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Metamorfoses florestais:

Culturas, ecologias e as
transformações históricas
da Mata Atlântica

Diogo de Carvalho Cabral


Ana Goulart Bustamante
Organizadores
Metamorfoses florestais: Culturas, ecologias e as transformações
históricas da Mata Atlântica
Diogo de Carvalho Cabral; Ana Goulart Bustamante

1ª Edição - Copyright© 2016 Editora Prismas


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Elaborado por: Isabel Schiavon Kinasz
Bibliotecária CRB 9-626

Nome do Autor
XXXX Nome do Livro
2015 / Nome do Autor. – X. ed. – Curitiba : Editora Prismas, 2015. XXX p. ; 23 cm
ISBN: XXX-XX-XXXXX-XX-X
1.XXX. 2. XXX. 3. XXX. 4. XXX. 5. XXX. I. Título.

CDD xxx.xxx(xx.ed)
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Metamorfoses florestais:
Culturas, ecologias e as
transformações históricas
da Mata Atlântica

Diogo de Carvalho Cabral


Ana Goulart Bustamante
Organizadores
Apresentação
Uma floresta, um país e um saber
em construção
José Augusto Pádua
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Para persuadir o leitor da relevância e da alta qualidade des-


te “Metamorfoses Florestais: Culturas, Ecologias e as Transformações
Históricas da Mata Atlântica Brasileira”, é necessário retroceder no
tempo e fazer uma breve contextualização histórica. Em 1982, atra-
vés de amigos comuns, tive o privilégio de conhecer Warren Dean, um
renomado pesquisador de história econômica, professor da New York
University, e que estava começando a buscar uma aproximação mais
explicitamente ambiental da história. Como eu também tinha grande
interesse nos temas ambientais, além de ser um jovem professor de
história, o diálogo fluiu com muita facilidade e se renovou ao longo de
duas décadas. Já no primeiro encontro, quando perguntei o que ele
estava pesquisando, a resposta me surpreendeu e marcou profunda-
mente: “estou levantando fontes para escrever uma história da Mata
Atlântica”. Aquela resposta, aparentemente simples, ainda hoje per-
mite abrir um leque temático amplo e fecundo.
Um tema fundamental, por exemplo, diz respeito à própria cons-
trução histórica do conceito de “Mata Atlântica”. Lembro que, ao ouvir a
resposta de Dean, pensei imediatamente que estava diante de uma outra
maneira de contar a história do Brasil, já que a esmagadora maioria das
dinâmicas populacionais e das estruturas socioeconômicas e culturais que
hoje identificamos como “Brasil” haviam sido estabelecidas, ao longo dos
séculos, na interação com os grandes conjuntos florestais que se esten-
diam do Nordeste ao Sul do litoral. Em 1982, já era perfeitamente inteligí-
vel este conceito unificado de Mata Atlântica. Mesmo que alguns marcos
na sua consolidação – como a Fundação SOS Mata Atlântica (1986), a nova
Constituição Federal (1988), o Decreto da Mata Atlântica (1993) e o “Mapa
dos Biomas do Brasil” do IBGE (2004) – ainda não estivessem presentes.
O conceito não vinha sendo construído apenas por cientistas
e pesquisadores, que começaram a publicar textos com base na ideia
de Mata Atlântica, mas também por mobilizações sociais, culturais e
políticas. É importante observar este amplo movimento para supe-
rar a ilusão positivista de que os conceitos da ciência são construídos
de forma “pura” e independente das inquietações e das forças sociais
presentes em cada momento histórico. A ciência nunca está divorcia-
da das dinâmicas da história. Naquele momento, de início da redemo-
cratização do país, vivia-se a necessidade de repensar criticamente o
passado e o presente do Brasil, incluindo a problemática relação com
seu enorme território e o uso predatório da sua notável diversidade
ecológica. O século XX havia sido um período de grandes desflores-
tamentos, quase sem barreiras institucionais ou protestos na opinião
pública. A partir da década de 1970, porém, como procurei discutir em
dois artigos recentes , ocorreu uma mudança radical na imagem global
das florestas tropicais (refiro-me à imagem destas florestas no mundo
da política, das relações internacionais, da mídia e dos debates na are-
na publica, não no espaço específico das academias científicas). De
forma genérica, pode-se falar na passagem da visão daquelas florestas
como algo ameaçador, que deveria ser convertido economicamente
pela civilização, para algo ameaçado, um verdadeiro tesouro que deve-
ria ser conservado em nome da sustentabilidade da própria civilização.
Vale lembrar que naquele mesmo momento a Floresta Ama-
zônica e sua destruição estavam se convertendo em um dos grandes
ícones da globalização. As várias formações florestais da costa oriental
do Brasil, ao contrário, onde vivia a ampla maioria da população, não
atraiam atenção internacional, apesar de estarem muito mais devasta-
das. De certo forma, creio que se buscava uma espécie de “equivalente
conceitual” da Amazônia, uma “Mata Atlântica” unificada que pudesse
ser percebida de forma abrangente pela opinião pública e tornar-se ob-
jeto de políticas integradas de defesa e conservação. O sucesso desta
“estratégia”, aliás, que foi construída de forma espontânea e convergen-
te por uma multiplicidade de atores, é bastante óbvio na perspectiva
do presente. A devastação foi estancada e o desflorestamento residual,
apesar de ainda relevante, se conta hoje em hectares e não em quilôme-
tros quadrados. Tanto é assim que oligarquias econômicas regionais, es-
pecialmente na região das florestas com Araucária no Sul do país, fazem
esforços para reverter a inclusão das matas locais no bioma Mata Atlân-
tica, pois esta garante uma proteção legal muito mais forte e efetiva.
Para quem não está acostumado com as sutilezas das ciências
sociais, é importante ter claro que, ao se afirmar que o conceito de
Mata Atlântica é uma construção histórica e, portanto, artificial, não
significa dizer que ele não seja “verdadeiro”. A Mata Atlântica é uma
verdade da sua época, uma verdade para os atores sociais que a re-
conhecem. Dito de outra forma, a “Mata Atlântica” é tão verdadeira
como o próprio “Brasil” que, na perspectiva histórica, enquanto um
país unificado, é uma criação do século XIX. O Brasil é real enquanto
suas instituições, cidadãos e parceiros internacionais assim o reconhe-
cerem. Mas é claro que não se trata de uma realidade eterna e essen-
cial. O Brasil não é um “gigante pela própria natureza”, como diz o hino
nacional, mas sim um território gigantesco que foi unificado institucio-
nalmente através dos artifícios da história.
Não se trata de afirmar, tampouco, que a construção histórica
do conceito de Mata Atlântica não possua base biofísica. É óbvio que
existe um conjunto de diferentes tipos de formação florestal, mais ou
menos contíguas, nas proximidades do litoral que está sendo destaca-
do. Existem também argumentos bio-climáticos robustos para pensar
este conjunto de maneira integrada. Vou ainda mais longe. Concordo
com os autores que defendem o conceito de um “Domínio da Mata
Atlântica Senso Latíssimo”, que também incluiria as formações flores-
tais do interior do Brasil (como no caso do chamado “Mato Grosso
de Goiás”). Mas o fato é que os conceitos agregadores vão se cons-
truindo na relação complexa entre ciência e sociedade. A tradição de
pensar o litoral como eixo geopolítico da formação histórica do Brasil,
por exemplo, entre outros motivos, influenciou a vitória de um sentido
lato, mas não latíssimo, da Mata Atlântica.
Por outro lado, os diferentes conceitos agregadores, que bus-
cam dar conta das identidades e diferenças ecossistêmicas presentes
no território, não devem ser tomados como algo monolítico, fechado
e excludente. Eles são instrumentos de compreensão cuja validade
depende do contexto e da escala com a qual se está trabalhando. Para
um historiador ambiental que esteja analisando uma microrregião
concreta, a ideia de Mata Atlântica pode ser completamente irrelevan-
te. É muito mais importante, neste caso, examinar a interação das so-
ciedades locais com uma formação florestal específica, ou então com
as áreas de transição e mosaicos de vegetação que constituem grande
parte das paisagens florísticas realmente existentes. No entanto, para
visualizar a dimensão territorial da história do país como um todo, ou
para formular projetos de educação e políticas de conservação, uma
visão integrada pode ser muito relevante.
O segundo grande tema que desejo mencionar, até por estar
presente em todos os artigos deste “Metamorfoses Florestais” – mes-
mo aqueles que não foram escritos por “historiadores” – diz respeito
ao esforço de trazer o mundo biofísico para o coração da história hu-
mana e, ao mesmo tempo, trazer a dimensão histórica para o cora-
ção da análise do mundo biofísico. A proposta de Warren Dean, de
trabalhar a história a partir de Mata Atlântica, foi bastante inovadora,
apesar de não ter sido uma inovação absoluta. A publicação, em 1949,
do livro clássico de Fernand Braudel sobre o Mundo Mediterrânico ,
provocou impacto por romper com as fronteiras políticas, nacionais ou
regionais, e discutir uma história complexa, do geográfico ao cultural,
a partir do maior mar interior do planeta. Mas bem antes disso, em
1937, Gilberto Freyre, que Braudel conhecia bem, já tinha publicado
um exercício fascinante de análise onde uma área ecológica – a Zona
da Mata do Nordeste brasileiro – era tomada como o eixo espacial de
uma história interativa onde a ação humana acontecia em relação per-
manente com os solos, as águas, as plantas e os animais. Vários outros
exemplos poderiam ser mencionados. No entanto, basta um pouco de
leitura comparativa para admirar a dimensão do esforço empreendido
por Dean. Apesar do Mar Mediterrâneo possuir quase o dobro do ta-
manho da Mata Atlântica, Braudel focalizou um período bastante de-
finido, o século XVI, mesmo que algumas de suas análises tenham ido
bem mais longe no tempo. Já Freyre, que abordou os vários séculos a
partir da chegada dos colonizadores portugueses no Nordeste, recor-
tou uma área geográfica bastante pequena do que hoje chamaríamos
de domínio da Mata Atlântica.
A proposta de Dean, ao menos em tese, procurou abarcar os
mais de 1,3 milhões de quilômetros quadrados da Mata Atlântica na lon-
guíssima duração. É claro que o escopo desta proposta já se beneficiava
dos progressos da ecologia e da constituição da história ambiental como
campo de conhecimento no final do século XX. Um ponto fundamental
destes avanços epistemológicos é o de tomar a natureza e, no caso, a
Mata Atlântica, como uma história de longuíssima duração – história no
sentido de construções, desconstruções e transformações de formas e
seres ao longo do tempo. A longa duração também foi adotada no caso
das sociedades humanas, indo muito além da história moderna do Brasil.
A história natural da Mata Atlântica passou a interagir com a presença de
populações paleo-indígenas e indígenas nos últimos 12.000 anos e, mais
tarde, com as várias ondas populacionais derivadas do domínio colonial
europeu a partir do século XVI. Uma história que Dean trabalhou até o
momento presente, incorporando as enormes transformações econô-
micas e sociais vividas pelo país no século XX.
Com um escopo tão vasto e ousado, os pesquisadores da
história ambiental do Brasil passaram a contar – desde os momentos
iniciais do processo recente de consolidação da sua disciplina na ins-
titucionalidade da academia – com uma grande obra de síntese sobre
um espaço geohistórico essencial no processo de formação do país.
Uma oportunidade, diga-se de passagem, que poucas comunidades
acadêmicas nacionais tiveram algum dia. Um livro que, ademais, fez
história para além da academia. Não tenho duvidas em afirmar, ainda
mais levando em conta a importância da narrativa histórica no estabe-
lecimento de identidades sociais, que entre os atores fundamentais na
construção histórica do conceito de Mata Atlântica, que estive discu-
tindo acima, encontra-se o próprio livro de Warren Dean.
O preço desta ousadia e desta relevância, porém, foi a imper-
feição do produto final. A síntese que Dean produziu foi muito precoce
e, por isso mesmo, cheia de lacunas, erros e limites de interpretação
a serem corrigidos e ampliados no futuro. Um fato do qual, ao meu
ver, ele estava bem consciente. Seu esforço faz lembrar as belas pala-
vras de Marc Bloch no prefácio do seu grande livro, de 1931, sobre a
história rural francesa: “No desenvolvimento de uma disciplina, exis-
tem momentos em que uma síntese, embora na aparência prematura,
presta mais serviços do que muitos trabalhos analíticos, ou, em outras
palavras, em que bem enunciar os problemas é mais importante, por
hora, do que buscar resolvê-los”.
Pois bem. Em que se relaciona tudo o que foi dito até agora
com este “Metamorfoses Florestais” que em tão boa hora está sendo
publicado? Penso que este empreendimento coletivo, pelo seu es-
copo e qualidade, representa a melhor aproximação de uma grande
história da Mata Atlântica desde a ousada tentativa de Dean. É muito
significativo, aliás, que o novo livro esteja sendo lançado exatamente
20 anos após a publicação do primeiro. Uma atualização, no contexto
dos avanços da pesquisa contemporânea, daquele tour de force inte-
lectual realizado na década de 1990. Mas é preciso explicar melhor
esta afirmação. É muito pouco provável que outro esforço autoral de
escrever uma grande obra de síntese sobre a história da Mata Atlânti-
ca aconteça no futuro próximo. No entanto, quando alguém se dispu-
ser a realizar esse empreendimento no futuro poderá se beneficiar de
uma base documental e de uma massa crítica de análises específicas
muito mais ampla e profunda do que aquela a que Dean teve acesso.
Pois o grande esforço que hoje se realiza é mais setorial e coletivo.
Desde 1995, o estudo das transformações históricas ocorridas no do-
mínio da Mata Atlântica, associando ecologias e culturas, teve um de-
senvolvimento considerável. Varias teses de doutorado de excelente
qualidade, assim como os sucessivos trabalhos de pesquisadores mais
antigos, aprofundaram em muito os diferentes aspectos desta grande
história, seja em termos temáticos ou de recortes temporais e espa-
ciais mais específicos. Muitos dos dados e interpretações oferecidos
por Dean foram refutados ou questionados. Assim como estas novas
contribuições ampliaram, complementaram ou inovaram as análises
sobre o assunto.
É claro que os autores da presente obra coletiva não pretende-
ram construir uma nova história exaustiva e totalizante da Mata Atlân-
tica. Mas, ao percorrer o livro que ora apresento, é grande a minha sa-
tisfação em constatar que vários dos pesquisadores e autores de teses
de doutorado aos quais me referi acima estão aqui presentes. O livro
apresenta, portanto, um verdadeiro retrato, diversificado e abrangente,
da melhor produção recente sobre a história da Mata Atlântica. Uma fo-
tografia dos avanços e inovações produzidas a partir de “A Ferro e Fogo”.
Uma importante inovação, que já foi mencionada, aparece na postura
de vários textos em não aceitar uma visão essencialista da existência da
Mata Atlântica, percebendo que ela deve ser entendida como uma gran-
de construção em diferentes níveis: biofísico, social e conceitual.
Por outro lado, algumas das qualidades da síntese de Dean são
aqui renovadas e ampliadas. Por exemplo, a leitura histórica e dinâmica
da própria ecologia da Mata Atlântica, considerando as grandes mudan-
ças que ocorreram na longuíssima duração dos tempos da Natureza. O
mesmo pode ser dito em relação à postura de não ficar preso em uma
visão restrita e “nacional” da história do Brasil. É verdade que os povos
indígenas e seus ancestrais não podem ser simplesmente inseridos na
historia do “Brasil”. Seria uma violência forçá-los desde sempre na con-
dição de “brasileiros”. Mas eles precisam fazer parte da categoria mais
ampla de “fenômeno brasileiro”, utilizada por Guerreiro Ramos , pois
entraram de diferentes formas no caldeirão histórico da formação do
que hoje conhecemos como Brasil. Os povos paleoindígenas, por exem-
plo, modificaram muitas paisagens na sua interação de longa duração
com ao mundo biofísico. As mesmas paisagens que, mais tarde, inseri-
ram-se na história do Brasil propriamente dito. Os povos indígenas, por
sua vez, participam desde história de forma direta ou indireta. Alguns
textos do livro discutem sua presença nos encontros e desencontros que
ocorreram de diferentes formas a partir da conquista colonial, das trocas
(inclusive biológicas) à violência aberta.
Na questão dos encontros e desencontros provocados pela
expansão colonial é importante saudar a adoção por alguns autores de
uma perspectiva geográfica que vai bem além do que se define como
“território brasileiro”. Uma tendência cosmopolita observada em di-
versos campos da historiografia mais recente e que tem ajudado a su-
perar um certo caráter fechado e endógeno – ou então excessivamen-
te centrado nas trocas diretas entre Brasil e Portugal – presente em
boa parte da tradição historiográfica brasileira. Os intercâmbios bioló-
gicos no mundo moderno, que cruzam oceanos e continentes, são um
excelente campo temático para essa abertura consciente no escopo
geográfico da história.
Também deve ser elogiado, nas pegadas de Dean, o esforço
de vários autores para abordar situações históricas mais contemporâ-
neas – que os organizadores situam no contexto de uma leitura bas-
tante ampla da ideia de Antropoceno. É importante observar que as
transformações da Mata Atlântica no Brasil meridional, subestimadas
na síntese de Dean, aqui aparecem com muito maior expressão, re-
fletindo a qualidade da história ambiental que está sendo produzida
nas universidades do Sul do Brasil. Por outro lado, a entrada do ur-
bano-industrial na história florestal, e vice-versa, aparece no livro de
forma muito evidente, retirando as florestas de um enfoque analítico
excessivamente rural e da falsa dicotomia entre a história do mundo
orgânico e a história do mundo mecânico e fossilista. Na vida vivida,
assim como no caso do hibridismo entre o biofísico e o cultural, essas
esferas se misturam em inúmeras situações que se apresentam pre-
sentes concretamente na economia e na sociedade. Também pode
ser destacada, na parte final do livro, a preocupação com uma certa
“história do futuro”, ou seja, com o vínculo entre o passado e o futuro
na discussão sobre o destino, conservação e regeneração/ampliação
dos remanescentes da Mata Atlântica que ainda existem no território
brasileiro, no contexto mais amplo do debate sobre a possibilidade de
uma transição florestal estar ocorrendo no Brasil.
Em suma, creio que “Metamorfoses Florestais” tem tudo para
se tornar uma importante referência intelectual. Um livro que poderá
estimular a realização de novas pesquisas e debates e – porque não? –
de políticas públicas e projetos de intervenção mais inteligentes e bem
informados. Podemos ter esperança de que os novos saberes, sempre
em construção, sobre a história da Mata Atlântica, continuem a contri-
buir para mudar o destino de quase aniquilamento que, apenas algu-
mas décadas atrás, parecia estar definido para este tesouro ecológico
que marca tão profundamente o passado e o presente do Brasil.
Sumário

Introdução
Mudanças na Mata........................................................................... 17
Diogo de Carvalho Cabral, Ana Goulart Bustamante

I
Emergências ecológicas e conceituais.............................................35

A Mata Atlântica no final do Quaternário:


Dinâmicas climatobotânicas e antropogênicas desde o Último
Máximo Glacial................................................................................. 37
Vivian Jeske-Pieruschka, Marie-Pierre Ledru

Da província ao bioma: Representações da Mata Atlântica.............54


Leonardo Castro

II
Mundos paleoindígenas.................................................................83

Os habitantes pré-coloniais da Mata Atlântica Nordestina..............85


Carlos Etchvarne

Dez mil anos de convivência: A Arqueologia da Mata Atlântica


do Sudeste...................................................................................... 106
Astolfo G. M. Araújo

Ecologias culturais na Mata Atlântica pré-colonial de


Santa Catarina.............................................................................124
Deisi S. Eloy de Farias, Andreas Kneip, Geovan Martins Guimarães,
Alexandro Demathé, Tiago Atorre, Paulo DeBlasis

III
Encontros e regimes coloniais....................................................... 149

O pau-brasil na bahia colonial: Zonas de ocorrência, condições de


exploração e impactos ambientais ................................................151
Marcelo Henrique Dias
Porcos do Alentejo, malaguetas da Bahia: Intercâmbio biológico na
Mata Atlântica quinhentista...........................................................176
Christian Fausto Moraes dos Santos, Fabiano Bracht, Gisele Cristina da Conceição

A Mata Transatlântica: Afrodescendentes e transformação


socioecológica no litoral da Bahia.................................................194]
Case Watkins, Robert Voeks

A mineração e a mata: Água, madeira e técnica na exploração do


ouro nas Minas Gerais setecentistas..............................................224
Carolina Marotta Capanema

Botânica e gestão florestal na Bahia atlântica de fins do


século XVIII .................................................................................245
Rodrigo Osório Pereira

IV
Antropoceno................................................................................ 263

Com açúcar e sem afeto: A cana e a devastação da Mata Atlântica


nordestina.......................................................................................... 265
Cristiane Gomes Barreto e José Augusto Drummond

Relíquias da destruição Registros arqueogeológicos


da supressão da Mata Atlântica no Vale do Paraíba.......................286
Alex Ubiratan Goossens Peloggia

Floresta urbana, sistema emergente: Transformações socioecológicas


no Maciço da Pedra Branca, cidade do Rio de Janeiro...................... 305
Gabriel Paes da Silva Sales, Alexandro Solórzano, Rogério Ribeiro de Oliveira

A economia madeireira na Mata Atlântica interiorana, 1920-1960.... 318


Christian Brannstrom

Vida e morte da Floresta com Araucária........................................350


Eunice Sueli Nodari

Extrativismo e transformação na Mata Atlântica meridional.........367


Marcos Gerhardt

Indústria madeireira e devastação da Floresta com Araucária no


médio Vale do Iguaçu.....................................................................387
Miguel Mundstock Xavier de Carvalho
V
Cenários atuais e perspectivas futuras.......................................... 411

Transição florestal em São Paulo: Uma nova história para a Mata


Atlântica?........................................................................................ 413
Juliana S. Farinaci, Ramon F. B. da Silva, Simone A. Vieira

Conservação da Mata Atlântica brasileira - um balanço dos últimos


dez anos.......................................................................................... 434
José Maria C. da Silva, Luiz Paulo Pinto, Márcia Hirota, Lúcio Bedê,
Marcelo Tabarelli
Introdução

Diogo de Carvalho Cabral, Ana Goulart Bustamante


Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

A caminhada é assim, é ser: despesa grossa, o abalo.


João Guimarães Rosa, 19561
Seria possível uma história da floresta?
Warren Dean, 19952

Ao contrário do que sugere uma das imagens mais recorren-


temente usadas, na cultura ocidental, para retratar as florestas, elas
não são “tão antigas quanto o mundo.” Na verdade, elas são forma-
ções ecológicas tão históricas, tão mutáveis quanto quaisquer outras,
frutos de desenvolvimentos, vicissitudes, retrocessos, continuidades e
interrupções. Que o digam os paleocientistas, acostumados às mil e
uma peripécias das florestas, ao longo de milhões de anos: seu nasci-
mento, sua dispersão, sua diversificação, sua fragmentação, seus refú-
gios. Como uma mancha visualizada em mapas sequenciais, a floresta
dança ao compasso das placas tectônicas, das mudanças do clima e
dos outros conjuntos de vegetação – os campos, as savanas, os deser-
tos.3 A essa historicidade “natural” veio se integrar, em algum momen-
to muito recente da trajetória do planeta, a historicidade “cultural” dos
humanos, uma experiência participativa e autorreflexiva das tempora-
lidades da terra. As florestas tornaram-se matéria-prima não apenas
para a economia dos humanos, mas também para os sistemas de cren-
ças e valores com que eles se identificam, explicam e justificam.4 “A
floresta não é somente a extensão arborizada da realidade objetiva”,
ressaltou Eric Dardel. “Ela coloca em questão a totalidade da existên-
cia. Foi formadora de almas e de sensibilidade.”5 Nessa dimensão espi-
ritual, aliás – nos mitos de criação, nos arquétipos, nas etnogeografias
–, as florestas podem ter a mesma idade do mundo e frequentemente
têm, inclusive entre os “civilizados”.
Trata-se, é verdade, de uma história cheia de encontros e de-
sencontros. Embora os nossos ancestrais mais longínquos tenham se
balançado entre os galhos do dossel florestal, o gênero Homo parece

Metamorfoses florestais 17
ter emergido num contexto climático de aridificação, com expansão
da vegetação aberta, por volta de 2,5 milhões de anos atrás, na África.
Quanto à espécie humana propriamente dita – que começa a aparecer,
no registro fóssil, cerca de 200 mil anos atrás –, as evidências não são
conclusivas, mas é possível que povos mesolíticos tenham habitado as
florestas da África ocidental e central (Costa do Marfim, Gana, Gabão,
Camarões e República Democrático do Congo), ainda que os ecótonos
fossem preferidos, com toda a certeza. Modelos demográficos suge-
rem que, em suas rotas de expansão para fora da África, começando
entre 80 e 60 mil anos atrás, os caçadores-coletores atravessaram o sul
da Ásia de maneira relativamente rápida, alcançando o sudeste desse
continente por volta de 50 mil anos atrás. Analisando esmalte dentário
de restos humanos e de outros animais, um estudo recente mostrou
que os ecossistemas florestais do sul asiático eram sistematicamente
explorados por caçadores humanos, há pelo menos 20 mil anos. As
florestas tropicais das Américas foram as últimas a serem devassadas
pelos humanos modernos, entre 10 e 15 mil anos atrás.6
Mas essa colonização da floresta tropical nunca foi fácil. Nes-
se ecossistema, a feroz competição por luz e espaço seleciona plantas
que investem muita energia em troncos, galhos e folhas, biomassa in-
digerível pelos estômagos humanos. Os frutos e sementes dessas plan-
tas não podem ser armazenados por muito tempo, sendo imprestáveis
como estoque de comida. Geralmente, raízes e tubérculos amiláceos
não são encontrados com a densidade necessária. A sombra pervasiva
dificulta o desenvolvimento de ervas, enquanto as folhas das árvores
e arbustos são frequentemente tóxicas, desencorajando o forragea-
mento dos grandes herbívoros candidatos a presas humanas. Os ani-
mais que a floresta tropical disponibiliza são geralmente pequenos e
magros, além de terem hábitos noturnos, o que dificulta sua caça. Ao
mesmo tempo, o meio cerrado torna os humanos eles mesmos alvos
mais fáceis para os seus predadores. Os que não habitavam abrigos
rochosos precisavam abrir clareiras na floresta, geralmente, com a
ajuda do fogo – com a qual mantinham iluminados os acampamen-
tos, durante a noite. É provável que nenhuma sociedade de humanos
anatomicamente modernos tenha conseguido habitar florestas tropi-
cais com base apenas na coleta vegetal e na caça dos animais próprios
desse ecossistema; mesmo antes do advento da agricultura, ateava-se
18 Cabral & Bustamante (orgs.)
fogo na mata para produzir uma vegetação mais atraente aos animais
de áreas abertas. Os registros arqueológico, histórico e etnográfico
mostram que a maioria dos “povos da floresta”, ao longo da história
humana, foi de horticultores itinerantes ou então caçadores-coleto-
res especializados que, no entanto, viviam em intercâmbio comercial
com os horticultores.7 A mata fechada sempre foi um habitat marginal,
geralmente reputado como “bárbaro” pelos agricultores. Os antigos
indígenas da região de New York, por exemplo, evitavam a todo custo
as densas florestas e aqueles que não o faziam – ou que, por qualquer
razão, eram forçados a morar lá – eram desprezados como “comedores
de casca [de árvore].”8
Por seu turno, os ditos “civilizados” só começaram a valorizar
cultural e ambientalmente as florestas depois que suas economias já
as tinham reduzido a pequenos fragmentos domesticados, muitas ve-
zes totalmente replantados.9 Mesmo os escritores e filósofos românti-
cos do século XIX, a despeito de sua defesa da floresta selvagem, bruta,
“intocada”, não pareciam dispostos a fazer dela um lar. Em seu retorno
a Massachussets, após uma de suas viagens ao sertão do Maine, Henri
David Thoreau escreveu que

[...] era um alívio voltar para nossa paisagem suave, mas


ainda assim variada. Para uma residência permanente, pa-
receu-me que não havia comparação entre ela e a natureza
selvagem [wilderness], por mais necessária que esta seja, em
razão de seus recursos e hinterlândia – a matéria-prima de
nossa civilização.10

A verdade é que, depois de exaurirem muitas das suas hinter-


lândias de recursos naturais, os europeus cruzaram os oceanos em bus-
ca de mais matéria-prima para sua civilização, a partir do final do século
XV – uma expansão da qual Thoreau e sua amada Nova Inglaterra foram
resultados diretos. Embora as florestas e sua biodiversidade não fossem
os alvos primários dos “descobridores” – ouro e prata e até manufaturas
tradicionais como os tecidos de seda eram infinitamente mais valiosos
–, eles acabaram se tornando pródigos usuários de madeira, tanto para
construção quanto para suas queimadas agrícolas. Superpondo-se ao
povoamento pleistocênico, a migração moderna dos europeus para as
Américas, Oceania, ilhas do Pacifico, Madagascar e outras regiões flo-
Metamorfoses florestais 19
restais, promoveu a primeira grande onda de desflorestamento tropical
maciço. Nos séculos XVI e XVII, a sua chegada desencadeou verdadei-
ros cataclismos nas populações indígenas residentes nessas florestas e
nas suas vizinhanças – devido às guerras de conquista, à escravização e,
principalmente, às doenças contagiosas –, promovendo um dramático
turnover demográfico. Nesse período, é provável que, num balanço ge-
ral, as florestas tropicais tenham se expandido e adensado, recuperando
os terrenos não mais cultivados pelos seus habitantes nativos. Porém,
a partir da segunda metade do século XVIII, com o processo de subs-
tituição/transfiguração das suas populações humanas já concluído ou
em vias de se concluir, as florestas tropicais passaram a ser impiedo-
samente convertidas em lavouras, pastos, minas, cidades e estradas; o
que aconteceu, então, foi um turnover ambiental. De aproximadamente
355 milhões de habitantes, em 1700, a população do mundo tropical
saltou para 775 milhões, em 1850, o que impulsionou um aumento de
128 milhões para 180 milhões de hectares de área cultivada. Estima-se
que essa expansão agropecuária tenha gerado uma perda de 70 milhões
de hectares de florestas.11
Mas a transformação verdadeiramente estrutural começa-
ria no período seguinte, entre 1850 e 1920. Alimentada pelo avanço
do neocolonialismo europeu, na África e na Ásia, e pela crescente
integração do mercado mundial, a velocidade de conversão das flo-
restas tropicais quase quintuplicou, alcançando a taxa de 2,2 mi-
lhões de hectares anuais; ao final da Primeira Guerra Mundial, as
perdas já totalizavam 152 milhões de hectares.12 De fato, trata-se de
uma virada histórica que marca a entrada das florestas tropicais no
chamado Antropoceno, época geológica em que a ação humana su-
plantou as outras forças da natureza, na regulação do ecossistema
planetário.13 Enquanto a industrialização se consolidava e dissemi-
nava, na Europa ocidental e central, e daí para os Estados Unidos,
rompendo os limites “antigos” da produtividade do trabalho huma-
no, as margens da economia-mundo eram chamadas a contribuir
com suas terras e seus recursos naturais, ou seja, com aumento
extensivo dos velhos sistemas de extrativismo e plantation. As-
sim, o fornecimento de commodities agrícolas e florestais (açúcar,
café, cacau, látex, madeiras etc.) conectou as matas tropicais ao
turbilhão europeu e, posteriormente, norte-americano que mudou
20 Cabral & Bustamante (orgs.)
para sempre a relação da humanidade com seus sistemas de supor-
te ecológico. Na América Latina, por exemplo, esse “Antropoceno
periférico” substituiu, somente com lavouras comerciais, uma área
estimada entre 15 e 25 milhões de hectares de matas, entre 1860 e
1920 – um aumento de cinco a oito vezes em relação ao crescimen-
to nos 60 anos anteriores.14
A partir do Plano Marshall e do Plano Colombo, no final dos
anos 1940 e início dos anos 1950, a Europa e, principalmente, o Ja-
pão lideraram a reconstrução pós-Segunda Guerra, levando a eco-
nomia global a um crescimento, provavelmente inédito na história
humana, de quase 5% ao ano, em média, até 1973.15 De fato, essa
foi a fase de “Grande Aceleração” do Antropoceno; todos os indi-
cadores de demanda e consumo material dispararam quase verti-
calmente (população, uso de água e energia, consumo de carne,
de fertilizantes, de papel, de televisores, de automóveis e muitos
outros bens duráveis).16 Crescendo acima da média global, mais do
que a Europa e os Estados Unidos, a América Latina transformou
grandes extensões das suas florestas nativas – o maior estoque
mundial de florestas tropicais – em lavouras, pastos, madeira, le-
nha e terra degradada a uma taxa de seis a oito milhões de hectares
anuais, entre 1955 e 1970. Por volta de 1980, as florestas tropicais e
subtropicais do continente ainda estavam perdendo mais de quatro
milhões e meio de hectares por ano.17 Segundo a Food and Agricul-
ture Organization of the United Nations (FAO), na virada do século
XXI, 48% das terras latino-americanas estavam cobertas com flores-
tas e matas (incluindo regenerações secundárias em estágio inicial),
com uma projeção de redução para 44%, em 2020.18
De fato, no terceiro milênio da era cristã, “nenhum bioma
da superfície da Terra está livre de interações com a humanidade.”19
Com a argumentável exceção das áreas cobertas por gelo, o nível
e a extensão da atividade ambiental dos humanos criou verdadei-
ros “biomas humanos” ou “antromas”. Conforme argumentam Erle
Ellis e Navin Ramankutty, o mapeamento ecológico tem que con-
siderar essas novas realidades; o antigo traçado puramente climá-
tico dos biomas já não faz mais sentido. Num exercício pioneiro,
esses pesquisadores procuraram regionalizar os biomas terrestres
conforme o tipo e a intensidade do povoamento e uso humanos.
Metamorfoses florestais 21
Dentre os cinco conjuntos identificados, estão as “Terras Floresta-
das”, subdivididas em “Florestas Remotas”, i.e. com povoamento
humano insignificante em termos de impacto ambiental (menos de
um habitante por quilômetro quadrado), e “Florestas Povoadas”,
i.e. “florestas com populações humanas e agricultura” (densidade
entre um e cinco habitantes por quilômetro quadrado). Acima do
limite de cinco habitantes por quilometro quadrado, as terras não
são mais classificadas como “florestadas”, mas, de acordo com o
uso predominante, como “Pastagens” (até 50 hab./km2), “Terras
Agrícolas” (até 100 hab./km2), “Vilas” (até 1.000 hab./km2) e “Cida-
des – ocupação densa” (até 5.000 hab./km2).20
Ao se aplicarem parâmetros semelhantes ao território bra-
sileiro, muitos dos seus rótulos regionais perdem o sentido. Este é,
sem dúvida, o caso da Mata Atlântica. Concentrando cerca de 70%
da população e 80% do PIB do país, a Mata Atlântica atual é muito
mais uma região de agropecuária, fábricas e cidades do que pro-
priamente de florestas (Figura 1); em média, cada quilômetro qua-
drado abrigava, em 2010, 114 habitantes e produzia 2,2 milhões de
reais. Nessa mesma época, apenas entre 11% e 16% da vegetação
nativa do bioma permaneciam de pé, constituídos, em sua maior
parte, de pequenas manchas (cada uma com poucas centenas de
hectares) de regeneração secundária inicial, tipicamente em pro-
priedades privadas, isoladas entre si por paisagens antropizadas,
geralmente, lavouras, pastagens e plantações de árvores exóticas.21
A despeito de alguns fragmentos de tamanho considerável, sobre-
tudo nas encostas da Serra do Mar, que ainda abrigam comunidades
não-humanas bastante diversificadas – de fato, elas ainda figuram
entre as mais diversificadas do mundo22 –, a biodiversidade da Mata
Atlântica encontra-se seriamente ameaçada. As últimas pesquisas
mostram que quase metade das espécies avaliadas – que não equi-
valem às espécies existentes – pode ser considerada ameaçada de
extinção, conforme as regras internacionais da União Mundial para
Conservação da Natureza (International Union for Conservation of
Nature-IUCN).23

22 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 1 – A situação da Mata Atlântica brasileira, no início do século XXI. Fontes:
IBGE, Mapa de Vegetação do Brasil (2002); IBGE/MMA, Mapa de Biomas do Brasil
(2004); IBGE/MMA, Mapa de Aplicação da Lei da Mata Atlântica (2006).

Metamorfoses florestais 23
No entanto, se é verdade que a “Mata Atlântica, tal como a co-
nhecemos hoje, evidencia, em sua composição, estrutura e funcionali-
dade, a resultante dialética da presença de seres humanos,”24 devemos
considerar que as atuais sociedades humanas são o resultado desse
processo de antropização. Estendendo-se outrora entre as latitudes 3º
e 30º S, essas florestas tropicais e subtropicais, além dos ecossistemas
periféricos associados (restingas, mangues, campos de altitude etc.),
constituíram o primeiro bioma sul-americano a ser ocupado pelos por-
tugueses, no século XVI. Foi dali que eles partiram para conquistar as
savanas, os pantanais e os campos a sul e oeste, e até as grandes selvas
amazônicas, a noroeste. Depois de comerciar pau-brasil, os coloniza-
dores estabeleceram grandes plantações de cana-de-açúcar, iniciando
um processo contínuo de transformação socioambiental.25 Sucessivos
surtos econômicos mataram, escravizaram ou desalojaram centenas
de milhares de indígenas, enquanto importavam milhões de europeus
e africanos para controlar, converter e cultivar as florestas esvazia-
das.26 Organizado sobre o tripé latifúndio, escravidão e agricultura de
plantation, o modo de produção agrário-colonial fundou uma socieda-
de aristocraticamente estratificada, economicamente dependente do
mercado externo e ecologicamente parasítica.27 Tecnologicamente in-
capaz de aumentar a produtividade, essa socioeconomia crescia ape-
nas extensivamente, devastando cada vez mais terras e trabalhadores
(depois dos escravos, os proletários rurais). O Antropoceno não mudou
esse padrão, mas o reforçou e acelerou; quando a agricultura brasileira
finalmente começou a incorporar os insumos e equipamentos moder-
nos, nos anos 1960 – o que poderia ter evitado novas derrubadas via
aumento da produtividade em terras agrícolas consolidadas –, a Mata
Atlântica já estava praticamente dilapidada.
Paradoxalmente, a Mata Atlântica só conseguiu se afirmar
como um domínio “natural”, justamente, quando já não restava qua-
se nada de seu estado “primitivo” ou “original”. Nos anos 1980, uma
insinuante sinergia de forças acadêmicas, ambientalistas e políticas le-
vantou a questão acerca da potencial extinção das florestas do Brasil
atlântico. Depois da grande aceleração econômica da década anterior
– leia-se acumulação excludente com avanço extensivo da agricultura
comercial, expulsão de camponeses, inchaço e empobrecimento ur-
banos, além de generalizada degradação ambiental –, o Brasil havia
24 Cabral & Bustamante (orgs.)
dolorosamente amadurecido como semiperiferia do capitalismo glo-
bal, tanto em sua estrutura de classes quanto em sua configuração
territorial. Inspirando-nos na teoria polanyiana,28 poderíamos dizer
que foi nos anos 1980 que emergiram os grandes “contramovimentos
de proteção” do tecido social brasileiro, ou melhor, dos seus funda-
mentos humanos e ecológicos. Por todos os lados da sociedade civil
surgiam movimentos organizados contra a exploração deletéria dos
trabalhadores e das terras, na cidade e no campo. No que concerne
aos ambientes florestais, havia uma clara diferença entre as duas gran-
des arenas de luta, largamente determinada pela geografia histórica
da ocupação eurodescendente: de um lado, as matas amazônicas ape-
nas recentemente assediadas e por isso ainda majoritariamente de pé,
embora seletivamente depauperadas de certos recursos e populações
nativas (sobretudo as humanas); de outro, as matas atlânticas, pri-
meiro habitat dos colonizadores e sustentáculo de todos os principais
surtos de crescimento da economia brasileira, quase totalmente des-
truídas. Foi a partir do rescaldo dessa antropização de longa duração e
intensidade – dos vestígios das florestas de outrora, quase sempre em
relevo acidentado, alguns já legalmente protegidos – que cientistas,
ambientalistas e legisladores construíram, de maneira retrospectiva, a
ideia do “bioma Mata Atlântica”.
Essa condição epistemológica – “conhecimento por meio
de estruturas sobreviventes”, diria John Lewis Gaddis29 – fez da cons-
trução científico-político-cultural da Mata Atlântica, nos anos 1980,
um empreendimento profundamente historiográfico, isto é, estreita-
mente imbricado nas imagens que descreviam a floresta do passado,
bem como os seus processos de transformação. Não foi por acaso
que a obra de Warren Dean, A Ferro e Fogo: a História e a Devastação
da Mata Atlântica Brasileira, foi tão bem acolhida no meio ambien-
talista nacional. Embora o livro tenha sido publicado em 1995 – em
inglês, e no ano seguinte, em português –, Dean vinha divulgando os
resultados de sua pesquisa desde o começo dos anos 1980, inclusive
no Brasil. Em um artigo de 1985, Dean já havia definido a primitiva
“Floresta Atlântica Costeira”:

Essa floresta, resultado de um clima chuvoso, de tropical a


subtropical, exibindo leves mudanças sazonais de tempera-

Metamorfoses florestais 25
tura e precipitação, estendia-se outrora por uma faixa es-
treita, ao longo de toda a costa norte-sul, do Rio Grande do
Norte ao Rio Grande do Sul. Na região sudeste, condições
climáticas e topográficas permitiam que a floresta se interio-
rizasse de 300 a 400 km.30

Grosseiramente definida, essa floresta de outrora embasava o


conceito de “Mata Atlântica em extinção,” título do clássico artigo de
Gustavo Fonseca, também publicado em 1985. É sintomático que Fonse-
ca, um zoólogo desenvolvendo uma tese sobre mamíferos, tenha recor-
rido à pesquisa de arquivo para examinar o processo de desflorestamen-
to, na Zona da Mata mineira. Dentre os conjuntos documentais estuda-
dos por ele estava, por exemplo, uma amostra de 235 requerimentos de
titulação fundiária feitos por posseiros, entre 1884 e 1983, junto à Fun-
dação Rural Mineira. (Com esse estudo, ele descobriu que, até a década
de 1930, as terras devolutas ocupadas tinham mais da metade de sua
extensão coberta de matas.) Ao mesmo tempo que vasculhava arquivos,
Fonseca percorria os seus locais de estudo em busca da Mata Atlântica
“original”. “Com exceção de algumas porções do Parque Estadual do Rio
Doce”, relatou desapontado, “eu não vi nenhuma floresta primária in-
tocada na região.” Depois desse balanço histórico, Fonseca discutiu as
políticas públicas necessárias à conservação do pouco que sobrara. “Se
medidas urgentes não forem tomadas”, concluiu, “esta década [de 1980]
testemunhará o desaparecimento de um dos grandes biomas do conti-
nente americano, e com ele um dos mais originais [unique] conjuntos de
espécies animais e vegetais do mundo.”31
Não é absolutamente nossa intenção, aqui, discutir a acurácia
factual desse argumento ou de outros aparentados, mas tão somente
ressaltar o peso da história, na sua lógica interna. De fato, diríamos
que a Mata Atlântica é um bioma eminentemente histórico, uma rea-
lidade construída não somente ao longo do tempo, mas também com
uma aguda consciência do tempo; diferentemente dos outros biomas
do território brasileiro, a Mata Atlântica foi delimitada como aquilo
que ela havia sido, mais do que ela era. Essa densa historicidade faz da
Mata Atlântica um objeto particularmente apropriado a uma história
ambiental de longa duração e larga abrangência temática.

26 Cabral & Bustamante (orgs.)


É isso o que oferecemos, neste livro. Problematizando as eco-
logias e culturas que modelaram a Mata Atlântica desde o final do Qua-
ternário até os dias de hoje, a coletânea se estrutura em cinco seções,
uma delas de caráter temático, e as demais de caráter temporal. O tema
da primeira seção é, exatamente, a emergência dos contornos regionais
básicos do que hoje em dia chamamos de Mata Atlântica, tanto na terra
quanto no pensamento humano. Num esforço de síntese do conheci-
mento paleoecológico sobre a Mata Atlântica, Vivian Jeske-Pieruschka
e Marie-Pierre Ledru abordam as dinâmicas climatobotânicas e antro-
pogênicas modeladoras das porções sudeste e sul do bioma, desde o
Último Máximo Glacial (ou seja, os últimos 21,000 anos, aproximada-
mente). Por seu turno, Leonardo Castro analisa a história da classificação
fitogeográfica da Mata Atlântica, acompanhando a trajetória que levou
desde o sistema de Carl Friedrich von Martius, ainda no século XIX, até o
moderno conceito de bioma, adotado no final do século XX.
As outras quatro seções do livro agrupam trabalhos de acor-
do com os grandes períodos da história da Mata Atlântica, em presença
humana. O primeiro deles refere-se à “primeira invasão” de que falou
Warren Dean, ou seja, às levas migratórias pré-históricas que chegaram
à costa brasílica, vindas do norte da América do Sul, provavelmente. Em-
bora, ao que tudo indica, fossem descendentes das populações asiáti-
cas, já poderiam ser considerados americanos, sobretudo culturalmen-
te; eram comunidades de caçadores, pescadores e coletores adaptados
aos ecossistemas tropicais da Amazônia e região caribenha. Na Mata
Atlântica, eles criaram um modo de vida estreitamente dependente dos
recursos marinhos e fluviais, o que é demonstrado pelos sítios arqueo-
lógicos legados – os chamados “sambaquis”, aglomerados de conchas
e outros resíduos de alimentos tirados do mar e dos estuários, além de
instrumentos de caça e pesca. Entranhando-se nesses ecossistemas al-
tamente produtivos, os construtores de sambaquis desenvolveram-se,
localmente, ao longo de quase todo o Holoceno, ou seja, nos últimos dez
mil anos; foram desalojados por uma segunda grande leva de migrantes,
algumas centenas de anos antes da chegada dos primeiros portugue-
ses, já no século XVI da era cristã. Com exceção do que ocorreu no sul
– onde a segunda leva foi de grupos ceramistas portadores da tradição
Taquara-Itararé, vinculados ao Macro-Jê Meridional –, os indígenas re-
cém-chegados do interior, falantes de diversas línguas do tronco Tupi,
Metamorfoses florestais 27
traziam à Mata Atlântica uma inovação técnica de profunda significância
ecológica: a agricultura. Embora continuassem coletando, pescando e
caçando, os Tupi desbastavam pequenas clareiras na mata para cultivar
roças de mandioca, milho, abóbora, feijão, entre outros gêneros. Esses
processos de ocupação e reocupação humana são abordados, regional-
mente, por três especialistas na Arqueologia da Mata Atlântica: Carlos
Etchevarne estuda a região nordeste; Astolfo Araújo, a região sudeste; e,
ao sul, Deisi Scunderlick Eloy de Farias, juntamente com seus colabora-
dores, estuda o atual estado de Santa Catarina.
A seção seguinte trata dos encontros e regimes socioambien-
tais que se desenvolveram ao longo do período de colonização portu-
guesa, entre os séculos XVI e XVIII. Marcelo Henrique Dias revisita a
exploração do pau-brasil, primeira atividade econômica dos europeus,
na Mata Atlântica. Iluminada pelos modernos achados biológicos, a lei-
tura densa das fontes documentais permite a Dias refutar a antiga tese
do esgotamento precoce da Caesalpinea echinata, no nordeste. Se-
guindo uma tendência recente da historiografia global, Christian Faus-
to, Fabiano Bracht e Gisele Cristina da Conceição estudam o chamado
“Intercâmbio Colombiano” – conceito proposto por Alfred Crosby, em
197232 – de uma maneira mais regionalizada e particularizada. No con-
texto da Mata Atlântica quinhentista, eles abordam as principais espé-
cies vegetais e animais com que os portugueses tentaram reproduzir
localmente seu ambiente natal, com destaque para o porco alenteja-
no; além disso, eles investigam a exportação biológica para a Europa
dos pimentos nativos do gênero Capsicum, obra não só de portugue-
ses, mas também – e talvez principalmente – de franceses. Case Wa-
tkins e Robert Voeks, por seu turno, debruçam-se sobre o problema da
importação de africanos escravizados, e do modo como eles ajudaram
a transformar as paisagens da Mata Atlântica, na Bahia; por meio de
dados arquivísticos, etnográficos e geoespaciais, eles mostram como
o tráfico de escravos conectou as florestas tropicais das duas margens
do Atlântico, com consequências ecológicas e culturais para ambas.
Maior empregadora de escravos da economia colonial, no século XVIII,
a mineração de ouro, em Minas Gerais, é o assunto abordado por Ca-
rolina Capanema. Avaliando a dependência da mineração em relação
à ecologia regional, Capanema explicita o papel técnico da água e das
madeiras, rediscutindo o propalado “atraso” da economia mineradora
28 Cabral & Bustamante (orgs.)
do setecentos. Fechando essa seção, Rodrigo Osório Pereira examina
o papel da ciência da botânica, na formulação das políticas régias para
as florestas baianas, no final do século XVIII.
A terceira seção do livro aborda o Antropoceno. No primei-
ro capítulo, Cristiane Barreto e José Augusto Drummond estudam o
impacto da lavoura comercial mais longeva da Mata Atlântica – a ca-
na-de-açúcar. Considerando a porção nordestina do bioma, os auto-
res oferecem uma inédita visão de longa duração, mostrando que o
desflorestamento açucareiro, embora tenha começado no primeiro
século de colonização portuguesa, ganhou uma proporção realmente
acachapante, ou “antropocênica”, somente na virada do século XX. No
sudeste, este foi o período de apogeu do café, outra monocultura co-
mercial altamente desflorestadora; diferentemente da cana, porém, o
café desmatou encostas, desencadeando violentos processos erosivos.
Estudando os depósitos geológicos resultantes desses processos, Alex
Peloggia retrata o atual vale do rio Paraíba do Sul como uma paisagem-
-testemunho da onda destruidora cafeeira. Mas derrubar e queimar a
floresta para plantações não foi o único regime de uso acelerado pelo
Antropoceno: a fitomassa da Mata Atlântica também foi aproveitada
como combustível e madeira de construção. Gabriel Sales, Alexandro
Solórzano e Rogério Oliveira estudam as transformações na floresta do
Maciço da Pedra Branca, grande fornecedora de carvão vegetal para a
urbanização do Rio de Janeiro, no século XIX. Em uma escala de aná-
lise mais ampla, Christian Brannstrom investiga o setor de madeira de
construção em São Paulo e no Paraná, na primeira metade do século
XX, do ponto de vista da geografia da produção e comercialização, bem
como das relações sociais e econômicas envolvidas. Embora a partir
de focos e escalas distintos, Eunice Nodari, Marcos Gerhardt e Miguel
Carvalho analisam, em seus respectivos capítulos, a história da Flores-
ta com Araucárias (ou Floresta Ombrófila Mista, nos estados do Para-
ná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul), a formação regional da
Mata Atlântica mais tardiamente atingida pelo povoamento eurodes-
cendente – sendo, ainda assim, a mais intensamente transformada a
partir da segunda metade do século XIX. Essas dinâmicas antropocêni-
cas envolveram extrativismos diversos – especialmente da madeira da
araucária e das folhas da erva-mate –, embora comumente associados
ao avanço da fronteira agrícola.
Metamorfoses florestais 29
Mas a Mata Atlântica não é um capítulo acabado da história
ambiental brasileira. Enquanto “bioma humano”, ela é uma realidade
viva e pulsante, tanto no que concerne à importância dos remanes-
centes florestais para as sociedades e economias do presente (cap-
tação de água, estabilização de encostas, proteção da biodiversidade
etc.) quanto no âmbito dos movimentos sociais, político-institucionais,
científicos e culturais que, de uma maneira ou de outra, procuram in-
terromper a trajetória destrutiva e restaurar a integridade dos ecossis-
temas, nos dias de hoje. Assim, a quinta e última seção deste livro reú-
ne dois capítulos que abordam a “história do futuro” da Mata Atlânti-
ca. No primeiro deles, Juliana Farinaci, Ramon da Silva e Simone Vieira
discutem a possibilidade de uma “transição florestal” no bioma – i.e. a
passagem de um período de perda líquida de área florestal para um de
ganho líquido. Estudando o caso do estado de São Paulo, esses pesqui-
sadores reúnem e avaliam dados acerca da trajetória da cobertura flo-
restal, apontando as prováveis causas e condicionantes da transição,
bem como as políticas governamentais que poderiam associá-la a um
incremento de qualidade de vida para as populações rurais. No segun-
do capítulo, José Maria da Silva, Luiz Paulo Pinto, Márcia Hirota, Lúcio
Bedê e Marcelo Tabarelli realizam um amplo balanço dos avanços e
desafios, no âmbito da conservação da Mata Atlântica, nos últimos dez
anos. Eles identificam dez grandes tendências de transformação, algu-
mas muito positivas, como a redução das taxas de desmatamento e
o aumento do conhecimento científico sobre a biodiversidade, e ou-
tras nem tanto, como a desarticulação das políticas governamentais e
a insuficiência das áreas protegidas. Por fim, os autores propõem oito
audaciosas metas conservacionistas para os próximos dez anos, dentre
elas a proteção formal de todos os remanescentes existentes por meio
de unidades de conservação, nas três esferas administrativas (federal,
estadual e municipal) e um fundo fiduciário de pelo menos um bilhão
de dólares para o seu manejo. Iniciativas como esta mostram que os
habitantes humanos da Mata Atlântica podem estar alcançando um
grau de autoconsciência que os qualifica como verdadeiros “zelado-
res” dos ecossistemas – um possível novo estágio do Antropoceno, se-
gundo Will Steffen e colaboradores.33
Em seu conjunto, os 19 capítulos deste livro oferecem um pa-
norama histórico de longuíssima duração e larga abrangência temática
30 Cabral & Bustamante (orgs.)
para a Mata Atlântica brasileira. Ainda que não seja exaustiva, essa
narrativa compósita vem preencher algumas das “omissões” que War-
ren Dean mencionou, a respeito de sua própria obra.34 Mas a verdade
é que o livro que ora introduzimos – assim como muitos outros esfor-
ços de pesquisa semelhantes – não seria possível sem o pioneirismo
de Dean em contar a história de um bioma, empreitada tão hercúlea
quanto bizarra, considerando-se a cultura acadêmica de trinta anos
atrás (sobretudo no Brasil), quando ele iniciou sua pesquisa para es-
crever A Ferro e Fogo. Assim, conquanto o avanço do conhecimento
requeira a crítica e o preenchimento de lacunas, ele também não pode
prescindir da genealogia dos seus caminhos; e neste sentido, é impor-
tante reconhecer que Warren Dean foi um legítimo pathfinder.

_____________
1  Grande sertão: veredas, 19a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 387.
2  DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica
brasileira. São Paulo: Cia. das Letras, 1996, p. 20.
3  BOTKIN, Daniel B. Discordant harmonies: a new ecology for the twenty-first
century. Oxford: Oxford University Press, 1990, p. 63.
4  HARRISON, Robert P. Forests: the shadow of civilization. Chicago: University of
Chicago Press, 1992.
5  DARDEL, Eric. O homem e a terra: natureza da realidade geográfica. São Paulo:
Perspectiva, 2011, p. 37.
6  MERCADER, Julio. “Forest people: the role of African rainforests in human
evolution and dispersal”, Evolutionary Anthropology 11, 2002, pp. 117-124; ELTON,
Sarah. “The environmental context of human evolutionary history in Eurasia and
Africa”, Journal of Anatomy 212 (4), 2008, pp. 377-393; ERIKSSON, A.; BETTI, L.;
FRIEND, A.D.; LYCETT, S.J.; SINGARAYER, J.S.; CRAMON-TAUBADEL, N.; VALDES,
P.J.; BALLOUX, F.; MANICA, A. “Late Pleistocene climate change and the global
expansion of anatomically modern humans”, Proceedings of the National Academy of
Sciences of the United States of America 109 (40), 2012, pp. 16089-16094; ROBERTS,
Patrick; Perera, Nimal; WEDAGE, Oshan; DERANIYAGALA, Siran; PERERA, Jude;
EREGAMA, Saman; GLEDHILL, Andrew; PETRAGLIA, Michael D.; LEE-THORP, Julia A.
“Direct evidence for human reliance on rainforest resources in late Pleistocene Sri
Lanka”, Science 347, 2015, pp. 1246-1249.
7  BAILEY, Robert C.; HEAD, Genevieve; JENIKE, Mark; OWEN, Bruce; RECHTMAN,
Robert; ZECHENTER, Elzbieta. “Hunting and gathering in tropical rain forest: is it
possible?”, The American Anthropologist 91 (1), 1989, pp. 59-82; BAILEY, Robert C.;
HEADLAND, Thomas N. “The tropical rain forest: is it a productive environment for
human foragers?”, Human Ecology 19 (2), 1991, pp. 261-285.

Metamorfoses florestais 31
8  JONES, E. L. “Creative disruptions in American agriculture, 1620-1820”, Agricultural
History 48 (4), 1974, pp. 513-514.
9  A análise clássica sobre essa mudança cultural é a de THOMAS, Keith. Man and the
natural world: changing attitudes in England, 1500-1800. Harmondsworth: Penguin,
1983.
10  THOUREAU, Henry David. The Maine woods. New York: Thomas Y. Crowell Co.,
1966, p. 203.
11  WILLIAMS, Michael. Deforesting the Earth: from prehistory to global crisis.
Chicago: The University of Chicago Press, 2003, pp. 334-5.
12  Idem, ibidem.
13  STEFFEN, Will; GRINEVALD, Jacques; CRUTZEN, Paul; McNEILL, John. “The
Anthropocene: conceptual and historical perspectives”, Philosophical Transactions of
the Royal Society 369, 2011, pp. 842-867.
14  HOUGHTON, R.A.; LEFKOWITZ, D.S.; SKOLE, D.L. “Changes in the landscape of
Latin America between 1850 and 1985. I. Progressive loss of forests”, Forest Ecology
and Management 38, 1991, pp. 145-149.
15  Vale ressaltar, no entanto, que os países do bloco soviético cresceram tanto
quanto a Europa ocidental, no mesmo período. Ver MADDISON, Angus. The world
economy: a millennial perspective. Paris: OCDE, 2001, p. 262.
16  STEFFEN et al., op. cit., p. 851 e ss.
17  HOUGHTON et al., op. cit., pp. 159-163.
18  Velarde, Sandra J. Socio-economic trends and outlook in Latin America:
Implications for the forestry sector to 2020. Latin American Forestry Sector Outlook
Study Working Paper. Disponível em http://www.fao.org/docrep/006/j2459e/
j2459e00.htm
19  MALHI, Yadvinder; GARDNER, Toby A.; GOLDSMITH, Gregory R.; SILMAN, Miles
R.; ZELAZOWSKI, Przemyslaw. “Tropical forests in the Anthropocene”. Annual Review
of Environment and Resources 39, 2014, p. 126.
20  ELLIS, Erle C.; RAMANKUTTY, Navin. “Putting people in the map: anthropogenic
biomes of the world”, Frontiers in Ecology and the Environment 6 (8), 2008, pp. 439-447.
21  RIBEIRO, M.C.; METZGER, J.P.; MARTENSEN, A.C.; PONZONI, F.J.; HIROTA, M.M.
“The Brazilian Atlantic Forest: how much is left, and how is the remaining forest
distributed? Implications for conservation.” Biological Conservation 142, 2009,
pp. 1141-1153; RIBEIRO, M.C.; MARTENSEN, A.C.; METZGER, J.P.; TABARELLI, M.;
SCARANO, F.; FORTIN, M.J. “The Brazilian Atlantic Forest: A Shrinking Biodiversity
Hotspot”. In: ZACHOS, F.E.; HABEL, J.C. (Eds), Biodiversity Hotspots: Distribution and
Protection of Conservation Priority Areas. Dordrecht: Springer, 2011, pp. 405-433.
22  MITTERMEIR, R.A.; GILL, P.R.; HOFFMANN, M.; PILGRIM, J.; BROOKS, J., MITTERMEIER,
C.J.; LAMAOURUX, J.; FONSECA, G.A.B. Hotspots revisited: Earth’s biologically richest and
most endangered terrestrial ecoregions. Washington: CEMEX, 2005.
23  Ver, neste livro, o capítulo de José Maria da Silva e colaboradores, “Conservação
da Mata Atlântica brasileira: um balanço dos últimos dez anos”.

32 Cabral & Bustamante (orgs.)


24  RIBEIRO, Rogério R. “Mata Atlântica, paleoterritórios e história ambiental”,
Ambiente e Sociedade 10 (2), 2007, p. 11.
25  DEAN, op. cit.; FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre
a vida e a paisagem do nordeste do Brasil. 7ª ed. São Paulo: Global, 2004[1937];
CABRAL, Diogo de Carvalho. Na presença da floresta: Mata Atlântica e história
colonial. Rio de Janeiro: Garamond/FAPERJ, 2014.
26  HEMMING, John. Red Gold: The conquest of the Brazilian Indians. London: Pan
Macmillan, 1978; INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil:
500 anos de povoamento. Rio de Janeiro: IBGE, 2000.
27  DEAN, op. cit.; PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo, 9ª ed. São
Paulo: Brasiliense, 1969; FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O Arcaísmo como
Projeto: Mercado Atlântico, Sociedade Agrária e Elite Mercantil em uma Economia
Colonial Tardia, Rio de Janeiro, c.1790-c.1840, 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2001.
28  POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de
Janeiro: Campus, 2000.
29  GADDIS, John L. Paisagens da história: como os historiadores mapeiam o
passado. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
30  DEAN, Warren. “Forest Conservation in Southeastern Brazil, 1900 to 1955”,
Environmental Review 9 (1), 1985, p. 55.
31  FONSECA, Gustavo A. B. “The vanishing Brazilian Atlantic Forest”, Biological
Conservation 34, 1985, pp. 17-34.
32  CROSBY, Alfred W. The Columbian exchange: biological and cultural consequences
of 1492. 30th Anniversary Edition. Westport: Praeger, 2003.
33  STEFFEN, Will; CRUTZEN, Paul J.; MCNEILL, John R. “The Anthropocene: are
humans now overwhelming the great forces of nature?”, Ambio 36 (8), 2007, pp.
614-621.
34  DEAN, A ferro e fogo, op. cit., p. 28.

Metamorfoses florestais 33
I

Emergências ecológicas e conceituais


A Mata Atlântica no final do Quaternário:
Dinâmicas climatobotânicas e antropogênicas
desde o Último Máximo Glacial

Vivian Jeske-Pieruschka*,
Universidade Federal do Ceará †
Marie-Pierre Ledru†
Institut de Recherche pour le Développement

Atualmente, a Mata Atlântica se estende diante do Oceano


Atlântico de norte a sul do Brasil – do Estado do Rio Grande do Norte
ao Estado do Rio Grande do Sul, com áreas isoladas no Estado do Ceará
– e avança para o interior até a fronteira com o nordeste da Argentina
e o leste do Paraguai.1 O bioma cobre as encostas das serras litorâneas
do Brasil formando mosaicos de ecossistemas campestres e florestais
nos planaltos sul-brasileiros. Devido às contínuas massas de ar pro-
venientes da costa, a Mata Atlântica se caracteriza por altos níveis de
umidade. Essa característica é intensificada pela elevação das massas
de ar cujo resfriamento e condensação provoca chuvas orográficas. A
quantidade de umidade está relacionada com a proximidade do Ocea-
no Atlântico e, consequentemente, a precipitação se reduz a partir da
costa para o interior (de leste para oeste).
O gradiente de altitude associado à variação da temperatura e
da precipitação, juntamente com as propriedades edáficas, promovem a
diversidade biológica e o endemismo de espécies. Assim, o bioma Mata
Atlântica é composto de diferentes tipos de vegetaçãoconsiderados como
ecossistemas associados, formando paisagens contrastantes. As diferen-
tes formações incluem floresta perenifólia, tropical semidecídua, decídua
e com araucária, bem como vegetação costeira, chamada vegetação de
restinga e manguezal, e campos de altitude. A distribuição geográfica da
Araucaria angustifolia está concentrada nas serras do Sul do Brasil com
mais de 500 m de altitude, embora algumas populações desta espécie ar-
bórea também sejam observadas em pontos esparsos, em altitudes mais
elevadas, no Sudeste do Brasil.2 Considerando-se o conjunto do bioma,
Metamorfoses florestais 37
percebe-se que a diversidade de espécies de árvores, arbustos, epífitas e
lianas diminui com o aumento da latitude, de norte para sul.3
Apesar de ser considerado um dos 25 hotspots de biodiversi-
dade do planeta,4 a Mata Atlântica sofre crescente pressão antrópica
desde o início da colonização europeia. Passados pouco mais de cinco
séculos desde a chegada dos portugueses, a situação do bioma Mata
Atlântica é crítica: situado na área mais urbanizada e industrializada
do país, apenas entre 11% e 16% da sua vegetação “original” encon-
tram-se atualmente de pé, com uma maioria de fragmentos florestais
pequenos e isolados entre si.5 Além disso, a mudança climática em cur-
so parece representar uma nova ameaça para esses remanescentes.6
Registros fósseis permitem traçar uma imagem da floresta
Atlântica brasileira e das mudanças pelas quais passou ao longo do
tempo. A variação das condições climáticas regionais pode ser reco-
nhecida através de alterações da vegetação, mas também em escala
local as diferenças de temperatura e precipitação se revelam a cada
pesquisa baseada em registros de pólen. Em geral, padrões de varia-
ção menos intensa podem ser encontrados nas terras baixas, enquan-
to que alterações da vegetação refletidas pelas mudanças climáticas
podem variar muito nas serras em função da localização geográfica e
da altitude.7 Embora existam alguns paleorregistros no Nordeste do
Brasil, eles ainda são insuficientes para permitir uma reconstrução
ambiental precisa da parte norte do bioma Mata Atlântica. Portanto,
vamos discutir aqui a dinâmica pretérita da vegetação da Mata Atlân-
tica, nas regiões do Brasil onde vários estudos paleoambientais foram
realizados durante as últimas décadas. Esses estudos estão concentra-
dos nas terras altas e na planície costeira do Sudeste e do Sul do Brasil,
onde a Mata Atlântica ocorre mais extensamente (Figura 1).

Respostas à mudanças climáticas

Sudeste
Que a paisagem atual da Mata Atlântica é muito diferente da-
quela que existia antes da chegada dos europeus é algo bem conhecido.
Que as florestas que Pedro Álvares Cabral e seus homens avistaram, em
abril de 1500, não tinham estado ali desde sempre, no entanto, não se
38 Cabral & Bustamante (orgs.)
trata de algo tão disseminado; mas a verdade é que aquelas florestas
eram produtos de uma longa história geológica, além, evidentemente, das
transformações ocasionadas pelos habitantes nativos. Assim, nos estados
do Espírito Santo, de São Paulo e de Minas Gerais, onde hoje viceja uma
exuberante floresta perenifólia ou semidecídua, havia uma paisagem qua-
se sem árvores em um clima frio e seco durante o último período glacial.8
Pequenas áreas de floresta com araucária sobreviveram? perto de cursos
de água nas encostas mais baixas da Serra do Espinhaço, no leste de Mi-
nas Gerais, bem como em outras áreas do Sudeste do Brasil durante esse
período.9 Uma floresta subtropical com árvores do gênero Araucaria e Po-
docarpus também esteve presente nas serras do litoral do Estado de São
Paulo, sob condições frias e úmidas, ao longo do último período glacial.10
Algumas regiões mais interiores, como o oeste do Estado de Minas Gerais,
parecem ter experimentado períodos de condições climáticas úmidas du-
rante a época glacial.11
A região Sudeste do Brasil continua a ser caracterizada por
uma extensa área de vegetação aberta no Último Máximo Glacial
(UMG),12 que culminou há cerca de 21.000 anos. Nesse período, o cli-
ma era ainda mais frio e seco. A Mata Atlântica era, provavelmente,
limitada a estreitas áreas perto do litoral e não avançava entre as ca-
deias de montanhas da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira (esta-
dos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), embora um mosai-
co de diferentes tipos de cerrado e florestas de galeria ocorresse no
continente e existisse uma floresta com araucária em altitudes mais
elevadas nas serras do interior do Sudeste do Brasil.13
Após o UMG, que corresponde ao período glacial tardio, a ve-
getação campestre continuou a prevalecer no Morro de Itapeva (SP) e
na Serra da Bocaina (entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro), em-
bora ocorressem manchas de floresta nas altitudes menores, em condi-
ções climáticas frias e secas.14 Também durante o final do período glacial,
a Mata Atlântica começou a se desenvolver em altitudes menores no
Estado do Espírito Santo,15 atingindo até mesmo altitudes mais elevadas
na região serrana do Rio de Janeiro no final deste período,16 em razão de
mudanças do clima para condições mais úmidas e quentes.

Metamorfoses florestais 39
Figura 1 – Localização dos paleorregistros mencionados no texto para os estados de
Minas Gerais (MG), Espírito Santo (ES), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Paraná
(PR), Santa Catarina (SC) e Rio Grande do Sul (RS): 1 Catas Altas, 2 pântano Pau de
Fruta, 3 Salitre, 4 Lago do Pires e Lagoa Nova, 5 Lago Aleixo, 6 Serra do Caparaó, 7
GeoB 3229-2, 8 GeoB 3202-1, 9 Serra dos Órgãos, 10 Serra da Bocaina, 11 Morro de
Itapeva, 12 Botucatú, 13 Parque Estadual Serra do Mar – Núcleo Curucutu, 14 tur-
feira Jacareí, 15 Cratera de Colônia, 16 Serra dos Campos Gerais, 17 Serra do Araça-
tuba, 18 Serra da Boa Vista, 19 Serra do Rio do Rastro, 20 Morro da Igreja, 21 Volta
Velha, 22 Serra do Tabuleiro, 23 Parque Nacional Aparados da Serra, 24 Cambará do
Sul, 25 registro Fazenda do Pinto, 26 Alpes de São Francisco, 27 registro Rincão das
Cabritas, 28 brejo de Serra Velha, 29 Lagoa dos Patos.
Fonte cartográfica: Altimetria do Brasil [mapa]. Fonte de dados: IBGE e NASA.
Desenho: Murilo Raphael Dias Cardoso, com ligeiras modificações. (http://www.
terrasapiensgeo.com/portal/noticias/103-cartas-topografica).

Entre o final do período glacial e o início do Holoceno, que come-


çou cerca de 11.500 anos atrás, a floresta com araucária que ocorria na
parte ocidental do Estado de Minas Gerais em seguida desapareceu, por
um curto intervalo de tempo, e começou a se expandir novamente sob

40 Cabral & Bustamante (orgs.)


condições climáticas frias e úmidas.17 Pequenas populações de Araucaria
angustifolia também ocorriam na Serra dos Órgãos (RJ) durante o período
glacial tardio e o início do Holoceno, mas depois desapareceram.18
Embora as serras tenham permanecido cobertas pela vegetação
campestre durante o Holoceno inicial, a Mata Atlântica se desenvolveu
nas encostas orientais do Morro de Itapeva (SP) e da Serra da Bocaina
(entre os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro).19 O deslocamento dos
ecossistemas da Mata Atlântica para elevações maiores durante o início do
Holoceno é indicado por mudanças no clima para condições mais quentes
e úmidas na face oriental do Morro de Itapeva,20 enquanto o clima quente
porém seco prevaleceu na Serra da Bocaina.21 Na Serra do Caparaó, cadeia
de montanhas entre os estados do Espírito Santo e de Minas Gerais, um
aumento geral da temperatura e da umidade desde o início do Holoce-
no promoveu a gradual expansão da Mata Atlântica para altitudes mais
elevadas, no entanto, uma vegetação campestre continuou a dominar as
regiões mais altas desde então.22 Embora o desenvolvimento gradual da
Mata Atlântica na faixa costeira do Estado de São Paulo, sob condições
cada vez mais úmidas e quentes, tenha sido identificado no início do Holo-
ceno,23 condições mais secas se estabeleceram na costa do Estado de São
Paulo desde então até o Holoceno médio.24
Um clima úmido também foi reconhecido na região sul da
Serra do Espinhaço, Estado de Minas Gerais, na primeira metade do
Holoceno, enquanto as condições climáticas secas surgiram, na região,
de meados ao final do Holoceno.25 Por outro lado, após sua expansão
durante a fase final do período glacial, a floresta atlântica migrou para
baixo na Serra dos Órgãos, devido a condições mais secas no início do
Holoceno, as quais persistiram na região até o médio Holoceno.26 Um
clima mais quente e seco também surgiu na região central do Brasil,
onde a floresta com araucária foi progressivamente substituída pela
floresta estacional semidecidual no oeste do Estado de Minas Gerais
a partir do início do Holoceno.27 Uma tendência climática semelhante
perdurou no nordeste do Estado de Minas Gerais, onde a vegetação
de campo cerrado com floresta de galeria ao longo dos cursos de água
ocorreu desde o início até meados do Holoceno.28
Condições climáticas secas perduraram no Sudeste do Brasil
até meados do Holoceno, como indicam registros de pólen do nordes-
te do Estado de Minas Gerais29 e da Serra da Bocaina (estados de São
Paulo e do Rio de Janeiro)30. Grandes mudanças na vegetação, com
Metamorfoses florestais 41
o desenvolvimento da floresta estacional semidecidual no nordeste
do Estado de Minas Gerais,31 e a principal expansão da Mata Atlântica
para o continente no sudeste do Brasil32 ocorreram durante o final do
Holoceno, pois o clima tornou-se mais úmido. Por causa da presença
de floresta com araucária em altitudes maiores, no Sudeste do Brasil,33
as condições climáticas se mantiveram frias e úmidas nessas regiões
durante o final do Holoceno. Os últimos 1.000 anos foram o período
mais chuvoso, no Sudeste do Brasil.34
O único registro de floresta neotropical que cobre um ciclo gla-
cial/interglacial completo vem da cratera de Colônia, localizada na cida-
de de São Paulo, na fronteira da Serra do Mar, sistema de cadeia de mon-
tanhas paralelo à costa do sudeste do Brasil. O registro de Colônia revela
mudanças climáticas com variações de temperatura e precipitação que
levaram a alterações da vegetação durante os últimos 134.500 anos,
aproximadamente, em território do bioma Mata Atlântica, tal como tra-
çado atualmente.35 As fases de expansão e retração da Mata Atlântica
durante o último período interglacial e a última fase glacial foram con-
troladas principalmente pelas mudanças na insolação em um ciclo de
cerca de 20.000 anos, embora outros fatores climáticos, como os níveis
de umidade e a duração da estação seca, também influenciem a dinâmi-
ca da floresta nos trópicos meridionais. Durante o Holoceno, ou seja, o
período interglacial presente, a estabilidade dos ecossistemas florestais
tem sido afetada por mudanças bruscas de sazonalidade.36
Uma síntese de mudanças no balanço hídrico e na tempera-
tura mostradas em estudos paleoecológicos realizados em diferentes
locais no Sudeste do Brasil encontram-se resumidas nas figuras 2 e 3.

Figura 2 – Resumo da variabilidade do balanço hídrico e do impacto humano em


paleorregistros discutidos no texto, localizados no Sudeste do Brasil desde o fim do
UMG – Último Máximo Glacial.

42 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 3 – Resumo da variabilidade de temperatura e do impacto humano para os pale-
orregistros discutidos no texto, localizados no Sudeste do Brasil desde o fim do UMG.

Sul
A paisagem das montanhas do Sul do Brasil era formada por
uma extensa vegetação campestre antes e durante o Último Máximo
Glacial (UMG), refletindo as condições climáticas frias e secas em todo
o período glacial. Apenas pequenas populações de espécies de floresta
com araucária e floresta latifoliada sobreviveram durante esse período,
em refúgios em áreas protegidas em altitudes mais baixas e/ou nas úmi-
das encostas litorâneas da Serra Geral (cordilheira no Sul do Brasil) e da
Serra do Tabuleiro (cordilheira costeira isolada do Estado de Santa Cata-
rina).37 A proximidade da Serra do Tabuleiro do Oceano Atlântico pode
ter influenciado positivamente a migração para o sul de taxa da floresta
do norte devido às condições climáticas moderadas e mais úmidas do
litoral. Durante o último período glacial, o clima era frio e seco,38 mas
ainda mais seco e mais frio durante o UMG,39 no Sul do Brasil.
Após o UMG, uma paisagem aberta continuou a prevalecer
nas montanhas do Sul do Brasil, sugerindo períodos secos mais pro-
longados e condições climáticas frias na região a partir do fim do pe-
ríodo glacial até o início do Holoceno.40 Embora a vegetação campes-
tre tenha se mantido como ecossistema predominante na Serra Geral
(cordilheira no Sul do Brasil) e na parte superior da Serra do Tabuleiro
(cadeia de montanhas costeira no Estado de Santa Catarina), a mudan-
ça climática para condições mais quentes e úmidas favoreceu o de-
senvolvimento da floresta no início do Holoceno. O desenvolvimento
inicial dos ecossistemas florestais sobre as encostas da Serra Geral e da

Metamorfoses florestais 43
Serra do Tabuleiro foi promovido por taxas de umidade mais elevadas
a partir de então. Portanto, o desenvolvimento inicial da Mata Atlânti-
ca foi reconhecido planície costeira41 e serras litorâneas do Estado de
Santa Catarina, na Serra do Tabuleiro42 e na Serra da Boa Vista (parte
da Serra Geral),43 sob condições climáticas mais úmidas durante o final
do período glacial e o início do Holoceno. Essa mudança da vegetação,
que implica desenvolvimento/expansão da floresta, mas também re-
flete a manutenção de um mosaico de floresta e vegetação campestre
na Serra do Tabuleiro e na Serra da Boa Vista, pode ser devida a um au-
mento da precipitação na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno.
Mais ao sul, na planície litorânea e nos vales do Rio Grande do Sul, o
desenvolvimento inicial da Mata Atlântica está documentado no início
do Holoceno,44 e sua migração gradual de leste para oeste na encosta
inferior da Serra Geral a partir do início do Holoceno45. Um primeiro
deslocamento da Mata Atlântica das encostas mais baixas para altitu-
des mais elevadas da Serra Geral pode ter sido favorecido por condi-
ções mais quentes e úmidas após o período glacial tardio.46
Reconstruções ambientais mostram que a vegetação campes-
tre dominou a paisagem nos estados do Paraná e de Santa Catarina47 e
mais ao sul, na região norte do Rio Grande do Sul,48 sob condições climá-
ticas frias e secas durante o período glacial até meados do Holoceno. A
partir do Holoceno médio, o clima moderado e úmido favoreceu a gra-
dual propagação da floresta de menores a maiores elevações na Serra
Geral. Uma mudança significativa da paisagem, de extensiva vegetação
campestre para floresta, é observada desde meados do Holoceno em
todas as serras do Sul do Brasil. A emergência de condições climáticas
mais úmidas, devido à influência das monções mais fortes nas regiões
subtropicais, favoreceu a expansão contínua da Mata Atlântica para re-
giões elevadas, simultaneamente ao desenvolvimento da floresta com
araucária. Foi observado aumento dos níveis de umidade após o Holo-
ceno médio na região serrana do Rio Grande do Sul a partir dos regis-
tros de Cambará do Sul49 e de São Francisco de Paula,50 que evidenciam
a primeira expansão da floresta com araucária durante esse tempo. O
mesmo padrão foi observado mais ao norte e na baixada litorânea do Sul
do Brasil,51 nas serras de Santa Catarina52 e do Paraná,53 juntamente com
o desenvolvimento de uma densa floresta após a regressão marinha do
Holoceno médio nas planícies de Santa Catarina54.
44 Cabral & Bustamante (orgs.)
A substituição de campos por ecossistemas florestais – flores-
tas com araucárias e latifoliadas – perdurou durante o final do Holoceno,
nas montanhas do Sul do Brasil, como reflexo de condições cada vez mais
úmidas, com período seco anual curto ou inexistente. A Mata Atlântica
se expandiu para as faixas de maior elevação, enquanto a floresta com
araucária se espalhou progressivamente nos planaltos, formando mo-
saicos de vegetação campestre e florestal. Estudos localizados em cam-
pos de altitude do Sul do Brasil sugerem que o início da expansão da
floresta com araucária ocorreu durante o final do Holoceno na Serra do
Araçatuba55 e na Serra dos Campos Gerais,56 ambas no Estado do Paraná.
Mais ao sul, no Estado de Santa Catarina, a primeira expansão da flores-
ta com araucária foi observada na Serra da Boa Vista, na Serra do Rio do
Rastro57 e na Serra do Tabuleiro,58 também durante o final do Holoceno.
No Rio Grande do Sul, localizado mais ao sul de Santa Catarina, a expan-
são inicial da floresta com araucária também está documentada durante
o final do Holoceno em Cambará do Sul59 e em São Francisco de Paula60.
Todas as interpretações acima sugerem que a floresta com araucária se
expandiu a partir de refúgios de florestas de galeria ao longo dos rios e
de outras áreas úmidas após o Holoceno médio.
Condições climáticas mais úmidas permaneceram durante
os últimos 1.000 anos com um aumento na precipitação que coincide
com a máxima expansão da floresta durante esse tempo. A floresta
com araucária se expandiu cada vez mais desde o último milênio, le-
vando a uma mudança da vegetação na parte superior da Serra Geral,
perto de suas encostas, que se tornou uma zona de transição entre a
floresta latifoliada e a floresta com araucária desde então. A floresta
com araucária se tornou o principal tipo de vegetação nos planaltos
formando mosaicos de vegetação campestre e florestal. Uma marca-
da expansão da floresta com araucária é relatada para cerca de 1.500
anos atrás, no Estado do Paraná,61 e desde os últimos 1.000 anos para
as serras dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul62. As mu-
danças no balanço hídrico e na temperatura registradas por estudos
paleoecológicos para diferentes locais no Sul do Brasil estão resumidas
nas figuras 4 e 5.

Metamorfoses florestais 45
Figura 4 – Resumo da variabilidade do balanço hídrico e do impacto humano para os
paleorregistros discutidos no texto, localizados no Sul do Brasil desde o fim do UMG.

Figura 5 – Resumo da variabilidade da temperatura e do impacto humano para os


paleorregistros discutidos no texto, localizados no Sul do Brasil desde o fim do UMG.

Respostas às alterações humanas

Interpretações de análise de carvão vegetal de diferentes re-


gistros paleoambientais indicam alteração antrópica, no bioma Mata
Atlântica, durante os últimos milênios. A reconstituição da história do
fogo indica uma presença de fogos relacionados à ação humana nas
serras do Sul e do Sudeste do final do Pleistoceno até o Holoceno mé-
dio. Fogos ocorreram com frequência no Sudeste do Brasil durante o
último período glacial, conforme sugerem registros de carvão vegetal
das serras de São Paulo (Morro de Itapeva, Botucatu, Serra da Man-
tiqueira), Rio de Janeiro (Serra da Bocaina) e Minas Gerais (Serra do
Espinhaço).63 Houve eventos de fogo durante todo o Holoceno, com a
maior frequência observada no início e em meados do Holoceno nas
46 Cabral & Bustamante (orgs.)
regiões mais altas dos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais.64 Há
evidências de uma ocupação humana anterior em Minas Gerais, na re-
gião central do Brasil, no final do período glacial tardio.65 A frequência
de fogos também foi alta durante o início do Holoceno nas terras altas
do Rio de Janeiro e posteriormente diminuiu.66
Maiores concentrações de partículas carbonizadas a partir
do final do período glacial tardio até meados do Holoceno sugerem
que fogos antropogênicos eram muito comuns na Serra Geral, no Rio
Grande do Sul.67 Eles são observados no início do Holoceno no Estado
do Paraná,68 bem como no Estado de Santa Catarina69 e, depois de
7.500 anos atrás, no Rio Grande do Sul,70 sugerindo uma ocupação
humana inicial das serras do Sul do Brasil em diferentes períodos.
Na verdade, as tradições Umbu e Humaitá ocuparam o Sul do Brasil
há cerca de 8.000 anos.71 Fogos pré-históricos continuaram comuns
durante o final do Holoceno nas terras altas do Sul do Brasil, quando
o clima se tornou mais úmido.72 A paisagem em forma de mosaico de
vegetação campestre e florestal nos planaltos do Sul do Brasil esteve
sob influência humana, primeiramente por culturas pré-colombianas
que utilizavam o método de corte e queima, e em seguida, a partir
da chegada dos europeus. No entanto, a redução de fogo em 1500
AD (ou 450 anos AP) nas Américas tropicais é da mesma época do
colapso da população indígena que se seguiu à conquista europeia.73

Perspectivas futuras: alterações climáticas e expansão florestal

A Mata Atlântica se estende de norte a sul e de leste a oeste,


ou seja, a partir da planície costeira até as encostas da Serra Geral (cor-
dilheira do Sul do Brasil) e da Serra do Tabuleiro (cadeia de montanhas
do Estado de Santa Catarina). Maiores populações de espécies típicas
de floresta com araucária se distribuíram mais ao norte do que hoje,
devido a temperaturas mais baixas e estação seca mais curta nessas áre-
as. A presença de numerosas pequenas populações representadas por
árvores dispersas em refúgios regionais durante condições climáticas
mais secas permitiu a expansão da floresta com araucária. Com efeito,
há dados suficientes para sugerir que uma marcada expansão da floresta
com araucária ocorreu após uma melhoria do clima, com aumento das

Metamorfoses florestais 47
chuvas e sem longos períodos de seca nas serras do Sul do Brasil.74 A
distribuição das chuvas parece ser o fator determinante para limitar a
expansão da floresta com araucária nos planaltos do Sul do Brasil.75
Considerando um cenário futuro de aquecimento global, es-
pécies florestais atlânticas podem provavelmente reduzir sua área de
ocorrência e se deslocar para regiões mais ao sul.76 Registros de pólen
da Serra Geral e da Serra do Tabuleiro sugerem uma substituição con-
tínua de floresta com araucária pela Mata Atlântica nos planaltos do
Sul do Brasil, na hipótese de condições mais quentes do que hoje em
dia.77 Hoje, na verdade, espécies da Mata Atlântica podem não supor-
tar a geada frequente serras durante o inverno. Assim, o clima atual
ainda é muito frio nas montanhas do Sul do Brasil para essas espécies
tropicais. Por outro lado, um aquecimento global pode induzir uma
mudança rápida na vegetação, com a expansão do ecossistema Mata
Atlântica nos planaltos e a supressão dos mosaicos de campos e flores-
tas de araucária. O mesmo padrão pode ocorrer nas outras cadeias de
montanhas do Sudeste do Brasil, onde hoje uma vegetação campes-
tre – campos de altitude – ainda prevalece. Nesse caso, a vegetação
aberta será suprimida pela migração e expansão da Mata Atlântica em
direção às maiores elevações.78 Se os períodos de seca prolongada se
tornarem mais frequentes no Sul do Brasil devido à mudança global,
a vegetação de floresta com araucária vai sofrer déficit hídrico, pois
requer altas taxas de precipitação para sobreviver. Períodos mais lon-
gos de seca também vão dificultar o desenvolvimento e a expansão da
Mata Atlântica com suas espécies tropicais adaptadas à alta umidade e
dela dependentes. Assim, mudanças climáticas futuras vão desempe-
nhar um papel crucial na dinâmica de vegetação e composição florísti-
ca das florestas do século XXI no Sul e no Sudeste do Brasil. A contínua
mudança climática observada é reforçada pelas atividades humanas
que incluem o intenso desmatamento que reduziu a Mata Atlântica a
pequenos fragmentos que impedem as fases de expansão e regressão
natural que caracterizaram a dinâmica da Mata Atlântica brasileira du-
rante os últimos 100.000 anos.79
_____________
1  BACKES, Paulo, IRGANG, Bruno. Mata Atlântica: As Árvores e a Paisagem. Porto
Alegre: Editora Paisagem do Sul, 2004.
2  HUECK, Kurt. „Distribuição e habitat natural do Pinheiro do Paraná (Araucaria
angustifolia)“, Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de
48 Cabral & Bustamante (orgs.)
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9  BEHLING, Hermann, ARZ, Helge W., PÄTZOLD, Jürgen, WEFER, Gerold. „Late
Quaternary vegetational and climate dynamics in southeastern Brazil, inferences from

Metamorfoses florestais 49
marine cores GeoB 3229-2 and GeoB 3202-1“, Palaeogeography, Palaeoclimatology,
Palaeoecology vol.179, 2002, pp. 227-243; BEHLING, Hermann, LICHTE, Martin.
„Evidence of dry and cold climatic conditions at glacial times in tropical southeastern
Brazil“, Quaternary Research vol.48, 1997, pp. 348-358.
10  PESSENDA, Luiz C.R., DE OLIVEIRA, Paulo E., MOFATTO, Milene, MEDEIROS,
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Pierre, BRAGA, Pedro I.S., SOUBIÈS, François, FOURNIER, Marc, MARTIN, Louis,
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Palaeoecology vol.123, 1996, pp. 239-257.
12  BEHLING, 2002, op. cit.
13  BEHLING, 1997, op. cit.
14  BEHLING, 1997, op. cit.; BEHLING, Hermann. “Late Quaternary vegetation, climate
and fire history from the tropical mountain region of Morro de Itapeva, SE Brazil”,
Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology vol.129, 1997, pp. 407-422.
15  BEHLING et al., 2002, op. cit.
16  BEHLING, Hermann, SAFFORD, Hugh D. „Late-glacial and Holocene vegetation,
climate and fire dynamics in the Serra dos Órgãos, Rio de Janeiro State, southeastern
Brazil“, Global Change Biology vol.16, 2010, pp. 1661-1671.
17  LEDRU, 1993, op. cit.
18  BEHLING & SAFFORD 2010, op. cit.
19  BEHLING, 1997, op. cit.; BEHLING et al., 2007, op. cit.
20  BEHLING 1997, op. cit.;
21  BEHLING et al., 2007, op. cit.
22  VERÍSSIMO, Nuno P., SAFFORD, Hugh D., BEHLING, Hermann. „Holocene
vegetation and fire history of the Serra do Caparaó, SE Brazil“, The Holocene vol.22,
no.11, 2012, pp. 1243-1250.
23  PESSENDA et al., 2009, op. cit.
24  GARCIA, Maria J., DE OLIVEIRA, Paulo E., SIQUEIRA, Eliane de, FERNANDES,
Rosana S. „A Holocene vegetational and climatic record from the Atlantic rainforest
belt of coastal State of São Paulo, SE Brazil“, Review of Palaeobotany and Palynology
vol.131, 2004, pp. 181-199.
25  HORÁK-TERRA, Ingrid, CORTIZAS, Antonio M., LUZ, Cynthia F.P.da, LÓPEZ,
Pedro R., SILVA, Alexandre C., VIDAL-TORRADO, Pablo. „Holocene climate change
in central-eastern Brazil reconstructed using pollen and geochemical records of Pau
de Fruta mire (Serra do Espinhaço Meridional, Minas Gerais)“, Palaeogeography,
Palaeoclimatology, Palaeoecology vol.437, 2015, pp. 117-131.

50 Cabral & Bustamante (orgs.)


26  BEHLING & SAFFORD 2010, op. cit.
27  LEDRU, 1993, op. cit.; LEDRU et al., 1996, op. cit.
28  BEHLING, Hermann. „A high resolution Holocene pollen record from Lago do
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1995, pp. 253-268; BEHLING, Hermann. „Late glacial and Holocene vegetation,
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sediments of Lago Aleixo“, Journal of Paleolimnology vol.44, 2010, pp. 265-277.
29  BEHLING, 2003, op. cit.; BEHLING 1995, op. cit.
30  LEDRU et al., 1996, op. cit.
31  BEHLING, 1995 e 2003, op. cit.
32  BEHLING & SAFFORD, 2010, op. cit.
33  BEHLING, 1997, op. cit.; GARCIA et al., 2004, op. cit.
34  BEHLING, 1997, op. cit.; BEHLING & SAFFORD, 2010, op. cit.; BEHLING, 2003, op.
cit; ENTERS et al., 2010, op. cit.
35  LEDRU, Marie-Pierre, MOURGUIART, Philippe, RICCOMINI, Claudio. „Related
changes in biodiversity, insolation and climate in the Atlantic rainforest since the last
interglacial“, Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology vol.271, 2009, pp.
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36  LEDRU et al., 2009, op. cit.; LEDRU, Marie-Pierre, ROUSSEAU, Denis-Didier, CRUZ,
Francisco W., RICCOMINI, Claudio, KARMANN, Ivo, MARTIN, Louis. „Paleoclimate
changes during the last 100,000 yr from a record in the Brazilian Atlantic rainforest
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38  BEHLING, 1998, op. cit.; LEAL Márcia G., LORSCHEITTER, Maria L. „Plant
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39  BEHLING et al., 2004, op. cit.; JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013, op. cit.
40  BEHLING et al., 2004, op. cit.; BEHLING, Hermann “Investigations into the Late
Pleistocene and Holocene history of vegetation and climate in Santa Catarina (S
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Brazil)”, Vegetation History and Archaeobotany vol.4, 1995, pp. 127-152; JESKE-
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41  BEHLING, Hermann, NEGRELLE, Raquel R.B. „Tropical rain forest and climate
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42  JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013.
43  BEHLING, 1995 e 1998, op. cit.
44  LORSCHEITTER Maria L. „Contribution to the Holocene history of Atlantic rain
forest in the Rio Grande do Sul state, southern Brazil“, Revista del Museo Argentino
de Ciencias Naturales vol.5, 2003, pp. 261-271.
45  LEAL & LORSCHEITTER 2007
46  LEONHARDT & LORSCHEITTER 2010, op. cit.; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING,
2012, op. cit.
47  BEHLING, 1995, 1997, 1998 e 2002, op. cit.
48  BEHLING et al., 2004; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit.; ROTH &
LORSCHEITTER, 1993, op. cit.; BEHLING, Hermann, BAUERMANN, Soraia G., NEVES,
Paulo C.P. “Holocene environmental changes in the São Francisco de Paula region,
southern Brazil”, Journal of South American Earth Sciences vol.14, 2001, pp. 631-639.
49  BEHLING et al., 2004.
50  LEONHARDT & LORSCHEITTER 2010; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012;
BEHLING et al., 2001, op. cit.
51  CORDEIRO Suzane H., LORSCHEITTER Maria L. „Palynology of Lagoa dos Patos
sediments, Rio Grande do Sul, Brazil“, Journal of Paleolimnology vol.10, 1994, pp.
35-42.
52  BEHLING, 1995, op. cit.
53  BEHLING 1997 e 2007, op. cit.
54  BEHLING & NEGRELLE, 2001, op. cit.
55  BEHLING, 2007, op. cit.
56  BEHLING, 1997, op. cit.
57  BEHLING, 1995, op. cit.
58  JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013, op. cit.
59  BEHLING et al., 2004, op. cit.
60  LEONHARDT & LORSCHEITTER, 2010, op. cit.; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING,
2012, op. cit.
61  BEHLING 1997 e 2007, op. cit.
62  BEHLING, 1995, op. cit.; BEHLING et al., 2001, op. cit.; BEHLING et al., 2004, op.

52 Cabral & Bustamante (orgs.)


cit.; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit
63  BEHLING, 1997, op. cit.; BEHLING et al., 1998, op. cit.; BEHLING et al., 2007,
op. cit.; BEHLING, Hermann, LICHTE, Martin. “Evidence of dry and cold climatic
conditions at glacial times in tropical southeastern Brazil”, Quaternary Research
vol.48, 1997, pp. 348-358.
64  BEHLING, 1995, op. cit; VERISSIMO et al., 2012, op. cit.
65  PROUS, André, FOGAÇA, Emilio. „Archaeology of the Pleistocene-Holocene
boundary in Brazil“, Quaternary International vol.53/54, 1999, pp. 21-41.
66  BEHLING & SAFFORD, 2010, op. cit.
67  JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit.
68  BEHLING, 1997, op. cit.
69  JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013, op. cit.
70  BEHLING et al., 2004, op. cit.
71  PROUS & FOGAÇA, 1999, op. cit.
72  BEHLING, 1997 e 2007, op. cit.; JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013, op. cit.
73  NEVLE, Richard J., BIRD, Dennis K. „Effects of syn-pandemic fire reduction
and reforestation in the tropical Americas on atmospheric CO2 during European
conquest“, Palaeogeography, Palaeoclimatology Palaeoecology vol.264, 2008, pp.
25-38.
74  BEHLING et al., 2004; JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit.; JESKE-
PIERUSCHKA et al., 2013, op. cit.
75  JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit.
76  COLOMBO & JOLY, 2010, op. cit.
77  JESKE-PIERUSCHKA & BEHLING, 2012, op. cit.; JESKE-PIERUSCHKA et al., 2013,
op. cit.
78  BEHLING & SAFFORD, 2010, op. cit.
79  TABARELLI, Marcelo, AGUIAR, Antonio V., RIBEIRO, Milton C., METZGER, Jean
P., PERES, Carlos A. „Prospects for biodiversity conservation in the Atlantic Forest:
Lessons from aging human-modified landscapes“, Biological Conservation vol.143,
2010, pp. 2328-2340.

Metamorfoses florestais 53
Da província ao bioma:
Representações da Mata Atlântica*

Leonardo Castro
Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz

Sob a denominação “Mata Atlântica” – ou, ainda, “Bioma Mata


Atlântica” – compreende-se hoje um vasto conjunto de florestas e for-
mações associadas que teria coberto cerca de 1,5 milhão de quilômetros
quadrados, em 1500. Reduzido a fragmentos esparsos, alguns pequenos
demais para aparecerem em certas escalas de mapeamento, esse domí-
nio de vegetação restringe-se, atualmente, a não mais de 240.000 km2,
entremeado em um território no qual vivem, aproximadamente, dois
terços da população brasileira.1 A história da devastação da Mata Atlân-
tica confunde-se com a história da colonização europeia no continente
e, assim, com a própria história do Brasil. Este foi o tema de um estu-
do clássico, publicado há vinte anos pelo brasilianista norte-americano
Warren Dean, A Ferro e Fogo: a História e a Devastação da Mata Atlân-
tica.2 Não trataremos, aqui, da Mata Atlântica como realidade ecológica
concreta ou do processo histórico de sua destruição, mas sim da ideia ou
conceito de “Mata Atlântica”, sua gênese e transformações. Ainda que
indissociável da Mata Atlântica “objetiva”, ela constitui uma história sin-
gular de representações sobre o espaço, o território e a natureza, produ-
zidas no campo das ciências naturais e das geociências, mas também a
partir das práticas e discursos conservacionistas e nos campos jurídico e
político, na forma das tentativas de regulação da utilização dos “recursos
naturais” e da política ambiental na esfera do Estado.
Estas histórias são imbricadas e dissociá-las não deixa de ser um
artifício da compreensão. As representações e conceitos sobre estas flo-
restas tiveram necessariamente que pagar tributo ao fatum de sua des-
truição e substituição por outras formas de vida. O estado de fragmenta-
ção da Mata Atlântica obscurece o reconhecimento de sua possível uni-
dade geográfica e, assim, o próprio sentido de sua unidade “conceitual”.
O que é Mata Atlântica? Não é uma questão óbvia nem simples. O livro
de Dean, buscando reescrever a história econômica e sociocultural do
54 Cabral & Bustamante (orgs.)
Brasil do ponto de vista da floresta, em momento algum aborda o pro-
blema da conceituação de mata atlântica de um ponto de vista histórico,
isto é, o problema da construção de uma representação simbólica que
reuniu sob esta categoria uma determinada porção de mundo “natural”.
Dean mostra grande apuro literário ao descrever as paisagens florestais
e detém-se sobre os processos de longuíssima duração que explicariam
a formação da floresta – a história geológica do continente, os fatores
geomorfológicos, edáficos, climáticos e ecológicos que teriam dado às
matas sua conformação “natural” antes da chegada da “primeira leva
de invasores humanos”. Entretanto, Dean é extremamente econômico
quanto à conceituação formal de “mata atlântica”:

Os ecossistemas são delineados pela própria natureza; portan-


to, são cobaias naturais - ilhas, lagos ou desertos, por exemplo.
A Mata Atlântica é uma cobaia dessa ordem. Graças a seu tama-
nho avantajado, sua complexidade e variabilidade, os biogeó-
grafos e ecologistas tatearam em busca de designações comuns
para seus componentes, mas seu caráter distinto é indiscutível.3

Considere-se o contraexemplo da Amazônia. Por uma série de


motivos de ordem histórica cujo exame não cabe aqui, os caminhos e
fronteiras da colonização foram desviados da imensa massa florestal
constituída pela bacia do rio Amazonas e as florestas da região chega-
ram ao século XX relativamente preservadas. Mesmo hoje, restam entre
80 e 85 % de áreas florestadas. Embora um acelerado processo de antro-
pização tenha se iniciado no último terço do século passado, a Amazônia
é ainda um continente verde. A Amazônia e a Mata Atlântica são como
o negativo uma da outra: de um lado, pequenas manchas de vegetação
nativa em meio a uma área extremamente antropizada; do outro cla-
reiras que, alimentadas pelas frentes neocoloniais de ocupação, expan-
dem-se em uma região ainda predominantemente florestada.
Como conceituar Mata Atlântica? A Lei Federal nº 11.428, de
22 de dezembro de 20064, mais conhecida como Lei da Mata Atlântica,
“dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma
Mata Atlântica”, e define a sua abrangência geográfica, segundo a ta-
xonomia empregada no Mapa de Vegetação do Brasil do Instituto Bra-
sileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O artigo segundo da lei define
o “bioma Mata Atlântica” na forma seguinte:

Metamorfoses florestais 55
Para os efeitos desta Lei, consideram-se integrantes do Bio-
ma Mata Atlântica as seguintes formações florestais nativas
e ecossistemas associados, com as respectivas delimitações
estabelecidas em mapa do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística - IBGE, conforme regulamento: Floresta Ombró-
fila Densa; Floresta Ombrófila Mista, também denominada
de Mata de Araucárias; Floresta Ombrófila Aberta; Floresta
Estacional Semidecidual; e Floresta Estacional Decidual, bem
como os manguezais, as vegetações de restingas, campos de
altitude, brejos interioranos e encraves florestais do Nordeste.

Entretanto, esta definição é o ponto de chegada de uma his-


tória mais complexa. Voltemos, por um instante, ao exemplo da Ama-
zônia. É tentador considerar que a forma unitária com que fácil e co-
mumente se visualiza a Amazônia deve-se ao fato de essas florestas
terem alcançado os dias correntes em estado de relativa integridade.
No entanto, como argumentou Neide Gondim – em um livro que leva
o sugestivo título “A invenção da Amazônia” – essa unidade resulta
também de um emaranhado complexo de representações, formado
por relatos e crônicas de viajantes, exploradores, naturalistas e litera-
tos que vem se acumulando desde a famosa expedição de Orellana e
Carvajal, no século XVI.5
Hoje sabemos que, assim como aquilo que chamamos Mata
Atlântica, a Amazônia é um mosaico formado por diferentes fisiono-
mias vegetacionais. O primeiro autor a ressaltar a diversidade de fi-
sionomias na região da Amazônia foi, possivelmente, Kurt Hueck, em
seu mapa de florestas da América Latina, publicado originalmente em
1957.6 Os levantamentos aerofotogramétricos e radiométricos realiza-
dos, na década de 1970, pelo projeto RADAM – que está na origem do
Mapa de Vegetação do IBGE, acima mencionado – confirmariam que
a Amazônia, em vez de um vasto conjunto homogêneo, é composta
por diferentes fisionomias vegetacionais, com significativas áreas de
campos e savanas em meio às florestas ombrófilas que dominam a
região. A unidade amazônica é também uma construção cultural, com-
plexa, plural e polissêmica. De Eldorado guarnecido pelas terríveis
amazonas a Eldorado da borracha, esta unidade advém, em parte, de
sua condição de “anti-mundo”, conforme a expressão de Gondim – isto
é, do desconhecimento sobre o que ela realmente é e não da positivi-
dade de sua existência “real”.7
56 Cabral & Bustamante (orgs.)
Por outro lado, há fortes evidências de que tenha havido na
Amazônia pré-colombiana uma grande população humana e que a re-
gião amazônica tenha sido no passado tão populosa e sócio-cultural-
mente diversa quanto outras florestas tropicais ao redor do mundo. A
visão da Amazônia como natureza “intocada”, pouco impactada pelo
antropismo até o século XX, é um legado das descrições do século XIX,
quando o contingente humano na região havia sido já bastante reduzi-
do, provavelmente em razão do contato com os europeus, sem dúvida
menos intenso do que o verificado na região da Mata Atlântica.8
Pode-se argumentar, contudo, que a “invenção geográfica” da
Amazônia começa, na virada do século XVIII ao XIX, com os escritos do
naturalista alemão Alexander von Humboldt, não por acaso celebrado
como “pai” da moderna geografia.9 Humboldt é o criador do termo
“hiléia” (derivação de hyle, “madeira” em grego), até hoje emprega-
do em referência à Amazônia. Algumas décadas depois, na esteira de
Humboldt, Carl Friedrich Philipp von Martius viria a chamar “Naiade”
a grande província botânica da floresta equatorial brasileira. Data de
meados do século XIX, mais precisamente de 1858, o primeiro mapa
fitogeográfico do Brasil10, que apresenta pela primeira vez uma visão
“de conjunto” das formações vegetacionais no território “nacional”, no
qual Martius distinguiu cinco “províncias” florísticas, dentre elas as flo-
restas litorâneas “orientais” e as florestas amazônicas. O celebrado sis-
tema das cinco províncias de Martius é impressionantemente próximo
daquele utilizado no Mapa dos Biomas do Brasil, publicado pelo IBGE,
em 2004. Há uma correspondência evidente entre as províncias que
Martius apresenta sob denominações extraídas da mitologia grega11
e os atuais biomas, embora a distribuição geográfica seja significati-
vamente distinta: Naiade, ninfa dos rios e fontes, para a Amazônia;
Hamadríade, ninfa dos bosques que morre e renasce com as árvores
que lhe servem de abrigo, para a Caatinga; Dríade, outra ninfa dos bos-
ques, para a Mata Atlântica; Oréade, ninfa das montanhas, para o Cer-
rado; e Napéia, ninfa dos bosques e campos, para os campos e matas
do sul. Martius não individualizou o Pantanal mato-grossense, mes-
mo porque os conhecimentos à época não o permitiriam. Além disso,
ele incluiu o conjunto das florestas da região sul, dentre elas as ma-
tas mistas com araucária, na província das Napéias, que englobaria os
bosques subtropicais e campos do sul brasileiro. Segundo a divisão do
Metamorfoses florestais 57
Mapa dos Biomas, os campos incluídos por Martius, nesta província,
corresponderiam ao bioma “Pampa”, enquanto as florestas da Região
Sul pertenceriam ao bioma Mata Atlântica.
A convergência entre esses esquemas de classificação, sepa-
rados no tempo por um século e meio, não é fortuita, embora não
se deva exclusivamente ao grau de “realismo” da descrição. Depois
de Martius, diversos autores, principalmente geógrafos profissionais,
retrataram a cobertura vegetal “original” do Brasil utilizando sistemas
de classificação semelhantes ao de Martius. Diversas representações
cartográficas da cobertura “original” de matas e campos, no Brasil, ela-
boradas por botânicos e geógrafos, no decorrer dos séculos XIX e XX,
assim como descrições e inventários da flora e da fauna realizados nes-
se período, constituíram uma “memória social” das florestas costeiras,
que teriam existido em partes significativas do território brasileiro.

A tradição geográfica

Essas construções técnico-científicas não são de forma


alguma independentes do ambiente sócio-histórico mais amplo. A Flo-
ra Brasiliensis, a grande realização científica de Martius – que excedeu,
inclusive, o período de vida do botânico alemão, e da qual faz parte
o mapa das mencionadas cinco províncias – é o projeto de uma flora
“nacional”, construída com patrocínio do governo imperial. Isto não
era novidade no período: diversas “floras nacionais” haviam sido des-
critas, na Europa, ainda no século XVIII, sob a proteção das Cortes e do
Estado. No caso de Martius, esse patrocínio significou auxílio financei-
ro direto do imperador e o sucesso do empreendimento deve muito ao
envolvimento de segmentos importantes da elite imperial, a exemplo
dos sócios do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.12
Há toda uma linhagem de representações geográficas que
descende de Martius. Elas produziram retratos de conjunto da “natu-
reza nacional” sob a forma de mapas de vegetação. De forma geral, os
autores posteriores a Martius não apenas usaram uma terminologia
distinta – e, em certo sentido, mais “técnica” –, como também ten-
deram a apresentar divisões geográficas mais complexas. No entanto,
não é difícil traçar a genealogia intelectual que leva até Martius. Um

58 Cabral & Bustamante (orgs.)


autor bastante influente na fitogeografia brasileira, no século XX, Al-
berto José de Sampaio, botânico do Museu Nacional, irá construir uma
classificação geobotânica bastante próxima daquela de Martius, com
nomenclatura distinta e com alguns poucos acréscimos.13 Sampaio in-
troduz uma “Zona dos cocais ou do babaçu”, correspondendo a áreas
de babaçuais principalmente no Maranhão, e uma “Zona marítima”,
correspondendo à vegetação das ilhas oceânicas e costeiras e à ve-
getação litorânea, incluindo algas, sargaços e o fitoplâncton. A “Mata
Atlântica”, ou, pelo menos, parte dela, está presente sob a denomina-
ção “Zona das Florestas Orientais (ou das Matas Costeiras)”.
O trabalho de Sampaio, que não pode ser resumido à prática
científica em um sentido estrito,14 será particularmente influente en-
tre os geógrafos profissionais, que viriam a produzir diversos mapas
de vegetação, de intenção mormente didática, nos sucessivos Atlas do
Brasil publicados pelo Conselho Nacional de Geografia e em outras pu-
blicações, nem sempre utilizando critérios de classificação claros. Con-
solidou-se uma tendência a efetuar fusões de mapas e classificações,
sem muita clareza a propósito dos critérios adotados: em 1964, Dora
de Amarante Romariz publicou, em uma grande coletânea organizada
por Aroldo de Azevedo, um mapa das “formações vegetais” do Brasil
que, segundo a própria autora, “foi confeccionado à base de elemen-
tos existentes no Conselho Nacional de Geografia em 1956.”15
A maior parte desses mapas de “vegetação” ou “formações
vegetais” do Brasil, nesse período, tem pouco valor científico. Não obs-
tante, eles podem ter contribuído para a consolidação de um imaginá-
rio geográfico nacional acerca das “regiões naturais”, principalmente
através de sua utilização didática. Estas representações, porém, não se
restringem aos mapas de vegetação. Em 1942 seria instituída a divisão
do país em grandes regiões, de acordo com uma proposta apresen-
tada por Fábio Macedo Soares Guimarães ao Conselho Nacional de
Geografia. A proposta de Guimarães – que avalia em seu estudo diver-
sos critérios de divisão do território – acaba por referendar uma divisão
em “regiões naturais” apresentada em um livro didático de geografia
do Brasil publicado em 1913, de autoria de Delgado de Carvalho.16 No
período do Estado Novo, com a criação do Conselho Nacional de Geo-
grafia, esta disciplina torna-se um instrumento privilegiado de veicula-
ção de “ideologias territoriais”, conformes aos interesses políticos do
Metamorfoses florestais 59
governo central. A geografia profissional do período, constituindo-se
em veiculadora autorizada da ideologia de Estado, desenvolveu um
discurso sobre as “regiões” e seus “tipos e aspectos”, com forte acen-
to “naturalizante”, que realçava as características físicas do ambiente
bem como alguns elementos culturais “típicos”, em detrimento da di-
visão político-administrativa.17
Qual teria sido o alcance e a “eficácia simbólica” desses discursos
e representações “de Estado”?18 Se, por um lado, não se deve supor que
haja estrita continuidade entre essas construções e a concepção atual dos
“biomas” – pelo contrário, como será visto adiante, a legitimidade científi-
ca das formulações mais recentes reside, em grande parte, na ruptura com
a tradição estabelecida pelo Conselho Nacional de Geografia e com os ma-
pas de vegetação que se seguiram –, não parece totalmente infundado
supor que as representações das «regiões naturais» tenham contribuído
para a “recepção” do esquema geográfico dos biomas. São necessários
alguns cuidados e esclarecimentos aqui. Não se está sugerindo que os bio-
mas não possuam fundamentos científicos ou que sejam uma pura cons-
trução cultural sem relação com a realidade ecológica material. Recente-
mente, José Augusto Pádua argumentou que o uso de “biomas”, no mapa
de 2004, mesmo sendo questionável de um ponto de vista estritamente
técnico, possuiria “uma série de vantagens em termos de comunicação,
educação e política de desenvolvimento sustentável” exatamente por sua
“capacidade de agregação.”19 Embora isto seja difícil de demonstrar, a efi-
cácia dos biomas pode residir também em sua familiaridade com formas
mais antigas e arraigadas de representação, reforçada pela utilização de
terminologia “regionalista” (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pampa, Panta-
nal), em contraposição ao “universalismo” do Mapa de Vegetação.

Matas e Campos

Afinal, qual é a abrangência geográfica da Mata Atlântica?


Desde Martius, as florestas das cordilheiras costeiras são representa-
das como uma unidade geoecológica distinta, perspectiva mantida pe-
los fitogeógrafos posteriores, ainda que com diferentes nomenclatu-
ras. Com efeito, há uma relativa concentração de remanescentes que
chegaram ao século XX, na Serra do Mar, por exemplo, região de escar-

60 Cabral & Bustamante (orgs.)


pas costeiras entre os estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina, em
geral muito íngremes para o aproveitamento agrícola ou pastoril, em
grande parte protegidas por Unidades de Conservação. Também sub-
sistem fragmentos em algumas áreas onde o desflorestamento maciço
chegou tardiamente, como o litoral sul da Bahia e o norte do Espírito
Santo. Esses fragmentos sobreviventes ajudam a corroborar a suposta
unidade geoecológica destas formações.
No mapa de Martius, a localização das Dríades assinala ex-
clusivamente as montanhas da faixa costeira.20 A mesma divisão está
claramente presente em um texto anterior, no qual ele descreve a re-
ferida província como uma “região florestal montana”.21 As áreas que,
no mapa do IBGE, correspondem às florestas estacionais interioranas,
deciduais e semideciduais, são incorporadas por Martius às “Oreades”,
região “montano-campestre”. Além disso, as florestas da bacia do rio
Paraná, assim como as outras matas da atual grande região sul, são
alocadas na província das «Napéias», domínio extra-tropical.22
Sem dúvida, a diferença mais importante entre o esquema
de Martius e os atuais biomas é, justamente, a delimitação geográfica
das Dríades, que corresponderiam ao bioma Mata Atlântica. O bioma
ocupa um espaço muito maior, avançando sobre áreas que, no mapa
de Martius, são consideradas “campestres”, parte da província das
Oreades; estende-se também às áreas florestais na grande região sul,
inclusive às florestas de araucárias que, para Martius, seriam parte da
flora “extra-tropical” das Napéias. Em discurso à Academia de Ciências
de Munique, em 1824, sobre a “fisionomia do reino vegetal no Bra-
sil”, Martius afirmou que dois terços de todo o território brasileiro se-
ria coberto por “campos”. Nisto ele levava em consideração o sentido
dado ao termo pelos nativos brasileiros, que usariam a expressão para
designar “todas as regiões cobertas de vegetação que não formam
propriamente florestas.”23 Com efeito, a província das Oreades, região
“montano-campestre”, domina o mapa de 1858.
Mais tarde, Warren Dean viria a afirmar que Martius subesti-
mara a extensão de florestas em razão da intensa devastação ocorrida
no planalto de Minas Gerais e ao norte de São Paulo, por ocasião da
abertura das minas.24 Alberto Sampaio apresentará um ponto de vista
próximo ao de Martius, mais de cem anos depois do discurso proferido
em Munique: “Na flora brasileira, como aliás na América do Sul, do-
Metamorfoses florestais 61
mina a vegetação campestre, a qual se apresenta tanto na flora ama-
zônica, como em todas as zonas da flora geral”25. A fitogeografia pra-
ticada no Conselho Nacional de Geografia e pelos geógrafos em geral,
inclusive em trabalhos de cunho didático, seguirá a tradição de Martius
e Sampaio, na qual as “florestas da encosta oriental” são concebidas
como unidade geoecológica, ainda que sob rótulos variados. É possí-
vel que Martius – e, com ele, Alberto Sampaio e toda uma geração de
geógrafos – tenha subestimado a extensão interiorana das matas cos-
teiras, além de ter supervalorizado a presença de coníferas na região
sul, enfatizando a posição “subtropical” da província das Napéias.
Na segunda metade do século XX, emergiria uma nova gera-
ção de fitogeógrafos, informada por concepções mais complexas, pro-
venientes de diferentes campos disciplinares. Essa nova escola foi lar-
gamente influenciada pelo biogeógrafo canadense Pierre Dansereau,
que esteve no Brasil em meados da década de 1940.26 Essa influência
aparece nos trabalhos e pesquisas de autores como Henrique Pimenta
Veloso, Dárdano de Andrade-Lima e Carlos Toledo Rizzini. Os trabalhos
desses pesquisadores embasaram a elaboração do conceito atual de
Mata Atlântica, expresso na lei de 2006.
Há, porém, alguns precedentes importantes que é preciso
mencionar. Em 1911, mais de duas décadas antes da “fitogeografia”
de Sampaio, Luís Filipe Gonzaga de Campos, engenheiro de minas e
diretor do Serviço Geológico e Mineralógico do Ministério da Agricul-
tura, publicou um mapa com uma visão bastante singular e heterodoxa
acerca da proporção entre “matas” e “campos” no Brasil.27 Gonzaga de
Campos havia participado da Comissão Geográfica e Geológica de São
Paulo28 e uma das fontes utilizadas em seu mapa foi a monografia do
botânico sueco C. A. M. Lindman sobre “a vegetação do Rio Grande
do Sul,”29 traduzida e publicada, em 1906, por Alfredo Löfgren, tam-
bém sueco e botânico, colega de Campos na Comissão Geográfica. Ao
estudar as matas de araucária no Rio Grande do Sul, Lindman havia
notado que eram matas “mistas”, onde as coníferas predominavam no
dossel; estas levantavam suas copas a 20 ou 30 m de altura, enquanto
a mata latifoliada emergia no sub-bosque.30 É uma concepção signifi-
cativamente diferente daquela dos mapas posteriores, influenciados
pela província “extra-tropical” de Martius. É provável que Gonzaga
de Campos tenha observado ao nível do território nacional a divisão
62 Cabral & Bustamante (orgs.)
proposta por Lindman para as matas sulinas: “mata virgem”, que cor-
responderia às florestas densas litorâneas, matas do planalto e matas
com araucária.31 Esta divisão prenuncia a classificação moderna que
distingue florestas ombrófilas densas, florestas estacionais e florestas
ombrófilas mistas.

A definição “abrangente”

Abordaremos mais adiante a construção do arcabouço científi-


co que sustentou o conceito atualmente vigente de Mata Atlântica. Para
compreendermos adequadamente esta construção, porém, é necessário
conhecer, antes, as lutas em torno da proteção legal da Mata Atlântica.
O histórico da criação de medidas de proteção legal específi-
cas para a Mata Atlântica é longo e tortuoso, não cabendo analisá-lo
em detalhe aqui.32 O Projeto de Lei no 3.285, que originou a Lei da Mata
Atlântica, de 2006, foi apresentado ao Congresso Nacional em 1992,
pelo deputado federal Fábio Feldmann,33 eleito pelo estado de São
Paulo. No entanto, é importante notar que já constava deste Projeto
de Lei, com pequenas diferenças formais, a definição de Mata Atlântica
acima descrita, baseada no Mapa de Vegetação do IBGE.34
O PL 3.285/1992 daria origem ao Decreto no 750/1993,35 pro-
mulgado pelo presidente Itamar Franco, que vigorou até a promulga-
ção da Lei da Mata Atlântica. Este decreto resultou de um grande esfor-
ço de articulação de que participaram a Fundação SOS Mata Atlântica e
outras organizações não governamentais, junto ao Conselho Nacional
do Meio Ambiente e setores do executivo federal.36 A regulamentação
efetiva do artigo constitucional que atribui à Mata Atlântica o status
de “patrimônio nacional” precisaria ser feita através de Lei Comple-
mentar e a aprovação da Lei da Mata Atlântica tornou-se, desde então,
uma das principais bandeiras dessas entidades.37
A tramitação do PL 3.285/1992 no Congresso Nacional foi bas-
tante tumultuada. A definição proposta de Mata Atlântica foi alvo de
uma série de questionamentos, em particular a inclusão, dentre as for-
mações florestais que comporiam a Mata Atlântica, da “Floresta Om-
brófila Mista”, isto é, as florestas úmidas do sul brasileiro compostas
por vegetação latifoliada, mas contendo também Araucaria angustifo-

Metamorfoses florestais 63
lia, o chamado “pinheiro-do-paraná”. Com efeito, a extração da arau-
cária, assim como de outras espécies nativas, foi um dos motores prin-
cipais da ocupação dos estados do Paraná e de Santa Catarina; a sua
exploração ainda constituía um fator relevante da economia local. O
principal foco de crítica ao PL provinha do lobby das indústrias madei-
reiras e moveleiras e, não por acaso, seus principais porta-vozes eram
deputados eleitos pelo estado de Santa Catarina. Outros interesses,
ligados à indústrias de mineração e à grande produção rural, uniram-se
a esses segmentos para inviabilizar o PL da Mata Atlântica, através do
questionamento das definições geográficas adotadas, pela obstrução
do processo de tramitação no Congresso ou, ainda, por meio de ten-
tativas de descaracterização das medidas de regulação preconizadas.38
A definição de Mata Atlântica com base nas classes e tipos de
vegetação utilizados pelo IBGE surge de forma pública, pela primeira
vez, em um seminário promovido pela Fundação SOS Mata Atlântica,
em 1990, na cidade de Atibaia, estado de São Paulo, a “Reunião Na-
cional sobre a Proteção dos Ecossistemas Naturais da Mata Atlânti-
ca”, também conhecida como Workshop Mata Atlântica. Conforme os
anais do evento:

A área geográfica da Mata Atlântica, dentro de um conceito


abrangente definido pelos participantes do Workshop Mata
Atlântica, deve tomar como base o Mapa de Vegetação do IBGE
(1989) no que diz respeito à área territorial, que ali abrange a
Floresta Ombrófila Densa, Ombrófila com Araucária, Floresta
Estacional Decidual e Semi-Decidual, não se atendo à nomen-
clatura específica adotada pelo IBGE e incluindo ecossistemas
associados como ilhas oceânicas, restingas, manguezais, flo-
restas costeiras, campos de altitude e enclaves de campos ru-
pestres e cerrados no Sudeste do Brasil.39

Os fundamentos deste “conceito abrangente” não foram abor-


dados nos anais do Workshop, mas sim em outra publicação surgida
no mesmo ano, também da Fundação SOS Mata Atlântica com apoio
do World Wildlife Fund, o “Plano de Ação para a Mata Atlântica”, assi-
nado pelo almirante Ibsen de Gusmão Câmara, militar aposentado, mi-
litante conservacionista e ex-presidente da Fundação Brasileira para a
Conservação da Natureza.40 O Plano de Ação contempla tanto a discus-

64 Cabral & Bustamante (orgs.)


são técnica sobre o conceito de Mata Atlântica, quanto um conjunto
de recomendações sobre a ação do Estado e da “sociedade civil” para a
sua conservação. Embora predomine o aspecto pragmático, ligado aos
objetivos conservacionistas imediatos, a argumentação técnico-cientí-
fica ocupa um espaço considerável, como será visto mais adiante.
Ainda em meio à tramitação do PL 3.285/1992, o conceito
“abrangente” de Mata Atlântica, seguindo as definições do Decreto
750/93, seria adotado no planejamento das ações de conservação
no âmbito da Política Nacional de Biodiversidade, com a adoção de
uma divisão em sete grandes “biomas”: “Amazônia Brasileira”, “Caa-
tinga”, “Cerrado”, “Pantanal”, “Mata Atlântica”, “Campos Sulinos” e
“Ecossistemas Costeiros e Marinhos”. As estratégias de conservação
para cada um destes biomas foram construídas através de seminários
específicos, com forte protagonismo de entidades ambientalistas não
governamentais, nacionais e internacionais. Dentre as recomendações
surgidas nesses seminários está a identificação de áreas consideradas
prioritárias para o estabelecimento de unidades de conservação e a
realização de pesquisas.41
A lógica da divisão em biomas, iniciada com a Política Nacional
de Biodiversidade, ganha maior relevo com a publicação, pelo IBGE, do
Mapa de Biomas do Brasil. Confeccionado em escala de 1:5.000.000,
este mapa é resultado de cooperação entre o IBGE e o Ministério do
Meio Ambiente e baseia-se no novo Mapa de Vegetação do Brasil,
também em escala 1:5.000.000, lançado pelo IBGE naquele mesmo
ano de 2004.42 Dois anos depois, a aprovação da Lei da Mata Atlânti-
ca consagraria a definição geográfica “abrangente” de Mata Atlântica,
criada no Plano de Ação de Ibsen Câmara, assim como a aplicação do
conceito de bioma a esse conjunto de formações vegetacionais.

Lutas de classificação

O Mapa de Vegetação do Brasil utilizado como referência no


Plano de Ação para a Mata Atlântica foi o publicado pelo IBGE, em
1988, o mesmo que orientou o PL 3.285/1992 e o Decreto 750/1993.43.
A sua utilização deveu-se, em parte, ao fato de ser o IBGE a instituição
oficial e legalmente encarregada das convenções geográficas legítimas

Metamorfoses florestais 65
na esfera do Estado – sem dúvida conveniente em se tratando de me-
didas de proteção legal. É o momento de nos debruçarmos, mesmo
que rapidamente, sobre este mapa. O sistema de classificação do IBGE
foi criado por Henrique Pimenta Veloso e colaboradores, no bojo de
um grande projeto de levantamento de recursos naturais iniciado no
início da década de 1970, no período mais repressivo do regime mili-
tar: o projeto RADAM, posteriormente RADAMBRASIL44. Em sua fase
final, em meados da década seguinte e já em meio ao processo de re-
democratização, o projeto foi repassado ao IBGE, que incorporou não
somente os dados produzidos como também os quadros analíticos em
que os dados foram categorizados. O sistema de Veloso e colaborado-
res foi construído a partir de uma chave classificatória universal, ela-
borada com base em um esboço apresentado à UNESCO por Ellenberg
e Mueller-Dombois, em meados da década de 1960,45 e estaria funda-
mentado em um grande conjunto de dados florísticos e fitofisionômi-
cos, mas também geomorfológicos, climatológicos e pedológicos, ob-
tidos através de instrumentos diversos, desde a utilização de imagens
de radar até inspeção de campo.46
Deve-se observar que, ao contrário do Mapa de Vegetação
de 1988 e seus sucedâneos, os mapas de vegetação gerados pelo
RADAMBRASIL, em escala 1:250.000, não apresentam a cobertura
vegetal “primitiva”, pré-colombiana; circunscrevem também as áreas
antrópicas, classificadas segundo o tipo de uso. Como dito acima, os
mapas do RADAMBRASIL foram elaborados a partir de extensivos le-
vantamentos aerofotogramétricos e estudos de campo. Destes dados
foram deduzidas as formações da cobertura vegetacional “original”
do atual território brasileiro, que, por sua vez, informam os mapas de
vegetação do IBGE. Trata-se, portanto, de uma reconstrução.47 Para
a Amazônia, onde esses levantamentos foram iniciados ainda nos
primeiros anos da década de 1970, os resultados ainda podem ser
confrontados com a realidade existente. Com relação à Mata Atlânti-
ca, porém, trata-se de uma reconstrução que, para grande parte das
áreas, é hipotética, pois já não haveria muitos remanescentes repre-
sentativos da condição pré-colonial da vegetação nativa. Isto se apli-
ca particularmente às diversas áreas de florestas estacionais interio-
ranas, deciduais e semideciduais – que teriam ocorrido no planalto
centro-sul mineiro, por exemplo – e às matas da bacia do rio Paraná.
66 Cabral & Bustamante (orgs.)
A terminologia universal “neutra”, sem recurso a toponí-
mias, expressões regionais ou tradicionais, referida exclusivamente
a características estruturais das formações vegetais, deu margem à
reelaboração das categorias para a produção de um conceito inova-
dor de Mata Atlântica cujo artífice foi Ibsen Câmara. Entretanto, este
conceito de Mata Atlântica, nestes moldes é, na verdade, estranho
aos propósitos da classificação utilizada pelo IBGE. Aquilo que mapas
posteriores iriam delimitar como sendo o “bioma” ou o “domínio” da
Mata Atlântica tem correspondência com determinadas formações as-
sinaladas no mapa do IBGE, mas são lógicas classificatórias distintas.
Sobretudo, os biomas reintroduzem a terminologia “regionalista” que
Veloso e colaboradores, firmemente ancorados na tradição “universa-
lista”, desejavam banir.48
Sem dúvida, a classificação em biomas se impôs àquela dos
tipos de vegetação em razão dos interesses relacionados com a preser-
vação e, sobretudo, das disputas em torno da área de abrangência, du-
rante a tramitação da Lei da Mata Atlântica. Esses interesses encontra-
vam-se organizados, principalmente, nas organizações não-governa-
mentais ambientalistas, mas seus representantes ocuparam posições
estratégicas também no âmbito do Estado. Dois integrantes do grupo
inicial da Fundação SOS Mata Atlântica eram os titulares da Secreta-
ria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente em
momentos importantes deste processo: João Pedro de Oliveira Costa,
no governo Fernando Henrique Cardoso – quando da realização dos
seminários sobre conservação da biodiversidade “por bioma” – e João
Paulo Capobianco, no governo Lula, quando da publicação do Mapa de
Biomas do Brasil. A lógica classificatória dos biomas encontrou, assim,
em um primeiro momento, uma plataforma avançada na Política Na-
cional da Biodiversidade para, em seguida, através de um projeto de
cooperação entre o Ministério do Meio Ambiente e o IBGE, consolidar-
-se como classificação oficial, sancionada pelo Estado.

Paleoclimas

Em que se baseou Ibsen Câmara ao propor o conceito abran-


gente de Mata Atlântica? Examinemos sucintamente os argumentos do

Metamorfoses florestais 67
Plano de Ação para a Mata Atlântica. Como foi visto, a tradição fitogeo-
gráfica, desde Martius, identificou e individualizou as matas úmidas das
cordilheiras costeiras, ainda que sob denominações diversas, enquanto
as florestas mistas de araucária tenderam a ser concebidas como uma
formação diversa. Por outro lado, os dados gerados pelo RADAMBRASIL
deram ensejo a mapas de vegetação em que constam extensas faixas
de formações florestais estacionais (decíduas e semidecíduas), distintas
das formações de savana – que, juntamente com os seus “encraves” de
mata, seriam incorporadas posteriormente ao bioma Cerrado. Ibsen Câ-
mara reuniu esses três grupos – as florestas ombrófilas densas da cor-
dilheira litorânea, as florestas ombrófilas mistas de araucária do sul e as
florestas estacionais do planalto – em uma categoria única.
Câmara não se deteve nos aspectos florísticos e fisionômicos e
buscou fundamentar a unidade da Mata Atlântica em bases geoclimatoló-
gicas, a partir de uma série de considerações sobre as variações climáticas
do Pleistoceno. É amplamente aceito pelos geocientistas que o clima da
Terra vem sofrendo alterações profundas através da história, embora as
causas das variações sejam matéria de discussão. Ao que indicam os da-
dos disponíveis, o último ciclo glacial começou a declinar há cerca de 14
mil anos, quando as geleiras que cobriram boa parte da Europa e da Amé-
rica do Norte começaram a recuar. Admite-se que a última glaciação pleis-
tocênica tenha terminado há aproximadamente dez mil anos. Não houve
geleiras no território brasileiro, mas as evidências apontam para a ocor-
rência de climas mais secos e frios; supõe-se que essas variações tenham
influenciado a forma da cobertura vegetal. É provável que as florestas de
coníferas, mais resistentes às baixas temperaturas e a climas mais secos,
tenham ocupado uma extensão maior do território em comparação com
suas distribuições atuais, enquanto as formações latifoliadas, mais afei-
tas aos climas úmidos, teriam recuado para algumas áreas restritas, em
função das temperaturas mais baixas e do declínio da umidade. Como
veremos a seguir, é possível que, atualmente – considerando-se também
o impacto do antropismo – estejamos vivendo o movimento inverso, ou
seja, a lenta sucessão das matas de coníferas por formações latifoliadas.
Embora essas questões tenham ganhado grande importância,
no Brasil dos últimos quarenta anos – sobretudo a partir dos estudos de
geomorfologia climática de João José Bigarella e Aziz Nacib Ab’ Saber49
–, elas remetem a uma tradição mais antiga: a teoria da sucessão ecoló-
68 Cabral & Bustamante (orgs.)
gica, à qual se ligam os nomes do dinamarquês Eugenius Warming e dos
norte-americanos Henry Cowles e Frederic Edward Clements50. Um mar-
co na introdução desta abordagem, no Brasil, foi o curso de biogeogra-
fia ministrado pelo já mencionado Pierre Dansereau, na Faculdade Na-
cional de Filosofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, em 1946.51
Dansereau dedicou uma parte considerável do curso aos problemas de
paleoecologia, revisitando diversos estudos sobre a relação entre suces-
são ecológica e variações climáticas, na América do Norte. Ele chamou
a atenção para a existência de “relíquias de flutuações pós-glaciais”, nú-
cleos de vegetação morfologicamente adaptada a condições mais secas
em meio a formações atuais predominantemente úmidas, concluindo
com a observação de que “no Brasil, na Serra do Mar e da Mantiqueira,
há numerosos elementos heterogêneos, como a araucária, que indicam
uma antiga penetração de um clima mais frio.”52 A sua ocorrência, nestas
condições, poderia ser interpretada como o resultado de uma invasão
ocorrida durante o período seco do Quaternário.
A dinâmica sucessional das florestas de coníferas foi estudada
posteriormente pelo botânico catarinense Roberto Klein – citado por Câ-
mara –, que conclui ser a araucária uma “espécie pioneira” que tende a
avançar sobre formações campestres abertas, mas que não se regenera
facilmente nas florestas, sobretudo quando o ambiente torna-se dema-
siadamente sombreado. Nesse estágio, as matas de coníferas seriam
pouco a pouco invadidas por arbustos e arvoretas, até a fase sucessional
em que ocorre invasão mais intensa de espécies ombrófilas latifoliadas,
formando florestas “mistas”. Na fase subsequente, com o desapareci-
mento das últimas coníferas idosas, formar-se-ia uma floresta ombrófila
“pura”.53 Câmara resume a discussão nos seguintes termos:

A existência em algumas áreas de somente pinheiros velhos


associados a espécies latifoliadas reforça a hipótese propos-
ta, segundo a qual os pinheiros seriam florestas mais antigas,
sucedidas pelas florestas deciduais e semideciduais; a flores-
ta ombrófila densa seria a mais recente das três.54

Em 1977, Aziz Ab’ Saber publicou um influente artigo, também


citado no Plano de Ação para a Mata Atlântica, em que propõe uma “pri-
meira aproximação” sobre a distribuição das formações vegetacionais,
no espaço sul-americano, no último período glacial do Pleistoceno. Ab’
Metamorfoses florestais 69
Saber sustenta que, nas condições paleoclimáticas do pleistoceno, não
somente teria havido uma extensão das araucárias em direção ao norte,
mas, também, as matas latifoliadas teriam ficado reduzidas a refúgios,
acantonadas em sítios topograficamente específicos. A partir dessas
considerações e com ressalvas quanto à insuficiência dos dados e à ne-
cessidade de mais pesquisas, Câmara incorpora as hipóteses de Haffer55
sobre “centros de endemismo” que teriam ocorrido na área da Mata
Atlântica, durante a última glaciação do Pleistoceno. Segundo essa teo-
ria, diferentes núcleos florestais, isolados devido ao avanço da vegetação
xerófila nos períodos mais frios e secos, teriam gerado diferenciações
genéticas em populações anteriormente contínuas, o que explicaria a
extrema diversidade atual de espécies da Mata Atlântica56.
Essas referências científicas são essenciais à construção do
conceito abrangente de Mata Atlântica proposto por Ibsen Câmara,
principalmente no que concerne às matas mistas de araucária. A partir
delas tornava-se possível traçar um quadro dinâmico da vegetação. Re-
sumidamente, nas condições climáticas atuais, as Florestas Ombrófilas
Mistas – para retomar a classificação do IBGE – seriam estágios suces-
sionais imaturos cujo “clímax”, ou estágio final da sucessão ecológica,
seria a Floresta Ombrófila Densa.
Com relação às florestas decíduas e semidecíduas a situação
é mais complexa. Não apenas o estado de fragmentação das matas es-
tacionais interioranas torna problemática a reconstituição do que teria
sido o seu estado “original” – o que também dificulta a definição de
seus limites geográficos face às formações de “savana” –, como tam-
bém os critérios de classificação são discrepantes, enfraquecendo a
tese da unidade das formações “florestais”. Por exemplo, no influente
sistema de Heinrich Walter, “florestas tropicais estacionais” e “sava-
nas” são agrupadas no mesmo “zonobioma”, relacionado ao clima tro-
pical, com chuvas de verão e inverno seco, em contraposição às flores-
tas tropicais pluviais “sempre verdes”.57.
Como a Amazônia, a Mata Atlântica de Câmara é composta
por diferentes fisionomias florestais e formações associadas. Pareceu
razoável apor um conceito que englobasse todas as formações flores-
tais não amazônicas designadas como tais no mapa do IBGE e, afinal,
este é um argumento importante do Plano de Ação para a Mata Atlân-
tica de Ibsen Câmara:
70 Cabral & Bustamante (orgs.)
Desta forma, em contraposição ao nome de Floresta Ama-
zônica, esta também muito heterogênea e diversificada mas
com designação geralmente aceita sem contestação, é razo-
ável estender-se a todos os remanescentes atuais das outro-
ra vastas florestas atlânticas a denominação tradicional de
Mata Atlântica, terminologia consagrada na própria Consti-
tuição Federal, embora se reconheça que seria mais correta
a designação de Província Atlântica.58

Embora a definição abrangente de Mata Atlântica tenha ob-


tido aceitação crescente59, a aplicação do conceito de bioma à Mata
Atlântica, nos termos da lei de 2006 e do Mapa de Biomas, pode ser
considerada problemática. Ainda que não haja espaço, aqui, para abor-
darmos essas controvérsias, deve-se notar que o emprego mais usual
do termo na literatura especializada enfatiza a uniformidade macrocli-
mática e fitofisionômica, o que poderia levar a considerar, por exem-
plo, florestas ombrófilas e florestas estacionais como biomas distin-
tos. Desta perspectiva, a Mata Atlântica seria mais propriamente um
conjunto ou um mosaico de biomas e não um único bioma. O mesmo
critério seria aplicável a Amazônia, Cerrado e Caatinga.60
Há diferenças significativas de área conforme se adota a deli-
mitação do “bioma”, estabelecida pelo Ministério do Meio Ambiente e
pelo IBGE e Estatística, no Mapa de Biomas de 2004, ou da Lei da Mata
Atlântica, de 2006. Os biomas foram definidos no mapa referido como
“grandes áreas contínuas”, sendo as disjunções vegetacionais “incorpo-
radas ao bioma dominante”, o que acabou por excluir do bioma Mata
Atlântica diversas áreas florestais nos estados do Piauí, do Ceará, de
Goiás e do Mato Grosso do Sul, totalizando aproximadamente 200.000
km2, que fariam parte do bioma Mata Atlântica se considerarmos a
definição legal. Essa incongruência resulta precisamente da adoção do
conceito de bioma para designar grandes unidades geográficas contí-
nuas, em contraste com o critério observado pelo Mapa de Vegetação,
predominantemente fitofisionômico.

Considerações finais

Um dos objetivos deste artigo foi mostrar que concei-


tos e representações referentes ao espaço geográfico não são

Metamorfoses florestais 71
simples imagens da realidade concreta, «espelhos da natureza». Ao
contrário, eles mantém uma relação extremamente complexa com a
realidade que supostamente representam. Como foi dito, a existên-
cia “conceitual” da Mata Atlântica como unidade “natural” deve-se
ao registro de uma memória social, constituída por mapas, classi-
ficações, inventários e descrições, tanto quanto à “coisa em si”. Se
é verdade que conceitos e representações são modelados a partir
da experiência concreta e do encontro sensorial com o “objeto” –
e, no caso do discurso científico, submeter este “encontro” a uma
crítica metódica torna-se uma exigência constitutiva –, ancoram-se
também em estruturas prévias da compreensão que são, sempre e
necessariamente, o legado de alguma “tradição”. Amazônia e Mata
Atlântica são “coisas” porque são também “conceitos”. Ao mesmo
tempo, tornam-se objeto de disputa, no momento em que se coloca
o imperativo prático de regular e normatizar o seu uso.
O conceito abrangente de Mata Atlântica é produto de
uma conjuntura específica. Não apenas o Estado brasileiro vivia um
processo de redemocratização, mas também as preocupações am-
bientais ganhavam mais e mais espaço na cena política, em parte
devido à Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e De-
senvolvimento Sustentável, realizada em 1992, no Rio de Janeiro. A
“Rio 92” conferiu grande visibilidade aos temas sócio-ambientais e
aos movimentos sociais voltados para as questões ambientais. Foi
um momento de afirmação de um fenômeno social recente, as cha-
madas “ONGs”61, bem como de fortalecimento da política ambien-
tal na esfera do Estado, com a criação do Sistema Nacional do Meio
Ambiente (SISNAMA) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). É também o momento
de afirmação de uma agenda ambiental global, com a incorporação
das pautas ambientais pelos órgãos multilaterais e agências de co-
operação internacional.62 As ONGs desempenharam um papel cada
vez mais importante, no decorrer na década de 1990, na formula-
ção e implementação de políticas públicas. Esse processo não pode
ser compreendido adequadamente se não considerarmos o influxo
da política ambiental em escala global e a presença dos organismos
multilaterais, uma dimensão determinante no caso das políticas para
a Mata Atlântica. A presença desses atores sociais é essencial para a
72 Cabral & Bustamante (orgs.)
compreensão da história do conceito abrangente de Mata Atlântica,
que é, de fato, a história de um processo social de construção de uma
categoria técnico-política, tanto quanto científica.

____________
1  R, M.C.; METZGER, J.P.; MARTENSEN, A.C.; PONZONI, F.J.; and HIROTA, M.M. “The
Brazilian Atlantic Forest: how much is left, and how is the remaining forest distributed?
Implications for conservation”. Biological Conservation, 142, 2009, pp. 1141-
1153; RIBEIRO M.C.; MARTENSEN, A.C.; METZGER, J.P.; TABARELLI, M.; SCARANO,
F.; FORTIN, M.J. “The Brazilian Atlantic Forest: A Shrinking Biodiversity Hotspot”.
In: Zachos F.E.; Habel J.C. (.). Biodiversity Hotspots: Distribution and Protection of
Conservation Priority Areas. Dordrecht: Springer, 2011, pp. 05-433. forme se adote
a delimitação do “bioma”, estabelecida pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2004, ou a da Lei da Mata Atlântica,
de 2006, verifica-se uma variação significativa da área total da Mata Atlântica, devido
aos diferentes critérios adotados para a delimitação do “bioma”: no primeiro caso, o
Bioma Mata Atlântica seria uma grande área contínua que cobriria parte do território
brasileiro; no segundo caso, abrangeria todas as áreas “florestais” não amazônicas,
inclusive formações que ocorreriam entremeadas a formações classificadas como
“savana” e outras, em meio aos biomas Caatinga e Cerrado.
2  DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica
brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
3  DEAN, Op. cit. 1996, p. 28. O primeiro mapa do livro, “A Mata Atlântica em
1500” (p. 21), apresenta a possível delimitação da floresta pré-colombiana, em
que são distinguidas somente duas “formações” florestais: “Formações latifoliares”
e “Formações de araucária” - no original inglês respectivamente: Broad-leaved
formations e Araucaria formations (ver: DEAN, Warren. With Broadax and Firebrand:
The Destruction of the Brazilian Atlantic Forest. Berkeley and Los Angeles: University
os California Press, 1995, p. 3). As notas sobre o tema são imprecisas e citam diversas
fontes diferentes (DEAN, Op. cit., 1996, p. 381, nota 4) , mas é provável que esta carta
tenha sido elaborada com base no Atlas da Evolução dos Remanescentes Florestais
da Mata Atlântica, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica e publicado em
1993 (ver: FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Atlas da evolução dos remanescentes
florestais e ecossistemas associados do domínio da Mata Atlântica no período 1895-
1990. São Paulo: Fundação SOS Mata Atlântica, 1993.), assim como o mapa 11,
“A Mata Atlântica em 1990” (DEAN, Op. cit., 1996, p. 363), no qual mostram-se as
pequenas manchas de “floresta sobrevivente” por sobre os padrões que identificam
as formações latifoliadas e de araucária do mapa 1. Curiosamente, Dean ignora a
nomenclatura fitogeográfica adotada pela Fundação SOS Mata Atlântica desde pelo
menos o início da década (ver: FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Workshop Mata
Atlântica: problemas, diretrizes e estratégias de conservação. São Paulo: Fundação
SOS Mata Atlântica, s/ data [1991]), baseada no Mapa de Vegetação do Brasil do
IBGE de 1988 (ver adiante), em favor das categorias, um tanto anacrônicas, de

Metamorfoses florestais 73
“latifoliadas” e “de araucária” - talvez porque, sendo o livro destinado a um público
internacional, o autor tenha preferido um esquema mais simples e “cosmopolita”.
4  Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/
l11428.htm.
5  GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994. A
passagem seguinte é significativa: “Contrariamente ao que se possa supor, a Amazônia
não foi descoberta, sequer foi construída; na realidade a invenção da Amazônia se
dá a partir da construção da Índia, fabricada pela historiografia greco-romana, pelo
relato dos peregrinos, missionários, viajantes e comerciantes” (p. 9).
6  HUECK, Kurt (1972) As florestas da América do Sul: ecologia, composição e
importância. São Paulo: Polígono; Brasília: Editora UnB, 1972.
7  A Amazônia ainda demoraria a ser descoberta pelos patrícios brasileiros. É
bastante revelador, a respeito, o diálogo travado no parlamento da corte em 1888,
resgatado e resumido por Evaldo Cabral de Mello (MELLO, Evaldo Cabral de. O norte
agrário e o império: 1871 - 1889. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999. p. 15). Conforme
diz este autor: “Para os homens públicos do Império e, em grande parte, também da
República Velha, a geografia regional do Brasil era bem simples: havia as províncias,
depois estados, do norte, do Amazonas à Bahia, e as províncias, depois estados, do
sul, do Espírito Santo ao Rio Grande. Nada de nordeste, sudeste ou centro-oeste.
Quando em 1888, um representante paraense, Mâncio Ribeiro, aludiu aos ‘vastos
horizontes da Amazônia’, causou espécie na câmara. Um colega mineiro estranhou
a expressão, indagando ‘onde é essa Amazônia de que o nobre deputado tanto
tem falado’; e Coelho Rodrigues, do Piauí mas lente da Faculdade de Direito do
Recife, veio alertar severamente a assembléia contra o fato de que ‘ultimamente
vai-se acentuando, em algumas de nossas províncias, certa tendência separatista
que traduz-se nas novas denominações de ‘pátria paulista’, ‘Amazônia’ etc., que me
fazem recear também a divisão do Brasil se mudar a forma de governo’.”
8  CLEMENT, C.R.; DENEVAN, W.M.; HECKENBERGER, M.J.; JUNQUEIRA, A.B.; NEVES,
E.G.; TEIXEIRA, W.G.; WOODS, W.I. “The domestication of Amazonia before European
conquest”. Proceedings of The Royal Society B, 282: 20150813, 2015. http://dx.doi.
org/10.1098/rspb.2015.0813. Como argumentam os autores, a Amazônia teria sido um
importante centro de domesticação de plantas, com pelo menos 83 espécies nativas
em graus variados de domesticação, o que teria ocorrido em áreas significativamente
antropizadas, em que teria havido grandes assentamentos humanos.
9  Embora não tenha pisado naquilo que viria a ser o território brasileiro, Humboldt
fez extensos trabalhos de campo, nos domínios coloniais espanhóis, na América do Sul.
10  MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de. Tabula geographica brasiliae et
terrarum adjacentium exhibnes itinera botanicorum et florae brasiliensis quinque
provincias. In: Flora Brasiliensis enumeratio plantarum in Brasilia hactenus
detectarum quas suis aliorunque botanicorum studiis descriptas et methodo
naturali digestas partim icone illustratas. Volumen I. Pars I. Monachii: Monachii
et Lipsiae apud R. Oldenbourg in comm. 1906. O mapa consultado pertence à
edição de 1906, completa, da Flora Brasiliensis, mas o mapa em questão foi
publicado originalmente por Martius em junho de 1858, junto ao fascículo XXI da

74 Cabral & Bustamante (orgs.)


Flora, que era então uma “obra em progresso”. O exemplar consultado pertence
ao acervo da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.
11  Na verdade, a classificação em cinco regiões, com os nomes das ninfas da mitologia
grega, é anterior ao Mapa e remonta pelo menos ao ano de 1829, à “observatio
geographica” anexada por Martius à monografia de Esenbeck sobre as gramíneas
no Brasil. Ver: MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de. “Observatio geographica”.
In: ESENBECK, C. G. Neesio ab Agrostologia brasiliensis seu descriptio graminum
in imperio brasiliensi hus usque detectorum. Stuttgartiae et Tubingae: Sumptibus J.
G. Cottae, 1829. Ver pp. 538-553. Ou seja, esta classificação foi criada à época da
primeira “Flora Brasiliensis”, que Martius tentou alavancar na virada da década de
1830, antes de conseguir apoio da corte imperial brasileira para o projeto. Sobre a
divisão em províncias ver também: MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de.
Herbarium Florae Brasiliensis. Plantae brasilienses exsiccatae, quas denominatas
partim diagnosi aut observationibus instructas. Monachii, 1837.
12  SOMMER, Frederico. A vida do botânico Martius. São Paulo: Edições
Melhoramentos, s/ data. Ver também: WEHLING, Arno. “A concepção histórica de
von Martius”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 385, outubro-
dezembro de 1994.
13  SAMPAIO, Alberto José de. Phytogeographia do Brasil. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1938. De fato, a classificação foi construída sobre o sistema
estabelecido pelo botânico alemão Adolf Engler em 1899, o qual, por sua vez, foi
baseado na divisão de Martius.
14  Como registrou Dean, Sampaio já vinha, desde a década de 1910, escrevendo
artigos em jornais sobre reflorestamento e criação de reservas naturais (DEAN, Op.
cit., 1996, p. 273). Ele apresentou, em 1926, um relatório sobre as florestas brasileiras
em um congresso internacional de silvicultura ocorrido em Roma, publicado em
seguida no Brasil pelo autor, que teria pretendido, com ele, persuadir o governo a
criar um serviço florestal e um corpo de guardas florestais. Com o novo governo
instalado a partir do golpe de estado que levou Getúlio Vargas à presidência, iniciou
um curso público sobre fitogeografia do Brasil no Museu Nacional e organizou a
Primeira Conferência Brasileira de Proteção à Natureza, ocorrida também no Museu
Nacional, entre 8 e 15 de Abril de 1934. Apesar de ser, à princípio, iniciativa da
“sociedade civil”, a Conferência tem um forte viés “oficial”. Conforme os relatórios
publicados por Sampaio no Boletim do Museu Nacional, o evento teve como patrono
o próprio Getúlio Vargas, e figuravam em seu “Comitê de Honra” vários ministros do
governo provisório. Sampaio reorientou seus investimentos científicos em direção ao
Estado; passou a defender a implementação de um serviço florestal militarizado, nos
moldes das milícias florestais criadas por Mussolini na Itália, assim como a criação
de uma rede de escolas rurais pelo interior do Brasil. Sobre isto ver, principalmente,
SAMPAIO, A. J. de. Biogeographia dynamica: a natureza e o homem no Brasil: noções
gerais e estudo especial da protecção a natureza no Brasil. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1935.
15  ROMARIZ, Dora de Amarante. A”vegetação”. In: AZEVEDO, Aroldo de (org.) Brasil,
a terra e o homem. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964. Cf. p. 497. Como
diria mais tarde o botânico Carlos Toledo Rizzini: “O que é inadmissível, já agora,

Metamorfoses florestais 75
é o emprego de “sistemazinhos pessoais” sem nenhuma base séria universalista e
alicerçados tão somente em impressões particulares, sempre destituídos de qualquer
fundamento aceitável. Entre outros, aqui, os geógrafos persistem nesta atitude.”
(RIZZINI, Carlos Toledo. Tratado de fitogeografia do Brasil.: aspectos ecológicos,
sociológicos e florísticos. Rio de Janeiro: Âmbito Cultural Edições, 1997, pp. 319-320.)
16  GUIMARÃES, Fábio Macedo Soares. “Divisão regional do Brasil”. Revista
Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, abril-junho de 1941. As “Regiões” eram:
Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Leste. A Região Sul abrangia o estado de São
Paulo e a Bahia integrava a região Leste. Este esquema seria reformulado décadas
depois, no período da ditadura militar, com a Bahia passando a integrar a região
Nordeste e São Paulo passando a compor a atual região “Sudeste”, juntamente com
os estados do Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
17  MORAES, Op. cit. 2002. Ver também: DAOU, Ana Maria. “Tipos e aspectos
do Brasil: imagens e imagem do Brasil por meio da iconografia de Percy Lau”. In:
ROSENDAHL, Zeny; CORREA, Roberto Lobato. Paisagem, imaginário e espaço. Rio de
Janeiro: EdUERJ, 2001.
18  Pierre Bourdieu, em inúmeros trabalhos, chama a atenção para o monopólio
exercido pelo do Estado como produtor de modos de visão e divisão “legítimas”
do mundo social - e, certamente, das construções sociais do mundo “natural”. Ver,
por exemplo: BOURDIEU, Pierre. “A identidade e a representação. Elementos para
uma reflexão crítica sobre a idéia de região”. In: ____. O poder simbólico. Lisboa:
Difel, 1989, pp. 107-132. Do mesmo autor, ver, também: ____. “Espíritos de estado:
gênese e estrutura do campo burocrático”. In: ____. Razões práticas: sobre a teoria
da ação. Campinas: Papirus, 1996, pp. 91-124. Sobre a noção de eficácia simbólica,
ver o famoso artigo de Lévi-Strauss: LÉVI-STRAUSS. Claude. “A eficácia simbólica”. In:
____. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996, pp. 215-236.
19  PÁDUA, José Augusto. «Um país e seis biomas: ferramenta conceitual para o
desenvolvimento sustentável e a educação ambiental». In: PÁDUA, J. A. (org.).
Desenvolvimento,justiça e meio ambiente. Belo Horizonte: Editora UFMG; São
Paulo: Editora Peirópolis, 2009, pp. 118-150. Citação à p.122.
20  MARTIUS, Op. cit., 1906.
21  MARTIUS, Carolus Fridericus Philippus de. Herbarium Florae Brasiliensis. Plantae
brasilienses exsiccatae, quas denominatas partim diagnosi aut observationibus
instructas. Monachii, 1837, pp. 51 e seguintes.
22  Idem, pp. 57 e seguintes. Na verdade - o que nem sempre tem sido lembrado
pelos pósteros - estas províncias fazem parte de uma classificação mais complexa,
na qual elas são distribuídas por três grandes “impérios” florísticos: “Império
extratropical da flora paraguaia e cisandina” (Napeia), “Império da flora cisandina
tropical brasileira” (Dríades, Oreades, Hamadríades), e o “Império da flora dos
grandes rios amazônicos e oriconenses” (Naiades). Não há espaço para esmiuçar
esta chave de classificação e é difícil rastrear as fontes utilizadas por Martius em sua
elaboração. Embora a classificação de Martius seja supostamente florística, isto é,
baseada na distribuição geográfica dos táxons botânicos, é provável que, em alguns
casos, tenha feito simplesmente coincidir as regiões botânicas com as subdivisões

76 Cabral & Bustamante (orgs.)


climático-geográficas do globo, como mais tarde observariam Martonne, Chevalier e
Guénot - ver: MARTONNE, Emmanoel de; CHEVALIER, Auguste e GUÉNOT, L. Traité de
Geographie Physique: tome troisième: biogéographie. Paris: Librairie Armand Colin,
1950, p. 1.281.
23  Tradução em: MARTIUS, C. F. Ph. von. “A fisionomia do reino vegetal no Brasil”.
Arquivos do Museu Paranaense, Curitiba, vol. III, dezembro de 1943, pp. 239-271. O
trecho citado está na página 253.
24  DEAN, Op. cit., 1996, pp.131-132.
25  SAMPAIO, Op. cit., 1938, pp. 40-41.
26  Ver adiante.
27  CAMPOS, Gonzaga de Campos. Mattas e campos do Brasil. Esboço organizado
pelo Serviço Geológico e Mineralógico por determinação do Exmo. Dr. Pedro
de Toledo Ministro da Agricultura, Industria e Commercio, 1911. O mapa não
apresenta propriamente uma classificação; a legenda distingue: “matas”,
“campos”, “caatingas” e “vegetação costeira”. O texto que acompanha o mapa é
mais esclarecedor. Apresenta uma subdivisão das “matas” sob a forma seguinte:
A) As florestas da zona equatorial; B) As florestas da encosta atlântica; C) As matas
pluviais do interior; D) As matas ciliares. O original consultado do mapa faz parte
do acervo da Biblioteca do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. O texto com a descrição do mapa foi republicado posteriormente no
Boletim Geográfico: CAMPOS, Gonzaga de. “Mapa florestal do Brasil”. Boletim
Geográfico, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 9, dezembro de 1943, pp. 9-27. ____. “Mapa
florestal do Brasil”. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 16, julho de 1943a,
pp. 404-419. ____. “Mapa florestal do Brasil”. Boletim Geográfico, Rio de Janeiro,
vol. 2, n. 17, agosto de 1944, pp. 621-635.
28  FIGUEIRÔA, Silvia. As ciências geológicas no Brasil: uma história social e
institucional, 1875 - 1934. São Paulo: Hucitec, 1997, pp.168s.
29  LINDMAN, C. A. M. A vegetação no Rio Grande do Sul (Brasil Austral). Porto
Alegre: Typographia da Livraria Universal de Echenique e Irmãos e Cia, 1906.
30  CAMPOS, Op. cit., 1943, p. 18.
31  LINDMAN, Op. cit., 1906: pp. 187-94.
32  Ver: LIMA, A. (org.) Aspectos jurídicos da proteção da Mata Atlântica. São Paulo:
Instituto Socioambiental, 2001.
33  Feldmann foi um dos fundadores da Fundação SOS Mata Atlântica, organização
não governamental ambientalista criada, em 1986, no estado de São Paulo, e elegeu-
se deputado constituinte, em 1987, no bojo de uma grande campanha organizada
pela SOS Mata Atlântica sob o slogan “estão tirando o verde da nossa terra”. Como
deputado constituinte, foi um dos responsáveis pela redação do artigo sobre meio
ambiente, em que a Mata Atlântica ganha o estatuto de Patrimônio Nacional. Sobre
o histórico da Fundação SOS Mata Atlântica, ver: ROCHA, Ana Augusta; FELDMANN,
Fábio (org.). A Mata Atlântica é aqui. E daí? : história e luta da Fundação SOS Mata
Atlântica. São Paulo: Terra Virgem, 2006.
34  O texto original do Projeto de Lei pode ser consultado em: “PL 3.285 que

Metamorfoses florestais 77
dispõe sobre a proteção da Mata Atlântica”. In: Lima, A.; Capobianco, J.P. (org.).
Mata Atlântica: avanços legais e institucionais para sua conservação. Documentos
do ISA No 4. São Paulo: Instituto Socioambiental, 1997, pp. 55-62. O histórico de
tramitação pode ser consultado em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/
fichadetramitacao?idProposicao=19408. Ver também: MERCADANTE, Maurício.
“Histórico do trâmite do Projeto de Lei da Mata Atlântica na Câmara dos Deputados”.
In: LIMA, Op. cit., 2001, pp. 255-258.
35  Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d750.htm.
36  CAPOBIANCO, João Paulo; LIMA, André. “A evolução da proteção legal da Mata
Atlântica”. In: Lima, A.; Capobianco, J.P. (org.). Mata Atlântica: avanços legais e
institucionais para sua conservação. Documentos do ISA No 4. São Paulo: Instituto
Socioambiental, 1997, pp. 7-16.
37  Não é possível neste espaço descrever adequadamente os diversos campos em
que se desenrolam as lutas em torno da proteção à Mata Atlântica. Além da criação, já
mencionada, da Rede de ONGs da Mata Atlântica em 1992, são momentos relevantes
o reconhecimento pela UNESCO da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, em 1991,
a criação em 1992 da Rede de Organizações Não Governamentais da Mata Atlântica,
durante a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável das
Nações Unidas, no Rio de Janeiro, contando na ocasião com quarenta entidades, e a
criação do «Sub-Programa Mata Atlântica», criado no âmbito do Programa Piloto de
Proteção às Florestas Tropicais Brasileiras (PPG7) em 1997. O PPG7 foi proposto em
reunião do grupo das sete nações mais desenvolvidas (G7) em 1990, aprovado em
1991 pela Comunidade Européia, e criado oficialmente em 1992, com gerenciamento
do Banco Mundial e do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, mas destinava-se
inicialmente às florestas amazônicas. Os embates mais recentes e dramáticos em
torno do novo Código Florestal Brasileiro (Lei No 12.651 de 25 de maio de 2012), em
que mais uma vez ambientalistas e ruralistas se confrontaram tendo como uma das
arenas o Congresso Nacional, precisariam ser adequadamente estudados. Para um
sumário das polêmicas e disputas travadas é útil consultar o verbete correspondente
da Wikipédia (disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Novo_C%C3%B3digo_
Florestal_Brasileiro).
38  O deputado federal Hugo Biehl, eleito pelo Partido da Frente Liberal em Santa
Catarina apresentou Projeto de Lei em 1995 (PL No 69/1995) com o único objetivo
de reduzir a área de abrangência da Mata Atlântica à Floresta Ombrófila Densa. No
mesmo ano, por interferência do deputado Paulo Bornhausen, eleito pelo mesmo
partido e mesmo estado, o PL No 3.285/1992 foi encaminhado à Comissão de Minas
e Energia (sob o argumento de que teria implicações sobre a produção de lenha e
carvão na região em questão), na qual ficou retido por cerca de dois anos. Sobre isto,
ver: CAPOBIANCO, J.P.; LIMA, Op. cit, 1997; MERCADANTE, M. Op. cit., 2001.
39  FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA. Workshop Mata Atlântica: problemas,
diretrizes e estratégias de conservação. São Paulo: Fundação SOS Mata Atlântica, s/
data [1991], p. 64 (grifos nossos).
40  CÂMARA, Ibsen de Gusmão. Plano de ação para a Mata Atlântica. São Paulo:
Fundação SOS Mata Atlântica, 1991. Para um esboço da trajetória conservacionista
e científica de Ibsen Câmara, ver a entrevista e perfil traçados em: URBAN, Teresa.

78 Cabral & Bustamante (orgs.)


Saudade do matão: relembrando a história da conservação da natureza no Brasil.
Curitiba: Editora da UFPR; Fundação O Boticário; Fundação MacArthur, 1998.
41  BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE; CONSERVATION INTERNATIONAL DO
BRASIL; FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS; INSTITUTO DE
PESQUISAS ECOLÓGICAS; SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO;
SEMAD/ INSTITUTO ESTADUAL DE FLORESTAS-MG. Avaliação e ações prioritárias
para a conservação da biodiversidade da Mata Atlântica e Campos Sulinos. Brasília:
Ministério do Meio Ambiente, 2000. Foram realizadas reuniões técnicas semelhantes
para os demais biomas, reunidas e consolidadas em: BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO
AMBIENTE. SECRETARIA DE BIODIVERSIDADE E FLORESTAS. Biodiversidade brasileira:
avaliação e identificação de áreas e ações prioritárias para conservação, utilização
sustentável e repartição dos benefícios da biodiversidade brasileira. Brasília: Ministério
do Meio Ambiente / Secretaria de Biodiversidade e Florestas, 2002. Recentemente,
nova reunião foi realizada pelo Ministério para atualizar as informações: BRASIL.
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. SECRETARIA DE BIODIVERSIDADE E FLORESTAS.
DEPARTAMENTO DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Áreas prioritárias para a
conservação, uso sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade brasileira.
Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2007.
42  BRASIL. MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO, ORÇAMENTO E GESTÃO. INSTITUTO
BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS. Mapa
de Vegetação do Brasil. Escala: 1:5.000.000. Fundação IBGE, 2004. Disponível em:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Cartas_e_Mapas/Mapas_Murais/vegetacao_pdf.zip.
43  Os Anais do Workshop de Atibaia referem-se a um suposto mapa de 1989, o que
deve ter resultado de algum erro de impressão ou de revisão.
44  RADAM é acrônimo de “radar na Amazônia”. Inicialmente um projeto de
levantamento de “recursos naturais” exclusivamente na Amazônia brasileira, viria
a ser estendido ao conjunto do território nacional com o nome RADAMBRASIL.
Lamentavelmente, o conhecimento sobre a sua história ainda é escasso; seria
importante que se fizessem pesquisas em profundidade sobre o projeto RADAM/
RADAMBRASIL para que se possa conhecer melhor este projeto que, sobretudo,
constitui uma grande realização científica, cujos efeitos se fazem sentir ainda hoje.
45  A classificação fitogeográfica finalmente adotada pela UNESCO, em 1973, foi
considerada excessivamente complexa por Veloso e colaboradores, que optaram
pela versão apresentada por estes autores em 1967. Ver ELLENBERG, Heinz e
MUELLER-DOMBOIS, Dieter (1967) “Tentative physiognomic-ecological classification
os plant formations of the earth”. Berichte des Geobotanischen Institutes der Eidg.
Techn. Hchschule Stiftung Rübel 37, Zürich, 1967, pp. 21-55. O sistema apresentado
neste artigo toma como ponto de partida, por sua vez, a chamada “Classificação
de Yangambi”, que recebeu esta denominação em razão de sua elaboração coletiva
por um conjunto de naturalistas reunidos na cidade do mesmo nome, no Congo,
em 1956, em um seminário que objetivava discutir sistemas de classificação da
vegetação africana em bases universalistas (ver: AUBRÉVILLE, A. “Accord à Yangambi
sur la nomenclature des types africains de vegetation”. Bois et Forêts des Tropiques,
N º 5, 1957, pp. 23-27.). Um revisão suscinta sobre os sistemas de classificação
fitogeográficos pode ser encontrada na segunda edição revista e ampliada do

Metamorfoses florestais 79
Manual Técnico da Vegetação Brasileira: BRASIL. MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO,
ORÇAMENTO E GESTÃO. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS. COORDENAÇÃO DE RECURSOS NATURAIS E
ESTUDOS AMBIENTAIS. Manual técnico da vegetação Brasileira. Rio de Janeiro:
IBGE, 2012. Disponível em: ftp://geoftp.ibge.gov.br/documentos/recursos_naturais/
manuais_tecnicos/manual_tecnico_vegetacao_brasileira.pdf
46  VELOSO. Henrique Pimenta; GÓES FILHO, Luiz. “Fitogeografia brasileira: classificação
fisionômica ecológica da vegetação neotropical”. Boletim Técnico do Projeto
RADAMBRASIL, Série Vegetação, Nº 1, 1982. VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO,
Antonio Lourenço Rosa; LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira,
adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Ministério da Economia, Fazenda
e Planejamento, Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Diretoria de
Geociências, Departamento de Recursos Naturais e Estudos Ambientais, 1991.
47  URURAHY, José Cláudio Cardoso; COLLARES, José Enilcio Rocha; SANTOS,
Manoel Messias e BARRETO, Rubens Antonio Alves. (1983) “Vegetação: as regiões
fitoecológicas, sua natureza e seus recursos econômicos: estudo fitogeográfico”.
In: BRASIL. MINISTÉRIO DAS MINAS E ENERGIA, SECRETARIA GERAL. Projeto
RADAMBRASIL. Levantamento de recursos naturais volume 32 folhas SF.23/24, Rio
de Janeiro-Vitória. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1983,
pp. 553-623. Ver especialmente o item 4.4.4, “vegetação remanescente como fator
de reconstituição” (pp. 573-4).
48  “A fitogeografia deveria seguir os mesmos conceitos filosóficos das outras
ciências da natureza, como por exemplo: as classificações pragmáticas da lógica
científica, em que o sistema de chaves binárias dos conceitos prioritários prevalece
na nomenclatura geológica, pedológica, botânica e zoológica. Assim, a nomenclatura
terminológica é a mesma em todos os continentes e países. [ ... ] Mas a nomenclatura
do sistema vegetal tem variado conforme cada autor e de acordo com o país de
origem, onde se procurou sempre uma designação regionalista sem levar em conta
a prioridade da fisionomia ecológica semelhante de outras partes do planeta.”
(VELOSO et al, Op. cit., 1991, P. 13). Neste mesmo trabalho, os autores fazem críticas
severas às tentativas de classificação anteriores que utilizam termos como “caatinga”,
“cerrado” etc (idem, pp. 17-18).
49  CHRISTOFOLETTI, Antônio. “A geomorfologia no Brasil. In: FERRI, Mário
Guimarães e MOTOYAMA, Shozo (org.). História das ciências no Brasil. São Paulo:
EPU; Editora da Universidade de São Paulo, 1980, p. 231.
50  ACOT, Pascal. História da Ecologia. Rio de Janeiro: Campus, 1990. WORSTER,
Donald. Nature’ s economy: a hitory of ecological ideas. New York: Cambridge
University Press, 1994. Warming esteve no Brasil ainda muito jovem, entre 1863 e
1866 - tinha apenas vinte e um anos ao chegar - e viria a se tornar um cientista
“revolucionário”. Em 1895 publicou um trabalho que tornou-se um clássico - em
alemão, com o título Plantesamfund - e tornou-o pioneiro da teoria da sucessões
ecológicas. A passagem pelo Brasil deu origem a uma monografia extremamente
importante para as ciências brasileiras - ver: WARMING, Eugenio. Lagoa Santa:
contribuição para a geographia phytobiologica. Bello Horizonte: Editora Official do
Estado de Minas Geraes, 1908. O botânico sueco C. A. M. Lindman, citado acima,

80 Cabral & Bustamante (orgs.)


embora menos conhecido, deve ser incluído nesta linhagem de pesquisadores.
51  DANSEREAU, Pierre. “Introdução à biogeografia”. Revista Brasileira de Geografia,
Ano XI, Nº 1, janeiro-março de 1949.
52  Idem, p. 22. O autor assinalava, assim, o fato, ainda hoje observado, da ocorrência
pontual de Araucaria angustifolia - o pinheiro do Paraná - em algumas áreas mais
elevadas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, em meio a formações ombrófilas
latifoliadas.
53  KLEIN, Roberto M. “O aspecto dinâmico do pinheiro brasileiro”. Sellowia - Anais
Botânicos do Herbário Barbosa Rodrigues, Itajaí, Santa Catarina, Ano XII, Nº 12, 15
de maio de 1960.
54  CÂMARA, Op. cit., 1991, p. 40. A teoria dos refúgios pleistocênicos esteve voga, no
Brasil desde os anos 1980, quando supostas ocorrências de refúgios foram considerados
como critério para seleção de áreas potenciais para o estabelecimento de unidades de
conservação, como pode ser visto no Plano do Sistema de Unidades de Conservação
do Brasil de 1982, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (PÁDUA, Maria
Tereza Jorge; PORTO, Eduardo Lourenço Rocha; BORGES, Gabriel Cardoso; BESERRA,
Margarene Maria Lima. Plano do sistema de unidades de conservação do Brasil – II etapa.
Brasília: Ministério da Agricultura, Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal;
Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, 1982.) Este plano foi co-patrocinado
pela Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, cujo presidente, na ocasião,
era o recém aposentado almirante Ibsen Câmara.
55  HAFFER, Jürgen. “General aspects of the Refuge Theory”. In: PRANCE, Ghillean T.
(ed.) Biological diversification in the tropics. New York: Columbia University Press, 1982.
56  CÂMARA, Op. cit., 1991, p. 61. Como dito acima, esta teoria esteve em grandevoga,
no Brasil, durante os anos 1980, quando os supostos refúgios pleistocênicos foram
considerados, inclusive, como critério para seleção de áreas potenciais para o
estabelecimento de unidades de conservação, como pode ser visto no Plano do
Sistema de Unidades de Conservação do Brasil de 1982, do Instituto Brasileiro de
Desenvolvimento Florestal (Pádua et a.l. 1982) – plano este, aliás, co-patrocinado
pela Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, entidade cujo presidente,
na ocasião, era o recém aposentado almirante Ibsen Câmara
57  WALTER, Heinrich. Vegetação e Zonas Climáticas. São Paulo: E.P.U., 1986.
58  CÂMARA, Op. cit. 1991, p. 18.
59  MORELLATO, L.P.C.; Haddad HADDAD, C.F.B. 2000. “Introduction: the Brazilian
atlantic forest”. Biotropica, 32(4b), 2000, pp. 786-792.
60  COUTINHO, Leopoldo Magno. “O conceito de bioma”. Acta Botanica Brasilica,
20(1), 2006, pp. 13-23.
61  ASSUMPÇÃO, Leilah Landim. A invenção das ONGs: do serviço invisível à profissão
sem nome. Tese de Doutoramento. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, 1993.
62  Sobre este ponto, deve ser destacado o Banco Mundial que, como instituição
gestora do Global Environment Facility (GEF) - fundo criado em 1991 e estruturado
na Conferência das Nações Unidas de 1992, destinado ao financiamento de projetos

Metamorfoses florestais 81
ambientais nos países “em desenvolvimento” - viria a desempenhar um papel
proeminente na política ambiental no Brasil, através de projetos como o Programa
Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7) e o Projeto de
Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (PROBIO),
por meio do qual foram realizados os workshops referidos acima, de identificação de
áreas prioritárias para conservação no âmbito da Política Nacional de Biodiversidade.
*   Este capítulo baseia-se, em grande parte, na tese defendida pelo autor junto ao
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, há alguns anos: CASTRO, Leonardo. Da biogeografia à
biodiversidade: políticas e representações da Mata Atlântica. Tese de Doutoramento.
Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa
de Pós-graduação em Antropologia Social, 2003. Algumas atualizações e correções
foram introduzidas, sem acarretar alterações a de reiterar os agradecimentos ao
meu orientador, José Sergio Leite Lopes. Como é usual (e necessário!) registrar, erros,
lacunas e omissões são de responsabilidade exclusiva do autor.

82 Cabral & Bustamante (orgs.)


II

Mundos paleoindígenas
Os habitantes pré-coloniais da
Mata Atlântica Nordestina

Carlos Etchevarne
Universidade Federal da Bahia

À chegada dos colonizadores portugueses, no Nordeste bra-


sileiro, predominava uma paisagem caraterizada por uma densa e in-
comensurável floresta tropical. Se, por um lado, essa mata incentivou
a instalação de núcleos de habitação pelo aproveitamento de algumas
espécies vegetais, por outro, limitou a sua expansão como uma bar-
reira impenetrável, seja pela dificuldade de trânsito que oferecia ou
pela periculosidade de alguns grupos indígenas que a habitavam. Com
nuances diversas, essa condição de duplo significado perdurará, em
muitas regiões do Nordeste, século XIX adentro.
Os primeiros cronistas portugueses, como Pero de Magalhães
Gândavo, Fernão Cardim e Gabriel Soares de Sousa, entre outros, as-
sim como alguns missionários jesuítas, deixaram escritas suas impres-
sões sobre a natureza luxuriosa e pródiga das regiões litorâneas do
Nordeste e de outras latitudes do Brasil, as quais eles conheceram,
pessoalmente, ou através de informantes.1 Esses cronistas também
descreveram os grupos humanos que habitavam esses territórios de
mata tropical, tentando separar, classificar, circunscrever e caracteri-
zar o universo social complexo que se lhes apresentava tão diferente
e, de certa forma, incompreensível. Suas notícias, hoje, proporcionam
importantíssimos dados etnográficos para demonstrar a variedade de
organizações humanas e a dinâmica em que elas estavam envolvidas,
nesse primeiro século de ocupação territorial. Com esses dados já se
pode confirmar a heterogeneidade étnica e o dinamismo nas relações
sociais intra e extra-grupais, no período de contato, cabendo o pressu-
posto de que essas e outras configurações sociais já se encontravam
estabelecidas quando da chegada dos colonizadores portugueses.
Por sua vez, os estudos arqueológicos realizados no Nordeste,
na faixa de domínio da Mata Atlântica, corroboram, de forma concreta
e localizada, a existência de núcleos habitacionais pré-coloniais. São
Metamorfoses florestais 85
os resultados de muitos anos de pesquisas de campo que permitiram
traçar um panorama sócio-histórico geral, embora existam áreas com
informações lacunares. Trata-se de um quadro arqueológico suficien-
temente consistente, de maneira que é possível reconhecer certas
recorrências nas características dos vestígios, que são consideradas
pelos pesquisadores como unidades ou padrões culturais. Essas cate-
gorias classificatórias são aplicadas no processo de identificação e in-
terpretação de conjuntos de vestígios. Ao mesmo tempo, elas também
permitem apontar as particularidades diferenciadoras que estão pre-
sentes em certas situações arqueológicas que parecem não responder
às padronizações consagradas.
Para explicar a ocupação humana, na região nordestina de
Mata Atlântica, devem-se levar em conta alguns aspectos fundamen-
tais sobre a própria natureza dessa floresta úmida brasileira, assim
como dos processos de apropriação antropossocial dos seus recursos
naturais. As relações entre ambiente e grupo humano são sempre his-
toricamente contingentes e, portanto, passíveis de transformações.
Em primeiro lugar, é preciso compreender que a extensão da
Mata Atlântica, no período holocênico (a partir de 12.000/10.000 anos
atrás) – quando o território começa, de fato, a ser ocupado, extensi-
va e intensivamente – teve variações substanciais. A partir da região
litorânea, a Mata Atlântica pode ter se estendido por centenas de qui-
lômetros para o interior, nos períodos de máxima expansão, acompa-
nhando as oscilações climáticas.
Ainda hoje presentes, em pequenos enclaves com umidade
perene, como grotões profundos e boqueirões, circundados por áreas
mais secas e até semiáridas, aglomerações de espécies típicas da Mata
Atlântica são interpretadas como um refúgio ecológico. Essas relíquias
de uma situação climática e biológica diferente da atual acusam um pro-
cesso de retração do bioma. Como exemplo, pode-se citar a Serra da
Esperança, no município de Morro do Chapéu, extremo oeste da Cha-
pada Diamantina, a mais de 450 km do litoral. Isto significa que os sítios
arqueológicos localizados em regiões em que hoje existe uma cobertura
vegetal de clima mais seco podem ser vestígios de aldeias outrora loca-
lizadas em ambientes muito mais úmidos, como os de floresta densa.
Principal causa de mudanças dos biomas, o conjunto de os-
cilações climáticas, no Nordeste, não está todo ele devidamente en-
86 Cabral & Bustamante (orgs.)
quadrado do ponto de vista cronológico nem correlacionado com seus
efeitos, em todas as partes. Porém, em geral, se reconhece a existência
de avanços e de retrocessos das formas bióticas ainda hoje encontra-
das na paisagem. Atualmente, o processo de diminuição dos índices
pluviométricos – com o consequente aumento territorial do semiárido
nordestino e a retração de outras formas mais úmidas, por exemplo –
tem sido constatado, no lapso de tempo de uma única geração huma-
na. No registro geológico, contudo, observamos as transformações de
longuíssima duração. As transgressões marinhas que ocorreram, apro-
ximadamente, há 5.500 anos, e outra menor, há cerca de 2.500 anos,
por exemplo, provocaram o aumento do nível do mar e a penetração
das águas pelos vales dos rios, aumentando consideravelmente as áre-
as de mangues para o interior e fazendo com que populações maris-
queiras litorâneas ocupassem territórios a muitos quilômetros de dis-
tância da costa. Os sambaquis fluviais do Buranhém, sul da Bahia, são
um bom exemplo desta situação.
Em resumo, a premissa é de que a distribuição dos compo-
nentes do mosaico de biomas contemporâneos do Nordeste não é
necessariamente igual àquela com que as populações pré-coloniais
tiveram de lidar para construir seus modos de vida. Por isso, às vezes,
os sítios arqueológicos pré-coloniais descobertos pelos pesquisadores
podem estar representando uma forma de adaptação a um meio natu-
ral que já não existe mais naquele lugar.
Outro aspecto que deve ser considerado é a ocorrência de va-
riação paisagística, especialmente no âmbito litorâneo. No Nordeste, a
enorme extensão de Mata Atlântica é sem dúvida um fator de peso na
caracterização da faixa costeira. Porém, ela coexiste com outros com-
ponentes topográficos e bióticos que não podem ser menosprezados.
Eles proporcionam recursos que podem ser aproveitados por grupos
humanos. Identificá-los abre um repertório de dados que podem ser
utilizados para a interpretação sócio-histórica. De fato, entre as ma-
tas densas e as praias, se encontram diferentes setores de campos de
dunas com cobertura vegetal, às vezes com lagoas litorâneas, estuá-
rios e enseadas com mangues e as extensas planícies marinhas, com
paisagem típica de restinga. Os limites de cada uma dessas unidades
ambientais se correlacionam com a estrutura geomorfológica que as
suportam e ao sistema hídrico e pluvial de que se abastassem.
Metamorfoses florestais 87
Do ponto de vista arqueológico, é imprescindível considerar
as possibilidades que esses ambientes oferecem, em termos da logís-
tica de sobrevivência, aos grupos humanos. Isto aponta para o aprovi-
sionamento de alimentos, a disponibilidade de fontes de matéria pri-
ma para instrumentos ou para a organização do sistema de segurança
do núcleo habitacional (seja contra os agentes naturais ou contra as
investidas de grupos inimigos).
Ademais, os grupos humanos não se limitaram a explorar um
único ambiente natural. Muito pelo contrário, os achados arqueológi-
cos permitem deduzir que existiriam, no mínimo, três situações pos-
síveis de aproveitamento: a) uma utilização simultânea, diversificada
e seletiva dos ambientes disponíveis; b) uma alternância sazonal na
atividade de exploração; c) uma mudança temporal dos padrões de
apropriação dos recursos ambientais. Embora as sociedades tendam
a padronizar seus comportamentos, eles não são totalmente rígidos
nem permanentes. Deste modo, os sítios arqueológicos representam
algumas das situações mencionadas acima.
Finalmente, há que se ressaltar que os grupos humanos não
exploram a totalidade dos elementos que o ambiente natural lhes ofe-
rece. Em princípio, deve ser considerado que o uso do espaço e o apro-
veitamento dos recursos ambientais estão condicionados às escolhas
culturais que orientam as ações grupais e, obviamente, as individuais.
Como conclusão de todo o exposto acima, ficam explicitas
duas premissas, que devem estar presente, a fortiori, na interpretação
sócio-histórica:

1. Os sítios arqueológicos encontrados em área de Mata


Atlântica representam grupos sociais que, além da flores-
ta, podem ter explorado outros tipos de ambiente para
suas atividades vitais;
2. Os sítios arqueológicos representativos de típicos habitan-
tes de floresta densa, mas encontrados hoje em outros
biomas, podem indicar oscilações (avanços e retrocessos)
nos territórios de mata atlântica ou então um processo
histórico de migração e abandono do âmbito original.

88 Cabral & Bustamante (orgs.)


Grandes unidades socioculturais da
Mata Atlântica Nordestina

(com ênfase na Bahia)


Décadas atrás, os estudos sobre populações indígenas pré-co-
loniais constituíram o ponto de partida das pesquisas sistemáticas em
Arqueologia, em diversas regiões do Brasil. Não obstante, o caminho
percorrido foi descontínuo, com largas interrupções temporais e espa-
ciais. Deve se considerar ainda que, devido à natureza perecível dos
vestígios materiais das instalações pré-coloniais, os sítios arqueológi-
cos foram desaparecendo, ao longo dos séculos de ocupação europeia,
em grande parte pela intensa conversão agrícola da Mata Atlântica,
com destaque para as plantações de cana de açúcar e, mais tarde, o
fumo e o cacau. Isso explica a variação de freqüência e grau de preser-
vação dos sítios arqueológicos e, portanto, dos dados disponíveis para
cada região. Como resultado, há uma tendência à generalização, com
pouca observação das particularidades – ainda que se possa conside-
rar o panorama geral bastante fidedigno.
Dentre os grupos mais antigos, classificados como caçadores
e coletores, os sítios mais importantes da Mata Atlântica são, sem
dúvida, os sambaquis. Na verdade, até o momento, não foram detec-
tados, neste bioma, qualquer outro tipo de sítio referente a grupos
com economia essencialmente extrativista, como pescadores e os co-
letores de moluscos.
Essa dependência em relação aos recursos flúvio-marinhos
impede que os construtores de sambaquis sejam classificados, estrita-
mente, como povos da floresta. No entanto, a contiguidade dos man-
guezais ou de enseadas e estuários com as matas densas litorâneas,
somados aos restos biológicos encontrados em sambaquis, permitem
considerar um uso efetivo das florestas, principalmente das espécies
alimentícias de origem animal e vegetal.
Construções colinares de grandes dimensões, feitas à base de
conchas de várias espécies de moluscos, os sambaquis são os locais ves-
tigiais que mais se preservaram dos intemperismos climáticos – embora
não tanto dos antropismos. De fato, essas estruturas concheiras foram
bastante usadas, desde o período da colonização portuguesa, como ma-
téria prima para a fabricação da cal usada nas argamassas construtivas.
Metamorfoses florestais 89
Como resultado, é difícil encontrar sítios desta natureza, nas imediações
das cidades de origem colonial. Em Salvador, por exemplo, só se salva-
ram os restos do sambaqui da Pedra Oca, no bairro de Peri-Peri. A situa-
ção é parecida, no Recôncavo baiano, onde foram achados outros sítios
deste tipo em estado de degradação acentuado, quando não residual.
Em geral, os sambaquis encontram-se na beira do mar ou nas
suas proximidades. Porém, como já mencionado, existem sambaquis
fluviais, com composição malacológica marina. Esses grandes acúmu-
los intencionais de conchas variam, nas suas dimensões, entre 100 e
200 m de extensão, podendo alcançar, em alguns casos, até quatro
metros de altura. Eles contêm outros tipos de vestígios, como frag-
mentos de ossos de peixes, de aves e de animais terrestres habitantes
das matas tropicais.
Deve ser destacado que este tipo de sítio representa mais for-
temente padrões de instalação permanente, em contraposição à insta-
lação temporária. Isso se deduz do esforço social que implica a reunião
de uma enorme quantidade de conchas, que não são necessariamente
resíduos de alimentação. A construção de uma colina de conchas exi-
ge a programação de atividades coletivas duradouras e coordenadas.
Ainda que as funções dos sambaquis possam ter variado, no tempo e
no espaço, o princípio de construção planejada e participativa se man-
tém. Neste sentido, pode-se afirmar que a existência de um sambaqui
depende de organizações sociais dotadas de certo grau de complexi-
dade, e que as diferenciam de outros grupos considerados coletores.
Em termos comparativos, um aspecto que distingui os sam-
baquis do Nordeste daqueles do sul do Brasil são as suas dimensões.
A extensão e a altura dos sambaquis sulistas são bem maiores que os
nordestinos. No litoral nordestino, os sambaquis localizados até o mo-
mento variam na morfologia e no posicionamento no relevo. Alguns
foram construídos na desembocadura de cursos de água, sobre o mar,
como o de Pedra Oca, que constitui um montículo sobre um relevo
já proeminente. Outros foram formados sobre uma planície de inun-
dação, entre dois cordões litorâneos de dunas, a exemplo dos que se
encontram no município de Conde, no litoral norte da Bahia, com for-
mato conoidal. Os sambaquis fluviais do rio Buranhém, no município
de Porto Seguro, se apresentam como acúmulos baixos de no máximo
três metros de altura e de menos de 70 m de extensão.
90 Cabral & Bustamante (orgs.)
Os sambaquis estão vinculados à própria história da ciência
arqueológica, no Nordeste. Eles foram o motivo da primeira escavação
com técnicas de controle estratigráfico, no Nordeste, no início da dé-
cada de 1960. No já citado sambaqui da Pedra Oca, Valentin Calderón,
pesquisador da Universidade Federal da Bahia, obteve uma datação
radiocarbônica de cerca de 2.800 anos de antiguidade, sobre uma
amostra de carvão de fogueira, encontrada em um estrato da base do
sítio.2 A existência de restos de cerâmica, nos estratos inferiores, de-
monstra o grau de desenvolvimento tecnológico dos construtores de
sambaquis. O achado de cerâmicas é recorrente, em outros sambaquis
do Brasil, como os do Maranhão. Em Pedra Oca, Calderón encontrou
também peças líticas e fragmentos de esqueletos humanos associados
a sepultamentos de membros das populações que o construíram.
Na Bahia, outros sambaquis foram encontrados, recentemen-
te, como os da península de Maraú, no litoral sul, de Salinas das Mar-
garidas, no Recôncavo, além de outros no litoral norte. Mas, o aumen-
to da lista de locais com sambaquis também demonstra um crescente
interesse por parte dos pesquisadores por este momento da ocupação
humana, criando-se, assim, um novo mapa de ocorrências dessas ins-
talações. Com esses novos dados, abre-se uma nova perspectiva na
compreensão do universo dos sambaquis, protagonistas de um longo
período da história humana pré-colonial, na Bahia, antes da chegada
de grupos de horticultores.
No Nordeste, os registros arqueológicos apontam uma des-
continuidade de vários séculos entre os sítios de sambaquis e as pri-
meiras manifestações de grupos cultivadores e construtores de gran-
des aldeias. Por um lado, isto pode ser explicado por um fraco esforço
de pesquisa, por parte dos arqueólogos. Outro fator explicativo reside
na desaparição dos vestígios, já que, por ação dos intemperismos e a
proliferação de microrganismos, os elementos testemunhais perecem
com mais facilidade em clima quente e úmido.
O que atualmente pode ser confirmado pela arqueologia é a pre-
sença de grupos horticultores a partir do século X d.C., constituindo hori-
zontes culturais de longa duração, em extensos territórios que atingem
quase todo o Nordeste, incluindo a totalidade de áreas de Mata Atlântica.
Em linhas gerais, os arqueólogos identificaram grandes unida-
des culturais classificadas como as tradições Aratu e Tupi. Elas englo-
Metamorfoses florestais 91
bam diversos contingentes populacionais que compartilharam certos
elementos da tecnologia adaptativa, em especial a cerâmica. É a partir
desse elemento diagnóstico que se inicia o reconhecimento da filiação
cultural, ou seja, o pertencimento dos restos materiais a um ou a outro
grupo social. Em Arqueologia, essas categorias classificatórias, defini-
das por certos aspectos da cultura material, formam parte de um re-
curso metodológico que pressupõe o reconhecimento de certos traços
recorrentes. Mas deve ser destacado que estes agrupamentos podem
estar ocultando diversidades étnicas importantes, que não são neces-
sariamente identificáveis na materialidade da cultura.
Pelo que se conhece até o presente, os representantes do ma-
cro grupo Aratu foram os primeiros a chegar ao território do Nordeste.
Seguindo a tradição arqueológica, o nome Aratu deriva do primeiro
sítio encontrado – neste caso, na baía de Aratu, no Recôncavo baia-
no –, já que se desconhece o etnônimo original desses grupos. Não
obstante, os arqueólogos convencionalmente associam os sítios Aratu
aos grupos étnicos de tronco linguístico Jê, posto que existem locais,
no Planalto Central, aonde a arqueologia e a etnohistória detectaram
uma ocupação continuada desses grupos, desde antes da chegada dos
colonizadores até, pelo menos, o século XVIII.
O elemento diagnóstico principal do grupo Aratu é a urna fu-
nerária. Trata-se de um recipiente cerâmico de forma piriforme, com
base afinada e corpo que se alarga até as paredes curvarem para o
centro, onde se localiza a boca, de bordo simples. A urna é fechada por
outro recipiente, o opérculo ou tampa, com forma de cone. Em ambos
os recipientes, a parte externa das paredes é lisa, sem decoração e sem
vestígios de outros usos que não o funerário, tanto interna quanto ex-
ternamente. Neste sentido, deve ser ressaltado que, nas camadas su-
perficiais dos sítios arqueológicos – correspondentes ao solo da habi-
tação –, não há fragmentos de recipientes parecidos com os das urnas.
Elas só aparecem no estrato correspondente aos enterramentos, o que
deve ser interpretado como uma especialização da função mortuária.
A morfologia do recipiente é comum em todos os enterra-
mentos, variando apenas nas dimensões – conforme seja um indivíduo
adulto, adolescente ou criança. Esta repetição da forma se observa em
qualquer região, desde o litoral até o cerrado, aonde as urnas forem
encontradas. Essa constância da forma, bem como a ausência de deco-
92 Cabral & Bustamante (orgs.)
ração, no tratamento de superfície, remetem fortemente ao seu gran-
de valor simbólico como instrumento funerário de alta eficácia, nos
rituais de passagem de uma vida para outra.
O corpo devia ser colocado completo, ainda flexível, em po-
sição fletida ou fetal, como pode ser deduzido através da distribuição
dos ossos. Estes são encontrados em conexão anatômica seguindo as
etapas naturais de decomposição dos tecidos conectivo e muscular.
Com o corpo desta forma, a cabeça do indivíduo ficava à altura do
opérculo e era protegida por este. Dentro do vasilhame funerário po-
diam ser colocados, como acompanhamento do indivíduo, pequenas
tigelas, rodelas de fuso, pingentes e colares confeccionados com ossos
e dentes de animais ou com conchas de moluscos; tais objetos não
pertenciam necessariamente ao morto, embora isto seja provável, na
maior parte dos casos. Embora não tenham ainda sido descobertos
indícios que comprovem essa prática ritual, também é provável que
fossem depositados outros elementos votivos de origem orgânica,
como tecidos, couros e penas de adornos utilizadas pelo morto, além
de frutos e raízes que costumavam alimentá-lo.
Os grupos Aratu eram demograficamente importantes. Orga-
nizavam suas aldeias com um número variável de casas de forma apro-
ximadamente circular e, em geral, eram de grandes proporções. Se
considerarmos alguns exemplos de aldeias Aratu, em área atualmente
de cerrado, como as da Vila de Piragiba, pode-se comprovar que elas
se estendiam por quase 30.000 m2. Neste espaço, foram identificadas
mais de 130 urnas, o que é um indicador de adensamento populacio-
nal e longo tempo de permanência no local.3
Em área atualmente de Mata Atlântica, na região sul da Bahia,
outro exemplo pode nos dar mais informações sobre as dimensões.
Na localidade de Água Vermelha, na Reserva Indígena Caramuru Pa-
raguaçu, no município de Pau Brasil, foram localizadas, pelos mem-
bros das comunidades indígenas que ali vivem, várias urnas quando
se preparava, com um arado, uma área para o cultivo, próxima a um
rio. Outros recipientes funerários foram mapeados sob uma vegetação
mista de espécies arbóreas nativas e plantas de cacau, cultivo introdu-
zido em meados do século XX. Por estarem cobertas pela vegetação
das plantações não foi possível identificar a verdadeira extensão. Mas
os pontos de localização de três urnas retiradas para restauração e de
Metamorfoses florestais 93
outras situadas embaixo dos cacaueiros distam 300 m, entre si, no mí-
nimo, indicando um agrupamento de grandes dimensões. Há ainda as
informações arqueológicas produzidas desde a década de 1970, em
que se mencionam sítios com grande dispersão interna dos vestígios
arqueológicos e dezenas de sepultamentos em urnas.4
Em função dos recipientes domésticos considerados de pro-
dução alimentar não serem apropriados para o processamento da
mandioca brava – isto é, objetos resistentes ao fogo e que permitam
a eliminação da toxicidade da raiz e a preparação do bolo de beiju –,
supõe-se que os Aratu cultivavam outro tubérculo além do milho – o
aipim. Isso significa que as instalações Aratu compreendiam não so-
mente as grandes aldeias, construídas em clareiras abertas na mata
tropical, mas também as roças, que poderiam ir mudando de lugar à
medida que os solos fossem se esgotando.
Foram encontrados sítios Aratu em outros estados do Nordes-
te, como em Alagoas e Sergipe, sempre em área de Mata Atlântica. Na
Bahia, a concentração é maior no Recôncavo, no litoral Norte, no ex-
tremo sul, além de algumas ocorrências no vale do rio Jequiriçá, áreas
que despertaram maior interesse dos pesquisadores.

Figura 1 – Recipiente Aratu. Acervo do MAE –


Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA.

94 Cabral & Bustamante (orgs.)


Mas, existe uma particularidade nos sítios dos grupos Aratu
do sul da Bahia que precisa ser ressaltada. Vários sítios arqueológi-
cos foram encontrados em Porto Seguro, Eunápolis e Itanhém, com
uma particularidade nas urnas e no material cerâmico não ritualístico.
Eles apresentam alguns tipos de decoração que são próprios de outros
grupos não Aratu. As urnas, especialmente, mantém o já mencionado
padrão morfológico, mas em torno da boca houve a preocupação de
colocar uma faixa de decoração corrugada, típica e quase exclusiva da
cerâmica Tupi. Vale lembrar que, nestes grupos, o corrugado corres-
ponde a um elemento decorativo (com provável atributo simbólico),
mas é também um importante procedimento técnico de confecção do
bojo, já que permite consolidar o rejunte dos roletes sobrepostos das
paredes dos vasilhames. A pressão com os dedos ou com espátulas, na
união dos roletes, configura um excelente recurso de junção.

Figura 2 - Água Vermelha. Reserva Indígena Caramuru Paraguaçu.


Fragmento corrugado.

No caso de alguns exemplares de urnas do sul da Bahia, o cor-


rugado não serve à confecção, sendo aplicado apenas sobre o corpo
Metamorfoses florestais 95
cerâmico como uma faixa decorativa. No sítio de Água Vermelha, em
Pau Brasil, foi comprovado que, nas urnas, coexistiam as duas formas
de tratamento de superfície: as que tinham o alisado simples – por-
tanto, a maneira tradicional de acabamento – e as que apresentavam
um elemento intrusivo: o corrugado. Considerando-se que o invólucro
para os rituais de morte é um elemento social altamente conservador,
a existência dessas duas técnicas de acabamento permite pensar que
a sua produção ocorreu num momento em que havia forças externas
que pressionavam pela inovação.

Figura 3 – Água Vermelha (Reserva Indígena Caramuru Paraguaçu). Sítio Aratu.


Rituais indígenas antes da retirada das urnas.

Neste sentido, as datações radiocarbônicas ajudam na susten-


tação de uma hipótese de contato interétnico. Os dados cronológicos
conseguidos por C14 e termoluminescência (TL) das urnas enquadram-se
na faixa temporal entre os séculos XIV e XV d.C., ou seja, um período em
que os adventícios grupos Tupi estavam em plena expansão sobre o ter-
ritório nordestino de mata tropical. Assim, a incorporação de elementos

96 Cabral & Bustamante (orgs.)


corrugados Tupi nas urnas Aratu, aplicadas com função não estrutural,
pode acusar um processo de transformação cultural mais generalizado
destes últimos grupos, diretamente ligado a pressões e conquistas dos
aguerridos Tupi ou, alternativamente, por contatos pacíficos, com ativi-
dades de troca e alianças, e consequente transmissão de informações.

Figura 4 – Água Vermelha (Reserva Indígena Caramuru Paraguaçu).


Pajelança prévia à retirada das urnas.

Ao longo de vários séculos, as diferentes ondas migratórias


Tupi a chegar ao nordeste brasílico ocuparam, preferentemente,
a mata densa, ambiente semelhante ao que eles haviam deixado
para trás, na bacia amazônica. Efetivamente, arqueólogos, linguis-
tas e etno-historiadores concordam que o início do processo mi-
gratório dos grupos Tupi (ou Proto-Tupi, como querem alguns es-
pecialistas) teria ocorrido em uma área provavelmente localizada
entre os rios Tapajós e Madeira, afluentes do Amazonas. Embora
diversas vias de migração tenham sido propostas pelos arqueólo-
gos, parece ponto pacífico que, pelos menos nos primeiros mo-

Metamorfoses florestais 97
mentos, o movimento migratório se orientou seguindo ambientes
de floresta tropical, como os de Mata Atlântica.

Figura 5 – Água Vermelha (Reserva Indígena Caramuru Paraguaçu) Retirada dos


sedimentos da urna corrugada, com evidenciação do crânio (vista do occipital),
ossos longos, clavícula e costelas.

Até o presente, as pesquisas demonstram que, no século IX,


já existiam materiais arqueológicos, no Nordeste, relacionados aos
grupos Tupi. Mas, em função da quantidade de locais com vestígios,
cabe pensar que a expansão se consolida a partir do século XII. As on-
das migratórias forçam o deslocamento de populações pré-existen-
tes, entre eles os grupos Aratu. Nesse sentido, alguns sítios no litoral
norte da Bahia, mostram dados bastante elucidativos. Eles contêm
fragmentos cerâmicos tipologicamente atribuídos aos dois grandes
grupos, Aratu e Tupi, sendo que os deste último encontram-se em
uma posição estratigráfica mais superficial, o que significa que são
mais recentes. Essa sobreposição de materiais é um indicador indis-
cutível de que houve uma reocupação, embora não esteja claro se
ela corresponde a um processo de conquista, ou simplesmente a uti-
98 Cabral & Bustamante (orgs.)
lização de um espaço já abandonado. De todo modo, os exemplos de
sobreposição constituem uma documentação clara de que os grupos
Tupi foram os últimos a chegar.
As evidências arqueológicas são coincidentes com as notícias
etnográficas fornecidas por Gabriel Soares de Sousa, no final do século
XVI. Na sua obra Tratado descritivo do Brasil, este cronista reproduz o
depoimento de um velho índio Tupinambá, que explica, fazendo uso
de fragmentos da história oral, as diferentes movimentações dos gru-
pos indígenas sobre o território do Nordeste, antes da chegada dos eu-
ropeus.5 Dessa transcrição podem ser apontados três aspectos. O pri-
meiro é a mobilidade territorial dos grupos Tupi, em ondas migratórias
de diferentes etnias. O segundo diz respeito ao processo de interio-
rização, pelos “sertões”, por pressão de deslocamentos sucessivos, o
que implicitamente reconhece que eles se movimentavam, primordial-
mente, pela área litorânea de mata densa. O terceiro aspecto refere-se
à existência de grupos sociais genericamente chamados de Tapuias, ou
seja, não Tupi, que foram deslocados para o interior à medida que as
várias ondas dos conquistadores iam chegando.
Desta forma, à chegada dos portugueses existia na faixa lito-
rânea uma franca dominação territorial, majoritariamente Tupinambá
e Tupiniquim, além de outros grupos aparentados linguisticamente.
Isso não significa homogeneidade étnica. Pelo contrário, existia diver-
sidade entre os próprios Tupi, e talvez, entre os grupos tupinizados,
sem contar outros grupos arredios de grande mobilidade territorial e,
por isso, dificilmente domináveis.
Em área atual de Mata Atlântica, os sítios arqueológicos cor-
respondentes a aldeias Tupi são de grandes dimensões e aproximada-
mente circulares. Nisto eles se assemelham bastante aos Aratu, coin-
cidindo também no posicionamento no espaço, abrindo clareiras na
mata, em relevos planos ou de suave declividade. Mas, no que se re-
fere à cultura material, a diferença mais substancial entre sítios Tupi e
Aratu reside na cerâmica que revela tecnologias e funções adequadas
ao uso da mandioca brava.6
Ainda que se refiram a grupos Tupi de outras partes do Brasil,
os cronistas e missionários dos séculos XVI e XVII, como Hans Staden,
informam bastante sobre a vida cotidiana destes grupos.7 As descri-
ções e as iconografias por eles deixadas sobre as aldeias e roças corro-
Metamorfoses florestais 99
boram os dados arqueológicos e ajudam a interpretar a funcionalidade
e as circunstâncias em que os artefatos eram produzidos e utilizados.
Já o registro arqueológico, nos sítios Tupi, permite identificar
muito claramente que havia poucos limites nos padrões cerâmicos.8
As formas de recipientes são variadas, muitas vezes compostas, algu-
mas de pequenas dimensões (15m de diâmetro da boca) e outras de
mais de um metro de altura e 80 cm de diâmetro, na boca. Neste últi-
mo caso, trata-se de grandes contentores de líquidos em que se podia
processar o cauim, bebida fermentada da mandioca, ingerida coletiva-
mente nos rituais festivos. Para eles, as formas variavam, muitas com
morfologia composta em cuja parte central normalmente havia uma
carena dividindo o bojo cerâmico em dois. A parte superior se expande
e, a partir da carena, se retrai até formar a boca.
Há outro tipo de vasilhame cuja freqüência de ocorrência, nos
conjuntos cerâmicos dos sítios, indica terem sido de vital importância
econômica. São os chamados assadores, objetos largos, baixos, de fun-
do plano e perímetro quadrangular, com bordas reforçadas e decora-
das com pintura. Eles serviam à preparação da polpa da mandioca que
seria exposta ao fogo e detoxificada para, posteriormente, compor os
beijus. É a partir do elevado número de fragmentos dessa categoria
de vasilhames que se deduz o importante papel que a mandioca brava
tinha na dieta alimentar dos grupos Tupi.
Esses dois tipos de recipientes, contentores e assadores, eram
empregados também para o sepultamento de membros da aldeia nas
proximidades das suas casas. Dentro dos contentores de líquidos eram
colocados os indivíduos mortos, em posição fletida. Os assadores eram
colocados encima da boca, virados, à maneira de opérculo, evitando,
com isso, a entrada de sedimentos no vasilhame e evitando o seu con-
tato com o morto. Também podem ser encontrados assadores meno-
res dentro do contentor, junto ao indivíduo enterrado, como acompa-
nhamento funerário.
Neste ponto, convém ressaltar que a função primeira dos dois
recipientes estava vinculada à preparação e consumo de bebidas e co-
midas à base da mandioca brava. Assim, aqueles que foram utilizados
para enterramentos podem não ter sido escolhidos apenas pela sua
capacidade de armazenar o corpo, mas por algum atributo simbólico
derivado ou vinculado da produção de comida e bebida; em outras
palavras, a mandioca poderia participar da ritualização funerária e da

100 Cabral & Bustamante (orgs.)


deposição final do cadáver, enquanto elemento vital que acompanha-
va toda a vida do morto.
Neste sentido, cabe observar que ambos os tipos de recipien-
te foram decorados, majoritariamente, com pinturas bastante elabo-
radas. Cobrem toda a parte interna dos assadores (fundo e paredes)
elementos gráficos muito sutis, misturando retas, curvas e áreas pon-
teadas cuja realização exige uma preparação adequada e um esforço
particular. O mesmo cuidado gráfico foi dado às partes superiores ex-
ternas dos contentores de líquidos, usando-se, como nos assadores,
três cores diferentes: branco/creme, preto/marrom e vermelho. Esse
tratamento aprimorado das superfícies cerâmicas talvez indique que
os grafismos contivessem significados especiais, compartilhados e de-
codificados pelos membros dos grupos – tão importantes que precisa-
vam acompanhá-los na morte.

Figura 6 – Sítio Acacarai. Santa Cruz Cabralia. Detalhe de um assador Tupi.

Segundo os relatos do século XVI, os grupos Tupi do litoral da Bahia


foram os primeiros a receber os portugueses. Não é fácil encontrar registros
arqueológicos desses primeiros momentos de contato. A natureza efêmera
das instalações e as intensas transformações que a região sofreu prejudicam
a conservação de vestígios materiais. Entretanto, dois exemplos de sítios em

Metamorfoses florestais 101


locais onde a Mata Atlântica não foi muito alterada, até a década de 1990,
nos oferecem alguns dados sobre essa experiência social.

Figura 7 – Assador Tupi (restaurado) acervo do Museu de Arqueologia e


Etnologia da UFBA.

Figura 8 – Contentor de líquidos Tupi (restaurado) acervo do Museu de


Arqueologia e Etnologia UFBA.

102 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 9 – Fragmento de assador Tupi com detalhe de decoração pintada
na face interna.

O primeiro sítio arqueológico denomina-se Mirante de Cabrália e


se encontra sobre um amplo platô, próximo a um riacho, na beira das falé-
sias típicas dessa região do litoral baiano. Nessa implantação de aldeia ob-
serva-se um posicionamento estratégico para aproveitamento do ambiente
marinho, fluvial e terrestre (vegetação de Mata Atlântica que, na segunda
metade da década de 1990, começava a ser desmatada). Os vestígios en-
contravam-se espalhados por uma área de 800 m de diâmetro, aproxima-
damente, indicando uma grande aldeia. Os abundantes fragmentos cerâmi-
cos provaram se tratar, inequivocamente, de uma instalação Tupi. Chamam
a atenção as datações por termoluminescência dessas peças de cerâmica,
que indicam que o lugar era habitado quase 500 anos atrás – um achado
bastante provocativo em termos históricos. Ainda que não se possa afirmar
peremptoriamente, é possível que os habitantes dessa aldeia tenham tes-
temunhado a chegada dos primeiros portugueses, na esquadra de Cabral, o
que é confirmado tanto pela famosa carta de Pero Vaz de Caminha quanto
pela tradição local, que afirma existir, nas proximidades, um local parecido
com aquele em que se ofereceu a primeira missa, em território brasílico (9).

Metamorfoses florestais 103


O segundo sítio localiza-se três quilômetros ao norte do nú-
cleo original da atual cidade de Porto Seguro. Trata-se de um local com
vestígios de um engenho de açúcar, em uma área de restinga, próximo
a um córrego que corre paralelo à falésia, antes de desembocar no
mar. Concentrada em estratigrafia profunda, mas também, superficial-
mente, no curso de água, havia uma quantidade elevada de fragmen-
tos cerâmicos de formas de pão de açúcar, o que evidencia a atividade
açucareira. Os restos da construção desapareceram e só se encontra
enterrado um contrapiso, em que prevalece a cal como componen-
te; sobre ela havia uma variedade de fragmentos cerâmicos corres-
pondentes a pratos, panelas e jarras de produção portuguesa. Estes
estavam misturados a fragmentos de assadores Tupi e a um tembetá
(enfeite labial masculino) de pedra esverdeada, símbolo de status me-
ritocrático. Tudo isso conforma um extraordinário estrato de ocupa-
ção, e que atesta, materialmente, a convivência dos grupos indígenas
com os portugueses.
As datações do material cerâmico português revelam uma
antiguidade que remonta às duas primeiras décadas do século XVI. As
datações feitas para o material Tupi são coincidentes, corroborando o
que a disposição espacial dos fragmentos preconizava, ou seja, um claro
momento de contato. Confirma a existência de produção açucareira, no
início do século XVI – época anterior à institucionalização das capitanias
hereditárias, quando aparentemente não havia outra atividade além da
extração do pau Brasil – um documento encontrado, no Arquivo Geral
da Alfândega de Lisboa, em que o rei D. Manuel, em 1516, ordena seja
enviado para o Brasil pessoas capacitadas e ferramentas adequadas para
dar início à plantação de açúcar e à instalação de engenhos. Além disso,
há o relato de Gabriel Soares de Sousa. Ao enumerar as instalações por-
tuguesas ao longo da costa brasileira, o cronista faz uma breve alusão
ao engenho de um colono, um certo João da Rocha, cujas coordenadas
correspondem ao local onde se encontra o referido sítio: meia légua ao
norte de Porto Seguro, recifes que começam frente ao engenho, riacho
junto às “barreiras vermelhas” (falésias), e um rio próximo que se chama
Itacumirim, topônimo que ainda hoje é usado para esse setor de praia,
ligeiramente transformado em Itacimirim.
Por fim, deve ser enfatizado que, quando da chegada dos
portugueses à Mata Atlântica nordestina, os grupos Tupi, mesmo na
104 Cabral & Bustamante (orgs.)
sua heterogeneidade étnica, compunham uma macro unidade sócio-
-cultural indígena. Foi com esses grupos que os colonizadores tiveram
de conviver, estabelecer alianças e aprender sobre a natureza e seus
recursos, ainda que sua visão de mundo se sustentasse sobre bases
ideológicas muito diferentes.
_____________
1  GANDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Belo Horizonte/São
Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1980; CARDIM, Fernão. Tratados da Terra e Gente do Brasil.
Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP, 1980; SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado
Descritivo do Brasil em 1587. Recife: Ed. Fund. Joaquim Nabuco Massangana, 2000.
2  CALDERON, Valentin. O sambaqui da Pedra Oca. Salvador: Ed. Universidade
Federal da Bahia, 1964.
3  FERNANDES, Henry L. Os sepultamentos Aratu de Piragiba. Dissertação de
Mestrado. Salvador: UFBA, 2003.
4  ETCHEVARNE, Carlos. “O sítio de tradição Aratu de Água Vermelha, Reserva
Indígena Caramuru Paraguaçu, e suas implicações arqueológicas e etno-políticas”,
Cadernos de Arte e Antropologia 1 (1), 2012, pp. 53-57.
5  SOUSA, op. cit.
6  ETCHEVARNE, Carlos. “Os grupos Tupi na Bahia: uma abordagem arqueológica”.
In: OLIVEIRA, Ana Paula (org.). Estado da Arte das pesquisas arqueológicas sobre a
Tradição tupi-guarani. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2009, pp. 111-130; AZEVEDO NETO,
Carlos Xavier. Relatório das escavações realizadas em Alhambra, Fábrica de Cimento
Elizabeth, 2014.
7  STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ EDUSP,
1975.
8  OLIVEIRA, Claudia. “As fronteiras tecnológicas de grupos pré-históricos ceramistas
do Nordeste”. In: OLIVEIRA, op. cit., pp. 131-150.

Metamorfoses florestais 105


Dez mil anos de convivência:
A Arqueologia da Mata Atlântica do Sudeste

Astolfo G. M. Araujo
Museu de Arqueologia e Etnologia – USP

A noiva de Tiago apontou a enorme muralha verde-escuro


barrando o horizonte.

- Fica muito longe, Piratininga?


- Longe! - ecoou o escravo.
Com as sombras da tarde, e a aproximação daquele desfile
tenebroso de montanhas, que se encostavam eretas umas às
outras, numa procissão de guardas gigantescos, insinuava-se
na alma da moça uma desconfiança torturante [...].
Dinah Silveira de Queiroz, 19541

Vamos começar com um pouco de ficção histórica. Em 1531,


quando Martim Afonso de Souza chegou ao que hoje chamamos de São
Vicente – atualmente, um dos lugares mais degradados e poluídos do
mundo –, ele encontrou uma baía propícia à ancoragem dos frágeis bar-
quinhos que recebem o pomposo nome de caravelas. No entanto, o que
mais deve ter chamado sua atenção foi a muralha cuja cobertura verde
descia a serra, como uma imensa cachoeira, e se espraiava em um tape-
te verde, ameaçando engoli-lo juntamente com toda a tripulação. Ape-
sar de nunca podermos saber o que se passou, realmente, na cabeça dos
primeiros europeus que chegaram à costa sudeste do Brasil, é óbvio que
aquilo em nada se parecia com o que existia em Portugal. Talvez os mais
viajados, tendo conhecido a África, pudessem ter alguma familiaridade
com aquela paisagem. Os novatos, por seu turno, contentavam-se com
a experiência passageira das matas das ilhas oceânicas, como os Açores,
onde faziam escala para abastecimento dos navios; no entanto, conside-
rando-se a dimensão das ilhas e o processo de desflorestamento que já
vinha desnudando-as, havia algumas décadas, tratava-se de um ensaio
bastante pobre para o que estava por vir.
O que ficou patente bem rápido é que havia muita gente mo-
rando nessas matas. Uma quantidade enorme de indígenas falantes

106 Cabral & Bustamante (orgs.)


do Tupi vivia nas terras altas atrás da muralha verde, provavelmente
atraídos pela existência de dois grandes rios, o Tietê e o Pinheiros. O
planalto delimitado por esses rios era coberto por uma mata tropical
entremeada por vegetação mais aberta, os chamados campos. Essa
conjugação de rios de grande porte, florestas e campos oferecia enor-
mes quantidade e variedade de recursos. Nesse mosaico ambiental,
plantas e animais de diferentes ecossistemas viviam lado a lado. Pro-
vavelmente, parte dos campos já era resultado da presença dos in-
dígenas, que queimavam a vegetação para suas lavouras de milho e
mandioca. Hoje em dia, esse planalto abriga uma das maiores áreas
metropolitanas do mundo, a chamada Grande São Paulo. Os campos
ficaram preservados apenas nos nomes das vilas, que depois viraram
cidades: São Paulo (dos Campos de Piratininga), Santo André (da Bor-
da do Campo), São Bernardo do Campo, e assim sucessivamente. Das
árvores e dos indígenas, restam alguns nomes de rua.
Ao norte, a situação é diferente. No Rio de Janeiro, à época
da chegada dos primeiros europeus, a ocupação indígena do litoral pa-
recia mais densa. A região serrana era, provavelmente, menos apta à
ocupação humana, com relevo mais acidentado e altitudes superiores
às do Planalto Paulista. Apesar de culturalmente aparentados – eles
também falavam Tupi – os indígenas dessa região eram inimigos da-
queles do Planalto Paulista. Havia fronteiras definidas e rivalidade con-
siderável entre as diferentes tribos, ao longo dessa faixa costeira. Hou-
ve também momentos de união entre eles, seja contra portugueses,
franceses, ou europeus em geral.
Além dos Tupi, havia outros grupos linguísticos. Ao que tudo
indica, os grupos do tronco Jê também eram numerosos. Conhecidos
genericamente como “Tapuias”, “Botocudos” ou “Coroados” – e essa
nomenclatura variava tanto que é difícil rastrear grupos individuais ao
longo do tempo –, esses grupos eram tanto inimigos quanto aliados
dos Tupi e dos portugueses. Alguns deles mantiveram independência
por vários séculos, antes de serem efetivamente extintos. Em suma,
havia muita gente ocupando essa faixa de Mata Atlântica. A riqueza
de idiomas e de práticas culturais era, provavelmente, bem maior do
que a da Europa, um complexo mosaico etnolinguístico destruído pela
colonização. Até hoje ficamos impressionados com os diferentes cos-
tumes e dialetos, em vales vizinhos da Itália, por exemplo, ao mesmo
Metamorfoses florestais 107
tempo que, no Brasil, é comum a referência aos “índios” como se fos-
sem um único povo, como se as diferenças entre as línguas e dialetos
Tupi e Jê não fossem tão grandes como as diferenças entre os idiomas
português e alemão.
Por mais interessantes que sejam, esses dados linguísticos e
históricos constituem apenas a ponta do iceberg. A Arqueologia con-
segue nos dar um panorama do que aconteceu, ao longo de milhares
de anos; o que perdemos, em termos de detalhe, nós ganhamos, em
termos de profundidade. Podemos compor um quadro sobre a história
dessas populações, ao longo de centenas de gerações, até chegarmos
ao episódio da chegada de Martim Afonso de Souza. Para isso, vamos
dar um outro salto no tempo, retrocedendo ao período chamado de
“Ultimo Máximo Glacial”, por volta de 18.000 anos atrás.

De onde veio a Mata Atlântica?

Nessa visão de longo prazo, é preciso entender onde e como


a Mata Atlântica se formou, bem como a relação entre humanos e o
mundo ao seu redor. Evidentemente, essa divisão entre “humanos” e
“o mundo ao seu redor” é só uma alegoria, uma maneira didática de
apresentar as coisas. Na verdade, não há humanos sem “mundo ao
seu redor” e, portanto, trata-se de uma separação meramente analí-
tica. No entanto, há que se ressaltar que há mundo sem humanos. E é
nesse mundo que mergulharemos agora.
Voltamos 18.000 anos no tempo, e estamos agora em uma
praia. Atrás de nós, a oeste, há uma ampla planície, que se estende
por mais de 100 km, até onde a vista alcança. Essa planície é recoberta
por uma vegetação muito parecida com a Mata Atlântica. Na verdade,
estamos vendo as formas ancestrais das plantas que viriam a formar a
Mata Atlântica avistada, posteriormente, por Martim Afonso de Sou-
za; é como se estivéssemos observando a bisavó da Mata Atlântica.
Muito ao longe, há uma cadeia de montanhas, que nem conseguimos
enxergar, do ponto onde estamos. Essas montanhas e as terras altas
para além delas são muito frias, se comparadas à praia. Lá em cima,
há campos parecidos com os Pampas da Argentina. Estamos no último
máximo glacial. Em algum momento, o nível do mar vai subir 110 m

108 Cabral & Bustamante (orgs.)


acima do que vemos agora, e aquela serra longínqua vai ser chamada,
um dia, de “Serra do Mar”. Toda esta terra e toda a floresta que a re-
cobre ficará embaixo da água. Com o aumento da temperatura, as ge-
leiras derreterão e inundarão as áreas costeiras, “empurrando” a Mata
Atlântica terra adentro, serra acima. O clima frio da serra ficará mais
ameno, permitindo a colonização por parte das plantas adaptadas às
planícies tropicais.
E quanto aos humanos? Esse ainda é um tema controverso.
Na América do Sul pleistocênica, a presença humana é evidente,2 mas
não em todos os lugares. A nossa praia de 18.000 anos atrás até pode
ter sido ocupada por humanos, mas está tão profundamente submersa
que não somos capazes de explorá-la. Mesmo os locais longe da costa
potencialmente contenedores de sítios arqueológicos podem ter ex-
perimentado vários eventos de mudança climática rápida,3 resultando
em soterramento profundo, em alguns casos, e erosão, em outros. De
qualquer maneira, uma densidade demográfica provavelmente muito
baixa produziria um padrão altamente disperso de sítios arqueológicos
dessa idade. Por fim, a detecção desses sítios exigiria uma prospecção
arqueológica dirigida e informada por modelos geológico-geomorfo-
lógicos, uma abordagem que ainda engatinha, no Brasil. Em suma, há
vários possíveis motivos para não encontrarmos sítios do final do Pleis-
toceno, nessa faixa atualmente litorânea.
A despeito da relativa escassez de dados para os vales e terras
baixas, em geral,4 a gradativa subida do nível do mar gera um aumento
do sinal polínico – aumento do pólen relacionado a plantas que ficam
preservados nos fundos dos lagos – da Mata Atlântica, em vários lo-
cais.5 De fato, a maior parte dos dados paleoambientais provêm de to-
pos de montanhas e, portanto, refletem condições um tanto diferentes
daquelas reinantes nos terrenos mais baixos.

A presença humana na Mata Atlântica:


Primeiros sinais dos paleoíndios

Vamos dar agora mais um salto no tempo, 6.000 anos à fren-


te, chegando ao começo do Holoceno, 12.000 anos antes da atuali-
dade. O nível do mar começa a subir de maneira rápida, e agora está
Metamorfoses florestais 109
entre 20 e 30 m acima do que estava há 18.000 anos, mas ainda 80
m abaixo da linha de costa em que as naus portuguesas aportaram. A
Mata Atlântica continua avançando continente adentro, por conta do
aumento das temperaturas, ao mesmo tempo em que perde terreno
para o mar. É nesta faixa cronológica, no início do Holoceno, que come-
çamos a deparar com os primeiros sinais visíveis da presença humana,
os chamados grupos “Paleoindígenas”, dentro da Mata Atlântica (Figu-
ra 1). Há 10.000 anos atrás,6 já existiam grupos humanos acumulando
conchas de maneira intencional, formando montículos – os chamados
“sambaquis fluviais” –, no médio vale do Ribeira de Iguape, sul do Es-
tado de São Paulo.7 Compostos por conchas de água doce, esses sítios
refletem ocupações relativamente distantes da linha de costa, cerca
de 120 km em linha reta. No entanto, a presença de alguns artefatos,
como dentes de tubarão, sugere interação com a área litorânea.8
De maneira quase concomitante, aparecem vestígios de um
outro grupo humano, desta vez ao norte, em São José dos Campos,
médio vale do rio Paraíba do Sul. Este grupo é culturalmente distin-
to dos habitantes do vale do Ribeira de Iguape, pois não acumulam
conchas e detêm uma tecnologia de lascamento de pedra bastante
refinada, com a confecção de pontas.9 Pouco sabemos sobre este gru-
po, uma vez que apenas um sítio foi detectado, mas a abundancia de
material arqueológico sugere que há muitos outros, na região. Uma
datação obtida para o sítio indicou uma idade próxima a 10.000 anos.10
É possível que esses habitantes do Paraíba do Sul fossem relaciona-
dos a um outro grupo paleoindígena que também fabricava pontas de
pedra lascada, habitante de Pains, na Mata Atlântica do sul de Minas
Gerais.11 As idades obtidas para Pains beiram os 11.000 anos.12
Nessas áreas, a presença praticamente simultânea de grupos
culturalmente distintos reforça a ideia de que o povoamento da Amé-
rica do Sul não se deu de maneira rápida, e tampouco por uma leva
única de migração. Ao contrário, dados relacionados a outros grupos
paleoindígenas, habitantes do Cerrado e da Mata de Araucária, dão
ainda mais suporte a essa diversidade.13

110 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 1 – Sítios arqueológicos na Mata Atlântica do sudeste.

O Holoceno Médio: uma explosão cultural

Na medida em que o tempo avança e o nível do mar sobe,


começamos a ter mais e mais dados a respeito dos grupos humanos
que habitavam a Mata Atlântica. O mais visível e numeroso é o que
chamamos de “sambaquieiros”, ou seja, os grupos pescadores e cole-
tores do litoral, responsáveis pela acumulação intencional de conchas
formando, por vezes, verdadeiras montanhas. É verdade que o “apa-
recimento” desses sítios arqueológicos, por volta de 8.700 anos atrás

Metamorfoses florestais 111


– em pontos tão distantes como o litoral norte do Rio de Janeiro14 e o
litoral sul de São Paulo15 – pode refletir apenas uma questão de visibi-
lidade, já que há a possibilidade de sítios mais antigos e também rela-
cionados a recursos costeiros sejam abundantes, embora atualmente
submersos. Por outro lado, é igualmente possível que a feição mais
conspícua desse grupo, as acumulações de concha, esteja relacionada
a condições do Holoceno Médio, quando a temperatura aumenta e o
nível do mar chega aos patamares atuais – e até mesmo os ultrapassa,
em alguns momentos16 –, com a formação de grandes manguezais e
eventuais explosões de recursos marinhos facilmente coletáveis, espe-
cialmente moluscos.17
Esses grupos sambaquieiros costumavam enterrar seus mor-
tos dentro dos montes de conchas, o que resultou na preservação de
grandes quantidades de esqueletos humanos. Por isso temos uma
maior quantidade de dados sobre os construtores de sambaquis, em
comparação com outros grupos humanos que habitaram a Mata Atlân-
tica – dados estes que permitem inferências sobre o seu modo de vida
e suas características biológicas. Os estudos de antropologia biológi-
ca18 apontam que os sambaqueiros eram biologicamente parecidos
com os indígenas atuais, mas distintos dos paleoíndios, o que reforça
a ideia de que ao menos duas ondas migratórias tenham contribuído
para o povoamento das Américas.
Na região serrana do sul de São Paulo, os grupos humanos res-
ponsáveis pela construção dos sambaquis fluviais continuam em plena
atividade. Há fortes sinais de uma duradoura persistência cultural,19 in-
cluindo os contatos com o litoral, o que pode ser percebido nos itens
provenientes da costa. Paralelamente, ficam cada vez mais evidentes os
sinais da ocupação por grupos que lascavam pontas de pedra, conheci-
dos na literatura arqueológica como “Tradição Umbu”. Por vezes, essas
pontas aparecem sobre os sambaquis fluviais,20 sugerindo reocupação
desses locais; na maior parte dos casos, contudo, os sítios Umbu ocu-
pam compartimentos diferentes da paisagem.21 As evidências disponí-
veis sugerem que esses grupos do Holoceno Médio eram todos caça-
dores- coletores, mas é importante ter em mente que o uso de vege-
tais era, provavelmente, bastante disseminado.22 Esses dados sugerem
também uma grande diversidade cultural, talvez derivada do que já po-
dia ser observado no início do Holoceno; por exemplo, vastas áreas ao
112 Cabral & Bustamante (orgs.)
longo do vale do Paranapanema apresentam um registro arqueológico
que não se encaixa na Tradição Umbu.23 Mesmo em áreas vizinhas, pa-
rece ter havido fronteiras bem definidas entre os grupos, como é o caso
do Alto Paranapanema (lascamento simples, artefatos unifaciais) e do
médio vale do Ribeira (lascamento mais elaborado, pontas bifaciais24).
Além disso, mesmo quando há pontas, suas características sugerem que
foram manufaturadas por grupos distintos, dependendo da região.25 A
presença de caçadores-coletores, na região interiorana do Rio de Janei-
ro e do Espírito Santo, também devia ser muito expressiva, mas infeliz-
mente temos poucos dados a respeito, a maior parte deles dispersos em
relatórios técnicos e matérias de jornal.26
Em suma, a Mata Atlântica mostra uma diversidade cultural enor-
me durante o Holoceno Médio, mas o entendimento das relações cultu-
rais e cronológicas entre esses grupos ainda está longe de ser alcançado.

Um parêntese: A instabilidade climática do Holoceno Médio

Conforme já mencionado, o entendimento da ocupação huma-


na da Mata Atlântica não pode prescindir da compreensão das condi-
ções climáticas reinantes, no leste da América do Sul. Durante o Holo-
ceno Médio, houve um aumento das temperaturas em âmbito global,
entre aproximadamente 8.300 e 4.800 anos atrás, período chamado de
“Altitermal” ou “Hipsitermal”.27 Tal aumento de temperatura causou o
derretimento de geleiras e o aumento do nível do mar, resultando em
uma transgressão marinha responsável que “afogou” amplas regiões da
costa, por volta de 6.000 anos atrás,28 afetando os grupos sambaquiei-
ros. Porém, com o aumento do numero de estudos paleoambientais,
ficou cada vez mais claro que, durante esse período de aquecimento
global, ocorreram vários períodos mais secos e mais úmidos que cer-
tamente causaram impactos na vegetação29 e, obviamente, nos grupos
humanos. Vastas áreas do Brasil Central e da Amazônia parecem ter sido
abandonadas por grupos humanos durante vários momentos ao longo
do Holoceno Médio.30 Provavelmente, esses eventos estimularam a ado-
ção de práticas agrícolas mais sistemáticas – ou seja, o uso intensivo de
espécies vegetais já conhecidas havia milênios –, num esforço para se
lidar com a imprevisibilidade dos recursos.

Metamorfoses florestais 113


Já estamos chegando ao Holoceno Final. Como vimos, a Mata
Atlântica já estava ocupada por grupos de caçadores-coletores, e no-
vos contatos culturais vão se desenrolar.

A chegada dos grupos agricultores, no Holoceno Final

Umeriuru (“tainha”) e Criambu (“mero”) estavam em uma


canoa e viram um grupo de animais andando em pé em uma das pe-
quenas praias que se espremiam entre os costões rochosos. Aqueles
não eram homens iguais a eles. Não faziam parte “da gente”. Eram
algum tipo de animal que parecia “a gente”, mas ao mesmo tempo
era diferente. Não eram também aqueles “comedores-de-cateto” que
viviam serra acima. Esses que estavam na praia tinham o corpo colori-
do, e eram cheios de penas. Estavam agora parados, olhando fixamen-
te para a canoa. Tinham armas, também. Pareciam armas. Deveriam
ser armas. Umeriuru, que estava na frente, virou-se bruscamente para
Criambu e os dois trocaram apenas um olhar. Imediatamente come-
çaram a remar de volta para a aldeia com todas as forças que tinham.
Considerando-se tudo o que os arqueólogos sabem, até agora,
pode-se dizer que o episódio narrado nesta pequena peça de ficção de
nossa autoria é bastante verossímil. Por volta de 2.000 anos atrás,31 em
vários pontos do litoral, começaram a aparecer grupos diferentes dos
sambaquieiros, os antigos senhores da costa. É difícil dizer com certeza
como foram esses contatos: são inúmeras as possibilidades, desde as
mais amistosas às mais violentas. Os grupos invasores eram agricultores,
e a cerâmica era um dos traços culturais que traziam. O que sabemos,
concretamente, é que essa chegada marca o início do fim para os grupos
sambaquieiros. Os grandes amontoados de conchas vão ficando cada
vez menores, e por fim desaparecem do registro arqueológico. Embora
não tenham travado contato direto com os seus construtores, os euro-
peus conheciam bem os sambaquis, desde o século XVI – dos quais ex-
traíam material para fabricação de cal –, e mantiveram por muito tempo
a crença de que aqueles montes de conchas eram naturais. (Afinal de
contas, amontoar tantas conchas daria muito trabalho, e os índios eram,
“por definição”, preguiçosos.) Por incrível que pareça, essa teoria gerou
um debate científico considerável, que se estendeu até os anos 1960.32

114 Cabral & Bustamante (orgs.)


Em termos culturais, sabemos que esses grupos ceramistas
que chegavam à Mata Atlântica provinham de duas, ou talvez três, ma-
trizes distintas: a primeira delas é conhecida por “Tradição Tupigua-
rani”. As características bem definidas da cerâmica, com vasilhames
grandes e decorados com motivos específicos, facilitam o trabalho do
arqueólogo e fazem dessa tradição uma das mais abrangentes do ter-
ritório brasileiro, estendendo-se da Amazônia ao Rio Grande do Sul.
Várias linhas de evidência (arqueológicas, históricas, etnográficas e
linguísticas) convergem para a interpretação de que os grupos fabri-
cantes da cerâmica Tupiguarani eram falantes do Tupi. Se aceitarmos
esse modelo, então esses grupos vinham de alguma parte da Ama-
zônia33 e teriam se deslocado por eixos diferentes até que uma des-
sas populações alcançou o litoral do Sudeste, por volta de 3.000 anos
atrás.34 Se esses grupos, como indica a cultura material, forem, de fato,
os antepassados dos Tupinambá encontrados pelo portugueses, en-
tão podemos imaginar que o contato com os sambaquieiros não tenha
muito amistoso. Porém, essa pode ser uma analogia muito simplista;
por exemplo, os antepassados dos Tupinambá que habitaram o sítio do
Morro Grande, em Araruama, região dos lagos fluminense, há 3.000
anos, poderiam ser muito menos belicosos. Seja como for, o fato de
termos apenas um sítio com essa idade recuada e, ao mesmo tempo,
nenhuma evidência de cerâmica Tupiguarani nos sambaquis vizinhos,
na região dos lagos,35 sugere pouca interação cultural, ou então que o
sítio Morro Grande constituiu uma primeira tentativa, talvez mal su-
cedida, de povoamento litorâneo, por parte desse grupo ceramista.
A forte presença Tupiguarani, na região de Juiz de Fora, Minas Gerais,
atesta a ocupação maciça da Mata Atlântica do planalto por esse grupo
desde, pelo menos, 1.300 anos atrás.36 O mesmo pode ser dito para
amplas regiões do interior de São Paulo, com idades que recuam, pelo
menos, até 1.500 anos atrás.37
Mas essa foi apenas a primeira leva de invasores. Por volta
de 1.800 anos atrás,38 uma segunda população ceramista começa a
aparecer no registro arqueológico da Mata Atlântica, chamada pelos
pesquisadores de “Tradição Una”. A cerâmica desse grupo é caracteri-
zada por vasilhames relativamente pequenos, pouco espessos e sem
decoração pintada. Os sítios mais antigos relacionados a essa tradi-
ção ocorrem no Cerrado do norte de Minas Gerais, por volta de 3.800
Metamorfoses florestais 115
anos atrás (Gruta do Gentio II39); também são encontrados sítios, na
porção centro-leste do país, chegando à Serra do Mar e litoral do Rio
de Janeiro e Espírito Santo.40 Por fim, há uma terceira leva, denomina-
da “Tradição Itararé”, visível no litoral de São Paulo, com idade desco-
nhecida,41 e no Médio Vale do Ribeira, há 1.500 anos.42 Na verdade, a
cerâmica da Tradição Itararé é bastante parecida com a Una. Existe a
possibilidade de que Una e Itararé sejam apenas duas manifestações,
levemente diferenciadas ao longo do tempo e do espaço, de um gru-
po relacionado ao tronco linguístico Jê, e que a Tradição Itararé seja,
portanto, derivada da Una.43 O fato é que o impacto cultural verificado
entre os sambaquieiros não se repetiu, necessariamente, em todos os
lugares. Ao contrário, há evidências da sobrevivência dos grupos ca-
çadores-coletores da Tradição Umbu em alguns locais, especialmente
nas áreas montanhosas do médio vale do Ribeira.44 Os construtores
dos sambaquis fluviais do sul de São Paulo conseguiram manter sua
cultura durante pelo menos 300 anos, após a chegada dos ceramistas
da Tradição Itararé, desaparecendo, definitivamente, apenas por volta
de 1.200 antes da atualidade.45
Mesmo com esses possíveis casos de sobrevivência de grupos
de caçadores-coletores, as evidências sugerem que a Mata Atlântica
foi tomada pelos agricultores. Eles dominaram todo o litoral do Espí-
rito Santo, do Rio de Janeiro e de São Paulo.46 Esses diferentes grupos
ceramistas tiveram que dividir o mesmo espaço, e as relações sociais
podem ter se desenvolvido de várias maneiras. Não são raros os casos
em que fragmentos de cerâmica Tupiguarani aparecem em sítios Ita-
raré,47 e vice-versa.48 A cerâmica Una aparece nos topos de sambaquis,
quase como um apêndice, em alguns casos, mantendo-se o resto da
cultura material,49 o que sugere troca cultural e relações amistosas. Por
outro lado, em algumas regiões, é possível perceber verdadeiras fron-
teiras, com os sítios Tupiguarani chegando até um certo ponto, e sítios
Itararé dominando a paisagem dali em diante.50 Em suma, por volta
de 1,000 anos atrás, a Mata Atlântica abrigava um grande e variado
mosaico de culturas e línguas, um melting pot composto por grupos
provenientes das mais diversas partes do continente, descendentes de
diferentes levas migratórias.

116 Cabral & Bustamante (orgs.)


Voltando ao verão de 1532

Depois dessa viagem retrospectiva, voltamos a janeiro de 1532,


quando Martim Afonso de Souza navegava pela costa do sudeste. Pode-
mos agora entender melhor a verdadeira Babel de que falam os cronis-
tas coloniais, nos séculos seguintes. Aquela miríade de nomes de tribos
que aparece, nos relatos históricos, embora possa parecer exagerada,
deve ser tomada, na verdade, como uma simplificação. Paulatinamente,
essa elevada etnodiversidade vai sendo exterminada ou “assimilada”,
através de escravização e todo tipo de coerção cultural e política. Par-
timos de uma grande variabilidade cultural para um quadro de relativa
homogeneidade, com a formação da “sociedade nacional”, para a figura
do caipira e do caiçara. Trata-se de um dos mais dramáticos episódios de
etnocídio da história humana, com a irreparável perda do conhecimento
angariado por esses grupos em relação aos animais e plantas da Mata
Atlântica. Do ponto de vista biológico, porém, permanecem rastros des-
ses grupos indígenas. A genética mostra a influência do DNA ameríndio
nos habitantes modernos do sudeste brasileiro, independentemente da
autoidentificação racial, dos mais “negros” aos mais “brancos”.51 É neste
sentido que a Arqueologia da Mata Atlântica fala de nossos ancestrais.

O futuro, um mistério

Quando olhamos a paisagem da atual Baixada Santista e de-


paramos com as chaminés fumegantes de Cubatão; quando avistamos
a Baía de Guanabara e o lixo acumulado em suas margens; ou quando
vislumbramos, de cima do Pico do Jaraguá, o colchão de poluição so-
bre a cidade de São Paulo, é difícil não nos perguntarmos onde isso vai
nos levar. Embora possa parecer um mero passatempo para alguns,
a Arqueologia é uma das poucas disciplinas capazes de nos fornecer
uma visão crítica e de longo prazo da trajetória humana, independen-
temente de documentos escritos ou de como as pessoas querem ser
vistas pelas gerações futuras. Com essa visão temporalmente profunda
– embora, ao mesmo tempo, um pouco “seca” –, o arqueólogo pode
contrastar uma estratégia de convivência humana com a Mata Atlân-
tica que durou dez milênios, sem gerar grande degradação, com uma

Metamorfoses florestais 117


estratégia com duração 20 vezes menor, mas que praticamente des-
truiu o bioma por completo. Se isso não se faz pela irresponsabilidade
coletiva (na forma dos governos) se faz pela individual (quando cada
um quer seu pedaço do paraíso, de preferência gramado).
Não se trata de perpetuar o mito do “bom selvagem”, mas
de ressaltar que, durante esses dez mil anos, a sobrevivência da Mata
Atlântica esteve atrelada a populações muito menores e providas de
tecnologia mais bem adaptada à ecologia local, tanto a caça e cole-
ta quanto a horticultura. No entanto, por algum motivo pouco claro,
achamos possível conjugar uma população monstruosa com a abso-
luta falta de planejamento (inclusive demográfico) e que, no fim, tudo
dará certo (por meio do uso de alguma tecnologia miraculosa, que nos
salvará52). Conforme ressaltou Betty Meggers:

A falha dos habitantes indígenas [...] em desenvolver o que


nós consideramos “civilização” não implica estagnação cultu-
ral. Ao contrário, seu sucesso em alcançar uma acomodação
flexível e sustentável às limitações inerentes ao ambiente e
às flutuações climáticas imprevisíveis, é uma realização que
ainda não conseguimos igualar, e muito menos ultrapassar.53

_____________
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de São Paulo, 186 pp.; PEROTA, C. 2014. Itaoca Terminal Marítimo – Relatório Final do
Programa de Prospecção Arqueológica Terrestre. Município de Itapemirim, Estado
do Espírito Santo. CTA.
27  FAIRBRIDGE, R.W. 2009. Hypsithermal. In: Gornitz, V. Encyclopedia of
Paleoclimatology and Ancient Environments. Dordretch: Springer, p. 451-453.
28  ANGULO R.J., LESSA G.C. 1997. The Brazilian sea level curves: a critical review
with emphasis on the curves from Paranaguá and Cananéia regions. Marine Geology
140, 141–166.
29  LEDRU, M.-P.; MOURGUIART, P.; RICCOMINI, C. 2009. Related changes in
biodiversity, insolation and climate in the Atlantic rainforest since the last interglacial.
Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 271: 140-152.
30  ARAUJO, A.G.M.; NEVES, W.A.; PILÓ, L.B.; ATUI, J.P. 2005. Holocene dryness and
human occupation in Brazil during the “Archaic Gap”. Quaternary Research 64: 298-
307; MEGGERS, B.J. 2007. Mid-Holocene climate and cultural dynamics in Brazil and
the Guianas. In: Anderson, D.; Maasch, K.A.; Sandweiss, D. (Eds.) Climate Change
and Cultural Dynamics: A Global Perspective on Mid-Holocene Transitions. Elsevier,
New York, 117-155; NEVES, E.G. 2007. El Formativo que nunca terminó: la larga
historia de estabilidad en las ocupaciones humanas de la Amazonía central. Boletín
de Arqueología PUCP 11: 117-142.
31  Talvez muito antes: vide a datação de 2.920 ± 70 AP (3.080 ± 110 cal AP) para um
sítio com cerâmica Tupiguarani (Morro Grande) na região dos Lagos, RJ. Ver SCHEEL-
YBERT, R.; MACÁRIO, K.; BUARQUE, A.; ANJOS, R.; BEAUCLAIR, M. 2008. A new age
to an old site: the earliest Tupiguarani settlement in Rio de Janeiro State? Anais da
Academia Brasileira de Ciências 80: 763-770.
32  LIMA, T.A. 2000. Em busca dos frutos do mar: os pescadores-coletores do litoral
centro-sul do Brasil. Revista USP 44: 270-327; OKUMURA, M.M. 2008 Diversidade
Morfológica Craniana, Micro-Evolução e Ocupação Pré-Histórica da Costa Brasileira.
Pesquisas Antropologia 66, 280pp.
33  CORRÊA, A. 2014. Pindorama de M´Boia e Iacaré: Continuidade e Mudança
na Trajetória das Populações Tupi. Tese de Doutorado, Museu de Arqueologia e
Etnologia, Universidade de São Paulo.
34  SCHEEL-YBERT, R.; MACÁRIO, K.; BUARQUE, A.; ANJOS, R.; BEAUCLAIR, M. 2008.
A new age to an old site: the earliest Tupiguarani settlement in Rio de Janeiro State?
Anais da Academia Brasileira de Ciências 80: 763-770.
35  GUIMARÃES, M.B. 2007. A Ocupação Pré-Colonial da Região dos Lagos, RJ:
Sistema de Assentamento e Relações Intersocietais entre Grupos Sambaquianos e
Grupos Ceramistas Tupinambá e da Tradição Una. Tese de Doutorado, Museu de
Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo.
36  LOURES DE OLIVEIRA, A.P. 2006. Sítios arqueológicos da Zona da Mata Mineira:
alguns aportes para o entendimento dos antigos assentamentos na região. In: Loures

Metamorfoses florestais 121


de Oliveira, A.P. (Org.) Arqueologia e Patrimônio da Zona da Mata Mineira – Juiz de
Fora. Editar, Juiz de Fora, pp. 119-155.
37  MORAES, C.A. 2007. Arqueologia Tupi no Nordeste de São Paulo: Um Estudo
de Variabilidade Artefatual. Dissertação de Mestrado, Museu de Arqueologia e
Etnologia, Universidade de São Paulo.
38  Datação de 1.840±120 AP para o sítio Buracão dos Bichos, sul de MG (Mendes
2012), calibrada pelo programa CalPal em 1.780 ± 140 calAP - WENINGER B., JÖRIS O.,
DANZEGLOCKE U. 2012. CalPal-2007. Cologne radiocarbon calibration , palaeoclimate
research package. http://www.calpal.de/, accessed 2012-08-21.
39  Datação de 3.490± 120 AP (Bird et al 1991), calibrada pelo programa CalPal em
3.780 ± 150 calAP - WENINGER B., JÖRIS O., DANZEGLOCKE U. 2012. CalPal-2007.
Cologne radiocarbon calibration , palaeoclimate research package. http://www.
calpal.de/, accessed 2012-08-21.
40  BELTRÃO, M.C. 1978. Pré-História do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Ed.
Forense Universitária / SEEC, 276 pp.; DIAS JR., O. 1980. Una, Sapucaí, Aratu no Rio
de Janeiro, em Minas Gerais, Goiás e áreas vizinhas”. In: Schmitz, P.I.; Barbosa, A.S.;
Ribeiro, M.B. (Eds.). Temas de Arqueologia Brasileira. Os Cultivadores do planalto e
do Litoral. Anuário de Divulgação Científica. Goiânia: IGPA/UCG 9 (5): 17-20; SEDA,
P.G.; Machado, C.L.; Sene, G.B.; Silva, L.P. 2011. Do cerrado ao mar: a Tradição Una
no litoral do Espírito Santo. Revista Maracanan Disponível em: <http://www.e-
publicacoes.uerj.br/index.php/maracanan/article/view/12894>.
41  CALI, P. 2005. Políticas Municipais de Gestão do Patrimônio Arqueológico. Tese
de Doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo.
42  Datação de 1.530 ±40 AP para o sítio Areia Branca 6, SP (Araujo 2007), calibrada
pelo programa CalPal em 1.450 ± 60 calAP - WENINGER B., JÖRIS O., DANZEGLOCKE
U. 2012. CalPal-2007. Cologne radiocarbon calibration , palaeoclimate research
package. http://www.calpal.de/, accessed 2012-08-21.
43  ARAUJO, A.G.M. 2007. A Tradição cerâmica Itararé-Taquara: Características, área
de ocorrência e algumas hipóteses sobre a expansão dos grupos Jê no Sudeste do
Brasil. Revista de Arqueologia 20: 9-38.
44  DEBLASIS, P.A.D. 1996. Bairro da Serra em Três Tempos. Arqueologia, Uso
Do Espaço Regional e Continuidade Cultural No Médio Vale do Ribeira. Tese de
Doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo.
45  A datação mais recente dos sambaquis fluviais do Médio Ribeira é de 1.219 ±24
AP para o sítio Pavão III, SP (FIGUTI et al., 2013, op. cit.), calibrada pelo programa
CalPal em 1.160 ± 50 calAP - WENINGER B., JÖRIS O., DANZEGLOCKE U. 2012.
CalPal-2007. Cologne radiocarbon calibration , palaeoclimate research package.
http://www.calpal.de/, accessed 2012-08-21.
46  CORRÊA, A. 2014. Pindorama de M´Boia e Iacaré: Continuidade e Mudança
na Trajetória das Populações Tupi. Tese de Doutorado, Museu de Arqueologia e
Etnologia, Universidade de São Paulo; GUIMARÃES, M.B. 2007. A Ocupação Pré-
Colonial da Região dos Lagos, RJ: Sistema de Assentamento e Relações Intersocietais
entre Grupos Sambaquianos e Grupos Ceramistas Tupinambá e da Tradição Una.

122 Cabral & Bustamante (orgs.)


Tese de Doutorado, Museu de Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo;
RIBEIRO, L.; LIMA, A. P.; SOUZA, L.M.; JÁCOME, C.P. 2009. Os Tupiguarani do sul
do Espírito Santo usavam muito a pedra, além do barro. A indústria lítica na pré-
história tardia (e depois). In: Morales, W. F. ; Moi, F. P. (Orgs.) Cenários Regionais
em Arqueologia Brasileira. São Paulo/Porto Seguro: Annablume; ACERVO - Centro de
Referência em Patrimônio e Pesquisa, pp. 151-188.
47  Notamos isso em um sítio Itararé denominado Benedito Machado, em Botucatu, SP.
48  AFONSO, M. C.; MORAES, C. A. 2006. O Sítio Água Branca: interações culturais
dos grupos ceramistas no norte do Estado de São Paulo. Revista do Museu de
Arqueologia e Etnologia 15-16: 59-71; PALLESTRINI, L. 1974. Sítio arqueológico Alves.
Revista do Museu Paulista, Nova Série XXI: 47-96.
49  DIAS JR., O. 1980. Una, Sapucaí, Aratu no Rio de Janeiro, em Minas Gerais,
Goiás e áreas vizinhas”. In: Schmitz, P.I.; Barbosa, A.S.; Ribeiro, M.B. (Eds.). Temas
de Arqueologia Brasileira. Os Cultivadores do planalto e do Litoral. Anuário de
Divulgação Científica. Goiânia: IGPA/UCG 9 (5): 17-20.
50  ARAUJO, A.G.M. 2001. Teoria e Método em Arqueologia Regional: Um Estudo
de Caso no Alto Paranapanema, Estado de São Paulo. Tese de Doutorado, Museu de
Arqueologia e Etnologia, Universidade de São Paulo.
51  LINS, T. C.; VIEIRA, R. G.; ABREU, B. S.; GRATTAPAGLIA, D.; PEREIRA, R. W. 2010.
Genetic composition of Brazilian population samples based on a set of twenty‐eight
ancestry informative SNPs. American Journal of Human Biology 22:187-192.
52  Uma versão contemporânea dos velhos mitos religiosos ancorados no
milenarismo. Ver GRAY, J. 2008. Missa Negra – Religião Apocaliptica e o Fim das
Utopias. Ed. Record, Rio de Janeiro, 350 pp.
53  MEGGERS, 2007, op. cit, pp. 145-6.

Metamorfoses florestais 123


Ecologias culturais na Mata Atlântica pré-colonial
de Santa Catarina*

Deisi S. Eloy de Farias†, Andreas Kneip₸, Geovan Martins Gui-


marães†, Alexandro Demathé†, Tiago Atorreѱ, Paulo DeBlasisѱ
† GRUPEP-Arqueologia/UNISUL
₸ Universidade Federal de Tocantins
ѱ Museu de Arqueologia e Etnologia – USP

O objetivo central deste capítulo é investigar como as socieda-


des pré-coloniais fizeram da Mata Atlântica catarinense seu território,
transformando e construindo uma paisagem regional. Como qualquer
paisagem cultural, ela foi marcada, de maneira significativa, por padrões
que se perpetuaram no tempo e no espaço, refletindo o modo de vida
dos diversos grupos de caçadores-coletores e ceramistas que habitaram
esse ambiente, em diferentes épocas. Durante a investigação foram ma-
peados e escavados diversos tipos de sítios arqueológicos, sendo identi-
ficados diferentes sistemas de ocupação. A área estudada foi a bacia do
rio Tubarão, no sul do atual estado de Santa Catarina, uma grande área
de Mata Atlântica que engloba cinco compartimentos geomorfológicos
distintos, desde a Planície Litorânea até a Serra Geral.
Nas Serras do Leste, que recobrem uma grande extensão de
terras entre o litoral e o planalto catarinense, com altitudes que al-
cançam 600 m, verifica-se a presença de sítios vinculados a grupos
ceramistas Jê – cujos deslocamentos acompanharam a expansão da
floresta de araucária1 – e Tupi-Guarani. Já nas áreas da Depressão da
Zona Carbonífera Catarinense e nos Patamares da Serra Geral, cujas
altitudes variam de 300 a 450 metros, observa-se a presença de sítios
vinculados a grupos caçadores-coletores.2 Nos seus 120 km de exten-
são, o rio Tubarão percorre uma gama de microambientes e pode ter
sido uma via de penetração para diversos povos vindos do litoral, local
onde são encontrados grandes sambaquis, sítios cerimoniais Jê e al-
deias Tupi-Guarani.3 Por outro lado, estudos acerca de grandes aldeias
Jê, no planalto, indicam as possíveis influências da Mata Atlântica de
encosta. Diante disso, a região entre o Planalto Meridional e o Litoral,
recortada pelo Rio Tubarão, pode ter sido uma área ocupada, continu-
124 Cabral & Bustamante (orgs.)
amente, por diversos grupos pré-coloniais que utilizaram a calha desse
grande rio como eixo de deslocamento.
Nessa região, as primeiras investigações arqueológicas datam
da década de 1970,4 quando foram mapeados sítios de caçadores-cole-
tores e acampamentos Kaingang. Pesquisas no âmbito do licenciamen-
to ambiental também indicaram diversos sítios arqueológicos vincula-
dos a grupos caçadores-coletores e ceramistas.5 Todavia, tais esforços
não foram suficientes para a compreensão da complexidade da ocupa-
ção humana regional. Em doze anos de pesquisa sistemática, o projeto
Arqueologia na Mata Atlântica (AMA) levantou dados que indicam que
a Mata Atlântica sustentou grupos humanos por longos períodos de
tempo, e, por isso, tornou-se uma área central, ao abrigar sociedades
com características culturais distintas, em diversos momentos da his-
tória – extrapolando, inclusive, o âmbito local.

O contexto ambiental da Mata Atlântica catarinense

A pesquisa englobou a bacia do rio Tubarão, conhecida oficial-


mente como Região Hidrográfica Sul Catarinense (RH-09). As principais
bacias da RH-09 são as dos rios Tubarão e D’Una, sendo a primeira a
mais expressiva. Ela drena aproximadamente 5.640 km², com uma den-
sidade de drenagem de 1,45km/km², abarcando o território de 19 mu-
nicípios. O rio Tubarão nasce na encosta da Serra Geral, na confluência
dos rios Bonito e Rocinha; a jusante da cidade de Lauro Müller passa
a denominar-se Rio Tubarão; e desemboca na Lagoa de Santo Antônio
dos Anjos, município de Laguna. Os seus principais afluentes são os rios
Braço do Norte, Capivari, Laranjeiras e Congonhas (margem esquerda), e
Rio Palmeiras e Pedras Grandes/Azambuja, pela margem direita.6
Nessa área, o relevo tem características bastante peculiares.
Trata-se de uma “zona de transição” entre os dois grandes domínios de
relevo, planalto e litoral. Como região, essa “encosta” faz parte do litoral,
mas também incorpora aspectos das regiões mais altas.7 Em seu conjun-
to, ela congrega a planície costeira, as Serras do Leste Catarinense (dis-
postas de forma subparalela, no sentido NE-SW, tornando-se mais bai-
xas em direção ao litoral), a Depressão da Zona Carbonífera Catarinense,
os Patamares da Serra Geral e a própria Serra Geral. Nas proximidades
da linha da costa, as altitudes ficam em torno dos 100m; perto da Serra

Metamorfoses florestais 125


Geral, algumas elevações chegam a ultrapassar 1.200m, como acontece
em Anitápolis e em São Martinho, na Serra do Tabuleiro (Figura 1).

Figura 1 – Área de estudo, com sítios arqueológicos plotados.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia
126 Cabral & Bustamante (orgs.)
Em termos geomorfológicos, a região é determinada por cin-
co compartimentos (Figura 2):
• Planície Costeira: presente no baixo curso do rio Tubarão,
onde apresenta um ambiente lagunar, com o maior delta
interno do sul do Brasil. A planície apresenta rochas gra-
níticas do embasamento cristalino e depósitos coluvial e
colúvio-aluvial do Quaternário, originários de oscilações
climáticas e das variações do nível do mar. Em alguns pon-
tos da porção oeste, essa formação entra em contato com
as Serras do Leste;
• Serras do Leste Catarinense: presentes no médio curso do
rio Tubarão. Essa seção se caracteriza por vales profundos
e encostas íngremes, em substrato granítico, entremeadas
por pequenas planícies fluviais associadas à deposição de
cascalheiras pelos rios formadores do Tubarão. Em alguns
pontos, há contato com formações sedimentares da bacia
do rio Paraná (Figura 3);
• Zona da Depressão Carbonífera Catarinense: ocorre na
parte superior do vale, perto da escarpa da Serra Geral,
quando o relevo adquire forma mais arredondada, ainda
com vales profundos;
• Patamares da Serra Geral: são observados no alto curso
do Tubarão, onde aparecem os últimos compartimentos,
resultado do recuo da linha de escarpa e diretamente liga-
dos ao trabalho erosivo dos rios;
• Serra Geral: presente no alto curso do Tubarão, com es-
carpas em forma de cuesta,8 que emolduram a paisagem a
noroeste, marcando o contato com os Planaltos dos Cam-
pos Gerais.
Geologicamente, a região de estudo faz parte das formações
granito-gnáissicas Santa Rosa de Lima – Tijucas; da bacia do Paraná,
na subdivisão Cobertura Sedimentar Gonduânica; do Complexo Tabu-
leiro A(T-B)t; e da Suíte Intrusiva Pedras Grandes. Genericamente, a
região apresenta diversidade petrográfica e estrutural, com formações

Metamorfoses florestais 127


de granitoides foliados, granitos verdadeiros e granitos gnáissicos, de-
finidos como uma variedade regional grosseira, constituindo rochas de
texturas porfiróides, com megacristais brancos, de feldspato potássico
idiomórfico, ou com bordas arredondadas, por efeito de deformação:
estrutura facoidal cujos “olhos”, em geral, são contornados pelos mi-
nerais máficos, eventualmente exibindo sombra de pressão.9 A Suíte
Intrusiva Pedras Grandes apresenta granitóides não deformados,
com domínios sub-alcalinos e per-alcalinos, em geral biotíticos, com
contatos intrusivos com os terrenos granito-gnáissicos.

Figura 2 – Perfil topográfico da área de estudo. Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Nessa região de Santa Catarina, as formações florestais que


integram o bioma Mata Atlântica são a Floresta Ombrófila Densa e a
Floresta Ombrófila Mista.10 A primeira é constituída por formações
128 Cabral & Bustamante (orgs.)
diferenciadas pela altitude, como Floresta Ombrófila Densa Submon-
tana;11 Floresta Ombrófila Densa Montana (conhecida como Faxinais)
e Floresta Ombrófila Densa Alto-Montana ou Campos. Na segunda,
ocorre a Floresta de Araucária na bacia Pelotas-Canoas – com subma-
tas, com predomínio do Pinheiro-do-Paraná (Araucaria ansgustifolia).
Em seu espectro altitudinal, a Floresta Ombrófila Densa carac-
teriza-se por estratos superiores, com grandes árvores, cujas alturas va-
riam entre 25 e 30m, perenefoliadas e densamente dispostas, portando
brotos foliares desprovidos de proteção à seca e às baixas temperaturas.
A diversificação ambiental é um importante aspecto dessa região fitoe-
cológica. Com ponderável influência sobre dispersão e crescimento da
flora e da fauna, a floresta permite o desenvolvimento de várias forma-
ções, cada uma com inúmeras comunidades e associações, constituindo
uma complexa e exuberante coleção de formas biológicas – considerada
como a classe de vegetação mais pujante, heterogênea e complexa do
sul do Brasil.12 Ela ocupa um terço do território de Santa Catarina, dis-
pondo-se quase paralelamente ao Oceano Atlântico, e alargando-se na
altura do vale do rio Itajaí, devido às suas particularidades morfológicas
e orográficas. Em nossa região de estudo, a Floresta Ombrófila Densa
apresenta uma densidade vegetal extraordinária devida à variabilidade
dos solos e dos microclimas. Percebe-se o predomínio de espécies como
a canela-preta (Ocotea catharinensis), a caxeta-amarela (Chrysophyllum
viride) e o palmiteiro (Euterpe edulis).13

A pesquisa de campo

As atividades de campo envolveram metodologias distintas


e complementares, como prospecção e escavação, acompanhadas de
geofísica e análise ambiental. Realizou-se um levantamento de dados
geomorfológicos e ambientais a partir das cartas fitogeográficas, geo-
lógicas e geomorfológicas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
tica (IBGE), além de imagens aéreas.
Foram utilizados métodos de investigação de campo, tanto
sistemáticos quanto assistemáticos,14 nas seguintes áreas:
• Baixa vertente do rio Tubarão: várzeas da microbacia do
Rio Caruru até os divisores de águas, na divisa com o mu-
Metamorfoses florestais 129
nicípio de Gravatal;
• Média vertente do rio Tubarão: várzeas próximas aos
maiores afluentes (rio Capivari e rio Braço do Norte), e nas
colinas elevadas entrecortadas por pequenos rios;
• Alta vertente do rio Tubarão: barrancos, terraços, patama-
res e colinas entrecortadas por pequenos rios.

Figura 3 – Paisagem da área de estudo. Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

A área total percorrida foi de 2,214 km² e os procedimentos


e estratégias foram definidos circunstancialmente, a partir das pos-
sibilidades locais de investigação. A vertente do rio Braço do Norte
percorre toda a Serra do Leste, penetrando no rio Tubarão, ainda em
área bastante acidentada. Apesar de precárias, as estradas servem
como transectos para as investigações, e a boa relação com os agri-
cultores e moradores locais também contribui para o desenvolvimen-
to da pesquisa, visto que eles normalmente indicam onde estão os
sítios arqueológicos.

130 Cabral & Bustamante (orgs.)


O rio Capivari se estende por toda a Serra do Leste e penetra
no rio Tubarão, já na planície litorânea, o que faz dele um corredor por
onde se transita do litoral para o interior e vice-versa. Outro aspecto a
ser considerado é o conhecimento já produzido sobre a região, onde as
pesquisas apontaram uma ocupação por grupos caçadores-coletores
e ceramistas Jê. A partir disso, foram definidas estratégias que per-
mitiram a identificação de evidências pouco conhecidas, localizadas
em contextos diferentes dos indicados pelas pesquisas anteriores. As
estratégias também possibilitaram compreender a diversidade, quan-
tidade e distribuição espacial dos sítios, de modo a entender a sua
concomitância, articulação e integração. Assim, a área investigada foi
ampliada para as cristas divisoras de água, onde as pesquisas, embora
menos intensivas, possibilitaram a identificação de sítios importantes
para a organização de um quadro arqueológico regional. Diante disso,
foram estabelecidos diferentes procedimentos de pesquisa conforme
a área investigada, descritos a seguir.

Prospecção

Uma das estratégias de pesquisa foi a prospecção sistemá-


tica e extensiva. A equipe entrou em contato com a comunidade
local e, em conversas informais, obteve a localização de diversos
sítios, mapeando-os. Após a verificação das ocorrências, iniciou-se
a prospecção sistemática, nos sítios indicados, nos quais foram tra-
çadas linhas transversais, distando 10 m entre si, com extensão de
até 250 m. A partir daí foram feitas intervenções subsuperficiais,
abrindo-se pequenos testes com trado manual de 15 cm de diâme-
tro; abriram-se também sondagens de 1m x 1m, com profundidade
variando conforme a espessura do solo arqueológico, em média 1,5
m. Foram abertas algumas trincheiras, e os perfis indicaram a ti-
pologia dos sítios mapeados, por meio do pacote estratigráfico ou
pelas evidências materiais encontradas.
Além disso, foram realizadas observações sistemáticas,
na alta vertente da bacia do Tubarão. Nesta área, investigou-se a
ocorrência de vestígios mais antigos nas áreas mais próximas aos

Metamorfoses florestais 131


rios, onde ocorrem os processos de sedimentação, bem como nas
colinas, que apresentavam, em seus topos, manchas escuras, nor-
malmente acompanhadas de material arqueológico. Percorreu-se a
área ao longo das estradas e dos pequenos rios e afluentes, procu-
rando-se avaliar os pontos diferenciados da paisagem, partindo das
margens dos rios maiores até seus afluentes principais e secundá-
rios. Em alguns pontos, foram avaliadas as microbacias, desde a sua
foz até o divisor de águas (Figuras 4 e 5).
Essa investigação possibilitou o conhecimento da região nas
suas variações micro-ambientais e geomorfológicas, pois foram exa-
minados a natureza, a distribuição e o contexto ambiental do mate-
rial arqueológico identificado. Assim, diferentes pontos da paisagem
foram inspecionados, como terraços, patamares de vertente, serras e
colinas, onde se observou a superfície; além disso, as intervenções em
subsuperfície possibilitaram o entendimento da estratigrafia, dos tipos
de solo e da matéria-prima lítica disponível. Esse conjunto de procedi-
mentos resultou no mapeamento de 131 sítios arqueológicos de gru-
pos caçadores-coletores (119), ceramistas Jê (07) e Tupi-Guarani (05).
Dos sítios identificados, 20 foram escolhidos para serem es-
cavados sistematicamente, em virtude da preservação da área e da
densidade de material. Foram escavados três sítios cerâmicos por-
tadores da Tradição Tupiguarani; uma estrutura subterrânea e 16 sí-
tios líticos, que se dividiram entre sítios com material lascado e sem
mancha, mancha sem material lascado e manchas com material las-
cado. As características de cada um desses sítios exigiram estratégias
diferenciadas de pesquisa, que envolveram a abertura de trincheiras
e linhas de sondagens cruzando os sítios transversalmente (N-S/L-O);
aberturas de áreas maiores de escavação, prioritariamente em locais
onde se descobriram estruturas preservadas; coleta de material para
datação; caminhamento, identificação, marcação e coleta dos vestígios
de superfície, na área do sítio e em seu entorno; plotagem e georefe-
renciamento dos vestígios com estação total; geofísica; análise micro-
morfológica do solo e levantamento expedito da flora local.

132 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 4 – Microbacia do Rio Caruru. Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Escavação do sítio SC-RF-11

Para um maior detalhamento, serão abordadas aqui as ati-


vidades desenvolvidas no sítio mais bem escavado, o SC-RF-11. O rio
Facão é um tributário do Rio Braço do Norte, e drena 14 km², em meio
aos domínios das Serras do Leste Catarinense. Sua porção sudeste tem
como divisor de água um conjunto de morros que ultrapassam 500
metros de altitude e vão diminuindo até chegar às planícies do rio Bra-
Metamorfoses florestais 133
ço do Norte. O sítio SC-RF-11 está implantado na média vertente dessa
microbacia, distante 593 metros do rio Facão.

Figura 5 – Sítios identificados na microbacia do Rio Facão.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

O SC-RF-11 é constituído por duas manchas, sem material lí-


tico lascado, com pacote estratigráfico de aproximadamente 50 cm,
com muito carvão e estrutura de combustão formada por rochas locais.
Como estratégia de intervenção, optou-se, inicialmente, por abrir duas
trincheiras perpendiculares na Mancha 1, a fim de se avaliar a sua exten-

134 Cabral & Bustamante (orgs.)


são (figura 6a). Em seguida toda essa área foi quadriculada, somando 30
quadrículas de 1 m x 1 m, que foram decapadas do centro para a peri-
feria (Figura 6b). Do centro dessa mancha foram abertos poços-testes, a
cada cinco metros, a fim de evidenciar outras ocorrências no seu entor-
no, o que se confirmou quando, a 15 m dali apareceu outra estrutura,
um pouco menor, mas com as mesmas características da primeira.

Figura 6a – Abertura de trincheira e área escavada na Mancha 1.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Com isso, abriram-se duas trincheiras perpendiculares na


Mancha 2, evidenciando-se parte da sua estratigrafia. Ela apresentou,
em sua área central, uma estrutura de combustão, que foi decapada
em níveis naturais (Figura 7). Nessa estrutura, evidenciou-se material
lítico grosseiro, utilizado para delimitar a área de fogueira, carvão e
algumas sementes. O material lítico apresenta-se pouco trabalhado,

Metamorfoses florestais 135


sendo algumas peças parcamente lascadas. Foram constatadas tam-
bém três marcas de estacas nas extremidades da mancha, que foram
interpretadas como estacas de sustentação da cabana. Algumas amos-
tras de carvão para datação das duas manchas foram retiradas e, com
isso, obtiveram-se as datas de 920 a 730 antes do presente para a Man-
cha 1 e 1180 a 970 antes do presente para a Mancha 2. Foram feitas,
também, análises micromorfológicas, que caracterizaram a camada es-
tratigráfica das manchas como sendo de fundo de cabana. A geofísica
ocorreu tanto na área anteriormente escavada quanto nas áreas de
entorno, em busca de vestígios para além das manchas e identificou
eventos mais profundos que não foram testados.

Figura 6b – Abertura de trincheira e área escavada na Mancha 1.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Os recursos naturais da região foram avaliados a partir de


levantamentos expeditos da flora local. Foi constatada a presença de
várias espécies provavelmente utilizadas na alimentação, na produção
136 Cabral & Bustamante (orgs.)
de artefatos em madeira, cestarias e tintas. Na área investigada, foram
identificados taxa como Euterpe edulis, Schizolobium parahyba e Geo-
noma sp, Phillodendron selloum, Bactris lindimaniana, Cecropia glazio-
vi, Dioscorea dodecaneura, entre outras. Infere-se que eram alimentos
importantes na dieta de grupos pré-coloniais, que consumiam seus
frutos, como os do ingá (Inga sessilis) e os da pitanga (Eugenia uni-
flora); tubérculos, como o cará (Dioscorea dodecaneura); e hortaliças,
como o palmito (Bactris lindimaniana); outras espécies eram, possi-
velmente, usadas para a produção de artefatos, como a Chusquea sp.;
para uso medicinal, como a Aspidosperma australe; e para a produção
de condimentos e tintas, caso da Cabralea canjerana.15

Figura 7 – Estrutura de combustão e buraco de estaca evidenciados na Mancha 2.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Para a realização do levantamento expedito da flora foram


alocadas as áreas amostrais, nas proximidades do SC-RF-11, através da
seleção de remanescentes que garantissem uma melhor representati-
Metamorfoses florestais 137
vidade da cobertura original, onde foram coletadas principalmente es-
pécies em fase reprodutiva, predominantemente de porte arbustivo-
-arbóreo. A metodologia adotada baseou-se no método do quadrado
inventário.16 Foram selecionadas duas áreas de 20 m x 20 m, em local
mais preservado e, dentro desse quadrante, foi coletado um represen-
tante de cada espécie. A metodologia foi repetida até que o número
de novas espécies fosse insignificante. Com base em relatos etno-his-
tóricos, foi possível correlacionar as supostas utilizações dos vegetais
pelos grupos pré-coloniais. As principais espécies coletadas foram as
Myrtaceae, com 22 espécies; as Rubiaceae, com 13; as Fabaceae, com
8; e as demais se dividiram entre 4, 2 e 1 representantes.
Outros sítios semelhantes ao SC-RF-11 foram identificados,
normalmente nos topos das colinas, em área de micro bacias, próximos
às nascentes (Figura 8). A matéria-prima lítica, nessa área, é constituí-
da por blocos de granito e veios de quartzo, que estão disponíveis nos
rios e riachos próximos ao local de assentamento, em forma de seixos.
O tamanho das manchas presentes nesses sítios varia de 15 m x 15 m a
15 m x 20 m e possuem, normalmente, forma elipsoidal, apresentando
um pacote arqueológico de, no máximo, 50 cm, sem material lítico dis-
perso em sua extensão. Dentro delas foram descobertas estruturas de
combustão com muito carvão e alguns poucos artefatos líticos.

A interpretação das ecologias culturais

A pesquisa demonstra que toda a área pesquisada abrigava di-


versos grupos, todos habitantes da Mata Atlântica que cobria a encosta
catarinense. Neste capítulo, ressaltou-se a pesquisa no sítio SC-RF-11,
localizado em um pequeno vale, que pode ser interpretado como parte
de uma rede de assentamentos de encosta. Tal ambiente caracteriza-se
como uma forte zona de transição ou ecótono: ele perpassa os grandes
rios e se aproxima da Floresta Ombrófila Densa, que modifica sua fisio-
nomia de acordo com a altitude. Na Planície litorânea e nas Serras do
Leste, com altitudes que variam entre 30 m e 400 m, se encontra a Flo-
resta Ombrófila Densa Submontana, com árvores de grande porte, so-
bre solos bem drenados e de boa fertilidade. Nessas áreas, encontramos
diversos sítios de caçadores-coletores. A Zona da Depressão Carbonífera
e os Patamares da Serra Geral, que apresentam altitudes variáveis entre
138 Cabral & Bustamante (orgs.)
400 m e 800 m, são cobertos pela Floresta Ombrófila Densa Montana,
com árvores grandes, em solos geralmente rasos, bem drenados e com
frequentes e abruptas ondulações no terreno. Ali se verifica a presen-
ça de sítios de caçadores-coletores, estruturas subterrâneas, vinculadas
aos Jê do sul e sítios da Tradição Tupiguarani. Em altitudes superiores
a 800 m, entre os Patamares da Serra Geral e a Cuesta da Serra Geral,
propriamente dita, ocorre a Floresta Ombrófila Densa Alto-montana,
com árvores de pequeno porte sobre o substrato pouco espesso e com
muitos afloramentos rochosos; encontra-se ali também a Floresta Om-
brófila Mista, com ocorrência de Araucaria angustifolia, além de áreas
de ecótonos e de transição entre as florestas Ombrófila Densa e Mista,
região ocupada pelos Jê do sul (Figura 9).

Figura 8 – Sítios semelhantes ao SC-RF-11, plotados na área do projeto.


Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

Metamorfoses florestais 139


Esse ambiente diversificado foi ocupado por grupos que, geração
após geração, ali construíram suas vidas, transformaram suas culturas, e
modificaram o espaço em que transitavam e habitavam. Para se projetar
essa percepção de uma paisagem “habitada”17 por grupos distintos, a pes-
quisa se pautou em alguns estudos empíricos sobre grupos caçadores-cole-
tores contemporâneos, realizados nas últimas décadas18, além de pesquisas
arqueológicas que discutem a mobilidade de caçadores-coletores19 em am-
bientes florestados. Além disso, se realizou um estudo etnohistórico sobre
a ocupação da região pelos grupos Xokleng.20 Pesquisas paleoecológicas fo-
ram avaliadas a fim de se contextualizar o ambiente de outrora.21 Foram bus-
cados também estudos detalhados e sistematizados sobre o relacionamen-
to entre variabilidade comportamental e variabilidade ambiental.22 Por fim,
cabe salientar a dimensão propriamente histórica do processo de ocupação.
As populações locais transformavam seus ambientes de maneira cumulati-
va, reproduzindo paisagens construídas a partir dos conhecimentos arma-
zenados através de gerações.23 Essa perspectiva serviu de referência para
a construção de um modelo de ocupação da região estudada, envolvendo
todo um jogo de mobilidades, permanências, transições e contatos, tanto
no que concerne às relações dos humanos entre si quanto no que concerne
às relações com o restante da natureza, isto é, o padrão de aproveitamento
dos recursos disponíveis na Mata Atlântica.
Com a ajuda desse referencial teórico, foi possível inferir um
quadro no qual, considerando-se a ocupação de um ambiente com re-
cursos estáveis e regularmente distribuídos, as menores unidades sociais
tenderiam a uma dispersão regular, favorecendo a instalação do grupo
em um lugar central.24 Os grupos se adensaram nessa região com per-
fil fitofisionômico de variação ambiental razoavelmente extensa, indo
desde a baixa vertente da bacia hidrográfica do Rio Tubarão, situada na
planície litorânea, até a Serra Geral. Estas unidades fitofisionômicas ga-
rantiram habitats com grande variedade florística e faunística, em parte
devida à altitude, que varia entre 30 m e 1,200 m. Como a região é mui-
to diversa, em termos geomorfológicos, observa-se uma transitoriedade
da flora e da fauna. Isso não descarta a possibilidade de serem encontra-
das espécies de distribuição muito restrita, mas é importante destacar
que, pelo fato de os ambientes estarem quase imbricados, seria impos-
sível estabelecer limites precisos para a maioria das espécies. Os princi-
pais recursos vegetais encontrados na Mata Atlântica estão disponíveis e
acessíveis durante todo o ano, o que possibilitava o seu aproveitamento
e otimização – algo que, provavelmente, se refletia nas relações intra e

140 Cabral & Bustamante (orgs.)


inter-étnicas. Essas relações, por sua vez, possibilitariam a acumulação
do conhecimento gerado, criando uma espécie de “saber ecológico”.25
Mesmo com o início da domesticação de plantas e animais
– e da conseqüente dependência humana dos produtos cultivados –,
o forrageamento continuou importante para a subsistência de muitos
grupos, algumas vezes de maneira sazonal.26 Evidentemente, a depen-
dência completa do forrageamento exigia um estilo de vida bastante
móvel, já que as pessoas precisavam se locomover de um lugar para o
outro para explorar os recursos não domesticados, sazonalmente dis-
poníveis. A alta mobilidade possui várias repercussões sociais e cultu-
rais, uma vez que os grupos coletores têm poucas possibilidades de
acumular bens materiais – possessões que têm que ser carregadas. É
provável que eles não invistam muito em artigos permanentes, como
abrigos ou construções públicas, além de poços, represas ou rios cer-
cados, entre outras benfeitorias. Dependendo do habitat, esses grupos
podem apresentar baixa densidade demográfica, mantendo-se ampla-
mente dispersos, durante a maior parte do ano.27 Esse padrão não é o
que se apresenta nos sítios investigados, onde se percebe uma estabi-
lidade média, representada na estratigrafia, na produção de artefatos
e na distribuição espacial dos sítios, conforme será discutido a seguir.
Para a implantação das suas cabanas ou aldeias, os grupos pré-co-
loniais que ocuparam a Mata Atlântica catarinense escolheram áreas de re-
cursos vegetais variados, próximas a córregos, arroios e nascentes, demons-
trando o conhecimento do ambiente e de suas oscilações, entraves e barrei-
ras culturais e naturais. Infere-se que eles possuíam grande conhecimento
da fauna e da flora, bem como de sua sazonalidade e meios de dispersão e
migração. Havia necessidade de se conhecer os préstimos de cada espécie,
alimentação, produção de unguentos e remédios, construção de moradias,
entre outros. A Floresta Ombrófila Densa oferecia vários recursos, disponí-
veis durante todo o ano. Dados etnohistóricos demonstram o intenso apro-
veitamento de plantas por grupos indígenas,28 como o cará (Dioscorea sp.),
que possui alto potencial protéico, muito semelhante ao do milho; o palmi-
to, cuja atual abundância sugere um alto aproveitamento pretérito (trata-se
de uma planta “bagueira” cujos frutos atraem grande número de animais).29
Havia ainda o pinhão, importante fonte de carboidrato, abundante em vá-
rios locais, inclusive em altitudes elevadas, acima de 600 m.
Verificou-se que os artefatos foram produzidos a partir de
matéria-prima localmente abundante, como o quartzo e a calcedônia,
além de granito e gnaisse. Os dois primeiros são utilizados na produção

Metamorfoses florestais 141


de artefatos mais elaborados, e os outros dois em peças mais rústicas,
exigindo pouco gasto de energia por parte do artesão.
Pode-se dizer que havia uma atribuição de valores aos recur-
sos coletados, tanto em termos nutricionais e ritualísticos quanto para
a produção de artefatos, como, por exemplo, a utilização dos ossos, do
couro, da pele, etc. O alimento ritualístico sofre controles de consumo e
pode determinar o acesso do grupo a certos recursos, gerando a super-
valorização e, por conseguinte, dando ao seu consumidor certo poder.

Figura 9 – Diversidade de ocupação nos diferentes compartimentos geomorfológi-


cos da Mata Atlântica. Fonte: GRUPEP-Arqueologia.

142 Cabral & Bustamante (orgs.)


Os resultados das pesquisas indicam que a região não era
apenas um local de passagem, mas pode ter sido uma verdadeira área
core. Situada entre o litoral e o planalto, ela atraiu diversos grupos,
caçadores-coletores e ceramistas, que aproveitaram a diversidade da
fauna e da flora, transitando e forrageando por toda a sua extensão,
de norte a sul. A floresta oferecia alimentos vegetais em abundância; o
palmito, por exemplo, era um recurso permanente, estável e abundan-
te. Ainda que o clima fosse frio e seco, havia abundância de vida animal
e vegetal. Os estudos palinológicos de Hermann Behling indicam que,
aproximadamente 3000 AP, o clima das terras baixas era do tipo tro-
pical, sendo a Floresta Ombrófila Densa a fitofisionomia dominante.30
Sua pesquisa indicou que a primeira expansão da Floresta Ombrófila
Mista, nas terras altas, ocorreu ao longo dos vales entre 2900 e 1000
AP, sendo que a grande expansão sobre as antigas áreas de campos
ocorreu por volta de 1000 AP. O mesmo autor afirma ser provável que
a Araucaria angustifolia estivesse restrita às áreas protegidas dos va-
les, que mantinham condições ideais de temperatura e umidade.
A interpretação da ecologia cultural de sociedades pré-colo-
niais sustenta-se em estudos de assentamentos individuais, o que tor-
na difícil a identificação de quadros mais amplos. Pode-se determinar
a situação de um grupo em particular, sua cultura material e uso da
terra, mas isto se refere, geralmente, a apenas uma parte da paisa-
gem ocupada e transformada, ou a um caminho mais curto entre dois
ou mais aspectos dessa mesma paisagem. De forma a minimizar os
riscos, a estratégia de ocupação baseava-se na maximização da varie-
dade ambiental explorada, pois isso garantia acesso a diversos nichos,
com variações sazonais diferentes. Havia, ainda, a possibilidade de se
estabelecer contatos com outras comunidades, construindo relações
interétnicas e produzindo uma certa “armazenagem social”. Por outro
lado, os povos que habitavam ecossistemas altamente produtivos pos-
suiam baixa mobilidade, como acontecia com alguns grupos da costa
oeste da América do Norte e australianos do sudoeste.31 Outros, como
os esquimós Nunamiut, viviam em vastas extensões, durante um longo
período de tempo, ocupando o ciclo de vida inteiro de uma geração.32
Partindo-se dessas referências, os resultados obtidos em nos-
sa pesquisa, assim como em outras semelhantes,33 sugerem que o bio-
ma Mata Atlântica foi um ambiente propício ao estabelecimento de
Metamorfoses florestais 143
grupos com baixa mobilidade. A pesquisa arqueológica revelou que as
áreas próximas às microbacias apresentam vestígios de assentamentos
extensos, com muitos recursos disponíveis e passíveis de exploração
intensiva. Algumas vezes, as áreas aproveitadas incorporavam locali-
dades separadas, onde havia recursos críticos, como campos ou mata,
com a possibilidade de pernoites ou longas paradas em acampamen-
tos subsidiários ou habitações temporárias. Interpretar a ocupação da
encosta dessa maneira, indica que as evidências arqueológicas de uso
de recurso conhecido34 era comum na área da encosta.
Os dados obtidos em campo e laboratório indicam que o gru-
po determinava seu espaço habitacional a fim de facilitar a captação
de recursos disponíveis, em distintas épocas do ano. Além disso, re-
conheciam a qualidade do solo e a época para plantio; entendiam do
ciclo reprodutivo dos animais e utilizavam a caça como complementa-
ção proteica. Os ocupantes dos sítios escavados tinham à sua disposi-
ção as matérias-primas das cascalheiras, mas optaram pelos seixos e
blocos rolados que estavam presentes nos rios e córregos, próximos
aos acampamentos, já que a sua coleta e transporte exigiam pouco
esforço. Arenitos e basaltos não ocorrem localmente, mas se perce-
beu, na amostra de material lítico analisada, a ocorrência de algumas
peças produzidas com essas matérias-primas, possivelmente vindas do
planalto, que não está muito distante dos locais pesquisados. Compre-
ende-se assim, que a organização da tecnologia lítica está diretamente
relacionada ao conhecimento do ambiente, e que a escolha da maté-
ria-prima dependia da facilidade de acesso. Os artefatos mais recor-
rentes foram as pontas de projéteis, raspadores, mão-de-pilão, pilão,
lâminas de machado. Esses artefatos indicam o manejo do ambiente
florestado. A hipótese da “proto-horticultura”, citada por DeBlasis para
a região da Ribeira do Iguape,35 pode também ser sugerida para os gru-
pos da Mata Atlântica catarinense, porque os sítios pesquisados estão
em terrenos que apresentam solos férteis, próximos a rios e córregos.36
A dispersão dos sítios arqueológicos, nas áreas das microba-
cias, faz pensar em um modelo de ocupação baseado em áreas de con-
centração habitacional permeadas por periferias compostas por abri-
gos temporários, utilizados durante as excursões de caça e coleta. Além
disso, haveria locais de atividades específicas, relacionados à produção
de artefatos e de atividades ritualísticas. De qualquer maneira, correla-
144 Cabral & Bustamante (orgs.)
ções dessa natureza só se tornam possíveis quando avaliadas em uma
perspectiva regional. Mesmo que o corpo de dados e as análises ainda
estejam incompletos, nossa pesquisa demonstra que o bioma Mata
Atlântica, na encosta de Santa Catarina, foi uma área para onde con-
fluíram populações com culturas distintas e que interagiram com esse
ambiente por longos períodos de tempo, formando uma complexa re-
lação que a arqueologia está apenas começando a solucionar.

_____________
1  BEHLING, H. “Late Quaternary vegetational and climatic changes in Brazil”. Review
of Paleobotany and palynology, v. 99, n. 2, 1998, p.143-156; IRIARTE, J.; GILLAM J.C.;
MAROZZI, O. “Monumental burials and memorial feasting: an example from the
southern Brazilian highlands”. Antiquity 82, 2008, pp. 947-961.
2  FARIAS, D. S. E. Distribuição e padrão de assentamento – Propostas para Sítios
da Tradição Umbu na Encosta de Santa Catarina. Tese de Doutorado. Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.
3  DEBLASIS P., KNEIP A., SCHEEL-YBERT R., GIANNINI P.C., GASPAR M.D. “Sambaquis
e paisagem: Dinâmica natural e arqueologia regional no litoral do sul do Brasil”.
Arqueologia Suramericana, 3, 2007, pp. 29- 61; FARIAS. D.S.E.; DEBLASIS, P. Relatório
de pesquisa do Sitio Galheta IV, Laguna – SC. UNISUL, 2006; FARIAS. D.S.E.; DEBLASIS,
P. Relatório de pesquisa do Sitio Galheta IV, Laguna – SC – UNISUL, 2007; FARIAS, D.
S. E.; DEBLASIS, P.; KNEIP, A. ; PERIN, E. B. Monitoramento, Salvamento, Educação
Patrimonial e Valorização dos Sítios Arqueológicos localizados na Área Diretamente
Afetada da Rodovia SC-487, Trecho Barra do Camacho. Jaguaruna – SC, 2008;
MILHEIRA, R.G. Arqueologia Guarani no litoral sul-catarinense: história e território.
Tese de doutorado. São Paulo: MAE/USP, 2010.
4  PIAZZA, W. As grutas de São Joaquim e Urubici. Florianópolis: Universidade Federal
de Santa Catarina, 1966. (Série Arqueologia; 1); ROHR, J. A. “O sítio arqueológico
de Alfredo Wagner. SC-VI-13”. Pesquisas, Antropologia n. 17, 1967; ROHR, J. A.
“Pesquisas Arqueológicas no município catarinense de Urussanga”. Anais do Museu
de Antropologia ano XI-XIV, n. 12, 13, 14 e 15, 1979-1982, pp. 48-59.
5  FARIAS, D. S. E. Diagnóstico arqueológico pré-histórico na área de implantação
da linha de transmissão de energia - PCH Barra do Rio Chapéu, Municípios Rio
Fortuna e Braço do Norte – SC, 2008; FARIAS, D. S. E. Levantamento Prospectivo,
Monitoramento Arqueológico e Educação Patrimonial - LT 69 kV Barra do Rio Chapéu
- Braço do Norte SC, 2008; CAMPOS, J. B. Relatório Final de Programa de Arqueologia
Preventiva na PCH Barra do Rio Chapéu. Portaria n° 124, publicada no Diário Oficial
da União no dia 11 de abril de 2007. 2011; CAMPOS, J. B. Diagnóstico Arqueológico
Interventivo e Educação Patrimonial Para a Implantação da CGH Santa Maria.
Processo IPHAN 01510.002824/2013-50. Diário Oficial da União Portaria nº 6, de 13
de fevereiro de 2014. Publicada no dia 14 de fevereiro de 2014. São Bonifácio – SC,
2014; DEMASI, M. A. N. Projeto de salvamento arqueológico – PCH Capivari – SC.

Metamorfoses florestais 145


Florianópolis: Universidade do Sul de Santa Catarina, 2003; SCATAMACCHIA, M. C.
M. Levantamento do Patrimônio Arqueológico da área de influência do gasoduto
Brasil-Bolívia nos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. São Paulo,
1999. (Relatório final – complementar.); SCATAMACCHIA, M. C. M. Salvamento do
Patrimônio Arqueológico da área de influência do gasoduto Brasil-Bolívia – Trecho
Sul. Relatório IV. Santa Catarina. São Paulo, 1999. (Relatório final.); EBLE, A.; REIS,
M.J. “Patrimônio Pré-Histórico”. In: Relatório Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.
Aspectos culturais e sociais. Florianópolis: UFSC; FATMA. Curso de Pós-Graduação em
Ciências Sociais, v. 1, pp. 5-45, 1976.
6  SANTA CATARINA. Legislação sobre recursos hídricos. Secretaria de Estado do
Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. Florianópolis. Governo do Estado. 1997,
p. 31.
7  LAGO, P.F. Geografia de Santa Catarina. Florianópolis: Editora da UFSC, 1971, p. 29
8  Relevo caracterizado por uma superfície de declive abrupto, inclinando-se para
uma região baixa, enquanto que a outra superfície mergulha suavemente no sentido
da primeira. Esse tipo de relevo é chamado no estado do Novo México (EUA) de
cuesta, de onde W.M. Davis tomou esta denominação. A superfície de rochas
basálticas mesozóicas da Bacia do Paraná, frequentemente exibe este tipo de relevo.
Ver SUGUIO, K. Dicionário de geologia sedimentar e áreas afins. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1998, p. 194.
9  SILVA, L. C.; BORTOLUZZI, C. A. (Eds). Texto explicativo para o mapa geológico do
Estado de Santa Catarina. Escala: 1:500.000. Florianópolis: 11o Distrito DNPM, 1987,
p. 40.
10  A Floresta Ombrófila Densa recebe denominações diferenciadas conforme sua
cota altimétrica. A altitude define algumas comunidades fitoecológicas que, em
muitos casos, se entremeiam. Então, em altitudes de até 30m ocorre a Floresta
Ombrófila Densa (FOD) de Terras Baixas, de 30 a 400m, a FOD Submontana, de 400
a 800m a FOD Montana e em altitudes superiores a 800m, encontramos a FOD Alto-
montana. SCHÄFFER, W. B. & PROCHNOW, M. (Orgs). A Mata Atlântica e você: como
preservar, recuperar e se beneficiar da mais ameaçada floresta brasileira. Rio do Sul:
Apremavi, 2002.
11  As principais espécies encontradas são Sloanea guianensis (laranjeira-do-mato),
Alchornea triplinervia (tanheiros), Ocotea catarinensis (canela-preta), Cryptocarya
moschata (canela-broto), Syagrus romanzoffiana (coqueiro jerivá), Inga dulcis (ingá),
Psidium cattleyanum (araçá), Phytolacca dióica (umbu), Euterpe edulis (palmiteiro),
entre outras.
12  INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Geografia do Brasil. Rio de
Janeiro: IBGE, 1990, p. 119.
13  KLEIN, R. M. Mapa Fitogeográfico do Estado de Santa Catarina. Itajaí: SUDESUL/
FATMA/HBR, 1978, p. 3 e 6.
14  RENFREW, C.; BAHN, P. Arqueología: teorías, métodos y práctica. 3ª ed. Madri:
Ediciones Akal, 2007; BALM, J.; PETERSON, A (eds). Archaeology in Practice: A student
Guide to Archaeological Analyses. Oxford, Blackwell Publishing, 2006.
15  BIANCHINI, G.F. Identificação florística e análise preliminar da dinâmica das
formações fitoecológicas como suporte em estudos arqueológicos. Relatório de
146 Cabral & Bustamante (orgs.)
estágio, Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão, 2003, p. 52.
16  BRAUN-BLANQUET, J. Fitossociologia. Bases para el estudio de las comunidades
vegetales. Madrid: Ed. Blume, 1979.
17  Uma “dwelling perspective”, segundo INGOLD, T. The Perception of the
Environment: Essays on Livelihood, Dwelling and Skill. London: Routledge, 2000, p.
189.
18  Ver as referências citadas em WINTERHALDER, B. “Optimal foraging
strategies and hunter-gatherer research in anthropology: theory and models”. In:
WINTERHALDER, B; SMITH, E. eds. Hunter-gatherer foraging strategies. Ethnographic
and archaeological analyses. Chicago: Chicago University Press, 1981.
19  FARIAS, Distribuição, op. cit.; DEBLASIS, P. A. D. Bairro da Serra em três tempos:
arqueologia e uso do espaço regional e continuidade cultural no Médio Vale do
Ribeira. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1996; DIAS, A.
S. Sistema de assentamento e Estilo Tecnológico: Uma Proposta Interpretativa para
a Ocupação Pré-colonial do Alto Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul. Tese de
Doutorado. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003; KERN, A.A. “Antecedentes
indígenas: problemáticas teórico-metodológicas das sínteses sobre a pré-história
regional”. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia n. 8, 1998, p. 15-24; KERN,
A.A. “Cultura material e paleopaisagens: limites e possibilidades de um modelo”.
Revista do CEPA v. 23, n. 29, 1999, p. 80-87; SCHMITZ, P. I. “O mundo da caça, da pesca
e da coleta. Arqueologia do Rio Grande do Sul, Brasil”, Documentos 05. Pré-História
do Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 1991, p.9-30.
20  FARIAS, Distribuição, op. cit.
21  BELINGH, op. cit.; IRIARTE et al., op. cit.
22  WINTERHALDER, op. cit.
23  INGOLD, op. cit.; BUTZER, K. W. Arqueología – Una ecología Del hombre: método
y teoría para un enfoque contextual. Barcelona: Bellaterra, 1989.
24  WINTERHALDER, op. cit.; BUTZER, op. cit.
25  BATES, D. G.; LEES, S. H. Case studies in Human Ecology. New York: Plenun Press,
1996.
26  Idem.
27  Idem.
28  Encontramos documentos que registram a presença de “bugres” na região
de Tijucas, indicando a exploração no entorno do acampamento: “(...) em toda a
circunferência, dommo. / rancho (50 braças) tirarão todo o palmito, que pelo que
parecia / foi aproveitado para comer, e das folhas cobrirão o d.o ran-/cho; (...)”
Carta do Delegado de Tijucas Grande Manoel Teixeira Brazil ao presidente Francisco
Carlos de Araújo Brusque sobre o aparecimento de vestígios (vários ranchos) do
Gentio bugre. Fevereiro de 1861. Ver SCHEIBE, F. Índios. Série: ofícios dos delegados
e subdelegados de polícia ao presidente da província (1842-1892). Florianópolis:
Universidade Federal de Santa Catarina. Núcleo de Estudos Portugueses. Repertório
– 1, 1996. (Série Filológica).
29 Dentre os animais aproveitados pelo homem para consumo destacam-se algumas
espécies que interagem com o Euterpe edulis: periquitos e tiribas (família das
Metamorfoses florestais 147
Psittacidae); sabiás (família das Turdidae); cuícas, esquilos e morcegos; mamíferos
arborícolas do grupo dos primatas; mamíferos ruminantes, como o veado mateiro;
anta; cutia; paca. Ver SCHÄFFER e PROCHNOW, op. cit. Essas espécies animais eram
caçadas para a alimentação, produção de adornos plumários e uso de ossos e pele.
30  BEHLING, op. cit..
31  EVANS, J.; O’CONNOR, T. Environmental Archaeology: principles and methods.
Stroud: Sutton Publishing, 1999.
32  BINFORD, L. R. “Organization and formation process: looking at curated
technologies”. Journal of Anthropological Research v. 35, n. 3, 1979, pp. 255-273;
BINFORD, L. R. “Willow smoke and dogs’ tails: hunter-gatherer settlement systems
and archaeological site formation”. American Antiquity, v. 45, n. 1, 1980, pp. 4-20.
33  FARIAS, Distribuição, op. cit.; DIAS, S. SIG e Arqueologia: Sugestão Para Pesquisa
Arqueológica na Micro-Bacia do Rio Caruru Tubarão - SC. Monografia de conclusão
de curso. Tubarão: UNISUL, 2007; PERIN, E.B. Análise espacial dos sítios líticos do
alto curso da bacia hidrográfica do rio Tubarão. Monografia de conclusão de curso.
Tubarão: UNISUL, 2007.
34  BAILEY, G.N.; DAVIDSON I. “Site exploitation territories and topography: two case
studies from Palaeolithic Spain”. Journal of Archaeological Science v. 10, 1983, p. 87-
115.
35  DEBLASIS, Bairro da Serra, op. cit.
36  FARIAS, Distribuição, op. cit.
*   Este trabalho sintetiza os resultados do Projeto Arqueologia na Mata Atlântica
(AMA), desenvolvido por pesquisadores do GRUPEP-Arqueologia e MAE/USP, desde
2003.

148 Cabral & Bustamante (orgs.)


III

Encontros e regimes coloniais


O pau-brasil na bahia colonial:
Zonas de ocorrência, condições de exploração e
impactos ambientais

Marcelo Henrique Dias


Universidade Estadual de Santa Cruz

Quando o Brasil se tornou independente o seu patrimônio


de pau-brasil já estava visivelmente diminuído. Três séculos
e anos levaram a distribuírem a madeira tintorial pelos mer-
cados consumidores da Europa [...] Junte-se a isso o que car-
rearam para a sua pátria, por contrabando, os franceses. Pá-
gina interessante será, certamente, a que se escrever sobre
o progressivo rareamento do pau-de-tinta, até quase o seu
desaparecimento, mais pela extração inconsiderada, dir-se-
-ia devastadora, do que mesmo pela quantidade dos troncos
exportados. É sem dúvida, um dos casos mais flagrantes, no
mundo, da quase extinção de uma espécie vegetal pela eco-
nomia destruidora do homem.
Bernardino José de Souza, 1939.1

O texto da epígrafe, retirado de uma obra de meados do século


XX, expressa a percepção ainda dominante na literatura histórica a respei-
to da exploração do pau-brasil (Caesalpinia echinata). O alerta da extinção
chega aos dias atuais com uma carga de alarmismo muito maior, pois vive-
mos a consciência de uma profunda crise ecológica e sabemos que a Mata
Atlântica, habitat nativo do pau-brasil, é um dos biomas mais ameaçados
do mundo pelo desflorestamento e degradação ambiental. De fato, como
antevia o autor da epígrafe, o pau-brasil é uma das espécies vegetais mais
raras nos atuais fragmentos da Mata Atlântica.2
A literatura histórica, no geral, também segue a orientação de
Souza quanto ao tamanho do impacto gerado pela extração seletiva e
pelas culturas de exportação durante os primeiros trezentos anos de co-
lonização, como resultado da insustentabilidade do modelo português.
Afinal, os efeitos da exploração imprevidente já se faziam sentir ao final
do primeiro século de exploração: informada das “muitas desordens”
que impediam a conservação do pau-brasil, a Coroa decretou, em 1605,

Metamorfoses florestais 151


um longo regimento sobre a sua exploração. Na justificativa, alegava-
-se que, para encontrar exemplares da espécie, era já necessário entrar
“muitas léguas sertão [há] dentro”. Além de reafirmar o monopólio e
regulamentar as normas dos contratos, o regimento mandava criar guar-
das florestais e obrigava um manejo mais sustentável, observando a ne-
cessidade de cortar as árvores a uma altura que permitisse a rebrota. Na
condição de espécie “mais costeira do que sertaneja”, somente o “pri-
meiro ciclo” já teria sido suficiente, portanto, para criar um forte alarde
de rareamento da espécie na costa atlântica da América portuguesa.3
A percepção que justificava as medidas do regimento encon-
tra correspondência nas avaliações contemporâneas sobre o assunto.
Warren Dean, por exemplo, calculou que somente no primeiro século
de colonização um volume médio anual de oito mil toneladas de pau-
-brasil tenha chegado aos portos europeus, o que teria exigido a derru-
bada de dois milhões de árvores num espaço de seis mil quilômetros de
Mata Atlântica. E a ação do machado não diminuiu com as medidas do
regimento de 1605, impraticável que era em razão da fragilidade dos
aparelhos de fiscalização do estado e da vista grossa das autoridades
portuguesas. Como demonstrou Souza, a continuidade da exploração
em larga escala se estendeu para muito além de um suposto “primeiro
ciclo”, chegando a período bem adiantado do Império brasileiro. 4
Todavia, levando-se em conta que a exploração do pau-brasil
ocorria em alguns poucos lugares da costa que reuniam condições para
isso, o impacto ambiental deve ser avaliado de forma igualmente pontual.
De maneira geral, a literatura histórica aponta três zonas de ocorrência e
exploração: a costa pernambucana, o litoral fluminense, e a faixa litorânea
do sul da Bahia. A leitura atenta de fontes recorrentemente citadas, como
os testemunhos de Gândavo, Gabriel Soares de Souza, Frei Vicente de
Salvador e dos Diálogos das Grandezas do Brasil, dentre outros, não dei-
xa dúvidas de que a extinção – causada pela extração seletiva ou, então,
pela “limpeza” da floresta, sobretudo, para agricultura – ocorreu mais em
Pernambuco do que em qualquer outro lugar da costa brasileira. Assim,
uma história do “progressivo rareamento do pau-de-tinta, até quase o seu
desaparecimento” deverá considerar os diferentes contextos sócio-ecoló-
gicos que imprimiram ritmos distintos de exploração e depauperamento
nessas três faixas da Mata Atlântica. É preciso discernir com mais precisão
essas zonas de ocorrência e exploração, esforço já realizado com muitos
152 Cabral & Bustamante (orgs.)
bons resultados para o litoral nordestino, entre a foz do São Francisco e o
Rio Grande do Norte, e também para o litoral fluminense. Sobre a Bahia,
entretanto, pouco se fez, pairando ainda um quase completo desconheci-
mento sobre as zonas de ocorrência, a dimensão da exploração e os níveis
de impacto ambiental. 5
A proposta deste trabalho é examinar os diferentes momen-
tos da exploração do pau-brasil, na Bahia colonial6, identificando com a
maior precisão possível as suas zonas de ocorrência e as variações da es-
pécie descritas na documentação histórica. Atualmente são reconheci-
dos três grupos, ou tipos ecológicos, de Caesalpinea echinata, com base
no formato das folhas e na coloração do lenho: o primeiro tipo tem pinas
e folíolos menores e mais numerosos, com o lenho apresentando geral-
mente um tom castanho-alaranjado, variação encontrada em vários tre-
chos da Mata Atlântica, entre o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Norte; o
segundo grupo apresenta pinas e folíolos maiores e menos numerosos,
a cor do lenho é de um laranja-avermelhado e ocorre em certas porções
do litoral da Bahia e do Espírito Santo; o terceiro tipo ecológico se carac-
teriza por amplos folíolos, chegando a até 12 cm de comprimento, seu
lenho é de uma coloração vermelha enegrecida e suas maiores popula-
ções ocorrem no vale do rio Pardo, no sul da Bahia. A faixa costeira da
Bahia, em particular os territórios do sul, concentra núcleos de florestas
ombrófilas e semidecíduas propícias à ocorrência de pau-brasil. Estudos
mostram que a maior diversidade ocorre justamente no sul da Bahia e
no norte do Espírito Santo, trecho da Mata Atlântica reconhecido como
um dos maiores centros de endemismo do planeta.7
Atualmente, essas florestas encontram-se muito fragmentadas,
o que limita severamente a sua capacidade de regeneração. Espécies ar-
bóreas como o pau-brasil, cujo processo de reprodução fica seriamente
comprometido pelo “efeito de borda”, correm maiores riscos de extinção,
exigindo mais atenção dos botânicos sobre as suas características e seus
mecanismos reprodutores. Mesmo havendo certo consenso no reco-
nhecimento das variações descritas acima, resta por fazer uma descrição
científica que consolide a questão, para o que são necessários estudos de
campo mais abrangentes. No entanto, o principal arquivo do botânico, a
mata em si, no seu atual estado de fragmentação, impõe limites quase
intransponíveis para estudos fitogeográficos, por exemplo. Restam, por-
tanto, os testemunhos históricos e os próprios botânicos têm apontado a
Metamorfoses florestais 153
“necessidade urgente de estudos para resgatar informações históricas que
permitam identificar com clareza os locais de procedência desses diferen-
tes tipos de pau-brasil.” 8 Pretendemos contribuir nesse sentido no que diz
respeito à geografia das populações, já que dados acerca das característi-
cas botânicas são muito difíceis de encontrar, nos testemunhos históricos.
Para além desse primeiro nível da história ambiental – o da re-
construção das paisagens do passado – aqui serão analisados os proces-
sos produtivos dentro dos contextos históricos, sociais e naturais que lhes
deram sentido, buscando apreender os resultados ambientais correspon-
dentes.9 Contrariando a visão corrente, segundo a qual os humanos te-
riam protagonizado uma destruição ambiental irreparável, em particular,
nas populações de pau-brasil, nós argumentamos que, nos mais de três
séculos do período colonial, a Mata Atlântica do sul da Bahia mostrou-se
mais resiliente do que as sociedades humanas que a exploraram.

A exploração do pau-brasil na Bahia quinhentista

Em 1502, foi elaborado um mapa com informações recolhidas


dos primeiros navegadores que estiveram na costa do Brasil, depois da
expedição de Pedro Álvares Cabral. O Mapa de Cantino é o primeiro
que faz referência à exploração do pau-brasil e parece fora de dúvida
que a indicação do rio do Brasil, junto a Porto Seguro, indica o local da
origem do primeiro lote do lenho vermelho que entrou em Lisboa, em
1502. Pesquisas do almirante e historiador Max Justo Guedes levaram-
-no a concluir que o rio do Brasil corresponde ao atual rio do Frade,
pouco ao sul de Porto Seguro, o primeiro ponto de aproximação da
expedição de Cabral na costa brasileira. Outra zona pioneira de resgate
de pau-brasil na costa baiana foi a Baía de Todos os Santos, onde Amé-
rico Vespuccio carregou parte de sua carga em 1503. Uma notícia de
Anchieta aponta a foz do rio Paraguassu como local de carregamento
dos franceses que acompanharam Gonneville, em 1504. Ali, Cristóvão
Jacques também encontrou franceses, em 1526, combatendo-os com
sua patrulha: ainda hoje chama-se “dos Franceses” a ilha do Paraguas-
su onde teriam se refugiado os sobreviventes do combate. Outros dos
que frequentavam a costa brasileira preferiam o litoral entre o cabo de
Santo Agostinho e “um certo Porte Real” que, pelos 14º de latitude,
deve ser Camamu, como sugere Justo Guedes.10
154 Cabral & Bustamante (orgs.)
Mapa 1 – Zonas de ocorrência de pau-brasil no sul da Bahia. Elaborado a partir da
base de dados do Laboratório de Análise e Planejamento Ambiental da
Universidade Estadual de Santa Cruz (LAPA-UESC).

Metamorfoses florestais 155


No contexto das concessões das capitanias hereditárias já
eram bem conhecidos os recortes costeiros, os rios e os obstáculos
à navegação presentes no litoral brasileiro, sobretudo naquele trecho
demarcado no Mapa de Cantino, entre o Cabo de Santo Agostinho (PE)
e o litoral de Cabo Frio (RJ). Os beneficiários das primeiras capitanias
eram homens intimamente ligados às conquistas e aos negócios ultra-
marinos, de maneira que certamente sabiam do potencial econômico
das terras que solicitaram a D. João III. Francisco Pereira Coutinho, por
exemplo, havia sido companheiro de Duarte Coelho, donatário de Per-
nambuco, em campanhas militares na Índia. Na ponta norte da Baía
de Todos os Santos, Diogo Álvares, o Caramuru, agenciava o escambo
de pau-brasil entre índios e europeus desde pelo menos 1509. Outro
donatário, Jorge de Figueiredo Corrêa, da capitania de Ilhéus, não era
conquistador, mas participava ativamente do mundo dos negócios ul-
tramarinos na condição de escrivão da Casa da Mina, onde escriturava
todo o movimento comercial do além-mar. Isso, certamente, lhe garan-
tia informações privilegiadas para a escolha de seu quinhão na partilha
da costa brasileira. A sua capitania, como se verá, detinha matas com
pau-brasil desde o rio de Contas até os limites com Porto Seguro, no rio
Jequitinhonha. Já o donatário desta última capitania, Pero de Campos
Tourinho, veio para o Brasil com sua família e por mais de uma década
comercializou pau-brasil, inclusive com franceses e espanhóis.11
Além da vintena (20%) do que arrecadava a Coroa com os contra-
tos do pau-brasil, os donatários obtiveram constantes licenças de explora-
ção, sem as quais dificilmente fariam frente aos investimentos necessários
à colonização. Em 1537, D. João III autorizava o pagamento de fretes do
pau-brasil que Jorge de Figueiredo Correa mandou trazer da sua capitania
de Ilhéus, com licença régia. Desde 1536, vinham sendo nomeados feito-
res e oficiais da Fazenda Real naquela capitania, cujo primeiro engenho
veio a operar somente depois de 1548. Sobre Porto Seguro temos notícias
de que, em 1550, os armadores e moradores daquela capitania tinham
que pagar os fretes de seus navios com os rendimentos do pau-brasil,
dada a pequena produção local de açúcar. De ambas as capitanias, toda-
via, não se tem notícias dos pontos da costa onde se faziam os resgates.
Para o litoral norte da Bahia, Gabriel Soares de Sousa relatou a ocorrência
de pau-brasil nos sertões dos rios Vaza-Barris (que o autor chama de Cote-
gipe), Real e Sergipe, onde franceses costumavam carregar. 12
156 Cabral & Bustamante (orgs.)
Mesmo no contexto de expansão da economia açucareira,
não somente os portugueses continuaram no negócio do pau-brasil,
como também os franceses intensificaram suas ações na costa brasi-
leira. Somente no ano de 1546, teriam saído do porto de Havre 28
embarcações com destino ao Brasil. Os índios Tupi, na condição de cor-
tadores e carregadores, beneficiavam-se da crescente demanda por
seus serviços, valorizando-se aos olhos das novas autoridades dos se-
nhorios. Isso deu margem a muitos conflitos, nas capitanias de Ilhéus
e Porto Seguro, dos quais nos deram notícias os primeiros jesuítas que
vieram com Tomé de Souza, em 1549. Uma década depois, Manuel da
Nóbrega lamentava-se das guerras ocorridas no Espírito Santo e em
Porto Seguro, insufladas pelos concorrentes franceses.13
O perigo que a ampliação da demanda pela mão-de-obra
indígena trazia para os donatários é bem exemplificado pelo caso de
Pernambuco. Duarte Coelho reclamou ao rei dos efeitos do resgate
indiscriminado de pau-brasil, em Itamaracá, capitania vizinha. Os ar-
madores daquele negócio, indiferentes aos esforços do donatário para
criar condições favoráveis à expansão dos engenhos na sua capitania,
ofereciam aos índios muito mais do que os utensílios de metal, roupas
e outras mercadorias inofensivas: por seus trabalhos de corte e carre-
gamento de madeira, os nativos estavam recebendo armas e pólvo-
ra, o que aumentava consideravelmente o seu poder de negociação
e resistência. Segundo Stuart Schwartz, o sistema de escambo atuou
decisivamente na desestruturação das aldeias Tupi, apesar de preser-
var o caráter comunitário daquelas sociedades. Com a intensificação
da exploração, no período das capitanias, a concorrência pelo traba-
lho indígena saturou o mercado de quinquilharias e colocou nas mãos
dos índios mais e mais ferramentas e armas, como reclamava Duarte
Coelho. Além de ampliar o seu poder de negociação, o comércio mu-
dou a economia dos silvícolas, ao facilitar tarefas como a derrubada da
mata, a caça e a produção de canoas: aliviados nessas atividades, eles
puderam investir mais tempo em guerras inter-tribais, alimentando o
mercado de resgate de escravos, ao mesmo tempo que desestrutura-
vam as aldeias.14
A faixa litorânea do atual território da Bahia era densamente
povoada quando os europeus começaram a frequentá-la. Os índios Tu-
pinambá dominavam do litoral norte até o sul de Itaparica. Desde a Baía
Metamorfoses florestais 157
de Camamu até o rio Doce predominavam índios Tupinikin, região den-
samente ocupada por aldeias. Esses índios se deslocavam por terra ou
pelo mar entre as capitanias de Ilhéus e Porto Seguro. Em sua narrativa
sobre a guerra que o governador Mem de Sá travou contra uma facção
de índios Tupinikin insurgidos em Ilhéus, no inverno de 1559, o padre
Nóbrega fornece muitas evidências não apenas do continuo povoamen-
to da costa, como da articulação que havia entre as populações autóc-
tones. Guerras como a de Mem de Sá terminavam com a destruição das
aldeias insurgidas, resultando em grande impacto demográfico. 15
Isso ocorria em pleno processo de expansão da economia
açucareira, que absorvia cada vez mais cativos indígenas. A situação
se agravou com as epidemias de varíola e sarampo que assolaram a
costa desde o Espírito Santo até a Bahia, na década de 1560. Os jesuí-
tas contabilizavam dois terços dos seus índios aldeados mortos nesses
surtos. Cada vez mais os colonos passaram a praticar os “saltos”, ou
seja, incursões aos sertões, com o auxílio de índios aliados, para o res-
gate direto de novos escravos. Essa prática, porém, encontrou forte
resistência dos jesuítas, muito mais efetiva na Bahia do que em Per-
nambuco, onde eram “os colonos [que] tinham voz ativa”.16 Se em Per-
nambuco os efeitos demográficos das guerras e das doenças puderam
ser minimizados com a oferta de escravos capturados na guerra que
se travou contra os índios Caeté, na Bahia e vizinhas do sul, os colonos
não tinham como obter mão-de-obra e por isso recorriam a escravos
nativos provenientes das capitanias do norte. Assim, comprometido o
sistema de escambo pela desestruturação das aldeias, pela baixa de-
mográfica e pela concorrência dos engenhos, o negócio do pau-brasil
ficou seriamente comprometido nas capitanias da Bahia, de Ilhéus e
de Porto Seguro.17
Nas duas últimas, o vazio demográfico deixado pela dizima-
ção Tupi atraiu hordas de índios tapuias identificados como Aimoré,
cujos ataques aos assentamentos portugueses acabaram por compro-
meter seriamente o funcionamento dos engenhos. O perigo da ronda
Aimoré, nas matas vizinhas às povoações portuguesas, paralisou de
vez o resgate do pau-de-tinta em ambas as capitanias. Somente entre
1602 e 1603, no governo de Diogo Botelho, conseguiu-se a paz com os
tapuias. Na petição que o governador mandou ao rei alegando servi-
ços prestados, ele afirmou ter celebrado as pazes com os Aimoré, do
158 Cabral & Bustamante (orgs.)
que adveio muitas vantagens para o desenvolvimento da colonização,
por exemplo, a possibilidade de se “vadear o sertão” das capitanias de
Porto Seguro e Ilhéus, onde já se descobriam novas matas de “muito e
finíssimo pau-brasil”.18
Enquanto, nas capitanias de Ilhéus e Porto Seguro, a ausência
dos Tupi e a ameaça latente dos Aimoré haviam indiretamente preser-
vado as populações de pau-brasil, na capitania de Pernambuco, então
pertencente a Duarte de Albuquerque, a intensa exploração já tinha
depauperado seriamente as populações locais da espécie, o que moti-
vou o mencionado regimento de 1605. Um ano depois da sua promul-
gação, uma devassa para investigar denúncias de contrabando apurou
que o próprio donatário de Pernambuco era cúmplice das irregulari-
dades. Considerando-se os crescentes custos de transporte de esto-
ques interioranos e a dificuldade de fazer valer os interesses da Coroa
na tumultuada Pernambuco, as matas descobertas no sul da Bahia e
adjacências surgiam como uma fronteira promissora. Não por acaso,
o contrato para explorá-las foi arrendado, em 1606, por um valor su-
perior aos de Pernambuco, Paraíba e Rio de Janeiro. Tendo em vista a
exploração que se realizava em Pernambuco e a que se projetava para
as “novas” matas descobertas em Ilhéus e Porto Seguro, o governador
geral Diogo de Meneses (1608-1613) afirmava ao monarca que as ver-
dadeiras minas do Brasil eram, então, o açúcar e o pau-brasil.19

Zonas de ocorrência no século XVII

Os desvios do pau-brasil de Pernambuco e o esforço da Co-


roa em dirimi-los dão uma idéia dos riscos envolvidos nos contratos
de exclusividade. Conquanto todos os custos da operação e os riscos
da travessia ficassem por conta do contratador, a Coroa, por sua vez,
garantia colaboração dos governadores e dos provedores da Fazenda
para a “boa expedição” dos contratos. O maior problema era a garantia
do monopólio, sempre contrariado pelos contrabandistas estrangeiros
e locais. Provedores de capital, os contratadores nomeavam adminis-
tradores (“feitores”) que compravam o pau-brasil dos fabricantes lo-
cais, a um preço pré-fixado no contrato. Estes eram os verdadeiros em-
preendedores do negócio, pois agenciavam toda a mão-de-obra e os

Metamorfoses florestais 159


insumos necessários à produção. Para isso, eles precisavam comprar
escravos e negociar com barqueiros, produtores de farinha e missio-
nários jesuítas que administravam as aldeias, últimos redutos da mão-
-de-obra indígena. Havendo a possibilidade de vender a produção por
um valor mais compensador fora do contrato, muitos se desviavam e
acabavam por negociar até mesmo com franceses, ingleses e holande-
ses que rondavam a costa com esse intuito.
Vigiar os descaminhos e as ações dos corsários passou a ser
uma preocupação constante das autoridades coloniais. Organizar essa
proteção foi uma das principais missões desempenhada por Diogo de
Campos Moreno, sargento-mor que deixou preciosas informações so-
bre os locais de ocorrência do pau-brasil e das escalas de exploração
nas diferentes capitanias, no início do século XVII. Ele visitou pessoal-
mente boa parte da costa brasileira e parlamentou com autoridades
locais e gente envolvida diretamente no trato do pau-brasil; além dis-
so, escreveu relatórios que formaram o “Livro que dá razão do Estado
do Brasil”, de 1612, cujas anotações serviram ao cartógrafo João Teixei-
ra Albernaz (o Velho).20
Sobre a capitania da Bahia, especialmente seu Recôncavo,
Moreno foi enfático em afirmar a inexistência de pau-brasil. Teriam se
esgotado as reservas que sustentaram o resgate no tempo de Caramu-
ru? O certo é que não havia interesse oficial em estimular uma ativida-
de que pudesse colocar a própria floresta como objeto de concorrência
com os engenhos. Afinal, o regimento de 1605 previa o “coutamento”
das matas onde houvesse pau-brasil, o que significava reservá-las para
os contratadores régios. A necessidade de vastas extensões de terras
florestadas para os engenhos – nessa época já havia cinquenta deles
em funcionamento na capitania da Bahia - deslocara para as capitanias
vizinhas outras atividades dependentes dos mesmos recursos naturais,
como as lavouras de abastecimento interno, a exploração do pau-bra-
sil e a exploração madeireira voltada para a construção naval e civil.
No porto de Salvador se recolhia, portanto, somente o pau-brasil que
vinha “da banda do sul.” 21
A espécie era abundante na capitania de Porto Seguro. Na fron-
teira ainda mal delimitada com a capitania do Espírito Santo, entre os
rios Doce e São Mateus (antigo Cricaré), Moreno informa que as terras
vinham sendo recentemente ocupadas, sob o estímulo do “muito pau-
160 Cabral & Bustamante (orgs.)
-brasil fino que entre seus matos e madeiras se acha”. Um pouco mais
ao norte, ele identifica os rios Mucuripe (atual Mucuri), Peruipe e o das
Caravelas, “todos com barras e todos despovoados, com pau-brasil [...].”
Para dar novo ânimo ao repovoamento de um antigo núcleo colonial,
na foz do rio das Caravelas, o sargento-mor apostava no interesse que
o negócio do pau-brasil poderia despertar, “servindo a Sua Majestade
de algum remédio, por ser este sítio tão importante à navegação por
dentro dos Abrolhos e à guarda do pau-brasil que ali se cria, e Sua Majes-
tade tanto encomenda”. Na visão de Moreno, era necessário promover
a exploração daqueles estoques de pau-brasil, de modo a defender não
somente a espécie ou até o conjunto da floresta, mas o recurso econô-
mico que ela representava. Também havia populações de pau-brasil nas
margens dos rios que desaguavam na costa entre o rio das Caravelas e a
vila de Porto Seguro. Alguns desses lugares haviam possuído engenhos,
mas “se perderam com a guerra dos aimorés”; a indústria de construção
naval também se desorganizara, pois os índios impediam que os colonos
penetrassem nas matas. Com a paz, a floresta voltou a ser devassada,
viabilizando novamente aquelas atividades econômicas que haviam pro-
movido o povoamento europeu da capitania.22
Desde 1610, a segurança havia sido reforçada na vila-sede de
Porto Seguro, com a instalação de um pequeno forte de taipa de pilão,
armado com dois canhões de ferro. No fortim, operavam dez soldados
de presídio e um cabo, todos pagos pela Fazenda Real e nomeados
pelo governador Diogo de Meneses, “para que como gente obrigada
acompanhasse o capitão da capitania, assim na guarda da costa como
na vigia do pau-brasil daqueles rios”. Os índios aldeados careciam de
governo, pois os jesuítas não puderam se manter sem o apoio dos mo-
radores e “pelas poucas esmolas da terra.” Segundo Moreno, o remé-
dio seria a exploração do pau-brasil. Da vila de Porto Seguro rumo ao
norte, passando pelo “famoso Porto Velho de Santa Cruz” e pela barra
de Santo Antonio, até o rio Grande (atual Jequitinhonha), a costa tam-
bém estava despovoada.23 Este rio fazia o limite com a capitania de
Ilhéus, na qual, desde a pacificação dos Aimoré, o negócio do pau-bra-
sil vinha se desenvolvendo.
Pouco ao norte do Jequitinhonha situa-se o rio Pardo, chama-
do à época de Patipe.24 Naquele lugar, onde o sargento-mor identificou
a existência de bons portos e fartura de suprimentos de peixe e caças,
Metamorfoses florestais 161
havia também “o melhor pau-brasil de toda a costa, mais fácil de cor-
tar e de carregar.” Neste ponto, porém, o pau-brasil ocorria a partir
de uma distância de quatro a seis léguas (entre 26 e 40 km) da linha
da costa. Dali, seguia rumo ao norte por um cordão de terras e matas
possíveis de penetrar, subindo rios como o Messó (atual Lençóis), o
Una, o Poxim e o Voisia (possivelmente o rio Cipó), às margens dos
quais também havia populações de pau-brasil. Da vila de São Jorge
dos Ilhéus, seguindo pelo rio Cachoeira por aproximadamente quatro
léguas, alcançava-se o “monte Tanjerepe”, onde o pau-brasil era “mui-
to fino” e dele já havia uma “grande rima” à espera do embarque. Ao
norte da vila, “mais ao sertão”, aquela faixa de matas com pau-brasil
alcançava o rio de Contas, também despovoado, e como tal, “atrevida-
mente buscado dos corsários franceses.” 25
O cordão de matas descrito por Moreno corresponde a flo-
restas de terras baixas que recobrem largas porções da costa, ora em
tabuleiros da formação barreiras, ora em restingas. Essa composição
favorece a precipitação nas encostas voltadas para o mar, ao mesmo
tempo em que cria áreas mais secas naquelas voltadas para o interior,
favorecendo o estabelecimento de florestas com características semi-
decíduas ou decíduas.26 A partir dos limites entre os atuais estados do
Espírito Santo e Bahia - no trecho que demarcava a extremidade sul da
capitania de Porto Seguro – começa uma zona costeira de formação
barreiras, a qual se estende para o norte até a altura de Porto Seguro.
Seguindo para o norte, estas barreiras dão lugar a restingas e florestas
baixas. Na altura do rio Pardo, a planície costeira se interioriza. En-
quanto no litoral predominam florestas baixas, mangues e restingas,
delineia-se mais para o interior um cordão de floresta estacional se-
mi-decídua, estendendo-se paralelamente à linha da costa por apro-
ximadamente 20 a 30 km, até o rio Una, onde se destaca a Serra das
Lontras: neste ponto, os tabuleiros de baixa altitude novamente se
aproximam da costa, alternando-se com florestas baixas e restingas
até a atual cidade de Ilhéus. A partir da Serra Grande, uma cadeia de
florestas de tabuleiro acompanha a linha costeira a pouca distância
da costa, até chegar ao rio de Contas, onde novamente se inicia uma
faixa de florestas baixas, restingas e manguezais que se prolongará por
toda a baía de Camamu.27 As “matas de pau-brasil” ocupavam, por-
tanto, florestas de encostas a pouca distância do litoral entre o rio de
162 Cabral & Bustamante (orgs.)
Contas e o rio Pardo. A partir de Porto Seguro, rumando para o sul,
o pau-brasil voltava a ocorrer nas extensões das formações barreiras,
que ofereciam terrenos mais bem drenados na própria encosta maríti-
ma. Estudos atuais em fragmentos florestais dos municípios de Itambé
e Jussari - inseridos, portanto, na faixa da Mata Atlântica indicada pelo
sargento-mor - apontam valores de densidade próximos a dez indiví-
duos de pau-brasil por hectare.28 Entende-se, assim, porque duas ci-
dades localizadas nesta faixa foram batizadas, já no século XX, de Pau
Brasil e Ibirapitanga.
No tempo de Diogo Moreno, aquelas matas já não eram “re-
líquias naturais”, mas o resultado de centenas de anos de atividades
antrópicas.29 Como visto aqui, tratava-se de uma faixa costeira intensa-
mente povoada no período da chegada dos europeus. Considerando os
padrões de assentamento Tupi, é provável que os tabuleiros que acom-
panham a faixa litorânea fossem utilizados para a agricultura de corte e
queima. O processo de regeneração pós-abandono pode ter dado ori-
gem a formações secundárias com o pau-brasil “muito fino e fácil de car-
regar” que descreveu Moreno. Outra pista fitogeográfica é a referência
às populações das adjacências do rio Pardo como sendo as de melhor
qualidade de toda a costa. Elas corresponderiam àquele terceiro tipo
ecológico atualmente reconhecido, de lenho com intensa coloração ver-
melho-enegrecida. No século XVIII, Manuel Ferreira da Câmara também
se reportou ao pau-brasil daquela zona, o qual qualificou como “muito
pouco inferior ao de Alagoas e ao de Pernambuco”. 30
Diferente da capitania de Porto Seguro, na qual as populações
de pau-brasil vinham sendo descobertas para futuros investimentos,
em Ilhéus a exploração já vinha ocorrendo por alguns anos antes da
visita de Moreno. Desde 1605, uma pilha de 2.000 quintais (117 to-
neladas) de pau-brasil em condições de embarque estava estocada na
margem do rio Pardo (Patipe), bem escondido do inimigo, a seis léguas
de distância da foz. Pertencia a Bernardo Ribeiro, que morava em Sal-
vador. Um carregamento mais substancial, mas do qual não se sabe a
quantidade, foi realizado em 1610, quando caravelas de cem tonela-
das entraram no rio Pardo para buscar pau-brasil.31 O negócio estava
sob administração direta da Coroa, que, mais para manter o preço de
mercado, do que para proteger a espécie, limitava a quantidade a ser
fornecida por cada uma das vilas produtoras.
Metamorfoses florestais 163
Os camaristas de Ilhéus clamavam pelo aumento da quota da
vila, então fixada em 1.500 quintais, menor, portanto, que a quantidade
já fabricada e estocada em uma única pilha no rio Pardo. Os moradores
locais, pelo menos os mais poderosos, participavam diretamente do
negócio, como fabricantes, ou fornecedores de insumos, transporte e
mão-de-obra. Manoel do Couto, por exemplo, disponibilizou escravos
para carregar os dois mil quintais do rio Pardo, pertencentes ao nego-
ciante de Salvador. Num contexto de escassez de mão-de-obra, quando
a capitania se encontrava “tão desbaratada do gentio da terra”, dispor
de um plantel de escravos e índios administrados era condição primaz
para participar do negócio do pau-brasil. Assim, senhores de engenho
e reconhecidos preadores de índios da vila de Ilhéus - como Bartolo-
meu Luis e Henrique Luis Espinha - tinham quantidades de pau-brasil
preparadas para embarque no rio Pardo e no rio de Contas. Até mesmo
a principal autoridade da capitania, o capitão-mor Manuel Pacheco de
Brito, foi acusado, em 1612, de guiar uma nau inglesa a bordo da qual
vinha seu filho “com intento de carregar pau vermelho.” 32
Nem mesmo aquela nobreza da terra, no entanto, foi capaz
de manter seus negócios no decorrer do século XVII, seja com enge-
nhos, seja no trato do pau-brasil. Sem os investimentos régios em de-
fesa e administração - que haviam contribuído decisivamente para o
crescimento econômico das capitanias da Bahia, de Pernambuco e do
Rio de Janeiro -, Ilhéus e Porto Seguro não puderam resolver o proble-
ma da mão-de-obra. Na época da visita de Moreno, os camaristas de
Ilhéus nem mesmo vislumbravam o tráfico africano como solução, mas
clamavam pela intervenção das autoridades contra os jesuítas, vistos
como os maiores responsáveis pela inacessibilidade da mão-de-obra
indígena. O desenvolvimento da economia do açúcar no Recôncavo
baiano, sob auxílio direto da Coroa, concentrou ali as rotas transatlân-
ticas, inclusive do tráfico negreiro, agregando um custo ainda maior
para a produção de açúcar nas capitanias do sul. Nestas condições,
o século XVII assistiu ao fechamento dos engenhos, ficando ativo em
Ilhéus apenas um, o engenho de Santana, de propriedade jesuítica.33
Por seu turno, o negócio do pau-brasil - sujeito a tantos desca-
minhos difíceis de serem evitados nas capitanias privadas - ganhou um
pequeno alento com a ocupação holandesa de Pernambuco, quando se
nomearam feitores para Ilhéus e Porto Seguro. A intenção era de que
164 Cabral & Bustamante (orgs.)
a exploração nestas capitanias pudesse compensar as perdas impostas
pelo domínio flamengo, nos territórios do norte. Mas isso não modificou
substancialmente o cenário descrito por Moreno no início do seiscentos.
Quando se restaurou o domínio português de Pernambuco, as capita-
nias de Ilhéus e Porto Seguro haviam se especializado na produção de
alimentos para abastecimento interno, sob forte regulamentação oficial,
com a pré-fixação dos preços da farinha e a proibição aos produtores de
se dedicarem a culturas mais rentáveis, como o tabaco. Seus morado-
res ficaram sujeitos, por conseguinte, a todas as limitações econômicas
impostas pela baixa remuneração da produção, sobretudo no que toca
à possibilidade de expandir a mão-de-obra. Sem um suprimento ade-
quado de trabalhadores para converter a floresta em mercadorias, as
populações de pau-brasil descritas por Moreno – no sul da capitania de
Ilhéus e na costa de Porto Seguro – mantiveram-se a salvo do machado
por mais de um século, até as últimas décadas do setecentos.34

Novo ciclo de exploração no final do século XVIII e


o destino do pau-brasil

Ao longo do século XVII e por quase todo o século XVIII, as


capitanias de Ilhéus e Porto Seguro se mantiveram como zonas de pro-
dução de alimentos e madeiras de construção, sendo que a primeira
experimentou maior crescimento, por se manter mais integrada à hin-
terlandia de Salvador. Na sua zona setentrional, a vila de Cairu irradiou
a atividade de corte e beneficiamento de madeira de construção, pois
ali se estabeleceu uma Real Feitoria. A integração entre lavoura de
abastecimento e exploração madeireira deu vigor econômico aos ter-
ritórios situados entre o rio Una do norte (de Valença) e o rio de Con-
tas. Já os territórios localizados ao sul da vila de São Jorge dos Ilhéus
tiveram de esperar até as últimas décadas do século XVIII para iniciar
um processo mais estável de ocupação colonial. Àquela efêmera ativi-
dade de corte de pau-brasil do início do século XVII não se seguiu uma
ocupação efetiva, pois não era seguro viver naquele território despro-
tegido. Documentos atestam uma dificuldade a mais, imposta pela na-
tureza, ou, talvez, pelo desmatamento: as barras dos rios navegáveis
assoreavam-se com os frequentes temporais.35

Metamorfoses florestais 165


Na primeira metade do século XVIII, outros grupos indígenas
passaram a frequentar e se estabelecer no sul da Bahia. Eram índios
Botocudo, que os cronistas diziam ser um ramo dos antigos Aimoré,
então habitantes dos tabuleiros. Também chegaram os Camacã, que
desceram do sertão de Minas pelo rio Pardo e se estabeleceram nas
suas margens e nas do Jequitinhonha. Havia ainda os Pataxó, que tam-
bém migraram do sertão de Minas e circulavam entre o sul de Ilhéus
e Porto Seguro, impondo assaltos aos povoados coloniais, com perdas
de patrimônio e de vidas humanas. 36
Naquele cenário de insegurança, foi justamente a exploração
do pau-brasil que permitiu a estabilidade do assentamento colonial
na zona fronteiriça, entre as então comarcas de Ilhéus e Porto Seguro,
às margens dos rios Pardo e Jequitinhonha. Os trabalhadores empre-
gados na retomada daquela atividade foram os índios Camacã, que
desde meados do século XVIII se aldearam em cooperação com um
comandante civil, “capitão das conquistas chamado Ignácio de Couto
Veloso, mulato ou mameluco que a eles se agregou para passar a vida
e com eles conseguiu terras, índios e patente [...].” De acordo com o
testemunho de um ouvidor da Bahia, de 1758, a aldeia foi estabeleci-
da na margem esquerda do rio Jequitinhonha (rio Grande), próximo a
qual se fixou outra aldeia com índios “de pouca diferença” (“menhãs”),
os quais se agregaram junto à “roça do Padre José Ferraz, no sítio Mo-
jiquiçaba.” Trinta anos depois, um certo Joaquim José Ferraz operava
o trato do pau-brasil naquela área. Havia, pelo que apontam os docu-
mentos da Inspetoria dos Reais Cortes, três áreas de extração, sendo
duas no Jequitinhonha e outra no rio Pardo.37
Mapas do final do século XVIII assinalam uma aldeia de índios
Camacã logo à frente da povoação de Belmonte, muito provavelmen-
te aquela estabelecida pelo tal capitão Couto Veloso, em meados do
século. Uma devassa que investigou ações de contrabando, em 1787,
revela que uma das atividades econômicas de Belmonte era a produ-
ção de víveres para abastecer os trabalhadores do pau-brasil. Pouco
ao norte da foz do Jequitinhonha, ainda hoje leva o nome de Barra
do Peso a pequena barra onde se pesava o pau-brasil que seguia para
Salvador. Na embocadura do rio Pardo, duas povoações – Patipe e Em-
buca – ocupavam a ilha marítima hoje denominada Atalaia, enquanto,
na ilha fluvial, onde se desenvolveria a vila de Canavieiras, havia outra
166 Cabral & Bustamante (orgs.)
povoação, denominada Jacaré. Novamente em razão do contrabando
a extração oficial foi suspensa no final da década de 1780, quando uma
quarta zona de extração operava no rio de Contas, a quatro léguas da
sua foz. Um “mapa circunstanciado” sobre os locais de extração do
pau-brasil na Bahia, de 1785, revela não somente os rios em cujas ad-
jacências era possível extrair a madeira, mas também a distância entre
as reservas e o litoral: rio Jaguaripe, a oito léguas da foz (48 km); rio
Jequiriçá, a 18 léguas (108 km); rio Jequié, a 14 léguas (84 km); rio de
Contas, a três léguas (18 km); e rio “dos Ilhéus”, a seis léguas (24 km).
Observa-se que, para o norte de Camamu, nos rios Jequié, Jequiriçá e
Jaguaripe, onde a agricultura comercial e a extração de madeira-de-lei
imprimiram ritmos mais acentuados de desmatamento, o pau-brasil
ocorria a uma distância entre 50 e 100 km do litoral, enquanto, nas
matas descritas por Diogo de Campos Moreno, quase duzentos anos
antes, a distância não ultrapassava 24 km. Havia, portanto, no sul da
Bahia, matas bem preservadas próximas da costa, o que deu ensejo
àquele novo ciclo de exploração, no final do século XVIII.
Ainda grassava, porém, a velha prática do contrabando, cri-
me que levou o inglês Thomas Lindley a ser preso em Caravelas, em
1802.38 Em razão dos desvios e da frágil contabilidade, é muito difícil
chegar a uma estimativa plausível sobre a dimensão da exploração e,
a partir daí, estimar o tamanho da devastação. As cifras que se pode
recuperar na caótica documentação administrativa da Inspetoria dos
Reais Cortes apontam um total de mais de 176 toneladas exportadas
entre 1784 e 1789, quando a extração foi oficialmente suspensa: trata-
-se de um número muito pequeno, considerando que, em 1610, uma
única pilha de pau-brasil extraída das florestas do rio Pardo somava
113 toneladas.39 Na impossibilidade de se estimar o impacto da extra-
ção sobre as populações de pau-brasil, restam os testemunhos de au-
toridades e viajantes, os quais revelam as percepções vigentes sobre a
presença da espécie nas florestas da Bahia.
O testemunho do juiz conservador das matas e ouvidor da
comarca de Ilhéus, Balthazar da Silva Lisboa, nos primeiros anos do sé-
culo XIX, confirma a ocorrência do pau-brasil nas matas dos rios Jequi-
riçá e Jequié, “terra a dentro”, e no “médio” rio de Contas. A espécie
não era encontrada nas áreas mais densamente povoadas, como nas
imediações da capital e o Recôncavo. Por outro lado, nas adjacências
Metamorfoses florestais 167
dos rios Pardo, Salsa e Belmonte (Jequitinhonha), as matas eram ricas
em pau-brasil “dourado”.40
Naturalistas estrangeiros, como Maximiliano, príncipe de Wied-
-Neuwied - que percorreu as comarcas de Porto Seguro e Ilhéus em 1815
– e a dupla de bávaros Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von
Martius - que exploraram as matas da comarca de Ilhéus, entre as vilas de
São Jorge e Camamu, em 1818 – também legaram registros importantes.
Quando da visita de Maximiliano, a faixa litorânea da comarca de Porto Se-
guro abrigava incipientes povoações, algumas de população eminentemen-
te indígena, como a vila de Trancoso, e outras que, apesar de terem surgido
como aldeias, já naquele tempo haviam sido elevadas à categoria de vila,
como Alcobaça, Prado e Belmonte. O príncipe reporta a ocorrência de pau-
-brasil nas matas de Alcobaça, Santa Cruz e Porto Seguro, onde era mais
abundante. As florestas da comarca de Porto Seguro, na medida em que se
afastavam da costa, permaneciam “despovoadas e solitárias”, “refúgio” dos
Patachó e dos Botocudo. Esses índios, assim como alguns Camacã que ainda
não haviam se fixado nos assentamentos portugueses, coletavam muitos
produtos florestais, como ceras, embiras, estopas e fibras de piaçava, sazo-
nalmente levados aos mercados das vilas para serem trocados por comida
e outros artigos. Não obstante, “no contato com o branco, aumenta a sua
mortalidade e sucumbem de bexigas ou febres agudas,” conforme comen-
taram Spix e Martius. Esse parece ter sido o destino de muitos Camacã que
se aliaram aos portugueses para se protegerem dos inimigos Botocudo e
Patachó. Os Camacã que, mais de cinquenta anos antes, haviam se juntado
ao padre Ferraz, no sítio de Mogiquiçaba, já não estavam mais ali, quan-
do da visita de Maximiliano, que encontrou apenas uma fazenda de gado
pertencente ao ouvidor, “além de umas cabanas miseráveis”. Em vez de ín-
dios, havia 18 africanos empregados na confecção de cordas de piaçava. Em
Belmonte, por seu turno, somente uns poucos índios se somavam aos seis-
centos moradores que ali produziam farinha, milho, aguardente e madeira-
-de-lei. Outros, “fugindo do mosquito”, haviam migrado para a povoação de
Canavieiras, dos quais se serviu o ouvidor Balthazar da Silva Lisboa ao abrir
um corte de madeiras, em 1799: em 1815, no entanto, Maximiliano não os
achou, em meio a população de “brancos e pardos.” 41
Novamente, a dizimação dos principais “conversores huma-
nos de energia” daquela economia florestal impediu a intensificação
do trabalho do machado. Empregar escravos africanos naquelas flo-
168 Cabral & Bustamante (orgs.)
restas inseguras era arriscado demais e, além disso, eles não tinham o
conhecimento e as habilidades dos nativos para as atividades de sele-
ção, corte, desbastamento e transporte das madeiras. Diante do baixo
nível técnico e demográfico empregado tanto no extrativismo seletivo,
quanto na agricultura de queimada, a floresta tinha oportunidade de
se regenerar, sobretudo aquelas espécies que, após cortadas, rebro-
tam a partir dos cepos, como o pau-brasil.42 Essa resiliência preveniu
a extinção local da C. echinata, cujas populações, mesmo debilitadas,
conseguiram se manter viáveis por todo o período colonial. Em âmbito
mais geral, pode-se dizer que a Mata Atlântica sul-baiana resistiu obs-
tinadamente aos ataques daquela insipiente economia européia, de
modo que um balanço socioecológico global apontaria, sem dúvida,
que as maiores perdas foram em vidas e culturas humanas, e não em
floresta. A Mata Atlântica continuou sua saga até que, em outros tem-
pos, a relação de forças fosse drasticamente transformada.

Anexo I. Zonas de ocorrência do pau-brasil na Bahia colonial


Século –
Localização Características Mão-de-obra
Ano
Rio do Brasil (rio do Frade),
XVI Índios Tupinikin
Porto Seguro
Baia de Todos os Santos, rio
XVI Índios Tupinambá
Paraguassu
“Sertão” dos rios Sergipe,
XVI Real e Cotegipe (Vaza- Índios Tupinambá
Barris)
Capitanias de Ilhéus e Porto
XVI Índios Tupinikin
Seguro
Muito pau-
Margens dos rios Doce brasil fino
XVII e São Mateus (divisa das que entre
(1610-12) capitanias de Espírito Santo seus matos e
e Porto Seguro) madeiras se
acha
Margens do rios Mucuri,
XVII Muito e fino (ou
Peruipe e Caravelas
(1610-12) finíssimo)
(capitania de Porto Seguro)

Metamorfoses florestais 169


Margens dos rios que
XVII desembocam na costa
(1610-12) entre o rio Caravelas e
Porto Seguro
Rio Patipe (Pardo), na Remanescentes
Melhor de toda
capitania de Ilhéus, Tupinikin; índios
XVII a costa, mais
entre 20 e 36 km tapuias (descidos do
(1610-12) fácil de cortar e
(aproximadamente) a partir “sertão”) escravos ou
carregar
da costa “administrados”
Florestas adjacentes aos
XVII
rios Poxim, Una e Lençóis
(1610-12)
na capitania de Ilhéus
Remanescentes
Monte “Tanjerepe”,
Tupinikin; índios
XVII próximo ao rio Cachoeira,
tapuias (descidos do
(1610-12) há aproximadamente 20
“sertão”) escravos ou
km de Ilhéus
“administrados”
Interior do rio de Contas,
XVII na capitania de Ilhéus,
(1610-12) há 20 e 30 km da foz
aproximadamente
Mogiquiçaba e margens
XVIII Índios Camacã e
do rio Jequitinhonha
(1758) Menhã
(capitania de Porto Seguro)
Adjacências do
XVIII rio Jaguaripe, a
(1785) aproximadamente 50 km
da foz
Adjacências do
XVIII rio Jequiriçá, a
(1785) aproximadamente 100 km
da foz
Matas do rio Jequié,
XVIII pelo interior, a
(1785) aproximadamente 85 km
da foz
Adjacências do rio de Provavelmente índios
XVIII
Contas, entre 18 e 24 km Guerén da aldeia dos
(1785)
da foz Remédios

170 Cabral & Bustamante (orgs.)


Adjacências do
XVIII “rio dos Ilhéus”, a
(1785) aproximadamente 25 km
da foz
Pouco
Final do
Matas do sul da comarca inferior ao de
século
de Ilhéus Pernambuco e
XVIII
Alagoas
Virada
do século
Médio rio de Contas
XVIII para
o XIX
Adjacências de Belmonte
Virada (comarca de Porto Seguro);
do século adjacências do rio Pardo Pau-brasil
Índios Camacã
XVIII para e rio da Salsa, próximo a dourado
o XIX Canavieiras (comarca de
Ilhéus)
Adjacências de Alcobaça, Maior
XIX (1815- Porto Seguro e Santa Cruz abundância nas
1818) (Cabrália) na comarca de cercanias de
Porto Seguro Porto Seguro

__________
1  SOUZA, J. B. O Pau-Brasil na História Nacional. Rio de Janeiro: Companhia Editora
Nacional, 1999 [1939], 241.
2  LIMA, H. C., et al. “Pau-Brasil: uma biografia”. In: BUENO, Eduardo. Pau-Brasil.
São Paulo: Axis Mundi Editora, 2002 (39-76), 42; BARRETO, Cristiane Gomes.
Devastação e Proteção da Mata Atlântica nordestina: formação da paisagem e
políticas ambientais. Tese de Doutorado. Centro de Desenvolvimento Sustentável.
Universidade de Brasília, 2013, 16.
3  PRADO JÚNIOR, C. História e desenvolvimento: a contribuição da historiografia
para a teoria e prática do desenvolvimento brasileiro. São Paulo: Brasiliense,
1989; FERLINI, V. L. A. “A Depredação da Natureza Começou no Descobrimento”.
Revista Pau Brasil, 8 (II): 9-13, 1985; DEAN, Warren. A ferro e fogo. A história e a
devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Cia das Letras, 1996; ROCHA,
Y. T. Ibirapitanga: história, distribuição geográfica e conservação do paubrasil
(Caesalpinia echinata Lam., Leguminosae) do descobrimento à atualidade. (Tese de
Doutorado). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004; SOUZA, 39.
4  Os números de Yuri Rocha são mais modestos: entre o século XVI e XVII teriam
sido extraídas na Mata Atlântica brasileira 91.243 toneladas de pau-brasil. Isto cor-
responde a aproximadamente 6.082.967 toras de 1,30 m, tendo sido cortadas em
torno de 527.182 árvore de 15 m de altura (ROCHA, 2004); DEAN, 64-65; SOUZA.
5  GÂNDAVO, P. de M. Tratado da terra do Brasil. Rio de Janeiro: Edição do Annuário do
Metamorfoses florestais 171
Brasil, 1924; SOUSA, Gabriel S. Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Hedra,
2010; SALVADOR, F. V. História do Brasil. Em que se trata do descobrimento do Brasil,
costumes dos naturais, aves, peixes, animais e do mesmo Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca
Nacional, 1889 [1627]; Diálogos das grandezas do Brasil. São Paulo: Melhoramentos,
1977; FERRAZ, A. L. Pereira. Terra da Ibirapitanga. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional,
1939; Souza, 1999; Lima et. all, 2002; Barreto, 2013: ROCHA, Y. T. “Distribuição Geográfica
e Época de Florescimento do Pau-Brasil (Caesalpinia echinata LAM. - Leguminosae)”.
Revista do Departamento de Geografia - USP, 20 (2010): 23-36, 2010.
6  Ao longo do período colonial, o território correspondente ao atual estado da
Bahia, na sua faixa litorânea, perfazia três capitanias distintas: a da Bahia, a de
Ilhéus e a de Porto Seguro. Em 1761, as duas últimas, até então donatarias privadas,
foram incorporadas ao patrimônio da Coroa, constituindo-se, a partir de então,
como comarcas da capitania da Bahia. Neste texto por vezes se usará a expressão
“capitanias do sul” para se referir ao território correspondente a estas duas últimas
capitanias ou comarcas, o qual, grosso modo, se estendia, de norte a sul, do rio
Jequiriçá, que deságua um pouco ao norte do Morro de São Paulo, ao rio São Mateus
(antigo Cricaré), atualmente no litoral norte do Espírito Santo.
7  LIMA, H. C., et al., 67-69; GUEDES, Maria L. S. et. all. “Breve incursão sobre a
biodiversidade da Mata Atlântica”. In: FRANKE, C. R.; ROCHA, P. L. B. da; KLEIN, W.;
GOMES, S. L. (orgs.). Mata Atlântica e biodiversidade. Salvador: Edufba, 2005, (39-
92), 55; ROCHA, 2010, 24.
8  LIMA, H. C., et All., 69; SAMBUICHI, Maria H. R.; MIELKE, Marcelo S; PEREIRA,
Carlos E. Nossas árvores: conservação, uso e manejo de árvores nativas no sul da
Bahia. Ilhéus: Editus, 2009, 231.
9  Uma inspiradora discussão sobre os domínios da história ambiental, tendo a Mata
Atlântica no período colonial como objeto, encontra-se em: CABRAL, Diogo de C. Na
presença da floresta: Mata Atlântica e história colonial . Rio de Janeiro: Garamond,
2014. Sobre os três níveis de investigação da história ambiental, ver: WORSTER,
Donald. “Para Fazer História Ambiental”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol.
4, n. 8, 1991, 198-215.
10  MAGALHÃES, Joaquim R. “O reconhecimento da costa”. In: Oceanos. Lisboa:
CNCDP, n.39, jul-set 1999, p. 102-112; GUEDES, Max J. O descobrimento do Brasil.
Rio de janeiro: IHGB, s/d, 33-40 (ver o mapa n. 3); FERRAZ, 1939, p. 41 (na nota 18 o
autor aponta diferentes versões sobre a identificação do rio do Brasil); a notícia de
Anchieta é citada por SOUZA, 120; CALMON, Pedro. História do Brasil. Século XVI: as
origens (vol. I, 2ª Ed.). Rio de Janeiro: José Olympio, 1963, 122, 137; GUEDES, Max J.
“La terre du Brésil: contrabando e conquista”. In: BUENO, Eduardo. Pau-Brasil. São
Paulo: Axis Mundi Editora, 2002 (141-168), 150.
11  CALMON, 168-171, 194; FERRAZ, 83-84; SOUZA, 64; CAMPOS, João da Silva.
Crônicas da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Ilhéus: Editus, 2006, 17-25; COELHO
FILHO, Luis W. A Capitania de São Jorge e a década do açúcar (1541-1550). Salvador:
Vila Velha, 2000, 61; TAVARES, Luis H. D. História da Bahia. Salvador: Edufba, 2001
(10ª Ed.), 90-94.
12  COELHO FILHO, 138-140; PINHO, Wanderley. Aspectos da história social de
cidade do Salvador, 1549-1650. Salvador: Prefeitura de Salvador, 1968, 205-206;
SOUSA, 2010, 62-65.
13  NÓBREGA, M. Cartas do Brasil. 1549-1560. Rio de Janeiro: Oficina Industrial
Graphica, 1931 [1551], 201.

172 Cabral & Bustamante (orgs.)


14  CALMON, 192-218; NÓBREGA; SOUZA, 137-140; SCHWARTZ, Stuart. Segredos
Internos, São Paulo: Companhia das Letras, 1988, 44-45.
15  NÓBREGA, 214-216. Prospecções arqueológicas recentes resultaram na
identificação de vários sítios de origem Tupi na faixa costeira de Ilhéus, sobretudo
no trecho correspondente ao território percorrido por Mem de Sá na guerra aos
Tupinikin sublevados (MORALES, W. F.; DIAS, M. H.; GOMES, R. L.. “História,
Arqueologia e Georreferenciamento na percepção da ocupação territorial da vila
de Ilhéus (Bahia, Brasil): período pré-colonial ao século XVII. In: CARRARA, Ângelo
A.; MORALES, Walter F; DIAS, Marcelo H. (Orgs.). Paisagens e Georreferenciamento:
História Agrária e Arqueologia.São Paulo/Ilhéus: Annablume/NEPAB/UESC, 2015.
16  MOTT, L. Bahia: inquisição e sociedade. Salvador: EDUFBA, 2010, (capítulo 8: “Os
índios no sul da Bahia”), 201; SCHWARTZ, idem.
17  Gabriel Soares de Sousa, por sua vez, dava outra versão para o despovoamento
da costa pelos Tupinikin: segundo aquele sertanista e senhor de engenho, estes índios
haviam se mudado para o interior, “... fugindo dos Tupinambás, seus contrários, que
os apertaram por uma banda, e os Aimorés, que os ofendiam por outra; pelo que se
afastaram do mar...” Os colonizadores não deixaram de ser responsabilizados pelo
despovoamento, em razão do mau tratamento dispensado por alguns “pouco tementes
a Deus”. Outra grande baixa foi imposta por Mem de Sá, que teria destruído perto de
300 aldeias na Bahia. Assim, na década de 1570, viviam na faixa costeira apenas os
batizados no cristianismo, habitantes dos aldeamentos (SOUSA, 2010, 83, 126).
18  CAMPOS, 103-115; DIAS, Marcelo H. Economia, sociedade e paisagens da
capitania e comarca de Ilhéus no período colonial. Tese de doutoramento, Niterói:
PPGH/UFF, 2007, 168-191; sobre a carta de Diogo Botelho, ver FERRAZ, 73-74.
19  SOUZA, 144, 152-153; FERRAZ, 35,74.
20  MORENO, Diogo de Campos. Livro que dá razão do Estado do Brasil, 1612.
Recife: Arquivo Público Estadual, 1955; os mapas de João Teixeira de Albernaz foram
publicados em uma edição do Instituto Nacional do Livro (MEC), de 1968; uma versão
mais bem elaborada do mapa da capitania de Ilhéus pode ser apreciada em: MAPA,
1993, 196; DIAS, Eduardo. “Inspeções do capitão e sargento-mor Diogo de Campos
Moreno e aventuras do pau-brasil (com 4 documentos)”. In: Anais do IV Congresso
de História Nacional do IHGB, vol. XI. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa
Nacional, 1951, 7-24.
21  MORENO, 1955, 142-155; FERRAZ, 71; CABRAL, 243-245; DIAS, cap. I.
22  MORENO, 1955, 123-127. O período de prosperidade da capitania também foi
descrito por Gabriel Soares de Sousa, que afirmou ter tido Porto Seguro sete ou oito
engenhos, além do resgate de pau-brasil, abundante naquela terra (SOUSA, 2010, 81).
23  Idem
24  Hoje, somente um trecho da embocadura ainda preserva o nome de Patipe.
25  Idem, 131-137; DIAS, Eduardo, 1951.
26  GUEDES et all, 2002, 45,50.
27  WIED, Maximilian Prinz von (Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied). Viagem
ao Brasil. Belo Horizonte; São Paulo: Itatiaia/Editora da USP, 1989, tomo II, livro 6º,
cap. IV.
28  Estudos demonstram que, entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia, a
formação florestal apresenta certa homogeneidade estrutural, mas compreende

Metamorfoses florestais 173


pelo menos quatro tipos de florestas, abrigando comunidades vegetais peculiares,
dependendo da altitude, do tipo de solo e da drenagem. Seguindo da costa para
o interior, as tipologias são: a) mata de restinga ou restinga arbórea, próxima ao
litoral sobre solo arenoso e muitas vezes de difícil distinção em relação a floresta
higrófila; b) floreta higrófila sul-baiana ou floresta ombrófila, desde o litoral, sobre
solo argiloso, até cerca de 100 km para o interior; c) floresta mesófila, 80 a 100
km da costa, sobre solo arenoso-argiloso; e d) mata de cipó: situada no planalto,
ocupando a área de transição com a caatinga (GUEDES et. all. 2005, 50); LOBÃO, Érico
V. P. Agroecossistema cacaueiro da Bahia: cacaucabruca e fragmentos florestais na
conservação de espécies arbóreas. Tese de doutoramento, Jaboticabal: FCAV, Unesp,
2007, 83-84.
29  CABRAL, 2014, 57-68
30  Apud SOUZA, 174.
31  Idem.
32  DIAS, E., 20; sobre bandeiras e saltos promovidos por Henrique Luis Espinha a
partir da vila de Ilhéus, ver CAMPOS, 121-122.
33  CARRARA, Ângelo A. “Fiscalidade e estruturas agrárias: Ilhéus, Porto Seguro
e Espírito Santo numa perspectiva comparada, séculos XVI-XVIII”. In: DIAS, M. H.;
CARRARA, A. A. Um lugar na história: a capitania e comarca de Ilhéus antes do cacau.
Ilhéus: Editus, 2007, 15-46; DIAS, M. H., cap. I.
34  MORENO, 1955, 133; FERRAZ, 79-80; DIAS, M. H., caps. III e IV. Situação bem
oposta se via em Pernambuco sob o domínio holandês, onde a compra de escravos
e insumos para a exploração do pau-brasil era financiada pela Companhia das Índias
Ocidentais, a qual detinha o monopólio. Foi justamente desse expediente que se
valeu o polêmico jesuíta Manoel de Moraes para estabelecer uma feitoria de pau-
brasil com vinte escravos na “Alagoa Grande”, em 1644 (VAINFAS, Ronaldo. Traição:
um jesuíta a serviço do Brasil Holandês processado pela Inquisição. São Paulo:
Companhia das Letras, 2008, 223-230).
35  DIAS, M. H., cap. IX.
36  WIED, tomo II, livro 6º, cap. IV.
37  Respostas aos quesitos retro respectivos à Aldeia de N. S. da Escada, hoje V.
de Nova Olivença, Bahia e mais: N. S. das Candeias; Santo André e São Miguel de
Serinhaem. 1768 , 33 f (manuscrito). Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Ms 512, fl.
10; Memória sobre as matas da comarca de Ilhéus, cortes de madeiras, regulamento
dos cortes e estado atual ... por Baltazar da Silva Lisboa, 1803. Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro, Ms 512 (56, doc. 24), fls 41-48; DIAS, M. H., 145-146.
38  DIAS, M. H., 143-145; MAPPA circunstanciado do numero de toras de páo brazil
defcuberto na capitania dos Ilheos, onde femoftra noperpendiculo das colunnas
adiftancia que vai da barra da Bahya, a fós de cada Ryo refpectivo a pozição dedonde
fe extrahirão e orizontalmente a que fevedea defte a fós te amefma pozição, Bahya
, 10/10/1785, por Manoel Roiz Txra. Biblioteca Nacional (Lisboa, Portugal), Coleção
Iconográfica, Cota D. 261v.; SOUZA, 182.
39  DIAS, M. H., 145-146.

174 Cabral & Bustamante (orgs.)


40  “Ofício do Ouvidor da comarca dos Ilhéos, Balthazar da Silva Lisboa, para D.
Rodrigo de Sousa Coutinho, no qual lhe communica uma interessante informação
sobre a comarca dos Ilhéos, a sua origem, a sua agricultura, commercio, população e
preciosas mattas, Cairu, 20 de março de 1799”. Anais da Biblioteca Nacional (ABN),
n. 36, (102-117), 108-113.
41  WIED, 212-227; SPIX, Joham B. von & MARTIUS, Karl F. P. von. Viagem pelo
Brasil 1817-1820, vol. II. São Paulo: Melhoramentos, s/d, (2ª edição), 202-203; ABN
36, 108.
42  CABRAL, 2014, 176-177, 473-475.

Metamorfoses florestais 175


Porcos do Alentejo, malaguetas da Bahia:
Intercâmbio biológico na Mata Atlântica quinhentista

Christian Fausto Moraes dos Santos*,


Fabiano Bracht†, Gisele Cristina da Conceição†
Universidade Estadual de Maringá † Universidade do Porto

Os fatores morfoclimáticos foram importantes no processo de


expansão européia, na era moderna. Afinal, para aportarem no litoral
da América, as naus portuguesas precisavam cruzar o Atlântico não
apenas no sentido leste-oeste, mas também, e principalmente, no sen-
tido norte-sul. Esse deslocamento propiciava aos colonizadores a ex-
periência de diversos regimes de insolação e formações vegetais, entre
outras variantes físicas. Em termos agroecológicos, essa diversidade
climatobotânica implicava em condições de plantio e colheita, bem
como de criação animal, que eram bastante diferentes daquelas de sua
terra natal.1 O primeiro domínio morfoclimático que os portugueses
encontraram na América foi a Mata Atlântica, região que acabou cons-
tituindo a grande base ecológica da colonização.2 Foi neste ambiente,
extremamente variado tanto em termos físico-climáticos quanto em
termos biológicos, que os europeus tentaram introduzir seu modo de
vida, seus animais domésticos e suas plantas cultivadas.
No entanto, os recém-chegados tiveram que enfrentar mui-
tas dificuldades. Ao contrário dos povos indígenas – que residiam na
região havia milênios e, paulatinamente, tinham desenvolvido um
sistema de sobrevivência adaptado às suas condições –, os europeus
eram totalmente estranhos ao novo ambiente. O processo de adapta-
ção, que modificou o ambiente e, em grande medida, os hábitos dos
recém-chegados, também teve reflexos fora dos limites da Mata Atlân-
tica. Este capítulo abordará estas questões através de dois estudos de
caso, ambos referentes àquilo que Alfred Crosby classicamente cha-
mou de “intercâmbio de Colombo”. Primeiro, examinaremos os desa-
fios da introdução do modo de vida agrícola dos europeus no território
da Mata Atlântica. Depois, analisaremos como certos elementos da
biologia local foram transportados para outros continentes, passando
176 Cabral & Bustamante (orgs.)
a fazer parte indelével da cultura de diversos povos. Quanto a esta
segunda dimensão, o estudo de caso será direcionado a um dos gru-
pos de plantas mais “bem sucedidos” da era moderna: os pimentos do
gênero Capsicum.

Não basta chegar lá: os desafios da transposição de plantas e


animais eurasianos para a Mata Atlântica

A introdução de fauna e flora eurasiana na Mata Atlântica não


foi um processo histórico simples ou automático. Para animais e plan-
tas, domesticados ou não, colonizar um novo ambiente não é apenas
uma questão de chegar lá.3 A dispersão é apenas a primeira etapa des-
te processo. Nela, a planta ou animal em questão tem de se aclimatar
a novos regimes de insolação, umidade e pressão do ar, fatores físicos
e químicos do solo e água. A segunda etapa envolve aquilo que os ecó-
logos chamam de estabelecimento.4 Tão ou mais complexo que a dis-
persão, o estabelecimento envolve, além da busca por sobrevivência,
a superação dos obstáculos referentes à fixação de uma população au-
tossustentável.5 Obter alimento e se adaptar ao estresse causado por
novos predadores são algumas das variáveis na equação da introdução
de espécies exóticas em um ambiente, principalmente um rico em bio-
diversidade como o da Mata Atlântica.
Questões de ordem biofísica podem ser consideradas como
fatores de primeira ordem no estudo da trajetória colonizadora dos
europeus ibéricos nos trópicos. Esses problemas ficam evidentes
quando observamos a descrição de Gabriel Soares de Sousa6 referente
à introdução de hortaliças do Velho Mundo na América portuguesa,
tais como Salsa (Petroseluim sativum) e Couve (Brassica oleracea):

As couves tronchudas e murcianas se dão tão boas como em


Alvalade, mas não dão semente [...] a salsa se dá muito formo-
sa, e se no verão tem conta com ela, deitando-lhe um pouco
de água, nunca se seca, mas não dá semente nem espiga.7

Hoje sabemos que os fatores climáticos são agentes diretos


nos processos de germinação, crescimento e resistência à doença das
plantas. No caso da Salsa e da Couve, relatadas por Sousa, a ausência
Metamorfoses florestais 177
de produção de sementes era, claramente, um problema, na medida
em que, a cada novo plantio, mais remessas de sementes deveriam
ser trazidas da Europa; não podemos nos esquecer de que o translado
entre América portuguesa e Portugal era demorado e custoso.
Assim como, muitas vezes, não havia um predador natural co-
evoluído que ameaçasse algumas espécies, o que lhes garantia uma
adaptação formidável, em outros casos, faltavam agentes de polini-
zação especializados para ajudar a promover a propagação sexuada,
ou seja, pelos grãos de pólen, como no caso das salsas. Cada espé-
cie de planta encontrava obstáculos particulares em seu processo de
adaptação. No caso das plantas, o desenvolvimento de germinação,
crescimento e resistência à doença são moldados, a princípio, por ca-
racterísticas específicas do clima. Tal dinâmica é estabelecida a partir
de um programa genético regido por mecanismos da seleção natural.
A planta em questão reage aos sinais da natureza de acordo com o
regime sazonal no qual se desenvolveu. Dessa forma, a duração do dia,
a chuva e a temperatura constituem variáveis para a planta da mesma
forma que as suas adaptações para doenças são predominantes da la-
titude onde crescem.8 Se os colonizadores chegavam à Mata Atlântica
trazendo seus hábitos, valores, enfim, sua cultura, as plantas e animais
que os acompanhavam, de certa forma, também desembarcavam com
suas dependências e preferências ecológicas.
Além disso, devemos nos lembrar de que esta aparente este-
rilidade botânica relatada pelo senhor de engenho Gabriel Soares de
Sousa está diretamente relacionada a mecanismos naturais construídos
ao longo de milhões de anos de seleção natural, na medida em que os
seres vivos evoluem reagindo aos sinais da natureza, conforme a sazo-
nalidade climática. A duração do dia, a chuva, estações do ano e tempe-
ratura formam condicionantes que se exprimem na evolução da planta,
da mesma forma que as suas adaptações defensivas são adequadas para
combaterem as doenças e parasitos relativos à sua latitude original.9
Provavelmente, o problema encarado pelas hortaliças descri-
tas por Sousa estava relacionado à inversão das estações do ano, bem
como a um aumento considerável do nível de insolação. Um obstáculo
que viria a ser superado pela própria planta, levando, no entanto, algum
tempo até que esta se adaptasse metabolicamente às novas condições
climáticas. A questão dos agentes polinizadores também é importante.
178 Cabral & Bustamante (orgs.)
Um dos principais insetos responsáveis pela polinização de plantas na-
tivas da região mediterrânica central e costa ocidental europeia como a
salsa (Petroselinum crispum) e a couve (Brassica oleracea), é uma abelha
que co-evoluiu no continente europeu, a abelha europeia (Apis mellife-
ra). Este inseto foi introduzido no Brasil apenas no século XIX.10
Os processos de introdução de animais domésticos oriundos
do Velho Mundo seguiram parâmetros semelhantes. É importante
atentarmos para o papel da diversidade geoclimática, uma vez que o
território brasileiro possui, ao menos, sete diferentes domínios mor-
foclimáticos.11 Ou seja, a cada domínio os animais introduzidos pelo
colonizador tinham sua resistência testada,12 seja por fatores ligados
às novas condições climáticas, seja pela mudança na dieta.13 Não era
incomum que essas dificuldades retardassem a proliferação e manu-
tenção de uma fonte de proteína que, em teoria, deveria estar sempre
à disposição. Neste último caso, podemos elencar o porco doméstico
europeu (Sus scrofa domesticus) que, apesar de ser uma considerável
fonte de proteína e gordura, não possuía um sistema homeostático tão
bem adaptado às regiões com alto grau de insolação.14
A introdução e aclimatação de animais eurasianos, tais como
galinhas (Gallus gallus), porcos (Sus scrofa), ovelhas (Ovis aries), cabras
(Capra Aegagrus hircus) e gado bovino (Bos taurus) levou certo tempo
para se consolidar e oferecer um suprimento regular de proteína e gor-
dura aos colonizadores. Provavelmente, somente nos últimos decênios
do século XVI, a América portuguesa contava com um rebanho de ani-
mais de corte abundante o suficiente para suprir a demanda da colônia.
Em 1587, Gabriel Soares de Sousa fez o primeiro relato de porcos domés-
ticos de origem europeia apresentando a resistência típica da espécie:

A porca pare infinidade de leitões, os quais são muito tenros


e saborosos, e como a leitoa é de quatro meses espera o ma-
cho, pelo que multiplicam coisa de espanto, porque ordina-
riamente andam prenhes, de feição que parem três vezes por
ano, se lhe não falta o macho.15

Além de Sousa, o padre Fernão Cardim, nos anos 1590, ob-


servou que os porcos começavam a se tornar mais frequentes nas vilas
e arraiais da América portuguesa. Os escritos deste jesuíta português
sugerem que o rebanho colonial estava se tornando considerável em
Metamorfoses florestais 179
fins do quinhentos; segundo ele, “os porcos se dão cá bem, e começa
de haver grande abundância.”16
Das raças suínas nativas de Portugal, a que mais se destacou foi
o porco alentejano, cuja origem remonta aos primeiros javalis (Sus scro-
fa mediterraneus) domesticados naquela região. O porco alentejano era,
provavelmente, o candidato mais apto a embarcar com os colonizadores
portugueses nas naus que zarpavam da ribeira de Lisboa. Provavelmente,
a principal qualidade do porco alentejano consistia em sua grande capaci-
dade adipogênica, ou seja, aquilo que os zootecnistas de hoje chamam de
porco de banha: suas carnes e toucinhos eram próprias para a produção
de banha, linguiças e curados, como o presunto ibérico.17
Mesmo sendo mais habituado a climas quentes, em compa-
ração a outras raças tradicionais de suínos portugueses – como, por
exemplo, o porco celta (Sus scrofa domesticus), desenvolvido a partir
do javali (Sus scrofa ferus) –, o porco alentejano deve ter passado por
alguns percalços ao ser introduzido em um ambiente tropical, muito
mais quente e úmido que o mediterrânico. Outro obstáculo à introdu-
ção destes animais estava relacionado a um importante aspecto cultu-
ral da criação destes na península ibérica. Tradicionalmente, esta raça
de porcos era criada em áreas comunais de pastoreio, nas regiões sul
de Portugal e Espanha, em ecossistemas conhecidos como “Monta-
dos”. Neles, os porcos ficavam soltos em extensas pastagens, onde se
alimentavam dos frutos de carvalhos (Quercus ilex e Quercus suber).18
Até o final do século XX, os porcos alentejanos eram pre-
ponderantemente criados, em Portugal, neste tradicional sistema de
manejo extensivo,19 o que nos leva a refletir sobre o quanto pode ter
sido atribulada a introdução, dispersão e adaptação deste estratégi-
co animal doméstico durante os primeiros decênios da colonização,
no século XVI. Pensemos nas inúmeras porcas prenhes que morreram
de septicemia ou mesmo hidrofobia após as visitas seguidas de algum
morcego hematófago (Desmodus rotundus);20 quantos porcos soltos
nunca mais foram vistos ao tentarem reproduzir-se, nos limites entre
as áreas colonizadas e as franjas da floresta ainda não derrubada. Os
motivos para os criadores de porcos da colônia nunca mais verem seus
animais poderiam ainda incluir a predação de grandes felinos como a
onça (Panthera onca), a suçuarana (Felis concolor) ou mesmo a peque-
na jaguatirica (Leopardus pardalis), que não teriam muita dificuldade
180 Cabral & Bustamante (orgs.)
em abater e arrastar para a mata um jovem bacorinho. Poderíamos
incluir também parasitas como pulgas (Tunga gracilis) e carrapatos
(Amblioma sp.) além das inúmeras miíases21 que não demorariam a
pôr seus ovos e larvas em alguma lesão cutânea oriunda do esbarrão
em um tucum (Bactris sp.), por exemplo, uma palmeira nativa da Mata
Atlântica conhecida pelos seus grandes espinhos.
O estudo das dificuldades relacionadas à introdução do porco
doméstico na Mata Atlântica nos ajuda a dimensionar melhor o com-
plexo processo de enraizamento do modo de vida europeu na América.
Importante fonte de alimento para as comunidades europeias no século
XVI, os porcos eram constantemente arregimentados para acompanha-
rem as expedições portuguesas.22 Onívoros altamente oportunistas, os
porcos desempenharam papel relevante na Europa, contribuindo subs-
tancialmente para o desenvolvimento do regime agrícola naquele conti-
nente;23 eles serviam como fonte de alimento que podia ser armazenada
por um período de tempo considerável, principalmente depois de abati-
do, podendo ainda ser utilizado na produção de inúmeras iguarias, como
presuntos defumados, linguiças e toucinhos. Estes últimos tiveram uma
importância considerável no cotidiano alimentar durante todo o período
colonial, pois constituíam uma fonte estratégica de proteína e gordura.24
Outra questão interessante refere-se à adaptação dos méto-
dos europeus de conservação da carne de porco ao ambiente da Mata
Atlântica. Um desses métodos era o do presunto ibérico,25 temperado
com pouco sal e curado ao natural. É possível que. nas primeiras vezes
em que foi empregado, esse procedimento tenha se tornado um meio
de cultura para larvas das inúmeras espécies de dípteras, principal-
mente as do gênero Cochliomya, uma vez que o tempo entre o início
do processo de cura e salga do presunto até o produto final, pode va-
riar de um a dois anos.26 O clima também é um fator que, não raramen-
te, fez com que técnicas de conservação tivessem de ser repensadas.
Quando comparamos a temperatura média anual de Portugal com a
da Bahia, por exemplo, verificamos que a diferença entre ambas é qua-
se de 100 por cento, ou seja, a temperatura média na Mata Atlântica
baiana era praticamente o dobro da média portuguesa. Enquanto o cli-
ma mediterrânico português propicia médias anuais de 14° C, o clima
quente e úmido da Bahia pode apresentar médias anuais de 27° C.27 O
mesmo vale para as médias dos índices pluviométricos.28
Metamorfoses florestais 181
Tais números fazem pleno sentido quando se coloca um pernil
de porco para curar em um paiol. O teor de água (umidade interna e
externa) da carne de porco, por exemplo, é de aproximadamente 60
por cento. Entre os engenheiros de alimentos, este é considerado um
teor alto, o que permitiria uma rápida colonização por bactérias e fun-
gos. Em larga medida, um processo de cura eficiente consiste em dre-
nar este teor de água, o que pode ser dificultado pela perigosa com-
binação de alta umidade relativa do ar e temperaturas elevadas. Mes-
mo com as diferenças climáticas que devem ter existido – sobretudo
por conta do maior nível de florestamento do território, no passado –,
temperaturas próximas aos 40°C não devem ter sido incomuns, no ve-
rão. A 37° C, algumas bactérias saprófitas podem se multiplicar a taxas
assustadoras, algo entre 1.000 a 10.000.000 de organismos individuais
em sete horas.29 Esses números, certamente, ensinaram aos primeiros
colonizadores com quanto sal se fazia uma carne curada na colônia.
Ao que tudo indica, estes fatores ambientais pontuais estabe-
leceram um interessante diálogo com a cultura e as técnicas relaciona-
das à alimentação dos primeiros europeus que se estabeleceram nas
bordas da Mata Atlântica. Enquanto o manejo do porco criado solto
era repensado e a quantidade de punhados de sal a serem esfregados
nos pernis e lombos reavaliados, a caça e pesca de animais nativos na
colônia deve ter sido, aos olhos do colonizador, tão preciosa quanto as
toras de pau-brasil ou os pães de açúcar.
Paradoxalmente, parte da solução (e também do problema)
passou a ser encontrar alimentos nativos da colônia, principalmente
de origem vegetal. A partir do contato com os povos indígenas, deten-
tores de um rico e milenar etnoconhecimento, os europeus puderam
aprender a identificar verdadeiros tesouros botânicos. Muitos deles se
tornaram essenciais dentro do processo da Expansão Marítima; pou-
cos, no entanto, de forma tão rápida como as pequenas bagas arden-
tes do gêneno Capsicum.

Capsicum: as especiarias do Novo Mundo

Uma das características mais marcantes da Mata Atlântica é


a sua gigantesca diversidade de vida vegetal. A princípio, a visão da

182 Cabral & Bustamante (orgs.)


floresta a partir da costa deve ter passado a impressão, para os coloni-
zadores quinhentistas, de uma grande e caótica massa verde. Quando
palmilhada e examinada mais de perto, contudo, ela apresentava um
imenso leque de oportunidades e desafios. Os recém-chegados à Amé-
rica depararam com o desafio de descobrir o que lhes seria imediata-
mente útil e proveitoso, além de potencialmente lucrativo.
Grande parte do esforço para a apreensão e sistematização
da flora do Novo Mundo foi norteado pelo princípio das similitudes.
Isto significa que, ao se analisarem as plantas, buscavam-se as carac-
terísticas que permitissem o encontro de equivalentes em relação às
espécies já conhecidas, isto é, eurasianas.30 Sob este aspecto, podemos
considerar um grupo específico de plantas ainda pouco estudado na
historiografia: os pimentos, representantes do gênero Capsicum.
A partir do século XVI, os pimentos ajudaram a encher os to-
néis dos navios europeus que traficavam produtos do Novo Mundo. Há
uma grande variedade destes frutos, que também são popularmente
conhecidos como ardidas, dedo-de-moça, piripiri, pimentão, pimenta-
-doce, malagueta, cumari, pimenta de bode e mais uma infinidade de
nomes. Os frutos de Capsicum estiveram entre as primeiras especia-
rias do Novo Mundo a serem dispersas para além das margens ociden-
tais do Oceano Atlântico. Essas plantas fazem parte da extensa família
das solanáceas,31 originárias (de maneira independente)32 de diversas
partes das Américas, tanto do Sul quanto Central e Antilhas. No Mé-
xico, onde foram encontrados os registros arqueológicos mais antigos
de emprego e domesticação, estima-se que os seres humanos faziam
uso dos Capsicum desde aproximadamente nove mil anos. Também
existem evidências de seu cultivo nos Andes peruanos por volta de
2500 anos a.C.
Em diversas regiões da Mata Atlântica, os pimentos eram
cultivados pelos indígenas e formavam, juntamente com o milho (Zea
mays) e mandioca (Manihot esculenta), um importante complexo nu-
tricional.33 A distribuição dos pimentos nestas regiões, ao tempo dos
primeiros contatos com os europeus, compreendia não apenas uma
ampla dispersão latitudinal, como também uma variação nas altitudes
das áreas de incidência, que iam do nível do mar até os mil metros.34
Atualmente, é consenso entre os estudiosos do tema que os
pimentos foram disseminados e cultivados em um grande número de
Metamorfoses florestais 183
localidades da Europa ocidental ainda durante o século XVI.35 No en-
tanto, alguma controvérsia reside, principalmente, no que se refere à
disseminação dos Capsicum no Norte da Europa. Neste ponto, procu-
raremos elencar elementos que possibilitem uma rediscussão acerca
da introdução e dispersão destas Solanáceas na Eurásia do século XVI.
Das fontes documentais referentes à América portuguesa qui-
nhentista, vêm importantes indícios que nos permitem uma reflexão
mais detida acerca dos percursos feitos pelos Capsicum desde o Novo
Mundo até sua disseminação no continente europeu.
Algumas das mais ricas descrições sobre a presença de pimen-
tos em navios europeus são as do alemão Hans Staden, um artilheiro
mercenário que foi cativo dos índios Tupinambá, no litoral Sudeste da
América portuguesa, em meados do século XVI. Staden relatou que
muitos navios franceses ancoravam regularmente ao longo daquela
costa durante o período. Os franceses que, por aquela época, eram
aliados dos Tupinambá, aportavam no litoral em busca dos mais varia-
dos produtos, os quais eram trocados por mercadorias europeias. Das
naus mencionadas por Staden, todas fizeram carga de pau-brasil (Cae-
salpinia echinata) e de outras mercadorias da terra. Entre os itens mais
procurados estavam os papagaios, diversos tipos de penas, o algodão
(Gossypium L.) e grandes quantidades de pimentos (Capsicum sp.).36
Em uma dessas oportunidades, ancorou ao longo da costa o navio Ma-
rie Bellete cuja estadia foi assim narrada:

Eles contaram que a nau francesa ‘Marie Bellete’, vinda de


Dieppe, com a qual eu gostaria de ter navegado, fizera na ter-
ra deles um carregamento de pau-brasil, pimenta, algodão,
ornamento de penas, macacos, papagaios e outras mercado-
rias de que precisavam [...].37

O porto normando de Dieppe, assim como outros portos do


Norte da França (Rouen, Le Havre, Honfleur) eram, no século XVI, lo-
cal de partida e chegada de muitos navios que vinham à América.38 O
movimento de navios bretões e normandos aportando no litoral da
América portuguesa era consideravelmente intenso no final da primei-
ra metade do século XVI. Apenas de Rouen e Dieppe, entre 1541 e
1542, 24 navios partiram para a costa do Brasil.39 Mais tarde, em uma
única expedição, no ano de 1546, do porto normando de Le Havre par-
184 Cabral & Bustamante (orgs.)
tiram para o Brasil 28 embarcações.40 Muitos destes navios tinham os
mesmos objetivos do Marie Bellete. Outra nau, a Catherine de Vattevil-
le, também compartilhava deste propósito. Tendo partido do Norte da
França, muito provavelmente de Honfleur,41 ela pretendia reunir “uma
carga de pimenta e outros bens de que precisava.”42
Outro exemplo interessante é o do navio normando La Péle-
rine. Quando de volta à Europa, proveniente da costa de Pernambuco,
foi capturado pelos portugueses em 1531, ainda com toda a sua car-
ga.43 O butim, no valor de 62.300 ducados, consistia no seguinte:

[...] cinco mil quintais (cerca de 300 toneladas) de pau-brasil,


ou seja, oito ducados por quintal.
300 quintais de algodão, no valor de três mil ducados, a dez
ducados o quintal.
300 quintais de grãos do país, valendo 900 ducados, a três
ducados o quintal.
600 papagaios, sabendo algumas palavras em francês, valen-
do 3600 ducados, a seis ducados cada.
Três mil peles de onça e outros animais, no valor de nove mil
ducados, a três ducados cada pele.
Três mil ducados de ouro e mil ducados de óleos medicinais.44

O La Pélerine foi tomado menos de vinte anos antes do pe-


ríodo em que Hans Staden esteve na América do Sul. À época de sua
captura, não são muitas as notícias do uso do termo ‘pimenta’ para
designar os frutos de Capsicum, mas sim enquanto analogia para clas-
sificar seu efeito pungente. Como as fontes sugerem, tal associação
foi construída paulatinamente, ou seja, a atribuição do nome a estes
frutos americanos estava em curso no período da captura do La Péleri-
ne. Tanto que, quando as narrativas de Hans Staden foram publicadas
em 1557, o termo pimenta havia se consolidado e já era claramente
empregado para fazer referência aos frutos de Capsicum, sendo carre-
gados para dentro dos porões dos navios franceses junto com outros
produtos. Em outro trecho, Staden informa o seguinte:

Asseguraram saber muito bem que os franceses eram inimi-


gos dos portugueses, assim como eles próprios o eram. Afir-
Metamorfoses florestais 185
maram que os franceses vinham todo ano com naus, trazen-
do facas, machados, espelhos, pentes e tesouras, e receben-
do em troca pau-brasil, algodão e outras coisas, como penas
de pássaros e pimenta. Por isso eram bons amigos [...]. 45

Em outra passagem, ele sugere que os pimentos (na época


chamados de pimentas) seriam os alvos principais de uma expedição:

Já contei sobre o francês Caruatá-uará. Ele tinha ido embora


com seus seguidores, selvagens aliados dos franceses, com a
intenção de ajuntar mercadorias de comércio dos selvagens,
sobretudo pimenta e um determinado tipo de penas.46

Não muito tempo depois deste ocorrido, outro navio anco-


rou, desta vez provavelmente na baía de Guanabara:

Cerca de oito dias antes da expedição de guerra, uma nau


francesa havia ancorado numa enseada localizada a aproxi-
madamente oito milhas de Ubatuba. Em português, a ensea-
da chama-se Rio de Janeiro; os selvagens dão-lhe o nome de
Niterói. Os franceses cuidavam de embarcar um carregamen-
to de pau-brasil naquele local. Também foram com um barco
a Ubatuba, a fim de fazer comércio, para obter dos selvagens
pimenta, macacos e papagaios.47

Dificilmente poderíamos atribuir caráter de coincidência ao fato


de estarem presentes na lista de carga do La Pélerine, nos relatos sobre o
Marie Bellete e outros navios, pau-brasil, algodão (Gossypium L.), peles
e penas. Tais mercadorias, no século XVI, eram traficadas em razoável
quantidade para a Europa. No entanto, os pimentos, também presentes
em todas as descrições de Staden, curiosamente, estão ausentes da lista
de matalotagem do La Pélerine. É neste ponto que o cruzamento dos
relatos nos sugere, com fortes indícios, que os “300 quintais de grãos do
país”, constantes da lista do navio capturado pelos portugueses em 1531
eram, se não na sua totalidade, pelo menos na maior parte, os diminutos
frutos de Capsicum já parcialmente desidratados. É muito provável que
a sua presença nessa lista com o rótulo de “grãos do país” tenha relação
com a dimensão reduzida dos frutos (de mais de uma variedade) de Cap-
sicum chinense e/ou de Capsicum baccatum L. Estas duas espécies são

186 Cabral & Bustamante (orgs.)


endêmicas da Mata Atlântica, sendo os frutos da Capsicum chinense, de
formato arredondado e tendo, em média, um centímetro de diâmetro;
uma das variedades de Capsicum baccatum, conhecida popularmente
pelo nome de cumari, produz os menores frutos do gênero, sendo que
estes apresentam, via de regra, formato arredondado, ovalado ou elip-
soide, como se fossem pequenos grãos.48
É provável que os frutos de Capsicum recolhidos pelos indíge-
nas chegassem à Europa já desidratados, podendo ser confundidos com
grãos, devido à pequena dimensão e à compactação. Também existem
evidências de que a palavra francesa graine foi utilizada, no século XVI,
para designar frutos de plantas de Capsicum. De fato, assim o fez Andrè
Thévet, em seu livro intitulado Les singularitez de la France antarctique,
que foi publicado pela primeira vez em 1557. Thévet escreveu que os
produtos que os cristãos adquiriam dos indígenas consistiam de:

[...] macacos, pau brasil, papagaios, algodão, e outras coisas


mais que eles trocam por aqueles artigos que já citamos. Há
que citar ainda um tipo de pimenta constituída dos grãos de
certa erva ou arbusto de 3 ou 4 pés de altura, cujos frutos as-
semelham-se aos nossos morangos tanto na cor quanto em
outros aspectos. Quando maduro, encontra-se no seu inte-
rior uma semente parecida com a do funcho. Os mercadores
cristãos carregam seus navios com esta especiaria, que to-
davia não é tão boa quanto a malagueta que cresce na costa
da Etiópia e da Guiné, não sendo tampouco comparável à
pimenta de Calicute ou de Taprobana.49

Além de aparecerem em profusão nos relatos dos cronistas,


as pimentas também constam das obras de herbaristas e outros erudi-
tos, como Monardes e Cristóvam da Costa. Assim, além de seu trans-
lado comprovado, temos diversas indicações de seu cultivo na Europa.
Desta forma, existem evidências suficientes para acreditarmos que a
possibilidade dos ditos grãos serem sementes de algodão, levantada
pelo historiador Harold Johnson, é menos plausível do que nossa hipó-
tese dos pimentos desidratados.50
Outro indício importante pode ser extraído deste cruzamento
de fontes que acabamos de fazer, principalmente no que diz respeito
ao volume aproximado das cargas descritas por Hans Staden. Ao to-

Metamorfoses florestais 187


marmos como referência os dados de matalotagem fornecidos pelo
historiador naval Max Justo Guedes, os 300 quintais do La Pelérine per-
faziam, no século XVI, aproximadamente, dezoito toneladas de peque-
nos frutos ressecados.51 Talvez esta fosse uma média do volume das
cargas citadas por Staden.52
Esses indícios sugerem que, se foram os portugueses e espa-
nhóis que disseminaram os pimentos na bacia do Mediterrâneo,53 de-
ve-se aos franceses a disseminação na Europa do norte. As fontes que
analisamos dão suporte à hipótese de que as pimentas descritas pelo
alemão Leonhard Fuchs, um dos herbaristas mais afamados do século
XVI, em seu De historia stirpium commentarii insignes de 1542, e por
Basilius Besler, em seu Hortus Eystettensis, sive, Diligens et accurata om-
nium plantarum, lorum, stirpium de 1640, são espécies nativas da Mata
Atlântica. A costa normanda, no século XVI, estava interligada por rotas
marítimas e terrestres a diversos pontos do norte da Europa e era, pro-
vavelmente, visitada de forma regular por navios da Liga Hanseática.54
Essas conexões devem ter facilitado a difusão dos pimentos no interior
do subcontinente europeu. Há que se lembrar que os Capsicum se re-
produzem através de sementes que, por sua vez, podem ser obtidas a
partir de seus frutos secos; além disso, parece que estes arbustos tropi-
cais não têm qualquer dificuldade para se aclimatarem e adotarem um
ciclo reprodutivo anual nos domínios temperados.55 Sendo assim, é per-
feitamente possível que herbaristas como Fuchs, na Alemanha, tivessem
tido contato com exemplares vivos destas solanáceas.
Essa hipótese torna-se ainda mais plausível se levarmos em
conta uma das características fundamentais da confecção de herbá-
rios durante o renascimento. Em conformidade com os ideais artísticos
da época, os debuxos e gravuras de plantas requeriam a utilização de
espécimes vivos como modelo.56 Essa exigência é encontrada no livro
de John Gerard, intitulado The Herball, or, Generall historie of plantes,
gathered by John Gerarde of London, master in chirurgerie. Nesta obra
do final do século XVI, o herbarista inglês afirma que seus estudos fo-
ram feitos a partir de duas variedades de pimentos, as quais estavam
presentes nas hortas inglesas.57
No processo de adaptação dos pimentos aos ambientes euro-
peus, a questão climática foi um ponto delicado sobre o qual se debru-
188 Cabral & Bustamante (orgs.)
çaram indivíduos pelos mais variados motivos. Em Exoticorum Libri De-
cem: Quibus Animalium, Plantarum, Aromatum Alorum que Peregrino-
rum Fructum Historiae Describuntur – uma compilação de escritos de
outros eruditos, traduzidos para o latim, comentados e acrescentados
por Charles L’Ecluse, publicada em 1605 –, há um relato bem conheci-
do sobre a grande presença de plantas de pimentos em Lisboa e seus
arredores. Esta descrição contém uma interessante observação sobre
a influência do clima no desenvolvimento das plantas pois, segundo
ele, em Portugal, “Flores e frutos prosperam por todo o outono, e nas
regiões mais quentes também no inverno.”58

Figura 1 – Siliquatrum maius e Silquatrum oblongum. Fonte: FUCHS Leonhardt. De


Historia stirpium commentarii insignes. Basileia: Officina Isingriniana, 1542.

Metamorfoses florestais 189


A partir de sua introdução, além de terem sido importantes
componentes de mezinhas e boticas durante toda a Idade Moderna,
os pimentos da Mata Atlântica tornaram-se parte importante das cul-
turas europeias. Afinal, como pensar na cozinha Ibérica sem os seus
pimentos assados, na da Europa Oriental sem a paprika e seus análo-
gos ou, ainda, em qualquer outra tradição culinária sem a pungência
conferida pelo uso das pequenas bagas ardentes. Assim, mesmo que
sejam especiarias mundialmente conhecidas por sua relação com as
culturas meso americanas, o fato é que, a partir do Norte da Europa, os
primeiros pimentos que desembarcaram haviam sido colhidos, pelos
indígenas, na Mata Atlântica da América portuguesa.

____________
1  DIAMOND, Jared. Armas germes e aço: os destinos das sociedades humanas.
Rio de Janeiro: Record, 2008. CROSBY, Alfred. Imperialismo ecológico: A expansão
biológica da Europa 900-1900. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
2  DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da mata atlântica
brasileira. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
3  QUAMMEN, David. O canto do dodô: biogeografia de ilhas numa era de extinções.
São Paulo: Companhia das letras, 2008, p. 157.
4  ODUM, Eugene P. Fundamentos de Ecologia. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 2004.
5  QUAMMEN, O canto do Dodô, p. 157.
6  “Gabriel Soares de Sousa, nascido em Portugal pelos anos de 1540, veio para o
Brasil pelos de 1565 a 1569. Na Bahia estabeleceu-se como colono agrícola. Ali casou
e prosperou a ponto de nos dezessete anos de estada se fazer senhor de um engenho
de açúcar, e abastado, como do seu testamento se depreende. Ganhando com a
fortuna posição, foi dos homens bons da terra e vereador da Câmara do Salvador.
Um irmão seu que, parece, o precedera no Brasil havia feito explorações no sertão de
São Francisco, onde presumira haver descoberto minas preciosas. Falecido ele, quis
Gabriel Soares prosseguir as suas explorações e descobrimentos. Com este propósito
passou à Europa em 1584, a fim de solicitar da Corte da Madri autorização e favores
para o seu empreendimento de procura e exploração de tais minas. Por justificar os
seus projetos e requerimentos, e angariar-se a boa vontade dos que podiam fazer-lhe
as graças pedidas, nomeadamente do Ministro D. Cristóvão de Moura, redigiu nos
quatro anos de 1584 a 1587 o longo memorial, como ele próprio lhe chamou, que
conservado inédito até o século passado, foi nele publicado sob títulos diferentes,
o qual constitui uma verdadeira enciclopédia do Brasil à data da sua composição.”
VERÍSSIMO, José. História da Literatura brasileira. Domínio Público, Editado pela
Fundação Bibliotec Nacional.
7  SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil. São Paulo: Brasiliana,
1971, p. 170.

190 Cabral & Bustamante (orgs.)


8  DIAMOND, Armas germes e aço, pp. 114-129.
9  DIAMOND, Armas germes e aço.
10  DELARIVA, Rosilene Luciana; AGOSTINHO, Angelo Antonio. “Introdução de
espécies: uma síntese comentada”. Acta Scientiarum 21 (2), 1999, pp. 255-262.
11  No Brasil, observamos ao menos sete diferentes domínios morfoclimáticos, a
saber, Amazônico, Cerrado, Mares de morros, Caatinga, Araucária, Pradarias e Faixas de
transição. VESENTINI, José William. Geografia Série Brasil. São Paulo: Ática, 2005, p. 267.
12  Problemas relacionados com a adaptação de animais europeus introduzidos
nas colônias americanas ao longo de século XVI, não são privilégios apenas dos
colonizadores portugueses. Elizabeth J. Reitz, pesquisadora do Museu de História
Natural da Geórgia, constatou que os colonizadores espanhóis também enfrentaram
obstáculos quando da transposição de espécies de animais europeus para suas
colônias no Novo Mundo. Para a pesquisadora, os fatores climáticos, assim como
a alimentação, têm de ser considerados quando analisamos os processos de
colonização, no caso, dos espanhóis. REITZ, Elizabeth J. “The Spanish Colonial
Experience and Domestic Animals”. Historical Archaeology 26 (1), 1992, pp. 84-91.
13  REITZ, “The Spanish Colonial Experience”.
14  CROSBY, Imperialismo ecológico.
15  SOUSA, Tratado Descritivo, p. 165.
16  CARDIM, Fernão. Tratados da terra e gente do Brasil. Belo Horizonte: Editora
Itatiaia, 1980, p. 66, grifo nosso.
17  MARIANTE, Arthur da Silva, CAVALCANTE, Neusa. Animais do descobrimento:
raças domésticas da história do Brasil, 2ª ed. Brasília, DF: Embrapa Informação
Tecnológica, 2006, pp. 204-205; SILVA, Paula Pinto e. Farinha, Feijão e carne-seca:
um tripé culinário no Brasil colonial. São Paulo: SENAC, 2005.
18  MARIANTE e CAVALCANTE, Animais do descobrimento, p. 204.
19  FERREIRA, Tiago Miguel de Lima. Produção de Suínos de raça Alentejana em
sistema intensivo até ao final da pré-engorda. Dissertação de Mestrado em Produção
Animal apresentada a Universidade Técnica de Lisboa Faculdade de Medicina
Veterinária, Lisboa, 2008, p. 6; SILVA, P. “O porco Alentejano: uma riqueza natural a
conservar”. Boletim informativo da Escola Superior Agrária de Beja, 2003.
20  SANTOS, C. F. M.; FERREIRA, Vítor de Souza; CARREIRA, Lígia. “A América e o
morcego hematófago no relato de viajantes quinhentistas”. Varia História 23, 2007,
pp. 561-573.
21  Infestações produzidas por moscas como bernes (Dermatobia hominis) e
varejeiras (gêneros Calliphoridae, Oestridae, Sarcophagidae).
22  MARIANTE e CAVALCANTE, Animais do descobrimento, p. 40.
23  DEAN, A ferro e fogo.
24  SANTOS, Christian F. M.; MOTTA, Lúcio Tadeu; GONÇALVES, José Henrique Rollo.
“Estratégia e adaptabilidade alimentares na América portuguesa do século XVIII:
alguns casos Monçoeiros”. Diálogos 14 (2), 2010, pp. 273-286.
25  Segundo Francis Case, “Os presuntos serranos, primeiro são salgados por
cerca de duas semanas para se extrair o excesso de umidade. Depois são lavados e
pendurados para secar. Por fim, são curados ao ar, geralmente de um a dois anos,
período em que podem perder até 50% do peso. Não são defumados durante o
processo de cura”. CASE, Frances. 1001 comidas para provar antes de morrer. Rio de

Metamorfoses florestais 191


Janeiro: Sextante. 2009, p. 578.
26  Um estudo recente, realizado por pesquisadores da área de engenharia e
tecnologia de alimentos, demonstram processos de aceleramento no tempo de
cura e salga de diversos tipos de presuntos defumados, inclusive o presunto ibérico.
Nos processos atuais de preparo deste alimento, o tempo foi reduzido em até cinco
meses, o que é de fato interessante, pois, mesmo em processos atuais de cura e
salga, o tempo estimado para se obter o produto final ainda é longo. Ver BERGAMIN
FILHO, Walter; COSTA, Marcela de Rezende; FELÍCIO, Pedro Eduardo de; SILVEIRA,
Expedito Tadeu Facco. “Método acelerado de processamento de presunto cru”,
Ciência Tecnologia de Alimentos 30 (2), 2010, pp. 494-500.
27  Temperatura média do ar (média anual) em Portugal. Pordata – Base de Dados
Portugal Contemporâneo. Disponível em: <http://www.pordata.pt/Portugal/
Temperatura+m%C3%A9dia+do+ar+(m%C3%A9dia+anual)-1067>. Acesso em: 19
jul. 2015. Temperatura Média Compensada para várias Estações Climatológicas do
Estado da Bahia. Disponível em: <http://www.dca.ufcg.edu.br/clima/tmedba.htm>.
Acesso em: 19 jul. 2015.
28  LIMA, M. I. P.; MARQUES, A. C. e LIMA, J. L. M. P. “Análise de tendência da
precipitação anual e mensal no período 1900-2000 em Portugal Continental”,
Territorium 12, 2005; Precipitação. Médias mensais e anuais, desvio padrão e
números de anos com observações para o período de 1911 à 1990 de vários Postos
Pluviométricos do Estado da Bahia. Disponível em: <http://www.dca.ufcg.edu.br/
clima/chuvaba.htm>. Acesso em: 19 jul. 2015.
29  BERKEL, Brigitte Maas-van, BOOGAARD, Brigiet van den, HEIJNEN, Corlien.
Conservação de peixe e carne. Wageningen: Fundação Agromisa, 2005.
30  FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas - Uma arqueologia das ciências
humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
31  JOLY, Aylthon B. Botânica: introdução à taxonomia vegetal. São Paulo: Nacional,
1991.
32  Ao que indicam os estudos citogenéticos, a domesticação não se deu em um
único ponto para depois os frutos haverem se dispersado. Ao contrário, é mais
provável que a grande variedade de cultivares seja produto, justamente, do fato
de as várias espécies terem surgido, em sua forma silvestre, dispersas por diversos
lugares do continente americano. Ainda hoje subsistem espécies selvagens ou
semidomesticadas na vertente oriental da região andina e na porção sudeste do
litoral brasileiro. Sobre estes dois casos, estudos morfológicos indicaram resultados
que sugerem origens distintas para as pimentas brasileiras e andinas. BARBIERI, Rosa
Lia; STUMPF, Elisabeth Regina Tempel. Origem e Evolução de Plantas Cultivadas.
Brasília: EMBRAPA, 2008.
33  BARBIERI e STUMPF, Origem e Evolução de Plantas Cultivadas.
34  O fato de as plantas do gênero Capsicum terem se desenvolvido e evoluído
sob um amplo espectro de condições climáticas e biogeográficas lhes conferiu
uma grande variabilidade. Para tal, foram determinantes os índices pluviométricos,
médias de temperaturas, tipos de solo e tempo de incidência solar, que contribuíram
para produzir diferentes variedades que puderam ser transplantadas e adaptadas
relativamente bem em várias partes do globo. BARBIERI e STUMPF, Origem e
Evolução de Plantas Cultivadas; FERRÃO, José Eduardo Mendes. A aventura das
plantas e os descobrimentos portugueses. Lisboa: Instituto de Investigação Científica
Tropical, 1993; ANDREW, Jean. The Pepper Trail: History and Recipes around the

192 Cabral & Bustamante (orgs.)


World. Denton: University of North Texas Press. 1999.
35  FERRÃO, A aventura das plantas; ANDREW, The Pepper Trail; BARBIERI e STUMPF,
Origem e Evolução de Plantas Cultivadas; BOSLAND, Paul. “The History of Chile
Pepper”. In: Chile Peppers: hot tips and tasty pics for gardeners and gourmets. New
York: Science Press, 1999, pp. 7-16; PATIÑO-RODRIGUEZ, Victor Manuel. Historia
y Dispersión de los Frutales Nativos del Neotrópico. Cali: Centro Internacional de
Agricultura Tropical, 2002.
36  STADEN, Hans. A Verdadeira História dos Selvagens. Rio de Janeiro: Dantes, 1999.
37 
38  GUEDES, Max Justo. “La Terre du Brésil: contrabando e conquista”. In: BUENO,
Eduardo (Org.) Pau Brasil. São Paulo: Axis Mundi Editora. 2002, pp. 143-168.
39  GUEDES, La Terre du Brésil, p. 159.
40  RONCIÈRE, Charles de La. Histoire de la Marine Française. Paris: Plon-Nourrit
Editeurs et C. 1906, p. 303.
41  GUEDES, La Terre du Brésil, pp. 143-168.
42  STADEN, Verdadeira História, p. 116.
43  GUEDES, La Terre du Brésil, p. 156.
44  GUEDES, La Terre du Brésil, p. 156, grifo nosso.
45  STADEN, Verdadeira História, p. 67, grifo nosso.
46  STADEN, Verdadeira História, p. 84, grifo nosso.
47  STADEN, Verdadeira História, p. 98, grifo nosso.
48  LORENZI, Harry; ABREU MATOS, F. J. Plantas medicinais no Brasil: nativas e
exóticas. Nova Odessa: Instituto Plantarum de Estudos da Flora, 2008, p. 500.
49  THÉVET, André. As Singularidades da França Antártica. Belo Horizonte/São
Paulo: Ed. Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, 1978, p. 54, grifos nossos.
50  JOHNSON, Harold. “Desenvolvimento e Expansão da Economia Brasileira”. In:
JOHNSON, Harold; SILVA, Maria Beatriz Nizza da. (Org.). O Império Luso-Brasileiro
1500-1620. Lisboa: Editora Estampa, 1992.
51  GUEDES, La Terre du Brésil, p. 156.
52  Quintal é um termo de origem árabe que designou uma medida de peso muito
usada em Portugal, desde a Idade Média até a adoção do sistema métrico decimal no
século XIX. Estudos recentes indicam que o quintal português da primeira metade do
século XVI correspondia a atuais 58,752 Kg. LOPES, Luiz Seabra. “A cultura da medição
em Portugal ao longo da História”, Educação e Matemática 84, 2005, pp. 42-48.
53  ANDREW, The Pepper Trail, p. 31.
54  GUEDES, La Terre du Brasil, pp. 143-168.
55  BARBIERI e STUMPF, Origem e Evolução de Plantas Cultivadas, p. 730.
56  DEBUS, Allen, G. O Homem e a Natureza do Renascimento. Porto: Porto Editora,
2002, p. 42.
57  GERARD, John. The Herball or General Historie of Plantes. Londres: John Norton,
1597, pp. 292-293.
58  L´ECLUSE, Charles. Exoticorum Libri Decem: Quibus Animalium, Plantarum,
Aromatum Alorum que Peregrinorum Fructum Historiae Describuntur. Antuérpia:
Officina Cristophori Plantini, 1605, p. 341, tradução nossa.

Metamorfoses florestais 193


A Mata Transatlântica:
Afrodescendentes e transformação socioecológica
no litoral da Bahia

Case Watkins*, Robert Voeks†


* Louisiana State University
† California State University
Tradução: A. G. Bustamante
Revisão técnica: D. C. Cabral

Em seu livro clássico, Warren Dean atribuiu ao conhecimento


indígena o estabelecimento das bases para o comércio transatlântico.
Décadas antes da chegada dos primeiros colonos portugueses à Amé-
rica do Sul, comerciantes europeus já forneciam machados de ferro
aos indígenas que eles encontravam perto da costa, os quais, em troca,
identificavam, cortavam e embarcavam lucrativas toras de pau-brasil
em navios com destino à Europa. Com o início da colonização portu-
guesa, os colonos lusos começaram a importar plantas domesticadas,
técnicas de cultivo e regimes de trabalho escravo das colônias das ilhas
atlânticas para a construção da economia de plantation açucareira no
Brasil. Converter a Mata Atlântica em plantações de cana-de-açúcar,
tabaco e alimentos requeria o conhecimento de biomas e agroeco-
logias tropicais com os quais os colonos mediterrânicos não estavam
familiarizados; mesmo os primeiros agricultores “treinados” nas ilhas
da Madeira ou de São Tomé enfrentaram condições assustadoramente
exóticas no Novo Mundo. Os primeiros colonos dependiam totalmen-
te dos povos indígenas para suprimento de comida e medicamentos,
bem como para obtenção de informações geográficas e ecológicas in-
dispensáveis a sua sobrevivência.1
À medida que guerras e doenças limitavam a obtenção de tra-
balho indígena, os portugueses voltavam-se cada vez mais para a Áfri-
ca e o comércio transatlântico de escravos para suprimento de mão de
obra. No século XVII, a maioria das pessoas que morava e trabalhava
na Bahia era composta de africanos e afrodescendentes que, no papel
de agricultores, trabalhadores agrícolas, produtores e consumidores,
194 Cabral & Bustamante (orgs.)
tiveram imensa influência na transformação das paisagens da Mata
Atlântica. Embora descreva o encontro inicial dos portugueses com a
floresta em termos de apropriação de conhecimento, a monumental
obra de Dean negligencia muitas das contribuições africanas e afrobra-
sileiras para a mudança ambiental, no Brasil.2
De fato, Dean retratou os afrodescendentes na Mata Atlânti-
ca como “refugiados em terra alienígena”, ou meros veículos do “saber
vagamente rememorado dos indígenas.”3 As contribuições intelectuais
indígenas para a mudança ambiental foram igualmente subestimadas
pelo autor. Em sua abordagem do conhecimento de “africanos, caboclos
e mesmo muitos dos indígenas”, Dean considerou duvidoso que eles
tivessem “retido intactas as informações que seus ancestrais acumula-
ram,” e reduziu as contribuições coletivas a um punhado de topônimos
e taxonomias duradouras.4 Embora tenha atacado “a destruição da Mata
Atlântica brasileira” como prejudicial e imprudente, sua caracterização
da vontade e do intelecto europeus como hegemônicos e decisivos
obscurece a pluralidade dos conhecimentos e das práticas ambientais
que se conjugaram nas transformações das paisagens brasileiras e de
outras partes do Novo Mundo.5 Além disso, a análise de Dean – ainda
que detalhada e temporalmente abrangente – concentra-se nas mu-
danças ocorridas no sudeste do Brasil, oferecendo pouco material so-
bre a Bahia antes do século XX. Em resposta, o presente capítulo reúne
evidências arquivísticas, etnográficas e geoespaciais para documentar
e analisar algumas das contribuições africanas e afrobrasileiras para a
transformação ambiental da Mata Atlântica da Bahia durante o período
escravista, aproximadamente entre 1538 e 1888. Destaca-se, em espe-
cial, a importância do conhecimento e das crenças espirituais africanas
e transatlânticas relacionados com botânica e agroecologia no processo
de transformação colonial das paisagens do nordeste brasileiro.

Afrodescendentes e a transformação das paisagens do


Novo Mundo

Apesar da esmagadora violência física e psicológica do tráfi-


co transatlântico de escravos, os cativos conseguiram contribuir pro-

Metamorfoses florestais 195


fundamente para as transformações coloniais das culturas e paisagens
desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina e mesmo além. Estu-
dos recentes sobre a diáspora africana retrataram os cativos não como
vítimas passivas, mas antes como seres complexos envolvidos, em
variados níveis, no processo criativo e nas redes que transformaram
o Novo Mundo. Ao examinar as contribuições cognitivas e corpóreas
dos afrodescendentes no hemisfério ocidental, esses estudos legitima-
mente recuperam as vozes afrodescendentes nas histórias coloniais e
revelam a complexidade e a pluralidade da formação e da reprodução
do mundo atlântico.6
Os estudiosos da escravidão, no Brasil, elaboraram o conceito
de resistência, num cenário de “negociação e conflito”.7 Desvendando
insurreições violentas, fugas e formas mais rotineiras de barganha, o
conceito descreve os humanos como atores calculistas e inventivos. A
resistência não foi sempre direta ou violenta; mais frequentemente,
manifestou-se de forma subliminar, astuta e mundana. Qualquer afir-
mação de que a resistência ocorreu apenas por meio de violência física
reforça tropos machistas de subjugação e conquista, negligenciando as
estratégias cotidianas de subversão e sobrevivência que eram concebi-
das e empregadas por mulheres e homens escravizados. A resistência
é ubíqua em seu papel de resposta ao poder, e os cativos constante-
mente trabalhavam para contrariar o poder expresso no sistema escra-
vista por meios variavelmente individuais, coletivos, ativos, passivos,
violentos, conciliatórios e perspicazes. Mobilizando uma miríade de
formas de resistência – desde barganha e manipulação rotineiras até
revolta aberta –, os afrodescendentes modelaram suas próprias expe-
riências e contribuíram para o desenvolvimento de novas culturas e
paisagens nas Américas.8
Uma forma proeminente de resistência cotidiana baseou-se
na ação cultural-ambiental, ou socioecológica, dos cativos. Em lavou-
ras de subsistência, hortas caseiras, pastos, quilombos e mocambos, e
até nas monoculturas de exportação, afrodescendentes cativos e liber-
tos usaram seus conhecimentos etnobotânicos e agrícolas para trans-
formar as paisagens coloniais. Ao aplicar e adaptar saberes culturais

196 Cabral & Bustamante (orgs.)


aos processos ecológicos, os humanos escravizados exploraram estrei-
tos espaços de negociação para satisfazer suas preferências culinárias,
espirituais, medicinais e econômicas. Desse modo, a diáspora africana
contribuiu para o Intercâmbio Colombiano, transformando as paisa-
gens do Novo Mundo com aportes biológicos, técnicos e intelectuais.
Nesse sentido, as exuberantes paisagens da Mata Atlântica ofereceram
um local adequado para as atividades agrícolas e etnobotânicas dos
colonos europeus, dos ameríndios que eles encontraram, e dos mi-
lhões de africanos que foram deslocados à força para o Brasil, a partir
da década de 1530.9

Conflito, negociação e transformação socioambiental

Apesar das brutais restrições impostas pelo sistema escravista,


os cativos na Bahia, como em outros lugares, usavam de malícia, sacrifí-
cio, força e fugas para ter acesso à terra e a outros recursos, transforman-
do paisagens e culturas no processo. O Recôncavo Baiano era o coração
das paisagens açucareiras, mas, nas primeiras décadas de ocupação co-
lonial, o povoamento português estendia-se por todas as áreas costeiras
do Atlântico sul, onde os colonos “contentam-se de as andar arranhando
ao longo do mar como caranguejos,” conforme escreveu o frade francis-
cano Vicente do Salvador, no começo do século XVII.10 Desde os primei-
ros tempos, a costa meridional da Bahia foi uma região conflituosa, onde
colonos e grupos paramilitares portugueses disputavam o controle ter-
ritorial com formidáveis bandos ameríndios. Os Aimoré e outros grupos
indígenas atacavam implacavelmente os engenhos portugueses, desde
o sul do Recôncavo, em Jaguaripe, estendendo-se pela costa meridional
até Ilhéus, forçando os colonos a abandonar tudo, com exceção de alguns
dos primeiros engenhos instalados na área.11 Já por volta de 1570, Soa-
res de Sousa relatava que os portugueses “despejaram a terra firme com
medo dos Aymorés, que lhes destruíram as fazendas e mataram muitos
escravos,” abrigando-se nas aldeias jesuíticas de Cairu e Boipeba, no ar-
quipélago de Tinharé.12 Os portugueses conseguiam controlar apenas te-
nuamente a costa meridional, já que os ataques indígenas se prolongaram
até o século XVIII, incluindo uma devastadora invasão da ilha de Cairu,

Metamorfoses florestais 197


em 1719, que levou a Coroa a formalmente declarar guerra. A resistência
Aimoré efetivamente limitou o povoamento e a mobilidade dos portugue-
ses, na capitania de Ilhéus, a uma estreita faixa costeira por nada menos
de duzentos anos, entre meados do século XVI e meados do século XVIII.
Essa resistência modelou o equilíbrio de poder, na Bahia dos primeiros
tempos, ajudando a concentrar a agricultura de exportação no Recôncavo
e deixando a costa meridional escassamente povoada para os incipientes
e intermitentes esforços de produção de mandioca em fazendas menores.
Assim sendo, a resistência indígena provavelmente limitou o desfloresta-
mento nos séculos iniciais do colonialismo português.13
Estudiosos do tráfico transatlântico de escravos estimam que
pouco mais de 5.600 cativos africanos desembarcaram, na Bahia, du-
rante o último quartel do século XVI, mas esse número aumentou oito
vezes, chegando a mais de 46.200 no primeiro quartel do século XVII.14
Uma vez no Brasil, muitos daqueles africanos acorrentados e seus des-
cendentes resistiram ao cativeiro, fugindo para as matas ao redor dos
povoados e fazendas. Conforme argumenta o historiador João José
Reis, “colinas, matas, lagoas e rios aí localizados serviam de suporte
ecológico ao desenvolvimento de uma coletividade africana relativa-
mente autônoma e semiclandestina.”15 Comunidades de fugitivos co-
nhecidas como mocambos, e posteriormente quilombos, brotaram por
toda parte na Bahia, onde os refugiados praticavam ataques parecidos
com os dos indígenas, causando significativas perdas econômicas para
senhores de engenho e autoridades portuguesas.16
No Brasil, os primeiros relatos sobre comunidades quilom-
bolas vêm da Bahia, em 1575, poucas décadas após o início do tráfi-
co transatlântico de escravos.17 A costa baiana ao sul do Recôncavo
abrigou mais quilombos e ataques quilombolas do que qualquer ou-
tra região. Uma análise feita por Schwartz demonstra que, embora
o Recôncavo tivesse muito mais escravos, as vilas de Cairu, Camamu
e Ilhéus, no litoral meridional, total e proporcionalmente, tiveram
incidências consistentemente maiores de formação e sobrevivência
de quilombos (Mapa 1).18 Por todo o período escravista, esses povo-
ados clandestinos e os ataques que eles empreendiam constituíram
uma ameaça à autoridade portuguesa e, posteriormente, brasileira,
e contribuíram para uma “tradição rebelde” que permanece viva na
paisagem e na vida regionais, na forma dos padrões contemporâneos
de assentamento quilombola.19
198 Cabral & Bustamante (orgs.)
Mapa 1 – Comunidades quilombolas registradas, no Estado da Bahia (2012), e o
bioma Mata Atlântica. Fonte: Locações das comunidades quilombolas da UFBA,
Projeto GeografAR, http://www.geografar.ufba.br (acesso em nov. 2013)
e pesquisas de campo (2009-2015).

Os registros documentais são repletos de referências a ata-


ques feitos pelos quilombolas, e uma leitura cuidadosa indica os efeitos
consideráveis e cumulativos dessas incursões nas florestas costeiras e
nas paisagens circundantes. No fim do século XVII, os fugitivos saquea-
ram várias fazendas em Camamu, espalhando medo pela região, e, em

Metamorfoses florestais 199


resposta, a Coroa Portuguesa criou uma milícia especial para combater
as comunidades de escravos fugitivos em Ilhéus em 1696.20 Esses es-
forços iniciais fracassaram na repressão das revoltas. Acredita-se que,
em 1723, um quilombo em Cairu abrigava mais de quatrocentos mo-
radores21 e, décadas mais tarde, as milícias continuaram a combater
grandes e complexas comunidades quilombolas na região, como a de
Oitizeiro, em Barra do Rio de Contas, bem ao sul de Maraú, dispersado
em 1804. Nessa comunidade incomum, perto de três dúzias de fugiti-
vos viviam ao lado de grupos menores de neobrasileiros de origem eu-
ropeia e indígena. Muitos desses habitantes, inclusive alguns quilom-
bolas, mantinham afrodescendentes escravizados para trabalhar nas
roças de mandioca e vendiam a farinha produzida em mercados locais
e até para algumas fazendas das proximidades, de onde eles tinham
fugido.22 Portanto, além das consequências de incursões, os quilom-
bos e seus habitantes também influenciaram as paisagens ao derrubar
florestas para suas próprias comunidades e plantios, transformando a
Mata Atlântica em sua resistência ao domínio colonial.
A despeito dos compromissos oficiais para reprimir os qui-
lombos, os fugitivos continuavam a se unir em bandos e a atacar as
forças coloniais e seus assentamentos. Em 1825, uma carta da câmara
municipal de Camamu apelou ao governo da província para dar apoio a
suas forças de defesa depois que as incessantes incursões de escravos
fugitivos deixaram vários mortos, inclusive o capitão da milícia.23 Uma
carta de Santarém datada do mesmo ano relata incursões similares por
uma “grande multidão dos escravos fugidos,” resultando em “todos os
lavradores refugiados nos lugares mais povoados.”24 Dois anos mais
tarde, outra carta de Camamu relatou que um “grande quilombo” es-
tava atraindo escravos fugitivos das “Vilas do norte e do Recôncavo”
para as florestas em torno de Camamu, incitando ataques sanguinários
a fazendeiros, roubando provisões e destruindo roças de mandioca.25
No mesmo ano, as autoridades provinciais de Salvador ordenaram
que as autoridades de Ilhéus produzissem registros diários de escra-
vos fugitivos apreendidos em seu território, de modo que seus donos
legítimos no Recôncavo pudessem recuperá-los.26 Numa série de car-
tas datadas de 1835, um juiz de paz de Camamu reportou que estava
em andamento uma “rebelião de africanos na cidade” e que “muitos
[produtores] agrícolas tem abandonado as suas lavouras, procurando
200 Cabral & Bustamante (orgs.)
o recinto do povoado para assim escaparem às fúrias deste malvado
bando.” Ele pediu ao governador policiais, soldados, armas, munições
e canhões para debelar a “insurreição qual a dos Africanos”.27
Juntos, esses relatos sugerem que a ameaça de violência era
palpável no litoral sul da Bahia e que, em alguns casos, ela efetiva-
mente despovoou a zona rural, forçando os fazendeiros a buscar refú-
gio nos povoados. Escravos fugitivos e outros excluídos se deslocavam
sem grande esforço entre o Recôncavo e o litoral sul, desafiando as
autoridades portuguesas e afetando a organização espacial do povo-
amento, no sul da Bahia, ao longo do período colonial. Desse ponto
de vista, a violenta resistência parece ter influenciado profundamente
as continuidades e mudanças da paisagem, na Mata Atlântica baiana.
Quilombolas e ameríndios revoltosos, afrodescendentes, entre outros,
forçaram pequenos agricultores a abandonar suas terras e mover-se
para locais protegidos, em torno dos povoados. Desse modo, uma re-
sistência violenta limitou o desenvolvimento e o desmatamento de
muitas áreas do bioma.
Os quilombos também se formaram no Recôncavo e em tor-
no de Salvador, mas a importância da economia de exportação para
as autoridades coloniais orientou a priorização dos recursos para frus-
trar fugas e reprimir revoltas. Embora conflitos sangrentos tenham de
fato ocorrido em torno de Salvador e no Recôncavo, os trabalhadores
escravizados da região, mais freqüentemente, confiavam em formas
mais sutis, mas ainda assim eficazes, de resistência para melhorar sua
situação – aquilo que Reis e Silva designaram “negociação.”28 Essa co-
operação era quase sempre centrada em necessidades básicas, como
alimento e abrigo. Os proprietários rurais e trabalhadores escravizados
negociavam sistemas de cotas e acordos específicos, frequentemente
de acordo com o calendário religioso (domingos e dias santos), con-
cedendo tempo aos trabalhadores e muitas vezes terra para cuidar
de seu próprio sustento.29 Essas concessões ocorriam já nos primeiros
tempos da colônia. Em visita à Bahia em 1610, o navegador francês
Pyrard de Laval considerou “um grande prazer em dias santos e domin-
gos ver todos os escravos, homens e mulheres, reunidos, dançando e
se divertindo em locais públicos e nas ruas, pois nesses dias eles não
estão submetidos aos seus senhores.”30 Soares de Sousa, proprietário
de um engenho perto de Jaguaripe, fez referência a plantações perten-
Metamorfoses florestais 201
centes a africanos escravizados, no final do século XVI.31 Essas hortas
caseiras e lavouras de subsistência eram espaços de resistência onde
os trabalhadores escravizados cultivavam alimentos para sua melhor
nutrição e às vezes para vender. Quando o pintor e viajante alemão
Johann Moritz Rugendas chegou à Bahia, na década de 1820, essa prá-
tica estava firmemente enraizada em todo o Brasil, beneficiando tanto
os trabalhadores escravizados quanto os proprietários das fazendas.

Em cada fazenda existe um pedaço de terra que lhes é en-


tregue, cuja extensão varia de acordo com o número de es-
cravos, cada um dos quais cultiva como quer ou pode. Dessa
maneira, não somente o escravo consegue, com o produto
do seu trabalho, uma alimentação sadia e suficiente, mas
ainda, muitas vezes, chega a vendê-lo vantajosamente.32

Essas concessões de uso da terra asseguravam um grau de au-


tonomia culinária e às vezes aumentava a segurança alimentar dos es-
cravos, ao mesmo tempo que ampliava os lucros dos produtores pela
redução das despesas com alimentos. Além disso, essas lavouras ser-
viam para introduzir e adaptar uma variedade de espécies que não agra-
davam muitos europeus ou eram por eles desconhecidas, diversificando
as paisagens agrícolas que estavam transformando a Mata Atlântica.33
Hortas provisórias não eram, porém, a única fonte adicional
de sustento dos escravos, na Bahia colonial. Eles também usavam o
seu tempo livre para caçar, pescar e coletar nutrientes e proteínas vi-
tais que muitas vezes faltavam em suas dietas. As plantações de cana-
-de-açúcar e fazendas de mandioca perto da costa aproveitavam os
trabalhadores escravizados que conheciam as técnicas de coleta de
mariscos e outros frutos do mar e do manguezal, inclusive carangue-
jos, ostras, camarões e lagostins.34 Os manguezais baianos eram reple-
tos de proteína. Passando pela Bahia, em 1880, um navegador inglês
se declarou surpreso com “os galhos dos mangues carregados de os-
tras penduradas como frutas.”35 Um plantador de algodão de Camamu
afirmou que os agricultores de mandioca perto da costa, cujas lavouras
eram frequentemente destruídas pelos implacáveis ataques de formi-
gas, mal podiam sobreviver sem acesso às riquezas do manguezal. “Os
povos, não tendo uma certa sustentação, não se animam a apartarem-
-se dos mangues, para lhes não faltar o sustento do caranguejo.”36
202 Cabral & Bustamante (orgs.)
Esse rico socioecossistema era familiar para muitos africanos
do Novo Mundo, especialmente aqueles ligados à costa africana, onde
o mangue sustentara coletores e agricultores por milênios.37 Para as
comunidades afrodescendentes em todo a região neotropical, o man-
gue serviu (e ainda serve) como refúgio e recurso.38 Na Bahia, como na
África ocidental, o mangue abrigava o dendezeiro (Elaeis guineensis),
dentre os seus muitos recursos. Trazido da África ocidental no início do
período colonial, o dendezeiro rapidamente se propagou nas zonas de
entremarés logo acima dos mangues da Mata Atlântica baiana. Para os
trabalhadores livres, cativos, libertos e fugitivos que tinham a sorte de
viver perto da costa, o manguezal provia uma tábua de salvação vital.
Os mangues forneciam os frutos do mar, fonte primorosa de proteínas,
e o óleo dos dendezeiros, muito apreciado, rico em calorias e nutrien-
tes, e que ligava os afrodescendentes desterrados à sua ancestral terra
natal por meio de tradições culinárias e culturais.39
De mais a mais, a legislação colonial portuguesa facilitou o
acesso ao litoral. Com solos salinos de pouca utilidade para agricul-
tura, as áreas de maré foram reservadas como propriedade pública
por decretos reais. O mangue se tornou, na prática, uma área comu-
nitária para pesca, caça, coleta de crustáceos e outras atividades de
subsistência e comerciais, garantindo um acesso nada comum, no
contexto colonial, a agricultores e trabalhadores pobres livres, liber-
tos ou escravizados. Surgiram conflitos, entretanto, pois a casca do
mangue-vermelho (Rhizophora mangle) era fonte do valioso tanino,
usado na produção de couro. Coletores de tanino raspavam a casca
avermelhada das plantas, degradando habitats de peixes e crustáceos
de extrema importância local. Em resposta, no início do século XVIII, as
autoridades coloniais intervieram com proibições oficiais à extração de
mangue, nos povoados da costa meridional e em torno deles, priori-
zando o valor de subsistência coletiva do ecossistema em relação a seu
potencial comercial. Assim, a manutenção do manguezal como fonte
de sustento salvou grande parte das florestas costeiras da destruição.40
Embora muitos afrobrasileiros utilizassem regularmente o
manguezal como área de uso comum para buscar alimento, caçar e
cultivar lavouras para subsistência e para venda, outros procuravam-no
para se refugiar. As comunidades quilombolas, no bioma Mata Atlân-
tica, se concentravam ao longo do litoral baiano, tanto no Recôncavo
Metamorfoses florestais 203
como mais ao sul, onde o manguezal protegia afrobrasileiros fugitivos
e livres.41 Séculos depois, ainda existem no Brasil milhares de comu-
nidades descendentes desses quilombos. As localizações e contextos
socioecológicos contemporâneos exemplificam relações duradouras
entre geografia, agricultura e resistência, na Mata Atlântica baiana
(Mapa 1).42 As localizações dessas comunidades revelam uma estra-
tégia de subsistência voltada para ecótonos (áreas de transição entre
dois ou mais biomas), equilibrando o acesso ao mar e ao manguezal
com a propriedade comunitária das terras florestadas dos tabuleiros,
adequadas para policulturas de subsistência.43

A construção de uma paisagem afrobrasileira

Na Bahia, a economia açucareira luso-brasileira se concentrava


a oeste da capital, nas terras férteis que circundavam a baía de Todos os
Santos – o chamado Recôncavo. No século XVII, uma geografia agrícola
particular tinha se desenhado. Os barões do açúcar e seus engenhos se
instalaram ao longo da margem setentrional da baía, onde abundava o
massapé, rico solo argiloso. No Recôncavo ocidental, avançando pelo in-
terior a partir da cidade de Cachoeira, predominavam as fazendas de ta-
baco. Ao sul de Nazaré das Farinhas e Jaguaripe, em solos mais arenosos
e menos adequados para as principais culturas de exportação, roças de
mandioca se estendiam por centenas de quilômetros através da capita-
nia – posteriormente comarca – de Ilhéus. A farinha de mandioca era um
produto básico indispensável que alimentou os trabalhadores agrícolas
livres e cativos da Bahia e da crescente área urbana da capital, respon-
dendo por mais de 87% do produto armazenado pelo celeiro público, de
1785 a 1849; desse modo, a sua produção era de grande importância
estratégica e econômica para as autoridades coloniais. A partir de 1639,
sucessivos decretos régios obrigaram os agricultores da costa meridional
a plantar mandioca em lugar de cana-de-açúcar e tabaco. A Mata Atlân-
tica do sul da Bahia se tornou o celeiro da colônia, o que lhe rendeu o
apelido de “a Sicília da Bahia.”44
Em resposta ao ressurgimento da produção de açúcar e a um
crescente mercado interno de gêneros alimentícios, houve um grande
aumento da população e das roças de mandioca, na costa meridional,

204 Cabral & Bustamante (orgs.)


a partir da década de 1780. Essa expansão invadiu as florestas reserva-
das pela Coroa para extração de madeira naval, abrindo a Mata Atlân-
tica a um rush da pequena policultura mista centrada na mandioca.
Apesar da prevalência de agricultores pobres e pequenos proprietá-
rios, nessa região, trabalhadores escravos constituíam mais de metade
de sua população total.45 De acordo com a análise minuciosa de Bert
Barickman, as fazendas de mandioca típicas, no litoral da Bahia, em-
pregavam entre dois e oito trabalhadores escravizados. Dos roceiros
listados num levantamento de 1781, em Jaguaripe, 78% declararam
possuir escravos.46 Um censo de 1786, em Cairu, listou 188 fazendas de
mandioca, das quais 169 empregavam 635 cativos, uma média de 4,3
por fazenda.47 Contudo, a presença afrobrasileira na região não se limi-
tava aos escravos. Na Bahia, taxas de manumissão relativamente altas
haviam produzido um campesinato afrobrasileiro já no século XVIII,
grande parte do qual plantava mandioca na área costeira – alguns, in-
clusive, donos de escravos.48 Assim, afrodescendentes – tanto escravos
quanto livres – eram a população predominante, na Mata Atlântica do
litoral sul baiano.
Em toda a Bahia, os modos de produção agrícola refletiam
uma hierarquia racial. Agricultores de origem europeia tipicamente
produziam para mercados de exportação (i.e. açúcar, tabaco, café, al-
godão e cacau), embora alguns produzissem mandioca para mercados
regionais e urbanos. Com menos oportunidades nos mercados de ex-
portação, trabalhadores de origem africana, livres e libertos, dedica-
vam-se principalmente à produção de subsistência, cultivando man-
dioca e outros gêneros alimentícios para consumo próprio e para ven-
da de excedentes, no mercado interno. No fim do século XVIII, se não
antes, afrodescendentes escravizados, libertos e livres predominavam
entre os produtores de mandioca, no litoral sul da Bahia.49
Embora a mandioca seja nativa da América do Sul, seu cultivo
é extremamente semelhante ao inhame, alimento básico na África oci-
dental, e as primeiras trocas oceânicas tornaram ambos os tubérculos
conhecidos em toda a bacia do Atlântico. Negociantes portugueses in-
troduziram o tubérculo americano, na África ocidental, no século XVI,
e a partir de então a mandioca se disseminou por todo o continente.
O agricultor português Soares de Sousa documentou a introdução dos
inhames africanos, na Bahia, na década de 1570. Essas primeiras trocas
Metamorfoses florestais 205
transatlânticas dispuseram as resistentes raízes cultivadas em sistemas
agroecológicos e paisagens semelhantes, em ambos os lados do Atlân-
tico Sul, no início da era moderna. No entanto, mesmo sem o conheci-
mento direto da mandioca, seus regimes de cultivo teriam soado fami-
liares para os habitantes da África central e ocidental, acostumados a
trabalhar com outras culturas de raízes, especialmente o inhame.50
Na Bahia, a tradicional agricultura de mandioca seguiu um re-
gime de corte-e-queima mais ou menos análogo ao cultivo do inhame,
na África ocidental.51 Familiarizados somente com o alimento africano,
os primeiros portugueses que chegaram ao Brasil, ao avistarem os po-
vos indígenas cultivando mandioca, pensaram tratar-se de inhame.52 O
inhame e a mandioca são ambos tubérculos tradicionalmente cultiva-
dos em florestas tropicais e se desenvolvem melhor em sistemas com
pousio relativamente longo, de cinco a quinze anos. Fazendas basea-
das na produção de mandioca tipicamente cultivavam também outros
alimentos e plantas medicinais, para uso próprio e para vender, entre
as quais diversos grãos, frutas e legumes – inclusive arroz, feijão, milho,
abóboras e frutas cítricas – e até pequenas quantidades de produtos
de exportação, como cacau e café, enriquecendo a dieta e o mercado
em toda a Bahia e mesmo além. Espalhado por todo o litoral, o den-
dezeiro também se tornou um acréscimo útil em muitas das fazendas
policultoras da região. Os dendezeiros não exigiam quase nenhum tra-
balho e ofereciam um óleo livre de riscos e rico em vitaminas para os
agricultores interessados em diversificar a produção.53
O cultivo itinerante de tubérculos propagou os dendezeiros,
na Bahia, do mesmo modo que na África ocidental e central. Quando
se derrubavam trechos da Mata Atlântica para plantar mandioca, os
dendezeiros eram poupados; quando o terreno era deixado em pou-
sio, o dossel aberto favorecia o crescimento das palmeiras poupadas.54
A herança dessa história agroecológica continua impregnada nas cul-
turas e paisagens do litoral da Bahia. A etnografia e a história oral da
região ajudam a elucidar as transformações em andamento, na Mata
Atlântica baiana. Um representante da terceira geração de agricultores
de mandioca e produtor de óleo de palma, em Taperoá, explicou:

Antigamente [o dendê] não era plantado. Era os bichos que


comiam naqueles lugares que ainda tem muitos lugares que

206 Cabral & Bustamante (orgs.)


ainda tem muitos pés de dendê. [...]. Botava roça de man-
dioca, roça para plantar mandioca. Roça, ela que bota fogo,
pronto, é a vida de sair o fogo. E a outra lavoura não gosta de
fogo..., mas isso aí [mandioca] é a vida de fogo. Então eles
não ensinavam, não dava dica nenhum de ensinar como era
que plantava, não porque a gente encontrava pronto, pelo
urubu. Como muitos falam, porque o urubu planta, justa-
mente. Todo bicho planta, que o rato gosta do dendê, porque
todo bicho gosta do dendê. E o dendê e o mandioca. […] E
depois, está contaminado de dendê!55

Diante de um campo recentemente limpo, outro agricultor


apresentou uma explicação semelhante.

Viu, aqui. Essa área de roça mesma aqui. Aqui pode em qual-
quer momento nascer um pé de dendê. Pode a qualquer mo-
mento em algum lugar que nasce um pé dendê. Pode ser que
o urubu, pode ser o bicho do mato, vem coloco um coco aí,
nasce um pé de dendê. Não precisa plantar nem adubar nada
disso, ele fica aí e nasce e cresce, coloca a cacho bonito, sem
precisar muito cultivo. Porque a terra aqui é propícia. O clima
é propício bastante para dendê mesmo.56

Essas considerações do agricultor situam a expansão do den-


dezeiro dentro de um sistema socioecológico de roça de mandioca,
dentro da Mata Atlântica. Embora sejam rápidos em destacar as in-
fluências da flora e da fauna, as declarações dos agricultores enfati-
zam a agência humana envolvido na abertura de clareiras na floresta,
deixando os dendezeiros em pé. Em última instância, vários atores se
interconectam para difundir os dendezeiros. Essa resiliente palmei-
ra suporta não apenas as áreas salinas de maré, ao lado das matas
de mangue, mas também o fogo que os humanos utilizam para abrir
clareiras na floresta. O calor das chamas pode fazer germinar semen-
tes adormecidas de dendezeiros transportadas pela gravidade, pela
água, por urubus ou outras forças e animais; uma vez estabelecidas,
as palmeiras são extraordinariamente resistentes ao fogo, mesmo em
comparação com outras espécies da floresta tropical úmida.57 Um agri-
cultor de mandioca e dendezeiro explicou como a limpeza do terreno
para roças de mandioca contribui para ativar as sementes de dendê
que os urubus espalham pela floresta:
Metamorfoses florestais 207
Desde pequeninho que eu conheço isso aqui, até os urubús
plantam isso aqui. Porque ele, o passarinho, que ele leva isso
aqui, pega no bico e leva, chega dentro da mata, escapole de
dentro do bico, e cai, ali nasce. Outro pega outro, chega den-
tro da mata, cai, só vai fazendo roça. Quando você compra
uma mata, que roça todo, que queima. Quando depois que
faz aquela roça que tira madeira, queima tudo, vem meio
mundo de pé de dendê. Mas não sabe quem plantou, pesso-
as nenhumas, foi o passarinho que plantou.58

Nesses processos socioecológicos, os agricultores de mandio-


ca construíram redes de cooperação com outros animais, plantas, fer-
ramentas, fogo, além de condições e processos ambientais do litoral
da Bahia, atraindo os dendezeiros do manguezal para as fazendas em
terrenos mais altos, contribuindo para a formação de arvoredos den-
sos, semi-selvagens ou subespontâneos, nas florestas de tabuleiro da
Mata Atlântica. Desse modo, os agricultores fundiram os saberes cul-
turais e ambientais africanos e brasileiros para ajudar a criar um marco
agroecológico afrobrasileiro que transformou paisagens e culturas do
Novo Mundo. Baseado em dendezeiros e tubérculos, esses sistemas
agroecológicos alinharam o leste da América do Sul e o oeste da Áfri-
ca, contribuindo para uma homogeneização das paisagens atlânticas.
No século XVII, dendezeiros vicejavam na Bahia e, no oeste da Áfri-
ca, plantava-se mandioca. E, de ambos os lados do Atlântico tropical,
agroflorestas de palmeiras perenes se desenvolveram por cima de tu-
bérculos herbáceos e outros produtos agrícolas. Rico em gorduras e
carotenoides, o azeite de dendê complementa os tubérculos ricos em
carboidratos; assim, as agroecologias mandioca-dendezeiro, na Bahia,
forneceram um equilíbrio nutricional semelhante ao complexo inha-
me-dendezeiro da África ocidental. O Atlântico Sul então representa-
va uma rede cultural-ambiental interconectada, hibridizada mediante
circulações caóticas de biota, conhecimento e tecnologia provenientes
de três continentes. O conhecimento ambiental e as práticas agrícolas
dos afrobrasileiros transformaram vastas áreas de florestas da Bahia
em uma verdadeira mata transatlântica.59
Uma sinergia de geografia costeira e padrões agroecológicos
criou condições para o desenvolvimento do dendezeiro, na Bahia, e
a subsequente paisagem afrobrasileira emergiu de um amálgama de

208 Cabral & Bustamante (orgs.)


agências indígenas, européias e africanas, além das não humanas. Os
europeus tornaram obrigatório o cultivo de mandioca, ao longo do li-
toral sul; seus principais produtores, contudo, eram os povos de ori-
gem africana. E, embora a Manihot esculenta – juntamente com seu
sistema de alqueive e suas técnicas de processamento – seja nativa
do nordeste da América do Sul, as relações tubérculo-dendezeiro pro-
vém de roças da África. Além disso, a semelhança da mandioca com os
inhames africanos e sua introdução na África, no século XVI, significava
que a maioria dos afrodescendentes, no Brasil, compartilhava um grau
de familiaridade com a planta e suas técnicas de cultivo. Os dendezei-
ros se espalharam por toda a Mata Atlântica baiana por meio de pro-
cessos socioecológicos favorecidos por uma série de condições e influ-
ências ambientais, da flora e da fauna. O conhecimento e a resistência
afrobrasileiros, porém, mostraram-se decisivos no estabelecimento e
na manutenção das paisagens afrobrasileiras e plantações de dendê.

Espíritos africanos na Mata Transatlântica

Assim como foram profundamente influenciadas pelo conhe-


cimento agroecológico e pela resistência de africanos escravizados ou
livres, as paisagens da Mata Atlântica foram também alteradas e re-
definidas pela introdução de tradições espirituais africanas. Uma das
mais importantes era o Candomblé, um conjunto de crenças e práticas
trazido por africanos escravizados. Negociado e misturado, ao longo
do tempo, com o catolicismo e outras tradições africanas, os primeiros
terreiros (templos ou lugares espirituais) de Candomblé existiam, cla-
ramente, no início do século XIX, e alguns estudos rastreiam sua gene-
alogia até meados do século XVIII.60 Os seus seguidores reconhecem
a existência de um deus supremo, Olórum, mas são os panteões de
orixás, voduns, inkises e caboclos – embaixadores espirituais do Can-
domblé – que estão diretamente ligados à saúde e ao bem-estar dos
mortais. Mais de uma dúzia dessas entidades espirituais encontra de-
votos, nos terreiros de Candomblé, e cada uma, em troca, é associada
a um domínio diferente do mundo natural – água, atmosfera, plantas,
animais e terra. É desses reservatórios primordiais que cada divindade
coleta e transmite axé, ou energia vital, para seus devotos.61

Metamorfoses florestais 209


Embora separada da África ocidental por milhares de quilô-
metros de florestas e savanas, a Mata Atlântica apresentava inúmeras
características geográficas quase idênticas às da terra natal dos escra-
vos africanos – rios turbulentos, florestas antigas, pântanos de água
estagnada, entre outros –, muitas das quais vieram a ser percebidas
como espaços sagrados para os primeiros praticantes do Candomblé.
A divindade africana Yemanjá tornou-se a guardiã materna do oceano
Atlântico, bem como a santa padroeira dos pescadores. A divindade
idosa Nanã tornou-se a “dona” da lagoa de água salgada. Oxóssi, o
deus quixotesco da caça e da floresta, ficou associado às florestas pri-
márias da Mata Atlântica. E o calmo e narcisista Oxum presidia cór-
regos e rios de água doce da Bahia; banhar-se nas águas sagradas de
Oxum, ou passear pelos arvoredos de Oxossi, é colher as propriedades
doadoras de saúde e prosperidade desses espaços naturais africaniza-
dos. Na cidade de Salvador, por exemplo, as águas sagradas do Dique
do Tororó continuam a testemunhar cerimônias e oferendas rituais de-
dicadas a divindades afrobrasileiras.62
Espécies agrícolas e a farmacopeia vegetal são fundamentais
para as práticas culturais dos africanos ocidentais. Mas, ao contrário de
seus captores portugueses – que ansiosamente (mas muitas vezes sem
sucesso) introduziram seus alimentos mediterrânicos e plantas medici-
nais durante os primeiros anos da colonização63 – os africanos escraviza-
dos foram severamente constrangidos em sua capacidade de transpor-
tar e reunir suas etnofloras nativas, nas Américas. Poucas espécies eram
nativas tanto do Velho quanto do Novo Mundo, e o Atlântico represen-
tava uma formidável barreira geográfica para o transporte e a aclimata-
ção de plantas por trabalhadores cativos. No entanto, por vários meios,
africanos livres e escravizados transformaram drasticamente a composi-
ção biótica e o significado espiritual da Mata Atlântica. Algumas plantas
podem ter sido contrabandeadas pelos africanos na época do comércio
de escravos, como comprovam relatos de história oral e registros dos
primeiros observadores.64 Anciãos da comunidade do Candomblé rela-
tam que curandeiros africanos atravessaram a chamada “Passagem do
Meio” com as sementes de espécies medicinais e mágicas escondidas
em pequenas sacolas de couro, e que alguns desses diásporos se torna-
ram a base para a difusão de plantas africanas, nas Américas.65 Embora
a evidência para essa transferência botânica direta seja principalmente
210 Cabral & Bustamante (orgs.)
anedótica, o médico holandês Guilherme Piso, no Maranhão, comentou
a introdução de “ervas úteis” trazidas pelos africanos – gergelim, berin-
jela, e “quigombo” (quiabo) –, e que “os africanos ensinaram os indíge-
nas americanos como usá-los e prepará-los.”66
Entre essas plantas introduzidas intencionalmente, destaca-
-se o quiabo, nome banto pelo qual é hoje conhecido em todo o Brasil.
Alimento sagrado para os orixás Xangô, Iansã e Ibeji, o quiabo é servi-
do em quase todas as cerimônias de terreiro em forma de caruru, um
guisado preparado com dendê e camarão. O caruru é particularmente
associado à celebração de Ibeji, os gêmeos míticos ioruba, e em mui-
tas cidades é distribuído como uma obrigação religiosa no dia 5 de
dezembro. Entretanto, embora os ingredientes do caruru sejam princi-
palmente de origem africana, e sua preparação esteja associada com
práticas culturais africanas, a origem do caruru exemplifica a natureza
fluida e transformadora das tradições etnobotânicas transatlânticas.
O caruru era originalmente um ensopado usado pelos indígenas da
América do Sul, feito com amaranto (Amaranthus sp.) cultivado, um
grão nativo do Novo Mundo, e era muito apreciado pelos portugueses,
na época colonial. Ao longo dos anos, vários desses amarantos comes-
tíveis, bem como a tradição de prepará-los como caruru, foram intro-
duzidos pelos portugueses, na África ocidental. Com o tempo, os com-
ponentes sul-americanos dessa receita introduzida foram substituídos
por quiabo africano e azeite-de-dendê. Por fim, tendo sido adotado na
cultura africana ocidental, esse caruru africanizado foi reintroduzido
no Brasil por escravos e seus descendentes, que continuam a preparar
o que se tornou um prato sagrado.67
Embora a documentação seja insuficiente, os portugueses de-
vem ter sido agentes importantes na introdução de plantas ornamen-
tais africanas, no Brasil. Muitas delas tinham significado espiritual, na
África ocidental, e foram resgatadas por negros escravizados e livres da
Bahia. Entre essas se incluem a dracena (Dracaena fragrans), frondosa
planta ornamental africana que, na Bahia, manteve o nome iorubá:
peregun. A dracena está atualmente dispersa amplamente pelo Brasil,
mas encontra seu significado espiritual em cerimônias do Candomblé,
nas quais é empregada para afastar espíritos ancestrais indesejados.
Da mesma forma, a espada-de-oxóssi e a espada-de-ogum são duas
variedades da planta Sansevieria aethiopica, nativa da África. Embora
Metamorfoses florestais 211
hoje essas plantas ornamentais sejam amplamente cultivadas por bra-
sileiros, sem conotação religiosa, os seus nomes evocam os arquétipos
belicosos de suas entidades espirituais e continuam a simbolizar a re-
sistência cultural para a comunidade do Candomblé.68
Embora o registro histórico fragmentado e eurocêntrico obs-
cureçam as transferências de muitas espécies africanas para o Brasil, as
introduções botânicas constituíam apenas o início de transformações
ambientais significativas e duradouras, no Novo Mundo. Por exemplo,
a introdução do dendezeiro, agora onipresente ao longo de grande
parte do litoral baiano, continua apenas parcialmente compreendida.
Alguns estudiosos, a começar pelos naturalistas oitocentistas Spix e
Martius, creditam aos próprios africanos a transferência da palmeira
para a Bahia, mas outros já supõem que foram os traficantes de escra-
vos que primeiro plantaram a palmeira na região.69 De qualquer modo,
o conhecimento e as preferências dos afrodescendentes ajudaram a
palmeira a se enraizar nas culturas e ambientes da Bahia. Seu azei-
te dourado liga as florestas secundárias da Mata Atlântica baiana às
expressões culinárias e espirituais, em Salvador e outras cidades, em
todo o Brasil. Servindo de base para moquecas e como óleo de fritar o
icônico acarajé oferecido para Iansã, Xangô e outras impetuosas divin-
dades africanas, o azeite de dendê se tornou a seiva que alimentou a
cultura afrobrasileira.70
À introdução intencional das espécies alimentícias e ornamen-
tais africanas, seja por europeus ou africanos, adicionava-se a chegada
inadvertida de ervas daninhas, ampliando consideravelmente os apor-
tes biológicos provenientes do Velho Mundo. A maioria entrou no Bra-
sil acidentalmente, nas centenas de navios trazendo escravos, açúcar e
tabaco, e a maior parte não foi percebida pelos observadores coloniais.
Muitas eram conhecidas e utilizadas, na África ocidental e, depois de
descobertas, já como parte da vegetação baiana, foram incorporadas
à emergente etnoflora afrodescendente. Dentre essas espécies se en-
contrava a Bryophyllum pinnata, planta perene que é tanto uma erva
daninha quanto uma valiosa planta medicinal e mágica. Nativa da África
austral, ela se reproduz por viviparidade – i.e. pela brotação de raízes e
pequenos botões nos recortes serrilhados, nas margens das folhas – o
que inspirou seu nome em inglês: “everlife” ou “neverdie.” Na África oci-
dental, no Brasil e em outros lugares, as suas folhas carnudas e suculen-
212 Cabral & Bustamante (orgs.)
tas são empregadas para aliviar dores de cabeça ao serem pressionadas
diretamente na testa. Na Bahia, entre adeptos do Candomblé, a espécie
é conhecida como folha-da-costa, sugerindo a origem na costa da África,
e também por seu nome ioruba, ‘ewe dudu.’71 Outra espécie africana
daninha reconhecida rapidamente foi a mamona (Ricinus communis),
mencionada por Guilherme Piso, em 1648, como Ricino Americano. En-
tre os afrodescendentes escravizados, nas Américas, a mamona ganhou
um significado cultural especial: utilizada pelos comerciantes de escra-
vos para combater piolhos e doenças de pele, em suas “peças”, ela se
tornou simbolicamente impregnada pelo seu status de instrumento de
subjugação. No entanto, considerando o legado histórico do uso da es-
pécie, na África, a mamona foi adotada por muitos africanos do Novo
Mundo como um marcador cultural de sua terra natal. O arbusto é hoje
conhecido pelos africanos ocidentais e seus descendentes por seu nome
iorubá, ewe lara, ou por seu nome banto, mamona. Entre os seguidores
do Candomblé, essa espécie é associada com Omolu, a divindade iorubá
da varíola e da doença infecciosa, talvez devido às cápsulas explosivas e
ao temperamento reconhecidamente explosivo da divindade.72
Nos casos em que a introdução de espécies – intencional ou
acidental – não era possível, substituíam-se as espécies africanas por
similares baianas. Com sua biodiversidade, a Mata Atlântica oferecia
uma vasta gama de famílias e gêneros de plantas suficientemente se-
melhantes às plantas africanas culturalmente significativas. Esse pro-
cesso não só permitiu a continuidade etnobotânica entre o Velho e
o Novo Mundo, mas também, em alguns casos, mudou fundamental-
mente o significado cultural de elementos botânicos da Mata Atlântica.
Um bom exemplo envolve Iroko, o deus-árvore iorubá. Na África oci-
dental, essa entidade espiritual está associada com a Milicia excelsa,
uma árvore alta e de tronco largo, que “sangra” um rico látex branco.
Segundo a tradição, essa árvore não pode ser plantada, pois só pode
ser associada com Iroko se crescer espontaneamente. Na Bahia, o gru-
po mais próximo de espécies que se assemelham ao Iroko africano é o
gênero Ficus. Os figos baianos nativos são quase sempre de tronco lar-
go e também produzem látex branco quando a casca é cortada. Hoje,
numerosas espécies de figo são consagradas como Iroko, no Candom-
blé baiano, onde decoram o jardim da maioria dos terreiros, além de
serem árvores rituais comuns, em espaços antropogênicos.
Metamorfoses florestais 213
A associação de características geográficas naturais da Mata
Atlântica com panteões africanos, a homogeneização transatlântica de
lavouras, plantas ornamentais e ervas daninhas, e a substituição de
espécies africanas por similares brasileiras levaram a uma reconfigura-
ção espiritual do espaço baiano nativo e também a uma africanização
botânica da paisagem tropical, cada vez mais humanizada. Ao longo
do período colonial, a Bahia foi dominada pelas instituições políticas
e sistemas socioeconômicos introduzidos pelos portugueses. Mas a
composição botânica e o significado cultural da Mata Atlântica vieram
a refletir muitos dos atributos dos africanos escravizados e livres que
trabalhavam, em suas florestas e seus campos. Apesar dos obstáculos
monumentais, os africanos foram agentes importantes de transforma-
ção cultural e ambiental da Mata Atlântica.

Conclusões

Empregando uma miríade de formas de resistência, tanto vio-


lentas como sutis, os africanos e afrodescendentes contribuíram pro-
fundamente para as transformações coloniais e pós-coloniais da Mata
Atlântica baiana, apesar das brutalidades da economia escravista. A
mais famosa dessas formas de resistência à escravidão colonial foi a
formação de quilombos que ajudaram a moldar os assentamentos do
sul da Bahia. No entanto, formas mais mundanas e sutis de resistên-
cia produziram efeitos mais profundos e duradouros, nas paisagens da
Mata Atlântica. Roças de subsistência serviram como laboratórios de
cultivares originários de todo o mundo atlântico, incluindo muitos da
África, como inhame, feijão fradinho e quiabo. Fazendas de policultura
com mandioca e dendezeiros passaram a dominar grande parte do sul
da Bahia e vieram a constituir a área hoje chamada de “Costa do Den-
dê.” Nessa região, os conhecimentos afrobrasileiros transformaram a
costa em uma verdadeira Mata Transatlântica. Combinada com a difu-
são dos sistemas de crenças e práticas inspirados na África, essa homo-
geneização florística forneceu recursos espirituais e mágico-medicinais
para gerações subsequentes de afrodescendentes deslocadas para a
Bahia por meio do comércio de escravos.

214 Cabral & Bustamante (orgs.)


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216 Cabral & Bustamante (orgs.)


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20  Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e Províncias,
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21  SCHWARTZ, Stuart B. Slaves, Peasants, and Rebels: Reconsidering Brazilian Slavery.
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22  “Ouvidoria geral do crime: Quilombos, 1806,” Arquivo Público do Estado da Bahia,
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Liberdade por um Fio: História dos Quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das
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23  “Correspondência Recebida da Câmara de Camamú, 1823-1887,” Arquivo
Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e Províncias, maço 1282.
24  “Correspondência Recebida da Câmara de Santarém, 1824-1859,” Arquivo
Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e Províncias, maço 1419.
Santarém é um nome anterior da atual Ituberá.
25  “Escravos Assuntos Diversos, 1825-1887,” Arquivo Público do Estado da Bahia,
Seção de Arquivos Colônias e Províncias, maço 2896.
26  “Correspondência Recebida do Comandante das Forças Navais: Embarcação,
1822-1833,” Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e
Províncias, maço 3176.

Metamorfoses florestais 217


27  “Juízes de Camamú,” Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos
Colônias e Províncias, maço 2298.
28  REIS, João José, e DA SILVA, Eduardo. Negociação e conflito: A resistência negra
no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
29  Um decreto real, em 1701, formalizou a prática ao ordenar que produtores
agrícolas fornecessem a subsistência necessária para seus trabalhadores escravizados
ou lhes permitissem folga aos sábados para produzir seus próprios alimentos,
deixando os domingos e dias santos para práticas religiosas; ver Arquivo Público do
Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e Províncias, Cartas Régias, 31 janeiro
1701, v. 07, doc. 103. Os produtores resistiam à maior parte dos componentes
dessa ordem, as horas provisórias continuaram sendo uma característica comum
nas propriedades com escravos na Bahia; ver LINHARES, Maria Yedda Leite, e SILVA,
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of Geography, New Monthly Series, vol. 12, no. 10, 1890, pp. 596-614; CARNEY,
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Americas”. Human Ecology, vol. 26, no. 4, 1998, pp. 525-45; SOWUNMI, M. Adebisi.
“The Significance of the Oil Palm (Elaeis guineensis Jacq.) in the Late Holocene
Environments of West and West Central Africa: A Further Consideration”. Vegetation
History and Archaeobotany, vol. 8, no. 3, 1999, pp. 199-210. FIELDS-BLACK, Edda L.
Deep Roots: Rice Farmers in West Africa and the African Diaspora. Indiana University
Press, 2008.
38  FRIEDEMANN, Nina S. de, e AROCHA, Jaime. De Sol a Sol: Génesis, Transformación
Y Presencia de Los Negros En Colombia. Bogotá: Planeta, 1986; COE, Felix G.,
e ANDERSON, Gregory J. “Ethnobotany of the Garífuna of Eastern Nicaragua”.
Economic Botany, vol. 50, no. 1, 1996, pp. 71-107; CARNEY, Judith A. Black Rice:
The African Origins of Rice Cultivation in the Americas. Cambridge, Mass: Harvard
University Press, 2001; ESCOBAR, Arturo. Territories of Difference: Place, Movements,
Life, Redes. Durham: Duke University Press, 2008. MILLER, Ivor. Voice of the Leopard:
African Secret Societies and Cuba. Oxford: University of Mississippi, 2009.
39  WATKINS, Case. “Dendezeiro: African Oil Palm Agroecologies in Bahia, Brazil,
and Implications for Development”. Journal of Latin American Geography, vol. 10,
no. 1, 2011, pp. 9-33; WATKINS, Case. “African Oil Palms, Colonial Socioecological
Transformation and the Making of an Afro-Brazilian Landscape in Bahia, Brazil”.
Environment and History, vol. 21, no. 1, 2015, pp. 13-42; WATKINS, Case. An Afro-
Brazilian Landscape: African Oil Palms and Socioecological Change in Bahia, Brazil.
Tese de doutoramento. Baton Rouge: Louisiana State University, 2015.
40  Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e Províncias,
Cartas Régias, agosto 6, 1720, v. 6, doc. 98; MILLER, Shawn William. “Stilt-Root
Subsistence: Colonial Mangroves and Brazil’s Landless Poor”. Hispanic American
Historical Review, vol. 83, no. 2, 2003, pp. 223-53.
41  SCHWARTZ, Stuart B. Slaves, Peasants, and Rebels: Reconsidering Brazilian
Slavery. Blacks in the New World. Urbana; Chicago: University of Illinois Press, 1992.
42  A constituição brasileira de 1988 consolidou o apoio federal aos quilombos,
garantindo-lhes serviços públicos e às vezes a titulação de terras para comunidades
certificadas. O quilombo se tornou um instrumento para políticas públicas, e a
obtenção da formalização como quilombo é um processo político complicado
e frequentemente demorado, contestado por muitos atores sociais internos e
externos. Muitas comunidades aparentemente merecedoras consideram o processo
de certificação inacessível por várias razões; MATTOS, Hebe. “‘Terras de Quilombo’:
Land Rights, Memory of Slavery, and Ethnic Identification in Contemporary Brazil”.
In: Sansone, L.; Soumonni, E.A.; Barry, B. (orgs.), Africa, Brazil, and the Construction
of Trans-Atlantic Black Identities, Trenton; Asmara: Africa World Press, 2008, pp.
293-318. FRENCH, Jan Hoffman. Legalizing Identities: Becoming Black or Indian in
Brazil’s Northeast. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2009; LEITE, Ilka
Boaventura. “The Transhistorical, Juridical-Formal, and Post-Utopian Quilombo.” In:
Gledhill, J.; Schell, P.A. (orgs.), New Approaches to Resistance in Brazil and Mexico,

Metamorfoses florestais 219


Durham: Duke University Press, 2012, pp. 250-268.
Em agosto de 2015, o governo brasileiro reconheceu oficialmente 2.606
comunidades quilombolas em todo o país. A Bahia reuniu o maior número de
comunidades certificadas, com 653, além de outras 189 em vários estágios do
processo. Para conhecer a certificação de quilombos em andamento, ver Fundação
Cultural Palmares, http://www.palmares.gov.br/ (acesso em agosto de 2015). Além
da certificação federal, muitos estados também reconhecem quilombos mediante
processos formais separados.
43  Presente em paisagens atuais, essa estratégia de subsistência tem origem em
antecedentes históricos. Correspondência relativa a um conflito em torno do acesso
a um manguezal em Cairu liga produtores de mandioca com pescaria e outros usos do
mangue em 1845, Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção de Arquivos Colônias e
Províncias, maço 4839. E a “Relação dos terrenos occupados por differentes pessoas
com as informações a baixo declarados, 1860” do Arquivo Público do Estado da Bahia,
Seção de Arquivos Colônias e Províncias, maço 4839-1, lista pescadores igualmente
dedicados ao plantio de mandioca perto de Camamu. Ver também WATKINS, Case.
“African Oil Palms, Colonial Socioecological Transformation and the Making of an
Afro-Brazilian Landscape in Bahia, Brazil”. Environment and History, vol. 21, no. 1,
2015, pp. 13-42.
44  SCHWARTZ, Stuart B. Sugar Plantations in the Formation of Brazilian Society:
Bahia, 1550-1835. Cambridge Latin American Studies 52. Cambridge: Cambridge
University Press, 1985, p. 87; SCHWARTZ, Stuart. “Plantations and Peripheries, C.
1580 - C. 1750”. In: Bethell, L. (org.), Colonial Brazil, Cambridge: Cambridge University
Press, 1987, pp. 67-144. BARICKMAN, Bert J. A Bahian Counterpoint: Sugar, Tobacco,
Cassava, and Slavery in the Recôncavo, 1780-1860. Stanford: Stanford University
Press, 1998; GRAHAM, Richard. Feeding the City: From Street Market to Liberal
Reform in Salvador, Brazil, 1780-1860. Joe R. and Teresa Lozano Long Series in Latin
American and Latino Art and Culture. Austin: University of Texas Press, 2010.
45  SCHWARTZ, Stuart B. Sugar Plantations in the Formation of Brazilian Society:
Bahia, 1550-1835. Cambridge Latin American Studies 52. Cambridge: Cambridge
University Press, 1985; SCHWARTZ, Stuart B. Slaves, Peasants, and Rebels:
Reconsidering Brazilian Slavery. Blacks in the New World. Urbana; Chicago: University
of Illinois Press, 1992; BARICKMAN, Bert J. A Bahian Counterpoint: Sugar, Tobacco,
Cassava, and Slavery in the Recôncavo, 1780-1860. Stanford: Stanford University
Press, 1998.
46  BARICKMAN, Bert J. A Bahian Counterpoint: Sugar, Tobacco, Cassava, and Slavery
in the Recôncavo, 1780-1860. Stanford: Stanford University Press, 1998, pp. 12-15.
47  SCHWARTZ, Stuart B. Slaves, Peasants, and Rebels: Reconsidering Brazilian
Slavery. Blacks in the New World. Urbana; Chicago: University of Illinois Press, 1992.
48  There were three major categories of manumission: gratis, wherein an enslaved
person was freed immediately and without condition; conditional (sometimes
labelled oneroso, or onerous), wherein the enslaved person is tasked with certain
conditions to achieve freedom such as work, respect, or piety for a certain period;
and self-purchase, wherein authorities and/or manumitters assign a certain value to

220 Cabral & Bustamante (orgs.)


an enslaved person, which he or she could pay to purchase freedom. Manumission
helped foment a large population of free and freed Afro-descendants relative to
other slave-holding societies in the Americas. Manumission was most frequent in
urban areas, where earnings and knowledge of legal rights were more prevalent
among the enslaved, but the practice also occurred in rural areas, where surpluses
grown in provisional plots could generate income used to purchase freedom. By the
early-nineteenth century, free and freed Afro-descendants amounted to a majority
of all residents in Bahia and elsewhere in Northeast Brazil. MATTOSO, Katia M. de
Queirós. “A Propósito de Cartas de Alforria: Bahia, 1779-1850”. Anais de História vol.
4, 1972, pp. 25–52; SCHWARTZ, Stuart B. “The Manumission of Slaves in Colonial
Brazil: Bahia, 1684-1745”. The Hispanic American Historical Review vol. 54, no. 4,
1974, pp. 603–35; NISHIDA, Mieko. “Manumission and Ethnicity in Urban Slavery:
Salvador, Brazil, 1808-1888”. The Hispanic American Historical Review vol. 73, no.
3, 1993, pp. 361–91; KLEIN, Herbert S., and Francisco VIDAL LUNA. Slavery in Brazil.
Cambridge; New York: Cambridge University Press, 2010, cap. 9.
49  DIAS, Gentil Martins. Depois do latifúndio: continuidade e mudança na sociedade
rural nordestina. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978; SCHWARTZ, Stuart B. Sugar
Plantations in the Formation of Brazilian Society: Bahia, 1550-1835. Cambridge Latin
American Studies 52. Cambridge: Cambridge University Press, 1985; SCHWARTZ,
Stuart B. Slaves, Peasants, and Rebels: Reconsidering Brazilian Slavery. Blacks in the
New World. Urbana; Chicago: University of Illinois Press, 1992.
50  SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descriptivo do Brasil em 1587. São Paulo:
Typographia de João Ignacio da Silva, 1879 [1587]; JONES, William O. Manioc in Africa.
Stanford: Stanford University Press, 1959; HARRIS, David R. “Traditional Systems of
Plant Food Production and the Origins of Agriculture in West Africa”. In: Harlan, J.R.;
De Wet, J.M.J.; Stemler, A.B.L. (orgs.), Origins of African Plant Domestication, The
Hague: Mouton, 1976, pp. 311-356; CAMARGO, Maria Thereza Lemos de Arruda.
“Estudo Etnobotânico da Mandioca (Maniot esculenta Crantz Euphorbiaceae) na
Diáspora Africana”. In: Anais do Seminário Gastronomia de Gilberto Freyre, Recife:
Fundação Gilberto Freyre, 2005, pp. 22-30; VOEKS, Robert. “Ethnobotany of Brazil’s
African Diaspora: The Role of Floristic Homogenization”. In: Voeks, R.; Rashford, J.
(orgs.), African Ethnobotany in the Americas. New York; London: Springer, 2012, pp.
395-416.
51  Ibid.
52  RIBEIRO, Orlando. Aspectos e Problemas da Expansão Portuguesa. Lisboa: Junta
de Investigações do Ultramar, Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1962.
53  JONES, William O. Manioc in Africa. Stanford: Stanford University Press, 1959;
HARRIS, David R. “Traditional Systems of Plant Food Production and the Origins of
Agriculture in West Africa”. In: Harlan, J. R.; De Wet, J. M. J.; Stemler, A. B. L. (orgs.),
Origins of African Plant Domestication, The Hague: Mouton, 1976, pp. 311-356;
DIAS, Gentil Martins. Depois do latifúndio: continuidade e mudança na sociedade
rural nordestina. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978; BARICKMAN, Bert J. A
Bahian Counterpoint: Sugar, Tobacco, Cassava, and Slavery in the Recôncavo,
1780-1860. Stanford: Stanford University Press, 1998, pp. 12-15; CAMARGO, Maria
Thereza Lemos de Arruda. “Estudo Etnobotânico da Mandioca (Maniot esculenta

Metamorfoses florestais 221


Crantz Euphorbiaceae) na Diáspora Africana”. In: Anais do Seminário Gastronomia
de Gilberto Freyre, Recife: Fundação Gilberto Freyre, 2005, pp. 22-30;
54  HARLAN, Jack R., DE WET, Jan M. J. e STEMLER, Ann B. L. (orgs.), Origins of African
Plant Domestication. The Hague: Mouton, 1976.
55  Entrevista de 23 fevereiro de 2012.
56  Entrevista de 12 agosto de 2014.
57  VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé. Austin, TX: University of Texas
Press, 1997; CORLEY, R. H. V. e TINKER, P. B. H. The Oil Palm. 4th ed. Oxford; Malden:
Wiley-Blackwell, 2003.
58  Entrevista de 27 fevereiro de 2012.
59  HARRIS, David R. “Traditional Systems of Plant Food Production and the Origins
of Agriculture in West Africa”. In: Harlan, J. R.; De Wet, J. M. J.; Stemler, A. B. L.
(orgs.), Origins of African Plant Domestication, The Hague: Mouton, 1976, pp. 311-
356; VOEKS, Robert. “Ethnobotany of Brazil’s African Diaspora: The Role of Floristic
Homogenization”. In: Voeks, R.; Rashford, J. (orgs.), African Ethnobotany in the
Americas. New York; London: Springer, 2012, pp. 395-416.
60  CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia. Rio de Janeiro: Conquista, 1948.
61  VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé. Austin, TX: University of Texas
Press, 1997.
62  VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé. Austin, TX: University of Texas
Press, 1997; RASHFORD, John. “Candomblé’s Cosmic Tree and Brazil’s Ficus Species”.
In: Voeks, R.; Rashford, J. (orgs.), African Ethnobotany in the Americas. New York;
London: Springer, 2012, pp. 311-34. VOEKS, Robert. “Ethnobotany of Brazil’s African
Diaspora: The Role of Floristic Homogenization”. In: Voeks, R.; Rashford, J. (orgs.),
African Ethnobotany in the Americas. New York; London: Springer, 2012, pp. 395-
416. Aqui, estamos nos referindo especificamente aos orixás, divindades com base
nas tradições Yoruba (Candomblé Nagô), embora reconheçamos que os panteões
de outras tradições africanas e brasileiras, especialmente aquelas derivadas do Fon
(Jeje) e do Bantu (Angola e Congo), se mantêm sempre presentes nas paisagens e
terreiros da Bahia.
63  NÓBREGA, Manuel da. Cartas do Brasil (1549-1560). Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1886, p. 69.
64  CARNEY, Judith A., e ROSOMOFF, Richard Nicholas. In the Shadow of Slavery:
Africa’s Botanical Legacy in the Atlantic World. Berkeley: University of California
Press, 2009.
65  VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé. Austin, TX: University of Texas
Press, 1997, p. 45.
66  PISO, Guilherme. História natural e médica da Índia Ocidental. Rio de Janeiro:
Instituto Nacional do Livro, 1957 [1648], pp. 441-445.
67  PIRES, Vicente Ferreira. Viagem de Africa em o reino de Dahomé. Organizado por
Clado Ribeiro de Lessa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957; CAMARGO,
Maria Thereza Lemos de Arruda. “Estudo Etnobotânico da Mandioca (Maniot
esculenta Crantz Euphorbiaceae) na Diáspora Africana”. In: Anais do Seminário
222 Cabral & Bustamante (orgs.)
Gastronomia de Gilberto Freyre, Recife: Fundação Gilberto Freyre, 2005, pp. 22-30;
LORDELO, M. e MARQUES, J. “E o Caruru de Iansã se acabou? Resiliência Cultural
de uma Festa de Comida em Salvador e Feira de Santana (BA)”. II Congresso
Latinamericano de Etnobiologia, Recife, 10 de novembro, 2010; VOEKS, Robert.
“Ethnobotany of Brazil’s African Diaspora: The Role of Floristic Homogenization”.
In: Voeks, R; Rashford, J. (orgs.), African Ethnobotany in the Americas. New York;
London: Springer, 2012, pp. 395-416.
68  VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé. Austin, TX: University of Texas
Press, 1997.
69  LEMAIRE, Charles Antoine. “Planche 487. ELAEIS GUINEENSIS.” L’Illustration
Horticole: Journal Spécial Des Serres et Des Jardins, Ou Choix Raisonné Des Plantes
Les plus Intérressantes Sous Le Rapport Ornemental, Comprenant Leur Histoire
Complete, Leur Description Comparée, Leur Figure et Leur Culture 13 (1866): n.p.
plate 487; CARNEIRO, Edison. Ladinos e crioulos: Estudos sobre o negro no Brasil. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964, p. 72.
70  CARNEY, Judith A. e VOEKS, Robert A. “Landscape Legacies of the African Diaspora
in Brazil”, Progress in Human Geography, vol. 27, no. 2, 2003, pp. 139-52; LODY, Raul
Giovanni da Motta, (org.), Dendê: Símbolo e Sabor da Bahia. Salvador: Editora Senac,
2009; CARNEY, Judith A. e ROSOMOFF, Richard Nicholas. In the Shadow of Slavery:
Africa’s Botanical Legacy in the Atlantic World. Berkeley: University of California
Press, 2009; CÂMARA CASCUDO, Luís da. História da alimentação no Brasil. 4a ed.
São Paulo: Global Editora, 2011; VOEKS, Robert. “Ethnobotany of Brazil’s African
Diaspora: The Role of Floristic Homogenization”. In: Voeks, R.; Rashford, J. (orgs.),
African Ethnobotany in the Americas. New York; London: Springer, 2012, pp. 395-
416; WATKINS, Case. “African Oil Palms, Colonial Socioecological Transformation and
the Making of an Afro-Brazilian Landscape in Bahia, Brazil”. Environment and History,
vol. 21, no. 1, 2015, pp. 13-42; WATKINS, Case. An Afro-Brazilian Landscape: African
Oil Palms and Socioecological Change in Bahia, Brazil. Tese de doutoramento. Baton
Rouge: Louisiana State University, 2015.
71 PARSONS, J. J. “The ‘Africanization’ of the New World Tropical Grasslands”.
Tubinger Geographische Studien, vol. 34, no. 3, 1970, pp. 141-53; VERGER, Pierre.
Use of plants in traditional medicine and its linguistic approach. Seminar Series no.
1, part 1. Ife, Nigeria: University of Ife; VOEKS, Robert. “Sacred Leaves of Brazilian
Candomblé.” Geographical Review, vol. 80, no. 2, 1990, pp. 118-131.
72  PISO, Guilherme. História Natural do Brasil Ilustrada. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1948, pp. 384-385; VOEKS, Robert A. Sacred Leaves of Candomblé.
Austin, TX: University of Texas Press, 1997, p. 125; CARNEY, Judith A. “Seeds of
Memory: Botanical Legacies of the African Diaspora”. In: Voeks, R; Rashford, J. (orgs.),
African Ethnobotany in the Americas. New York; London: Springer, 2012, pp. 13-34.

Metamorfoses florestais 223


A mineração e a mata:
Água, madeira e técnica na exploração do ouro nas
Minas Gerais setecentistas

Carolina Marotta Capanema


Universidade Federal de Viçosa

Em Minas Gerais, os primeiros núcleos de mineração do ouro


situavam-se na zona de contato entre os biomas da Mata Atlântica e
do Cerrado. São muitos os relatos sobre as matas que cobriam a região
que foi explorada a partir do final do século XVII, mas foram produzi-
dos, sobretudo, a partir do final do século XVIII e primeira metade do
século XIX por memorialistas luso-brasileiros e viajantes estrangeiros.
As narrativas de viajantes e memorialistas são bastante impressionis-
tas e relatam o ambiente encontrado após o período do rush minera-
dor nas Minas. Raros são os relatos do início dos setecentistas sobre
a natureza “mineira”, ao menos nos moldes descritivos apresentados
posteriormente. Mas documentos oficiais, tais como legislação, cartas
recebidas e enviadas por autoridades e algumas memórias dos primei-
ros anos de ocupação, deixam entrever a maneira como aquela socie-
dade mineradora lidou com o ambiente no qual estava inserida.
No que concerne aos aspectos materiais da exploração mineral
setecentista prevalece até a atualidade a tradicional corrente interpreta-
tiva sobre a mineração praticada na América portuguesa segundo a qual
aquela sociedade não dispunha de conhecimentos e técnicas suficientes
para desenvolver a atividade. Novamente são as narrativas produzidas a
posteriori por memorialistas e viajantes as responsáveis pela divulgação
de tais ideias que foram sendo reproduzidas pela historiografia ao longo
dos anos. Estas interpretações, entretanto, são insuficientes para a cons-
trução de uma interpretação sobre a mineração no século XVIII.
Neste capítulo, analisam-se os motivos que justificaram o uso de
determinadas técnicas de mineração em detrimento de práticas suposta-
mente mais avançadas, buscando apontar as circunstâncias locais sociais e
principalmente ambientais que moldaram a atividade. Defende-se a hipó-
tese de que as técnicas adotadas na exploração foram determinadas por
224 Cabral & Bustamante (orgs.)
características naturais, culturais, políticas, sociais e econômicas específi-
cas e que muitas vezes soluções sofisticadas foram utilizadas na prática da
mineração aurífera naquele ambiente que configurava as Minas.
As especificidades da natureza tropical foram decisivas para os
métodos adotados na exploração do ouro nos setecentos. Devido à cen-
tralidade do uso de água e madeira na mineração, é sobre estes insumos
o maior número de informações de que dispõe a documentação e, con-
sequentemente, sobre os quais se concentra a análise deste capítulo.

A água como instrumento de minerar

A disponibilidade de água foi essencial na exploração das jazi-


das auríferas da capitania de Minas Gerais. A água era utilizada como
um instrumento de mineração nas margens e nos morros auríferos,
sendo muitas vezes conduzida de lugares distantes do local das jazi-
das por meio de longos canais e bicas. A força hidráulica era utilizada
para arrastar as camadas estéreis que encobriam o cascalho aurífero
nas margens dos rios ou para quebrar os flancos das montanhas e as
rochas matrizes na busca pelo metal, assim como era indispensável na
apuração do ouro.
Em relação à contribuição das especificidades do ambiente
na escolha das técnicas, foi a abundância daquele insumo em Minas
Gerais que permitiu a utilização de água em todo processo de explo-
ração do ouro. Como observou Peter Bakewell em seu estudo sobre
a mineração na América Espanhola colonial, as circunstâncias locais
é que decidiam sobre a escolha da fonte de energia. Grande parte da
Nova Espanha, por exemplo, não tinha água suficiente para mover as
máquinas, enquanto muitos distritos andinos eram áridos demais para
sustentar o uso da força animal na atividade. Ainda segundo o autor,

para um investimento de capital igual na instalação, um tri-


turador movido a água moía, num dia, mais do que o dobro
da quantidade de minério que poderia ser processada por
um triturador movido a animais, enquanto a produtividade
da mão de obra (a quantidade de minério triturado por um
trabalhador índio por dia) era talvez cinco vezes mais elevada
no moinho movido a água. Por isso, os distritos mineiros bem
supridos de água levavam uma clara vantagem.1
Metamorfoses florestais 225
Não encontramos cálculos similares para o Brasil, mas sabe-
-se que aqueles que dispunham de água em suas explorações tinham
muita vantagem, em termos de produção, em relação aos outros, pois
a água foi objeto de inúmeras disputas nos centros mineradores. Na
América portuguesa, assim como em outras regiões mineradoras, a
água era utilizada não somente como fonte de energia, mas também
para a lavagem dos minerais e para o desmonte de rochas. Em sua lis-
tagem das localidades que tiveram sua povoação diretamente ligada à
exploração do ouro em Minas Gerais, o mineralogista alemão Eschwe-
ge fornece um exemplo de enfrentamento de dificuldade na extração
aurífera na vila de Paracatu devido à existência de pouca água2.
A mineração do ouro no século XVIII foi realizada em dois ti-
pos de depósitos: os aluvionais e os das rochas matrizes3. Os depósitos
auríferos de aluvião, os primeiros a serem explorados e os de mais fácil
acesso, correspondem às jazidas secundárias originárias da decompo-
sição da rocha matriz. Foram formados pela ação das águas pluviais e
fluviais sobre as formações rochosas auríferas ao longo dos séculos,
que transportaram o ouro gradativamente para fora da rocha, depo-
sitando-o nos leitos de rios e córregos, juntamente com sedimentos,
areias e seixos rolados pelas águas4. Os antigos mineradores distin-
guiam três categorias de depósitos de aluviões, de acordo com sua
localização: os leitos dos rios, os tabuleiros e as grupiaras.
Os tabuleiros são depósitos que ocupam as margens dos rios,
em um nível um pouco superior aos leitos. As grupiaras, por sua vez, são
depósitos ainda mais elevados, geralmente ligados aos flancos das mon-
tanhas, que correspondem ao sedimento depositado quando o rio ainda
cavava o seu leito e corria em uma altura superior. Com o rebaixamento
das águas, aqueles aluviões foram postos a seco, ficando acima do nível
das águas. Em todos esses depósitos busca-se o cascalho aurífero forma-
do por seixos. Nos rios, o cascalho rico era encontrado na superfície do
leito ou coberto pelo cascalho bravo, formado por seixos misturados com
areia. Nos tabuleiros e grupiaras, para se chegar ao cascalho aurífero, ca-
vava-se a terra numa profundidade mínima de dois a quatro metros.
Para explorar o cascalho aurífero que se encontrava depositado
em maior profundidade nos leitos dos rios muitas vezes fazia-se neces-
sário desviar o seu curso natural. Se o local se revelasse promissor, ini-
ciava-se o desvio do leito com a construção de uma barragem feita de
226 Cabral & Bustamante (orgs.)
estacas, pedras, terra e areia, e de um canal em uma das margens para o
qual a água era redirecionada, o que permitia que maiores extensões do
rio fossem remexidas e não apenas pequenas áreas. O leito assim libera-
do era revirado pelos escravos com alavancas e almocafres.5
A mineração praticada em Minas Gerais era vinculada ao regi-
me de chuvas, o que certamente a diferenciava da exploração aurífera
praticada em países não tropicais. Esse fator não pode ser desconside-
rado em análises comparativas dos usos das técnicas de mineração. As
atividades nos leitos dos rios não podiam ser realizadas nos períodos
chuvosos, pois sua intensidade ameaçava qualquer beneficiamento
feito nos cursos d’água para a mineração. Os serviços de desvio eram
feitos preferencialmente na estação seca (entre abril e setembro), pois
o menor volume das águas facilitava seu deslocamento para os canais
laterais. Ademais, evitava-se a destruição das barragens, dos equi-
pamentos e das escavações feitas ao longo de vários meses. Muitos
trabalhos chegavam a ser interrompidos durante a estação chuvosa,
quando os esforços se voltavam para a apuração do material extraí-
do. Os mineradores tiveram que se adaptar, portanto, não somente às
condições físicas locais, mas também às condições climáticas.
Uma característica marcante da mineração aurífera pratica-
da na América portuguesa era sua relação paradoxal com as águas.
Ao mesmo tempo em que os períodos chuvosos limitavam a prospec-
ção e a extração do metal nos leitos dos rios, a abundância de água,
não somente originária das chuvas de verão, mas também dos cursos
d’água naturais, foi essencial para o desenvolvimento da exploração
nas margens dos rios e nos morros auríferos. Se nos diferentes tipos
de exploração dos rios e córregos a água podia ser em algum momento
considerada uma “inimiga” dos trabalhos, na exploração das margens
ela passou a ser a principal aliada. A água era, antes de tudo, um ins-
trumento de minerar, elemento indispensável ao serviço da explora-
ção do ouro.6 A ideia da água como “inimiga” já estava presente no sé-
culo XVIII nas interpretações sobre a mineração. No poema escrito por
José Basílio da Gama em meados do século XVIII, ao tratar da técnica
de desvio de rios para a exploração do ouro, o autor chega a atribuir
características antropomórficas às águas:

Metamorfoses florestais 227


[...] Deixa correr a água para não se transformar de novo em
inimigo armado. Vigia-a com bastante cuidado; ela encosta-
-se com ousadia traiçoeira. Dia e noite, a água ameaça con-
verter-se em exército inimigo, e, penetrando em passagens
ocultas, procura com forças persistentes arruinar a represa.7

Na exploração das grupiaras (flancos das montanhas), a água


também foi aliada, sendo mesmo indispensável, e exigiu longos tra-
balhos preparatórios. Também em meados do século XVIII, Bento Fer-
nandes Furtado destacou a dimensão inventiva no espaço das lavras,
em suas Notícias dos primeiros descobridores das primeiras minas do
ouro pertencentes a estas Minas Gerais. Segundo o autor, os mine-
radores teriam aprendido a lavrar e desmontar as terras dos morros
através da imitação dos fenômenos observados na natureza:

E assim continuou na mesma forma o modo de lavrar, à ba-


teia e de mergulho nos maiores ribeiros, como no ribeirão
do Carmo, rio das Mortes e rio das Velhas, e à força de braço
nos ribeiros mais pequenos, por espaço de bastantes anos,
até que pelos de 1707, pouco mais ou menos, inventou o
artifício dos mineiros lavrar e desmontar as terras com água
superior aos tabuleiros altos, aprendido do natural efeito
que fazem as águas no tempo das invernadas das chuvas, e
cavando as terras descobriram cascalhos nos lugares mais
baixos e neles, em parte, ouro, à reflexão que fizeram nesta
obra natural das águas [...] Logo se comunicou grandemen-
te a todas as partes o invento, de que foram usando todos,
conduzindo custosas águas, desfazendo penhascos, cortando
montes, fazendo passagem de jiraus altíssimos de madeira
de lei para passar por bicas, e outros por alcatruzes, ou bicas
fechadas, descendo e subindo com elas até pô-las nos luga-
res que dessem ouro [...] Com este novo e laborioso invento
se fertilizaram novamente as minas, crescendo as conveni-
ências, as povoações e concurso de negócios de escravos,
gados, cavalgaduras e fazendas de todo gênero.8

Nos serviços de grupiaras, o primeiro passo consistia em


conduzir a água de lugares superiores até o local da jazida, o que era
feito por meio de canais e bicas que chegavam a percorrer grandes
distâncias e por vezes acumulavam, ao longo do seu curso, águas cap-
tadas de diferentes pontos. Warren Dean, em A ferro e fogo, refere-se

228 Cabral & Bustamante (orgs.)


à canalização das águas como uma empreitada realmente ambiciosa
quando cita a construção de um canal que se estendia por quarenta
quilômetros. Desde a Antiguidade utilizava-se a técnica de construção
de canais para a condução de água nos terrenos minerais. A eficácia
da técnica certamente contribuiu para sua permanência. No período
romano a Península Ibérica foi foco de exploração de metais e estudos
sobre o tema referem-se à existência de canais de cento e quarenta
quilômetros de extensão.9
A construção dos canais de adução exigia grande precisão téc-
nica, além de apurada visão espacial e senso de percepção do relevo
de grandes áreas, pois para transportar a água por longos caminhos
era necessário identificar os pontos topográficos mais favoráveis, para
que os condutos acompanhassem as curvas de nível e mantivessem
uma declividade mínima de forma regular. Isso garantia não somente
uma vazão contínua da água, mas também permitia a preservação do
canal, pois evitava seu desmoronamento em alguns pontos.
Na mineração das rochas matrizes, localizadas especialmente
nos morros, os métodos e técnicas empregados na extração variavam
de acordo com a localização das jazidas. Quando se situavam nos vales
montanhosos onde a água não podia ser encaminhada, a exploração
se fazia pelo método de catas, abertas em formato afunilado, que tam-
bém era adotado na exploração dos tabuleiros, ou por meio das minas
de galeria (escavações horizontais) e de poços (escavações verticais).
Todavia, sempre que possível, a exploração dos veios aurí-
feros situados nas rochas matrizes se fazia com o auxílio da força hi-
dráulica. E, tal como se fazia nos serviços de grupiara, era necessário
buscá-la de lugares muitas vezes distantes, por meio de canais que per-
corriam as curvas de nível. A força hidráulica utilizada para alcançar o
veio aurífero na mineração das rochas matrizes muitas vezes fazia com
que parte do ouro em pó fosse arrastado pelas águas, indo depositar-
-se nos leitos dos rios. Para aproveitar esse ouro perdido, os mineiros
construíam na extremidade inferior dos canais de recepção grandes
mundéus para a acumulação da lama aurífera. Quando os mundéus
se enchiam, os trabalhos de desmonte eram interrompidos e ali era
iniciado o processo de apuração.10
Em Mariana (antigo arraial do Ribeirão do Carmo), as terras
que dispunham de água eram mais valorizadas, pois em um ambiente
Metamorfoses florestais 229
em que o maquinário era limitado e os braços dos escravos valoriza-
dos, a água surgia como uma alternativa cobiçada. A valorização da
água nas explorações do ouro deu origem a vários conflitos no âmbito
das atividades minerárias e também a uma legislação específica para
a regulação de seu uso, como a Provisão das Águas, de 1720.11 Até
mesmo o uso das águas das chuvas foi submetido a certo tipo de re-
gulação, como indica um documento sobre o Modo e estilo de minerar
nos Morros de Vila Rica [atual cidade de Ouro Preto] e de Mariana,
publicado no Códice Costa Matoso:

Nas vertentes de águas da chuva, a posse que nestas se ad-


quire é fazendo regos e tanques nas terras desimpedidas que
ficam destes para cima. E nesta distância que verte para es-
tes regos e tanques fabricados se não podem outros introdu-
zir a fazer outros que lhe diminuam a tal vertente, ainda que
dentro desta vertente façam algum serviço de mina ou bu-
raco, que a estes tão-somente se lhes permite fazer algumas
lavagens para lavar as terras com bateias e lançar-lhes água
com barris. Como também, ainda que outros tenham água
para passar por dentro das tais vertentes, o não podem fazer
contra vontade de seu dono; só sendo por cima da terra, em
bicas levantadas do chão e estas cobertas com tábuas, para
que nem a que chover em cima das bicas se desencaminhe
aos donos das tais vertentes, que assim se observou em uma
vistoria que se fez no morro de Santana do Ribeirão [do Car-
mo], no tempo do doutor Caetano Furtado de Mendonça.12

A razão dos conflitos que envolviam as águas entre os minera-


dores nos altos dos morros variava entre o uso, a condução e a expedi-
ção das águas, pois era preciso possuir uma fonte de água, investir na
sua condução e garantir que a expedição não arruinasse os serviços de
minerar no nível inferior.

Usos e valorização da madeira pela sociedade mineradora

As árvores foram o principal combustível e material de constru-


ção das sociedades até o século XIX. Na mineração, assim como em ou-
tras atividades produtivas, a madeira também foi essencial. Nas “fábri-

230 Cabral & Bustamante (orgs.)


cas de minerar” eram utilizadas no escoramento de minas, na fabricação
de instrumentos de trabalho, como a bateia, o carumbé, os rosários e os
extensos canais de água.13 Era também utilizada como combustível na
fundição do ouro, sendo objeto de lucrativa comercialização em meados
do século XVIII, quando vigoraram as Casas de Moeda e Fundição.
Ao que indica a documentação, na primeira metade do século
XVIII houve certa escassez de madeira no interior dos núcleos urba-
nos. Isso teria desencadeado um processo de valorização das matas,
que pode ser atestada pela referência constante nos inventários de
proprietários de unidades produtivas dedicadas à agropecuária e à mi-
neração analisados por Carla Almeida para o período de 1750-1850.
A documentação analisada deixa entrever que, em meados do século
XVIII, o comércio de lenha e carvão era uma atividade econômica in-
teressante, não somente pela importância do insumo nas atividades
produtivas, mas também pelo seu valor de mercado. Em meados do
século XVIII os mineiros de Vila Rica reclamavam que a escassez de
madeira nos arredores de suas minas estava levando os proprietários
de roças a comercializarem as madeiras de suas terras. Prática contra
a qual argumentavam, pois a legislação não lhes garantia a posse da
vegetação, mas apenas o direito ao cultivo.14
Em um requerimento de licença para produção de carvão no
arraial de Itatiaia, os conflitos gerados em torno do abastecimento de
madeira nas vilas e pequenos povoados ficam explícitos. O requerente
Tomás Martins informava que mandava seus “negros fazer carvão aos
matos, e capoeiras circunvizinhas àquele arraial como é costume inve-
terado em toda a parte ainda nesta vila sem que ninguém o impedis-
se”, mas que vinha sendo impedido pelos vereadores, sob o pretexto
de que sua atividade acabava queimando capoeiras vizinhas.15
O acesso aos “matos”, como eram chamadas as áreas flores-
tadas, foi foco de variadas disputas, que podem ter como raiz a própria
política da Coroa de reservar terras no entorno das vilas para serventia
da população, sem delimitar os usos para os diferentes setores da so-
ciedade. A legislação portuguesa sobre as serventias das matas foi, em
certa medida, ineficiente, pois as Minas apresentavam uma realidade
diferente daquela vivenciada no reino. Em Minas Gerais os conflitos se
acirraram pelo fato de os serviços minerais encontrarem-se no interior
dos terrenos das vilas e arraiais.
Metamorfoses florestais 231
Nas vilas e cidades da América portuguesa, o uso das madei-
ras era regulamentado pela carta de sesmaria concedida às Câmaras,
parte de uma tradição secular portuguesa. Os habitantes das vilas e
cidades possuíam vários privilégios, dentre os quais estava a posse de
uma sesmaria, patrimônio fundiário administrado pela Câmara. No
âmbito desta sesmaria havia os chamados “baldios” ou “logradouros
públicos”, que eram destinados às pastagens, plantações comunais e
reservas de madeira. O restante do terreno poderia ser parcelado aos
habitantes através de contratos, os aforamentos, sobre os quais se co-
brava um imposto.
A delimitação da sesmaria interessava diretamente aos pe-
quenos proprietários da vila, pois como foreiros tinham o direito de
se servirem dos terrenos baldios da câmara, onde poderiam extrair
madeiras e oferecer pastagens às suas montarias, como consta de um
aforamento estabelecido nos primeiros anos de Vila Rica.16

Aos dezenove dias do mês de janeiro de mil setecentos e


doze anos, nas casas que ao presente servem de Câmara,
estando juntos os oficiais dela, apareceu Diogo Fagundes,
morador nesta vila, na freguesia de Nossa Senhora do Pilar,
junto ao córrego, indo de Antônio Dias, e por ele foi dito que
vinha aforar o chão do rancho em que vive, com duas braças
mais de fundo [...] as duas braças lhe aforavam os oficiais da
câmara em preço de duas oitavas por cada um ano [...] e po-
derá o dito tirar toda a madeira dos matos da sesmaria desta
câmara, de que mandaram fazer este termo de aforamento
em que todos assinaram com o dito aforador.17

O interesse é bastante claro, ou o proprietário não iria, por


iniciativa própria, pedir o aforamento, já que a partir de então passaria
a pagar imposto sobre suas terras. Essa situação certamente foi sendo
modificada ao longo dos anos com o esgotamento das madeiras da
sesmaria da Câmara. A posse de madeiras, ao mesmo tempo, garantia
renda ao poder municipal através dos aforamentos.
Na carta de sesmaria de Vila Rica, concedida em 1715, é expli-
citada a precedência do uso de madeira pelos mineradores: 


hei por bem de fazer mercê a esta Câmara de Vila Rica em


nome de Sua Majestade de lhe conceder por sesmaria para
232 Cabral & Bustamante (orgs.)
baldios e rossio uma légua de terras em quadra (...) das quais
poderá a câmara usar como qualquer sesmeiro, não impe-
dindo porém aos mineiros que cortem os paus e lenha de
que necessitarem para sua conservação, pois deles depende
o aumento dessas minas.18

Mas, a despeito da imposição da lei, as estruturas fundiárias


da capitania de Minas Gerais, que conjugavam mais de uma atividade
produtiva, não permitiram que a exploração do ouro tivesse privilégios
no uso das madeiras. Em sua pesquisa sobre a formação dos núcleos
urbanos das Minas do Ouro no século XVIII, Cláudia Fonseca, apoian-
do-se nos estudos que desde a década de 1980 vêm afirmando a con-
vivência entre a mineração e agropecuária, identificou o processo de
formação dos primeiros arraiais como um processo bastante complexo.
As leis sobre o uso das matas, promulgadas geralmente em benefício
dos mineradores, chocavam-se com a representação de interesses dos
grupos econômicos e sociais estabelecidos nas Minas, que praticavam
mais de uma atividade econômica em suas propriedades.
As atividades de engenhos e mineração coexistiram no espaço
das Minas durante todo o século XVIII. Como afirmou Kenneth Maxwell:
“a fazenda de Minas, muitas vezes, combinava o engenho de açúcar com
a mina, ou esta última com a pecuária. Muitos latifúndios de Minas ti-
nham lavra aurífera, grande lavoura e engenhos de açúcar e farinha”.19
A documentação indica, portanto, que muitas vezes o acesso
aos insumos naturais era um problema para o desenvolvimento das
atividades produtivas setecentistas, como no caso da mineração do
ouro que dependia diretamente de madeira e água. Em suma, as prá-
ticas de exploração do metal estavam sistematicamente vinculadas a
questões contextuais sociais, econômicas, políticas e ambientais e não
necessariamente relacionadas ao desenvolvimento técnico, como indi-
cam outras evidências a seguir.

Por uma análise histórica da mineração setecentista na


América portuguesa

A partir das evidências apresentadas pela documentação se-


tecentista e por estudos arqueológicos recentes é possível questionar
Metamorfoses florestais 233
a tradicional corrente interpretativa sobre a mineração praticada na
América portuguesa segundo a qual aquela sociedade não dispunha
de conhecimentos e técnicas suficientes para desenvolver a atividade.
Corrente esta estritamente vinculada à ideia de “atraso” cultural e tec-
nológico dos primeiros mineradores.
Em trabalhos acadêmicos, a utilização dos textos de memo-
rialistas e viajantes sem uma revisão crítica tem gerado a perpetuação
dessa imagem, presente não apenas em estudos dedicados especifica-
mente à mineração, mas também nos trabalhos que abordam outros
aspectos da história de Minas Gerais no período colonial e na historio-
grafia interessada nas relações entre sociedade e natureza. É à nega-
ção dessas ideias que se dedica esta última seção deste capítulo.
Em seu estudo sobre a mineração e a metalurgia na idade mo-
derna, Gómez mostra que o desenvolvimento técnico não era suficiente
para levar a mineração ao sucesso. O desenvolvimento histórico da ex-
ploração do ouro pelo mundo indica que, assim como na América por-
tuguesa, quando havia riqueza superficial nas jazidas não se empregava
técnicas muito complexas. O autor cita como exemplo o caso da Europa
no século XIII. Nesse período houve um incremento na técnica e na pro-
dução com o aumento da aplicação da energia hidráulica em pilões de
trituração de minerais e nos foles de fornos que faziam a fusão dos me-
tais. Mas, ainda assim, os aumentos produtivos continuaram sendo mais
ligados à abertura de novas explorações do que à melhoria da produti-
vidade nas jazidas já existentes. Em Minas Gerais, a mobilidade também
era uma característica dos primeiros exploradores do ouro. A forma de
organização de toda produção tinha como uma de suas características
principais a forma extensiva de produção que dependia de constantes
incorporações de matas virgens e mão de obra para se manter.20
O depoimento de Bento Furtado atesta que os primeiros mi-
neradores de Minas davam preferência à exploração do ouro mais fá-
cil, “deixando o melhor e mais custoso para os vindouros”.21 Ou seja,
não era uma questão de ausência de técnica adequada, mas sim de
aproveitamento da riqueza disponível às mãos. Não havia necessidade
em buscar serviços mais complexos. Posteriormente, com a rarefação
do ouro de aluvião, os mineradores tiveram que se firmar nos centros
mineradores, pois os serviços exigiam mais tempo e dedicação.
Mesmo nesse estágio posterior, mais sedentário, certos fato-
234 Cabral & Bustamante (orgs.)
res desestimulavam o uso de maquinaria na mineração em Minas Ge-
rais, se comparado à Europa. Conforme argumentou, Francisco Vidal
Luna, um deles foi a constituição do terreno:

Desenvolvida em área de relevo acidentado, com inúmeros


cursos d’água, alguns caudalosos, tornava-se penoso trans-
portar os equipamentos com a rapidez exigida pela minera-
ção. Nos próprios locais onde se realizava a extração, muitos
de difícil acesso e movimentação, o trabalho humano revela-
va-se insubstituível. O próprio Eschwege, ferrenho defensor
da melhoria técnica e do uso de processo mecânicos na ati-
vidade mineira, ao visitar um serviço de diamantes, onde os
escravos transportavam cascalho, duvidou das vantagens dos
equipamentos frente ao trabalho humano.22

Outro fator que teria prejudicado o uso de maquinaria corres-


ponde à dificuldade de transporte de objetos pesados e volumosos do
litoral para o interior, pois se dava em lombo de mulas por caminhos
acidentados e de péssima qualidade. Além disso, a carga fiscal onerava
sobremaneira os produtos fabricados em ferro. A baixa capitalização da
maioria dos mineradores também foi um percalço para o investimento
em maquinário. Sérgio Buarque de Holanda também utilizou a variável
do terreno para analisar a predominância daquilo que chama de “lavou-
ra de tipo predatório no Brasil”, baseada na queima de mata virgem.
Segundo ele, duas causas explicariam a persistência de certos métodos
de lavoura nas colônias alemãs do sul do Brasil nos séculos XIX e XX.
A primeira diz respeito à formação geológica da região. Situa-
das ao longo da região serrana, as plantações ocupavam as encostas dos
morros, e isso dificultava o uso do arado. A segunda causa seria origi-
nária da própria experiência dos colonos que mostrava que o emprego
do arado era muitas vezes contraproducente em certas terras tropicais
e subtropicais. Um depoimento da época revelou que ao revolver o solo
para arrancar as raízes, subiam “corpúsculos minerais” que entravavam
o crescimento das plantas, o que era muitas vezes mais prejudicial ao
cultivo do que as queimadas. Ou seja, a tecnologia utilizada não era re-
sultado de uma escolha arbitrária ou de determinações impostas, mas
de uma adaptação a características ambientais específicas.
O emprego de máquinas nem sempre era mais vantajoso do
que o trabalho manual. Um exemplo disso nos é oferecido por Go-
Metamorfoses florestais 235
méz ao analisar o desenvolvimento da mineração na Europa moderna.
No século XVI, a substituição do trabalho humano por tecnologia na
Europa era possivelmente menos rentável, dada a existência de uma
reserva de mão de obra subempregada no setor rural a que os empre-
sários podiam recorrer a baixo preço, sobretudo naquele século que
experimentou uma expansão demográfica. Frente a outros fatores de
produção, a mão de obra era abundante e barata, o que freava a apli-
cação de algumas técnicas23.
A história da mineração também nos mostra que as crises de
produção não foram ligadas apenas à aplicação de técnicas adequadas
à exploração, mas também ao contexto socioeconômico de cada perío-
do. As explorações minerais sofreram várias crises ao longo da história,
como a do século XIV na Europa, causada por vários fatores, tais como:
a interrupção da expansão colonizadora em direção ao leste diminuiu as
possibilidades da abertura de novas frentes de mineração, método no
qual se baseavam grande parte das explorações; uma crise demográfica
provocou escassez de mão de obra, subida de salários, diminuição da
atividade econômica e, consequentemente, da demanda da exploração.
Nesse sentido, a análise de antigos manuais de exploração mine-
ral nunca seria suficiente para estabelecer uma comparação das técnicas
utilizadas na Europa e na América, ou uma comparação entre as técnicas
utilizadas na América espanhola e na América portuguesa, pois descre-
vem, de forma geral, todas as técnicas disponíveis no momento. O livro
de Agricola, por exemplo, trazia uma compilação dos conhecimentos me-
talúrgicos da época e da região tecnicamente mais desenvolvida do mun-
do na matéria. Mas isso não atesta que todas as técnicas eram aplicadas
por todas as empresas mineradoras, pois sua utilização estava atrelada a
outros fatores sociais, econômicos, políticos e culturais, como observado
anteriormente. Até 1550 a grande empresa mineradora foi a exceção e até
o século XIX seguiu sendo minoritária no conjunto europeu.24
A utilização da força humana nos serviços de extração e trans-
porte do material aurífero também estava ligada ao rendimento das
explorações, ou seja, à sua produtividade. Eschwege, que era defensor
do uso de máquinas na mineração, reconheceu as vantagens do traba-
lho escravo. Ao comentar algumas tentativas mal sucedidas feitas por
proprietários de minas ao instalar carrinhos sobre trilhos de madeira
em seus serviços, ele afirmou que, ao ser constantemente supervisio-
236 Cabral & Bustamante (orgs.)
nado por feitores e sistematicamente organizado e dividido, o trabalho
do cativo apresentava maior aproveitamento. Embora se refira à mine-
ração de diamantes, o seu comentário é inteiramente aplicável à mine-
ração de ouro, que empregava número semelhante de escravos:

Enquanto uns extraem o material, outros enchem os carum-


bés que serão colocados na cabeça dos carregadores. Estes
correm, uns atrás dos outros, não parando nem para despe-
jar a carga e voltam por outro caminho, a fim de apanharem
nova carga, já preparada de antemão. Nos serviços diaman-
tinos observam-se muitas vezes, quatrocentos, quinhentos,
até mesmo seiscentos escravos, que, à semelhança de uma
diligente correição de formigas, correm em bando, sem de-
sordem e sem estorvarem uns aos outros. Por esse meio,
obtêm-se melhores resultados de que com carrinhos e má-
quinas, razão por que não foram introduzidos nos serviços.25

Além disso, o investimento em escravos pressupunha, teori-


camente, maior direito a terras mineráveis, já que a legislação que re-
gulava a mineração previa a repartição de datas entre os mineradores
de acordo com a posse de cativos. O quinto artigo do Regimento ori-
ginal dos Superintendentes, Guarda-mores e mais Oficiais deputados
para as Minas de Ouro que há nos sertões do Estado do Brasil, de 1702,
estabelecia que “regulando-se pelos escravos que cada um tiver, que
em chegando a doze escravos ou daí para cima fará repartição de uma
data de trinta braças conforme o estilo. E àquelas pessoas que não
chegarem a ter doze escravos lhes serão repartidas duas braças e meia
por cada escravo”.26 Estudos atuais vêm relativizando, contudo, a divi-
são das terras de acordo com a posse de escravos e admitem uma fle-
xibilização legislativa nesse setor. Essas pesquisas, fundamentadas na
análise da documentação setecentista, apontam que muitas vezes as
datas não eram repartidas de acordo com o número de escravos, mas
segundo o número de pessoas interessadas na área a ser minerada.
A eficiência da exploração aurífera não dependia unicamente
da técnica empregada ou do capital disponível, mas também das re-
lações estabelecidas entre os que atuavam na exploração do metal. A
eficiência da exploração de uma jazida também dependia do acordo
estabelecido entre os mineradores, pois a ajuda regular ou momen-
tânea de outros senhores e seus escravos ampliava o potencial de tra-

Metamorfoses florestais 237


balho que não se reduzia às próprias posses de escravos do minera-
dor. Um senhor com maior capacidade de estabelecer alianças possuía
mais chances de ser bem sucedido em seu empreendimento.27
Afora esses fatores contextuais, a Europa e a América tiveram
uma capacidade muito limitada de desenvolvimento da indústria me-
talúrgica e de transformação metálica antes do uso em grande escala
do carvão mineral, do ferro fundido, do aço e do cobre em fundições
em uma escala significativa. Além da utilização da máquina a vapor,
das linhas férreas e barcos a vapor, ou seja, antes do uso generalizado
da máquina como ferramenta de trabalho. Essa situação foi modifica-
da apenas em finais do século XVIII. Mesmo com certo desenvolvimen-
to das máquinas entre os séculos XVI e XVII, a madeira seguiu sendo o
material básico das máquinas e a transformação de energia era reali-
zada muito mais com cordas do que com cadeias.
A documentação e os vestígios arqueológicos da exploração
mineral setecentista vêm indicando que a mineração do período foi
gerida com atenção à sua organização operacional, apresentando uma
racionalidade própria. Isso se manifesta não somente na legislação,
mas também na documentação camarária e nas fontes produzidas
pelo poder metropolitano que trazem as interpretações que os agen-
tes coevos fizeram de tais práticas. O panorama atual da arqueologia
histórica também tem esboçado um quadro que mostra as especifici-
dades da mineração setecentista em Minas Gerais através da adoção
de soluções sofisticadas diante das necessidades e das condições na-
turais locais. Os estudos desenvolvidos por Carlos Magno Guimarães e
outros autores28 têm apresentado aspectos tecnológicos da mineração
colonial que vêm oferecendo importantes informações para subsidiar
e complementar as leituras dos documentos históricos.
Os vestígios arqueológicos da exploração mineral colonial
apontam para a complexidade das estruturas quanto pelos aspectos
tecnológicos muitas vezes ainda pouco conhecidos, como evidenciam
Ribeiro e Leanza. A eficiência da técnica é demonstrada na resistência
dos canais construídos para a condução de água, bem como dos mun-
déus e outras tantas estruturas com a passagem dos séculos.29
As estruturas remanescentes do século XVIII em nada condi-
zem com a visão pejorativa de memorialistas e viajantes do século XIX. É
exatamente o poder de inventividade e adaptação que impressionam os
238 Cabral & Bustamante (orgs.)
olhos contemporâneos. Um exemplo disso é apresentado em um estudo
arqueológico sobre o local conhecido como Passa Dez, nos arredores
de Ouro Preto. De acordo com Frederico Sobreira e seus colaboradores,
responsáveis pelo mapeamento e cadastramento do acervo arqueoló-
gico relacionado à atividades de mineração no período colonial nas re-
giões de Ouro Preto e Mariana, as estruturas observadas na região são
representadas por um conjunto de aquedutos e alguns reservatórios de
água, além de canais secundários de condução, que geralmente dirigiam
a água coletada nas drenagens locais aos aquedutos. A análise de sua
complexa trama de canais indica pleno domínio das técnicas de capta-
ção e condução de águas superficiais, bem como um profundo conheci-
mento geográfico da serra em que se localizam as atividades.30
As pesquisas de Ribeiro e Leanza na região do córrego Cuia-
bá, em Sabará, também indicam a complexidade do sistema hidráuli-
co aplicado à mineração nas Minas setencistas. Segundo as autoras, o
complexo arqueológico do córrego Cuiabá consiste em excepcional re-
manescente das tecnologias de exploração mineral colonial, tanto pela
complexidade de suas estruturas quanto pelos aspectos tecnológicos
ainda pouco conhecidos que elas evidenciam.
O complexo arqueológico do córrego Cuiabá possui testemunhos
de mineração subterrânea de jazidas primárias e a céu aberto, em depó-
sitos secundários. Segundo as autoras, no local foram utilizados principal-
mente dois métodos de exploração das jazidas: a mineração de encosta
com sistemas hidráulicos e a mineração de encosta com serviços braçais.
Este último raramente foi mencionado na documentação setecentista. Os
remanescentes do primeiro método de mineração destacam-se pela es-
trutura construída para o transporte da água até as jazidas, o que indica
a complexidade e o planejamento da prática de exploração do ouro em
algumas áreas de mineração colonial. Constatou-se que os canais articu-
lavam todo um conjunto de estruturas funcionalmente diferenciadas e
compunham os sistemas hidráulicos ao levar a água aos locais de lavra.31

Considerações finais

Muitas vezes os estudos sobre a mineração praticada no sécu-


lo XVIII baseiam-se em padrões de racionalidade atuais, que resultam

Metamorfoses florestais 239


na pouca reflexão sobre os significados atribuídos à atividade pelos
atores sociais que as realizaram. As interpretações predominantes so-
bre as práticas de exploração do ouro comungam com a também tradi-
cional tese, mais ampla, de que a colonização portuguesa na América
foi gerida por um modelo econômico irresponsável, imprevidente e
esbanjador, defendida por autores como Caio Prado Júnior. Interpreta-
ção similar foi elaborada acerca do desenvolvimento urbano da Amé-
rica portuguesa no período colonial. Entretanto, alguns trabalhos vêm
questionando tais perspectivas sobre a colonização portuguesa.32
A principal questão que envolve a manutenção da tradicio-
nal ideia de que a mineração setecentista praticada na América por-
tuguesa foi regida por técnicas inadequadas é a desconsideração das
características sociais, culturais, econômicas, políticas e ambientais
que se relacionam com a atividade de exploração do ouro em cada
região onde ela se desenvolve. O advento das ciências modernas e a
consequente crença na ideia de progresso induziram as sociedades a
pensar que o conhecimento se desenvolve linearmente. E, “ao lado da
crença geral na linearidade do desenvolvimento científico existe outra,
igualmente ingênua, que é considerar os fatores puramente racionais,
lógicos, ‘científicos’, como motores exclusivos” das relações materiais
nas sociedades, assim como do desenvolvimento dos saberes.33

___________
1  BAKEWELL, Peter. “A mineração na América espanhola colonial”. In: BETHELL,
Leslie (org.). História da América Latina: América Latina Colonial. São Paulo: Editora
da Universidade de São Paulo; Brasília, DF: Fundação Alexandre Gusmão, 2008, p.109.
2  ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto brasiliensis. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia;
São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979,vol.1, p.32.
3  Rocha matriz é aquela que dá origem aos solos. Mediante sua desagregação pela
ação dos agentes do intemperismo, na zona superficial ou em pequena profundidade
da litosfera, há a formação da matéria prima que dá origem aos solos. CASTRO, Bruno
Almeida Cunha de. “Pedologia: formação e desenvolvimento dos solos”. Disponível em:
file:///C:/Documents%20and%20Settings/Owner/My%20Documents/Downloads/
Pedologia.pdf. Acesso em: 10/09/2015.
4  ESCHWEGE. Pluto brasiliensis, p.32; REIS, Flávia Maria da Mata. Entre faisqueiras,
catas e galerias: explorações do ouro, leis e cotidiano nas Minas do século XVIII
(1702-1762). Dissertação (Mestrado em História). Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2007, p.98.

240 Cabral & Bustamante (orgs.)


5 FERRAND, Paul. O Ouro em Minas Gerais; tradução Júlio Castañon Guimarães,
notas João Henrique Grossi, F. E. Renger, estudos críticos João Henrique Grossi et.
al. Belo Horizonte: Sistema Estadual de Planejamento; Centro de Estudos Históricos
e Culturais. Fundação João Pinheiro, 1998, p.97; REIS. Entre faisqueiras, catas e
galerias, p.98-100. Almocafre é uma “pequena enxada estreita e pontiaguda usada
para juntar o minério e depositá-lo nos carumbés para transporte”. COSTA MATOSO.
Coleção das Notícias dos primeiros descobridores das minas na América que fez o
doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro Preto, de que
tomou posse em fevereiro de 1749, & vários papéis. Belo Horizonte: Fundação João
Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1999, vol.2, p.75.
6  TEDESCHI, Denise Maria Ribeiro. Águas urbanas: as formas de apropriação das
águas em Mariana (1745-1798). Dissertação (Mestrado em História). Universidade
Estadual de Campinas. Campinas, 2011, p.229.
7  GAMA, Basílio da. Brasiliensis Aurifodinae / Poemate Didascalico / Ab
Aurifodinensibus Musis depromptae, / sive / De Auro, Eiusque Extractione in /
Brasilia / Poetica Descriptio / A Josepho Basilio Gama / elocubrata / additis, / Et
Compendiaria appendice, soluta oratione: / Et curiosa quaestione de Auri genesi.
[As minas de ouro do Brasil apresentadas pelas musas das Minas de Ouro por meio
de um poema didático ou seja composição poética sobre o ouro e a sua extração no
Brasil preparada com esmero por José Basílio da Gama com aditamentos, resumo em
prosa e questão curiosa sobre a origem do ouro], s.d.. In: MARIANO, Alexandra Maria
Lourido de Brito. Brasilienses aurifodinae: o ouro e a literatura didáctica no Brasil
setecentista: texto e tradição literária. Tese (Doutorado em Literatura) – Faculdade
de Ciências Humanas e Sociais, Universidade do Algarve, Faro, 2005, p.315.
8  FURTADO, Bento Fernandes. “Notícias dos primeiros descobridores das primeiras
minas do ouro pertencentes a estas Minas Gerais, pessoas mais assinaladas nestes
empregos e dos mais memoráveis casos acontecidos desde os seus princípios”. In:
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida e CAMPOS, Maria Verônica (coord.). CÓDICE
COSTA MATOSO. Coleção das Notícias dos primeiros descobridores das minas na
América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro
Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749, & vários papéis. Belo Horizonte:
Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1999, vol.1 apud
REIS. Entre faisqueiras, catas e galerias, p.110. Flávia Reis faz uma discussão crítica
sobre a veracidade da informação de Furtado em relação à originalidade do invento
e constata que a técnica já era utilizada há tempos pelos ibéricos. Cf. REIS. Entre
faisqueiras, catas e galerias, p.110-13.
9  ALLAN, John C. A mineração em Portugal na Antiguidade. Lisboa: Bertrand,
1965, p.14; DEAN, Warren. “Ouro e diamantes, formigas e gado”. In: A ferro e fogo:
a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das
Letras, 1996, p.113.
10  REIS. Entre faisqueiras, catas e galerias, p.120-5. Mundéu é um “grande tanque
de paredes de pedra construído para acumulação das águas vertentes, utilizadas
durante o período da seca na operação de lavagem das areias auríferas”. FIGUEIREDO
e CAMPOS. CÓDICE COSTA MATOSO, vol.2, p.110.
11  REGIMENTO das águas, as quais se concedem ao mineiro o uso delas enquanto
tem terras para trabalhar, e acabando o lavor tornam as águas para a repartição
do guarda-mor, e por isso o mineiro empossado das águas as não pode dar, nem
vender a outrem, nem também mineiro algum pode apropriar-se das águas sem ter
concessão delas por escrito do guarda-mor, o que regularmente chamamos provisão
Metamorfoses florestais 241
das águas. In: LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Notícias das minas de São Paulo
e dos sertões da mesma Capitania. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da
Universidade de São Paulo, 1980. Alguns trabalhos abordam os conflitos gerados em
torno do uso das águas: REIS. Entre faisqueiras, catas e galerias, 2007; REZENDE,
Dejanira Ferreira. “Arraia-miúda” mos morros das minas: conflitos sociais na Vila do
Carmo, década de 1710. Monografia (Graduação em História). Instituto de Ciências
Humanas e Sociais, Universidade Federal de Ouro Preto. Mariana, 2010; TEDESCHI.
Águas urbanas, 2011.
12  MODO e estilo de minerar nos morros de Vila Rica e Mariana. [ca.1750]. In:
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida e CAMPOS, Maria Verônica (coord.).
CÓDICE COSTA MATOSO. Coleção das Notícias dos primeiros descobridores das
minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral
das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749, & vários papéis. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1999,
vol.1, p.768.
13  A bateia é uma “gamela de madeira que se usa na lavagem das areias auríferas
ou do cascalho diamantífero”. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo
Dicionário Eletrônico Aurélio da Língua Portuguesa, versão 5.11, 2004. As bateias
eram geralmente feitas de pau de cedro. GONÇALVES, Andréa Lisly. “As técnicas
de mineração nas Minas Gerais do século XVIII”. In: RESENDE; VILLALTA. As Minas
Setecentistas. Belo Horizonte: Autêntica; Companhia do Tempo, 2007, vol. 2, p.195.
O cedro é hoje uma espécie rara, que ocorre em diversas formações florestais
brasileiras e praticamente em toda América tropical, incluindo Minas Gerais.
Essa árvore produz uma das madeiras mais apreciadas no comércio brasileiro e
internacional atualmente. A resistência natural da madeira aos agentes exteriores
é grande e ainda possui baixa ocorrência de defeitos [o que a habilita a ser uma
das madeiras a serem preferencialmente utilizadas na confecção de bateias, assim
como insumo para outros utensílios utilizados na mineração]. ANGELI, Aline. Cedrella
Fissilis (Cedro). Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais. Disponível em: <http://
www.ipef.br/identificacao/cedrella.fissilis.asp>. Acesso em: 27/10/2011. Outros
instrumentos utilizados na mineração, como os carumbés, também eram feitos de
cedro. Já as rodas de minerar eram confeccionados em jequitibá. LEMBRANÇAS
das ervas medicinais, dos cipós e das árvores e paus mais usuais no país das Minas
[ca.1750]. In: FIGUEIREDO e CAMPOS. CÓDICE COSTA MATOSO, vol.1, p.790. Carumbé
é uma “cuba com formato de cone invertido utilizado na lavagem e no trasporte
do cascalho aurífero”. As rodas de minerar são o mesmo que rodas de rosário, ou
somente rosário. Cf. FIGUEIREDO e CAMPOS. CÓDICE COSTA MATOSO, vol.2, p.84, 81
e 120, respectivamente.
14  ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Alterações nas unidades produtivas mineiras.
Mariana 1750-1850. Dissertação (Mestrado em História). Instituto de Ciências Humanas
e Filosofia, Universidade Federal Fluminense. Niterói, 1994, p.202-205; ARQUIVO
HISTÓRICO ULTRAMARINO-MG, cx.64, doc.65 [Requerimento dos mineiros de Vila Rica,
pedindo ao rei que ordene aos proprietários de roças que não proíbam a extração de
madeiras para uso nas minas. Sem data, expedida em 17 de junho de 1754].
15  ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Casa dos Contos. Cx. 64, 30624 [Requerimento
de Tomás do Rego Martins sobre a licença para produção de carvão nas matas sem o
impedimento dos capitães-do-mato], sem data, com visto de 25/01/1747. Itatiaia era
“antigo arraial do município de Ouro Preto, onde foi criada a paróquia na primeira
metade do século XVIII, elevada colativa por alvará de 1752”. Atualmente é vinculado

242 Cabral & Bustamante (orgs.)


ao município de Ouro Branco. BARBOSA, Waldemar de Almeida. Dicionário histórico-
geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 1995, p.165.
16  FONSECA, Cláudia Damasceno. Arraiais e vilas d’el rei: espaço e poder nas Minas
setecentistas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, p.460-483.
17  ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Câmara Municipal de Ouro Preto. Códice 01, fl.2.
18  CARTA de 3 de abril de 1715. Revista do Arquivo Público Mineiro, IV, 1899, p.193
apud FONSECA. Arraiais e vilas d’el rei, p.464.
19  FONSECA. Arraiais e vilas d’el rei, p.451; MAXWELL, Keneth. A devassa da
devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750-1808. 3ªed. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1985, p.111 apud ALMEIDA. Ricos e pobres em Minas Gerais, p.73.
20  GÓMEZ, Julio Sánchez. Minería y Metalurgia en la Edad Moderna. Madrid:
Ediciones Akal, S.A., 1997, p.12-36; ALMEIDA. Ricos e pobres em Minas Gerais, p.21.
21  FURTADO, Bento Fernandes. “Notícias dos primeiros descobridores das primeiras
minas do ouro pertencentes a estas Minas Gerais, pessoas mais assinaladas nestes
empregos e dos mais memoráveis casos acontecidos desde os seus princípios”.
In: FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida e CAMPOS, Maria Verônica (coord.).
CÓDICE COSTA MATOSO. Coleção das Notícias dos primeiros descobridores das
minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral
das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749, & vários papéis. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1999,
vol.1, p.180.
22  LUNA, Francisco Vidal. “Mineração: métodos extrativos e legislação”. Estudos
Econômicos, São Paulo, (13): 845-859, (Número Especial), 1983, p.11.
23  GÓMEZ. Minería y Metalurgia en la Edad Moderna, p.12-36.
24  LUNA. Mineração: métodos extrativos e legislação, p.11-12; HOLANDA, Sérgio
Buarque de. Raízes do Brasil. Organização Ricardo Benzaquen de Araújo, Lilia Moritz
Shwarcz. ed. rev. São Paulo: Companhia das Letras, [1936] 2006, p.63-65. GÓMEZ.
Minería y Metalurgia en la Edad Moderna, p.13-30.
25  ESCHWEGE. Pluto Brasiliensis, vol.1, p.172.
26  REGIMENTO Original dos Superintendentes, Guarda-mores e mais Oficiais
deputados para as Minas de Ouro que há nos sertões do Estado do Brasil. In:
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida e CAMPOS, Maria Verônica (coord.).
CÓDICE COSTA MATOSO. Coleção das Notícias dos primeiros descobridores das
minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral
das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749, & vários papéis. Belo
Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1999,
vol.1, p.315.
27  ANDRADE; REZENDE. “Estilo de minerar ou nas Minas Gerais escravistas, século
XVIII”, p. 282-413.
28  GUIMARÃES, C.M.; PEREIRA, A.B.A. & REIS, F.M.M. “Arqueologia da Mineração
Colonial: o Forte de Brumadinho, um estudo de caso (Minas Gerais – Séculos XVIII
-XIX)”. Anais do XII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira: Arqueologias
da América Latina. São Paulo: SAB, 2003 (edição em hipertexto); GUIMARÃES, C.M.;
PEREIRA, A.B.A.; NASCIMENTO, E.L. & NETO, L.F.O. “Arqueologia da Mineração
Colonial: documentos, canais e mundéus”. Anais do XII Congresso da Sociedade de
Arqueologia Brasileira: Arqueologias da América Latina. São Paulo: SAB, 2003 (edição
em hipertexto); GUIMARÃES, Carlos Magno. “A água na mineração colonial: uma

Metamorfoses florestais 243


abordagem a partir da arqueologia (Minas Gerais – Goiás / Brasil – século XVIII)”.
Memorias in extenso del Simposio CIEN 06. “EL ACCESO AL AGUA EN LA HISTORIA
DE AMÉRICA”. Sevilla, España del 17 a 21 de julio del 2006. Disponível em: <http://
jacinta.palerm.googlepages.com/ICA_Sevilla_Guimaraes_CM.pdf>. Acesso em:
20/09/2008; GUIMARÃES, Carlos M. e REIS, Flávia M. M. “Mineração Colonial:
Arqueologia e Iconografia”. Trabalho apresentado no XI Congresso da Sociedade
de Arqueologia Brasileira (SAB). São Paulo, 2003. Disponível em: http://www.fafich.
ufmg.br/pae/index_arquivos/Apoio/MineracaoColonialArqueologiaeIconografia.
pdf;
29  Ver ANDRADE; REZENDE. “Estilo de minerar ou nas Minas Gerais escravistas,
século XVIII”. Ribeiro e Leanza afirmam que “a documentação primária manuscrita
revela que ao requisitarem o registro das datas minerais, os mineradores alegavam
possuir meios e recursos para explorar as lavras, não sendo aventado pelo guarda-
mor o número de escravos dos solicitantes”. RIBEIRO, L.; LEANZA, D. As Grupiaras do
Córrego Cuiabá. Arqueologia e história da mineração aurífera na Zona do Sabarabuçu
(séculos XVIII e XIX). In:  RIBEIRO, L.. Córrego Cuiabá - Arqueologia e história da
mineração do ouro em Sabará. CD-ROM Multimídia. Belo Horizonte, AngloGold
Ashanti, JPZ COMUNICAÇÃO, 2007, p.51.
30  SOBREIRA, Frederico Garcia et. al. “Acervo arqueológico relacionado à antiga
mineração do ouro em Ouro Preto”. In: CALAES, Gilberto Dias e FERREIRA, Gilson
Ezequiel (Eds.). A Estada Real e a transferência da corte portuguesa: Programa Rumys
– Projeto Estrada Real. Rio de Janeiro: CETEM/MCT/CNPq/CYTED, 2009, P.146-147.
31  RIBEIRO e LEANZA. “O complexo arqueológico do córrego Cuiabá e o mito das
tecnologias rudimentares e ineficazes da mineração nas Gerais colonial”, p.68-70.
32  Sobre o tema ver CABRAL, Diogo Carvalho. “Substantivismo econômico e história
florestal da América portuguesa”, Varia História, Belo Horizonte, Departamento de
História da FAFICH, vol. 24, n.39, jan./jun. 2008; CABRAL, Diogo Carvalho. “Economia
do desperdício, ecologia da destruição: historiografia, ambientalismo e o debate
político contemporâneo”, Revista Esboços, Florianópolis, Programa de Pós-Graduação
em História da UFSC, vol.14, nº 18, 2007; Em contextos em que a historiografia
tradicional assinala apenas acaso e depredação, Shawn Miller e Castro observam
medidas de planejamento na exploração dos domínios portugueses na América.
Cf. MILLER, Shawn William. Fruitless trees – portuguese conservation and Brazil’s
colonial timber. Standforder, Califórnia: Stanford University Press, 2000; CASTRO,
Carlos Ferreira de Abreu. Gestão Florestal no Brasil Colônia. Tese (Doutorado). Centro
de Desenvolvimento Sustentável. Brasília, 2002.
33  FILGUEIRAS, Carlos A. L. “A influência da Química nos saberes médicos acadêmicos
e práticos do século XVIII em Portugal e no Brasil”. Química Nova. São Paulo, vol.22,
n.4, Jul/Ago. 1999.

244 Cabral & Bustamante (orgs.)


Botânica e gestão florestal na Bahia atlântica de
fins do século XVIII

Rodrigo Osório Pereira


Universidade Estadual de Feira de Santana

O objetivo deste artigo é discutir as políticas da Coroa portu-


guesa para as madeiras da Bahia Atlântica colonial,1 nas últimas déca-
das do século XVIII, problematizando o papel da botânica setecentista
em sua constituição. Para tanto, analisaremos como essa ciência auxi-
liou a gestão régia das madeiras baianas, culminando com a criação da
Intendência dos Reais Cortes de Madeira, em 1780, e a regulamenta-
ção dos Reais cortes de madeira, na década de 1790.

A Coroa em busca de um “tesouro que a natureza tão


benignamente liberalizou”

A madeira foi um recurso básico em todo período moderno e


na dinâmica de seus impérios. A importância das madeiras advinha de
seu papel central na cultura material da era pré-industrial, quando diver-
sos aspectos da vida social eram organizados a partir da fibra lenhosa.
Casas, móveis, meios de transporte, caixas, utensílios domésticos diver-
sos, obras de arte, variados tipos de ferramentas de trabalho, cercas e
até navios que atravessavam os oceanos eram construídos com madeira.
Na colônia portuguesa na América, ao longo dos três primei-
ros séculos, houve momentos de maior ou menor controle sobre esse
recurso, mas o tema foi recorrente na administração.2 Medidas políti-
cas pela conservação das matas costeiras do Brasil estiveram presentes
desde o começo da colonização e, gradualmente, foram se tornando
um tema de grande interesse para a Coroa portuguesa. Como aponta
Margareth Santos, “os Regimentos de 12 de Setembro de 1652 e de
15 de Outubro de 1751 impunham proibições ao corte de certas ma-
deiras, estabelecendo algumas providências a serem seguidas pelos

Metamorfoses florestais 245


fazendeiros.” Nessa mesma linha, podemos lembrar que “os decretos
de 23 de Setembro de 1713 e de 11 de Março de 1716 mandavam
conservar as matas e bosques, para utilidade pública e proveito real.”3
Nos primeiros três séculos de contato entre os portugueses e
os indígenas da América, os lusos logo aprenderam os nomes das ma-
deiras que, por sua vez, foram associadas a determinados usos. Com
isso, perceberem que estavam diante de um vasto campo de possibi-
lidades no uso das diversas qualidades de fibras existentes no Brasil.
Essa realidade contrastava com a homogeneidade dos pinhais do he-
misfério norte e apresentou possibilidades muito mais complexas e,
evidentemente, vantajosas a Portugal.4
Segundo Shawn Miller, o navio de madeira foi a mais importan-
te expressão da cultura material, em Portugal, durante o período mo-
derno. Com ele, os portugueses dispuseram de uma ferramenta eficaz
para a expansão do império, dominação dos povos e comercialização
dos produtos europeus.8 Após 1640, no entanto, os lusos saíram da uni-
ficação ibérica com sua economia bastante prejudicada. Sua marinha já
não apresentava o mesmo esplendor quinhentista devido, por um lado,
à política espanhola de descuido com a frota portuguesa e, por outro,
aos confrontos contra os holandeses, na primeira metade do século XVII.
Calcula-se que mais de oitenta por cento da frota portuguesa tenha sido
dominada pelo inimigo entre os anos de 1647 e 1648.5
Oportunamente, ao longo do século XVIII, Salvador se tornou
o principal porto e estaleiro do império português. Como disse José
Roberto do Amaral Lapa, “foi o porto da Bahia uma espécie de pul-
mão por onde respira a colônia.”6 A importância das madeiras baianas
foi tamanha que, em fins dos setecentos, a maioria da frota naval sob
bandeira portuguesa havia sido construída nesse porto.7 Na Bahia, a
construção dos “vasos” da carreira da Índia – os quais tradicionalmen-
te faziam escala em Salvador – desenvolveu-se em íntima dependência
das matas locais. Como mostra Marcelo Henrique Dias, em fins do sé-
culo XVII, as principais matas em que eram extraídas as madeiras para
a armada Real eram do Recôncavo baiano. Contudo, a pressão sobre a
busca das madeiras nessa região fez com que “os senhores de engenho
do Recôncavo se mostrassem contrários ao desenvolvimento dessa in-
dústria.” Como consequência, essa elite local, “com todo seu poder
de influência nas decisões da administração, acabou por exercer forte
246 Cabral & Bustamante (orgs.)
oposição ao desenvolvimento das atividades madeireiras e de constru-
ção naval em Salvador e no Recôncavo.”9
Gradativamente, a atividade do corte de madeira foi sendo
deslocada para as matas do sul, na Comarca de Ilhéus. Os jesuítas ha-
viam se apropriado de vastas extensões de terra, na região da Vila de
Camamú; usando as florestas próximas às vilas de Cairu e Boipeba,
bem como do rio Jiquiricá, eles fabricavam pranchões e tabuados para
suprir a demanda da Coroa.
Quando a Coroa decidiu, a partir de 1716, administrar seus
próprios cortes de madeira, o sistema adotado foi o de feitorias10. Essa
medida visou amenizar os custos com as madeiras nas encomendas
oficiais feitas pelos estaleiros de Salvador e Lisboa. As primeiras feito-
rias se localizavam nas matas ao redor da Vila de Cairú, mas, à medida
que se descobriam novas áreas extrativistas, outros cortes surgiram
– como os de Mapendipe, Una e Jequié –, passando a integrar a Inspe-
toria dos Reais Cortes de Madeiras da Comarca de Ilhéus, em 1780.11
A centralização administrativa das atividades madeireiras expressa o
crescente interesse da Coroa pelas matas de Ilhéus, que havia sido
anexada, em 1761, à Real Capitania da Bahia.
A administração da atividade madeireira não se mostrou uma
tarefa fácil. Há inúmeros indícios, na documentação florestal baiana,
de corrupção, desvios de erário público e métodos inadequados de
execução dos cortes. Além disso, as fontes registram as críticas feitas
por um seleto grupo de funcionários altamente qualificados, muitos
deles formados na Universidade de Coimbra, dirigidas ao sistema ex-
trativista empregado pela Coroa.
Esses registros sugerem o amadurecimento, no seio da alta
política portuguesa, da necessidade de racionalização do uso das ma-
deiras. Nosso argumento é de que esse gradativo amadurecimento das
autoridades locais e metropolitanas sobre a necessidade de um con-
trole estatal mais rígido sobre as matas estava associado ao ideário
botânico de conservação e utilidade prática desse recurso. Ao mesmo
tempo em que subsidiou um olhar mais racional sobre os recursos na-
turais da colônia, a botânica auxiliou a construção de um “plano” de
monopolização das madeiras, na Bahia, em fins do século XVIII.
Em uma de suas memórias sobre o corte das madeiras, o Ca-
pitão de Infantaria Domingos Alves Branco Muniz Barreto incluiu um
Metamorfoses florestais 247
histórico da administração da intendência e sugeriu uma série de me-
lhorias nos métodos utilizados.12 Barreto sustentou que a escolha das
árvores destinadas era feita “sem exame algum”, acarretando “o pre-
juízo da Real Fazenda.” Para ele, o procedimento correto seria, primei-
ramente, identificar a espécie mais adequada para cada tipo de peça;
esta era uma condição fundamental para que os “informes” (enco-
mendas) remetidos pelo Arsenal da Marinha pudessem ser atendidos
pelos fabricantes de madeiras.
Outra crítica de Barreto dirige-se ao progressivo distancia-
mento entre as vilas e as matas exploradas, o que demandava juntas
de bois cada vez maiores para o arrasto das madeiras. Segundo ele,
isso poderia ser evitado “com a construção de carros pouco altos, que
suspendessem os paus por baixo dos eixos o que, dependendo de pou-
ca força” evitaria também, “a mortandade de bois pelo método até
agora estabelecido nos arrastos.”13
Barreto deixou clara a necessidade de se mapear a variedade
de espécies madeireiras e identificar os seus melhores usos construti-
vos. Inúmeras fontes administrativas falam sobre a urgente tarefa de
sistematizar o rico saber local acerca das madeiras navais. Em 1790,
em ofício endereçado a Martinho de Melo e Castro, Ministro da Secre-
taria da Marinha e Domínios Ultramarinos, o governador da Bahia, D.
Fernando José de Portugal, destacou que o uso de madeiras de ader-
no e massaranduba eram mais apropriadas na fabricação de remos.14
Provavelmente, amparou-se nas observações que os naturalistas em-
preenderam com os indígenas e fabricantes de embarcações sobre os
melhores tipos de madeira para cada peça.15 Em 1797, Dom Rodrigo
de Sousa Coutinho, que ocupou a Secretaria de Domínios Ultramarinos
após Melo e Castro, escreveu a Fernando José de Portugal, alertan-
do para que se buscassem os melhores tipos de madeiras. Coutinho
alertou, por exemplo, que os práticos deveriam aproveitar a curvatura
natural dos lenhos para a fabricação das peças curvilíneas. 16
A despeito da grande importância atribuída pelos naturalistas
às atividades de extração das madeiras, os problemas eram diversos.
Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá denunciou a ação devas-
tadora dos roceiros que destruíam as matas sem nenhum critério de
conservação e sem nenhuma preocupação com o replantio. O enga-
jamento de Bittencourt e Sá pela questão das madeiras foi motivado
248 Cabral & Bustamante (orgs.)
pela importância econômica desse recurso ao Estado. Segundo ele,
caso não fosse tomada alguma medida para sanar as devastações
ocorridas na Bahia, os danos seriam muitos, afetando, especialmente,
a Real Fazenda.17
O naturalista defendeu um “grande cuidado” com as madeiras
como meio de coibir esse processo de degradação, cabendo à Coroa
uma ação mais enérgica em duas frentes de ação: legislação e fiscali-
zação. Não por acaso, Ferreira da Câmara alertou em sua memória aos
sócios da Academia Real de Ciências de Lisboa que “Interessará muito
ao Estado (...) ministros que vigiem e regulem o corte das madeiras
indistintamente, obrigando os proprietários dos terrenos marítimos a
conservar ilesas as de construção”. 18
Em todas essas críticas transparece a necessidade de maior
racionalização científica da gestão régia das florestas. Já plenamente
incorporada no meio acadêmico reinol – especialmente depois da re-
forma curricular da Universidade de Coimbra, nos anos 1770 – a bo-
tânica passou a subsidiar reformas nos métodos de cuidado, seleção,
extração, aprimoramento e usos das madeiras brasileiras. Na Bahia,
podemos ver esse processo a partir da análise de sua aplicação na Ins-
petoria dos Reais Cortes de Madeira, resultando numa das maiores
reformas existente na legislação colonial sobre as matas.

A botânica setecentista e a política madeireira

A botânica desempenhou um papel importante na constru-


ção de uma renovada política florestal para a América portuguesa, nas
últimas décadas do período colonial. Na Bahia Atlântica, é possível
analisar esse papel a partir de duas dimensões. A primeira diz respeito
à aplicação da botânica aos estudos e às práticas de tratamento das
madeiras, pelos naturalistas locais. A segunda está ligada ao surgimen-
to de um conjunto de discursos conservacionistas sobre os bosques
da região. Examinados conjuntamente, estes dois canais de expressão
da ciência botânica mostram como ela subsidiou a construção de uma
política florestal monopolista, na colônia.
De acordo com Warren Dean, a virada do século XVIII para o
XIX assistiu o primeiro grande impulso de classificação botânica, no

Metamorfoses florestais 249


Brasil. A prática taxonômica foi profundamente influenciada pelas de-
nominações indígenas, principalmente do ramo tupi, as quais chega-
vam a representar dois terços dos nomes comuns de árvores nativas.
Mais tarde, ao longo do século XIX, a botânica se institucionalizou ple-
namente no país, utilizando majoritariamente o sistema binomial de-
senvolvido por Carl Linnaeus, na sua obra Species plantarun, de 1753.19
A assimilação dessa ciência na política dos bosques resultou
no mais impressionante conjunto de registros coloniais da flora baia-
na. Levada a cabo pelos funcionários naturalistas, esses levantamentos
“registram o estado das florestas costeiras na virada do século XIX; de
fato, oferecem mais informação que qualquer outra coisa que foi es-
crita desde 1500 concernente à distribuição das espécies arbóreas.”20
Baltasar da Silva Lisboa, um naturalista e leal funcionário ré-
gio que se tornou um dos maiores peritos no tema, considerava o trato
com as madeiras o “mais importante ramo da indústria, defesa e segu-
rança pública” do Brasil. Lisboa queixava-se, contudo, que, a despeito
dessa importância, as madeiras eram desprezadas pelas autoridades
coloniais, “ficando exposto o grande Império do Brasil aos projetos dos
infames invasores que tanto tem destruído pela pirataria a Marinha
Mercantil.”21 Lisboa foi um dos maiores peritos na “física dos bosques”
e um dos principais estudiosos das matas baianas, no período colonial.
Uma de suas mais notáveis memórias sobre o tema intitula-se
Princípios de Física Vegetal, na qual Lisboa apresenta um vasto campo de
questões sobre os cuidados diversos com as árvores, métodos adequados
de corte, identificações de tipos mais apropriados para a produção de de-
terminados objetos, entre outros temas. Nesse estudo, Lisboa defendeu
uma “polícia florestal” defensora das matas e até capaz de restaurar árvo-
res danificadas com o conhecimento das ciências naturais. Segundo ele,
uma combinação de argila, calissa e urina – juntamente com o rodízio nos
cortes para poupar as árvores enfermas – poderia ser usado para tratar as
grandes feridas nos troncos das árvores. Essa mistura também foi a base
de um método conhecido como o “remédio de Forsyth”. Outro método
era reflorestar as matas já degradadas. Um dos meios de amenizar o “in-
calculável dano” que as marinhas no Brasil estavam sofrendo era promo-
vendo o reflorestamento – a criação de “matas artificiais.” 22
O já mencionado Barreto dedicou parte de seu tempo como
governador da Fortaleza do Morro de São Paulo para as observações
250 Cabral & Bustamante (orgs.)
botânicas. Também ele utilizou a Intendência dos Reais Cortes de Ma-
deira como espaço de observação para produzir críticas e propostas
de racionalização. Para um melhor aproveitamento das árvores nos
cortes régios, ele propôs a observação da “demasiada distribuição do
suco nutritivo” das espécies. Barreto argumentou que, para manter as
árvores em “bom estado”, era preciso compreender a distribuição do
“veículo nutritivo”, canalizando-o para que se concentrasse nos tron-
cos e ramificações principais. Esta técnica seria oportuna, sobretudo
pelo fato de que “no Brasil as raízes não aprofundam como na Europa
e as árvores esgalham muito.”
Na prática, tal ordenação do espaço florestal era impraticável,
uma vez que a Coroa não dispunha de uma polícia florestal para im-
plementá-la. Seja como for, essa proposta reflete o espírito ilustrado
dos estudiosos das matas, uma vez que sugere uma racionalização de
seus usos e mecanismos de reprodução. A proposta de manejo das
árvores, com a poda e seleção das espécies desnecessárias aos reais
cortes foi baseada na experiência prática dos homens que lidavam com
a diversidade e densidade da floresta tropical. Ela tinha o propósito de
maximizar os resultados, minimizando os esforços.
Além de averiguar a distribuição do “suco nutritivo”, Barreto
também alertou para a necessidade de se estabelecer a poda das ár-
vores no seu devido tempo. Segundo ele, “o principal objeto do corte
das árvores para servirem na construção, consiste não só na boa esco-
lha delas, mas no verdadeiro tempo em que se devem cortar.” Prática
fundamental para o crescimento vegetal, a poda deveria estar, assim,
“inteiramente apartada da sua mortal crise”, já que “uma árvore [...]
com copa triste e pouco elegância” seria provavelmente incapaz de
fornecer “peças para se empregarem na construção.”23 Prescrições
como essas mostram a importância das ciências naturais para o deline-
amento de uma política florestal ilustrada. Como argumentou Baltasar
da Silva Lisboa, à luz das ciências naturais, “conhecemos a composição
dos humores, o esqueleto lignoso e as diversas partes dos vegetais,”24
dados indispensáveis ao bom uso das madeiras.
Cabe destacar a relação entre a chamada “física dos bosques”
e a botânica. Da maneira como se desenvolveu na colônia, a “física dos
bosques” acabou se apresentando como uma disciplina mais ampla do
que a própria filosofia natural, que seria uma de suas partes constitu-
Metamorfoses florestais 251
tivas.25 Como um campo vasto e complexo, a física dos bosques não se
confundiu assim com a botânica, mas seus contornos não eram autôno-
mos em relação a essa ciência. Na verdade, era da botânica que eram to-
mados os principais conceitos e teorias para a organização mais racional
dos cortes régios de madeira. Dado o perfil eclético dos estudiosos da
natureza, não imprimindo fronteiras claras entre os campos dos saberes,
a física dos bosques se apropriava dos principais autores da botânica e
dos campos auxiliares a essa ciência. Se o uso da teoria botânica foi utili-
zado no estudo dos bosques, o mesmo pode ser dito sobre os métodos.
Embora posteriormente estigmatizada pelo dedutivismo ra-
cionalista, a experiência ou percepção sensorial teve um papel cen-
tral na revolução científica dos primeiros séculos da era moderna. As
observações sobre a física dos bosques, na Bahia Atlântica, estavam
repletas de descrições empíricas baseadas em cheiros, gostos e cores.
Isto refletiu uma adequação metodológica ao exercício da descrição da
natureza americana a partir de parâmetros primários conhecidos uni-
versalmente. O sistema de classificação botânica ofereceu mais fáceis
condições de compreensão das informações e das práticas científicas
baseadas nos instrumentos sensoriais. Isso, provavelmente, contribuiu
para a participação de indivíduos não especializados no campo botâ-
nico, bem como para o estabelecimento da comunicação com grupos
indígenas, notáveis conhecedores da flora nativa.
O Capitão Barreto estabeleceu uma relação de distinção e
vantagem entre os naturalistas de campo frente ao de gabinete. Frente
aos circuitos europeus de produção científica, estar na mata tropical,
senti-la, poder vê-la e experimentá-la in locus conferiu vantagens ao
baiano diante de seus colegas naturalistas na Academia Real de Ciên-
cias de Lisboa. 26 Como observou Lorelai Kury, o naturalista americano
em geral, “apesar da distância que o separa dos centros europeus, pro-
cura levar vantagem de sua situação, ou seja, do fato de estar no Brasil
e ter a possibilidade de ver com os próprios olhos.”27 Embora distantes
dos centros de decisão imperiais, os naturalistas sediados na América
estavam em contato direto com as realidades ecológicas que deviam
ser manejadas, o que lhes conferia uma certa vantagem para influen-
ciar a política científica da metrópole.
Paralelamente ao desenvolvimento da pesquisa “pura”, a
Bahia Atlântica testemunhou o despertar de um discurso crítico que
252 Cabral & Bustamante (orgs.)
defendia a proteção das matas. Richard Grove mostrou como os am-
bientes coloniais e os usos de seus recursos se tornaram uma questão
para as autoridades imperiais num período anterior às grandes trans-
formações urbano-industriais do século XIX. Analisando experiências
ocorridas nos espaços coloniais franceses, ingleses e holandeses, so-
bretudo nas ilhas no oceano índico e no mar do caribe, Grove demons-
trou como a forma violenta de exploração dos recursos naturais contri-
buiu para o surgimento de um pensamento “conservacionista” aplica-
do à natureza tropical.28 Ao mesmo tempo, esse conservacionismo não
deixou de atuar como instrumento de expansão colonial.
Na esteira dos insights de Richard Grove, argumentamos que
os discursos críticos sobre o uso das matas da Bahia Atlântica – em es-
treita conexão com o saber botânico – tiveram um importante papel po-
lítico no âmbito da alta política ultramarina, pressionando por uma gra-
dual centralização da política régia para as madeiras, na década de 1790.
Formulados num contexto de recrudescimento da exploração colonial,
os discursos conservacionistas expressaram-se em termos utilitaristas e
pragmáticos. As críticas ambientais eram sempre eivadas de sentido po-
lítico, não havendo ainda um conceito de valor intrínseco da natureza.29
Novos estudos são necessários para determinar mais preci-
samente os efeitos concretos das políticas florestais. Em tese, elas te-
riam combatido a devastação e estimulado o aproveitamento racional
dos recursos. Do que sabemos até agora, tais iniciativas não lograram
grandes transformações concretas. Manoel Ferreira da Câmara Bitten-
court e Sá, por exemplo, lamentou-se de que a Coroa se via obrigada,
em pleno final dos setecentos, “a mendigar e comprar por bom preço
os carvalhos da Pensilvânia para o travejamento dos nossos navios de
guerra.”30 Para ele, a situação era grave, pois apesar de “cobertas de
grandes e espessas matas”, as terras da Bahia sofriam com a impla-
cável destruição praticada pelos roceiros, com o agravante de que as
capoeiras não continham as espécies da mata madura.
É curioso relacionar essa constatação com os estudos que es-
tavam sendo feitos à época por Domingos Vandelli e por seu discípulo
coimbrão Baltasar da Silva Lisboa; em uma de suas memórias, Lisboa
mostrou que as espécies nativas brasileiras demoravam décadas e, em
alguns casos, centenas de anos para atingir a fase adulta, o que invia-
bilizava o cogitado “plano” de replantio.31 Já Vandelli observou que,
Metamorfoses florestais 253
“quanto aos bosques, raros são os que de novo se plantam e nos an-
tigos não há todo o cuidado necessário para a sua conservação e au-
mento.” O mestre italiano ensinava aos seus alunos em Coimbra a re-
lacionarem, sempre quando possível, os princípios da filosofia natural
aos assuntos de Sua Majestade, assim como leis mais severas. Em uma
de suas famosas Memórias, ele se esforçou por defender a aplicação
de leis semelhantes àquelas da França, sugerindo o caráter ineficiente
da legislação em vigor, na América portuguesa.32
A emergência das críticas ambientais, na colônia, estimulou
os membros da alta política ultramarina a sintonizarem suas ações
num conjunto de novas medidas de combate à devastação praticada
por roceiros e proprietários de terras. Esse conjunto de medidas pode
ser entendido como parte do mesmo processo de regulamentação dos
cortes régios de madeira, por sua vez atrelado à incipiente sensibilida-
de botânica que estimulava e orientava os naturalistas.
O primeiro naturalista empenhado na denúncia da devasta-
ção das matas baianas foi o Ouvidor da Comarca de Ilhéus, Francisco
Nunes da Costa. Desde 1780, Costa assumira a fiscalização dos cortes
régios. Lidar com as madeiras era parte de seus encargos e o tema
da conservação das matas, certamente, estimulou comunicação direta
com o trono, como deixa claro uma de suas representações, datada
de 1784. No documento, ele pedia “remédio competente” aos danos
causados pelos roceiros “às admiráveis matas” da capitania.33
Chegando a ser elogiado pelo Governador da Bahia, Costa de-
nunciou um dos graves problemas que enfrentou à frente da adminis-
tração dos Reais Cortes: a destruição das matas. Como as reservas de
madeira representavam uma importantíssima riqueza para o Estado
português, tal matéria-prima deveria ser conservada a todo custo. A
alternativa escolhida pelo ouvidor e, pouco depois, pelo Estado portu-
guês foi a do monopólio régio da extração da madeira. Aliás, cabe lem-
brar que tal política não foi aplicada exclusivamente às madeiras, abar-
cando também o ouro, os diamantes, o sal, entre outros produtos.34
Seguindo uma argumentação monopolista, típica do mercan-
tilismo português, Costa chamou a atenção da Coroa para a urgente
necessidade de banir os “estragos” que as “admiráveis matas” vinham
sofrendo. Tais estragos representavam uma perda sensível não só para
a Coroa, mas também para a atividade comercial e para os particula-
254 Cabral & Bustamante (orgs.)
res, que poderiam usar esses recursos a partir de concessões autori-
zadas pelos prepostos régios. Em representação dirigida à rainha D.
Maria I, em 20 de Janeiro de 1785, o inspetor denunciou a ação dos
roceiros nas matas da Vila de Nazaré. Em menos de seis anos, os ro-
ceiros tinham reduzido “a cinzas matas preciosas e tão antigas como
o mundo” causando uma perda da qual “não há cálculo que a possa
computar.”35 Em 15 de Setembro de 1785, em um outro documento,
Costa continuou a solicitar da Coroa uma solução “para guardar as ma-
tas e conservá-las, pois que da mal entendida liberdade que tinham os
habitantes de entrar nelas ao seu arbítrio [...] nascia a sensível falta das
madeiras que cada dia se experimentava.”36 Em ofício endereçado ao
governador da Bahia, datado de 27 de Janeiro de 1789, encontramos
Costa, mais uma vez, preocupado com a conservação e defesa das ma-
tas, pois a ferro e fogo, “os roceiros tem feito incomparáveis estragos
na riquíssima mata de Jiquiriçá e são tais a ruína e a desordem, que em
breves anos perderá o Estado este grande tesouro”.37 Segundo ele, as
matas estavam em uso comum, de forma pública e isso foi o principal
fator de devastação. A Coroa deveria evitar que os roceiros colocassem
a perder “este grande tesouro” do Estado. As matas seriam um mono-
pólio legítimo, “um direito indubitável realengas”.
Outro exemplo de oficial que denunciou a devastação foi o já
mencionado Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá. Ele advertiu
os membros da Academia Real de Ciências de Lisboa que a Comarca de
Ilhéus estava “pela maior parte ainda coberta de espessas matas” e de-
dicou um capítulo específico ao tema em sua memória sobre a região.
A tônica recaiu sobre a devastação presente nos territórios florestais
onde os roceiros procuravam “diariamente destruir só com a pequena
utilidade de uma até quatro plantações, feitas no espaço de dezesseis
ou vinte anos, sem, contudo, aproveitarem as preciosas madeiras de
construção, tinturaria e marchetaria.”38
Assim como Costa, o argumento usado por Ferreira da Câ-
mara foi econômico. Para ele, eram “bem conhecidas as utilidades”
resultantes da remessa “das madeiras do Brasil a Portugal”, insistindo
em seus usos na indústria naval, bem como na fabricação do açúcar.
Na mesma linha argumentativa do inspetor Costa, Ferreira da Câma-
ra chamou a atenção para a responsabilidade da Coroa em coibir tais
abusos, destacando algumas propostas para o “grande cuidado a res-
Metamorfoses florestais 255
peito daquelas terras vizinhas aos portos marítimos e de fácil exporta-
ção, como a Comarca dos Ilhéus que ainda não tem sido tão atacada”.
Seu objetivo foi evitar que “em breve tempo as madeiras se tornassem
um gênero muito caro”, o que segundo ele, já vinha acontecendo em
algumas regiões produtoras.
Baltasar da Silva Lisboa também alertou sobre o perigo de
tais devastações. Tal qual Costa e Ferreira da Câmara, ele considerou
a conservação das matas “um objeto de tanta importância quanto é a
do Estado”. Seu principal argumento também foi econômico, uma vez
que, sem madeiras, a Coroa não poderia “fundar a sua prosperidade
sem manter a marinha Real e mercantil”. Como um dos principais men-
tores da política de controle das matas pela Coroa, Lisboa lamentava a
“irreparável perda dos monstruosos paus queimados e perdidos para
a marinha e serviço público”. Para o coimbrão, só este fato já seria um
“justificado motivo para se tomarem medidas seguras de embaraçar o
progresso das derrubadas.”39
Sintetizando, nas duas últimas décadas do século XVIII, esta-
beleceu-se na Bahia Atlântica uma crítica coletiva sobre o uso devasta-
dor dos recursos naturais, o que reforça o papel das ciências ao subsi-
diar novos quadros mentais para os funcionários coloniais.

O processo de regulamentação dos cortes régios de madeira

Uma resposta às críticas coloniais sobre a devastação dos bos-


ques foi a ação dos ministros da Secretaria de Marinha e Domínios
Ultramarinos. Martinho de Melo e Castro e, sobretudo, Dom Rodrigo
de Sousa Coutinho, tiveram um papel fundamental no refinamento e
execução de muitas políticas formuladas por Sebastião José de Carva-
lho e Melo, o Marquês de Pombal.40 Os ministros tinham a intenção de
empreender, através de seus prepostos nas colônias, um grande inven-
tário das riquezas de além-mar.41 As suas preocupações recaíam princi-
palmente sobre o “abandono” das matas “aos interesses dos particula-
res que, nestes casos, e só neles, podem contrariar a pública utilidade,
formando uma notável exceção aos princípios da economia política.”42
Frente à necessidade de um maior controle estatal das reser-
vas de madeira, o ministro Coutinho empossou, em 1796, Baltasar da

256 Cabral & Bustamante (orgs.)


Silva Lisboa, um dos mais qualificados estudiosos da Mata Atlântica,
como juiz conservador das matas da Comarca de Ilhéus.43 Como aler-
tou Diogo Cabral, este cargo não tinha a natureza de uma função for-
mal, nos quadros da burocracia portuguesa, sendo, na verdade, uma
atribuição estratégica para um funcionário já empregado num posto
jurídico ou administrativo.44 A condução de Lisboa ao cargo de juiz
conservador pode ser vista como uma ação estratégica rumo a uma
política florestal mais centralizada. Uma de suas primeiras iniciativas
foi colaborar ativamente na elaboração da Carta Régia de 13 de março
de 1797. Esta chegou à Bahia declarando, como propriedade da Coroa,
“todas as matas e arvoredos à borda da costa, ou de rios que desem-
boquem imediatamente no mar, e por onde em jangadas se possam
conduzir as madeiras cortadas até as praias.” Além disso, proibia-se
que “para o futuro se possam dar sesmarias em tais sítios” e pedia in-
formações sobre “os meios por que se poderiam restituir à minha Real
Coroa as sesmarias já dadas, indenizando os proprietários com terras
equivalentes no interior do país.”45
Essa dupla iniciativa – a criação da Conservadoria das Matas e
sua expressão política mais prática, a Carta de 13 de Março de 1797 – foi
complementada pela Carta Régia de 12 de julho de 1799, que estipulou
o primeiro Regimento dos Cortes de Madeira para a América portugue-
sa.46 Consideramos este conjunto de ações sintonizadas como parte de
um mesmo processo de regulamentação da exploração madeireira ré-
gia, fenômeno que apresentou impactos sobre toda a colônia. A estraté-
gia monopolista também foi empregada no Rio de Janeiro e em Pernam-
buco – onde as matas de Alagoas eram reconhecidamente importantes
para os peritos dos bosques –, entre outras capitanias.
Mas, mesmo reconhecendo a dimensão mais geral desse pro-
cesso, acreditamos que a Bahia Atlântica foi um lugar central na com-
posição dessa política monopolista da Coroa. Salvador e suas matas
próximas foram um foco central de tensões, pois o principal arsenal da
marinha régia estava ali instalado.47 O próprio Baltasar da Silva Lisboa,
um dos mentores da Carta Régia de 13 de Março, era baiano, profundo
conhecedor das matas locais e já alocado na ouvidoria de Ilhéus. Nesta
Comarca, desde o início do século XVIII, a Coroa estabeleceu nas vilas do
norte, em especial na de Cairú, feitorias para os cortes de madeira. Mais
tarde, na década de 1780, a política régia direcionou-se para a criação
Metamorfoses florestais 257
da Intendência dos Cortes das Madeiras. Entre 1780 e 1792, coube aos
ouvidores da comarca a responsabilidade por essa intendência.
Como sugerem os historiadores W. Morton e José Augusto
Pádua, quando Silva Lisboa se encontrava em Portugal, em 1796, ele
teria sido recrutado pelo ministro Coutinho, que acabara de assumir
a Secretaria de Marinha e Domínios Ultramarinos. O ministro estava
projetando um conjunto de políticas de cunho reformador para as ma-
tas coloniais e utilizou a experiência de um perito das matas da Bahia
Atlântica, um dos intelectuais mais preparados na “física dos bosques”,
para esta empreitada. Assumindo a responsabilidade de pôr em práti-
ca, a partir de 1797, a política Real de cunho monopolista, o juiz tomou
uma série de medidas. Fez tombamentos de terras públicas, criou ma-
pas, realizou levantamentos de flora, estudou as espécies mais ade-
quadas para cada uso e estabeleceu uma fiscalização mais severa com
os particulares, a qual previa que só poderiam extrair madeiras em
suas próprias propriedades mediante licença expedida pelo próprio
juiz. Baltasar da Silva Lisboa permaneceu no cargo de conservador das
matas até 1818 e morou na região até a independência. Ao longo de
todo esse período, ele produziu ampla documentação científica e ad-
ministrativa sobre a comarca.
A regulamentação contida na carta régia de 1797 trouxe uma
série de conflitos com os proprietários de terras locais, uma vez que
a iniciativa de conservação das matas se chocou diretamente com a
necessidade de ampliação da fronteira agrícola, especialmente para a
cultura da mandioca, como também a utilização das madeiras para os
engenhos de açúcar.

Conclusão

A botânica setecentista foi uma ciência valorizada, no contexto


reformista do iluminismo português. Para o novo mundo colonial, ela se
tornou um dos campos mais importantes da Filosofia Natural, respon-
sável por potencializar a exploração dos recursos naturais em prol do
fortalecimento do império português e dos projetos coloniais. Diante da
grande importância das madeiras no mundo moderno, a ciência botâni-
ca subsidiou, notadamente na Bahia Atlântica, uma política monopolista

258 Cabral & Bustamante (orgs.)


para as matas, ancorada em uma crítica ambiental e no conhecimento
técnico para o uso das melhores madeiras. Um seleto grupo de funcio-
nários naturalistas foi responsável por instrumentalizar os saberes botâ-
nicos em prol da regulamentação dos cortes régios de madeira, que se
materializou numa legislação mais restritiva e em funções mais podero-
sas para coibir os estragos particulares nas matas baianas.

___________
1 Termo utilizado para definir um complexo colonial situado na porção litorânea
da Capitania da Bahia compreendida, grosso modo, entre o Recôncavo e a Vila de
Ilhéus, caracterizado por estruturas administrativas relativamente presentes, um
ambiente natural extraordinariamente diversificado, territorialmente integrado por
um diversificado sistema fluvial, com localização geográfica estratégica e posição
náutica oportuna para o estabelecimento de íntimas relações no mundo atlântico e
política e economicamente oportuna à política régia para o mundo colonial.
2 CASTRO, Carlos F. de Abreu. Gestão florestal no Brasil Colônia. Tese de Doutoramento.
Brasília-DF: Universidade de Brasília, 2002.
3 SANTOS, Margaret Ferreira dos. “Manifestações pela Conservação da Natureza no
Brasil (1784-1889)”, Revista Uniara, nº 16, 2005. p. 16.
4 DEAN, Warren. “A Botânica e Política Imperial: a introdução e a domesticação de
plantas no Brasil”, Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 4, nº 8, 1991, p. 216-
228.
5 Cf. MAURO, Frédéric. “Political and Economic Structures of Empire”. In: BETHELL,
Leslie (ed.). Colonial Brazil. Cambridge: Cambridge UP, 1987, p.51.
6 LAPA, José R. do A. A Bahia e a Carreira da Índia. São Paulo: Cia Editora Nacional,
1968, p. 02.
7 DEAN, Warren. A Ferro e Fogo. A história e a devastação da Mata Atlântica brasileira.
São Paulo: Cia das Letras, 1996; MILLER, Shawn William. Fruitless Trees – Portuguese
Conservation and Brazil’s Colonial Timber. Stanford: Stanford University Press, 2000.
8 MILLER, Fruitless Trees, p. 04.
9 DIAS, Marcelo Henrique. “A Floresta Mercantil: exploração madeireira na capitania
de Ilhéus no século XVIII”, Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 30, nº 59, p.
196, 2010.
10 As feitorias consistiam em unidades de cortes abertas em locais estratégicos nas
matas, contendo uma estrutura administrativa própria e obedecendo às instruções
do inspetor das Madeiras.
11 DIAS, Marcelo Henrique. Economia, Sociedade e Paisagens da Capitania e Comarca
de Ilhéus no período Colonial.. Tese de Doutoramento. Niterói: Universidade Federal
Fluminense. 2007, Capítulo V.
12 Memória sobre os cortes de madeira de Domingos Alves Branco Muniz Barreto...

Metamorfoses florestais 259


Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, I-12,2,11. p. 03.
13 Memória sobre os cortes de madeira de Domingos Alves Branco Muniz Barreto...
Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, I-12,2,11, p. 10.
14 Ofício do Governador da Bahia, Dom Fernando José de Portugal para Martinho de
Mello e Castro, no qual informa acerca das madeiras mais próprias para os remos das
embarcações, aderno e massaranduba. Bahia, 30 de Agosto de 1790. Manuscritos do
Arquivo Histórico Ultramarino, Bahia, Caixa nº 72, Doc. nº 13850. 1790.
15 DEAN, A Ferro e Fogo, Cap. VI.
16 Ofício de D. Rodrigo de Sousa Coutinho para Dom Fernando José de Portugal,
informando sobre as madeiras de construção e a retirada das raízes das árvores.
Queluz, 24 de Outubro de 1797. Anais do Arquivo Público do Estado da Bahia, nº 57,
Vol 83, Doc nº 61. p. 235.
17 Ensaio de descrição física e econômica da comarca dos Ilhéus na América. Manuel
Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá. In: Academia das Ciências de Lisboa, Memórias
econômicas, Vol. I, Lisboa, 1990 [1789].
18 Ensaio de descrição física e econômica..., p. 45.
19 DEAN, A Ferro e Fogo, p.104; Cf. também DOMINGUES, Heloisa Maria Bertol.
Ciência: um Caso de Política. As Relações entre as Ciências Naturais e a Agricultura no
Brasil-Império. Tese de Doutoramento. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1995.
20 DEAN, A ferro e fogo, p.152.
21 LISBOA, Baltasar da Silva. Anais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Serviços de
Museus da Cidade, 1941. Tomo I, p. 401.
22 Princípios de Physica vegetal... Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, I – 28 , 9, 55, p. 9.
23 Memória sobre os cortes de madeira... Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio
de Janeiro, I-12,2,11, p. 11-12.
24 Princípios de Physica vegetal... Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, I – 28 , 9, 55, p. 19.
25 Princípios de Physica vegetal... Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, I – 28 , 9, 55, p. 16.
26 Relação que contém a descrição de uma diminuta parte da Comarca dos Ilhéus
desta Capitania da Bahia, por Domingos Alves Branco Muniz Barreto, Capitão de
Infantaria do Regimento de Estremos, 1790. Manuscritos da Biblioteca Nacional do
Rio de Janeiro, I-12,3,10, p. 14-5.
27 KURY, Lorelai. “Homens de ciência no Brasil: impérios coloniais e circulação de
informações (1780-1810)”, História das Ciências e da Saúde - Manguinhos. vol.11,
2004., p. 121.
28 Pode se entender por conservacionismo o conjunto de idéias que expressavam
a conservação dos recursos naturais por seu valor político dentro da economia
moderna. Não pode ser confundido com o pensamento “preservacionista” da
natureza, de fins do século XX, em que a natureza deveria ser preservada por seu
valor intrínseco. Cf. GROVE, R. Green Imperialism: Colonial Expansion, Tropical Island

260 Cabral & Bustamante (orgs.)


Edens and the Origins of Environmentalism, 1600–1860. Studies in Environmental
History. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. Cf. também MACKENZIE, J.
(dir.) Imperialism and the Natural World, Manchester: Manchester University Press,
1990.
29 Cf. DIAS, Maria Odila. “Aspectos da Ilustração no Brasil”, Revista do IHGB, Rio de
Janeiro, 1968; PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição: pensamento político e
crítica ambiental no Brasil escravista, 1786-1888. RJ: Zahar, 2002; PATACA, Ermelinda
Moutinho. Terra, Água e Ar nas Viagens Científicas Portuguesas (1755-1808). Tese de
Doutoramento. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2006.
30 Ensaio de descrição física e econômica..., p. 13.
31 Memória sobre as matas da Comarca de Ilhéus, cortes de madeiras, ordens
que a esse respeito se tem expedido; regulamento dos referidos cortes, e estado
atual desta dependência, até o dia 1 de agosto de 1803. Baltasar da Silva Lisboa.
Manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, nº I-31,30, 27.
32 Memória sobre a Agricultura deste Reino e das suas conquistas por Domenico
Vandelli. In: Memórias Econômicas da Academia Real de Ciências. I, 1779. p. 165.
33 Carta de encaminhamento de remessa de madeira de Francisco Nunes da
Costa. Cairú, 02 de Novembro de 1781. Correspondência da administração pública
depositada no Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). Anais do Arquivo Público
do Estado da Bahia, Vol 57, p. 54. Cf. também Representação de Francisco Nunes da
Costa dirigida à Rainha sobre a devastação que estavam sofrendo as matas virgens.
Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Vol. 32, 1914 [1789] Apud: PÁDUA,
Um sopro de destruição, p. 98.
34 Ofício de D. Rodrigo José de Menezes de 10 de Outubro de 1785 para Martinho de
Mello e Castro onde elogia a atuação do Inspetor das matas baianas. Anais do Arquivo
Público do Estado da Bahia, nº 57, Vol 83, Doc nº 33, p. 201; FALCON, Francisco José
Calazans. A Época Pombalina: política econômica e monarquia ilustrada. São Paulo:
Ática, 1982.
35 Representação... Apud PÁDUA, Um sopro de destruição, p. 98.
36 Apud PÁDUA, Um sopro de destruição, p. 99.
37 Ofício de Francisco Nunes da Costa para o governador da Bahia. Bahia, 27 de
Janeiro de 1789. Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, V. 34, 1912. p.116.
38 Ensaio de descrição física e econômica..., Capítulo III.
39 Memória Topográfica e Econômica da Comarca dos Ilhéus de Baltasar da Silva
Lisboa. In: Histórias e Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, tomo IX,
Lisboa, 1825, p. 222.
40 Cf. por exemplo, VALADARES, Virgínia Maria Trindade. A Sombra do Poder:
Martinho de Melo e Castro e a Administração da Capitania de Minas Gerais (1770-
1795). Dissertação de Mestrado. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1997; PATACA,
Terra, Água e Ar nas Viagens Científicas Portuguesas.; Carta de Dom Rodrigo de
Sousa Coutinho para o Conde de Rezende. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, códice
67, v.21, f.72-3.
41 Cf. SILVA, Andrée Mansuy-Diniz. As idéias políticas de um Homem das Luzes na

Metamorfoses florestais 261


época da Revolução Francesa: dom Rodrigo de Sousa Coutinho. In: Portugal no século
XVIII: de dom João V à Revolução Francesa. Sociedade Portuguesa de Estudos do
século XVIII. Lisboa: Universitária Editora, 1991; Cf. também a Carta de Dom Rodrigo
de Sousa Coutinho para o Conde de Rezende. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro,
códice 67, v.21, f.72-3; Ofício de Dom Rodrigo de Sousa Coutinho de 24 de Novembro
a Manoel Ferreira da Câmara, que vai para a Bahia, dando-lhe S. Majestade diversas
missões a cumprir. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, nº códice 807,
vol. 1, 1800.
42 Ofício de Dom Rodrigo de Sousa Coutinho de 24 de Novembro... Arquivo Nacional
do Rio de Janeiro, nº códice 807, vol. 1, 1800.
43 Cf. Ofício do Governador da Bahia, Dom Fernando José de Portugal para Dom
Rodrigo de Sousa Coutinho, no qual participa ter dado as ordens necessárias para o
Dr. Baltasar da Silva Lisboa tomar posse do lugar de Ouvidor da Comarca dos Ilhéus.
Bahia, 10 de Novembro de 1797. Manuscritos do Arquivo Histórico Ultramarino,
Bahia, Caixa nº 90, Doc. nº 17487. O cargo de Juiz Conservador das Matas era inédito
na administração colonial portuguesa. Carta Régia para Dom Fernando José de
Portugal, Queluz, 17 de Maio de 1796, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, nº I-2, 3, 8.
44 CABRAL, Diogo de Carvalho. Homens e Árvores no Ecúmeno Colonial. Uma história
ambiental da indústria madeireira na bacia do Macacu, Rio de Janeiro, 1763-1825.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2007, p. 135.
45 Carta Régia de 13 de março de 1797... Anais da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro, nº I-1, 4, 8, p. 01.
46 Regimento dos Cortes de Madeira. 12 de Julho de 1799. Manuscritos da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro, nº I-1, 4, 9.
47 Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, códice 67, v.23, f.78; LINDOSO, Dirceu. A Utopia
Armada. Rebeliões de Pobres nas Matas do Tombo Real. Maceió: EDUFAL, 2005. Ver
Item 4 da Primeira Parte. Cf. também Regulamento da Conservadoria das Matas da
Alagoas. Maceió 20 de Junho de 1822. Arquivo Público de Alagoas, Catalogação: M
07 E 04 – A Conservadoria das Matas em Alagoas 1819-1849.

262 Cabral & Bustamante (orgs.)


IV

Antropoceno
Com açúcar e sem afeto:
A cana e a devastação da Mata Atlântica nordestina

Cristiane Gomes Barreto, José Augusto Drummond


Universidade de Brasília

Ao norte do rio São Francisco, há uma formação muito peculiar


da Mata Atlântica brasileira, lar de um conjunto único de espécies, mui-
tas das quais só foram descobertas pela ciência nos últimos anos. Trata-
-se de uma região com elevado número de espécies endêmicas, muitas
delas ameaçadas de extinção. Conhecida como Mata Atlântica Nordesti-
na (MAN), ela difere da maior parte das formações florestais do Sul-Su-
deste brasileiro por ser mais diversificada biologicamente, além de mais
acessível aos humanos – acessibilidade que, em geral, não se associa a
mais cuidado e estudo, mas antes à degradação e à fragmentação.
Neste trabalho, a delimitação territorial da MAN segue a
Classificação da Vegetação Brasileira de Henrique Veloso e colabora-
dores, a mesma que é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) para o mapeamento dos biomas brasileiros.1 Ela
abarca mais de 40 mil km2 de fisionomias da floresta ombrófila densa,
floresta ombrófila aberta, floresta estacional semidecidual, áreas das
formações pioneiras e áreas de tensão ecológica. Essa região coincide
com os limites do chamado Centro de Endemismo Pernambuco e com
a Zona da Mata dos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio
Grande do Norte.
Ao longo do tempo, a MAN foi sistematicamente preterida em
prol de outras regiões da Mata Atlântica, tanto nos levantamentos sis-
temáticos quanto no desenvolvimento de estudos de história ambien-
tal.2 História natural e história sociocultural diferenciam-na do restante
do território brasileiro. Embora guarde semelhanças com outras áreas
da Mata Atlântica, no que se refere ao pioneirismo do desflorestamen-
to açucareiro, a experiência de conversão da MAN é temporalmente
diferente: além de chegar primeiro, a cana de açúcar nunca foi embora
da MAN. A MAN é uma região peculiar exatamente pela persistência
da monocultura canavieira, juntamente com os seus reflexos na so-
Metamorfoses florestais 265
ciedade. Em outras regiões do País, os canaviais foram substituídos,
em algum momento, por outros usos da terra e outras atividades pro-
dutivas. Na MAN, ao contrário, os canaviais permanecem até hoje; a
cultura canavieira constituiu um esteio econômico multissecular, es-
truturador da sociedade açucareira – a açucarocracia, abrangendo eli-
tes e não-elites –, além de ser o vetor principal de transformação da
paisagem natural.
A análise histórica que se segue tem o objetivo de examinar
os processos transformadores da paisagem, na MAN. Para tanto, foram
examinados os principais períodos que marcaram as mudanças socioe-
conômicas e ambientais ao longo da história na MAN em conexão com
a cultura canavieira: (i) implantação e expansão; (ii) modernização; e
(iii) industrialização. Ao final, concluímos com um resumo da situação
atual da paisagem, com destaque para as peculiaridades regionais e
para os desafios relacionados à sua recuperação e conservação.

Implantação e expansão da cultura canavieira (1500-1850)

A Mata Atlântica Nordestina encontrada pelos europeus, no


início do século XVI, pouco tinha de primitiva. Mais de 70% (28,5 mil
km2) da MAN era dominada por vegetação secundária, com mosaicos
de áreas cultivadas, regenerantes e primitivas. Essas alterações eram
fruto de diversos aspectos da vida indígena, durante muitas centenas
de anos: caça, pesca, coleta vegetal, construção de aldeias e trilhas,
agricultura, introdução de espécies de outros biomas, migrações, guer-
ras intertribais, etc. Com uma população considerável, que ultrapassa-
va uma centena de milhares, os indígenas pré-históricos ocupavam a
MAN, com um estilo de vida seminômade, principalmente as terras
baixas, os vales dos rios, as várzeas e a região litorânea.3
Ao longo da fase pré-colonial e das primeiras explorações por-
tuguesas (1500-1531), o principal impacto sobre a paisagem resultou
da extração do pau-brasil, realizada, em grande parte, nas florestas
secundárias. Com a criação das capitanias hereditárias (1532-1548) e
do Governo Geral (1549-1580), a América portuguesa alcançou uma
organização administrativa que viabilizou o seu povoamento por euro-
peus e escravos africanos e o estabelecimento e a expansão da cultura

266 Cabral & Bustamante (orgs.)


açucareira. Dadas as alterações acumuladas ao longo de vários séculos
de presença indígena, até fins do século XVI os impactos do empreen-
dimento canavieiro na paisagem foram pouco significativos. A partir da
organização administrativa da colônia, os engenhos de cana de açúcar
se multiplicaram, favorecidos pela importação de mão de obra escrava
e pela expulsão dos indígenas hostis.
No início do século XVII, a área da MAN chegou a contar com
165 engenhos funcionando simultaneamente. Por razões logísticas,
esses engenhos se distribuíam preferencialmente ao longo dos rios
e das várzeas, próximos ao litoral. A proximidade dos rios facilitava o
transporte da cana colhida para o engenho, além do escoamento do
açúcar processado em direção aos ancoradouros. Dessa forma, foram
as florestas de várzeas e terras baixas que mais sofreram com o desflo-
restamento, nos primeiros cem anos de prática desse cultivo.
Na década de 1630, a expansão açucareira foi interrompida
pela invasão e ocupação holandesa (1630-1654). Vários engenhos fo-
ram devastados pelas batalhas. Além disso, em retaliação à ocupação
holandesa, os luso-brasileiros colocaram fogo em canaviais e levaram
embora os escravos, deixando os engenhos desativados ou de “fogo
morto”, como se dizia. Restaram cerca de 30 engenhos em funciona-
mento, o suficiente para que os holandeses aprendessem a técnica de
produção do açúcar, transferindo-a para as suas colônias das Antilhas.
Em alguns anos, a concorrência do açúcar antilhano, combinada com a
destruição dos engenhos da MAN, causou a primeira crise açucareira
do Brasil colonial. O principal reflexo disso foi uma paralisação na ex-
pansão territorial das unidades produtivas e, consequentemente, na
conversão de vegetação nativa para a monocultura.
Esse cenário persistiu até que a cultura açucareira nordestina
se recuperasse, no início do século XVIII, com a ampliação do número
de unidades produtivas para mais de 300 engenhos moentes. A partir
de 1725, foram desenvolvidas e/ou importadas técnicas mais eficien-
tes de processamento do caldo da cana, a exemplo do forno de tijolo
denominado “banguê”. A disseminação desse forno foi tão significativa
a ponto de ele ser adotado para designar os engenhos modernizados;
os senhores de engenho tornaram-se “bangueseiros”.
Em 1850, os engenhos e os banguês já ultrapassavam mais de
um milhar e os seus canaviais ocupavam cerca de 11% da área de do-
Metamorfoses florestais 267
mínio da MAN (4.400 km2). Contudo, a despeito dos mais três séculos
de ocupação produtiva contínua, a vegetação nativa ainda dominava a
paisagem. Isso se explica pela limitada capacidade de processamento
dos engenhos e até dos banguês. O tamanho individual e o espalha-
mento dos canaviais ainda dependiam de que a cana cortada pudesse
ser transportada até os engenhos, em lombo de burros ou em carros
de boi, em até 24 horas após a colheita, antes que a cana começasse
a fermentar. Assim, até o século XIX, o avanço da cultura canavieira
sobre as florestas foi relativamente tímido. Naturalistas e viajantes do
século XIX indicaram a existência de uma faixa de 8 a 21% de áreas cul-
tivadas na MAN, enquanto o restante ainda estaria coberto por matas
“sublimes e virgens” de um caráter “quase místico”.4
Essas informações sugerem também que a existência de gran-
des propriedades (latifúndios) não significava necessariamente gran-
des áreas desmatadas ou cultivadas, pois apenas parte da área total
de cada fazenda era convertida. Conforme escreveu Maria Graham, as
terras haviam sido “concedidas às léguas, [mas] tiveram que ser con-
quistadas às polegadas”.5 Isso se explica (i) pela resistência indígena até
o século XVII, (ii) pelo grande esforço exigido para a abertura de novas
áreas de cultura em meio à floresta, (iii) pela escassez de mão de obra
e de recursos financeiros, (iv) pela capacidade limitada de transporte e
processamento da cana cortada, e (v) pela baixa capacidade de povo-
amento, advinda de uma imigração europeia relativamente limitada.
O século XIX inaugurou uma nova fase na economia canaviei-
ra. A abertura da colônia ao comércio internacional, em 1808, e a inde-
pendência política do Brasil, em 1822 – que lançou definitivamente o
País na órbita de influência do império britânico – atrelaram fortemen-
te a economia nacional às transformações estruturais em curso no sis-
tema-mundo. A revolução industrial europeia reorganizava a produção
ao redor do mundo, inclusive a agrícola. No caso da cultura canavieira
nordestina, a modernização só ocorreu no final do século XIX, com o
surgimento das usinas e dos engenhos centrais. Com isso, a vegetação
da MAN passou a sofrer novas pressões e ameaças.

268 Cabral & Bustamante (orgs.)


Modernização canavieira: Dos banguês às usinas (1870-1933)

A modernização tecnológica foi perseguida pelos senhores de


engenho e bangueseiros como recurso para enfrentar as recorrentes
crises do setor. Os investimentos em tecnologia de processamento vi-
savam economias de escala, por meio do aproveitamento de grandes
safras. Esses investimentos foram dificultados pela queda vertical dos
preços do açúcar até o final do século XIX. Nessas circunstâncias, o
governo brasileiro garantiu empréstimos com juros módicos a empre-
sas que montassem uma unidade fabril, sob as condições de processar
exclusivamente a cana de fornecedores e de eliminar o uso de mão de
obra escrava. Assim, surgiram no Brasil em 1870 os engenhos centrais,
que consistiam numa forma de cooperativa de empresas comerciais,
geralmente estrangeiras, e representaram o início da “revolução indus-
trial do açúcar”.6
Paralelamente, sem estabelecer obrigações contratuais com o
governo brasileiro ou fornecedores de cana, formaram-se outras uni-
dades fabris privadas, com capital particular e safras próprias. Essas
unidades se chamavam usinas e, assim como os engenhos centrais,
foram uma evolução dos banguês modernizados. Diferentemente dos
engenhos centrais, as usinas ainda utilizavam a mão de obra escrava
e não separavam em diferentes unidades produtivas a produção e o
processamento industrial da cana. Contudo, os engenhos centrais não
foram bem sucedidos no Brasil. Após enfrentar dificuldades relaciona-
das à variação cambial, à instabilidade dos preços e, principalmente, à
inconstância no fornecimento de cana, boa parte dos engenhos cen-
trais foi vendida a particulares ainda no fim do século XIX, transfor-
mando-se em usinas.7
A política de modernização do setor canavieiro previa a re-
forma de toda a prática produtiva, incluindo o sistema de transportes.
Essa transformação foi iniciada em 8 de setembro de 1855, com a inau-
guração do primeiro trecho da Estrada de Ferro do Recife ao São Fran-
cisco (EFRSF), de 31 km de extensão. Contudo, a contribuição das fer-
rovias para a economia açucareira só se tornou substancial a partir de
1895, com a expansão da malha ferroviária para cerca de 1.045 km de
trilhos, espalhados pelos quatro estados da MAN . Anos depois, essa
rede ferroviária foi complementada por uma malha de ferrovias par-
Metamorfoses florestais 269
ticulares, que alcançou 1.163 km de extensão, em 1922, e 1.842 km,
em 1928.8 Essa nova configuração dos transportes beneficiou a disper-
são das unidades açucareiras, principalmente pelo interior de Alagoas,
e permitiu que a cana colhida fosse transportada a longas distâncias,
obedecendo a limitação de 24 horas para a moagem. Dessa forma, as
unidades industriais podiam processar canaviais mais extensos. Isso
estimulou a notável elevação da capacidade instalada dos banguês, de
4.020 ton/ano, em 1878, para 125.000 ton/ano, em 1887.9
Graças à modernização das unidades produtivas e dos transpor-
tes, houve expressivo incremento de áreas cultivadas entre 1850 e 1930.
Juntamente com o crescimento populacional, essa expansão fez com que
a área de paisagens antrópicas ultrapassasse a de paisagens naturais. Em
1850, a paisagem ainda tinha 88% de vegetação nativa (incluindo forma-
ções secundárias), contra apenas 36%, em 1935; o restante era constituí-
do por cidades, vilas, fazendas e, principalmente, canaviais.10
Além de alavancar o avanço dos canaviais sobre as matas, as
ferrovias estimularam o surgimento de madeireiras, que forneciam le-
nha para as locomotivas, além de dormentes e outras madeiras usa-
das na construção de pontes, estações, depósitos etc.. Estima-se que,
na década de 1930, apenas para abastecer as locomotivas e manter
as ferrovias, tenham sido desmatados na MAN 344 km2 anuais, sem
considerar o que foi desmatado com a construção das ferrovias e dos
seus ramais particulares.11 As ferrovias favoreceram a devastação, es-
pecialmente em União dos Palmares, no interior de Alagoas, região
largamente florestada e que abrigava, até a década de 1870, a menor
densidade de povoados e canaviais de toda a MAN.
Num ambiente econômico instável, o empreendimento cana-
vieiro era visto como um negócio de risco para os pequenos produto-
res, especialmente para os bangueseiros, que preferiam arrendar as
suas terras a investir em mecanização. Além disso, a depressão econô-
mica mundial de 1929, as flutuações de preços do açúcar no mercado
internacional e o surto do “mosaico” – um vírus que causa necrose nas
folhas da cana – foram fatores que, na década de 1920, influenciaram
a migração de famílias bangueseiras empobrecidas para as cidades, in-
chando os espaços urbanos, enquanto que no campo a estrutura fun-
diária e econômica se concentrava.12 Embora o número absoluto de
unidades produtivas diminuísse, crescia o número de usinas, fundadas
270 Cabral & Bustamante (orgs.)
a partir da compra e fusão de banguês. Ocorria a anexação de banguês
pelas usinas, principalmente ao longo dos eixos ferroviários. Ainda as-
sim, novos banguês surgiam nas hinterlândias, em direção ao interior,
nas margens das ferrovias que ainda não tinham sido ocupadas pelas
usinas, especialmente em Alagoas.
Em que pese o crescimento do número dos banguês, “a ver-
dade é que o banguê não possuía capacidade para o aproveitamento
de todas as suas terras nem estava aparelhado para realizar grandes
safras.”13 A área dos canaviais dos banguês era limitada pela baixa ca-
pacidade de processamento. Enquanto as usinas conseguiam proces-
sar até 100 km2 de área plantada com cana, os banguês processavam
uma área média de 2,5 km2, o equivalente a uma pequena proprieda-
de rural, nos termos da atual legislação brasileira.14
A dinâmica territorial desencadeada pela construção das fer-
rovias e das usinas promoveu uma especialização agroeconômica na
MAN. Na região do litoral e às margens das ferrovias, a cana era ma-
téria prima para as usinas e seu produto final era o açúcar tipo cristal,
enquanto nas fronteiras entre a MAN e o Agreste, a cana era trans-
formada em rapadura, nos banguês. O açúcar tipo cristal resultava do
processamento industrial na grande propriedade e em terras onde a
monocultura era mais intensa. Já o açúcar bruto, seco ou melado, pur-
gado e a rapadura ficavam a cargo dos banguês, produzidos com méto-
dos artesanais em pequenas propriedades de até 2,5 km2.15
Ainda que o cenário político e econômico fosse favorável à
implantação das usinas, os bangueseiros resistiam à industrialização
da cultura canavieira. Eles criticavam a concentração da propriedade
de terras, o empobrecimento de fornecedores de cana e até mesmo os
prejuízos ambientais causados pelo tênue vínculo dos usineiros com a
terra – “rendeiros precários menos aptos e menos interessados,” nas
palavras de um analista.16 - com a terra. Desvinculados do trabalho di-
reto com a terra, os usineiros não teriam o mesmo cuidado com o seu
manejo que os seus precursores senhores de engenhos e banguesei-
ros. De fato, os modernos fornos industriais das usinas não dependiam
mais da lenha, como os banguês. Apesar de parecer boa notícia para as
florestas, na verdade, isso fez com que elas perdessem a sua importân-
cia econômica e estratégica para as unidades produtivas, em função
da qual ainda poderiam ser conservadas. Com o advento das ferrovias
Metamorfoses florestais 271
e rodovias, os rios também foram preteridos como vias de transporte,
perdendo importância e reverência.
Mesmo que os banguês tenham protagonizado a eliminação
de florestas e o assoreamento de rios ao longo de muitas décadas, a
modernização agrícola acelerou esses processos. A vegetação nativa
passou a diminuir “em proporção geométrica”17 a partir da moderni-
zação das usinas e do melhoramento técnico. Como consequência, na
década de 1930, o “esgotamento” das terras era uma nas principais
queixas das usinas. Assim, aliada ao latifúndio e à monocultura, a mo-
dernização da agricultura influenciou as mudanças nas relações entre
humanos e ambiente florestado na MAN.
Outro aspecto que marcou o início do século XX e a paisagem
da MAN foi o crescimento populacional ocorrido em todo o País. De
1880 a 1915 a população brasileira praticamente duplicou. Na região
da MAN, a população mais do que dobrou: passou de 377.000 pessoas
em 1872, para mais de um milhão, em 1920. O crescimento demográ-
fico e de unidades produtivas de cana foi mais acentuado nos estados
de Pernambuco e Alagoas, que detêm uma faixa maior de MAN do que
a Paraíba e o Rio Grande do Norte.18
O crescimento populacional foi acompanhado pela expansão
das vilas e povoados, o que ampliou o consumo de recursos florestais,
provocando a retração dos remanescentes próximos às áreas urbanas.
Um dos principais recursos florestais consumidos nas cidades era a le-
nha. Além do consumo doméstico, a lenha era demandada por embar-
cações, fundições, metalúrgicas, padarias e pequenas fábricas. O uso
de tijolos e telhas de barro, empregados nas edificações urbanas, tam-
bém implicou num aumento do consumo de lenha pelas olarias. Até
1920, os cerca de um milhão de habitantes da MAN teriam consumido
11,2 milhões de toneladas de madeira, utilizadas apenas na fabricação
de tijolos, telhas e cal para as suas casas. Outras 560.000 toneladas
anuais de lenha teriam sido usadas para fins domésticos, como cozi-
mento de alimentos a cada ano. Essas cifras representam o consumo
de 560 km2 de floresta para a construção de habitações e mais 28 km2
anuais para o consumo doméstico. Entre 1850 e 1935, cerca de 2.000
km2 de floresta, ou 5% da MAN, foram convertidos em madeira e lenha
para a construção de casas e para o consumo doméstico. A maior parte
dessa biomassa derivava dos manguezais nas proximidades de João
272 Cabral & Bustamante (orgs.)
Pessoa, Recife e Maceió. No caso de Natal e demais cidades da MAN, a
lenha vinha das florestas secundárias mais próximas.
Mesmo que os usos domésticos de madeira e lenha fossem
consideráveis, esses 2.000 km2 de floresta desmatada pouco signifi-
caram perto da devastação causada pelas plantações de cana, ferro-
vias e usinas. No período de modernização da cultura canavieira, entre
1850 e 1935, a paisagem da MAN já teria perdido mais de 21.000 km2
(52,5%) de vegetação nativa. Com isso, na entrada do século XX, as
áreas produtivas já tendiam a predominar sobre a paisagem natural.
Elas seguiam principalmente o traçado das ferrovias e circundavam es-
paços de vegetação secundária, nas encostas e no platô do Planalto da
Borborema, na porção meridional de Alagoas, nos interflúvios paraiba-
nos e na bacia do rio Camaratuba, na Paraíba. Alagoas ainda apresen-
tava uma grande área coberta por matas secundárias, na sua porção
centro-meridional. Outras pequenas manchas de vegetação secundá-
ria situadas nos tabuleiros e interflúvios pernambucanos e alagoanos
também resistiam ao avanço canavieiro; algumas persistem até hoje.19

Industrialização da cultura canavieira: as usinas depois de 1933

A modernização e a expansão da cultura canavieira, no início


do século XX, não foram suficientes para reduzir a vulnerabilidade do
setor frente às constantes oscilações do mercado. Frequentemente,
os custos de produção não eram cobertos nas empresas açucareiras.
A partir da crise de 1929, a sobrevivência da economia açucareira de-
pendia de novas estratégias e novos incentivos. Eles vieram a partir do
Estado, representados pelo Instituto do Álcool e Açúcar (IAA), fundado
em 1933. O IAA foi criado com o objetivo de “assegurar o equilíbrio do
mercado do açúcar e aproveitar as possibilidades, cada vez maiores,
oferecidas ao consumo do álcool industrial.”20 Desde então, as mudan-
ças na paisagem na MAN se aceleraram.
Na área da MAN, o número de usinas quase duplicou entre
1934 e 1935. Além disso, em 1935, 10 das 13 maiores usinas brasileiras
estavam localizadas na MAN, o que evidencia o sucesso dos incentivos
do IAA no Nordeste.21 Por outro lado, a quantidade de engenhos ban-
guês – preteridos no processo de industrialização canavieira – declina-

Metamorfoses florestais 273


va ininterruptamente. Na década de 1970, apenas as grandes usinas
sobreviveram à intensa competição no mercado, absorvendo as me-
nores – e a concentração era acompanhada pelo aumento da área dos
estabelecimentos agrícolas.
Entre 1930 e 1945, o ambiente econômico favoreceu a expan-
são do setor canavieiro. O Sugar Act de 1934 e o Acordo Internacional do
Açúcar de 1937 definiram cotas de participação de cada país produtor no
mercado internacional, ampliando os nichos de mercado e favorecendo
a inclusão do açúcar de menor qualidade, a exemplo daquele produzi-
do e exportado a partir da MAN. O mercado interno também cresceu,
entre os anos de 1941 e 1943, amenizando as disparidades entre oferta
e demanda e melhorando as perspectivas para a economia açucareira.
A competição entre usineiros e bangueseiros perdurou até a década de
1940, quando a maioria dos banguês encerrou as suas atividades.22
Ao longo do período político brasileiro conhecido como “de-
mocracia liberal” (1946-1964), boa parte dos bangueseiros passou a
cultivar banana, mandioca, café, feijão e algodão, especialmente em
terrenos pouco interessantes para a cultura canavieira, como os flan-
cos mais acidentados do Planalto da Borborema. Nessa época ocorreu
também a modernização da malha rodoviária, facilitando o escoamen-
to da produção e a eletrificação rural. Assim, surgiram ou cresceram,
na região da MAN, fábricas de tecido e papel, curtumes e fábricas de
farinha, entre outras.23 Nesse sentido, a diversificação produtiva surgia
como alternativa para a economia regional nordestina, historicamente
tão dependente da monocultura canavieira.
Isso coloca a questão do aumento do consumo de lenha para
fins industriais. Na década de 1960, o óleo diesel já vinha substituindo
a lenha nas indústrias têxteis e nas ferrovias. No entanto, o consumo
de lenha no Nordeste ainda era muito expressivo e resultou no des-
matamento de 753 km2 a cada 12 meses, equivalente a 1,8% da área
original da MAN. A essa altura, no entanto, o estoque lenheiro da MAN
já não era capaz de atender o consumo local; parte da lenha que abas-
tecia Recife vinha do sertão, ou seja, do bioma Caatinga.24
Entre 1935 e 1982, o número de usinas na MAN caiu de 112
para 71. A redução foi mais expressiva em Pernambuco e no Rio Gran-
de do Norte. Na Paraíba, o número de usinas se manteve estável e, em
Alagoas – provavelmente em função da maior extensão de áreas ainda
274 Cabral & Bustamante (orgs.)
disponíveis –, o número de usinas cresceu de 21 para 27. A redução de
unidades produtivas foi, novamente, um reflexo da concentração de
terras, que acirrou a tensão social. A essa altura, trabalhadores rurais
e pequenos proprietários organizados nas Ligas Camponesas reivindi-
cavam acesso às terras dos grandes proprietários da zona canavieira,
exigindo uma reforma agrária. Paralelamente, a desigualdade econô-
mica e social se acentuava, em escala nacional, diferenciando cada vez
mais o Centro-Sul do Nordeste. Esses fatores, somados a uma grande
seca ocorrida no semiárido nordestino em 1958, demandaram a for-
mulação de uma política de desenvolvimento econômico regional que
culminou na criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nor-
deste (Sudene), em 1959. Na região da MAN, a Sudene desenvolveu
políticas de estímulo à modernização da infraestrutura e investiu em
pesquisas sobre os recursos naturais.25
Com a ascensão da ditadura civil-militar, em 1964, a agroin-
dústria canavieira continuou a se expandir, graças à continuidade dos
subsídios governamentais. O panorama geral da economia açucareira
manteve-se relativamente estável ao longo do período do regime mi-
litar (1964-1985). Contudo, a especialização nordestina na produção
para o mercado externo acentuou o subdesenvolvimento regional; di-
recionado para o mercado interno, os extensos canaviais do Centro-Sul
eram muito mais produtivos e tinham maior estabilidade econômica.26
Nesse período, foram abandonadas as iniciativas governa-
mentais de reforma agrária e de diversificação produtiva na região da
MAN, em função do lobby da poderosa açucarocracia nordestina a fa-
vor da manutenção do modelo latifundiário e exportador. Por outro
lado, o abandono daquelas políticas ajudou a proteger as áreas de ve-
getação remanescentes contra a introdução de novas culturas.
No entanto, as áreas de vegetação nativa continuaram a se
contrair na década de 1960. Se em 1935, segundo as nossas estimativas,
restava cerca de 48% (19.000 km2) de vegetação nativa na MAN, um
inventário florestal executado entre 1965 e 1970 na Mata Atlântica ala-
goana revelou a existência de 22% de cobertura de vegetação nativa;
outro estudo indicou uma proporção de 23% de cobertura florestal em
relação à área de domínio da Mata Atlântica entre João Pessoa e Reci-
fe.27 Além disso, até 1970, os solos dos tabuleiros ainda eram evitados
pela cultura canavieira, o que fez deles verdadeiros “vazios agrícolas”.28
Metamorfoses florestais 275
Isso evitou a conversão da vegetação nativa dos tabuleiros paraiba-
nos e norte-riograndenses para a agricultura. Apesar da progressiva
concentração de terras, até 1970 o regime da pequena propriedade
– representada pelos engenhos e banguês – conseguiu sobreviver nos
estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba.29
Até o final da década de 1970, não se vislumbrava qualquer
iniciativa conservacionista na MAN. Pelo contrário, a expansão da
agroindústria era a prioridade no planejamento regional, em detri-
mento da amenização de qualquer passivo social ou ambiental.30 A dé-
cada de 1970 trouxe uma grande transformação na paisagem da MAN.
A raiz da mudança está numa longa sucessão de programas governa-
mentais das décadas de 1960 e 1970 voltados para o aumento de pro-
dutividade no setor canavieiro. Dentre esses programas destacam-se o
Fundo de Recuperação da Agroindústria Canavieira (1961); o Fundo de
Racionalização da Agroindústria Canavieira do Nordeste (1963); o Fun-
do Especial de Exportação (1965); o Plano de Expansão da Indústria
Açucareira Nacional (1965); o Programa de Racionalização da Agroin-
dústria Canavieira (1971); o Programa Nacional de Melhoramento da
Cana de Açúcar, Planalsucar (1971); e o Programa Nacional do Álcool,
Proálcool (1975).31
Em 1973, ocorreu a primeira crise mundial do petróleo, na
qual o Brasil passou por graves problemas, por ser importador da
maior parte do petróleo consumido. Em resposta, dois anos depois o
governo federal lançou o Proálcool. A ideia era, aumentando o teor de
álcool de cana – e, em menor escala, da mandioca – nos combustíveis
fósseis usados no país e assim reduzir a dependência aguda de deriva-
dos de petróleo. O governo federal disponibilizou créditos, com apoio
de recursos do Banco Mundial, para a ampliação da produção cana-
vieira em todo o País, inclusive no Nordeste. Grande parte das usinas
anexou destilarias ao seu parque industrial; foram construídas novas
destilarias autônomas. Com isso, a produção canavieira cresceu 145%,
entre 1975 e 1985.32
Com o Proálcool, novas áreas de vegetação nativa foram subs-
tituídas por canaviais, mesmo nos solos menos favoráveis.33 Fiel ao
mandonismo e ao autoritarismo característicos da tradicional socie-
dade açucareira, esse novo surto estimulou o desrespeito à legislação
ambiental, fazendo com que as plantações avançassem sobre reservas
276 Cabral & Bustamante (orgs.)
legais (RLs) e áreas de preservação permanente (APPs), instituídas pelo
Código Florestal de 1934. Ao longo dos anos 1970 e 1980, a devastação
da MAN não poupou sequer as áreas preservadas de longa data, como
a Mata de Dois Irmãos, em Pernambuco, protegida desde 1885. Nesse
período, cerca de 26% das reservas ecológicas da Região Metropolita-
na do Recife foram invadidas, desmatadas ou ocupadas por canaviais.34
Além dos danos florestais, a produção alcooleira – geradora de
um perigoso resíduo líquido denominado vinhoto – estendeu os seus
impactos aos recursos hídricos. Para cada litro de álcool produzido, são
gerados dez litros ou mais de vinhoto. Lançada diretamente nos corpos
hídricos, essa substância desencadeia reações químicas que esgotam o
oxigênio presente na água, prejudicando diversas formas de vida aquá-
tica e tornando a água inapropriada para o uso humano.35
A implementação dos programas regionais de estímulo eco-
nômico não levou a mudanças expressivas no modelo produtivo da
MAN. Não se alcançou diversificação produtiva, reestruturação fundi-
ária ou aumento de competitividade da indústria açucareira na escala
planejada pelos programas regionais.36 Adicionalmente, ao longo da
década de 1970, dezenas de milhares de famílias foram colocadas em
assentamentos rurais pelo Instituto Nacional de Colonização e Refor-
ma Agrária (Incra). O Incra implantou vários Projetos Integrados de
Colonização (PIC), especialmente em áreas preteridas pela cultura ca-
navieira e ainda cobertas por floresta, acentuando a pressão sobre os
remanescentes de vegetação nativa.37
Na década de 1980, não obstante ter sido um período de re-
cessão econômica e crise monetária, a produção açucareira, estimulada
pelo Proalcool, alcançou novos recordes. O aumento de produção na
área da MAN, no início da década de 1980, ocorreu em virtude da am-
pliação da área plantada. Alagoas foi um dos estados com ampliação
mais expressiva.38 Ainda assim, as usinas sequer alcançavam a sua capa-
cidade máxima e várias safras não foram processadas integralmente.39
Em 1983, os preços do açúcar caíram devido a sua grande
oferta e baixa demanda no mercado externo e assim, cresceram os
excedentes de produção. Esse cenário desacelerou a ampliação da
área canavieira. Nesse mesmo ano, o governo federal tomou medidas
de proteção ambiental ao criar as primeiras unidades de conservação
(UCs) federais na região da MAN. Até 1983, a Estação Ecológica de Ta-
Metamorfoses florestais 277
pacurá, com uma área de 7,76 km2, era a única UC existente em toda
a MAN. Ela foi criada em 1975 pelo Estado de Pernambuco. A primeira
UC criada pelo governo federal na região foi a Área de Proteção Am-
biental (APA) de Piaçabuçu, no extremo sul de Alagoas, em 1983, com
o intuito de proteger várias espécies de tartarugas marinhas.40 Tam-
bém em 1983 foi instituída a Reserva Biológica de Saltinho, criada a
partir de um horto florestal, como forma de resguardar o abastecimen-
to de água da cidade de Tamandaré, em Pernambuco. Ainda na década
de 1980, a criação dessas duas unidades de conservação foi seguida
pela instituição de 23 refúgios de vida silvestre (RVSs) pelo governo de
Pernambuco em 1987.
Na Região Nordeste, o avanço sucroalcooleiro estancou a par-
tir de 1987, embora tenha continuado no Centro-Sul, especialmente
após a extinção do IAA, em 1990. A produtividade no Centro-Sul era
maior, os mercados eram mais próximos e acessíveis e as condições
topográficas favoreciam a mecanização da agricultura. Com as políticas
governamentais de abertura econômica, a partir de 1990, os subsídios
à cultura canavieira deram lugar à liberalização comercial. A partir das
safras de 1993 e 1994, quando o Nordeste e a MAN foram assolados
por uma prolongada seca, o Centro-Sul ultrapassou o Norte-Nordes-
te como principal exportador de açúcar. Sem a intervenção do IAA,
a indústria sucroalcooleira nordestina perdeu espaço no mercado,
especialmente no exterior, para os concorrentes do Centro-Sul, mais
modernos e competitivos. Pernambuco continuou a perder unidades
produtivas, restando apenas 26 usinas no final dos anos 1990. Com o
fechamento ou o funcionamento precário de muitas usinas, houve es-
tagnação no processo de conversão das matas remanescentes.
A partir das discussões acerca das mudanças climáticas e da
ratificação do Protocolo de Kyoto, em 1999, o álcool carburante foi re-
valorizado como alternativa aos combustíveis fósseis. Em 2002, o uso
do álcool carburante foi reativado no Brasil, a partir da regulamen-
tação comercial dos veículos automotores bicombustíveis (flex fuel),
isto é, movidos a álcool ou gasolina. Incentivos fiscais acentuaram o
interesse das montadoras na produção de automóveis com motores
de bicombustível: em 2009, a participação deles nas vendas de carros
novos chegou a 95%.41 A produção brasileira de álcool aumentou 34%,
entre as safras de 1990/1991 e 2004/2005, e continuou a crescer.42
278 Cabral & Bustamante (orgs.)
Com isso, os pequenos fragmentos florestais que ainda restavam, na
MAN, foram quase totalmente suprimidos.
Essa retomada da produção alcooleira ocorreu no mesmo ano
em que foi instituído o Sistema Nacional de Unidades de Conservação
(SNUC), por meio da Lei n° 9.985, de 18 de julho de 2000. No entanto,
essa lei teve poucos efeitos concretos em termos da criação de novas
áreas protegidas ou mesmo em termos de uma melhor gestão das UCs
existentes na MAN.43 Quinze anos depois da implantação do SNUC,
apenas cinco UCs públicas federais foram instituídas na área de do-
mínio da MAN: (i) Floresta Nacional de Nísia Floresta (RN); (ii) Reserva
Extrativista Acaú-Goiana (PE); (iii) Estação Ecológica de Murici (AL); (iv)
Reserva Extrativista Marinha da Lagoa do Jequiá (AL); e (v) Floresta
Nacional da Restinga de Cabedelo (PB).
Nos últimos anos, a economia da região da MAN passou por
algumas transformações. Políticas regionais para a atração de novas
indústrias têm favorecido a diversificação produtiva, por meio do tu-
rismo, da indústria petroquímica, do comércio de bens de consumo,
da construção civil e da agroindústria fruticultora, entre outros seto-
res. A indústria canavieira ainda é o setor mais importante da econo-
mia regional. Além disso, as atuais 49 usinas contribuem com 8% da
produção nacional de açúcar e derivados. Em 2014, as plantações de
cana ocupavam 8.413,9 km2, ou 21% da área da MAN. Os poucos en-
genhos e banguês que sobreviveram ao processo de industrialização
da cultura açucareira ainda produzem melado, rapadura, doces, açú-
car mascavo e cachaça de forma artesanal; alguns atraem visitantes
dos segmentos de turismo histórico e rural. As florestas que restaram
se concentraram em blocos bem distintos: na região central, entre
Alagoas e Pernambuco; em fragmentos dispersos, entre Recife e João
Pessoa; e nas várzeas, entre João Pessoa e Natal. Esses fragmentos cor-
respondem a cerca de 10% da cobertura original da MAN.44 Embora os
dados mais recentes mostrem uma desaceleração do desmatamento,
a situação dos fragmentos nordestinos já é muito preocupante, mes-
mo em comparação com o restante do bioma Mata Atlântica. O estado
atual de fragmentação da MAN tem levado a uma homogeneização da
flora arbórea, favorecendo a sobrevivência de espécies de árvores ge-
neralistas, pioneiras e de ampla distribuição geográfica em detrimento
das espécies arbóreas raras e climácicas, que tendem à extinção.45 A
Metamorfoses florestais 279
extinção é o prognóstico de cerca de 34% das espécies de árvores da
MAN, que poderão desaparecer devido a interrupção da dispersão ou
da polinização, já que vários mamíferos, aves e outros animais disper-
sores e polinizadores também estão criticamente ameaçados.46

Um balanço histórico do desflorestamento

Nos primeiros três séculos após o descobrimento, o ambiente


natural ainda dominava a paisagem da MAN. Ele predominou até a
modernização da cultura canavieira, no século XIX. Com uma tendên-
cia contínua de substituição de vegetação nativa por lavouras de cana
de açúcar, as matas foram gradualmente se contraindo, primeiro nas
várzeas, depois nos tabuleiros e, em seguida, no Planalto da Borbo-
rema, em direção ao sertão da Caatinga. O registro multitemporal da
paisagem da MAN, feito com base no mapeamento de registros histó-
ricos, aponta para o decrescimento absoluto do ambiente natural en-
tre os anos de 1500 e 2008 (Figura 1). As tendências mais perceptíveis
na evolução da MAN estão: (i) na perda das áreas florestais primitivas
entre 1500 e 1640; (ii) no incremento das áreas cultivadas entre 1850 e
1935; e (iii) na escassez de vegetação natural, visível na representação
do ano 2008.
Ao contrário do que comumente afirma a historiografia am-
biental da Mata Atlântica, a devastação mais significativa ocorreu no
século XX. À medida que se industrializou a agricultura canavieira e se
desenvolveu a infraestrutura a ela associada, as cidades e as grandes
usinas se multiplicaram ao longo dos eixos ferroviários. Contudo, essa
história não é essencialmente diferente daquela narrada por Dean e
outros historiadores da Mata Atlântica.
Uma das particularidades da MAN foi constatada a partir de
uma análise espacial dos fragmentos atuais de vegetação nativa. Foi
possível verificar que mais da metade (54%) da vegetação nativa da
MAN se regenerou em áreas que, em 1970, estavam cobertas pela
agricultura, especialmente pelos canaviais. Os fragmentos florestais
do Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti (CIMNC), das APA
da Marituba do Peixe e de Piaçabuçu, do complexo vegetacional da
Estação Ecológica de Murici e da Usina de Serra Grande, assim como

280 Cabral & Bustamante (orgs.)


da Reserva Biológica da Pedra Talhada, estão entre os mais represen-
tativos da paisagem atual da MAN. Contudo, a maior parte vegetação
nativa dessas áreas já não existia na década de 1970, ou eram bem me-
nores que na atualidade.47 Isso significa que grande parte dos resquí-
cios considerados “naturais” é composta, na verdade, de regenerações
recentes em terrenos agrícolas abandonados ou intencionalmente re-
florestados; praticamente não existe mais floresta remanescente da
situação pré-colonial da MAN; a maior parte da paisagem natural que
vemos atualmente se regenerou nos últimos 40 anos.

Figura 1 – Evolução da paisagem na Mata Atlântica nordestina, 1500-2008.


(Fonte: Barreto, 2013).

Do ponto de vista da conservação da biodiversidade, a MAN


passa por uma situação ainda mais grave do que o restante do bioma.
Mesmo que as suas florestas contabilizem uma cobertura vegetal na-
tiva de aproximadamente 10%, mais da metade desse percentual está
em estágios iniciais de sucessão ecológica; é normalmente pobre em
diversidade; e dominada por espécies generalistas, pioneiras e oportu-
nistas. Como agravante para a conservação da MAN, o interesse cien-
tífico atribuído a essa região é muito inferior ao que existe em outras
regiões da Mata Atlântica. A falta de investigações históricas dificulta
Metamorfoses florestais 281
uma avaliação precisa do que já foi extinto e do quanto já se perdeu.
Além disso, os sistemas de unidades de conservação são ineficazes na
região, já que mais de 90% dos fragmentos de vegetação nativa estão
em propriedades particulares.
Essa conclusão não diminui a importância dos resquícios de
vegetação nativa da MAN, mas destaca a gravidade do seu estado de
conservação e chama a atenção para a necessidade de novas formas
de governança ambiental que privilegiem o envolvimento das proprie-
dades particulares no planejamento ambiental.

___________
1. VELOSO, H. P., et al. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema
universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -
IBGE, pp.124.
2. Para justificar a pouca atenção dada em seu livro ao “extremo norte da floresta
[atlântica], acima dos treze graus,” Warren Dean, por exemplo, mencionou as “fontes
dispersas e inacessíveis”, a “multiplicidade de jurisdições políticas”, as “distâncias
imensas e restrições orçamentárias”, fatores que atrasaram ou impediram a coleta
das fontes. DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: a História e a Devastação da Mata
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3. BARRETO, C.G. Devastação e Proteção da Mata Atlântica nordestina: formação da
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e 1940, Teixeira (2009) mensurou a cifra de 5.567.171,00 m³ de madeira extraída,
correspondente a 13.416,13 km2 de área florestal devastada, da qual 12.843,91 km2
se destinaram à obtenção de combustível e 572,21 km2 à manutenção dos trilhos,
numa extensão de 2.545 km espalhados pelos estados de Minas Gerais, Bahia,
Sergipe, Pernambuco e Piauí. Considerando essas informações, calcula-se uma
quantidade de 0,3294 km2 (33 ha) de área desmatada por quilômetro de ferrovia
ao ano, apenas para uso ferroviário; TEIXEIRA, D.C. O Transporte Ferroviário e os
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42. VIEIRA, M.C.A., J.F. LIMA, e N.M. BRAGA, Setor Sucroalcooleiro Brasileiro: Evolução
e Perspectivas, DEAGRO, 2007, pp. 245.
43. UCHÔA NETO, C.A.M., Integridade, Grau de Implementação e Viabilidade das
Unidades de Conservação de Proteção Integral na Floresta Atlântica de Pernambuco.,
in Departamento de Zoologia. 2002, Universidade Federal de Pernambuco: Recife,
pp. 60; TOPAN, C.S.O., Unidades de Conservação Federais e Estaduais no Estado
de Pernambuco: Situação Legal, Infraestrutura e Plano de Manejo, in Programa de
Pós-graduação em Ciências Biológicas. 2009, Universidade Federal de Pernambuco:
Recife, pp.92.
44. BARRETO, C.G. Devastação e Proteção da Mata Atlântica nordestina: formação da
paisagem e políticas ambientais. Tese de doutoramento. Centro de Desenvolvimento
Sustentável. Brasília: Universidade de Brasília, 2013; LUCENA, M. F. A. Flora da Mata
do CIMNC, Pernambuco, Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste - CEPAN,
Recife, PE, 2009,18 pp.
45. LOBO, D., et al. “Forest Fragmentation Drives Atlantic Forest of Northeastern Brazil
to Biotic Homogenization”, Diversity and Distributions, vol. 17, 2011, pp. 287-296.
46. SILVA, J. M. C.; TABARELLI, M. “The Future of the Atlantic Forest in Northeastern
Brazil”, Conservation Biology, vol.15, no. 4, 2001, pp. 819-820.
47. BARRETO, C.G. Devastação e Proteção da Mata Atlântica nordestina: formação da
paisagem e políticas ambientais. Tese de doutoramento. Centro de Desenvolvimento
Sustentável. Brasília: Universidade de Brasília, 2013.

Metamorfoses florestais 285


Relíquias da destruição
Registros arqueogeológicos da supressão da
Mata Atlântica no Vale do Paraíba

Alex Ubiratan Goossens Peloggia


Universidade de Guarulhos e
Centro Universitário Metropolitano de São Paulo

Um dos modos de se falar sobre a Mata Atlântica, onde ela


não existe, ou praticamente não existe mais – como no Vale do Para-
íba do Sul, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro – é considerar
os registros geológicos indiretamente decorrentes de sua destruição.
Trata-se, em síntese, dos depósitos sedimentares antropogênicos (ou
tecnogênicos) que entulham os fundos de vale e atestam o processo
de erosão acelerada das vertentes nas quais a floresta deu lugar aos
cafeeiros e, com a decadência dessas culturas, aos pastos. Conquanto
as feições erosivas não sejam mais evidentes, obliteradas por muitas
décadas de dinâmica geomorfológica e de uso da terra, os vales ainda
conservam formas específicas (baixos terraços), sustentadas por cama-
das arenosas geologicamente muito recentes, formadas pela deposi-
ção dos sedimentos provenientes das vertentes. Assim, além de re-
gistros propriamente geológicos, esses depósitos são testemunhos de
um certo sistema geo-histórico de relações entre os seres humanos e
o restante da natureza – a plantation escravocrata de café, no domínio
dos mares de morros florestados, ao longo do século XIX –, configuran-
do-se também como registros arqueológicos.1
Neste capítulo, discutiremos a natureza dos registros geoló-
gicos antropogênicos associados ao ciclo da economia cafeeira oito-
centista, com base na revisão de pesquisas realizadas no Vale do Pa-
raíba. Além disso, caracterizaremos tais registros apoiados na teoria
dos terrenos tecnogênicos.

286 Cabral & Bustamante (orgs.)


O registro literário e iconográfico

As drásticas consequências sociais e ambientais da passagem do


café pelo Vale do Paraíba foram bem percebidas pelos autores que per-
correram a região nas décadas seguintes à decadência das plantations. É
bastante conhecida a expressão “cidades mortas”, cunhada por Montei-
ro Lobato para caracterizar a melancólica situação social e econômica de
toda a região. Mas Lobato não restringe sua observação às cidades:

No campo não é menor a desolação. Léguas a fio se sucedem


de morraria áspera, onde reinam soberanos a saúva e seus alia-
dos, o sapé e a samambaia. Por ela passou o Café, como um
Átila. Toda a seiva foi bebida e, sob a forma de grão, ensacada e
mandada para fora. Mas do ouro que veio em troca nem uma
onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Trans-
feriu-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade
da terra nova; ou se transfez nos palacetes em ruína; ou reen-
trou na circulação europeia por mão de herdeiros dissipados. À
mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso, ressentida,
vinga-se agora, enclausurando-se numa esterilidade feroz. E o
deserto lentamente retoma as posições perdidas.2

Embora igualmente precisa, é talvez menos conhecida a des-


crição feita por Euclides da Cunha. Em Entre as Ruínas, o autor trata
justamente do processo de degradação paisagística decorrente da eli-
minação da cobertura florestal:

Sem mais a vestitura protetora das matas, destruídas na faina


brutal das derribadas, desagregam-se, escoriados dos enxur-
ros, solapados pelas torrentes, tombando aos pedaços nas
‘corridas de terra’ depois das chuvas torrenciais, e expõem
agora, nos barrancos a prumo, em acervos de blocos, a rígida
ossamenta de pedra desvendada, ou alevantam-se despidos
e estéreis, revestidos de restolhos pardos, no horizonte mo-
nótono, que abreviam entre as encostas íngremes [...].3

Poucos resquícios desses fenômenos restavam na paisagem,


já à época em que escreveu Euclides:

Metamorfoses florestais 287


Em vários trechos cerradões trançados, guardando ainda
no afogado das embaúbas e dos tabocais alguns raros pés
de café de remotas culturas em abandono, desdobram-se
inextricáveis na lenta reconquista do solo, num ressurgi-
mento da floresta primitiva.4

No entanto, para os que percorrem, hoje em dia, uma região


como, por exemplo, os mares de morros e serranias do vale do rio Una,
em Taubaté (Figura 1), é difícil imaginar as dramáticas transformações
ocorridas em tempos históricos recentes. Aos incautos viajantes atuais,
as encostas cobertas por pastos degradados, eventualmente marcadas
por cicatrizes de escorregamentos ou sulcos de erosão – recentes ou
em processo ­– provavelmente pareceriam “naturais”, fisionomias tão
antigas quanto o mundo. Mesmo uma observação mais atenta poderia
não encontrar indícios de transformação, já que quase não há ruínas
de antigas fazendas ­– comuns em outras porções do Vale do Paraíba
­– ou quaisquer outros vestígios de ocupação anterior.5 Como num pa-
limpsesto, o que se apresenta à primeira vista é o mais recente: neste
caso, a paisagem do “subciclo das pastagens”, o resultado da superim-
posição da criação de gado sobre os mares de morros destituídos de
sua cobertura original de Mata Atlântica.6

Figura 1 – Paisagem típica da bacia do Una (Taubaté, SP). A porção plana do fundo
de vale corresponde a um baixo terraço sustentado por depósitos antropogênicos
da aloformação Rio Una. Fonte: arquivo pessoal do autor, 2014.

288 Cabral & Bustamante (orgs.)


Por outro lado, a iconografia ­– especificamente a pintura pai-
sagística ­– é um registro da percepção passada acerca da interação
humanidade-natureza, sobretudo a apropriação do relevo, durante o
ciclo cafeeiro. Em particular, dois artistas podem ser destacados: Nico-
lau Facchinetti e Georg Grimm.7 Tomemos como exemplo a tela Fazen-
da Santo Antonio, de Facchinetti, da qual se vê um detalhe na Figura 2:
as drásticas consequências geomorfológicas da remoção da mata (da
qual praticamente não se observam remanescentes) e da plantação de
café “morro acima” são retratadas por meio das cicatrizes e sulcos de
erosão nas encostas de último plano.

Depósitos antropogênicos

Os geólogos entendem como depósitos tecnogênicos (ou


antropogênicos) as camadas produzidas direta ou indiretamente pela
ação humana. A existência desses depósitos indica que houve algum
tipo de agência que resultou na mobilização e posterior deposição de
material geológico, por meio de escavações ou aterramento, indução
ou aceleração de processos erosivos ou, ainda, acumulação de detri-
tos em função do constante uso de determinado terreno. O estudo
desses depósitos se insere na abordagem mais ampla dos terrenos
artificiais e das formas de relevo produzidas pela ação humana, como
uma de suas consequências.8

Metamorfoses florestais 289


Figura 2 – Paisagem do ciclo cafeeiro no modelado de morros do Vale do Paraíba flu-
minense. Detalhe da obra Fazenda Santo Antonio, de Facchinetti, realizada em 1880
(Domínio Público). Fonte: NOVAES, Adriano. “A paisagem da fazenda cafeeira através da
iconografia no século XIX”. In: Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense.
Rio de Janeiro: INEPAL; Instituto Cidade Viva; Instituto Light, 2010, pp. 399-414.

Estudos recentes, baseados nas propostas de mapeamento do


Serviço Geológico Britânico, têm proposto a classificação desses terre-
nos artificiais (ou tecnogênicos) em quatro grandes classes, como visto
no Quadro 1: terrenos de agradação (resultantes do acúmulo de material
geológico pela ação humana); terrenos de degradação (formados a par-
tir da retirada de material geológico); terrenos modificados (a partir da
alteração in situ de características dos materiais); e terrenos mistos (em
que a complexidade das ações não permite a distinção de um tipo espe-
cífico pertencente às classes anteriores). A cada classe de terreno cor-
responde uma categoria geológica ou geomorfológica específica. Nesse
contexto, os depósitos antropogênicos são entendidos como formações
superficiais que configuram os terrenos tecnogênicos de agradação.
E, dentre tais terrenos, o tipo específico sobre a qual estamos
nos referindo neste capítulo é o dos terrenos tecnogênico-sedimenta-

290 Cabral & Bustamante (orgs.)


res aluviais, formados então por camadas de depósitos tecnogênico-
-aluviais induzidos (ou technogenic wash).

Quadro 1 – Classificação dos terrenos tecnogênicos


Categoria Camada
Classe geológico- Tipo ou feição Equivalente
geomor- tecnogênica arqueológico
fológica
Depósitos
tecnogênicos
Terreno produzido construídos
(aterrados) sobre Camadas culturais;
terreno natural. depósitos culturais
primários;
Depósitos formações
tecnogênicos antrópicas
construídos de ocupacionais;
Terreno preenchimento depósitos
preenchido recobrindo arqueossedimen-
terreno escavado tares; sedimentos
ou erodido. antropogênicos
construcionais
Depósitos primários.
Terreno tecnogênicos
acumulado ocupacionais
Antropogênicas (e formas de relevo associadas)

Depósitos
tecnogênico-
Terreno sedimentares
tecnogênico induzidos de
sedimentar aluvial tipo aluvial, ou
tecnogênico-
aluviais. Formações
antrópicas
Depósitos induzidas
Terreno tecnogênicos-
tecnogênico sedimentares
sedimentar induzidos de
Terreno tecnogênico de

tipo coluvial, ou
Formações superficiais

coluvial tecnogênico-
coluviais.
Depósitos
tecnogênicos Formações
remobilizados antropizadas;
Agradação

Terreno formados sedimentos


remobilizado por erosão e antropogênicos
redeposição terciários.
de depósitos
preexistentes.

Metamorfoses florestais 291


Cicatrizes de
erosão criadas
Terreno erodido por processos -
induzidos
(sulcos, ravinas,
voçorocas)
Terreno Cicatrizes de
escorregado ou escorregamentos
marcado por criadas por -
cicatrizes de processos
escorregamentos induzidos
Formas de relevo tecnogênicas

Depressões de
subsidência
Terreno criadas por
movimentado ou processos -
afundado induzidos
(dolinas, poços,
sumidouros,
Tecnogênico de

depressões)
Superfícies
Degradação

de escavação
(cortes de
Terreno

Terreno escavado terraplanegem, -


cavas de
mineração)
Horizontes
Terreno de solo
geoquimicamente contaminados Depósitos culturais
alterado (efluentes, secundários;
pesticidas) formações
Tecnogênicos
Tecnogênico

antropizadas;
Modificado

Horizontes sedimentos
Terreno geoquímicos
Terreno

geomecanica- de solo
secundários.
Solos

mente alterado compactados ou


revolvidos
Perfis
tecnogênicos
Terreno compostos de
sobreposto mais de um tipo
Sequências tecnogênicas

de depósito.
Tecnogênico misto

Perfis Sequências físico-


tecnogênicos culturais
resultantes
de processos
Terreno complexo tecnogênicos
ou naturais,
Terreno

agradativos,
degradativos ou
modificadores.

Os depósitos tecnogênico-aluviais têm sido identificados fun-


damentalmente em contextos relacionados à agricultura e à minera-
ção, caracterizados como depósitos culturalmente acelerados, depó-
sitos acelerados de vale, aluviões pós-ocupação (post-settlement allu-
vium) ou sedimentos herdados (legacy sediments).9
292 Cabral & Bustamante (orgs.)
Para compreendermos o processo de formação dos depósitos
tecnogênicos induzidos aluviais do Vale do Paraíba podemos resgatar a
teoria da bio-resistasia, proposta por Henri Erhart nos anos 1950.10 Com
base em seus estudos em Madagascar, Erhart propõe uma correlação
entre a cobertura vegetal, a evolução pedológica e os processos de
sedimentação, nos seguintes termos: nos períodos de biostasia, a pre-
sença da floresta tropical diminui a intensidade da erosão e propicia o
aprofundamento da pedogênese, enquanto a erosão química age por
lixiviação das bases alcalinas e alcalino-terrosas. Nos períodos de resis-
tasia (quebra de equilíbrio), a perda da cobertura florestal intensifica
a erosão mecânica, produzindo maiores quantidades de sedimentos
terrígenos, e os perfis de solo são desgastados. Nas bacias adjacentes,
a sedimentação correlativa produziria então, respectivamente, sequ-
ências carbonatadas (ricas em camadas calcárias, produzidas a partir
do carbonato dissolvido na água) e terrígenas (constituídas por rochas
clásticas, como arenitos e folhelhos, formadas por sedimentação de-
trítica). Erhart pensava em termos de mudanças ambientais naturais,
basicamente alterações climáticas entre períodos úmidos e secos, para
explicar tais alternâncias.
Ao tratar dos escorregamentos da Serra do Mar em Caragua-
tatuba (SP), ocorridos em 1967, Aziz Ab’Saber introduz o elemento
humano na teoria, propondo o conceito de resistasia antrópica.11 Po-
demos, assim, considerar que a derrubada da Mata Atlântica ao longo
do Vale do Paraíba, durante o ciclo do café, correspondeu, em termos
geoambientais, a um intenso, extenso e prolongado episódio de resis-
tasia produzida pela ação humana. As consequências das transforma-
ções paisagísticas foram tão grandes a ponto de serem comparadas a
episódios catastróficos.12

O contexto geoambiental

A aplicação do conceito de resistasia antrópica ao Vale do Pa-


raíba, portanto, remete às alterações da dinâmica geomorfológica nos
complexos de vertentes-fundos de vale, no contexto mais amplo de um
sistema de erosão fluvial. Em termos geomorfológicos, a região corres-
ponde a um amplo planalto alongado na direção SW/NE, marcado por

Metamorfoses florestais 293


sistemas de falhas que o compartimentaram, ao longo do tempo geo-
lógico pós-cretácico, em dois grandes blocos de terrenos cristalinos, a
noroeste e a sudeste, delimitadores de bacias sedimentares terciárias
(Taubaté, Resende). Os terrenos sedimentares colinosos adjacentes à
planície de inundação do rio Paraíba do Sul foram os principais pontos
de apoio onde se estabeleceram, alinhadamente, as principais povoa-
ções – que mais tarde se tornariam as “cidades mortas” de Lobato. Ao
sul e ao norte desses terrenos terciários a situação era diferente: trata-
-se dos domínios de “mares de morros” descritos por Aziz Ab’Saber,13
compartimentos de planalto modelados por extensas morrarias e ser-
ras alongadas, recobertas de floresta, com planícies aluviais restritas,
em geral alveolares.
Como ressaltou Ab’Saber, há um curioso paradoxo no fato de
essa paisagem, resultado de uma lenta e complexa adaptação entre a
vegetação e o terreno, ser particularmente vulnerável ao desfloresta-
mento antropogênico indiscriminado. O resultado é que são justamen-
te nos mares de morros e paisagens correlatas do sudeste e centro-sul
que se registram os maiores problemas de erosão e degradação da pai-
sagem, no Brasil.14 Em A Ferro e Fogo, Warren Dean explica como essa
potencial fragilidade ecológica concretizou o paradoxo, ao lembrar que
o café é uma cultura mesial, isto é, que exige solos nem encharcados
nem secos. Assim, nas terras altas do Rio de Janeiro, como os fundos
de vale eram fracamente drenados, o plantio tinha de ser feito nas
encostas íngremes e “desencorajantes”, dos “mares de morros” ou
“meias-laranjas” que caracterizam o modelado regional. A Mata Atlân-
tica, estabilizando-se nesses terrenos ao longo de milhares de anos de
intervenção humana incipiente, produziu um solo raso mas modera-
damente fértil que, com a biomassa da própria floresta, podia por um
certo tempo suprir os nutrientes essenciais às plantações.15

Os depósitos antropogênicos da região de Bananal (SP/RJ)

As primeiras referências na literatura científica sobre registros


geológicos antropogênicos relacionados à economia cafeeira, identi-
ficados no Vale do Paraíba, foram aquelas da região de Bananal. Ini-
cialmente, os estudos associaram os depósitos à dinâmica geológico-

294 Cabral & Bustamante (orgs.)


-geomorfológica neoquaternária de evolução das vertentes, ou seja,
ao conjunto de depósitos colúvio-aluviais formados na época geoló-
gica holocênica, depois do fim da última glaciação.16 Posteriormente,
os depósitos aluviais e coluviais mais recentes (aloformações Resgate
e Carrapato) foram reconhecidos como – pelo menos parcialmente –
tecnogênicos,17 sendo que, em alguns casos, quantificou-se o volume
de sedimentos produzido.18

Os depósitos tecnogênicos da região de Taubaté (SP)

Os depósitos sedimentares tecnogênico-aluviais da região de


Taubaté foram identificados e descritos mais recentemente, mas são
considerados correlatos àqueles estudados em Bananal. Especificamen-
te, os depósitos da bacia do rio Una (aloformação Rio Una)19 foram ca-
racterizados em detalhe (mapeados na escala 1:10.000; Figura 3). Eles
formam terrenos tecnogênicos de agradação distribuídos de forma irre-
gular, porém contínua, ao longo dos fundos de vale, configurando uma
forma de relevo característica: tratam-se de baixos terraços, ou seja, su-
perfícies planas produzidas pela acumulação de material erodido, que
foram posteriormente escavadas pela incisão do próprio canal fluvial, o
que configurou a morfologia meândrica atual, resultante do processo de
reajustamento hidrodinâmico pós-deposicional (Figura 4).20
Os sedimentos tecnogênicos que sustentam os baixos ter-
raços caracterizam-se por forte imaturidade textural e mineralógica,
apresentando textura predominantemente grossa (figura 5). Tais ca-
racterísticas são indicadoras de um processo deposicional intenso e
episódico, no qual uma quantidade anômala de sedimentos proveio
de um processo erosivo acelerado nas vertentes da bacia, erosão esta
que atingiu e desgastou níveis sub-superficiais e assoreou os fundos
de vale. Os níveis basais do perfil estudado sugerem a possibilidade
de ocorrência de processos iniciais de fluxos de detritos, seguidos pela
reorganização do canal para o padrão entrelaçado (braided); no regis-
tro geológico natural, esses processos sedimentares são usualmente
associados a mudanças climáticas ou atividade neotectônica.21
Portanto, os depósitos tecnogênico-aluviais da bacia do Rio
Una são formações geológicas superficiais antropogênicas, provavel-

Metamorfoses florestais 295


mente correlativas de um processo de resistasia (antropogênica) de
degradação das vertentes por supressão da mata original, que relacio-
namos ao contexto da expansão do plantio do café no Vale do Paraíba,
cujas consequências ambientais e geológicas já têm sido extensamen-
te descritas em sua porção leste por outros pesquisadores.22

Figura 3 – Formações superficiais e relevo de área estudada em detalhe na região


de Taubaté. Fonte: Peloggia et al. 2015.

296 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 4 – Baixos terraços aluviais no fundo do vale do Una-Sete Voltas. Fonte: ar-
quivo pessoal do autor, 2014.

Figura 5 – Perfil geológico do depósito tecnogênico visto na figura 4, cuja localiza-


ção é indicada na Figura 3. Fonte: Peloggia et al. 2015.

Metamorfoses florestais 297


Correlação Estratigráfica

Para os geólogos, as formações superficiais tecnogênicas ou


antropogênicas são registros correlativos da ação humana, e assim
adquirem estatuto estratigráfico em termos temporais e materiais.
A estratigrafia geológica tradicional tem sido aplicada aos depósitos
tecnogênico-sedimentares, de caráter aluvial ou coluvial, por meio do
conceito de aloformação, uma vez que tais depósitos atendem aos re-
quisitos básicos da classificação: definição de características internas,
limites, mapeabilidade, localização, extensão e superfícies geomórfi-
cas definidas. Seja como for, as camadas tecnogênicas são, indubita-
velmente, uma categoria diferenciada de formação superficial e cons-
tituem uma classe genética independente. No que diz respeito, espe-
cificamente, à questão estratigráfico-temporal que têm preocupado os
geólogos e, mais recentemente, também os arqueólogos, o que está
em pauta é o significado dos registros geológicos humanos em termos
geocronológicos; em outras palavras, a ocorrência, a extensão tempo-
ral, e o estatuto de uma possível nova “época” ou “período” geológico
(Tecnógeno, Antropoceno, Quinário...).23
Sendo assim, do ponto de vista material, os depósitos tecno-
gênico-aluviais do Vale do Paraíba têm sido enquadrados estratigrafica-
mente como aloformações.24 Do ponto de vista temporal, elas podem
ser referidas às unidades diacrônicas previstas no Código Estratigráfico
Norte-americano de 1983, aqui definidas em uma escala temporal ge-
otecnogênica. Nesse enquadramento, os depósitos considerados de-
vem corresponder ao Antropoceno, entendido como fase mais recente
do evento Tecnógeno. Do ponto de vista geocronológico, correspon-
dem a depósitos do topo do Holoceno e, portanto, do Quaternário.25
A posição geomorfológica, a idade recente e a natureza antro-
pogênica das formações citadas permite correlacionar a aloformação Rio
Una à aloformação Resgate, formada por depósitos tecnogênico-aluviais
descritos na região de Bananal (SP/RJ) e datados por radiocarbono em
130+/-60 anos antes do presente e 240+/-50 anos antes do presente (AP,
daqui por diante)26, embora os depósitos de Taubaté sejam provavelmen-
te um pouco mais jovens, em função do sentido da expansão da economia
cafeeira. Além disso, assim como em Taubaté, na região de Bananal tam-
bém há presença de artefatos arqueológicos relacionados ao café.27
298 Cabral & Bustamante (orgs.)
Nesse contexto, propôs-se englobar a aloformação Resgate e
a aloformação Rio Una em um alogrupo, para o qual foi sugerida a
denominação Alogrupo Ciclo do Café no Vale do Paraíba. Esta deno-
minação tem como fundamento o caráter correlativo dos depósitos
tecnogênicos/antropogênicos, o que permite identificar o episódio de
apropriação do território e transformação da paisagem geneticamente
associado, como tem sido feito pelo Serviço Geológico Britânico.28
A correlação geológica pode ser estendida para outras áreas,
além do Vale do Paraíba, mas ainda no domínio da Mata Atlântica, en-
globando, por exemplo, os depósitos aluviais antropogênicos descritos
na bacia do Guapi-Macacu, no Estado do Rio de Janeiro. Tais depósitos,
designados de Unidade IV, representam a camada superficial das sequ-
ências aluviais holocênicas, constituída por “lama castanha” (sedimen-
tos finos mal selecionados, com quantidades variadas de areia fina, sil-
te e argila, de até mais de um metro de espessura), cujas datações por
radiocarbono fornecem idades máximas da ordem de 290 anos A.P.29

O significado arqueológico dos depósitos antropogênicos do


vale do Paraíba

Para pensarmos sobre o caráter arqueológico dos depósitos


antropogênicos correlativos ao Ciclo do Café, entendemos ser útil tra-
tarmos inicialmente do conceito de agência geológica humana, o que
implica confrontar dois pontos de vista: enquanto o ser humano tratado
pela Arqueologia é, antes de tudo, um produtor de cultura material, o
ser humano da Geologia é um modificador da paisagem e produtor de
depósitos e de formas de relevo. Enquanto a Arqueologia se ocupa dos
elementos da cultura material para chegar ao entendimento das socie-
dades – e eventualmente dos indivíduos –, a Geologia trata os humanos
em termos da repercussão de suas ações sobre o meio ambiente.30
Tais abordagens se sustentam por duas noções diferentes.
Enquanto os geólogos se referem à ação humana – entendida como
mobilização material de recursos para a obtenção de um determina-
do efeito ambiental, sem qualquer qualificativo social ou cultural – os
arqueólogos vêm trabalhando com o conceito de agência, cujo aspec-
to central é a consideração de que os seres humanos reproduzem-se,

Metamorfoses florestais 299


biológica e socialmente, por meio de práticas cotidianas, em condições
históricas e geográficas específicas, mediatizadas pela herança cultural,
seja ela material (o ambiente construído, as ferramentas de trabalho,
etc.), seja ela imaterial (sistemas de atitudes, hábitos e crenças, como
a religião, as regras de parentesco etc.). Os arqueólogos consideram
que as pessoas são dotadas de valores que guiam as suas ações, mas
que são eles mesmos transformados no processo. Assim, ao agirem,
os seres humanos reproduzem suas condições materiais, estruturas
de pensamento e consciência histórica, mas também as transformam,
reinterpretam e redefinem.31
Ambas as abordagens são necessárias à interpretação dos de-
pósitos tecnogênicos. Não há agência culturalmente estruturada (e es-
truturante) que não seja também “ecológica”, num sentido amplo; toda
ação social nutre-se da transformação ambiental antrópica já realizada,
ao mesmo tempo que, em alguma medida, reproduz essa geografia hu-
mana, embora sempre com potencial de inovação. No Vale do Paraíba, o
Ciclo do Café oitocentista foi um surto econômico que promoveu inten-
sa degradação ambiental. Causas diretas do desmatamento, as práticas
agrícolas inadequadas refletiam não necessariamente desconhecimen-
to, mas uma forma específica de organização socioeconômica. A expres-
são geológica da reprodução desse sistema de apropriação do relevo
– incluindo a mentalidade imediatista dos fazendeiros – são os depósitos
tecnogênico-sedimentares e sua feição geomorfológica.32
Os depósitos indicam que houve uma lógica social predatória,
não sustentável, de apropriação do relevo. Ela se configurou de forma
episódica e transitória, porém intensa, ao longo de um período relati-
vamente curto, mesmo em termos históricos (em contraposição à du-
ração geológica). Mas os depósitos também podem ser interpretados
em termos de uma “mentalidade colonial,”33 como aquela descrita por
Friedrich Engels:

Aos agricultores espanhóis, estabelecidos em Cuba, que


queimaram as matas nas encostas das montanhas tendo
conseguido com as cinzas daí resultantes o adubo suficien-
te para uma só geração, para cafeeiros muito lucrativos, que
lhes importava o fato de que, mais tarde, os aguaceiros tro-
picais provocassem a erosão das terras que, sem defesas ve-
getais, transformavam-se em rocha nua? 34
300 Cabral & Bustamante (orgs.)
É importante apontarmos outros tipos de fontes (científicas,
historiográficas e literárias) que, embora não tenham sido profunda-
mente explorados neste capítulo, podem sustentar nosso argumento,
de forma análoga ao que se faz nos estudos de arqueologia histórica.
É o caso do mencionado texto de Euclides da Cunha, que descreve os
efeitos do desmatamento. É interessante notar que Euclides vai além
da descrição dos processos que movimentaram o material geológico
das encostas, promovendo acumulação nos fundos de vale; ele também
imagina as impressões de um viajante que, percorrendo o Vale do Pa-
raíba, alcançasse “a visão retrospectiva dos belos tempos em que a vi-
venda senhoril pompeava triunfalmente no centro dos cafezais floridos,”
e que, prosseguindo pela paisagem deserta, de casebres abandonados
e “santas-cruzes” ao longo dos caminhos, fosse invadido pelas crenças
(sobrenaturais) dos caipiras, o que se justificaria “ao menos, como se,
de fato, por ali vagassem, na calada dos ermos, todas as sombras de um
povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em ruínas.”35
Os mais de cem anos decorridos desde esse texto de Euclides
apagaram a ampla maioria dos vestígios que o viajante imaginário teria
observado, sendo que mesmo as marcas da erosão acelerada foram
obliteradas pelos processos geomorfológicos ou pelo uso humano sub-
sequente. Sendo assim, efetivamente, os depósitos tecnogênicos são
o registro mais expressivo do complexo episódio socioambiental des-
crito. Apesar de terem sido produzidos de forma indireta ou não pro-
posital, eles são representantes da cultura material. Os depósitos sedi-
mentares antropogênicos induzidos são incorporações ao meio físico
produzidas como parte integrante de agências sociais – e toda agência
implica em consequências imprevistas ou indesejáveis. Portanto, são
produtos geológicos associáveis à cultura material arqueológica tanto
quanto qualquer artefato que tenha sido descartado como refugo. O
relevo é apropriado culturalmente incorporando-se à cultura material.

Considerações finais

Como vimos, os depósitos antropogênicos (tecnogênico-sedi-


mentares aluviais) são, por um lado, registros geológicos correlativos
dos processos de degradação paisagística, de caráter resistático. Por

Metamorfoses florestais 301


outro lado, configuram-se em registros arqueológicos, no sentido de
que representam não só vestígios, mas heranças de agência humana,
incluindo relação humanidade-natureza. Os depósitos tecnogênico-
-aluviais relacionados ao ciclo cafeeiro, no Vale do Paraíba, represen-
tam os dois aspectos (geológico e arqueológico), e fazem parte do “es-
trato geológico humano”, da “arqueosfera” ou “arqueogeosfera”.36

_____________
1  PELOGGIA, Alex U.G. “Camadas que falam sobre o ser humano, caso encontrem
arqueólogos e geólogos que as escutem: rumo a uma arqueogeologia interpretativa
dos depósitos antropogênicos”. In: Ortega, Any M. e Peloggia, Alex U.G. (orgs.)
Entre o arcaico e o contemporâneo: ensaios fluindo entre arqueologia, psicanálise,
antropologia e geologia. São Paulo: Iglu, 2015, pp. 189-221.
2  MONTEIRO LOBATO, José B. Cidades Mortas. 19. ed. São Paulo: Brasiliense, 1977,
p. 5.
3  CUNHA, Euclides. “Entre as Ruínas”. In: Contrastes e Confrontos. Rio de Janeiro:
Record, 1975, p. 193.
4  Idem, p. 194.
5  PELOGGIA, Alex U.G. O significado arqueológico dos depósitos tecnogênico-
aluviais da bacia do rio Una (Taubaté, SP). Anais da II Semana de Arqueologia da
Unicamp (Revista de Arqueologia Pública, v.9, n.3(13), 2015, pp. 207-219).
6  MARQUESE, Rafael B. A paisagem da cafeicultura na crise da escravidão: as
pinturas de Nicolau Facchineti e Georg Grimm. Revista do IEB, n.44, 2007, pp. 51-76;
NOVAES, Adriano. A paisagem da fazenda cafeeira através da iconografia no século
XIX. In: Inventário das Fazendas do Vale do Paraíba Fluminense. Rio de Janeiro:
INEPAL; Instituto Cidade Viva; Instituto Light, 2010, pp. 399-414; LEVY, Carlos R.M.
Johann Geog Grimm e as fazendas de café. In: Inventário das Fazendas do Vale do
Paraíba Fluminense. Rio de Janeiro: INEPAL; Instituto Cidade Viva; Instituto Light,
2010, pp. 1-30.
7  NOVAES, op. cit.
8  PELOGGIA, Alex U.G.; OLIVEIRA, Antonio M.S.; OLIVEIRA Adriana A.; SILVA Erika
N. NUNES, João O.R. “Technogenic geodiversity: a proposal on the classification of
artificial ground”. Quaternary and Environmental Geosciences 5 (1), 2014, pp. 28-
40; PELOGGIA, Alex.U.G.; SILVA, Erika.C.N.; NUNES, João.O.R. (2014b). Technogenic
landforms: conceptual framework and application to geomorphologic mapping
of artificial ground and landscape as transformed by human geological action.
Quaternary and Environmental Geosciences 5 (2), 2014, pp. 67-81.
9  PELOGGIA et al., “Technogenic geodiversity”, op. cit.; JAMES, L. Allan. Legacy
sediment: definitions and processes of episodically produced anthropogenic
sediment. Anthropocene 2, 2013, pp. 16-26.
10  ERHART, Henri. La genèse des sols em tant que phenomène géologique. Paris:

302 Cabral & Bustamante (orgs.)


Masson, 1956 ; ERHART, Henri. “A teoria bio-ressitática e os problemas biogeográficos
e paleobiológicos”. Notícia Geomorfológica 7 (11), 1966, pp. 51-58.
11  AB’SABER, Aziz N. “A gestão do espaço natural (relembrando Caraguatatuba,
1967, para compreender Cubatão, 1985)”. AU - Arquitetura e Urbanismo vol. I, n.3,
1985, pp. 90-93.
12  MOURA, Josilda R.S.; MELLO, Claudio L.; SILVA, Telma M.; PEIXOTO, Maria N.O.
(1992). Desequilíbrios ambientais na evolução da paisagem: o Quaternário tardio
no médio vale do rio Paraíba do Sul. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, 37,
Boletim de Resumos Expandidos... SBG-SP, São Paulo, 1992, v.2, p.309-310; COELHO-
NETTO, Ana L. “Catastrophic landscape evolution in a humid region (SE Brasil):
inheritances from tectonic, climatic and land use induced changes”. Suppl. Geogr.
Fis. Dinam. Quat. III, T.3, 1999, pp. 21-48.
13  AB’SABER, Aziz N. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades
paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. 160pp.
14  AB’SABER, Aziz N. “Problemática da desertificação e da savanização no Brasil
interpropical”. Geomorfologia, n. 53, 1977, p. 19.
15  DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica
brasileira. São Paulo: Cia. das Letras, 1996, p. 195.
16  MOURA, Josilda.R.S.; MELLO, Claudio L. Classificação aloestratigráfica do
Quaternário superior na região de Bananal (SP/RJ). Revista Brasileira de Geociências
21(3), 1991, 236-254.
17  MOURA et al., Desequilíbrios ambientais; MELLO, Eduardo V.; PEIXOTO, Maria
N.O.; SILVA, Telma M.; MOURA, Josilda R.S. Evolução da rede de drenagem e
transformações tecnogênicas nos canais fluviais em Volta Redonda (RJ), Médio Vale
do Paraíba do Sul. In: Congresso da Associação Brasileira de Geologia do Quaternário,
Anais... 2005, 7p.
18  DANTAS, Marcelo E. e COELHO-NETTO, Ana L. Impacto do ciclo cafeeiro na
evolução da paisagem geomorfológica no Médio vale do rio Paraíba do Sul. Cadernos
de Geociências (IBGE), n.15, 1995, pp. 65-72; DANTAS, Marcelo E. e COELHO-NETTO,
Ana L. Resultantes geo-hidroecológicas do Ciclo Cafeeiro (1780-1880) no médio
vale do rio Paraíba do Sul: uma análise quali-quantitativa. Anuário do Instituto de
Geociências, v.19, 1996, pp. 61-78.
19  CAPELLARI, Benjamin; PELOGGIA, Alex. U.G. Degradação ambiental, sedimentação
tecnogênica e reajustamento da drenagem na bacia hidrográfica do ribeirão das sete
voltas (Taubaté, SP, 2012). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE GEOLOGIA, Anais..., p. 46;
Peloggia et al. (2015).
20  PELOGGIA, Alex U.G.; CAPELLARI, Benjamin; SHIKAKO, André S. Registros
geológicos tecnogênico-sedimentrares (antropocênicos) no Vale do Paraíba do Sul
(Taubaté-SP): a aloformação Rio Una. In: SIMPÓSIO DE GEOLOGIA DO SUDESTE, 14,
SBG-SP, Campos do Jordão, Anais, 2015, 5p..
21  Idem.

Metamorfoses florestais 303


22  DEAN, op. cit.; MOURA et al. Desequilíbrios ambientais, op. cit.; COELHO-
NETTO, Catastrophic landscape evolution, op. cit.
23  PELOGGIA, “Camadas”, op. cit.; OLIVEIRA, Antonio M.S.; PELOGGIA, Alex U.G.
The Anthropocene and the Technogene: stratigraphic temporal implications of the
geological action of humankind. Quaternary and Environmental Geosciences, v.5,
n.2. 2014, pp. 103-111.
24  MELLO et al. “Eventos”, op. cit.; PELOGGIA et al., “Registros geológicos”, op. cit.
25  OLIVEIRA e PELOGGIA, “Anthropocene”, op. cit.
26  MOURA e MELLO, “Classificação”, op. cit.; MELLO et al., “Eventos”, op. cit.
27  DANTAS e COELHO-NETTO, “Impacto”, op. cit.
28  PELOGGIA et al., “Registros geológicos”, op. cit.
29  KIRCHNER, André; NEHREN, Udo; BEHLING, Hermann; HEINRICH, Jürgen.
Mid- and late Holocene fluvial dynamics in the tropical Guapi-Macacu catchment,
Southeast Brazil: the role of climate change and human impact. Palaeogeography,
Palaeoclimatology, Palaeoecology 426, 2015, pp. 308-318.
30  PELOGGIA, “Camadas”, op. cit.
31  Idem.
32  PELOGGIA, “Significado arqueológico”, op. cit.
33  Idem.
34  ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. 5.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1991,
p. 226.
35  CUNHA, “Ruínas”, pp. 196-197; PELOGGIA, “Significado arqueológico”, op. cit.
36  PELOGGIA, “Camadas”, op. cit.; ZALASIEWICZ, Jan. The Earth after us: what legacy
will humans leave in the rocks? Oxford: Oxford University Press, 2008; EDGEWORTH,
Matt; RICHTER, Dan deB.; WATERS, Colin; HAFF, Peter.; NEAL, Cath.; PRICE Simon
J. Diachronous beginnings of the Anthropocene: the lower bounding surface of
anthropogenic deposits. The Antropocene Review 2 (1), 2015, pp. 33-58.

304 Cabral & Bustamante (orgs.)


Floresta urbana, sistema emergente:
Transformações socioecológicas no Maciço da
Pedra Branca, cidade do Rio de Janeiro

Gabriel Paes da Silva Sales, Alexandro Solórzano,


Rogério Ribeiro de Oliveira
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

A presença das montanhas e as florestas que recobrem o mu-


nicípio do Rio de Janeiro gerou uma particular e desigual distribuição
da malha urbana, compondo uma paisagem extremamente diversifi-
cada. A diversidade biológica destes maciços litorâneos, a despeito da
proximidade com a metrópole situa muitos trechos destas montanhas
em patamar análogo ao das melhores formações do que resta do bio-
ma da Mata Atlântica. No entanto, junto com esta diversidade biológi-
ca encontramos muita história humana. Há quase dez anos, realizamos
pesquisas de campo sistemáticas, no Maciço da Pedra Branca, locali-
zado na zona oeste do município do Rio de Janeiro. Um dos pontos de
partida foi a descoberta de vestígios de antigas carvoarias espalhadas
em uma vasta área de floresta. Seus trabalhadores – os carvoeiros -
eram, em sua maioria, escravos fugidos ou ex-escravos, que buscavam
no carvão o seu meio de sustento.
Embora ainda em andamento, as pesquisas já produziram um
inventário de mais de mil carvoarias espalhadas por quase todo o maciço,
algumas delas localizadas a mais de 900 m de altitude. Junto a essas car-
voarias também foram descobertos pequenos alicerces de pedra – quase
uma centena deles –, onde se supõe que os carvoeiros erguessem as suas
choupanas. Hoje, recobertas pela floresta, essas antigas carvoarias cons-
tituem praticamente o único documento histórico acerca dos carvoeiros,
um grande contingente de trabalhadores invisíveis, tanto para os seus
contemporâneos quanto para a memória social. De pelo menos dois sécu-
los de trabalho, o único registro que ficou foram sutis marcas na paisagem,
pouco a pouco escondida pela regeneração da floresta.
A fabricação do carvão foi um marco divisor, na formação des-
ta paisagem atual das montanhas que moldam o cenário do Rio de
Metamorfoses florestais 305
Janeiro, pois ajudou a definir a sua funcionalidade, estrutura e compo-
sição. O presente artigo pretende examinar este encontro histórico en-
tre a vertente humana e a não-humana da paisagem, identificando as
conexões funcionais e simbólicas entre os ecossistemas florestais, com
seus recursos potenciais, e as práticas de produção do espaço urbano.
O pano de fundo deste enfoque é o Maciço da Pedra Branca. A propos-
ta deste trabalho é realizar uma releitura das conexões desta paisagem
florestal buscando se discutir as resultantes ecológicas das atividades
humanas na floresta. Pretende-se também refletir sobre a História Am-
biental e do conceito de ecossistemas emergentes, no sentido de veri-
ficar como eles podem se complementar. Por fim, almeja-se responder
a seguinte questão: poderia o Maciço da Pedra Branca ser considerado
um ecossistema emergente? Para isso, conhecer a história da floresta
e o quanto ela foi modificada é de fundamental importância.

Conexões entre sociedade e florestas

Observa-se cada vez mais na sociedade contemporânea uma


intensificação na dicotomia entre a sociedade e natureza, com um
crescente distanciamento entre estas duas partes. Além disso, uma
grande parcela da atual sociedade se considera distante do que se
tem como natureza, o que contribui para uma visão idílica das flores-
tas. Trata-se de uma ideia ingênua sobre a possibilidade de existência
de florestas intocadas, como se estas não tivessem sido transforma-
das ou impactadas em algum grau pela ação humana, em um passa-
do recente ou remoto.
Nesta perspectiva, apesar deste crescente descolamento en-
tre a sociedade e a natureza na dimensão simbólico-cultural, por outro
lado, no âmbito da exploração dos recursos naturais, o homem se faz
permanentemente presente na transformação da natureza. Muitas ve-
zes o poder público opta por reservar áreas de florestas para exclusiva
contemplação da natureza e através de intervenções pontuais, busca
reconstruir uma “floresta do passado” ou uma “floresta original”. Cons-
tantemente, esta reconstrução é realizada através da remoção de popu-
lações humanas, de espécies exóticas e pelo replantio de espécies nati-

306 Cabral & Bustamante (orgs.)


vas. No entanto, é difícil saber com precisão como as florestas eram no
passado, pois, não se trata de um sistema estático, pelo contrário, de um
sistema dinâmico, em constante fluxo, que passa por transformações in-
dependentemente da ação humana. Além disso, na maioria das vezes,
as informações sobre como as florestas eram no passado são escassas e,
desta maneira, ao se tentar reconstruir uma “floresta original”, o resul-
tando acaba sendo florestas ainda mais alteradas.

Figura 1 – Localização do Maciço da Pedra Branca, no município do Rio de Janeiro.

Na clássica dicotomia entre natureza e cultura, o lado natu-


reza do eixo cultura-natureza parece estar estreitamente apoiado no
imaginário humano de florestas idealizadas como um espaço sacrali-
zado, e nesta acepção, são livres da influência antrópica. Neste parti-
cular, é considerada apenas uma floresta-natureza, desarticulando-a
completamente de uma possível floresta-cultura.1
Metamorfoses florestais 307
Esse pensamento se sustenta no próprio conceito de ecossis-
tema, cunhado por Tansley, que apontou a arbitrariedade cultural de
se traçar uma linha natural entre as atividades de grupamentos hu-
manos (e.g. mais “primitivos”) que presumivelmente são colocados
como parte das “comunidades bióticas”, das atividades humanas mais
destrutivas das sociedades modernas (urbano-industriais). Assim este
autor resume:

Visto como um fator biótico excepcionalmente poderoso que


cada vez mais perturba o equilíbrio de ecossistemas pré-exis-
tentes, eventualmente destruindo-os, ao mesmo tempo em que
forma novos ecossistemas de uma natureza muito diferente, a
atividade humana encontrou o seu devido lugar na ecologia.2

Ao longo do tempo, o homem vem interagindo com o ambien-


te que o cerca e a paisagem atual é o resultado de diversas atividades
que se deram e ainda se dão em diferentes ambientes, realizadas por
distintos grupos sociais. Essas atividades influenciaram intensamen-
te diversos aspectos dos sistemas florestais, particularmente aqueles
ligados à estrutura, composição e funcionamento dos ecossistemas.
Atualmente, sabe-se que muitas florestas que eram consideradas “in-
tocadas” ou “virgens” são na verdade florestas secundárias com so-
breusos temporais e espaciais. Deste modo, imaginar uma floresta que
não sofreu alguma intervenção humana no passado, por menor ou
mais imperceptível que seja, torna-se uma tarefa bastante complicada.
Uma das facetas do estabelecimento do conceito de Antropoceno con-
siste exatamente na onipresente transformação dos sistemas flores-
tais3. Além dos impactos das atividades humanas no sistema climático
global, destacam-se também mudanças no uso do solo e fragmentação
de habitat como uma das principais causas na mudança nos padrões
de biodiversidade. 4,5 Estas transformações apresentam um impacto di-
reto no funcionamento de ecossistemas e, por sua vez, nos próprios
serviços ambientais (regulação microclimática, ciclo hidrológico, con-
trole de erosão etc.) que a população humana se beneficia. 6 Com isso,
atualmente cerca de 83% da superfície terrestre é influenciada por um
ou mais fator antropogênico, como agricultura, densidade populacio-
nal elevada ou infraestrutura. 7 Os ecossistemas emergentes já consti-
tuem entre 28% e 36% de todo o ambiente terrestre do globo, quando
308 Cabral & Bustamante (orgs.)
são desconsideradas as terras geladas. 8
Ellis & Ramankutty propuseram que o velho conceito de bioma
seja substituído pelo de bioma antropogênico, que leva em conta, prin-
cipalmente, a população humana e sua atividade de transformação dos
ecossistemas terrestres. 9 Esta nova proposta destaca a heterogeneidade
desses biomas, que apresentam um padrão interno de mosaicos, fruto
tanto de uma variação natural dos elementos físicos da paisagem (clima,
relevo, hidrografia, geomorfologia, solos e variação fitofisionômica), as-
sim como pelo próprio padrão de ocupação humana de um espaço, que
por natureza é heterogêneo, onde os ambientes produtivos são mais
visados para o estabelecimento de núcleos populacionais (i.e., relevo
adequado, solos bons, perto de fonte de água etc.).
García-Montiel & Scatena ao estudarem a história do uso do
solo de florestas de Porto Rico evidenciaram que atividades humanas
pretéritas resultaram em significativas alterações na composição e es-
trutura da atual floresta10. Neste particular, os autores investigaram
florestas com 50 anos de regeneração sem interferências antrópicas,
e, revelaram que o corte seletivo de madeira e a produção de carvão,
realizados no passado, ocasionaram em pelo menos seis impactos dis-
tintos, dentre os quais se podem destacar: i) mudanças na dominância
e estrutura das espécies de dossel; ii) empobrecimento de certas es-
pécies de madeira comercial; iii) aumento na densidade de palmeiras
em torno de fornos de carvão abandonados. Desta forma, torna-se
evidente que a ação humana foi responsável por significativas trans-
formações nas florestas exploradas.
Há, portanto a necessidade de inclusão do legado da atividade
humana como parte do enfoque ecológico e, à vista disso, não se deve
limitar a compreensão da estrutura e funcionamento de uma floresta
pelo ponto de vista exclusivamente “natural”, pois é evidente que o lega-
do ambiental atual é produto da relação das populações passadas com
seu ambiente e a paisagem do trópico úmido americano é o resultado
de pelo menos 3.000 anos de usos dos recursos naturais11. Desta for-
ma, a paisagem de florestas, dunas costeiras, manguezais, pântanos e
savanas, apesar de uso intenso e contínuo ainda apresentam substancial
biodiversidade para ser conhecida e conservada.
A atual paisagem do Maciço da Pedra Branca (com aproxi-
madamente 12.500 hectares – Figura 1), apesar de apresentar uma
Metamorfoses florestais 309
exuberante floresta atlântica, constitui-se como um sistema híbrido e
complexo, no qual é possível perceber uma série de marcas que ates-
tam a presença humana ao longo dos séculos neste ambiente, e não a
sua ausência, como se poderia presumir. Além do já citado fabrico do
carvão, os usos históricos nesta Mata Atlântica foram os mais varia-
dos, realizados ao longo de toda a história humana, e desta maneira, é
de se esperar que muitas resultantes ecológicas tenham advindo des-
te encontro. Por conta disto, pode-se compreender a Mata Atlântica
como um mosaico vegetacional que varia de acordo com o tempo e a
intensidade da atividade de cada grupo social na floresta.

História Ambiental e ecossistemas emergentes

Pode-se destacar como o principal objetivo da História Am-


biental o de compreender como a natureza afetou o ser humano e, ao
mesmo tempo, como a humanidade afetou o meio ambiente12. O es-
tudo da História Ambiental, feito com o ferramental metodológico da
História, da Ecologia e da Geografia, representa uma alternativa para a
análise integrada dos ecossistemas, que abarca tanto a sua dimensão
humana (a história das populações que com ele interagiram), como
seus atributos físicos e biológicos (sua composição, estrutura e funcio-
namento). Assim, as sociedades humanas deveriam ser reconhecidas
como partes integrantes dos ecossistemas e que os processos sociais
também deveriam ser reconhecidos como forças motrizes das mudan-
ças nos ecossistemas. 13
A História Ambiental constitui um caminho para se conhecer a
história das florestas e, consequentemente das populações passadas,
cuja história se perde no tempo. Deste modo, toma-se a própria paisa-
gem florestal atual como um documento histórico, no qual se faz ne-
cessário saber reconhecer padrões e identificar marcas que poderiam
ser presumidas como naturais, mas não são.
A crescente tendência no reconhecimento de que uma vez
“abandonados”, os ecossistemas modificados pelo homem não retornam
ao seu estado original14. Neste sentido, um crescente grupo de ecólo-
gos propõe o emprego do conceito de ecossistemas emergentes. Nessa
perspectiva, complementam a ideia, definindo ecossistemas emergentes

310 Cabral & Bustamante (orgs.)


como o resultado direto de uma intensa modificação humana nos ecossis-
temas preservados ou como o abandono de áreas com usos de solo bem
estabelecidos (lavouras, pastagens, florestas plantadas, etc.).
Os ecossistemas emergentes possuem uma composição de es-
pécies e abundância relativa que não ocorreram previamente dentro de
um determinado bioma, sobressaindo duas características fundamen-
tais: 1) novidade: nova combinação de espécies, com potencial para mo-
dificar o funcionamento do ecossistema; 2) ação humana: ecossistemas
que são o resultado deliberado ou não intencional da ação humana, mas
não dependem da intervenção humana para se manter15.
Deste modo, como definir ecossistemas emergentes? Um
ecossistema emergente é um composto por fatores abióticos, bióticos
e componentes sociais (e suas respectivas interações) que, por virtude
da influência antrópica, diferem daqueles que prevaleceram histori-
camente, tendo uma tendência a auto-organização e no qual novas
qualidades se manifestam sem necessitar de uma agência humana. 16
Ecossistemas emergentes são distintos dos ecossistemas híbridos, pois
enquanto para o primeiro as mudanças são irreversíveis, isto é, de-
pois de passado um tempo sem intervenção humana este ecossistema
não conseguirá recuperar características de seu estado original, para
o segundo as mudanças causadas pela agência humana podem ser re-
vertidas, ou seja, pode ocorrer uma recuperação das qualidades histó-
ricas de determinado ecossistema. Um ecossistema emergente ocorre
quando são observadas novas combinações de espécies em um bioma
particular resultantes da ação humana, assim como, quando são evi-
denciadas mudanças ambientais ou algum impacto devido à introdu-
ção de novas espécies17.
Para que o conceito seja mais útil aos cientistas, gestores e
tomadores de decisões, este deve ser definido de forma mais clara e
seletiva para que se torne possível distingui-lo de outros tipos de ecos-
sistemas que sofreram interferência humana18. Assim, um ecossistema
emergente é um conjunto único de condições ambientais e da biota que
é o resultado direto das alterações causadas pela ação humana, sejam
elas intencionais ou não, isto é, a interferência antrópica deve ser sufi-
ciente para atravessar um limiar ecológico que facilitará uma nova traje-
tória para o ecossistema e inibirá seu retorno a uma trajetória anterior,
independentemente da intervenção humana adicional. Para tanto, o
Metamorfoses florestais 311
ecossistema resultante deve ser também autossustentável em termos
da composição de espécies, estrutura, ciclos, bioquímicos e dos serviços
ecossistêmicos. Uma característica fundamental que define um ecossis-
tema emergente é a mudança na composição de espécies de determi-
nado ecossistema quando comparado a outros pertencentes ao mesmo
bioma, mas que ainda não atravessaram tal limiar.
Posto isto, percebe-se que o conceito de ecossistemas emer-
gentes pode ser utilizado pela História Ambiental e que esta área do
saber também pode se beneficiar deste novo conceito. Dentre os nu-
merosos enfoques da História Ambiental, um deles é a história das flo-
restas. Desta forma, o conceito de ecossistemas emergentes pode ser
enriquecido com esta valiosa fonte de informações para poder deter-
minar se os limiares foram ultrapassados ou não. Ademais, a História
Ambiental pode contribuir para revelar a origem e motivações para
alterações na estrutura, composição e funcionalidade das florestas re-
alizadas por populações passadas.

Evidências da história na Mata Atlântica

Como visto, o Maciço da Pedra Branca é recoberto por uma


densa floresta, com milhares de hectares onde foi instituído o Parque
Estadual da Pedra Branca. Um ponto que muitas vezes passa desper-
cebido é que o mesmo oculta a história de populações pretéritas que
viviam e dependiam deste ambiente para sobreviver. A história dos an-
tigos carvoeiros e o modo no qual este grupo social se relacionava com
a floresta e com a sociedade é um marco significativo na transmutação
de um ecossistema relativamente íntegro a um ecossistema emergen-
te (e híbrido), em que numerosos atributos foram alterados. Exemplos
serão apresentados posteriormente.
Por conseguinte, até o momento, já foram inventariados 1.051
vestígios de plataformas de antigas carvoarias neste maciço. Apesar deste
intenso uso baseado no corte da madeira e, diferentemente de como se
poderia imaginar, hoje em dia, 97,5% das áreas que foram utilizadas para
fabricação de carvão apresentam-se revestidos de florestas, enquanto
que, somente 2,5% são pastagens. Uma vez que é sabida a existência da
ação pretérita destes carvoeiros na floresta, os vestígios das plataformas

312 Cabral & Bustamante (orgs.)


das antigas carvoarias são facilmente identificados, pois possuem solos
caracteristicamente negros e um corte bem definido na encosta. Deste
modo, se pode tomar este fato como um marco definidor de um ecossis-
tema emergente, pois como se verá a seguir, são diversas as alterações
que a floresta sofreu devido à ação humana pretérita, assim como, tam-
bém são variadas as resultantes ecológicas advindas deste encontro.
Apesar dos indícios representados pela cultura material, a his-
toriografia disponível que trata sobre os carvoeiros é relativamente exí-
gua. A invisibilidade social deste grupo seria a causa primária desta la-
cuna historiográfica19. Uma das exceções é a obra de Magalhães Corrêa,
datada de 1933, “O Sertão Carioca”. A exiguidade da historiografia leva a
se tomar a própria floresta assim como a cultura material lá encontrada
como uma forma de documento histórico, e, a partir de uma releitura
baseada na vertente ecológica do ecossistema, diversas marcas e vestí-
gios da ação deste grupo social específico podem ser revelados.

Estrutura, composição e funcionalidade: o papel dos


legados históricos

Além do solo, outro componente que apresenta uma “me-


mória” da história humana interativa com o ecossistema é a vegeta-
ção, particularmente no que se refere à sua composição, estrutura
e funcionalidade. O primeiro destes atributos diz respeito à forma
como se dá a manifestação florística de uma determinada floresta,
que pode ser indicativa da ação humana e ir ao encontro de se traçar
uma linha histórica. Pesquisa realizada no Maciço da Pedra Branca
encontrou 350 espécies de árvores e arbustos, distribuídas em 196
gêneros e 49 famílias20. A elevada diversidade da área estudada é re-
flexo da sua alta heterogeneidade ambiental, relacionada a diferen-
ças na altitude, orientação da encosta, estágios sucessionais e histó-
rico de uso. A ação humana pretérita nestas florestas pode contribuir
para um aumento, em escala local, na diversidade de espécies, pois a
maioria das parcelas deste estudo estava situada em paleoterritórios
dos antigos carvoeiros.
Outro estudo na linha do legado humano na composição e
estrutura da floresta do Maciço da Pedra Branca diz respeito a uma

Metamorfoses florestais 313


espécie arbórea, a carrapeta (Guarea guidonia (L.) Sleumer). Na re-
gião da Pedra Branca ela ocorre com um elevado valor na abundância
desta espécie - quando comparada a outras espécies, o número de
indivíduos da carrapeta é muito superior. No entanto, apesar da car-
rapeta ser uma espécie nativa, o modo como ela ocorre na floresta,
de apresentar elevadas densidades em um padrão espacial agregado,
não era natural.
Caracteristicamente esta espécie se beneficiou da ação antró-
pica pretérita na floresta – neste caso específico, da ação dos antigos
carvoeiros - para se apresentar da maneira como ocorre atualmente,
pois ela possui preferência por ambientes úmidos (fundos de vales), e
somente recruta em sol pleno ou com a abertura de grandes clareiras.
A ação humana passada na floresta foi responsável por significativas
alterações na estrutura e composição da atual floresta.
Outro estudo na interface da história ambiental com a estru-
tura das florestas do maciço em questão é o que trata sobre o corte
seletivo que os antigos carvoeiros praticavam nestas matas. Os car-
voeiros apresentavam um extenso conhecimento das florestas nas
quais habitavam e retiravam os seus meios para subsistência, confor-
me revelado em pesquisa recente21. Neste sentido, optavam pelo corte
preferencial de indivíduos arbóreos menores que 0,35 m de diâmetro,
pois troncos maiores eram energeticamente muito custosos de serem
transformados em carvão e assim desenvolvendo uma boa noção da
quantidade média que uma floresta poderia prover de lenha, tanto
em florestas previamente exploradas como nas áreas mais avançadas
sucessionalmente. Assim, independentemente da área de floresta ex-
plorada para obter a lenha para a fabricação, eles seriam virtualmente
capazes de produzir, em média, quantidades similares de carvão. Tra-
ta-se de uma importante prática cultural e uma relativa homogeneiza-
ção do trabalho, que acaba por influenciar de maneira direta a poste-
rior recomposição da floresta. Sendo assim, constata-se mais um uso
da floresta que resultou em relevantes alterações quando comparada
à “floresta original”.
Dentre os diversos inventários florísticos já realizados na flo-
resta do Maciço da Pedra Branca, inúmeras espécies exóticas já foram
identificadas, ressaltando-se: Artocarpus heterophyllus Lam. (jaqueira),
Persea americana Mill. (abacateiro), Musa spp. (bananeira), Diospyros
314 Cabral & Bustamante (orgs.)
kaki L. (caquizeiro), Citrus limon (L.) Burm. f. (limoeiro), e outras. Assim
sendo, evidencia-se que a ação antrópica foi responsável por significa-
tivas alterações na composição de espécies, quando diversas espécies
exóticas foram introduzidas, em um passado recente ou remoto.

Maciço da Pedra Branca, um ecossistema emergente?

O conceito de ecossistema emergente constitui um modo


distinto de se ver o que antes era classificado simplesmente como
ambiente alterado, degradado ou antrópico, como algo com um va-
lor ecológico intrínseco, com uma própria diversidade de espécies,
independente da origem destas espécies, sabendo que justamente
o homem tem sido um agente dispersor há milênios. Ecossistemas
esses, que a partir de uma nova configuração espacial das espécies
apresentam novos atributos, mantém uma própria funcionalidade e
que está regulando processos edáficos, hidrológicos e ecológicos es-
senciais. O espaço é tanto humano como pertencente à dimensão
dos outros não-humanos.
Estes novos ecossistemas já são uma realidade, fazem parte
do mundo contemporâneo, o que não significa que todos estes ecos-
sistemas novos devem ser abraçados, pois em alguns casos podem ge-
rar malefícios aos objetivos de conservação da natureza e restauração
ecológica. Ainda assim, existe uma oportunidade para entender melhor
estes sistemas novos e híbridos, como componentes de uma paisagem
complexa envolvida em dinâmicas socioecológicas nas mais diversas es-
calas espaço temporais, devendo ser incorporado em futuros objetivos
de conservação ambiental frente a um quadro de adaptação às mudan-
ças ambientais. Da mesma forma que as paisagens, inerentemente mo-
dificadas pela atividade humana, apresentam o seu devido valor cultu-
ral, assim deve ser considerado estes componentes ecológicos novos e
diferentes destas paisagens, a partir de um olhar de cultura-natureza.
Atualmente a Biogeografia carece de ferramentas e caminhos
analíticos para compreender como o ser humano, na condição de uma
espécie que não apenas interage, mas faz parte do mundo natural, tem
modificado os ecossistemas, levando a extinções de algumas espécies
e alterando o processo evolutivo de dispersão das espécies.  Assim, a

Metamorfoses florestais 315


História Ambiental pode ser usada como uma forma de preencher esta
lacuna, de como o homem participa da natureza e interfere nela. Esta
disciplina complementa a Biogeografia, no intuito de introduzir o ho-
mem não apenas como um fator antrópico externo à natureza, danifi-
cadora e que depreda a biosfera e litosfera, mas ajudando a compreen-
der esta interação íntima com a natureza, que tem definido as nossas
sociedades e a sua evolução até os tempos modernos. Ao mesmo tem-
po, os conceitos geográficos de território, fronteira, escala e paisagem
dão um corpo teórico ao trabalho que vislumbra a incorporação de
uma análise explicativa e crítica da dicotomia homem-natureza. Den-
tro desta visão interdisciplinar, estudos integrados que situem os as-
pectos históricos dos ecossistemas junto com a dinâmica sociocultural
podem trazer valiosos subsídios à compreensão da transformação da
paisagem, particularmente em aspectos bastante atuais, como as mu-
danças ambientais globais, a alteração dos padrões de distribuição das
espécies, a fragmentação da paisagem e, consequentemente, a pro-
dução de novos ecossistemas, emergindo tanto nas feições físicas da
paisagem quanto na paisagem mental de quem atualmente observa
estes sistemas socioecológicos.
Dentro desta perspectiva e em uma escala que englobe não
apenas a sua totalidade, mas, complementarmente, sua conexão
com outros componentes espaciais da cidade do Rio de Janeiro: a flo-
resta da Pedra Branca pode ser entendida como um sistema socioe-
cológico (conectado a sistemas maiores), composto por uma série de
ecossistemas emergentes, distribuídos no seu interior. A partir das
alterações provocadas pelas ações antrópicas, a floresta do Maciço
da Pedra Branca já se configura como um ecossistema que se trans-
mudou e que, atualmente, não necessita da intervenção humana
para se manter. São novas florestas que surgiram com significativas
alterações em sua estrutura, composição e funcionalidade provoca-
das pela ação humana.

______________
1  OLIVEIRA, R. R. “Mata Atlântica, paleoterritórios e história ambiental”, Ambiente
& Sociedade. vol. X, no. 2, 2007, pp. 11-23.
2  TANSLEY, A. G. “The use and abuse of vegetational concepts and terms”, Ecology
vol. 16, 1935, pp. 284-307.

316 Cabral & Bustamante (orgs.)


3  STEFFEN, W.; CRUTZEN, P. J.; McNEILL, J. R. “The anthropocene: are humans
now overwhelming the great forces of nature”, AMBIO: A Journal of the Human
Environment, vol. 36, no. 8, 2007, pp. 614-621.
4  IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2007. Climate change 2007:
the physical science basis. Summary for policy makers. A report of Working Group I
of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Geneva: IPCC.
5  BROOK, B.W.; ELLIS, E.C.; PERRING, M.P.; Mackay, A.W.; BLOMQVIST, L. “Does
the terrestrial biosphere have planetary tipping points?”  Trends in Ecology &
Evolution  (online), 2013. Disponível em: http://ecotope.org/people/ellis/papers/
brook_2013.pdf. Acesso em: 10 ago. 2015.
6  CHAPIN, F.S.; ZAVALETA, E.; EVINER, V.T.; Naylor, R.L.; VITOUSEK, P.M.; REYNOLDS,
H.L.; HOOPER, D.U.; LAVOREL, S.; SALA, O.E.; HOBBIE, S.E.; MACK, M.C.; DIAZ, S.
“Consequences of changing biodiversity”, Nature, vol. 405, 2010, pp. 234-242.
7  SANDERSON, E.W.; JAITEH, M.; LEVY, M.A.; REDFORD, K.H.; WANNEBO, A.V.;
WOOLMER, G. “The human footprint and the last of the wild”, BioScience, vol. 52,
2002, pp. 891–904.
8  PERRING, M. P. & ELLIS, E. C. “The extent of novel ecosystems: long in time and
broad in space”. In: HOBBS, R. J.; HIGGS, E. S.; HALL, C. M. (Orgs.) Novel ecosystems:
intervening in the New Ecological World Order. USA: Wiley-Blackwell. p. 368.
9  ELLIS, E.C. & RAMANKUTTY, N. “Putting people in the map: anthropogenic biomes of
the world”, Frontiers of Ecology and the Environment, vol. 6, no. 8, 2008, pp. 439-447.
10  GARCÍA-MONTIEL, D. C. & SCATENA, F. N. “The effect of human activity on the
structure and composition of a tropical forest in Puerto Rico”, Forest Ecology and
Manangement, vol. 63, 1994, pp. 57-78.
11  GUEVARA, S.; LABORDE, J.; SÁNCHEZ-RÍOS, G. “Los árboles que la selva dejó
atrás”, Interciencia, vol. 30, no. 10, 2005, pp. 595-601.
12  WORSTER, D. “Para fazer História Ambiental”, Revista Estudos Históricos, vol. 4,
no. 9, 1991, pp. 198-215.
13  SZABÓ, P. & HÉDL, R. “Advancing the Integration of History and Ecology for
Conservation”, Conservation Biology, vol. 25, no. 4, 2010, pp. 680-687.
14  SOLÓRZANO, A.; CABRAL, D. C.; OLIVEIRA, R. R. “Espécies exóticas, produção
de energia e história ambiental das florestas urbanas do Rio de Janeiro”. In: Ferreira,
A.; Rua, J.; Mattos, R. C. (org.), Desafios da Metropolização do Espaço, 1ª ed. Rio de
Janeiro: Consequência, 2015, pp. 537-564.
15  HOBBS, R. J.; HIGGS, E.; HARRIS, J. A. “Novel ecossystems: implications for
conservation and restoration”, Trends in Ecology and Evolution, vol. 24, no. 11, 2009,
pp. 599-605.
16  HOBBS, R. J.; HIGGS, E. S.; HALL, C. M. Novel ecosystems: intervening in the New
Ecological World Order. USA: Wiley-Blackwell. p. 368.
17  LINDENMAYER, D. B. et al.   Novel ecosystems resulting from landscape
transformation create dilemmas for modern coservation practice”, Conservation
letters, vol. 1, 2008, pp. 129-135.

Metamorfoses florestais 317


18  MORSE, N. B. et al. “Novel ecosystems in the Antropocene: a revision of the
novel ecosystem concept for pragmatic applications”, Ecology and Society, vol.19,
no. 2, 2014.
19  OLIVEIRA, R. R.; FRAGA, J. S. “Metabolismo social de uma floresta e de uma
cidade: paisagem, carvoeiros e invisibilidade social no Rio de Janeiro dos séculos XIX
e XX”, GeoPuc vol. 4, no. 1, 2012, pp. 1-18.
20  FREIRE, J. M. Florística e Fitossociologia do Estrato Arbustivo e Arbóreo de
um Remanescente de Floresta Urbana no Parque Estadual da Pedra Branca, Rio de
Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro, 2010.
21  SALES, G. P. S. et al. «  Resultantes ecológicas, práticas culturais e provisão de
lenha para fabricação de carvão nos séculos XIX e XX no Rio de Janeiro”, Pesquisas –
série Botânica. no. 65, 2014, pp. 389-402.

A economia madeireira na Mata Atlântica


interiorana, 1920-1960*

Christian Brannstrom
Texas A&M University
Tradução: A. G. Bustamante
Revisão técnica: D. C. Cabral

A conversão de árvores em madeira é um processo importan-


te, mas relativamente pouco estudado na historiografia da Mata Atlân-
tica. Com relação à exploração madeireira do interior do bioma, no
318 Cabral & Bustamante (orgs.)
século XX (Fig. 1) – época em que se acelerou o ritmo do desfloresta-
mento – as pesquisas têm se concentrado na determinação da exten-
são, do ritmo e das forças propulsoras do desflorestamento, deixando
uma grande lacuna de conhecimento sobre as relações de trabalho,
bem como o comércio interno e externo de madeira. Os estudiosos
preencheram apenas parcialmente essa lacuna, enfocando mais o co-
mércio e a existência de serrarias dentro de florestas de araucária, sem
examinar as relações de trabalho.1 No presente capítulo, eu procuro
mostrar que relações de trabalho “flexíveis”, retrabalhadas a partir do
modelo em voga na produção cafeeira, sustentaram um comércio de
madeira dura2 direcionado muito mais ao mercado interno do que ao
externo. Árvores foram derrubadas e transportadas com perigo con-
siderável para os trabalhadores, que eram definidos genericamente
como trabalho subcontratado, e não como “empregados” formais den-
tro da lei brasileira. Embora a quantificação da demanda real aguarde
novas pesquisas, eu estimo ter conseguido, aqui, estabelecer as linhas
gerais do comércio madeireiro para consumo doméstico.
O foco analítico deste capítulo é a madeira como um produ-
to extraído, transformado e negociado em nós ou mercados distribuí-
dos geograficamente. Em cada nó da cadeia produtiva é de se esperar
que tenham se desenvolvido contratos e relações sociais específicas,
na medida que indivíduos e firmas negociavam com as propriedades
intrínsecas da madeira (volumosa e de alto custo de transporte), num
ambiente de informações insatisfatórias, risco considerável e um impe-
rativo para a acumulação capital. A abordagem da cadeia de produção
prevê que agências governamentais e organizações privadas tentarão
regular os nós da cadeia produtiva, talvez encorajando a conservação
florestal ou taxando as transações madeireiras.3 Os consumidores de
madeira provavelmente organizavam o fornecimento, padronizavam
as medidas e a qualidade, além de buscarem produtos substitutos.

Metamorfoses florestais 319


Figura 1 – Mata Atlântica brasileira, ca. 1500-1990. Fonte: Dean, 1996, p. 363.

As evidências que sustentam essa análise histórico-geográ-


fica da extração madeireira merecem uma breve discussão. Embora
alguns estudos sobre a extração madeireira tenham se baseado em
autorizações de extração, livros de cartas e escritos pessoais, esses
tipos de documentos não estavam disponíveis no Arquivo Público do

320 Cabral & Bustamante (orgs.)


Estado de São Paulo. Com efeito, a natureza das fronteiras madei-
reiras, na América Latina, sugere que tais documentos podem não
existir. Em vez disso, recolhi evidências sobre contratos de acesso à
madeira e relações de trabalho na indústria madeireira por meio da
análise de processos judiciais civis, trabalhistas e criminais. Para o
presente ensaio, foi criado um banco de dados de processos judiciais
relacionados com madeira, cobrindo desde 1920 até o fim da década
de 1950, em Assis (oeste de São Paulo) e Londrina (norte do Paraná).4
Os processos judiciais contêm informações valiosas sobre os diversos
estágios da exploração madeireira, como investigações de mortes e
acidentes, incêndios em florestas e serrarias, roubo de madeira e ne-
gociações comerciais polêmicas.
Os processos trabalhistas foram gerados pela burocracia legal
porque, a partir de 1919, a lei brasileira exigia investigação de aciden-
tes em locais de trabalho. Se uma relação empregador-empregado fosse
provada, poderia ser determinada uma compensação para o trabalhador
acidentado ou seus dependentes.5 Se uma investigação de acidente ou
morte não indicasse relações formais de trabalho ou elementos crimi-
nais, o juiz distrital suspendia a investigação. Certamente, a pressão polí-
tica das elites também podia interromper investigações. Embora grande
parte do meu argumento se baseie na análise de documentos judiciais,
eu não pressuponho, nem mesmo sugiro, que a justiça fosse imparcial.
As ocorrências de acidentes e mortes não eram efeitos secundários, mas
sim exemplos do alto custo humano do fornecimento de madeira do in-
terior para os centros em rápida urbanização e industrialização.
Os dados sobre transporte de madeira podem ser obtidos
em fontes como relatórios anuais de ferrovias. No entanto, nenhum
dado se encontrava disponível quanto ao consumo de madeira por
indústrias e pela construção civil. A demanda por produtos madei-
reiros é examinada por meio de dados não publicados de serrarias,
relatórios de ferrovias e um censo industrial de 1935. Necessárias
para transformar as toras trazidas dos locais de corte, as serrarias
concentravam-se em centros ferroviários, constituindo pontos fun-
damentais na cadeia produtiva da madeira. Os danos provocados por
incêndios e mudanças frequentes tornaram os registros de serrarias
extremamente raros, provavelmente inexistentes. A estrutura e o
comportamento das empresas e firmas, assim como as relações com
Metamorfoses florestais 321
comerciantes de madeira, não puderam ser determinados e aguar-
dam o avanço posterior das pesquisas.
Para finalizar essa introdução, cabem algumas breves consid-
erações a respeito da relação entre indústria madeireira e desflores-
tamento. No caso da Mata Atlântica, as interpretações do desfloresta-
mento diferenciam-se, de forma sutil mas relevante, conforme se ado-
ta uma visão mais “ecocentrada” ou, alternativamente, uma visão mais
“sociocentrada”. Para Warren Dean, “a história florestal corretamente
entendida é, em todo o planeta, uma história de exploração e destrui-
ção” que mostra “de modo tão chocante nossa imprevidência e pa-
rasitismo.” Michael Williams, ao escrever sobre desflorestamento em
escala global, levou as conclusões de Dean um pouco mais adiante, ar-
gumentando que a derrubada da Mata Atlântica “deve ser considerada
um dos episódios mais predatórios, completos, radicais e, em última
instância, talvez desnecessários e disparatados dos anais do desflores-
tamento da Terra.” Shawn Miller, por seu turno, questionou a ideologia
que orientou tanto Dean quanto Williams e refutou a análise histórica
motivada pela ideia de que “a vida não humana tem os mesmos di-
reitos que a humana em relação à vida, à liberdade e ao habitat.” O
estudo de Miller enfatizou o uso da Mata Atlântica, concluindo que a
destruição ambiental não resultou da exploração madeireira, mas das
numerosas barreiras que as autoridades coloniais impuseram à utili-
zação das árvores em terras privadas. Para Dean, as políticas florestais
coloniais eram conservacionistas porque restringiam o acesso às flo-
restas; na visão de Miller, as restrições de jure tiveram o efeito oposto
porque evitaram o desenvolvimento de um setor madeireiro respon-
sável, encorajando o mau uso das florestas. Diogo Cabral demonstrou
que as taxas de desflorestamento na Mata Atlântica colonial foram
muito menores do que na América do Norte colonial; em desacordo
com Dean, ele argumentou que o latifúndio escravista pode ter reduzi-
do a velocidade do desflorestamento, em vez de tê-lo acelerado.6
É compreensível que os historiadores da Mata Atlântica te-
nham se concentrado no desmatamento e não no comércio de madeira
especificamente. O rápido e quase total desmatamento da Mata Atlân-
tica, história contada de forma apaixonada por Dean, contribuiu para o
surgimento da organização SOS Mata Atlântica e de políticas ambien-
tais associadas a partir da década de 1980, estendendo-se até os de-
322 Cabral & Bustamante (orgs.)
bates atuais sobre os meios de reflorestar grandes áreas do bioma. No
Paraná, o rápido desmatamento da floresta com araucária (Araucaria
angustifolia) – também chamada “pinheiro-do-paraná” – aconteceu
ao mesmo tempo que o Movimento Paranista procurava “inventar”
uma identidade regional na qual, paradoxalmente, a araucária ocupa-
va uma posição privilegiada.7 No presente capítulo, a ênfase na explo-
ração madeireira não significa negar o fato de que o desflorestamento
foi rápido e impressionante; na verdade, minha intenção é enfocar as
relações de trabalho que sustentaram o desmatamento, como uma
atividade econômica. Não é possível determinar qual porção da Mata
Atlântica foi queimada in situ e qual porção entrou nas redes econô-
micas como madeira ou lenha. Mas o setor madeireiro fornece meios
para entender aspectos sociais e econômicos do desmatamento que
ainda não foram bem descritos.

A extração madeireira na Mata Atlântica interiorana

O povoamento agrícola do oeste do Estado de São Paulo e do


norte do Estado do Paraná teve início no fim do século XIX e avançou
de leste para oeste, em geral ao longo dos interflúvios. As políticas
públicas de apoio à aquisição de terras, à construção de ferrovias e à
expulsão de povos indígenas contribuíram para a chegada de luso-bra-
sileiros e suas operações madeireiras, plantações de café e lavouras
anuais. No início da década de 1920, investidores britânicos adquiri-
ram 13.600 km2 de terra do governo do Estado do Paraná para criar a
Companhia de Terras do Norte do Paraná, sediada em Londrina e que
venderia pequenos lotes para colonos.8
Até o fim da década de 1950 e início da seguinte, grandes es-
toques de madeira dura encontravam-se disponíveis no oeste de São
Paulo e no norte do Paraná, num mosaico de formações florestais me-
sofíticas e cerrado (savana neotropical) conhecido como “Mata Atlân-
tica interior” (Fig. 2). A distribuição do mosaico foi determinada pela
topografia, pelas características do solo e pelo histórico de incêndios.
Sobre oxissolos ácidos e inférteis se encontravam as formações de cer-
rado, que incluíam savanas densamente lenhosas, ou “cerradão”, com
espécies arbóreas de madeira dura. No cerradão, as árvores formavam

Metamorfoses florestais 323


um dossel fechado com altura de doze a quinze metros. Sobre oxisso-
los menos ácidos e mais férteis se encontravam florestas mesofíticas
semidecíduas com madeira dura, provavelmente com estratos de 20 a
25 metros e doze a dezoito metros. Espécies decíduas ou semidecíduas
compreendiam cerca de 40% das espécies de árvores.9
O padrão geral de desmatamento no oeste de São Paulo e no
norte do Paraná é bem conhecido. Mudanças na área de floresta e de
cerradão, na escala de municípios ao redor de Assis e Londrina, são me-
nos conhecidas, mas o quadro geral pode ser traçado. No fim da década
de 1930 e início da seguinte, o conjunto de florestas, capoeiras e cerra-
dões, perto de Assis, provavelmente havia se reduzido a algo entre 40 e
50% da área total; no fim da década de 1950, essas formações restrin-
giam-se a menos de 10%. Em Londrina, os padrões foram semelhantes,
embora com uma defasagem de aproximadamente dez anos.10
Várias espécies de madeira dura de florestas mesofíticas e
cerradão foram objeto de comércio regular. A peroba (Aspidosperma
polyneuron) e o cedro (Cedrela fissilis) foram as mais consistentemente
comercializadas. Ambas haviam sido amplamente utilizadas para a mon-
tagem de navios e a construção civil, durante o período colonial.11 Ma-
deira preferida para dormentes de ferrovias12, a peroba provavelmente
ocorria de forma muito mais freqüente do que o cedro. Os engenheiros
e técnicos florestais atualmente estimam que, no início do século XX,
80% das madeiras duras transacionadas eram de peroba. No entanto,
registros de litígios relacionados à madeira e de incêndios de serrarias
indicam que outras espécies estavam presentes no setor madeireiro.
Autoridades judiciais que arbitraram conflitos perto de Assis relataram
que toras de pau-marfim (Balfourodendron riedelianum), massaranduba
(Pouteria ramifloria) e canelão (Ocotea sp.) eram embarcadas e armaze-
nadas juntamente com a peroba e o cedro.13 Em Londrina, a araucária
podia ser encontrada junto com cedros nas serrarias.14

324 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 2 – Vegetação no oeste do Estado de São Paulo, Brasil, ca. 1500. Fonte: IBGE
(1993 [1988]), Mapa de Vegetação do Brasil (1:5.000.000). Rio de Janeiro, IBGE.

Vários aspectos do desmatamento são ainda pouco compre-


endidos, dentre eles as quantidades relativas de biomassa de floresta e
cerradão queimadas como combustível, derrubadas para fornecer ma-
deira e destruídas in situ. A derrubada diminui a cobertura do dossel,
perturba o solo, além de matar ou danificar a biomassa viva. Estudos
conduzidos na Amazônia indicam que a exploração madeireira conven-
cional “danifica severamente” entre 10.000 e 15.000 km2 anualmente,
algo entre 50 e 90% da área de desmatamento registrada. Estratégias
atuais para redução do impacto podem diminuir em 50 a 60% os efei-
tos colaterais negativos da extração.15 É impossível determinar a exten-
são dos danos provocados pelas operações madeireiras no início do
século XX, mas era provavelmente menor do que as operações de im-

Metamorfoses florestais 325


pacto reduzido, já que não eram usadas máquinas pesadas. De modo
similar, não sabemos quanta lenha forneciam as florestas e os cerra-
dos, mas a história da energia, em São Paulo, indica forte dependência
em relação à biomassa extraída dessas formações. Em todo o Brasil,
a madeira fornecia mais de dois terços da energia bruta até 1950. No
Estado de São Paulo, a lenha fornecia 55% da energia bruta, em 1944.
Nas ferrovias, as locomotivas consumiam madeira para transportar le-
nha por centenas de quilômetros para indústrias igualmente movidas
pela queima de madeira.16
Outro aspecto pouco conhecido é em que medida os pro-
prietários de terras, individualmente, cortavam madeira de forma
seletiva ou a queimava indiscriminadamente. Testemunhos orais
coletados entre antigos moradores perto de Assis apresentam uma
mensagem ambígua: havia um mercado de madeiras duras ao lado
da queima considerável de biomassa florestal. De acordo com um
residente de longa data, as toras eram removidas das clareiras, até
a década de 1940, em comprimentos de quatro a cinco metros, e
transportados para as serrarias por grupos de dez a doze bois. Mas
a renda das toras não cobria o custo total de derrubada da área
de floresta. Outro informante relatou que, durante a década de
1940, a queima de biomassa era disseminada, devido aos preços
relativamente baixos causados pela oferta abundante. Quando os
proprietários queriam madeira para habitações, eles contavam com
os proprietários das serrarias, que cortavam as toras em pranchas
e retinham metade das toras como pagamento. Outros moradores
antigos relataram que, durante a década de 1930, não era econo-
micamente viável retirar toda a madeira – exceto cedro e peroba,
as espécies mais valiosas – pois eram necessários grupos de dezoito
bois para transportar duas toras grandes para uma serraria a apro-
ximadamente quatro quilômetros de distância. Mas um proprietá-
rio da vizinhança relatou que o transporte de madeira para serra-
rias não era viável economicamente, e que a maioria das árvores
derrubadas para plantações de café ou pastagens era deixada para
apodrecer após ter sido queimada.17

326 Cabral & Bustamante (orgs.)


A demanda por madeira dura

A expansão econômica e o aumento do consumo, em São


Paulo, criaram uma grande – embora ainda imprecisa – demanda
por madeira de construção. Engenheiros florestais norte-america-
nos estimaram, no Brasil, o consumo anual de madeira dura nativa
em 126.600 m3, além de oito a 12 milhões de dormentes de ferro-
vias (472.000 a 708.000 metros cúbicos); embora tida como “con-
siderável”, a demanda por madeira na mineração não foi estimada.
Ao comentar a forte demanda por madeira para a construção de
habitações, um outro observador fez referência às mais de 10.000
autorizações de construção emitidas na cidade de São Paulo, du-
rante a década de 1930 – ainda que o concreto e os tijolos fossem
materiais de construção muito usados.18
Relatórios produzidos por cientistas de São Paulo, que pro-
duziram informações técnicas sobre os atributos das madeiras, in-
dicam a natureza do mercado doméstico do início do século XX. À
medida que eram divulgadas, essas informações alimentavam os
esforços nativos de propaganda internacional com o objetivo de
promover as exportações.19 Comentando sobre o precário conhe-
cimento nacional acerca da madeira, Frederico Brotero escreveu
que ela “é um material de construção entre nós empregado fora
de todas as regras, ou pelo menos, com desconhecimento de suas
caracteristicas físicas e mecânicas exatas.” Essa precariedade de
conhecimento resultaria, inevitavelmente, numa trágica possibili-
dade: “Nas essências que destinamos ao fogo ou a moirões de cer-
ca, não poderiam ser encontradas variedades que, devido a certas
características especiais, servissem a empregos mais nobres como
hélices de aviões, lançadeiras de teares e numeros outros fins da
moderna indústria?” Outro cientista reclamou que, no Brasil, o
“material lenhoso é ainda empregado sob a indicação de tradição
e com o desconhecimento de suas características físicas e mecâni-
cas” e que “o comercio desse material é feito sem normas seguras
de classificação e quantificação.”20

Metamorfoses florestais 327


A madeira brasileira não estava isolada da economia glo-
bal. No entanto, as exportações eram dominadas pela Araucaria
angustifolia, madeira macia vendida principalmente para a Argenti-
na. Florestas de araucária cobriam de 200.000 a 250.000 km2 no Pa-
raná e em Santa Catarina. Em 1948, por exemplo, o Brasil exportou
564.000 toneladas de araucária, das quais 473.000 foram compra-
das pela Argentina, enquanto a madeira dura mais exportada era a
peroba (36.100 toneladas), seguida pelo cedro (25.000 toneladas),
a imbuia (18.600 toneladas) e o ipê (18.300 toneladas). Desde o
início do século até o fim da década de 1960, persistiu o padrão
geral das exportações de araucária para a Argentina e da tonelagem
relativamente pequena de madeira dura.21 No timbre dos papéis de
uma serraria do Paraná vê-se a imagem triunfal de vastas quantida-
des de madeira e, ao fundo, a bela cobertura de araucárias como
fonte inesgotável de matéria prima para a serraria (Fig. 3).
Relatos anedóticos da época confirmam que a produção
de madeira dura era muito menos importante do que a de araucá-
ria. Por exemplo, em relatório oficial para o escritório de assuntos
estrangeiros, um funcionário do consulado britânico escreveu, em
1935, que o Brasil ainda não havia “descoberto quais vantagens po-
dem derivar da venda em mercados estrangeiros de suas muitas
variedades de excelente madeira dura.” Outros observadores cor-
roboraram a avaliação do diplomata britânico. Um deles comentou
o “curioso espetáculo” que era o Brasil dos anos 1920, “o país com
a maior quantidade de recursos madeireiros no hemisfério, senão
no mundo todo,” exportar 125.000 toneladas de madeira e impor-
tar mais de 38.000 toneladas. As exportações de madeira do Brasil
eram relativamente pequenas devido aos altos custos de extração e
transporte, levando ao “fato paradoxal” de que “as enormes flores-
tas do Brasil, um de seus maiores recursos naturais, são atualmente
de importância menor no comércio internacional do país.”22

328 Cabral & Bustamante (orgs.)


Figura 3 – Timbre da Serraria Potinga, CEDOC, Irati, FLONA/Instituto Nacional do
Pinho, PB 001/03, recibo datado de maio de 1953.

Voltando à demanda doméstica por madeira dura, as serrarias


devem ser objeto de atenção, pois eram os locais onde toras volumo-
sas eram transformadas para serem usadas localmente na construção
civil ou no transporte ferroviário. No Estado de São Paulo, serrarias se
concentravam na capital, onde provavelmente alimentavam a indús-
tria moveleira e a construção civil. A concentração das serrarias em
São Paulo sugere que a maior parte da madeira chegava em forma
de toras, e não como madeira serrada. O censo industrial de 1935 re-
gistrou 37 serrarias na cidade de São Paulo, em contraste com as 229
serrarias distribuídas por outros 139 municípios; no entanto, essas 37
serrarias da capital representavam quase a metade dos ativos declara-
dos, empregando 30% da força de trabalho e respondendo por 41% do
total de cavalos-vapor no setor madeireiro do estado (Fig. 3). Padrões
semelhantes aparecem no registro de 1940-1955 da associação do se-
tor madeireiro, que indica 470 serrarias localizadas em 287 municípios
(Fig. 4). Em comparação, dados compilados pelo Instituto Nacional do
Pinho (INP) indicam 700 serrarias registradas no Estado de São Paulo,
em 1944, aproximadamente 1.000 em meados da década de 1950 e
início da seguinte. Esses dados, no entanto, estão sujeitos às críticas
feitas ao registro de serrarias do Instituto Nacional do Pinho: de que

Metamorfoses florestais 329


serrarias clandestinas, nômades e efêmeras escapavam regularmente
da contagem feita pelos funcionários do INP. Infelizmente, não há esti-
mativas do volume de madeira processada pelas serrarias que escapa-
ram dos registros oficiais.23

Figura 4 – Capital das serrarias do Estado de São Paulo por município, 1935. Um
conto é equivalente a 1.000 mil-réis (1$000, ou aproximadamente $27 em 1935).
Dados sobre serrarias de São Paulo. Estatistica industrial do Estado de São Paulo,
anno de 1935. São Paulo, Typ. Siqueira, 1937. Dados de ferrovias obtidos em Saes,
F.A.M. As ferrovias de São Paulo, 1870-1940. São Paulo: Hucitec, Instituto Nacional
do Livro, 1981, e Matos, O.N. Café e ferrovias: A evolução ferroviária de São Paulo e
o desenvolvimento da cultura cafeeira. São Paulo: Alfa-Omega, 1974.

As serrarias no interior de São Paulo se concentravam ao lon-


go das linhas férreas, especialmente na região Sudeste (Fig. 4; Fig. 5).
Três ferrovias em especial – Sorocabana, Noroeste e Paulista – tinham
municípios com bens de serrarias relativamente importantes em termos
de quantidade e valor econômico. Ao longo dessa ferrovia meridional,
os embarques de madeira na Sorocabana chegaram a quase 450.000

330 Cabral & Bustamante (orgs.)


toneladas, em meados da década de 1920, e atingiram seu máximo com
600.000 toneladas, em 1941. Durante a década de 1950, os embarques
oscilaram entre 320.000 e 450.000 toneladas. A tonelagem total de
madeira pode ser convertida em toras por meio do uso da média das
mensurações das toras feitas numa transação de madeira da década de
1920 e dos pesos específicos da peroba e do cedro, as duas principais
espécies embarcadas para a cidade de São Paulo (Tabela 1 – Anexo). Se o
total de madeira embarcada fosse dividido desigualmente entre peroba
(80%) e cedro (20%), então a tonelagem registrada anualmente, entre
1923 e 1955, representava aproximadamente 460.200 toras. O maior
embarque, de 600.000 toneladas, feito em 1941, representava 800.300
toras. Esse cálculo é significativo para estimar o número de trabalhado-
res envolvidos no setor. Se uma árvore derrubada fornecia duas toras,
os embarques anuais da Sorocabana representavam em média 230.100
árvores. Se três ou quatro trabalhadores gastavam um dia para derru-
bar cada árvore, então eram necessários de 690.300 a 920.400 dias de
trabalho somente para cortar as árvores para os embarques da ferrovia
Sorocabana. O transporte das toras derrubadas para os depósitos fer-
roviários e sua colocação nos vagões do trem, numa média de três a
quatro toras por dia, com três a quatro trabalhadores para cada tarefa,
acrescentava quase 500.000 dias de trabalho à estimativa da mão de
obra que sustentava essa economia.
No setor madeireiro, havia tipicamente duas temporadas ca-
racterísticas para as serrarias: derrubada de árvores e aquisição de to-
ras. A temporada de derrubada era geralmente a estação seca, de maio
a agosto (fim de outono e inverno), com a maior queima em agosto.
Durante esses meses, os trabalhadores derrubavam árvores e coloca-
vam todas em clareiras à espera de transporte para as serrarias. As ser-
rarias compravam as toras principalmente na primavera e no verão, de
outubro a janeiro. O volume de aquisições de toras atingia o máximo
em dezembro, quando as serrarias enchiam seus pátios, aguardando o
início da alta temporada de vendas para comerciantes e consumidores
na cidade de São Paulo, em janeiro.24 Em Londrina, os proprietários
de serrarias tinham três opções para a venda de madeira além dos
mercados estritamente locais: vender madeira em consignação para
comerciantes sediados em São Paulo; embarcar a madeira para a filial
de armazenagem da própria serraria em São Paulo, que por seu turno
Metamorfoses florestais 331
venderia a madeira para os atacadistas e varejistas da cidade; vender
a madeira diretamente para os comerciantes de São Paulo que tra-
balhavam nas regiões produtoras de madeira. O nível de organização
desse mercado é desconhecido, mas sabemos que, durante a década
de 1930, os comerciantes de madeira do Rio de Janeiro criaram meca-
nismos para banir os “autônomos” e “aventureiros” que tiravam vanta-
gem das flutuações de preço. Não sabemos se eles tiveram sucesso em
seu objetivo de estabelecer uma tabela de preço unificada.25

Figura 5 – Distribuição de serrarias entre municípios de São Paulo, 1940-1955. Da-


dos compilados a partir do inédito Livro de Registro de Sócios (Nos. 1, 2 e 3), manti-
do pelo Sindicato da Indústria de Serrarias, Carpintarias e Tanoarias no
Estado de São Paulo, São Paulo.

A energia que movia as serrarias incluía tanto restos de ma-


deira quanto eletricidade. Muitos casos na Justiça fazem referência ao
fato de que as serrarias tinham motores a vapor e empregavam traba-
lhadores descritos como “lenheiros” ou “foguistas”.26 Crianças podiam
ser pagas para trabalhar “no vapor”, alimentando com lenha as cal-
332 Cabral & Bustamante (orgs.)
deiras das serrarias.27 Em Londrina, por exemplo, duas crianças foram
mortas quando o motor a vapor sofreu uma pane e fatalmente espa-
lhou fragmentos do maquinário. Em outro caso, no início da década de
1950, uma criança que, próxima a uma serraria de Londrina, recolhia
restos de madeira para abastecer o fogão da família, morreu quando
a correia de transmissão do motor da serraria se rompeu.28 Quando as
serrarias se incendiavam, os investigadores algumas vezes atribuíam a
causa a fagulhas do motor a vapor.29 No entanto, outras serrarias, que
tinham numerosos motores elétricos, também se incendiavam. Em
uma investigação sobre um incêndio que, em 1942, destruiu uma ser-
raria perto de Londrina, foram registradas grandes pilhas de madeira
compensada destruída e vários motores elétricos, mas nenhum motor
a vapor com queima de madeira.30 Outras investigações de serrarias
incendiadas também indicavam vários motores elétricos, mas nenhum
motor a vapor.31
A rede ferroviária não apenas transportava toras, mas ela mes-
ma também gerava uma inescapável demanda por madeira. Milhões de
dormentes de ferrovias, produzidos em serrarias a partir de madeira de
alta qualidade, eram necessários para novos trilhos e para a manuten-
ção dos trilhos existentes. Tomando 1920 como ano base, os 6.600 qui-
lômetros de ferrovias precisavam de aproximadamente 1.500 dormen-
tes por quilômetro, ou quase 10 milhões de dormentes no total, os quais
precisavam ser substituídos a cada seis anos. Ferrovias pequenas, como
a Douradense, de propriedade particular, com 273 quilômetros, relata-
vam uma menor taxa mínima ideal para a substituição (12,5%, ou seja,
a cada oito anos) de seus 424.000 dormentes, embora admitissem uma
substituição real ainda menor. No entanto, a demanda total anual de
dormentes para linhas férreas mais longas – como os 500.000 dormen-
tes necessários à manutenção da Sorocabana, em 1931 – superava em
grande medida a modesta demanda da Douradense.32

Os contratos madeireiros

A transformação de árvores em madeira construtiva e com-


bustível se baseava em contratos entre proprietários de terras, traba-
lhadores e mercadores de madeira. O geógrafo francês Pierre Monbeig,

Metamorfoses florestais 333


que fez exaustivos trabalhos de campo na década de 1930, relatou que
proprietários de terra no oeste de São Paulo vendiam árvores em pé
ou direitos ao uso da floresta a prazo fixo para comerciantes de madei-
ra. Processos judiciais confirmam esses achados. Em testemunho pres-
tado em meados da década de 1930 em Assis, um observador bem
informado relatou que os contratos de madeira podiam ser feitos com
ou sem registro público: “pelo que conhece dos usos e costumes desta
zona, no que se refere a compra e venda de madeiras a serem retiradas
das matas, pode afirmar que tais contratos são feitos sem as solenida-
des de compra e venda de imóvel, e sim por meio de simples recibos
ou contratos e às vezes até por simples ajuste verbal, sem qualquer
solenidade.” No mesmo processo, no entanto, um proprietário de ser-
raria reclamou que “na zona tanto se fazem essas compras e vendas de
madeira por escritura pública como também por simples documento
particular e até por compromisso verbal.”33
Os contratos de madeira variavam significativamente no que
diz respeito a espécies, volume, área, tempo e valor. Geralmente, os
contratos definiam a circunferência, o comprimento ou o diâmetro das
espécies desejadas.34 Por exemplo, em 1923, um negociante em Assis
fez um contrato para 200 m3 de peroba, mas especificou que as toras
tinham que ter pelo menos 3,5 m de comprimento e 40 cm de diâmetro.
Alguns meses depois, o mesmo negociante fez um contrato para 450 m3
de peroba (com diâmetro mínimo de 40 cm) e 50 m3 de cedro e pau-
-marfim (com um mínimo de 30 cm de diâmetro).35 Um contrato de Lon-
drina indicava que os compradores da madeira impunham um desconto
de 20% nos preços pagos por toras com diâmetro inferior a 40 cm.36
Os contratos de lenha excluíam as espécies de madeira dura,
sugerindo que os contratos nesse setor distinguiam entre a extração de
madeira combustível e a extração de madeira construtiva. Por exemplo,
um contrato de dezembro de 1920 para 260 ha perto de Assis excluiu
a peroba, as árvores de “óleo” (provavelmente Copaifera langsdorfii) e
todas as árvores com mais de 120 cm de circunferência.37 Outras áreas
de mata podem ter sido derrubadas tanto para lenha quanto para ma-
deira, talvez pelo mesmo contratador, e para os mesmos comercian-
tes. A investigação de um arquivo de serraria perto de Assis indicava
que a área de armazenamento danificada tinha numerosas toras de
madeira dura perto de dúzias de metros cúbicos de lenha.38
334 Cabral & Bustamante (orgs.)
Certamente, a extração madeireira não era praticada em to-
das as formações de floresta e cerradão. Estradas para bois e cami-
nhões não alcançavam todas as madeiras duras disponíveis, e nem os
preços pagos pelas serrarias compensavam o seu transporte, fosse pe-
los proprietários de terras, fosse pelos mercadores. Como resultado,
milhares de hectares foram derrubados e queimados para o plantio de
pastagens, culturas anuais ou café. O testemunho de 1937 de Antônio
Leonardo de Almeida, 47 anos de idade, posseiro e lenhador em tem-
po parcial que compunha uma equipe de cinco homens que derrubou
75 hectares, sugere que os proprietários nem sempre praticavam corte
seletivo. Almeida declarou à corte que “madeiras de lei que são derru-
badas ficam no mesmo lugar e como logo depois de feita a derrubada e
roçaada das matas o autor manda queimar essas matas derrubadas.”39
Durante o mês de agosto, período de pico das queimadas,
perto do fim da estação seca, a fumaça reduzia a visibilidade e escon-
dia o sol. Moradores de longa data perto de Assis alegaram que, du-
rante a estação das queimadas, mal se via o sol devido à fumaça e que
às quatro horas da tarde o dia já estava escuro. O sol era um círculo
vermelho no céu cheio de fumaça e as pessoas se sentiam sufocadas
pela fumaça da madeira. “Às vezes, um mês inteiro se passava sem
que se pudesse ver o sol, mas apenas a fumaça que queimava nossos
olhos,” lembrou um morador. As pessoas aguardavam ansiosamente
a chegada das chuvas da primavera, no fim de setembro e início de
outubro, para dissipar a fumaça.40

Relações de trabalho no setor madeireiro

As relações de trabalho transformaram a floresta e o cerra-


dão para satisfazer a demanda urbano-industrial por lenha e madeira.
Milhares de trabalhadores especializados e generalistas, em tempo
integral ou parcial, removeram madeira das matas e clareiras para os
centros de transporte e para os mercados. Proprietários de terra e co-
merciantes atendiam à demanda por meio do trabalho contratado e
subcontratado. Relações de trabalho perigosas e exploradoras, gover-
nadas por contratos relativamente sofisticados, eram reformuladas a
partir de antigas formas “flexíveis” de controle do trabalho para lidar

Metamorfoses florestais 335


com o alto risco envolvido na obtenção de recursos dispersos e vo-
lumosos.41 O risco era inerente ao corte e transporte de madeira; a
derrubada de árvores era, e continua sendo, um trabalho muito peri-
goso. Em resposta, pelo menos parcialmente, comerciantes de lenha
e madeira usavam sistemas de contrato que minimizavam a responsa-
bilidade acerca dos inevitáveis ferimentos e mortes que a lei brasileira
lhes atribuía. Embora os dados atualmente disponíveis não permitam
a ampla compreensão da acumulação de capital nos setores de madei-
ra e lenha, os esquemas de subcontratação facilitavam a remoção de
biomassa lenhosa em condições de alto risco. Esses contratos prova-
velmente possibilitavam que os atores mais a jusante da cadeia produ-
tiva obtivessem maiores retornos com o desmatamento.
Um levantamento dos registros judiciais do oeste de São Paulo
e norte do Paraná revela a natureza dos argumentos legais usados para
permitir a subcontratação. Em alguns casos, os proprietários de terras
ou meeiros faziam o trabalho, muitas vezes com a ajuda de vizinhos,
num esforço cooperativo conhecido como mutirão. Mas os proprietá-
rios de terras frequentemente contratavam lenhadores especializados
conhecidos como “derrubadores”, “empreiteiros” ou “trabalhadores
volantes”, muitas vezes pagos pelo metro cúbico como contratados.
Esses trabalhadores eram tipicamente homens jovens que, na maioria
das vezes, tinham migrado dos estados nordestinos. Esses trabalhado-
res se aprimoravam no corte de árvores; em um caso perto de Assis em
1950, um trabalhador e seus colegas foram descritos como “homens
bem práticos no corte de madeira.” Do mesmo modo, um trabalhador
morto perto de Londrina, na década de 1940, tinha fama de habilidoso
“tirador de dormentes.” Qual era o tamanho e o peso das toras de ma-
deira dura? Os poucos registros existentes de negociantes de madeira
do início da década de 1920 indicam que a tora média de peroba tinha
1,18 m3 (932 kg), enquanto as toras de cedro tinham um volume mé-
dio de 1,14 m3 (627 kg).42 A movimentação dessas toras pesadas exigia
uma complexa, especializada e perigosa cadeia de operações que se
estendia desde a derrubada das árvores até o seu transporte para as
estações ferroviárias ou as serrarias.
Afastar-se do risco enfrentado pelos lenhadores era uma estra-
tégia generalizada entre os comerciantes. Uma das técnicas utilizadas era
pagar por unidade de madeira, como no caso do trabalhador morto, em
336 Cabral & Bustamante (orgs.)
1950. O juiz considerou que o trabalhador não era um empregado do co-
merciante e, portanto, sua família não recebeu qualquer compensação:

Tratava-se da retirada de madeiras existentes em uma roça


ou palhada, cuja lenha já havia sido retirada. Era, assim, o
aproveitamento de uma madeira e, portanto, não decorren-
te da propria atividade daquela firma. Trata-se, é verdade, de
uma serraria, mas aquela madeira – alguns pauzinhos, como
se refere uma das testemunhas – não fazia parte da que era
industralizada pela firma e para a qual nao havia trabalhado-
res indicados. Viu-se, assim, a firma, para o aproveitamento
daquela madeira, obrigada a lançar mão de operários avulsos
ou eventuais.43

Após a morte de outro trabalhador, em outubro de 1927, tan-


to o contratador da derrubada quanto o proprietário de terras nega-
ram que o trabalhador morto fosse seu empregado; no entanto, cada
um descreveu o outro como o verdadeiro empregador.44 Em outro
caso típico, um trabalhador jovem e analfabeto, que morreu, no fim
de julho de 1937, em decorrência da queda de um galho, tinha uma
pequena dívida com um contratador responsável pela derrubada de
cinco hectares de floresta. O relatório do delegado de polícia indicou
que o exame do cadáver e outros fatos “não deixam a menor dúvida
quanto à eventualidade da mesma, um desastre dos que, infelizmen-
te, soem acontecer nesta epocha do anno, quando as derrubadas são
frequentes.” Mais tarde, o delegado encerrou o caso com o seguinte
comentário: “tratava-se de trabalhador ‘volante’ residindo há pouco
tempo no local do desastre, ali pouco conhecido e sua filiação é de
todo ignorada.”45 Em Londrina, registros judiciais revelam pouco sobre
os numerosos homens mortos quando atingidos pela queda de uma
árvore ou de um galho enquanto trabalhavam com outros. As inves-
tigações se encerraram abruptamente com a conclusão de que não
havia crime associado com sua morte.46
Depois que as árvores eram derrubadas, elas tinham que ser
colocadas em carros de boi ou caminhões, e, posteriormente, em va-
gões ferroviários abertos, caso fossem exportados para a cidade de
São Paulo (Fig. 6; Fig. 7; Fig. 8). Antes que os caminhões carregassem as
toras, os “carretões de madeira” eram comuns. Esse trabalho também

Metamorfoses florestais 337


era perigoso, pois os trabalhadores podiam ser esmagados por toras
que eventualmente caíssem.47 Perto de Assis, um desses “carreiros”
ou “puxador de toras” era João Domingos; em 1938, ele era pago por
metro cúbico de madeira que transportava, utilizando o carro e os bois
de seu empregador. O pagamento pelo transporte das toras por uma
distância menor que dois quilômetros rendia a Domingos três mil-réis
(3$000), mas podia alcançar cinco mil-réis (5$000), em caso de dis-
tâncias maiores. Em geral, Domingos conseguia transportar cerca de
dois metros cúbicos e meio por dia, enquanto duas crianças pequenas
trabalhavam na serraria que ele abastecia com as toras.48

Figura 6 – Trabalhadores transportam tora de madeira de lei, ca. 1930. Fonte: Geor-
ge Craig Smith, Album 5, Acervo do Museu Histórico de Londrina.

Na década de 1940, os caminhões começaram a substituir os


bois no transporte de toras. Empresas madeireiras ou comerciantes de
madeira podiam possuir os carros e os bois, bem como os caminhões,
338 Cabral & Bustamante (orgs.)
mas tinham de contratar trabalhadores para realizar o difícil trabalho
de carregar as toras nas clareiras. Acidentes com caminhões de trans-
porte de madeira vitimavam motoristas, ajudantes ou observadores,
quando as toras se soltavam dos cabos de aço e batiam com força de-
vastadora (Fig. 6; Fig. 7).49 No pátio das serrarias, maiores perigos eram
enfrentados quando os trabalhadores descarregavam as toras, que po-
diam cair violentamente e de forma incontrolável.50 Motoristas de ca-
minhão em Londrina nem sempre eram considerados “empregados”,
mesmo nos casos em que a serraria era proprietária dos caminhões;
na maioria das vezes, eles trabalhavam de forma independente, “por
conta própria”, e não tinham relação trabalhista formal nem com o
proprietário da serraria nem com o comerciante de madeira. Outros
perigos inerentes ao desmatamento se apresentavam quando as toras
eram colocadas nos carros de boi, caminhões e vagões ferroviários de
“gôndola” para eventual embarque para São Paulo. Durante a baixa
temporada, nas estações ferroviárias, havia menos de cinco vagões
abertos para serem carregados; a média, na maioria dos meses, era
de quinze vagões. Cada vagão podia carregar entre duas e cinco toras,
e precisaria de quatro a cinco trabalhadores durante um dia todo para
fazer o carregamento.51
Toras que se soltavam das amarrações eram um perigo cons-
tante. Assim como ocorria com o corte das árvores, os trabalhadores
que embarcavam as toras eram considerados subcontratados, em vez
de empregados, permitindo que os proprietários de serrarias e comer-
ciantes de madeira se esquivassem de responsabilidades legais no caso
de danos ou morte. Por exemplo, em janeiro de 1928, um trabalhador
morreu instantaneamente quando uma tora de peroba se soltou das
cordas e correntes que a seguravam numa estação ferroviária, perto de
Assis. O trabalhador morto era um dos quatro trabalhadores que iam
passar o dia carregando um vagão que pertencia a um comerciante de
madeira; cada trabalhador receberia um salário bem mais alto do que
os lenhadores. Durante a investigação, um dos quatro trabalhadores
admitiu que o grupo não tinha empregador. O promotor público en-
cerrou a investigação com a alegação de que a vítima e seus colegas de
trabalho trabalhavam “por sua conta e risco, não havendo, portanto,
no caso, patrão que tenha a responsabilidade pela fatal ocorrência.”52
Na década de 1940, perto de Assis, houve um acordo em que comer-
Metamorfoses florestais 339
ciantes pagavam prêmios de seguro para trabalhadores que embarca-
vam toras. Quando os negociantes interromperam essa prática, vários
trabalhadores protestaram, retornando ao trabalho “depois que forne-
cedores de madeira, inclusive o [comerciante de madeira], assumiram
a responsabilidade por qualquer acidente que pudesse ocorrer.” Talvez
esse acordo informal tenha sido retomado logo depois. Em fevereiro
de 1948, um trabalhador foi morto enquanto carregava toras de um
caminhão para um vagão aberto, na mesma plataforma ferroviária. A
sua viúva recebeu uma indenização não especificada de um comer-
ciante de madeira.53

Figura 7 – Caminhão transportando uma tora de peroba, em 1941.


Fonte: José Juliani No. 091, Acervo do Museu Histórico de Londrina.

Conclusões

É muito simplista reduzir a história florestal da América Latina


a uma saga de desperdício e destruição. Isto significaria ignorar o con-

340 Cabral & Bustamante (orgs.)


siderável comércio de madeira dura que ligava o oeste de São Paulo
e o norte do Paraná com a cidade de São Paulo. A história florestal
representada como desperdício e destruição exclui uma grande classe
de trabalhadores cuja atividade, em condições perigosas, sustentou o
setor madeireiro. Várias generalizações podem ser feitas a partir do
caso do oeste de São Paulo e norte do Paraná, as quais podem ser
estendidas a outros contextos latinoamericanos. Essas generalizações
ajudam a questionar a ampla caracterização do desmatamento como
um exemplo de “imprevidência e parasitismo” humano e destruição
“desnecessária e sem sentido.”54

Figura 8 – Trabalhadores usam um ‘serrote português’ numa derrubada de floresta


perto de Londrina, 1930. Fonte: José Juliani No. 1116,
Acervo do Museu Histórico de Londrina.

Metamorfoses florestais 341


Primeiramente, a rede de ferrovias sustentava um comércio
significativo de madeira dura para consumo doméstico. A utilização
de madeira como material de construção era grande e disseminada,
mas estimativas quantitativas da demanda aguardam o avanço das
pesquisas e o descobrimento de novas fontes primárias. A instalação
de ferrovias em toda a Mata Atlântica sustentou igualmente vigorosos
mercados de madeira.
Em segundo lugar, a geografia das serrarias indica não apenas
a importância das ferrovias no transporte de madeira, mas também a
natureza dispersa da atividade de corte. Essa característica dificulta a
obtenção dos dados sobre o comportamento real das serrarias. Mas
o estudo do setor madeireiro, para o qual a Fig. 4 e a Fig. 5 trazem
uma contribuição preliminar, mostra um início promissor. A natureza
do ramo madeireiro é apenas sugerida em linhas gerais neste capítu-
lo, mas as pesquisas futuras podem esclarecer aspectos importantes
– dentre eles a estrutura e o comportamento das empresas envolvidas
com a madeira. O quão comum era o contrabando de madeira? Quais
eram os esforços feitos pelas empresas para controlar o fornecimento
de madeira? Qual era a importância dos órgãos de governo no estabe-
lecimento de parâmetros técnicos para a madeira dura brasileira? Qual
era a importância do consumo de madeira dura nas residências da elite
e no setor moveleiro?
Em terceiro lugar, os trabalhadores atuavam na base do setor
madeireiro, na derrubada de árvores, no corte de toras de madeira
e no transporte das toras aos locais de consumo. Embora os dados
disponíveis não permitam um profundo conhecimento de todas as
relações de trabalho no mercado de madeira e lenha, certas genera-
lizações podem ser feitas. As relações de trabalho observadas resulta-
vam do perigo inerente, do risco de pagamentos de compensação, da
incapacidade dos trabalhadores de demandar melhores condições de
trabalho e da natureza espacialmente dispersa das espécies de árvore
de madeira dura. Milhares de trabalhadores, a vasta maioria era com-
posta por jovens analfabetos, extraíam toras da floresta e do cerradão
para atender à demanda de madeira. Dentro dessa classe, os traba-

342 Cabral & Bustamante (orgs.)


lhadores que recebiam menos faziam a derrubada das árvores, mas o
pagamento se elevava bastante nas tarefas mais especializadas, como
a remoção das toras dos carros ou caminhões para os vagões de trem.
As relações de trabalho podem não ter alterado significativamente os
padrões de desmatamento, mas foram centrais na estrutura classista
que ditava a distribuição desigual do risco, do perigo e da acumulação
do capital resultante do desmatamento. Certamente, o estudo da ex-
tração de mercadorias das florestas interiores, na Mata Atlântica bra-
sileira, é central para a compreensão dos processos de urbanização
e industrialização; no entanto, também precisamos entender como a
vida das classes trabalhadoras estava inextricavelmente conectada –
algumas vezes de modo fatal e trágico – com os materiais que ajuda-
ram a construir cidades e indústrias.

Metamorfoses florestais 343


Anexo

Tabela 1. Número estimado de toras embarcadas na ferrovia Sorocabana, 1923-1955.

Toneladas Estimativa Peroba Cedro Total

Média + 1 desvio
497.340 426.810 158.640 585.450
padrão (sd)

390.920 Mediana 335.480 124.700 460.180

284.500 Mediana – 1 sd 224.160 90.750 334.910

Nota: Os dados sobre madeira foram compilados a partir de Es-


trada de Ferro Sorocabana, Relatório (São Paulo: vários editores, 1924-
1958). A tonelagem total da madeira foi convertida em número de toras
pelo uso de medições médias de toras de uma transação, datada da dé-
cada de 1920 (1,18 e 1,14 m3 de peroba e cedro, respectivamente) e dos
pesos específicos da peroba e do cedro (790 e 550 kg/m3, respectiva-
mente), as duas principais espécies enviadas para a cidade de São Paulo,
e dividindo a madeira total desigualmente entre peroba (80%) e cedro
(20%). O peso específico é de Lorenzi, H., Árvores brasileiras: Manual de
identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Nova Odes-
sa, SP, Editora Plantarum, 1992, pp. 25, 241; as estimativas do tamanho
médio da tora de peroba (1,18 m3 ou 932 kg) e da tora de cedro (1,14
m3 ou 627 kg) de Jurban, F. v. Paiva, L. S. (1924) Ação de Manutenção de
Posse, Caixa 78ci, CSO, AFCA, CEDAP, pp. 12-21.

______________
1  Os temas da exploração madeireira e do comércio interno de madeira aparecem
em Dean, A ferro e fogo, pp. 265-66 com referência à “remoção seletiva de madeira”,
mas sem uma discussão sobre as relações de trabalho ou da distribuição das serrarias.
Miguel Carvalho menciona lesões sofridas por lenhadores (Miguel Mundstock Xavier
de Carvalho, “O desmatamento das florestas de araucaria e o Médio Vale do Iguaçu:
Uma história de riqueza madeireira e colonizações,” dissertação de mestrado,
Universidade Federal de Santa Catarina, 2006, pp. 141-142). Todavia, Carvalho vê a
indústria madeireira como um fator de destruição, mais do que um setor econômico
empregador de mão de obra (Carvalho, “Os fatores do desmatamento da floresta

344 Cabral & Bustamante (orgs.)


com Araucária: Agropecuária, lenha e indústria madereira,” Esboços, vol. 18, no. 25
(2011), pp. 35-52). Eunice Nodari mostra interesse na distribuição das serrarias e no
modo como a madeira era transportada por flutuação rio abaixo para ser exportada,
mas aprendemos pouco sobre as relações de trabalho. Nodari, E. “As florestas do
sul do Brasil: Entre discursos de preservação e ações de devastação,” in História
Ambiental: Fronteiras, Recursos Naturais e Conservação da Natureza, J. Drummond,
J. L. A. Franco, and S. Dutra e Silva (eds) (Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2012, pp.
241-60).
2  Sempre que utilizada, a expressão “madeira dura” refere-se às angiospermas, cujo
lenho, em geral, é mais duro do que o de coníferas, como a araucária.
3  Ribot, J.C. “Theorizing access: Forest profits along Senegal’s charcoal commodity
chain”, Development and Change, vol. 29, 1998, pp. 307-341.
4  O Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa da Universidade Estadual Paulista-
Assis (UNESP) abriga o Arquivo do Fórum da Comarca de Assis (daqui por diante CEDAP,
AFCA) e, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), o Centro de Documentação
e Pesquisas Históricas possui o Arquivo do Fórum da Comarca de Londrina (daqui
por diante CDPH, AFCL). Esses dois arquivos tinham alguma forma de base de
dados pesquisável, mas no caso do CEDAP quase todos os casos consultados foram
encontrados através de uma procura individual em dúzias de caixas de processos
civis e criminais. Os acrônimos CPO e CSO referem-se ao Cartório do Primeiro Ofício
e Cartório do Segundo Ofício, respectivamente. O banco de dados do CDPH limitava-
se a casos criminais. Para uma discussão acerca dessas fontes, ver Brannstrom, C.
“Documentos do Arquivo do Fórum da Comarca de Assis no CEDAP, UNESP-Assis:
uma fonte inédita para a história ambiental regional,” Pós-História, vol. 5, 1997, pp.
217-236. Em 2015, a busca online do CEDAP foi disponibilizada no site http://www.
assis.unesp.br/#!/cedap---centro-de-documentacao-e-apoio-a-pesquisa/consulta-
online/, ao passo que a busca online do CDPH está disponível em http://www.uel.
br/cch/cdph/portal/.
5  Gomes, A.M.C. Burguesia e Trabalho: Política e legislação social no Brasil 1917-
1937. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1979, p. 173.
6  Dean, W., A ferro e fogo: A história da devastação da Mata Atlântica brasileira,
trad Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 23-24; Williams,
M. Deforesting the Earth: From Prehistory to Global Crisis. Chicago, University of
Chicago Press, 2003, pp. 372; Miller, S.W. Fruitless Trees: Portuguese Conservation
and Brazil’s Timber. Stanford, Stanford University Press, 2000, pp. 6-7; Cabral, Diogo
Carvalho de. 2014. Na presença da floresta: Mata Atlântica e história colonial. Rio de
Janeiro: Garamond, 2014, pp. 446-47.
7  Dean, Ferro e fogo; Kathryn Hochstetler and Margaret E. Keck, Greening Brazil:
Environmental Activism in State and Society (Durham: Duke University Press, 2007),
pp. 102-105; CARVALHO, Alessandra I.; LAVERDI, Robson. “Uma produção de sentidos
para a araucária (sem floresta) no Paraná”. In: FRANCO, J.L.A.; DUTRA E SILVA, Sandro;
DRUMMOND, J.A.; TAVARES, G.G. (Org.), História ambiental: territórios, fronteiras e
biodiversidade, vol.2. Rio de Janeiro: Garamond, 2016, pp. 287-313. As mais recentes
políticas públicas na área de reflorestamento são bem descritas em Melo, Felipe P.
L., Severino R. R. Pinto, Pedro H. S. Brancalion, Pedro S. Castro, Ricardo R. Rodrigues,
James Aronson, and Marcelo Tabarelli. 2013. Priority setting for scaling-up tropical
forest restoration projects: Early lessons from the Atlantic Forest Restoration Pact.
Environmental Science and Policy 23:395-404.

Metamorfoses florestais 345


8  Dean, Ferro e Fogo; Holloway, T.H. Immigrants on the Land: Coffee and Society in
São Paulo, 1886-1934. Chapel Hill, University of North Carolina Press, 1980; Dozier,
C.L. “Northern Paraná, Brazil: an example of organized regional development”,
Geographical Review vol. 46, no. 3, 1956, pp. 318-33; Monbeig, P. Pionniers et
Planteurs de São Paulo. Paris, Librairie Armand Colin, 1952, pp. 217-20; Mahl,
Marcelo Lapuente Ecologias em terra paulista (1894-1950): As relações entre o
homem e o meio ambiente durante a expansão agrícola do Estado de São Paulo. Tese
de doutoramento. Universidade Estadual Paulista, Assis, 2007. Margolis, M.L. The
Moving Frontier: Social and Economic Change in a Southern Brazilian Community.
Gainesville, University of Florida Press, 1973.
9  Brannstrom, C. “Repensando a Mata Atlântica brasileira: Cobertura vegetal e valor
de terra no Oeste Paulista, 1900 a 1930,” Varia História, vol. 26, 2002, pp. 58-76; Furley,
P.A. “Edaphic changes at the forest-savanna boundary with particular reference to the
neotropics”. In: P.A. Furley, J. Proctor, and J.A. Ratter (orgs.), Nature and Dynamics
of Forest-Savanna Boundaries. London: Chapman & Hall, (1992), pp. 91-118; Leitão
Filho, H.F. “A flora arbórea dos cerrados do estado de São Paulo”, Hoehnea, vol. 19, no.
1/2, 1992, pp. 151-63; Oliveira-Filho, A.T., and Ratter, J.A. “Vegetation physiognomies
and woody flora of the Cerrado biome”. In: P.S. Oliveira, and R.J. Marquis (orgs.), The
Cerrados of Brazil: Ecology and Natural History of a Neotropical Savanna. New York:
Columbia University Press, 2002, pp. 91-120; Ruggiero, P.G.C., Batalha, M.A., Pivello,
V.R., and Meirelles, S.T. “Soil-vegetation relationships in cerrado (Brazilian savanna) and
semideciduous forest, Southeastern Brazil”, Plant Ecology, vol. 160, 2002, pp. 1-16; Salis,
S.M., Sheperd, G.J., and Joly, C.A. “Floristic comparison of mesophytic semideciduous
forests of the interior of the state of São Paulo, southeast Brazil”, Vegetatio, vol. 119,
1995, pp. 155-164; Torres, R.B., Martins, F.R., and Kinoshita, L.S. “Climate, soil and tree
flora relationships in forests in the state of São Paulo, southeastern Brasil”, Revista
Brasileira de Botânica, vol. 20, no. 1, 1997, pp. 41-49. Ratter, J.A., “Transitions between
cerrado and forest vegetation in Brazil.” In: P.A. Furley, J. Proctor, and J.A. Ratter (orgs.),
Nature and Dynamics of Forest-Savanna Boundaries. London: Chapman & Hall, 1992,
pp. 417-430.
10  Monbeig, Pionniers, p. 239; Dozier, 1956: 324-31; Dean, Ferro e fogo; Victor,
M.A.M. A devastação florestal. São Paulo, Sociedade Brasileira de Silvicultura, 1975.
Galindo-Leal, C., and Câmara, I.G. (orgs.) The Atlantic Forest of South America:
Biodiversity Status, Threats, and Outlook. Washington, D.C., Island Press, 2003).
11  Miller, Fruitless Trees, pp. 241, 248-9.
12  Ribeiro Netto, J. S. v. Simões, J. “Aprehensão de madeiras”, Caixa 106, CPO, AFCA,
CEDAP, 1921, pp. 15-16. McDowall, D. The Light: Brazilian Traction, Light and Power
Company Limited, 1899-1945. Toronto, University of Toronto Press, 1988, p. 88.
13  Jurban, F. v. Paiva, L. S. “Ação de Manutenção de Posse”, Caixa 78ci, CSO, AFCA,
CEDAP, 1924, pp. 12-21; Klaunig, J. v. Xiar, J. “Apprehensão de madeiras”, Caixa 103,
CPO, AFCA, CEDAP, 1924, pp. 5-7v, 10v-11; Fernandes, A v. Correia, M. M. “Ação
Ordinária”, Caixa 142ci, CSO, AFCA, CEDAP, 1936; A Justiça Pública v. Haddad, B.
“Processo Crime”, Caixa 191, CPO, AFCA, CEDAP, 1944, p 8.
14  Inquérito Policial (Vítima: Indústria de Madeira Scheeffer), AC 21/42, 1a Vara,
Pacote 6, CDPH, AFCL, 1942.
15  Nepstad, D.C., Veríssimo, A., Alencar, A., Nobre, C., Lima, E., Lefebvre, P.,
Schlesinger, P., Potter, C., Moutinho, P., Mendoza, E., Cochrane, M., and Brooks, V.
“Large-scale impoverishment of Amazonian forests by logging and fire”, Nature,

346 Cabral & Bustamante (orgs.)


vol. 398, 1999, pp. 505-8. Holmes, T.P., Blate, G.M., Zweede, J.C., Rodrigo Pereira,
J., Barreto, P., Boltz, F., and Bauch, R. “Financial and ecological indicators of
reduced impact logging performance in the eastern Amazon”, Forest Ecology and
Management, vol. 163, no. 1-3, 2002, ,pp. 93-110.
16  Brannstrom, C., “A madeira foi o combustível que moveu a industrialização
brasileira? Avaliando a hipótese da madeira, 1900-1960.” In: J. Drummond, J. L. A.
Franco, and S. Dutra e Silva (orgs.) História Ambiental: Fronteiras, Recursos Naturais
e Conservação da Natureza. Rio de Janeiro, Editora Garamond, 2012, pp. 39-75.
17  Entrevista pessoal, J. Passarelli, Echaporã (25-26 de março de 1997); entrevista
pessoal, A. Lopes, Echaporã (abril de 1997); entrevista pessoal, M. Martins, Cândido
Mota (11 e 16 de julho 1997); entrevista pessoal, P. Rocha, Cândido Mota (7 de
agosto de 1997).
18  Zon, R., and Sparhawk, W.N. Forest Resources of the World. New York, McGraw-
Hill Book Company, 1923, p. 707; Hunnicutt, B.H. Brazil: World Frontier. New York, D.
Van Nostrand Company, 1949, p. 189.
19  Brasil. As madeiras do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1918, pp. 21-
23; Brazil. Brazilian Timber. Rio de Janeiro, publisher unknown, 1928; Brazil. Forest
Industries of Brazil. Rio de Janeiro, Gráfica Vitória, 1949, pp. 48-51.
20  Brotero, F.A. Sugestões para o melhor conhecimento de nossas madeiras.
São Paulo: Escolas Profissionaes do Lyceu Coração de Jesus, 1931, p. 11. Pode-se
compreender a menção de Brotero às partes de um avião pelo fato de que, em 1938,
ele ajudou a projetar um aeroplano de madeira chamado “Bichinho.” See Pereira,
J.A. Contribuição para a identificação micrographica das nossas madeiras. São Paulo,
Escola Politêcnica, 1933, p. 11.
21  Brazil. Brazilian Timber, p. 7; Bellani, E.M. Madeiras, balsas e balseiros no rio
Uruguai: O processo de colonização do velho município de Chapecó. Florianópolis,
Universidade Federal de Santa Catarina, 1991; Ludwig, A.K. Brazil: A Handbook of
Historical Statistics. Boston: G. K. Hall & Co., 1985, pp. 318-19.
22  Whitbeck, R.H. Economic Geography of South America. New York, McGraw-Hill
Book Company, 1931, pp. 360-61; James, H.G. Brazil after a Century of Independence.
New York: The Macmillan Company, 1925, pp. 340; Coote, Edward letter to Sir Samuel
Hoare, 19 July 1935, Rio de Janeiro, f. 110-12, FO 371/18656, Public Records Office,
London.
23  Instituto Nacional do Pinho (1948-1963) Anuário Brasileiro de Estatística
Florestal (selected issues); Cancian, N.A. Conjuntura econômica da madeira no norte
do Paraná. Master’s dissertation, Universidade Federal do Paraná, Brazil, 1974, p. 94.
24  Cancian, N.A. Conjuntura econômica, pp. 145-46. Cancian’s generalizations are
based on the study of one sawmill’s records, between 1948 and 1952, located in
northern Paraná.
25  Cancian, N.A. Conjuntura econômica, pp. 13-17, 98.
26  Cancian, N.A. Conjuntura econômica, pp. 97, 133. A Justiç Pública, “Lesão
Corporal”, Caixa 77/78, CPO, AFCA, CEDAP, 1930. AJP v. Coelho, J. “Acidente de
Trabalho (Vítima: G. Caldi)”, Caixa 100, CPO, AFCA, CEDAP, 1928, p. 2.
27  Domingos, J. v Coelho, J. “Ação Sumária,” Caixa 152, CPO, AFCA, CEDAP, 1938,
pp. 8-10.
28  Inquérito Policial, Vítima: Maria da Gloria Lunelli, AC 7/42, 1a Vara, Pacote 13,
CDPH, AFCL, 1942; Inquérito Policial, Vítima: Hideo Tokuno, AC 73/53, 1a Vara, Pacote

Metamorfoses florestais 347


18, CDPH, AFCL, 1953, p. 14.
29  Inquérito Policial, Vítima: Brasílio de Araújo, AC 6/140, 2a Vara, Pacote 22, CDPH,
AFCL, 1940. Inquérito Policial, Vítima: Andrade Grillo & Cia., Serraria Sul América, AC
26/44, 2a Vara, Pacote 22, CDPH, AFCL, 1948.
30  Inquérito Policial,Vítima: Francisco Benko, AC 22/43, 2a Vara, Pacote 22, CDPH,
AFCL, 1943.
31  Inquérito Policial, Vítima: Batistela e Policastro, AC 38/53, 2a Vara, Pacote 26A,
CDPH, AFCL, 1952. Inquérito Policial, Vítima: Jorge Rassan [Serraria S. Jorge]), AC
87/57, 1a Vara, Pacote 21, CDPH, AFCL, 1957.
32  Dean, 1996, p. 250; Companhia de Estrada de Ferro do Dourado, Relatório No.
11. São Paulo, publisher unknown, 1927. Estrada de Ferro Sorocabana, Relatório. .
.1931. São Paulo, Tip. Brasil de Rothschild & Cia., 1932, p. 175.
33  Monbeig, pp. 222-25; Villalva, A. v. Conceição, E. E. and Coelho, J. “Força nova
turbativa”, Caixa 140ci, CSO, AFCA, CEDAP, 1934, pp. 46v-47, 48.
34  Villalva, A. v. Conceição, E. E. and Coelho, J. “Força nova turbativa”, Caixa 140ci,
CSO, AFCA, CEDAP, 1934, pp. 4-6; Silva, M. V. Inventário (Inventariado: F. G. Silva),
Caixa 52, CPO, AFCA, CEDAP, 1921, pp. 17-19; Oliveira, O. D. v. Silva, F. A. “Ação Força
Nova”, Caixa 98, CPO, AFCA, CEDAP, 1922, pp. 5-7; Jurban, F. v. Paiva, L. S. “Ação de
Manutenção de Posse”, Caixa 78ci, CSO, AFCA, CEDAP, 1924, pp. 5-10.
35  Jurban, F. v. Paiva, L. S. “Ação de Manutenção de Posse”, Caixa 78ci, CSO, AFCA,
CEDAP, 1924, pp. 5-10, 12-21.
36  Processo-Crime, Denunciado: Hermes Togneri e Antonio Ireno, AC 1920/53, 2a
Vara, Pacote 21, CDPH, AFCL, 1952, p. 12.
37  Silva, M. V. Inventário (Inventariado: F. G. Silva), Caixa 52, CPO, AFCA, CEDAP,
1921, pp. 17-19
38  Murad, W. v. Correia, M. M. “Ação Ordinária”, Caixa 120, CPO, AFCA, CEDAP,
1936, pp. 5-6, 18; Fernandes, A v. Correia, M. M. “Ação Ordinária”, Caixa 142ci, CSO,
AFCA, CEDAP, 1936, p. 2.
39  Suguito, Y. v. Rodrigues, M. “Ação de Manutenção de Posse”, Caixa 140ci, CSO,
AFCA, CEDAP, 1936, pp. 54-55.
40  Entrevistas pessoais, M. Martins, Cândido Mota; A. Fereira, Echaporã (29-30 de
abril de 1997); P. Rocha, Cândido Mota; J. Passarelli, Echaporã; A. Lopes, Echaporã.
41  Brannstrom, C. “Coffee labor regimes and deforestation on a Brazilian frontier,
1915-1965”, Economic Geography, vol. 76, no. 4, 2000, pp. 326-46.
42  Margolis, Moving Frontier, p. 35; Monbeig, Pionniers, pp. 222-23; Inquérito
Policial, Vítima: Sebastião Gomes de Moraes, AC 01/43, 2a Vara, Pacote 22B, CDPH,
AFCL, 1943; Jurban, F. v. Paiva, L. S. “Ação de Manutenção de Posse”, Caixa 78ci,
CSO, AFCA, CEDAP, 1924, pp. 12-21; Curador de Acidentes v. Machado Bastos e
Companhia, Acidente de Trabalho (Vítima: A. Travagli), Caixa 238, CPO, AFCA, CEDAP,
1951, pp-5-6. Este volume é ligeiramente menor do que o volume médio de 1.255
m3 calculado a partir das mensurações de 285 toras de araucária, no Paraná, no final
dos anos 1950; ver Heinsdijk, D., Soares, R.O., and Haufe, H. “The future of Brazilian
pine forests”. In: Proceedings, Fifth World Forestry Congress, vol. 1. Seattle, World
Forestry Congress, 1960, pp. 669-73.
43  Curador de Acidentes v. Machado Bastos e Companhia, Acidente de Trabalho
(Vítima: A. Travagli), Caixa 238, CPO, AFCA, CEDAP, 1951, pp. 9-10, 42-3.

348 Cabral & Bustamante (orgs.)


44  AJP v. Monteiro Irmãos, Acidente de Trabalho (Vítima: J. Cyriaco), Caixa 109,
CPO, AFCA, CEDAP, 1927, pp. 3v-9v, 11-11v.
45  AJP, Desastre e morte (Vítima: O. A. Silva), Caixa 129, CPO, AFCA, CEDAP, 1937.
46  Inquérito Policial (Vítima: Antonio Geraldo), AC 192/28, 2a Vara, Pacote 23,
CDPH, AFCL, 1928; Inquérito Policial (Vítima: Gabriel Faustino), AC 21/41, 1a Vara,
Pacote 15, CDPH, AFCL, 1941; Inquérito Policial (Vítima: Sedorico Leônico Cordeiro),
AC 25/41, 1a Vara, Pacote 15, CDPH, AFCL, 1941; Inquérito Policial (Vítima: Pedro
Custódio Pinto), AC 14/42, 2a Vara, Pacote 22, CDPH, AFCL, 1942; Inquérito Policial
(Vítima: Sebastião Gomes de Moraes), AC 01/43, 2a Vara, Pacote 22B, CDPH, AFCL,
1943; Inquérito Policial (Vítima: Júlio Balador), AC 17/44, 1a Vara, Pacote 13, CDPH,
AFCL, 1943; Inquérito Policial (Vítima: Francisco Benko), AC 22/43, 2a Vara, Pacote
22, CDPH, AFCL, 1943; Inquérito Policial (Vítima: Valdemar Goos), AC 34/43, 1a Vara,
Pacote 6, CDPH, AFCL, 1943; Inquérito Policial (Vítima: Joaquim Paschoal), AC s/no,
2a Vara, Pacote 23, CDPH, AFCL, 1946; Inquérito Policial (Vítima: Braulino Joaquim
da Silva), AC 61/57, 1a Vara, Pacote 22, CDPH, AFCL, 1951; Inquérito Policial (Vítima:
Gineste Parra Martins), AC 120/51, 2a Vara, Pacote 24, CDPH, AFCL, 1951; Inquérito
Policial (Vítima: Odorico Pinto), AC 21/43, 1a Vara, Pacote 6, CDPH, AFCL, 1957.
47  AJP v. Monteiro Irmãos, Acidente de Trabalho (Vítima: J. Cyriaco), Caixa 109,
CPO, AFCA, CEDAP, 1927. Curador de Acidentes, Desastre (Vítima: Benedito Alves),
Caixa 84, CPO, AFCA, CEDAP, 1924.
48  Domingos, J. v Coelho, J. “Ação Sumária”, Caixa 152, CPO, AFCA, CEDAP, 1938, p. 35v.
49  AJP v. Real, A., Processo-crime, AC 27/38, 1a Vara, Pacote 12, CDPH, AFCL, 1938;
AJP v. Ritano, R. Processo-Crime, AC 25/42, 1a Vara, Pacote 12, CDPH, AFCL, 1942;
Inquérito Policial (Vítima: Adão Alves), AC 18/44, 2a Vara, Pacote 23, CDPH, AFCL,
1944; Inquérito Policial (Vítima: André Carmo de França), AC s/n, 2a Vara, Pacote 23,
CDPH, AFCL, 1946; Inquérito Policial, AC 199/46, 1a Vara, Pacote 15, CDPH, AFCL,
1946.
50  Inquérito Policial (Vítima: João Baggio), AC 28/42, 2a Vara, Pacote 22, CDPH,
AFCL, 1942. Inquérito Policial (Vítima: Luiz Lizerio), AC 59/54, 2a Vara, Pacote 26-A,
CDPH, AFCL, 1954.
51  Oliveira, B. R. v. Marolo, M. J., Acidente de Trabalho, Caixa 180, CPO, AFCA,
CEDAP, 1941.
52  AJP, Acidente de Trabalho (Vítima: J. Camargo Filho), Caixa 112, CPO, AFCA,
CEDAP, 1928.
53  Silva, A. P. v. Gaspar, A., Acidente no Trabalho, Caixa 211, CPO, AFCA, CEDAP,
1948.
54  Dean, Ferro e fogo, pp. 23-24; Williams, Deforesting, pp. 378.
*   Uma versão anterior deste artigo foi publicada no Bulletin of Latin American
Research (2005, vol. 24, no. 3, pp. 288-310) e revisada por mim para este livro.
Agradecimentos a Hugo de Souza Dias, Marlene Aparecida de Souza Gasque, Gisel-
da Durigan, Gilmar Arruda, Eliane Jatobá e Alessandra Izabel de Carvalho.

Metamorfoses florestais 349


Vida e morte da Floresta com Araucária

Eunice Sueli Nodari*


Universidade Federal de Santa Catarina

Uma das formações vegetais mais ameaçadas do bioma Mata


Atlântica é aquela atualmente conhecida como Floresta Ombrófila Mista
(FOM). Ao longo do tempo, várias outras denominações foram utilizadas,
como Mata de Araucária, Mata de Pinhais ou Floresta com Araucárias;
a Araucaria angustifolia (Bertol.) Kuntze, sua espécie arbórea predomi-
nante, também é chamada de pinheiro brasileiro e pinheiro-do-paraná.
Originalmente, a FOM ocupava em torno de 200.000 km2, distribuídos
pelos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul – com sua
continuação pela província de Misiones, na Argentina – além de algu-
mas áreas menores no sul de São Paulo e na Serra da Mantiqueira e pon-
tos isolados de Minas Gerais. No Paraná, ela abrangia ao redor de 37%
do território; em Santa Catarina, 31%; no Rio Grande do Sul, 25%.1 Em
grande parte, a sua área de ocorrência coincide com o Planalto Meridio-
nal Brasileiro, com terrenos acima de 500-600 metros de altitude, clima
úmido sem período seco, com temperaturas médias anuais em torno de
18º C, mas com três a seis meses de temperatura abaixo dos 15º C.2 Tra-
ta-se de uma rica mistura florística, com fisionomia fortemente marcada
pela predominância da Araucaria angustifolia (pinheiro) no dossel; nos
estratos inferiores, surgem espécies como a imbuia (Ocotea porosa), a
canela lageana (Ocotea pulchella), a erva-mate (Ilex paraguariensis), o
butiá (Butia eriospatha), a bracatinga (Mimosa scabrella), o xaxim (Di-
cksonia sellowiana), entre muitas outras. Essa grande complexidade, in-
cluindo os múltiplos pontos de contato com os ecossistemas vizinhos,
dificulta a caracterização da FOM.3
A Floresta com Araucárias abriga diversas espécies vegetais
e animais atualmente ameaçadas de extinção. No âmbito da flora,
encontram-se ameaçadas a própria A. angustifolia, além da imbuia
(Ocotea porosa), do xaxim (Dicksonia sellowiana), várias bromeliáce-
as e outras espécies raras ou endêmicas.4 Algumas espécies da fauna
também estão ameaçadas de desaparecimento: entre as aves, o papa-
350 Cabral & Bustamante (orgs.)
gaio-de-peito-roxo, o caboclinho-de-barriga-preta, a gralha azul, o ves-
te-amarela; entre os mamíferos, a jaguatirica, o puma ou onça-parda,
o veado-mão-curta ou veado-bororó-do-sul.5
Em termos taxonômicos, a A. angustifolia é alocada na família
das Araucariáceas, que contém dois gêneros (Araucaria, Agathis) e um
total de 32 espécies. Na América do Sul, ocorrem somente duas espé-
cies, a A. angustifólia, nativa do Brasil e a A. araucana, originária da
região de Valdívia, no Chile. A. angustifolia se destaca como a árvore
mais alta da formação florestal, geralmente com troncos retos medin-
do entre 20 e 50 m de altura. O diâmetro das árvores adultas e velhas
varia, normalmente, entre um e dois metros, mas há registros de ár-
vores maiores. A espécie é geralmente dióica, ou seja, as flores mas-
culinas e femininas não se localizam na mesma árvore. “Durante os
primeiros 20 a 40 anos e principalmente nas árvores novas, a copa dos
pinheiros possui forma cônica, que se distingue das formas das árvores
adultas e velhas, que transcendem paulatinamente para copas em for-
ma de umbela.”6 Embora a produção das pinhas e sementes (pinhões)
comece cedo – entre os 10 a 20 anos de idade –, a idade média de um
pinheiro adulto, de acordo com Klein e Reitz, é de 140 a 200 anos; os
pinheiros mais velhos dificilmente passam dos 300 anos, quando ge-
ralmente esticam-se acima dos 40 m de altura, com diâmetros maiores
do que 1,5 m.7 O amadurecimento dos pinhões, geralmente em abril
e maio, é um evento ansiosamente esperado por diversas espécies de
aves e mamíferos, inclusive os humanos, que se alimentam deles. Es-
ses consumidores contribuem para a perpetuação da própria araucá-
ria, dispersando as suas sementes.
Atualmente, a Floresta com Araucárias retém, no território bra-
sileiro, em torno de 2 a 5% de sua área original, sendo que “irrisórios
0,7% poderiam ser considerados como áreas primitivas, as chamadas
matas virgens.”8 O objetivo deste capítulo é descrever e analisar essa tra-
jetória histórica de desflorestamento, até a década de 1970. Esse enredo
envolve, principalmente, a indústria madeireira, embora a colonização
agrícola também tenha contribuído para a transformação da paisagem.
Ao longo dos séculos de ocupação europeia e eurodescendente, a Flo-
resta com Araucárias atraiu olhares de fascínio e também de cobiça, de-
vidos à sua beleza e, sobretudo, à sua grande utilidade.

Metamorfoses florestais 351


Relato e território

Planícies se estendem a perder de vista, descortinando pai-


sagens variadíssimas e rasgando horizontes de dilatada am-
plidão. Alternam elas com vales risonhos, que adornam a
odorante e esbelta árvore do mate, enquanto lá no alto das
serras negreja o verde-escuro pinhal de copas arredondadas,
imponente em seu silencio quase religioso à luz abafada, onde
erguem os braços ao céu, como em súplica muda, mil candela-
bros gigantes, formados pelas esguias e possantes araucárias.9

Essas impressões foram registradas, no século XVII, pelo pa-


dre jesuíta Roque Gonzalez. Durante o período das Missões Jesuíticas,
e talvez seja uma das primeiras descrições escritas sobre a floresta
onde as araucárias predominavam. A partir do século XIX, com a vinda
de naturalistas e outros viajantes europeus, tornam-se abundantes os
relatos sobre as florestas do sul do Brasil; são impressões variadas, que
vão do encantamento ao estranhamento.
De acordo com Susan Place, os registros sobre as florestas fa-
lam tanto sobre os seus autores quanto sobre os seus objetos; até cer-
to ponto, cada um deles representa “a visão de mundo predominante
no seu tempo e na sua cultura, mas estas percepções sobre a floresta
tropical também são filtradas pelas lentes dos significados criados pe-
las experiências e crenças individuais.”10 Essa teoria pode ser utilizada
na análise dos relatos de observadores europeus, assim como dos bra-
sileiros, até meados do século XX, fontes importantes para o historia-
dor da Floresta com Araucárias.
Um dos primeiros relatos sobre essas matas é o de Auguste de
Saint-Hilaire, viajante e naturalista francês, que entre outros estados, visi-
tou o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, nos anos de 1820 e 1821.
Uma das regiões que mais chamou a sua atenção foram os Campos Gerais
do Paraná e, segundo as suas anotações, uma das mais belas paisagens
avistadas, desde a sua chegada à América. Ao se referir, especificamente,
às araucárias, ele escreveu que “até onde a vista pode alcançar, descorti-
nam-se extensas pastagens; pequenos capões onde sobressai a valiosa e
imponente araucária. Surgem aqui e ali nas baixadas, o tom carregado de
sua folhagem contrastando com o verde claro e viçoso do capinzal.”11

352 Cabral & Bustamante (orgs.)


Outro viajante foi Robert Ave Lallemant, médico alemão que
residiu no Brasil por vários anos, visitando várias regiões e fazendo ano-
tações criteriosas, ainda que sob uma perspectiva eurocêntrica. Um de
seus objetivos, nas excursões, foi buscar locais adequados para a insta-
lação de futuros imigrantes alemães. No ano de 1858, ele excursionou
pelos três estados do sul do Brasil, fazendo diversas anotações sobre a
população humana, a fauna e a flora encontradas. Seguindo o padrão
das viagens científicas de sua época, Lallemant publicou, em 1859, as
suas impressões sobre os locais percorridos, em dois volumes, sob o
título Reise durch Süd-Brasilien im Jahre 1858. Ao passar pelo Planalto
de Santa Catarina, as imponentes araucárias chamaram a sua atenção:

Colinas sucedem-se a colinas, uma costa relvada domina a


outra, uma cadeia de serras segue a outra; tudo é uma con-
fusa terra de pasto, em cujas íngremes vertentes ressaltam
inúmeras massas de pedra-de-areia cobertas de liquens, ou
tudo é coberto de densas matas de araucárias. Neste pla-
nalto, essas vigorosas colunas vegetais sobem, aos milhões,
de profundos desfiladeiros e trepam as mais íngremes en-
costas até aos píncaros das empinadas coxilhas – floresta
escura, silenciosa, grave, que eu poderia chamar com pro-
priedade de floresta negra. Só em baixo, nos misteriosos
desfiladeiros, há ruído. Lá, entre o pinheiral, escachoam
fontes, murmuram regatos, espumam rios nos calhaus de
arenito: assim nasce o Pelotas, o verdadeiro Uruguai, já
adiante chamado Uruguai-Mirim.12

De uma forma ou de outra, as florestas acabavam entrando


e se impondo, nos relatos, como protagonistas. Como exemplo, pode-
mos citar o caso do inglês Thomas P. Bigg-Wither. Na função de enge-
nheiro, ele esteve no Paraná, entre 1872 e 1875, integrando a expe-
dição exploradora contratada pela empresa Paraná and Mato Grosso
Survey Expedition, responsável pelo projeto de construção de uma fer-
rovia ligando o Paraná ao Mato Grosso. A sua experiência foi relatada,
em textos e imagens, na obra Pioneering in South Brazil: Three Years of
Forest anda Prairie Life in the Province of Paraná, publicada em 1878,
na Inglaterra, e traduzida, no Brasil, em 1974.13 Entre as regiões percor-
ridas pela expedição – no trajeto da ferrovia projetada –, havia vastas
áreas de florestas com araucárias, que chamaram a atenção de Bigg-
-Wither, principalmente, pela dimensão dos pinheiros:
Metamorfoses florestais 353
Havia poucas árvores de outra espécie que chegassem a altu-
ra do pinheiro. Muitos deles tinham dimensões gigantescas,
medindo de 20 a 22 pés de circunferência na base e, fazendo
um cálculo por alto, de 120 a 140 pés de altura, subindo reto
e sem ramificação até alguns pés próximo de seu ápice, onde
se estendia uma copa abundante, de galhos e folhas, com
cerca de 35 a 40 pés de diâmetro. Visto a distância, oferecia
efeito muito curioso, dando a impressão de uma floresta de
cogumelos. Eram os senhores do solo na região, sendo consi-
derados superiores aos do Báltico.14

Parte da região percorrida por Bigg-Wither também constava


no itinerário da viagem feita, algumas décadas depois, por um dos maio-
res conservacionistas e naturalistas de sua época, John Muir, também
considerado o “pai dos parques nacionais” dos Estados Unidos. Para
realizar o seu sonho de conhecer as Florestas com Araucárias – conhe-
cidas apenas por relatos e fotografias –, Muir veio ao Brasil, em 1911.15
De acordo com o historiador Donald Worster, Muir estava procurando
por um gênero de conífera sempre verde, cujos fosseis datavam da era
mesozóica; havia apenas duas espécies desse gênero, na América do
Sul, uma delas a “A. angustifolia (antes chamada brasiliensis) que cres-
cia no Sul do Brasil, que se tornou a principal espécie madeirável do
país.”16 Concretizando seu sonho, Muir aproveitou todas as horas do
dia para observar e desenhar as araucárias, referindo-se àquelas flo-
restas como “um lugar de acordo com o meu coração.”17 Entre os dias
14 e 24 de outubro de 1911, ele registrou em seu diário: “Manhã chu-
vosa. Araucárias em centenas e milhares. Visão maravilhosa.”18 Outro
registro foi o seguinte: “a floresta mais interessante que eu vi em toda
a minha vida”.19 Segundo Worster, nessa época, “a Araucaria angustifo-
lia [...] podia ser encontrada crescendo aos milhares nos campos gerais
do Estado do Paraná.”20 Todavia, as paisagens percorridas por Muir já
mostravam sinais de devastação; parte de suas medições e anotações
aconteceram dentro da área de uma indústria madeireira, a Southern
Brazil Lumber and Colonization,21 em um “cenário onde estavam sendo
derrubadas e serradas intensamente”,22 conforme as palavras do pró-
prio Muir. Entretanto, em seu diário, não se encontra nenhuma crítica
à devastação ocorrendo diante de seus olhos.

354 Cabral & Bustamante (orgs.)


Avançando século XX adentro, encontramos um dos grandes
conhecedores e defensores da Floresta com Araucárias, o padre jesuí-
ta, botânico e professor Balduino Rambo.23 Ele escreveu em seu diário,
no dia 17 de fevereiro de 1948, em Cambará, Rio Grande do Sul:

A beleza da paisagem e as formas graciosas das superfícies


consistem, essencialmente, de um único motivo: o contraste
entre campo claro e pinhal escuro. O limite preciso entre os
dois, com o matagal das Mirtaceas cobrindo ate o chão e os pi-
nheiros apontando com frequência de forma isolada, é de um
encanto pictórico incomparável. Essa nitidez de separação e
de cores é a parte mais benéfica da mata: os matinhos redon-
dos no meio do campo, e o campo e a mata em seu jogo dinâ-
mico de mudanças. Esta é a linguagem da terra de Cambará.24

Ele encerra as suas anotações do dia mostrando a sua paixão


pelas araucárias: “Se possuo uma pátria no mundo, ela está no planalto
calmo e sereno, à sombra dos pinheirais.”25 Ele constatava com alegria
que, na região dos Aparados da Serra, “as serrarias – graças a Deus, ain-
da são raras! – vistas do avião mostram tabuas amontoadas numa tona-
lidade feia, de destruição e ganância monetária no meio da paisagem.”26
Infelizmente, na maior parte dos três estados do sul do Brasil, neste pe-
ríodo, o processo de desflorestamento já alcançara grande escala.
Considerado pela academia brasileira um dos primeiros bo-
tânicos do Brasil, Frederico Carlos Hoehne defendeu a conservação
da natureza, em várias de suas obras e práticas cotidianas.27. Um dos
seus trabalhos é sobre região das araucárias, com o sugestivo título de
“Araucarilandia”. Hoehne explica esse título da seguinte maneira:

[...] Paraná, centro desse país caracterizado pela abundan-


cia da Araucaria brasiliana, recebeu e guardou, desde então
esse belo nome Guarani, para dá-lo à sua capital. “CURI-
TYBA” – profusão ou aglomerado de pinheiros, é, com efeito,
um apelido digno de uma capital dessa “ARAUCARILANDIA”,
que se estendia, além do mencionado contraforte, desde o
norte do atual Estado do Rio Grande do Sul, através de todo o
[estado de] Santa Catharina, Paraná e São Paulo e alcançava
o sul de Minas. Essa “ARAUCARILANDIA” ostentava florestas
e capões dessa Pinacea que se tornou seu característico..28

Metamorfoses florestais 355


No decorrer de sua viagem, realizada em 1928, Hoehne con-
firmou suas expectativas acerca da devastação das florestas. No trajeto
entre Paraná e Santa Catarina, ele identificou, ao longo das margens
do rio Negro, muitas áreas que haviam sido ou ainda eram, predomi-
nantemente, cobertas por pinheiro e erva-mate. O autor vaticinou
que, “[d]entro de mais alguns decênios, talvez, só restará, porém, a
lembrança dessas florestas.”29
Vinte anos depois da viagem de Hoehne, André Aubreville,
botânico e professor do Museu Nacional de História Natural de Paris,
veio ao Brasil como membro da delegação francesa, para a Conferência
Latino-Americana de Florestas e Produtos Florestais. Aubreville apro-
veitou a ocasião para conhecer algumas áreas de florestas, no sul do
país. Ricas em comentários, opiniões técnicas e sugestões sobre reflo-
restamento, as suas anotações ajudam a descortinar alguns aspectos
interessantes sobre a questão florestal, naquele período. A descrição
da araucária é bastante semelhante às dos autores previamente dis-
cutidos, embora se concentre mais nas características e utilidades do
pinhão, assim como nas formas de dispersão da espécie associadas à
população indígena.30 Aubreville compara a Floresta com Araucárias à
Amazônia: para ele, a última representava o futuro, como uma reserva
de terras e florestas, enquanto a primeira já era uma realidade, tendo
em vista a intensa exploração, naquela época, especialmente do pi-
nheiro.31 Desta forma, parte do texto é uma discussão da importância
da madeira da araucária e da sua utilidade. No entanto, o crescente
desmatamento fez Aubreville alertar sobre o perigo de esgotamento,
que ele associa ao modelo de colonização adotado na região:

Ouvi dizer no Brasil que haveria nas florestas do Sul, reservas


de pinho para 100 anos de exploração. É possível, mas ninguém
pode deixar de sentir a rapidez da destruição da floresta de
Araucaria por efeito dos trabalhos da colonização agrícola, que
é uma terrível devastadora das terras virgens. [...]. A colonização
em marcha deixa atrás de si capoeiras pobres ou pastagens. Ela
prossegue, após estágios mais ou menos longos, sempre à pro-
cura de novas florestas primitivas.32 (grifo no original)

Desde a criação do Instituto Nacional do Pinho (INP), em 1941,


entrou em pauta a discussão sobre os modelos de reflorestamento mais

356 Cabral & Bustamante (orgs.)


adequado para a região das Florestas com Araucárias. Em 1953, por conta
de um convenio entre a Organização das Nações Unidas para a Alimenta-
ção e a Agricultura (FAO) e o governo brasileiro, foi contratado o engenhei-
ro R. L. Rogers, para “estudar as condições de vegetações da Araucaria
angustifolia nos Estados do Sul do País e aconselhar e assistir ao Instituto
Nacional do Pinho na organização e execução de um Programa de Pesqui-
sa Florestal [...].33 Dados estatísticos confiáveis sempre foram um proble-
ma, no setor florestal brasileiro. Para determinar a extensão dos pinheirais
existentes, assim como o volume disponível de madeira, Rogers utilizou
três fontes distintas. A primeira delas foi constituída pelos dados do INP.
Considerando-se as árvores com mais de 40 cm de diâmetro, o INP esti-
mava que, em 1950, o número total de pinheiros remanescentes, nos es-
tados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, era de 104.670.000;
considerando-se as árvores de 20 a 40 cm diâmetro, o total aumentava
para 193.400.000. Mencio