Filosofia Helenística: Correntes e Ética
Filosofia Helenística: Correntes e Ética
Abril
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Filosofia
Período Helenista
Resumo
Na época em que Alexandre Magno conquistou a Grécia, o Egito e todo o Oriente Médio, construindo um
verdadeiro império intercontinental e dando início ao período histórico conhecimento
como helenismo, a filosofia antiga passou por
grandes transformações. Aristóteles, o último
grande filósofo do período sistemático, havia
morrido e, após ele, o que se formou foi uma série
de correntes filosóficas divergentes, conhecidas
como filosofias helenísticas. Tais correntes
constituíram a última fase da filosofia antiga e duraram desde o século IV a.C. até o
século
VI d. C., depois da queda do Império Romano do Ocidente, quando o imperador bizantino Justiniano proibiu
definitivamente a promoção de qualquer vertente de pensamento pagã.
Antes de tratarmos de cada uma dessas correntes em específico, é necessário compreender o que todas
elas tinham em comum: tratavam-se de vertentes filosóficas fundamentalmente éticas, isto é, voltadas para
a questão da conduta e da ação humanas. Suas preocupações, muito mais do que com problemas teóricos
e especulativos, como a origem do mundo, o fundamento do conhecimento e a ordem do universo, era com
questões práticas, em particular aquela que diz respeito à boa vida, isto é, à felicidade humana. Para os
helenísticos, não é que as questões teóricas não fossem relevantes ou que a realidade não devesse ser
compreendida, mas sim que estas coisas são importantes apenas porque ajudam o homem a viver melhor -
e não o contrário.
No plano político, a antiga liberdade do cidadão grego, exercida no contexto de autonomia de suas cidades,
foi abalada pelo domínio macedônico, ocorrendo um declínio da participação do cidadão nos destinos da
pólis. As preocupações coletivas da pólis cederam lugar às preocupações pessoais, a reflexão política
enfraqueceu-se e a vida privada tornou-se o centro das investigações filosóficas. As principais correntes
filosóficas desse período vão tratar da intimidade, da vida pessoal e interior do ser humano. Formulam-se,
então, diversos modelos de conduta, “artes de viver”, “filosofias de vida”.
Parece que a principal preocupação dos filósofos era proporcionar às pessoas desorientadas e inseguras
com a vida social alguma forma de paz de espírito, de felicidade interior em meio àsatribulações da época.
um dos principais filósofos desse período, epicuro, aconselhava que as pessoas se afastassem dos perigos
e da intranquilidade da vida política e buscassem a felicidade em sua vida privada. “Viva oculto” era um de
seus mandamentos. Dentre as correntes helenistas podemos destacar o epicurismo, o estoicismo, o
pirronismo e o cinismo.
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Para o epicurismo, o homem vive dividido entre duas possibilidades básicas: o prazer e a dor. Sua felicidade,
assim, consiste em obter o maior prazer e a menor dor
possíveis. Isto, porém, não significa que o epicurismo
seja hedonismo, ou seja, uma busca desenfreada por
prazer. Ao contrário, segundo Epicuro, fundador da
escola, há muitas dores passageiras que, a longo prazo,
geram prazeres enormes (como estudar muito para
passar no vestibular), assim como há prazeres intensos
que depois promovem dores maiores (como beber muito
e ficar de ressaca). A busca pelo prazer e a fuga da dor,
portanto, não deve ser impulsiva e irracional, mas
ponderada e equilibrada. Atomistas, os epicuristas diferenciavam-se de Demócrito, porque não achavam
que tudo é determinado pela constituição dos átomos, mas sim que o homem é livre em sua decisões.
Para alcançar a felicidade, um estado de ausência de dor (denominado ataraxia), os epicuristas defendiam
então que era preciso aprender a desfrutar dos prazeres concretos, perenes. Para isso, era preciso aprender
a dominar o imediatismo e os prazeres exagerados da paixão, como medo, apego, cobiça etc. Esse estado
de impertubabilidade da alma só poderia ser alcançado com a prática dos prazeres que encantam o espírito,
como a contemplação das artes em geral e boa conversação.
O estoicismo é a corrente filosófica de maior influência do período helenista.
Para o estocismo, a felicidade humana consiste na ataraxia, tranquilidade da
alma, ou apatheia, ausência de perturbações. Tal tranquilidade é obtida quando
o homem, guiando-se por sua razão, vence o poder das paixões e sentimentos
sobre seu ânimo. Toda a realidade é guiada pela razão (toda a natureza, os
indivíduos, os seres), sendo assim, um desencontro com a razão (entrega as
paixões) traz infelicidade. Até aquilo que chamamos de Deus é racioanl, sendo
a fonte dos princípios que regem a realidae. Este guiar-se pela razão é a grande
meta da filosofia estóica e se obtém, segundo Zenão, fundador da escola,
a partir do momento em que o homem reconhece que essa razão
universal
e divina que rege e conduz o mundo. Ao reconhecer que o mundo é mantido pela Razão, o ser humano
percebe que a realidade possui uma estrutura lógica e coerente à qual o homem, para ser feliz, precisa
vincular-se.
Integrado à natureza, não há para onde o ser humano fugir nem onde se esconder, além do mundo onde
vivemos. Reconehcendo a razão que guia o mundo, o dever do homem é seguir essa razão para alcançar a
felicidade. Frente aos sobressaltos da vida, é preciso aceitar e compreender os princípios racionais que
regem a existência. Os estoicos defendiam que essa serenidade se obtém através de uma atitude de
austeridade física e moral, baseada em virtudescomo a resistência ante o sofrimento, a coragem ante o
perigo, a indiferença ante as riquezas materiais.
Para o ceticismo, que tem Pirro como seu principal expoente (sendo a
corrente chamada també de pirronismo) a ataraxia, tranquilidade da alma, é
obtida através da suspensão do juízo, isto é, do abandono de toda e qualquer
convicção substantiva. Com efeito, para os céticos, tudo é duvidoso,
questionável e não se pode ter certeza de coisa alguma. Assim, as
crenças convictas e firmes, seja no atomismo, na razão universal ou em
qualquer outra coisa, muito mais do que satisfação, geram dor e
incômodo, uma vez que podem sempre ser postas em xeque. A felicidade,
portanto,
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Exercícios
1. XI. Jamais, a respeito de coisa alguma, digas: “Eu a perdi”, mas sim: “eu a restituí”. O filho morreu? Foi
restituído. A mulher morreu? Foi restituída. “A propriedade me foi subtraída”, então também foi
restituída. “Mas quem a subtraiu é mau”. O que te importa por meio de quem aquele que te dá a pede
de volta? Na medida em que ele der, faz uso do mesmo modo de quem cuida das coisas de outrem.
Do mesmo modo como fazem os que se instalam em uma hospedaria.
EPICTETO. Encheirídion. In: DINUCCI, A. Introdução ao Manual de Epicteto. São Cristóvão: UFS, 2012 (adaptado).
2. Pirro afirmava que nada é nobre nem vergonhoso, justo ou injusto; e que, da mesma maneira, nada
existe do ponto de vista da verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o costume, nada
sendo mais isto do que aquilo. Ele levou uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando evitar
e não se desviando do que quer que fosse, suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, cães,
nada deixando ao arbítrio dos sentidos.
LAÉRCIO, D. Vidas e sentenças dos filósofos Ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.
3. Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem
naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não
satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter
sua satisfação ou parecem geradores de dano.
EPICURO DE SAMOS. Doutrinas principais. In: SANSON, V. F. Textos de filosofia. Rio de Janeiro: Eduff, 1974.
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4. Em meados do século IV a.C., Alexandre Magno assumiu o trono da Macedônia e iniciou uma série de
conquistas e, a partir daí, construiu um vasto império que incluía, entre outros territórios, a Grécia.
Essa dominação só teve fim com o desenvolvimento de outro império, o romano. Esse período ficou
conhecido como helenístico e representou uma transformação radical na cultura grega. Nessa época,
um pensador nascido em Élis, chamado Pirro, defendia os fundamentos do ceticismo. Ele fundou uma
escola filosófica que pregava a ideia de que:
a) seria impossível conhecer a verdade.
b) seria inadmissível permanecer na mera opinião.
c) os princípios morais devem ser inferidos da natureza.
d) os princípios morais devem basear-se na busca pelo prazer.
e) que os princípios morais são definidos por Deus.
Assinale a sentença do filósofo grego Epicuro cujo significado é o mais próximo da letra da canção
“Filosofia”, composta em 1933 por Noel Rosa, em parceria com André Filho.
a) É verdadeiro tanto o que vemos com os olhos como aquilo que apreendemos pela intuição mental.
b) Para sermos felizes, o essencial é o que se passa em nosso interior, pois é deste que nós somos
donos.
c) Para se explicar os fenômenos naturais, não se deve recorrer nunca à divindade, mas se deve
deixá-la livre de todo encargo, em sua completa felicidade.
d) As leis existem para os sábios, não para impedir que cometam injustiças, mas para impedir que
as sofram.
e) A natureza é a mesma para todos os seres, por isso ela não fez os seres humanos nobres ou
ignóbeis, e, sim suas ações e intenções.
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6. Em relação às Escolas Helenísticas e Imperiais, enumere a segunda coluna de acordo com a primeira.
1 - Cinismo.
2 - Epicurismo.
3 - Estoicismo.
4 - Ceticismo.
( ) Fundada por Zenão de Citium, ensinava em Atenas na Stoa Poikilê. Entre seus representantes na
Roma Imperial, destacaram-se Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio.
( ) Desenvolveu uma argumentação para mostrar que é necessário suspender o juízo, recusar sua
adesão a todo dogma e alcançar, assim, a tranquilidade da alma. Em Roma, Sexto Empírico foi
considerado um dos seus representantes e escreveu Esboços Pirrônicos.
( ) Devedora da cosmologia desenvolvida por Demócrito de Abdera, construiu uma física materialista
e explicou que o Universo é formado por átomos e pelo vazio. Em Atenas, tinha sua Escola no local
chamado Jardim. Lucrécio foi seu grande representante em Roma.
( ) Seus membros menosprezaram as regras sociais, não se preocupando com normas de condutas.
Destacaram-se como alguns de seus maiores representantes, Diógenes de Sínope e Hipárquia.
A sequência correta é
a) 1, 2, 3, 4.
b) 3, 4, 2, 1.
c) 3, 1, 4, 2.
d) 3, 2, 1, 4.
e) 4, 1, 2, 3.
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8. É preciso dar-se conta de que dentre nossos desejos uns são naturais, os outros vãos, e que dentre
os primeiros há os que são necessários e outros que são somente naturais. Dentre os necessários, há
os que o são para a felicidade, outros para a tranquilidade contínua do corpo, outros, enfim, para a
própria vida. Uma teoria não errônea desses desejos sabe, com efeito, reportar toda preferência e toda
aversão à saúde do corpo e à tranquilidade da alma, posto que aí reside a própria perfeição da vida
feliz. Porque todos os nossos atos visam afastar de nós o sofrimento e o medo [...]
(Epicuro, Doutrinas e máximas. In: [Link]. Os filósofos através dos textos. São Paulo, Paulus, 1997, p. 43)
De acordo com o filósofo hedonista Epicuro (341-270 a.C) para garantir uma vida feliz e ter uma boa
saúde é necessário cultivar o hábito de...
a) ... buscar o prazer nos exercícios espirituais e na mortificação do corpo.
b) ... evitar as perturbações da alma, cultivar amizades e preservar a liberdade.
c) ... rejeitar a maneira simples e pouco custosa de viver.
d) ... gozar todos os prazeres em todas as circunstâncias.
e) ... conquistar tudo o que se deseja e viver sem contrariedades.
9. “Alexandre desembarca lá onde foi fundada a atual cidade de Alexandria. Pareceu-lhe que o lugar era
muito bonito para fundar uma cidade e que ela iria prosperar. A vontade de colocar mãos à obra fez
com que ele próprio traçasse o plano da cidade, o local da Ágora, dos santuários da deusa egípcia Ísis,
dos deuses gregos e do muro externo.”
Flávio Arriano. Anabasis Alexandri (séc. I d.C.).
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10. A respeito da civilização helenística escreveu o erudito Paul Petit: “Não se poderá negar a originalidade
da civilização helenística; basta comparar a acrópole de Pérgamo à de Atenas, a história de Políbio à
de Tucídides, o estoicismo ao platonismo.”
(Idel Becker. Pequena História da Civilização Ocidental)
Quanto ao estoicismo, mencionado no texto, uma das escolas filosóficas mais importantes, em se
tratando da filosofia helenística, é correto afirmar que:
a) considerava que a felicidade do homem consistia no prazer, mas distinguia entre os falsos
prazeres materiais e o verdadeiro prazer que se pode alcançar pela renúncia àqueles.
b) julgava que as coisas do mundo físico, que se percebem pelos sentidos, nada mais são do que
cópias das idéias, modelos perfeitos e eternos que só podem ser percebidos pelo espírito.
c) considerava que o mundo material existia objetivamente e a natureza não dependia de idéia
alguma, assim as formas não se situavam num mundo exterior mais elevado e acima dos
fenômenos, mas existiam nas próprias coisas.
d) propunha que o segredo da felicidade residia, não na procura sôfrega do prazer, mas no perfeito
equilíbrio do espírito, que permite aceitar com a mesma serenidade a sorte ou a desgraça, a
riqueza ou a pobreza, o prazer ou a dor.
e) duvidava de tudo e negava que o homem pudesse alcançar a verdade, sendo assim o homem
deveria desistir das infrutíferas cogitações sobre a verdade absoluta e deixar de preocupar-se,
meditando sobre o bem e o mal. Só a renúncia a toda e qualquer certeza pode trazer a felicidade.
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Gabarito
1. C
A principal característica do estoicismo que está presente neste trecho citado na questão é a aceitação
do destino com resignação, com serenidade.
2. C
O ceticismo é uma corrente de conhecimento que defende que o homem não é capaz de alcançar
nenhuma certeza sobre a verdade, o que causa uma dúvida constante e uma incapacidade de conhecer
qualquer tema.
3. A
A doutrina epicurista é uma doutrina do prazer. O caminho da felicidade está na tranquilidade e na
ausência da dor. Mas não se trata de buscar irrefreadamente o prazer. A satisfação ilimitada e imeditada
de desejos causa mais dor que felicidade. Então o prazer epicurista está submetido a racionalidade, a
natureza e a necessidade. Por isso, o prazer deve ser moderado pela crítica da razão humana.
4. A
Também chamado de ceticismo prático, o pirronismo baseia-se na ideia de que é impossível conhecer
a realidade, que é sempre contingente e mutável. Assim, o que restaria ao homem seria renunciar a
busca pela verdade, exatamente como se afirma na alternativa A.
5. B
Fica evidente na canção de Noel Rosa que a forma como o sambista propõe uma conduta e uma postura
frente a vida está conectada com desejo considerados necessários para o epcurismo. Dedicando-se a
si, sua elevação e à música, o sambista admite uma conduta livre de falsas necessidades como riqueza
e poder, que não trazem alegria.
6. B
1 - Cinismo - Doutrina que defende o menosprezo pelas regras sociais, que se configuram como formas
de limitar o homem de alcançar seu próprio estatuto de ser humano, já que o distancia de sua natureza
e faz com que viva sob a égide de hipocrisias e incoerências. Ter riqueza, prestígio e poder não levam à
felcicidade, ao contrário, nos afastam de seu caminho
2 - Epicurismo - Defende que a felicidade se alcança pela satisfação de desejos. No entanto, essa
doutrina recohece que os desejos imediatos, submetidos à paixão e ilimitados são nocivos, pois nos
prendem num ciclo de satisfação inquebrável, levando à frustração. Devemos nos concentrar naquilo
que está ao nosso alcance e no que é simples, básico, indispensável.
3 - Estoicismo. - Essa doutrina defende que o mundo é regido por uma ordem lógica comparável à um
divindade, o que torna o destino produto da ação dessa ordem. Assim, agir contra o destino lutando por
nossos desejos e, principalmente, pelo que está fora do nosso alcance, é irracional e traz dor. Devemos
amar o destino, pois ele vem da logos e tudo que é racional é bom.
4 - Ceticismo. Não existe possibilidade de encontrar uma verdade absoluta para o cético. Isso significa
que qualquer afirmação ou julgamento sobre algo que não seja evidente e imediatamente demonstrável
não faz sentido. Devemos então suspender o juízo sobre essas coisas e focar em compreender aquilo
que podemos realmente conhecer, uma parcela limitada da verdade.
7. C
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Filosofia
A máxima da proposta epicurista visa a ataraxia (imperturbabilidade da alma) através da busca pelos
prazeres. Porém, este prazer deveria ser alcançado através da virtude da temperança que demonstra a
moderação da vontade e dos prazeres.
8. B
O epicurismo estabelece que a felicidade só pode ser alcançada através dos desejos. No entanto,
destaca que a entrega às paixões e aso desejos exagerados e imediatos afastam o homem da condição
de ataraxia. Para alcançar a plenitude, é importante hierarquizar a vontade, controlar as paixões e se
dedicar a atividades agradáveis ao intelecto, como a postura descrita na alternativa B
9. A
O ponto de partida para a formação das filosofias helenistas foi um fator histórico muito concreto: o
domínio de Alexandre Magno sobre a Grécia e todo Oriente, sepultando o regime das cidades-Estado e
fundindo a cultura grega com as orientais.
10. D
A realidade, ou existência, ou mundo, qualquer das concepções da experiência humana é regida por uma
razão superior para os estoicos. A própria ideia de Deus para eles é a fonte da razão que ordena as
ideias e o mundo. Sendo assim, não há para onde ir, para onde fugir e como se esconder dessa ordem.
O que aceontece no mundo e conosco segue essa ordem. Lutar contra ela é é ínutil e causa dor. Ocorre
que essa ordem nem sempre segue nossos desejos, então o que devemo fazer para ser feliz é negar os
desejos e não se afetar, seja pelo que consideramos bom ou ruim para nós.
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Filosofia / Sociologia
Patrísticas
Resumo
A Patrística (I - V) , foi a primeira fase da Filosofia Medieval, nela, os pensamentos dos padres da Igreja foram
basal. Os sacerdotes dos primeiros séculos foram responsáveis pela difusão e defesa da fé. Com eles, os
cristãos aprenderam a fidelidade ao magistério. Muitos clérigos tiveram contato com o pensamento clássico
grego e por isso trouxeram as influências filosóficas gregas para o âmbito religioso.
Os padres da igreja fizeram grandes apologias, estas eram discursos feitos para embasar e defender o
catolicismo. Os apologistas buscavam a sensibilização dos judeus e o combate das heresias. A necessidade
de persuadir os hebreus e hereges fazia com que os sacerdotes lançassem mão de um discurso que versasse
com a filosofia e assim fosse duplamente racional e religioso.
A existência de Deus
Já na era medieval a ideia da existência de Deus ser tratada apenas como um problema de fé, ou seja, não
seria possível prová-la racionalmente, era bem difusa. Agostinho defendia que se esta fosse apenas uma
questão de fé, seria uma questão subjetiva, não haveria uma verdade estabelecida sobre o assunto. Para o
Bispo, este era um dado de fé provado pela razão.
Agostinho, para embasar sua teoria, categoriza os seres em insensíveis (as pedras), sensíveis (os animais),
ser racional (o homem) e Deus (verdade superior). Nessa categorização o homem está acima dos insensíveis
e dos meramente sensíves, por possuir a razão, atributo indispensável para emitir juízos sobre a sensibilidade,
para dominá-la. Porém os seres racionais estão abaixo de Deus que é a verdade mais excelente.
O Problema do Mal
Para o cristianismo, o homem é fruto do amor de Deus, que em sua infinita bondade, nos criou. Mas de onde
viria o mal se Deus é infinitamente bom? Seria um castigo, uma punição pelo mau uso do livre arbítrio e pecado
no paraíso? Para Agostinho, o maniqueísmo (crença que prega a existência concreta do mal) era falso. Para
resolver o problema o Santo divide o mal em três tipos: metafísico, moral e físico.
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Filosofia / Sociologia
Para o bispo de Hipona o mal não existia. Não havia um ser, uma entidade que pudéssemos chamar de "o
mal", mas era na verdade a privação do bem. assim foi explicado o primeiro tipo.
O mal moral é o pecado. Homem foi criado para viver em intimidade com Deus, por isso recebeu de seu criador
o livre-arbítrio, para que espontaneamente se ligasse a Ele, mas escolheu o pecar. No paraíso, por orgulho e
prepotência, a humanidade decidiu não depender de Deus.
O mal físico é o resultado do mal moral, do pecado. O homem é livre e pode escolher fazer sempre o bem e
nem por isso abre mão de seus pecados. As doenças e a morte são consequências do afastamento de Deus.
Cidade de Deus
Para Agostinho há duas cidades: a cidade dos homens, onde reina o pecado, a injustiça e a morte; a cidade
de Deus, onde abunda a justiça, a felicidade e a paz. Os santos e aqueles que vivem na fidelidade da fé estão
destinados à pátria celeste, já os pecadores ficam sob o jugo do Diabo na cidade mundana.
Segundo o Santo, um dia a cidade de Deus iria prevalecer sobre a cidade mundana. Durante muito tempo a
Igreja usou essa teoria para intervir nas questões políticas.
O Tempo
O homem é dotado de livre-arbítrio, ou seja, tem liberdade para fazer o que quiser; Deus é onisciente, isto é,
perscruta a mente humana e conhece todos os seus passos. Como é possível haver liberdade se Ele já sabe
tudo o que vamos fazer? Se Deus sabe o que vamos fazer então tudo já está determinado? Para Agostinho, o
homem e seu criador vivem em dimensões diferentes. Estamos no tempo, onde Há a transitoriedade e Deus
está na Eternidade que é anterior e maior do que o tempo e por isso, ele não precisa esperar para formar seus
julgamentos.
Teoria da Iluminação
Dentre os pensadores medievais, Agostinho é de longe o mais platônico. A dicotomia platônica aparece
fortemente em suas teorias, mas na ideia da iluminação divina a oposição entre mundo sensível e verdades
imutáveis fica mais clara.
A alma é eterna e assim sendo é capaz de acessar às verdades imutáveis, o grande problema é que o corpo,
com seus sentidos, são dispersos e imperfeitos. Assim como em Platão, na teoria agostiniana, a alma tem
primazia sobre o corpo. O homem, através de sua mente é capaz de intuir a verdade, daí vem a prova da
existência de Deus para o autor. se mesmo imperfeitos somos capazes de intuir a verdade é porque existe a
verdade absoluta que ilumina a nossa mente.
Como o sol ilumina a terra, Deus ilumina a mente humana para que ela alcance a verdade. Para Agostinho,
todo conhecimento é por graça de Deus, mesmo um ateu só pode alcançar a verdade pela graça.
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Filosofia / Sociologia
Exercícios
1. A Patrística (séculos II ao V d.C.) é o movimento intelectual dos primeiros padres da Igreja, destinado
a justificar a fé cristã, tendo em vista a conversão dos pagãos. Sobre a Patrística pode-se afirmar, com
certeza:
I. Assume criticamente elementos da filosofia platônica na tentativa de melhor fundamentar a
doutrina cristã.
II. Considera que as verdades da razão estão sempre em contradição com as verdades reveladas por
Deus.
III. Incorpora as teses da metafísica aristotélica para fundar uma teologia estritamente racionalista.
IV. Considera a razão como auxiliar da fé e a ela subordinada, tal como expressa a frase de Sto.
Agostinho "creio porque entendo".
a) II e IV são corretas
b) I e IV são corretas
c) III e IV são corretas
d) Apenas II é correta
e) Apenas I é correta.
2. A patrística surge no séc. II d.c. e estende-se por todo o período medieval conhecido como alta Idade
Média. É considerada a filosofia dos Padres da Igreja. Entre seus objetivos encontramos a conversão
dos pagãos, o combate às heresias e a consolidação da doutrina cristã. Sobre a patrística, assinale o
que for correto.
I. A patrística deixa de ser predominante como doutrina do cristianismo quando, a partir do séc. IX,
surge uma nova corrente filosófica denominada escolástica, que atinge o apogeu no séc XIII.
II. Fundador da patrística, o apóstolo São Paulo escreveu o livro Confissões, razão pela qual é
considerado o primeiro filósofo cristão.
III. Vários pensadores da patrística, entre eles Santo Agostinho, tomam ideias da filosofia clássica
grega, particularmente de Platão, que são adaptadas às necessidades das verdades expressas
pela teologia cristã.
IV. A aliança que a patrística estabelece entre fé e razão caracteriza-se por um predomínio da fé sobre
a razão; em Santo Agostinho, a razão é auxiliar da fé e a ela subordinada.
V. A leitura dos filósofos árabes, entre eles Averróis, ajudou Santo Agostinho a compreender os
princípios da filosofia de Aristóteles, sem a qual Santo Agostinho não poderia construir seu próprio
sistema filosófico.
a) I e IV são corretas
b) I, III e IV são corretas
c) II e IV são corretas
d) Apenas II é correta
e) Apenas I é correta.
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Filosofia / Sociologia
3. “A filosofia de Agostinho (354 – 430) é estreitamente devedora do platonismo cristão milanês: foi nas
traduções de Mário Vitorino que leu os textos de Plotino e de Porfírio, cujo espiritualismo devia
aproximá-lo do cristianismo. Ouvindo sermões de Ambrósio, influenciados por Plotino, que Agostinho
venceu suas últimas resistências (de tornar-se cristão)”.
PEPIN, Jean. Santo Agostinho e a patrística ocidental. In: CHÂTELET, François (org.) A Filosofia medieval. Rio de Janeiro
Zahar Editores: 1983, p.77.
Apesar de ter sido influenciado pela filosofia de Platão, por meio dos escritos de Plotino, o pensamento
de Agostinho apresenta muitas diferenças se comparado ao pensamento de Platão.
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, uma dessas diferenças:
a) Para Agostinho, é possível ao ser humano obter o conhecimento verdadeiro, enquanto, para Platão,
a verdade a respeito do mundo é inacessível ao ser humano.
b) Para Platão, a verdadeira realidade encontra-se no mundo das Ideias, enquanto para Agostinho
não existe nenhuma realidade além do mundo natural em que vivemos.
c) Para Agostinho, a alma é imortal, enquanto para Platão a alma não é imortal, já que é apenas a
forma do corpo.
d) Para Platão, o conhecimento é, na verdade, reminiscência, a alma reconhece as Ideias que ela
contemplou antes de nascer; Agostinho diz que o conhecimento é resultado da Iluminação divina,
a centelha de Deus que existe em cada um.
e) Para Agostinho, é possível alcançar o conhecimento verdadeiro através dos sentidos, enquanto
para Platão, apenas através da fé.
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Filosofia / Sociologia
5. “Na medida em que o Cristianismo se consolidava, a partir do século II, vários pensadores, convertidos
à nova fé e, aproveitando-se de elementos da filosofia greco-romana que eles conheciam bem,
começaram a elaborar textos sobre a fé e a revelação cristãs, tentando uma síntese com elementos da
filosofia grega ou utilizando-se de técnicas e conceitos da filosofia grega para melhor expor as
verdades reveladas do Cristianismo. Esses pensadores ficaram conhecidos como os Padres da Igreja,
dos quais o mais importante a escrever na língua latina foi Santo Agostinho.”
COTRIM, Gilberto. Fundamentos de Filosofia: Ser, Saber e Fazer. São Paulo: Saraiva, 1996, p. 128. (Adaptado)
Esse primeiro período da filosofia medieval, que durou do século II ao século X, ficou conhecido como
a) Escolástica.
b) Neoplatonismo.
c) Antiguidade tardia.
d) Patrística.
e) Helenismo.
6. A Patrística foi a Filosofia Cristã dos primeiros séculos de nossa era. Consistia na elaboração doutrinal
das crenças religiosas do cristianismo e na sua defesa contra os ataques dos pagãos e contra as
heresias. Dado o encontro entre a nova religião e o pensamento filosófico greco- romano, o grande
tema da Filosofia Patrística foi o da possibilidade ou impossibilidade de conciliar fé e razão. Santo
Agostinho, expoente dessa filosofia, sobre a relação fé e razão, defendia a tese que se pode resumir
nesta frase: "Credo ut intelligam" (Creio para entender). A esse respeito, assinale o que for correto.
I. Santo Agostinho retoma a célebre teoria platônica das Idéias à luz do cristianismo e formula a
teoria da iluminação segundo a qual o homem recebe de Deus o conhecimento das verdades
eternas: à semelhança do sol, Deus ilumina a razão e torna possível o pensar correto.
II. De acordo com Santo Agostinho, a razão é superior e precede a fé; pois, se o homem, ser racional,
for incapaz de entender os ensinamentos religiosos, não poderá acreditar neles.
III. Segundo Santo Agostinho, a fé não conflita com a razão, esta última seria auxiliar da fé e estaria a
ela subordinada.
IV. Para Santo Agostinho, fé e razão são inconciliáveis, pois os mistérios da fé são insondáveis e
manifestam-se como uma loucura para a razão humana.
V. A fé, para Santo Agostinho, não oprime a razão, mas, ao contrário, abre-lhe os olhos que a falta de
fé mantinha fechados. A partir dos princípios da fé, a razão, por suas próprias forças, deduzirá
consequências e tentará resolver os problemas que Deus deixou para nossas livres discussões.
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Filosofia / Sociologia
Segundo o pensamento de Santo Agostinho, as verdades contidas na filosofia pagã provêm de que
fonte? Assinale a alternativa correta.
a) De fonte diferente de onde emanam as verdades cristãs, pois há oposição entre as verdades pagãs
e as verdades cristãs.
b) Da mesma fonte de onde emanam as verdades cristãs, pois não há oposição entre as verdades
pagãs e cristãs.
c) De Platão, por ter chegado a conceber a ideia Suprema do Bem.
d) De Aristóteles, por ter concebido o Ser Supremo corno primeiro motor imóvel.
e) Do epicurismo e sua teoria dos prazeres moderados pela razão.
8. "Assim até as coisas materiais emitem um juízo sobre as suas formas, comparando-as àquela Forma
da eterna Verdade e que intuímos com o olhar de nossa mente."
Sto. Agostinho, A Trindade, Livro IX, Capítulo 6. São Paulo, Paulus, 1994. p. 299
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Filosofia / Sociologia
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Filosofia / Sociologia
Gabarito
1. B
Ao contrário do que diz II, os Santos Padres acreditavam na união entre fé e razão. Ao contrário do que
diz III, os Santos Padres tinham grande influência de Platão, não de Aristóteles, e sua teologia não era
estritamente racionalista, uma vez que punha a fé acima da razão.
2. B
Ao contrário do que diz (II), São Paulo pertence ao período apostólico, anterior ao patrístico, e não foi
filósofo. Além disso, quem escreveu “Confissões” foi Santo Agostinho. Por sua vez, o que se diz em (V)
vale para Santo Tomás de Aquino, mas não para Agostinho, que era platônico, não aristotélico, e que
viveu e morreu antes de Averróis.
3. D
Agostinho rejeitou a teoria da reminiscência pois estava implicava uma existência da alma anterior ao
corpo, além de certa espécie de reencarnacionismo, e isso é negado pela doutrina cristã. Assim, a própria
iluminação divina se torna a fonte do saber.
4. B
Agostinho rejeitava tanto a reencarnação, quanto a ideia de uma existência da alma anterior ao corpo.
Para ele, o homem percebe a verdade dentro de si, por sua própria razão, mas sempre a partir de uma
iluminação conferida por Deus.
5. D
Enquanto a escolástica foi o período de desenvolvimento e aprofundamento do pensamento cristão, a
patrística foi o período de formação deste pensamento, em particular de esclarecimento da suas
controvérsias doutrinárias fundamentais, como aquelas referentes a Cristo e à Santíssima Trindade.
6. B
Diferente do que diz (II), para Agostinho, a fé é que superior à razão, por alcançar verdades maiores.
Entretanto, diferente também do que diz (IV), a superioridade da fé não a torna inconciliável com a razão.
Ao contrário, são conhecimentos distintos, mas harmônicos.
7. B
Para Santo Agostinho, não há real oposição entre fé e razão, uma vez que tanto as verdades naturais
quanto as verdades sobrenaturais têm uma mesma fonte: Deus, autor da razão e da fé.
8. C
Para Agostinho, o homem percebe a verdade dentro de si, por sua própria razão, mas sempre a partir de
uma iluminação conferida por Deus. A luz que ressoa dentro de cada homem é próprio Cristo, mesmo
que o sujeito não seja cristão.
9. B
Para Agostinho, o conhecimento é possível - e nesta vida. Segundo ele, o homem percebe a verdade
dentro de si, por sua própria razão, mas sempre a partir de uma iluminação conferida por Deus.
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Filosofia / Sociologia
10. C
Para Agostinho, o homem percebe a verdade dentro de si, por sua própria razão, mas sempre a partir de
uma iluminação conferida por Deus. A luz que ressoa dentro de cada homem é próprio Cristo, mesmo
que o sujeito não seja cristão
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Filosofia
Resumo
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Filosofia
Como vimos no início do resumo, a filosofia medieval busca uma conciliação entre fé e razão. Não foi
diferente no pensamento tomista. Tomás crê que Deus pode e deve ser provado pela mente humana, embora
a razão não seja capaz de conhecê-lo em sua totalidade. O que os sentidos não alcançam a fé deve completar.
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Filosofia
Exercícios
1. Desde que tenhamos compreendido o significado da palavra “Deus”, sabemos, de imediato, que Deus
existe. Com efeito, essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber nada que
lhe seja maior. Ora, o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no
pensamento. Donde se segue que o objeto designado pela palavra “Deus”, que existe no pensamento,
desde que se entenda essa palavra, também existe na realidade. Por conseguinte, a existência de Deus
é evidente.
TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica. Rio de Janeiro: Loyola, 2002.
O texto apresenta uma elaboração teórica de Tomás de Aquino caracterizada por
a) reiterar a ortodoxia religiosa contra os heréticos.
b) sustentar racionalmente doutrina alicerçada na fé.
c) explicar as virtudes teologais pela demonstração.
d) flexibilizar a interpretação oficial dos textos sagrados.
e) justificar pragmaticamente crença livre de dogmas.
2. "(...) de modo particular, quero encorajar os crentes empenhados no campo da filosofia para que
iluminem os diversos âmbitos da atividade humana, graças ao exercício de uma razão que se torna
mais segura e perspicaz com o apoio que recebe da fé."
Papa João Paulo II. Carta Encíclica Fides et Ratio aos bispos da Igreja católica sobre as relações entre fé e razão, 1998
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Filosofia
A Igreja Católica por muito tempo impediu a divulgação da obra de Aristóteles pelo fato de a obra
aristotélica
a) valorizar a investigação científica, contrariando certos dogmas religiosos.
b) declarar a inexistência de Deus, colocando em dúvida toda a moral religiosa.
c) criticar a Igreja Católica, instigando a criação de outras instituições religiosas.
d) evocar pensamentos de religiões orientais, minando a expansão do cristianismo.
e) contribuir para o desenvolvimento de sentimentos antirreligiosos, seguindo sua teoria política.
4. “A teologia natural, segundo Tomás de Aquino (1225-1274), é uma parte da filosofia, é a parte que ele
elaborou mais profundamente em sua obra e na qual ele se manifesta como um gênio verdadeiramente
original. Se se trata de física, de fisiologia ou dos meteoros, Tomás é simplesmente aluno de Aristóteles,
mas se se trata de Deus, da origem das coisas e de seu retorno ao Criador, Tomás é ele mesmo. Ele
sabe, pela fé, para que limite se dirige, contudo, só progride graças aos recursos da razão.”
GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 657.
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Filosofia
5. “Em sua teoria do conhecimento, Tomás de Aquino substitui a doutrina da iluminação divina pela da
abstração, de raízes aristotélicas: a única fonte de conhecimento humano seria a realidade sensível,
pois os objetos naturais encerrariam uma forma inteligível em potência, que se revela, porém, não aos
sentidos que só podem captá-la individualmente - mas ao intelecto.”
INÁCIO, Inês C. e LUCA, Tânia Regina de. O pensamento medieval. São Paulo: Ática, 1988, p. 74.
6. Santo Tomás de Aquino, nascido em 1224 e falecido em 1274, propôs as cinco vias para o
conhecimento de Deus. Estas vias estão fundamentadas nas evidências sensíveis e racionais. A
primeira via afirma que os corpos inanimados podem ter movimento por si mesmos. Assim, para que
estes corpos tenham movimento é necessário que algo os mova. Esta concepção leva à necessidade
de um primeiro motor imóvel, isto é, algo que mesmo não sendo movido por nada pode mover todas as
coisas.
Sobre a primeira via, que é a do movimento, marque a alternativa correta.
a) Para que os objetos tenham movimento é necessário que algo os mova; dessa forma, entende-se
que é necessário um primeiro motor. Logo, podemos entender que Deus não é necessário no
sistema.
b) Para Santo Tomás, os objetos inanimados movem-se por si mesmos e esse fenômeno demonstra
a existência de Deus.
c) A demonstração do primeiro motor não recorre à sensibilidade, dispensando toda e qualquer
observação da natureza, uma vez que sua fundamentação é somente racional.
d) Conforme o argumento da primeira via podemos concluir que Deus é o motor imóvel, o qual move
todas as coisas, mas não é movido.
e) Nada se move de verdade. Nossa percepção de mudança está baseada no conhecimento que
obtemos através dos sentidos, que são enganosos. Deus é perfeito, eterno e imutável, assim como
a existência que Ele gerou
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Filosofia
7. “Ora, em todas as coisas ordenadas a algum fim, é preciso haver algum dirigente, pelo qual se atinja
diretamente o devido fim. Com efeito, um navio, que se move para diversos lados pelo impulso dos
ventos contrários, não chegaria ao fim do destino, se por indústria do piloto não fosse dirigido ao porto;
ora, tem o homem um fim, para o qual se ordenam toda a sua vida e ação. Acontece, porém, agirem os
homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanas
comprova. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim.”
AQUINO. T. Do reino ou do governo dos homens: ao rei do Chipre. Escritos políticos de Santo Tomás de Aquino. Petrópolis:
Vozes, 1995 (adaptado).
No trecho citado, Tomás de Aquino justifica a monarquia como o regime de governo capaz de
a) refrear os movimentos religiosos contestatórios.
b) promover a atuação da sociedade civil na vida política.
c) unir a sociedade tendo em vista a realização do bem comum.
d) reformar a religião por meio do retorno à tradição helenística.
e) dissociar a relação política entre os poderes temporal e espiritual.
8. Em O ente e a essência, Tomás de Aquino argumenta sobre a existência de Deus, refutando teses de
outras doutrinas da filosofia escolástica. Com este propósito ele escreveu: “Tampouco é inevitável que,
se afirmarmos que Deus é exclusivamente ser ou existência, caiamos no erro daqueles que disseram
que Deus é aquele ser universal, em virtude do qual todas as coisas existem formalmente. Com efeito,
este ser que é Deus é de tal condição, que nada se lhe pode adicionar. (...) Por este motivo afirma-se
no comentário à nona proposição do livro Sobre as Causas, que a individuação da causa primeira, a
qual é puro ser, ocorre por causa da sua bondade. Assim como o ser comum em seu intelecto não inclui
nenhuma adição, da mesma forma não inclui no seu intelecto qualquer precisão de adição, pois, se isto
acontecesse, nada poderia ser compreendido como ser, se nele algo pudesse ser acrescentado."
AQUINO, Tomás. O ente e a essência. Trad. de Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 15. Coleção .Os
Pensadores..
Tomás de Aquino está seguro de que nada se pode acrescentar a Deus, porque
a) sua essência composta de essência e existência é auto-suficiente para gerar indefinidamente
matéria e forma, criando todas as coisas.
b) sua essência simples é gerada incessantemente, embora não seja composta de matéria e forma,
multiplica-se em si mesmo na pluralidade dos seres.
c) é essência divina, absolutamente simples e idêntica a si mesma, constituindo-se,
necessariamente, uma essência única.
d) é ser contingente, no qual essência e existência não dependem do tempo, por isso, gera a si
mesmo eternamente, dando existência às criaturas.
e) Porque a existência, ou substância, é composta pela essência – característica condicional – e
acidentes. Deus acumula todos os acidentes, seja ele considerado bom ou mau.
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Filosofia
9. A grande contribuição de Tomás de Aquino para a vida intelectual foi a de valorizar a inteligência
humana e sua capacidade de alcançar a verdade por meio da razão natural, inclusive a respeito de
certas questões da religião. Discorrendo sobre a "possibilidade de descobrir a verdade divina", ele diz
que há duas modalidades de verdade acerca de Deus. A primeira refere-se a verdades da revelação que
a razão humana não consegue alcançar, por exemplo, entender como é possível Deus ser uno e trino.
A segunda modalidade é composta de verdades que a razão pode atingir, por exemplo, que Deus existe.
A partir dessa citação, indique a afirmativa que melhor expressa o pensamento de Tomás de Aquino.
a) A fé é o único meio do ser humano chegar à verdade.
b) O ser humano só alcança o conhecimento graças à revelação da verdade que Deus lhe concede.
c) Mesmo limitada, a razão humana é capaz de alcançar certas verdades por seus meios naturais.
d) A filosofia é capaz de alcançar todas as verdades acerca de Deus.
e) Deus é um ser absolutamente misterioso e o ser humano nada pode conhecer d’Ele.
Sobre as cinco vias da prova da existência de Deus, elaboradas por Tomás de Aquino, assinale a
alternativa INCORRETA.
a) Nos argumentos de Tomás de Aquino sobre a existência de Deus, pode-se perceber a influência
dos escritos de Aristóteles em seu pensamento.
b) Segundo a prova teleológica, tudo que obedece a uma finalidade pressupõe uma inteligência que
o criou com tal finalidade, como o carpinteiro em relação a uma mesa; ora, percebemos a
finalidade no Universo (todas as criaturas têm uma finalidade); logo, Deus é o princípio que dá essa
finalidade ao Universo.
c) Segundo a prova que se baseia no movimento, Deus é considerado o motor imóvel, isto é, como a
causa primeira do movimento que percebemos no mundo, e deve ser imóvel para evitar o regresso
ao infinito.
d) Qualquer pessoa que consiga compreender os argumentos das cinco vias conhecerá, com certeza
evidente, a essência de Deus.
e) É prova irrefutável da existência de Deus a possibilidade de algo ser melhor ou pior. Isso porque
só se pode ser melhor ou pior em comparação e a existência que estabelece o padrão sendo o
grau máximo de perfeito é Deus.
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Filosofia
Gabarito
1. B
O período medieval foi marcado por uma tentativa de conciliar o pensamento racional com a fé cristã. O
filósofo Tomás de Aquino foi expoente do período da Escolástica medieval.
2. E
A ideia central de ambos os textos é idêntica: tanto fé quanto razão são dons de Deus e, portanto, não
devem ser vistos como opostos, mas como complementares. Esse é o próprio espírito da filosofia
medieval.
3. A
Antes de ser definitivamente assumida e aceita como referência da filosofia cristã escolástica, o
pensamento de Aristóteles foi visto como desconfiança pela Igreja, uma vez que defendia teses
incompatíveis com a fé católica, como a eternidade do mundo e a indiferença de Deus em relação às
suas criaturas.
4. D
Tal como todos os grandes filósofos medievais, Santo Tomás teve como grande projeto revelar a unidade
entre fé e razão. No seu caso, tratava-se de conciliar em especial a doutrina cristã com a filosofia de
Aristóteles.
5. A
Santo Tomás afirmou que a teoria agostiniana da iluminação divina só era verdadeira no campo do
conhecimento sobrenatural. Quanto ao saber puramente natural, Aristóteles estaria certo: nosso
conhecimento não dependeria de qualquer auxílio divino, mas sim seria fruto de nosso próprio intelecto,
a partir dos dados fornecidos pelos sentidos.
6. D
As provas racionais da existência de Deus elaboradas por Santo Tomás sempre partem dos dados dos
sentidos. No caso da primeira via, a referência é à experiência do movimento, que todos possuímos.
Segundo Tomás, não poderia haver movimento no mundo, sem a existência de um Primeiro Motor
Imóvel: Deus.
7. C
Para Santo Tomás, não apenas a monarquia, mas todos os regimes políticos só se justificam como
senso autoridades responsáveis pelo bem comum. Trata-se de um exemplo claro da concepção política
clássica, pré-moderna, que era comunitária, em contraposição à visão política moderna, liberal,
essencialmente individualista.
8. C
Para Santo Tomás, Deus não apenas existe, como ele também é o único Ser que existe plenamente. Isso
significa que, enquanto, nas criaturas, uma coisa é sua essência e outra coisa é existir, em Deus, por sua
vez, a própria essência é existir.
9. C
A afirmativa A está incorreta porque Tomás de Aquino também acredita na razão para se chegar a
algumas verdades, por exemplo, que Deus existe. A alternativa B está incorreta pelo mesmo motivo; não
só através de Deus o homem chega à revelação. A alternativa C está correta, pois o homem pode alcançar
certas verdades por meios naturais, sem necessidade da revelação divina. A alternativa D está incorreta
porque, para Tomás de Aquino, algumas verdades só são alcançadas pela revelação divina, como o fato
de Deus ser uno e trino ao mesmo tempo. E a afirmativa E está incorreta porque nega a possibilidade do
ser humano conhecer algo sobre Deus, o que contraria o pensamento do filósofo.
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Filosofia
10. D
A, B e C – Corretas. Podemos perceber a influência de Aristóteles no pensamento de Santo Tomás a
partir do argumento do princípio motor, aquele que é princípio imóvel que dá movimento a todas as
coisas (Deus). D – Incorreta. Não é possível a nenhum homem conhecer a essência de Deus, mesmo
que ele tome como verdadeiro o argumento das cinco vias, aliás, o argumento das cinco vias se dá
exatamente porque há uma necessidade de conhecer Deus ao mesmo tempo que há a impossibilidade
de fazê-lo.