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Filosofias Helenísticas (Gilberto Cotrim)

O documento descreve as principais filosofias do período helenístico e greco-romano, como o epicurismo, estoicismo, pirronismo e cinismo. O epicurismo defendia que o prazer é o princípio da vida feliz, mas distinguia prazeres duradouros dos imediatos. O estoicismo via a realidade como racional e defendia o dever como caminho para a felicidade. O pirronismo defendia a suspensão do juízo diante da incerteza do conhecimento. O cinismo pregava viver como c

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Filosofias Helenísticas (Gilberto Cotrim)

O documento descreve as principais filosofias do período helenístico e greco-romano, como o epicurismo, estoicismo, pirronismo e cinismo. O epicurismo defendia que o prazer é o princípio da vida feliz, mas distinguia prazeres duradouros dos imediatos. O estoicismo via a realidade como racional e defendia o dever como caminho para a felicidade. O pirronismo defendia a suspensão do juízo diante da incerteza do conhecimento. O cinismo pregava viver como c

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FilosoFias HelenÍstica e Greco-romana

A busca da felicidade interior


Com a conquista da Grécia pelos macedônios Parece que a principal preocupação dos filó-
(322 a.C.), teve início o chamado período helenístico. sofos era proporcionar às pessoas desorientadas
Devido à expansão militar do império macedônico, e inseguras com a vida social alguma forma de
efetuada por Alexandre Magno, o período helenístico paz de espírito, de felicidade interior em meio às
caracterizou-se por um processo de interação entre atribulações da época. um dos principais filóso-
a cultura grega clássica e a cultura dos povos fos desse período, epicuro, aconselhava que as
orientais conquistados. pessoas se afastassem dos perigos e da intran-
o mesmo processo se deu no campo filosófico. quilidade da vida política e buscassem a felici-
As escolas platônica (Academia) e aristotélica dade em sua vida privada. “Viva oculto” era um de
(liceu) – dirigidas, respectivamente, pelos discí- seus mandamentos.
pulos de Platão e Aristóteles – continuaram abertas entre as novas tendências desse período, desta-
e em plena atividade, mas os valores gregos co- caremos o epicurismo, o estoicismo, o pirronismo
meçaram a mesclar-se com as mais diversas e o cinismo.
tradições culturais.
epicurismo: o prazer
do público ao privado
Como estudamos antes, o epicurismo é uma
no plano político, a antiga liberdade do cidadão corrente filosófica fundada por Epicuro (341-
grego, exercida no contexto de autonomia de suas -271 a.C.), que defendia que o prazer é o princípio
cidades, foi desfigurada pelo domínio macedônico, e o fim de uma vida feliz.
ocorrendo um declínio da participação do cidadão no entanto, epicuro distinguia dois grandes
nos destinos da pólis. grupos de prazeres. o primeiro reúne os prazeres
nesse contexto, as preocupações coletivas da mais duradouros, que encantam o espírito, como
pólis cederam lugar às preocupações pessoais, a a boa conversação, a contemplação das artes, a
reflexão política enfraqueceu-se e a vida privada audição da música etc. o segundo inclui os prazeres
tornou-se o centro das investigações filosóficas. mais imediatos, muitos dos quais são movidos
As principais correntes filosóficas desse pe- pela explosão das paixões e que, ao final, podem
ríodo vão tratar da intimidade, da vida pessoal resultar em dor e sofrimento.
e interior do ser humano. Formulam-se, então, De acordo com o filósofo, para que possamos
diversos modelos de conduta, “artes de viver”, desfrutar os grandes prazeres do intelecto, precisa-
“filosofias de vida”. mos aprender a dominar os prazeres exagerados
da paixão, como os medos, os apegos, a cobiça, a
inveja. Por isso, os epicuristas buscavam a ataraxia,
DeA PiCture librAry/the GrAnGer
ColleCtion/GloW iMAGeS

isto é, o estado de ausência da dor, quietude, se-


renidade e imperturbabilidade da alma. (reveja
o capítulo 1, no qual a doutrina epicurista é traba-
lhada mais detidamente.)

observação
estela (placa o epicurismo muitas vezes é confundido com
funerária)
um tipo de hedonismo marcado pela procu-
representando a
ama falecida e sua ra desenfreada dos prazeres mundanos. no
serva (c. 380 a.C). entanto, o que epicuro defendia era uma ad-
o medo da morte ministração racional e equilibrada do prazer,
foi um dos evitando ceder aos desejos insaciáveis que,
principais
inevitavelmente, terminam em sofrimento.
temas do período
helenístico. Hedonismo – doutrina centrada na ideia de
(Museu nacional prazer (existem diversas doutrinas hedonistas).
de Arqueologia de
Atenas, Grécia)

232 Unidade 3 A filosofia na hist—ria


estoicismo: o dever Fundado a partir das ideias de Pirro de Élida
(365-275 a.C.), o pirronismo foi uma corrente filo-
o estoicismo, fundado a partir das ideias de
sófica que defendia a ideia de que tudo é incerto,
Zenão de Cício (336-263 a.C.), foi a corrente filo-
nenhum conhecimento é seguro, qualquer argu-
sófica de maior influência no período helenístico.
mento pode ser contestado.
Como estudamos anteriormente, os represen-
Por isso seus seguidores propunham que as
tantes dessa escola eram conhecidos como es-
pessoas adotassem a suspensão do juízo (epokhé,
toicos e defendiam a noção de que toda realidade
em grego), isto é, a abstenção de fazer qualquer
existente é uma realidade racional. isso significa
julgamento, já que a busca de uma verdade plena
que todos os seres, os indivíduos e a natureza
é inútil. Desse modo, aceitando que das coisas se
fazem parte dessa realidade racional. podem conhecer apenas as aparências e desfrutan-
Segundo esses pensadores, o que chamamos do o imediato captado pelos sentidos, as pessoas
de Deus nada mais é do que a fonte dos princípios viveriam felizes e em paz.
racionais que regem a realidade. integrado à natu- o pirronismo constitui, portanto, uma forma
reza, não existe para o ser humano nenhum outro de ceticismo, pois professa a impossibilidade do
lugar para ir ou fugir, além do próprio mundo em conhecimento, da obtenção da verdade absoluta.
que vivemos. Somos deste mundo e, ao morrer, nos
dissolvemos neste mundo.
Portanto, não dispomos de poderes para alterar Cinismo
substancialmente a ordem universal do mundo, A palavra cinismo vem do grego kynos, que signi-
mas por meio da filosofia podemos compreendê-la fica “cão”; cínico, do grego kynicos, significa “como
e viver segundo ela. Assim, em vez do prazer dos um cão”. Assim, o termo cinismo designa a corrente
epicuristas, Zenão propõe o dever, vinculado à dos filósofos que se propuseram viver como os cães
compreensão da ordem cósmica, como o melhor da cidade, sem qualquer propriedade ou conforto.
caminho para a felicidade. É feliz aquele que vive levavam ao extremo a tese socrática de que o
segundo sua própria natureza, a qual, por sua vez, ser humano deve procurar conhecer a si mesmo
integra a natureza do universo. e desprezar todos os bens materiais. Por isso,
os estoicos também defendiam uma atitude de Diógenes de Sínope (c. 413-327 a.C.) – o pensador
austeridade física e moral, baseada em virtudes mais destacado dessa escola – é conhecido como
como a resistência ante o sofrimento, a coragem o “Sócrates demente”, ou o “Sócrates louco”, pois
ante o perigo, a indiferença ante as riquezas mate- questionava os valores e as convenções sociais de
riais. o ideal perseguido era um estado de plena forma radical e procurava levar uma vida estrita-
serenidade (ataraxia) para lidar com os sobressal- mente conforme os princípios que considerava
tos da existência, fundado na aceitação e na com- moralmente corretos.
preensão dos “princípios universais” que regem Vivendo em uma época em que as conquistas
toda a vida. (reveja o capítulo 1, no qual a doutrina de Alexandre promoveram o helenismo, que
estoica é abordada com mais detalhes.) mesclou culturas e populações, Diógenes tam-
bém não tinha apreço pela diferença entre grego
Pirronismo: a suspensão e estrangeiro. Conta-se que, quando lhe pergun-
taram qual era sua cidadania, teria respondido:
do juízo
“Sou cosmopolita” (palavra de origem grega que
significa “cidadão do mundo”).
há muitas histórias de sabedoria e humor so-
bre Diógenes. uma delas conta que ele morava
em um barril e que, certa vez, Alexandre Magno
Para Pirro, o
foi visitá-lo. De pé em frente à “casa”, Alexandre
verdadeiro sábio perguntou-lhe se havia algo que ele, como impe-
roGer Viollet/AFP Photo

é aquele que se rador, poderia fazer em seu benefício. Diógenes


fecha em si mesmo respondeu prontamente: “Sim, podes sair da
e silencia, isto é,
não emite nenhum frente do meu sol”. Diz a lenda que Alexandre,
juízo. Só isso lhe impressionado com o desprezo do filósofo pelos
trará felicidade. bens materiais, teria comentado: “Se eu não fosse
(bibliothèque
nationale de
Alexandre, queria ser Diógenes”.
France, Paris, o artigo seguinte desenvolve reflexões atuais a
França.) partir de outra história de Diógenes.
Capítulo 12 Pensamentos clássico e helenístico 233
O barril e a esmola
Zombavam de Diógenes. Além de morar num barril, volta e meia era visto pedindo esmolas às estátuas.
Cegas por serem estátuas, eram duplamente cegas porque não tinham olhos – uma das características da
estatuária grega. [...]
Perguntaram a Diógenes por que pedia esmola às estátuas inanimadas, de olhos vazios. Ele respondia que
estava se habituando à recusa. Pedindo a quem não o via nem o sentia, ele nem ficava aborrecido pelo fato
de não ser atendido.
É mais ou menos uma imagem que pode ser usada para definir as relações entre a sociedade e o poder. Tal
como as estátuas gregas, o poder tem os olhos vazados, só olha para dentro de si mesmo, de seus interesses
de continuidade e de mais poder.
A sociedade, em linhas gerais, não chega a morar num barril. Uma pequena minoria mora em coisa mais
substancial. A maioria mora em espaços um pouco maiores do que um barril. E há gente que nem consegue
um barril para morar, fica mesmo embaixo da ponte ou por cima das calçadas.
Morando em coisa melhor, igual ou pior do que um barril, a sociedade tem necessidade de pedir não
exatamente esmolas ao poder, mas medidas de segurança, emprego, saúde e educação. Dispõe de vários
canais para isso, mas, na etapa final, todos se resumem numa estátua fria, de olhos que nem estão fechados:
estão vazios. [...]
Cony, Carlos heitor. o barril e a esmola. Folha de [Link], 5 de jan. de 2000.
(Disponível em: <[Link] Acesso em: 21 out. 2015.)
JeAn-lÉon GÉrôMe/ WAlterS Art MuSeuM, bAltiMore, MArylAnD, euA

Diógenes sentado em
seu barril (1860) –
Jean-léon Gérôme.
Desprezando as
convenções e
hierarquias da
sociedade, o filósofo
Diógenes enalteceu
o que para ele era
o maior de todos os
prazeres: a liberdade.

Pensamento greco-romano
o último período da filosofia antiga, conhecido A atividade reflexiva esteve mais voltada à tarefa
como greco-romano, corresponde, em termos de assimilar e desenvolver as contribuições cultu-
históricos, à fase de expansão militar de roma rais herdadas da Grécia clássica, principalmente,
(desde as Guerras Púnicas, iniciadas em 264 a.C., do que à de criar novos caminhos para a filosofia.
até a decadência do império romano, em fins do entre os principais pensadores desse período,
século V da era cristã). destacaram-se: Cícero (106-43 a.C.), grande orador
trata-se de um período longo em anos, mas e defensor da república em roma, responsável pela
pouco notável no que diz respeito à originalidade retransmissão de grande parte da terminologia
das ideias filosóficas. filosófica grega para o latim; Sêneca (c. 4 a.C.-65),
234 Unidade 3 A filosofia na hist—ria
máximo representante do estoicismo romano; Plutarco (c.46-122), biógrafo, historiador e moralista; e
Plotino (c. 205-270), maior expoente do neoplatonismo (que veremos brevemente no próximo capítulo).
A progressiva penetração do cristianismo no império romano em declínio é uma das características
fundamentais desse período. A difusão e a consolidação do cristianismo, pela igreja Católica, atuaram na
dissolução da força da filosofia grega clássica, que passou a ser qualificada de pagã (própria dos povos
não cristãos). o pensamento que surgiu então será o tema do próximo capítulo.
MAnuel DoMÍnGueZ SÁnCheZ/MuSeo Del PrADo, MADri, eSPAnhA

O suicídio de Sêneca
(1871) – Manuel
Domínguez Sánchez.
um dos senadores
mais admirados e
respeitados do império
romano, Sêneca foi
acusado de participar
de uma conspiração e
condenado à morte, o
que tradicionalmente
se cumpria, à época,
pelo suicídio na própria
residência, como
mostra a obra ao lado.

AnáLiSe e entendimento

19. Caracterize, em termos gerais, a filosofia desen- 21. Por que o pirronismo é considerado uma forma de
volvida depois do período clássico. ceticismo? De que maneira seu ceticismo definia
20. Confronte o epicurismo com o estoicismo, desta- o modo de vida que propunha?
cando semelhanças e diferenças. 22. explique a origem da palavra cinismo, destacando
sua relação com a corrente filosófica que denomina.

ConverSA fiLoSófiCA
4. Filosofia de vida
As diversas correntes filosóficas do período helenístico preocuparam-se em proporcionar aos indivíduos
desorientados alguma forma de paz de espírito, alguma forma de felicidade interior em meio às atribulações
da época. eram verdadeiras “filosofias de vida”.
escolha a corrente que propõe o modo de vida com o qual você mais se identifica, elabore um comentário
sobre as razões de sua escolha e apresente-o à classe.

PROPOSTAS FINAIS

De olho na universidade

(uFF) na célebre pintura A escola de Atenas, o artista renascentista italiano rafael reuniu os principais nomes da
filosofia grega, tendo ao centro do quadro as figuras de Platão e de Aristóteles [veja a reprodução da obra neste
capítulo]. na figura, Platão aponta para o alto e Aristóteles dispõe a mão espalmada para baixo. Desse modo,
com esses gestos, rafael estava ilustrando a distinção entre a filosofia de Platão e a filosofia de Aristóteles.
indique e discorra sobre a principal diferença entre a filosofia de Platão e a de Aristóteles.

Cap’tulo 12 Pensamentos cl‡ssico e helen’stico 235

FilosoFias HelenÍstica e Greco-romana
A busca da felicidade interior
Com a conquista da Grécia pelos macedônios 
(322 a.C.),
estoicismo: o dever
o estoicismo, fundado a partir das ideias de 
Zenão de Cício (336-263 a.C.), foi a corrente filo-
sófica
O barril e a esmola
Zombavam de Diógenes. Além de morar num barril, volta e meia era visto pedindo esmolas às estátuas. 
Cega
máximo representante do estoicismo romano; Plutarco (c.46-122), biógrafo, historiador e moralista; e 
Plotino (c. 205-270), m

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