos entendidos identificá-las como procedentes de Goiás, de Minas, da Bahia, do Nort e ou do Sul. A esse propósito é preciso acabar com o tolo cos - tume de chamar de "holandesas" mesas tipicamente luso- mineiras, devidas ao afluxo de sangue novo da metrópole — de Guimarães e de outros termos — atraído pela gran- de procura de carpinteiros e marceneiros nas terras de Minas, no chamado Ciclo do Ouro.

13

— As casas de câmara e cadeia, da mínima de Pilar

de Goiás ,

à mais

opulenta

da

antiga Vila Ric a

e

à mais

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arquitetur a

bela e genuinamente portuguesa, de Mariana, obedeciam ao odioso costume lusitano de assentar sem rodeios o poder sobre a cadeia — embaixo, no térreo, com vãos fortemente gradeados e paredes, pisos e forros reforça- dos, os presos; em cima, no andar, os senhores conselhei- ros. Ma s como toda medalha tem seu reverso, o sistema oferecia certas vantagens como a contínua ciência das autoridades pelo que ocorresse, e a acessibilidade aos pre- sos, através das grades, da família ou de quem passasse:

um bilhete, um doce, um olhar — uma flor.

14 — Foram numerosas as fortificações ao longo do litoral, mas nenhuma do porte espetacular de Macapá, na foz do Amazonas, ou impressionante como, no interior, o Forte Príncipe da Beira, na Rondônia, à margem do Gua- poré, ou, ainda, da pureza formal do São Marcelo, na baía de Todos os Santos. Sólidas e bem projetadas estruturas, baseadas em especificações minuciosas e, no caso do belo Forte dos Reis Magos, manuscritas e muito bem redigidas pelo erudito arquiteto Frias de Mesquita, o mesmo que

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ANOTAÇÕES

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LEMBRANÇA

projetou o Mosteiro de São Bento, no Rio , nunca serviram para nada, tal qual os dispendiosos armamentos de hoje, destinados a sucata. A sua finalidade foi meramente sim- bólica, como selos da presença real de sua majestade.

15 — Tanto na construção das fortificações e dos edifícios públicos, como, principalmente, na das igrejas de irmandades, os projetos, ou riscos como então se dizia, eram sempre acompanhados de minuciosas e precisas especi- ficações. Essa expressão risco não deve ser interpretada como simples "desenho", mas como desenho visando ao feitio ou à elaboração de alguma coisa, correspondendo assim à expressão inglesa design. Aprovado o projeto, era feita concorrência para es - colha do mestre do ofício em causa — pedreiro, carpin- teiro, entalhador — por empreitada ou a jorna l e os trabalhos eram conduzidos com exemplar cuidado e acom- panhados de constantes louvações para dirimir dúvidas e conferir medições, sendo os louvados profissionais já con- sagrados, inclusive "professores", como consta em alguns

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ARQUITETURA

documentos. Tudo levado muito a sério e até mesmo com exagerado rigor, a ponto de — segundo certos testamen- tos — muito mestre, depois de uma vida penosa de cons - tante trabalho, morrer na miséria e endividado.

16 — Depoi s das improvisadas capelas "de pouca dura", foram construídas, ainda nos anos de quinhentos e seiscentos, numerosas capelas alpendradas, como era co - mum em Portugal. Frei Palácios foi sepultado no "alpen- dre da capela", no convento que se iniciava no alto da Penha, no Espírito Santo. Compunham-se de adro, alpen- dre com porta e duas pequenas janelas gradeadas, de pei- toríl baixo para que os fiéis, mesmo de fora, pudessem divisar o altar separado da nave por um arco e, muitas vezes, coroado por pequena cúpula definidora do espaço sagrado, cujo extradorso era coberto de telhas, e, final- mente, da sacristia num corpo lateral mais baixo com água própria, sendo o acesso à sineira e ao coro por escada ex- terna, eventualmente coberta. A própria Penha do Ri o começou com uma capela desse tipo.

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ANOTAÇÕES

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CORRER

DA

LEMBRANÇA

A de Olinda, como a do Castelo, ainda foi cons - truída com arcos sobre colunas de ordem toscana forman- do naves, nos moldes usuais da metrópole, antes que os jesuítas inovassem a nave única com visão desobstruída para o pregador e para o altar, inovação desde logo trazida pelo irmão arquiteto Francisco Dias quando, em 1580 , projetou e construiu a nossa primeira igreja com pedigree, a da Graça, em Olinda, martirizada pelo holandês. Assim, as nossas igrejas, no começo, foram simples e claras, com o óculo inicial do frontispício da Graça trans- ferido para a empena de frontão reto, duas janelas no coro e uma porta só. C o m o correr do tempo esse esquema singelo foí sendo alterado: surgiram os corredores laterais com tri- bunas no andar e a nave escureceu; a talha alastrou; mul- tiplicaram-se as portas e janelas na fachada e a primitiva unidade se perdeu. Só dois séculos depois, em Minas , ele foi retomado, no princípio de setecentos, até desabrochar — claro e misticamente alegre de novo — na obra-prima que é a igreja de São Francisco de Assis, em Our o Preto.

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ARQUITETURA

ISSO S.JCVH 176 6
ISSO
S.JCVH
176 6

17 — No Nordeste, como constatou Ayrton Carva- lho, as igrejas de pedra e cal, tanto antes como depois da ocupação, tiveram seu espaço interno compartimentado numa trama arquitetônica de cantaria — pilastras, arcos, cornijas, enquadramento de vãos — que contrastava com o branco das paredes caiadas e delimitava as reentrâncias de maior ou menor profundidade destinadas a receber os altares laterais e seus retábulos, os primeiros ainda de pedra, como era co - mum na fase renascentista — ou, melhor, "maneirista"— em seguida os de madeira dourada. Com o tempo, essa talha extravasou dos limites que lhe eram impostos e passou a recobrir os próprios elementos arquitetônicos moldurados que a enclausuravam, constituindo-se assim, essa forração de alto a baixo, num monumental cofre de madeira esculpi-

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ANOTAÇÕES

AO

CORRER

DA

LEMBRANÇA

da, encaixado no corpo original de alvenaria de pedra, fican- do desse modo encobertos os pormenores já prontos e aca- bados da comodulação de cantaria. O forro era como que a tampa desse cofre revestido de ouro, inicialmente formando painéis enquadrados para receber pintura, depois com tabuado liso contínuo para per- mitir a livre expansão dos arabescos florais, e, finalmente, a perspectiva arquitetônica, como se o teto todo se abrisse numa explosão de balaustradas, colunas e arcos entremea- dos de guirlandas floridas, de anjos, de nuvens para a glo- rifícação dos santos e de Nossa Senhora em pleno céu. Assim, a ambientarão mística estruturalmente ob - tida nas catedrais góticas com os altos feixes de pilares que se abriam em ogivas nas abóbadas, e com o rendi- lhado das rosáceas e dos tênues mainéis onde resplen- diam os vitrais, passara com a ordem nova dos jesuítas , depois da Contra-Reforma , e graças ao artifícioso en- genho de artistas com o o padre Pozzo e Tiepolo , a ser alcançada através do contato direto com a visualização idealizada da própria atmosfera celeste.

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ARQUITETURA

MliTltlin O GÓTICO
MliTltlin O
GÓTICO
MISTICUMO tlAMMXà .
MISTICUMO
tlAMMXà .

Tal como na Idade Média, quando os escultores trata- vam com igual apuro tanto as ilhargas e os tímpanos das monumentais portadas, como as figuras perdidas nos mais altos pináculos, ao alcance visual apenas dos anjos, também no interior das igrejas barrocas, lado a lado com o despo- jamento pessoal dos religiosos, prevalecia o propósito de que- rer sempre aplicar o que fosse melhor, mais rico, mais belo, sem poupar esforços e sacrifícios, num esbanjamento ma-

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ANOTAÇÕES

AO

CORRER

DA

LEMBRANÇA

terial, paradoxalmente legítimo, porque em honra e louvação de uma simples idéia, de uma profunda convicção do espírito.

18 — Enquanto na colônia anglo-saxã do norte, o puritanismo associado ao pragmatismo e à industriosa busca da felicidade terrena conduziram à prosperidade coletiva e à riqueza pessoal, nas colônias latinas, afora a obsedante busca do ouro, da prata e das pedras preciosas, toda a atividade dos vários ofícios e energia criativa foi principalmente concentrada no fabrico de igrejas e con- ventos — igrejas matrizes, igrejas de irmandades e de ir- mãos terceiros, mormente em Minas onde o acesso direto das ordens religiosas ao ouro fora vedado pelo rei. Avultam, de fato, nas cidades coloniais, o perfil das igre- jas e a massa edificada dos mosteiros e conventos. Assim, por exemplo, em Salvador, o colégio e a solene igreja dos je- suítas, com a sua imponente sacristia que, como a da rica e bela igreja do Carmo de Cachoeira, não tem nada que se lhes compare; a opulenta igreja do monumental convento fran- ciscano, com o seu belíssimo claustro azulejado, o que tam- bém caracteriza, embora em menores proporções, mas com a

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ARQUITETURA

mesma graça, os numerosos conventos da ordem no Nor- deste, cujas igrejas apresentam em comum a particularidade de ter as fachadas escalonadas, com o coro montado sobre a parte central de um pórtico de cinco arcos, e uma só torre, recuada, bem como a de dispor de adro e cruzeiro, além das preciosas capelas anexas; os mosteiros beneditinos, o do Rio, valioso relicário de arte sacra, o de Olinda, com a sua apuradíssima talha portuguesa; as matrizes mineiras, pobres por fora, ricas por dentro, como as do Pilar em Ouro Preto, a da Conceição de Sabará — com a jóia de Nossa Senhora do Ó, mais além —, a de Tiradentes dispondo de órgão e de fabuloso retábulo devido a mestre Sampayo; ou mesmo em lugares perdidos como Brumai, um esplêndido exemplar intacto da primeira metade de setecentos, ou, em Santa Rita Durão, a linda igreja de Nossa Senhora do Rosário.

A talha dos retábulos evolui, passando do maneirismo ainda renascentista da primeira fase, e do protobarroco de colunas torsas e arquivoltas concêntricas, à explosão do barroco propriamente dito, até alcançar a graça final do chamado "rococó " que antecede a volta à linha reta e à concisão do neoclassicismo.

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ARQUITETURA

São tantas, porém, as preciosidades arquitetônicas es- palhadas pelo país que é impossível enumerá-las nestas sim- ples anotações, e se desse aparente desperdício resultou — de par com o acervo monumental — a pobreza, há contudo algo de positivo a ressaltar, do ponto de vista comunitário e social, em tão chocante constatação. E que, durante a Colô- nia e o Império—com o ainda agora—toda essa opulência, toda essa riqueza física e espiritual contida nas igrejas anti- gas, esteve sempre — e ainda está — à disposição de qual- quer um, ao alcance do povo. Seja qual for o seu estado de espírito, qualquer que seja a sua condição, você pode usu- fruí-la, ela é sua — é só entrar e ficar lá.

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INTERMEZZO

Cata s

Altas

d o

Mat o

Dentr o

Em 192 7 passei cerca de um mês no Caraça.

No

último dia do ano, com o jument o resvalando

nas pedras soltas da serra, desci até Catas Altas do Mat o Dentro, para visitar a rica matriz.

Estava deserta. Apenas uma velhinha sentada num dos bancos. Em meio ao esplendor da talha, dos dourados, das imagens, das pinturas, ela se sentia visivelmente em casa. Estava ali à vontade, como se tudo aquilo tivesse sido con- cebido para o seu uso e gozo exclusivo, como se tudo lhe pertencesse. Morava num casebre, mas dispunha da imensa nave e dos gigantescos retábulos para sua conversa diária — em clima de graça, louvor e glória — com Nossa Senhora e o Senhor.

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ARQUITETURA

ARQUITETURA

INTERMEZZO

CATAS

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DO

MATO

DENTRO

19 — Cabe, finalmente, uma referência especial à gran- de obra realizada pelos padres nos chamados Sete Povos das Missões, obra que, pertencendo embora à Província Jesuítica do Paraguai, ficou definitivamente encravada no país, constituindo assim um setor autônomo no conjunto dos monumentos coloniais brasileiros. Cada povo — isto é, cada burgo — era constituído pela igreja que compunha com a residência dos padres, o asilo, a enfermaria, as aulas, as oficinas, as cocheiras etc , e também com o cemitério, um grande conjunto arquite- tônico, servido por vários pátios, tudo murado, muro que se continuava para os fundos das construções abarcando a enorme área ocupada pelo pomar e pela horta, ou seja, a quinta dos padres. Em frente à igreja, havia um grande terreiro ou pra- ça, em volta do qual eram dispostos numerosos blocos de habitação coletiva, compostos de muitas células de cinco metros por sete, aproximadamente, verdadeiros apartamentos com porta e janela e construídos com pare- des de pedra ou de barro, morando em cada um deles uma

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ARQUITETURA

família de índios. Um passeio alpendrado circundava es- ses blocos de habitação que correspondiam a verdadeiras quadras. Os primeiros blocos construídos eram os que formavam a praça; depois, à medida que o povo crescia, novos blocos eram edificados paralelamente aos primei- ros, surgindo dessa forma, entre eles, numerosas ruas, todas em esquadro, à moda espanhola.

Estes povos, com as respectivas estâncias para criação de gado, ficavam a uma distância razoável uns dos outros, formando a seqüência deles um todo orgânico e perfeita- mente articulado. Os jesuítas revelaram-se, nestas Missões, urbanistas notáveis, e a obra deles, tanto pelo espírito de organização como pela força e pelo fôlego, faz lembrar a dos romanos nos confins do Império. Apesar do atual des- mantelo, ainda se adivinha nos menores fragmentos uma seiva, um vigor, um "impulso", digamos assim, que os tor- na — estejam onde estiverem — inconfundíveis. A nossa interferência no caso foi apenas demolidora: conseguimos desmontar, peça por peça, a obra singular criada pelo gênio colonizador e sob a tutela dos padres.

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CATAS

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Só mesmo quando se percorreu, um a um, esses po - vos, repetindo a peregrinação feita em fins do século pas- sado por Hemetério Veloso, cujo depoimento é, hoje, dos mais valiosos, pois que ainda havia ali, então, muita coisa para ver; quando se estuda a história dramática da instala- ção das primeiras "reduções" e das lutas que antecederam ao definitivo abandono e, ainda, documentação antiga re- ferente à arquitetura missioneira, é que se pode ajuizar e reconstituir mentalmente o que foram esses povos na épo- ca do seu florescimento, quando, na bruma da manhã, cada dia, todos aqueles índios saíam das casas, atravessando o terreiro em direção da igreja: Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Borja — cidades que, não fossem a praça e uns poucos vestígios isolados, já teriam esquecido com- pletamente o aspecto primitivo; São João Baptista, São Miguel Arcanjo, São Lourenço e São Nicolau — ruínas perdidas naquele ermo da campanha rio-grandense, com uma ou outra casa próxima, construída com material anti- go, ou certo número delas formando novo povoado. Com exceção das ruínas monumentais de São Miguel,

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ARQUITETURA

recuperadas pelo antigo SPHAN , pouca coisa ficou; pe- ças que, sobrevivendo à catástrofe, por assim dizer, "de - ram à praia": capiteis, cartelas partidas vermelho-ferrugem, ainda com o IHS , os três cravos e a cruz, imagens muti- ladas e já sem cor — peças cuja vista nos deixa uma im- pressão penosa e certo mal-estar, com o se realmente estivéssemos diante dos destroços de algum naufrágio. Com o remate destas anotações avulsas referentes à nossa tradição, cujo objetivo foi apenas facilitar o enten- dimento e despertar a curiosidade, cabem algumas consta- tações de alcance mais abrangente:

I — É, na verdade, impressionante que um programa tão simples como o da igreja — nave, altar e sacristia — tenha comportado, através dos tempos, tamanha variedade de soluções — desde as primeiras, ainda inspiradas nas an- tigas basílicas, seguidas das inovadoras cúpulas bizantinas, das severas naves românicas, dos luminosos transeptos góti- cos, da volta à clareza geométrica renascentista e do desaba- fo barroco —, até chegar à comovente capela de Ronchamp, na França, e à bela estrutura da catedral de Brasília.

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2 — São Pedro de Roma é um exemplo de como a arquitetura pode ajustar-se tão integralmente à idéia que lhe cabe expressar, que, já agora, se torna impossível dissociar o conceito de papado, com o principal veículo e símbolo universal da fé cristã, da imagem arquitetônica que sucessivos artistas lhe conferiram: a dbside e a cúpu- la de Miguel Ângelo, a nave acrescida por Maderna, o adro e a praça fronteira delimitada pela monumenta l colunata de Bernini, que ainda contribuiu com o resplen- dor do retábulo e o imenso e fabuloso baliaquino de bron- ze, na justa medida e no lugar certo. Cabendo igualmente constatar a incrível coragem e visão desses homens — papas e artistas — capazes de enfrentar com paixão ta- manho empreendimento. Basta considerar o caso da fa- mosa cúpula que, com o sua antecessora, a obra-prima do Brunellesco, em Florença, é imensa tanto vista de longe como de perto, todos se perguntando com o foi possível fazer tudo aquilo naquela altura com os meios restritos da época; como também o caso dessa belíssima praça nascida do gesto inspirado de um simples risco

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ARQUITETURA

— assim com o procede o nosso Oscar* —, sem consi- derar secjuer a perspectiva do louco e lento trabalho de anos e anos a fio: trazer os matacões da pedreira para o canteiro da obra; lavrar, suspender e ajustar co m preci- são cada tambor, ou seja, cada bloco do fuste, à feição do galbo das 32 8 enorme s colunas , rematadas pel o entablamento — arquitrave, friso, cornija — com a sua alta balaustrada, marcando-se, ainda, o prumo de cada uma das colunas voltadas para a praça, com o gesto elo - qüente de uma gigantesca estátua. E tudo isto por determinação do detentor da heran- ça de Pedro, e com tanto maior propriedade porquanto, na sua ovalada configuração, como que simboliza a pró- pria rede lançada para arrebanhar os fiéis, tal como ainda agora, quase quatro séculos depois, tranqüilamente em casa, temos assistido nas cerimônias divulgadas para o mundo todo graças ao milagre — este sim — da ciência e da tecnologia.

'O autor se refere ao arquiteto Oscar Niemeyer.

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3 — A obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleija- dinho, foi, no parecer de Germain Bazin, antigo conser- vador-chefe do Museu do Louvre—parece r que subscrevo integralmente —, a última manifestação válida de arqui- tetura e escultura cristãs, no âmbito mundial da história da arte, antes do longo hiato que precedeu à legítima reformulação arquitetônica contemporânea.

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INTERMEZZO

Rott-am-lnn

Pouco depois do fim da guerra, em 1948 , fui ao sul da Alemanha para conhecer as igrejas barrocas da região contida entre o Danúbio e os Alpes, tais como o imenso e belíssimo interior de Ottobeuren e a insuperável graça rococó de Wies , sozinha no descampado.

Ma s o que principalmente me interessava era ver o retábulo de Rott-am-lnn, porque pelo exame fotográfico era o único que, de fato, apresentava alguma afinidade quanto ao partido geral, inclusive a figuração no fecho da composição, com os retábulos mineiros.

Depoi s de muito rodar fui bruscamente impedido de prosseguir — a "autobahn atingida pelos bombardeios, terminava bruscamente a pique. Foi necessário retroceder a fim de pegar um atalho, estrada vicinal que não acabava

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ARQUITETURA

mais, até que, já escurecendo, avistei ao longe o perfil bar- roco da igreja também solta na paisagem como Wies . Ao me aproximar, pressenti o malogro: estava fecha- da. Apesar da frustração, caminhei em direção à porta e, para meu espanto, ela se abriu. Percebi então ao fundo, na penumbra, o retábulo. Contendo a emoção entrei na nave vazia. De repente as luzes se acendem, e quando, com o pensamento no Aleijadinho, encaro de perto o retábulo, ouço os primeiros acordes de um cantochão. Era sábado e o organista ensaiava para a missa da manhã.

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ANTÔNI O

FRANCISC O

LISBOA ,

O

ALEIJADINH O

Antônio Francisco Lisboa nasceu em Our o Preto, antiga Vila Rica, a 29 de agosto de 17 3 8, filho de Manoel Francisco Lisboa, carpinteiro-arquiteto, empreiteiro e mestre das obras reais, e de Isabel, sua escrava. 4 Segundo descrição de Joana, nora do artista, registrada por seu biógrafo, Rodrigo José Ferreira Bretas, "Antônio Francis- co era pardo-escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada e o gênio agastado; a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumo- sa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes e o pescoço curto. Até cerca dos 40 anos teve boa saúde, tanto que cuidava sem- pre em ter mesa farta e era visto muitas vezes tomando

*Afirmaç,3o nâo confirmada.

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ARQUITETURA

parte nas danças vulgares". Vila Rica a esse tempo ainda não apresentava o perfil que conhecemos e tanto lhe deve. A Casa da Câmara, atual Museu da Inconfidência, as igre- jas de Noss a Senhora do Carmo, de São Francisco de Assis, de Nossa Senhora do Rosário e de São Francisco de Paula ainda não existiam; mas a casa dos Governado- res, com seus baluartes e rampa de acesso como se vê na fiel reconstituição de Wasth Rodrigues , projetada por Alpoim e construída precisamente pelo pai de Antônio Francisco, já comandava a perspectiva urbana. Nascida da busca do ouro e vencido o período inicial da implanta- ção, estava então na sua fase de prosperidade e consolida- ção, afluindo diretamente da metrópole mestres dos vários ofícios para atender à intensa procura de mão-de-obra qualificada. As matrizes de Nossa Senhora do Pilar e dc Nossa Senhora da Conceição, de Antônio Dias, bem como a importante Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos , no Alto da Cruz, estavam sendo concluídas, e a riquíssima talha dourada dos interiores contrastava de- liberadamente com a taipa caiada e o pau-a-pique das fa-

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chadas de frontão reto e torres sineiras ainda cobertas de telha. Contudo, nesse meado de século, estava-se às vés- peras de novo surto artístico, verdadeiro renascimento, decorrente ainda do impulso econômico anterior, mas motivado, desta vez, pela emulação entre as irmandades empenhadas na construção das respectivas capelas, já de pedra e cal e mais claras, elegantes e "modernas " como se dizia também então, movimento iniciado em 175 2 em Mariana com a nova capela do Rosário, cuja talha seria executada em 177 0 por Francisco Vieira Servas, contem- porâneo de Antônio Francisco Lisboa. É que, enquanto na primeira metade do século ainda prevalecia a velha e boa tradição medieval dos arquitetos se formarem atra- vés dos ofícios da construção, vai finalmente ocorrer em Vila Rica, nesta segunda fase, o que sucedera na Renas - cença, ou seja, a interferência estimulante de arquitetos oriundos do meio dos artistas plásticos. Surto propiciado ainda pela sedimentação da cultura e conseqüente tendên- cia à especulação intelectual e, finalmente, pelo despertar da consciência cívica; pois apesar da clausura imposta à

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ARQUITETURA

colônia, as idéias nascidas do enciclopedismo, do enligbten~ mtnt e o eco das revoluções libertárias vararam o espaço através dos mares e montes e vales e, encontrando condi- ções adequadas, aninharam-se ali. Poetas e eruditos, prela- dos e bacharéis, músicos, arquitetos, pintores, escultores, professores de artes mecânicas e mestres de ofícios — to - dos conviviam, e esse desenvolvimento intensivo, no deli- mitado espaço urbano, levou naturalmente àquele anseio de independência que o Tiradentes, afinal, catalisou.

Foi nesse ambiente saturado de vitalidade que Antô- nio Francisco se formou. E não lhe faltaram mestres qua- lificados. O risco arquitetônico e as técnicas da carpintaria e da marcenaria aprendeu desde cedo com o próprio pai e o tio, Antônio Francisco Pombal. Como mestres de escultu- ra e talha, além de ter visto, ainda menino, Francisco Xavier de Brito trabalhar no Pilar e no Alto da Cruz, teria feito o aprendizado tanto com Jerônimo Félix ou Felipe Vieira, como, principalmente, com José Coelho de Noronha, a quem assistiria em Morro Grande e Caeté; finalmente, nos segredos do desenho "irregular, do melhor gosto francês",

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quer dizer, no estilo Luís XV—conform e refere em 179 0 o vereador de Mariana, Joaquim José da Silva, no precioso documento transcrito por Bretas —, com o artista grava- dor, exilado da metrópole, João Gome s Baptista. Assim aparelhado para o exercício da sua vocação, pode-se identificar a marca inicial da sua presença no ris- co de chafariz feito quando tinha apenas 13 anos para o pátio da casa do governador, e onde já estão definidos dois traços característicos do seu estilo pessoal: a graça (no perfil), e a veemência (na carranca); e no daquele outro construído ao pé da escadaria de Santa Efigênia, no Alto da Cruz. E que o risco desse chafariz apresentado em 175 7 por seu pai é, tudo indica, de autoria, tal como o anterior,

ANTÔNI O FRANCISC O LISBOA quer dizer, no estilo Luís XV—conform e refere em 179 0

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ARQUITETURA

do próprio Antônio Francisco, já então com 19 anos. Isto porque na sua composição ocorre também um pormenor revelador da intenção plástica que lhe vai marcar a obra futura, e que é o modo peculiar como os coruchéus foram implantados: em vez de assentarem diretamente sobre as pi lastras, na forma usual, foram criados lateralmente, num plano recuado, dois consolos para recebê-los, ficando eles, portanto, fora da prumada das pilastras. Resulta desse artifício um duplo movimento — a composição se abre para os lados e projeta-se à frente ao mesmo tempo, ad- quirindo assim sentido dinâmico, apesar da sua estrutu- ração estática fundamental. Outra circunstância corrobora a autoria do risco desse chafariz. E que não obstante a sua execução, por oficiais canteiros, ser um tanto gros- seira, acha-se coroado por um imprevisto busto de mu- lhe r em pedra-sabão datado de I76I. O inusitado da figuração, o galbo do plinto e o talhe dos algarismos são outros tantos indícios veementes de afirmação precoce da personalidade singular de Antônio Francisco Lisboa. E sabendo-se que seu pai, Manoe l Francisco, vivia então

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assoberbado de compromissos , nada mais natural senão confiar ao filho, que se estava iniciando na profissão, a desincumbência da pequena tarefa. Trabalho talvez atribuível a esse primeiro período é o oratório de jacarandá, na sacristia do Pilar, cujo fundo é tratado em caneluras, solução só encontrada, depois, no la- vatório de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Época em que atuou na igreja que prometia, mas arquitetonica- mente enjeítada de Morr o Grande, onde possivelmente interferiu no partido de implantação das torres, e elaborou o risco do arco da capela ainda com pés-direitos e tímpa- nos à moda antiga, como os fazia seu pai, mas com umas tantas inovações, além de esculpit os anjos da tarja e a ima- gem do frontispício; e, ainda, em Caeté, onde deu o risco para os dois últimos retábulos da empreitada geral de Coelho de Noronha, executando o do lado da epístola, in- clusive as imagens. São numerosas as imagens avulsas cuja autoria se lhe pode atestar, sendo das mais belas uma pe- quena Sant'Ana, onde com refinado apuro plástico se con- trapõem a serena desprevenção e a tensão premonitória.

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Em 176 6 a sua reputação já se Firmara, tanto as- sim que, havendo a Irmandade Carmelita encomendado ao velho e consagrado Manoe l Francisco Lisboa o risco para a sua igreja, os irmãos terceiros de São Francisco, esclarecida irmandade que congregava a maioria dos in- telectuais, não hesitaram em confiar ao filho a respon- sabilidade de projeta r capela capaz de confrontá-la . Resultou dessa prova de confiança a sua obra-prima arquitetônica, na qual executou pessoalmente, além do frontispício com a portada e do lavatório da sacristia, o retábulo da capela-mor, o barrete e os púlpitos de pedra inseridos de forma inusitada nas aduelas do arco-real. Vê - se, pelo corte preservado de uma cópia contemporânea do risco original, que, inicialmente, apenas a taça des- ses púlpitos fora, na forma do costume , prevista de pe - dra; a deliberação de fazê-los integralmente de esteatita, com o o próprio arco, teria ocorrido durante a constru- ção. A integração do expressionismo dramático das fi- gurações bíblicas no elaborado requinte ornamental, próprio do estilo da época, é uma característica cons -

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tante da obra de Antônio Francisco Lisboa e o que lhe confere a típica veemência. Lamentavelmente, apesar da esplêndida complementação arquitetônica da pintura de Manoel da Costa Athayde, a igreja ficou inconclusa, fal- tando-lhe o coro, as grades e os próprios altares cola- terais, que só foram executados mal e tardiamente, embora segundo risco original. Também externamente, as varandas laterais previstas com balaustrada e pirâmi- des de pedra-sabão, tal como consta nas minuciosas especificações preservadas, não se fizeram, e foram in- devidamente cobertas, já em l80I, com telhado sobre arcadas a pretexto de infiltração.

Data da mesma época dos púlpitos (1771-72) , além do risco para o retábulo da capela de São José, a portada carmelita de Sabará, seguida da portada, também dos ir- mãos terceiros do Carmo, de Ouro Preto, onde, após a morte de seu pai, elaborou, por insistência dos irmãos, novo risco para o corpo da igreja e respectivo frontispício, em que alteia e altera fundamentalmente o anterior, adaptan- do assim a composição arquitetônica ao seu estilo pessoal.

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Voltando a Sabará executa, sempre para o Carmo, pos - sante e magistral empena de serpentina cor de bronze, ainda vazada, apesar da rocalba, no arrogante espírito do estilo D. João V, ou Luís XI Y enquanto no risco apre- sentado após a conclusão dessa obra, em 1774 * para a igreja franciscana de São João dei Rey — e que não che- gou a ser realizado tal como fora concebido —, a empe- na, de partido semelhante, já revela a intenção de graça

peculiar ao estilo

Luís

XY ou

D. José.

A portada figurada nesse risco, apesar do seu inexce- dível apuro, como desenho e composição, parece ainda incompleta, pois ainda não havia então ocorrido a Antô- nio Francisco a solução que afinal adotou na sua volta a Our o Preto, quatro meses depois, quando convenceu os irmãos da necessidade de desfazer as ombreiras e a verga da porta e de afastar as janelas do coro, já feitas, a fim de poder realizar o novo risco de portada que trouxera. Que teria sucedido de tão decisivo em tão curto espaço de tem po, a ponto de justificar tamanho empenho e decisão? Presume-se que de São João haja prosseguido viagem até

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o Rio , a fim de conhecer a famosa portada de pedra de lioz trazida de Lisboa em 176 1 e que, por seu porte e beleza, avultava na frontaria inacabada da igreja carmelita carioca. Esse impacto sugeriu-lhe então sobrepor, naque- le seu risco, às armas da ordem franciscana, o medalhão de Noss a Senhora encimado pela coroa real, completan- do a composição triangular com dois anjos pousados so - bre as cornijas das pilastras laterais. Este risco inicial para São João dei Rey é, pois, uma realização a meio caminho, o estágio intermediário de uma obra ainda em processo de elaboração; o artista é, por assim dizer, surpreendido em flagrante ao cometer o "delito" da criação, que resul- tou na obra-prima realizada em Ouro Preto. E, assim, esta capela franciscana adquiriu a sua feição definitiva, obra sem paralelo, em que a energia, a força, a elegância e a finura se irmanam, conferindo à criação arquitetônica pal- pitação de coisa viva. Ainda em Vila. Rica executou, depois, o belo lavató- rio para a sacristía da Igreja do Carmo; em seguida, tam- bém em pedra-sabão, outro, para a de São Francisco, ao

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que parece doado pelos sacristãos, pois não consta nos livros qualquer referência a pagamento. Obra-prima e comovente porque foi no transcurso da sua demorada execução (1777-78-79 ) que a doença o acometeu e de- formou. Perdeu o "uso dos dedos, tanto dos pés como das mãos, com exceção dos polegares e índices", e teve o rosto desfigurado, o que lhe conferiu, no dizer da nora, "expressão asquerosa e sinistra que chegava a assustar a quem que r que o encarasse inopinadamente", daí "a acrimônia do seu humor, por vezes colérico". Já em 1777 - 78 há registro do que se despendeu com dois pretos para carregá-lo numa inspeção de serviço, e o documento ofi- cial de 1790 , já referido, constata: "Tanta preciosidade se acha depositada em corpo enfermo que precisa ser con- duzido a qualquer parte e atarem-se-lhe os ferros para poder trabalhar." Passou então a ser conhecido pela alcu-

nha de Aleijadinho.

Parece que a moléstia ainda o apegou mais ao traba-

lho,

pois a

sua obra

se avoluma e avulta.

Concluindo o

frontispício de São Migue l e Almas, em Our o Preto,

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FRANCISC O

LISBOA

retorna a Sabará, onde faz o elegante coro, a grade, os púlpitos e duas imagens; fornece o risco — que não teria sido obedecido — para o altar-mor de São Francisco em São João dei Rey, atendendo assim à solicitação dos ir- mãos empenhados na procura do arquiteto "em Vila Rica, ou em qualquer parte onde se achasse". E depois de ou- tros trabalhos, na encantadora igreja do Rosário, em Santa Rit a Durão, e na importante capela da fazenda da Jaguara, concentra-se finalmente de novo na sua obra-mestra, São Francisco de Our o Preto, a fim de executar o monumen- tal retábulo da capela-mor, obra plástica de inexcedível apuro e vigor, sonora e vibrante como um canto pungen- te de glória; obra que durou de 179 0 a 94 . Vinte anos depois da sua primeira visita, quando ainda são, volta a São João, onde os seus projetos foram indevidamente al- terados por Francisco de Lima Cerqueira, o respeitado mestre-canteiro responsável pelas obras, e trabalha a jor- nal, como de costume, de 94 a 95 . nas portadas do Carmo e de São Francisco.

A contradição fundamental entre o estilo da época —

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ARQUITETURA

elegante e maneirado — e o ímpeto poderoso do seu tem- peramento apaixonado e tantas vezes místico, contradição magistralmente superada, mas latente e que, por isto, de quando em quando extravasava, é a marca indelével da sua obra, o que lhe dá o tom singular e faz deste brasileiro das Minas Gerais a mais alta expressão individualizada da arte portuguesa do seu tempo. Deve-se aliás assinalar que essa modalidade mineira da arte colonial portuguesa no Brasil apresenta, por vezes, maior afinidade com o barroco-rococó de entre o Danúbio e os Alpes do que com a arte metropo- litana que a gerou.

A religiosidade do Aleijadinho cresceu na medida do seu íntimo convívio com a hagiografia e com a Bíblia; e do isolamento a que se impôs em conseqüência da mo - léstia resultou uma profunda comunhão da sua arte com a fé. As inúmeras sentenças e os versículos que partici- pam da composição dos púlpitos e retábulos de sua au- toria se devem indubitavelmente à sua própria iniciativa e escolha, porquanto não ocorrem na obra de nenhum outro entalhador.

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ANTÔNI O

FRANCISC O

LISBOA

Dedica-se, por fim, ao santuário de Noss o Senhor do Bom Jesus de Matosinhos , em Congonhas , para em- preender, sexagenário, a enorme tarefa de encenar, em ta- manho natural, os Passos da Paixão, figuração onde avultam, entre a comparsaria, as imagens em corpo intei- ro do Senhor e seus discípulos, conjuntos que só foram definitivamente montados quando se concluíram as ca- pelas, depois da sua morte. E como se não bastasse como remate de uma vida inteira dedicada à arte, ainda compõe arquitetonicamen- te o adro do santuário e, no ermo da colina, enfrenta no - vamente os toscos blocos azulados de pedra tenra de onde extrai, sem lhes roubar a íntegra consistência, com a aju- da dos seus oficiais — um deles, Maurício, morre nesse empenho, as figuras bíblicas, gravando-lhes no gesto, nas cartelas e na face as sentenças proféticas — Jeremias, Ezequiel, Habacuc , Nahum, Joel, Oseas , Baruc, Jonas , Daniel, Amos , Abdias, Isaías. De volta a Ouro Preto dá o risco para os dois últi- mos altares colaterais do Carmo e neles trabalha com

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ARQUITETURA

Justino, com quem se desentende por questões de paga- mento. Data igualmente desse período final o projeto da nova frontaria para a Matriz de Tiradentes, e a consulta dos carmelitas de Sabará, quando então propôs (sem êxi- t o ) o alteamento da capela-mor para que nela coubesse o retábulo que concebera. Depois , com o corpo chagado, amargurado e só, ja- zeu por quase dois anos num estrado de tábuas sobre dois cepos em pequena ale ova onde conservava, no dizer de Joana Francisca, sua nora, a imagem do Senhor a quem apostrofava, na sua lenta agonia, pedindo que "sobre ele pusesse os seus divinos pés".

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RUPTUR A

E

REFORMULAÇÃ O

C o m o advento da Revolução Industrial, o processo evolutivo se rompeu, já agora proporcionando a formula- ção de novas proposições de fundo científico e tecnológico ainda mais revolucionárias, cujas implicações de ordem ética e filosófica afetam e condicionam o grande drama humano, econômico e social em que o mundo se debate — esse imenso puzgle que se veio armando pacientemen- te, peça por peça, durante todo o século passado e neste final de século se continua a armar com muito menos paciência, não nos permitindo as peças que ainda faltam a segurança de afirmar se é mesmo de um anjo sem asas que se trata, como querem uns, ou, como asseveram ou- tros — igualmente compenetrados —, de um demônio imberbe. Poderá parecer fora de propósito, tratando-se aqui

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ARQUITETURA

de um tema restrito, alusão a ocorrência tão distante no tempo, mas é que, apesar da sua remota origem, ela se faz cada vez mais presente e está na fardos grandes e peque- nos problemas atuais, não apenas os que afetam o nosso egoísmo, porventura legítimo, e nos afligem cada dia a cons- ciência e o coração, mas também aqueles de cuja solução depende a própria feição material da cidade futura. Numa perspectiva mais ampla, esse desajuste pro- fundo provocado pela industrialização agravou-se devido ao fato do espírito agnóstico se haver antecipado ao espí- rito religioso na inteligência do seu verdadeiro sentido e alcance. C o m efeito, quando a produção era obra manual de artesanato — ou seja, necessariamente limitada — só uns poucos privilegiados podiam usufruí-la, cabendo assim ao padre, já que não havia outro remédio, aconselhar re- signação. Co m as novas técnicas revolucionárias de pro- dução, esse esquema imemorial se inverteu e, com poucos, se produz em massa aquilo de que todos têm precisão. Portanto, a reivindicação do que lhe é devido, da parte de

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RUPTURA

E

REFORMULAÇÃ O

quem trabalha, passou a ser legítima, tornando-se já en- tão imoral — e cínico — aquele apelo à resignação. Da í a coincidência de propósitos que se observa, na atual fase do processo de reformulação econômico-social, entre o crente e o que descrê. Continuarão junto s até que, com o bem alcançado, um já se dê por satisfeito e o outro pros- siga, porque o seu verdadeiro objetivo está além. A distinção entre transformações estilísticas de cará- ter evolutivo, embora por vezes radicais, processadas de um período a outro na arte do mesmo ciclo econômico-social — e, portanto, de superfície — e transformações como esta, de feição nitidamente revolucionária, porquanto decor- rente de mudança fundamental na técnica da produção, ou seja, nos modos de fabricar, de construir, de viver, é indis- pensável para a compreensão da verdadeira natureza e mo - tivo das substanciais modificações por que vem passando a arquitetura e, de um modo geral, a arte contemporânea, pois, no primeiro caso, o próprio gosto, já cansado de re- petir soluções consagradas, toma a iniciativa cguia a inten- ção formal no sentido da renovação do estilo, ao passo que,

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ARQUITETURA

no segundo, é a nova técnica e a economia decorrente dela que impõem a alteração e lhe determinam o rumo— o gosto acompanha. Num, simples mudança de cenário; no outro, estréia de peça nova em temporada que se inicia. Assim, a técnica tradicional do artesanato, com os seus processos de fazer manuais, e, portanto, impregna- dos de contribuição pessoal, pois não prescindiam no por- menor, da iniciativa, do engenho e da invenção do próprio obreiro, estabelecendo-se deste modo um vínculo de par- ticipação efetiva entre o artista maior, autor da concep- ção mestra da peça ou da obra e o conjunto dos artistas especializados que a executavam — os artesãos —, foi bruscamente substituída pela técnica da produção indus- trializada, onde o processo inventivo se restringe àqueles poucos que concebem e elaboram o modelo original, não passando a legião dos que o produzem de autômatos , em perene jejum de participação artística, alheios como são à iniciativa criadora.

Estabeleceu-se, portanto, o divórcio entre o artista e o povo: enquanto o povo artesão era parte consciente na ela-

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RUPTURA

E

REFORMULAÇÃ O

boração e evolução do estilo da época, o povo proletário per- deu contato com a arte. Assim, pois, também aqui, a força viva avassaladora da idade industrial, nos seus primórdios, é que determi- nava o curso novo a seguir, tornando obsoleta a experiên- cia tradicional acumulada nas lentas e penosas etapas da Colônia e do Império, a ponto de lhe apagar até mesmo a lembrança. Tanto mais que, com a abolição da escravatura, a "má- quina brasileira de morar", a casa antiga, foi aos poucos deixando de funcionar, tornando-se mesmo inabitável devido ao desconforto. É que ela dependia essencialmen- te da presença dessa mistura de coisa, de bicho e de gen- te, que era o escravo: havia negro para tudo — desde os negrinhos sempre à mão para recados, até negra velha, babá. O negro era esgoto, era água corrente no quarto, quente e fria, era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador auto- mático e abanava que nem ventilador. Era ele que fazia a casa funcionar.

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ARQUITETURA

Mesmo durante a primeira fase republicana, os víncu- los de dependência e os hábitos cômodos da vida patriarcal de tão vil fundamento perduraram, e o custo baixo da mão- de-obra doméstica ainda permitiu à burguesia manter, mesmo sem escravos oficiais, o trem fácil de vida do perío- do imperial, mas depois — com o tempo — tudo mudou.

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EDIFÍCI O

GUSTAV O

CAPANEM A

O edifício construído por Gustavo Capanema para sede do antigo Ministério da Educação e Saúde surgiu como que de repente e a sua serena beleza surpreendeu quando, terminada a guerra, o mundo tomou conhecimento da sua insólita presença. Marco definitivo da nova arquitetura

EDIFÍCI O GUSTAV O CAPANEM A O edifício construído por Gustavo Capanema para sede do antigo

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ARQUITETURA

brasileira, revelou-se igualmente, apenas construído, padrão internacional da reformulação arquitetônica, e demonstrou que o engenho nativo já está apto a apreender a experiência estrangeira, não mais somente como eterno cauâatdrio ideo- lógico, mas antecipando-se na própria realização.

Baseado no risco original de Le Corbusier para outro terreno, motivado pela consulta prévia a pedido dos respon- sáveis pela obra, tanto o projeto definitivo quanto a cons- trução do edifício, desde o primeiro esboço até a sua conclusão, foram levados a cabo sem a mínima assistência do mestre, como espontânea contribuição nossa para a pú- blica consagração dos princípios por que sempre se bateu.

Construído na mesma época, com os mesmos ma- teriais e para o mesmo fi m utilitário, avultou, no en- tanto, o edifício do Ministério em meio à então espessa vulgaridade das edificações circunvizinhas, como algo que ali pousasse serenamente, apenas para o eventual enlevo do transeunte despreocupado e, vez por outra, surpreso à vis- ta de tão sublimada manifestação de pureza formal e do- mínio da razão sobre a inércia da matéria.

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EDIFÍCIO

GUSTAVO

CAPANEMA

É belo, pois. E não apenas belo, mas simbólico, por- quanto a sua construção — levada avante enquanto o mundo em guerra empenhava-se em destruição — só foi possível na medida em que desrespeitou tanto a legisla- ção municipal vigente, quanto a ética profissional e até mesmo as regras mais comezinhas do saber viver e da normal conduta interesseira.

A lei exigia o limite de sete pavimentos alinhados em quadra com área interna — os pisos concentraram-se em al- tura no centro de terreno devolvido ajardinado para gozo dos contribuintes; a ética profissional mandava que a obra fosse atribuída a um dos premiados no concurso havido, ainda que fossem sacrificados os melhores princípios da arte de construir — os prêmios foram efetivamente pa- gos, mas venceu a arquitetura; feita pessoalmente a enco- menda, o egoísmo determinava limitação da partilha — o número de associados se ampliou; aprovado o primeiro projeto, mandava o comodismo e a eficiência fosse a obra atacada sem tardança — reclamaram os próprios autores a sua revisão e, em conseqüência, foi necessário recome-

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ARQUITETURA

çar da estaca zero; prevenia a experiência eme não se devia confiar a arquitetos novos, sem tirocínio, a responsabili- dade de tamanha empresa — a obra resultou sólida e de esmerada execução; alertava o instinto político de auto- preservação e a prática da vida, no sentido da transigên- cia ante a critica dos grandes, a insinuação malévola dos medíocres e o divertido sarcasmo dos demais — tanto a autoridade quanto os profissionais mantiveram-se intran- sigentes em favor da realização da obra tal como fora ori- ginariamente concebida; finalmente, insinuava a vaidade, amparada na verdade dos fatos, discrição quanto à parti- cipação pessoal de Le Corbusier — ela não foi apenas destacada, mas acrescida, em atenção ao vulto de sua obra criadora e doutrinária, e a inscrição comemorativa deixa intencionalmente presumir a participação do mestre no risco original do edifício construído, quando se refere a risco diferente, destinado a outro local, mas que serviu efetivamente de guia ao projeto definitivo. O episódio vale como advertência, pois parece insi- nuar que, quando o estado normal é a doença organizada,

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EDIFÍCI O

GUSTAVO

CAPANEMA

c o erro, lei — o afastamento da norma se impõe e a ile- galidade, apenas, é fecunda. Entretanto, o êxito integral do empreendimento só foi assegurado devido à circunstância de estar incluída entre os seus legítimos autores a personalidade que se revelaria a seguir decisiva na formulação objetiva, pelo exemplo e al- cance da própria obra, do rumo novo a ser trilhado pela arquitetura brasileira contemporânea. Pois se o sentido geral dos acontecimentos é, de fato, determinado por fatores de ordem vária, cuja atuação convergente assume, num dado momento, aspecto de inelutabilidade, ocorre ponderar que, na falta eventual da personalidade capaz de captar as pos - sibilidades latentes, a oportunidade pode perder-se e o rumo da ação irremediavelmente alterar-se, devido ao fracasso no momento decisivo da primeira prova. A personalidade de Oscar Niemeyer Soares, arquiteto de formação e mentalidade genuinamente cariocas — con- quanto, já agora, internacionalmente consagrado —, sou- be estar presente na ocasião oportuna e desempenhar integralmente o papel que as circunstâncias propícias lhe

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ARQUITETURA

reservaram e que avultou, a seguir, com as obras da distan- te Pampulha e do Pavilhão do Brasil na Feira Internacional, de 1939 . na longínqua Nova York. E, no entanto, apenas 26 anos antes, havia sido inau- gurado o edifício da ENB A (Escola Nacional de Belas- Artes), atual museu, padrão acadêmico impecável. A arquitetura jamais passou, noutro igual espaço de tempo, por tamanha transformação.

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ADDENDUM

URBANÍSTIC O

  • 1 Cidade é a expressão palpável da humana ne- cessidade de contato, comunicação, organização e troca, numa determinada circunstância físico-social e num con- texto histórico.

2 — Urbanizar consiste em levar um pouco da ci- dade para o campo, e trazer um pouco do campo para dentro da cidade.

  • 3 — Na s tarefas do engenheiro, o homem é prin-

cipalmente considerado como ser coletivo, como "núme - ro", prevalecendo o critério de quantidade; ao passo que nas tarefas do arquiteto o homem é encarado, antes de mais nada, como ser individual, como "pessoa", predominando então o critério de qualidade.

Por outro lado, os interesses do homem como indi-

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ARQUITETURA

víduo nem sempre coincidem com os interesses desse mes- mo homem como ser coletivo; cabe então ao urbanista procurar resolver, na medida do possível, esta contradi- ção fundamental.

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BRASÍLIA,

CIDAD E

INVENTAD A

(Memória

Descritiva)

Desejo, inicialmente, desculpar-me perante a direção da Companhia Urbanizado ra e a Comissão Julgadora do Con- curso pela apresentação sumária do partido aqui sugerido para a nova Capital, e também justificar-me, N ã o pretendia competir e, na verdade, não concorro — apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada mas surgiu, por assim dizer, já pronta. Compareço, não como técnico devidamente aparelha- do, pois nem sequer disponho de escritório, mas como simples maquisard do urbanismo, que não pretende pros- seguir no desenvolvimento da idéia apresentada senão, eventualmente, na qualidade de mero consultor. E se pro- cedo assim candidamente é porque me amparo num racio- cínio igualmente simplório: se a sugestão é válida, estes

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ARQUITETURA

dados, conquanto sumários na sua aparência, já serão suficientes, pois revelarão que, apesar da espontaneidade original, ela foi, depois, intensamente pensada e resolvi- da; se não o é, a exclusão se fará mais facilmente, e não terei perdido o meu tempo nem tomado o tempo de nin- guém. A liberação do acesso ao concurso reduziu de certo modo a consulta àquilo que de fato importa, ou seja, à concepção urbanística da cidade propriamente dita, por- que esta não será, no caso, uma decorrência do planeja- ment o regional, mas a causa dele: a sua fundação é que dará ensejo ao ulterior desenvolvimento planejado da região. Trata-se de um ato deliberado de posse, de um gesto de sentido ainda desbravador, nos moldes da tra- dição colonial. E o que se indaga é com o no entender de cada concorrente uma tal cidade deve ser concebida. Ela deve ser concebida não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas com o Urb$ f mas com o Chitas, possuidora dos

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BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

atributos inerentes a uma capital. E, para tanto, a condi- ção primeira é achar-se o urbanista imbuído de certa dig- nidade e nobreza de intenção, porquanto dessa atitude fundamental decorrem a ordenação e o senso de conveni- ência e medida capazes de conferir ao conjunto projetado o desejável caráter monumental. Monumental não no sen- tido de ostentação, mas no sentido de expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa. Cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao deva- neio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se, com o tempo, além de centro do governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país. Dit o isto, vejamos como nasceu, se definiu e resol- veu a presente solução. 1 —Nasce u do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ân- gulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz. 2 — Procurou-se depois a adaptação à topografia local, ao escoamento natural das águas, à melhor orienta-

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ARQUITETURA

ção, arqueando-se um dos eixos a fim de contê-lo no tri- ângulo eqüilátero que define a área urbanizada. 3 — E houve o propósito de aplicar os princípios francos da técnica rodoviária—inclusive a eliminação dos cruzamentos—à técnica ubanística, conferindo-se ao eixo arqueado correspondente às vias naturais de acesso a fun- ção circulatória tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais para o tráfego local, e dispondo-se ao longo desse eixo o grosso dos setores residenciais.

4 — Com o decorrência dessa concentração resi- dencial, os centros cívico e administrativo, o setor cultu- ral, o centro de diversões e centro esportivo, o setor administrativo municipal, os quartéis, as zonas destina- das à armazenagem, ao abastecimento e às pequenas in- dústrias locais, e por fim, a estação ferroviária, foram-se naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal que passou assim a ser o eixo monumental do sistema. Lateralmente à interseção dos dois eixos, mas participando funcionalmente e em termos de composi- ção urbanística do eixo monumental, localizaram-se o

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BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

setor bancário e comercial, o setor dos escritórios de em- presas e profissões liberais, e ainda os amplos setores de varejo comercial.

  • 5 — O cruzamento desse eixo monumental, de cota

inferior, com o eixo rodoviário-residencial impôs a cria- ção de uma grande plataforma liberta do tráfego que não se destine ao estacionamento ali, remanso onde se con- centrou logicamente o centro de diversões da cidade, com os cinemas, os teatros, os restaurantes etc.

  • 6 — O tráfego destinado aos demais setores pros-

segue, ordenado em mão única, na área térrea inferior coberta pela plataforma e entalada nos dois topos mas aberta nas faces maiores, área utilizada em grande parte para o estacionamento de veículos e onde se localizou a estação rodoviária interurbana, acessível aos passageiros pelo nível superior da plataforma. Apenas as pistas de velocidade mergulham, já então subterrâneas, na parte central desse piso inferior que se espraia em declive até se nivelar com a esplanada do setor dos ministérios.

  • 7 — Desse modo e com a introdução de três trevos

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ARQUITETURA

complcmentares em cada ramo do eixo rodoviário e ou- tras tantas passagens de nível inferior, o tráfego de auto- móveis e ônibus se processa tanto na parte central quanto nos setores residenciais sem qualquer cruzamento, Para o trá- fego de caminhões estabeleceu-se um sistema secundário autônomo com cruzamentos sinalizados mas sem cruza- mento ou interferência alguma com o sistema anterior, salvo acima do setor esportivo, e que acede aos edifícios do setor comercial ao nível do subsolo, contornando o centro cívico em cota inferior, com galerias de acesso pre- vistas no terrapleno. 8 — Fixada assim a rede geral do tráfego de auto- móvel, estabeleceram-se, tanto nos setores centrais como nos residenciais, tramas autônomas para o trânsito local dos pedestres a fim de garantir-lhes o uso livre do chão, sem contudo levar tal separação a extremos sistemáticos e antinaturais, pois não se deve esquecer que o automó- vel, hoje em dia, deixou de ser o inimigo inconciliável do homem, domesticou-se, já faz, por assim dizer, parte da família. Ele só se desumaníza, readquirindo vis-à-vis do

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CIDADE

INVENTADA

pedestre feição ameaçadora e hostil, quando incorporado à massa anônima do tráfego. Há então que separá-los, mas sem perder de vista que em determinadas condições e para comodidade recíproca a coexistência se impõe. 9 — Veja-se agora como nesse arcabouço de circula- ção ordenada se integram e articulam os vários setores. Destacam-se no conjunto os edifícios destinados aos poderes fundamentais que, sendo em número de três e autônomos , encontraram no triângulo eqüilátero, vincu- lado à arquitetura da mais remota antigüidade, a forma elementar apropriada para contê-los . Criou-se então um terrapleno triangular, com arrimo de pedra à vista, sobre- levado na campina circunvizinha a que se tem acesso pela própria rampa de auto-estrada que conduz à residência e ao aeroporto. Em cada ângulo dessa praça — Praça dos Três Poderes, poderia chamar-se — localizou-se uma das casas, ficando as do governo e do Supremo Tribunal na base e a do Congresso no vértice, com frente igualmente para uma ampla esplanada disposta num segundo terra- pleno, de forma retangular e nível mais alto, de acordo

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ARQUITETURA

ARQUITETURA com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo o seu perímetro. A aplicação,

com a topografia local, igualmente arrimado de pedras em todo o seu perímetro. A aplicação, em termos atuais, des- sa técnica oriental milenar dos terraplenos garante a coe- são do conjunto e lhe confere uma ênfase monumental imprevista. Ao longo dessa esplanada — o Mall, dos ingle- ses —, extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles, foram dispostos os ministérios e autarquias.

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CIDADE

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Os das Relações Exteriores e Justiça ocupando os cantos inferiores, contíguos ao edifício do Congresso e com enquadramento condigno, os ministérios militares cons - tituindo uma praça autônoma, e os demais ordenados em seqüência — todos com área privativa de estacionamen- to —, sendo o último o da Educação, a fim de ficar vizi- nho do setor cultural, tratado à maneira de parque para melhor ambientação dos museus, da biblioteca, do planetá- rio, das academias, dos institutos etc , setor este também contíguo à ampla área destinada à Cidade Universitária com o respectivo Hospital de Clínicas, e onde também se prevê a instalação do Conservatório. A Catedral ficou igualmente localizada nessa esplanada, mas numa praça autônoma disposta lateralmente, não só por questão de protocolo, uma vez que a Igreja é separada do Estado, como por uma questão de escala, tendo-se em vista valo- rizar o monumento, e ainda, principalmente, por outra razão de ordem arquitetônica: a perspectiva de conjunto da esplanada deve prosseguir desimpedida até além da plataforma onde os dois eixos urbanísticos se cruzam.

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ARQUITETURA

10 — Nesca plataforma onde, como se viu anterior- mente, o tráfego é apenas local, situou-se então o centro de diversões da cidade (mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées). A face da plataforma debruçada sobre o setor cultural e a es- planada dos ministérios não foram edificadas, com exce- ção de uma eventual casa de chá e da Ópera, cujo acesso tanto se faz pelo próprio setor de diversões como pelo setor cultural contíguo, em plano inferior. Na face fron- teira foram concentrados os cinemas e teatros, cujo ga- barito se fez baixo e uniforme, constituindo assim o conjunto deles um corpo arquitetônico contínuo, com galeria, amplas calçadas, terraços e cafés, servindo as res- pectivas fachadas em toda a altura de campo livre para a instalação de painéis luminosos de reclame. As várias ca- sas de espetáculo estarão ligadas entre si por travessas no gênero tradicional da rua do Ouvidor, das vielas venezia- nas ou de galerias cobertas (arcadas) e articuladas a pe- quenos pátios com bares e cafés, e loggias na parte dos fundos com vista para o parque, tudo no propósito de

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CIDADE

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propiciar ambiente adequado ao convívio e à expansão. O pavimento térreo do setor central desse conjunto de tea- tros e cinemas manteve-se vazado em toda a sua exten- são, salvo os núcleos de acesso aos pavimentos superiores, a fim de garantir continuidade à perspectiva, e os andares se previram envidraçados nas duas faces para que os res- taurantes, clubes, casas de chá etc. tenham vista, de um lado para a esplanada inferior, e de outro para o aclive do parque no prolongamento do eixo monumental e onde ficaram localizados os hotéis comerciais e de turismo e, mais acima, para a torre monumental das estações radio- emissoras e de televisão, tratada como elemento plástico integrado na composição geral. Na parte central da pla- taforma, porém disposto lateralmente, acha-se o saguão da estação rodoviária com bilheteria, bares, restaurantes etc , construção baixa, ligada por escadas rolantes ao bali inferior de embarque separado por envidraçamento do cais propriamente dito. O sistema de mão única obriga os ônibus na saída a uma volta, num ou noutro sentido, fora da área coberta pela plataforma, o que permite ao viajan-

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ARQUITETURA

te uma última vista do eixo monumental da cidade antes de entrar no eixo rodoviário-residencial — despedida psi- cologicamente desejável. Previram-se igualmente nesta ex- tensa plataforma destinada principalmente, tal como no piso térreo, ao estacionamento de automóveis duas am- plas praças privativas dos pedestres, uma fronteira ao tea- tro da Ópera e outra, simetricamente disposta, em frente a um pavilhão de pouca altura, debruçado sobre os jar- dins do setor cultural e destinado a restaurante, bar e casa de chá. Nestas praças, o piso das pistas de rolamento, sempre de sentido único, foi ligeiramente sobrelevado em larga extensão, para o livre cruzamento dos pedestres num e noutro sentido, o que permitirá acesso franco e direto tanto aos setores do varejo comercial quanto ao setor dos bancos e escritórios.

11 — Lateralmente a esse setor central de diversões, e articulados a ele, encontram-se dois grandes núcleos destinados exclusivamente ao comércio — lojas e magazi- nes, e dois setores distintos, o bancário-comercial, e o dos escritórios para profissões liberais, representações e em-

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CIDADE

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presas, onde foram localizados, respectivamente, o Banco do Brasil e a sede dos Correios e Telégrafos. Estes nú- cleos e setores são acessíveis aos automóveis diretamente das respectivas pistas, e aos pedestres por calçadas sem cruzamento, e dispõem de autoportos para estacionamen- to em dois níveis, e de acesso de serviço pelo subsolo, cor- respondente ao piso inferior da plataforma central. No setor dos bancos, tal como no dos escritórios, previram- se três blocos altos e quatro de menor altura, ligados entre si por extensa ala térrea com sobreloja, de modo a permi- tir interçomunicação coberta e amplo espaço para insta- lação de agências bancárias, agências de empresas, cafés, restaurantes etc. Em cada núcleo comercial, propõe-se uma seqüência ordenada de blocos baixos e alongados e um maior, de igual altura dos anteriores, todos interligados por um amplo corpo térreo com lojas, sobrelojas e galeri- as. Doi s braços elevados da pista de contorno permitem, aqui, acesso franco com pedestres.

12 — O setor esportivo, com extensíssíma área des- tinada exclusivamente ao estacionamento de automóveis,

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ARQUITETURA

instalou-se entre a praça da municipalidade e a torre ra- dioemissora , que se prevê de planta triangular, co m embasamento monumental de concreto aparente até o piso dos estúdios e mais instalações, e superestrutura metáli- ca com mirante localizado a meia altura. De um lado o estádio e mais dependências, tendo aos fundos o Jardim Botânico; do outro o hipódromo com as respectivas tri- bunas e vila hípica e, contíguo, o Jardim Zoológico, cons - tituindo estas duas imensas áreas verdes, simetricamente dispostas em relação ao eixo monumental, como que os pulmões da nova cidade.

13 —N a praça municipal, instalaram-se a Prefeitu- ra, a Polícia Central, o Corpo de Bombeiros e a Assistên- cia Pública. A penitenciária e o hospício, conquant o afastados do centro urbanizado, fazem igualmente parte deste setor. 14 — Acima do setor municipal foram dispostas as garagens da viação urbana, em seguida, de uma banda e de outra, os quartéis, numa larga faixa transversal ao se- tor destinado ao armazenamento e à instalação das pe -

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BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

quenas indústrias de interesse local, com setor residencial autônomo, zona esta rematada pela estação ferroviária e articulada igualmente a um dos ramos da rodovia desti- nada aos caminhões. 15 — Percorrido assim de ponta a ponta esse eixo dito monumental, vê-se que a fluência e unidade do traçado, desde a praça do Governo até a praça Municipal, não exclui a variedade, e cada setor, por assim dizer, vale por si só como organismo plasticamente autônomo na composição do conjunto. Essa autonomia cria espaços adequados à escala do homem e permite o diálogo monumental localizado, sem prejuízo do desempenho arquitetônico de cada setor na har- moniosa integração urbanística do todo. 16 — Quanto ao problema residencial, ocorreu a so- lução de se criar uma seqüência contínua de grandes qua- dras dispostas, em ordem dupla ou singela, de ambos os lados da faixa rodoviária, e emolduradas por uma larga cin- ta densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo em cada quadra determinada espécie vegetal, com chão gra- mado e uma cortina suplementar intermitente de arbustos

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ARQUITETURA

ARQUITETURA e folhagens, a fi m de resguardar melhor, qualquer que seja a posição do observador,

e folhagens, a fi m de resguardar melhor, qualquer que seja a posição do observador, o conteúdo das quadras, visto sempre num segundo plano ê como que amortecido na paisagem. Disposição que apresenta a dupla vantagem de garantir a ordenação urbanística mesmo quando varia a densidade, categoria, padrão ou qualidade arquitetônica dos edifícios, e de oferecer aos moradores extensas faixas som-

132

BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

breadas para passeio e lazer, independentemente das áreas livres previstas no interior das próprias quadras. Dentro dessas "superquadras" os blocos residenciais podem dispor-se de maneira mais variada, obedecendo, po - rém, a dois princípios gerais: gabarito máximo uniforme, talvez seis pavimentos e pilotis, e separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres, mormente o acesso à escola primária e às comodidades existentes no interior de cada quadra.

Ao fundo das quadras estende-se a via de serviço para o tráfego de caminhões, destinando-se ao longo dela a frente oposta às quadras à instalação de garagens, oficinas, de- pósitos de comércio em grosso etc , e reservando-se uma faixa de terreno, equivalente a uma terceira ordem de qua- dras, para floricultura, horta e pomar. Entaladas entre essa via de serviço e as vias do eixo rodoviário, intercalaram-se então largas e extensas faixas com acesso alternado, ora por uma, ora por outra, e onde se localizaram a igreja, as esco- las secundárias, o cinema e o varejo do bairro, disposto con- forme a sua classe ou natureza.

133

ARQUITETURA

O mercadinho, os açougues, as vendas, quitandas, ca- sas de ferragens etc , na primeira metade da faixa corres- pondente ao acesso de serviço; as barbearias, cabeleireiros, modistas, confeitarias etc , na primeira seção da faixa de acesso privativa dos automóveis e ônibus, onde se encon- tram igualmente os postos de serviço para venda de gaso- lina. As lojas dispõem-se em renque com vitrinas e passeio coberto na face fronteira às cintas arborizadas de enqua- dramento dos quarteirões e privativas dos pedestres, e o estacionamento na face oposta, contíguo às vias de acesso motorizado, prevendo-se travessas para ligação de uma parte a outra, ficando assim as lojas geminadas duas a duas, embora o seu conjunto constitua um corpo só. Na confluência das quatro quadras localizou-se a igreja do bairro, e aos fundos dela as escolas secundárias, ao passo que, na parte da faixa de serviço fronteira à ro - dovia, se previu o cinema, a fim de torná-lo acessível a quem proceda de outros bairros, ficando a extensa área livre intermediária destinada ao clube da juventude, com campo de jogos e recreio.

134

BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

17 —A gradação social poderá ser dosada facilmente, atribuindo-se maior valor a determinadas quadras como, por exemplo, às quadras singelas contíguas ao setor das embaixadas, setor que se estende de ambos os lados do eixo principal paralelamente ao eixo rodoviário, com ala- meda de acesso autônomo e via de serviço para o tráfego de caminhões comum às quadras residenciais. Essa ala- meda, por assim dizer, privativa do bairro das embaixa- das e legações, se prevê edificada apenas num dos lados, deixando-se o outro com a vista desimpedida sobre a paisagem, excetuando-se o hotel principal localizado nesse setor e próximo do centro da cidade. No outro lado do eixo rodoviário-residencial, as quadras contíguas à rodo- via serão naturalmente mais valorizadas que as quadras internas, o que permitirá as gradações próprias do regi- me vigente; contudo, o agrupamento delas, de quatro em quatro, propicia num certo grau a coexistência social, evi- tando-se assim uma indevida e indesejável estratifícação. E, seja como for, as diferenças de padrão de uma quadra a outra serão neutralizadas pelo próprio agenciamento

135

ARQUITETURA

urbanístico proposto, e não serão de natureza a afetar o conforto social a eme todos têm direito. Elas decorrerão apenas de uma maior ou menor densidade, do maior ou menor espaço atribuído a cada indivíduo e a cada família, da escolha dos materiais e do grau e requinte do acaba- mento. Nest e sentido deve-se impedir a enquistação de favelas tanto na periferia urbana quanto na rural. Cabe à companhia urbanizadora prover, dentro do esquema pro- posto, acomodações decentes e econômicas para a totali- dade da população. 18 — Previram-se igualmente setores ilhados, cer- cados de arvoredo e de campo, destinados a loteamento para casas individuais, sugerindo-se uma disposição den- tada em cremalheira, para que as casas construídas nos lotes de topo se destaquem na paisagem, afastadas umas das outras, disposição que ainda permite acesso autôno- mo de serviço para todos os lotes. E admitiu-se igual- mente a construção eventual de casas avulsas isoladas de alto padrão arquitetônico — o que não implica tamanho — estabelecendo-se porém como regra, nestes casos, o

136

BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

afastamento mínimo de um quilômetro de casa a casa, o que acentuará o caráter excepcional de tais concessões.

  • 19 — Os cemitérios localizados nos extremos do eixo

rodoviário-residencial evitam aos cortejos a travessia do centro urbano. Terão chão de grama e serão convenientemente arborizados, com sepulturas rasas e lápides singelas, à ma- neira inglesa, tudo desprovido de qualquer ostentação.

  • 20 — Evitou-se a localização dos bairros residenciais

na orla da lagoa, a fim de preservá-la intata, tratada com

bosques e campos de feição naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas de toda a população ur- bana. Apenas os clubes esportivos, os restaurantes, os lugares de recreio, os balneários e núcleos de pesca pode- rão chegar à beira d*água. O clube de golfe situou-se na extremidade leste, contíguo à residência e ao hotel, am- bos em construção, e o Iate Club na enseada vizinha, en- tremeados por denso bosque que se estende até a margem da represa, bordejada nesse trecho pela alameda de con- torno que intermitentemente se desprende da sua orla para embrenhar-se pelo campo que se pretende eventualmente

137

ARQUITETURA

florido e manchado de arvoredo. Essa estrada se articula ao eixo rodoviário e também à pista autônoma de acesso direto do aeroporto ao centro cívico, por onde entrarão na cidade os visitante s ilustres , podendo a respectiva saída processar-se, com vantagem, pelo próprio eixo ro - doviário-residencial. Propõe-se, ainda, a localização do ae- roporto definitivo na área interna da represa, a fim de evitar-lhe a travessia ou o contorno.

  • 21 — Quant o à numeração urbana, a referência deve

ser o eixo monumental, distribuindo-se a cidade em me - tades Norte e Sul: as quadras seriam assinaladas por nú- meros, os blocos residenciais por letras, e finalmente o número do apartamento na forma usual, assim, por exem-

plo, N -Q3 - L ap.

201 . A designação dos blocos em rela-

ção à entrada da quadra deve seguir da esquerda para a

direita, de acordo com a norma.

  • 22 — Resta o problema de como dispor do terreno e

torná-lo acessível ao capital particular. Entendo que as quadras não devem ser loteadas, sugerindo, em vez da ven- da de lotes, a venda de quotas de terreno, cujo valor depende-

138

BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

rá* do setor em causa e do gabarito, a fim de não entravar o planejamento atual e possíveis remodelações futuras no delineamento interno das quadras. Entendo também que esse planejamento deveria de preferência anteceder a venda das quotas, mas nada impede que compradores de um nú- mero substancial de quotas submetam à aprovação da com- panhia projeto próprio de urbanização de uma determinada quadra, e que, além de facilitar aos incorporadores a aqui- sição de quotas, a própria companhia funcione, em grande parte, como incorporadora. E entendo igualmente que o preço das quotas, oscilável conforme a procura, deveria incluir uma parcela com taxa fixa, destinada a cobrir as des- pesas do projeto, no intuito de facilitar tanto o convite a determinados arquitetos como a abertura de concursos para urbanização e edificação das quadras que não fossem projetadas pela divisão de arquitetura da própria compa- nhia. E sugiro ainda que a aprovação dos projetos se pro- cesse em duas etapas — anteprojeto e projeto definitivo, no intuito de permitir seleção prévia e melhor controle da qualidade das construções.

139

ARQUITETURA

Da mesma forma quanto ao setor do varejo comercial e aos setores bancários e dos escritórios das empresas e profissões liberais, que deveriam ser projetados previamente de modo a se poderem fracionar em subsetores e unidades autônomas, sem prejuízo da integridade arquitetônica, e assim se submeterem parceladamente à venda no mercado imobiliário, podendo a construção propriamente dita, ou parte dela, correr por conta dos interessados ou da compa- nhia, ou ainda, conjuntamente.

23 — Resumindo, a solução apresentada é de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui, conforme se viu, a va- riedade no tratamento das partes, cada qual concebida se- gundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando daí a harmonia de exigência de aparência contraditória. É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficien- te, acolhedora e íntima. E ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional O tráfego de automóveis se processa sem cruzamentos, e se restitui o chão, na justa medida, ao pedestre. E por ter o arcabouço

140

BRASÍLIA,

CIDADE

INVENTADA

tão claramente definido, é de fácil execução: dois eixos, dois terraplenos, uma plataforma, duas pistas largas num senti- do, uma rodovia no outro, rodovia que poderá ser construída por partes — primeiro as faixas centrais com um trevo de cada lado, depois as pistas laterais, que avançariam com o desenvolvimento normal da cidade. As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamento. As quadras seriam apenas niveladas e paísagis- ticamente definidas, com as respectivas cintas plantadas de grama e desde logo arborizadas, mas sem cilçamento de qualquer espécie, nem meios-fios. De uma parte, técnica rodoviária; de outra, técnica paisagística de parques e jar- dins.

Brasília,

capital

aérea

e

rodoviária;

cidade-parque.

Sonho arquissecular do patriarca.

José Bonifácio, em i ÔZJ, propõe a transferência da capital para Coiás e sugere o nome de BRASÍLIA.

141

APÊNDIC E

O desenvolvimento científico e tecnológico não éo oposto da na- tureza, mas a própria natureza que, através do seu estado lúcido, que somos nós, revela o lado oculto, virtual.

APÊNDIC E O desenvolvimento científico e tecnológico não éo oposto da na- tureza, mas a própria

O desenvolvimento científico e tecnológico não se contrapõe à natureza, de que é, na verdade, a face oculta

com

todas

as

suas

potencialidades virtuais — revela-

143

ARQUITETURA

da através do intelecto do homem, vale dizer, através da própria natureza no seu estado de lucidezj de consciência. O homem é, então, o elo racional entre dois abismos, o micro e o macrocosmos , ambos fenômenos naturais, cujos pro- dutos "elaborados" são a contrapartida do fenômeno na- tural "palpável".

Assim temos , de um lado, a natureza ao alcance dos sen- tidos, ao alcance da mão; e, de outro, a natureza ao alcance do intelecto e da tecnologia. O intelecto e a consciência do ho -

mem são a quinta-essência da natureza tomada como um todo.

Razão por que tudo se liga e entrosa — imanentemente ou transcendentalmente — e o desenvolvimento cientí- fico e tecnológico, quando livre de seguir sua própria ten- dência em busca de uma conclusão normal, não pode ser "contra" o homem, uma vez que ele é a peça-chave desse processo, no qual o drama da vida se insere. Naturalmen- te intervenções constantes, devidas a toda espécie de in- teresses—econômicos , comerciais, políticos, ideológicos —, atuam no sentido de afastar o desenvolvimento cien- tífico e tecnológico do seu curso natural. Ma s não se pode

144

APÊNDICE

manter, indefinidamente, tais desvios: o homem é trazi- do de volta, como que atraído por uma "imponderável" força de gravidade que o faz perder, então, gradualmente, aqueles impulsos centrífugos, e aceitar, como por consenso, a resultante de uma imposição científico-tecnológica in- trínseca.

Se, confundido pelas múltiplas contradições decor- rentes desses desvios da normalidade racional, científica e tecnológica, o homem tenta deter-se a meio caminho, o resultado é o caos. Este é, precisamente, o estado em que os negócios do mundo — e o próprio mundo — hoje se encontram.

Não se deve, contudo, desesperar. É justamente quan- do a perplexidade atinge seu clímax que, por efeito do que talvez se pudesse chamar "lei das resultantes conver- gentes", novas perspectivas se abrem de repente em meio à configuração intricada e ilógica dos acontecimentos , e tudo parece, de novo, fácil e claro. O desenvolvimento científico e tecnológico e a ecologia, inteligentemente confrontados, são sempre compatíveis.

145

ORIENTAÇÃ O

PARA

O

PROFESSO R

1

OBJETIVO S

GERAIS :

Identificar a Arquitetura

como

arte,

valorizan-

do-a enquanto representativa da nossa cultura. — Compreender a importância da Arquitetura den- tro do contexto histórico e social. — Valorizar o trabalho arquitetônico, identifican- do- o com ideais, valores e necessidades sociais.

2

OBJETIVO S

ESPECÍFICOS :

Identificar as principais características de esti- los arquitetônicos e sua época.

Compreender a interação homem/meio ambien-

te e o reflexo no equilíbrio ecológico.

Identificar tipos de

habitação, localização, ma-

teriais de construção, levando em consideração as neces-

sidades de abrigo e proteção. Conhece r as características de sua comunidade,

147

ARQUITETURA

estabelecendo comparações com as de outras comunida-

des

e em especial com as

de

Brasília.

3

SUGESTÃ O

DE

ATIVIDADES:

— Promover debates sobre temas apresentados pelo autor, em especial, nos textos:

• Conceituação • Tradição local • Ruptur a e Reformulação • Apêndice — Observar variações de forma, dimensão e relação de espaço. — Representar espaços, através de maquetes, dese- nhos, croquis, gráficos, tabelas e linhas de espaço.

— Promover entrevistas, excursões, pesquisas, aná- lise de plantas, organização de murais e exposições visando à compreensão dos processos relativos à "criação", em ter- mos de arquitetura.

— Reunir informações

sobre a vida e

a obra do Alei-

jadinho, Oscar Niemeyer e outros. — Comparar a vida da comunidade com outros ti- pos de vida, atuais ou não. — Procurar conhecer, através de publicações, as cida- des históricas brasileiras, o Rio antigo e o Rio moderno, Brasília.

148

GLOSSÁRI O

À bout de forces: exaurido, sem forças .

Ábiside, abiside: extremidade, em semicírculo, de uma basílica romana, e, por analogia, do coro em igrejas não brasileiras.

Aduelas: pedra em forma de cunha secionada que se em- prega na construção de arcos e abóbadas de cantaria. Fa- ces laterais de um vão.

Baldaquino: baldaquim. Espécie de palio ou dossel. Obr a de arquitetura ou de marcenaria que serve de coroa a um trono, a um altar.

Carrure: largura dos ombros. Figurado: vigor, nitidez, fran- queza.

Cornija: modulação que assenta sobre o friso de uma obra. Molduras sobrepostas, que formam saliências na parte su- perior da parede, porta etc.

149

ARQUITETURA

Coruchéu: remate piramidal do cunhai de edifício.

Empena: porção triangular acima do forro formada pelas duas águas do telhado.

Enlightenment: Iluminismo. Conjunto de opiniões preco- nizadas no século XVIII, visando "iluminar" e liberar as pessoas do preconceito e da superstição.

Frechal: viga que arremata o topo das paredes e que serve de apoio aos caibros e vigas do telhado.

Foyer: lareira.

Lar, família. Sala de espera, saguão

(de um

teatro). Foco. Sede.

Impluvium: no átrio das casas romanas espaço aberto às águas pluviais, que caíam numa abertura central e retan- gular chamada complúvio.

Mainel:

face

interna do pé-díreito

de

um arco.

Pilarete

que decompõe um vão em seções menores.

Muxarabi ou muxarabiê: balcão mourisco, protegido em toda a altura da janela por treliça de madeira, através do

150

GLOSSÁRIO

qual

se

pode ver

sem ser visto.

(O s muxarabiês, trazi-

dos pelos portugueses para o

Brasil, ainda hoje podem

ser vistos em colonial.)

residências

baianas e

mineiras do

tempo

Pedigree: genealogia de um animal de raça. Por analogia, pu- reza de estilo.

Perístilo: galeria de colunas isoladas, à frente de um edi- fício. Conjunto de colunas da fachada de um edifício.

Plinto: peça quadrangular que serve de base a uma coluna ou a um pedestal.

Puzzle: adivinhação, enigma, baraço, perplexidade.

enredo, quebra-cabeça, em-

Reixas: trama de ripas cruzadas.

Retábulo: decoração de madeira, de pedra ou de pintura que reveste a parede por detrás do altar.

Rocalha: do francês rocaille, roc, rocha. Formas decorativas interpretadas dos contornos de pedras, conchas etc .

151

ARQUITETURA

Tacaniça: lanço de telhado menor em telhado de quatro águas.

Transepto: galeria transversal de uma igreja, que separa a capela-mor da nave e forma os braços da cruz.

Tridinium: sala de havia três leitos mesa.

refeições dos antigos romanos, na qual

inclinados, dispostos em volta de

uma

152

LUCIO

COSTA

(1901-1998)

O

percurso (resumo organizado por Maria Elisa Costa com supervisão de Lúcio Costa)

Anos 10

Nascido em Toulon, França, em 27 de fevereiro de 1902 , filho do enge- nheiro naval Joaquim Ribeiro da Costa, natural de Salvador, Bahia, e de Alina Ferreira da Costa, natural de Manaus, Amazonas.

Com poucos meses de idade vem para o Rio de Janeiro com os pais, retornando à Europa aos 8 anos, onde permanece de 1910 a 1916 e cursa a escola básica (Newcastle-on-Tyne na Inglaterra e Montreux na Suíça),

Volta ao Brasil definitivamente aos 15 anos quando é matriculado pelo pai — que "estranhamente queria ter um filho artista" — na Escola Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, em 1917.

Anos lo

Ainda estudante, trabalha nas firmas Rabecchi e Escriptorio Technico Heitor de Mello.

1924 - Forma-se arquiteto.

192.1 — Antes de concluir o curso, tem seu primeiro escritório com Fernando Valentim. "Era a época do chamado ecletismo arquitetônico, os estilos 'históricos' eram aplicados sansfaçon de acordo com a natureza do programa em causa", e também do movimento "neocolonial", patrocinado por José Marianno Filho, visão acadêmica e equivocada da arquitetura colonial brasileira.

1911/11 — Primeiro projeto construído: Casa Rodolfo Chambelland, Rio de Janeiro. Colaboração Evaristo de Sá.

1924 — Primeiro contato direto com a arquitetura autêntica do período colonial em viagem de estudos à Diamantina. Revelação.

"Li chegando» caí em cheio no passado, no seu sentido mais despojado, mais puro; um passado de verdade, que era novo em folha para mim,"

(926/27 — Viagem de um ano à Europa, a passeio, sem cogitar os movi- mentos intelectuais de vanguarda que já ocorriam, inclusive na arquitetura.

1926729 — Não se sente satisfeito com a arquitetura que faz — dissociada da verdade construtiva, ou seja, o contrário daquilo que viu e constatou em Diamantina. Nessa época, por acaso, em revista não especializada, vê foto da "casa modernista" de Gregori Warchavchilc, então exposta em São Paulo. E a primeira revelação da potencialidade de uma arquitetura coeren- te com as novas tecnologias construtivas.

Anos

j o

í 9j o — Ano da ruptura em termos profissionais, nitidamente representa- da pelos dois projetos para uma mesma casa no Rio de Janeiro—casa E. G. Fontes—, sendo um a "última manifestação de sentido eclético acadê- mico", e o outro a "primeira proposição de sentido contemporâneo". / 9j o - Projeto de casa de campo para Fábio Carneiro de Mendonça.

' 93°— O governo Vargas decide renovar o ensino das artes no país, caben- do a Lúcio, então com apenas 28 anos, a responsabilidade de reformular o ensino das Belas-Artes, dirigindo a escola onde se formara seis anos antes. Esta experiência dura menos de dois anos, interrompida por questões polí- tico-administrativas, o que leva os alunos a um ano de greve.

193 1 — Ainda diretor da Escola de Belas-Artes faz o Salão de 19 31 , no Rio de Janeiro, primeiro Salão oficial de Belas-Artes, onde expõem os artistas plásticos de vanguarda, como Portínari, Guignard, Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, entre outros.

1 93 '/j z ~ Escritório com Gregori Warchavchilc, no Rio: casa Schwartz, cujo terraço-jardim é o primeiro projeto do paisagista Roberto Burle Marx; apartamentos proletários na Gamboa; casa Cesárío Coelho Duarte (pro- jetos: Lúcio Costa; construção: Warchavchik & Lúcio Costa).

1932/36 — Escritório com Carlos Leão. Período de trabalho escasso: a clientela quer casas de "estilo" que já não consegue fazer. Projeta então

uma série de casas "teóricas" para lotes urbanos de tamanho padrão — "Casas sem dono". Por outro lado, exatamente esta disponibilidade de tempo permite o estudo a fundo da obra dos precursores—Gropius, Mies van der Rohe e, sobretudo, a de Le Corbusier, com a qual se engaja de forma apaixonada. Concomitantemente, amadurece a tomada de cons- ciência política e social.

1934—Professor, pela única vez, na Universidade do Distrito Federal, curso consolidado no ensaio Radies da nova arquitetura. 1934 — Projeto de vila operária em Monlevade. Minas Gerais, recusado.

í 936—Data fundamental para a moderna arquitetura brasileira. O minis- tro Gustavo Capanema convida Lúcio Costa para projetar o edifício-sede do recém-criado Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro. Lúcio constitui uma equipe (Carlos Leão, Afonso Eduardo Reidy, Jorge Moreira, Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer) e é aprovado o primeiro projeto. No entanto, como se trata da primeira oportunidade internacional de se construir um edifício deste porte de acordo com os princípios da nova doutrina de Le Corbusier, Lúcio insiste junto ao governo e consegue a vinda do mestre ao Rio, por quatro semanas, para que avaliasse o projeto feito.

Le Corbusier propõe outro terreno, mais perto do mar, para o qual faz belo risco que balizará o projeto definitivo no terreno inicial - único viável — feito pelos arquitetos brasileiros desde a estaca zero e construído du- rante a I Guerra Mundial. Le Corbusier só conheceu o projeto depois de pronto quando veio ao Brasil, em 1963, para projetar a Embaixada da França em Brasília. A vinda de Le Corbusier em 193 6 teve ainda influência determinante na eclosão do gênio até então "incubado" de Oscar Niemeyer.

(937 — Início da colaboração no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN - criado no mesmo ano. O primeiro traba- lho para o SPHAN, contemporâneo ao projeto do Ministério da Educa- ção, foi nas Missões Jesuítas, no sul do país, e dele resultou o projeto de um pequeno museu, inovador no conceito e na forma. Esta colaboração com Rodrigo M. F. de Andrade perdurou ao longo de 35 anos, até 1972, quando se aposenta.

(937—Primoroso projeto para a Cidade Universitária, no Rio de Janeiro (onde hoje fica o Jardim Zoológico), sumariamente recusado pelos

preconceicuosos responsáveis. (Prenuncio da Esplanada dos Ministérios de Brasília.)

í gj 8 — Pavilhão do Brasil para a New York World's Fair de 19 3 9. que propicia o lançamento internacional de Oscar Niemeyer, convidado a par- ticipar do projeto.

1936/39 —Entre os trabalhos para o SPHAN, os ensaios Documentação

necessária e Notas sobre o mobiliário luso-brasileiro, além da definição de critérios

para o tombamento e proteção de bens de excepcional valor.

Anos

40

Vários projetos de arquitetura que caracterizam e confirmam a integração das duas raízes fundamentais — a tradição autêntica e a renovação arquitetônica:

• Conjunto de edifícios residenciais no Parque Guinle, Rio de Janeiro (seis andares sobre pílotís abertos, fachada do poente protegida por "claustra" em toda a extensão). Este conjunto de edifícios, no meio de um parque, está na origem da concepção das superquadras de Brasília.

* Park Hotel, Friburgo, estado do Río, pequena pousada com estrutura de madeira e alvenaria de pedra, belo espaço interno e inclusive os móveis projetados por Lúcio.

* Residências Hungria Machado, no Rio, e Saavedra, em Corrêas, esta- do do Rio.

Textos:

• Ensaio A arquitetura dos jesuítas no Brasil, para o SPHAN. • Ensaio Considerações sobre arte contemporânea, só publicado em 1952 nos Cadernos de Cultura do Ministério da Educação. Intervenção urbana:

* Proposta de remanejamento do tráfego no Centro do Rio de Janeiro, que resolveu, sem nenhuma obra e durante longo tempo, o problema dos engarrafamentos constantes.

Anos

jo

Arquitetura:

Anteprojeto da Casa do Brasil na Cite Universitaire. Paris, proposta

que serviu de base ao projeto desenvolvido e executado por Le Corbusier.

Sede social do Jockey Club Brasileiro, Rio de Janeiro - edifício com garagem em todos os andares na parte central (700 vagas).

Sede do Banco Aliança (hoje Itaú), Rio de Janeiro, Centro.

Risco original para o altar do Congresso Eucarístico de 1955, desen- volvido por Alcides da Rocha Miranda.

Textos:

Depoimento sobre arquitetura no Rio de Janeiro na primeira metade

do século — "Muita construção, alguma arquitetura e um milagre" - para

o jornal Correio da Manhã. Ensaio Arquitetura de Antônio Francisco Lisboa, oAltijadinbo, para o SPHAN.

• Ensaio O arquiteto e a sociedade contemporânea, por solicitação da Unesco.

19J7 — Vence o concurso para o Plano-Piloto de Brasília, nova capital do país, que viria a ser inaugurada três anos depois, em 1960.

Atuação

internacional:

. Membro do "Grupo dos Cinco", que orientou o projeto da nova sede da Unesco em Paris, junto com Gropius, Le Corbusier, Rogers e Mar- kelius.

Anos

6o

1957/ 66 — Supervisão direta do desenvolvimento do Plano-Piloto de Brasília, coordenado pelo engenheiro Augusto Guimarães Filho, indicado por Lúcio Costa para assumir a tarefa.

1960 — Doutor Honoris Causa pela Universidade de Harvard.

tgôi — Tese O MOVO humanismo cientifico c tecnológico — Teoria das resultantes

convergentes,

por

solicitação

do

M.I.T.

(Massachussets

Institute

of

Technology). ' 963 — Apartamento de cobertura para a filha Maria Elisa, Rio de Janeiro. (964— Pavilhão do Brasil na XIII Trienal de Milão, cujo tema era o lazer.

1965 - Projeto das rampas de acesso ao Outeiro da Glória e restauro da igreja. Rio de Janeiro, para o SPHAN.

1967 — Ensaio Proposte per Firenze, Itália.

/96a — Roteiro e texto para curta-metragem sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, realizado por Joaquim Pedro de Andrade.

1969- Plano-Piloto para a baixada de Jacarepaguá (Barra), Rio de Janeiro.

Anos

70

Legião de Honra do governo francês, no grau de Commandeur. Proposta para um Museu de Ciência e Tecnologia no Rio de Janeiro.

Proposições

relativas

à

expansão

urbana

de

Salvador,

Bahia

-

notadamente a concepção de "quadras populares" com trama viária

losangular para resolver o problema dos Alagados.

• Monumento a Estácio de Sá no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro.

Projeto da Fonte da Torre de TV e das Praças de Pedestres da Rodoviá- ria, Brasília.

• Casa Thiago de Mello, Barreirinha, Amazonas. • Proposta urbana para a nova capital da Nigéria, com Lotti e Nervi. • Proposta para novo Pólo Urbano em São Luís, Maranhão. • Atuação no Conselho Superior de Planejamento Urbano — CSPU —no Rio de Janeiro, em que. entre outras coisas, impediu a construção de edifícios altos na área em frente ao terminal Menezes Cortes, no Centro, para assegurar a vista livre para o Convento de Santo Antônio.

Anos

8o

Proposições para o agenciamento da Comiche, de Casablanca, a con- vite do rei do Marrocos Hussein II.

Casa para a filha Helena, Rio de Janeiro.

Casa Edgard Duvivíer, Rio de Janeiro.

• Brasília revisitada, conjunto de recomendações relativas à preservação, complementação, adensamento e expansão urbana de Brasília, apresenta- das ao governador José Aparecido de Oliveira em 1986.

• Supervisão do desenvolvimento do projeto das quadras propostas para os Alagados de Salvador em Brasília — as "Quadras Econômicas" , no Guará, projeto desenvolvido pelo arquiteto Fernando Andrade,

Anos

go

• Agenciamento interno do Espaço Lucío Costa proposto por Oscar Niemeyer na Praça dos Três Poderes, Brasília. Projeto desenvolvido pelo arquiteto Fernando Andrade.

• Concepção editorial e gráfica, textos, ilustrações, roteiro e diagramação

de seu único livro: Lúcio Costa—Registro de uma vivência (I * edição 1994.2 a

edição 1997, Empresa das Artes). Projeto gráfico desenvolvido por Maria Elisa Costa.

Este livro foi impresso nas oficinas da

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A .

Rua Argentina, 171 - Rio de Janeiro, RJ para a

EDITORA JOSÉ OLYMPIO LTDA .

emjulhode2006