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4. ANÁLISE E DIMENSIONAMENTO DE LIGAÇÕES


METÁLICAS
4.1. INTRODUÇÃO
‰ Uma ligação estrutural é um dispositivo constituído por diversas
componentes (cordões de soldadura, parafusos, rebites, placas, etc...),
que asseguram a continuidade e transmissão de esforços ao longo de
uma estrutura (figura seguinte).

Ligação viga-pilar simples

Ligação viga-pilar dupla

Emenda de viga

Emenda de pilar

Ligação base de pilar

Ligações em estruturas metálicas porticadas

‰ Na figura seguinte são ilustrados alguns tipos correntes de ligações


utilizadas em estruturas metálicas.

Exemplos de ligações metálicas correntes

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‰ A análise e pormenorização das ligações têm uma influência directa no


comportamento, bem como no custo global de uma estrutura. De forma
a diminuir os custos afectos às ligações, estas devem ser
dimensionadas tendo em conta essencialmente os seguintes aspectos:
ƒ Facilidade de acesso a zonas a soldar;
ƒ Facilidade de acesso a zonas de parafusos;
ƒ Minimização dos cortes a efectuar;
ƒ Optimização do equipamento de montagem;
ƒ Standardização de ligações.

‰ As principais propriedades geométricas e mecânicas dos elementos de


ligação, tais como parafusos, porcas, cordões de soldadura, entre outros,
são definidas na Parte 1.8 do EC3 (EC3-1-8).

4.2. LIGAÇÕES APARAFUSADAS

4.2.1. Comportamento dos parafusos


‰ Um parafuso corrente é um elemento de ligação que permite a
transmissão de esforços por dois processos distintos:

ƒ Parafusos ao corte – a resistência depende da resistência ao corte


do parafuso e das placas à pressão diametral ou esmagamento;

Parafuso ao corte

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ƒ Parafusos à tracção – a resistência depende da resistência à


tracção do parafuso e ao punçoamento das placas de ligação, na
zona da cabeça e da porca.

Parafusos à tracção

‰ No caso de os parafusos serem pré-esforçados, o comportamento da


ligação é diferente; no primeiro caso (parafuso ao corte) é mobilizada a
resistência ao deslizamento entre as placas (figura seguinte) enquanto
que no segundo (parafusos à tracção), embora continue a ser
mobilizada a resistência à tracção, a compressão inicial entre as placas
altera o comportamento da ligação.

Força de pré-esforço PB

Isostáticas de
compressão

Parafusos pré-esforçados numa ligação ao corte

‰ O comportamento de uma ligação pré-esforçada à tracção é ilustrado


na figura seguinte. Antes da aplicação do pré-esforço o parafuso não
está submetido a qualquer força (TB = 0). Após a aplicação do
pré-esforço, o parafuso fica submetido a uma força de tracção igual ao
valor do pré-esforço PB, ficando a placa de ligação submetida a uma
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tensão de contacto pc e a uma deformação e. Aplicando uma força


exterior N, verifica-se uma descompressão Δe das placas de ligação,
uma redução da pressão de contacto Δpc e um aumento da força no
parafuso ΔTB. Após o descolamento das placas a força de tracção no
parafuso é igual à força exterior aplicada N.

Antes do pré-esforço Antes do descolamento Após o descolamento

Parafusos pré-esforçados numa ligação à tracção

As condições de equilíbrio correspondentes às várias fases são


descritas a seguir.
Após a aplicação da força de pré-esforço PB, vem:

PB = ∫ pc dA
A

em que A representa a área de contacto entre as placas.


Após a aplicação de uma força exterior N, verifica-se uma diminuição
acentuada da pressão de contacto Δpc e apenas um ligeiro aumento da
força de tracção no parafuso ΔTB, pois nas situações correntes a rigidez
KC das placas é 10 a 20 vezes superior à rigidez KB dos parafusos. A
compatibilidade de deformações implica que a descompressão Δe das
placas seja igual ao alongamento do parafuso; tendo em conta um
comportamento elástico (forças proporcionais às deformações),
obtém-se as seguintes condições:

∫ Δp dA = K
A
c C Δe

ΔTB = K B Δe
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O equilíbrio entre as forças interiores e a força exterior N é traduzido


pela seguinte condição:

N = ∫ Δpc dA + ΔTB
A

Considerando o Δe definido nas equações anteriores, as variações da


pressão de contacto e da força no parafuso, são dadas por:
KC
∫ Δpc dA =
A
KB
ΔTB

N
ΔTB =
⎛ K ⎞
⎜⎜1 + C ⎟⎟
⎝ KB ⎠
Considerando K C K B ≈ 10 a 20 o aumento da força no parafuso é de
cerca de 5 a 10% da força exterior N.
O descolamento entre as placas verifica-se quando:

∫ Δp dA = ∫ p dA = P
A
c
A
c B

O equilíbrio de forças correspondente à situação anterior permite obter


o valor N1 da força exterior, que provoca o descolamento:

KB ⎛ K ⎞
N1 = PB + PB = PB ⎜⎜1 + B ⎟⎟
KC ⎝ KC ⎠

Sendo K C K B ≈ 10 a 20 , a força N1 é 5 a 10% superior à força de


pré-esforço PB. A figura seguinte resume o comportamento de uma
ligação pré-esforçada à tracção, comparando a evolução da força de
tracção no parafuso com e sem pré-esforço.

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Rotura do parafuso

Descolamento das placas

Parafuso não pré-esforçado

Parafuso pré-esforçado

Evolução da força de tracção num parafuso numa ligação pré-esforçada

‰ As ligações pré-esforçadas apresentam em geral uma elevada rigidez


e uma elevada resistência à fadiga, sendo por isso muito utilizadas em
pontes e outras estruturas sujeitas a cargas cíclicas; são no entanto
mais caras, pois implicam a utilização de parafusos de alta-resistência e
equipamento para aplicação de forças de aperto mais sofisticado.

‰ Existem diversos métodos para controlar a força de aperto dos


parafusos pré-esforçados, dos quais se indicam os seguintes:
ƒ Dispositivos indicadores de carga – o pré-esforço é avaliado com
base na deformação de anilhas com saliências ou outros dispositivos
(figura seguinte);

Folga

Controle de força de pré-esforço com base na deformação das anilhas

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ƒ Controle do momento de aperto – o pré-esforço é avaliado a partir


do momento de aperto aplicado com uma chave dinamométrica. A
relação entre o momento de aperto medido na chave (Mp) e a força
de pré-esforço instalada no parafuso (Fp,C) é do tipo M P = k ⋅ d ⋅ F p ,C ,
em que d é o diâmetro do parafuso e k é um coeficiente calibrado
experimentalmente.

4.2.2 Análise e dimensionamento de ligações aparafusadas


‰ A disposição dos furos numa ligação, deve ser tal que impeça a
corrosão e a encurvadura local e facilite a colocação dos parafusos. No
artigo 3.5 da Parte 1-8 do EC3 são estabelecidos valores limites para a
distância entre furos de parafusos e para a distância dos furos às
extremidades das placas, sendo os principais descritos a seguir:
ƒ e1, e2 ≥ 1.2 ⋅ d 0 ;

ƒ e1, e2 ≤ 40 mm + 4 ⋅ t (ambientes muito agressivos);

ƒ p1 ≥ 2.2 ⋅ d 0 ; p2 ≥ 2.4 ⋅ d 0 ;

ƒ p1, p2 ≤ min(14 ⋅ t, 200mm ) , sendo t a espessura da placa mais fina.

Disposição dos furos em ligações aparafusadas

‰ De acordo com o EC3, o valor de cálculo da força resistente ao corte


por parafuso é igual ao menor dos seguintes valores:
ƒ Resistência ao corte do parafuso (Fv.Rd);
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ƒ Resistência ao esmagamento ou pressão diametral (Fb.Rd).

‰ A resistência ao corte (por plano de corte) de ligações aparafusadas


(com furos normalizados) deve ser obtida através do quadro seguinte:

Resistência ao corte
0.6 ⋅ fub ⋅ As Parafusos das classes
Fv .Rd =
Corte na rosca γ M2 4.6, 5.6 e 8.8

0.5 ⋅ fub ⋅ As Parafusos das classes


Fv .Rd =
γ M2 4.8, 5.8, 6.8 e 10.9

Corte no liso 0.6 ⋅ fub ⋅ A Todas as classes


Fv .Rd =
γ M2
fub - tensão última do parafuso;
As - área útil (na rosca);
A - área total (no liso);
γM2 - coeficiente parcial de segurança = 1.25.

‰ A resistência ao esmagamento ou pressão diametral (furos


normalizados) é dada pela seguinte expressão:
k 1 ⋅ α b ⋅ fu ⋅ d ⋅ t
Fb.Rd =
γ M2
sendo αb igual ao menor dos valores: αd, fub fu ou 1.0.
Na direcção de transmissão do esforço α d = e1 (3 ⋅ d 0 ) em furos de

extremidade e α d = p1 (3 ⋅ d 0 ) − 1 4 em furos interiores.

k1 é o menor dos valores: 2.8 e2 d 0 − 1.7 ou 2.5 em parafusos de

extremidade e 1.4 p2 d 0 − 1.7 ou 2.5 em parafusos interiores.


Os restantes símbolos têm o seguinte significado: d é o diâmetro do
parafuso, d0 é o diâmetro do furo, t é a espessura da placa de menor
espessura, fu é a tensão última da placa e fub é a tensão última do
parafuso.
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Numa ligação entre placas traccionadas, com os parafusos solicitados


ao corte, deve ainda considerar-se adicionalmente os modos de rotura
por tracção das placas na zona de ligação (figura seguinte).

Modos de rotura numa ligação ao corte

‰ Em relação às ligações com parafusos ao corte refira-se ainda a


possibilidade de rotura em bloco (artigo 3.10.2 da Parte 1.8 do EC3),
conforme se ilustra na figura seguinte.

Rotura em bloco

A resistência em relação a este modo de rotura deve ser obtida


através das seguintes expressões:

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Ant 1 Anv
Veff ,1,Rd = fu ⋅ + ⋅ fy ⋅ (cargas concêntricas)
γ M2 3 γ M0

Ant 1 Anv
Veff ,2,Rd = 0.5 ⋅ fu ⋅ + ⋅ fy ⋅ (cargas excêntricas)
γ M2 3 γ M0

em que Ant e Anv representam as áreas de tracção e de corte,


respectivamente.

‰ De acordo com o EC3, a resistência de uma ligação aparafusada à


tracção (parafusos correntes) é dada pelo menor dos seguintes
valores:
ƒ Resistência à tracção
0.9 ⋅ fub ⋅ As
Ft .Rd =
γ M2
ƒ Resistência ao punçoamento
0 . 6 ⋅ π ⋅ d m ⋅ t p ⋅ fu
B p.Rd =
γ M2
em que fub e fu representam as tensões de rotura à tracção do aço do
parafuso e da placa de ligação, respectivamente, As é a área útil do
parafuso, dm é o diâmetro médio da cabeça do parafuso ou da porca
(o menor valor) e tp é a espessura da placa sob a cabeça do parafuso
ou da porca.

‰ Em parafusos que estejam simultaneamente sujeitos ao corte e à


tracção, deve ainda ser verificada a seguinte condição de interacção:

Fv .Ed Ft .Ed
+ ≤ 1.0
Fv .Rd 1.4 ⋅ Ft .Rd

‰ A resistência de uma ligação aparafusada pré-esforçada (parafuso) é


dada pela resistência ao deslizamento, avaliada através da expressão:

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ks ⋅ n ⋅ μ
Fs,Rd = ⋅ Fp,C
γ M3
em que ks é um parâmetro dependente do tipo de furo (ks = 1.0 para
furos com folgas normalizadas, sendo definido para outros furos no
quadro 3.6 da Parte 1.8 do EC3), μ é o coeficiente de atrito entre as
placas, n é o número de planos de corte, Fp,C é a força de pré-esforço
dada por Fp,C = 0.7 ⋅ fub ⋅ As e γM3 = 1.25 é o factor parcial de segurança.

O coeficiente de atrito depende do nível de tratamento das superfícies


das placas de ligação; no quadro 3.7 da Parte 1.8 do EC3 definem-se
quatro níveis de tratamento A, B, C e D, com valores de μ iguais a 0.5,
0.4, 0.3 e 0.2, respectivamente.

‰ Se uma ligação pré-esforçada resistente ao deslizamento for sujeita a


uma força de tracção (Ft.Ed), além da força de corte (Fv.Ed), a
resistência ao deslizamento deve ser diminuída de acordo com a
seguinte expressão:
k s ⋅ n ⋅ μ ⋅ (Fp.C − 0.8 ⋅ Ft .Ed )
Fs. Rd =
γ M3

‰ As ligações articuladas com rotação livre, devem ser


dimensionandas com base nas condições constantes do quadro
seguinte, cuja simbologia tem o seguinte significado:
A .- área da secção transversal da cavilha; d - diâmetro da cavilha;
t - espessura da placa, Wel - módulo elástico de flexão da cavilha;
fy - tensão de cedência do aço da cavilha ou da placa de ligação (a
menor); fyp - tensão de cedência do aço da cavilha; fup - tensão última do
aço da cavilha; γM0 = 1.0, γM2 = 1.25 e γM6.ser = 1.0.
Condições de segurança regulamentares para ligações articuladas
Resistência ao corte da cavilha Fv. Rd = 0.6 A f up γ M 2

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Resistência ao esmagamento da placa e da Fb. Rd = 1.5 t d f y γ M 0


cavilha
Condição adicional a verificar em ligações Fb. Rd .ser = 0.6 t d f y γ M 6.ser
reutilizáveis
Resistência da cavilha à flexão M Rd = 1.5Wel f yp γ M 0
Condição adicional a verificar em ligações
reutilizáveis M Rd .ser = 0.8Wel f yp γ M 6. ser
2 2
⎡ M Ed ⎤ ⎡ Fv. Ed ⎤
Resistência da cavilha ao corte + flexão ⎢ ⎥ +⎢ ⎥ ≤1
⎣ Rd ⎦
M ⎣ v. Rd ⎦
F

A relação entre o momento flector (MEd) na cavilha e a força (FEd) é obtida


através da figura e expressão seguintes

FEd
M Ed = (b + 4c + 2a )
8
Momento flector na cavilha

‰ A Parte 1.8 do Eurocódigo inclui ainda algumas regras mais específicas


aplicáveis a ligações com parafusos, como sejam: ligações ao corte
com um único parafuso, ligações ao corte com um elevado número de
parafusos (ligações longas), etc...

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‰ Como resumo, refira-se que o dimensionamento de uma ligação


aparafusada ao corte ou à tracção, segundo o EC3, deve ser efectuado
de acordo com a sua categoria (quadro seguinte).

Categorias de ligações aparafusadas


Ligações ao corte
Categoria Critérios Parafusos
A Fv .Ed ≤ Fv .Rd Classes de parafusos
Aparafusadas correntes desde 4.6 a 10.9, sem
Fv .Ed ≤ Fb.Rd pré-esforço
B Fv .Ed .ser ≤ Fs.Rd .ser Parafusos pré-esforçados
Resistentes ao de alta resistência
escorregamento no F v .Ed ≤ Fv .Rd (classes 8.8 e 10.9)
estado limite de utilização Fv .Ed ≤ Fb.Rd
C Fv .Ed ≤ Fs.Rd
Resistentes ao Parafusos pré-esforçados
escorregamento no Fv .Ed ≤ Fb.Rd de alta resistência
estado limite último Fv .Ed ≤ N net .Rd (classes 8.8 e 10.9)
Ligações à tracção
D Ft .Ed ≤ Ft .Rd Classes de parafusos
Não pré-esforçadas desde 4.6 a 10.9, sem
Ft .Ed ≤ B p.Rd pré-esforço
E Ft .Ed ≤ Ft .Rd Parafusos pré-esforçados
Pré-esforçadas de alta resistência
Ft .Ed ≤ B p.Rd (classes 8.8 e 10.9)
sendo:
Fv.Ed.ser – Força de corte actuante (E.L.S.)
Fv.Ed – Força de corte actuante (E.L.U.)
Fv.Rd – Força de corte resistente
Fb.Rd – Força resistente ao esmagamento
Fs.Rd.ser – Força resistente ao deslizamento (E.L.S.)
Fs.Rd – Força resistente ao deslizamento (E.L.U.)
Ft.Ed – Força de tracção actuante
Ft.Rd – Força de tracção resistente
Bp.Rd – Força resistente ao punçoamento
Nnet,Rd – Resistência da secção útil em elementos traccionados.

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‰ Para garantir a segurança ou dimensionar correctamente uma ligação


aparafusada é necessário efectuar uma correcta distribuição dos
esforços actuantes pelos diversos parafusos.

‰ No caso de ligações aparafusadas em que a linha de acção dos


esforços está contida no plano da ligação, os parafusos são solicitados
ao corte.

‰ Na ligação representada na figura seguinte, admitindo que a força


actuante passa pelo centro de gravidade do grupo de parafusos e que
estes são todos iguais, a força actuante em cada parafuso é obtida
dividindo a força P igualmente por todos os parafusos. No entanto, se
as áreas dos parafusos (Ai) forem diferentes, mantendo o esforço P a
passar pelo centro de gravidade do grupo de parafusos, a distribuição
será diferente; cada parafuso ficará sujeito a uma força (Fi) dada por:
Ai
Fi = P ⋅
∑ Ai

Ligação aparafusada sujeita a um esforço baricentrico

‰ No caso de o esforço actuante não passar pelo centro de gravidade do


grupo de parafusos, como acontece na ligação representada na figura
seguinte, a força P é equivalente a um sistema aplicado no centro de
gravidade, constituído pela força P mais um momento igual a P.e.
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Admitindo que os parafusos são todos iguais, a força P pode ser


distribuída igualmente por todos os parafusos; o momento (M = P.e)
provoca uma força adicional em cada parafuso, proporcional à sua
distância (ri) ao centro de gravidade.

ri
Fi = M ⋅
∑ ri
2

Ligação aparafusada sujeita a


um esforço excêntrico

‰ As distribuições de forças consideradas acima são distribuições


elásticas. Em geral também se podem assumir distribuições
plásticas, como a que se indica na figura seguinte:

(
a) Fv .Ed = Fv .h.Sd + Fv .v .Sd
2
)
2 0 .5
b) Fv .Ed = MSd (6 ⋅ p )
Distribuição de esforços em ligações aparafusadas ao corte

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‰ No caso de ligações carregadas fora do plano, os parafusos ficam


sujeitos a forças de tracção. Tal como nas ligações ao corte, também
nestas se podem usar distribuições elásticas ou plásticas de esforços,
como se ilustra na figura seguinte.

Distribuição de esforços em ligações aparafusadas à tracção

‰ A distribuição plástica corresponde a assumir uma distribuição em


equilíbrio com os esforços actuantes. A distribuição elástica consiste
em distribuir os esforços proporcionalmente à distância ao centro de
gravidade da secção da ligação (na zona de tracção apenas se
considera a área dos parafusos).

EXEMPLO
Dimensione o grupo de parafusos da figura, de modo a suportar uma força
de 250 kN com a inclinação indicada. Considere uma distribuição elástica
de forças nos parafusos.
a) Ligação corrente, com parafusos de classe 8.8.
b) Ligação pré-esforçada, com parafusos de classe 10.9.

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a) Ligação corrente
A força actuante pode ser decomposta no seguinte sistema de forças
aplicado no centro de gravidade do grupo de parafusos, de acordo com
a figura seguinte:
Fx = 250 ⋅ cos 60º = 125 kN
Fy = 250 ⋅ sin 60º = 216.5 kN

M = 250 ⋅ 90 x10 −3 = 22.5 kNm

Fy xi

ri α yi
Fx

M x

As forças Fx e Fy distribuem-se uniformemente pelos 6 parafusos. O


momento M produz forças Fi proporcionais à distância ao centro de

gravidade do grupo de parafusos, dadas por Fi = M ⋅ ri ∑r


2
i . Como

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ri = x i + y i , ri = x i cos α e ri = y i sin α , os esforços segundo x e


2 2 2

segundo y, no parafuso i, devidos ao momento M, são dados por:


y i sin α yi
Fix ,M = Fi ⋅ sin α = ⋅ M ⋅ sin α =
∑ (x i
2
+ yi
2
) ∑ (x i
2
+ yi
2
)⋅M
x i cos α xi
Fiy ,M = Fi ⋅ cos α = ⋅ M ⋅ cos α =
∑ (x i
2
+ yi
2
) ∑ (x i
2
+ yi
2
)⋅M
De acordo com a figura, verifica-se que o parafuso mais esforçado é o
parafuso inferior direito.

∑ (x + yi ) = 4 ⋅ (70 ) ( )
+ 100 2 + 2 ⋅ 70 2 + 0 2 = 69400 mm 2 ,
2 2 2
Sendo i os
esforços actuantes são dados por:
125 100 x10 −3
F6 x = + ⋅ 22.5 = 53.25 kN
6 69400 x10 −6
216.5 70 x10 −3
F6 y = + ⋅ 22.5 = 58.78 kN
6 69400 x10 −6

F6.Ed = 53.25 2 + 58.78 2 = 79.3 kN


Admitindo parafusos de classe 8.8 (fub = 800 MPa, fy = 640 MPa) e corte
no liso, vem:
0.6 ⋅ 800 x10 3 ⋅ A
F6.Ed ≤ Fv .Rd = ⇔ A ≥ 2.07 x10 − 4 m 2 ⇒ D ≥ 16.2 mm
1.25
Solução: 6 parafusos M20, classe 8.8.

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b) Ligação pré-esforçada
O parafuso mais esforçado continua a ser o parafuso inferior direito com
um esforço de corte dado por F6.Ed = 79.3 kN . Admitindo parafusos de
classe 10.9 (fub = 1000 MPa, fy = 900 MPa), a força máxima de pré-esforço
é dada por:
Fp,C = 0.7 ⋅ fub ⋅ As = 0.7 ⋅ 1000 x10 3 ⋅ As
Assumindo corte simples (n=1), furos normalizados (ks = 1.0) e uma
coeficiente de atrito μ=0.5 (superfície de classe A), a resistência ao
deslizamento é obtida através da seguinte condição:
ks ⋅ n ⋅ μ
F6.Ed = 79.3 kN ≤ Fs.Rd = ⋅ Fp,C ⇔ As ≥ 2.83 x10 − 4 m 2
1.25
Solução: 6 parafusos M24 (As = 3.53 cm2), classe 10.9.

4.3. LIGAÇÕES POR SOLDADURA

4.3.1 Comportamento das soldaduras


‰ As ligações por soldadura apresentam como principais vantagens:
ƒ maior simplicidade;
ƒ maior rigidez;
ƒ maior rapidez de execução;
ƒ melhor aparência.
Como desvantagens, refiram-se as seguintes:
ƒ mão-de-obra mais especializada;
ƒ maiores problemas de rotura frágil e fadiga.

‰ Na construção metálica, a maior parte das soldaduras são efectuadas


com cordões de ângulo ou cordões de topo, sendo as primeiras mais
baratas pois não necessitam de preparação prévia (em termos de
cortes) das superfícies a ligar. Embora em menor quantidade, existem

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outros tipos de cordões de soldadura, utilizados em situações mais


específicas, conforme se resume no quadro seguinte.

‰ A geometria de uma soldadura é definida pelo comprimento e pela


espessura a do cordão (figura seguinte). Independentemente do
processo soldadura utilizado, o metal de adição deve apresentar
propriedades mecânicas semelhantes às do metal base.

Cordões de ângulo Cordões de topo

Tipos comuns de cordões de soldadura

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‰ Para os diversos tipos de cordões de soldadura, na Parte 1.8 do EC3


são indicadas diversas disposições construtivas. Em relação aos
cordões de ângulo refira-se que os elementos a ligar devem formar um
ângulo entre 60º e 120º (figura anterior), os cordões devem ter uma
espessura mínima de 3 mm, podem ser usados cordões contínuos ou

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descontínuos (verificando determinados limites cordões), devem ser


evitadas excentridades, entre outras.

‰ A pormenorização dos cordões de soldadura deve ser efectuada de


forma a reduzir ao mínimo as deformações e tensões residuais
resultantes do processo de soldadura. Além disso devem ser evitados
outros defeitos de soldadura, como sejam: fissuras, defeitos de
colagem, falta de penetração, inclusão de escórias, porosidades, etc…,
como se ilustra na figura seguinte.

a) Exteriores b) Interiores
Defeitos em soldaduras

‰ A avaliação da qualidade de um cordão soldadura pode ser efectuada


por processos destrutivos: análises ao microscópio, ensaios de dureza,
ensaios de tracção etc… ou não destrutivos: análise visual, ensaio com
líquidos penetrantes, ensaio com partículas magnéticas, radiografias e
ensaios por ultra-sons.

4.3.2 Análise e dimensionamento de cordões de soldadura


‰ A resistência de um cordão de soldadura depende não só das suas
dimensões (espessura e comprimento), mas também da orientação
relativa do cordão e do esforço actuante. A seguir são descritas as
principais disposições regulamentares para a análise e verificação da
resistência de cordões de soldadura de ângulo e de topo.

i) Cordões de ângulo

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‰ O comprimento de um cordão de ângulo deve ser o comprimento total


menos duas vezes a espessura a, excepto nos casos em que a
espessura a seja mantida ao longo de todo o cordão. Cordões com
comprimentos inferiores a 30 mm ou 6 vezes a espessura do cordão
não devem ser considerados.

‰ Na parte 1.8 do EC3 são propostos dois métodos para o


dimensionamento de cordões de ângulo: o Método direccional (em
4.5.3.2 do EC3) e o Método simplificado (4.5.3.3 do EC3).

‰ Segundo o método direccional, os esforços transmitidos através de


um cordão são decompostos em tensões ao longo do plano da rotura
do cordão (ao longo da espessura a), segundo as direcções transversal
e longitudinal. O dimensionamento do cordão é efectuado com base na
aplicação de um critério de cedência. Assim de acordo com a figura
seguinte, definem-se as seguintes tensões:
ƒ Tensão normal, perpendicular ao eixo do cordão (σ⊥);
ƒ Tensão tangencial perpendicular ao eixo do cordão (τ⊥);
ƒ Tensão normal, paralela ao eixo do cordão (σ//) (pouco influente);
ƒ Tensão tangencial paralela ao eixo do cordão (τ//).

Tensões actuantes num cordão de soldadura

Depois de avaliadas as tensões actuantes, o dimensionamento do


cordão é efectuado com base nas seguintes condições:

(
σ ⊥ + 3 ⋅ τ ⊥ + τ //
2 2 2
)≤ β fu
w ⋅γ M2

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fu
σ⊥ ≤
γ M2
em que fu é a tensão última da peça mais fraca a ligar, βw é um
coeficiente de correlação igual a 0.8 para o aço S 235, igual a 0.85 para
o aço S 275, igual a 0.9 para o aço S 355 e definido no quadro 4.1 da
Parte 1.8 do EC3 para outros aços e γM2 é um factor parcial de
segurança igual a 1.25.

Este método implica a decomposição dos esforços actuantes em


tensões segundo o plano de rotura dos cordões de soldadura; na
prática, este procedimento pode obrigar à realização de muitos cálculos,
consoante a maior ou menor complexidade da ligação.

‰ Em alternativa, o EC3 permite a utilização de um método simplificado


(mais conservativo), segundo o qual a segurança é verificada
comparando a resultante das forças actuantes por unidade de
comprimento de cordão (Fw,Ed), com a força resistente por unidade de
comprimento do cordão (Fw,Rd). Na figura seguinte exemplifica-se a
obtenção da força Fw,Ed, numa ligação com dois cordões de ângulo.

F1 + F2 + F3
2 2 2

Fw .Ed =
2⋅L
Resultante das forças actuantes no cordão

Independentemente da orientação do cordão de soldadura, a força


resistente de cálculo por unidade de comprimento é dada por:

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fu 3
Fw .Rd = ⋅a
βw ⋅ γ M 2
em que a é a espessura do cordão e as restantes grandezas têm o
significado definido anteriormente.

‰ Para exemplificar a aplicação dos dois métodos, considere-se a ligação


soldada representada na figura seguinte, onde os dois cordões com um
comprimento LW e uma espessura a, são submetidos a uma força NEd.

NEd

Ligação soldada

Segundo o método simplificado, vem:

N Ed f 3
Fw .Ed = ≤ Fw .Rd = u ⋅a
2 ⋅ LW βw ⋅ γ M 2
fu
⇔ N Ed ≤ 1.15 ⋅ ⋅ a ⋅ LW
βw ⋅ γ M 2

De acordo com o método direccional, segundo o plano de rotura (a 45º)


surge uma tensão tangencial (τ⊥) e uma tensão normal (σ⊥).
Considerando o equilíbrio na direcção perpendicular e na direcção
paralela ao esforço, vem:

σ⊥ = τ⊥
⎛ 2 2 ⎞⎟
2 ⋅ ⎜⎜ σ ⊥ ⋅ a ⋅ LW ⋅ + τ ⊥ ⋅ a ⋅ LW ⋅ ⎟ = NEd
⎝ 2 2 ⎠
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de onde se obtém,
N Ed
σ⊥ =τ⊥ =
2 ⋅ 2 ⋅ a ⋅ LW
Aplicando a primeira expressão do método direccional (mais gravosa),
vem:
fu
NEd ≤ 1.41 ⋅ ⋅ a ⋅ LW
βw ⋅ γ M 2
o que permite concluir que o método simplificado é mais conservativo.

‰ A resistência de um cordão de topo, no caso de penetração total, é


dada pela resistência da peça mais fraca a ligar. Noutras situações é
obtida de acordo com os métodos anteriores, avaliando adequadamente
a espessura do cordão.

‰ A distribuição de forças ao longo de um cordão de soldadura pode ser


efectuada através de uma análise elástica ou de uma análise plástica.

‰ Quando um cordão de soldadura muito comprido é solicitado por forças


com a direcção do seu eixo, as tensões a meio do cordão são inferiores
às tensões nos topos (figura seguinte).

τ// τ//

Lw
Distribuição de tensões não uniforme numa ligação longa

A concentração de tensões pode provocar rotura nos topos dos cordões


de soldadura. Como tal a resistência de um cordão de soldadura com
um comprimento superior a 150 a deve ser reduzida, multiplicando-a
pelo factor βLw, como se descreve na figura seguinte.

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0.2 ⋅ LW
β Lw ≤ 1.2 −
150 ⋅ a
ΒLw
1

0,8

0,6

0,4

0,2

0
0 50 100 150 200 250 300 350 400
LLaW/a

Factor de redução da resistência βLw

‰ Nas ligações reais podem surgir esforços de natureza diferente a actuar


em cordões de soldadura colocados em posições diversas.
Considerando distribuições plásticas de tensões, na figura seguinte
definem-se duas formas possíveis de distribuir os esforços actuantes
pelos cordões de soldadura, numa ligação viga-pilar soldada sujeita a
momento flector M e a esforço transverso V.

M V
Distribuição de forças numa ligação viga-pilar soldada

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