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III Seminário Nacional sobre Comportamento Político:


Valores e Democracia na América Latina

Representação de interesses em regimes ditatoriais:


um estudo sobre o Departamento Administrativo
do Estado de São Paulo (1939-1946)

Adriano Nervo Codato


(UFPR/USP)

Florianópolis
junho de 1997
2

I. O problema
Em oito de abril de 1939, Getúlio Vargas anotou no seu Diário:
“Também não saí [do Palácio do Catete]. Pela tarde, recebi um jornalista francês, depois o
Vilela [Orlando Bandeira Vilela, chefe de gabinete do Ministro da Fazenda, Arthur de Souza
Costa], a quem entreguei o decreto que modifica a política cambial, e o Osvaldo [Aranha],
com quem tratei da situação internacional e da viagem do general Góis [Monteiro]. Assinei o
decreto sobre a administração dos estados e municípios. Recebi também o [Raul] Bopp, com
quem estive tratando da escolha dos nomes para o Conselho de Comércio Exterior” (Vargas,
1995, Vol. II, p. 215).
O segundo decreto a que Vargas se refere rapidamente, “sobre a administração dos estados e
municípios”, era o decreto-lei n 1 202 (DOU 10/04/1939), e pode bem ser considerado, de acordo
com Karl Loewenstein, “as the organic law for the relations between the national government and
the states” (Loewenstein, 1944, pp. 61-62). O referido decreto dispunha principalmente sobre a
criação dos “Departamentos Administrativos” dos estados — uma inovação institucional cuja
originalidade não pode ser desconsiderada, ainda conforme Loewenstein. Constituídos por uns
poucos membros nomeados pelo próprio Presidente da República (no mínimo quatro, no máximo
dez), sua função deveria ser a de examinar todos os projetos de decretos-leis a serem baixados pelo
interventor ou pelos prefeitos, além dos projetos de orçamento e a execução orçamentária do
estado e dos municípios. Bastaria, de acordo com o documento legal, que dois terços dos
representantes desse Departamento Administrativo se opusessem às medidas dos Executivos
municipais ou da Interventoria Federal para barrar suas decisões, cabendo, contudo, a deliberação
final, caso houvesse recurso dos interessados, ao próprio Presidente Vargas que seria informado
pessoalmente dos possíveis processos pelo Ministro da Justiça.
De fato, na engenharia institucional do Estado Novo, o recém-editado “Código Administrativo”
— ou “Código dos Interventores” — fez desse aparelho o substituto prático dos órgãos de
representação política, inexistentes desde a decretação da Constituição de 1937. Como lembrou
Boris Fausto,
“O Estado Novo concentrou a maior soma de poderes [...] da história do Brasil independente.
A inclinação centralizadora, revelada desde os primeiros meses após a Revolução de 1930,
realizou-se plenamente. Os estados passaram a ser governados por interventores, eles
próprios controlados, a partir de um decreto-lei de abril de 1939, por um departamento
administrativo. Esse departamento era uma espécie de substituto das Assembléias estaduais,
pois o orçamento e todos os decretos-leis dos interventores dependiam de sua aprovação para
serem expedidos” (Fausto, 1995, p. 366; cf. igualmente Fausto, 1972, pp. 87-88).
Como se sabe, a Constituição de 1937 dissolvera a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, as
Assembléias Legislativas dos estados e as Câmaras Municipais (art. 178), atribuindo ao Presidente
da República “o poder de expedir decretos-leis sobre todas as matérias da competência legislativa
da União” (art. 180). Os governadores (“interventores”) dos estados, por sua vez, deveriam exercer,
enquanto não se reunissem as Assembléias Legislativas, “as funções destas nas matérias da
competência dos estados” (art. 181). Na prática, todas as medidas de natureza legislativa seriam
transferidas para o Executivo federal (cf. observação de Pontes de Miranda, 1938), pois caberia a
Vargas a indicação — segundo o princípio estrito da lealdade pessoal — dos interventores
estaduais.
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Esse ato, juntamente com as demais medidas de exceção contidas nas “Disposições transitórias
e finais” da Carta redigida por Francisco Campos, inflacionou ainda mais a influência de Vargas,
concretizando o processo de centralização política e esvaziamento do poder das oligarquias
regionais através de um controle bastante severo da autonomia política, econômica e tributária,
administrativa, militar dos diversos estados da federação.
Mas se essa fórmula autoritária pretendia resolver certos problemas colocados pelos círculos
dirigentes do regime — tais como: a “caótica rivalidade partidária”, o “caudilhismo regional”, “a
extremação de conflitos ideológicos”, a “infiltração comunista”, o “clientelismo parlamentar” —,
acabava criando outros, mais delicados. Ao eliminar o sufrágio universal e as liberdades
individuais, os direitos políticos e a liberdade de imprensa e, posteriormente, tornar ilegais os
partidos políticos, reduzia-se, nesse movimento, não somente as bases de apoio ao regime, mas
também os canais de vocalização de interesses, fazendo do sistema político uma estrutura rígida e
inflexível. Assim, ao longo do tempo tornou-se urgente criar alguma instituição representativa que
pudesse, ao mesmo tempo, articular e agregar interesses, acomodando a complexidade das
situações políticas regionais, divididas e subdivididas em cliques e grupos rivais submetidos
exclusivamente ao reduzido jogo político dos interventores. A instituição dos Departamentos
Administrativos dos estados em 1939 parece expressar esse desígnio. Mas não só. A função
fiscalizadora atribuída ao aparelho sugeria a preocupação de Vargas em dotar o sistema político de
um mecanismo de contrapeso ao poder dos interventores, onde ele próprio surgisse como o árbitro
final das disputas intra-regionais. O texto que se segue pretende explicitar melhor alguns aspectos
desses problemas.
II. A discussão na literatura pertinente
II.1 Uma visão geral dos estudos sobre o Estado Novo
O Estado Novo foi, de acordo com Vamireh Chacon, “um dos períodos menos estudados, em
seu conjunto e contexto, no Brasil. Ele só aparece diluído em pesquisas mais amplas, pouco
recebendo atenção específica” (Chacon, 1977, p. 40). Um inventário mais ou menos recente sobre o
tema enfatizou, igualmente, o relativo desprezo da bibliografia especializada diante do intervalo
1937-1945. Assim,
“apesar da importância que o Estado Novo tem como tal, ele é, muitas vezes, diluído num
contexto maior chamado „primeiro governo Vargas‟ que se estende desde a Revolução de
1930 até o golpe de 1945. E onde se faz a distinção entre as várias fases deste „primeiro
governo‟, as fases anteriores foram privilegiadas em confronto com a fase final, ou seja, com
o Estado Novo” (Gertz, 1991, pp. 111-112).
Seria supérfluo enumerar aqui as razões prováveis desse esquecimento sistemático. A
historiografia política sobre o período, ao menos no que diz respeito às abordagens generalizantes,
parece ter-se iniciado e terminado com o trabalho clássico de Edgard Carone (1976). Confirmando
a regra geral exposta acima, os estudos de Thomas Skidmore e Robert Levine reservam poucas
páginas ao assunto (Skidmore, 1969; Levine, 1980). Há hoje uma revivescência do tema nos
estudos de História brasileira, mas os novos trabalhos estão concentrados em análises de ideologia
(em menor medida) ou nos prestigiosos “estudos culturais”. Naturalmente, deve-se lembrar autores
importantes que se dedicaram, de uma forma ou outra, a questões bastante específicas do regime
estadonovista: industrialização (John Wirth, Warren Dean, Anibal V. Villela, Wilson Suzigan,
Octávio Ianni, Luciano Martins, Celso Furtado), classes dominantes (Maria do Campello de Souza,
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Eli Diniz, Sônia Draibe), classes dominadas (Luiz Werneck Vianna, José Albertino Rodrigues,
Leôncio Martins Rodrigues, Maria Hermínia Tavares de Almeida, Angela de Castro Gomes, Robert
Rowland), reforma administrativa (Hélio Jaguaribe, Mário Wagner Vieira da Cunha, Lawrence
Graham, Gilbert B. Siegel, Beatriz Wahrlich), militares (José Murilo de Carvalho, Edmundo
Campos Coelho, Stanley Hilton), pensamento autoritário (Jarbas Medeiros, Bolívar Lamounier,
Evaldo Vieira) etc (Gertz, 1991, p. 116-125)1.
A lacuna mais significativa, seja nas referências onde o Estado Novo só aparece como um sub-
período de um intervalo mais amplo, seja nesses textos dedicados a um tema circunscrito durante o
Estado Novo, é sem dúvida a de trabalhos que analisem detidamente o sistema político armado
entre 1937 e 1945. A sabedoria convencional contentou-se em descrevê-lo como autoritário,
corporativista, fascista etc. e em enfatizar que estes oito anos tiveram duas grandes marcas
distintivas ao lado do seu notório conservantismo político: a “modernização econômica” — onde se
destacaram a industrialização e o planejamento — e a “racionalização administrativa”,
implementada pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP)2. De maneira
genérica, todos os estudos concordaram num ponto — o “caráter centralizado e monolítico do
Estado brasileiro durante esse período de sua história política” autoriza o “alto grau de autonomia”
que ele desfruta em relação à “sociedade” — sem contudo avançar muito na sua explicação.
“É a partir desta perspectiva que são analisados os principais instrumentos de governo para
equacionar a problemática econômico-social brasileira e os principais aspectos das reformas
administrativas e políticas empreendidas pelo poder central [após 1937]. A particularidade
de cada enfoque não obscurece, mas reafirma, a idéia central quanto ao significado deste
conjunto de medidas como componente primordial de um esquema de poder caracterizado
por um Estado forte, centralizado e apartidário, suficientemente distante das forças sociais
em confronto para resguardar sua autonomia e mesmo neutralidade de ação. Em alguns
casos, a análise identifica o fortalecimento do Estado, através da concentração de poderes no
Executivo, com o fortalecimento do poder pessoal do Presidente. Em síntese, salienta-se,
unilateralmente, a importância da reestruturação do aparelho estatal como fator de
preservação de uma ampla margem de manobras e do poder de manipulação e conciliação do
governo central” (Diniz, 1991, p. 79).
Uma visão mais sofisticada das relações de poder entre classes sociais e grupos políticos foi
oferecida por Eli Diniz (1991, pp. 80 e segs.; ver também Diniz, 1986, pp. 44-45). Contudo, há aí
uma insistência em entender as transformações do aparelho do Estado tão-somente em função do
processo de industrialização (e das classes que o sustentaram ou foram por ele beneficiadas),
desprezando-se, com isso, o jogo político intra-elites, assim como o marco institucional que regulou
essas disputas, numa palavra: o sistema político do qual o Estado é apenas uma parte integrante,
ainda que importante.
Acredito que o funcionamento do sistema de poder da década posterior à Revolução de 1930
tem de ser compreendido a partir desse mecanismo complexo que ligava a Presidência da
República aos Interventores federais passando pelo Departamento Administrativo dos estados. Se é
correto afirmar, como o faz Maria do Carmo Campello de Souza, que a “implantação de um Estado

1
A compilação de uma bibliografia exaustiva sobre o pós-30 pode ser lida em Beloch, 1986. Uma discussão
interessante de suas principais teses apareceu em Fausto, 1988.
2
Para um breve resumo das realizações do Estado Novo, v., entre outros, Iglésias, 1986, pp. 69-86.
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forte e centralizado significou [...] não a marginalização dos interesses econômicos dominantes no
período anterior, mas sim uma redefinição dos canais de acesso e influência para a articulação de
todos os interesses, velhos ou novos, com o poder central” (Souza, 1990, p. 85), é preciso
identificar, uma vez excluídos os partidos e as demais instituições representativas, que canais são
esses, como eles funcionaram e qual seu alcance para o processo de distribuição do poder entre as
forças políticas em presença.
II.2 O Departamento Administrativo na estrutura política estadonovista
No seu estudo clássico sobre o Estado Novo, Karl Loewenstein enfatizou que “the problem that
has been habitually the most crucial and controversial of Brazilian political life” era,
especialmente, “the relations between the federal entity and the states” (Loewenstein, 1944, p. 59).
Esse problema, como se sabe, não se resolveu até hoje e uma boa parte da história política do Brasil
pode ser descrita como contendo espasmos de federalismo extremado e de centralismo acentuado.
O regime estadonovista, representante paradigmático do segundo grupo, procurou criar uma
instituição política que pudesse administrar o peso da Presidência da República diante de elites
políticas regionais ainda influentes e importantes. O Departamento Administrativo parece ter
cumprido este papel. Por isso, não seria exagerado concordar com Loewenstein quando este afirma
que o Departamento Administrativo dos estados foi “the institution of the most interesting
innovation in an otherwise strictly authoritarian system of state government” (Loewenstein, 1944,
p. 62).
Contudo, esse aparelho ainda não foi objeto de um estudo sistemático. Como lembrou Miguel
Reale,
“[...] os Departamentos Administrativos, depois denominados Conselhos Administrativos do
Estado, constituíam uma das peças mestras do Estado Novo, não entendendo até hoje porque
não têm merecido a atenção de nossos pesquisadores e historiadores políticos. Criação
engenhosa de Francisco Campos, é elemento essencial à compreensão do sistema
estadonovista” (Reale, 1986, Vol. I, p. 165).
Sem ainda ter recebido um tratamento mais detido pela literatura especializada, há menções
explícitas aos Departamentos Administrativos em quase todos os estudos importantes sobre o
Estado Novo. Aí destacam-se duas grandes linhas de interpretação. A primeira sublinha a
irrelevância institucional dos Departamentos para o funcionamento do sistema político
estadonovista. Conforme Luciano Martins:
“A ação desse „Estado centralizado e forte‟ em plano nacional, entretanto, iria prescindir no
Brasil da edificação dos complicados mecanismos de controle que a extensão territorial do
país faria prever. É exato que a presença nos estados dos destacamentos do Exército,
sobretudo a partir do controle que ele passou a exercer sobre as forças públicas estaduais,
projetou a presença do poder central nas diferentes regiões do país. Mas não menos
importantes parecem ter sido os mecanismos de lealdades pessoais que vinculavam os
interventores a Vargas. Tanto é assim que ficou praticamente no papel a instituição dos
departamentos administrativos (criados em abril de 1939), que teriam por função aprovar
atos do interventor e fiscalizar a execução dos orçamentos estaduais. Tudo se passou, em
síntese, como se a fidelidade política a Vargas em plano nacional tivesse por prêmio a
autonomia administrativa em plano estadual. Não eram muito diferentes as práticas políticas
vigentes durante a República Velha” (Martins, 1983, p. 1198; grifos meus).
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A segunda linha de interpretação reconhece a singularidade e importância desse aparelho, mas


enfatiza a natureza puramente “administrativa” dos Departamentos.
Foi Karl Loewenstein, por exemplo, quem destacou a função meramente técnica dos DAEs.
Após ter ressaltado suas virtudes inerentes — “the ingenious system successfully acts as check and
control of the Interventor while for the individual citizen it fulfills a welcome function as the
guarantee of the rule of law against arbitrariness and infringement of legal rights by the political
official of the state” (Loewenstein, 1944, pp. 63-64) —, o autor deriva da pretensa composição
interna do Departamento sua eficiência e racionalidade:
“[...] the Administrative Departament is a team of hard-hitting, hard-working, thoroughly
efficient professional bureaucrats — mostly young lawyers, but also technicians such as
accountants, civil engineers, agricultural experts, statisticians — while in the Interventor‟s
office the efficiency of the staff is vitiated by ineradicable patronage” (Loewenstein, 1944, p.
64).
Tudo se passaria, nessa concepção, da seguinte forma: “The Interventor acts as the political
coordinator of the state, under instructions from Vargas himself, while the Administrative
Departament, run by bureaucrats, is the legislative body of the state” (Loewenstein, 1944, p. 65,
grifos meus).
Lourdes Sola aceitou amplamente essa visão. Repetindo a interpretação dada por Loewenstein, a
autora acreditou que o Departamento Administrativo representasse, além da possibilidade de
subordinação das atividades do interventor “aos programas e às ordens federais”, mais um capítulo
do processo de racionalização da administração pública, notadamente porque ele promovia a
“introdução de novos padrões de eficiência e de um novo agente social, o burocrata de
formação técnica. Esse tipo de organização, que também implicava em hierarquia e
dependências, era basicamente diferente daquela que se orientava por critérios
predominantemente políticos, de patronagem e de formação de clientela, característica da
instituição da Interventoria. Não eram alternativas exclusivas, entretanto, mas correspondiam
a diferentes técnicas de ação, de intervenção e de controle que o governo Vargas combinaria
habilmente no plano da administração federal” (Sola, 1990, pp. 268-269).
Esse tipo de interpretação foi reforçada pelo estudo de Maria do Carmo Campello de Souza que
reproduz, nesse particular, a incompreensão de Lawrence S. Graham (1968). Este último assimila
os Departamentos Administrativos dos estados, criados em princípios de 1939, à uma mera divisão
regional do DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) — os “daspinhos”.
Vale citar aqui a passagem inteira:
“Os „daspinhos‟ — departamentos estaduais — funcionavam ao mesmo tempo como uma
espécie de legislativo estadual e como corpo supervisor para o interventor e o Ministério da
Justiça: os prefeitos municipais tinham que se submeter não só ao interventor, mas também
ao departamento estadual do serviço público. „Embora o interventor fosse o responsável pelo
estudo, aprovação e declaração de todos os decretos e leis estaduais‟, observa ainda Graham,
„[...] esses só eram válidos quando sancionados pelo presidente do „daspinho‟. Se este se
opusesse a algum ato ou decreto executado pelo interventor, dois terços dos votos do
departamento eram suficientes para suspender a ação até que uma decisão fosse tomada pelo
chefe do executivo federal [...] não é difícil entender porque [...] o presidente do „daspinho‟
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era usualmente mais poderoso que o interventor‟. Como uma engrenagem, a interventoria, o
departamento administrativo e o Ministério da Justiça cooperavam na administração dos
estados, sob o controle geral do Presidente da República. Enquanto o interventor agia como
coordenador político, sob instruções diretas de Vargas, o departamento administrativo,
dirigido por burocratas e integrados por engenheiros, agrônomos, estatísticos etc. —
indivíduos que se considerava e eram considerados imunes a pressões clientelísticas —
funcionava como um corpo legislativo” (Souza, 1990, pp. 96-97; A passagem entre aspas
simples é de L. Graham).
Ora, a expressão “daspinhos” é equívoca em mais de um sentido. Em primeiro lugar, porque se
tratava de duas estruturas burocráticas completamente diferentes. Uma dizia respeito ao serviço
civil, outra à representação política; um deveria ser uma super-assessoria incumbida expressamente
de racionalizar a administração pública, via uma política orçamentária eficiente, outro pretendia
funcionar como uma entidade fiscalizadora das interventorias. Em segundo lugar, porque ao
identificar um aparelho com o outro, arrisca-se assimilar os Departamentos Administrativos dos
estados ao projeto de “modernização”, “racionalização” e reforma do aparelho do Estado tentado
no pós-30 — onde o DASP, sem dúvida, cumpriu papel de destaque, notadamente na política de
recrutamento do funcionalismo — , perdendo assim o sentido político da inclusão dos
Departamentos Administrativos no organograma federal. Por último, porque a composição de um e
de outro eram bem distintas. Se o DASP reunia técnicos, os DAEs eram integrados por outros
inquilinos.
Uma visão mais próxima do Departamento Administrativo do estado de São Paulo poderá servir
para desfazer alguns equívocos e avançar três conclusões que podem constituir-se em plataformas
para pesquisas futuras.
III. O Departamento Administrativo do Estado de São Paulo
Embora seja verdade que em 1937 “o Estado autoritário se implantou expressamente para
centralizar as decisões, integrar o país, liqüidar as divisões partidárias” (Fausto, 1972, p. 109), as
situações regionais, olhadas mais de perto, demonstraram os limites estreitos para a recomposição
de forças políticas exigida pela nova situação institucional.
São Paulo, por exemplo, ilustra bem o delicado terreno em que se moviam grupos ascendentes e
declinantes. A indicação de Adhemar de Barros para a Interventoria Federal no início de 1938,
substituindo o democrata Cardoso de Mello Neto, representou um golpe duro de Vargas no
perrepismo dominante no estado. De acordo com Edgard Carone,
“Adhemar de Barros [era] do PRP, mas da ala jovem. Em vez de Getúlio Vargas escolher
pessoa representativa do partido, indic[ou] elemento secundário, com a idéia de dividir o
partido e ter o controle sobre quem lhe dev[esse] favores e, assim, ter melhores
possibilidades de controle político. [...] A escolha e a posse de Adhemar de Barros não são
vistas com bons olhos pela liderança do PRP e pelo próprio Ministro paulista da Agricultura,
Fernando Costa” (Carone, 1976, pp. 148 e 149).
Desde o início de sua gestão à frente do executivo estadual, Adhemar procurou cercar-se de
nomes confiáveis, em geral saídos do seu círculo político mais restrito, e, principalmente, “agradar
as autoridades federais” (Carone, 1976, p. 149). Mas se essa opção reforçava sua posição e
prestígio frente o Presidente da República, desagradava o PRP, levando este último a romper com o
Interventor em abril de 1939, um ano após sua posse. Nesse mesmo período, provavelmente em
8

função das dificuldades de todo o tipo que surgiam nas outras interventorias, Vargas, por sugestão
de Francisco Campos, resolve dotar os estados, “até a outorga das respectivas Constituições”, de
um código administrativo, o decreto-lei no 1 202, que regulasse a política regional. Assim, divide as
funções governativas entre duas entidades: a Interventoria Federal e o Departamento
Administrativo. Os interventores teriam, por sua vez, o poder de nomear os prefeitos municipais e o
membros do Departamento Administrativo seriam escolhidos pelo Presidente da República.
As funções políticas do Departamento Administrativo na organização administrativa do Estado
Novo são, nesse contexto, desde logo evidentes.
“O Departamento Administrativo dos Estados, tal como o concebeu o decreto institucional
n 1 202, reúne, na esfera da sua competência, várias atribuições, correspondentes a outros
órgãos já não existentes, em face da organização atual do nosso País. O Departamento
Administrativo substitui a ação legislativa das Assembléias do Estado, do antigo Senado e
da Câmara dos Deputados; substitui as Câmaras Municipais de todo o estado [de cerca de
270 municípios]; substitui o Tribunal de Contas na missão que hoje lhe cabe de
superintender a aplicação das verbas orçamentárias e a fiel execução da lei de meios.
Realiza também o Departamento Administrativo a missão de um órgão de consulta, de um
verdadeiro Conselho de Estado, quando esclarece e instrui os recursos cujo conhecimento
final pertence ao Sr. Presidente da República, opinando antes dessa decisão final” 3.
Nesse contexto, como se organizou o Departamento Administrativo do estado de São Paulo?
Qual a sua composição? Qual a freqüência de suas reuniões? Qual a natureza de suas decisões?
Para os fins deste texto, vou me limitar a explorar e discutir a segunda questão, somente.
Seria ingênuo imaginar que a nomeação de dois tradicionais políticos do PRP, antigos
adversários de Getúlio Vargas, Goffredo Teixeira da Silva Telles e Alexandre Marcondes Filho,
para a presidência e vice-presidência do DAESP, respectivamente, fosse simples coincidência. A
formação inicial do Departamento refletia o desejo explícito de acomodar as forças políticas
paulistas e garantir algum grau de “pluralismo”, ainda que limitado, ao regime político. Uma
inspeção mesmo sumária no Quadro 1, que organiza algumas informações coletadas por nós, pode
ajudar a fundamentar certas conclusões provisórias.
Descontados os dados não disponíveis no momento, ressalta em primeiro lugar a composição
política do DAESP, e não meramente técnica. Tomando todos os conselheiros que passaram pelo
Departamento Administrativo entre 1939 e 1946, vê-se que não se trata aqui de notórios
especialistas em administração pública, embora todos sejam bacharéis em Direito (e, não menos
importante, oriundos da mesma instituição, o que confere um grau de “homogeneidade” a essa
“elite” que merece ser pesquisado). Dos sete membros iniciais, Goffredo Telles, Marcondes Filho,
Arthur Whitaker, Antonio Gontijo, Cyrillo Júnior, Plinio Morais e Mario Lins, sabe-se com
segurança que pelo menos três deles eram políticos destacados do Partido Republicano Paulista.
A própria nomeação de Miguel Reale em 1942 é por si só um caso ilustrativo desse jogo de
pressões e contrapressões entre o Presidente da República, o Interventor e o Departamento
Administrativo do estado. Tendo Fernando Costa assumido a interventoria em São Paulo em

3
Renato Paes de Barros, em discurso pronunciado por ocasião da passagem do primeiro aniversário do
Departamento Administrativo do estado de São Paulo em 11/07/1940. DAESP, Anais de 1940, Vol. I
(Sessões), 2a parte, p. 1217, ênfase minha.
9

meados de 1941, fato que contemplava abertamente os desejos dos perrepistas, Getúlio decide, logo
no ano seguinte, convidar o integralista Miguel Reale para o DAESP na vaga de Marcondes Filho,
indicado Ministro do Trabalho. É o seguinte o diálogo entre os dois, relatado pelo próprio professor
da Faculdade de Direito:
“„Getúlio: — Preciso de sangue novo em São Paulo, com pessoa que traga idéias novas ao
regime. Conto com sua colaboração‟. Não vacilei um instante sequer, pois em meu ser
sempre atuaram duas valências, uma jurídica, outra política, ambas em busca de sincronia.
Aceitando o convite, indaguei se o Interventor Fernando Costa ou o presidente do
Departamento estavam a par de meu ingresso em órgão tão relevante na vida administrativa
de meu estado. Foi então que notei a veia humorística de Getúlio Vargas, o qual, após uma
baforada de charuto que o não largava, indagou: — „Para quê? Na minha terra costuma-se
dizer que se deve encostar o relho ora no burro, ora na cangalha, para o burro saber que tem
dono...‟” (Reale, 1986, Vol. I, p. 164).
Outro conjunto de evidências também corrige as interpretações que insistiram sobre a
irrelevância dos Departamentos Administrativos para a compreensão da estrutura e das práticas
políticas do Estado Novo.
De acordo com as informações que reunimos, de maio a outubro de 1939, o Departamento
Administrativo do estado de São Paulo realizou 64 sessões ordinárias, emitindo 1 415 pareceres;
em 1940 sua atividade foi ainda mais constante, tendo apresentado 188 sessões ordinárias e 109
sessões extraordinárias, e votado 3 526 resoluções sobre os mais diversos temas da administração
estadual; no intervalo que vai de 01/01/1942 a 30/06/1943, o DAESP reuniu-se 594 vezes (sessões
ordinárias) e votou nada menos do que 3 762 resoluções4.
Considerando essas evidências preliminares, é incorreto afirmar que os Departamentos
Administrativos ficaram “praticamente no papel”. No caso de São Paulo, ele funcionou com uma
assiduidade notável e produziu um sem-número de decisões que mereceriam ser melhor analisadas.

4
Cf. respectivamente: “Relatório apresentado pela Diretoria Geral referente ao ano de 1939” em 09/01/1940.
DAESP. Anais de 1940, Vol. II (Sessões), 2a parte, Apêndice, pp. 2861-2862; “Atividades do Departamento
Administrativo do Estado durante o exercício de 1940” em 31/12/1940. DAESP. Anais de 1940, Vol. II
(Sessões), 2a parte, p. 2856; e Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, Dois anos de governo:
1941-1943. São Paulo, DEIP, 1943, pp. 24-25.
Quadro 1
Relação dos membros do Departamento Administrativo do Estado de São Paulo
segundo ano e local de nascimento, ano e local de graduação, profissões e filiação partidária pré-30 e pós-45

Conselheiro Ano de Local Local de graduação Ano de Profissões Filiação


nascimento nascim graduaçã partidária
. o
Alexandre Marcondes Filho 1892 SP Faculdade de Direito (SP) 1914 político, advogado e jornalista PRP (PTB)
Antonio Ezequiel Feliciano da 1899 SP Faculdade de Direito (SP) 1919 político e advogado PD (PSD)
Silva
Antonio Gontijo de Carvalho n/d n/d n/d n/d n/d n/d
Arthur Pequeroby de A. Whitaker n/d n/d n/d n/d n/d n/d
Carlos Cyrillo Júnior 1886 PR Faculdade de Direito (SP) 1908 advogado, professor e político PRP (PSD)
Goffredo Teixeira da Silva Telles 1888 RJ Faculdade de Direito (SP) 1915 fazendeiro, político e PRP
empresário
José Adriano Marrey Júnior 1885 MG Faculdade de Direito (SP) n/d político e advogado PD (PSP)
José Cesar de Oliveira Costa 1891 SP Faculdade de Direito (SP) 1912 fazendeiro, advogado e político PRP (PSD)
Mario Guimarães Barros Lins n/d n/d n/d n/d n/d n/d
Miguel Reale 1910 SP Faculdade de Direito (SP) 1933 advogado e professor AIB (PPS;
PSP; PTN)
Plinio Rodrigues de Morais n/d n/d n/d n/d n/d n/d
Renato Paes de Barros n/d n/d n/d n/d advogado e professor n/d

* n/d: informação não disponível.


11

IV. Conclusão
Resulta dessa breve caracterização do Departamento Administrativo do estado de São Paulo
algumas conclusões alternativas em relação às interpretações dominantes.
Primeira conclusão: é preciso enfatizar a função política dos Departamentos Administrativos
dos estados, contra as interpretações que assimilam este aparelho a um locus puramente
burocrático, um capítulo, por assim dizer, do processo de “racionalização-complexificação” do
Estado brasileiro com funções puramente técnicas.
Segunda conclusão: é preciso ressaltar o papel estabilizador que os Departamentos
Administrativos exerciam no âmbito da política estadual. À medida em que os canais tradicionais
de agregação e representação de interesses viram-se destruídos, o regime estadonovista teve de
lançar mão de uma nova estrutura política capaz de expressar as demandas dos grupos políticos
dominantes excluídos, marginalizados ou integrados de forma precária ao sistema político
ditatorial. Se essa conclusão estiver correta, podemos avançar uma terceira.
Terceira conclusão: os Departamentos Administrativos parecem ter-se constituído num locus
institucional de organização de uma “contra-elite” política que, através das funções de fiscalização
e controle que estavam expressamente incumbidos de exercer, impediam o surgimento de
lideranças políticas regionais que se destacassem do controle estrito pretendido por Vargas. Esse
mecanismo parecia funcionar como um sistema de “freios e contrapesos”, onde o Interventor (e os
prefeitos) viam-se controlados pelo Departamento, o Departamento pelo Interventor e ambos por
Vargas através de um complicado mecanismo de prestação de contas à Presidência da República
através do Ministério da Justiça.
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