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Sinopse

À valiosa bagagem literária do


escritor dinamarquês Sven Hassel junta-
se este livro que, a exemplo de outros de
sua autoria, se apresenta com todos os
ingredientes para repetir em nosso país
o êxito alcançado no exterior.
Não se trata de mera ficção; é, sim, a
história romanceada de episódios
ocorridos em diversos lugares da
Alemanha e da Rússia durante a
Segunda Guerra Mundial, passagens
marcantes de uma luta de extermínio,
mostrando, por um lado, cenas pungentes
resultantes de manifestações
incontroláveis da ferocidade humana,
própria de tais ocasiões, e desvendando,
por outro lado, o ambiente sujo dos
bastidores, inclusive a eterna história
dos prostíbulos, onde o grau de baixeza
moral chega a limites inconcebíveis.
Um dos capítulos, que dá título ao
livro, descreve a terrível batalha pela
captura da famosa prisão-fortaleza da
OGPU, organização da famigerada
Polícia Secreta Russa, que precedeu o
KGB. Revelou-se então ao mundo um
dos mais hediondos quadros da guerra:
o interior de um presídio militar no qual
a tônica parecia ser o aviltamento físico
e moral das infelizes criaturas humanas
ali encerradas.
Os leitores de Sven Hassel,
familiarizados com a crueza de suas
descrições dos ambientes da guerra e
com o absoluto destempero de
linguagem dos seus personagens,
reencontrar-se-ão nesta obra com o já
celebre grupinho do qual ele próprio é
figura saliente e que varou a guerra sem
se desagregar, em que pese a completa
falta de equilíbrio em matéria de
temperamento, caráter e convicções dos
seus componentes. E assim tomarão a
acompanhar as incríveis aventuras
desses desnorteados, mas valentes
aventureiros, liderados pelo cínico,
falastrão e ganancioso Joseph Porta e
formado pelos seus companheiros Tiny,
o homenzarrão inconsequente, o chefe
material conhecido apenas como “O
Velho”, o indeciso Gregor, o
temperamental Barcelona, o valente e
bem-humorado negro Albert, o jovem e
sonhador Legionário, o fanático nazista
Heide e o autor Sven, levado pelo
espírito de aventura a enfrentar
perigosas situações.
A narrativa chega certas vezes à
beira da inverossimilhança, tal o
aparente absurdo de certas situações,
ora terrivelmente trágicas, ora
extremamente cômicas, ou combinando
as duas manifestações, em episódios
magistralmente explorados. Há, entre
muitos exemplos, o caso de uma
tragicômica luta que deveria ser de boxe
mas degenera em tremenda tentativa de
matança entre duas cavalgaduras em
forma de gente, um alemão e um russo,
tudo combinado no sentido da derrota do
mastodonte germânico, representante da
onipotente Alemanha Nazista do Führer,
para desespero da imensa torcida alemã
e tranquilo embolso dos lucros das
apostas pelos espertos promotores,
apaniguados do incorrigível Porta. E
tocando as raias do absurdo, ha o caso
de um depósito de suprimentos alemão
que, em lugar do material de guerra
insistentemente pedido e urgentemente
necessário, recebe, entre outras
inutilidades, uma batelada de
anticoncepcionais...
Historiador da Segunda Guerra
Mundial, Sven Hassel marca outro tento
com OGPU - A PRISÃO SOVIÉTICA,
talvez o melhor de seus romances, que
são publicados no Brasil pela Record.
OGPU — A PRISÃO SOVIÉTICA
Tradução de FRANCISCO DE
ASSIS GONÇALVES
Título original inglês
OGPU PRISON
Copyright © 1982 by Sven Hassel
Direitos de publicação exclusiva em
língua portuguesa no Brasil adquiridos
pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE
SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 — 20921 Rio de
Janeiro, RJ
Dedicado ao meu amigo o poeta
espanhol Joaquin Buxo Montesinos
A única coisa que o nosso Führer
tem medo é a paz, mas ele não precisa
se preocupar com isso.
Nossos inimigos não pensariam em
fazer a paz com ele.

Porta, em conversa com Tiny durante


uma travessia do Dnieper em julho de
1942
Feliz era o nosso riso ali onde a
morte se tornou absurda, e a vida,
ainda mais.

WILFRED OWEN

— Après le déluge — explicava o


capelão, dirigindo-se ao tenente-
coronel, que o encarava friamente do
alto do cavalo. — Minha mãe me
abandonou quando eu era garotinho —
continuou entre soluços, como que
penalizado de si mesmo.
— Você está bêbado — disse o
coronel — batendo com o chicote nas
botas de montar.
— Errado, completamente errado,
meu velho coronel — redarguiu
emocionado o padre, emitindo uma
estranha gargalhada, que ecoou na
quietude matutina das ruas. — Olhe
bem de perto, meu velho amigo coronel,
e pode ver que estou sóbrio,
completamente sóbrio. Nem mesmo o
seu cavalo vai deixar de perceber isso,
se eu bafejar bem na cara dele.
Agarrando-se a um poste de
iluminação, ele conseguiu realizar a
proeza de se pôr de pé e fazer a
continência.
— Caro senhor coronel, não vou
decepcioná-lo — disse com respeitosa
sinceridade. — Estou bêbado.
Terrivelmente, mas terrivelmente
mesmo bêbado.
E deu a si próprio a penitência de
dez padres-nossos e quinze ave-marias,
mas acabou perdendo a conta e disse:
— Por Deus, senhor. Permissão para
falar, senhor. Eu sou capelão do
Terceiro Corpo do Exército, senhor.
Abraçou-se ao pescoço do cavalo e
pediu para ser preso, algemado e
encarcerado.
— Mas, por favor — implorou, com
um risinho maroto — me ponha na
prisão de Alt Moabitt. Hoje vai ter
feijão no jantar lá. Venha comigo, meu
velho senhor coronel, para ver com
seus próprios olhos. É o melhor feijão
que já terá provado em toda a sua vida.
1
Corrida de obstáculos para a casa
de vidro

Gregor Martin praguejou durante um


bom tempo sem se repetir.
— Missão de escolta! — bufou. —
Por que cargas d’água isso tem que cair
sempre em cima da gente? Por que não
podem embarcá-los num trem ou coisa
que o valha? Todos esses merdas
acorrentados e algemados, e vendendo
saúde! Como se algum deles fosse idiota
o bastante para pensar em fugir!
— Há uma coisa que você não
entende — disse Porta, com um sorriso
de satisfação. — Está escrito no
Regulamento do Exército que os
prisioneiros têm que ser levados para a
prisão acorrentados e sob escolta
armada. O Exército leva isso muito a
sério. Mandá-los de trem! Você deve
estar biruta!
— Agora cala essa boca! — rosnou
Gregor, asperamente. — E sevai
começar uma de suas histórias,
principalmente sobre casos de
prisioneiros, eu perco a cabeça e lhe
dou um tiro, juro que dou!
— Minhas histórias não são para ser
desprezadas — queixou-se Porta. —
Delas se pode tirar muito ensinamento.
Uma vez estávamos escoltando
prisioneiros de Altona para Fuhlsbüttel
e quando chegamos a Gänsemarkt todos
concordaram em tomar uni trem.
Mas o comandante da escolta, o
Subtenente Schramm, tinha um troço nos
olhos e era obrigado a usar óculos
escuros. Dissemos a ele que estávamos
tomando o trem número nove e era o
seis que devíamos tomar, mas ele
mandou que calássemos a boca,
exatamente como você fez agora. Não
podia admitir que seus óculos lhe
fizessem tais falsetas. Azar o seu,
Schramm, pensamos nós, e embarcamos
no número nove, que ia para
Landungsbrücke.
— Está bem, chega! — berrou
Gregor, zangado. — Todos nós sabemos
como é o fim da história.
— Sabem nada — disse Porta,
sorrindo condescendentemente. — Só
fomos dar em Fuhlsbüttel, com o
comandante chamado Marabou, três dias
mais tarde, mas antes disso o Subtenente
Schramm pirou de vez e tivemos de
levá-lo para o hospício de Giessen. Mas
quando essa parte estava já superada, a
escolta caiu prisioneira e o comando
teve de providenciar uma outra. Essa
outra foi posta sob o comando do
Sargento Schluckemeyer, que andava
com um troço no ouvido...
— Se você vai me dizer que ele
também malucou — berrou Gregor —
alguém aqui vai se dar mal comigo.
— Nada disso — retrucou Porta,
mostrando-se insultado. — Eu sempre
me atenho aos fatos. O Sargento
Schluckemeyer nunca endoidou. O que
ele fez foi se matar com um tiro, pouco
antes de chegarmos a Fuhlsbüttel, e isso
nos causou muito aborrecimento porque,
você sabe, não podíamos entrar na Casa
de Vidro e fazer a apresentação sem
comandante...
Gregor puxou seu P-38 para fora do
coldre.
— Uma palavra mais e encho você
de buracos de bala!
— Faça como quiser — respondeu
Porta, dando de ombros. — Mas vai se
arrepender de não tirar partido de minha
experiência. Eu sou o tal em matéria de
escolta, seja ela qual for.
— Merda! — rugiu Gregor
enraivecido, e meteu outra vez a arma no
coldre.
Porta, que conhecia Berlim como a
palma da mão, tomou a dianteira, mas
quando cruzamos o Neuer Markt e
entramos na Bischoffstrasse, um dos
prisioneiros, o infante 2ª Sargento Kain,
avisou que estávamos no caminho
errado.
— Que diabo você sabe sobre isso?
— espumou Porta, furioso. — Eu posso
estar cortando caminho, não posso?
— Bolas! — protestou Kain,
resolutamente. — Sou nascido nesta
cidade e conheço-a de ponta a ponta. Vai
por aqui e acaba batendo direitinho em
Alexander Platz.
— Não venha com essa de me
ensinar como proceder, seu prisioneiro
de merda! Eu sei o que estou fazendo!
— respondeu Porta.
— Prisioneiro só fala quando é
mandado — gritou Tiny lá de trás.
— Se vamos para a Casa de Vidro
— interveio um sargento artilheiro —
então estamos exatamente no caminho
errado.
— Conversa fiada — advertiu Porta,
com autoridade. — Vocês parecem um
bando de papagaios faladores. Assuma o
espírito de Natal, Gregor, e tire as
correntes dos escravos. Vou levá-los
para o Cão Trapaceiro, do outro lado do
Alex. Está sempre acontecendo alguma
coisa no Cão Trapaceiro — continuou
Porta com um riso franco e amolecado,
ao tempo em que fazíamos alto no lado
de fora do Cão. — Na quarta-feira
passada um cara saiu correndo atrás de
outro e deu-lhe um tiro na bunda por
tentar cair fora sem pagar a conta.
Ontem de noite um encontro do pessoal
de estrada de ferro com a rapaziada dos
bondes acabou com um deles apanhando
uma febre esquisita, e toda noite alguém
sai de ponta-cabeça pela janela.
— Vocês são políticos? —
perguntou Tiny, cheio de curiosidade,
enquanto abria as algemas de um 2º
sargento pioneiro.
— É, pode ser — respondeu
fleumaticamente o pioneiro. —
Desconfio que deva ter sido no mínimo
ministro de Estado.
— Frente Vermelha e toda aquela
merda? — perguntou Tiny com um riso
malicioso.
— Pior — respondeu o pioneiro
com ar de mistério. — Eu fui posto para
fora do Sapo. Os guardas amontoaram-
se em torno como um bando de patos em
cima de um pedaço de pão, e eu tive de
dizer a eles que Adolf Hitler não
passava de um grande mentiroso vindo
de Brunau, e era isso o presente que a
Áustria nos mandara. sem intenção
maldosa.
— Mas você tem uma chance —
explicou Tiny, com ar superior. —
Quando o levarem a enfrentar a corte,
levante o braço, bata os calcanhares e
grite: “Heil Hitler!” E faça isso sempre
que tiver de responder a uma pergunta
perigosa. Ai então o que eles podem
fazer é mandá-lo ao velho psicanalista.
Braço erguido novamente e mesma
atitude. Aí ele mandará você fazer
qualquer coisa maluca, como tapar
buracos com pedaços de pau, combinar
palavras, coisas desse tipo.
E você, que faz? Você grita bem alto:
“Führer, be fiehl, wir folgen!” E isso
você repete sempre, mesmo que o
joguem numa solitária. Dentro de pouco
tempo se convencerão de que você é
incompatível com punição, e porão você
num hospício para o resto da vida. Então
você estará salvo. E só ficar por lá,
numa atmosfera tranquila de paz, e
esperar que a Alemanha corra com a
cambada. Quando isso acontecer eles
botam você para fora de lá com um
pontapé na bunda e enchem o hospício
com Adolf e seus cupinchas. Na nova
Alemanha você terá a chance de ser pelo
menos prefeito.
— Muito lisonjeiro, não é? —
protestou o sargento artilheiro com
pessimismo, enquanto procuravam
lugares no salão esfumaçado e cheirando
a cerveja para se sentarem.
O dono, um homem magrinho de
chapéu-coco preto e enorme, abraçou
Porta com um largo sorriso. A primeira
rodada era por conta da casa.
— Algum de vocês tem contas a
ajustar com o executor? — perguntou
Porta, depois que a segunda rodada foi
ingerida— Se tem, não fique nervoso.
Antes que se dê conta, já está tudo
acabado. Conheço o cara que faz isso;
ele é bom na coisa. Só duas vezes andou
fazendo besteira, e um dos caras era
fogo!
Conseguiu confundi-lo dizendo aos
gritos que tudo aquilo estava errado. Foi
demais.
— Não acredito que sejam tão
cruéis — interveio um 3º sargento
infante. — Nós alemães somos um povo
humano.
— Vá dizer isso para os rapazes
presos em Germersheim — disse Porta
ironicamente.
— Você pode não acreditar —
tornou o sargento — mas eu sou de fato
inocente.
— Claro que é — concordou Porta.
— Todos nós somos. Infelizmente muitas
vezes é mais perigoso ser inocente do
que culpado. — Inclinou-se sobre a
mesa e falou em tom confidencial. —
Conheci certa vez um senhor chamado
Ludwig Gänsenheim, de Soltau. Era um
homem cauteloso. Tão cauteloso que
andava na rua de olhos fechados para
não ver o que não devia. Quando uma
conversa se tornava perigosa ele tapava
os ouvidos, até com os dedos dos pés
também, se isso fosse possível. Pois
bem, um belo dia ele se viu envolvido
numa manifestação da organização
nazista KDF, com todo mundo gritando:
“Heil Deutschland, Hei! der Führer.”
Quando chegaram à Leipziger Strasse e
contornaram o edifício dos empregados
nos bondes, o nosso amigo Senhor
Ludwig Gänsenheim havia ele mesmo
feito uma lavagem cerebral,
transformando-se num fiel seguidor do
Führer, ainda que contra a vontade. No
momento em que a alegre multidão se
espalhou ruidosamente pela ponte sobre
o rio Spree, ele perdeu completamente o
controle e desandou a gritar: “Morte e
gás para todos os judeus e comunistas!”
Ficou tão perturbado que nem pôde
perceber que estava caído, com a
multidão toda passando sobre seu corpo.
Enquanto a turba disparava para a
Chancelaria, a fim de pegar uma
casquinha de Adolf, um guarda ia
recolhendo o que sobrara de Herr
Ludwig e de dez outros pobres inocentes
iguais a ele. Levaram-nos para a
Morgue, onde alguém provavelmente os
identificou.
— A guerra é terrível — interveio o
3º sargento infante, os cantos da boca
tão caídos que quase se encontravam
debaixo do queixo. — Toda sorte de
gente acaba sendo morta de um jeito ou
de outro, seja inocente ou culpada.
— Isso, isso — prosseguiu Porta,
vibrante. — Em tempo de guerra, nada
de preocupação. Uns têm o queixo
arrancado na frente de batalha, outros
perdem seus ovos em Plötzensee. Mais
cedo ou mais tarde todos nós passamos
por isso, de modo que nossos
descendentes possam ver que realmente
fizemos alguma coisa durante a guerra e
não ficamos correndo em volta, como
um bando de galinhas perseguidas pela
raposa. As guerras mundiais têm de
terminar em sangue e merda para que
venham a ter um bom nome nos livros de
História.
Você não vai pensar que Adolf
aceitaria uma guerra que ninguém nem
mesmo notou. Os ditadores e generais
realmente malvados é que são sempre
lembrados.
A chuva dera lugar à neve quando os
prisioneiros e suas escoltas deixaram o
Cão. Do lado de fora da hospedaria da
Juventude Hitlerista estavam arriando a
bandeira. Dobramos a esquina e
marchamos pela Dircksen Strasse.
— Merda! — rosnou Gregor, tirando
do rosto a neve derretida. — Já estou
enchendo desta guerra desgraçada.
Sempre na expectativa de uma bomba
caindo em cima da nossa cachola.
De uma porta que uns poucos
degraus colocavam acima do nível da
rua, um homem saiu voando, rolou pelo
chão, atravessando a rua como uma roda
viva, e foi bater violentamente de
encontro à parede da casa no lado
oposto.
Paletó e chapéu vieram voando atrás
dele, e, após uns segundos, o guarda-
chuva.
Porta deu uma gargalhada gostosa.
— Gente fina está ali. É o Sapo
Aleijado, e as coisas parecem animadas
lá dentro. Vamos entrar com respeito e
tranquilidade — continuou falando de
um modo paternal — porque e um lugar
decente, com um piano e uma bateria, e
é onde as viúvas da guerra vêm para se
consolar das perdas sofridas.
— Já estive aqui uma vez —
confessou Tiny, com um brilho nos
olhos. — O mulherio que tem aqui a
gente nem pode acreditar.
Agora, muito pouco espaço. Você
não pode você mesmo ir fazer pipi. Tem
de mandar seu troço.
— E se os guardas aparecerem? —
perguntou nervosamente Gregor,
pousando a metralhadora numa
prateleira do bar.
— Não tem problema — respondeu
Porta, rindo descontraidamente. —
Tanto eles como os policias especiais
sempre dão sinal antes de entrarem aqui.
O dono, que tinha as duas pernas
artificiais, abraçou Porta efusivamente e
perguntou para onde se dirigia.
— Estou levando quatro infelizes
para serem enforcados — respondeu.
— Que merda — disse o dono. — A
primeira rodada é por conta da casa.
Cerveja e genebra, Após as
primeiras quatro rodadas de cerveja e
genebra, Porta começou a contar
anedotas revolucionárias.
— Quando os ingleses lhe puserem à
mão, é que vão esticar mesmo aquele
pescoço austríaco — comentou ele em
tom reservado para um motorista que
partiria ao amanhecer com um transporte
de tropas.
— E terá de fazer um discurso antes
de tirarem o chão debaixo dele —
acrescentou Tiny, rindo a bandeiras
despregadas e batendo com o punho na
mesa, o que fez os copos estremecerem.
Um policial em trajes meio civis riu
com tanto estardalhaço que engoliu o
charuto. O dono bateu-lhe rias custas
com sua terceira perna de pau, a qual
estava sempre de prontidão atrás do
balcão. E ele acabou botando para fora
o charuto que, para nosso espanto,
conservara aceso.
Duas mulheres vestidas de preto,
branco e vermelho e sentadas debaixo
de um retrato de Hitler começaram a
cantar:

Uma vez atirei num polícia


Agora a mulher é que está
pagando...

Um grupo de feridos ocupava uma


comprida mesa e corria as mãos pelas
pernas das garotas.

Sofia estava cheirando a bebida...

Cantava Porta com voz de barítono


encervejado. Um oficial médico, meio
adormecido ao lado do fogão, abriu
furtivamente um olho e esquadrinhou
todo o salão.
— Blefadores, blefadores, todos
vocês! Que preocupação têm com a
pátria?
— esbravejou, fora de si. — Eu vou
consertá-los, ora se vou! Botar tudo
pronto para o serviço e encaminhar para
a frente!
Corri um suspiro profundo ele caiu
sobre a mesa e adormeceu novamente.
— Bêbado! Bêbado que nem um
gambá! — lamentou o dono, sacudindo a
cabeça, em desaprovação. — Vive
reclamando uma comissão que declare
tudo e todo mundo apto para o serviço.
Deram-lhe medalha por isso. Semana
passada ele considerou apto um sujeito
que só tinha uma perna e era hemofílico
— Foi logo para a frente com a perna
postiça debaixo do braço, mas
imediatamente o declararam incapaz e o
mandaram de volta ao depósito. Agora
ele está na Hauptfeldwebel Schule
esperando a vez de ajustar contas com
esse carniceiro.
— Cinco dólares por dez minutos,
vinte e cinco pela noite inteira —
ofereciam as mulheres de vermelho,
branco e preto.
— Mas só com camisinha, meus
chapas — disse com um risinho safado a
menor delas, apontando cinicamente
para debaixo da saia.
— Mais tarde, mais tarde — disse
Porta, acenando para irem embora. —
Primeiro nós temos de tratar aqui dos
nossos orfãozinhos.
— Não, primeiro nós temos de ir,
pois morrerão depois da meia-noite —
falou Tiny, com um riso amalucado. —
Estamos a caminho da cadeia, levando
quatro fregueses para o executor —
confidenciou para as duas abnegadas
damas.
— E eles parecem tão boas-praças
— disse a mais esbelta.
— E são — respondeu rindo Tiny.
— Vão dar quatro defuntos legais.
— Que que eles fizeram? —
perguntou alguém lá do fim da mesa.
— Nada de mais — respondeu Porta
com um sorriso. — Aquele ali, o de
infantaria, cortou a garganta dos filhos
gêmeos, logo que nasceram. O artilheiro
matou a mulher com uma surra de
coronhadas, e o gorducho, que era
açougueiro numa rua suspeita, fez
linguiça com as tripas de duas
prostitutas.
— Chega! — gritou indignado o
sargento. — Nenhum de nós é assassino.
Somos políticos, apenas políticos.
De repente todo mundo quis mais
uma rodada.
— A pátria foi enganada! — evocou
Porta, erguendo o copo acima da cabeça
dos presentes, dos quais recendia um
odor misto de cerveja e prostituição.
— Depois de nos. o rio de sangue —
vaticinou Tiny. Bastante excitado e
esvaziando o copo de um sujeito que
mergulhara em sono profundo.
— Nossos inimigos estão mijando
na gente — disse Gregor, com soluços e
sem firmeza nas pernas, Ao longo da
grande mesa, os convalescentes e suas
namoradas começaram a cantarolar:
Alemanha, velho lar, Tua bandeira
salpicada de sangue pende em
farrapos...

— Como funcionário do listado, não


posso continuar ouvindo tais coisas —
protestou um homem magro e alto.
metido num casaco preto de couro.
Parecia uma águia seriamente
resfriado.
— Então vá se sentar num cantinho e
tape os ouvidos — sugeriu Porta. — O
que não se ouve não molesta.
— Vamos tocando para essa maldita
casa de Vidro — pediu
desconsoladamente o sargento artilheiro.
Está tudo doido. Como prisioneiro
militar eu lavro meu veemente protesto,
— Seus piolhos devem estar mexendo
com seu fígado — rosnou Tiny. — Que
diabo tem você a ver com isso? No
momento você não é nem soldado raso.
Divirta-se um pouco. É sua última
chance antes de ir para a corte marcial.
Depois disso você não vai poder rir
muito. Aí então é que vai ver que as
guerras mundiais não tem nada de
engraçado.
O 3º sargento infante, bastante
bêbado. dançava um complicado tango
com a patriótica prostitutazinha — que o
mantinha agarradinho para que ele não
desabasse.
— Conheço um cara que vai ter a
cabeça decepada — disse ele, com um
risinho idiota.
— Os bons são sempre os primeiros
— replicou ela a título ele consolo,
comando suas palavras com um bruto
arroto.
— Ontem um sujeito imundo me deu
uma porção de cartões falsos de
racionamento por uma noitada —
lamentou-se tristemente uma rapariga.
— E você não teve coragem de ir
com ele, teve? — perguntou um 3º
sargento que tinha um braço só.
— Escuta, vocês não têm medo que
eles possam fugir? — perguntou um
paisano, que cheirava a polícia.
— Não, eles não ousam —
respondeu Porta com um riso.
— Seriam fuzilados como
desertores, do mesmo modo que estão
sendo agora levados para o fuzilamento,
e isso é suficiente para tirar o ânimo de
qualquer cachola, por mais dura que
seja.
— O senhor, como graduado, deve
saber que é terminantemente proibido
levar prisioneiros a estabelecimentos
públicos, não é?
O policial à paisana que disse isso
virou-se para Gregor: — Verifique na
página um sete meia do regulamento das
escoltas militares.
O prisioneiro deve ser conduzido
diretamente para o lugar da prisão e
posto em,absoluto confinamento. Em
nenhuma circunstância lhe é permitido
entrar em contato com outras pessoas.
Se se tornar necessário comunicar-se
com ele, deve-se usar o menor número
de palavras possível.
— Perfeito, companheiro —
concordou Tiny em tom de gozação. —
Os prisioneiros serão tratados como
frágeis bebezinhos, claro que serão. Não
serão contaminados com o contato de
bêbados, nem tampouco de prostitutas.
Seja quem for que lhes dirigir a palavra
será posto a ferros e levado sem perda
de tempo à presença do juiz.
— Cinquenta por uma injeção —
sussurrou o homenzinho andrajoso. -—
Maravilha — prosseguiu sussurrando e
cutucando Porta com ar de conspiração,
— Éter e benzeno. Em três dias toda a
China acabou com a peste. Se você for o
último soldado alemão vivo, que que
isso te vai adiantar?
— Muito cedo, meu filho, muito
cedo — respondeu Porta,
desinteressado. — Eu sou um dos
poucos felizardos que ainda estão
gozando uma boa guerra.
Logo depois, o estranho homenzinho
entrou no toalete com sua seringa
hipodérmica e quatro infantes exaustos
da guerra. Quando voltaram, irradiavam
um novo otimismo.
O barulho ia aumentando no bar.
Dois dos prisioneiros haviam ido
dormir no cesto do cachorro, junto ao
fogão. O cachorro não gostou da coisa e
começou a latir, mostrando os dentes e
mordendo-lhes as pernas. Nada
adiantou, e então, sem pestanejar,
levantou uma perna traseira e deu uma
bruta mijada na cara deles.
— Umas gotas d'água por dia até que
é bom para a gente — resmungou o 2º
sargento, continuando a dormir.
— Mastiguem a comida vinte e sete
vezes antes de engolir — doutrinou o
pioneiro, movendo os maxilares tal
como fazem as vacas nos estábulos
aquecidos.
— Me leva para a prisão — exigiu o
sargento, com energia.
— Eu tenho o direito de ser levado
imediatamente para a prisão. Sou um
maldito prisioneiro e tenho mais direitos
do que qualquer outro maldito soldado
do Exército. Vocês aí não têm só a
obrigação de me vigiar para não fugir,
mas também devem velar para que eu
não seja maltratado. É coisa muito seria
mesmo. — Apontou acusatoriamente
para os dois prisioneiros acomodados
na cesta do cachorro: — Os juízes não
vão gostar disso, eu sei bem.
Prisioneiros bêbados como lordes.
— Estou com fome — disse Porta,
com o estômago roncando alto. — Que
tal uma rodada de “merda numa pá” para
quebrar o galho? Oito “merdas em pás”
— gritou pela abertura da cozinha.
Não tardou e oito fumegantes pratos
de picadinho estavam ali servidos. A
fraca luz matutina de novembro começou
a se mostrar e Gregor achou que era
tempo de retornarem à tarefa e se pôr a
caminho da prisão.
— Será que já foram? — perguntou,
babando-se todo, o pioneiro deitado na
cesta do cachorro.
— Você acha? — perguntou o 3º
sargento infante, com uma expressão de
esperança que lhe iluminava a
fisionomia. Parecia um sujeito
deslumbrado, como se tivesse achado
uma carteira cheia de dinheiro.
— Não vão gostar nada se a gente
chegar lá no meio do seu café —
murmurou Tiny, preocupado.
— Tem razão — admitiu Porta,
pensativo. — Principalmente porque
esses caras da cesta do cachorro estão
com um fedor desgraçado de cerveja e
genebra.
— Então que vamos fazer? —
suspirou Gregor indeciso, sentindo-se
de repente muito solitário.
— Bombardear a Inglaterra até ela
ficar em pedacinhos — rosnou um
aviador inteiramente bêbado, dando um
murro na mesa.
— Só vai ficar um buracão no meio
do mar.
— Deus nos acusa — gritou Gregor,
com um memorável arauto. — Nunca
devíamos ter tido uma força aérea tão
complicada.
— Exatamente o que eu digo —
comentou o 3º sargento infante lá do
cesto do cachorro. — Bons infantes e
artilharia que saiba atirar direito. Urna
chuva de granadas na cabeça deles e no
topo para onde vamos.
— Puxa! Desse jeito já perdemos um
bocado de guerra — suspirou Porta,
visivelmente cansado. — Os infantes
foram direitinho para o inferno e a pó.
Quando chegou o dia da vitória
deles, só haviam sobrado farrapos de
seres humanos. Todos os outrora
luzidios canhões Krupp estavam tão
gastos que atiravam para e plasmavam
os artilheiros no quadro da paisagem.
— Se vocês não vierem já — gritou
Gregor zangadíssimo, agitando-se como
um cachorro envenenado — eu caio
fora. Caio mesmo.
— Besteira, besteira — vociferou
Tiny. — Bobo como um prussiano sem
ninguém para dar ordens, é o que você
está parecendo. Olha aqui, Gregor, você
é um homem da escolta. Se está
completamente fora de si, como pode
cumprir sua missão. Vão mandá-lo para
a corte marcial, ora se vão. Não tenha
duvida um comandante de escolta sem
escolta e tampouco sem prisioneiros é
realmente um troço muito sério.
— É verdade. Vão lhe chutar todo o
traseiro até a nuca, ora se vão. Ele tem
que pôr na cabeça que vai se meter numa
sinuca de bico — confirmou Porta,
escarafunchando o ouvido. — Uma
olhadela no Regulamento do Exército e
qualquer um pode ver que não é
brincadeira ser posto numa missão de
escolta.
— O que a Bíblia é para o Papa e o
Alcorão para os muçulmanos, o
regulamento militar é para o Exército
alemão — disse Tiny, com ar sério. —
Se o filho de Moisés, Jó, dispusesse de
um Regulamento do Exército, ele não
seria nunca idiota a ponto de cruzar o
Reno, penetrar na complicada selva
alemã e pegar a turma toda entupida de
chucrute.
Tiny estava descarregando a sua
costumeira e estranha mistura de
História e Bíblia.
— Por favor, senhores, me digam.
Onde é que eu estou? — perguntou de
repente o oficial médico, levantando-se
com grande dificuldade, as pernas
completamente trêmulas.
— Doutor, o senhor está no meio de
amigos — garantiu Porta, batendo os
calcanhares. — O senhor está no Sapo.
— Camarada, atire em mim — pediu
o médico, com um lampejo
caracteristicamente germânico no olhar.
— Eu sou um pau d’água. Atire em mim
— repetiu, rasgando a túnica e ficando
de peito nu.
— Se é seu desejo, senhor —
respondeu Porta, obedientemente,
colocando em seguida a coronha do seu
fuzil, com certa dificuldade, contra o
ombro. Ele agitava a arma
perigosamente, apontando-a
indiscriminadamente para todos os lados
do salão. — Fique parado, doutor, para
eu poder atirar no senhor, como mandou
— gritou, em meio à grande confusão.
— Fogo! — ordenou Tiny, com voz
de comando.
Um estrondo ensurdecedor ecoou no
ar e pedaços de emboço caíram
estrepitosamente do forro. A bala
ricochetou nas paredes e acabou
penetrando num barril de cerveja, cujo
conteúdo começou a escorrer.
2
— Estou morto, me esvaindo em
sangue — choramingou o médico,
vergonhosamente, enquanto a cerveja se
despejava sobre ele, encharcando-o.
Lamentando-se o tempo todo, ele
rastejou por debaixo da mesa, e ao bater
com a cabeça numa travessa de suporte,
descobriu que ainda não estava morto.
Pôs-se de pé com dificuldade,
postou-se em frente ao espelho e
apontou para si mesmo.
— Ah! cá estamos — disse, em tom
de esperteza. — Pensou que me fazia de
bobo, hem? Te conheço bem, seu
doutorzinho. Nada de tapeação comigo.
Pronto para o serviço e volte para a
frente! Me dê um chute! — ordenou, com
severidade.
— Ordem cumprida, senhor! —
gritou Tiny, fazendo o médico voar pelo
salão com um certeiro pontapé.
— São os russos! — gritou uma
mulherzinha magra, mostrando-se
excepcionalmente patriota e pulando nas
costas de um policial adormecido. Ela
esmurrou-o violentamente na nuca e
puxou-lhe as orelhas com as duas mãos.
O maquinista, deitado sobre a mesa,
roncando como uma serra circular,
acordou de repente com a gritaria do
policial.
— Zurücktreten. Zug fahrt ab! —
rosnou ele, sentando-se atravessado
numa cadeira, com um ar típico de
maquinista na face. Apitando e fazendo
ruídos de máquina a vapor, deslocou-se
sobre a cadeira em volta da sala.
— Sem dúvida vão botar esse
sujeito em cana — profetizou o sargento,
observando, com ar sombrio, o ruidoso
maquinista.
— Todos nós acabamos lá, mais
cedo ou mais tarde — disse Gregor,
melancolicamente.
— Verweile Augenblick, du bist so
schön — declamou Porta solenemente,
mostrando-se em dia com Goethe.
O maquinista foi batendo no médico
a torto e a direito. Depois arrastou-se
apegando-se à parede e ficou bem na
frente de Tiny.
— Encontrei você, meu filho!
Encontrei! — disse ele, babando-se
todo, como um idiota. — Como está seu
pai, meu filho? Em forma?
— Não tanto — respondeu Tiny. —
Cortaram-lhe a cabeça em Fuhlsbüttel na
manhã do Ano-Novo em 1938.
— Os caminhos de Deus são
misteriosos — soluçou o oficial médico,
deslocando-se sem apoio. — Com
cabeça ou sem cabeça, que importa? Eu
digo que ele está apto para o serviço.
Para que um soldado alemão quer uma
cabeça?
No primeiro dia que ele entra no
quartel já lhe vão dizendo que pare de
pensar.
Deixe isso para os cavalos. Para que
foi que Deus lhes deu cabeças tão
grandes?
Mas o que é que estou fazendo no
Sapo?
— Respondo em cumprimento à sua
ordem, senhor doutor. O senhor está de
porre e mijado, senhor doutor, essa a
verdade e está dizendo a todos os
presentes que eles estão perfeitamente
aptos para o serviço.
— Impossível — protestou o
médico, momentaneamente lúcido. — Eu
não estou de serviço e quando não estou
de serviço ninguém pode ser declarado
apto para o serviço. Pode me denunciar.
Vou pedir uma corte marcial. Agora vou
desmoronar — disse com voz comovida
e caiu deitado sobre a mesa,
acrescentando: — É você que eu venho
procurando. Amanhã vamos abrir seus
pulmões. Quem não está pronto para o
serviço não precisa de pulmões. Você é
uma vítima do seu meio.
— Levante-se, seu pau-d'água —
berrou o dono, empurrando-o para fora
da mesa.
— Jesus e Maria! — gritou Porta. —
Que ousadia a desse bunda-suja! Que
vamos fazer com ele?
— Cortar-lhe a garganta — sugeriu
o dono, ungido com o leite da bondade
humana.
— Chega! — berrou Gregor de
repente, apertando o cinto.
— Levante-se, seu bêbado mijão!
Ponha-se de pé! Experimente fugir e
usaremos nossas armas — engatilhou
estrepitosamente a sua P-38. De repente
toda essa energia esvaiu-se e ele pediu
mais cerveja.
— Não me abandonem, rapazes —
implorou o medico, olhando por baixo
da saia da mais alta das patrióticas
senhoras. — Me prendam, me levem
para o cadafalso! Esta cabeça é muito
pesada para mim!
— Parece uma boa ideia — suspirou
o dono, com ar triste. — Vocês podem
nos fazer um favor, Levem ele com
vocês.
— Por que não? — interveio
Gregor. — Ponham ele nos ferros, como
os outros quatros salafrários.
— O quê, o quê! — protestou Porta
— Você não pode fazer isso. Nós somos
oito da escolta e quatro prisioneiros,
exatamente como manda o Regulamento
do Exercito. Se formos levar também
esse cara, então você terá de
providenciar mais dois para a escolta.
Não sendo assim, você irá a julgamento
por desobediência ao regulamento. Que
seria de nos se qualquer um fosse
autorizado a pegar prisioneiros na
estrada? Quando nos déssemos conta,
estaríamos que nem um bando de
peregrinos ou cruzados ou coisa
parecida.
— Eu vou Coin vocês como guarda
extra — disse um soldado, que parecia
mais uma cabra encharcada. — Minha
licença terminou há dois dias e eu teria
uma boa desculpa para o atraso na
apresentação.
— Tem fuzil? — perguntou Gregor,
secamente.
— Cá está — gritou o soldado feliz
da vida, pegando o fuzil em um canto. —
E munição também. Estava indo para a
frente do Cáucaso.
— Espere um pouco — interveio
Porta — precisamos de mais um.
— Eu! — ressoou uma voz vinda da
porta e um sujeito negro, em uniforme de
tropa blindada, se apresentou.
— Ué! A África se rendeu? —
perguntou Porta, espantado. — De onde
é que veio?
Uma fileira de dentes bem brancos
destacou-se naquela cara negra.
— Sou alemão, Segundo-Sargento
EM Albert 11º Panzerersatz Abteilung.
Meu pai foi corneteiro no 29
Leibhusaren Regiment. Ele apertou a
mão do Príncipe Herdeiro e esteve com
o Kaiser. Agora estou transferido para o
279 Panzer Regiment.
— Está legal — gritou Porta,
satisfeito. — Muito bem-vindo, negão!
Agora sabemos o que fazer. Prenda o
doutor!
— Venha cá, seu filho da puta —
gritou Tiny, fechando as algemas nos
punhos do médico, bem ao estilo
americano. — Você está preso,
companheiro, e portanto nada de
intimidade comigo daqui em diante.
— Salve! Salve! — evocou o
médico, juntando as mãos e levantando-
as para ao céu, numa atitude clerical.
Depois rompeu numa gargalhada sonora.
— Vamos lá, pessoal. Agora estamos
todos prontos para o serviço. Eu sou um
suíno. Um enorme suíno — disse com a
sinceridade dos bêbados.
A escolta entrou na Gips Strasse e
ele gritou para um grupo de pessoas
adormecidas: — Ei! vocês aí! Querem
conhecer o Doutor Alfred Hütten? Nada
de confusões com o seu primo, o Doutor
Oskar Hütten, veterinário, que é um pau-
d'água e um ateu. Não acredita no Führer
nem na Santíssima Trindade.
— Veja como fala, seu linguarudo —
rosnou Gregor, fulo de indignação. —
Ou amasso seu nariz.
— Tem razão, tem razão, senhor
sargento — disse o médico com um
fraco sorriso, enrolando-se num poste de
iluminação.
— Vamos jogá-lo na lixeira do
parque — é minha sugestão — quando
conseguirmos arrancá-lo do poste. —
Ele apoiara a perna no poste e estava
assim como um cachorro urinando. Um
3º sargento da Luftwaffe observava a
cena interessadamente. O oficial médico
cumprimentou-o.
— Até que enfim vocês chegaram!
— gritou ele alegremente.
— A Inglaterra já foi demolida? O
Mar Germânico já está se derramando
sobre ela? A Luftwaffe é um punhado de
rapazes formidáveis — acrescentou,
estendendo os braços abertos para
imitar um avião. — O Marechal do
Reich ostenta a mais alta ordem alemã.
Feita especialmente para ele.
— Gargantas gordas alemãs têm de
ter gordas comendas alemãs — filosofou
Porta.
— Alto! Para onde estão levando
esses homens? — ouviu-se tuna voz
forte, vinda da escuridão.
Um corpulento capelão, com o quepe
virado para trás, surgiu de uma pequena
porta atrás do Erlöser Kirche.
— Responda, homem! Responda!
— Prisioneiros e escolta, alto! —
comandou Gregor, com cara de poucos
amigos, como se já estivesse detestando
esse encontro com o braço espiritual do
serviço. — Senhor capelão, é uma
escolta com cinco prisioneiros, vinda do
Quartel dos Blindados e dirigindo-se
para a Prisão da Guarnição.
— Muito bem, muito bem — disse o
capelão, mostrando-se satisfeito. —
Então acham-se a caminho da prisão.
não é? Acho que vou acompanhá-los. Lá
tem boa comida no rancho dos oficiais,
e se não estou enganado, hoje é dia de
feijão-mulatinho. Alguém aqui gosta de
feijão? Dê um passo à frente e lhe dou
um tiro. — Sacudiu a cabeça com tanta
violência que o quepe voou e saiu
rolando pela rua.
— Bêbado! — disse Porta, com
conhecimento de causa.
O capelão levou dois tombos
seguidos, na tentativa de apanhar o
quepe.
Quando o conseguiu, pô-lo
atravessado na cabeça.
— E para confundir o inimigo —
disse ele, com riso, ordenando em
seguida: — Sigam-me! Por ordem do
Führer nós vamos tomar posse do A
Donzela Rosada e lá eu vou instalá-los.
Espere, não te conheço? — perguntou
dirigindo-se a Porta.
— Senhor capelão, conhece sim,
senhor. Eu fui assistente do capelão da
72ª
Divisão de Infantaria, em Munique.
Fui transferido, senhor, fui transferido
porque a minha fé não em bastante forte.
— Então você não acreditava em
Deus nessa época? — balbuciou o
capelão, quase inteligivelmente,
agarrando-se a um poste de iluminação.
— Só quando estou com medo —
confessou Porta. — Como na ocasião
em que os inimigos da Alemanha
jogaram granadas em cima de mim.
Senhor capelão, em circunstâncias
normais não vejo diferença entre um
pombo sagrado romano e um gato
selvagem finlandês alado. Não vejo
mesmo, senhor.
— Eu tampouco — disse o capelão,
babando-se todo e beijando com fervor
o poste de iluminação. — Esquecemos
Deus quando tudo corre bem. A
propósito, você e católico ou
protestante?
— Bem, senhor capelão, um pouco
de cada, o que for conveniente na
ocasião — confessou Porta,
diplomaticamente.
— Estou gostando. Estou gostando
— respondeu o capelão, rindo e batendo
no ombro de Porta, de maneira
amigável. — Acabo de estar com o
bispo. O Vaticano anda querendo saber
de mim.
Alguma coisa séria está para
acontecer. Eu gostaria de contar com
você, sargento. Vou providenciar sua
transferência para o serviço espiritual
militar. É uma pena ver um homem como
você desperdiçado no sangrento altar da
Pátria.
— Concordo plenamente —
suspirou Porta, fazendo um rápido sinal
da cruz.
— Então venha comigo — disse o
capelão. como que atacando um inimigo
invisível. — Direita... volver!
Esquerda... volver! Em frente, marche!
Você sabe o destino. A Donzela na Berg
Strasse.
— Não se deve confiar em
assessores espirituais que falam sobre
amizade — disse Albert, em tom
sombrio. — Afaste-se do capelão.
Quando marchávamos ao lado da
alta cerca viva do Stadt Park, uni
ressoante comando de “Alto!” quebrou o
silêncio matinal da rua. O tronco de um
tenente-coronel todo protegido por
capote e cobertura surgiu por cima da
cerca. Gregor, aterrorizado, quase
deixou cair a metralhadora. O silêncio
até então reinante foi quebrado por
estranhos sons. O ruído era um misto de
zum zum zum de passageiros de navio e
estertores de cargas ao mar. Provinha do
capelão, que estava pondo para fora
tudo o que tinha comido no rancho do 59
Regimento Blindado. E não era pouca
coisa.
A cerca se abriu e um tenente-
coronel apareceu, montando um cavalo
castanho. O cavalo cheirou Porta e
fechou um olho como que dizendo:
Agora fique observando.
— Que espécie de chiqueiro é esse?
— berrou o tenente-coronel, furioso,
batendo com o chicote nas botas de
montar.
Gregor perfilou-se e fez a
continência, batendo ruidosamente os
calcanhares.
— Senhor coronel, licença para
explicar. São cinco prisioneiros e
escolta a caminho da prisão, senhor.
Todos devidamente algemados, senhor.
De acordo com o regulamento, senhor.
— Encontramo-nos de novo, senhor
coronel — gritou o capelão alegremente,
empurrando Gregor para o lado, como
se ele fosse um estorvo. — E como está
sua senhora, senhor? Ela ainda gosta de
mim, senhor? Espero vê-la breve no
confessionário, senhor.
A ruidosa gargalhada do capelão
ressoou por toda a rua.
— Você está bêbado, homem —
rosnou o tenente-coronel com voz
nasalada.
— Absurdo, homem! Você está
insultando minha honra espiritual! —
gritou ele para o oficial, ameaçando-o
com o chicote como se estivesse
manejando um sabre. — Tome cuidado,
eu corto você em pedacinhos! Não pense
que tenho medo de um tenente-coronel
de araque como você, só porque está em
cima de um cavalo! Vocês são uns
porcarias, os dois!
— Ponha esse homem a ferros! —
ordenou o tenente-coronel, a voz
ecoando pela noite.
Tiny lançou-se sobre o capelão
como um faminto urso polar e jogou-o
ao chão. A neve enlameada salpicou as
botas bem polidas do tenente-coronel. O
cavalo relinchou e empinou, como que
protestando. O oficial escorregou para
trás, mas conseguiu firmar-se agarrando-
se ao pescoço do animal. Este, porém,
empinou novamente e dessa vez ele
perdeu o equilíbrio e caiu redondamente
sobre a neve, ao lado de Tiny e do
capelão.
— Bem-vindo à nossa casa —
saudou o capelão, estirado de .costas
com um riso disfarçado.
Tremendo de raiva, Gregor ajudou o
superior a levantar-se.
Ninguém percebeu que Porta dera
uma palmada na anca do cavalo, o que o
fez sair a galope, atravessando a cerca e
ganhando o parque.
— Perdão pela notícia, senhor, mas
o cavalo fugiu, senhor — comunicou,
batendo duas vezes os calcanhares.
— Vão pegá-lo — ordenou o
tenente-coronel, de modo brusco.
Escolta e prisioneiros desapareceram na
escuridão, atrás do cavalo que
continuava a galopar, fazendo a volta e
retornando em seguida. O tenente-
coronel esteve a ponto de ter um acesso
quando botou o quepe e viu que ele
estava cheio de neve suja.
Tiny perfilou-se à frente dele, com a
mão em continência, tentando explicar, e
começou: — Senhor coronel.
Mas um berro de raiva o fez calar-
se. O oficial só voltou a retomar um
pouco de serenidade quando tornou a
montar. E então inclinou-se sobre o
pescoço do cavalo e encarou ferozmente
o capelão, que continuava sentado na
neve, falando sozinho.
— Ponham-no a ferros! — gritou o
superior. — Ele atacou um oficial
prussiano! Ponham-no a ferros! —
repetiu, com raiva.
— Senhor coronel, lamento
comunicar que não temos mais algemas,
senhor — declarou Tiny.
— Então amarrem-no — trovejou.
— Não fique com essa cara estúpida,
homem! Você, sargento, você mesmo! —
gritou para Tiny — Com sua licença,
senhor. Nasci assim, senhor. Tachado de
maluco pelos psicopatas do Exército.
Foi em 1938, por ordem do General de
Cavalaria Knochenhauer, de quem eu era
ordenança. Com sua licença, senhor, ele
era comandante do 109 Corpo de
Exército, de Hamburgo, senhor.
— Conheço muito bem o General
Knochenhauer — gritou o tenente-
coronel, acariciando o pescoço do
cavalo, como se ele fosse o próprio
general — Você deve ter sido um homem
muito ruim, soldado, para não continuar
com o General Knochenhauer.
— Com sua licença, senhor, devo
dizer que o general e eu não nos
entendíamos muito bem — disse Tiny
sorrindo com ar contrito.
— Que espécie de homem é você?
— perguntou rispidamente o tenente-
coronel, virando-se todo sobre o
pescoço do cavalo para examinar Tiny
mais de perto.
— Alemão, senhor! Um cidadão
alemão, senhor, é o que eu sou — rosnou
por sua vez Tiny, batendo com a.
coronha do fuzil nas lajes do chão e com
isso provocando uma chuva de faíscas.
— Você vai ter notícias minhas —
ameaçou o tenente-coronel com visível
antipatia.
Ele fez o cavalo voltar-se em
sentido contrário e partiu em direção ao
parque.
— Que diabo vamos fazer agora? —
perguntou Gregor, parecendo alarmado
depois que o tenente-coronel sumiu na
chuva.
— Você se meteu numa encrenca,
meu amigo — admitiu Porta, com ar
sombrio. — Um oficial do Estado-
Maior Geral mandou que você
prendesse o bom capelão e o levasse
junto com os demais prisioneiros. Você
devia ter protestado contra essa ordem.
Você está esquiando numa finíssima
lâmina de gelo. Você não pode levá-lo
preso porque não dispõe de escolta
suficiente, pois lhe faltam dois homens.
Faça isso e estará infringindo o
Regulamento do Exército. Perdera suas
divisas e será muito feliz se não pegar
dois anos de cadeia em Germersheim.
Você não pode deixar de prender o
capelão. Um tenente-coronel lhe deu
diretamente uma ordem para você fazer
isso. Se não o fizer, estará se recusando
a cumprir uma ordem. E isso pode lhe
custar muito caro, meu filho.
— Que diabo então devo fazer? —
lamentou-se Gregor, angustiado.
Ele amaldiçoou o dia em que foi
feito oficial subalterno e passou a poder
comandar escoltas.
— Me tira desta encrenca —
implorou.
— Só desta vez — disse Porta com
um largo sorriso. — Embora não goste
de me meter em problemas de oficiais
subalternos.
— Deixe de embromação — disse
Gregor, com um lampejo de esperança
no olhar. — Me diga o que devo fazer.
— Antes do tenente-coronel e seu
cavalo aparecerem, o capelão lhe dera
uma ordem. Ele mandou você ocupar A
Donzela Rosada na Berg Strasse. O
capelão é um oficial superior
equivalente em posto a um major, e
desobedecer a sua ordem pode lhe
custar caro. E ele ainda não anulou essa
ordem.
— Pelo amor de Deus, que devo
fazer então? — disse Gregor quase
chorando e sentindo que a lâmina de
gelo em que se mantinha afinava cada
vez mais. — Um prisioneiro não pode
dar ordens ao seu comandante de
escolta.
Principalmente quando esse
prisioneiro é um bêbado.
— O seu parto deve ter sido bem
difícil — considerou Porta.
— Não está entendendo? Você ainda
não se encontrou com o tenente-coronel
e o cavalo dele!
— Entendi, entendi! — exclamou
Gregor, com um brilho no olhar, já
enxergando a tábua de salvação. — Nós
vamos direto para o Donzela Rosada e
deixamos esse capelão maluco encher a
cara.
Quando sairmos de lá, aí cumprimos
a ordem do tenente-coronel, encanando
o raio do padre. Enquanto isso, já se
terá arranjado mais uma dupla para a
escolta.
— Você continua dizendo “nós” —
interrompeu Porta. — Você é que vai
cumprir as ordens, você é que vai
efetuar a prisão. “Você”, não “nós”.
Você é o patrão.
— Graças a Deus eu nunca cheguei a
oficial subalterno — suspirou Albert,
mostrando duas fileiras de dentes
brancos como pérolas. — E troço
perigoso.
— Você está apto para o serviço —
gritou o médico no meio da escuridão,
chocalhando as algemas
ameaçadoramente.
— Cala a boca, cabeça de merda —
ralhou Tiny, cutucando-o na nuca com a
coronha do fuzil.
— Prisioneiros e escolta,
acelerado... marche! — comandou
Gregor, num tom que mostrava
claramente sua despreocupação.
O capelão puxava a coluna com o
chicote no ombro, à guisa de sabre. De
vez em quando interrompia a marcha
para dar uns passos de dança. E toda vez
que passava por um civil
cumprimentava-o cortesmente, tirando o
boné.
— Beber é coisa baixa — disse o
médico com um riso satânico. — Não
pense que vai escapar da linha de frente
— continuou, voltando-se para o
sargento artilheiro. — Mesma que o seu
fígado inche tanto que chegue a sufocá-
lo, eu o dou como apto. — E
acrescentou, batendo nas costas do
negro: — Você quer conhecer melhor o
Dr. Alfred Hütten? Pois esta é a
oportunidade. Eu poderia mandar você a
uma lavanderia a seco, que faria de você
um alemão cor de neve. O comandante
das tropas de assalto mandou que todo
mundo virasse ariano. Quem tiver nariz
de papagaio vai ter de endireitá-lo.
Como é que você arranjou essa cor,
Senhor Schwartz?
— Aguenta ai, curandeiro! — berrou
Albert, desferindo um soco do qual o
médico conseguiu desviar-se.
— Preto ou branco, você está apto
para o serviço e vai voltar para a frente,
meu caro.
— Vivam todos sob inspiração de
Deus e ganharão o céu — disse o
capelão, fazendo girar o chicote em
torno de sua cabeça.
— Padres são corno pernas de
mulher — comentou Porta, rindo. —
Prometem maravilhas quando se chegar
mais acima.
— Matem-me — pediu o capelão
com um ar de santidade. — Ponham
minha cabeça num poste na parte de fora
da igreja da guarnição. Sempre quis
tornar-me um mártir. — Ele caiu de
joelhos num ponto de ônibus e passou,
delicadamente, a mão pela base de ferro
fundido da tabuleta. — De novo nos
encontramos, meu querido Copérnico!
— Sua voz forte ecoou por toda a praça.
— Esse sujeito tem a bunda onde
devia ter o cérebro — rosnou Gregor,
resignado. — O martirizado Santo
Emílio obterá com ele um completo
pelotão de mártires quando o encerrar
na gaiola.
De repente o médico passou o braço
em volta de Tiny e começou a lamber-
lhe o rosto, como um cachorro agitado.
— Pensei que você estava morto,
camarada. Seu disfarce é fantástico. mas
eu o reconheci. Você é o rapaz que
costumava profanar os cadáveres na
casa mortuária de Klagenfurt. Tire o
chapéu quando se dirigir a um
acadêmico — disse ele, puxando fora o
capacete de aço de Tiny.
— Tire as patas do meu capacete —
rosnou Tiny, apanhando enraivecido o
capacete.

O meu chapéu tem três pontas


Tem três pontas o meu chapéu...
cantarolava, feliz da vida, o médico,
tentando uns passos de charleston.
Mas as pernas vergaram e ele caiu
ao chão.
— Alea jacta est, ou seja: A sorte
está lançada! — exclamou e capelão em
voz alta, ao entrar, à frente da escolta,
no Donzela Rosada.
— Ah! não, não! — gemeu o dono,
deixando cair ao chão duas canecas de
cerveja. — Esse maldito padre outra
vez!
Fazendo um ruído igual ao
produzido por um bando de lobos
famintos, o capelão atacou um grande
prato de carne de porco defumada e
acompanhada de chucrute e bolinhos de
massa. Não quis saber de garfo e faca,
usando as mãos para tirar a comida do
fundo do prato. O dono levava as mãos à
cabeça.
— Deus nos acuda, ele vai comer
tudo. Era comida para seis pessoas. Que
é que vou poder dar para o pessoal do
clube do tiro ao alvo?
— Deixa eles comerem o padre —
sugeriu Porta, com senso prático. — Ele
não faz falta nenhuma.
— É um homem terrível — disse o
dono. — As sete pragas do Egito estão
resumidas nele. Não existe um só
refeitório de oficiais na zona militar de
Brandenburgo que não viva temendo
uma visita dele. Dizem que uma ocasião,
num jantar com o Marechal do Reich e
antes dos convidados se servirem do
hors-d'oeuvre, ele havia devorado tudo
o que se achava na mesa, inclusive as
flores da decoração. De outra vez ele
danificou o trem elétrico do Senhor
Göring embarcando nele um
carregamento de carne de porco
cortadinha. Havia três cozinheiros que
num dos extremos da linha cortavam em
pedaços leitões cozidos em espeto e os
carregavam no trem.
Quando o trem passou por ele, ele
esvaziou os carros. Quando acabou, o
trem estava tão engordurado que o
Marechal do Reich e todo o pessoal
especialista levaram três semanas para
pôr tudo em funcionamento normal.
Dizem que ele foi indiretamente a
causa de a Luftwaffe não vencer a
Batalha da Inglaterra.
3

— Eta comidinha gostosa — disse o


capelão, dando palmadinhas no ombro
do dono, como velho camarada — Que
bom que o senhor gostou — respondeu o
dono, amargurado.
— Bastante bom, meu caro. Talvez
pudesse ter um pouco mais de bolinhos,
mas não estou me queixando, A carne de
porco estava boa. Certamente defumada
em casa. Você é um sujeito ladino, meu
caro. Estou por dentro de tudo. Leitões
clandestinos no quintal, hem? Quando é
que vai abater novamente? Estarei aqui
firme. Agora vamos a um chazinho com
rum. Depois vou querer uma rodada de
cerveja e acabar com genebra e nozes.
Ponha tudo na conta, como sempre, meu
caro.
— Esse padre cachaceiro vai me
levar à falência — lamentou o dono,
arrasado.
— Por que não bota ele para fora?
— perguntou Porta. — com bom pontapé
na bunda sagrada e rua com ele.
— Não posso — suspirou o
taverneiro, desanimado. — Você ouviu o
que ele disse. Sabe tudo sobre os leitões
do quintal. Ah! Se algum inglês nojento
deixasse cair uma boa bomba em cima
dele.
O pior de tudo é isso de viver
dizendo que amanhã vai começar vida
nova e pagar todas as dívidas.
— Sim, sim, todos nós temos
problemas — disse Porta. — Certa
ocasião, conheci um chefe de estação,
chamado Leo Bimhzium, que chefiava a
principal estação de Bamberg. Um belo
sujeito, um cara para lá de legal, mas
com um fraco pela bebida. Nos dias
pares, bebia gim holandês e cerveja, e
nos dias ímpares, cerveja com genebra
Bommerlunder. Toda véspera de Natal
ele tomava uma resolução: de primeiro
de janeiro em diante seria um cidadão
bom e sóbrio. Quando voltava a si,
depois das festas, em geral já era o dia
três ou quatro e então ele achava muito
tarde para começar e aí tinha de esperar
o próximo primeiro de janeiro. Em tudo
que dizia respeito às ferrovias alemãs
ele parecia pensar que haviam sido
criadas para seu gozo exclusivo.
“Plauen, baldeação!” gritava ele
algumas vezes, quando o trem ia
entrando em sua estação. Quando os
passageiros começavam a luta para
desembarcar ele perguntava, aos gritos,
o que pretendiam e se não sabiam ler,
pois a placa não dizia Bamberg? Mas
sempre se saía bem porque seu padrasto
tinha sido barbeiro do Führer antes de
1933 e era agora o chefão local. Mas um
dia tudo chegou ao fim, e nem o
barbeiro-chefão pôde salvá-lo. Foi
pouco depois que ele começou a comer
arenque salgado. Alguém lhe dissera que
arenque salgado era bom para curar
ressaca. Foi pela manhã de 22 de
fevereiro, pouco antes as onze horas, se
não estou enganado, quando tudo
começou a dar errado. O chefe
Birnbaum estava parado na plataforma
cinco, mastigando um arenque salgado,
com a bandeira verde na mão esquerda e
a vermelha na mão direita, quando, para
sua grande surpresa, viu o trem de carga
cento e nove entrando na plataforma
três, em vez de na plataforma cinco. Ele
agitou desesperadamente as duas
bandeiras. E gritava: “Cento e nove!
cento e novel Que é que está fazendo
nessa plataforma?“ — O trem de carga
cento e nove parecia não ouvi-lo. E ele
foi andando pelos trilhos, sempre
agitando as duas bandeiras. Na
plataforma três ele pisou num chapéu
velho e sebento que alguém teria
perdido e escorregou, indo parar, meio
desequilibrado, entre dois vagões
carregados de petróleo destinado ao 359
Regimento Blindado, em Bamberg. O
guarda-freios do último vagão tentou
agarrá-lo. Foi um erro. O Senhor
Birnbaum agarrou-se ao braço dele e
puxou-o para baixo, indo cair, juntos,
debaixo do carro-tanque.
As rodas cortaram, bem rente. as
cabeças dos dois. Isso foi
particularmente triste para o guarda-
freios, que ainda estava em treinamento
e nunca chegaria, assim, a ser
empregado permanente. Foi um fim de
certo modo vexatório. Mas os acidentes
raramente acontecem sem um
complemento. A assistente segundo grau
do serviço de limpeza das Ferrovias
Nacionais Alemãs, Senhora Amanda
Grimm, estava parada na plataforma
dois, apoiando seu queixo germânico no
cabo de sua vassoura pertencente à
carga da estrada e imaginando onde
teriam ido parar os dois funcionários
desaparecidos. Quando o trem de carga
passou, ela olhou distraidamente para o
leito da estrada e viu a cabeça do chefe
de estação Birnbaum ali caída e
piscando para ela. A mulher deu um
grito germânico de terror: — “O chefe
da estação perdeu a cabeça!” — e
entrou aos berros na sala do telegrafista.
Pensando que ela estivesse bêbada, ele
lhe aplicou uns tapas na face. Mais tarde
ela deu parte dele por causa disso.
Afinal de contas, ela era uma empregada
civil e estava em serviço no momento,
tanto que ainda trazia a vassoura na mão.
Mas isso não foi o fim da coisa. A
Polícia Criminal recebeu a comunicação
e um funcionário idiota a fichara como
“homicídio” porque outro funcionário
idiota fizera a ficha com lápis vermelho:
Caso número 2988-41 — “Decapitação
de Chefe de Estação”. Finalmente o caso
foi bater na mesa de um calmo detetive,
que enchia o tempo à espera de
aposentadoria por idade e já não dava
bola para promoção e toda essa
trapalhada. Mas o caso não parou aí.
Nessa mesma noite a Força Aérea
Britânica bombardeou Bamberg. Claro
que não estavam visando Bamberg e sim
Munique, o que foi descoberto mais
tarde. quando um dos aviadores teve de
fazer um pouso de emergência. O
detetive que tinha em mãos o processo
foi ferido durante a excursão, quando
descansava galantemente no recinto do
Ganso Coxo. Agora o processo passou a
outro policial, um jovem com
mentalidade realmente". digna de um
serventuário civil alemão. Ele começava
cada interrogatório com uma explosão
de riso bem ensaiada e tornava bem
claro às testemunhas que a repetição de
mentiras só faria com que as coisas
piorassem para elas quando afinal
dissessem a verdade. Quando viu o
título “Decapitação de Chefe de
Estação”, ele realmente lambeu os
beiços. Estava ali, afinal, um prato e
tanto, o grande. O imenso caso que o
guindaria, por promoção, à cadeira de
Inspetor do Serviço de Segurança
Governamental. Ele puxou para baixo a
aba do chapéu, vestiu o capote de couro
e entrou em ação.
"Confesse!”, rosnou para a para a
pobre Senhora Amanda Grimm, a
faxineira, acrescentando: “Se mentir vai
se arrepender!” Ela foi interrogada
tantas vezes que por fim foi ficando com
a mente perturbada e convencendo-se de
que realmente havia empurrado o chefe
do estação para debaixo do trem
cargueiro cento e nove. E assinou a
confissão nas oito vias necessárias. Mas
não poderia confessar que matara
também o guarda-freios. “Eu nem o
conhecia”, depôs ela.
“Nem é preciso conhecer uma
pessoa para matá-la", contestou o jovem
policial, de modo amigável. “Os
soldados fazem isso todos os dias."
Nunca deveria ter dito tal coisa.
Justamente na ocasião chegaram três
brutamontes que vinham interrogar o
telegrafista sobre um outro caso. A
faxineira queixou-se a eles de que o
jovem policial tachara os soldados
alemães de assassinos. Os três homens
caíram de pancada sobre o pobre
detetive e quase o estraçalharam. E isso
deu margem a uma nova série de
infortúnios. O telegrafista estava no seu
posto, com a mão na chave, preparando-
se para fazer parar o expresso de Eger e
dar passagem ao trem vindo de
Munique. Mas a agressão dos três
homens o pusera tão nervoso que ele
cometeu um erro. O expresso de Eger
continuou a toda velocidade e o trem de
Munique entrou na plataforma errada. O
telegrafista desandou a gritar. Os três
homens se achavam tão ocupados em
surrar o colega que insultara a honra dos
soldados da Grande Alemanha que nem
ouviram os gritos. Já estavam
acostumados a gritarias. Nem sequer
viram o telegrafista engolir a fita
telegráfica para esconder a prova contra
ele. “E agora!”, profetizou ele, olhando
desesperadamente para fora da janela. O
expresso, que era movido por duas
locomotivas, uma atrás — a de número
044376-2 — vinha como um furacão lá
longe. Com um roncar tremendo de
vapor, ele penetrou na estação. Do carro
correio atiraram dois pacotes do
Völkiscer Beobachzer.
Trazia o jornal as últimas notícias
sobre “retificação da frente” e “recuos
estratégicos". O telegrafista fechou os
olhos, abriu a boca e ficou à espera do
encontro dos dois trens. Isso foi
acontecer na seção vinte e dois. O
expresso de Eger parecia devorar no seu
caminho tudo o que ia encontrando do
veloz trem de Munique, com um fragor
que dificilmente se poderia ter ouvido
antes. Em estilo tipicamente germânico,
dir-se-ia que tudo se tornou muito
complicado.
Os brutamontes esqueceram-se
completamente do que tinham vindo
fazer.
Desapareceram antes que soassem
os últimos ecos da colisão. Isso em nada
os ajudou. Foram encontrados e
acusados de envolvimento no acidente.
E se deram por felizes por não serem
acusados de sabotagem. Porque nesse
caso seriam enforcados duas vezes. Mas
do jeito que a coisa ficou, eles só
tiveram o pescoço estirado uma vez. O
telegrafista não esperou para ficar em
melhores relações com a justiça alemã.
Ele se fez explodir juntamente com a
estação com os explosivos ali deixados
em reserva para destruir coisas antes de
o inimigo capturá-las. A faxineira
segunda classe também maneirou para
evitar o longo braço da lei. Ela se
escondera num armário no qual o
telegrafista guardava suas muambas.
Quando o telegrafista explodiu a
estação, ela se foi também.
Nesse ponto Porta interrompeu a
narração e encarou o taberneiro com
apreensão.
— O senhor parece um tanto
esquisito, meu amigo. Não está se
sentindo mal, esta? Talvez não tivesse
podido acompanhar bem a minha
história, será? O que eu quis lhe dizer
com tudo isto é que muito álcool é ruim
para o senhor.
Olha, eu conheci um sujeito que
possuía um posto de gasolina. Chamava-
se Oskar Schleben e era enjeitado.
Encontraram ele no degrau de uma porta
na Schleben Strasse e puseram nele o
nome da rua. Ele se tornou um garoto
formidável, com o auxílio de uma
senhora chinesa, que lhe dava todas as
noites um copo de Bommerlunder para
ele poder dormir. Quando chegou It
idade de dois anos, sem ter, em toda a
sua vida, ficado realmente sóbrio, ele
fugiu de casa. Bem, ele saiu para dar
uma voltinha e quando se cansou foi
sentar-se no chão, do lado de fora do
zoológico, ao lado do carro do vendedor
de linguiça.
Ninguém conseguiu entender como o
garoto foi parar tão longe. Alguns
atribuíram ao fato de ter ele talvez um
pouco de sangue chinês. Seja como for,
passado algum tempo começou-se a
estranhar sua presença, e, como é
natural, surgiu um polícia. “Que e que
está fazendo aqui?”, perguntou o polícia,
com falsa camaradagem. “Pu-pu”,
respondeu o garoto e continuou a repetir
a mesma coisa. Parecia ser a única coisa
que sabia dizer. O policial já se
mostrava chateado. “Fale alemão ou vai
em cana!“ E o garoto só dizia: “Pu-pu”,
de modo que, como era de esperar,
acabou mesmo preso. Levaram-no para
o Alex, importante posto policial, onde
o processaram e o puseram por fim
numa cela.
Ele tinha mesmo de ficar esquecido
por lá porque não houve possibilidade
de preencher o formulário de entrada
dele. Não poderiam realmente pôr o
nome de “Pu-pu” num importante
documento policial alemão, você sabe.
Mas quando viu que não teria sua dose
habitual de Bommerlunder, ele botou a
boca no mundo. O Tenente do Estado-
Maior Schlade, que era o tipo do alemão
quadrado, abriu a cela e encarou
duramente o rapaz. “Não leu o
regulamento da prisão? É proibido,
absolutamente proibido, cantar e falar
alto!”. O garoto não deu a menor bola,
Queria era o seu Bommerlunder.
Mandaram-no ao psiquiatra da polícia e
as coisas continuaram no seu rumo...
Novamente Porta interrompeu-se,
impressionado com o taverneiro.
— Que que está havendo, chefe?
Você parece que vai ter um troço! —
disse ele preocupado e servindo-se de
um copo de cerveja.
— Não, não, não, nem mais uma
palavra! Nada mais de policial Nada
mais de nada! — gaguejou o dono,
tapando os ouvidos com as mãos. —
Não aguento mais, estou ficando maluco!
— Maluco ou não, você está apto
para o serviço. Ponha isso na cabeça,
seu estúpido bastardo -— berrou o
oficial médico.
Pouco depois ele perguntava ao
capelão se não gostaria de conhecê-lo.
— O senhor está bêbado —
respondeu o padre.
— Errado! Você é que está bêbado,
padre. Mas isso não o ajuda em nada.
Você está apto para o serviço, ora se
está. Vá para a frente e pegue um balaço.
Cachorro pode ir para o céu? —
perguntou, após breve silêncio, com um
brilho no olhar.
— O pedido pode ser feito ao bispo
de Münster, que lhe dará a devida
atenção — respondeu o padre. — Eu
posso dar uma recomendação. Não se
esqueça dos selos.
— Diabo, não aguento mais esta
merda! -— berrou Gregor, mostrando-se
ferozmente compenetrado. —
Prisioneiros e escolta, em forma, bando
de vagabundos! Prisioneiros no centro.
Se algum de vocês abrir a boca eu enfio
sua cabeça pelo rabo adentro! Acabou-
se a festa, voltamos para o Exército!
Alguns de nós tropeçaram nos
degraus quando deixamos o Donzela
Rosada cantando alegremente. O padre
trepou num poste de iluminação e ficou
pendurado nele e imitando latidos. Disse
que era um lobisomem.
— Olhem o meu voo — gritou
triunfantemente, indo depois se
esborrachar na neve enlameada.
Gregor mandou que alinhássemos
para a contagem, mas ficamos trocando
de lugar e ele não conseguiu saber
direito o número para registrar.
— Está tudo rodando, rodando —
lamentou-se, infeliz da vida.
— Estamos nos multiplicando
rapidamente como coelhos.
— Deixa que eu conto — acudiu
Porta, intrometendo-se.
Mas não conseguiu igualmente
conciliar as coisas. Então foi lá dentro e
voltou com um giz de bilhar. Cada
homem seria marcado com um risco de
giz em frente ao seu pé esquerdo,
voltando em seguida para o interior do
Donzela para não haver confusão. Mas o
padre estragou tudo, fazendo uma marca
na frente de cada pé. Gregor sentiu que
estava ficando perturbado e começou a
bater com a cabeça contra a parede, Aí
surgiu novamente Porta com outras
ideias. Cada homem receberia uma
caneca de cerveja para beber e colocar
a caneca vazia de volta ao bar. Tiny
anarquizou a coisa, tomando várias
canecas enquanto os outros esvaziavam
as suas. Gregor desistiu de qualquer
ideia de fazer o registro.
Já era manhã alta quando marchamos
através da ponte sobre o rio Sprec, em
Kronprinzen Ufer, e ouvimos a distância
os sons de uma banda militar.
— Uma canção! — ordenou o padre,
iniciando ele mesmo o canto em alta
voz:
Se você quer me ver novamente Vá
então me encontrar no trem Numa sala
de espera reservada Ali Sussurraremos
nosso último adeus...
— Ajeitem o equipamento, corrijam
a posição do capacete! — ordenou
Gregor, visivelmente nervoso. — Pelo
amor de Cristo, vejam se conseguem
ficar parecidos com soldados alemães!
Levante mais o fuzil, Tiny. Está
parecendo mais um caçador.
— Que que há? — perguntou Albert
com um riso idiota abrindo‹lhe o rosto
negro. — Adolf está vindo?
— Pior do que isso — rosnou
Gregor. — E a nova guarda chegando.
Vem marchando bem na nossa direção e
cantando a Budenweiler, que é a canção
pessoal do Führer.
— C'est le bordel! — exclamou o
Legionário, com ar de indiferença.
— Devem estar celebrando alguma
coisa — disse Porta. — Provavelmente
uma retirada vitoriosa.
— Que tal a gente ficar no
Gendarme Coxo até que isso acabe? —
sugeriu Tiny, mostrando senso prático.
— E pertinho daqui. A gente corta
caminho por aquela alameda lá adiante e
chega ao Gendarme num instante.
— Tarde demais! — interveio Porta.
— O mundo está para acabar.
Uma banda de música de infantaria,
com um tambor principal que ia à frente
fazendo demonstrações de perícia com a
baqueta, surgiu com grande aparato
numa esquina e acabou ocupando toda a
largura da rua.
— Vai em frente, meu filho —
exclamou Porta. — Você está no
comando de uma escolta militar com
prisioneiros algemados. De acordo com
o Regulamento do Exército, você tem
prioridade sobre a rapaziada da banda
de instrumentos de sopro e percussão.
Ela tem de dar caminho. Você só é
obrigado a parar para unidades
motorizadas pesadas.
— Sim, sim, mas a banda vem
tocando a Badenweiler, que é a canção
do Führer — interveio Heide. —
Mesmo as unidades pesadamente
motorizadas têm de parar para ela. Está
bem claro no Regulamento do Exército,
no capítulo das bandas militares.
— Minha Nossa Senhora. que devo
fazer? — lamuriou-se Gregor.
— Ganhe tempo — advertiu Porta.
— Obrigue os prisioneiros e a escolta a
dar meia-volta e marchar pela ponte
sobre o rio Sprec. É o que eu faria.
Assim você não poderá ser acusado de
ter saído da rota. E os rapazes da banda
não poderão dizer que você interferiu
em seu caminho.
— Tu as raison — disse o
Legionário.
— Não podemos marchar para trás
eternamente — gritou Gregor, encarando
Porta com olhar de poucos amigos.
— Não, claro que não — retrucou
Porta, pacientemente. — Logo que
acabem de tocar a canção de Adolf eles
não terão mais prioridade e você e sua
escolta armada passam primeiro. A
seguir, a frente deles acompanhará os
seus passos, e se aquele miserável
tambor principal não sair do caminho
por bem, sai com a baqueta enfiada. no
rabo. Isso lhe ensinará a respeitar os
direitos das escoltas armadas do Grande
Exército Alemão!
De repente um movimento como o de
um furacão pareceu revolucionar o
centro da banda. Dois gatos
aterrorizados surgiram como que voando
de uma entrada de casa, com três
buldogues enfurecidos em seu encalço.
Um dos gatos deu um pulo nas costas de
um tocador de tuba, que se
desequilibrou e caiu redondamente, com
tuba e tudo. Dois corneteiros tropeçaram
no instrumento, enquanto o terceiro gato
se embarafustou entre as pernas dos
outros músicos, perseguido de perto
pelos três cachorrões. Entrando e saindo
sem parar, por entre as pernas dos
músicos, eles criaram uma situação de
indescritível pânico.
Sem que se saiba como o oficial
médico havia se apoderado de uma
batuta e começara a conduzir os
tocadores de tambor e os flautistas da
banda que ainda se conservavam de pé.
Eles o seguiam automaticamente, e os
primeiros compassos da proibida Salus
Caesari nostro Guillermo foram ao ar.
O tambor-chefe voltou a si e, ainda
tonto, interrompeu a canção proibida.
O oficial médico avançou para ele,
de cabeça descoberta, ameaçando-o com
a batuta, e ele se defendeu manejando a
baqueta com cabo de prata.
— Gregor, como comandante da
escolta você deve acabar com isso —
disse Porta. — Os prisioneiros estão
entregues a você. Estou com receio de
que você seja obrigado a prender esse
tambor-chefe por agressão a um
prisioneiro sob sua proteção.
— Não posso, não posso, sou um
azarado! — lamentou-se Gregor, em
desespero. — Quem me dera nunca ter
nascido.
— Mas como isso aconteceu —
retorquiu Porta, apreensivo — vamos
cair fora daqui antes que eles tenham
tempo de pensar.
— Prisioneiros e escolta, em
frente... marche! — comandou Gregor,
num tom que denunciava o seu drama
íntimo.
— Vamos acabar com a raça deles!
— gritou o padre, correndo para a frente
da tropa.
Entrando em pânico, os soldados da
nova guarda fugiram. Nós fomos em
frente como uma onda enfurecida.
A boa distância da Lehrter Strassc,
exatamente ao lado do campo de futebol,
Tiny soltou de repente um grito terrível e
encolheu-se todo como se estivesse
sentindo dores atrozes. Jogou-se no
asfalto coberto de neve e berrava como
um louco.
— Que diabo esta acontecendo de
errado? — indagou Gregor, com os
olhos esbugalhados e o medo estampado
na face.
— Eu manjo esse cara — rosnou o
médico, rancorosamente.
— Não adianta blefar, homem. Você
está apto para o serviço.
— Minhas algemas! Minhas
algemas! — gritava Tiny, contorcendo-
se todo de tal modo que parecia uma
bola.
— Suas algemas? –— perguntou
Porta. com expressão de surpresa.
— Minhas algemas. minhas algemas.
Estão me apertando. arrancando minhas
bolas! — gritava Tiny, aflito, debatendo-
se no chão molhado.
Quando lhe tiramos as calças, o
mistério ficou explicado. Ele vinha
trazendo as algemas do modo como vira
os policiais fazerem em filmes. Sem que
percebesse, elas haviam deslizado para
dentro das calças e subitamente se
fecharam, apertando suas partes íntimas.
As contorções agravaram ainda mais a
situação. Porta levou algum tempo para
achar a chave e libertá-lo, para que a
escolta pudesse continuar sua
caminhada.
— Dominus vobiscum! — disse o
padre, saudando uma enregelada fila de
pessoas num ponto de ônibus. Depois
miou feito gato e pediu ao medico que o
castrasse, evitando assim que ele
cometesse pecado quando encontrasse
mulheres pecaminosas, Em seguida
trepou num banco e gritou para o lado
do campo de futebol: — todos os mortos
devem dirigir-se imediatamente ao
capelão militar para os últimos ritos e
receber a água benta. Os parentes
pagarão a conta.
— Eu dou um tiro neste miserável
— explodiu Gregor, puxando o padre de
cima do banco.
— Nós somos os culpados — disse
Porta, apertando o botão da campainha
do portão de entrada da prisão da
guarnição.
— Que diabo está pretendendo,
homem? Chamando toda a prisão com
essa campainha? — esbravejou o
sargento de guarda, zangadíssimo.
— Senhor sargento, com sua
permissão, queremos lembrar que temos
muita pressa — disse Porta, batendo os
calcanhares. — estamos bastante
atrasados, senhor. Recebemos ordem de
pegar novos prisioneiros em todo o
percurso para Berlim. A última ordem
nos foi dada diretamente pelo próprio
senhor comandante da guarnição.
— Seu pessoal está cheirando mais
do que uma cervejaria inteira — rosnou
o sargento de guarda.
— São ordens, senhor, ordens!
Recebemos ordem de tomar bebidas
alcoólicas — explicou Porta. — Onde
quer que fôssemos davam-nos ordem de
ocupar cervejarias, bares, tavernas, tudo
assim. Conhecemos o Regulamento do
Exército e sabemos bem o risco de um
castigo por desobediência a uma ordem.
Se quisermos sair desta guerra
mundial com vida, temos de obedecer
cegamente às ordens. Por mais estúpidas
que sejam.
— Você não pode pôr uma venda em
meus olhos — interveio o médico,
lançando um duro olhar sobre o
sargento. — Sua gente está aqui parada
há muito tempo, embromando,
embromando. Todos estão aptos para o
serviço, todos.
Para a frente, e que tomem um bom
balaço!
— Vocês mantêm isso aqui tão
agradável — disse Porta, referindo-se
elogiosamente a um grupo de
prisioneiros que, em trajes de faxina e
ajoelhados, caprichavam no
enceramento do chão.
— Está aí uma coisa que um velho
soldado gosta de ver — disse Tiny,
sorrindo satisfeito. — Não é comum a
gente ver uma soleira de porta tão bem
polida. Esses seus escravos! Eles usam
cera comum ou um troço especial
fornecido pelo depósito de suprimentos
da prisão do Exército?
— Quando eu bater três vezes e esta
porta se abrir — sussurrou o sargento da
guarda — vocês não vão entrar
marchando mas voando, e não se
esqueçam de deixar o calçado atrás da
linha branca marcada no assoalho. Se
não o nosso comandante fará vocês
comerem as próprias hemorroidas.
— Nós sabemos bem, senhor
sargento — respondeu Porta, confiante
em si. — Já estivemos aí antes.
Portanto, pode abrir as portas do
inferno.
4
A porta abriu-se de repente e a
escolta entrou estrepitosamente.
tomando posição em linha atrás do lugar
marcado. Gregor fez o relatório mas
numa rapidez tal que as palavras se
emendavam como se fossem uma só. A
fisionomia do comandante, que se
mostrava atrás da mesa, irradiava
maldade suficiente para meter medo até
num herói da guerra. Os olhos, enfiados
em montes de gordura, examinavam
profundamente um a um de nós, com um
brilho estranhamente traiçoeiro. Ele
passou a mão, cabeluda como a de um
macaco, pela cabeça inteiramente
despida de cabelo. O olhar deteve-se
sobre Tiny, corno se ele não pudesse
acreditar no que viu.
— Nossa Senhora, como é que você
pôde ser contemplado com uma cara tão
feia? — perguntou, com um rosnar de
animal.
— Com sua licença, senhor
comandante — rugiu Tiny por sua vez,
os olhos pregados num retrato de Hitler
— sou membro da família Frankenstein,
senhor.
— Está querendo fazer gracinhas
contigo? — perguntou o comandante
ameaçadoramente, levantando-se um
pouco da cadeira e prosseguindo aos
gritos, sem esperar pela resposta: —
Prisioneiros, esquerda... volver!
Acelerado... marche!
O capelão perdeu o equilíbrio e
caiu. E deitado no chão, apoiado num
cotovelo, com o rosto descansando na
mão, como um anjo um tanto crescido,
começou a cantar um salmo:
Faminto, cansado e enfraquecido
ele chega
Assaltado por pensamentos de
dúvida.
Não se zangue...

— Este homem está completamente


embriagado — disse o comandante,
levantando-se inteiramente da cadeira.
— Que quer dizer isso?
— Com sua licença, senhor — gritou
Porta, batendo três vezes os calcanhares.
— Aconteceu por acontecer, senhor. Eis
por que o padre está aqui. Nunca o
tínhamos visto, senhor, quando ele
surgiu repentinamente do escuro e
ordenou que entrássemos no Donzela
Rosada, onde ele tinha uma dívida por
comestíveis consumidos. Ai chegou o
comandante da guarnição num cavalo
castanho e ordenou que prendêssemos o
padre, senhor. Com sua licença, senhor,
coisa parecida aconteceu antes com uma
escolta e prisioneiros que estavam a
caminho da prisão da guarnição em
Munique. Esses infelizes, senhor, iam
marchando pela Leopold Strasse quando
surgiu de repente um cavalo negro com o
General de Infantaria Ritter von Loeb.
No outro lado da rua estava o
veterinário Dr. Schobert cantado coisas
sujas. O comandante geral mandou que a
escolta levasse dali o cantor veterinário.
E assim fez a escolta, senhor, porque
uma ordem é uma ordem, do mesmo
modo que uma genebra é uma genebra.
Mas quando entraram na Luipold
Strasse apareceu um outro cavalo, dessa
vez avermelhado, com o chefe do
Estado-Maior do Sétimo Corpo de
Exército, o Tenente-Coronel von
Wittsleben. Na verdade, esse cavalo era
austríaco e havia prestado serviço no
Segundo Regimento Honved Hussar. mas
quando a Áustria voltou a fazer parte da
Grande Alemanha, o Regimento foi
incorporado ao Exército alemão. O
chefe do Estado-Maior havia recolhido
dois sargentos do Quadragésimo
Regimento de Infantaria, que estavam
conversando sobre assuntos subversivos
e foram igualmente entregues à pobre
escolta...
O comandante trincou os dentes com
tanta gana que não se sabe como é que
seus maxilares não se destroncaram. Os
olhos começaram a rodar ferozmente.
— Licença para prosseguir, senhor
— pediu Porta, sem parar para tomar
fôlego. — Mas essa escolta ainda não
estava livre dos apuros, senhor.
Marchava garbosamente pela Maria
Theresien Platz quando dois soldados
vieram correndo com tanta pressa que
parecia trazerem um maçarico
queimando seu traseiro. Passado o
Caneco de Ouro, ouviu-se um grande
barulho, senhor, e era um tenente
rodando, rodando na porta giratória,
como se tivesse levado um bom pontapé
no traseiro. Bem. isso começara com um
tesoureiro de nome Zorn, senhor...
O comandante inspirou
profundamente umas três ou quatro
vezes. Depois começou a berrar, e as
palavras lhe saíam tão rapidamente dos
lábios que se tornava impossível
entender o que ele dizia. Quando
finalmente pôde controlar-se, caiu de
costas na cadeira, que rangeu
pesadamente, como que protestando.
— Cale essa boca! — rugiu para
Porta. — Você está me pondo maluco.
Você fala como papagaio. Não me deixa
nem pensar. Que diabo tem a escolta do
Sétimo Corpo de Exército a ver comigo?
Estamos em Berlim. Não me interessa
saber o que aconteceu em Munique. Não
dou uma merda por Munique, nem por
todo o Sétimo Corpo de Exército, e
ordeno a você não dar também merda
nenhuma por Munique!
— Desculpe, senhor. No momento
não disponho de merda nenhuma —
respondeu Porta com um sorriso amigo.
— Foi o diabo em pessoa que o
mandou aqui? — gritou o comandante,
com uma espuma de raiva nos lábios. —
Talvez fosse prisioneiro em Munique,
nessa época, senhor sargento, não?
— Não, senhor, não mesmo. Eu nada
tinha a ver com essa tal escolta. Nem
como guarda nem como prisioneiro. Eu
soube disso pela primeira vez quando
um sargento veio se confessar com o
padre de Wehrkreis-Pfarrer Weinfuss.
Nesse tempo eu era assistente do
padre lá. Foi na Sétima Divisão de
Munique, senhor. Lá, a propósito...
O comandante deu um soco na mesa
com ambos os punhos, com tanta
violência que papeis, canetas e outros
objetos voaram para todos os lados.
— Uma palavra mais e eu estrangulo
você! — ameaçou com una voz de meter
medo. — Por que está me contando tudo
isto? — perguntou, angustiado, depois
de um curto silêncio.
— Bom, senhor, uma vez que me
pergunta, esta era a maneira do senhor
entender como foi que trouxemos o
padre conosco...
— Os documentos dos prisioneiros
— interrompeu o comandante, lançando
a Porta um olhar fulminante.
Pálido e calado. Gregor entregou os
poucos documentos. Os quatro
prisioneiros “regulares” desapareceram
nas profundezas da prisão da guarnição.
Por momentos o silêncio caiu sobre
o compartimento. Aí observamos o
comandante, que era o famoso Emil
Malvado, e ele nos observava
igualmente.
O equipamento de couro rangeu, as
coronhas dos fuzis bateram contra o
assoalho. Uma mosca pousou no mata-
borrão e ali ficou limpando as asas.
Todo mundo fixou o olhar na mosca.
Porta ia abrindo u boca para dizer
alguma coisa, mas calou-se. No rosto
negro e redondo como bola de futebol
de Albert esboçou-se um sorriso que
expôs os seus dentes cor de pérola.
— De que esta rindo? — trovejou
Emil Malvado. — Pensa que está na
África, preparando-se para devorar
algum pobre missionário? Fecha a cara,
homem!
Na Alemanha a gente somente ri
quando é mandado, entendeu? Me diga:
como foi que conseguiu se meter num
uniforme da Grande Alemanha? Tanto
quanto sei, o Führer declarou que todos
os negros são inferiores, do mesmo
modo que os judeus.
Albert lançou um olhar suplicante a
Porta, que veio imediatamente em seu
auxilio.
— Licença para falar, senhor.
Albert, senhor, não é na realidade um
negro comum. É um “negro do Reich”,
eu lhe afirmo. Seu pai foi sargento dos
hussardos. Posso lhe explicar tudo isso.
Só que é uma longa história...
— Chega! Nada de explicações —
gritou Emil Malvado, com uma chispa
de terror no olhar. — Documentos do
rosto dos prisioneiros — Vamos com
isso, homem. Vamos com isso. Não
pense que pode vir largar aqui qualquer
um.
Nem mesmo um assassino que tenha
cortado a garganta do seu general eu
recebo aqui sem a devida
documentação.
— Com sua licença, senhor —
acudiu Porta — a documentação está a
caminho. Vai chegar pelo Correio,
qualquer dia destes, senhor. Com sua
licença, senhor, quando encontramos o
cavalo castanho com o comandante da
guarnição, senhor, o tenente-coronel...
— Não quero ouvir falar disto, nem
de cavalos nem de coronéis! Entendeu,
sargento? Deixe de pedir licença! Deixe
de contar histórias! Está me pondo
maluco! Documentos, documentos!
— Com licença, senhor, era
exatamente o que eu ia explicar...
— Não, não e NÃO! — berrou Emil
Malvado, caindo desesperado sobre a
mesa.
— Beba alguma coisa, senhor —
disse Porta sorrindo, de maneira
amistosa e oferecendo um copo d'água
ao comandante.
Emil Malvado pegou o copo com a
sofreguidão de uma pessoa que se está
afogando e se agarra a um pedaço de
madeira flutuante e sorveu a água com
um barulho muito semelhante ao de um
cano de esgoto quando é desentupido.
Ele abriu rapidamente a secretária, tirou
dela uma pistola do Exército e colocou-
a sobre a mesa, à sua frente.
— Sabe o que é isto, sargento?
Porta inclinou-se e começou a
examinar interessadamente a arma.
— Com sua licença, senhor, é uma
Walther modelo trinta e oito. Tenho uma
aqui, igualzinha.
Porta tirou do coldre uma pistola
muito bem lubrificada e apontou-a para
Emil Malvado. Os olhos do comandante
chegaram a ficar vesgos.
— Não aponte esse troço para mim
— gritou, pondo as mãos na frente, em
atitude de defesa. — Isso pode disparar!
— Com sua licença, senhor, devo
dizer que isso já aconteceu. Foi com um
sargento de cavalaria na prisão de
Paderbom. Ele era conhecido como O
Anão porque é o que ele parecia. Bem,
senhor, ele foi ferido por um
cavalariano, primeiro-sargento,
pertencente ao Quarto Regimento de
Cavalaria. O sargento estava só
mostrando ao outro a sua zero-oito,
exatamente como estou fazendo agora
com o senhor. Nem mesmo os três
oficiais que fizeram a perícia puderam
descobrir como a arma pôde disparar,
mas o fato é que disparou e era uma vez
o cavalariano, ali mortinho da silva. A
curta distância, senhor, o velho zero-oito
abre um bruto rombo numa pessoa e uma
trinta e oito senhor, faz o mesmo, se é
que está me entendendo. Eu poderia lhe
dar uma prova disto, senhor, se...
— Vira esse troço para lá — berrou
Emil Malvado, em desespero. — Quero
ver este caso encerrado e nada de
cavalos e coronéis e pistolas misturados
nele.
Por que é que este padre e este
oficial médico estão aqui? Fique calado,
sargento — gritou, possesso, apontando
como um dedo muito gordo para Porta.
— Não quero nunca mais ouvir sua
voz. Mesmo que só você e eu sejamos
os únicos sobreviventes após esta
guerra! Preferiria falar sozinho. Agora
me responda, você aí, tenente — rosnou
para Gregor.
Mas Gregor estava no auge de uma
crise de nervos e só emitia estranhos
sons.
— Emil Malvado — começou,
trêmulo. O corpo todo tremia. Ele
comprimia a cabeça com ambas as
mãos, desesperado.
— Jesus, José, Maria e toda a
Sagrada Família! Em que encrenca fui
me meter! Será que estou doido, ou tudo
isto é fruto de imaginação?
— Com sua licença. senhor —
interveio Tiny com sua voz profunda. —
Desejo explicar como o comandante
geral da guarnição Berlim/Moabit
mandou prender o capelão, senhor, e
trazê-lo conosco, sabendo que já
estávamos a caminho da Casa de Vidro.
O comandante da guarnição disse que ia
telefonar para o comandante da prisão e
ter um papo com ele sobre o padre,
senhor.
— Mas eu vou prendê-lo por quê?
— rosnou Emil Malvado.
— Preciso saber por que motivo ele
vai ser autuado. Não posso passar
recibo de “um (1) padre incluso”. Isto
aqui é uma prisão prussiana e não um
depósito de bagagem!
— Com sua permissão, senhor, o
capelão insultou o Deus germânico —
mentiu Tiny, conscientemente. Ele ficou
olhando, com visível interesse, Emil
Malvado escrevendo febrilmente
qualquer coisa no livro de registro de
chegada da prisão.
— Muito bem — rosnou Emil
Malvado com satisfação, enquanto a
caneta continuava a rabiscar. — Nada
mais, espero.
— Somente uma pequena difamação
do Führer — respondeu Tiny, com um
longo bocejo.
— Não podia ter dito isso antes, seu
estúpido? — vociferou Emil Malvado,
furioso. — Agora vou ter de alterar o
registro, e qualquer alteração tem de ser
testemunhada por três pessoas
credenciadas. Na Alemanha de hoje não
é fácil.
Todo mundo sabe que insultar o
Führer é muito mais grave do que
insultar Deus!
E então começou a apagar
desesperadamente o que escrevera,
esgotando o líquido apagador, entrando
num agudo acesso de raiva e ao mesmo
tempo imaginando o que fazer do
formulário de admissão. Por fim chamou
a guarda e mandou que levassem o padre
para a cela 210 da ala destinada aos
oficiais.
— Domínus vobiscum — ouvíamos
o padre ir dizendo, o eco das suas
bênçãos apagando-se a distância.
— Que houve com aquele ali? —
perguntou Emil Malvado, apontando
para o oficial médico.
— Coin sua licença, senhor — disse
Tiny como que sussurrando — O doutor
está aqui por sua própria ordem.
— Oh, Deus sagrado da Grande
Alemanha! — gritou, rilhando os dentes,
Emil Malvado. — Onde iria parar tudo
isso se cada alemão pudesse prender-se
a si mesmo? Teríamos de construir pelo
menos mil novas prisões.
— Fique tranquilo, eu cuido do
senhor — gritou o oficial médico, mal
se mantendo em pé. — Onde eu estiver
não tem blefe. Você, comandante, você
mesmo! Você está apto para o serviço.
— Permissão para explicar, senhor
— interrompeu Porta subitamente. O
Sargento Creutzfeldt está com
macaquinhos no sótão, senhor. Uma
ocasião ele levou um coice de cavalo,
entende? Ele se esqueceu de que nos
encontramos com o Major von Ott,
comandante do Wachtbataillon, em
Berlim. Ele mandou que trouxéssemos o
doutor porque se intrometeu na guarda,
e, contra o regulamento, tomou a batuta
do maestro e fez a banda tocar músicas
proibidas.
— Eu ouvi alguma coisa sobre isso
— disse Emil Malvado, balançando a
cabeça. — Isso vai lhe custar caro.
— Licença para dizer uma coisa,
senhor — continuou Porta,
despreocupado.
— É sobre o farmacêutico do Oitavo
Corpo de Exército, em Viena. Ele quis
conduzir a Hoch-und Deutschmeisten (*)
Bem, senhor, isso também lhe saiu muito
caro. Ele não pôde nem mesmo...

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(*) Banda de Música Regimental


da Capela Imperial e Real. (N. do
T.)

— Cale essa boca e já! Sempre


você, sempre você, sargento! Para o
inferno você, o farmacêutico, Viena,
tudo! — berrou Emil Malvado, batendo
com a pistola no tampo da mesa. — Se
eu não receber os documentos ainda
hoje, vou responsabilizar você. Que vou
poder fazer com prisioneiros que não
têm o registro de entrada?
Terei de mantê-los aqui eternamente,
até muito depois de termos iniciado a
terceira guerra mundial. Se não forem
admitidos, como poderemos libertá-los
algum dia? Ninguém vai chamá-los
nunca para serem interrogados— Sem
interrogatório, sem confissão, nenhuma
corte marcial pode ser formada. O pobre
do velho Emil vai ficar com esses
miseráveis presos fora da lei para todo
o sempre! Vocês podem ver com os seus
próprios olhos que eu vou acabar
parando num rio de merda. Algum
conselho de guerra vai me processar por
prisão ilegal de pessoal do Exército. E
neste caso um oficial.
Ele deu um longo suspiro de
desespero e afundou com suas banhas na
cadeira. Porta suspirou igualmente.
— Com sua licença, senhor, estamos
vivendo tempos duros e impiedosos—
Isso porque, senhor, uma guerra mundial
sempre traz consigo épocas difíceis.
— Você tem toda razão —
concordou Emil Malvado, resignado, e
mandou que a guarda levasse o oficial
medico para a cela.
— É permitido ele ler, senhor? —
perguntou o guarda, um sargento dos
Jaegers, com uma expressão de
imbecilidade inacreditável.
— Não, o diabo que me leve, ele já
leu mais do que o necessário quando
estudou para se formar em medicina.
Odeio esses posudos e mal-educados
estudantes que precisam de alguém para
segurar seus troços quando vão mijar no
escuro.
— Com sua licença, senhor —
intrometeu-se Porta, todo animado —
houve um professor de medicina que...
— Feche essa gamela — rosnou
Emil Malvado — ou boto você lá dentro
também, Nunca queira ser posto na
minha prisão. O diabo é um santinho em
comparação comigo.
— Com sua licença, senhor —
começou de novo Porta.
— Saia daqui! — trovejou Emil
Malvado, dando um pontapé na mesa. —
Deus o proteja, sargento, se algum dia
nos encontrarmos novamente.
— Esse seu chefe é doido varrido
— disse Porta a um funcionário da
prisão, enquanto caminhavam pelo
comprido corredor.
— Primeiro disse que gostaria de
me ver nas grades aqui. Depois ameaçou
com toda espécie de maldades se algum
dia me encontrasse outra vez.
— Você não gostaria de conhecer
bem mesmo o Emil Malvado —
interveio um guarda, com olhar sombrio.
— Se ele lhe der um chute na bunda,
você vai botar merda pela boca para o
resto da vida.
— Isto aqui tem fama de ser a pior
prisão do Exército. E não só na Grande
Alemanha. No mundo inteiro — disse
orgulhosamente o funcionário. — Não
existe em lugar nenhum prisão pior do
que a nossa.
— É mais do que ruim —
acrescentou Porta — mas comparada
com as de antigamente, e um doce de
coco.
— Você não diria isso se estivesse
lá dentro — retrucou o funcionário, com
um riso de escárnio. — Eles não se
contentam em xingar você de todo jeito e
fazê-lo engolir seus dentes. Você terá
talvez a surpresa de ser queimado com
pontas de cigarro ou ver as unhas
arrancadas ou os bagos esmagados a
martelo.
— Você vai para Heuberg —
interveio um guarda, com um riso
satânico — e vai acabar nos estábulos.
La eles o colocam deitado no chão, com
braços e pernas estirados por cordas,
depois lambuzam você todo com farinha
de trigo e sal e trazem uma porção de
cabras de línguas ásperas para lamber
seu corpo.
Você morre rindo!
— Ora, isso não é nada — retrucou
Porta, com ironia. — Isso não faria nem
mesmo um japonês ranger os dentes.
Vocês deviam ter vivido na idade
Media, quando a Igreja costumava
perseguir os canalhas e os hereges. Para
provar sua inocência eles tinham de
andar sobre piche fervendo e engolir
ferro derretido.
Quando isso terminava, eram
espetados aqui e ali com ferro em brasa.
Depois arrancavam a língua deles e
furavam os olhos. Levavam depois para
um lugar onde estavam quatro cavalos
que eram amarrados às pernas e braços
do pobre coitado, e quando eram
arrancados, ai o povo podia ver
claramente que eles deviam ter culpa no
cartório. Ouvi dizer que quando as
mulheres eram levadas a acreditar serem
de fato feiticeiras e de terem um pacto
com o Demônio, elas gritavam de tal
maneira que parecia estarem amolando
facas e espetos incandescentes nas
costas delas. Mas quando confessavam,
depois disso, aí parava tudo. Não,
minto. Aí elas eram cortadas em
pedaços, que seriam pendurados em
postes ao longo da igreja ou da
prefeitura, para servir de exemplo às
outras infelizes. Quem passou por isso
deve achar a Gestapo um bando de
anjinhos. Nessa época, a pessoa querer
morrer era um grande problema. Hoje
em dia cortam logo a cabeça ou quebram
o pescoço na extremidade de uma corda
e a coisa acaba rapidamente. Nos velhos
tempos, não. Tiravam um dedo, depois a
mão, depois talvez uma perna, ou um
braço, até chegarem à cabeça. Os
pesados portões da prisão fecharam-se
ruidosamente atrás de nós. Com os fuzis
a tiracolo descemos a rua molhada.
— Deve ser horrível estar na pele
desse Emil Malvado — comentou
Albert.
com profundo suspiro. — Nem um
fio de cabelo na cabeça. Deve se sentir
muito só. Ninguém gosta de homem
careca. Me diga, por exemplo, quem
gosta de Mussolini?
— Eu diria que ninguém. Os carecas
são quase sempre homens maus —
respondeu Porta.
Uma hora depois, estávamos de
volta à companhia, e a escolta foi
desfeita.
Lá fora soou a campainha de alarme.
Em todo o aquartelamento ouvia-se o
barulho feito pelos homens ocupados em
preparar seus pertences para a nova
caminhada. O regimento estava indo
para a frente. Distribuíram-se novas
armas e novos equipamentos. E
marchamos por companhias para a
estação de carga.
As portas da misericórdia estarão
totalmente fechadas.
E o velho e gordo soldado, rude e
de coração duro, Em liberdade para
matar, irá caminhando.
Com a consciência vasta como o
inferno...

William Shakespeare
(Henrique V, III Ato, III Cena: Ante
as portas de Harfleur)

Ele escarrapachou-se na poltrona e


manejou a metralhadora portátil como
se fosse uma ceifadeira, varrendo a
bala tudo à sua volta na grande sala.
Emboço e sujeira acumulada em
muitos anos eram arrancados
ruidosamente das paredes.
O 3º sargento pioneiro manteve-se
ainda de pé por uma fração de
segundo, iluminado apenas pelos
clarões dos disparos. Logo em seguida
seu corpo rodopiou, despejando-se
sobre uma grande mesa coberta por um
monte de galinhas recentemente
mortas. A chuva de balas ia penetrando
em seu corpo, fazendo-o sacudir-se
violentamente. Acabou desabando no
chão, levando consigo o monte de
galinhas.
O russo deu um riso e carregou
novamente a arma. Não havia dúvida
de que estava se divertindo um bocado.
Como faz muita gente quando pode
matar impunemente, — Matar é
divertido -‹ disseram os homens do
Comando Especial.
Parece que muita gente era da
mesma opinião. Existe um demônio em
cada um de nos e a guerra revela isso
de modo surpreendentemente rápido. O
russo gira rapidamente e quase cai da
poltrona. A metralhadora atira na
direção da porta, pela qual o tenente
pioneiro e dois graduados entram
correndo. O tenente parece ficar
suspenso no ar. As pernas vergam como
as de um espantalho tocado pelo vento
quando as balas lhe atingem o joelho.
Os dois outros militares são
arremessados contra a parede. Por
momentos a cena lembra uma explosão
em fábrica de tintas.
Albert e Gregor atiram ao mesmo
tempo. Após o ruído da Kalashnikov, a
P-38 soa como pistola de ar
comprimido, porém o resultado é
diferente. O russo rodopia, ferido no
ombro, depois no estomago. Solta um
gemido e perde os sentidos. A rajada
seguinte quase lhe separa a cabeça dos
ombros. Ele cai ao chão com uma
pancada surda, os pés ainda sobre a
poltrona. Mais sangue!
— Maluco miserável! — disse
Albert, com o rosto negro brilhando de
suor. -
— Diabo, podia ter dado cabo de
todos nós.
— Cabeça de merda! — exclamou
Porta. –— Agora ele não tem mais
condições de matar ninguém, Por
segurança, vamos correr a casa toda.
Tiny atirou num gato, por engano.
Ele estava se lambendo no peitoril de
uma janela.
— Porco sujo! — rugiu Porta, e não
dirigiu uma palavra a Tiny no resto do
dia.
5
Ataque de infantaria

O Velho deu as boas-vindas aos


novos recrutas e lhes explicou
pacientemente tudo o que não era
ensinado no curso de treinamento —
Agora ouçam — disse ele com sua voz
rouquenha, lançando sobre a neve uma
cusparada marrom-escura de fumo
mascado. Depois apertou os lábios e
soltou um prolongado e agudo assovio.
— Ouvindo isso vocês se deitam, rosto
colado no chão. Há diabinhos
espalhados por toda a parte, espiando
vocês.
Deitem-se depressa, se não quiserem
ver suas tripas penduradas até os pés.
Agora ouçam este ruído — e
produziu um som prolongado, como que
um rangido, semelhante ao que fazem os
freios dos trens cargueiros. — Ouvindo
isto corram para trás de um abrigo, mais
rápido do que um morcego fugindo do
inferno. Abrigo em cratera não é
negócio. As granadas batem e
ricochetam, e se estiverem num desses
buracos, a chuva de estilhaços vai cair
em cima de vocês — passou a imitar o
ruído de todos os tipos de granadas e
bombas, repetindo, até sentir que os
recrutas estavam senhores da situação.
— Uma coisa vocês têm de aprender
muito bem, meus filhos — continuou. —
Correr, correr como se se estivesse
fugindo do inferno. Correr mais rápido
do que um coelho com uma serra
circular lhe querendo cortar o rabo. É
possível fugir das granadas, se se for
bem veloz, e nunca se esqueçam, quando
estiverem na frente, de se encolher ao
máximo e manter a cabeça bem baixa, se
quiserem voltar a gozar seu lar e as
belezas da vida. E os atiradores de
tocaia, rapazes! — apontava para os
homens em volta com o cabo do seu
velho cachimbo prateado, ao mesmo
tempo em que lançava na brancura da
neve outro jato de saliva cor de tabaco.
— Eu sei que andaram espalhando entre
vocês que os nossos vizinhos do outro
lado têm pouco treinamento. Esqueçam
isso o mais depressa possível.
Os atiradores siberianos são os
melhores do mundo. São capazes de
cortar a cabeça de um ratinho a duzentos
metros!
Acabava de amanhecer. A
companhia chegou à linha da frente e
dois minutos depois caiu o primeiro
homem com um balaço na cabeça. Era
um apontador-atirador de tanque, jovem
de 17 anos que esquecera de seguir os
ensinamentos do Velho. Os outros
ficaram parados, lívidos ante o corpo do
companheiro morto. O projétil
explosivo arrancara todo o rosto dele.
— São craques mesmo — disse
Porta, rindo sarcasticamente — Isso
deve provar a vocês que os russos não
erram O alvo. Arrancar a cabeça de um
alemão instantaneamente, hem? Não
sejam teimosos e vão viver mais tempo!
— Você aí — chamou Tiny em tom
de sussurro. — Você aí, é, o do pescoço
comprido. Você mesmo! Tire esse olhar
idiota da cara.
Um rapaz alto, magro, de uns 17
anos, com um uniforme muito grande
para ele, bateu os calcanhares e bateu
continência.
— Pare com a ginástica — disse
Tiny, expelindo uma nuvem de fumaça
do seu enorme charuto. — Pegue estas
caixas de munição e fique bem atrás de
mim.
Se o russo tirar você da face da terra
com um lança-chamas, continue grudado
em mim. Entendido?
— Como é que vou carregar seis
caixas, senhor? Só tenho duas mãos —
disse o jovem, desculpando-se
humildemente e mostrando as mãos.
— Amarre algumas em suas bolas,
filho — respondeu Tiny, com uma voz
que mais parecia um relincho. — Você
está carregando-as, goste ou não goste.
Entendeu?
Bastante aquém da linha de frente,
Heide está exultante. Deram-lhe o
comando de um grupo de combate e a
instrução de sua unidade vai indo de
vento em popa. Seus gritos são ouvidos
a grande distância quando ele
movimenta os homens na redondeza.
— Julius é e será sempre um militar
zurrapa, um marginal — comentou o
Legionário com azedume.
— Ele nasceu de uniforme e
capacete de aço, não sabiam? — disse
Porta. — Quando saiu do ventre da mãe
no dia vinte de abril, que é, por sinal, o
do aniversário do Führer, ele veio de
baioneta armada e enfiou-a na barriga da
parteira, lançando um grito de guerra.
Depois arrebentou a cabeça do médico
com a coronha do fuzil, fez continência e
tomou um banho gelado de chuveiro a
fim de ficar preparado para a carreira
de graduado do Exército prussiano.
Ficamos acompanhando, sem conter
o riso, as bravatas de Heide que,
segundo nos pareceu, sentia necessidade
de se mostrar um graduado violento para
facilitar a transformação dos estúpidos
civis em verdadeiros robôs militares.
Julius Heide era um militar bem-
apessoado, elegante, bem treinado, louro
e dono de uns olhos azuis frios e
perigosos.
— Que instrutor! — comentou Porta,
de um buraco na neve.
— Dos velhos tempos, como nós,
pouco restou. Só se vê cara nova por
toda parte. Uns bestinhas! Venha para cá,
Tiny, para me fazer companhia. Nunca
pude suportar estranhos!
— Nem eu — trovejou a voz
profunda de Tiny. — Quando tenho de
sair, prefiro mil vezes a companhia de
um camarada meu. Sempre fui contra
mistura de sangue e tudo mais com
sujeitos desconhecidos.
Olhando ao longe, acima das
elevações do terreno, pudemos
vislumbrar a sombria aldeia por cuja
posse tantos alemães e russos iriam
morrer dentro de poucos dias. O
panorama da neve acumulada lembrava
mais um cartão de Natal do que um lugar
onde o perigo está sempre à espreita.
Mas sabíamos que os russos estavam lá
e que reforçaram suas defesas com muita
habilidade. Era o primeiro lance na via
dolorosa que conduz às elevações e à
gigantesca prisão denominada QGPU,
ameaçadoramente localizada no alto da
colina mais distante, aparecendo e
desaparecendo através das nevascas
menos ou mais intensas.
A estrada se alonga por alturas e
cumes através do vale onde a morte está
sempre à espera. Nossas unidades
teriam de abrir caminho por aldeias e
fortificações para chegarem à grande
prisão. Essa manhã nós não a
conhecíamos, mas tanto nós quanto os
russos estaríamos logo maldizendo esse
presídio, do mesmo modo que milhares
de infelizes prisioneiros o maldisseram
e odiaram. Quando a neve, de tempos
em tempos, permite a visão, ela se nos
apresenta como uma horrível ameaça,
dominando-nos com suas maciças
muralhas e as fileiras de janelas
gradeadas.
— Imagine quantos têm sido
encerrados nesse lugar — disse Porta,
pensativo e espiando pelo binóculo. —
Um núcleo com três muralhas rodeando-
o e uma compacta cercadura de arame
farpado em cima. Nunca vi coisa igual.
— É um lugar sanguinolento —
acrescentou Tiny, impressionado,
espiando pelo periscópio. — Será que
deixarão os presos do lado do fora
quando começarmos a demolir a prisão?
Ou farão mais uma volta na chave como
fazemos nós quando surge uma incursão?
— Não vão deixar do lado de fora
— disse Porta, com segurança. —
Deixam eles se fritarem na própria
gordura quando começarmos a mandar
nossos incendiários.
— Será que tem mulher lá dentro?
— perguntou Albert, lambendo os
lábios.
— Claro que tem. E uma prisão tanto
para homens como para mulheres —
explicou Julius Heide, sempre
irritantemente bem informado sobre
tudo.
— Que espécie de vítimas sociais
eles encerram lá? — perguntou
Barcelona, sabendo que a expressão iria
tocar no ponto sensível de Heide.
— Que que você quer dizer com
vítimas sociais? — interpelou Heide. —
Criminosos é o que eles são. Uns
porcarias políticos e criminosos, que
deviam ser encostados a uma parede!
— Não se esqueça agora — disse
Porta, rindo com gosto — de que isto é
uma prisão comunista no duro. Os
políticos do lado de lá são como aliados
nossos.
Libertadores, diria você.
— Traidores são sempre traidores
— replicou Heide, categórico. — Um
russo que simpatize conosco continua
sendo um traidor de seu país, um
criminoso político, e por isso merece
ser degolado.
— Puxa! — exclamou Porta, dando
uma gargalhada e levando as mãos à
cabeça.
— E que me diz então do pessoal do
Vassov? — perguntou Gregor, com um
sorriso maldoso. — Não lhes demos
roupas e armas com a condição de nos
ajudarem a surrar a sua própria gente?
— Você é estúpido demais para
compreender essas coisas! — disse
Heide, querendo desistir da discussão e
quase deixando-se ver acima do banco
de neve que o escondia. De repente
lembrou-se dos atiradores especiais e
abaixou-se novamente com extrema
rapidez, murmurando: — Um dos nossos
autores clássicos disse claramente: “O
inimigo adora a traição mas despreza o
traidor.”
— Quanta besteira! — comentou
desdenhosamente Tiny. — Todo mundo
aceita as pessoas enquanto lhe são úteis.
A Alemanha tem suecos, ingleses e
russos a seu serviço.
— E negros também — acrescentou
Porta, dando uma gargalhada e
apontando para Albert sentado
calmamente, com a atenção votada para
um pedaço de pão gelado.
— Cala essa boca, homem — gritou
Albert, insultado. — Sou alemão
legítimo.
— É possível — disse Heide com ar
de zombaria — mas germânico você
nunca será.
— Isso me deixa feliz igualmente,
agora que Heini, das Forças de Assalto,
declarou que os hindus são arianos —
falou Albert com euforia, mostrando os
dentes cor de pérola como um cachorro
zangado.
— Por que será que os negros têm a
palma das mãos e a sola dos pés
brancas? — perguntou Tiny, mostrando
interesse e olhando para as palmas cor
de rosa das mãos de Albert.
— Todo mundo sabe disso —
gracejou Porta, afastando-se bastante de
Albert. — Quando são pintados de preto
com spray eles ficam de quatro, com as
mãos e os pés apoiados no chão.
— Ah! Ah! Ah! — ri u Albert. —
Você é muito engraçado, rapaz!
Um ruído sinistro e profundo rompeu
o ar. Era como se alguma coisa viesse
em nossa direção, chocalhando dentro
de um tubo alongado e chegando cada
vez mais perto. A neve foi jogada para o
alto como em cascatas quando os
projéteis de morteiro atirados de
entrincheiramentos caíram à nossa
frente. Eles explodiam com um
estampido que ecoava longe.
— Isso não está direito! — protestou
Porta, lá do seu abrigo na neve. — Nós
é que devemos atirar com os morteiros e
não esses russos buchudos, caras
safados. Sempre desrespeitando as
regras!
Um grito atravessou a noite. Veio da
distante margem da corrente gelada.
Alto e penetrante. Inútil o protesto
de um homem contra o shrapnel que lhe
entrou profundamente no corpo. Como
se isso adiantasse alguma coisa. E lá
veio de novo o ruído sinistro e
profundo, seguido de uma explosão que
repercutiu em toda a volta. Nós nos
encolhemos o mais possível,
comprimindo-nos contra a neve. Esse
era o objetivo do treino. Não deixar que
a gente morresse pela ação de um
morteiro louco. Não havia razão para
isso. Todos eram mais ou menos
amedrontados até a morte. É a pior coisa
para os jovens que nunca tenham estado
na frente.
— Vá fazer frio assim no inferno! —
rosnou Gregor, lançando seu próprio
bafo quente sobre o rosto. — Deve estar
uns quarenta abaixo de zero. Bastante
para congelar os ovos de um urso polar
e impedi-lo de brincar com a velha
Senhora Ursa durante um bom tempo.
— Exatamente seis graus abaixo —
pontificou Julius Heide.
— Um soldado alemão deve estar
apto para enfrentá-los. Os antigos
teutões tiveram coisa pior.
— Você estava com eles? —
perguntou Gregor, estampando o pé na
neve.
— Claro que estava. Não só Julius
mas também o Führer. Os alemães
matavam a sede dos cavalos no Volga e
Julius tirava pedacinhos de gelo da
bunda do Führer, depois que ele fazia
cocô.
Porta dizia isso e ria tão alto que os
russos abriram fogo contínuo de
metralhadora, pensando que estavam
rindo deles.
— Tiny tirou da cartucheira o seu
cantil e ficou seguindo com a vista os
projéteis traçantes. Tomou um grande
gole e passou o cantil a Porta.
— Que maravilha! — gritou Porta
satisfeito e levou o cantil a boca, sentido
o calor da pura vodca percorrer-lhe o
corpo todo, — Onde arranjou isto? —
perguntou Gregor, passando o cantil
para Barcelona.
— Segredo — respondeu Tiny, com
um riso misterioso. — Acontece que eu
ia passando por um depósito da
Luftwaffe e estourou uma bruta encrenca
com três pioneiros que foram apanhados
roubando carne de porco. E ninguém
notou quando eu aproveitei a confusão
para pegar uma caixa de bebidas.
— E o resto da caixa? — perguntou
Porta, com visível interesse. —
Geralmente uma caixa tem doze
garrafas.
— Olha aqui! — disse Tiny, abrindo
o casaco de neve. Apareceram onze
garrafas de vodca, ajustadas em volta do
corpo como enfeites em árvore de Natal.
— Só espero que os russos não
metam um balaço em você — observou
Porta, maldosamente. — Você iria pelos
ares como foguete na véspera do Ano-
Bom.
— Nada acontece a quem age com
autenticidade — redarguiu Tiny, com
convicção. — Eu cedo meu lugar em
qualquer tempo a esses heróis cretinos
que querem ver os seus nomes inscritos
numa porosa pedra tumular do lado de
fora do aquartelamento e darão a vida
para ficar lá, contemplando-os sempre e
sempre.
O 3º Sargento Lange, do Grupo de
Comando, veio deslizando pela neve,
quase sem fôlego, e atirou-se no chão,
ofegante, ao lado do Velho.
¬ Toda essa casa de merda parece
ter se levantado — disse ele gaguejando
excitadíssimo. — Os russos estão vindo
em ondas.
Nenhum contato com o Terceiro
Batalhão. O rádio do Grupo de
Comando pifou. Impacto direto. O único
que escapou fui eu. Agorinha mesmo. Os
russos já forçavam a porta.
— É a maior confusão — disse o
Legionário, procurando freneticamente
manejar o rádio. — Ouço tudo mas não
entendo uma palavra do que dizem.
— Use o Morse — ordenou o Velho,
com autoridade.
O Legionário começou a manipular o
transmissor com a ajuda de Heide.
Ele telegrafou velozmente: “Russo
rompeu linha. Ala direita aberta. O
Batalhão sem contato nos flancos e
retaguarda. Impossível manter posição.
Companhias 3 e 5 destruídas. Desligo.”
— Diabo — praguejou o Velho,
zangado. — Está aí o que você arranja
botando uns porcarias mal treinados
para lutar por você. E agora?
Heide ia escrevendo febrilmente.
Depois entregou a mensagem ao Velho.
— Claro, claro — resmungou o
Velho, dando uma enorme gargalhada e
tomando uma pitada de rapé. — Até o
último homem, até o último cartucho!
Desta vez teremos notícias do outro
lado. Liguem os motores e preparem os
canhões, rapazes. Vamos ter visitas. Me
ligue com o comandante.
O ar estava barulhento. Céu e terra
pareciam abrir-se para vomitar fogo e
aço em cima da gente. Lagartas de
tanques rangiam. Motores pesados
roncavam à máxima potência. A
ofuscante brancura da neve mudara para
roxo e vermelho. O horizonte inteiro era
um imenso braseiro.
Albert estava ao meu lado, colado
na neve. Puxara a máscara cor de neve
para baixo, a fim de cobrir
completamente o rosto negro, certo de
que se não o fizesse se colocaria como
um alvo perfeito.
— Nossa! O que eu não daria por
um ferimento que me afastasse da frente!
Só assim eu sairia de uma vez desta
merda e para sempre! — sonhava ele em
voz alta.
De ambos os lados as metralhadoras
começavam a pipocar. Os projéteis
traçantes riscavam os ares sobre a neve.
— E agora, sargento? — perguntou o
jovem Tenente Braun. olhando em volta,
distraidamente. Ele estava como
comandante de pelotão, porém tinha
bastante senso e deixava que o Velho
tomasse as decisões.
— A companhia deve atacar —
respondeu imediatamente o Velho. —
Temos que tomar aquela droga de aldeia
e sem perda de tempo, se não quisermos
comer capim pela raiz.
— Impossível — lamentou o jovem
tenente. — Precisaremos de armamento
pesado para conseguir isso. Deve haver
um batalhão lá.
— Não chore, tenente — gritou
Porta, alegremente. — Quando nossos
canhões e metralhadoras abrirem fogo, o
russo vai ter de rebolar.
— Avançar! — comandou o Velho,
pondo-se de pé com a metralhadora
portátil em riste e granadas de mão
penduradas atrás, presas ao cinto. — Fé
em Deus e venham comigo!
Partimos como raios, ora esbarrando
nos montes de neve, ora atolando na
massa branca e profunda. Transpirando
e praguejando, fomos abrindo caminho
naquele inferno esbranquiçado. Cada
passo era um esforço sobre-humano.
Muitas vezes os pés seguiam e as
botinas ficavam pelo caminho,
enterradas na neve. Metralhadoras
pesadas eram disparadas da aldeia.
Como ceifadeiras, elas iam dizimando
nossas fileiras da frente. Formas escuras
jaziam na neve como ilhas silenciosas.
— Vive la mort! — gritava o
Legionário, que parecia voar sobre a
neve. Os ataques sempre o deixavam
transtornado. Avançava como um louco
varrido.
De um buraco na neve um russo nos
olhava horrorizado. A metralhadora do
Legionário pipocou e o russo caiu
prostrado numa poça de sangue.
Tiny avançava como um búfalo
enraivecido, cutucando com o cano da
metralhadora o traseiro de um
amedrontado professor escolar, que
tentava em vão livrar-se do seu
perseguidor.
— Para a frente, seu professor
fedorento! Esta é a tal linda guerra que
você não se cansa de descrever para os
seus alunos. Veja lá se não vai começar
a pensar em alta traição, e o melhor é se
meter num buraco e deixar que a gente
vença a guerra.
O antigo tenente-coronel, que já
passara muito da idade para um ataque
de infantaria como aquele, tossia e
ofegava como uma locomotiva avariada
subindo a duras penas uma rampa
bastante inclinada. Projéteis em
ricochete passavam por cima das nossas
cabeças com um som que lembrava o
zunido de vespas enraivecidas.
Xingando e ofegantes, nós nos
abrigamos no outro lado da colina.
Sentíamos na nuca o bafo quente da
morte. Deslizamos descuidadamente
pela encosta e de repente, para nossa
surpresa, nos vimos no meio de casas
semienterradas, apenas com a
extremidade das chaminés aparecendo
acima da camada de neve.
As granadas passavam voando.
Canhões e metralhadoras trocavam
amabilidades. Pedaços de janelas e
portas eram arrancados e atirados contra
nós. Milhares de traçantes riscavam os
ares gelados e iam perder-se nos corpos
dos soldados que corriam. Infantes
russos abandonavam os abrigos na neve
e corriam para novos esconderijos nos
montes de neve, atrás das cabanas.
Estávamos tomados por uma feroz
sede de sangue, intoxicados pela certeza
da vitória, por termos surpreendido
completamente o inimigo amedrontado.
— Vive la mort! — gritava o
Legionário, fanaticamente, batendo com
a coronha do fuzil na cabeça de um
gordo sargento, sangue e carne
espalhando-se por cima dele.
— Njet vysstreliti! — balbuciou o
capitão russo, pondo a mão à frente para
defender-se.
O Tenente Braun parou e ficou
olhando, confuso, para o oficial russo
ferido. Depois saiu atrás do Velho, que
desapareceu na virada de uma comprida
trincheira. Como num filme que passa
rapidamente, notei que o russo tinha
consigo uma granada de mão e se
preparava para jogá-la atrás do Tenente
Braun. Por mero reflexo, eu me vi
imediatamente arrebentando a cara dele
com uma violenta coronhada. A granada
rolou da mão dele e explodiu,
espalhando neve e terra gelada para
todos os lados.
Um jovem infante foi arremessado
ao ar. Uma das pernas ficou pendurada
por fragmentos de carne. O sangue
jorrava da coxa como água saindo de
uma tubulação arrebentada. Eu me
inclinei sobre ele, porém nada mais
adiantava.
Estava morto, graças à estupidez de
Braun. Ele devia ter matado o russo.
Porta comentou: — Se quisermos
sobreviver, teremos de ser ainda mais
cruéis e traiçoeiros do que eles. Há
exatamente um segundo entre a vida e a
morte. Hesite em atirar ou em jogar a
granada e você já pode se considerar um
homem morto.
Um russo esquelético pôs-se de pé
em frente a Tiny.
— Millossti! Míllossti! –— gritou
ele, histericamente, pulando no mesmo
lugar, como se estivesse socando as
covas de sementes recém-plantadas.
— Os russos são bons quando
mortos — disse Tiny, rindo
triunfantemente.
Em seguida mandou uma saraivada
de balas para dentro do corpo do russo.
Ele desabou para trás como um
farrapo humano. Sobre um veículo
destroçado encontrava-se o corpo de um
miliciano. O crânio estava rachado e de
um dos lados escorria parte da massa
encefálica. Aos pés do morto, um antigo
capacete de aço virado ao contrário.
O professor escolar parou
bruscamente como se tivesse esbarrado
numa parede. Durante alguns longos
segundos ele ficou olhando o crânio
fendido. De repente atirou ao chão a
carabina, levou as mãos à cabeça e
começou a gritar como uma mulher
histérica.
— Ah! seu parasita covarde! —
rosnou Tiny, chegando como uma
pororoca.
— Pensa que essa maldita guerra do
Adolf acabou e já e tempo para
choradeiras?
Pega já essa carabina e ponha-se de
pé ou eu arranco essas suas bolas, se é
que tem.
Lembrando um corvo ferido, o
professor abaixou-se, resmungando, na
frente de Tiny, que o ajudou a caminhar
com pontapés e coronhadas.
Caminhei apressado após os outros
com a metralhadora leve apoiada nos
braços. De uma estreita alameda,
algumas pessoas, vestidas de branco e
com altos chapéus de peles, surgiram
correndo. Houve uma grande explosão e
senti nos ouvidos um assovio e um
chiado. De repente fiquei completamente
surdo.
Arriei a metralhadora, tomado de
súbito pavor. Logo em seguida senti que
era levantado do chão como por uma
gigantesca mão. Depois fui jogado sobre
a neve.
Um ofuscante jato de fogo apareceu
lá em cima. Depois outro e mais outro.
Via botas marchando sobre mim em
largas passadas. Nos ares, os ruídos de
toda ordem, como se milhões de vespas
enfezadas passassem voando. Comecei a
cavar desesperadamente na neve. Um só
pensamento me dominava: fugir daquele
inferno. Uma casa voou pelos ares,
desfazendo-se numa chuva de vigas,
traves, argamassa e vidros. Um fogão
passou voando, deixando no ar um rastro
de fagulhas. Os russos que se achavam
na boca da alameda foram arremessados
para trás e esmagados contra os muros
de pedra dos kolchos. Um canhão
antitanque vinha deslizando sobre suas
lagartas rua abaixo na aldeia, atropelou
dois in(antes alemães que se
transformaram numa pasta de carne
sangrenta e continuou abrindo caminho
por dentro de uma cabana. Quando a
parede foi abaixo, surgiu uma
metralhadora pesada russa.
Instintivamente atirei sobre ela uma
granada de mão. Seguiu-se a explosão e
o silêncio completo da metralhadora.
Em poucas horas a aldeia estava
esvaziada. Alguns se renderam.
Saíam cautelosamente dos abrigos
com os braços levantados acima da
cabeça e trazendo no olhar uma
expressão de pavor impressionante.
As metralhadoras portáteis
funcionaram sem piedade. Não fizemos
prisioneiros. Matamos todos, feridos ou
não. A companhia de pioneiros
encontrou uma companhia de infantaria
alemã inteiramente dizimada. Todos
mortos com tiro na nuca e estocadas de
baioneta. Fizemos um círculo e ficamos
ali olhando-os. em silêncio. Uns
estavam apáticos, outros guardavam sua
raiva internamente. Alguns dos mortos
haviam sido torturados. Bestialmente!
— Merde! — exclamou o
Legionário. — Esterco! Monturo militar!
C'est la guerre!
— Somente indivíduos perversos
podem fazer uma coisa dessas — disse
Albert. –— Homens muito perversos!
— Vamos fazer o mesmo com eles
qualquer dia destes, se os encontrarmos
no caminho — falou Tiny rindo.
igualmente perverso.
— Reunião nos kolchos! — gritou o
Velho, gesticulando com a metralhadora.
Um Panzer-4 (blindado) veio
roncando pela rua da aldeia. As chamas
de sua descarga destacavam-se na fraca
luz de inverno. Levado por suas
estrepitosas lagartas e jogando para
cima uma nuvem de neve, ele acabou
parando à frente do Tenente Braun. Um
general de divisão enrolado numa pele
de urso branco debruçou-se na abertura
da torre.
— Que que vocês estão fazendo
aqui, tenente? –— perguntou em tom
ameaçador.
O Tenente Braun respondeu
nervosamente, falando com tal rapidez
que as palavras emendavam umas nas
outras, sem intervalo. O agasalhado
general o observava com um olhar
perigosamente inquisidor.
— Você está em contato com sua
companhia? — perguntou, sacudindo o
gelo acumulado nas luvas de pele.
— Bem, general — começou
dizendo o Tenente Braun, com a voz
alterada pelo nervosismo. — O
comando da companhia está na cabana
de caçadores dois quilômetros ao norte
de Saridova.
— E você recebeu ordem de tomar
posição aqui? — perguntou o general,
com voz áspera e visivelmente
ameaçadora.
— Não, general.
— Então toque para a frente! O
caminho de casa passa por Moscou!
O Panzer-4 desapareceu numa
nuvem de neve, lançando longas chispas
de fogo pelo cano de descarga. O
general nem tomou conhecimento da
continência do Tenente Braun.
Praguejando em voz baixa e vermelho
como um tomate, Braun juntou-se ao
nosso grupo.
— Vamos prosseguir — disse como
que desculpando-se e brincando
nervosamente com a metralhadora.
— Quais são as ordens, senhor? —
perguntou o Velho, enchendo de fumo,
fleumaticamente, o cachimbo com tampo
de prata.
— Creio que é melhor para todos
nós que você dê as ordens, companheiro
— disse o tenente, com tranquilidade.
— E um tipo de coisa que não nos
ensinaram na escola de oficiais.
— Peguem as armas! — comandou
bruscamente o Velho. — Polegar para
cima e vamos tocar pelos lados da
estrada. Mantenham distância entre os
grupos. Separem-se, pelo amor de Deus,
senão bastará um único tiro de morteiro
para acabar com a raça de todo mundo.
Quantas vezes vou ter de dizer isso a
vocês? Espalhem-se, rápido! — berrou
furiosamente para Tiny, que havia
tomado o professor e o tenente-coronel
rebaixado como seus assistentes.
— Calma, Velho! Eu e meus dois
heróis alemães aqui presentes estamos
providenciando para nos espalharmos
por todo o território desta maldita
Rússia.
O mortiço tom cinza da manhã de
inverno mudou para uma pálida
tonalidade azul. A tempestade amainou.
Podia-se ouvir um disparo a quilômetros
de distância na exaustiva triagem do
inverno. Mortos de cansaço, marchamos
através da imensa planície em direção
às tenebrosas alturas que se
apresentavam num tom escuro à
distância.
— Onde é que se meteram
novamente esses russos do inferno? -—
perguntou Porta, vasculhando
minuciosamente um monte de feno. —
Quando a gente pensa que estão em
determinado lugar, eles somem, parece
até que terra adentro.
Sempre escapando, de modo que
podem matar os pobres dos alemães
atirando neles pelas costas.
— Está aí uma coisa em que os
russos têm uma grande experiência de
muitos anos — explicou Gregor. — Se
loucos assassinos e ladrões inimigos
como nós não estão em sua perseguição,
aí então a sua própria polícia secreta
está prontinha para mandá-los tirar a
neve na Sibéria.
No fim da tarde, chegamos a um
lugar em ruínas. Mostrava-se apinhado
de corpos carbonizados, amontoados uns
sobre os outros. Depois de uma curta e
acalorada discussão a respeito, o fato
perdeu todo o interesse para nós. Porta
achou um leitão congelado.
— Jesus ama a todos nós —
exclamou Tiny, começando
imediatamente a preparar uma fogueira.
O professor e o tenente-coronel
rebaixado ficaram encarregados de
procurar lenha.
— Lenha seca, viu? — recomendou
Tiny. — Senão vocês mesmos vão servir
de lenha.
O Velho queria continuar a marcha.
Gritou, esbravejou, mas acabou
desistindo. Ele sabia, por experiência
adquirida, que somente um ataque
maciço de tanques inimigos poderia
dissuadir Porta de ficar para uma
próxima rodada de boa comida.
Com espadas e machadinhas
conseguiram retalhar o leitão.
— Não é preciso descongelar
primeiro? — perguntou o Tenente Braun,
ingenuamente, protegendo-se com ambas
as mãos para não ser atingido pelos
pedaços congelados de carne que
voavam em todas as direções.
— Não há tempo, tenente. Se formos
ficar esperando, nossos amigos do outro
lado podem cair em cima de nós com
suas velhas balalaicas e nos pespegar
um tiro no traseiro — explicou Porta,
retalhando o leitão com um grande
machado de açougueiro, Albert chegou
trazendo do celeiro um saco de batatas,
uma cesta de ovos e uma lata de leite
congelado.
— Nossa Senhora — exclamou
Porta, com a boca cheia de carne de
porco, que ele antes mergulhara numa
vasilha com genebra russa encontrada
por Albert no celeiro, juntamente com as
outras coisas. — Agora vou fazer umas
panquecas para vocês.
O Tenente Braun estava embriagado
e começou a cantar canções proibidas.
Volta e meia confidenciava a Gregor
que nunca fora com o Führer e a sua
turma. Heide olhava para ele com olhar
de reprovação. Não podia compreender
que um oficial do exército do Führer
dissesse tais coisas. E resolveu cortar as
relações com o Tenente Braun.
No celeiro, Porta encontrou tudo o
que precisava para fazer as panquecas,
incluindo um salmão defumado um tanto
ordinário e com uma cor esquisita, mas
absolutamente aproveitável.
— O ideal seria uma frigideira de
ferro — explicou ele — de preferência
sem cabo, mas isso não tem importância.
Acho que posso fazer panquecas russas
de qualquer modo.
Assoviando, feliz da vida, começou
a misturar os ingredientes da massa
numa vasilha grande.
— Será que não tem cerveja? Não
faz mal, boto vodca. Com o cabo da
espada ele quebrou os ovos e misturou-
os com o leite e a farinha.
Não demorou e aquelas ruínas eram
invadidas pelo cheirinho gostoso das
panquecas. Pilhas de panquecas russas
foram se acumulando sobre a mesa
comprida e tosca. Porta as preparou bem
grossas, como os russos gostam de fazer.
Quando a última foi cozida, começamos
a comer com sofreguidão, como se nos
estivéssemos preparando para sete anos
de vacas magras.
Primeiro foi uma panqueca
defumada, depois uma fatia de salmão
defumado e por cima de tudo um pedaço
de carne de porco. Depois, outra vez
panqueca. Bem que podia ter um
molhinho, mas isso ficou só na
imaginação.
Em seu lugar nós as regamos com
genebra suave. Quando todas foram
consumidas, nós nem nos arriscávamos a
andar, com medo de que as tripas
arrebentassem.
Porta tirou da bota um flautim.
Deitado de costas, ele nos presenteou
com um trecho da opereta A Esposa
Divorciada.
— Nossa! Será que comi mesmo? —
rosnou Gregor, soltando um imenso
arroto, no que foi seguido por Porta com
dois ainda maiores.
— Da próxima vez que acharmos
alguma coisa para comer, vou fazer para
nós uma sopa de beterraba à moda russa,
que eles chamam bortsch — prometeu
Porta com uma expressão de deleite no
olhar. — E a sopa favorita deles.
Quando encontrarmos uma vaca tiramos
um bom pedaço dela e tomara que se
possa encontrar também carne de porco.
Ah! se a gente conseguir isso! É uma
sopa capaz de fazer o Exército Vermelho
capitular na hora.
A gente quase teve de se arrastar até
a privada, a qual, estranho como pareça,
escapou da total destruição da aldeia.
Porta era mesmo um comilão. Ainda
levou consigo um pedaço de carne de
porco e uma garrafa com genebra.
— Quem tem a cabeça no lugar
nunca sai por este mundo afora sem
levar sua matula — recomendou, ao
mesmo tempo que dava uma dentada na
carne de porco.
Lá fora começou um rumor de armas
e equipamentos.
— A companhia chegou — informou
Porta, espiando cautelosamente por uma
fresta da parede suja e cheia de fuligem.
— Levantem-se! — ordenou
nervosamente o Velho. — Peguem seus
troços.
Löwe vai ficar uma fera se nos
encontrar aqui nesta pasmaceira.
— Tem razão. Vamos cair fora e
procurar esse tal Exército Vermelho —
disse Tiny com um riso estúpido de
pessoa embriagada.
— Não foi para isso que saímos de
nossas casas?
— Onde é que esteve escondido,
Beier? — perguntou o Capitão Löwe,
muito corado, os olhos pregados no
Velho.
— Por aqui — respondeu o Velho,
mostrando vagamente com um gesto as
redondezas, sem saber exatamente o que
deveria dizer.
Löwe fitou-o estranhamente durante
uns poucos segundos. Depois encolheu
os ombros, como que desistindo, e
comandou: — Companhia Cinco, coluna
por um, atrás de mim!
Mal saíamos da aldeia em ruínas
quando uma violenta explosão rompeu o
silêncio daquele amanhecer.
Instintivamente deitamo-nos na neve,
bem encolhidos. Terra, gelo e
fragmentos de aço voaram pelos ares. O
sopro parecia queimar nossos pulmões,
mas felizmente a explosão foi tão
distante que a companhia não sofreu
grandes danos. Tivemos somente três
feridos. Mas no que nos levantamos e
começamos a marcha novamente, um
bom número de blindados T-34
irrompeu da floresta com os motores
roncando e as lagartas rangendo.
— Tanques russos! — gritou
freneticamente Barcelona. — Avancem o
antitanque!
O Capitão Löwe levantou a mão e
fez um gesto de “alto” a fim de permitir
que a guarnição do canhão antitanque
entrasse em ação. Ela lá se foi, ofegante
e bufando, colina acima.
— Venham nos dar uma mãozinha,
cambada de frouxos — reclamou um 3º
sargento. Um canhão de 75 mm
ficara atolado na espessa neve.
— Não é conosco — respondeu
Porta, levantando uma sobrancelha.
O 3º sargento começou a berrar e a
agitar os braços mas foi contido pelo
Velho, que o mandou para o inferno com
canhão e tudo.
— Vou me lembrar de você! —
ameaçou o 3º Sargento, sumindo no
meio da neve.
O desagradável roncar dos motores
dos tanques ia se aproximando. Porta
olhava cuidadosamente por cima do seu
abrigo na neve.
— Senhor capitão! — gritou para
Löwe. — Deus não destinou a gente
para ser morta aqui, tenho certeza.
Vamos enfrentá-los.
— Fique onde está! — ordenou,
zangado, Löwe. — Prepare suas armas
para combate aproximado e permaneça
no abrigo!
— Agora, vamos, me dê aqueles
molotovs rápido, que eu vou jogá-los
debaixo dos tanques — ordenou Tiny ao
professor, batendo com o cano da
metralhadora no topo do seu capacete de
aço. — O diabo e a avó dele que o
ajudem se você não andar direitinho. Eu
jogo você e sua varinha debaixo de um
T-34 como se fosse uma bomba! Pense
nisso, seu professorzinho barato!
Ruminando sua raiva, o professor e
o tenente-coronel demitido pegaram um
punhado de granadas de mão,
entregando-as a Tiny.
— Segurem-se nos capacetes —
rosnou Tiny, girando um feixe de
bombas em volta da cabeça.
Um KW-2 vinha roncando e já se
achava a uns 25 metros deles.
— Vai nos amassar — gritou o
professor aterrorizado, preparando-se
para fugir.
— Fique aí! — vociferou Tiny,
largando sobre ele uma pesada mão do
tamanho de um pernil. — Arranco suas
bolas se tentar fugir!
6
Cinquenta e três toneladas de tanque
fizeram uma parada. A torre começou a
girar vagarosamente. Ouviu-se a
detonação e uma comprida língua de
fogo saiu do canhão de 155 mm. O sopro
arremessou Tiny contra o professor e o
ex-oficial. Os estilhaços caíram a
apenas uns trinta metros do abrigo e
atiraram sobre eles uma avalanche de
neve.
— Bela maneira de abrir o baile! —
praguejou Tiny, espantado, limpando o
rosto da neve e da lama.
— Deus do céu! — gritou o
professor, tomado de medo e pânico.
O gigantesco bojo do tanque
elevava-se em frente ao abrigo. O ex-
oficial levantou um pouco o corpo,
fechou os olhos e esperou que aquela
massa viesse passar esmagadoramente
sobre eles.
— Levanta o rabo, Ivan! — rosnou
Tiny, arremessando dois feixes de
bombas, em rápida sucessão, para
debaixo do KW-2.
Seguiu-se um jato de fogo amarelo
esbranquiçado e uma coluna de fumaça
negra elevou-se da torre, crescendo com
grande rapidez como um cogumelo.
— Jesus Cristo! — gaguejou o ex-
oficial, branco de medo.
Uma terrível explosão destruiu o
KW-2, transformando-o em milhares de
fragmentos e peças. Tiny saiu rolando,
pois os pedaços incandescentes do
tanque avançavam ameaçadoramente. O
ex-oficial ficou caído num buraco de
neve, gritando aterrorizado. As 15
toneladas da torre haviam vindo em sua
direção e apenas deixaram o seu casaco
rasgado nas costas, sem sequer feri-lo.
Com os olhos esbugalhados e
tremendo como vara verde, ele ali ficou,
aparvalhado ante o inferno de fogo e
estrépito em que se transformou em
segundos aquilo que fora um
terrivelmente mortal engenho de guerra.
— Cadê o raio do lança-chamas? —
perguntou Tiny, com ar ameaçador,
encarando maldosamente o ex-oficial,
em cujo olhar percebiam-se sinais de
psicose de guerra. — O lança-chamas,
seu cabeça oca! — repetiu, cutucando o
outro com a coronha da metralhadora.
Como cachorro espancado, o ex-
oficial tentou fugir, arrastando-se pelo
chão. Tiny desandou em ofensas, com a
metralhadora apontada e o dedo no
gatilho.
— Vou espalhar você por toda a
Rússia, seu merda, e depois cuspir na
cova de sua mãe — berrou Tiny, com um
riso grotesco.
— Você jogou fora coisas
pertencentes ao Exército alemão e isso
não se faz impunemente, seu miserável.
Ouviram-se rumores de lagartas de
tanques vindos de trás da cortina de
neve, ameaçando-nos de esmagamento.
Um grande muro de pedras caiu
fragorosamente, rompido como casca de
ovo. A onda de sopro nos derrubou no
chão. O calor nos queimava a pele, mas
Tiny parecia não ligar para o inferno à
roda dele. Mandou uma rajada de balas
na neve, aos pés do ex-oficial.
— O lança-chamas! — resmungou
raivoso.
— Que está havendo? — perguntou
o Velho com sua voz inalterável.
— Esse cara aí deve ter sido
atacado por um bando de macacos —
explicou Tiny, furioso. — Pois não é que
jogou fora um lança-chamas pertencente
ao nosso Adolf? Certamente acha que
ainda tem direito aos seus galões. Nunca
vi um merda como esse.
— Onde é que está o lança-chamas?
— perguntou o Velho. Lançando para o
ex-oficial um olhar de desprezo.
— Perdi — murmurou o ex-oficial,
com a voz embargada.
— Perdeu? — rosnou Tiny
escandalizado, em voz tão alta que
podia ser ouvida em Moscou ou Berlim.
— Nossa Senhora, Mãe de Jesus, agora
estou vendo tudo. Você está mentindo,
sujeito sujo, você jogou fora, não há
dúvida.
Jogou fora porque não queria ter de
carregá-lo. E um merda como você foi
oficial do Exército do Führer!
— Vá buscar! — ordenou
bruscamente o Velho.
— Está maluco? — protestou o ex-
oficial, zangado. — Eles me matam se
eu for lá.
— E daí? — disse Tiny, rindo
maldosamente. — Nesta unidade você
não faz falta nenhuma. Albert também
vai ficar contente. Será poupado de
arrebentar sua cabeça a cacete e fazer de
você uma pasta de carne.
— “Eles me matam”. . — — repetiu
o Velho, sorrindo ironicamente. —
Quando você era comandante “caía pelo
Führer e pela Pátria"! Mas você tem
razão. “Matar” é o termo exato. Ou
“assassinar”! Ou “sacrificar". Ou
“massacrar”.
— C'est la guerre — comentou com
um sorriso o Legionário.
— Venha a morte, venha agora a
morte... — sussurrou ele delicadamente.
— Pela última vez: traga o lança-
chamas! — ordenou o Velho, colocando
a metralhadora, como que
instintivamente, pronta para funcionar.
Com uma reverência de cabeça, o
corpo ereto, sem armas, o ex-oficial
pôs-se a andar, ou deslizar, descendo a
encosta congelada.
Uma granada explodiu a poucos
metros dele, cobrindo-o com uma chuva
de neve, atirando-o para trás e levando-
lhe o capacete. Ele levantou-se com
dificuldade e saiu cambaleando pela
neve profunda, sem dar importância aos
gritos, às quedas de árvores e às
ensurdecedoras explosões à sua volta.
— Vá lá, Número Dois! — ordenou
o Velho. — Cuide daquele merda —
disse, voltando-se para Tiny.
— Com prazer — atendeu Tiny,
rindo satisfeito. — Como uma mãe
carinhosa.
Mas nem todas as mães são boas
mães.
— Deus o ajude se você acabar com
ele — avisou o Velho, com um olhar
severo — Como pode o senhor pensar
que eu seja capaz de uma coisa dessas?
–— perguntou Tiny, com uma expressão
maliciosa no rosto enegrecido pela
pólvora. — Eu sigo o Terceiro
Mandamento de Jesus: “Não mataras.” E
nem posso esquecer o que Moisés disse:
“Aquele que atingir as bolas do seu
companheiro com um cajado terá seu
cérebro esmagado.”
— Maluquice! — rosnou o Velho,
irritado, e descendo rapidamente a
encosta na companhia do Legionário. O
ex-oficial chegou de volta e jogou com
raiva o lança-chamas aos pés de Tiny.
— Está maluco, homem? — gritou
Tiny, censurando-o. — Vai acabar
danificando o material de Adolf. Vão
descontar no seu ordenado, claro que
vão.
E não se esqueça de que está
ganhando como trabalhador e não como
oficial.
Vamos sair por aí fritando os
vizinhos. Onde anda aquele safado do
professor?
Se tentou fugir, eu vou atrás dele e
meto-lhe a varinha do quadro-negro pela
bunda adentro.
— Estou aqui — atendeu o
professor, mostrando um rosto
amedrontado na borda de um buraco de
neve.
— Ainda bem — resmungou Tiny,
aliviado. — Seria o diabo para vocês
dois se me contrariassem. — Agora
peguem a munição e sigam a frente. O
pior que pode acontecer e terem a bunda
arrancada e não poderem mais fazer
cocô no penico.
— Coluna por dois, coluna por dois,
seu colecionador de heróis de araque. -
— E o Velho os acossava
impacientemente. — Vamos embora,
cerrem à frente, sigam os tanques.
— Você deve ter andado comendo
merda e ela lhe subiu à cabeça — reagiu
Porta, com raiva. — Cerre você, se está
cansado de viver. Eu é que não vou
largar este exército por causa de uma
bala. Não entrei como voluntário para
me suicidar.
— Rápido, rápido, rápido! Todo
mundo, rápido! — comandou Tiny com
brutalidade e agarrando-se ao gancho de
reboque de um P-4. — Daqui a pouco
vou ter de caminhar arrastando as bolas,
pois as pernas já não aguentam mais.
O horizonte estava em chamas. Os
foguetes atravessavam os céus, lançados
das nossas baterias, mas as pesadas
organizações de Stalin respondiam
ferozmente. Os canhões russos Maxim
atiravam pesadamente, tanto à nossa
frente como enviesado. Nós chegamos
até eles com granadas de mão e minas S
e eliminamos os sobreviventes em luta
corpo a corpo. A coisa foi tão rápida
que nem nos demos conta do que se
passava conosco.
— En avant, marche! Vive la mort!
— berrava o Legionário, fanaticamente,
enfiando sua comprida faca mourisca no
corpo de um tenente russo. Ele desabou
sobre um outro corpo e a Kalashnikov
voou de suas mãos.
Uma porção de vezes o grito de
guerra mourisco do Legionário ressoou
através da cortina de neve.
— Com esta guerra besta, a areia
desta região deserta está fervendo
novamente -— ironizou Porta, cuspindo
desdenhosamente na neve.
— Maluco, maluco — observou
Gregor. — Por que diabo ele age dessa
maneira? Não gosta nem de Adolf nem
da velha Alemanha.
— Certamente levou uma dentada de
camelo na bunda quando andou pelo
Saara com o restante dos Froggies e
cortando as bolas dos pobres árabes. —
comentou Porta, com uma gostosa
gargalhada.
Os temidos canhões de campanha da
Rússia começaram a atirar. As granadas
explodiam a nossa volta, jogando neve,
terra e corpos congelados para o ar.
Xingando e praguejando,
combatíamos nas montanhas de neve,
muitas vezes ficando atolados até as
axilas e só com muita dificuldade
conseguindo sair. Voltamos novamente
para a estrada e deslizávamos na
superfície gelada como se tivéssemos
rodas. Nossas botas cravadas não se
firmavam de jeito nenhum na neve. As
armas automáticas russas varriam as
estradas em prolongadas e mortíferas
rajadas. As granadas de mão explodiam
à nossa volta num verdadeiro inferno de
fogo. Avançamos em longos lances,
pulando sobre um punhado de infantes
que se comprimiam medrosamente na
neve com as mãos levantadas em
rendição, pensando que éramos russos.
— Os heróis do Führer estão
cansadinhos? — ironizou Tiny,
mandando uma rajada em torno dos pés
de um 2º sargento.
— Para a frente, camaradas. O
caminho mais rápido de casa é via
Moscou — — gritou Porta, com ar de
zombaria. Com espadas pontiagudas e
baionetas, o grupo avançou para as
posições russas. Tiny mandou uma longa
rajada contra a abertura de observação
de um posto de defesa. O efeito foi
terrível, pois os projéteis ricochetavam
em todas as direções quando chegavam
dentro da estrutura de concreto. Poucos
sobreviveram. Quase todos ficaram
completamente deformados num infernal
fogo cruzado não dirigido, em que os
projéteis, ao ricochetar, perdiam a forma
original.
Atirei uma granada de mão contra
um abrigo de metralhadora um tanto
atrás da tal posição. O impulso foi tão
forte que o meu braço quase se
deslocou.
A explosão que se seguiu me fez cair
para trás violentamente e eu expeli todo
o ar dos pulmões. O posto inteiro foi
pelos ares como um bloco e depois caiu
ao chão em posição invertida. A minha
granada deve ter feito explodir o
depósito de munição de reserva. O
sopro arremessou Tiny e o professor
para o alto e eles caíram depois
pesadamente na neve.
— Você está doido ou o quê? —
berrou Tiny, pálido de raiva, procurando
sair de um monte de neve. — Não se
maneja explosivos dessa maneira, me
admira você! Quase fui arrancado das
minhas botas, juro!
Dois canhões autopropulsados
passaram roncando. O da frente parou
bem em cima de um abrigo de
metralhadora e ficou virando para um
lado e outro, no mesmo lugar, como
quem esmaga um cigarro no chão com a
sola do sapato.
Ouviu-se o estalido de madeira
quebrada. O concreto foi amassado.
Soaram gritos abafados. O
autopropulsado continuou seu trabalho
de trituração até que as vozes
silenciaram.
Atirei outra granada contra um ninho
de metralhadoras. Voaram pelos ares
pedaços de madeira. Um Maxim
inclinou-se para baixo, a boca virada
para o chão. Sobre sua camisa de
refrigeração jazia o que restou de um
soldado russo, cujo rosto era uma
irreconhecível massa sangrenta.
Em torno de nós ouviam-se os ruídos
característicos dos canhões de tanques.
Um capitão de cavalaria alto e magro,
com quepe de uniforme de gala de
oficial caído arrogantemente sobre um
olho, procurou incentivar-nos.
— Vamos tocar para a frente. Vamos
prosseguir. Mostrem que são soldados
do Führer, rapazes!
— E você é um monte de titica de
galinha — rosnou Tiny, com raiva, mas
não tão alto que pudesse ser ouvido pelo
capitão de cavalaria.
— Quanta merda anda por aí
rolando nesta guerra de interesses com
tanta verborragia — resmungou Porta,
cuspindo desdenhosamente atrás do
magro capitão.
De repente o oficial foi ferido. O
sangue esguichou em seu rosto e ele caiu
com um grito impressionante. O elegante
quepe rolou pela neve e foi bater num
arbusto. Gregor apanhou a arma do
oficial, uma cobiçada Kalashnikov.
Barcelona quebrou ao meio o disco
de identificação do oficial e guardou
uma metade no bolso.
— Mais estrume para o monturo
militar. Venha a morte, venha...! —
sussurrou o Legionário.
Subitamente o Tenente Braun jogou
ao chão a sua metralhadora e projetou-
se sobre um monte de caixas de munição
vazias. Paramos e olhamos para ele.
Seus olhos nos encaravam,
inexpressivos.
— Não demora muito e ele vai dar
com os burros na água — disse Heide,
rindo maldosamente.
— Que é que está acontecendo aqui?
— perguntou o Capitão Löwe, descendo
aos trancos e barrancos uma elevação, à
frente do Grupo de Comando.
Heide, ainda rindo, apontou para o
Tenente Braun.
— Covardia em face do inimigo —
sussurrou ele, com uma expressão de
crueldade no rosto.
— Lá vem de novo o sanguinário
imbecil — gritou Tiny. — Por que não
estica mais um pouco a cabeça para Ivan
acertar-lhe um bom balaço?
— Cale a boca — disse em tom
severo Löwe. — Eu cuido disco de
identificação do oficial e guardou uma
metade no bolso.
O Tenente Braun olhava como se não
visse nada. Parecia estar em outro
mundo.
— Parece que tudo o que ele tinha
dentro sumiu. — comentou Gregor,
encolhendo os ombros com indiferença.
— Para a frente, pessoal — ordenou
Löwe, em tom rigoroso.
— Levem ele para o médico.
O terreno elevava-se bastante. O
esforço da subida era terrível. Tiny me
agarrou pelo ombro quando escorreguei
e ia caindo para trás na direção de um
enorme precipício. Minha cabeça ficou
completamente tonta quando olhei para
baixo e vi a pirambeira. Mal-humorados
e maldizendo tudo, caminhamos para
baixo e para cima, dizendo o diabo do
Exército e seus métodos, da Alemanha e
até dos nossos pais, por culpa de quem
estávamos neste mundo. Muitos
entregaram os pontos e se estenderam na
neve, porém os comandantes de grupos e
pelotões os punham de pé e os
obrigavam a seguir em frente. Heide era
extremamente zeloso. Sua voz aguda e
fria podia ser ouvida a grande distância.
— Mas pense bem! Eu me
apresentar voluntariamente para isto! —
lamentava-se Albert, com o rosto metido
na neve e agarrando-se a um galho para
não escorregar encosta abaixo. –— E
castigo de Deus. Eu nunca devia ter
mijado na pipa de vinho daquele bispo
em Munique e provocado icterícia nele.
O porcalhão!
Os ganchos de ferro com os quais o
Legionário ia conseguindo subir
escaparam-lhe das mãos e a
metralhadora saiu deslizando pela
encosta. Ele a observou desanimado
enquanto ela descia às cambalhotas,
deixando atrás de si um rastro de neve
pulverizada. Todos nós sabíamos ser
praticamente impossível, como
combatentes de vanguarda, que
saíssemos vivos da guerra.
Mas mantínhamos as esperanças e
sentíamo-nos felizes e agradecidos a
cada dia que passávamos com vida.
Esse ataque, que foi conduzido com uma
bravura além do que se poderia
considerar razoável, nada tinha a ver
com heroísmo. Era simplesmente uma
luta desesperada.
O Quartel-General do Corpo de
Exército recebera ordem de capturar as
elevações e o nosso regimento fora
incumbido de expulsar os russos da
Prisão OGPU e mantê-la a todo custo.
Quem tivesse a posse da prisão situada
naquela altura teria também o domínio
de todo o setor da frente. Já estávamos
combatendo por esse objetivo há quase
quatro semanas. Dos dois lados já se
haviam perdido vários batalhões, mas
nenhum soldado alemão pusera o pé lá
dentro. No máximo chegáramos até as
muralhas externas, sendo sempre
repelidos. Parecia que dessa vez
iríamos cumprir a missão. Duas divisões
veteranas haviam sido encarregadas do
ataque. Um batalhão de pioneiros que
ficara adido a nós trouxe com ele
algumas armas estranhas. Coisas
esquisitas como canhões que
disparavam arpões com a finalidade de
lançar cordas de escalada contra os
paredões da prisão. Por meio delas nós
escalaríamos a elevação, que era quase
uma montanha. Depois cairíamos dentro
da própria prisão.
Terríveis rumores circulavam sobre
o que se passava no interior da Prisão
OGPU. Diziam que alguns milhares de
prisioneiros estavam confinados lá
dentro. Nossa artilharia havia
bombardeado a prisão, sem parar,
durante quatro dias, e a dúvida era sobre
se existiam sobreviventes entre os
presos.
Julius Heide, sempre bem
informado, garantia ser uma velha
prisão, existente mesmo antes da
revolução. Agora era usada como
estação de trânsito pela polícia secreta
russa e os prisioneiros eram trazidos
dos distritos militares de Kiev e
Charkov.
Após três dias de sangrento combate
corpo a corpo, tomamos pé na primeira
altura. Semimortos, nós íamos caindo
pelas tabelas Nossos pulmões chegavam
a doer, como se tivessem sido
trespassados por punhais gelados.
Estávamos encharcados de suor,
apesar da friagem ambiente.
O Tenente Braun voltara. Deitara-se
de costas, as pálpebras tremulantes,
morto para o mundo. O Capitão Löwe, o
rosto escurecido pela fumaça, sentara-se
encostado a uma árvore que lhe dava
relativa proteção contra o vento gelado.
O Velho mantinha-se parado, ausente
de tudo, enchendo de fumo o seu velho
cachimbo com incrustações de prata.
Não conseguia acendê-lo. O fumo estava
úmido.
Tiny deitara-se de bruços, ao lado
de Porta. Com o rabo do olho, ele
observava o professor e o ex-oficial.
Como sempre, fumava o seu enorme
charuto.
— Você está de má vontade com
aqueles dois -— disse Porta, com um
meio sorriso. — Que é que eles
fizeram?
— Fizeram? Fizeram? — respondeu
Tiny, asperamente, assoando-se com os
dedos no nariz. — Não fizeram nada.
Precisam fazer alguma coisa. Agora veja
bem: não suporto professores escolares.
Nunca suportei, desde que deixei a
porcaria da escola onde só fazia
apanhar. Eu jurei que sempre que
pegasse a jeito um desses caras, eu
havia de tripudiar em cima dele. Aquela
vara de quadro-negro ali é uma das
piores. Ele se dá o nome de conselheiro
de instrução. Esse é o parasita que
entrou na reserva da companhia
dizendo-se soldado de infantaria quando
na verdade era outra coisa. Por essa
razão eu quis ir à escola de oficiais sem
perda de tempo. Perguntei por ele e o
Sargento Schluckebier, que também não
vai com professores escolares, me deu
todo o serviço. “Escola de Oficiais”,
disse bufando. Eu lhe dou escola de
oficiais!
Quando eu acabar com a raça dele,
não vai sobrar nada!
— Bem, e quanto ao outro, então? —
perguntou Gregor. — Não é professor
escolar e além disso existe muito oficial
bacana. Não há nada errado com o nosso
Hinka, não é verdade?
–— Ele e legal, bastante legal -—
respondeu Tiny — mas esse outro
safado, não. E não é de hoje. O meu
amigo Frick, sargento do Estado-Maior
Divisionário, me disse o bastante sobre
ele. Chamavam-no de “o maluco
assassino de recrutas” no Senegal. O
mais cruel comandante de centro de
instrução de toda a Westphalia e
Renânia. Mas de repente verificaram
que a lista de recrutas mortos era
enorme e aí ordenaram uma
investigação. E quando ele deu por si,
estava na prisão de Germersheim, sem
as insígnias de oficial.
Mas tinha bons pistolões e num
passeio matinal fugiu com doze amigos
bem armados de fuzis, escondendo-se
num matagal. Os pistolões o
acompanharam até o cemitério e de lá o
encaminharam para cá, em vez de lhe
dar uma chance de reabilitação,
provando ser um herói e recebendo de
volta as suas insígnias.
Schluckebier me deu ele como
presente de aniversário. Olhe para ele.
Não tem mais nos olhos o brilho das
suas estrelas. E pura carne para canhão
e nada mais.
Porém uma coisa ele aprendeu.
Aprendeu o que e um primeiro-sargento!
— Mas repare uma coisa —
preveniu o Velho. — Mesmo sendo um
fracassado ele ainda tem seus pistolões.
E rebaixar um merda de um primeiro-
sargento como você não é tarefa tão
difícil assim.
— Não dou um tostão furado pelos
seus pistolões — disse Tiny com ar
superior. — Quando acabar com a raça
dele, aí sim, vai valer a pena.
— Você está é doido! — disse o
Velho, sacudindo a cabeça. Conseguira
finalmente acender o velho cachimbo
incrustado de prata.
— Comigo, comigo! Levantem-se!
Vamos embora! — gritou o Capitão
Löwe. E levantou o braço com o punho
cerrado, indicando movimento rápido
para a frente.
— O Ivan está escondido outra vez
— disse Porta, depois de passada uma
hora sem o menor sinal dos russos.
— Não esquenta a cabeça por causa
deles — disse Gregor.
— O Camarada Ivan é o pior e o
mais esperto canalha na face da terra.
Quando você pensa que ele está
vencido, de repente você tem de sair
procurando a metade de sua cabeça que
ele arrancou com um tiro.
— Homem, não estou gostando disso
— resmungou Albert. — Estas
elevações por aqui podem esconder um
corpo de exército inteiro e a gente está
caminhando exatamente entre elas. Antes
que a gente saiba onde se encontra,
surge um regimento de cossacos
asquerosos jogando-se com cavalo e
tudo em cima da gente. Puxa, cara, esse
lugar fede a gatunagem desses sujeitos
traiçoeiros.
— Ué, não gosta de cavalos? —
perguntou Porta.
— Detesto, homem — gaguejou
Albert, apertando os lábios grossos
como um lobo enfurecido. — Já contei a
vocês que meu pai era tambor dos
hussardos. E ele tinha a mania de pegar
um pedaço de carne fresca sempre que
algum cavalo caía morto. Nós tínhamos
carne de cavalo duas vezes por dia e
então, garotos que éramos, passamos a
ter cheiro de cavalo no corpo, de modo
que quando passávamos pelas baias a
cavalhada toda começava a relinchar.
Cavalos! Puxa, Deus me livre! Se a
gente passa por três deles logo peidam
em nossa cara!
Logo após a meia-noite, durante uma
tempestade de neve que nos cegava
completamente, a companhia atingiu uma
grande propriedade, que o inimigo
parecia ter abandonado
precipitadamente.
Havia equipamentos por toda a
parte. Tiny encontrou duas pesadas
espingardas de caça de três canos. Deu
uma a Porta com uma caixa de munição.
— Em que vocês vão usar esses
troços? — perguntou o Velho, intrigado.
— Você vai ver — respondeu Porta,
rindo. — Em primeiro lugar a gente
acaba logo com eles, de modo que não
ocupam mais lugar, e o tiro é mais
espalhado.
Além disso, quando disparado,
obriga o velho Camarada Ivan a se
aprofundar mais no chão, se não quiser
ser esfacelado.
— Com um só disparo nós podemos
cortar as bolas de todo o Exército
Vermelho! — gracejou Tiny, rindo às
gargalhadas.
— Mas eles são danados para criar
problemas — alertou Gregor, meio do
contra. — Se Ivan apanhar vocês com
esses troços, ele enfia tudo no traseiro
de vocês e lhes arranca o tampo da
cabeça.
— Jesus Cristo de Nazaré! — foi o
grito de Porta que se ouviu, vindo do
porão. — Achamos o principal
esconderijo de suprimentos dos
vermelhos. — Botou a cabeça para fora
de um alçapão. — Podemos fazer
bortsch, meus filhos, a sopa favorita do
Exército Vermelho — disse rindo muito.
— Vem me dar uma mãozinha, moçada.
É o maior caldeirão do mundo, creio.
— Tudo na Rússia é enorme —
filosofou Barcelona. — Vocês sabiam
que os russos compram sempre o
calçado dois pontos mais largo? Isso faz
eles se sentirem mais confiantes em si
próprios.
— Você vai descascando as cebolas
— ordenou Tiny ao professor — e
depois parte em fatias bem fininhas. E
você, seu guarita ambulante —
continuou, dirigindo-se ao ex-oficial —
você cuida da beterraba e do repolho.
Capriche senão, por Cristo, arranco-lhe
us orelhas, juro!
Porta meteu na cabeça um saco de
farinha vazio e amarrou um pano branco
na cintura. E dirigia todo mundo,
parecendo o cozinheiro-chefe do Grande
Hotel de Paris.
— Agora vamos ver — gritou ele
afobadamente, agitando um facão sobre
a cabeça. — Primeiro de tudo,
precisamos de cinco litros de água. Nem
uma gota a mais ou a menos. Julius, você
que é um prussiano perfeccionista, vai
derramando a água. Vejamos, vejamos.
Tem aqui um pedaço de carne.
Precisamos de três quilos e depois
de quilo e meio de carne de porco
magra.
Em seguida cinco cabeças de alho-
porro, uma para cada litro de água, e
quatrocentas gramas de repolho. Mas
vamos botar quinhentas gramas. Não vai
alterar. Um quilo de beterraba, meio
aipo, um punhado de salsa cortadinha.
Tem tudo aí?
— Salsa, não — disse o Velho.
— Será que podemos usar couve em
seu lugar? Tem um bocado aqui —
sugeriu Tiny, botando a cabeça para fora
do porão.
Ele se encarregava voluntariamente
dos suprimentos.
— Podemos experimentar —
concordou Porta. — Talvez o bortsch
fique até melhor. Teremos, pelo amor de
Deus, cinco dentes de alho? Sem isso
nada feito.
— Cá está — disse Tiny, levantando
uma réstia e jogando-a sobre Porta. —
Vai botando tudo. Só pode melhorar. O
peludo David, dos judeus, costumava
dizer que não se devia comer alho em
excesso. Faz o troço da gente esticar que
nem pau de bandeira no aniversário de
Adolf.
— Precisamos de um creme ácido
— disse Porta. — E indispensável.
— Ponha um pouco de vinagre —
sugeriu Gregor. — Deve quebrar o
galho.
— Agora só precisamos de
manteiga, sal e pimenta — gritou Porta,
começando a cantar a canção do leiteiro
embriagado.
— Quanto de pimenta? — perguntou
Tiny lá do porão. — Tem só um saco
aqui.
— Idiota — praguejou Porta. —
Basta uma colher de chá.
— A água está fervendo — disse
Heide, preocupado, dando cinco voltas
em torno do caldeirão, correndo atrás do
professor.
— Vá mexendo — gritou Porta, todo
animado. — As cebolas. O branco do
alho-porro. O repolho. Metade da
beterraba e o aipo em fatias finas.
— Prontinho — falou Tiny. — Meus
dois empregados já fizeram isso. Se não
estiver bom, me diga, que ou corto as
bolas deles.
— Chega, Tiny, você fala demais.
Me põe nervoso — disse Porta. —
Agora vamos cozinhar bem os vegetais
com manteiga sem sal ucraniana. Não
existe manteiga como a de Ivan. Se é
isso que o nosso velho GROFAZ*, o
nosso Adolf Hitler, se disse que ele
andava atrás, como ia dizendo, quando
invadiu a Rússia, então eu estou com ele
em toda a linha. Agora ponham a carne,
e enquanto ela estiver cozinhando,
vamos cantar a Ária do Caçador, da
ópera Jägerbrauten. Tiny e Albert fazem
a parte dos barítonos e Heide e Gregor a
dos sopranos. Tudo pronto?

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* GROFAZ — Grösster Feldherr aller
Zeiten — O Maior Líder Militar de
Todos os Tempos. (N. do T.)

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Porta bateu três vezes com a colher


de pau no caldeirão, murmurando o
início, e do fuliginoso interior da
propriedade, a Ária do Caçador ressoou
por toda a estepe coberta de neve. Porta
batia no peito e o saco de farinha caiu
de sua cabeça. Ele pôs um pé sobre as
costas do professor, que estava
abaixado, polindo a metralhadora por
ordem de Tiny, assumindo a atitude de
grande caçador.
— Der Förster ist tor, Der Wilddieb
lebt! — cantou com voz ressoante.
— Ouçam, ouçam! — exclamou
Tiny, deslumbrado. — Não é uma voz
maravilhosa?
Sentamo-nos em círculo, em volta do
escaldante caldeirão. Porta cantarolava
uma cantiga russa de tempo de colheita,
enquanto sacudia o alho para dentro do
caldeirão.
— Não haverá por aí um patinho
dando sopa? — perguntou Porta a Tiny.
— Vá procurar um pato! — ordenou
Tiny ao ex-oficial, que logo achou um.
— Eu devo dar a vocês uma
explicação — disse Porta. — Uma coisa
que todos devem saber. Há duas
espécies de bortsch: o ordinário,
comum, ou o bortsch de jardim, que os
tártaros e os moscovitas tomam aos
galões, e o bortsch social, preferido dos
poloneses e dos ucranianos. Primeiro
assa-se um pato, depois deixa-se ele
limpinho, sem ossos e nervos, e corta-se
em pedaços pequenos.
Depois, cantando trechos de
Caterina Ismailova, para passar o
tempo, vai-se mergulhando, pedaço por
pedaço, na sopa. Assim, olha, plop,
plop, plop, plop!
E cada vez que o pato faz um plop a
gente pensa numa coisa boa que deseja.
— Como, por exemplo, uma
coisinha de mulher, hem? — sugeriu
Tiny, com um brilho nos olhos.
— Escuta, esse tal de bortsch já não
está bastante cozido? — perguntou o
Velho, impaciente, apertando os lábios
como lobo.
— Para um cozinheiro-chefe —
respondeu Porta muito sério — nada
pior do que convidados impacientes.
Você pode ser o dono desta unidade,
mas fique fora da cozinha. Aqui eu é que
mando, sargento, pela graça de Deus,
Joseph Porta, chefe! Se você não pode
esperar esta incomparável obra-prima
russa ficar pronta, então eu o
aconselharia a dar uma voltinha lá fora e
levar junto com você qualquer outro
também impaciente.
Nossa paciência estava se
esgotando, enquanto Porta continuava
imperturbavelmente a operação de
escumar a sopa. Nossos queixos já
mastigavam automaticamente e os
estômagos roncavam, enquanto ele,
lentamente e com ar de dignidade,
cortava a carne em pedaços e os jogava
dentro do caldeirão. Por fim, derramou
lá dentro, com serenidade, o suco de
beterraba e ao mesmo tempo pediu ao
Deus de todas as Rússias uma bênção
para a sopa. Nós quase tropeçamos uns
nos outros quando nos mandou vir com
nossas marmitas. E, por sua ordem, elas
ficaram alinhadas como soldados em
parada. Tiny quase atirou no professor e
no ex-oficial quando eles quiseram
colocar suas marmitas junto com as
nossas.
— Escravos no fim da fila — rosnou
ele. — No tempo de Jesus, vocês teriam
de comer com os cachorros. Nunca
leram a Bíblia, seus malandros?
Porta começou servindo uma boa
quantidade de manteiga em cada
marmita e, com os modos de um
arcebispo iniciando uma fila de padres
noviços, foi derramando a sopa sobre a
manteiga.
— Afunda bem a concha, meu filho
— disse Tiny, babando e com os olhos
brilhando de fome. — O melhor está
sempre no fundo.
Finalmente Porta serviu a cada um,
um pouco de couve galega e o creme
ácido. Depois de comer três vezes, Tiny
teve pena do professor e do ex-oficial.
— Vocês dois trastes aí, suponho
que devam estar com fome também,
certo?
— perguntou, benevolente. — Então
aproximem-se do Sargento Porta e
levem as marmitas. Se acharem, por
engano, algum pedaço de carne em sua
sopa, venham me contar imediatamente,
entendido?
— Pare de atormentar esses pobres
coitados — respondeu o Velho, irritado.
— Ué! Chama alimentá-los de
atormentá-los? — reagiu Tiny,
admirado. — Que quer que eu faça,
então? Que dê de chicote em seu
traseiro, para não fazerem cocô nas
ceroulas do exército de Adolf?
Durante mais ou menos uma hora não
fizemos outra coisa senão nos
empanturrar de bortsch, quase sem dar
uma palavra. Quando já não podíamos
mais, inclinamo-nos para trás e sentimo-
nos maravilhosamente bem.
— Quando a boa e velha Alemanha
tiver perdido esta guerra — conjecturou
Porta — e estiver em parte recuperada
da derrota, acho que será uma boa ideia
eu abrir um restaurante em Berlim. Acho
que vou comprar as ruínas do
Kempinski. Não vai ser caro, penso eu.
Vou vender de tudo: recheio da Nova
Inglaterra, peru assado ã americana,
frango à romana.
— Não se esqueça do Paulet au
sang, da França, mon ami — ajuntou o
Legionário, acendendo um Caporal.
— Nem em sonhos eu esqueceria
isso — respondeu Porta, sorrindo — do
mesmo modo que não poderia esquecer
a Greek eggplant au gratin e os bolos da
cozinha judia como sobremesa.
— Você quase me faz vomitar —
interveio Julius Heide, furioso. — Como
se atreve a pronunciar essa palavra
infame?
— Melhor seria Lamb à la Tureque,
não acha? — reagiu Porta,
arrogantemente. — Vou providenciar
coisas assim para fregueses da sua
espécie.
— Você devia ter Venezuelan fish
soup no cardápio, penso eu — disse
Gregor, lambendo os lábios rachados
pela friagem.
— E que tal uma Paella Valenciana?
— sugeriu Barcelona, da borda da
janela ao alto.
— Que é que está havendo aqui? —
perguntou da soleira da porta um oficial
de voz chiada.
— Atenção! — gritou o Velho,
levantando-se de um pulo, todo
perturbado, a ponto de deixar cair o
cachimbo incrustado de prata. Com os
lábios apertados, o Tenente-Coronel
Hinka, que tinha um braço só, entrou na
sala de paredes baixas, no qual se sentia
muito intensamente o cheiro do bortsch.
— Que é isto? — perguntou,
olhando interessadamente o caldeirão,
no qual ainda ficara sobrando um pouco
da sopa.
— É a sopa predileta dos russos,
coronel — informou Porta.
— Me dá uma provinha — disse
Hinka rindo.
Porta serviu-lhe uma marmita.
— E o seu ajudante, não vai querer?
— perguntou Porta, olhando para o
tenente, de pé na porta, agitado como
galinha que botou ovo.
— Não faça perguntas tolas, Porta
— disse o oficial, entre duas
colheradas.
Meio sem jeito, o ajudante aceitou
uma marmita, mas não pôde esconder
que não confiava muito na arte culinária
de Porta. Não se admiraria nada se
houvesse um veneno fulminante na sopa.
— Que sopa deliciosa! — exclamou
o Tenente-Coronel Hinka, entregando a
Porta a marmita vazia.
— Esses russos sabem tudo sobre
cozinha — respondeu Porta, conhecedor
do assunto. — Um dia o senhor deve
provar a Selianka, que é a sopa de
salmão deles. É comida das praias do
Mar Negro. Eu vim a conhecê-la quando
fui visitar um amigo meu, Sergei
Smirnov, cozinheiro-chefe do Gato
Cinzento, restaurante tártaro em Atenas.
É Selianka porque faria Joseph Stalin
sair do Kremlin. Eu tenho a receita, quer
uma?
— Não, obrigado, Porta, hoje não —
disse sorrindo o Tenente-Coronel Hinka,
dando um tapinha no ombro de Porta. —
Vamos partir dentro de uma hora. Fique
calmo, Beier — disse, virando-se para o
Velho. — Acho que vamos nos defrontar
com um negócio sujo. Você, Porta, e
você também, Creutzfeldt, nada de se
meter em pilhagem, nada de ficar
farejando coisas para saquear, os dois!
Se eu viera saber de alguma coisa a esse
respeito, meto vocês, em dois tempos,
numa corte marcial, e não terão de
minha parte nenhuma contemplação.
Saque é coisa muito séria.
— Entendido, senhor, perfeitamente
entendido — gaguejou Porta, com
humildade. — Já vimos os avisos
pregados por toda parte. Saque da em
forca. Coronel, com sua licença, nós
sabemos bem até onde levar nossos
dedos sem que eles fiquem empolados.
Nós vimos bem os avisos.
7
Vinte minutos mais tarde, Porta e
Tiny arrombaram uma entrada de porão
e penetraram numa sala usada antes
como gabinete do prefeito. Vasculharam
gavetas e armários, jogando ao chão
tudo o que estava dentro. Não
encontrando nada que interessasse,
passaram para o compartimento vizinho,
onde descobriram uma garrafa de vodca
atirada a uma cesta de papéis.
— Vamos assentar a poeira — disse
Porta, levando a garrafa à boca.
Bebida a última gota, eles
prosseguiram rindo e brincando e
correndo todos os gelados
compartimentos, um a um. Acabaram no
quarto de dormir, no qual se destacava
uma antiga cama de dossel de dimensões
fora do comum.
Tiny farejou o ambiente como um
cão que sentiu a presença da raposa.
Partindo do lado dos pés, ele entrou
por baixo do pesado edredom de estilo
rústico campesino.
— Olha aqui! Cheiro de mulher! De
mulher! — gritou por debaixo da roupa
de cama. Sua cabeça apareceu
rapidamente no extremo da cama. — De
mulher! — repetiu e desapareceu
novamente sob a coberta como um
furacão dentro de uma toca de coelho.
Porta ficou furioso e enfiou a cabeça
embaixo das cobertas para ver o que
Tiny estava fazendo. Não o vendo,
começou a arrastar-se pela cama,
grunhindo como ouriço numa noite
quente de verão.
Tiny não percebeu de imediato que
era Porta vindo de rastro ali dentro e
então houve um rápido mas violento
entrechoque de que resultou ficar o
edredom rasgado inteiramente. As penas
voaram pelo ar.
Ficaram de pé nas extremidades da
cama, olhando em volta como
apalermados. Pareciam gaivotas numa
tempestade de neve com aquelas penas
acumuladas sobre eles. Numa cômoda
Tiny encontrou uma calça vermelha de
mulher, das que se usavam antigamente.
com pernas compridas, babados e
botões em toda a extensão da frente até
atrás.
— Nossa Mãe! Que traseiro essa
calça deve ter tido dentro dela! —
comentou Porta, lambendo os lábios. —
Nem mesmo um cavalo belga de tração a
encheria toda.
— Deus que me perdoe — disse
Tiny — mas se a gente pegasse esse
traseiro aqui, com todos os acessórios,
teríamos talvez um pequeno e lindo
torneio triangular!
— Ah! mulher! — suspirou Porta,
sonhador, enfiando a cabeça na calça
vermelha. E miava feito gato em
aventuras noturnas.
— Me da esse troço — pediu Tiny.
Vestiu a calça vermelha sobre o
uniforme. Porta passou para ele um
enorme sutiã. A máscara de gás estava
atrapalhando e ele a atirou janela afora.
— Antes da próxima guerra,
ninguém vai usar armas químicas —
disse, conclusivamente.
O sutiã foi cheio com dois panos de
chão. Parecia dois cumes de elevações.
A descoberta de um par de
espartilhos antigos quase provocou uma
briga. Porta acabou ficando com ele.
Os dois foram olhar-se a um espelho
muito alto. O espartilho era bem bonito,
todo bordado com rosas e borboletas.
— Por que borboletas? — perguntou
Tiny, curioso.
— Muito natural — respondeu
Porta. — Elas saem voando e vão
buscar as pirocas.
Num armário encontraram um grande
chapéu preto enfeitado com cerejas.
Porta tomou posse dele.
— Que tal o rebolado? —
perguntou, mexendo os quadris numa
volta pelo quarto, imitando o andar de
uma prostituta.
Depois se aproximou da janela
aberta, jogando beijinhos para um grupo
de motociclistas, que os olhavam
interessadamente como se estivessem
assistindo uma espécie de acontecimento
milagroso, e falou com voz melíflua: —
Querem que eu tire isto? Só dez libras.
— Um beliscão no traseiro por
metade disso — rosnou Tiny, rudemente,
dando tapinhas nas próprias nádegas.
— Venham já, seus bobos —
convidou Porta, agitando as cerejas do
chapéu.
— Comprem as entradas na porta.
Dez libras por um tipo alemão comum, o
dobro por um francês de luxo. Vejam o
traseiro de Sofia. Somente dois marcos
cada vez.
Tiny subiu até a janela e sacudiu os
quadris. A calça vermelha agitava-se ao
vento. Porta fez com a mão um
movimento como que cortando tudo e
deu uma cusparada na neve.
— Nada bem, minha querida —
disse para Tiny. — É uma verdade o que
dizem no Crocodilo. Os alemães são
exatamente como o Führer: seus troços
encolheram tanto na friagem que não
valem mais nada. E fecharam a janela
com estrépito.
Tiny desequilibrou-se e foi cair
sobre uma cadeira de balanço que virou
sobre si, atirando-o, como num voo,
através de uma porta, toda coberta pelo
papel da parede e no mesmo nível dela,
de modo que não poderia ser percebida.
Ele foi acabar num pequeno
aposento e olhou em tomo, inteiramente
confuso.
— Para onde você foi? — perguntou
Porta, invadindo, com chapéu de cereja
e tudo, o pequeno cômodo.
Tiny não respondeu, mas apontou em
silêncio para um grande e antigo cofre,
decorado com uma estrela vermelha e o
martelo e a foice. A figura do cofre
curou instantaneamente a bebedeira de
Porta. Ele correu toda a superfície
metálica com dedos amorosos e
delicados.
— Eu sempre desejei encontrar
alguém como você — confidenciou ele
ao cofre.
— Cuidado! — disse Tiny,
duvidoso. — o safado do Ivan pode ter
preparado uma pequena surpresa para
sujeitos curiosos, como nós dois.
— Você tem bosta entre as orelhas
— respondeu Porta, com arrogância.
Passou a examinar detidamente o
cofre, milímetro por milímetro.
Tentaram arrastá-lo da parede, nada
conseguindo. Aplicaram barras de ferro
como alavancas e não o moveram do
lugar. Porta cuspiu na estrela vermelha e
deu uma banana para o cofre.
— Você não perde por esperar, seu
porcaria insensível e quadrado —
ameaçou Tiny. — Vamos mostrar-lhe
com quantos paus se faz uma canoa. Não
pense que fizemos todo esse imenso
percurso até a Rússia para no fim você
se rir de nós.
— Diabo! — disse Porta, pensativo,
olhando para a pesada caixa com olhar
avaliador. — Nós temos de arranjar um
meio de afastá-lo da parede.
— Mas por quê? — perguntou Tiny,
sem compreender. — A porta esta para a
frente, correto? Quando se quer entrar
numa casa usa-se a porta, não e
verdade?
Não se derruba a parede de trás para
entrar.
— Cala a boca! — resmungou Porta,
irritado. — Com cofre é diferente. A
porta é para quem tem o segredo. Quanto
mais se tenta, mais se dificulta a
abertura. Tem-se de usar a parte de trás.
Que bom se eu dispusesse de um
maçarico de oxigênio. Num instante ele
cuidaria desse monte de ferro velho.
— E que tal o lança-chamas? —
sugeriu Tiny alegremente, já estava
saindo a fim de buscar o lança-chamas.
— Ora, esqueça isso, gênio —
reagiu Porta, matando a ideia ao nascer.
— O cofre ficaria derretido e tudo
dentro dele queimado. Não estamos
coletando ferro velho e, mais do que
isso, não vamos sair desta guerra pobres
como quando entramos.
— A propósito de abrir cofres pela
parte de trás há uma história interessante
— disse Tiny, coçando-se entre as
pernas com a baioneta. — Lembra-se
daquele judeu safado que morava na
Hein Hoyer Strasse e tinha um colega
que fingia não ser judeu e trabalhava
como serralheiro na Bernhard Nocht
Strasse? Esse cara tinha o hábito de
lidar com cofres, de preferência à noite
ou em fins de semana. Todos os cofres
ele costumava abrir pela parte de trás e
isso foi a sua perdição. O terrível
Comissário Nass e seus homens de
chapéus de abas abaixadas, do Posto
Policial de David, o agarraram
finalmente. Toda a vez que aparecia um
cofre aberto pela retaguarda, o velho
Nass sabia que era obra do nosso
serralheiro. O resto você pode
adivinhar. Um dia, de manhã cedinho,
antes do leiteiro deixar na soleira da
porta a meia caneca de leite, o velho
Nass, com outros policiais, entrou
rachando e acordou o serralheiro, que
sonhava calmamente com cofres
abarrotados de dinheiro. Só daqui a uns
vinte anos é que ele vai tomar a ver o
lado de fora da prisão de Fuhlsbüttel.
— Mas uma vez que este é o nosso
primeiro encontro com um cofre
soviético, ninguém vai desconfiar que
foram dois alemães que trataram deste
aqui — respondeu Porta, completamente
despreocupado e começando a mexer na
combinação da fechadura.
— Lembra um rádio — disse Tiny.
— Com uma diferença — replicou
Porta, sorrindo complacentemente. —
No rádio a gente paga para torcer os
botões. Aqui a gente espera ser pago se
achar a estação certa.
— A propósito, você já
experimentou abri-lo sem mexer nos
botões — perguntou Tiny, com senso
pratico. — Eu me lembro uma vez que o
peludo judeu David e eu estávamos
querendo espiar o armazém de um
competidor e levávamos conosco um
especialista em abrir fechaduras. Depois
de uma hora de trabalho, descobrimos
que a porta não estava fechada. O
especialista ficou tão encabulado que foi
se entregar preso a um dos bobalhões de
Nass.
— Você está coberto de razão —
disse Porta, abrindo o cofre sem
dificuldade.
Tiny riu tão alto que o som da
gargalhada ressoou em todo o
compartimento e continuou ecoando pela
casa inteira, isso porque ao olhar por
cima do ombro de Porta ele viu pilhas e
mais pilhas de notas.
— Milhões! — balbuciou Porta, em
êxtase. — Milhões! Nunca havia posto
os olhos em tanto dinheiro. Louvado
seja Deus! — exclamou, com os olhos
voltados enlevadamente para os céus. —
Vou dar uma espiada no seu templo na
primeira oportunidade. E se topar com
um ateu neste país, vou lhe dar alguma
coisa que o faça realmente pensar.
— E existe um bocado deles, mais
do que se possa imaginar — disse Tiny,
lavando as mãos como um velho judeu
que tivesse conseguido enganar um
antissemita.
— Muito breve vai haver dois novos
Rockefellers adornando o firmamento
econômico — previu Porta,
satisfeitíssimo da vida.
— Quem serão? — perguntou
ingenuamente Tiny.
— Olhe-se ao espelho — respondeu
Porta. — Verá um deles.
— Meus Deus do céu, eu nem posso
acreditar — disse Tiny, colando-se ao
espelho para se ver melhor.
— Agora o que temos de fazer é
manter a cabeça fria — falou Porta,
correndo as mãos ternamente sobre as
pilhas de dinheiro.
— Neste inverno russo não se pode
fazer outra coisa — redarguiu Tiny,
despreocupadamente.
— Deste momento em diante —
continuou Porta, com enérgica expressão
no rosto — estaremos muito ricos para
tomarmos qualquer espécie de interesse
na guerra mundial do Adolf. Desça ao
porão e traga dois sacos bem grandes.
Vamos cair fora, meu chapa.
— Sem dizer adeus aos outros? —
perguntou Tiny, impenetrável.
— Não os conhecemos mais —
respondeu Porta. — Se eles farejarem o
que descobrimos, não seremos ricos por
muito tempo. Julius vai achar que é
propriedade da Coroa e arranjar que
seja confiscado. É como eu já disse:
mantenha a cabeça fria como gelo. O
passado morreu. Vá ao porão e traga os
dois sacos. Bem grandes, ouviu?
— Vou cagar nas calças do exército
do Adolf antes de jogá-las fora e voltar
aos trajes civis — afirmou Tiny, e saiu
assoviando, rumo ao porão.
— Achou alguma coisa? —
perguntou Gregor, que chegou, passando
pela janela, com Albert e os seus
branquíssimos dentes Porta fechou
rapidamente o cofre e correu a esconder
das vistas deles a entrada que dava
acesso ao pequeno compartimento.
— Achar o quê? — respondeu ao
acaso, fazendo como raposa que se
encarregou de tomar conta das galinhas.
Albert quase morria de rir à vista do
espartilho de Porta, cheio de rosas e
borboletas.
— Que é isso? A nova arma secreta
de Adolf? — perguntou Gregor, entre
explosões de riso.
Albert correu os lábios ao dar com
os olhos num grande retrato de Stalin
pendurado sobre uma secretária,
encarando-o com uma expressão de
ruindade.
— Como vão as coisas, camarada?
— rosnou ele para o retrato, dando-lhe
uma bruta banana, como se com isso
conseguisse aplacar o duríssimo olhar
do georgiano.
Tiny voltou do porão com dois
enormes sacos vazios debaixo do braço.
— Fora daqui, seus merdas —
gritou, agitando os sacos corno se
estivesse espantando galinhas. — Não
sabem que é proibido invadir
propriedade privada?
— Para que você quer sacos? —
perguntou Gregor, intrigado, procurando
sentir a textura da juta.
— Recebemos ordem de tapar as
janelas — respondeu Porta,
imediatamente, antes que Tiny pudesse
dar uma resposta comprometedora.
— Que que você pensa que eu sou?
Burro ou o quê? — reclamou Gregor. —
Vocês acharam alguma coisa, está na
cara. Não me venham com embromação.
Sou macaco velho. Farejo longe.
— Se você não parar de falar, nem
der o fora daqui, bonitinho e levando
esse fantasma negro e deixando a gente
tratar do nosso blecaute, eu juro que
acabo com você — rosnou Tiny, furioso,
e já exercitando os braços.
— Vocês estão escondendo alguma
coisa — disse Albert, agitado, dando
pulos no sofá. Deu uma cambalhota e
terminou equilibrado sobre as mãos e
assim permaneceu, espiando fixamente
embaixo do sofá.
— Você está brincando com fogo,
seu africano puxa-saco — trovejou
Porta, chutando um travesseiro, que foi
bater no lampião.
— Pura verdade, rapaz, pura
verdade! — exclamou Albert, rindo e
apanhando uma grande lata de óleo
debaixo do sofá.
— Certamente vai untar seus troços,
rolar até a África e se deitar numa cama
de pregos, não é? — perguntou Tiny,
exasperado e mandando um pontapé em
Albert, sem acertar.
— E por que não? — respondeu
Albert, rindo e tomando um gole da lata
de óleo.
Tiny esticou o pescoço para a frente
como cegonha querendo pegar um sapo e
cheirou a lata de óleo.
— Feliz Natal para todos! Genebra
da boa! — gritou ele, tirando a lata das
mãos de Albert.
— Deixa eu provar — pediu Porta,
segurando a lata.
— Alarme! Alarme! — ouviu-se
alguém gritar do lado de fora da casa.
Uma metralhadora abriu fogo,
morteiros pipocaram na noite.
Um 1º sargento de blindados subiu
numa cadeira e apossou-se do retrato de
Stalin.
— O Tio Joe será um belo souvenir!
Vai ficar formidável em cima do sofá da
família em Colônia, quando terminar a
guerra.
— Não toque nele! — gritou Gregor,
aterrorizado e colando-se ao chão.
De um salto Albert colocou-se atrás
do sofá, como um .gato preto
protegendo-se de um alsaciano. Porta
protegeu-se atrás de uma cadeira de
braços estofada, ao lado de Tiny, que
escondia a cabeça como cegonha. O
chapéu com as cerejas agitava-se no ar
como um pássaro ferido.
Numa fração de segundo Gregor
pudera perceber o finíssimo fio preto
que descia do retrato e se metia por um
buraco no papel da parede.
A explosão destruiu toda a casa.
Uma coluna de fogo subiu ao ar. Todo o
telhado parecia oscilar no alto do
fogaréu. Era como o fim do mundo. As
explosões se sucediam em toda a
extensão da rua. As casas se desfaziam
como se fossem de papelão. Os céus
escuros eram iluminados por clarões de
cegar. E ficava tudo claro como o dia. O
sopro criou verdadeiros furacões ao
longo da rua, com a violência do
tornado, varrendo tudo em sua
passagem. Um carro saiu rolando,
rolando, como se fosse de brinquedo.
Através do restante da parede surgiu o
sofá, com Albert a ele agarrado e aos
berros, lutando para sobreviver. Foi
bater contra a parede de uma casa no
outro lado da rua, produzindo um
desagradável barulho de madeira
partida.
Albert gritava como um leitão em
caminho da faca. De pernas para o ar, lá
se foi ele por um estreito caminho
abaixo, braços e pernas agitando-se
violentamente. Esse arriscado voo o
levou exatamente a um lago gelado, no
qual Gregor já havia aterrissado.
— Meu Deus! Como se não bastasse
ainda vou bater com os costados perto
de um urso pardo!
Por toda a parte homens feridos ou
moribundos gritavam por socorro.
Colunas de fogo lançavam uma
coloração vermelha sobre a neve suja e
solvente. Era como a erupção vulcânica,
que parece estender-se eternamente.
De repente tudo parou. Os que ainda
viviam lutavam para ficar de pé.
Achavam-se em estado de choque e
completamente surdos. Doíam-lhe os
ouvidos. Era como se uma agulha
incandescente estivesse sendo
introduzida neles.
Durante alguns minutos éramos
incapazes de compreender o que se
passava à nossa volta. Encontrávamo-
nos em estado de absoluta insanidade.
Por toda parte viam-se sangrentos
pedaços de carne e lascas de osso. Até
mesmo as árvores que se alinhavam à
beira da rua da aldeia, em ambos os
lados, haviam desaparecido sem deixar
vestígios, arrancadas pelas raízes.
Alemães e russos, civis e militares,
corriam de um lado para outro, em
círculo. O pânico era geral.
Um sargento russo, de uniforme
rasgado e sujo, esgotou a munição da
sua Kalashnikov dando tiros para o ar,
jogou fora a metralhadora e começou a
gritar; — Vão embora para casa, vão
comer sua mãe!
Ele quebrou o pescoço de um 3º
sargento que lhe dera um pontapé,
aplicando-lhe um terrível golpe com a
mão em cutelo. Uma motocicleta com
sidecar, levando metralhadoras e
respectiva munição, estava toda torcida
em torno dos restos de uma chaminé. O
que restara de um ser humano estava
caído, rubro de sangue, para fora do
sidecar.
Albert caminhou a esmo. Arrastava-
se em círculos, uivando como cão
danado. Só voltou ao normal quando
Porta lhe entregou o seu capacete de
aço.
Toda a parte protetora do pescoço
havia sido arrancada. Durante um
momento Albert fitou o capacete, sem
entender. Então correu a mão pela
cabeça como se quisesse certificar-se de
que ela ainda estava no lugar, olhou para
o céu triste e escuro e agradeceu a Deus
e a todos os santos, conhecidos ou não.
Alguns dos santos ele inventou no
momento. Depois pegou o capacete e
saiu mostrando-o a todo mundo como
prova de que Deus lhe estava dando uma
proteção especial.
— Isso é porque nós negros não
temos nada a ver com esta guerra —
disse. — É uma guerra para brancos e
amarelos.
— Que confusão! E tudo por causa
de um retrato — suspirou Porta, olhando
desoladamente para as ruínas da
prefeitura, O Tenente-Coronel Hinka
levou Porta para um lado quando viu o
espartilho colorido. Porta até se
esquecera de que estava com ele.
— Onde você arranjou isso? —
perguntou com severidade.
— Achei, senhor — respondeu
Porta, aliás, dizendo a verdade.
— Onde? Vamos lá, diga a verdade
— falou Hinka, com os olhos fixos nele.
— Em que casa?
Porta embromou, embromou,
tentando sair da enrascada com uma das
suas habituais histórias. Algo assim
como uma barbearia de Düsseldorf, cujo
dono usava sempre espartilho.
— Para o diabo com os seus amigos
barbeiros — berrou Hinka,
interrompendo-o bruscamente. — Não
me ponha uma venda nos olhos, Porta.
Eu estava certo de que você já havia
aprendido isso. Que foi que aconteceu
naquela casa para dar início à explosão?
— Está bem, senhor. Estou vendo o
que o senhor deseja saber — respondeu
Porta com um sorriso de falsidade. —
Foi um desses caras motociclistas que
estava louco por um retrato de Stalin e
quis levá-lo consigo. Aliás um belo
retrato, senhor. Nós o avisamos, senhor,
quer dizer o motociclista, não o Stalin,
senhor! — continuou Porta, apontando
com o braço na direção da aldeia
demolida. — Havia qualquer coisa
suspeita sobre aquele retrato. O senhor
mesmo pode verificar.
— Você seria capaz de reconhecer
esse tal motociclista? — perguntou
Hinka, desconfiado.
— Ele se foi, senhor, totalmente,
tenho certeza. Podem até ser dele os
restos humanos que estão naquela
chaminé de fábrica lá longe. O Deus
alemão é rápido para punir
desobediência, não é verdade, senhor?
— ajuntou ele, pensativo.
— Você o viu morto? — perguntou
Hinka, com veemência. — Se ainda
estiver vivo, quero que ele saiba como
eu puno a desobediência.
— E ele mereceria o castigo, senhor
— disse Porta, com um suspiro
profundo. — Todos nós poderíamos ter
sido esfacelados, exatamente porque um
pau-d'água não podia deixar de fazer sua
pilhagem.
— Tenha cuidado, Porta, para não
começar a criar asinhas de anjo. Eu
pergunto a você: viu ele morto?
— Infelizmente, não, senhor. A casa
me caiu em cima.
— Quem mais havia lá dentro com
você?
— Ninguém, senhor. Eu estava
absolutamente só. Além do saqueador,
claro.
— E aí você jogou a calça e o sutiã
pela janela para o Sargento Creutzfeldt,
não é? — disse o Tenente-Coronel
Hinka, apontando para Tiny, que
permanecia parado, ainda em estado de
choque consequente à explosão.
— Venha cá, Creutzfeldt — gritou
Hinka, zangado.
Tiny não atendeu. Ainda estava
completamente surdo.
— Acho que ficou absolutamente
surdo, senhor — explicou Porta, por
prudência. — Com sua licença, senhor,
quero explicar que a princípio eu não
ouvia nada, mas logo que assentei a
cabeça já pude ouvir novamente, e agora
estou ouvindo normalmente, graças ao
bom Deus. Estou ouvindo tudo que o
Tenente-Coronel Hinka está me dizendo,
senhor.
— Tire esse espartilho — ordenou
Hinka, energicamente. — E fique
avisado, Porta. Minha paciência tem
limite. Se começar com abusos eu lhe
arranjo uma cela, seja onde for.
— Sim, senhor. Há sempre uma cela
vaga em Germersheim, suponho — disse
Porta, tentando mostrar-se tranquilo.
— Algum dia vou fuzilá-lo —
ameaçou Hinka, fazendo meia-volta.
— Vamos sair dentro de uma hora —
disse o Velho. Vinha de uma reunião de
comandantes de seção com o oficial
comandante. — Que diabo vocês estão
usando? — perguntou ele, acremente,
quanto notou Porta e Tiny com espartilho
e calça de mulher. — Não quero ver
dois bobalhões dando uma impressão
dessas. Que que os russos vão pensar?
— Vão se esquecer de atirar em nós
— respondeu Porta — o que pode ser
uma boa coisa. Pense bem nisso. Uma
muralha de fogo lambia o espaço à
distância.
Enorme nuvem negra de fumaça
podia ser vista contra as chamas E uma
pesada chuva de cinzas caiu sobre nós,
trazida por ardentes redemoinhos de
vento. O chão tremia como um animal
nos estertores da morte.
Tiny apareceu no meio da espessa
chuva de cinzas, alto e forte, uma vivida
máquina de músculos e nervos. Seu
grosso charuto projetava-se para fora da
face gordurosa e suja, como mastro
inclinado na proa dos navios. Ainda
vestia as arcaicas calças vermelhas e
não parava de judiar com o professor e
o ex-oficial, que vinham bufando atrás
dele, com o lança-chamas e as caixas de
munição. O ar se enchia de ruídos
estranhos e irritantes. O silvo de urna
granada de morteiro fez com que o ex-
oficial procurasse abrigo.
— Vá para o diabo, sujeito bobo —
rosnou Tiny. — Já não lhe disse, seu
merda, que não se abrigasse sem ordem?
O ruído estranho voltou novamente,
Tiny olhou para o alto
interrogativamente e seguiu com os
olhos a trajetória da granada. Ela foi
cair ao chão com um barulho atordoante,
espalhando neve para todos os lados.
Um estilhaço fez um furo num dos cantis
de Tiny, que ficou com as pernas
molhadas de vodca.
— Ah, seus russos sujos e bárbaros!
— berrou ele com raiva, apontando a
espingarda de caça para as elevações.
— Que espécie de mágica é essa? Que
que isso tem a ver com a guerra?
— Abrigue-se, homem! — gritou o
Tenente Braun, nervosamente. — Pode
morrer por culpa exclusivamente sua.
— Nada vai acontecer comigo,
senhor — assegurou Tiny, com a sua
profunda voz de baixo. — Não vou
deixar que me matem antes de conhecer
Nova York e Londres e fazer uma
viagem à África na companhia de Albert
e dar uma borrada numa cama de faquir
com prego e tudo.
— Número Dois, assuma o
comando! — ordenou uma voz vinda da
frente. A ordem foi sendo passada de
boca em boca por toda a companhia.
Lentamente fomos nos levantando. O
Velho caminhava na neve com as pernas
nela metidas até os joelhos. Levava a
metralhadora portátil presa a uma alça
sobre o ombro.
— Vamos reagir, moçada! Todos de
pé! — gritou ele, impacientemente. —
Levante-se, Tiny! Tome o flanco direito
e que o próprio diabo o ajude se você
penetrar numa cabana ou começar a tirar
os dentes de ouro dos corpos. Está me
ouvindo?
— Está falando tão alto que pode
acordar os mortos em todos os
cemitérios de Hamburgo. Eu não me
surpreenderia se todos os corpos
estivessem agora em posição de sentido,
tremendo nos ossos.
Dito isso, num resmungo de mau
humor, Tiny levantou-se
preguiçosamente, em atitude de
provocação.
— Está aborrecido? — perguntou
Porta. — Parece que apanhou pra valer
de comunistas piolhentos.
— É um cara sem bolas que me
irrita — disse Tiny, com ar sombrio. —
Um porcaria sem cérebro, que só vê
recrutas em sua frente, quer dizer, que só
pensa em chatear todo mundo.
— Não vou mais aceitar os seus
insultos — gaguejou o ex-oficial,
tentando dar à voz um tom de agudeza e
comando, como fazia quando à frente de
um regimento. Sem resultado.
— Pior para você, seu pássaro
depenado — disse Tiny, rindo
sarcasticamente, batendo no ex-oficial
com as costas da mão. — Porque você
vai ter de aceitar, morou? Pôs isso em
seu sórdido crânio? Ou gostaria de uma
linda corridinha para se animar um
pouco? Entenda uma vez para sempre:
você acabou, é estrela cadente, você é o
rebotalho do maldito Exército alemão.
Isso o que você é. E eu? Eu sou um
primeiro-sargento, a espinha dorsal do
Exército! Na parte de cima, claro.
— Será. que eles querem mesmo que
a gente suba até aquela desgraçada
prisão? — perguntou Porta, apertando as
tiras do espartilho vermelho, que ia
caindo pelas pernas.
— Queiram ou não, é para lá que
temos de ir — respondeu o Velho,
secamente, lançando na neve uma
enorme cusparada de suco de tabaco.
— Esta desgraçada guerra mundial
virou tudo de pernas para o ar —
resmungou Porta, desanimado e filando
um cigarro do Legionário. — Quando é
que você vai parar de fumar essa merda
preta francesa que está acabando com os
seus pulmões?
— Pas question, mon ami! Esse
cigarro tem no mínimo a vantagem de
ser quase exclusivamente para mim —
respondeu o Legionário. — E essa sua
porcaria de cor pálida é só para
mocinhas ainda não crismadas.
— Estou ficando doido bastante para
quebrar castanhas do Brasil com as
nádegas e cuspir os caroços com tanta
força quanto os morteiros cospem as
granadas — respondeu Porta,
enraivecido. Ele ficou olhando
fixamente para a prisão OGPU, com as
suas muralhas iluminadas pelas
selváticas chamas dançantes que
lambiam a floresta de coníferas.
— E aqui estamos, subindo e
descendo colinas, deslizando sobre
lagos congelados até que nossa bunda
fique em carne viva, forçando a
passagem através de gélidas florestas
como se fôssemos uma espécie de frias
escavadeiras, e tudo isso para chegamos
àquela miserável prisão comunista.
Estou habituado a ser conduzido à
prisão mas sentado sobre minha própria
bunda! Se isto não é um caso de Direitos
Humanos, que deveria ser levado a uma
corte internacional como assunto de
urgência, então eu sou tão estúpido
quanto um pato manco holandês.
— Devia ser proibido botar gente
normal metida nesta merda toda, só
porque uns poucos moralistas não sabem
como evitar o começo de uma guerra
mundial — vociferou Gregor, irado.
Um trenó motorizado chegou a toda
velocidade, levantando uma nuvem de
neve. Um major do Estado-Maior Geral
perguntou histericamente pelo oficial
comandante. O Velho apontou na direção
do Capitão Löwe, sentado sobre um
tambor, afagando a orelha de um gato.
— Conhece a posição de sentido,
homem? — rosnou, enraivecido, o
oficial do Estado-Maior.
O Velho juntou vagarosamente os
calcanhares e tocou com a mão o
capacete, num arremedo de continência.
— Capitão Löwe, oficial
comandante da Quinta Companhia do
Vigésimo Sétimo Regimento Blindado,
apresentando-se, senhor! — disse Löwe
com voz alta e enfadonha.
— Por que razão você está aqui
calmamente sentado e farejando o ar? —
gritou o major, que trazia as cores
vermelho-sangue do Estado-Maior. —
Não recebeu ordem de atacar? Não
pare, nem por um momento! Atacar,
homem!
O eco do “Atacar”! se fez ouvir,
como que zombeteiramente.
— Senhor major — respondeu
Löwe, fazendo corretamente a
continência, mas no íntimo desejando
que o superior fosse para os quintos do
inferno.
Cambaleando como embriagados,
investimos através da densa floresta de
coníferas, em completa escuridão.
Passamos sobre galhos ressequidos pela
friagem. Nossos rostos estavam
arranhados e cortados.
Subitamente uma metralhadora russa
começou a atirar por trás de uns
arbustos. Como um raio, Porta lançou
uma granada de mão e mandou uma
chuva de balas. Um soldado russo foi
atirado ao ar, o comprido capote
flutuando como asas. A metralhadora
tornou a metralhar.
— Raio do inferno — berrou Tiny,
dirigindo o lança-chamas para os
arbustos.
Uma rubra e estrepitosa língua de
fogo lançou-se pela neve. Algumas
árvores começaram a pegar fogo. A
metralhadora silenciou. Os russos
estavam amontoados, e os corpos, ainda
fumegantes, iam se carbonizando
lentamente, como carne deixada ficar
muito tempo no forno.
— Felizmente a gente nunca sabe o
que está para vir, até ser atingido —
suspirou Barcelona, olhando um russo
cujo cabelo pegava fogo. — Este era um
soldado inimigo. Se não fosse, eles não
deixavam ele usar cabelo comprido.
— Vamos, vamos — ordenou o
Velho, passando rápido por nós.
Notamos um grupo de russos
tentando fugir. Um deles tropeçou numa
árvore caída e deslizou algum tempo
sobre um riacho congelado.
— Vamos pegá-los! — gritou Heide,
alegremente, levantando a metralhadora
que trazia atravessada no ombro. O seu
próprio corpo tremeu quando ele
mandou uma longa e entrecortada
saraivada atrás do grupo fugitivo.
Três deles caíram mortos, com tiros
nas costas que saíram no peito,
esfacelando-o. Usávamos um novo tipo
de bala. Era um projétil terrível, que na
entrada deixava apenas um pequeno furo
mas, quando saía arrombava tudo.
Alguns feridos estavam caídos na
neve, gritando de dar pena.
Tiny matou alguns sobreviventes
com a espingarda de caça. À curta
distância era uma arma terrível. Um
velho segundo-tenente com uniforme da
milícia estava parado na frente de uma
árvore, com as mãos atrás do pescoço.
Fitava-nos com os olhos arregalados
e temerosos, enquanto caminhávamos
lentamente em sua direção.
— Um comissário — disse Heide
com um sorriso satânico.
— Não é um comunista sanguinário
— interveio Barcelona.
— Não passa de um pobre coitado.
Um velho feixe de ossos num antiquado
uniforme. Deixe o pobre-diabo ir
embora para junto dos netos.
— Você está maluco? — protestou
violentamente Heide. — Esse porco é
um oficial soviético, e oficial soviético
a gente mata. Por ordem do Führer! —
levantou a metralhadora e acertou o
segundo-tenente no peito e na cabeça,
que ficou esfacelada. Descarregou ainda
algumas balas no estômago, como tiros
de misericórdia.
— E assim que se faz — disse
orgulhosamente, recolocando a arma no
ombro.
Um soldado de infantaria, também
ferido, procurou levantar-se, apoiando-
se num joelho. Pedia desesperadamente:
Não me mate, não me mate, camarada
alemão!
Mas o “camarada alemão”,
representado pela pessoa do Legionário,
meteu-lhe a baioneta pelas costas. A
ponta foi aparecer na frente do corpo do
russo.
Sem se alterar, o Legionário
recolheu novamente a baioneta,
puxando-a para fora. O russo caiu para à
frente, ficando na atitude de um
muçulmano em oração.
Um subtenente russo levou o braço
atrás a fim de atirar uma granada.
Albert amassou-lhe o rosto com uma
coronhada. Os demais foram mortos a
distância, à medida que iam surgindo.
Nós não podíamos aproximar-nos
enquanto não tivéssemos certeza de
estarem realmente mortos. Antes de nos
inclinarmos sobre eles, nós lhes
enfiávamos a baioneta. Estavam todos
com os bolsos cheios de machorka e em
seus cantis havia vodca, porém de má
qualidade, vodca de pracinha. Por
experiência própria, sabíamos que ela
nos daria uma tremenda dor de cabeça, e
então, muito cortesmente, a doamos aos
recrutas. Porta faria a distribuição, onde
conviesse. Depois examinamos todos os
livros de notas com grande interesse.
Pegamos os retratos de suas garotas e
jogamos fora o resto. Os poucos rublos
que traziam não nos interessavam.
Tiny ficou deveras impressionado
com uma fotografia que encontrou na
carteira do subtenente que teve o rosto
esmagado pela coronhada de Albert.
— Divina Ema, que lindo rosto! —
balbuciou ele, limpando cuidadosamente
uma mancha de sangue na fotografia. —
Quando se vê uma rosa russa como esta
— continuou, piscando maliciosamente
para o retrato — a gente se convence de
que o nosso Criador devia estar mal-
humorado no dia em que fez o modelo-
padrão da alemã, com o cabelo
embolado num coque e até mesmo o
cabelo da boceta enrolado em horríveis
tranças.
— Puxa! — gritou Porta, admirado e
olhando sobre o ombro de Tiny. — Quer
trocar? Três meus por ela? Olha que
cabeça! Nossa Senhora!
— Cai fora, ela é minha —
vociferou Tiny. — O morto botou o
endereço no verso. Quando a guerra do
Adolf terminar, vou fazer a viagem de
volta trazendo ela para a velha
Hamburgo, ora se vou.
— Você deve ter merda na cabeça
— disse Porta, rindo ironicamente. —
Quando a moça descobrir que você
acabou com o seu namorado comuna,
não vai te dar a menor bola.
— Eu sei que você me acha um tanto
maluco — disse Tiny acremente. — Mas
maluco a ponto de contar a ela que eu e
que acabei com a raça do cara, isso é
que não sou. Não, não e não. Eu vou
dizer à minha queridinha como foi que
com risco da própria vida carreguei o
seu amigo ferido em minhas costas uns
vinte quilômetros para entregá-lo aos
cuidados de bons médicos alemães. Será
uma história maravilhosa, linda, linda,
tal qual a gente costuma ver no cinema.
O fato de que o seu pobre herói e amante
morreu, isso eu vou deixar por conta das
causas naturais.
— Ela nem vai tomar conhecimento
de sua existência — afirmou Porta,
balançando a cabeça tristemente. — O
mapa do mundo será bem diferente
quando Adolf perder a guerra e o nosso
exército for desarmado Não será nada
agradável ser alemão: Não tenha
dúvida. Todos os que gostariam de nos
dar um pontapé no traseiro darão
mesmo, e se reagirmos, aí então acabam
conosco.
8
— Vamos, vamos — gritou o
Capitão Löwe, impacientemente. —
Para a frente! Para a frente! Mexam-se!
Cambada de salafrários, sempre dando
um jeito de blefar. Vamos, mexam-se,
vamos cumprir a missão. Isso tem de ser
feito. Subtenente Beier, assuma o
comando da Número Dois.
Esclarecedores na frente e em ambos os
flancos.
— Sempre a gente! — resmungou
Porta, revoltado e soltando um pontapé
num cantil russo vazio. — Todas as
missões miseráveis deste exército podre
somos nós que pegamos. Ah! se eu
estivesse em Berlim de boa vida, até
que podiam ficar brigando por aqui
trinta anos, se quisessem. — Começou a
carregar a sua espingarda de caça e
examinou cuidadosamente o cano da
arma. — Se é para ir, então vamos, pelo
amor de Cristo. Vamos procurar esse
vizinho de merda e arrebentar-lhe a
cabeça de ateu, de comunista safado.
No momento em que a companhia
saía da floresta, ouvimos novamente o
detestável ruído dos morteiros, seguido
de tremendas explosões. Não existia
arma de que a gente gostasse menos do
que o morteiro de trincheira. Ele é
traiçoeiro e dá apenas um curto aviso
antes de o projétil alcançar a gente,
explodindo bem à nossa frente. O aviso
já chega junto com a granada. Outra
coisa de que não gostávamos eram as
guarnições russas dos morteiros, quase
sempre formadas por mulheres. Claro
que do tipo pesadão da camponesa
russa.
Uma noite estouramos uma
companhia de morteiros pesados
guarnecida por mulheres. Elas tentaram
fugir para a floresta e esconder-se atrás
de árvores e arbustos, mas nós as
encontramos uma a uma e as matamos
como ratos, apesar de suas lágrimas e
gritarias. Os poucos homens da
companhia foram feitos prisioneiros.
Eles confirmaram o que já sabíamos.
Essas mulheres eram fanáticas e
tratavam os prisioneiros com a maior
crueldade.
— Matem as cadeias! — disse um
sargento russo capturado, com um riso
de satisfação e chutando o corpo de uma
das mulheres mortas. Ele confessou o
seu maior prazer no momento; para ele a
guerra estava terminada.
Um dos recrutas, rapagão
pertencente ao grupo de Barcelona,
tivera a face completamente arrancada.
Um shrapnel cortara tudo. Lábios, nariz,
olhos e testa haviam desaparecido. Só
ficaram os ossos, impressionantemente
brancos.
Os seus gritos como que
borbulhantes podiam ser ouvidos à
grande distância. E isso nos punha quase
malucos.
Formamos uma fila ao redor dele e
um calafrio percorria o nosso corpo ao
vermos o 2º Sargento de Saúde Rolfe
pensar os ferimentos. Ele sacudiu a
cabeça, desanimado.
— O shrapnel pode realmente fazer
o serviço — comentou Tiny calmamente.
— Mais rápido do que o que se usa
para matar as prostitutas de Düsseldorf.
— Se ele conseguir sobreviver e lhe
reconstituírem a face, seja lá como for,
bonito é que não vai ficar — disse
Gregor, pensativo. — Vai é meter um
tremendo medo nas crianças.
No horizonte a cor mudava para um
intenso amarelo róseo. Das elevações
vinha agora o rumor de veículos e
motores. Um regimento de artilharia de
sítio entrava em posição ao longo do rio
congelado. Duas companhias de assalto
juntaram-se a nós. Cheiravam a
equipamento novo: capacetes de aço
pintados de branco, jugulares
regulamentarmente posicionadas, cintos,
mochilas, máscaras contra gases, tudo,
tudo, até mesmo capas contra gases
corretamente dobradas. As nossas há
muito tinham sido jogadas fora. Os
capotes estavam tão limpos que podiam
perfeitamente desfilar na parada da
Brandenburger Tor.
Nós olhávamos tudo com ar
zombeteiro, mas o fato é que sentíamos
um pouco de inveja. Tudo o que faltava
para nós eles tinham com abundância. O
27º Regimento Blindado era um
albergue de mendigos, comparado com
eles.
Nem tanques nós possuíamos,
embora sendo um regimento de tanques.
— Jesus, vocês estão lindos! —
gritou Porta, tocando num cinto polido.
— O irmão Ivan, velho assaltante de
estrada, vai morrer de medo de vocês!
— Mas onde é que está a banda? —
perguntou Gregor. — Vocês sabem, os
velhos tocadores de tambor e pífano
com o seu tum-ta-ta-tum. Sem eles vocês
não vão poder marchar contra os
vizinhos. — .
— Vocês parecem mais um bando de
mendigos — disse um 30›sargento,
olhando desdenhosamente para o
uniforme camuflado de Porta, todo
rasgado e sujo.
— Exatamente o que nós somos,
senhor sargento — respondeu rindo
Porta.
Colocou arrogantemente o monóculo
partido no olho e encarou, com
desprezo, o 3º sargento da Guarda.
— Que espécie de quadrilha é a de
vocês? — perguntou em voz alta um
oficial. — Olhando para vocês, a gente
pensa logo em presidiários.
— Quadrilha? — rosnou o Velho,
estreitando os olhos e pronunciando a
palavra enfaticamente. — Deixe lhe
dizer uma coisa, senhor: nós já -
estávamos lutando antes que o senhor e
sua Associação de Guarda fossem
criados, e já perdemos mais homens do
que a sua Divisão vai ser capaz de
perder em toda a guerra!
— Está bem, você me parece um
tanto esgotado — respondeu o oficial da
Guarda com um riso ácido. — Assestou
displicentemente o binóculo para
explorar as elevações. — É aquela a
prisãozinha que nós vamos ajudar vocês
a tomar? Pois olha, nós vamos nos
encarregar disso, enquanto vocês vão
tirar uma soneca para descansar um
pouco os ossos velhos e esgotados —
disse animadamente, retirando o
binóculo.
— É mesmo? — exclamou o Velho,
friamente. — Até agora aquela
“prisãozinha”, como o senhor chamou,
já nos custou baldes de sangue.
— Vocês estão precisando mesmo é
de firmeza e vontade de vencer —
interveio exaltado um jovem segundo-
tenente Ele cheirava a Valhalla, a
mitológica residência dos deuses
escandinavos, guardada por guerreiros
mortos heroicamente, e a conceitos de
Hitler. — O que o Führer ordena o
soldado alemão executa. Estes diabos
desses russos não nos deterão!
— Claro que não, sargento! — disse
sarcasticamente o Legionário, o eterno
cigarro balançando para cima e para
baixo entre os seus lábios finos.
— Todo mundo fala sobre a linha de
frente — continuou indelicadamente o 2º
tenente. — Não tem nada uma coisa com
outra. O que faz um soldado é o serviço
de guarnição ali no duro, de modo que a
linha de frente, comparada com ele,
parece uma verdadeira casa de repouso.
O que vimos até agora dessa linha de
frente é de fazer rir.
— Você enfraqueceu o seu cérebro
com excessos demais gritou Porta, com
uma gargalhada. — Você vai se borrar
todo quando o Ivan começar a tocar a
sua velha balalaica.
— Antes do cair da noite você vai
prometer a Deus frequentar a igreja
regularmente pelo resto da vida —
gracejou Gregor, deliciado.
— Asneira — disse o 2º tenente com
indignação. — Não acredito em
nenhuma espécie de Deus!
— Muita gente não acredita, quando
está aqui, mon ami — opinou o
Legionário, com tranquilidade. — Mas
quando estão debaixo de uma barragem
de artilharia, é surpreendente ver como
se transformam em tementes a Deus. Os
mais fanáticos ateus tornam-se mais
submissos do que as próprias
testemunhas de Jeová e passam a clamar
por Alá.
— Você vai mudar de opinião —
disse o 2º tenente num tom de voz
gélido. — A missão que vocês vêm
tapeando há uma semana nós vamos
executar em algumas horas!
— Veremos, veremos — disse o
Velho com um sorriso sarcástico. —
Gostaria muito de ver você tomar aquela
prisão lá em apenas algumas horas.
Poupa a gente da tarefa. Uma chuva de
balas varreu a muralha de neve,
espalhando terra e gelo em cima de nós.
O oficial da Guarda jogou-se ao solo
com a rapidez do raio, perfeitamente de
acordo com os preceitos
regulamentares: calcanhares e ponta do
pés colados ao chão. Cautelosamente ele
espiou por cima da borda do abrigo.
— Fique abaixado! — alertou o
Velho, aos gritos.
O alerta chegou muito tarde. A
cabeça do oficial desintegrou-se como
tomate maduro demais, atingindo a todos
nós que estávamos por perto.
— Estúpido curtidor de regulamento
— xingou Porta, limpando sangue e
partículas de osso que lhe sujaram o
rosto. — Chega aqui só para sujar a
gente com esta porcariada!
O ar se encheu dos estrondos de
diversos morteiros. A neve era
levantada como persianas voltando à
posição normal. As granadas de
morteiros caíam pesadamente e alguns
canhões de curto alcance lançavam
projéteis que vinham explodir no meio
da gente. Em certo momento o terreno
ficou com o aspecto de um mar raivoso
e cheio de toda espécie de destroços.
O heroísmo foi aos poucos
evaporando-se do regimento alemão.
Até mesmo o tenente dos lábios finos e
belo uniforme bem talhado parecia ter
medo.
— Abaixem-se ou se danem —
alertou o Velho, energicamente.
Apesar do medo o tenente reparou
que o Velho não lhe tinha dado o
tratamento oficial e abriu a boca
pequena e cruel para dizer alguma coisa.
Mas antes de pronunciar qualquer
palavra, uma curta rajada de
metralhadora o atingiu, jogando-o para
trás contra a muralha de neve. Depois
caiu para a frente, o rosto batendo no
gelo a seus pés, as pernas tremendo
convulsivamente. Por fim, ficou
completamente imóvel.
— Venha, morte... venha... —
sussurrou o pequeno Legionário,
suavemente.
Dois tanques Pantera surgiram.
Rangendo e com os motores roncando,
eles passaram apressados por nós. Os
enormes canhões destacavam-se
ameaçadoramente de suas torres como
gigantescos dedos indicadores.
— Para a frente! — gritou Löwe,
levantando no ar o punho cerrado. —
Quinta Companhia, siga-me!
Saímos correndo pesadamente na
neve profunda, mantendo-nos na esteira
dos tanques. Quando eles paravam para
atirar, nós nos deitávamos para
recuperar o fôlego. Um grupo de russos
procurou escapar, saindo de uma ruína
escurecida pela fumaça. Algumas
metralhadoras abriram fogo e eles
caíram ao chão, lançando-nos um olhar
de dolorosa surpresa.
— Mal treinados — resmungou
Heide, chutando os corpos.
Em sua opinião, quem não era cem
por cento soldado não passava de um
droga. A piedade era para ele sinal de
mentalidade de escravo.
Uma fila de caminhões pesados,
pintados com grandes caracteres
cirílicos, se achava parada junto a uma
fazenda coletiva. Granadas cortavam os
ares. Os soldados do corpo de
suprimentos que estavam cochilando em
suas cabinas caíram de pernas para o ar.
Alguns morreram em consequência
da queda. Tudo se passou tão
rapidamente que nós não conseguíamos
compreender o que acontecera.
Sem perda de tempo vasculhamos os
corpos, ficando com o que nos fosse
útil. Estávamos saqueando os caminhões
quando uma minúscula figura, em
uniforme de general, apareceu
subitamente. Ordens bruscas e incisivas
foram expelidas com o ritmo de salvas
de metralhadoras. O Capitão Löwe em
posição de sentido, com u mão na borda
do capacete, em continência: — Sim,
senhor general, sim, senhor — era só o
que conseguia gaguejar.
Diante do General Baron von
Mannteufel, o temido comandante da
Divisão Blindada de Granadeiros, da
Grande Alemanha, dificilmente se
encontrava alguma coisa mais para
dizer. Era a primeira vez que o víamos,
mas já tínhamos ouvido falar dele, e isso
era mais do que suficiente. Até mesmo
Porta e Tiny desapareceram
silenciosamente, escondendo-se atrás de
um dos caminhões russos.
— Que eu saiba, nenhuma ordem foi
dada para parar aqui. Ou estou
enganado? — vociferou o pequenino
general com olhar que gelava. —
Estamos atacando a prisão OGPU,
senhores. Olhem à sua volta e
verificarão imediatamente que a prisão
não é aqui, mas lá, na Cota Três-Quatro-
Sete. Se pararem novamente sem
permissão eu providenciarei para
comparecerem perante uma corte
marcial em campanha!
Antes que Löwe pudesse abrir a
boca para responder, o pequeno general
retirou-se, juntamente com o seu
sorridente ajudante.
— Merda e corrupção — disse Tiny,
contrariado, deixando cair na bolsa um
dente de ouro. — Precisavam é ser uns
pobres diabos nos sovietes. Quase todos
usam aço em suas metralhadoras em vez
de ouro. Isto significa sugar um pobre
libertador alemão.
Nas poucas horas seguintes a
companhia foi avançando penosamente
na neve, impulsionada pelo desespero.
Bagas de suor caíam pelo nosso corpo
enquanto abríamos caminho por entre os
arbustos ressequidos pelo frio e
quebradiços. Eu pressenti, mais do que
vi, uma patrulha russa, e atirei na
direção. A bala atingiu um oficial russo
na boca e ele caiu ao chão com o rosto
esfacelado. Porta largou uma longa
saraivada de balas que levantou os
russos mais perto de nós e atirou-os ao
chão, para trás, como os paus do jogo de
boliche.
— Que inferno! — berrou Albert,
despencando de repente para um lado,
no meio de um monte de neve. Mesmo
caindo, ele lançou duas granadas de mão
que transformaram três russos em
farrapos sangrentos. Com um suspiro,
ele prendeu a respiração e esfregou no
rosto um pouco de neve, dizendo a si
mesmo, descorado pelo medo; “Está
maluco, homem?”
— Tanques ã frente! — berrou
Heide histericamente, mergulhando
quase de ponta-cabeça num buraco de
neve.
— Idiota! — vociferou Porta, atando
um punhado de granadas a uma lata de
gasolina.
— Me dá isso! — disse Tiny,
sempre pronto para destruir.
Ele arrancou as granadas das mãos
de Porta antes que ele tivesse tempo de
protestar.
Com a agilidade e a rapidez de um
gato, Tiny correu para o T-34 e, mais
veloz do que se possa descrever com
palavras, lá estava em cima do tanque,
cujas duas aberturas da torre haviam
sido deixadas estranhamente abertas. Da
metralhadora frontal saíam línguas de
fogo. Com mão bem treinada ele deixou
cair as bombas dentro de uma das
aberturas. Rindo insanamente, pulou do
tanque e rolou pelo chão, indo abrigar-
se atrás de uma grande rocha.
O T-34 foi pelos ares com um
estrondo de arrebentar os tímpanos. A
munição de reserva se uniu à força da
explosão. Podíamos sentir a pressão do
sopro sobre o nosso corpo.
Uma metralhadora Maxim em
posição na floresta começou a metralhar
ferozmente. O Tenente Müller, do
Pelotão 1, soltou um grito que ecoou
longe.
A primeira rajada da metralhadora
atingira-o nas costas. Ele começou a
rolar pelo chão como uma boneca de
trapo viva, as entranhas saindo para fora
e manchando a neve.
Dirigimos para lá o lança-chamas e
destruímos a posição. Agora estávamos
novamente em plena estepe castigada
pelo tempo. Quase mortos de cansaço,
cavamos o chão para esperar a barragem
de artilharia que iria abrir uma brecha
para nós na longínqua margem do rio
congelado. O regimento de motociclistas
já fora esmagado ao atravessar o rio.
Muitos afundaram quando os morteiros
russos quebraram a espessa camada de
gelo da superfície. Os que não
submergiram ficaram esmagados pelos
blocos que se juntavam violentamente e
se esfregavam uns nos outros como
rochedos de gelo. O barulho que faziam
era como o do trovão.
Porta abriu sobre a neve o seu pano
verde e começou a jogar dados sobre
ele.
— Venham cá, suas aves migratórias
prisioneiras do gelo — desafiou ele. —
Vamos jogar dados. Vocês aventuram e
eu fico com os lucros.
Tiritando, rastejamos até um buraco
na neve, e no calor do jogo, vendo os
dados dançando sobre o pano verde,
logo esquecemos o frio. Perdemos até a
camisa. Gregor Martin foi o primeiro a
ficar totalmente limpo, mas não perdia
as esperanças e tomou emprestado a
Porta um bom dinheiro, a juros de 80%.
Seguiu-se Heide, que também perdeu
tudo. Logo em seguida foi a vez de
Barcelona. Albert não podia acreditar
que tivesse ficado limpo. Conto único
negro no meio de tanta gente branca, ele
sentia que não seria direito mostrar-se
sem sorte. Repetiu para nós que seu pai
tocara tambor nos hussardos.
— Se você achar alguma coisa
nesses seus bolsos esvaziados eu lhe
dou o dobro — prometeu Porta,
mostrando-se camarada.
— Se não encontrar, aí a gente
empresta — ofereceu Tiny, que era o
tesoureiro de Porta.
Albert deu de ombros, com uma
triste e perdida expressão em suas
feições escuras.
— Mas não se esqueça do que os
brancos costumam fazer com as pessoas
que não pagam suas dívidas de honra —
rosnou Tiny, ameaçadoramente,
entregando um maço de notas a Albert.
— Que inferno, como está frio! —
resmungou Gregor, bufando sobre o
próprio rosto. De suas sobrancelhas
pendiam pedacinhos de gelo.
Ao longe ouviam-se os uivos dos
lobos, trazidos pelos ventos gelados,
que sopravam intensamente através da
estepe.
— Está frio como o diabo! — disse
o Velho, marcando sua presença. — Mas
que mais se podia esperar de uma noite
de inverno na Rússia?
— Merde aux yeux — resmungou o
Legionário, batendo as mãos, uma na
outra.
— Comandantes de seção ao oficial
comandante! — gritou alguém, e a
ordem foi passando de abrigo em
abrigo.
— Pudesse Satanás em pessoa
correr para cima e para baixo na
garganta deles, com um rolo de arame
farpado às costas — praguejou o Velho,
maldosamente. — No fim uma faixa de
vencedor, e o maldito exército da uma
banana para o pobre coitado do
comandante de seção.
— C'est la guerre, mon ami! —
exclamou o Legionário, com uma boa
tragada do seu eterno cigarro.
As violentas rajadas de vento gelado
firmaram-se, transformando tudo numa
dessas temíveis tempestades de neve da
Rússia. Até os lobos procuraram abrigo.
Mas para nós não havia trégua. O ataque
continuou, mesmo com a tempestade. O
vento era tão forte que podia empurrar
uma vaca ao longo da estepe.
O Velho chegou, vindo pelo lado de
sotavento dos enormes montes de neve,
lutando tenazmente.
— Todos de pé, seus preguiçosos! E
bola pra frente! — gritou ele, já a uma
boa distância.
Resmungando, fomos pegando o
nosso equipamento.
— Quem está na frente? —
perguntou Barcelona, aborrecido e
tomando um bom gole de vodca.
— A Cento e Quatorze — respondeu
o Velho, acendendo calmamente o
cachimbo prateado.
— Então podemos nos tranquilizar
— disse Porta. — Vamos deixar que os
pés de poeira abram caminho para nós.
Devemos regular a marcha por eles. Isso
diminui consideravelmente o perigo.
Tiny pegou a espingarda de três
canos, carregou-a e fechou a culatra.
— Vamos tocar para a frente com
isto e puxar o traseiro do Ivan até as
orelhas para que se tenha um pouco de
tranquilidade por aqui — rosnou
rancorosamente, e marchando com
lentidão atrás do Velho, que carregava
sua arma debaixo do braço como se
fosse à caça.
A companhia recebera algumas
armas de estranho aspecto, verdadeiros
arpões que levavam cordas de escalada
para se prenderem à beira dos rochedos.
— Macacos trepadores é o que
somos — resmungou Porra, começando
a subir pela corda gelada.
Um dos recrutas escorregou pela
corda e seu corpo vinha girando no
espaço e quase me levava com ele. Em
pânico, o rapaz abandonou a corda e
agarrou-se a mim, passando os braços
em volta do meu pescoço.
— Me larga, seu idiota! — gritei,
cheio de pavor e já sentindo que minha
mão começava a se soltar da corda.
— Dá uma dentada nos dedos dele!
— gritou Porta, que subia por uma corda
ao meu lado.
Desesperado, segui o conselho e
meti com força os dentes na mão do
homem, até o osso. Ele deu um grito
aterrador e foi caindo em giro, rochedo
abaixo, numa nuvem de neve. Por um
momento ele agarrou-se a uma ponta de
gelo mas depois continuou deslizando e
se perdeu nas profundezas.
Por fim chegamos ao topo e nos
agarramos com mãos e pés para não
despencar. Um clarão quebrou por
momentos o pesado negrume da noite.
Nessa fugaz claridade pôde-se
distinguir uma aldeia, como se ela se
tivesse levantado, destacando-se do
lençol de neve.
De lance em lance fomos abrindo
caminho em direção à aldeia. Com
vigoroso pontapé, abri a porta de uma
casa, mantendo u fuzil pronto para
funcionar. Um oficial russo levantou-se,
encarando-me com a perplexidade
estampada no rosto.
— Alemães! — quis ele gritar,
porém não passou do “Além...”, pois a
minha bala explosiva o atingiu na boca e
fê-lo engolir o resto da palavra. Cabeça
e pescoço esfacelaram-se, compondo um
quadro colorido semelhante a alegres
banhistas nas praias da Crimeia. Em
todo o seu horror, a visão chegava a ser
quase cômica. O corpo estremeceu e
conseguiu dar dois passos em minha
direção. Atirei novamente. Os outros
tiros o pegaram pelo meio, fizeram-no
levantar-se no ar, onde pareceu ficar
suspenso durante um segundo, como se
fosse dar uma cambalhota para trás. Os
braços se abriam completamente. Numa
das mãos ele ainda mantinha o quepe
com cocar dourado e o emblema do
martelo e da foice. As costas se
arquearam violentamente e o sangue saía
aos borbotões. Depois caiu
fragorosamente no chão. Uma estante de
livros foi arrastada na queda e uma
chuva de pequeninas bugigangas caiu
sobre o corpo.
Um tenente e dois graduados vieram
correndo de um compartimento vizinho.
Foram recebidos com uma rajada da
metralhadora que atirava ao meu lado.
Uma longa e mortífera saraivada. Os
três russos foram arremessados para
trás, contra o batente da porta, e caíram
como balões furados.
— Ei! cara — gritou Albert,
afagando sua metralhadora — estas
guitarrinhas até que fazem a gente se
sentir grande e forte!
— Que diabo vocês estão fazendo aí
parados? Sonhando de dia? — gritou o
Velho, metendo a cabeça pela porta. —
Vamos embora, vamos embora! Acabem
com isso! Vão ter tempo suficiente para
estudar os corpos quando estiverem
repousando numa sepultura coletiva.
Parecia que milhares de
metralhadoras estavam apontadas para
nós. Uma chuva de projéteis traçantes
cruzava as estreitas ruas da aldeia.
Clarões de disparos surgiam em todas as
portas e janelas. Granadas de mão
giravam no ar e explodiam com fragor.
De cada abrigozinho, por menor que
fosse, lá estava um soldado do Exército
Vermelho, pronto para lutar, com
fanático desprezo pela morte.
Tiny deu um grito horrível,
cambaleou e apoiou-se a uma parede,
sangrando abundantemente.
— Tiny! — gritei, assustado, e
jogando-me ao chão, ao lado dele.
Tiny abriu os olhos e me encarou,
aturdido. Porta apareceu correndo,
vindo do outro lado, seguido de perto
por Gregor, que trazia na mão um estojo
de atendimento russo.
— Você está morto? — perguntou
Porta, encostando o seu rosto no de Tiny.
— Não — respondeu Tiny. — O
raio do ateu me acertou na garganta.
— Puxa vida! — exclamou Porta,
impressionado, depois de cortar a gola
do uniforme de Tiny. — Estou vendo a
luz do dia através de você! Nunca vi
coisa igual! Olha! — continuou,
apontando para a entrada da bala. — O
projétil atravessou-o completamente.
Podia ter arrancado as bolas dele!
— Isso quase fez de você um
homem-realejo — disse Gregor,
aplicando um curativo sobre o orifício
de saída. — Santo Deus, mas você tem
uma sorte! Um pouquinho mais alto e o
ateu teria esvaziado sua cabeça.
— Você conseguirá beber alguma
coisa? — perguntou Porta, preocupado,
entregando-lhe o cantil de cinco litros,
cheio de vodca.
— Não faça perguntas idiotas —
respondeu Tiny com dificuldade,
pegando o cantil, que bebeu pela metade
em 21 segundos exatamente.
— Deve estar passando por fora dos
furos e sendo absorvido pelo curativo
— conjecturou Porta, imaginando
coisas. — Nenhuma pessoa normal
poderia beber tanta vodca tão depressa.
— E desceu bem — disse Tiny,
contente. — Este gole fez de mim um
novo homem. Me dá aqui esse troço. O
novo homem apreciaria um gole dessa
água dos heróis.
— Muito bem, você acreditaria
nisto? — perguntou Porta, agitando o
cantil vazio.
Uma nova onda de ruídos invadiu o
ar e uma chuva de granadas de morteiro
caiu com grande fragor na aldeia.
Línguas de fogo subiam aos ares.
Inúmeras cabanas de sapê
começaram a pegar fogo.
— Vamos dar o fora daqui antes que
o vizinho arranque nossas orelhas a tiros
— disse Gregor.
— Aguenta um pouco — respondeu
Tiny rindo, pegando sua espingarda de
três canos. — Deixa eu experimentar
este velho canhão e ver de que modo ele
atira. Quem sabe a gente vai encontrar o
cara que fez este danado de buraco em
mim.
Aquela noite inteira e o dia seguinte
nós combatemos em condições
verdadeiramente infernais. Após três
dias conseguíramos avançar apenas uns
cem metros, nada mais. Toda vez que
tentávamos um pequeno repouso em
algum abrigo que tivéssemos
conquistado, os russos contra-atacavam
mais vigorosamente do que em qualquer
outra ocasião anterior e nos faziam
recuar novamente. Durante os próximos
dias nós iríamos enfrentar um inferno de
luta a curta distância. Quando nos
retiramos um pouco, para descanso,
Albert era o único de nós que ainda não
fora ferido.
— Como é que você consegue isso?
— perguntou Porta, admirado e
ajeitando a bandagem em volta da
cabeça para uma posição mais cômoda.
— As balas não sabem onde é que
eu posso ser encontrado, homem. Porque
sou preto, não está vendo? — respondeu
Albert, mostrando os dentes cor de
pérola e fazendo um olhar ingênuo —
Elas vão seguindo à minha volta e aí
alteram sua antiga rota para procurar as
costas brancas de vocês. Garanto a
vocês que é uma bruta vantagem ser
preto nesta guerra mundial de homens
brancos.
O fato de o Führer haver escapado
desse ignóbil atentado à sua vida é um
sinal veemente de Deus de que Adolf
Hitler é o nosso protetor, aquele que foi
escolhido para cumprir grandes
desígnios
e cuja marcha ao longo do
predestinado caminho que conduz à
Vitória final da Alemanha nenhum
poder na terra poderá parar.

Wölkischer Beobachter, 21 de julho


de 1944.
— Não temos equipamento de
inverno — diz o Quartel-Mestre de
Campanha Bauer. — O Führer garantiu
aos comandantes-chefes do Exército
que não haverá mais campanhas de
inverno e que, portanto, não há
necessidade de equipamento de
inverno.
— Está querendo me fazer de bobo,
ou o quê? — rosna o Tenente-Coronel
Hinka. — Estamos no começo de
novembro. Há quatorze dias tivemos a
primeira nevada. Se ela continuar,
estaremos com neve pelo pescoço
dentro de uma semana!
— As ordens do Führer são para
que nenhum equipamento de inverno,
não importa de que espécie, seja
distribuído. Não haverá mais nenhuma
campanha de inverno. — O quartel-
mestre sorri, resignadamente.
— Você está maluco? — resmunga
Hinka. — Muitos dos meus homens não
têm capotes e estamos com falta de
outras coisas, o fornecimento de
munição chegou ao mais baixo nível.
Precisamos de óleo de inverno, tanto
para os veículos conto para as armas!
— Peço desculpa, senhor coronel
— replica o quartel-mestre, encolhendo
os ombros, lamentosamente. — Não
recebi nenhum equipamento de inverno
de qualquer ,espécie para o Grupo de
Exércitos. A última remessa foi de
uniforme de faxina, óculos para
motoristas e anticoncepcionais.
— Você deve estar maluco/ — diz
enraivecido o Tenente-Coronel Hinka.
– Faxina: e anticoncepcionais! Para
que diabo queremos isso?
— Venha ver com os seus próprios
olhos, coronel. Toda a remessa ainda
está no ponto de recebimento da
estrada de ferro. Já assinei o recibo, é
verdade, mas o que vou fazer com
montanhas de uniformes de faxina e
milhões de anticoncepcionais? Eu não
sei! Pedi o que era necessário: óleo de
inverno, agasalhos. Que fazer? Nada
do que pedi foi recebido. Ordens do
Führer, coronel.
— Que podemos fazer com esses
troços? Empurrá-lo: pela cabeça
abaixo dos russos para sufocá-los? —
rosna Hinka.
Até parece que ele vai se jogar
contra o quartel-mestre, Nessa noite,
os soldados alemães do 4º Exército
Blindado Começaram a aliviar os
russos mortos de seu equipamento de
inverno.
9
O controlador de fogo

O General von der Hecht,


comandante divisionário, meteu o
monóculo bem perto do olho e inclinou-
se sobre as cartas espalhadas pela mesa
tosca. Os comandantes de regimento da
Divisão e os oficiais do Estado-Maior
estavam reunidos na sala pequena e de
teto baixo.
O Chefe do Estado-Maior, Tenente-
Coronel von Balk, esbelto e de olhar
severo, explicava rudemente por que
razão os sucessivos ataques às
elevações haviam falhado.
— Nada senão evasivas! Sempre
evasivas! — vociferou ele,
zangadíssimo e espetando as cartas com
a vara. — A verdade é que os homens
não têm garra e os oficiais subalternos
não têm força moral! Isso será mudado!
Nada de luvas de veludo! Agora vamos
agir com mão de ferro! O menor sinal de
covardia — ou ardil — será punido
exemplarmente! Serão instaladas cortes
marciais móveis, com poderes sumários!
Já vimos atacando o sanatório na Cota
Quatro-Zero-Nove e o moinho no lado
mais afastado dele há três semanas. O
objetivo é a Prisão OGPU e onde é que
estamos? Ainda no sanatório e no
moinho! E o inimigo está retomando o
terreno quase no mesmo ritmo em que o
conquistamos! O Quartel-General do
Führer deu três dias para essa missão.
Aqui — e ele bateu com a vara
sobre um ponto marcado com um círculo
vermelho na carta — é o acesso ao
sanatório e ao moinho. Vamos por ele e
logo poderemos tomar as alturas, e
depois será só a distância de uma
pedrada até aquele comprido topo da
colina onde está a prisão. Chegando lá,
a caminhada não passará de um curto
passeio até o Dnieper! A nossa divisão
vai ser a primeira a atingir o Dnieper!
Em seguida ele empertigou-se e
olhou para o comandante divisionário. A
Cruz de Cavaleiro do general com
folhas de carvalho brilhava à luz intensa
da lâmpada de carbureto. Os seus lábios
finos esboçaram um sorriso. Ele tirou da
manga um lenço imaculadamente branco
e ficou batendo com ele no alto da testa.
Seus olhos frios e inquisidores correram
indagativamente o grupo de oficiais ali
reunidos.
— Senhor general — ponderou
timidamente o comandante da infantaria
— isso vai custar muitas vidas.
— Toda batalha custa vidas, coronel
— respondeu o general,
desdenhosamente. — Perdas não
interessam. As mais sangrentas batalhas
são as que ficam na lembrança!
— Qualquer ataque será impossível
sem um maciço apoio de artilharia —
interveio o oficial de operações,
evitando o olhar gélido do general.
— O senhor está me dizendo alguma
novidade, coronel? — rosnou o general,
asperamente, enchendo um copo de
conhaque, que tomou de uma só vez.
Um ajudante-de-campo tornou a
encher pressurosamente o copo. O
general endireitou-se com uma
contração muscular e lançou um olhar
duro ao comandante do Regimento
Blindado, o tenente-coronel, de um só
braço, Hinka.
— Seu segundo Batalhão fez muita
coisa errada, coronel! Como pôde
acontecer isso? Um pobre Major Blank
foi morto. Teria feito uma bonita figura
em frente a uma corte marcial!
— Fomos surpreendidos, senhor! —
respondeu Hinka, defendendo-se. —
Qualquer um cairia naquela armadilha.
À distância de menos de dois metros
aqueles tanques russos, completamente
enterrados, eram totalmente invisíveis.
O inimigo simplesmente expulsou o
Segundo Batalhão da face da terra. O
Major Blank não poderia prever isso.
— Economize suas desculpas —
interrompeu asperamente o general. —
Os remanescentes do seu Segundo
Batalhão vão voltar como infantes.
Esses preguiçosos suínos poderiam
fazer algum exercício. O que eles fazem
é apenas ficar sentados dentro dos
tanques, esquentando o traseiro!
— Muito bem, general — disse
Hinka, lançando um desanimado olhar
ao forro baixo da sala.
Um capitão do regimento de
motociclistas caiu redondamente ao
chão, levando consigo uma cadeira. O
general firmou mais ainda o monóculo
no olho e examinou aquele homem
inconsciente com visível contrariedade.
— É o meu comandante de
comunicações, Capitão Opel, senhor —
disse o Coronel Winkel, comandante do
4º Regimento de Cavalaria.
— Tirem esse molenga daqui! —
ordenou rispidamente o general. —
Transfiram-no imediatamente para um
regimento de assalto!
— Ele não dorme há uma semana,
senhor! — redarguiu o Coronel Winkel,
querendo defender o seu oficial ali
inconsciente.
O seco e pequenino general levantou
da carta o rosto de aparência cavalar e
encarou o coronel com olhar fuzilante.
— O senhor acha que eu dormi
enquanto minha divisão vem tentando
tomar aquela maldita prisão? —
perguntou asperamente.
— O senhor me viu desabar num
chão imundo da Rússia? Nossos
soldados desmaiaram em sua
caminhada? Não me traga no futuro esse
tipo de refugo, Coronel Winkel. Esse seu
capitão dorminhoco não serve para mim.
Afaste-o da minha vista. Se ele
sobreviver ao ataque, quero vê-lo numa
corte marcial por fraqueza e ineficiência
no serviço.
Inclinou-se sobre a carta e apontou
com o chicote para o círculo vermelho
indicativo do lugar do ataque.
— Ouçam, senhores — continuou,
com sua voz cortante como faca — esta
elevação é para ser tomada, e minha
divisão vai tomá-la! As outras duas
divisões vão atacar pelos flancos. A
divisão de reserva vai ficar pronta, atrás
do ataque. Eu tive permissão do Grande
Quartel-General do Exército para
ocupar o centro com a minha divisão. O
Marechal de Campo von Mannstein
confia em nós!
Passou nervosamente a mão pela
cabeça raspada e prosseguiu: —
Senhores, eu quero aquela elevação
antes da noite de amanhã! É uma ordem!
E guardem bem minhas palavras: aquele
que falhar, sem ter uma forte razão, será
submetido a uma corte marcial por
covardia e incompetência.
Novamente bateu na carta com o seu
chicote de cabo de prata e repetiu: — É
uma ordem! Nem que me custe a divisão
inteira, eu terei aquela elevação antes da
noite de amanhã!
Um estranho barulho fez-se ouvir do
lado da porta. Um tenente de artilharia
caíra ao chão, redondamente. O general
ficou de uma vermelhidão
impressionante e começou a bater
violentamente com o chicote nas botas.
— Algum de vocês mais deseja cair
de cara no chão! chiando de raiva. — Se
deseja, que o faça imediatamente para
eu me ver livre dele o mais cedo
possível!
Houve um silêncio de morte
enquanto dois enfermeiros removiam o
tenente como se fosse um saco de
batatas.
— Vamos, Balk — disse o general,
voltando-se para o seu chefe do Estado-
Maior. — Ande depressa com isso! O
tempo é curto!
— O Corpo de Exército vai atacar
em três escalões — começou a explicar
o chefe do Estado-Maior. — Como já
lhes foi dito, nós vamos encabeçar o
ataque, que deve ser fulminante. Não se
vai parar, o inimigo jogue o que jogar
em cima da gente. O início será aqui na
Cota Dois-Zero-Nove e continuará
rapidamente pela ravina. Vamos ser
apoiados por uma barragem, que será
lançada na elevação e virá descendo as
encostas. Isso vai atordoar o inimigo. À
nossa frente está o 39º da Guarda
Soviética, unidade de elite, comandada
por esse obstinado General Koniev. Eles
foram reforçados pela 521ª Divisão
Blindada e a 16ª Brigada de Cavalaria.
As suas reservas vão estar aqui, vinte
quilômetros à retaguarda. E a 731ª
Divisão de Fuzileiros, que não
representa lá grande coisa.
Se aparecer por aqui, um dos nossos
batalhões tomará conta dela facilmente.
Não tem nem experiência de
combate nem bravura. Um bando de
camponeses mal treinados, que podemos
esmagar como se esmaga piolho.
Coronel Winkel, o senhor atacará a
partir deste ponto como apoio de
infantaria ao regimento blindado e
deverá instruir seu pessoal para se colar
aos tanques. Leve um comando de
polícia militar como força de segurança
à sua retaguarda. Todo aquele que quiser
desertar será liquidado sem
contemplação. Coronel Jevers, o senhor
fará a ligação com a divisão de flanco e
seguira o 104º Regimento de
Granadeiros com o seu 69 Regimento de
Motociclos.
— Muito bem, senhor .— resmungou
o Tenente-Coronel Jevers, chocado,
olhando fixamente para a grande carta.
Ele sabia o que significava isso.
Acabava de receber sua sentença de
morte.
Com um frio sorriso, o chefe do
Estado-Maior virou-se para os Tenente-
Coronel Mullen, comandante do 114º
Regimento de Granadeiros Blindado.
— E o senhor, coronel, o senhor vai
atacar juntamente com o 104º. Major
Zaun, o senhor vai atravessar as linhas,
durante a noite, com o 76º Batalhão de
Assalto, e tomar os pontos de defesa do
inimigo com lança-chamas pesados e
explosivos. Venha cá, Zaun. É por aqui
que o senhor vai investir.
O chefe do Estado-Maior bateu na
carta corri ar varinha.
— Faça isso rapidamente. Como se
o demônio estivesse as suas costas. E
ele estará! Na hora H, o senhor ficará
atrás dos postos avançados inimigos.
Senão estiver, isso significará a sua
cabeça.
— Muito bem, senhor — respondeu
o Major Zaun, — Entendido.
Ele apertou os lábios secos.
— Uma viagem aos céus —
sussurrou para o Coronel Winkel.
— Não serão muitos de nós os que
vão voltar desta vez.
— Está nervoso? — perguntou o
chefe do Estado-Maior, ao ouvir a
observação sussurrada. — Se acha que a
missão é dura demais, diga. Arranjarei
imediatamente um substituto.
O rosto do major ficou vermelho
como tomate, porém ele nem tentou
responder antes do chefe do Estado-
Maior sair para procurar o comandante
da artilharia, Tenente-Coronel Grün.
— O senhor, coronel, o senhor vai
comandar toda uma artilharia
divisionária. Serão incorporados uma
brigada de Nebelwerfers e dois pelotões
de morteiros pesados. Não preciso
dizer-lhe que a missão requer um
cuidadoso planejamento e uma estreita
cooperação entre as suas várias
baterias. O senhor tem cinco horas para
reuni-las e instruir os respectivos
comandantes. Tivemos a felicidade de
arranjar um grupo meteorológico para
ficar adido a nós, de modo que não
venhamos a. ter algum problema a esse
respeito. Se por acaso o senhor não
confia plenamente em algum dos seus
comandantes, substitua-o por um
elemento seguro e experiente. Não
podemos admitir erros! Tudo vai
depender do seu poder de fogo. O seu
coordenador de tiro é o seu homem mais
importante. Tem de ser um elemento do
mais alto valor. Quem sugere para o
cargo?
— O Tenente Henckel — disse o
tenente-coronel. sem hesitar. Olhou para
um oficial de artilharia alto e esbelto.
entrando na casa dos trinta, e
acrescentou: — Henckel foi instrutor da
Escola de Artilharia de Jüterburg
durante três anos.
Não está há muito tempo na frente
mas é altamente recomendado pela
Escola.
Acredito firmemente que não
encontraríamos melhor oficial para a
tarefa.
— Espero que esteja certo — disse
o general, com voz áspera olhando
inquisidoramente para o alto 1° tenente
de artilharia, postado de pé, fugindo
deliberadamente da claridade do
lampião de carbureto. — Ouça,
Henckel, isto é importante. Tudo vai
depender de você compreender bem as
ordens. Não temos tempo para repeti-
las. Continue, Balk — disse ele,
impacientemente, chicoteando as
próprias botas. — Somos homens
ocupados.
O Tenente-Coronel Grün deu dois
passos em direção ao seu controlador de
tiro e lhe aplicou uma cotovelada nas
costelas.
— Que diabo, Henckel! — disse ele.
— Você está dormindo em pé! Acorde,
homem! Onde estão as suas ordens de
tiro? Me mostre o que anotou.
Com os olhos tontos de sono, o
Tenente Henckel passou ao tenente-
coronel seu caderno de anotações com
os planos de tiro.
— Que diabo, homem! Você está
maluco? — gaguejou o tenente-coronel,
furioso. — Quase não tomou nota
nenhuma. Você quer arranjar uma corte
marcial para todos nós? Abra os olhos,
homem! Nunca vi coisa igual. Pohl! —
gritou para o seu ajudante.
— Risque um fósforo debaixo do
Henckel! E anote minhas palavras,
Henckel: você não está mais em
Jüterburg. Um erro aqui e você não iria
continuar impunemente. Se isto não sair
certinho, pode lhe custar a cabeça!
Está doente? Se está, diga logo! Já!
— Não, senhor, estou bem. Só um
pouco cansado.
— Cansado?! — exclamou o
tenente-coronel, com ironia. — E não
estamos todos cansados?
Ele voltou preocupado para a mesa
das cartas e lançou um olhar nervoso
para o insensível general, já pensando
em quem poderia talvez substituir. Não
conseguiu vislumbrar ninguém a quem
pudesse confiar a tarefa.
— Está doido, homem? Dormindo
outra vez! — sussurrou o ajudante,
irritado, sacudindo o braço do Tenente
Henckel. — Fique ouvindo e anote o que
eles dizem. Se não fizer isso, você pode
destruir todo o Corpo de Exército
quando abrir fogo.
— Não sei o que está errado. O que
não consigo é ficar acordado —
respondeu o Tenente Henckel,
desculpando-se e apoiando-se à parede
para não cair. — Nem me lembro mais
da última vez que me deitei numa cama.
— Uma cama — ironizou o ajudante,
com uma boa gargalhada. — Dê graças a
Deus se conseguir um monte de palha
fedorenta para se deitar e não ter de usar
um chão de neve pura. Cama é para
oficiais de altos postos. Eu não sei o que
é uma cama há dois anos.
— Dois anos? — resmungou
Henckel, admirado. — Você deve ter
tido uma licença, não teve? Todo
soldado ganha três semanas de licença
por ano!
— Diga uma coisa, Henckel: de
onde você veio realmente? Da Lua ou de
onde? Licença? Santa Maria Mãe de
Deus, você está vivendo num mundo de
fantasia! O máximo que você pode
esperar é um ferimento que lhe permita
voltar para casa e botar o sono em dia.
Eu juro a você que se tivesse a sorte de
ser ferido podiam juntar todos os
médicos do Exército e não conseguiriam
me tirar da cama antes de seis meses.
— Isso é sabotagem — respondeu
Henckel, com ar de censura.
— E o que você pensa — disse o
ajudante com um sorriso um tanto cínico.
— Cedo você vai mudar de ideia. Mas
agora eu estou ordenando a você que
acorde. Senão você vai passar por um
troço muito desagradável. A tarefa que
lhe deram exige mais do que ficar de
olhos abertos. Em linguagem de linha de
frente, sua bunda vai esquentar de frigir
ovos se você bagunçar o coreto.
Uma tremenda explosão os
interrompeu. Toda a casa levou uma
sacudidela. Duas outras bombas
explodiram com estrondo e rumor
ecoante.
Nenhum dos oficiais pareceu se
incomodar com isso. O chefe do Estado-
Maior não interrompeu nem por um
segundo a explicação sobre o plano de
ataque. Do meio da escuridão partiam
impressionantes gritos e gemidos.
O Tenente Henckel olhou
nervosamente para a porta de entrada,
inteiramente às escuras. A cortina negra
dissipava-se momentaneamente com as
explosões.
— Bombardeiros? — perguntou, um
tanto aflito, piscando nervosamente.
Era novo na frente. Em Jüterburg
nunca houvera uma incursão aérea.
— É, você pode chamar de
bombardeiros, creio — disse o ajudante,
caçoando. — Nós apelidamos de
moinho de café. Os russos têm uma
porção deles. Velhos biplanos com as
bombas penduradas embaixo, assim
como penduram a linguiça no açougue.
Quando o piloto percebe uma luz no
chão, ele solta uma bomba do gancho e
deixa ela cair. Experimente sair aí com
um cigarro aceso na boca. Garanto que
você leva uma bomba em cima da nuca
na mesma hora.
Uma série de explosões arrebentou a
porta, como se ela tivesse recebido o
impacto de um pulso gigantesco. Uma
lufada de ar gelado e uma nuvem de
neve pulverizada entraram pela sala de
aula, apagando o lampião de carbureto.
— Fechem as portas e acendam as
luzes! — ordenou o general, irritado e
batendo impacientemente com o chicote
nas botas. — Luzes! — repetiu e
continuou exigindo: — Luzes, tomem
uma providência!
Alguns sinaleiros que vinham
correndo com outros lampiões de
carbureto quase caíram. Mas logo as
luzes brilharam intensamente. Um dos
lampiões fazia um barulho desagradável.
O general olhou para ele irritado.
— Apague esse lampião — gritou,
vermelho de raiva. Um 2º tenente de
comunicações tentou nervosamente
ajustar o queimador, mas o lampião
continuou a chiar. Parecia até que queria
judiar com o general. O tenente acabou
queimando os dedos, mas foi bastante
esperto para não dar a perceber.
— Levem esse lampião daqui! Lá
para fora! — berrou o general, com voz
rouca.
O tenente pegou o lampião e sumiu
no escuro da noite. Ao mesmo tempo
ouviu-se o fragor de bombas
explodindo. O tenente de comunicações
e o lampião voltaram como que voando
no meio da escuridão e acompanhados
de uma chuva de cacos de vidro,
pedaços de carne e destroços de
construção.
— Raio de confusão! — gritou
zangado o general. — Limpem tudo e
vamos prosseguir no assunto.
O planejamento do grande ataque foi
retomado imediatamente. As bombas
explodindo e o corpo do pobre 2º
tenente morto pareciam não interessar a
ninguém. Alguns soldados puseram
rapidamente em ordem o que ficara.
— Vamos imobilizar o inimigo com
uma barragem curta e violenta? —
perguntou o comandante da artilharia,
Tenente-Coronel Grün, mostrando-se
duvidoso.
— Sim, sim, claro — respondeu
irritado o general, firmando ainda mais
o monóculo no olho. — Que mais o
senhor podia esperar? Seus tiros vão
cair num espaço sem ninguém e depois
vão se deslocando para a frente dos
elementos avançados de infantaria,
assim prosseguindo com a infantaria
colada ã barragem. Vamos perder alguns
idiotas, mas isso é inevitável. O inimigo
não vai nunca imaginar que nossa gente
estará imediatamente atrás da barragem.
Ficará surpreso e não terá tempo
para meter em posição as armas
automáticas.
As suas armas pesadas já terão sido
destruídas pelas nossas granadas. O
fator surpresa deve ser usado. Surpresa,
senhores, e não se esqueçam disso! E o
senhor, Coronel Winkel, atacará em
campo aberto. Sei que vai custar caro,
mas estou convencido de que o senhor
pode fazer isso. Confio no senhor. Mas
não se esqueça de manter o contato com
os dois flancos. Se perder esse contato,
estaremos perdidos. O nosso oponente é
um gênio em contra-ataques através de
linhas de ligação fracas. O menor erro
— continuou ele, dando uma lambada na
mesa das cartas com o chicote — e
estaremos metidos na maior confusão de
todos os tempos. As instruções para os
regimentos, um de cada vez,
prosseguiram por mais de meia hora.
Para todos foi repetida a ameaça de
corte marcial e prisão militar.
Finalmente o general voltou a
destacar a grave responsabilidade da
artilharia. Pousou pesadamente a mão
sobre o ombro do Tenente-Coronel
Grün.
— Grün, prometa a mim agora que
substituirá todo aquele que não mereça a
sua inteira confiança. Um meu elemento
entre os seus oficiais pode ser de
imprevisível importância. — Levou a
mão ao quepe e disse: — Obrigado,
senhores. Desejo-lhes toda a sorte
possível. Se o ataque não for bem-
sucedido, nenhum dos senhores será
oficial quando isto acabar. Lembrem-se
disso!
— Meu Deus, outra vez! —
sussurrou o Tenente-Coronel Grün,
exasperado.
Henckel estava novamente dormindo
no seu assento.
— Peço desculpas, senhor! —
murmurou Henckel, envergonhado. —
Não posso entender o que se passa
comigo. Eu me sinto como se fosse duas
pessoas diferentes.
— Que que eu vou fazer com você?
— respondeu o tenente-coronel,
preocupado. — Não tenho um
controlador de tiro substituto. Em outra
ocasião poderia usar um outro
experimentado elemento, mas agora não
posso fazer isso.
Você deve juntar as duas pessoas
numa só. Tem de dar tratos à bola, seja
você mesmo, homem! — repetiu ele,
sacudindo energicamente pelo braço o
sonolento oficial. — E tomou nota de
tudo?
— Tomei sim, está tudo no papel,
senhor. Não é nada difícil. Pode confiar
em mim, senhor!
— Por Deus e todos os demônios.
Espero que você esteja certo.
Mas não se iluda, pensando que a
tarefa vai ser fácil. Procure enfronhar-se
bem da coisa com o ajudante novamente,
por segurança.
O tenente-coronel foi apanhar o seu
comprido capote de pelo no cabide.
Servilmente, Henckel procurou
ajudá-lo.
— Pare com essa merda! — disse o
Tenente-Coronel, repelindo-o com raiva.
— Você não está no refeitório dos
oficiais. Use o seu tempo para estudar as
instruções. Que o diabo, Deus e todos os
santos o ajudem, Henckel — resmungou
ele, saindo pela porta e apertando o
cinto. Depois puxou a pistola do coldre
e enfiou-a no bolso do capote, lugar
mais fácil de tirá-la.
Henckel ficou por ali, extenuado,
vendo-o sair. A sala movia-se à frente
dos seus olhos como um navio no mar.
Ele só queria uma coisa: jogar-se ao
chão e dormir, dormir, dormir...
Preciso tomar um banho de chuveiro,
gelado, pensou ele, e começou a pisar
nos próprios dedos dos pés até sentir
uma dor que ia até o joelho. Mas não
adiantou. As faces pálidas dos oficiais
ali na sala rodavam em círculos em
torno dele. À distância alguém falava
sobre relógios de sincronização.
Um major do Nebelwerfer deu-lhe
uma cutucada nas costelas e lhe disse
alguma coisa, mas só pegou a palavra
“espero”, O que era para esperar ele
não soube.
— Você está doente? Que diabo está
havendo com você? — perguntou o
major, duramente.
— Só um pouco cansado, senhor.
- Espero que não esteja tão cansado
a ponto de não poder cumprir direito a
tarefa de controlador de tiro, não é? Se
está, o melhor será baixar
imediatamente. Certamente vão prender
você, mas será melhor do que bagunçar
a tarefa. Se isso se der, na certa vai
pegar uma corte marcial. E perder a
cabeça, meu amigo!
— Num minuto estarei outro, senhor!
— assegurou Henckel, com voz firme.
— Espero que sim. Já tomou nota
dos intervalos de tempo? — perguntou o
major, pouco convencido, encarando
Henckel com um olhar frio e indagador.
— Se eu atirar meus foguetes cedo
demais — ou tarde demais, conforme for
— toda a preparação estará perdida.
Agora eu quero ver esses intervalos de
tempo.
Silenciosamente, com mão trêmula,
Henckel passou ao major o seu grande
bloco de mensagens. Com os lábios
apertados, o major correu os olhos pelas
colunas de algarismos e cálculos,
verificando, aliviado, que, no que dizia
respeito aos seus Nebelwerfers, estava
tudo correto. O que, porém, ele ignorava
era que aquelas notas haviam sido
tomadas pelo ajudante, que Henckel
estava para copiar mas que nem ainda
vira direito.
— Vá dormir um pouco —
aconselhou o major, batendo-lhe
amigavelmente no ombro. — Precisa
estar descansado e alegre como um grilo
quando esta pequena parte da coisa
começar. Esta noite você vai dançar na
corda bamba! — Tocou com um dedo na
pala do quepe e saiu à procura do
comandante dos obuseiros.
Exausto e estranhamente atordoado,
Henckel resolveu reagir e foi sentar-se à
mesa tosca, ao lado do ajudante. Ali
juntos eles examinaram horários e
objetivos diversos para os canhões.
— Uma coisa que eu aconselho você
a fazer — disse o ajudante muito sério
— é checar a sua rede de telefones. Não
deixe nada ao acaso. O chefe do Estado-
Maior entrará em contato com você, no
aparelho de dupla comunicação, caso
alguma coisa saia errada. Se tiver
dúvida sobre algum detalhe, vá dizendo.
— Não sou completamente idiota —
respondeu Henckel, aborrecido. — Não
é muita gente que conhece controle de
tiro como eu. Em minha opinião, todo
mundo está fazendo de um montinho de
terra uma montanha. Estamos
acostumados a tratar desse tipo de
missão lá em Jüterburg.
— Meu bom Deus Todo-Poderoso
— murmurou o ajudante ao motorista, ao
embarcar, tiritando, no seu Kübel. —
Esse fenômeno da guarnição, surgido tão
de repente, nem desconfia que já está
com uma perna na frente de um pelotão
de execução. Jüterburg! Um jardim de
infância comparado com isto aqui! Para
mim não será surpresa nenhuma se esse
idiota dorminhoco quebrar a cara esta
noite! Para o Regimento! — ordenou
bruscamente, puxando um cobertor para
cima dele. — Puxa! Como este frio!
Várias vezes o pesado Kübel
deslizou e esteve ameaçando cair no
profundo valão que existia de um e outro
lado da estrada.
— Aqueles de nós que saírem disto
vivos — disse o ajudante, pensativo —
não esquecerão a apressada batalha por
essa maldita Prisão OGPU.
— Quer saber, senhor capitão —
comentou o motorista, 2º Tenente Stolz,
girando o volante para evitar um poste
de eletricidade — se eu fosse o general,
deixava o Ivan ficar com essa prisão e o
sanatório e também o moinho. Há
bastante espaço em volta deles para se
passar por fora.
— Mas você não é o general, Stolz,
— disse o ajudante, rindo
sarcasticamente. — Quando esta linda
guerra terminar, você vai voltar para
casa e continuará a ser um motorista,
quer a prisão seja tomada ou não. Mas,
veja bem, o nosso comandante de
divisão é um general de brigada, com
apenas uma pequena estrela de ouro. Ele
gostaria imensamente de ter mais três
pequeninas estrelas de ouro antes da
guerra terminar. É para isso que os
generais acham que as guerras devem
ser. Se tomarmos a prisão, o nosso
general de brigada será general de
divisão e, quem sabe, terá um pedaço de
fita colorida em volta do pescoço. E de
general de divisão para general de
exército é um pulo. Agora, se, ao
contrário, ele não tomar a Prisão OGPU,
pode perder o comando. E as novas
estrelinhas não vêm mais. E os
vencimentos encurtam na devida
proporção.
— Bem, me desculpe, senhor
capitão, mas para mim parece um troço
doido isso de nós cá de baixo termos de
ser reduzidos a pedaços para que um
general possa ganhar algumas estrelas a
mais nos seus ombros.
— Tem toda a razão, Stolz, mas as
regras do jogo são assim. Você ainda
tem a sorte de ser motorista do Estado-
Maior. Agradeça a Deus não ser um
desses pobres-diabos dos regimentos de
assalto.
— E, realmente devo agradecer a
Deus! — respondeu Stolz, sentindo um
friozinho de medo lhe correr pela
espinha.
O pesado Kübel do comandante da
Artilharia estava estacionado no grande
cruzamento de estradas. Ele
pessoalmente ficara de pé ao lado da
estrada, conversando com Henckel.
— Pare aqui — disse o ajudante,
saltando do carro mesmo antes de ele
parar.
— Tudo em ordem? — perguntou o
Tenente-Coronel Grün, ansioso,
protegendo-se do frio atrás do Kübel.
— Tudo em ordem, senhor —
respondeu o ajudante, batendo as mãos
uma na outra. — Já examinei tudo com o
tenente Henckel.
O tenente-coronel sacudiu a cabeça,
satisfeito, puxou a gola de pelo para
aquecer mais as orelhas e olhou
preocupado para o lado da escura
estepe.
Grandes nuvens negras e baixas
deslocavam-se rapidamente, cortando o
céu.
— Vou estar algum tempo com o
Estado-Maior Divisionário — disse o
Tenente-Coronel Grün, batendo os pés
na neve. — Se tiver alguma dúvida,
pode me encontrar lá. Henckel, se tem
alguma pergunta, faça-a agora.
— Muito bem, senhor — respondeu
Henckel, com a voz sensivelmente
trêmula. — Eu dou as ordens de fogo ou
elas vêm da Divisão?
O tenente-coronel encarou-o com
estupefação. Não podia acreditar no que
ouvira.
— Será que ouvi bem? — vociferou
furiosamente. — Você não entendeu uma
palavra do que foi dito. Claro que é
você quem dá as ordens. É esse o papel
de um controlador de tiro: controlar o
tiro dos canhões! — acrescentou,
encarando-o com olhar de estranheza. —
Você não perdeu o juízo, perdeu?
— Não, senhor, não. Estou bem,
senhor. Minha cabeça esta rodando um
pouco e eu me sinto muito cansado e
confuso. Não durmo há uma porção de
tempo — desculpou-se, encabulado,
depois de uma curta pausa.
— Há muita gente nossa que também
não tem dormido — respondeu o
tenente-coronel, friamente. — De todos,
tenente, você é quem tem menos razão
de queixa. Você gozou um agradável
período de três anos de serviço de
guarnição em Jüterburg, enquanto nós
temos vivido como ratos por aqui. E
agora vem se lamentar como uma velha
com reumatismo nas costas, só porque
sente falta de um soninho! Se acha que
não pode cumprir a missão, confesse
isso antes que seja tarde demais. Posso
lhe arranjar um lugar de mensageiro.
— Senhor coronel, fui especialmente
treinado como controlador de tiro e não
posso achar que essa operação em si
seja particularmente difícil —
respondeu Henckel, considerando-se
insultado.
— Isso me parece promissor —
redarguiu o tenente-coronel,
ironicamente. — Se você fizer confusão
nisso tudo, o general lhe arrancará o
fígado pela garganta. Prossiga e mande
checar as suas conexões. Elas têm de
funcionar perfeitamente. Boa sorte,
Henckel — acrescentou delicadamente,
metendo-se no Kübel, que em seguida
desapareceu numa nuvem de neve,
acompanhado de perto pelo carro do
ajudante.
— Egoísta idiota — resmungou
Henckel. — Se não fosse a guerra, esse
bestalhão nunca chegaria a tenente-
coronel. Os melhores oficiais são
mantidos no interior como instrutores.
Bons instrutores são bons oficiais. Eu
sei mais de controle de tiro do que você,
seu porco de linha de frente presunçoso.
Leva vinte anos para chegar a tenente-
coronel enquanto eu com três anos vou a

tenente. Quando tudo isto acabar, eu
vou ser chamado de volta a Jüterburg
com o posto de major!
Com uma atitude de insultado, entrou
no seu próprio carro e apertou mais o
capote de pelo contra o corpo tiritante.
— Nossa, senhor tenente! Escuta o
barulhão que eles estão fazendo! —
disse o seu motorista, um velho 1º
sargento do tipo de Tiny.
— Guarde para si os seus
comentários impertinentes, sargento —
vociferou Henckel, com ar superior —
ou eu faço sua cama! Só fale quando lhe
mandarem falar!
O 1º sargento levantou uma
sobrancelha, inteiramente surpreso, e
pensou consigo mesmo: Merda
convencido! Nós é que podemos cuidar
de você.
Sujeitos melhores que você já temos
liquidado às dúzias.
— Senhor tenente, o Primeiro-
Sargento Schwartz pede permissão para
solicitar suas instruções sobre o seu
destino.
— Você sabe para onde vamos —
respondeu bruscamente Henckel,
visivelmente zangado.
— Não, senhor. Não tenho ideia.
— Para o Centro de Controle de
Tiro, idiota!
— Qual deles? Existe uma porção,
senhor.
Parecia que Henckel ia explodir.
Cerrou as mãos enluvadas e lançou
sobre o 1º sargento, que sorria
insolentemente, um olhar de morte.
— O Centro de Controle de Tiro de
Artilharia. Que que você pensou?
— Eu não penso, senhor. Me
ensinaram a não pensar quando eu era
recruta.
Diziam que isso era para os cavalos,
que têm cabeça maior.
— Você acha isso, não é? — disse
Henckel, furioso. — Me leve para o
Centro de Controle de Tiro de Artilharia
e se apresente na bateria e comunique
que volta ao serviço lá. Nunca mais
quero ver você na minha frente.
— Muito bem, senhor — respondeu
o motorista, pouco ligando.
Ele engrenou a primeira
estrepitosamente, partiu com tremendo
arranco e meteu o pé na tábua, numa
velocidade alucinante pela estrada
desnivelada.
Passou pelos montes de neve com
maior velocidade ainda, mas, a despeito
dessa marcha loucamente acelerada,
uma coisa de quebrar os ossos, o
Tenente Henckel caiu num sono
profundo. O 1º sargento olhou para ele
com o rabo do olho. Uma expressão
inteiramente jocosa iluminou-lhe a
fisionomia e ele começou a cantar com
voz estridente:
Tudo passa e não se nota Tudo acaba
por sumir.
Em dezembro ovo se bota E em maio
se vai curtir.
O Führer caí e a patota Atrás dele
vai seguir.

Ao passar por uma mancha no chão,


o Kübel derrapou, rodou duas vezes
sobre si mesmo e desceu deslizando uma
grande rampa. Schwartz ria a bandeiras
despregadas, tudo lhe parecendo
extremamente engraçado. Ele olhou
outra vez de relance para o Tenente
Henckel, que continuava ferrado no sono
no chão do veículo, indiferente a tudo.
Você está pensando que pode me
despachar, não é, seu passageiro cheio
de si? Pois vai me pagar! Mesmo que
esteja em seu juízo perfeito e venha
cagar ordens em cima de mim, não vai
se livrar do velho Primeiro-Sargento
Schwartz! Freou violentamente o carro
no lado de fora do abrigo antiaéreo do
Centro de Controle de Tiro.
— Com sua licença, senhor,
chegamos sãos e salvos! Acorda. cara,
você tem que começar a mandar mecha
no velho irmão Ivan. Se errar, eles é que
vão te encher de chumbo grosso!
Schwartz sacudiu violentamente o
oficial mergulhado no sono, mas não
adiantou.
— Acorda, desgraçado, o táxi
chegou ao destino! Ei, Herbert! — gritou
ele para um 2º sargento que andava de
um lado para outro à entrada do abrigo
com uma carabina atirada
negligentemente sobre o ombro. — Vem
me dar uma mãozinha. Cá está um
brilhante imbecil que só deseja dormir o
resto da guerra.
— Dê-lhe um chute nos bagos —
sugeriu Herbert, indiferente e dando uma
dentada numa salsicha gelada.
— Não posso fazer isso, cara. Ele é
um dos chefões — disse Schwartz rindo,
feliz da vida.
— Onde é que você achou ele? —
perguntou Herbert, aproximando-se
vagarosamente do Kübel.
— É o novo controlador de tiro.
Dureza da grossa e tem uma espada
como espinha dorsal.
— Merda e hemorroidas — rosnou
Herbert, puxando Henckel para fora do
Kübel como se fosse um saco de batatas
e largando-o pela encosta coberta de
neve.
— Onde estou? Que está havendo?
— gritou Henckel, atônito, voltando a si
enquanto rolava até bater num monte de
neve.
— Com sua licença, senhor. O
senhor está na Rússia — disseram os
dois soldados ao mesmo tempo, fazendo
a continência, propositalmente
desajeitados.
— Na Rússia? — exclamou
Henckel, olhando nervosamente para o
céu. Um “moinho de café” passava
zunindo— No horizonte multicolorido,
chamas subiam aos céus. Um canhão
automático atirava ruidosamente. À
distância, as granadas explodiam com
estrondo ecoante. No meio da floresta
podia-se descortinar o posto
meteorológico. Em torno moviam-se
ativamente formas sombrias. Um raio de
luz subiu aos ares, para medir a altura
das nuvens. De novo sobre os pés, que
lhe pareciam agora longínquos e
pesados, Henckel entrou, cambaleando,
embriagado de sono, no abrigo do
Controle de Tiro, e cumprimentou os
dois tenentes que foram recebê-lo.
— Tudo em ordem? — perguntou
com arrogância. Ali ele sentiu-se como
em casa. Aquilo lhe era familiar. Ao
longo de uma parede via-se o grande
quadro de ligações telefônicas, servido
por quatro homens das comunicações. A
carta de tiro, com objetivos nela
marcados, abria-se sobre uma larga
mesa.
Auxiliado pelos tenentes, ele anotou
as coordenadas e os intervalos de tempo
necessários. Um mensageiro trouxe o
boletim meteorológico. Henckel
queixou-se. O boletim estava escrito
com falta de cuidado. Ordenou que o
escrevessem de novo.
— Por favor, veja também a margem
regulamentar de dois dedos.
Os dois tenentes entreolharam-se, e
o que pensavam ficou para eles.
— Vou ter de recostar por momentos
— resmungou secamente. Em seguida
jogou-se em cima de um banco e puxou
para o rosto o capuz guarnecido de
pelos. Todos os presentes olharam para
ele estupefatos. Não acreditavam no que
viam.
— Deve ser maluco — sussurrou o
2º Tenente Rothe. — Dormindo
justamente quando vai começar a grande
ação da artilharia! O cara deve ter
nervos de aço. Nem ao menos se
preocupou em testar a rede telefônica!
10
Nesse momento soou a campainha de
um telefone.
— Se não for o chefe do Estado-
Maior ou o oficial comandante, me
deixem dormir — resmungou Henckel
com voz sonolenta, puxando ainda mais
o capuz sobre a cabeça.
— Muito bem, senhor — respondeu
o 2º Tenente Rothe,
despreocupadamente, tirando o fone do
gancho. Aqui é “Lebre da Neve”.
Tenente Rothe. Sim, senhor major.
Tudo em ordem. Como deseja, senhor.
Terminado, desligo. — Tomou a
colocar o fone no gancho. — É o
pessoal dos obuseiros — disse para o 2º
Tenente Hassow.
Durante os quinze minutos seguintes,
o telefone tocou incessantemente. As
várias unidades de artilharia estavam se
aprontando para a ação.
Três funcionários trabalhavam
ativamente no preparo das ordens para
as unidades inferiores. O Centro de
Controle de Tiro era um ambiente de
febril atividade. Os dois tenentes
trabalhavam como touros para pôr em
funcionamento no devido tempo a
complicada tarefa da preparação do tiro.
Apenas o próprio controlador de tiro
dormia tranquilamente, como se toda
aquela confusão não tivesse nada a ver
com ele.
— Deus nos ajude — disse Hassow,
afastando-se da ilha de tabelas de tiro à
sua frente. — Que barulheira isso vai
fazer. Suficiente para assustar os mais
bravos. Graças a Deus não sou
controlador de tiro, responsável por
tudo isto. É incrível o que trouxeram
para cá. Duas brigadas de
Nebelwerfers. São doze seções com
quatro baterias cada uma, e cada bateria
possui quatro werfers com dez tubos
para cada. E tem os obuseiros de
duzentos e dez milímetros. Quatro
canhões em cada bateria dão um total de
trinta e seis. E há também as seções
pesadas com três baterias. Nove
canhões ao todo. E o nosso próprio
efetivo com noventa e seis de cento e
cinco e cento e cinquenta milímetros.
— Sem esquecer os especialistas
com quatro baterias de obuseiros de
duzentos e oitenta — acrescentou Rothe.
— São outros doze! Vamos fazer um
bocado de barulho neste mundo — disse
Hassow. — E há ainda montanhas de
munição!
— Isso vai parecer o fim do mundo
— murmurou Rothe — para aqueles
pobres coitados em cima de quem vai
cair tudo isso. Nem os seus piolhos e
ratos vão se salvar!
— Não vai ficar muita coisa para a
nossa infantaria — comentou Hassow,
rindo. — Você já pensou? Pouco menos
de cinco mil granadas vão ser
disparadas nos primeiros seis minutos!
Só de pensar, a gente fica com medo.
Em seguida as rajadas com
intervalos de três minutos. Meu Deus do
céu! E ele ali entregue! Deve estar
completamente louco. Já imaginou o que
poderia acontecer se alguma coisa
saísse errada?
— Não é preciso ter muita
imaginação para isso — respondeu
Rothe, laconicamente. — Vamos fazer
ele assinar tudo, de modo que a gente
não terá de pagar o pato. Tenho uma
desagradável impressão sobre o que
possa vir a acontecer.
Henckel teve a impressão de não
haver dormido senão uns poucos
minutos quando Rothe o foi acordar com
fortes sacudidelas, algumas horas mais
tarde.
— Tenente, acorde! As divisões já
estão em linha! Acorde, senhor!
Confuso e bocejando, Henckel
finalmente ficou de pé. Rothe olhou para
ele sem compreendê-lo.
— O senhor não está doente, está?
Achei-o tão prostrado que por um
momento cheguei a pensar que tivesse
morrido.
— Por que diabo você me acordou?
Que que há? Não pode fazer a menor
coisa sem vir pedir a minha ajuda?
Preciso dormir um pouco antes de
começar o ataque.
— Senhor, a Divisão quer que o
senhor vá ao telefone imediatamente!
— Divisão? — resmungou Henckel,
ainda confuso. De repente percebeu
onde estava e levantou-se tão depressa
que bateu com a cabeça numa viga que
sustentava o forro baixo. — Que
inferno! — gritou, levando a mão à
cabeça onde um galo começava a
crescer. — Que diabo de idiotas fizeram
esta sala com esse forro tão baixo!
Mande dar um jeito nisso amanhã,
Rothe. Isto é pura incompetência! Traga
o responsável à minha presença às nove
horas! Entendeu, tenente?
Você é louco, pensou Rothe. Devia
dar graças por ter um teto em cima da
cabeça, enquanto muitos outros só
contam com um buraco no terreno.
Henckel pegou o telefone e deu,
quase dormindo, o seu codinome. Uma
voz límpida respondeu do outro lado da
linha: — Um momento. Vou ligá-lo com
o chefe do Estado-Maior. Logo em
seguida a voz estridente do chefe do
Estado-Maior fez-se ouvir. Henckel não
conseguia entender o que lhe era dito.
Alguma coisa a respeito de horários e
ligações para o ataque.
— Muito bem, senhor — respondeu
automaticamente. Fazendo rabiscos
inexpressivos no seu caderno de
apontamentos.
— Entendido? — vociferou o chefe
do Estado-Maior, após breve pausa.
Henckel mal se equilibrava sobre os
pés, chegando quase a cair. Os olhos se
fecharam enquanto ouvia. Rothe pegou-
lhe no braço e sacudiu-o violentamente.
— Raios! Acorde, senhor!
Henckel olhou para Rothe, os olhos
inteiramente sem vida.
Rothe continuou a sacudi-lo até que
o tenente, irritado, lhe deu um safanão.
— Não entendido, senhor — disse
ele ao telefone, com uma voz que dava a
impressão de falar através de um
chumaço de algodão.
— O senhor está regulando bem? —
vociferou o chefe do Estado-Maior,
quase fora de si. — Vou repetir os
horários novamente. Que Deus o ajude
se não os anotar um por um. E
matraqueou uma série de números ao
ouvido de Henckel com a rapidez do
relâmpago.
— Agora repita tudo para mim —
ordenou, ao terminar. E começou a
tamborilar com os dedos,
impacientemente, sobre a mesa. Por
sorte Rothe, na extensão, anotou tudo e
passou a Henckel o seu caderno de
anotações com todos os horários. Com
uma voz vazia, arrastada, irreal,
Henckel repetiu no telefone os números
anotados.
— Henckel, você me dá a impressão
de estar dormindo em pé. Que que há
com você?
— Estou cansado, senhor.
— Cansado estou eu também! —
explodiu o chefe do Estado-Maior ao
ouvido de Henckel, num tom de voz que
lembrava o roncar de um faminto animal
carnívoro. — O general está cansado!
Todos nós estamos cansados! Não quero
ouvir mais essa merda de desculpa!
Você é um oficial e vai cumprir seu
dever de oficial.
E desligou o telefone com um
barulho que fez tremer o ouvido
adormecido de Henckel. Ele ficou por
momentos ali em pé ao lado do telefone
e de repente voltou-se e saiu
cambaleando em direção ao banco. Mal
puxara o capuz para cobrir o rosto, e o
telefone o chamou novamente. Ele disse
cobras e lagartos mas levantou-se e foi
atender.
— Escreva aí, tenente — dizia o
ajudante com uma voz que denotava
alegria.
— Hora H BERTHA HELGA
LUDWIG ADOLF BERTHA. Repita.
Terminado.
— Hora H BERTHA HELGA
LUDWIG ADOLF BERTHA. Terminado
— respondeu Henckel, com ar cansado,
desejando que o ajudante e todo o
Estado-Maior estivessem se torrando no
inferno.
A ligação caiu. Sonolento como
estava, pensou que o ajudante é que
havia desligado. Com mãos trêmulas,
meio deitado sobre a mesa das cartas,
ele passou a mensagem para o papel.
Não ouvira nada sobre o cotejo dos
horários.
— Agora me deixem dormir
sossegado — disse, atirando-se
novamente no banco.
Os dois tenentes olharam para ele e
sacudiram a cabeça um para o outro.
— Esquisito essa chamada ser
cortada — comentou Rothe. — Tenho a
impressão de que faltou alguma coisa.
— Meu Deus! Estou mais morto que
vivo — reclamou Henckel quando Rothe
o acordou novamente, passada meia
hora.
Despejou um balde de água gelada
sobre a cabeça a fim de se reanimar.
Mas durou pouco. Um 3º sargento
lhe trouxe o último relatório. Juntamente
com os dois tenentes ele checou as
várias conexões e os horários.
Lentamente os horários foram outra vez
examinados.
— Venha cá, Rothe, leia tudo alto —
ordenou Henckel, já quase dormindo de
novo. Atirou-se numa cadeira com as
mãos passadas atrás da cabeça e os
olhos fechados.
— Comando de fogo deverá ser
dado às cinco horas e seis minutos —
leu Rothe, em voz alta. — Às cinco e
doze, artilharia pesada abre fogo com
setenta e cinco milímetros. Mais dois
minutos, blindados e infantaria atacam.
Barragem levanta-se sobre eles e
desloca-se para a frente, a fim de
aprontar o terreno para as tropas de
assalto seguintes.
— Mera rotina, nada de dificuldade
nisso — observou Henckel, com
indiferença, esticando as pernas
compridas e de botas. Bocejou
ruidosamente, quase deslocando o
maxilar. — Diabo, quase caio no sono
outra vez. Se não me conhecesse bem,
diria que estou com a doença do sono.
Me dá ai um bom gole de vodca. Isso
bota um cara em forma!
Com um olhar de soslaio para Rothe,
um 3º sargento trouxe um copo de vodca
para Henckel, que virou na garganta
todo o conteúdo de um só trago.
Mas o líquido entrou pelo caminho
errado, caiu no goto e ele teve um
tremendo acesso de tosse, levantando-se
de um salto para evitar a asfixia.
— Não seria melhor tomar uma
xícara de café, senhor? — perguntou
Hassow, preocupado. — Vamos ter de
conservar a cabeça fria e não acho que
vodca seja a melhor coisa para isso.
— Não me venha dizer o que devo
fazer, tenente — rosnou Henckel,
grosseiramente.
E pediu outra dose de vodca,
tomando-a sofregamente. O 2º Tenente
Hassow apresentou-lhe alguns papéis
para assinatura. Henckel assinou tudo
com um garrancho, sem ler. Rothe olhou
significativamente para Hassow, como
quem diz: “Lá se foi o perigol”
— Vamos testar as ligações —
ordenou Henckel, com uma pancadinha
no ombro do 3°-sargento de
comunicações.
Depois consultou o relógio. Eram
4:45.
— Me ligue com o Werfer. Essas
guarnições sempre precisam de mais
tempo do que qualquer outra.
Após uma rápida conversa com o
comandante dos Nebelwerfers, ele
mandou vir as cartas e decorou os
objetivos. Juntamente com os tenentes,
ele percorreu rapidamente todas as
ordens do Exército. Em seguida pediu
que o ligassem com os observadores
avançados da artilharia. Pareceu não ter
tido bom entendimento com o
observador avançado junto ao 104º
Regimento de Infantaria. Henckel deu-
lhe uma bronca e desligou bruscamente
o telefone.
Satisfeito, inclinou-se para trás em
sua cadeira e mandou que trouxessem o
terceiro copo de vodca.
— O senhor pensa que isso é bom?
— perguntou Rothe, preocupado.
— Quando eu quiser sua opinião eu
peço, tenente! — respondeu ele,
asperamente, levando à boca um
comprido cigarro russo provido de um
tubo de papelão.
Engoliu a metade da vodca e
esticou-se todo, as juntas estalando.
Consultou novamente o relógio e
observou que faltavam oito minutos para
a Hora H. Por um momento pensou em
tomar mais um trago antes de começar a
festa. A vodca o fizera otimista. Estava
ansioso para desencadear o seu
inferninho particular de fogo. Era a
primeira vez que atirava contra alvos de
verdade. Vou obrigar aqueles idiotas
presunçosos a abrir os olhos, pensou
satisfeito. Quem sabe eu posso até
ganhar a Cruz de Ferro pela perfeição
do controle de tiro. Ué, por que não?
Tomou o resto da vodca e olhou
desdenhosamente para os dois jovens
tenentes debruçados sobre a carta dos
objetivos. Pegou um dos seus compridos
cigarros russos, os quais, pensou, caíam
bem num indivíduo fardado. Antes de
acender o cigarro, o telefone tocou
insistentemente. Com uma pose de
homem realizado. tomou o fone das
mãos de Rothe.
— Que diabo você está querendo
arranjar? — berrou o chefe do Estado-
Maior, fulo de raiva. — Por que não
abriu fogo como foi mandado?
— Abrir fogo? — respondeu
Henckel nervosamente, olhando atônito
para o relógio. — Ainda faltam seis
minutos, senhor!
— Você está maluco? — continuou
aos berros o chefe do Estado-Maior,
com voz entrecortada. — Ah, seu idiota!
São exatamente cinco e dez! Eu tive de
esperar um tempo enorme para poder
falar com você! Você é o sujeito mais
inútil com que tenho tratado! Você, você,
você... O chefe do Estado-Maior não
conseguia encontrar palavras bastante
fortes para expressar seu juízo sobre o
controlador divisionário de tiro.
— Tenente Henckel, o senhor sabe o
que aconteceu? — perguntou por fim,
num tom de voz gélido. — Todos os três
regimentos blindados partiram e a
infantaria está atacando. Nenhum poder
terrestre pode detê-los. Espere... — e
sua voz de repente foi interrompida. Só
se ouvia na linha um distante zunido.
— Alô, alô, alô! — gritou Henckel,
zangado e receoso do que poderia
resultar do seu erro de horário. Os olhos
pareciam vidrados de angústia, ele
olhava à volta em desespero. Toda a sua
arrogante autoconfiança o abandonara.
“Espere...”, dissera o chefe do
Estado-Maior. Que quereria dizer com
isso?
Aguardar ao telefone? Ou seria o
começo de uma ameaça sobre o que ele
deveria esperar por ter falhado em sua
missão? Não, não podia ser isso! Talvez
fosse para ele aguardar uma outra
chamada.
— Que está havendo? — perguntou
Rothe, contrafeito, amedrontado,
encarando Henckel.
— Meu relógio está atrasado —
respondeu Henckel, pálido, vencido
olhando fixamente para o relógio. — Já
devíamos ter aberto fogo há alguns
minutos. Os tanques já estão atacando.
— Devíamos ter aberto fogo? —
perguntou Rothe, dando ênfase ao plural.
O senhor é que tinha de dar a ordem
para abertura de fogo! Não o Tenente
Hassow e nem eu! Mas como é que o
seu relógio estava errado? Certamente
todos acertaram os relógios ao deixar a
Divisão. E o procedimento normal.
— Eu estava dormindo em pé —
confessou Henckel, numa voz sepulcral.
— Devo ter esquecido isso.
— Meu Deus! — gritou Hassow,
horrorizado.
— O senhor devia saber que não
havia acertado o relógio pelo resto do
pessoal do Estado-Maior — afirmou
Rothe em tom reprovação.
— Eu me lembrei disso logo depois
de sair — suspirou Henckel, enxugando
o suor que se acumulava na testa.
— Então por que não voltou e fez
isso? — perguntou Hassow. sem
cerimônia. — — Meu relógio vinha
funcionando com precisão de segundo
— respondeu Henckel, em tom de
tristeza.
— Mas não desta vez — disse
Rothe, secamente. — Que minutinhos
caros esses!
O telefone chamou novamente.
— Rede de linhas para todas as
unidades de artilharia, senhor! — disse
o telefonista de Henckel, passando-lhe o
fone.
Por momentos Henckel ficou
olhando fixamente o fone na mão do
homem.
Que deveria fazer? Sentiu um vazio
na cabeça. Dissera o chefe do Estado-
Maior: “Espere...” Claro. Ele queria
dizer que eu aguardasse a formação da
rede de comunicações e a chamada
consequente, pensou.
— Pega o raio do fone, homem! —
gritou Rothe, desrespeitosamente. — Os
canhões estão aguardando suas ordens.
— Ordens? — resmungou Henckel,
ainda confuso. Encarou entorpecido o
Tenente Rothe, depois abriu
violentamente a apertada gola do
uniforme e soltou uma gargalhada
impressionante. — Me dá outra vodca!
— ordenou energicamente. Arrancou
com sofreguidão o copo das mãos do 3º
sargento.
Vou mostrar a eles, pensou.
Resolutamente pegou o telefone que
o ligava a todas as unidades e respirou
fundo, os olhos começando a brilhar
intensamente.
— Objetivo número um, abrir fogo!
— berrou dentro do fone, rindo
doentiamente ao repor o fone no gancho.
— Prática de Jüterburg, entendam!
Saibam o que isso representa!
— Foi uma decisão clara e firme! —
exclamou Rothe, admirado. — Vai com
certeza acordar todo mundo nos dois
lados da frente.
Todos os canhões de todas as
unidades elevaram seus tubos, us negras
bocas apontando para a escuridão do
céu de inverno. Os artilheiros estavam
prontos, com as mãos nos cordões de
disparar. Os chefes de peça e de seções
achavam-se tensos, aguardando a ordem
dos comandantes de bateria. As
guarnições dos Nebelwerfers estavam
abrigadas atrás das baterias, dedos nos
botões de disparo, prontas para
despachar seus foguetes mortais. Os
ponteiros dos relógios pareciam
empenhados numa correria louca. Tudo
parecia tranquilo, um silêncio talvez
sinistro reinando na manhã invernosa,
negra como azeviche. A manhã se enchia
de estrondos. estrépitos, gemidos, urros,
ruídos de toda espécie. Era como se uma
linha contínua de trens expressos
percorresse os céus sem parar. O ruído
dos canhões ameaçava fazer estourar os
tímpanos dos homens do Posto de
Controle de Tiro. Um longo e sinistro
som como o de um órgão fez-se ouvir no
meio do trovejar do canhoneio. E foi
crescendo em intensidade: até um ponto
em que os nervos pareciam arrebentar.
— São os Nebelwerfers —
sussurrou um 3º sargento, com a voz
alterada pelo medo.
— Deus do céu! — murmurou Rothe,
lançando um olhar de temor sobre o
terreno à frente. — Se não estivesse
vendo eu não acreditaria! Céu e terra
estão pegando fogo! Deus tenha pena
desses pobres coitados que se acham no
ponto de recepção dessa coisa toda!
Um sentimento feroz, indomável de
satisfação, tornou conta do Tenente
Henckel quando o fogo dos obuseiros
pesados sacudiu o Posto de Controle de
Tiro. O terrível estampido dos canhões
de 320 mm feria os ouvidos e fazia com
que tremores de medo corressem a
espinha de extremo a extremo. A escura
tonalidade da manhã de inverno
clareava como nos dias mais luminosos
do verão. Em toda a volta do horizonte
podiam-se ver os clarões das bocas dos
canhões. O arrebentamento das granadas
explosivas confundia-se com o fragor
geral, formando uma só onda de sons
estonteantes. Granadas após granadas
saiam trovejando das bocas dos
canhões.
Os suarentos artilheiros empurravam
as pesadas granadas para dentro das
culatras e depois colocavam as várias
cargas. As longe uma muralha de chamas
contorcia-se como dançarinas. Era como
se a terra estivesse vomitando para cima
um inferno de fogo. Cada salva
atroadora era inacreditavelmente
seguida por outra num mínimo de tempo,
estabelecendo uma série longa, contínua,
violenta, atordoante de trovões.
Os silvos e os estrondos das
granadas iam se tornando insuportáveis.
O terreno se esfacelava em sua
superfície como vidro partido. Os
edifícios ruíam como castelos de cartas.
Chamas multicoloridas elevavam-se às
alturas. As ondas de sopro premiam os
corpos humanos contra o solo lamacento
e escaldante. No horizonte, as chispas
dos canhões em ação dançavam no ar
como lampejos de vaga-lumes. As
baterias especializadas foram trazidas
para a batalha. Um novo som veio
juntar-se ao fragor do canhoneio—
Granadas incendiárias iam caindo,
espalhando para todos os lados um
líquido que se inflamava, queimando
tudo em sua passagem. Até o ar parecia
estar pegando fogo.
O Tenente Henckel acendeu outro
cigarro russo, com ar de satisfação
íntima, e tomou outro trago de vodca.
Sentiu-se agradavelmente disposto. A
sonolência desaparecera. E pensou: Que
coisa boa! Realmente uma boa e firme
decisão. Dignou-se até a dar uma
palmadinha no ombro do soldado das
comunicações. Num momento de
grandiosidade como aquele, ninguém
perde nada se condescender em dar aos
subordinados um pouco de amizade.
Essa a sua convicção.
A campainha do telefone de
campanha veio interromper sua saudável
meditação. Com um sorriso de
felicidade na face, ele pegou o aparelho,
contente por ter feito o que se esperava
que fizesse. Na realidade uma
brincadeirinha de criança, assim pensou
ao se lembrar de que já praticara aquilo
centenas de vezes na Escola de
Artilharia de Jüterburg.
— Aqui o controlador de tiro —
disse com voz forte, austera, o rosto
marcado pelas rugas da severidade.
— É você, Henckel? — perguntou a
voz moderada do comandante da
Artilharia, o Tenente-Coronel Grün.
— Sim, senhor. E o Henckel.
— Você deu a ordem de abertura do
fogo?
— Dei sim, senhor — respondeu
Henckel cheio de orgulho, convencido
de que iria receber elogios e a promessa
da Cruz de Ferro.
Houve uma curta e significativa
pausa. A voz calma do superior fez-se
ouvir novamente: — Quando deu a
ordem para abrir fogo, Henckel?
— Há seis minutos exatamente,
senhor — respondeu Henckel, feliz da
vida.
— Há seis minutos! Muito bem. E
deu a ordem para todas as unidades?
— Claro, senhor. O chefe do Estado-
Maior pensou que meu relógio pudesse
estar um pouco atrasado.
— Então foi assim, Tenente
Henckel?
O tenente-coronel deu bastante
ênfase ao posto de Henckel.
Isso por si só já poderia constituir
um aviso para ele.
— Eu me convenci de que o chefe
do Estado-Maior estava errado, senhor.
Confiei no meu relógio, que nunca
me decepcionou, e por ele é que dei a
ordem de abrir fogo. O senhor talvez
pudesse dizer que eu tomei uma decisão
precipitada — disse Henckel com um
riso de confiança.
— O senhor tomou uma decisão
precipitada! — redarguiu o Tenente-
Coronel Grün, fazendo um intervalo bem
sensível após cada palavra. — Qual foi
a ordem do chefe do Estado-Maior para
o senhor, quando se falaram ao telefone?
Qual foi a última palavra dele?
O sangue de Henckel pareceu
congelar-se em suas veias. Ele teve
vontade de largar o telefone e sair
fugindo. Fugir pela estepe afora, fugir
para os russos.
Ficar escondido e olvidado, em um
campo de concentração, até a guerra
terminar. Era como se a própria morte
estivesse no outro extremo da linha
telefônica.
— A última palavra do chefe do
Estado-Maior, senhor? Foi “Espere!" —
gaguejou, percebendo subitamente a
gravidade da situação.
— Sim, foi isso: “Espere” — gritou
o Tenente-Coronel Grün furioso,
perdendo a serenidade inicial. —
“Esperei” “Espere”. Idiota incorrigível!
“Espere!” O senhor consegue
imaginar o que fez? As tropas blindadas
e a infantaria atacaram ã hora
determinada. Nenhum poder terrestre
poderia detê-
los. Quando passaram pelo primeiro
objetivo do ataque o senhor, o senhor!,
abriu fogo. Com seis minutos de atraso!
— berrou. — O senhor massacrou as
nossas próprias tropas! O senhor tomou
uma decisão precipitada! O senhor
massacrou os nossos homens! A
artilharia russa não poderia ter feito isso
mais eficientemente! Não sei o que
estarão pensando por lá. A sua sábia
decisão mandou todo o Corpo de
Exército para o inferno! O senhor
confessa ter ouvido a claríssima ordem
do chefe do Estado-Maior: “Espere!”?
— Eu devo ter entendido mal,
senhor — disse com voz fraca o mísero
controlador de tiro. — Pensei que era
para eu ficar esperando junto ao
telefone.
O Tenente-Coronel Grün inspirou
profundamente. Se Henckel estivesse ali
com ele certamente o teria estrangulado.
— Esperar ao telefone! — repetiu o
tenente-coronel com um riso frio. — O
senhor se considera um mensageiro?
Jüterburg o recomendou como
controlador de tiro. Vai lhes sair caro!
Preste bastante atenção, Tenente
Henckel. Não quero mais mal-
entendidos. O senhor vai passar
imediatamente o cargo para o Tenente
Rothe. Não interfira em mais nada,
aconteça o que acontecer!
Considere-se preso, sente-se num
canto e aguarde a chegada do ajudante,
que está a caminho do seu posto.
Entregue sua pistola ao Tenente Rothe.
Lembre-se de que está preso! Não tente
tomar o rumo mais fácil, usando a
pistola!
— Sou um oficial, senhor! —
defendeu-se Henckel. — Permita que eu
mesmo assuma as consequências desta
terrível ocorrência. Sou um oficial!
— Sim, tanto pior! — vociferou o
Tenente-Coronel Grün. — Mas o senhor
ficará surpreso quando souber o que os
comandantes da infantaria pensam do
senhor. O comandante do Regimento
Blindado, Tenente-Coronel Hinka, acaba
de me telefonar. Ele quer sua cabeça! O
senhor assassinou dois terços do seu
regimento! Mas eu o quero ver perante
uma corte marcial. Idiota incorrigível!
Chame o Tenente Rothe!
Sem dizer nada, Henckel entregou o
fone ao Tenente Rothe.
— Sim, senhor! — disse Rothe, e
ficou repetindo: — Sim, senhor! Sim,
senhor! — até recolocar calmamente o
fone no gancho.
Ele encarou, petrificado, Henckel,
que estava sentado num banquinho, com
a cabeça entre as mãos, balançando o
corpo para um e outro lado.
— Rothe, eu fui dispensado — disse
Henckel, sem ânimo. — Estou preso.
Você assume o cargo. Toma minha
pistola.
— Eram essas as ordens do Coronel
Grün — murmurou Rothe, amargurado.
— Mas... mas o que aconteceu?
— Atiramos sobre nossas próprias
tropas! Massacrei o Corpo de Exercito!
— Deus tenha pena do senhor —
disse Hassow, horrorizado.
— Rothe, me ajude! Me dê de novo
a pistola — pediu Henckel, estendendo
a mão, humildemente.
Rothe olhou para ele, em dúvida, e
estava para lhe entregar a pistola quando
a porta se abriu ruidosamente e o
ajudante entrou como uma bala. O
costumeiro e cínico sorriso lhe bailava
nos lábios.
— Muito bem, muito bem! E aqui
temos o grande especialista em controle
de tiro de Jüterburg! — exclamou,
ironicamente, quando os seus olhos
caíram sobre Henckel. — O comandante
da Divisão está aflito para encontrá-lo
novamente e arrancar-lhe uns bons
pedaços da pele. Por que diabo você
não pôde esperar pela ordem para então
abrir fogo? Até os praças mais
ignorantes sabem que não se deve abrir
fogo com seis minutos de atraso! Meu
Deus! O que você foi fazer! Espero que
esteja fora da Divisão antes que os
oficiais da infantaria e dos blindados lhe
possam pôr a mão em cima. Eles
arrancam seus intestinos pela garganta!
— A culpa não foi minha! Houve um
mal-entendido — murmurou Henckel em
desespero, explodindo em lágrimas.
— Você terá ocasião de explicar
isso quando estiver em frente a uma
corte marcial — disse o ajudante, rindo
friamente. — Sua única chance são os
psiquiatras. Se eles não puderem salvá-
lo, você vai receber seus dez tiros e
pronto!
— Me dá minha arma! — pediu
Henckel, agarrando o braço do ajudante.
— Gostaria disso, não é? — reagiu
o ajudante, com uma risada sarcástica.
— Eu nunca desejei ver um homem
comparecer perante uma corte marcial.
Mas em relação a você, é esse o meu
maior desejo!
Pouco depois o Tenente-Coronel
Grün chegou acompanhado de dois
policiais militares e um inspetor de 1ª
Classe da Polícia Secreta de Campanha.
— Levem-no daqui! — ordenou o
Tenente-Coronel Grün, com
repugnância.
— A simples presença dele me da
náuseas!
As algemas fecharam-se sobre os
punhos de Henckel. Ele deixou o Posto
de Controle de Tiro pendurado entre os
dois gigantescos PM como um monte de
trapos acima de um par de cambaleantes
botas de montar.

Soldados são cidadãos da terra


escura da morte.
Siegfried Sassoon

O comandante da Prisão OGPU


escorregou da cadeira e caiu sentado,
com as pernas muito abertas, no meio
da enorme poça de sangue. Os óculos
escuros escorregavam-lhe pelo nariz e
os olhos cruzavam-se estranhamente. O
quepe, com a faixa azul e a estrela
vermelha em grande dimensão, pendia
para um lado, tapando um olho. O seu
braço esquerdo estava caído, inerte, e
o sangue escorria ao longo dele e
acabava pingando pelas pontas dos
dedos.
Com o braço direito ele conseguiu
pegar sua pistola Nagan, levantou-a e
deu um riso silencioso. No espaço
fechado, o estampido soou como um
obuseiro disparando dentro de um
salão de baile.
Porta desviou-se e atirou por seu
turno. Todos os quatro projéteis
penetraram no corpo do oficial da
OGPU, fazendo-o estremecer
espasmodicamente. Seu quepe caiu e
rolou pelo chão. Estranhamente os
óculos firmaram-se no nariz e voltaram
à posição normal.
Os revolveres de Porta e do russo
atiraram novamente, ao mesmo tempo.
Um grande vaso azul espatifou-se,
cacos e água derramando-se pelo chão.
A arma de Porta falhou e o comandante
da OGPU tornou a rir em silêncio.
— Vá para o inferno! — conseguiu
dizer e apontou a Nagan.
Porta tentou chutá-lo, mas
escorregou no sangue e ficou caído no
chão. O russo esboçou um riso e de sua
garganta saiu um som como de
chocalho.
Estendida no chão, Porta olhava,
paralisado, para a boca ameaçadora
da Nagan.
Tiny inclinou-se sobre a secretária
e teve de se deitar sobre o estômago
para comprimir o cano do seu 08
contra os cabelos escuros e cortados à
maneira regulamentar do oficial da
OGPU. E apertou o gatilho. A cabeça
do oficial explodiu corno uma melancia
madura demais. Massa encefálica,
sangue e ossos espalharam-se pelo
forro e caíram pelas paredes. Os óculos
escuros saltaram dos olhos e foram
cair perto da porta. Um prisioneiro
vestindo um casaco cinza amassou-os
com a bota.
— Hurra! — gritaram os
prisioneiros. E um a um aproximaram-
se e chutaram o corpo do oficial da
OGPU.
11
OGPU — A prisão soviética

— Tudo pronto? — perguntou o


Velho, examinando a posição.
— Ouçam bem, seus beberrões
vagabundos, e não me interrompam. A
seção vai avançar logo atrás da
barragem, que vai varrer tudo à nossa
frente. Se a artilharia não tiver
esmagado as posições e enfraquecido o
inimigo, então a gente acaba com o que
tiver escapado usando granadas e armas
automáticas.
Nos primeiros minutos após o
levantamento da barragem, os russos não
vão saber se cagam ou tiram o rabo do
penico. E aí a gente não perde tempo e
empurra o olho do eu deles até as
orelhas. Estão vendo aquele arbusto
esquisito ao lado de uma árvore copada
ali? — passou o binóculo a Porta, mas o
tal arbusto podia ser visto a olho nu.
Tinha a forma de um cavalo sentado.
— Que que há com o arbusto
esquisito? — perguntou Gregor,
tomando o binóculo de Porta.
— Eles têm ali um canhão de
cinquenta milímetros, abaixado até o
nível do solo — explicou o Velho,
pitando o seu cachimbo com tampo de
prata. — Uns trezentos metros atrás está
um grupo de oitenta milímetros,
enterrado.
Mulheres. Mas não se iludam. Elas
vêm de uma brigada de linha e têm uma
bruta experiência. De modo que é
arrebentar com elas. Se facilitarem elas
pegam vocês pelas costas e aí é que eu
quero ver.
— A gente manda elas para o inferno
e pronto — disse Porta, resoluto.
— Um pouco à frente da árvore
copada — continuou o Velho — estão
caídos quatro bárbaros mortos. Vocês
veem eles? Podem usá-los como
cobertura enquanto esperam a Hora H.
Se o inimigo perceber algum movimento
por lá, certamente vai pensar que são os
corpos deslocados pelo sopro das
explosões.
— E se forem bonecos fardados, não
ficaremos logrados? — interveio Tiny.
— E se eles descobrem que aqueles
corpos estão cheios de vida de alemães,
que pode acontecer?
— Aí vocês providenciam um passe
para o Reino dos Céus, que tal? —
gracejou o Velho, sarcasticamente. —
Não iriam poder sair da posição, nem
para a frente nem para trás.
— Ia ser um fracasso. Bastante para
fazer um avestruz suar sangue —
resmungou Gregor, duvidoso e
examinando cuidadosamente o terreno
com o binóculo. — Mas aqueles caras
certamente arranjaram um belo jeito de
se saírem bem. Deviam ter a gente em
mira quando fizeram isso.
— Eta Exercito podre, homem!
Nunca sai perdendo! — disse Albert,
com azedume. — Mesmo depois que se
morre e se some eles não dão uma
trégua!
— Vivem atrás da gente, tudo bem,
mas grudados que nem merda quente no
vaso — disse Barcelona. — Chutam
nosso rabo, fazem a nossa cabeça e nos
forçam a ficar de boca calada!
— Sossego a gente só tem mesmo
quando está frio e estica— do, homem!
— prosseguiu Albert, indignado.
— Quando a gente está seis palmos
abaixo da terra, comendo capim pela
raiz, aí eles trazem violinos e flautas e
cantam em louvor da gente — ironizou
Porta, abrindo os braços largamente. —
Quando se está vivo, ninguém faz isso.
Só faz quando a gente é bastante
estúpido para não se desviar de uma
bala que vem vindo em nossa direção e
acaba nos matando.
À medida que a Hora H para o
grande ataque se aproximava, a
companhia ia sendo presa de uma
estranha sensação de morte, que sempre
precede um ataque. Nós nos
exaltávamos à toa uns com os outros,
ficávamos com os nervos tensos pelas
mínimas causas. Os lábios se
comprimiam fortemente e os olhos se
tornavam vazios e vítreos. Os estômagos
eram tomados de câimbras provocadas
pelo medo.
O Velho olhava frequentemente para
o relógio e, de binóculo em punho,
examinava cuidadosamente o terreno à
nossa frente.
— Isso tudo que eu venho dizendo já
foi feito? — perguntou, testando a
pistola de sinalização.
Um murmúrio geral incompreensível
foi a resposta.
— Que tal uma fezinha? — ofereceu
Porta, chocalhando os dados.
Ninguém se preocupou em
responder. Olhamo-nos uns para os
outros, sabendo bem que para muitos
aquela seria a última manhã de sua vida.
Quais de nós iriam dessa vez? A
pergunta era feita mentalmente e nossos
olhos corriam em volta, errantes. Claro
que não seria a vez de nenhum de nós. A
gente sempre pensava assim. E
ficávamos surpresos quando acontecia o
contrário.
A lista dos homens que caíram era
bastante longa. Muito longa! O nosso
grupinho vinha vivendo junto há muito
tempo e parecia, de certo modo, que
aprendêramos a passar incólumes por
entre os estilhaços cortantes corno facas.
Escapávamos da morte por coisa de
fração de polegada.
Um longo e agudo silvo nos fez dar
um pulo. Um corte de alguns centímetros
surgiu na testa de Gregor. Ele deu um
grito e caiu para trás. Por momentos
pensamos que tivesse morrido, mas após
alguns segundos de ansiedade seus olhos
voltaram a se abrir.
— Diabo! — resmungou ele, com o
rosto torcido de dor. — Detesto levar
tiro!
— Passou pertinho — disse o 2º
Tenente do Corpo de Saúde Jarmer,
cuidando do ferimento com mãos hábeis.
— Você teve sorte! A bala passou
raspando.
— Tenho a impressão de que ela
está ainda rodando por dentro,
procurando uma saída — rosnou Gregor,
cobrindo o rosto com as mãos.
O Major Zaun chegou, chefiando sua
turma de engenheiros. Vinham
praguejando e xingando sob o peso do
seu pesado equipamento. O tipo especial
de lança-chamas já seria suficiente, mas
eles traziam também caixas de
explosivos de alto teor e grandes rolos
de fios especiais.
Um 1º sargento que trazia a
crueldade estampada na fisionomia
abriu, arrebentando-a, uma caixa de
explosivo plástico. Porta e Tiny tiraram
dela uma boa quantidade.
— Que é isso, homem? — perguntou
Albert, curioso e inclinando-se sobre a
caixa aberta, cheia de pequenas
embalagens. O aspecto era de pacotes
de sabão.
— Este troço é capaz de arrancar
você de sua pele preta — disse rindo o

sargento. — Experimente pisar
neles. Fazem você até mesmo
empalidecer, rapaz.
— merda! — rosnou Albert,
afastando-se cautelosamente das caixas.
— Cinco minutos para a Hora H —
informou um major, cujas feições duras
como que contavam a história de muitos
encontros desesperados. E a boca estava
torcida, como se tivesse sido posta numa
moenda.
O Velho pegou seu apito, ajustou a
jugular e enfiou mais algumas granadas
de mão nas botas.
— Pronto, senhor! — resmungou.
— Não vá nos deixar mal,
subtenente — disse o major,
rispidamente. — Nossas vidas
dependem em grande parte de vocês. Os
engenheiros aprontavam suas bananas de
explosivos. Os ponteiros iam girando,
reluzentes, nos mostradores dos
relógios.
— Onde estarão esse raios de
canhões? — perguntou Barcelona,
olhando inquieto sobre seu ombro.
— Aquilo de sempre — disse Porta,
rindo. — Os pobres infantes continuam
sendo passados para trás. Não há nada
que ande sempre direito neste maldito
exército. Os serventes dos canhões estão
dormindo por aí e não dão um pingo de
confiança para nós, míseros pés de
poeira.
— Que será que está havendo? —
perguntou o major, já preocupado. — Da
Hora H mais um até a Hora H mais sete
é a barragem. E já estamos na Hora H
mais oito!
Ele comparou o seu relógio com o
do Velho e o do 3º Sargento Brandt.
— Está certo — disse ele,
pensativo. — Alguma coisa está saindo
errado, mas por que cargas d'água não
mandam a mensagem?
O ruído do disparo de canhões de
122 mm e 150 mm veio repentinamente
do lado da Prisão OGPU. As granadas
passavam sobre nós e iam arrebentar no
meio da floresta.
— Prontos para atacar — exclamou
o major, rigidamente, destravando a
metralhadora.
— Não podemos avançar sem apoio
de artilharia — protestou o Tenente
Gernert, aborrecido.
— Se precisar dos seus conselhos,
tenente, eu peço — respondeu zangado o
major. — Já é Hora H mais dez! Vamos
atacar como foi ordenado! Avançar!
— É uma loucura! — insistiu o
tenente. — Vão nos matar como se mata
gado!
Não podemos chegar a essa maldita
prisão sem apoio de artilharia. Já
passamos por isso vezes sem conta.
— Para Deus e o Exército prussiano
nada é impossível — disse Porta, rindo
fleumaticamente. — Fé em Deus e pé na
tábua! Pelo Führer e pelo Reich, hurra!
— Muitas vezes fico imaginando se
Deus estava de bom humor quando nos
deixou entrar neste mundo miserável
como prussianos — disse Tiny, rindo
ruidosamente.
— Você devia ter orgulho de ser
alemão — interveio Heide num assomo
patriótico, empinando o peito.
— Faço votos para que você
continue podendo se orgulhar — disse o
major com um sorriso mordaz. Heide
lançou-lhe um olhar de desdém e
resmungou qualquer coisa
incompreensível.
— Agora! — ordenou o Velho,
energicamente, soprando o seu apito.
Formas camufladas de branco
começaram a aparecer por toda parte na
neve, passando a deslocar-se para a
frente a passos largos e rápidos.
— Vamos em frente, vamos em
frente! — comandou o major, com voz
penetrante.
A despeito dos seus 50 anos, ele
partiu com a desenvoltura de um jovem
e continuou para a frente, vencendo a
neve profunda, com a metralhadora
numa das mãos e uma carga de
explosivo na outra.
Os arpões subiram com as cordas,
assobiando, ao longo do rochedo
escarpado. As primeiras tropas de
assalto iniciaram a escalada. Os clarões
lampejavam nas trevas da noite. Chamas
elevavam-se das bocas das armas
espalhadas por toda parte.
— Allah-el-Akbar, vive la mort! —
gritou fanaticamente o pequeno
Legionário, atacado por uma psicose de
guerra que o perseguia em todos os
combates.
Caí sobre um rolo de arame farpado,
ficando preso pelas pontas agudas do
metal. Elas penetraram no tecido do meu
comprido capote de inverno e feriram a
minha pele. Rapidamente comecei a
procurar o meu cortador de arame mas
não consegui achar. Deve ter caído pelo
caminho. O terror tomou conta de mim.
Desesperado, comecei a procurar pelos
companheiros. Já haviam desaparecido,
avançando na escuridão, A pior coisa
que pode acontecer à gente num ataque é
perder o contato e ser deixado para trás,
entregue à própria sorte.
No momento nós tínhamos a
iniciativa, mas essa podia mudar a
qualquer hora.
Em minutos talvez. E aí Deus
poderia ajudar o homem que estava
liquidado.
Uma bala nas costas. Ou talvez pior.
— Você está numa banana legal —
exclamou Barcelona, dando uma gostosa
gargalhada e inclinado-se para mim.
Rapidamente cortou o arame e me
deixou livre. Os pedaços. cortados
caíram para os lados. Sem perda de
tempo pulei para dentro de um buraco,
juntamente com Porta e Tiny.
— Gregor esta um pouco à frente —
informou Porta. apontando para a
profunda escuridão. — Vamos encontrá-
lo. Temos de estourar a entrada com
granadas.
Estávamos a não mais de cem metros
do canhão e qual fora maravilhosamente
camuflado. Não conseguíamos vê-lo,
mesmo quando os clarões iluminavam
momentaneamente tudo.
— Estão tirando uma tora —
murmurou Tiny escandalizado, esticando
o pescoço. — Os miseráveis nunca mais
vão poder nos sacanear.
— Agora, lancem! — ordenou
Gregor, com voz forte, levando o braço
para trás.
As granadas subiram girando e
fazendo um alto arco e foram cair dentro
da posição russa. Porta e Tiny
aprontaram outras, que nos passaram.
Meu braço estava doido. Para se
arremessar uma granada tão longe
quanto Gregor e eu treináramos para
conseguir, usava-se uma técnica especial
de arremesso e muita força. Todo o peso
do corpo aplicava-se na operação.
Particularmente difícil era fazer o
lançamento quando se estava deitado.
Assim como se o corpo fosse, também,
acompanhando a granada.
As nossas duas primeiras granadas
devem ter caído num depósito de
munições. A explosão foi tão violenta
quanto uma erupção vulcânica. O canhão
de cano longo voou pelo ar juntamente
com a guarnição. O Velho surgiu do
meio da neve cegante à testa de um
grupo de homens.
— De pé, cambada! — gritou,
empolgado, avançando para dentro do
que restara da posição aniquilada.
Deslocando-nos em ritmo arriscado,
atravessamos a neve profunda e em
parte já reduzida a pó e fomos nos
abrigar no lado mais afastado da
posição.
Tínhamos de prosseguir antes que os
sobreviventes se reagrupassem e
lançassem sobre nós tudo o que tivessem
conseguido reunir.
Tiny parecia um desses elefantes
atacados pelo amok, o terrível acesso de
fúria. Ele ergueu sobre a cabeça a sua
ferramenta de sapa e a fazia girar,
golpeando ou cortando, em furiosas
arremetidas. Atravessamos a proteção
de arame farpado nos primeiros cinco
minutos, atirando granadas dentro de
abrigos e trincheiras individuais. Como
um furacão, nós arrasamos a posição
inimiga.
Ao clarão de um arrebentamento eu
vi o major de engenheiros e seu grupo
de lança-chamas atacando as mulheres
artilheiras, que saíram correndo dos
seus abrigos. Elas levantaram as mãos e
pararam horrorizadas à frente dos
infernais atacantes inimigos camuflados
com a cor da neve. As chamas
avançaram em longas e ferozes línguas.
Em seguida sentiu-se um forte cheiro de
gordura queimada e carne carbonizada.
Tivemos um rápido descanso na
posição inimiga. Sentíamos como se os
nossos peitos fossem demasiadamente
estreitos para conter os pulmões. A
despeito do frio intenso, transpirávamos
bastante. Abrimos violentamente a gola
do uniforme, pensando somente numa
coisa: ar! A neve à nossa volta estava
coalhada de corpos quebrados,
carbonizados, ensanguentados. As
chamas emitiam um som como o de
carne de churrasco no espeto.
— Onde andam os raios dos
canhões? — gritou o Velho, furioso.
— Onze minutos de atraso até agora!
— resmungou o Tenente Gernert.
— O que eles esperam agora para
abrir fogo é a gente chegar às posições
inimigas — previu Barcelona,
pessimista.
— Eles não podem estar loucos a
esse ponto! — gritou Gregor, assustado.
— Devem saber que estamos agora à
mercê deles.
Um arrepio de terror subiu pela
nossa espinha. Ser esmagado pela nossa
própria artilharia seria a coisa mais
estúpida que nos poderia acontecer.
— Merda à vista! Vamos dar o fora
daqui já e já — propôs o Legionário,
olhando interrogativamente para o
Velho.
Uma companhia de motociclistas
surgiu no meio da fumaceira sufocante e
nociva que subia do chão. O seu
comandante, um 1º tenente de cabelos
grisalhos, acenou para nós e disse
qualquer coisa que não pudemos
compreender.
— Vá para o inferno! — berrou
Tiny. — Não é qualquer pistoleiro
vagabundo que possa vir dando ordem a
nós. A coisa ainda não está tão feia
assim! Ainda estamos nos aguentando
bem!
— Vamos embora, vamos embora!
— gritava o 1º tenente, aflito,
levantando a mão fechada para traduzir
o comando de acelerado.
Rimos dele ostensivamente e
fingimos não perceber os seus sinais.
Por experiências bem amargas sabíamos
o que nos poderia acontecer se nos
misturássemos com grupos estranhos.
Pegaríamos sempre as piores tarefas,
recendendo a heroísmo e morte.
— Daqui não saio sem apoio de
artilharia, entendeu? — disse Porta,
categoricamente. Pegou na mochila um
resto de chouriço e continuou: — Nem
mesmo o nosso Maior Líder Militar de
Todos os Tempos, ou seja, o GROFAZ,
no auge dos seus mais psicóticos
acessos, avançaria para essa prisão
comunista sem apoio de fogo!
Uma explosão avassaladora o
interrompeu. Fogos concentrados
martelaram o terreno tanto na frente
como atrás de nós. Dentro de poucos
segundos o canhoneio aumentou para se
transformar num verdadeiro tufão de aço
e fogo.
Era como se a própria terra fosse
atirada para os céus e caísse depois com
enorme estrondo. O horizonte inteiro se
inflamara de nordeste a sudoeste.
O sopro nos atirava para todos os
lados, como se fôssemos bola de
futebol.
Nós nos agarramos com mãos e pés
ao chão coberto de neve.
Uma explosão gigantesca abalou o
abrigo do comando das comunicações.
Destroços de madeiramento, cabos
telefônicos, corpos humanos
descarnados foram espalhados numa
horrível mistura pelo campo de batalha.
Outro impacto direto na já destruída
posição acabou de esmagá-la, A área
assemelhava-se a um terrível e confuso
monturo de imundície.
Um pouco para trás, uma poderosa
granada atingiu o abrigo dos ordenanças,
que ficou transformado num fervente
caldeirão de sangue e ossos partidos. As
granadas caiam incessantemente. Onde
era a companhia de lança-chamas
apresentava-se um novo panorama de
buracos fumarentos e materiais
destruídos, misturados a sangue humano.
Com força inacreditável o canhoneio
concentrado atingia as elevações.
Corpos humanos eram atirados ao ar
e caíam ao chão como uma massa
irreconhecível.
Um som diferente veio abafar o
ruído dos canhões. Uma cortina de fogo
deslocou-se em nossa direção como um
rolo compressor. Os soldados alemães
em pânico fugiram, ombro a ombro com
os russos, mas foram alcançados pela
chuva de granadas que tudo consumiam
e destruíam. Partes dilaceradas de
corpos humanos eram atiradas para o
alto, onde tudo se assemelhava a um
braseiro. Homens feridos lançavam
gritos de cortar o coração, mas ninguém
podia ajudá-los. O terreno inteiro
transformara-se num inferno de fogo
indescritível. Era o fim do mundo.
O ribombar ensurdecedor dos
canhões de 105 e 150 mm nos mantinha
com os rostos colados à neve. Numa
incessante sucessão de explosões,
chuvas de fogo caíam sobre as
companhias de assalto, fazendo delas,
em segundos, uma pasta de sangue e
carne dilacerada. Cautelosamente
levantei a cabeça e comecei a me
levantar.
— Abaixe-se! — berrou o Velho,
rolando para dentro de uma cratera de
granada.
Uma nova chuva de granadas fez a
terra tremer como nos estertores de um
violento terremoto. O ar estava tomado
quase inteiramente pelos shrapnels
incandescentes. Em cada polegada de
terreno caíam estilhaços.
O Velho apanhou a pistola de
sinalização do Tenente Gernert e lançou
um sinal vermelho. A barragem
continuou, sem pausa. O velho lançou
outro sinal vermelho e xingou a
artilharia. A essa altura já tínhamos
percebido que quem atirava sobre nos
era a nossa própria artilharia.
O fogo pulverizador deslocou-se
com lentidão para a frente, destruindo as
posições russas que os alemães já
haviam tomado. As granadas caíam à
retaguarda dos aterrorizados soldados
da linha de frente. Os corpos eram, uns
atrás dos outros, arrancados dos abrigos
na neve e jogados para o alto. As nuvens
abriram-se, revelando um longo e
agitado mar de chamas.
No decurso de um único segundo, a
impressão era de que um pulso
gigantesco tinha reduzido árvores e
casas a uma pasta repugnante. Nossos
nervos foram postos em intensa vibração
por um longo, medonho, angustiante
lamento. Aterrorizados,
acompanhávamos com a vista as
extensas riscas de fogo que cortavam os
céus, como se fossem cometas, e
terminavam em tremendas explosões nas
partes elevadas do terreno. Uma floresta
de nuvens incandescentes,
avermelhadas, em forma de gigantescos
cogumelos, elevava-se da terra.
Foguetes penetravam na neve.
A artilharia pesada russa veio
juntar-se ao concerto infernal. O ar
gelado parecia tinir com o som
produzido por aço contra aço. As
granadas precipitavam-se no solo. Nada
era poupado. A floresta já tão sofrida
pela ação da geada, e que se estendia ao
longo das elevações arredondadas, foi
eliminada da face da terra, em urna
longa varredura, pelas rajadas dos
canhões. Delas só restaram galhos
chamuscados e tristes.
Lentamente o inferno de fogo foi se
deslocando para a frente, tudo
destruindo em sua passagem. Nada
escapou da destruição. O terreno ficou
irreconhecível. Inteiramente revolvido,
como se um idiota, munido de um arado,
o tivesse percorrido para lá e para cá
em toda a sua dimensão. Por toda parte
corpos inertes e gritos de feridos.
Justamente quando estávamos
prestes a retomar nosso equilíbrio, um
novo ruído cortou os ares. Era como se
milhões de tambores de óleo, vazios,
viessem correndo os ares com seu ruído
característico. Um imenso lençol de
fogo subiu aos céus e uma explosão
ensurdecedora sacudiu a terra. Julius
Heide gritou e correu para um buraco na
neve, ao lado de Porta. O 3º sargento
Brandt veio fugindo do abrigo
semidestruído, o sangue esguichando do
rosto, e sem dizer uma palavra meteu-se
entre nós. Urna companhia de infantaria,
inteirinha, ao procurar abrigo, foi
atirada para o ar. E caiu ao chão numa
impressionante mistura de sangue e
carnes dilaceradas.
— Deus do céu, tenha piedade de
nós — soluçava o Tenente Gernert,
quase fora de si. — Os idiotas abriram
fogo muito tarde. Ouviu›se um silvo
agudo e ele foi atingido mortalmente. O
capacete rasgou-se, como se lhe
tivessem passado um abridor de lata
gigantesco. Metade do rosto foi
arrancada. Tal como um balão furado,
ele foi se afrouxando e caindo sobre a
poça do seu próprio sangue.
— Russos! Os russos estão vindo!
— gritou um grupo de granadeiros,
cheio de pavor, descendo das elevações
como se o diabo em pessoa estivesse em
seu encalço.
Barcelona lançou uma granada que
provocou prolongada e violenta
explosão em algo que ele pensou ser um
russo. Eu tirei do cinto uma granada,
puxei o grampo e a arremessei.
O canhão antitanque troava
irritantemente, juntando seu ruído ao
matraquear das metralhadora pesadas.
— Agora a coisa esquentou mesmo
— resmungou Porta, olhos vidrados,
ajustando a coronha da metralhadora
leve contra o ombro. À nossa frente, os
capacetes decorados com a estrela
começavam a ser distinguidos no meio
da espessa cerração.
— Hurra! Hurra! — gritavam os
vultos, de uniforme caqui, ao saírem de
dentro do moinho, na borda da elevação.
Num instante aprontamos as nossas
armas automáticas. As metralhadoras
atiravam em vultos. As granadas de mão
foram cair no meio do compacto grupo
de atacantes. Um sinaleiro esforçava-se
para fazer funcionar o rádio, gritando no
microfone. Mas a linha estava em
silêncio, todos os fios haviam sido
cortados há muito tempo. Ele acabou se
desesperando e dando chutes no telefone
emudecido.
— Precisamos de uma cobertura de
canhões — gritou o Tenente-Coronel
Hinka, que chegara à frente com todo o
seu estado-maior, armado de carabinas e
pistolas automáticas.
— Vamos mandar o professor, esse
bunda-suja explorador — sugeriu Tiny,
rindo às gargalhadas, convencido de ter
dito uma coisa muito engraçada.
— Está maluco? — respondeu Porta.
— Ele só ia parar quando chegasse ao
meio do Atlântico.
— Ele está morto — gracejou
Gregor, olhando para o corpo do
professor, meio caído embaixo de um
rochedo.
— Você está morto? — perguntou
abruptamente Tiny, ameaçando-o com a
baioneta.
— Me deixem sozinho — disse o
professor, quase chorando.
— Meu Deus! Que foi que eu fiz
para merecer tudo isto? Me ajudem,
companheiros, me ajudem!
— Fecha essa boca, seu porco
covarde! — gritou o Velho.
Enquanto ele falava, os céus se
abriram. Era como se se abrissem as
portas do inferno. Os fogos da artilharia
varreram o terreno fragorosamente. As
granadas de 210 mm caíam tão próximas
umas das outras que parecia impossível
alguém poder escapar. Pouco a pouco a
frequência da queda aumentou até um
grau em que um ensurdecedor,
insuportável fragor nos dificultava a
respiração.
As colunas atacantes russas foram
massacradas numa chuva de fogo e aço.
Um soldado russo saiu cambaleante
de uma nuvem incandescente de gases de
enxofre. A barriga estava inteiramente
rasgada, os intestinos arrastados atrás
dele. Acabou desaparecendo num mar
de chamas.
Grupos de soldados desarmados
saíram pelos campos, aos gritos. Foram
apanhados por uma terrível sucção de ar
que os atirou como coisas inanimadas na
voragem da tempestade de fogo.
— Para a frente! — comandou o
Tenente-Coronel Hinka, fazendo o gesto
respectivo com o seu único braço.
Avançamos através de um terreno
coberto de corpos inanimados e feridos
gementes, escorregando em pedaços de
carne e outros remanescentes de seres
humanos. Por momentos jogamo-nos ao
chão, atrás de um monte de corpos, que
crescia de minuto em minuto.
— Para a frente! — gritaram os
comandantes de companhias e pelotões,
mas sem resultado.
Quem quer que se levantasse seria
imediatamente massacrado. A terrível
chuva de altos explosivos percorria as
alturas, como uma erupção vulcânica.
Uma incrível concentração de fogos
de artilharia caiu sobre nós,
transformando tudo em poeira e cinza. O
inferno beijava a terra! Gases enjoativos
e venenosos emanavam de buracos e
crateras.
A gigantesca prisão da colina estava
sendo incessantemente bombardeada
pelos canhões pesados.
Não sei quanto tempo permaneci
deitado ao lado de um soldado de
uniforme camuflado, que só depois
verifiquei ser um russo. Estivéramos,
assim, juntos, unidos estreitamente,
procurando reciprocamente proteção e
lenitivo, para enfrentar o horror da
bárbara chuva de metal. Era como se
todos os poderes do diabo se tivessem
desabafado em uma louca e
incontrolável convulsão de ódio.
O moinho situado no alto da
primeira colina desapareceu numa
nuvem de neve, terra e fogo, literalmente
pulverizado. Quando o fogo da artilharia
se deslocou para a frente, só as suas
cinco enormes chaminés restavam,
apontadas acusadoramente para o céu.
Olhei nervosamente para o russo e
ele olhou para mim, temeroso. Era um
rapaz pequeno, gordo, embrulhado em
um capote muito grande para ele.
Sorrimos simpaticamente um para o
outro. Sorrisos débeis, sorrisos de
medo.
Sem dizer uma palavra, trocamos
uma promessa: “Se você não me matar,
eu também não o matarei!” Por
momentos houve um silêncio aterrador.
Era como se os canhões estivessem
tomando alento para o desencadear de
novo ataque.
À frente e atrás de nós as chamas se
movimentavam, numa dança diabólica.
De todos os lados nos chegavam os
gemidos e os gritos dos feridos.
Bem longe, um ruído atordoador se
fez ouvir e rapidamente foi se
aproximando. Dava a impressão de que
a terra havia virado pelo avesso. Corpos
rodopiaram no ar e vieram estatelar-se
no chão com ruidoso impacto. A Seção
Nº 4 foi sugada para cima em espiral.
No alto pareceu que ela explodiu,
reduzindo-se a um misto de carne, ossos
e sangue. O rio fervia como uma
chaleira. A camada de gelo de um metro
há muito se esfacelara e grandes
pedaços dela achavam-se a grandes
distâncias. A metade inferior de um
homem saiu correndo daquele inferno
fumarento de cor amarelo-alaranjada.
Onde estaria o resto desse infeliz?
Nesse quadro de extremo horror havia
paradoxalmente um quê de comicidade:
Um par de botas e calças correndo sobre
a neve uma longa distância, sem
qualquer auxílio!
— São os nervos — explicou Julius,
que sempre sabia tudo.
— Pelo Führer e pelo Reich, hurra!
— chasqueou Porta, com reverência,
olhando as pernas movediças, que
acabaram mergulhando na neve como um
feixe sangrento.
Uma granada gigantesca explodiu no
meio da grande casa branca, que
desapareceu completamente. A
companhia que se abrigava atrás dela foi
pelos ares. Ao longo de toda a rua as
casas eram cortadas ao meio. De repente
as ruas foram invadidas por civis
ensanguentados, correndo sem destino e
gritando horrorizados de seu próprio
estado.
No meio das minas fumegantes, um
pelotão de infantaria alemã, inteiramente
apalermado, mantinha-se inerte,
encarando as coisas com olhos vítreos.
Eram como mortos-vivos.
— Nova turma para Giessen! —
disse Porta, sacudindo a cabeça.
Da colina da prisão iam caindo
tanques e trenós blindados que desciam
a encosta numa nuvem de neve. Com
estrondo eles batiam no chão e saíam
aos pulos. Muitos estavam com as
lagartas quebradas. As granadas
cantavam lá em cima e explodiam atrás
de nós como papoulas vermelhas.
Vindo da floresta, ouviu-se um
rumor que aumentava progressivamente.
Eram os remanescentes dos tanques
alemães dando a partida. Haviam sido
conservados em prontidão na
retaguarda. Passaram numa larga
formação em flecha.
De uma cratera de granada e de um
abrigo semidestruído, um grupo de
metralhadoras atirava em tudo que se
movesse. Nem os mortos escapavam. Ao
impacto das balas os corpos chegavam a
pular. .
— Fogo neles! — ordenou o
Tenente-Coronel Hinka, apontando a sua
própria metralhadora.
A guarnição de lança-chamas
avançou no meio da neve. Dois homens
davam cobertura a um 1º sargento mal-
encarado, que conduzia nas costas o
pesado equipamento. Uma língua de
fogo lambeu a castigada posição. Ouviu-
se um grito de pavor. Vultos em chamas
foram aparecendo e caindo ao chão, em
estertores. Dois outros jatos de chamas
foram atirados sobre eles, provocando
uma desagregação de carnes e uniformes
como se tivesse havido a explosão de
um barril de pólvora. A metralhadora
pesada silenciou. O 1º sargento que
manejava o lança-chamas olhou em
torno de si, à procura de novo alvo.
Como relâmpago vermelho, as
chamas caíram sobre outro ninho de
metralhadoras. Mesmo morrendo, os
russos continuavam a atirar. A língua de
fogo retornou. Rolando corno uma bola
colorida, as chamas iam penetrando em
todos os esconderijos da cratera de
granada.
Um repugnante cheiro de carne
queimada nos atingiu como um punho
fechado. Tive a sensação de que o suor
em minha nuca começava a ferver. O
cheiro terrível nos abatia. Ao redor de
nós fazia-se ouvir o troar dos canhões
dos blindados. Grandes nuvens de
fumaça em forma de cogumelos
elevavam-se dos tanques em chamas.
Lentamente nossa seção foi abrindo
caminho para a frente. Já havíamos
avançado um bom pedaço colina acima.
Transpusemos retorcidas estruturas de
aço, os pés escorregando em restos de
corpos humanos. O chão se abriu
novamente em um mar de chamas.
— Órgãos de Stalin! — gritou
Barcelona, entrando precipitadamente
em um buraco que ainda fumegava da
explosão de uma granada. À distância
podíamos ouvir um ruído esquisito que
se transformou depois no rugir do
ciclone. E agora o terceiro movimento.
Impacto e explosão, um longo,
monstruoso e ressonante fragor, maior
do que qualquer outro até então.
Hora após hora nós permanecemos
enterrados em montanhas de neve.
Combatíamos como loucos para
escapar, antes que ali ficássemos
sufocados.
— Para a frente! Vamos! Ânimo! —
gritava o Tenente-Coronel Hinka.
12
Nós rastejamos, corremos e
deslizamos a caminho da prisão, que se
elevava ameaçadora a nossa frente. E
entramos como um raio nas posições
defensivas russas.
— Acabem com eles! — foi a
ordem.
Limpamos a área num abrir e fechar
de olhos. Com o uniforme encharcado de
sangue, seguimos em frente com a maior
rapidez. Aí então começamos a poder
notar os detalhes do grande edifício da
prisão.
Os céus escuros foram se abrindo e
então apareceram os caças-
bombardeiros, atirando com o seu
armamento embutido nas asas. Tratamos
de nos abrigar nas ruínas do moinho.
Nuvens de farinha e farelo quase nos
asfixiaram. Era como se nossas
gargantas ficassem tapadas por uma
densa pasta.
Desci deslizando por dentro de um
grande tubo e percebi um russo com uma
pá levantada. Larguei-lhe um golpe
violentíssimo, que o fez recuar, aos
gritos, desequilibrando-se e indo
finalmente cair dentro de uma caldeira
cheia de uma pesada pasta. Na
superfície começaram a aparecer
borbulhas que arrebentavam em seguida.
— Não posso! Não posso! — gritou
o Tenente Haase, do 3º Pelotão.
Sua voz vinha sufocada pelas
lágrimas, os olhos parados, em
desvario.
Uma violenta onda de sopro o atirou
para trás contra um paredão de concreto.
Ele voltou arrastando-se.
— Não! Não! — murmurou.
Então empunhou a metralhadora e foi
mandando bala após bala num corpo ali
caído, já bastante inchado, cheio de
gases que acabaram explodindo.
— Está com medo doentio de
granadas — afirmou Tiny, caindo sobre
ele com todo o seu peso.
— Faça-o dormir! — ordenou o
Velho.
Tiny girou seu enorme punho e
descarregou tremendo soco no rosto do
pobre tenente, que desabou como um
saco vazio. Um tanque P-2 veio
despencado pelo ar e caiu sobre um
telheiro, atravessando-o e continuando
aos pulos como se fosse uma imensa
bola de borracha. Árvores, ruínas, neve,
até mesmo o rio pareciam inflamar-se
nos pontos de queda dos foguetes
apelidados “órgãos de Stalin”. As
chamas lambiam os céus, dançando e
mostrando uma gama de cores espectrais
que iam do amarelo acentuado ao
violeta e ao vermelho-sangue. O calor
nos atingiu, como um cobertor ardente
que caísse das nuvens cor-de-rosa sobre
nós.
Olhamos, fascinados, o inacreditável
espetáculo. Um fragor de trovão cortou a
noite invernosa.
— Abrigo total! — gritou o Velho,
jogando-se com a rapidez de um raio
para dentro de uma depressão do
terreno.
Um grupo de russos completamente
desnorteados surgiu dos desníveis da
região, seguido muito de perto por um
bando igualmente aterrorizado de
alemães. À nossa retaguarda, muito
distante, fez-se ouvir um ruído aterrador.
— São elas! — gritou Gregor,
aterrorizado. — As duzentas e oitenta!
As granadas de 280 mm caíram
todas no meio dos fugitivos russos e
alemães. Seus corpos como que
explodiram numa enorme nuvem cor-de-
rosa, descendo sobre nós como uma
chuva pesada.
Essas granadas deveriam ter caído
200 metros à nossa frente, há meia hora.
E chegam agora. exatamente em cima
de nossas cabeças, matando tanto russos
como alemães. Prometeram-nos maciço
apoio de artilharia. Uma concentração
de fogo como nunca havíamos visto.
Tinham razão! Não exageraram. Seu
fogo destruiu completamente nossos
próprios homens. No mínimo oitenta por
cento da nossa força atacante estava lá,
aniquilada, metida na neve.
— Essa maldita artilharia está nos
assassinando! — vociferou Porta,
correndo para se abrigar por baixo de
algumas vigas calcinadas. — A gente
tem que se fazer tão pequenino para
passar por tudo isto e continuar vivo!
À nossa volta, grandes massas de
neve, terra, rocha, assim como troncos
de árvores e metais retorcidos, eram
arremessados para o ar. Homens
aterrorizados ficavam pregados no chão,
atravessados por compridos vergalhões
de aço que vinham voando na escuridão
da noite. Braços e pernas eram
quebrados e ficavam caídos para os
lados dos corpos como coisa inútil. A
área inteira virou um monte de membros
humanos em questão de segundos,
juntamente com uma corrente de sangue
e vísceras arrancadas.
— E dizer que é a nossa própria
artilharia nos assassinando! — gritava
um subtenente desesperado, levantando-
se a fim de correr para o abrigo. Uma
explosão atirou-o contra o que restara
de um paredão de pedras. Ele ficou
esmagado como casca de ovo.
O ex-oficial ficou de pé e começou a
dar gritos ecoantes. Gregor segurou-o e
empurrou-o para o abrigo, sem
conseguir protegê-lo completamente.
Logo em seguida a cabeça do ex-oficial
foi cortada do corpo, como se lhe
tivessem passado uma faca gigantesca.
Horrorizado, Gregor não conseguiu ficar
de pé. O corpo sem a cabeça aprumou-
se, com um grosso fio de sangue
correndo-lhe do pescoço. A cabeça, com
os olhos muito abertos, saiu rolando
pela compacta camada de neve.
Evitamos a cabeça que rolava,
levantando instintivamente o pé para
deixá-
la passar. Tiny, que saboreava os
restos de um pato frio, retirado do corpo
de um comissário, não se deu conta da
cabeça, que foi parar aos seus pés.
— Que negócio é esse? — gritou,
surpreendido, esquecendo-se até do
pato. — Para quem você pensa que está
olhando, seu cara safado? Que culpa
tenho eu de você ter perdido o seu
corpo, hem? Pare com isso! —
continuou ele, gesticulando com a mão
que segurava o pato.
E então desfechou na cabeça um
pontapé que a fez sair voando por sobre
a neve.
Um major dos Granadeiros
Blindados gritou histericamente com
Tiny, ameaçando-o de corte marcial.
Mas de repente ele desapareceu num
mar de chamas. Só ficou o seu capacete
de aço, rolando desoladoramente pela
neve.
Ao meu lado estava caído um idoso
1º tenente que tinha um lado do corpo
rasgado de alto a baixo. Lembrava uma
caixa com restos de carne não
aproveitados, que se veem nos
matadouros. Ossos lascados e nacos de
carne.
Sua fisionomia espelhava sofrimento
e horror. A guerra é um inferno de
agonia, nervos em trapos, medo, terror.
Quando será a minha vez? Eu, que
também vou ser atirado pelos ares, num
repuxo de ossos amassados, carne e
sangue!
As chamas elevavam-se da terra.
Sobre as posições caía uma chuva de
fragmentos de armas, casas, animais e
seres humanos. Uma viatura-cozinha
veio pelos ares, espalhando sopa e
batatas por todos os lados. Os cavalos
giravam, de pernas para o ar,
relinchando, presos à viatura. Uma
tempestade se aproximava rapidamente
em nossa direção, seguida de um silvo
penetrante.
Logo em seguida a terra foi sacudida
por novas e violentas explosões.
Uma companhia de trenós foi
apanhada em sua marcha por uma ravina
e deixou os lados desta marcados por
um rastro de sangue e ossos esmagados.
Os pesados trenós motorizados ficaram
reduzidos a pedaços de metal
retorcidos. O comandante da 2ª
Companhia teve as duas pernas
cortadas, logo acima do joelho. Caiu
pesadamente com um grito lancinante.
Fazia lembrar uma boneca de pano, ali
no chão. Ninguém foi atendê-lo. Havia
tantos feridos e mortos!
Não podíamos tomar interesse pela
sua sorte.
— C'est la guerre! — disse o
Legionário. — Mais lixo para o monturo
militar!
O 1º Sargento Lamm foi ferido
exatamente quando saboreava um bom
pedaço de linguiça da Westphalia. Com
um olhar completamente vago e de
absoluta estupefação, ele caiu contra a
parede do entrincheiramento. Um
estilhaço havia deixado apenas um
pequeno furo de entrada em sua testa.
Quase não sangrou.
— Por todos os demônios de
Castela! — gritou Barcelona.
Levou as mãos ao pescoço. O sangue
lhe ensopou os dedos.
— Você está ferido! — gritou Tiny,
em desespero, inclinando-se sobre ele.
— Nossa Senhora, esta lhe atravessou!
Sorte não estar comendo na hora. A bala
comunista teria levado sua comida com
ela!
— Isto é o que acontece quando se
vai para a guerra com generais que
raspam a cabeça e usam monóculo —
disse Porta, aplicando um curativo sobre
o ferimento. — Esses caras só têm uma
ideia na cabeça: ver o seu nome nos
livros de História. Nós da plebe o que
ganhamos é ficar com o corpo crivado
de balas!
— Quer ir para a retaguarda? —
perguntou o Velho, lá do outro lado da
posição.
— Não, vou ficar aqui — respondeu
Barcelona, resolutamente. — Não quero
me afastar da rapaziada!
— Acha que vai ficar bom? —
perguntou o Velho, meio descrente,
olhando para a entrada da bala. — Você
pode até ver os seus pés pelo buraco!
— Vou ficar — resmungou
Barcelona, com firmeza. — Alguma
coisa me diz que se eu deixar vocês,
nunca mais vou voltar!
— O Deus da Alemanha está
mijando em cima de nós — explicou
Tiny para um cabo russo que se juntara a
nós no abrigo, por engano. — Entendeu?
— Não entendi — respondeu ele em
russo, passando a Tiny um maço de
cigarros, na crença de que ele lhe havia
pedido um. Tiny aceitou o cigarro e
ofereceu ao russo um gole do seu cantil.
— Devíamos ter nos encontrado no
Reeperbahn — disse ele, com um riso
largo. — Teríamos nos divertido um
bocado. Eu podia ter arranjado para
você, bem baratinho, montes de
bocetinhas de Hamburgo e nos
intervalos podíamos ter provocado
grandes mijadas do nefando comissário
Nass. Uma pena que tenhamos de ter
uma guerra para podermos nos encontrar
novamente.
Mormente sendo aqui, onde um cara
pode estar arriscado a ser morto nesta
confusão.
— Não entendi nada — disse rindo
o russo, muito tímido, em sua língua.
Tirou do bolso da túnica, um retrato.
— Namorada — explicou, beijando o
engordurado retrato, já amarrotado de
tanto ser exibido.
— Puxa! Deve ser boa numa cama!
— exclamou Tiny, embevecido e rindo
maliciosamente. — Espero que aqueles
macacos amarelos não estejam
aquartelados na sua aldeia. Dizem que
esses mongóis safados são tão rápidos
para trepar que até os coelhos ficam
olhando para eles cheios de espanto e de
inveja.
— Não entendi — repetiu o russo,
guardando no bolso a fotografia. —
Estou fora de casa, adeus. — Levantou-
se de repente e foi apertando a mão de
todos os presentes. Ajudamo-lo a galgar
a trincheira. Antes de desaparecer da
nossa vista ele virou-se e acenou.
— Acha que ele vai conseguir
passar? — perguntou o Velho, em
dúvida.
— Vão fuzilá-lo — disse Porta, com
conhecimento de causa.
— É considerado como alta traição
trocar algumas palavras com capitalistas
como nós.
— Devíamos tê-lo entregado o
professor, para levar como prisioneiro.
Assim ele se sairia bem. E nós
ficaríamos livres desse merdinha
nojento, que não é capaz de achar o
próprio rabo, mesmo usando as duas
mãos.
O vento terrivelmente frio dera lugar
agora a uma tremenda nevasca.
Imensas nuvens de neve e cristais de
gelo passavam varrendo a superfície
gelada da terra. Massas de neve
deslocavam-se como ondas em um mar
batido pela tempestade, enterrando
tanques, canhões, cavalos e soldados de
ambos os contendores. O mortífero fogo
dos canhões prosseguiu incessantemente.
Inúmeros cavalos ficaram
profundamente atolados na neve. Os
chicotes dos carroceiros funcionavam
sem cessar, mas os animais cada vez se
afundavam mais e seus relinchos eram
abafados pelos estrondos das granadas.
As estradas haviam desaparecido,
cobertas por depósitos gigantescos de
neve. Tentamos demarcá-las, enterrando
na neve compridos paus com feixes de
palha amarrados na ponta.
Arrastando os pés, íamos avançando
a duras penas, deixando para trás,
naquele inferno branco, muitos dos
nossos. A nevasca logo acabou com
eles. A catástrofe foi completa. Nossa
artilharia fez um belo serviço — sobre
nós!
Um coronel russo, com as abas do
capote aberto voando atrás dele, veio
correndo pela neve. Estava convencido
de que alguém o perseguia, para matá-
lo. De repente tropeçou e saiu rolando
uma boa distância.
— Alemães! Alemães! — gritava,
numa atitude de desespero.
Um tremendo fogaréu o engoliu. Era
uma coluna de chamas que se deslocava
verticalmente e depois tomava a forma
de um gigantesco cogumelo de cor
violeta.
Agora a barragem rolava pelo
campo como um tapete de aço. Todas as
baterias estavam engajadas. O que vinha
acontecendo antes não afetou em nada o
fogo destruidor, que agora caía
fragorosamente sobre nós. Seis cavalos
de uma atrelagem, que dispararam,
vinham aos trancos e barrancos sobre a
neve endurecida, puxando um canhão de
campanha de 100 mm, que pulava atrás
deles aos calombos do terreno. Três
artilheiros seguravam-se como podiam
para não morrer. Um deles perdeu o
equilíbrio e caiu debaixo das pesadas
rodas da viatura, sendo esmagado. O
canhão corria desgovernado, pulando e
caindo, como se fosse de brinquedo.
Um graduado foi atingido por uma
bala em ricochete e caiu do cavalo. O pé
ficou preso no estribo, ele foi arrastado
e sua cabeça bateu ruidosamente numa
pedra, esfacelando-se. Três tanques P-4
vinham roncando dos escombros de uma
aldeia bombardeada. O tanque líder
ficou subitamente preso na superfície
gelada. deslizou para trás e para um
lado e rolou, quebrando-se e rangendo,
por uma íngreme encosta. Houve a
explosão e uma chama escapou pela
torre. Uma fumaça negra como carvão
elevou-se, com forma de cogumelo.
Outro P-4 derrapou. O comandante,
que estava na escotilha aberta da torre,
tratou de pular fora. No meio da queda,
a tampa de aço da escotilha veio sobre
ele, quebrando-lhe a bacia. O pesado
tanque acabou rolando sobre seu corpo,
reduzindo-o a uma massa sangrenta. Um
grupo de infantes alemães desarmados
vinha deslizando por uma encosta.
Tinham um só pensamento: fugir, fugir
para qualquer lugar. Pelo menos ficar
bem longe daquele trovejante inferno em
chamas que devastava as elevações.
Um carro Kübel, com a flâmula do
Estado-Maior, freou na neve endurecida
e escorregadia e deu uma derrapada que
por milagre não o jogou fora da estrada
e o atirou sobre os tanques destruídos, lá
embaixo. Um major com distintivo
carmesim do Estado-Maior pulou do
carro com uma metralhadora
empunhada.
— Voltem, seus cachorros covardes!
— berrou ele, dando um soco num
tenente cujo uniforme estava todo sujo
de sangue. — Voltem para as suas
posições, seus desertores sujos. —
Levantou a arma e disparou várias
vezes, com boa pontaria, sobre os
soldados fugitivos.
— Matem o miserável! — gritou um
3º sargento furioso, tentando arrancar a
metralhadora das mãos do major. —
Primeiro esmagaram a gente com os
nossos próprios canhões e agora querem
nos liquidar com a sua metralhadora!
— Vá para o inferno com a sua
neurose de guerra, rapaz! — gritou um

tenente fuzileiro.
Ele se atirou contra o major,
espumando de raiva, segurou-o pelo
pescoço e estrangulou-o.
O motorista do Kübel apontou uma
metralhadora e mandou uma rajada
contra o grupo de soldados furiosos que
pisoteava o corpo do major.
— Filhos da puta! — berrou ele,
explodindo de ódio. Atirou uma granada
no meio do grupo. Ofegante pelo esforço
feito, levou o corpo para o carro,
cobrindo-o com um capote. Depois
voltou-se e gritou, fora de si, as
lágrimas escorrendo, a voz alterada pelo
desespero: — Morram então como
merdas que vocês são! Não merecem
coisa melhor! Escória do Exercito! —
Virou o volante e partiu com o Kübel
numa nuvem de neve pulverizada.
Agora eram os russos que mandavam
sobre nós um novo inferno de fogo.
Os foguetes surgiam ruidosamente
das nuvens, martelando as tropas que
fugiam e reduzindo a pedaços homens e
materiais. Foguetes e mais foguetes, com
longas e terríveis caudas, atravessavam
os céus e vinham explodir no terreno.
— Órgãos de Stalin! — rosnou
Gregor, comprimindo-se contra o solo
coberto de neve.
Um par de T-34 surgiu da estreita
passagem, roncando sobre os montes de
corpos e espalhando para todos os lados
sangue, carnes e ossos.
— Tanques lança-chamas! — gritou
Barcelona, saltando para trás de um
rochedo alto.
Albert correu em volta, procurando
desesperadamente um abrigo contra os
tanques lança-chamas que se
aproximavam rapidamente.
— Onde é que tem um buraco? Onde
é que tem um buraco?
— gritava, pulando para todos os
lados como coelho caçado.
— Venha para cá — gritou Porta. —
Vamos botar o professor para fora e
arranjar lugar para você.
Albert pulou de ponta-cabeça na
funda cratera de granada.
— Jesus Cristo! — exclamou!
arquejante, com uma voz que traduzia o
seu terror. — Não há mais lugar para
seres humanos. Seja preto ou branco!
— Não seja presunçoso agora —
disse Tiny, com um largo sorriso. — A
raça humana começa com o tenente. O
resto não é nada, nada! E o nosso caso.
— Eu nunca cheguei a isso no
serviço em campanha da infantaria —
confessou Albert, jogando para longe a
máscara para neve. — Não havia no
Senegal ou Grafenwöhr nada que
pudesse preparar a gente para isso.
E Albert trincou os dentes com tanta
força que quase destroncou o queixo.
— Na frente a vida não é lá muito
divertida — disse Tiny, com voz
melancólica, e abaixou-se depressa,
pois uma granada caiu justamente junto
da borda do buraco, espalhando uma
chuva de estilhaços que zuniam sobre o
terreno.
Podíamos sentir a ameaçadora
aproximação dos tanques lança-chamas,
mesmo com o troar dos canhões.
— Nós temos de ter apoio de
artilharia — disse o Velho. — Senão
vamos acabar no colo do diabo! —
Afastou do telefone o corpo do oficial
de comunicações e pôs nos ouvidos os
fones acolchoados. — O código, merda!
— resmungou, irritado, folheando o
bloco de mensagens.
— Toma aqui — disse Heide,
entregando-lhe o livro de código.
— Apoio de fogo! — ordenou o
Velho, com voz dura, impositiva.
— Quem está falando? — perguntou
alguém com a arrogante entonação de
oficial de alto posto.
— Aqui é “Salamandra” —
respondeu o Velho, dando o código.
Em seguida deu uma série de ordens
ao telefone. E pouco depois as granadas
começaram a passar sobre nós e a
explodir nas elevações. Com algumas
palavras meio duras o Velho foi
corrigindo o alcance, que estava curto.
Heide trabalhava com afinco,
traçando linhas na carta e calculando
distâncias com o auxílio dos
instrumentos apropriados.
Neve e fragmentos de aço saltavam
das explosões das granadas. Agora já
iam caindo mais perto da ravina onde se
achavam em posição os “Órgãos de
Stalin”.
— Que azar, os T-34! — gritou Porta
excitadíssimo. — Atirem neles depressa
ou vamos para o beleléu!
Pelo menos um batalhão de tanques
lança-chamas ali estava operando.
Deslocavam-se sinuosamente, como
um bando de porcos selvagens. Jatos de
fogo eram arremessados de suas torres,
transformando, em sua passagem, tudo o
que tivesse vida em coisas inanimadas,
reduzidas a carvão, fumarentas.
Numerosos e alegres soldados do
Exército Vermelho saíram
intempestivamente da Prisão OGPU.
Primeiro os batalhões de metralhadoras.
Logo depois a infantaria, com rifles
providos de baioneta, como se fosse
uma parada na Praça Vermelha. Após a
infantaria, colunas e mais colunas de
prisioneiros, de uniforme cinzento,
armados apenas de paus. À medida que
avançavam, iam apanhando as armas dos
homens caídos. Finalmente as tropas
especiais da Prisão OGPU, com as
Kalashnikovs apontadas para as costas
dos prisioneiros.
Sua missão era liquidar qualquer um
que tentasse escapar para um abrigo.
— Deus do céu! — gritou o Capitão
Löwe. — Vão nos amassar
completamente. Temos de recuar!
Uma barragem de inacreditável
concentração de fogos caiu à nossa
retaguarda. Seria possível que os russos
tivessem imaginando os nossos
propósitos de fuga e pretendessem
abortar o plano, lançando uma barragem
através da qual certamente não
poderíamos passar? Tanto quanto se
podia perceber, a barragem se estreitava
em torno de nós.
— Retirar! — gritou o Tenente-
Coronel Hinka. — Por companhias,
retirar!
Voltou-se espantado, para ver o que
estava ocasionando o ruído
ensurdecedor que vinha da nossa
retaguarda, aproximando-se cada vez
mais.
Era das linhas alemãs.
— Foguetes! — gritou, surpreso e
abrigando-se, deitado, atrás de um
paredão de neve.
Logo em seguida os temidos foguetes
caíram bem no meio da formação de
tanques lança-chamas, arremessando os
pesados veículos para todos os lados,
como se não passassem de meros
brinquedos.
Frio e sereno, o Velho transmitia as
correções ao oficial superior de
artilharia, distante na retaguarda.
— Menos dois graus — comandou.
— Sessenta metros mais no alcance.
Fogo e aço subiram aos ares.
— Pega eles! — disse Barcelona,
com uma alegria sádica.
As chamas levantavam-se dos
tanques T-34. Partes deles voaram pelos
ares carregados de poeira de neve. Bem
acima do solo formaram-se nuvens
negras como carvão, listradas de
vermelho, e com a forma de cogumelo.
O campo de batalha parecia dissolver-
se no ressonante troar dos canhões.
Da rubra e ardente cortina de
fumaça, grandes contornos, sem forma
definida, saíam voando. Era como se o
diabo estivesse jogando boliche com
tanques. O som das pesadas explosões
ia mudando de segundo em segundo,
culminando com um ruído de acabar
com os nervos. Nós nos juntamos bem
uns aos outros, com arrepios.
— Explosivos e incendiários —
pediu o Velho. — Fogo rápido 460
metros exato.
Não demorou e poderosas granadas
explosivas e incendiárias começaram a
cair sobre as forças atacantes de
infantaria russas. Os produtos químicos
espalharam-se para todos os lados. O
próprio ar pegava fogo.
— Trinta metros para trás —
ordenou o Velho, friamente.
O sopro das explosões nos
arremessou contra as paredes cobertas
de neve da nossa cratera. O terreno à
nossa frente era um verdadeiro mingau
fervente, borbulhante, venenoso. A neve
derreteu, formando velozes correntezas,
que desciam pelos declives, carregando
consigo, para as profundezas, tudo o que
encontravam em sua passagem.
Novas unidades de artilharia iam
sendo engajadas quando se verificou que
um especialista estava observando o
tiro.
— Quem é o observador de tiro? —
perguntou uma voz áspera. — Me dê o
nome e o posto. É você, Eberhardt? Não
está ouvindo? Perfeito, Eberhardt,
perfeito!
O Velho não respondeu, mesmo
reconhecendo a voz de cana rachada do
comandante geral. Sem dar tempo para
interrupções, ele continuou a transmitir
as correções.
Num gigantesco fogo contínuo de
artilharia, a chuva de granadas perseguia
os batalhões inimigos que se retiravam.
Eles eram destruídos completamente,
sem piedade.
— Novas correções — pediu o
Velho.
— Estão aqui — disse Heide, com
um sádico sorriso.
Seu coração de militar cantava de
felicidade ante os belos resultados do
bem dirigido fogo de artilharia. Pouco
depois o tiro dos canhões começou a
alcançar a ravina e a destruir os
irrequietos “órgãos de Stalin”. Os seus
esforços para escapar de nada
adiantaram. Os remanescentes do
regimento atacaram no meio da confusão
de estropiados, nos calcanhares do
homem de um braço só, o Tenente-
Coronel Hinka. As metralhadoras
pesadas Maxim ainda atiravam das
posições semidestruídas.
— Grupo de Rádio, centro — gritou
o Tenente-Coronel Hinka — avançar
para as muralhas da prisão!
Sobre a prisão, assemelhando-se a
um enorme e horrível guarda-chuva,
mantinham-se nuvens de fumaça de cor
amarelo-escura, provenientes dos altos
explosivos. A cada segundo aumentavam
de tamanho.
Bem pertinho, eu ouvia o troar de um
canhão de tanque, e logo atrás de mim
uma metralhadora levantava a neve com
seus projéteis.
— Blindados! — gritei, jogando-me
num abrigo.
Assisti então o tanque com sua
imensa barriga passar sobre uma parede
semidestruída, equilibrar-se em cima
dela alguns segundos e depois oscilar
para cima e para a frente com um
barulho de ferragens, o motor roncando
ao máximo de revoluções. Pouco a
pouco a torre foi virando para o meu
lado. Do longo tubo do canhão saiu uma
língua de fogo. O atirar, o impacto e a
explosão ocorreram quase ao mesmo
tempo. Minha cabeça ficou como se um
ferro tivesse sido enterrado nela de
orelha a orelha. Porta veio correndo
juntar-se a mim. A bazuca escapou-lhe
das mãos e deslizou pela superfície
gelada. Fiquei parado, aturdido, olhando
para o canhão do tanque de Stalin, que
lentamente se abaixava em minha
direção.
— É agora! — resmungou Porta,
agarrando a bazuca e levando-a à
posição no ombro. Mirou bem o tanque.
— Goze a vida, caro vizinho, só lhe
resta um pouquinho! — gritou, rindo
sardonicamente, e puxou o gatilho.
Ouviu-se um estrondo tremendo e a
estrela da torre do tanque desapareceu
como que por encanto. Uma forma
humana foi atirada para fora da escotilha
na crista de uma enorme chama amarela.
— Esta pegou em cheio! — consegui
dizer, soltando a respiração presa no
peito.
Dois T-34 procuraram abrigo atrás
de umas ruínas. As metralhadoras de
suas torres varriam a estrada em toda a
sua extensão.
Balas já sem força passavam sobre
nossas cabeças.
— Deus me diz que não estamos
destinados a morrer aqui — comentou
Porta, levantando-se com a bazuca no
ombro.
Tiny aproximou-se correndo com
uma pesada mina-T na mão. Deslizou
como num tobogã, atravessando a
estrada na direção do tanque e rosnando
alto, numa mistura de raiva e medo.
Agarrou bem a mina nessa rápida
passagem, mas perdeu o capacete e a
pistola automática. Como um acrobata,
aprumou-se e varejou a mina debaixo da
borda da torre. A escotilha do último
tanque abriu-se com estrépito. Um vulto
apareceu com uma Kalashnikov
engatilhada— As balas faziam a neve
saltar ao redor de Tiny. Ele correu como
um desesperado na direção das ruínas
em chamas, procurando abrigo.
— Puxa! Estão atirando mesmo para
matar! — rosnou Albert, saltitando
sobre a neve com um molotov na mão.
Num abrir e fechar de olhos ele
estava em cima do T-34 e deixou cair o
molotov dentro do tanque, atrás do
comandante. O russo voltou-se e olhou
horrorizado o rosto negro de Albert e os
dentes muito brancos, mostrados num
sorriso de felicidade.
— Panjemajo, homem! — gritou
Albert, dando um salto para trás e
abrigando-se numa cratera de granada.
O blindado voou em pedaços, antes
que o comandante pudesse recuperar-se
do susto.
Tiny corria pela neve com um tanque
pesado de lagarta em sua perseguição.
Eu até parei de respirar, de terror.
Se o tanque o atingisse ele morreria
esmagado. Mas por milagre o blindado
bateu numa pedra, deu um pulo no ar e
passou acima do seu corpo e continuou
rolando, atravessou a estrada e foi
acabar dentro de um ninho de
metralhadoras.
A seção de tanques lança-chamas
passou em alta velocidade. A infantaria
avançou em massa contra os portões
fechados da prisão. Pelas janelas
providas de grades de ferro, as
metralhadoras despejavam suas balas
sobre nós. Os clarões surgiam no céu
como guarda-chuvas brilhantes,
lançando sobre a prisão uma luz
alucinatório. Do teto da prisão evolava-
se uma fumaça negra. Os engenheiros
colocaram cargas explosivas ao longo
das muralhas.
Um oficial russo apareceu de
repente diante de mim. Uma curta rajada
da minha metralhadora jogou-o para
trás, contra o portão do presídio. O
homem caiu para a frente, com o rosto
contra o solo. Corri desesperadamente e
esbarrei num carcereiro com cara de
idiota, que vinha rodando um punhado
de chaves numa das mãos e conduzindo
uma pistola na outra. O primeiro projétil
da minha metralhadora o atingiu
exatamente no coração, reduzindo-o a
pedaços, Ele morreu antes de chegar ao
chão.
Uma grande pedra veio voando e me
atingiu violentamente em pleno peito.
Todo o ar dos pulmões foi posto
para fora. Caí para a frente, com o rosto
enterrado na neve. Quanto tempo
permaneci no chão é coisa que nunca
saberei.
Quando voltei a mim, ouvi vozes
guturais russas. Um deles me chutou com
toda brutalidade, mas tratei de ficar
quieto, apesar da dor. Continuaram seu
caminho, enquanto as metralhadoras
matraqueavam sem parar. Eu sabia ser
perigoso ficar ali sem ajuda. Havia o
risco de morrer congelado, ou do
choque.
O peito queimava como fogo e a dor
vinha em estocadas cada vez mais
fortes.
Por toda parte eu só via formas em
movimento. Seria impossível determinar
quem era russo e quem era alemão.
Longas e terríveis línguas de fogo
saíam pelas janelas reforçadas dos
edifícios de seis andares da ala
destinada às mulheres. À luz das chamas
eu podia vislumbrar pessoas agarrando-
se às barras incandescentes das janelas,
Os grossos vidros derretiam como cera.
Em questão de segundos uma pessoa
virava uma espécie de múmia
enegrecida, carbonizada.
— Para que diabo você está aqui
deitado, gozando o ardor do comunismo
russo? — perguntou Porta, com um largo
sorriso, inclinando-se sobre mini. —
Onde te acertaram?
— No peito — respondi ofegante.
Ele me examinou com dedos firmes.
— Que sorte! — falou. — A única
coisa que se vê é que a sua pele branca
está querendo ficar da cor da do Albert.
— Foi uma pedra. Uma pedra
enorme — respondi, gemendo.
— Gozado — disse Porta. — O Ivan
deve estar com falta de munição para
começar a atirar pedras na gente.
— Que que há? — perguntou o
Velho, parando junto de nós,
acompanhado de Heide.
— Ele está dizendo que o Ivan jogou
uma pedra nele — respondeu Porta,
rindo despreocupadamente — e então
ficou aí deitado, gemendo que nem um
gato doente.
— Vamos embora. Levante, filho! —
ordenou o Velho, secamente. — Não
fique pensando que está no gozo de uma
temporada de jogos de inverno!
— Preciso ir ao médico — disse eu,
gemendo. — Acho que estou com as
costelas quebradas e tenho a impressão
de que estão me espetando os pulmões.
— Respire fundo — aconselhou
Porta. — Você vai ver, isso bota a sua
carcaça em perfeita forma.
— Quero ir ao medico — tornei a
pedir, obstinadamente.
— Você não vai pensar que um
doutorzinho funcionário saia dos seus
cuidados para enfrentar um tempo como
este, vai? — disse Porta. — Aguente-se
em suas pernas e venha conosco. Se
teimar em continuar aqui, o Velho Ivan
lhe dará um bom tratamento. Uma dose
de sua mistura para tosse e aí você nem
com um bruto vidro de aumento vai ver
suas costelas.
Gemendo de dor, que era de deixar
uma pessoa doida, saí me arrastando
atrás da seção. Um estranho enfermeiro
me deu um punhado de pílulas.
Jogamos minas dentro do grande
vestíbulo de recepção. As grossas
paredes esfacelaram-se como se feitas
de vidro. Pesadas portas reforçadas de
ferro foram arrancadas das paredes. O
sopro nos jogou para trás mas logo nos
reanimamos e entramos no presídio
como um furacão. As metralhadoras iam
atirando em tudo que se movesse.
No saguão amontoava-se um grande
número de corpos, todos com os rostos
vermelhos, estraçalhados, por efeito da
violência das explosões. Muitos dos
corpos eram de jovens de faces antes
suaves, quase imberbes. Vidas perdidas
antes de saberem o valor do que
estavam perdendo. Mortos em atos de
heroísmo sem significação.
Sem dizer uma palavra nós ficamos
parados no meio dos montes de corpos e
corremos os olhos pelo quadro terrível à
nossa volta. As escadarias estavam
cobertas de corpos. Seis andares assim.
Muitas portas de celas, presas
unicamente por uma dobradiça. Nas
celas, os corpos dos prisioneiros jaziam
caídos, triturados, encharcados de
sangue. Deviam ter sido mortos por
granadas que os guardas atiraram lá
dentro, antes de fugirem.
— Exatamente como lá entre nós —
disse Porta com tristeza.
— Prisioneiros mortos para evitar-
se que caiam em mãos inimigas.
E perigoso pensar com
independência.
— Tem um cara ainda vivo aqui! —
gritou Tiny, que havia aberto com um
pontapé a porta de um escritório.
Atrás de uma secretária se achava
sentado um homem enorme, vestido com
o uniforme verde da Prisão OGPU e
trazendo nos braços a estrela de ouro
bordada.
— Ei, camarada! — gritou
alegremente Heide, ameaçando golpear
o oficial com a sua metralhadora. O
russo nos olhava com uma expressão de
ódio.
O Legionário apanhou sobre a
secretária alguns papéis.
— Ordens de execução — disse,
sorrindo e passando os documentos ao
Capitão Löwe.
— Levem-no para fora — ordenou
Löwe, secamente — mas Deus tenha
pena de você, Tenente Kalb, se alguma
coisa acontecer a ele! Eu o
responsabilizarei pelo assassinato de um
prisioneiro.
— Por Alá, eu vou tomar conta dele
cuidadosamente como se ele fosse um
fio da barba do Profeta — prometeu o
Legionário, com um riso malvado. —
Vamos embora — rosnou para o
comissário da OGPU, dando-lhe um
brutal empurrão nas costas com a
coronha da sua metralhadora. — Possa
Alá, em sua misericórdia, lhe conceder
a graça de uma morte bem prolongada,
russo cachorro e bárbaro! E que um
foguinho eterno esteja sempre
dissolvendo a gordura em volta dos seus
ossos!
Um grupo numeroso de pessoas,
homens e mulheres exoticamente
vestidos, desceu, trêmulo e cambaleante,
a íngreme escadaria. Um usava um
pijama de listas azuis, outro o uniforme
de major estoniano. Um outro vestia
culote branco de montar e um smoking
preto encimado por um cachecol que já
fora branco um dia. A maioria, porem,
vestia andrajos. Alguns traziam o quepe
azul da OGPU. Nós mantínhamos a
nossa metralhadora pronta para
funcionar.
A presença daquela estranha espécie
de gente nos punha nervosos. Eles
davam a impressão de que a qualquer
momento podiam saltar sobre nós e nos
apertar a garganta.
— Como é? Vão nos dar comida? —
gritou um deles, ameaçadoramente,
cuspindo acintosamente no chão.
— Cala essa boca! — gritou outro.
Subitamente pareceram ser tomados
de um acesso de raiva generalizado. E
começaram a gritar ao mesmo tempo.
— Bonysov está aqui! — gritavam
quase em coro.
— Matem ele! Pisein nele até deixá-
lo amassado! Porco fedorento!
— Que diabo eles estão querendo?
— gritou o Capitão Löwe,
nervosamente.
— Dispersem-nos, depois metam-
nos em forma! Qualquer confusão,
ponham-nos de volta nas celas. Assim
pelo menos não poderão se matar uns
aos outros.
— É indiferente — disse o pequeno
Legionário, rindo cinicamente. — O que
eles querem é apenas agarrar os
miseráveis dos seus carcereiros. —
Apontou com a metralhadora para um
corpo ensanguentado, quase inteiramente
amassado. No meio de tudo, um quepe
azul.
Os prisioneiros nos encaravam
duramente e em troca nós passamos a
encará-los indagativamente. Estávamos
um tanto temerosos daquelas criaturas
esqueléticas, de olhos
impressionantemente encovados.
— Que diabo de fedor é este? —
resmungou o Velho, tapando o nariz.
— E dali — disse Tiny, apontando
com o dedo.
— Puxa vida! — gritou Barcelona.
— Esta é a maior e mais comprida
latrina que já vi.
— Olhe para dentro dela — disse
Porta. — Há mais alguma coisa que
você também nunca viu.
Um homem baixinho, com olhos de
rato, em uniforme da OGPU, veio para
nós com as mãos passadas atrás do
pescoço para mostrar que estava
desarmado e fora da guerra.
— Senhor comandante — disse ele
em alemão fluente, batendo os
calcanhares em frente ao Capitão Löwe.
— Entrego em suas mãos o
departamento de recepção do presídio e
me coloco sob as suas ordens.
Sem esconder o seu desprezo, Löwe
fitou-o interessadamente, com olhos
inquiridores.
— Que é aquilo ali? — perguntou,
apontando para a comprida viga de
madeira.
— É a latrina dos prisioneiros —
respondeu o homem da OGPU, com um
sorriso cínico. — Não podemos dar
tratamento melhor. Temos nossos
regulamentos e os seguimos à risca.
Prisioneiros são porcos. Eles têm
permissão de ir à latrina em horas
especificadas. Isto aqui não é um hotel
de luxo. Mas eles não podem esperar a
hora conveniente de defecar. Então
defecam nas próprias celas. Agora,
quando se sentam ali na prancha
costumam dormir e caem lá dentro da
latrina. E se afogam. Não é por culpa
dos carcereiros. Seguimos ordens como
os outros soldados.
— Vamos jogá-lo na merda! —
gritou Porta, com um sorriso mau.
— Levem-no daqui — ordenou
Löwe, dando meia-volta. — Vamos
embora.
Não temos mais nada a fazer aqui.
Somos de uma unidade de combate, e
não carcereiros, nem para um nem para
outro lado. Adiante, nas grandes alas da
prisão, o combate continuava
encarniçado.
— Exatamente como lá entre nós —
disse Porta, apontando para um enorme
cartaz azul-claro que podia ser visto de
todos os edifícios da prisão.

PELA NOSSA PÁTRIA, POR


STALIN

dizia o cartaz em grandes letras


vermelhas. Em letras pretas ligeiramente
menores, acrescentava:
LIQUIDAMOS SEM HESITAÇÃO
TODOS OS INIMIGOS DO POVO,
TODOS OS VADIOS, TODOS OS
TRAIDORES
Na parede da grande oficina
mecânica. em letras de um metro de
altura, estava escrito:

O TRABALHO É O MAIOR
PRIVILÉGIO E BENEFÍCIO

DO ESTADO SOCIALISTA
13
— Reunir! Em frente! Por aqui! —
gritou o Velho, ordenando à 2ª Seção
para juntar-se a ele.
Lançamo-nos num abrigo sob uma
comprida rampa.
— Vamos marchar por aqui —
explicou o Velho. — Preparem as
cargas. Esses suínos fizeram barricadas
lá dentro e estão usando os prisioneiros
como cobertura.
Um longo e gorgolejante grito o
interrompeu. Era uma mulher. Gritava
indubitavelmente desesperada, como se
estivesse agonizando sob terrível
tortura.
— Deus nos proteja! — gritou
Barcelona, espantado. — O que é que
estarão fazendo com ela?
— Espetando com ferro quente. Era
o que os padres costumavam fazer nos
velhos tempos. — disse Porta,
calmamente, estalando os dedos.
Os gritos ficaram abafados, como se
a mulher tivesse sido amordaçada.
— Vamos ver o que é isso — disse o
Velho, com severidade.
Com um ágil salto ele subiu a
encosta, correu por ela com o corpo
todo abaixado, seguido por Gregor e o
Legionário, este com a caixa de
munições cheia de explosivos. Tiny
jogou para cima da rampa três ou quatro
caixas pesadas.
— Você também, professor — disse
ele, jogando-o também, depois das
caixas. — Deus que tenha pena de você,
seu magricela desgraçado, se tentar cair
fora! Eu junto você com as cargas e
mando-o direitinho para os braços do
bundudo Ivan!
— Por que razão o senhor sempre
implica comigo? — queixou-se o
professor. Tentou arrastar uma das
caixas, mas não conseguiu.
— Fique calado! Quando eu estiver
falando e quando eu estiver pensando —
disse Tiny, interrompendo-o. — Pegue
essa picareta aí e vá cavar um buraco
para a pólvora, seu vagabundo. Quando
eu te largar um dia, ou você já estará
morto ou será o melhor soldado do
Exército alemão e voltará, em passo de
ganso, para aquela sua escolinha da
aldeia.
— Vamos com isso! — gritou o
Velho, impaciente. — Cinco metros
entre as cargas. Heide, você liga os
cabos.
— A explosão deixa comigo —
gritou Tiny, sempre pronto para uma
coisa dessas.
Nós trabalhamos intensamente na
meia hora seguinte.
— Vocês já pensaram na espessura
dessas paredes? — perguntou
Barcelona.
— São mais grossas do que as da
fortaleza de Brest-Litovsk e não se
poderia chamá-las exatamente de
decorativas.
— Não diga besteira! — ralhou o
Velho, irritado.
Ele empurrou Tiny pelo ombro. O
atlético rapaz estava querendo meter
uma carga tríplice em um dos buracos.
— Tem de sobra — disse Tiny,
defendendo-se e apontando para as
caixas de munição cheias. — Além do
mais, o que a gente usa não deve trazer
de volta.
— Você quer é ir pelos ares com
isso, parece — disse o Velho, em tom
repreensivo. — Não estamos juntando
ali balinhas de chupar, você sabe. Um
perigo danado!
— Tudo pronto — gritou Heide,
empertigando-se para o Velho.
— Deixa comigo! — falou Tiny
animadamente, correndo para a
aparelhagem de disparo, à qual Gregor
estava ligando os últimos cabos. —
Segurem-se como puderem, meus filhos,
que lá vai mecha — disse ele, rindo
como uma criança!
Pegou com as duas mãos a haste do
disparador e a pressionou para baixo
com todo o peso do seu corpo. A
explosão clareou toda a rampa.
Sentimos sobre o corpo o efeito da
tremenda onda de choque. A fortíssima
pressão por ela exercida fez-nos expelir
todo o ar dos pulmões. Um muro de
pouco menos de um metro de altura
desfez-se em uma chuva de pedras e
entulho. O paredão de fora pareceu
balançar por momentos e depois
desabou fragorosamente. Duas enormes
chaminés ao lado da casa de
aquecimento caíram sobre a ala das
mulheres. Os desabamentos pareciam
continuar para sempre e a espessa
nuvem de pó sobre os edifícios não
parava de crescer.
Houve um momento de absoluto
silêncio. As chamas subiam de todos os
lados, espalhando-se com terrível
rapidez. Davam a impressão de um
tapete de fogo sendo desenrolado por
um insano. Os paredões caiam e grandes
pedaços de material desagregado
espalhavam-se pelo chão.
— Vocês estão malucos! — gritou
um 3º sargento de engenharia, vermelho
de raiva. — Que diabo! Não ficou um
rato vivo lá dentro. Se eu fosse vocês eu
ia embora daqui. Isto está me
aborrecendo!
— Jesus e Maria! — gritou Tiny,
caindo de joelhos. — Isso é que eu
chamo um estouro! A maldita gaiola
acabou! Mais um pouco e ela estaria
pronta para receber outra leva de
escravos. A Associação de Ajuda aos
Prisioneiros nos dará uma medalha de
gratidão por este trabalho! Por Deus,
que explosãozinha legal!
Albert ficou de pé, com o rosto
quase cinzento, e levantou o braço acima
da cabeça, com o punho fechado.
— Frente Vermelha! — gritou como
um idiota.
— Vamos embora — ordenou o
Velho, levantando-se. A metralhadora
estava em suas mãos, pronta para
funcionar.
A seção de lança-chamas tomou a
dianteira. Onde houvesse abertura de
fogo eles mandavam um jato de chamas.
Enfiei-me, juntamente com Porta, no
mais próximo posto defensivo e corri
com a minha lanterna elétrica tudo em
volta ali dentro. Por toda parte corpos
carbonizados estirados pelo chão,
descarnados. mãos postas à frente como
se protegendo, muitos deles reduzidos a
verdadeiras múmias. O lança-chamas os
havia matado com uma feroz série de
jatos. Os que não tinham sido atingidos
diretamente pareciam comparativamente
grandes, ao lado das pequenas múmias
que o foram.
— A guerra quanto mais cruel mais
rápida e. E o que estão dizendo os
pôsteres de propaganda — disse Porta.
— Mas isso é uma mentira, como tudo o
mais nesta guerra. Esta agora é a mais
cruel de todas e parece que vai ser um
inferno de longa duração.
Em um comprido e estreito pátio,
situado entre dois altos edifícios escuros
de fuligem, haviam montes de corpos.
— Tiro na nuca, todos — disse
Barcelona, virando alguns com o cano
da metralhadora.
— Não é verdade — contestou
Gregor, inclinando-se para olhar mais
de perto um corpo em andrajos.
— E a pura verdade — confirmou
Porta, por sua vez. — Os rapazes da
OGPU quiseram se ver livres dos
incrédulos, quando nós, libertadores,
batíamos à porta. Não é preciso ter
frequentado uma escola de detetives da
Polícia Criminal para ver o que
aconteceu aqui. Uma bolinha na nuca!
Um buraquinho atrás e um rombo
enorme na cara.
Ouviram-se tiros para o outro lado
do edifício.
— É pessoal nosso — explicou o
pequeno Legionário, com um gesto de
indiferença. — Tropas Especiais SD.
Estão eliminando todos os comissários.
Paramos por um momento e
espiamos por entre dois caminhões
incendiados. O prolongado tiroteio
parecia durar uma eternidade, mas na
realidade estava terminado em poucos
segundos. O corpo magro do comissário
saltava de um lado para outro numa
chuva de balas. Primeiro elevou-se no
ar, depois caiu ao chão. Ainda fremia,
mesmo quando a vida já o abandonara
completamente. Um jovem oficial das
tropas de assalto, o quepe com o
emblema da caveira cobrindo
acafajestadamente um olho, acercou-se
do corpo e apontou a sua P-38 para a
cabeça. Deu-lhe três tiros, deixando o
rosto como uma massa irreconhecível.
Os prisioneiros, que se inclinavam
para fora das janelas da lavanderia,
aplaudiram, batendo palmas, loucos de
entusiasmo. O próximo foi puxado para
fora de um estreito corredor. Era um
homem maduro, cabelos brancos, de
uniforme cáqui, com as ombreiras
verdes da OGPU. Com o terror
estampado nos olhos, ele ficou de pé
contra a parede. Uma saraivada de balas
o mandou ao chão. Os prisioneiros
aplaudiram e assoviaram quando um
grupo de homens e mulheres, uns sem
uniforme e outros semiuniformizados foi
empurrado para fora da lavanderia.
— Venham cá! Venham cá! — gritou,
raivoso e impaciente, o jovem oficial
SD. — Vamos acabar com isso rápido!
A golpes de coronha e a pontapés,
eles foram trazidos para o saguão.
Olhavam, apatetados, os assassinos,
que traziam no quepe o emblema da
morte.
— Fogo! — comandou o oficial SD.
As metralhadoras cantaram a sua
canção de morte O som ecoou entre os
edifícios da prisão. Um longo e terrível
matraquear de metralhadora veio de uma
janela no último andar. O oficial das
tropas de assalto caiu ao chão. A
esquadra de execução foi atirada para
trás, retorcendo-se na neve que aos
poucos ia se avermelhando. A
metralhadora girou, deixando sulcos nas
paredes da lavanderia, quebrando
vidraças. Os prisioneiros foram
enxotados das janelas, com os rostos
desfigurados.
Descemos abrigados, e rastejamos
rapidamente para fora. Aquilo não era
da nossa conta.
As chamas faziam loucas figurações
nos edifícios cobertos de fuligem da
prisão. Quando passávamos pelos
extensos depósitos fomos paralisados
pelo fogo .concentrado de armas
automáticas. Gritos penetrantes de terror
vieram da casa de banhos, que era
isolada.
— Vamos dar uma espiada lá —
disse o Velho — Primeiro você e o Sven
— disse a Porta, atirando-nos uma bolsa
com granadas.
Corremos para a casa de banhos,
passando entre um grupo de arvores
reduzidas a troncos quebrados. Um vulto
levantou-se ã minha frente.
Instintivamente apertei o gatilho e
uma rajada da minha metralhadora
quebrou-lhe a espinha. Ele saiu rolando,
braços e pernas estremecendo.
O meu parceiro aplicou um pontapé
na porta, que se abriu com estrepito.
Um oficial pequeno e gordo ficou
olhando espantado para nos e, confuso,
tentou alcançar a Kalashnikov, que se
achava em cima de uma mesa a sua
frente. Uma bala de pistola atravessou-
lhe a garganta, fazendo com que o
pescoço fosse para trás, batendo contra
a parede. O quepe com a faixa azul
rolou pelo chão e foi bater suavemente
contra um monte de garrafas vazias.
Descarreguei a minha metralhadora
com uma rajada longa e concentrada
sobre uma passagem ao longo da qual eu
sentia, mais do que via, formas escuras
vindo em nossa direção. A primeira bala
da Schmeisser atingiu o comandante na
boca. Ele caiu sem um gemido. Nossas
metralhadoras pareciam ter
enlouquecido. Dois soldados com
capotes que iam até o tornozelo foram
levantados no ar e jogados contra a
parede. Escorregaram por ela e
desabaram no chão, ali ficando
estrebuchantes e dando a impressão de
um monte de frangalhos ensanguentados.
Granadas de mão rodopiavam num
cômodo escuro. Encostamo-nos à parede
e varremo-lo com rajadas de
metralhadora. Os gritos foram pouco a
pouco extinguindo-se e dando lugar ao
matraquear atordoante.
— Continuem — comandou o Velho,
agarrando a Kalashnikov de um dos
russos mortos.
Uma prolongada e uivante saraivada
de projéteis de metralhadora foi atirada
contra nós. Albert deu um salto no ar,
soltou um terrível grito de guerra e
arremessou uma poderosa granada de
mão. Um fragor de trovoada veio da
extremidade do corredor, onde se elevou
um clarão de cegar, e três corpos
deformados jaziam no piso.
— Que diabo, homem! — gritou ele,
pondo as mãos nos ouvidos. — Será
mesmo que eu tinha medo? — Olhou em
torno, com uma expressão de desânimo,
deixou-se cair vagarosamente no chão
coberto de restos humanos dilacerados e
vidros partidos e resmungou: — Quero
que esse podre Exército alemão vá para
o inferno!
— É isso mesmo. Pode-se até
admitir que você tenha se metido no
exército errado, não é? — disse Porta,
rindo e pegando as granadas de mão.
O incêndio, que ninguém combatia,
já consumira quase toda a asa norte da
prisão das mulheres. Chegamos bem
perto das ruínas ardentes com toda a
precaução. Parecia que tudo ia cair
sobre nossa cabeça, a qualquer
momento.
Fileiras completas de corpos
pendiam por toda parte na ala das
mulheres, como guirlandas macabras
balançando-se e rodando ao sabor das
correntes de vento.
— O dever, como de hábito, a
despeito das dificuldades — disse
Porta. — A execução foi feita cinco
minutos antes da hora de fechar —
acrescentou, lançando contra o vento
uma solene cusparada.
— Eles devem ter vindo caminhando
e trazendo seus trapos imundos e
ensanguentados — disse Gregor. —
Agora aí estão, balançando-se. Que
adiantava protestar? O melhor mesmo
será a gente ir caminhando e deixar que
alguém fique pensando e comentando
sobre quem teria sido encarregado da
tarefa.
Vive-se mais assim, e a vida na
verdade já é tão curta.
O combate estava no fim. Podia-se
ouvir, vindo do bloco principal, o ruído
de armas automáticas e os estampidos
das granadas de mão, quebrados de vez
em quando pelo troar de um morteiro.
Mas isso não era conosco e sim com a
infantaria e os engenheiros. Sentamo-nos
no chão do bloco da cozinha, juntamente
com um grupo de prisioneiros, e
conversamos sobre métodos de
interrogatório. Um rapazinho de 16 anos,
trazido preso diretamente da escola e
acusado de propaganda
contrarrevolucionária, perdera um olho
durante o interrogatório. Contou sua
história em poucas palavras. Olhamos
em silêncio para o seu rosto. Estava
sensivelmente envelhecido para a sua
idade. Dos olhos minava pus. Nas
prisões de trânsito não existia
assistência médica. Um homem já idoso
nos mostrou tristemente os dedos dos
pés, todos quebrados.
— Há coisas piores — disse uma
mulher que levara um tiro na rótula e
nunca mais poderia andar normalmente.
— Temos de acabar com os
carcereiros. Com todos eles — disse
Tiny, revoltado, brincando com a sua
espingarda de três canos.
— É o que estão fazendo — afirmou
Porta, apontando com o dedo para o
pátio, do qual no cessavam de vir o
ruído de metralhadoras e gritos de
desespero.
A genebra que Porta trouxera do
armário do comandante era suave e nos
aqueceu extraordinariamente. Um
carcereiro muito gordo, que apanhara o
apelido de Anjo do Inferno porque se
tornara amigo dos prisioneiros, sentou-
se numa cadeira, de costas para nós, e
começou a cantar:
A planície é varrida por uma
imensa nevada, E atrás dela vagueia a
minha doce namorada.

— Logo depois de entrarmos na casa


de banho, rapaz, ela já estava respirando
embaixo do meu pescoço e dando
mordidinhas nele — contou Albert, com
um riso de felicidade. — Ela me disse
que homens pretos lhe davam tremores
no estômago e aí começou a brincar com
as minhas bolas.
— Por Jesus na cruz — resmungou
Tiny, de olhos esbugalhados e coçando-
se entre as pernas. — Vamos, continue a
história!
— Ela tirou a minha túnica de verão
— continuou Albert — abriu minha
braguilha e puxou o moço para fora. E
ali ficou ele, durinho, prontinho para o
que desse e viesse. Eu disse para ela:
“Está aí, você não pode largar ele agora.
Tem de terminar o serviço e me
satisfazer completamente.” Ora, ela não
perdeu tempo e atracou-se com ele,
chupando-o como uma potranca
esfomeada nas tetas da mãe. Então eu
virei ela sobre o banco e dei-lhe uma
trepada. Isso naquela velha casa de
banho cheia de vapor, rapaz! Os sinos
soavam tão alto em nossos ouvidos que
eu pensei que era domingo. Nada como
uma telefonista das Comunicações, que
não dá um cocô pelo Führer e nem pela
vitória final e só quer ser trepada.
Quando ela caiu dormindo, eu saí nu em
pelo para a barraca dos convalescentes.
Outra que encontrei foi no meio do
caminho e fizemos o negócio contra uma
árvore, uma bétula fria como o diabo! A
árvore deve ter pensado que já
estávamos na primavera porque
começou a dar flores dois meses antes
do tempo. Depois disso pensei em
descansar um pouquinho, mas caí num
sono pesado e só acordei com alguém
me tocando muito delicadamente. Abri
os olhos e dei com duas enfermeiras da
cirurgia. Fizemos logo, ali mesmo, um
formidável torneio a três, à moda alemã,
à moda francesa e à moda sueca, e já
estávamos indo para a japonesa quando
um médico do Estado-Maior, que tinha a
suástica onde devia ter os olhos, acabou
com a brincadeira. Não sei o que
fizeram com as duas enfermeiras, mas
quanto a mim me julgaram pronto para o
serviço imediatamente. E aí me
sapecaram na cadeia, acusado de
violação racial e rapto. Em casos como
esse geralmente fuzilam o cara. Mas o
velho que julgava e os seus dois juízes
militares, que se encarregaram do meu
caso, enfrentaram um bocado de
dificuldade quando chegou a vez de
dizer “Heil Hitler!” e então, em vez de
me deixarem todo furado de balas,
mandaram-me passar três meses no
hospício, em Germersheim.
Albert atirou-se para trás, rindo
gostosamente.
— Quando saí de Germersheim, com
destino a Paderbom, passei a noite numa
pensão de soldados, onde vim a
conhecer duas garotas da Marinha.
Quando elas me largaram, eu estava
todo vermelho e azul. Eram peritas em
massagens e me massagearam em todos
os lugares onde um homem gosta de ser
massageado. Uma delas ficou com os
peitos caindo sobre o meu rosto,
mexendo-se para trás e para a frente, me
pondo quase fora de mim. A outra
atracou-se às minhas bolas até que o
meu troço cresceu de tal maneira que
poderia ser usado como farol para ser
visto de qualquer parte da terra. E toda
vez que eu ia chegando ao auge elas
impediam isso, de um modo ou de outro.
Eram realmente profissionais as
garotas! Quando finalmente cheguei ao
ponto foi como se o sol, as estrelas, o
céu, o inferno e toda a terra tivessem
caído sobre a minha cabeça!
— Pare com isso! Pare com isso! —
disse Tiny, arquejante.
— Senão eu acabo perdendo a
cabeça e saio por aí atrás até das éguas
mortas.
Enquanto isso Porta preparava um
café, com o pó que encontrara no
gabinete do comandante.
— Café! — exclamou um
prisioneiro de uniforme lituano. — Onde
foi que arranjou?
— Tenho um tio no Brasil —
respondeu Porta, confidencialmente. —
Ele me manda um saquinho de vez em
quando.
— Se a gente tivesse chegado aqui
um pouco mais cedo... — resmungou
Tiny, carrancudo, olhando
interessadamente através da janela
quebrada.
No outro extremo do grande pátio,
um bando de mulheres estava
embarcando em caminhões, para os
quais havia sido desimpedida uma
estrada.
— Podíamos ter feito uma bela farra
se tivéssemos andado mais depressa —
disse Albert, rindo, todo assanhado,
passando pela boca as costas das mãos.
— Você está doido ou o quê? Elas
teriam gritado e resistido — disse
Gregor, fingindo-se horrorizado.
— Aí é que seria muito melhor —
respondeu Tiny, apertando os lábios
ressecados do frio.
— A pena para rapto é morte! —
disse Heide, incisivamente, ajeitando o
cinto e o coldre.
— Rapto? — exclamou Tiny, dando
uma gargalhada. — Mas quem falou em
rapto? Primeiro a gente comia elas,
depois botava elas desacordadas. E o
que se faz em tempo de guerra.
— Quando me puseram cortando
bonecas de papel no hospício de
Germersheim — interveio Albert — eu
ouvi umas histórias a respeito de alguns
desses garanhões de tempo de guerra
que andaram se servindo de mulheres ã
força. Quando acabaram, eles puseram
as mulheres fechadas numa barraca e
colocaram algumas cargas de explosivo
para darem às raparigas uma boa
despedida. A história veio à tona e eles
foram presos. Ora muito bem, rapaz —
arrematou ele, esticando as mãos
expressivamente — o que depois
soubemos deles foi numa manhã, quando
foram levados para o Campo de Parada
da Engenharia a fim de receberem o
derradeiro pontapé na bunda. Ida só,
sem volta!
— Vamos mudar de assunto — disse
Porta, esquentando o café. — Não há
dúvida de que é muito melhor fazer essa
coisa legalzinho, já que tem mesmo de
ser feita, e evitar as complicações que
sempre vêm depois.
Ouviu-se um silvo e um estrondo e
grande parte da parede caiu dentro da
prisão. Ficamos semienterrados, no
meio de tijolos e argamassa. A cafeteira
escapou das mãos de Porta e voou pelos
ares.
— Para fora, rápido! — gritou o
Velho. — O Ivan está atacando!
Um clarão passou acima de nossas
cabeças. Um canhão automático atirou
pertinho de nós. Da parede caíam
grandes pedaços de emboço, sujos de
fuligem. Desci um bom trecho da estrada
escorregadia e fui bater numa cratera de
granada, de onde Porta e Tiny já
estavam atirando, a metralhadora ficara
já quase em brasa, rubra. Albert e Heide
apareceram, correndo com a velocidade
do relâmpago.
— Não atire, homem! Somos nós! —
berrou Albert, o mais alto que pôde,
transpondo de um salto um T-34
avariado. Mas Porta continuou atirando
contra o grupo de russos que os
perseguia.
— Não, não! Pare, rapaz! — gritava
Albert. — Os vizinhos estão atrás de
nós com toda espécie de merda!
— Em que você pensa que estamos
atirando, seu negro maluco? — gritou
Porta, carregando novamente a
metralhadora.
— Venham cá — gritei, chamando-
os com um gesto de mão.
Peguei a metralhadora e mandei
umas rajadas de cobertura na direção da
ala das mulheres.
— Que diabo, homem! — exclamou
Albert. — Quer cortar nosso traseiro?
O fogo cessou. Ouvimos ruído de
passos apressados. A terra tremeu com o
impacto de granadas em frente a nós.
— São dos nossos ou do vizinho? —
perguntou Heide, mostrando pelo tom de
voz que estava amedrontado.
— Quem lá pode saber? —
respondeu Porta. — Mas de qualquer
modo vamos sair deste lugar. Vou levar
comigo esta gracinha — continuou ele,
pegando a metralhadora russa. — O
vizinho não liga para o tipo de coisa
com que está sendo morto.
Pulei para dentro de uma depressão
e senti que havia alguém no outro lado.
Porta apontou a arma e a
descarregou. Corremos para lá
rapidamente, como se o diabo em
pessoa estivesse atrás de nós. De
repente tropecei num corpo e de pernas
para o ar fomos caindo aos trancos e
barrancos. Nossas metralhadoras
voaram das mãos e eu acabei batendo
com o rosto numa metralhadora russa
Maxim, avariada.
— Os sinos do inferno,
companheiro! Ivan está chegando! —
exclamou Albert, pulando e
contorcendo-se no ar com agilidade de
acrobata. Sua metralhadora mandou uma
saraivada de balas contra um grupo de
russos camuflados de branco, que
surgira correndo da floresta.
— Os vizinhos! — gritou Tiny. —
Os malditos vizinhos!
— Vamos sair daqui — disse Porta,
levantando-se e pondo a metralhadora
russa no ombro. — Não tenho a menor
vontade de morrer pelo Führer, pelo
Povo e pela Pátria!
O vento constante cantava na ravina,
soprava gelidamente sobre o campo
aberto e já prenunciava uma tormenta.
Seu ruído tornava impossível falarmos
uns com os outros. Ninguém em seu
juízo perfeito poderia ficar exposto a ele
mais do que o absolutamente necessário.
Mas quem pergunta a um soldado até
quando quer ficar na linha de frente? Na
realidade já devíamos estar congelados
há muito tempo. O frio nos cortava de tal
forma que parecia querer mesmo dar
cabo de nós.

Oh! vida miserável, nos responde a


este apelo: Como podes crescer e
florescer sobre o gelo?

cantava Porta, enquanto


descansávamos um pouco atrás de uma
sebe danificada pela tempestade.
— Que diabo estará fazendo essa tão
decantada infantaria alemã? —
perguntou Albert.
— Deitada em abrigos, de bunda
voltada para a lua cheia da Rússia —
respondeu Porta, lançando uma longa
saraivada para dentro da cortina de
neve.
— Vamos tocar para frente! — disse
Heide.
— Pelos sete diabos, homem, está
frio para burro! — resmungou Albert,
com os dentes chocalhando
ruidosamente.
A nossa volta caíam granadas de
morteiros. Com o corpo inclinado para a
frente, descemos correndo por um
caminho inteiramente batido pela
ventania.
De repente fui colhido num terrível
redemoinho que me fez rodopiar e bater
contra a sebe. O vento gelado me
massacrava como punhos cerrados.
Desesperado, procurei agarrar-me à
sebe, mas minhas mãos enluvadas
escorregaram na superfície coberta de
gelo. Fui por ali abaixo, envolvido por
uma tremenda tempestade de neve e
cristais de gelo, que me chicoteavam e
espetavam como escorpiões. A
impressão era de que eu me deslocava
com incrível velocidade dentro de um
redemoinho. Tudo girava velozmente à
minha volta, num turbilhão de loucura.
Um clarão muito próximo ofuscou-me
inteiramente. Os projéteis traçantes
voavam acima e abaixo de mim. Senti
como se estivesse caindo, caindo, sem
nunca mais parar, através de um ar
gelado. Minha boca se encheu de
cristais de gelo, ameaçando-me de
asfixia.
Em dado momento verifiquei que
estava caindo de cabeça para baixo.
Árvores e rochas projetadas da neve
vinham em minha direção com tremenda
rapidez.
Desesperado, tentei relembrar os
ensinamentos da escola de guerrilheiros:
“Quando cair de grande altura, abra bem
os braços e procure planar como os
pássaros.” Então eu me debati com
pernas e braços mas não consegui mudar
o curso da queda.
Desamparado, eu descia velozmente,
devendo ser irremediavelmente,
esmagado contra as grandes rochas, que
davam a impressão de virem
rapidamente em minha direção. Dei
gritos e me enrijeci de pavor, só
desejando que aquilo acabasse logo.
Com um movimento obstinado, consegui
finalmente planar e descer suavemente
como sobre um saco gigantesco cheio de
plumas.
Uma montanha inteira passou por
mim, seguindo se um renque de árvores,
a grande velocidade. Senti uma dor
abrasadora, como se estivessem
lancetando todo o meu lado direito. A
vista apagou-se, mas voltei a mim,
rodeado de neve, neve e mais neve.
Compreendi que descera numa enorme
massa de neve.
Acima de mim elevavam-se imensos
rochedos. De certa forma devo ter me
voltado no ar, caído primeiro sobre os
pés e depois deslizado sobre as costas,
como num tobogã, por muitos metros, na
neve macia.
Minha metralhadora fora-se, assim
como a P-38. Tudo que me ficara para
minha defesa eram: a faca e duas
granadas plásticas. A tempestade uivava
ensurdecedoramente acima de mim. Uma
metralhadora funcionava furiosamente
de algum ponto da floresta. Gritei
desesperadamente, mas durante a
tempestade isso era de todo inútil.
Mesmo estando colado a mim, ninguém
me ouviria. De repente comecei a sentir
um frio impiedoso, terrível, mortal.
Precisava me mexer. Não seria
possível permanecer vivo muito tempo
naquela temperatura desumana. À minha
volta as árvores estalavam, com um
estrépito que se assemelhava a tiros de
fuzil.
Um uivo prolongado se fez ouvir a
pouca distância. Quando me voltei,
alarmado, deparei com um par de olhos
brilhando sinistramente na escuridão e
pude distinguir perfeitamente o contorno
de um lobo da neve. Ataquei-o com um
galho e ele ficou rosnando, mas não se
afastou. Com todo o cuidado puxei da
bota a minha faca. “Venha!”, gritei,
provocando-o com o galho. Ele virou-se
e foi embora. Do meio da espessa
cortina de neve ele ainda me lançou um
uivo de raiva.
Não consigo lembrar-me como me
livrei da neve profunda. Lembro-me de
uma extensa caminhada por uma via
gelada, escorregadia, na qual eu
continuamente derrapava ou deslizava.
Um comando de “Stor!” (Alto!) me fez
voltar-me e abrigar-me atrás das raízes
de uma árvore. Lancei uma granada
sobre o vulto. O ruído da explosão
ecoou pela floresta. O nisso foi
levantado do chão, depois caiu
desarvorado e ficou inerte. Sua
Kalashnikov foi atirada quase nos meus
braços pela explosão da granada.
Agarrei-a e dirigi-me
cautelosamente na direção dele,
silencioso como uma serpente. A barriga
do homem estava toda rasgada e aberta.
O sangue já congelara na temperatura
baixíssima. Ai então é que pude ver os
outros quatro, todos mortos por tiros de
metralhadora. Certamente haviam caído
numa armadilha.
O homem que eu matei devia ser o
único que escapara. Se tivesse ficado
quieto, escondido atrás de uma árvore,
eu é que estaria morto àquela hora.
Devia ter enlouquecido de pavor.
Não seria nada engraçado ficar andando
dentro de uma floresta escura, na qual
não cessavam os estalidos causados
pela temperatura e onde se topava a
cada passo com loucos assassinos
agindo sorrateiramente. Deixei a trilha e
passei a caminhar pela neve e por entre
as árvores. Já havia preparado a
Kalashnikov e achava-me pronto para
atirar em qualquer coisa que se
movesse.
De repente um braço foi passado
pelo meu pescoço e começou a me
dificultar a respiração, e uma faca foi
encostada ã minha garganta.
— Um passo mais e você está morto,
Fritz — rosnou uma voz, em russo.
Fiquei completamente paralisado, o
sangue gelou em minhas veias. A
pressão da faca contra minha garganta
aumentava gradualmente. Esperei o fim
inevitável. Com um rápido movimento
ele me abriria a garganta.
E aí ouvi uma monumental
gargalhada. Deram-me um forte
empurrão nas costas e eu caí de cara na
neve.
— Assustamos você, hem? — disse
Porta, às gargalhadas.
Tive vontade de partir para cima
dele, de raiva. Aí apareceram, saídos do
meio das árvores, Tiny e Albert, também
rindo desbragadamente. Parecia terem
feito a gracinha do ano.
— Sorte sua sermos nós — disse
Porta. — Agora você talvez fique
sabendo que é melhor não andar
passeando por estes lugares como se
fosse tempo de paz.
— Cala a boca, seu merda! —
berrei, danado da vida, pegando a
Kalashnikov. — Diabo, vocês me
pregaram um susto medonho!
— Mas você deve estar louco
varrido para andar passeando desse
jeito no meio de uma floresta de
comunistas e em tempo de guerra —
disse Tiny, em tom de reprovação. -—
Você talvez não tenha entendido ainda,
mas os vizinhos estão arrancando
pedaços da nossa bunda.
— Vamos para casa — disse Porta.
Esse “para casa” queria dizer “para
a linha de frente”. Mal acabávamos de
atravessar as ruínas da aldeia e
encontramos os remanescentes da
Companhia.
O Capitão Löwe estava coberto de
sangue e falando por um buraco da
pesada bandagem que lhe cobria a
cabeça e continuava até o peito.
Marchamos em uma longa coluna por um
sobre o lago congelado. O que sobrou
do regimento reuniu-se em Bajkanskij.
Com os lábios contraídos, o
Tenente-Coronel Hinka recebeu dos
comandantes de companhia os números
que expressavam a situação. As perdas
eram enormes, devido ao atraso no
desencadeamento do apoio de fogo da
artilharia: 5ª Companhia, relatava o
Capitão Löwe: sobreviventes — 19;
mortos — 98; feridos — 36; faltando —
51. Faltando referia-se àqueles que
ficaram desfigurados a ponto de não
poderem ser reconhecidos; àqueles que
foram deixados para trás, morrendo;
àqueles que caíram prisioneiros. Era
duvidoso saber se algum dia se teria
notícia deles.
Um ruído tremendo, como o do
trovão, fez-se ouvir. Com prolongado
fragor, uma salva explodiu entre nós. Em
segundos Bajkanskij era um mar de
chamas.
Uma perna arrancada, ainda com
bota, me bateu nas costas com tanta
força que me jogou ao chão.
— Puxa, rapaz! — comentou Albert.
— O cara deve estar mesmo danado
com você para lhe atirar a perna em
cima desse jeito!
Corremos por entre as chamas,
atirando o mais rapidamente possível.
Os russos estavam executando um plano
que usavam frequentemente e que
consistia em um ataque repentino e
devastador de artilharia, seguido de um
outro ataque fanaticamente realizado,
este de infantaria. As tropas de
infantaria estiveram calmamente
aguardando sua hora bem pertinho das
nossas posições.
Usualmente os poríamos fora de
combate com as nossas armas
automáticas, mas dessa vez era
diferente. Muito superiores em força,
exerceram sobre nós uma tremenda
pressão. Recuamos, passando pela
segunda vez por dentro de Bajkanskij,
com lançadores de granadas de mão e
fogo de morteiro em nossa esteira.
— Sigam-me — disse o Velho,
levantando a metralhadora acima da
cabeça.
Aprendemos, sobretudo, coisas
sobre a morte, numa idade em que para
nós é mais natural julgamo-nos
imortais.

P. Caputo

Porta tirou do coldre a sua P-38 e


começou a subir cautelosamente em
direção à porta principal, que estava
semiaberta.
— Entra você primeiro — disse a
Tiny, afastando-se delicadamente para
um lado.
— Por acaso você acha que tenho
terra russa na cabeça? — respondeu
Tiny.
— Já estou nesta guerra há
bastante tempo para saber que não se
deve ir logo entrando por uma porta, a
não ser que se esteja desejando morrer
bestamente.
— Diabo! — exclamou Porta,
olhando fixamente para a grande
entrada, tão tentadoramente aberta.
— Uma porta aberta podia
significar urna porção de coisas. Por
exemplo: esconder atrás de si um
sujeito covarde, pronto para acertar
um tiro de P-38
no pobre coitado que tivesse a
ingenuidade .de enfiar a cabeça para
dentro.
— Ora, que vá tudo para o inferno/
— resmungou Porta, entrando de
repente no peito e na raça.
Antes mesmo de chegar ao outro
lado, virou-se rapidamente e começou
a atirar contra o vão da entrada. Não
havia ninguém ali. Virou-se novamente
e mandou uma bala contra a outra
porta.
— Vazio como a cabeça de um
político! — gritou, olhando
cautelosamente sobre a borda de uma
mesa.
— Está legal! — gritou Tiny lá de
fora, entrando depois como um furacão
e mandando logo um par de balas
através da porta, por via das dúvidas.
Já íamos abrir os postigos quando
ouvimos o ruído de uma metralhadora
atirando prolongadamente. O homem
que saiu correndo para o patamar da
escadaria desapareceu num explosão
de pingos vermelhos. Sua cabeça voou
como se fosse um chapéu alto levado
pela ventania.
Primeiro chegou Tiny, descendo os
escadas como um raio. Com um salto
olímpico ele foi cair dentro do Kübel.
Porta veio em seguida, numa correria
que pouco ficava a dever à velocidade
da luz.
Ele saltou de cabeça para o lugar
do motorista no Kübel. Deu marcha à
re, depois engrenou em frente, no meio
de toda espécie de tanques, seguido
pelos olhares espantados dos
comandantes, tanto russos como
alemães, que quase caíam de sua torre
para verem o que se passava.
14
Ruínas da guerra

O sangue quente pingava em cima de


mim, misturando-se à neve que me
cobria o rosto. As duas pernas lhe
haviam sido cortadas à altura dos
joelhos.
Dali é que pingava o sangue.
Qualquer movimento que fizesse, o
mínimo que fosse, me obrigava a gritar
de dor. Depois de algum tempo fiz um
esforço para virar de lado o capacete de
aço, de modo que os pingos de sangue
provindos do homem que se estendia
sobre a viga acima de mim não me
caíssem mais no rosto.
Encontrei Porta deitado a pouca
distância, ao lado das caixas de
munição, todo dobrado sobre si mesmo,
como um cachorro. Ao lado dele,
Barcelona jazia numa poça de sangue.
Após algum tempo eu já localizara todos
eles. Tiny estava em companhia de
Albert, sentados os dois sobre a carcaça
do que fora antes a torre de um tanque.
O tubo do canhão rachara-se e abrira-se
como casca de banana.

Quem me dera ser uma galinha,


cantava Albert, com voz rouca.
Não consigo lembrar-me do que
aconteceu, a não ser que a terra pareceu
abrir-se e vomitar fogo e aço. Um 1º
tenente passou, com a sua perna
encanada, por entre as padiolas com
corpos. A Mauser lhe rodava nas mãos e
ele ia dando ordens a tropas que já não
tinha mais.
Um padre calvo, parecendo um
espectro, surgiu de um buraco. Emitia
um som ininteligível, feito pato, e dava
gargalhadas idiotas.
— Mantém-te atrás de mim, Satanás
— gritava o tenente, e atirou na cabeça
do padre.Com um riso estridente, ele ia
cambaleando entre os mortos e os
feridos e não percebeu a aproximação
de um T-34 que surgira de uma elevação
do terreno e vinha roncando em sua
direção. Ele foi atirado para cima e caiu
com um baque surdo sobre a torre. Seu
corpo resvalou pela parte traseira do
tanque e caiu ao chão, sendo colhido e
esmagado pelas enormes lagartas de
outro T-34, que vinha logo atrás.
— Menos um maldito alemão! —
disse rindo o motorista do tanque, ao
sentir que passara sobre o corpo do
tenente. O Velho inclinou-se sobre mim.
Seu capacete fora cortado como por um
abridor de lata. Um shrapnel penetrara
na parte posterior do capacete e saíra
pela frente, rompendo-o completamente.
Era um dos novos capacetes,
supostamente à prova de shrapnels.
— Você ainda está vivo — disse ele
com um sorriso confortador e limpando
o sangue do meu rosto. — Onde é o
ferimento? Na cabeça parece que não
tem nada.
Eu apontei para cima.
— É o sangue dele.
— Ah! Sim, mas não vamos nos
preocupar com ele — disse o Velho,
olhando para o corpo sem pernas ali
atravessado na viga.
— Devo ter qualquer coisa aqui por
dentro — respondi, gemendo de dor. —
Diabo, isto dói à beca e não consigo
mexer com o corpo.
— Aguenta um pouco — disse o
Velho. afagando-me no rosto. — A coisa
nunca é tão grave como a gente imagina.
— E que há com os outros? —
perguntei, preocupado.
— Também passaram um mau
pedaço — respondeu o Velho.
— Acho que o Albert anda meio
pirado. Não para de cantar. O troço
inteirinho caiu no meio da gente. Eu fui
atirado a quilômetros de distância. A
infantaria à nossa frente simplesmente
virou pó. Nem um botão se salvou.
— Minhas pernas permanecem no
lugar? — perguntei, apavorado. — Não
estou sentindo elas.
— Ainda continuam bem coladas no
resto de você — respondeu sorridente o
Velho.
Acendeu o cachimbo com tampa de
prata e lançou no ar uma nuvem de
fumaça azulada.
— Mas você deu um passeio
miserável no ar. Agora fique ai quieto.
Vamos ter de nos mandar, antes que os
vizinhos cheguem.
— Raios do inferno — berrou
Barcelona, com uma voz em que se
misturavam sofrimento e terror. — Eu
bati nos portões do Céu e do Inferno,
mas ninguém quis me receber. Como
pode ser? Eu não entendo.
— Claro como a Criação —
resmungou Porta, com os olhos pregados
em Gregor, deitado no arame farpado,
“conversando” com o corpo de um
russo.
Um grupo de soldados de infantaria
surgiu da floresta. O 1º sargento que
vinha com eles nos olhou
penetrantemente.
— Parece que lhes arrancaram as
entranhas, com cu e tudo — comentou, e
já ia saindo sem procurar nos ajudar.
— Leve-nos daqui — gritou o Velho.
— Não estamos podendo nos aguentar.
— Está bem, está bem. Pode calar
essa boca, meu chapa — respondeu o 1º
sargento com um risinho perverso.
— Quer bancar o chefão, é? Então
vamos ser dois aqui.
— Chega, rapaz! — gritou o Velho.
— Leve a gente com você, senão algum
dia eu vou encontrá-lo, mais cedo ou
mais tarde, e garanto que seu traseiro
não vai se alegrar nessa hora!
— É o que você pensa — respondeu
o 1º sargento, dando uma gostosa
gargalhada. — Vocês são os últimos,
filho! Pode nos chamar de retaguarda.
Depois de nós, vêm os vizinhos e o
fim do mundo para todos vocês. Agora,
como hoje estou num dos meus dias de
bom humor, vou levá-los. Mas só até se
livrarem dos vizinhos. Aí então será a
despedida, rapazes! Vamos, peguem
esses pobres coitados! — ordenou ele
aos seus homens. — Quem morrer será
jogado fora.
— Que que nós temos a ver com
esses merdas? — protestou um 2º
sargento que trazia às costas um
depósito de combustível para lança-
chamas.
— Cala essa boca! — berrou o 1º
sargento. — Vá andando!
— Não podemos levar todos —
gritou um sargento. — Alguns deles vão
ter de ficar aqui, e espero que o Ivan
esteja de bom humor quando chegar.
— Aqueles lá no fim da fila vão ter
de ficar — disse secamente o 1º
sargento.
De má vontade e grosseiramente eles
nos fizeram ficar de pé, sem ligar para
os nossos gemidos de dor. Um jovem
tenente, apenas ligeiramente ferido mas
esvaindo-se numa terrível disenteria,
rogou, implorou que não o deixassem
ali. Oferecia até um relógio de pulso e
uma valiosa cigarreira de ouro em
pagamento. Um 1º sargento pegou-os na
mão, avaliando mentalmente o peso, e
meteu-os no bolso. Ele e outro homem
seguraram o tenente e o arrastaram, um
de cada lado, como se levassem um saco
de batata.
— Meu Deus, como ele caga! —
exclamou o 1º sargento, enojado,
enquanto o líquido amarelado, de
mistura com sangue, ia saindo do infeliz
tenente.
— Fede como a latrina do diabo —
comentou outro soldado.
— Então não incomoda a vocês dois
— disse Tiny, dando uma risada. —
Vocês não passam de duas latrinas
ambulantes.
— Isto pega? — perguntou o 1º
sargento, que fora atingido por um pouco
das fezes sanguinolentas.
— Se pega! — respondeu Porta,
maldosamente. — Não dou duas
semanas e você está morto de tifo e
disenteria, Uma morte horrível!
— Cretino! — xingou o 1º sargento,
furioso, enquanto um jato de fezes saía
do jovem oficial, agora inconsciente e
ofegante, como moribundo.
— Não haverá um jeito especial de
esvaziar ele? — perguntou o homem que
ajudava a levá-lo, olhando em volta com
ar de cafajeste.
— Vamos apertá-lo contra uma
árvore — propôs o 1º sargento, parando
para pensar. — Era capaz de limpá-lo
por dentro.
— Podemos experimentar —
concordou o outro, rindo com cinismo.
— Matar ou curar é o que resolve. É
esvaziar ele completamente e ele com
toda certeza vai se sentir melhor. Eles
apertaram diversas vezes o corpo do
tenente contra a árvore.
— Vocês são dois cretinos e hão de
pagar caro por isto — gritou o Velho,
indignado.
— Cale essa boca — berrou o 1º
sargento, fuzilando o Velho com um
olhar cheio de ódio.
De cara fechada, seguiram na cauda
da coluna, com o tenente pendurado
entre os dois. Não haviam caminhado
muito quando perceberam que o homem
estava morto. Sem cuidado algum
atiraram o corpo numa vala e
apressaram o passo para chegar ao 1º
sargento, que marchava à testa do grupo.
— O tenente borrou-se tanto que
morreu — disse o outro timidamente.
Agora está lá em cima na Mansão
Celeste, jogando cartas com São Pedro.
— Eu já contava que estivesse morto
— gritou o 1º sargento encolerizado. —
Quem é que podia escapar, do jeito que
vocês o trataram? Experimentem repetir
isso e lhes corto a cabeça. Entendido?
Eles nos largaram num posto de
saúde de campanha, onde já havia muita
gente. Nem se dignaram a nos apresentar
ali. O dia curto deu logo lugar à noite.
Unidades de diferentes tipos
passavam continuamente. Três tanques
P-4, camuflados de branco, vieram
fazendo um barulho danado, deslizando
e derrapando pela estrada coberta de
gelo. Um corpo congelado quebrou-se
feito vidro sob as lagartas do tanque
líder.
— Levem a gente com vocês —
gritou Porta, acenando ferozmente para
eles.
— Somos do Departamento de
Polícia. Levem-nos com vocês.
Ele vira nos tanques o emblema da
7ª Divisão Blindada: um Y alongado, em
amarelo. Eles passaram sem parar. Os
comandantes achavam-se nas torres,
envolvidos em roupas de couro. Nem
mesmo olharam para nós. Estavam
preocupados em se safar, enquanto era
tempo.
— E essa é a divisão gêmea da
nossa — comentou Porta, com azedume.
— Moçada, aguenta aí. Vou procurar
ajuda.
— Estão facilitando — disse o
Velho. — Os vizinhos vão chegar logo e
vão liquidar o que restou.
— Boa noite, maricas. Sua
virgindade está por um fio — disse Tiny,
com ar de desprezo.
Era tarde da noite quando um
auxiliar de medicina, meio atrasadão,
seguido de uma equipe de 2º tenente de
saúde, percorria com dificuldades as
longas filas de feridos e moribundos. De
vez em quando ele parava e inclinava-se
sobre uma padiola, ajustava um curativo
e encolhia os ombros resignadamente.
Um 3º sargento de saúde empurrou uma
injeção hipodérmica em cada um de nós.
Trabalhava como um autômato.
— Tétano — resmungou, dirigindo-
se ao próximo ferido.
— Cadê o cirurgião? — perguntou
Tiny. — Não vão fazer operações? Olha,
eu estou com a metade do aço da
Segunda Guerra Mundial no meu corpo,
juro!
— Operação? Nenhuma chance! —
disse rindo o auxiliar de medicina. —
Vamos ter de deixar isso para os
vizinhos. Não devem tardar.
— Seu comedor de merda! Porco
alemão! — berrou Tiny, furioso,
atirando sobre ele um pedaço de gelo.
Um general de divisão, com o rosto
todo ferido e coberto de curativos, saiu
de um dos compridos edifícios. Apertou
solenemente a mão de um médico do
Estado-Maior. Saudaram-se mutuamente,
batendo os calcanhares. O general
embarcou num Kübel, que logo
desapareceu numa nuvem de neve, quase
passando por cima de alguns feridos.
— Os bons generais conhecem os
caminhos da segurança — comentou
Porta, com uma risada de deboche e
dando uma pancadinha no lado de dentro
do cotovelo, levantando o punho ao
mesmo tempo. Era o sinal internacional
para “dane-se!”.
Alguns oficiais médicos, metidos em
grossos casacos de pele e carregando
maletas, deixaram às pressas os
extensos edifícios. Entraram em
ambulâncias com o emblema da Cruz
Vermelha, as quais os aguardavam com
os motores funcionando.
— E quanto aos feridos? —
perguntou um 3º sargento de saúde,
indeciso e fazendo uma relaxada
continência.
— Se quiser pode ficar com eles —
respondeu um oficial médico de cabelos
brancos, com um sorriso que indicava
ceticismo. E embarcando afobadamente
num Kübel da Cruz Vermelha. As
colunas de soldados, que passavam
apressadamente por nós, como se o
diabo estivesse em seus calcanhares,
começavam a desaparecer. Três PM de
campanha, trazendo no peito o emblema
de caçadores de cabeça, pararam as
suas pesadas motocicletas BMW. A
metralhadora de cada sidecar parecia
apontada, acidentalmente talvez, em
nossa direção. Um subtenente do
Estado-Maior, cuja cabeça lembrava a
de um feroz cão alsaciano, olhou para
nós com olhos frios e indagadores, por
baixo da aba do capacete de aço.
— Por que motivo vocês ficaram
aqui? — vociferou, mostrando, no seu
rosnar, dentes amarelados do fumo. —
De pé, seus vagabundos, ou vão ter de
rebolar!
Em seguida apontou a pistola
automática para o mais próximo, que se
estendia sobre um feixe de galhos.
— Levante-se — berrou — ou
queimo os seus miolos!
— Acabem com esse cão sarnento
— berrou um 1º sargento, com o
uniforme todo respingado de sangue.
Ouviram-se dois tiros, altos e
traiçoeiros. O bem nutrido PM pulou
para trás e girou o cano da metralhadora
em todo o semicírculo. Uma outra série
de tiros levantou a neve e o gelo à sua
frente.
— Está maluco? — gritou, com voz
alterada, abrigando-se atrás de uma
motocicleta. — Vocês não podem atirar
contra nós!
— Não tenha certeza disso —
rosnou Tiny, agarrando a metralhadora.
— Mata! Mata os sacanas! —
gritaram em coro os feridos.
Uma fuzilaria partida de toda sorte
de armas portáteis concentrou-se sobre a
motocicleta, que explodiu num tremendo
fogaréu. O subtenente do Estado-Maior
rolou em chamas pela neve,
transformando-se numa bola com todo o
aspecto de um monte de papel
chamuscado.
— Parece uma porca ultragorda
chiando na chapa quente — disse Porta,
rindo satisfeito.
Os outros dois PM tentaram fugir.
Cinco ou seis granadas de mão foram
atiradas atrás deles e explodiram
fragorosamente. Os dois acabaram
caindo dentro de um buraco da neve já
cheio de corpos congelados. Como um
presente do céu, um comboio de
caminhões pesados parou ao nosso lado.
Suarentos soldados dos suprimentos
pularam da parte posterior dos
caminhões e começaram a nos embarcar,
com uma tremenda má vontade.
— Só os vivos — ordenou um
capitão, apressando impacientemente os
soldados. — Vamos logo! Vamos logo!
Precisamos tocar para a frente —
continuou gritando sem parar, batendo
repetidamente nas botas de pele com o
chicote.
— Cuidado comigo, senão enfio
seus pelos pela garganta adentro, quando
ficar bom — disse Tiny a um soldado
que o deixou cair duas vezes, na ida
para o caminhão.
— Se não calar essa boca —
respondeu o soldado, um gigante tão
grande quanto Tiny — eu largo você
aqui e vai ver o que acontece! Ivan
liquida sem dó nem piedade quem não
seja do lado dele.
Não tenha dúvida.
— Vamos ter de levar também o
crioulo? — perguntou um 2º sargento,
surpreso. — Um canibal com o uniforme
alemão. Você está aqui em segredo ou
será que o Führer sabe de sua
existência?
— Feche essa gamela, homem.
Convencido de que é engraçado, não é?
— caçoou Albert, com desprezo. —
Prefiro mil vezes ser eu mesmo do que
um fedorento branco alemão comedor de
salsicha, como você.
— Dobre a língua, seu zulu anormal,
ou acaba indo para o mato, com os
outros macacos! — gritou o 3"?-
sargento com um olhar sinistro.
— Como é? Levamos ou não
levamos ele? — repetiu o 2º tenente
com impaciência, mostrando claramente
que o que gostaria de fazer era dar um
pontapé na bunda de Albert.
— Será melhor — respondeu o 3º
sargento. — Se o Ivan o encontrar aqui,
na certa vai usá-lo como propaganda,
dizendo que já estamos convocando até
os macacos do jardim zoológico. Mas
ponham ele na parte aberta do caminhão,
de modo que quando passar por um
monte de lixo no caminho a gente joga
ele dentro.
— Boa ideia — concordou o
capitão. — Agora vamos. Não ternos
tempo a perder. Deixem o resto aí
mesmo. Os russos cuidam deles.
Gritos de protesto partiram dos
feridos que seriam ali deixados.
Os que puderam levantar-se saíram
manquejando atrás das viaturas.
— Toca! Toca! — gritou o capitão,
pulando para dentro do caminhão
dianteiro.
Muitos dos feridos penduraram-se
nas carrocerias e deslocaram-se assim,
como que rebocados. O pavor dos
russos lhes dava alento suficiente.
Esforçamo-nos para puxar alguns
deles e embarcá-los nos caminhões, mas
muitos caíram e acabaram sob as rodas
dos veículos seguintes. Os motoristas
não tiveram possibilidade de evitar o
choque, por causa do gelo escorregadio
da estrada.
— Um bom exemplo do valor que se
da a vida de um soldado comum —
comentou o Velho, com azedume.
— Não valem mais do que a merda
que um bombeiro retira do cano de
esgoto entupido — disse Porta,
acendendo um cigarro.
— Merda do monturo do Exército —
confirmou o Legionário.
— É a guerra!
— Olha aquele gordo ali —
desabafou o Velho, apontando com o
cabo do cachimbo para um soldado
esquiador que agonizava. — Ele tem
uma mulher em casa, tecendo tapetes, e
uma ninhada de garotinhos de nariz
escorrendo. Os filhos vão acabar
exatamente no monte de merda, como o
pai! Estranho como a gente ainda topa
com essas coisas.
— Nós não sabemos nada —
filosofou Albert. — Muitas vezes tenho
pensado sobre o que a gente realmente
está fazendo no Exército. Por que não se
vai embora e deixa tudo isso para os
donos do poder, os oficiais e os
barrigudos civis burocratas, que
precisam de nós para proteger suas
riquezas e permitir que se sentem
tranquilos e fartos, em suas macias
cadeiras de braço?
— Agora cale essa boca preta —
gritou Heide, trêmulo de raiva. — Você
fala como um comunista zurrapa.
Uma rajada de projéteis traçantes
partiu da floresta e interrompeu a
discussão. Um caminhão desceu por uma
encosta, completamente descontrolado.
Os feridos foram atirados para todos os
lados, numa confusão louca. Lá no fundo
o caminhão explodiu e desapareceu num
inferno de chamas amarelas e
vermelhas.
— Continuem! Continuem! — gritou
histericamente o capitão, agitando a
metralhadora. — Não parem! Outro
caminhão capotou e incendiou-se,
juntamente com a carga de doentes e
feridos.
— Diabo! Que fedor está aqui! —
reclamou Barcelona. — Pior do que
latrina de chinês depois de uma orgia de
comidas exóticas.
— São aqueles cinco caras no canto,
que estão cagando seus bacilos de tifo
em cima da gente — gritou Tiny. com o
rosto esfogueado.
Ele deu uma bronca no grupo de
doentes que resmungava num canto.
— Bota eles para fora! — propôs
um 2º tenente de artilharia.
— Vão cagar seus tifos na cara dos
vizinhos.
— Está maluco? Não podemos fazer
isso — protestou Porta.
— Podem nos acusar de dar começo
à guerra bacteriológica, e, apesar de
tudo, ainda não chegamos a esse
extremo.
— Algum de vocês acredita nessa
nova arma milagrosa? — perguntou um

sargento que tinha cara de
camundongo.
— Agora que conheci você, acredito
— respondeu Porta, torcendo-se de tanto
rir.
Viajamos a noite inteira. Passamos
roncando os motores, a uma velocidade
perigosa, por uma aldeia na qual se via
uma fileira de corpos pendurados nos
postes telegráficos.
— Partisans — resmungou Heide,
com o ódio estampado no rosto.
— Acha? — zombou Porta. — Mais
provável é serem sujeitos sanguinários
que finalmente encontraram a chance de
mostrar seu poder. Partisan não sai por
aí pedindo para ser enforcado. É como
cobra: uma rápida mordida e uma fuga
desabalada.
O nosso caminhão caiu num buraco
profundo e ficou preso. Na escuridão,
ouviu-se o ruído do motor de um tanque.
Suas lagartas rangiam de um modo
agourento. Entramos em pânico. Os
menos feridos pularam do caminhão e se
abrigaram atrás de montes de neve.
Um Kübel Volkswagen esforçou-se
para subir a colina e bateu
violentamente contra a parede de uma
casa. Quatro soldados ficaram nele
pendurados, como bonecos sem vida. O
carro começou a incendiar-se e
pequenas línguas de fogo elevaram-se
dele, serpeando no ar.
Três T-34 de cor cinza-claro
surgiram da floresta, quebrando árvores
como se fossem fósforos. Ouviu-se um
estrondo ensurdecedor, seguido de um
ruído prolongado e fortíssimo, como um
trem de suprimentos passando a toda
velocidade por uma ponte de aço. O T-
34 líder rolava pelo gelo com a torre
destruída, como um balde em que
alguém deu um pontapé. Houve nova
explosão de meter medo. O canhão de
um tanque foi-se. Um relâmpago
alaranjado e gigantesco, uma violenta
explosão e uma bola de fogo iluminou a
cena.
O outro T-34 parou logo e foi
envolvido pelas chamas. O comandante,
com o seu equipamento de couro preto,
tentou, no último momento, escapar da
torre.
Teve a perna esquerda cortada à
altura do joelho e ela ficou pendurada,
balançando em cima das línguas de fogo.
Um tanque Pantera surgiu no topo de
uma elevação. Seu longo cano girou na
direção do T-34. Um jato de chamas
projetou-se da boca do canhão e duas
terríveis explosões fizeram os nossos
ouvidos vibrar. O T-34 atirara também,
ao mesmo tempo, contra o Pantera. O
fogo e uma fumaça negra tomaram conta
de ambos. Dois membros da tripulação
saltaram da torre do Pantera. Tossindo e
lutando para respirar, eles rolaram na
neve, em desespero. Três homens da
tripulação do T-34 foram atirados longe,
em chamas, como tochas esvoaçantes.
A clássica morte do tripulante de
tanque de guerra.
15
— Baixem a cabeça! — alertou o
Velho. — Vão explodir a qualquer
momento.
Alguns vultos moviam-se em volta
dos tanques em chamas, iluminados
espectralmente pela intensa luz do
rutilante inferno.
— Coisas do Ivan — disse Tiny,
apontando. — Algum comissário puxa-
saco deve estar lhes dando pontapés na
bunda.
— Quem sabe causaram de viver —
disse Porta, rindo sem vontade. —
Quando o fogo chegar à munição, vai
haver uma explosão tão tremenda que
será capaz de levantar a bunda de um
monge perneta a uma altura que dê para
cagar na cara do diabo.
Logo em seguida os tanques
incendiados explodiram. A terrível onda
de choque arrancou árvores pelas raízes
e arremessou-as pelos ares como
dardos.
Nada restou dos pobres russos.
— Evaporaram-se — gritou Gregor,
fazendo com os braços gestos
expressivos. — Simplesmente isto:
foram-se para melhor!
— Devem ter sido atirados para a
outra margem do Rio Kolyma, na
Sibéria, e vão ficar discutindo com os
alces sobre como foram bater lá —
disse Porta, ajeitando-se o mais
confortavelmente na neve. — Por favor,
me acordem antes que eu morra.
— Que diabo, cara! Você não tem
mesmo nervos! — exclamou Barcelona,
indignado. — Você não pode largar tudo
para dormir e esperar que os vizinhos
venham liquidá-lo!
— Então que acha que eu deva
fazer? — perguntou Porta, esquentado,
levantando o capacete de aço. — Não
vai pensar que a rapaziada do Ivan
esteja querendo bater um bom papo
agora. O que você pode contar na certa é
que eles tenham recebido uma injeção
das ideias de Ilca Ehrenburg, o
poderoso escritor judeu: exterminar os
alemães, arrancá-los do ventre das
mães, arrebentar o crânio das ratazanas
capitalistas ocidentais!
Um tanque P-3, com o seu cano
longo de 75 mm apontado para os céus,
parou barulhentamente ao nosso lado.
— Precisando de ajuda? —
perguntou o comandante, inclinando-se
para fora da torre.
— Queremos sim, meu chapa,
principalmente se você dispuser de
alguns milhares de sobressalentes. E,
sobressalentes humanos, amigo! — disse
Tiny, de um profundo buraco na neve. —
Está nos faltando tudo, traseiros, pernas,
joelhos, tudo!
O comandante, um 1º sargento, pulou
para fora do tanque, juntamente com o
carregador.
— Preciso que me deem uma
mãozinha nos cabos de reboque —
falou.
— Não podemos — replicou Porta.
— Todos aqui são feridos. Não
conseguimos nem dar um traque sem
ajuda.
— Esqueci que estão feridos —
disse o comandante, puxando
febrilmente os gelados cabos do
reboque. — Estamos com uma pressa
danada. O Ivan está em nossos
calcanhares.
Alguns de nós ficamos de pé,
embora com muitas dores, e fornos dar
uma ajuda no manejo do complicado
cabo de reboque.
Finalmente fizemos o negócio
funcionar e o P-3 começou a puxar.
–— Devagar, muito cuidado —
recomendou o comandante. — Não
queremos que o cabo parta. O aço fica
quebradiço como vidro em temperaturas
como esta.
Pouco a pouco o caminhão começou
a se mover. Por instantes deu-nos a
impressão de que ia tombar para um
lado. A parte dianteira balançava na
borda do buraco, com as rodas
levantadas no ar. A carroceria estalava,
as molas rangiam, o conjunto do
caminhão oscilou, tombou para a frente
e ficou, como por milagre, assentado
perfeitamente no chão da estrada. O
cabo de reboque arrebentou e chicoteou
no ar, colhendo e esfacelando n rosto de
um soldado de infantaria que não teve
tempo de fugir da lambada.
Uma língua de fogo surgiu no alto da
colina e o ruído característico do tiro de
canhão de tanque ecoou para fora da
floresta.
O P-3 começou imediatamente a
pegar fogo. Uma fumaça negra e oleosa
subiu acima das árvores, em forma de
cogumelo. Com os uniformes em
chamas, os tripulantes saltaram pelas
escotilhas abertas e rolaram pela neve
aos gritos, enegrecendo aos poucos sob
a violenta ação do fogo. Não pudemos
socorrê-los, nada se podia fazer.
Estavam encharcados de gasolina dos
dois grandes depósitos, os quais eram,
no P-3, precariamente protegidos.
Nosso caminhão rodou a alta
velocidade pela estrada coberta de gelo.
Acabou derrapando, saiu da estrada,
desceu por uma íngreme encosta e
abalroou violentamente um anfíbio no
qual iam dois atiradores de rifles das
tropas de assalto. Numa curva ele rodou
três vezes sobre si mesmo. Três postes
telegráficos foram derrubados, lançando
no ar o ruído característico de madeira
rachada.
Quatro homens foram atirados sobre
a borda posterior, mas a correria
continuou. O motorista temia ter de
parar, pois provavelmente o motor não
pegaria mais. Tínhamos de prosseguir
de qualquer jeito.
Já noite fechada paramos numa
unidade sanitária, que parecia estar em
preparativos de deslocamento. Uma
longa fila de ambulâncias aguardavam
ordens, com os motores em movimento.
Estavam sendo carregadas não só com
feridos, mas também com caixas e
malas.
Após uma espera que pareceu uma
eternidade, surgiu um frenético
assistente médico. Examinou
superficialmente os que se encontravam
mais perto. Ficamos convencidos de que
existem duas categorias de doente: os
que podem ser transportados e os que
não. Fomos empurrados para adiante,
bem no meio do grande anfiteatro
destinado a operações, no qual se
misturavam sangue e vísceras.
— Aquele ali — disse um 3º
sargento de saúde apontando para uma
padiola na qual se achava um engenheiro
todo ensanguentado.
— Não acha que ele vai morrer? —
perguntou um assistente com um
comprido avental de borracha.
— Como e que vou saber? Acha que
sou adivinho ou o quê? — perguntou o
3º sargento.
— Está parecendo um morto bem
conservado — respondeu o assistente.
— Formidável diagnóstico — disse
um exausto assistente, levantando a
pálpebra do engenheiro e tirando do
nariz dele um gordo piolho, que
esmagou com a bota.
— Minha perna! Diabo, minha perna
está fervendo! — gemeu o engenheiro,
ao ser posto na mesa de operações e
amarrado a ela.
— Não aguento mais! Está
queimando! Queimando como o diabo!
— Dobre a morfina — disse o
cirurgião, começando a cortar o
precário curativo.
Abaixo do joelho havia um
ferimento enorme, aberto, já atingindo o
osso.
A perna estava inchada e quase
preta. A gangrena já se espalhara por ali
abaixo até o pé, cujos dedos eram como
pequenos balões inflados.
— A perna tem de ser amputada —
disse o cirurgião-chefe, rudemente. —
Anestesista! — ordenou.
— Nenhum disponível — respondeu
laconicamente o auxiliar.
— Morfina — pediu rispidamente o
cirurgião-chefe. E foi, ele mesmo, às
pressas, apanhar o instrumental que o
encarregado da saia de operações
preparava. Um cheiro nauseabundo,
adocicado, encheu o ar. Um assistente
limpou com presteza a ferida aberta e o
cirurgião afastou completamente a pele.
A operação processou-se
rapidamente, todos trabalhando em
silêncio. Só o cirurgião-chefe falava, e o
fazia sem parar. O assistente da sala de
operações ia passando ao operador, a
seu pedido, os instrumentos vários, com
uma dosada economia de movimentos. O
bisturi penetrava cada vez mais fundo no
tecido apodrecido. O engenheiro
começou a gritar.
— Ponha alguma coisa em sua boca
— ordenou, zangado, o cirurgião,
começando a cortar mais junto ao osso.
Os grampos aplicados à artéria
principal abriram-se e o sangue jorrou
no seu rosto.
— Serrote — ordenou, esperando-o
com a mão já levantada para recebê-lo.
Com seu terrível ruído bem
característico, o serrote foi cortando o
osso. O anestesista encolheu os ombros,
resignadamente. O cirurgião tentou
apressar-se. O serrote continuava
cortando o osso da perna, a qual, após a
amputação, caiu ao solo com uma
pancada surda.
— O próximo — disse o cirurgião.
Um tenente, cuja barriga fora aberta,
veio carregado para a mesa.
— Pronto o transporte — gritou um
3º sargento, cuja voz ecoou pelo
corredor comprido e ventoso.
Quando se viu empurrado para
dentro da ambulância, Albert, o último
homem do grupo, puxou a gola do
casaco, que lhe cobria o rosto, e chamou
o assistente. Este ficou parado,
perplexo, à vista daquele rosto colorido
de ébano.
— Que que há? — gritou ele, sem
entender. — A Alemanha já recebeu
tropas coloniais.
— Não, homem — respondeu rindo
Albert. — Eu sou americano, chefe!
Grande filho do velho Pai Tomás. E
verdade, senhor.
A ambulância rodou com tremenda
velocidade, fazendo-nos perder o
equilíbrio e ser jogados para um e outro
lado até sentirmos que todos os nossos
ossos deviam estar quebrados. Nós
resmungávamos e praguejávamos, mas o
motorista não ligava para nada. O que
ele queria era afastar-se o máximo
possível da linha de frente.
— Se não estão gostando desta
velocidade, então saltem e vão a pé —
berrou, de cara amarrada, batendo a
janela que havia entre nós e ele.
— Vou cortar o pau desse cara —
gritou Tiny, indignado, tentando manter-
se em pé.
Teve de desistir. Havia um espaço
muito pequeno entre as macas.
Após algumas horas de perigosa
viagem a ambulância parou. Ouvimos o
ruído de latas de gasolina batendo umas
nas outras. A porta de trás da
ambulância abriu-se com estrépito e um
3º sargento de saúde, com aparência que
lembrava um porco cevado, encarou-nos
com um par de olhos frios, azuis, olhos
alemães.
— Leva algum morto? Tem muita
gente esperando na fila.
— Entre e verifique — respondeu
Porta, com um riso de mofa — e vai ver
logo quanto de vida ainda existe em nós.
— Eu cuido de você mais tarde,
sargento — assentiu o subalterno,
batendo a porta com um barulho ecoante.
— Vamos tratar de ir embora —
disse um fuzileiro, com voz que
denotava medo. — Os tanques do Ivan
estão no nosso encalço.
Quando o dia frio e triste foi
cedendo lugar à gélida escuridão da
noite, entramos numa frágil ponte que
balançava no espaço, pendurada em
cabos enferrujados, parecendo que ia
cair a cada instante. Ela rangia, vergava,
estalava em toda a sua extensão. Em
condições normais ninguém, em seu
juízo perfeito, arriscar-se-ia a uma
travessia como essa, mas no momento
todo mundo a atravessava rapidamente,
em pânico.
Os tanques russos, com apoio de
infantaria mecanizada, estavam nos
perseguindo e representavam um perigo
muito maior do que a fragílima ponte.
Um grupo de engenheiros, sob o
comando de um tenente, já preparava a
explosão da ponte e lutava
desesperadamente para conter as
dezenas de soldados que se comprimiam
e se empurravam, uma multidão
desenfreada, aflita para abordar o rio.
Uma coluna de tanques chegou com
os motores roncando temerariamente,
obrigando os homens em seu caminho a
pular fora para não serem atropelados.
— Parem! Parem! — gritou o tenente
engenheiro, agitando os braços. —
Querem suicidar-se? Esta ponte não
aguenta tanques. Vocês vão ter de
atravessar noutro lugar.
Um major mal-encarado olhou para
ele, do alto da torre do tanque líder.
— Quer fazer o favor de calar a
boca, tenente? Vou atravessar essa ponte
com os meus tanques, você queira ou
não. Saia do caminho ou lhe esmago.
O tenente saiu para o lado,
sacudindo a cabeça, e sentou-se,
resignado, num tambor de gasolina
vazio. Que podia fazer um tenente
quando contra ele se levantava um major
maluco?
— Um de cada vez! — gritou o
major, mandando que seus tanques
avançassem. — Acelerem e terminem
logo a travessia. E Deus ajude a
qualquer idiota que tente destruir esta
ponte antes de passar o meu último
tanque!
— Major, eu passo para o senhor a
responsabilidade desta ponte —
protestou o tenente, zangado.
— Faça isso então, se é do seu
agrado — berrou o major, indiferente.
A ponte rangia e estalava. E vergou
como uma rede de dormir quando o
primeiro tanque rolou sobre ela. Os
cabos cantavam como cordas de violino
excessivamente esticadas. Logo que o
primeiro tanque atravessou, o seguinte
entrou na ponte.
— Estúpidos idiotas — desabafou o
tenente engenheiro.
Ele prendeu a respiração quando um
dos cabos centrais arrebentou, com o
ruído de urna chicotada, lançando
pedaços que assoviavam no ar. O
penúltimo tanque rolou sobre a ponte. O
que o tenente esperava, e temia,
aconteceu. O motorista estava tomado de
intenso nervosismo. O pesado veículo
bateu nos suportes centrais, que se
quebraram como se feitos de algodão.
Numa chuva de vigas e cabos de aço, a
ponte inteira desabou. O tanque caiu nas
profundezas, dando um completo giro no
ar. Na queda ele se chocou com alguns
rochedos que avançavam sobre uma das
margens da garganta e ficou pendurado
por momentos, para depois despencar
definitivamente, primeiro atravessando a
camada de gelo da superfície e depois
sumindo nas águas geladas. Mais
rapidamente do que as palavras possam
ser escritas, os pesados blocos de gelo
fecharam-se novamente no ponto em que
o tanque o quebrara e desaparecera.
— Deus nos ajude! — resmungou o
tenente. — Eu bem disse a eles, e eles
me ouviram? Idiotas nunca ouvem!
— Isso me pareceu o portão do
inferno abrindo e fechando lá embaixo
— lamentou Porta, intimidado, olhando
fixamente para os blocos de gelo
quebrados pelo tanque.
Um ofuscante raio de luz iluminou o
cenário. A ambulância foi atirada, às
cambalhotas, sobre os restos da ponte
que oscilavam no ar. Um jato de fogo
desprendeu-se dela. Duas macas voaram
pela porta aberta. Ela caiu no rio e foi
tragada no redemoinho de blocos de
gelo, que se esmagavam uns aos outros.
— Tanques! Tanques! — gritou
alguém, dando o alarma.
Poderosos fachos de luz penetraram
na escuridão à procura de presas. As
bazucas atiravam às cegas e caiam
estilhaços de metal. Um jato de chamas
elevou-se quando o primeiro T-34
explodiu com tremendo fragor.
— Minha perna! Minha perna! —
gritou Heide, arrastando-se na neve à
procura de um abrigo.
Peguei-o pelo ombro e puxei-o
comigo, passando por baixo de um
caminhão caído sobre um lado e em
cima de alguns corpos congelados.
Um T-34 veio roncando diretamente
por dentro de uma casa, que desabou
logo após sua passagem. Duas pesadas
vigas ficaram penduradas, balançando,
na frente do tanque. Uma colcha azul
agitava-se como uma bandeira em sua
antena dupla. Os restos de um carrinho
de criança giravam presos às lagartas. O
característico ruído dos motores Otto
podia ser ouvido de todos os lados.
Eles se aproximavam roncando e
descendo a encosta nevoenta,
atravessando a linha dupla da ferrovia
Kiet-Moscou. Grossas nuvens de neve
agitavam-se sobre as casas baixas e
formavam grandes montes nas ruas, estas
muito estreitas para tanques. As casas
esmagadas transformaram-se em grandes
montes de pedras e argamassa.
Um grupo de cossacos surgiu a pé,
correndo com os sabres desembainhados
e golpeando os soldados em fuga.
— Hurra, Stalin! Hurra, Stalin! —
era o grito de vitória partido da garganta
dos infantes siberianos sedentos de
sangue. Eles arremeteram violentamente,
com as metralhadoras atirando sem
parar. Tomados de verdadeira loucura
eles golpeavam, xingavam e abatiam
tudo que não fosse russo. O grito de
ódio de Ilya Ehrenburg repercutia
incessantemente em seus ouvidos;
“Matem-nos no ventre da mãe!
Afoguem-nos em seu próprio sangue!”
Recuamos lentamente, combatendo
em desesperado corpo-a-corpo o tempo
todo, até a aldeia semidestruída, em
cujas ruínas tomamos posição.
Esquecemo-nos da dor dos ferimentos,
pensando unicamente em sobreviver.
Lutamos como loucos. As facas de
combate penetravam nas entranhas. A
ferramenta de sapa da infantaria
arrebentava crânios.
No meio dessa batalha infernal, uma
pequena multidão de civis reuniu-se na
pracinha local, ao pé de um monumento
que representava um cavalo saltando.
Uma mulher comissária, com insígnias
de major, dava ordens com voz gutural.
Falava tão depressa que sua língua
parecia tropeçar nas palavras.
Os civis, que pareciam paralisados
de medo, acotovelavam-se no pequeno
espaço. Ela deu alguns passos para trás.
Sua Kalashnikov despejou a carga
mortal.
Os civis foram caindo uns sobre os
outros, esperneando, gritando, formando
um monte agonizante aos pés da estátua
do cavalo saltador.
— Que diabo! — gritou Porta. —
Esses vizinhos desgraçados já não se
acham satisfeitos de nos terem
enxotado?
A mulher comissária deu uma
gargalhada que mais parecia um relincho
e largou satanicamente vigoroso pontapé
num dos corpos caídos.
— Que diabo terão eles feito? —
perguntou Gregor.
— Nada — respondeu o Legionário.
— C'est la guerre! A mulher das estrelas
douradas quer aumentar sua coleção de
corpos antes que a guerra acabe.
Três enfermeiras alemãs vieram
correndo horrorizadas através da praça,
perseguidas por um grupo de sorridentes
cossacos siberianos.
— Os caras estão querendo um
aconchegozinho — rosnou Tiny.
— Ajeitou no ombro a coronha da
metralhadora e mandou algumas rajadas
curtas contra os siberianos, que caíram
para trás como se tivessem levado uma
cacetada. — Na mosca! — exclamou,
carregando novamente a arma.
Com um rosnar feroz, um russo
gigantesco agarrou as duas enfermeiras
mais próximas dele, levantou-as no ar
como se fossem galinhas e, com uma
pancada surda, fez as cabeças das duas
se chorarem violentamente. Em seguida
lançou os braços em volta delas e
apertou-as num brutal abraço, como um
urso.
Depois puxou do coldre de couro
amarelo a sua Nagan e encostou a boca
da arma no pescoço de uma das moças.
Seguiram-se três detonações, em rápida
sucessão.
— E o que eu chamo uma perfeita
liquidação — gritou Porta, estupefato.
— As balas passaram por uma e
entraram pela outra.
Mas o que aconteceu com a terceira?
— Lá está ela junto àquela árvore,
morta — respondeu Tiny, apontando na
direção.
O gigante russo olhou à sua volta.
Com uma gargalhada bestial ele chutou
os dois corpos.
— Ele já viveu demais — disse
Porta, levantando sua carabina de grosso
calibre.
— Empurra os bagos dele para
dentro da garganta — disse Tiny, com ar
de vingança.
Porta caprichou na pontaria. Ouviu-
se um estalido seco. O russo foi
atingido. O projétil especial lhe abriu
completamente o peito. A bala tinha um
revestimento de aço endurecido e
penetrava até em chapas blindadas.
— Lembranças ao inferno, camarada
— resmungou Porta, baixando a
carabina.
— A comissária é minha — disse
Tiny. Atirou na mulher uma rajada de
balas explosivas, mas não acertou.
Como feiticeira a caminho da reunião
com os outros bruxos, o Sabbath, ela
desapareceu entre as ruínas fumegantes.
— Vamos sair daqui — disse o
Velho.
Os russos encontraram um depósito
de suprimentos e durante algum tempo
só pensaram em pilhar. A cena lembrava
um asilo de loucos em que todos os
pacientes estivessem enfurecidos.
Caixas e garrafas voavam para todos os
lados. Dois siberianos pegaram um saco
de farinha de trigo e o rasgaram com a
baioneta. Em pouco pareciam duas
massas ambulantes.
Bebidas russas como slivovitz e
vodca corriam como rios. Não perdiam
tempo em abrir as garrafas. Cortavam o
gargalo, viravam a cabeça para trás e
entornavam o conteúdo garganta abaixo,
como nas cataratas do Niagara.
Ninguém se importou conosco.
Esgueiramo-nos pelas paredes das
casas, negras de fuligem. A poucos
quilômetros da aldeia caímos no meio
de um grupo de morteiros russos. As
granadas de mão voaram pelos ares e as
armas automáticas começaram a
funcionar. Não foram necessários mais
do que alguns minutos para derrotarmos
o grupo de morteiros.
Num estábulo semidestruído
atiramo-nos aos corpos carbonizados de
algumas reses. Porta achou um presunto
defumado escondido sob uma viga de
amarração, mas ninguém teve vontade de
comer. Só Porta, que se fartou daquilo,
comilão como sempre.
Tiny jazia sentado sobre uma poça
de sangue, gemendo de dar pena.
Durante o encontro com o grupo de
morteiros, um ricochete abriu-lhe o
quadril numa longa extensão.
— Bom Deus do céu — lamentou o
Velho, preocupado, quando cortou as
calças de Tiny. — Vou precisar de mil
curativos para encher este buraco.
Tiny urrou de dor quando o Velho
derramou um pouco de álcool no
ferimento.
— Fecha essa boca — gritou o
Velho. — Em dois dias você estaria
podre se não limpássemos este buraco.
— Um caminhão! — gritou Gregor,
assustadoramente, e levantando-se para
sair em direção ã estrada, onde um
grande Büssing havia parado. Vinha
cheio de feridos graves, envolvidos em
bandagens sanguinolentas.
— Tudo acabado — disse o
motorista. — O motor pifou. Agora vão
ter de voltar como puderem. — Colocou
a metralhadora embaixo do braço e
puxou a gola do casacão até as orelhas.
— Você não pode nos abandonar
aqui — protestou indignado um sargento
ferido. — Sua obrigação como
assistente médico é nos prestar socorro.
— Obrigação — respondeu o
assistente-motorista, rindo
sardonicamente. — Deixe isso para o
Führer. Ele já esta com uma caixa da
Cruz Vermelha pendurada no braço
esquerdo. Descobriu que há alguns
russos que não atiram na Cruz Vermelha.
Deitem-se na neve, assim tudo acaba
mais depressa — continuou ele, pulando
sobre o profundo fosso e desaparecendo
na neve flutuante.
— Se algum dia eu pegar esse cara,
faço ele engolir o próprio pau! —
rosnou Tiny.
— Nunca se pega um merda desses
— disse Barcelona. — Eles sobrevivem
a qualquer guerra.
— Puxa! Que sono miserável! —
resmungou Gregor, quase destroncando
o queixo num bocejo. — Não estou me
importando com o que aconteça, o que
me interessa é dormir!
Porta esticou-se todo no chão batido,
cobriu-se com o capote e fez de uma
vaca morta travesseiro.
— Que inferno! Eu dormiria até
entrar pelo outro ano adentro!
— Dormir é um troço gozado,
homem — disse Albert, caindo de
cansaço. — Na verdade é um modo
formidável de morrer!
— Não há nada que um homem
aprecie mais do que um bom sono —
acrescentou Gregor. — Melhor mesmo
do que comer e trepar.
— Quando durmo — disse Albert,
com uma voz um tanto apagada —
sempre sonho com um lugar
maravilhoso, onde todo mundo é ótimo,
não persegue negros como eu e, ainda
por cima, eu sou sempre rico. Uma vez
sonhei que estava sendo julgado e o juiz
me aplicou uma multa de cem marcos,
mas o que era isso para um homem rico
como eu? “Olha aqui, rapaz” eu disse,
entregando-lhe quinhentos dólares,
“fique Vossa Senhoria com o troco e
compre uma bela gatinha preta.” Então
peguei meu vistoso chapéu de seda e saí.
— Você estava indo para alguma
festa. uma vez que usava cartola? —
perguntou Porta, interessado.
— Eu sempre uso cartola de seda e
uma capa preta com forro de seda
branca nos meus sonhos — respondeu
Albert, rindo de felicidade.
— Experimente fazer isso com um
juiz alemão e ele bota você em cana por
cem anos — disse Tiny, com um mundo
de experiência por trás de suas palavras.
16
O ronco profundo do motor de um
caminhão interrompeu a conversa.
Rastejamos ansiosos até a porta. Um
pesado Puma de oito rodas parou e um
arrogante tenente saltou dele.
— Que diabo vocês aqui estão
querendo? — gritou, irritado, limpando
a neve do rosto.
— Uma carona — respondeu
prontamente o Velho.
— Então embarquem aí atrás —
ordenou o tenente, contrafeito. —
Estamos com pressa.
— Muitos não podem ficar em pé
sem auxílio — disse o Velho.
— Azar o deles — replicou o
tenente, maldosamente, mas dando
ordem ao seu pessoal para ajudar-nos.
— Rápido, rápido! — gritou, com
impaciência. — Não somos uma unidade
da Cruz Vermelha. Somos
esclarecedores de tanques.
A guarnição, como o seu chefe, não
teve lá grande pena de nós. Eles nos
ajudaram a subir para a parte posterior
do caminhão, onde ficamos juntamente
com os que já se encontravam lá, sem
dar a menor atenção aos nossos gritos de
dor.
— E vocês, seus merdas
interesseiros, não podiam ter morrido
um pouco mais cedo? — gritou um 1º
sargento, cuja carranca nos fitava
hostilmente de dentro da enorme gola de
peles do seu casaco. — Se os vizinhos
nos liquidarem, a culpa será
inteiramente de vocês!
— Tomara que a gente encontre
vocês na mesma situação, companheiro
— disse Porta, com ar ameaçador. — Aí
então o atiramos num monte de merda,
onde a rataria acabará com sua raça.
— Será melhor calar essa boca,
filho — disse o 1º sargento, com cara de
poucos amigos. — Pode acontecer a
gente esquecer vocês por aí, quando for
embora.
— São seres humanos, não são? —
disse Gregor, aborrecido.
— Acha? — respondeu o 1º
sargento com um riso forçado.
— Pois não perde por esperar. Sou o
motorista e vou fazer tudo para ver
vocês pelas costas!
— Vou dar parte de você — gritou
Heide, indignado. — Você me paga,
sargento.
— Vai mesmo? — reagiu o 1º
sargento, com um risinho de falsidade,
piscando um olho para um franzino e
narigudo 2º sargento obcecado pela
“Grande Alemanha”. — Segure os pés
chatos do segundo-tenente e vamos
tomar cuidado para que nada lhe
aconteça. Seria uma pena se ele não
pudesse dar parte de nós.
— Cale a boca, desgraçado —
disse, raivoso, o tenente. Ele parecia
irradiar uma força interior que o levaria
talvez quase a matar, um desses
perigosos tipos de gente que sempre se
obstinam em suas próprias
determinações. Contrariado, ele seria
capaz de puxar a pistola e usá-la
efetivamente.
— O tenente aqui pretende fazer
carga contra nós — informou o 1º
sargento, rindo com ironia.
— Então vamos deixá-lo aí — disse
secamente o oficial. — Ele pode dar a
parte aos siberianos. Eles não tardam
em chegar. Os dois homens do veículo
largaram Heide no chão. Ele bateu com
a cabeça numa das pesadas molas e deu
um grito. O sangue inundou-lhe o rosto,
provindo de um profundo ferimento no
pescoço.
— O merda morreu? — perguntou o
soldado narigudo, com a alegria
estampada nos olhos.
— Infelizmente ainda não —
respondeu o 1º sargento. — Mas nós
vamos pôr o gracioso tenentinho na
parte de fora, onde ele não demorará
muito a cair.
— Acabado — gritou o tenente. —
Não há mais tempo para isso. Os
restantes vão no próximo carro.
— Que será russo — disse o 1º
sargento, dando uma gostosa gargalhada
e enfiando-se pela escotilha do
motorista, que fechou em seguida.
— Segurem-se com unhas e dentes e
metam as pirocas nos buracos de
ventilação — gritou o homem do nariz
comprido, desaparecendo no interior da
torre com um risinho debochado.
O tenente lançou sobre nós um olhar
de irritação e ajustou o microfone de
garganta.
— Blindado! Avançar a toda a
velocidade! — ordenou, desaparecendo
dentro da torre depois de arriar
ruidosamente a tampa da escotilha.
Pouco adiante, um dos nossos
morreu de frio. Era um jovem soldado
de infantaria, magro e cujo braço direito
fora amputado.
— Um já se foi para o beleléu — foi
o comentário de Tiny, empurrando o
corpo para um lado, a fim de dar mais
espaço para os restantes.
O Puma blindado desceu uma
encosta de declive muito acentuado. Um

sargento foi atirado sobre a
superfície da estrada, endurecida pela
friagem, e bateu com a cabeça, que se
quebrou como casca de ovo, contra uma
rocha pontuda. Sem que ninguém
percebesse, dois dos feridos gravemente
tinham sido sufocados pelos gases da
descarga. Tiveram a pouca sorte de ficar
embaixo de todo mundo, com o nariz
colado nas aberturas de ventilação.
— Parem! Parem, seus idiotas! —
gritou Tiny, furioso, batendo com a
metralhadora contra a escotilha.
A escotilha continuou fechada.
Mesmo que nos tivesse ouvido lá dentro,
eles não nos dariam absolutamente
atenção.
— E um bando de assassinos —
disse Heide, com raiva incontida, já
reanimado e agora com um cachecol em
volta do pescoço, protegendo a ferida
aberta.
— Agradeça eles levarem você —
disse calmamente o Velho.
— Podiam muito bem tê-lo deixado
por lá, por causa de sua idiotice de
ameaçar dar parte deles. Eles seis estão
todos sofridos e embrutecidos por este
inverno russo.
Uma violenta explosão interrompeu-
o. Estilhaços voavam em torno de nós.
Um canto da torre desaparecera e
podíamos ver embaixo o interior do
veículo.
— E impacto de canhão antitanque
— resmungou Gregor, temeroso e
protegendo-se junto à torre.
O poderoso veículo blindado virou-
se e alvejou o canhão antitanque
emboscado entre arbustos desfolhados
pelo inverno, pondo-o fora de combate.
Dois soldados russos da guarnição
do antitanque, com uniformes
acolchoados, porém mal ajeitados,
saíram fugindo pelos campos gelados. A
metralhadora frontal do Puma lançou
projéteis traçantes contra eles. O
soldado da frente caiu deitado, com o
corpo encurvado sobre a neve. O outro
foi esmagado pelas enormes rodas do
Puma, que freou repentinamente, com
violenta sacudidela, e voltou-se a toda
velocidade em perseguição a um cabo
que se rendeu, levantando os braços.
Quando percebeu que o veículo
blindado ia atropelá-lo, ficou
inteiramente desarvorado e começou a
correr em círculo. O carro assassino
encetou então uma terrível perseguição
contra ele. Toda vez que o carro estava
para alcançar o pobre russo, o motorista
freava e punha em ponto morto.
— Que diabo! — gritou o Velho,
amargamente. — Nos deram carona num
hospício ambulante!
O russo fugitivo acabou caindo na
neve e levantou as mãos para o Puma,
pedindo misericórdia. O carro parou e
pareceu como que se preparando para
pular sobre ele. O motor roncava ao
máximo de revoluções, o carro parado,
mas de repente avançou e passou sobre
o russo, deixando dele apenas uma
mancha cor de sangue na brancura da
neve.
— Vou dar parte dele, diabos me
levem se não vou — gritou o Velho,
indignado. — Matarem-se uns aos
outros, está bem, vá lá, mas isto... isto
ultrapassa todos os limites.
— Você não acha que seria muito
mais interessante não se meter nesse
problema? — perguntou Porta com um
largo sorriso. — Como, não sei, mas
dariam um jeito de inverter a história e
deixar você numa tremenda enrascada.
— As coisas não são bem assim.
Ainda acredito em justiça dos homens.
Numa curva fechada, o motorista do
Puma perdeu o controle do veículo, que
começou a ziguezaguear, saiu da estrada
e desembestou por uma íngreme encosta,
indo finalmente, com tremendo fragor,
arrebentar a camada de gelo que cobria
o rio lá embaixo. Sentimos os respingos
da água gelada sobre nós e pouco depois
estávamos inteiramente metidos no gelo.
O motor deu os últimos arrancos e
parou.
— Agora estou realmente cansado
desta guerra mundial — disse –Porta
enraivecido, quando conseguimos
livrar-nos do gelo. — Quero ir para
casa, fazer minhas necessidades num
vaso de porcelana, gozar os benefícios
de todo o conforto moderno. Vamos
deixar que os russos façam seu cocô em
vigas geladas ou em buracos feitos no
chão e esfreguem as costas com
pedregulhos.
— Ir para casa... — disse o Velho,
pessimista. — Nunca mais vamos voltar
para casa.
Fazendo esforços sobre-humanos,
chegamos à estrada e saltamos o que
restou do pequeno paredão de pedra
protetor pelo qual o carro blindado
passara, arrebentando-o. Um trenó
motorizado nos apanhou. O motorista,
um magro 1º
sargento com cara comprida
parecendo de cavalo, vinha sozinho,
trazendo no banco de trás o corpo
congelado de um tenente-coronel.
— Que tal jogar fora o chefe ali?
Ficava mais espaço — propôs Porta. —
Certamente ele não se importa.
— Não é possível — respondeu o
Cara de Cavalo. — Ele é o meu
passaporte.
Já passei por cinco caçadores de
cabeça rodoviários. Disse a eles que era
o nosso chefe do Estado-Maior e recebi
ordem de levá-lo de volta para um
enterro digno de um verdadeiro herói
germânico e cristão. Bandeiras,
tambores, trombetas, toda essa merda. O
que acontece quando um grande homem
é mandado para o beleléu.
— Para onde está pensando ir? —
perguntou Gregor, instalando-se ao lado
do corpo.
— Colônia — respondeu o Cara de
Cavalo, com um riso cavalar.
— Você deve ter engolido um
comissário — disse Porta. — Antes de
chegar a Colônia eles te penduram pelo
pescoço. E o seu velho chefe do Estado-
Maior congelado ficará ao seu lado,
também de corda no pescoço, como um
triste exemplo para os outros.
— Você não acredita nisso —
respondeu o Cara de Cavalo, com voz
firme. — Um chefe de Estado-Maior,
com galões dourados e umas coisas
brilhando, abre qualquer porta. Ainda
que já morto. Os tiras quase que viram
pessoas humanas.
— Mas ele era mesmo o seu chefe
do Estado-Maior? — perguntou o Velho,
parecendo meio desconfiado à vista do
rosto do tenente-coronel, enegrecido
pelo frio e que mantinha um sorriso
macabro.
— Claro que era — respondeu o
Cara de Cavalo. — Estávamos vendo
posições de artilharia quando o vizinho
mandou uma granada que caiu ao nosso
lado e levou a vida do nosso velho
amigo aqui presente. O comandante da
Divisão mandou que eu providenciasse
um enterro cristão e germânico para o
seu chefe do Estado-Maior. E isso eu
não posso fazer nesta terra de ateus, não
é verdade? De modo que estou levando
o velho amigo para Colônia, onde eu sei
que há uma região de católicos, que foi,
por sinal. abençoada pelo atual Papa,
Pio XII.
— Se você tirar ele daí — propôs
Porta — eu lhe dou meu chapéu e
minhas meias.
— Não pode ser — disse Gregor. —
E absolutamente impossível. Em alguma
parte ele topa com um posto de
fiscalização, onde os caçadores de
cabeça começam a fazer perguntas e
então, babau, num instante aparece uma
corda em volta do seu pescoço. E aí,
adeus, Colônia!
— Olha o diabo com metralhadora!
— gritou Porta, assustado. Pouco
adiante surgia um posto de fiscalização
da Polícia Militar, com luzes vermelhas
e sinais mandando parar. Uma fila de
veículos parados estendia-se ao lado da
estrada e viam-se soldados em fuga
pelos campos. Das árvores pendiam
corpos que balançavam sinistramente.
Os PM estavam armados até os dentes.
O comandante era um 1º tenente mal-
encarado, cuja metralhadora mantinha-se
pronta em suas mãos, percebendo-se
logo que ele devia ser de muita
habilidade no seu uso.
— De onde vêm e para onde vão?
— perguntou ele, com uma voz que
muito se assemelhava ao matraquear da
metralhadora. — Ordem de movimento!
— Sim, senhor — disse Cara de
Cavalo, num tom que refletia grande
experiência de casos como aquele. —
Com sua licença, senhor, vou responder.
Estou cumprindo ordens do
comandante divisionário. Nosso
pranteado chefe do Estado-Maior vai
sendo levado para o Cemitério dos
Heróis, senhor. Para os funerais oficiais,
senhor.
O 1º tenente PM pareceu interessado
no assunto. Encarou desconfiado o
tenente-coronel congelado e não notou a
presença de Porta, que deixara
calmamente o trenó e aparecera logo
depois atrás dele.
— Com sua licença, senhor — disse
Porta, mostrando perfeita postura
militar.
— Confusão por lá, senhor. Atrás de
nós, senhor. Corpo do general, senhor,
roubado com tudo que tinha em cima.
O oficial PM voltou-se e lançou um
olhar furioso para Porta, que, em
posição de sentido, prestava
continência, a mão encostada à cabeça
envolvida em curativos.
— E que que eu tenho com isso? —
vociferou o PM. — Que general é esse
de que está falando?
— Não sei, senhor. Peço desculpa,
senhor — respondeu Porta. — Só sei,
senhor, que um general muito importante
estava sentado no seu Mercedes-Kübel,
gritando para mim: “Você aí, sargento.
Vá correndo procurar aquele tenente PM
no cruzamento adiante, e diga de minha
parte que venha cá e traga todos os seus
homens.”
— Raios do inferno! — exclamou
furioso o oficial PM. — Onde é que está
esse raio de general? Você pode montar
na motocicleta? Você mesmo, sargento.
— Desculpe, senhor, não é possível.
Tiro nas nádegas, senhor, foram os
russos.
— Bandido! — gritou o 1º tenente e
saiu em disparada na sua possante
motocicleta, com todos os seus homens
atrás.
Porta nem olhou para eles, tomando
calmamente seu lugar no trenó.
— Puxa! Ele vai ficar uma fera
quando descobrir que um papo-furado
de um primeiro-sargento o fez dar um
passeio de graça — disse o Cara de
Cavalo, rindo às gargalhadas. — Mas se
ele te encontrar de novo, vais levar um
pontapé na bunda de te levantar do chão.
— Ele não vai me encontrar —
assegurou Porta, cuspindo na neve.
Alguns quilômetros adiante
encontraram uma coluna, que parecia
interminável, de caminhões pesados
completamente cheios de carga e
atolados irremediavelmente na neve. Um
tenente-coronel ficara no meio da
estrada, acenando com a metralhadora
levantada.
— Saiam! — rosnou ele, em tom
enérgico. — Saiam! Só ficam nos carros
os motoristas!
Ninguém se moveu. Nenhum dos
homens desembarcaria.
— Que está havendo? — perguntou
Gregor, estendendo o pescoço.
— Um neurótico de guerra bancando
o machão. Quer estabelecer posições de
defesa — respondeu um 2º tenente da
cabina de um Büssing. — Negócio
também de juramento à bandeira e toda
essa merda. Defender a pátria até o
último homem e a última bala.
— E não vão nunca dar uma folga
nisso? — disse o Velho indignado. — E
nós vamos ser condenados a não ouvir
senão esse negócio de “juramento à
bandeira”, e “combater até a última
bala”?
— É isso aí — suspirou Porta. — O
juramento à bandeira.
— Ele gesticulava com uma só mão.
— A doença alemã. Quando três
alemães se reúnem começam logo a
cantar loas ao Estado e ao Deus
Alemão. E o pior de tudo é que sempre
existem alguns mentecaptos prontos para
nos mandarem para o cu do inferno.
— Agora já chega! — gritou Heide,
considerando-se insultado. —
Mentecaptos! Aposto que não estarei
errado se disser que vocês querem
referir-se ao Führer.
— Pois é mesmo! — respondeu
Porta, prontamente. — Mas existem
muitos outros neste país que só têm
merda na cabeça e estão prontos para
entoar o Niebelungen, a fim de que todos
nós alemães, os elevemos à situação de
mártires da sobrevivência nacional!
— Só um débil mental alemão,
atacado de nacionalismo estreito, seria
capaz de inventar essa carga de merda
da Idade Média — comentou
desdenhosamente Gregor.
Julius Heide estava mudo de pasmo.
Nunca ouvira coisa igual. Chamar de
“carga de merda” a obra-prima nacional
Die Niebelungen! E tomou nota da data,
da hora e dos nomes de todos os
presentes, em seu caderninho.

Quando todos os outros são infiéis


Nós pareceremos verdadeiros...

O trenó motorizado rodou a toda a


velocidade pela estepe, afastando-se do
quilométrico comboio preso na neve e
do maníaco tenente-coronel com sua
metralhadora a acenar em vão.
Uma grande fila de tanques vinha
roncando pela estepe, ao longo das
colinas, seguida de perto por transportes
blindados de tropas e trenós armados.
— Estamos no meio de um contra-
ataque — gritou o Velho, temeroso e
acompanhando com os olhos as
compridas linhas de canhões
autopropulsados que por nós passavam.
Das nuvens mais baixas surgiam agora
os Stuks, fazendo um ruído de abalar os
nervos. Lançavam bombas sobre as
unidades russas, que começaram a bater
em retirada. Batalhão após batalhão,
eles depunham as armas e levantavam as
mãos para o alto. E o que conseguiam
com isso era ser esmagados pelas
lagartas dos tanques, que seguiam
odientos pela estepe gelada, numa
ruidosa coluna de morte, muito longa,
parecendo interminável.
Ao lado de um posto de saúde
avançado, repleto de doentes e feridos,
deixamos o trenó motorizado. O Cara de
Cavalo não quis que continuássemos
com ele, convencido de que poderia
safar-se melhor na exclusiva companhia
do seu congelado chefe do Estado-
Maior. Com um pouco de suborno
conseguimos continuar juntos, pois se
nos separássemos ali provavelmente
nunca mais nos veríamos. Nossa divisão
estava completamente aniquilada e não
seria certamente reconstituída.
— Berlim, Berlim, aqui estou eu! —
sonhava alto e ria gostosamente Porta.
— Quando eu voltar vai ter gente se
borrando toda.
Dois soldados de infantaria se
encontravam deitados sobre um monte
de palha suja. As cabeças haviam sido
inteiramente envolvidas em bandagens,
restando apenas um buraquinho no lugar
da boca.
— Pescoço torcido — disse um
deles, com voz cavernosa e gesticulando
com um dedo paralisado pela friagem.
— Pescoço torcido? — perguntou
Barcelona, admirado e apoiando-se num
cotovelo. — Como é que se pode viver
assim?
— Eu sou uma prova de que se pode
— disse o soldado, lá de dentro da sua
bandagem. — Logo depois de
abandonarmos nossa posição eles nos
fizeram prisioneiros. No princípio foram
muito corretos. Apenas ficaram com os
nossos relógios. O Ivan só tem na
cabeça relógios, bicicletas e mulheres.
Não dão um cocô por uma outra coisa.
Mas aí apareceu um coronel capenga.
Um desses perigosos sujeitos que
costumam carregar um bruto Nagan num
coldre amarelo aberto. Ele em pessoa
eliminou ali mesmo dois homens das
tropas de assalto.
17
Foram dois tiros na barriga, que
saíram arrebentando as costas. Então ele
dirigiu-se aos restantes aos berros,
prometendo que seguiríamos o mesmo
caminho. Todo mundo entrou em forma
do lado de fora em uma fila e
marchamos em direção leste. Alguns
fugiram, na confusão. Os russos ficaram
umas feras, quando descobriram que a
lista não conferia. Distribuíram pancada
a torto e a direito e dois caras que
caíram de cansaço tiveram o crânio
arrebentado, depois de levarem uma
estocada de baioneta na barriga. O
coronel capenga desapareceu e nos
pensamos que íamos ser deixados livres.
Em geral os soldados são tolerantes com
os colegas, mesmo que vistam fardas
diferentes.
Bem, fizemos alto numa praça muito
fortemente guardada e ouvíamos o ruído
dos engenhos de guerra a toda a nossa
volta. Os Ivans começaram reunindo-se
para gozar nossa caveira. Pensávamos
que os engenhos iriam entoar músicas de
Bach e o que havia era o
desencadeamento de um contra-ataque.
O que nos pareceu foi que os nativos
estavam tramando algo muito sórdido
para nós. Eles ficaram afastados,
batendo um animado papo em dialeto
asiático muito esquisito e fazendo correr
em volta um grande jarro de genebra
alemã caído em suas mãos. Após algum
tempo estavam bastante tocados e
começaram uma cantoria tão alta que se
podia ouvir a quilômetros de distância.
De vez em quando ameaçavam-nos com
as suas metralhadoras Kalashnikov e nos
prometiam uma rápida viagem ao reino
das pérolas e nada mais de guerra. De
manhã nos fizeram levantar, meteram-
nos numa longa fila e fizeram-nos
marchar para a floresta, na qual
penetramos profundamente. Numa
clareira, na qual havia alguns canhões
avariados, mandaram-nos parar. Senti a
fria boca de uma pistola na minha nuca.
”Dasvidânia, Fritz”, gritou o sujeito
atrás de mim, parecendo feliz com a sua
proeza. Então tudo desapareceu num
fragor e numa luz brilhante. Mas eu devo
ter, não sei como, torcido o pescoço no
exato momento do tiro. O que importa é
que não fui morto pelo tiro e quando
voltei a mim, pouco depois, alguém me
puxava para um lado e para outro. Era
uma das nossas unidades de vanguarda
que nos havia encontrado, mas só eu e o
colega ali saímos daquilo com vida.
Todos os outros tiveram a cabeça
arrebentada. A Nagan não é arma para
damas. Bom, como pode ver, eu estou
vivo, mas meus olhos se foram.
— Teria sido melhor que o tivessem
matado — disse Porta, olhando a cabeça
envolvida em bandagens.
— Teria sido, realmente —
concordou Barcelona, suspirando
profundamente.
Os compridos corredores estavam
repletos de feridos que gemiam e
pediam a presença de um médico ou de
um assistente. Ninguém os atendia.
Tinham de esperar a vez.
Do teatro de operações chegavam
corpos e mais corpos, quase sem parar.
Depois de algum tempo começamos
a pensar que a maioria dos feridos
morria na mesa de operações.
— Os donos do Partido vão ter
muito que fazer nas próximas semanas
— disse Porta, acompanhando com o
olhar os cinco corpos que iam sendo
carregados por prisioneiros russos. —
Heil Hitler, Frau Müller, o Partido
compartilha com vocês a sua orgulhosa
tristeza. Seu filho caiu pelo Führer e
pela Pátria. O Führer lhes é grato. Heil
Hitler, Frau Müller!
— Pare com isso, bolas! — disse
zangado o Velho. — Não acha que já é
bastante?
Médicos jovens, com aventais sujos
de sangue, debruçavam-se sobre nós e
discutiam com interesse
verdadeiramente profissional. Ângulos
de penetração, perfuração de pulmões,
maxilares partidos, rostos esmagados,
olhos atingidos por tiros, ferimentos nos
intestinos, tornozelos quebrados,
queimaduras de vários graus e inúmeras
outras espécies de mutilação. Era como
se fôssemos cobaias para eles. Quando
chegavam a um acordo, davam-nos
pontos, como se fosse resultado de
exame. Os que passavam dos cinco
pontos eram colocados para um lado e
uma etiqueta vermelha era amarrada à
um dos seus tornozelos.
Para esses a operação não adiantaria
nada. No lugar onde estávamos não se
via quase senão etiqueta vermelha à
nossa volta.
Porta me fez um sinal quando o
levaram para a nauseabunda sala de
operações. Gregor foi atrás dele,
lançando-me um rápido olhar. Tiny
tentou aproximar de mim a sua maca,
mas antes os homens chegaram e o
levaram para a grande sala, na qual os
ativos doutores permaneciam na faina
incessante de amputar pernas e braços,
abrir barrigas, intervir delicadamente
dentro de crânios. Uma atividade
variada e incessante.
Os assistentes, vestindo grandes
aventais de borracha, corriam
apressadamente de um lado para outro,
numa luta contínua contra a morte. Era
um lugar no qual não existia diferença
hierárquica. Oficiais e outros elementos
estavam ali juntos, num monte de
entulhos humanos. Rudes fisionomias
prussianas há muito haviam caído na
vala comum dos homens que queriam
sobreviver. Os que dispunham de algum
recurso para pagar, como dinheiro,
joias, relógios, bebidas, fumo, quase
tudo enfim, tentavam conquistar o direito
a uma etiqueta verde. Os preços subiam
continuamente. O câmbio era de loucura.
As etiquetas verdes conferiam o
direito a transporte para longe, muito
longe das granadas e dos fanáticos
siberianos, inflamados pela verborragia
de um Ilya Ehrenburg, em suas
pregações pela vitória final.
Eu me sentia como um frágil
barquinho em meio a um mar
encapelado.
Tudo se movia para baixo e para
cima. Agora não era só a dor que me
atormentava, mas também a sede. Uma
sede que queimava, que me fazia ansiar
por uma água geladinha. Um rosto surgiu
enevoadamente acima de mim.
— Leve este aqui — disse uma voz.
Senti que levantavam a minha maca.
Quis protestar. mas não pude. Depois me
jogaram por cima de um tabique de
madeira e eu fui cair sobre um monte de
corpos congelados. Outro corpo caiu
sobre mim. Um indescritível cheiro de
carne podre feriu minhas narinas. Então
percebi, horrorizado, que me haviam
jogado num monte de mortos, na crença
de que eu também tivesse morrido.
Uma perna amputada voou pelos
ares e foi bater na parede do outro lado,
com uma pancada surda. Um corpo nu e
ensanguentado seguiu-se a ela. Tinha um
enorme buraco nas costas, do qual os
pulmões pendiam como um par de
bexigas perfuradas.
Tentei gritar, mas o grito não me saía
dos lábios. Eu tinha de sair dali. foi meu
único e desesperado pensamento, pois
iam me enterrar, juntamente com os
outros corpos. Os prisioneiros russos,
que constituíam o pelotão de
enterramento, certamente não teriam a
preocupação de verificar se havia
alguém ainda vivo no meio daqueles
mortos. Como todos os prisioneiros de
guerra, eles faziam apaticamente o que
mandavam que fizessem. Eu apertei
contra o peito e mantive bem presa
minha placa de identificação, da qual a
metade estava faltando. Não havia mais
dúvida: eu fora registrado como morto.
Desesperado, comecei a pensar em
alguma coisa que pudesse fazer para
escapar àquela penosa situação. Segurei
uma gélida mão. Ao puxá-la, ela se
soltou do corpo. Horrorizado joguei-a
longe e fiquei errando pela escuridão,
mas as minhas mãos só tocavam nas
rígidas formas sem vida. Eu avançava e
recuava através daquela massa de
corpos mutilados e retorcidos. Cheguei
a um ponto mais alto e vi uma luz acima
de mim. Meus dedos penetraram numa
boca aberta. Senti que estava deslizando
por uma rampa, afastando-me muito,
cada vez mais, daquele matadouro
infernal.
Não me lembro de mais nada, a não
ser que um par de mãos fortes me
agarrou e me empurrou para cima e para
fora, na claridade de uma luz intensa.
Uma voz de homem se fez ouvir, num
russo gutural. Ele me puxou bem para
fora dali. Alguém riu com gosto. Vozes
alemães misturaram-se ao palavreado
do russo.
— Bem, agora percebo tudo. O
homem ainda está vivo.
Um russo, de gorro alto de pele, me
levantou e me levou de volta ao
aquecido corredor, onde um 3º sargento
de saúde o esperava.
— Que diabo, homem! — gritou ele.
— Você deve ter mais cuidado! Que
papelão! Botar gente na caieira antes de
estar mortal Não permitirei mais tal
relaxamento.
— Da gaspadin — respondeu o
russo, completamente por fora.
— Ponha-o na fila, junto com os
outros — ordenou o 3º sargento
impacientemente. — As coisas estão
melhorando um bocado em matéria de
operações. Eles têm de ser capazes de
cuidar de um cara cabeçudo como este,
que se recusa terminantemente a morrer.
Eles me largaram sobre um colchão
de palha e foram embora. Vomitei e
quase me asfixio com a bílis amarga. A
dor parecia estar me cortando em
pedacinhos.
O posto médico sofreu uma violenta
sacudidela. Começava um prolongado
ruído de tiros de artilharia. Quando me
voltei na direção da janela, vi o clarão
de um arrebentamento. Se russo ou
alemão, não saberia dizer.
Uma mão amarela apareceu sob um
cobertor muito sujo. Eu estendi a minha
mão, mas não pude alcançá-la.

Manhã rosada, manhã rosada,


Ilumina-me para uma morte prematura.

cacarejava o homem da maca


vizinha, os lábios azulados abrindo-se
em uma risada animal. Ele ergueu um
pouco o corpo, encarando-me com olhos
mortos, muito esquisitos. Depois caiu
para trás com um suspiro. A cabeça
ficou tombada sobre a borda da maca,
desamparada, presa a um pescoço
excessivamente comprido e fino.
Um gordo oficial médico, de olhos
cansados e inexpressivos e faces de uma
palidez mortal, olhava para mim
insistentemente. Parecia estar contando
pontos e imaginando o que fazer comigo.
— Você é o sujeito que se recusou a
morrer, não é? — disse ele, já pegando
um instrumento brilhante de um
assistente de pe, aguardando ordens, ao
seu lado.
Uma agulha foi enfiada no meu peito
e meus braços foram puxados para trás.
Tive a impressão de que retalhavam meu
corpo, cortando meus ossos,
pressionando meus intestinos para
saírem por trás.
— Fique calado — ordenou o
cirurgião, ao tempo em que apertavam
qualquer coisa contra meu rosto.
Quando acordei, muito tempo
depois, achava-me deitado em uma sala
na qual havia um grande número de
feridos. Ao longo de uma parede caiada
de branco os percevejos faziam
evoluções.
Eles dobraram à esquerda e caíram
sobre os três pacientes ao meu lado.
Parecia não quererem nada comigo,
o que era um mau sinal. Senti um frio de
morte, o estômago queimava. A sala
parecia girar ao meu redor.
Um rato gordo e careca lambiscava
qualquer coisa no chão, um pouco além
de nós. Um capacete de aço veio voando
e caiu sobre o rato papa-defunto, que
fugiu guinchando em direção do
necrotério.
Um assistente médico, de brim
branco, veio perguntar como me sentia.
— Como no inferno — respondi,
com voz fraca.
— Vou lhe dar uma injeção — disse
ele, puxando do bolso uma etiqueta
verde. — Você é um cara de sorte. O
oficial médico do Estado-Maior estava
de bom humor hoje. Quando pescamos
você da pilha de mortos, você trazia
uma etiqueta vermelha. Onde é que estão
seus troços? Você me deve alguma
coisa.
Se não fosse eu, você teria sido
enterrado em cal viva. Acredite em mim,
companheiro.
— Não tenho nada — respondi com
voz cansada.
— Sujeito inútil — praguejou,
zangado. — Problemas é só o que vocês
porcos representam para todo mundo.
Meteu a mão em meus bolsos e
encontrou o meu relógio. Era um antigo
relógio, presente do meu avô.
— Vou ficar com isto — falou,
friamente. — Sua vida nojenta pode
valer um relógio velho, suponho. —
Abriu o relógio e levou-o ao ouvido. —
Interessante este relógio — continuou.
— Vou cuidar bem dele por você.
Agora, não vamos criar problemas. Você
ainda não está no trem. Podemos
perfeitamente esquecê-
lo aqui e os T-34 do Ivan estão a
caminho, com os atiradores especiais
logo em seguida.
Deixei que ficasse com o relógio.
Quando um 3º sargento de saúde
apareceu, ele eclipsou-se, tão
rapidamente como o rato comedor de
defunto.
— Deram alta a você — disse o 3º
sargento, homem idoso, de cabelos
brancos, com muitos anos de serviço. —
Vou providenciar uma injeção para você
tomar antes de ir para o trem — disse
ele.
Agradeci, já pensando no que ele
quereria por aquilo.
— Não me agradeça — disse
sorrindo amigavelmente. — E um direito
que o Regulamento do Serviço Médico
lhe concede. Mas vou lhe dar um
conselho.
Não engrosse. Cerre os dentes e não
diga palavra. Mostre que está se
sentindo bem. Se não fizer assim, eles
não o levarão, mesmo que esteja com
cinco etiquetas verdes. Os que criam
caso dão trabalho.
Fiquei em devaneio, imaginando
onde estariam os outros. Cheguei a
sonhar com Porta, sentado numa cozinha
cheia de vapores e preparando a “Sopa
de Todos os Russos”.
— Quer vender sua etiqueta verde?
— perguntou um oficial de intendência,
gordão, deitado numa cama ao lado da
minha, exibindo um punhado de pedras
brilhantes. — Diamantes — disse,
pondo na voz um tom de tentação.
Encarei-o. Devia estar maluco.
Ninguém venderia sua chance de deixar
aquele lugar, sabendo que os russos
estavam quase batendo à porta.
— Quero que você se afogue em sua
própria merda — reagiu ele, furioso,
virando-se para tentar o mesmo com
outros feridos, a quem passou a oferecer
o seu edifício de apartamentos em
Hamburgo. — É um enorme prédio —
dizia, abrindo os braços para reforçar
seu argumento. — Quarenta e oito
apartamentos, alugados a inquilinos
ótimos, sólidos, que pagam
pontualmente. Nove lojas com aluguéis
altíssimos!
— Meta seu edifício na bunda, com
inquilinos e tudo — responderam às
gargalhadas, ridicularizando-o. —
Experimente fazer esse negócio com o
Ivan, quando ele aparecer. Com certeza
existem russos que desejariam ter um
prédio de apartamentos em Hamburgo.
— Eu acho que vocês não estão
sabendo bem o que estou oferecendo —
continuou ele, insistente. — Um imóvel
como esse, numa parte central de
Hamburgo, é um troço formidável para
se ter quando a guerra acabar. Quem
possui terra e casas está sempre
ganhando. Quanto a dinheiro, pode
limpar a bunda com ele quando o país
perde a guerra.
— Então está tudo muito bem —
disse rindo um engenheiro, encostado na
parede distante. — Você é um merda
sortudo, rapaz! Tudo o que tenho é uma
bicicleta sem pneus, se é que não foi
furtada. Mas sou dono de uma etiqueta
verde!
O proprietário de edifícios e
diamantes começou a chorar. Naquele
momento ele compreendeu como era
pobre.
— Quero sair daqui — gritava,
histericamente.
— E vai sair — disse um 2º
sargento com cara de rato. — Só que em
outra direção, da Sibéria!
Todos os que possuíam etiqueta
verde riram maldosamente, fazendo uma
algazarra tão grande como se estivessem
numa cervejaria.
Um grupo de assistentes médicos, de
bagagem feita, atirava-se freneticamente
pelos corredores.
— Vamos, depressa! — berrou um
idoso oficial médico do Estado-Maior,
um tanto histérico. — Os russos podem
chegar a cada momento!
O assistente que me roubara o
relógio veio para mim e me meteu uma
agulha no braço.
— Vamos embora, companheiro —
disse rindo, apertando as correias da
enorme mochila e passando o braço pelo
meu ombro para ajudar-me a ficar de pé.
— Pode ficar em pe sozinho? —
perguntou.
— Acho que sim — respondi, de
lábios apertados.
— E é bom que ache — disse ele.
— E a única chance que tem. Se não
puder aguentar-se por si próprio eles o
deixam para trás. Mesmo que você tenha
cinquenta etiquetas verdes amarradas na
piroca.
Apoiei-me nele e tratei de ser o mais
leve possível. Se ele sentisse que eu
estava sendo problema me largava por
lá, como se eu fosse um inútil maço de
cigarro vazio.
A rua era uma massa de neve
derretida e suja. Por toda parte viam-se
macas e equipamentos abandonados.
Feridos gemebundos, com bandagens
ensanguentadas, arrastavam-se pelos
campos, como lagartos semimortos. À
distância podia-se ouvir o pesado
ronco de motores e o atordoante ruído
dos “moedores de café”.
No meio da estrada um P-34 pegava
fogo. Os corpos carbonizados dos
tripulantes penduravam-se pelas
escotilhas abertas. Suas órbitas vazias
pareciam encarar-nos.
— É tempo de cair fora daqui —
disse rindo o “meu” assistente, de modo
torpe, chutando para fora um doente que
se arrastava pelo chão, sem as duas
pernas, ambas amputadas. — Por que
esses idiotas não ficam na cama? —
disse irritado. — Não vão deixar que
eles entrem no trem. A única coisa que
podem arranjar é ser esmagados por um
tanque ou outro troço qualquer.
Sobre a estação ferroviária
elevavam-se densos e oleosos
cogumelos de fumaça. Um tremendo
sopro de ar quente passou por nós.
Terra, asfalto, telhas, ferros retorcidos e
pedaços de aço iam caindo sobre nossas
cabeças. Uma oficina completa de
carpinteiro veio pelos ares e espatifou-
se entre as ruínas das casas. Uma
enorme caldeira caiu com grande fragor
de ferros quebrados sobre um grupo de
feridos. Formas humanas contorcidas
pendiam de postes de iluminação.
Corpos decapitados, corpos sem
traseiros. O sopro os removia dali e os
substituía por outros corpos.
— Conseguimos — disse o
assistente, empurrando-me para dentro
de um vagão de suprimentos abarrotado.
— Cá estão os teus amiguinhos,
companheiro — disse rindo e batendo-
me alegremente nas costas.
Em seguida desapareceu no meio da
multidão com a sua enorme mochila.
Estavam todos ali. Albert me
abraçou, Tiny fez um aceno lá de um
canto.
Porta, como era de esperar, sentara-
se junto ao fogão, e fritava batatas.
— Foi difícil de te achar — disse
Gregor — mas arranjamos para nos
ajudar o assistente que te trouxe aqui.
Cobrou os olhos da cara.
— Esse cara é pior do que todos os
trambiqueiros da Alemanha reunidos —
disse Porta. — Um verdadeiro gatuno.
— Vou pedir ao Deus dos pretos que
esse porco não consiga escapar das
garras do Ivan sobre seu ombro — disse
Albert, com ares vingativos. Juntou as
mãos e elevou o olhar piedosamente
para o imundo forro do vagão de
transporte de gado, como se esperasse
que o Deus africano ali fosse
entronizado.
O comprido trem sacudiu
violentamente. As duas possantes
locomotivas que o puxavam deram um
apito longo e estridente. Na parte de trás
do vagão alguém começou a cantar:
Vir a mim não é fácil para você,
Quando a morte está apenas a quatro
passos...

Porta puxou da mochila um livro de


anotações grosso e preto, molhou nos
lábios um toco de lápis e passou algum
tempo escrevendo em silêncio.
— Que que você tanto rabisca nesse
livro? — perguntou o Velho, com ares
de curiosidade.
— Anotando quem deixou de pagar
os seus oitenta por cento enquanto eu
tenho estado fora, lutando na guerra
mundial. Parece que vou ter muito que
fazer quando chegar a Berlim. Existem
alguns rapazes que podem perder suas
bolas.
— Tem certeza de que estamos
mesmo indo para Berlim? — perguntou
Gregor, incrédulo.
— Claro que tenho. Comprei uma
passagem para Berlim valendo para
todos nós. Um segundo-sargento do
Estado-Maior, que é chefe do RTO
local, é um grande amigo meu. Eu lhe
perdoei em oitenta por cento uma dívida
pessoal.
Isso é uma garantia de chegarmos a
Berlim.
— Ele vai te enrolar –— afirmou o
Velho, tranquilamente, recostando-se,
cansado, na parede gelada do vagão.
— Ele, não! — disse Porta. — É um
suíno, vá lá, mas não um suíno podre.
Durante 19 dias o trem-hospital
ziguezagueou através da Ucrânia e
Polônia. Depois a Tchecoslováquia.
Uma viagem em torno de Eger e Hof e
em seguida para o norte com os feridos
restantes. Uma noite o trem parou com
um barulho de freios na Anhalter
Bahnhof, Berlim.
— Puxa vida! — gritou o Velho,
sacudindo a cabeça, numa admiração
silenciosa. — Você é o rei de todos eles,
Porta! A oitava maravilha do mundo!
— Eu não disse que estávamos indo
para Berlim? — respondeu Porta.
Fingiu-se mais doente e dolorido do
que estava realmente quando as portas
se abriram e um grupo de assistentes
médicos entrou no vagão para
desembarcá-los.
— Donde é que vocês vêm? —
perguntou um 1º sargento em tom de
dureza.
— Do cu do mundo — respondeu
Porta, com uma boa gargalhada.
— Não seja insolente comigo,
sargento — rosnou o outro, carrancudo,
ajeitando o seu agressivamente limpo
uniforme, de talhe impecável.
Berlim, Berlim, agora nos
encontramos novamente, sussurrou
Porta, enquanto duas enfermeiras, quase
arquejantes, o carregavam, ao longo da
plataforma, para a ambulância à espera.
Quando jovens soldados,
perfeitamente normais, começam a
matar, é muito difícil fazê-los parar.

Matar tornara-se para nós uma


rotina diária. Não havia uma arma em
cujo uso não fôssemos peritos, desde o
fio de estrangular até as metralhadoras
pesadas e os canhões. Muitos de nós
podíamos também matar usando
apenas as mãos. Um golpe violento
com a borda da mão, dois dedos
rígidos. Aos vinte anos nós já éramos
mais velhos do que nossos velhos avós
de setenta!
Sabíamos mais a respeito de vida e
morte do que eles haviam aprendido em
toda sua existência. Nunca passávamos
por um morto sem lhe metermos uma
bala na cabeça. Uma granada sempre
penetrava através da porta antes de
entrarmos numa casa. Furtaram nossas
ilusões para todo o sempre. Nada nos
poderia surpreender. Passamos pela
experiência de inúmeros choques
psíquicos. Nossa vida emocional
regular foi destruída por traiçoeiras
emboscadas, por ataques súbitos de
artilharia. O rapto nos alegrava,
particularmente se fôssemos toda uma
companhia com uma só mulher.
Pegávamos tudo ao nosso alcance.
Não dispúnhamos de muito tempo, a
morte sempre nos rondando de perto.
18
Oitenta por cento

— Sally está em Berlim! — gritou


Porta alegremente. — E no Grande
Quartel-General!
— No Ministério da Guerra —
corrigiu o 3º sargento de saúde.
— Melhor ainda! — disse Porta,
rindo prazerosamente. — E o que eu
sempre disse. Quando Deus ama a gente,
o sol está sempre brilhando. Sally em
Berlim!
Sally na Casa da Guerra! Isto é o
tipo de coisa que dá forças a um homem
em sua fé!
Ele ria alto e sem parar. O oficial
médico chefe, um tenente-coronel,
entrou na sala. à frente do seu estado-
maior, naquele exato momento.
— Você parece se recuperar com
uma rapidez maravilhosa — comentou
ele, aplicando o estetoscópio no peito
de Porta. — Ontem estava totalmente
paralisado, com uma febre ardente.
Gostaria que me falasse mais a respeito
dessa cura-relâmpago que parece ter
conseguido no decurso de uma noite.
Isso poderá ser útil para mim no futuro,
quando estiver tratando de outros casos
perdidos!
— Senhor coronel — disse Porta,
sorrindo satisfeito. — Parece que
aconteceu comigo, senhor, o mesmo que
está na Bíblia. Com aquele homem na
Palestina.
E Jesus disse, senhor: “Levanta-te
da cama e anda!” E o paralítico lá se foi
com o seu saco no ombro!
— Parece realmente ter ocorrido
alguma coisa dessa natureza — disse
secamente o médico. — Será melhor
transferir você diretamente para o
batalhão de convalescentes. Você
precisa de um pouco de exercícios
saudáveis.
— Com sua permissão, senhor. O
Sargento Creutzfeldt, aquele ali, também
ficou curado no decurso de uma noite.
Todas as dores nas costas passaram
completamente.
Tiny sacudiu a cabeça furiosamente,
atrás do médico, e levantava os braços,
tomado de espanto. Não podia
compreender nada daquilo. O plano era
lançar âncora no Hospital de Berlim e
ali ficar até o fim da guerra.
— E bom saber que Creutzfeldt foi
também alcançado por esse caso de
saúde aguda! — disse o médico,
sorrindo sarcasticamente. — Assim será
melhor deixar que ele vá também.
Vamos transferir a ambos para o
batalhão de convalescentes.
— Com sua permissão, senhor! —
sussurrou Porta. — Nós vamos ser logo
logo encarregados de uma missão
especial no Ministério da Guerra.
— Só acredito nisso quando vir —
respondeu o médico, com uma curta
gargalhada. — De qualquer modo, vocês
dois vão para o depósito de
convalescentes — confirmou, e
apontando para as muletas encostadas à
cama: — Levem aquilo para o depósito.
Qualquer um pode perceber que vocês
não vão mais precisar delas.
— Burro! — segredou o assistente
no ouvido de Porta, quando registrava a
alta.
— Acha? — respondeu rindo Porta.
— Dentro de alguns dias você dará o
traseiro para trocar conosco. Estaremos
de volta, refestelados numa poltrona do
Ministério da Guerra, despachando
generais e funcionários para lá e para
cá, conforme acharmos mais ou menos
urgente!
Foi uma ruidosa reunião aquela que
Porta e Tiny, depois de negociarem
inúmeros pontos-chaves, chegaram para
realizar no gabinete do seu dileto amigo
Sally no Departamento dos Negócios
Gerais do Exercito, do Ministério da
Guerra.
— É formidável! –— disse Tiny,
emocionado, pulando como criança num
sofá de molas.
Porta afundou numa macia poltrona
de braços, com um enorme charuto
pendurado no canto da boca. Abriu a
gola do uniforme e puxou o quepe para
baixo, sobre o olho esquerdo. Era assim
que gostava de ficar. Acreditava que
nessa atitude um homem parece
realmente alguém.
— Que tal um trago de um troço
qualquer para lavar da garganta as
bactérias do hospital? — sugeriu Sally,
pegando uma garrafa que se achava num
armário marcado “ARQUIVOS DO
COMANDO — SECRETO”.
— Com o maior prazer —
respondeu Porta, lançando ao ar uma
nuvem de fumaça. — E pode mesmo
encher o copo até em cima, enquanto
você estiver por aí. Não quero que se
sinta na obrigação de enchê-lo o tempo
todo.
Brindaram-se mutuamente,
curvando-se com arrogância a partir dos
quadris, segundo o costume dos oficiais.
Afinal de contas estavam no Ministério
da Guerra.
Porta virou o copo inteiro de uma só
vez e ainda o lambeu depois.
— Eu soube que vocês se divertiram
a beça com o gato-do-mato que lhes
mandei — disse Sally, rindo
gostosamente. — Que tal ,um outro?
Estou com dois deles em estoques e
vocês podem levá-los quando quiserem,
se é que desejam dar lições a um
“amigo".
— Nada de gatos-do-mato —
protestou Tiny, horrorizado, mostrando
as cicatrizes resultantes dos seus
encontros com o primeiro.
— Você deve nos pôr imediatamente
no cumprimento da missão especial —
disse Porta, serio, apresentando o copo
para ser enchido de novo. — Já demos
nossa pernada pela Rússia.
— Posso fazer isso — respondeu
Sally, confidencialmente — Que ramo
escolheriam?
— Sentar Junto com você e planejar
uma coisa qualquer, bebendo slivovitz
— propôs Tiny, caindo na gargalhada.
— Que tal a CRSE? Perguntou Sally.
— Agradável e simples. Nenhum
perigoso candidato ao Valhalla, ansioso
pelo fragor da guerra.
— Mas que é CRSE? — perguntou
Porta, desconfiado como sempre.
— Comissão dos Regulamentos do
Serviço do Exército — explicou Sally,
com ar superior.
— Um desses organismos onde se
come e descome regulamentos — disse
Porta, compreensivo. — Creio que cai
bem para nós. Vê se nos bota logo na
folha de pagamento e assim se pode
começar a bolar os planos o mais cedo
possível. Estou muitíssimo preocupado
— prosseguiu, inclinando-se e falando
em tom confidencial sobre a mesa, que
era do tamanho de um campo de pouso
de helicópteros. — Aqui em Berlim tem
gente que acha que pode mijar em cima
de mim. Só porque andei algum tempo
engajado na Rússia, observando a
evolução desta guerra sangrenta. Andei
escarafunchando por ai e descobri, com
muita tristeza, que ninguém é capaz de
dar um cocô por mim. Riem de mim,
cospem aos meus pés. Até no bordel da
Minna fingiram não me conhecer.
Minna teve um troço Ana garganta
de tanto rir quando eu lembrei a ela a
dívida dos oitenta por cento. E ela era
muito capaz de me exigir pagamento
adiantado se quisesse alguma coisa com
tuna das suas ossudas prostitutas. Pois
estou atingindo agora um estágio em que
um homem só pode beber e trepar, e nos
intervalos é um deprimido. Mas isso me
aconteceu até saber que você estava
voltando a Berlim, o que me deu novo
ânimo. Antes disso eu já estava quase
pronto para me jogar de uma cadeira,
com uma corda em volta do pescoço.
— Você cometeu o maior erro de sua
vida quando recusou meu oferecimento
do lugar de encarregado dos fichários no
Comando Paderborn — disse Sally. —
Preferiu dirigir um tanque. Era mais
divertido, segundo você disse.
— Na ocasião eu não sabia que o
GROFAZ estava agindo para me
envolver numa guerra — justificou-se
Porta.
— Mas ele estava — disse Sally
com um sorriso — e lá se foi você, com
todos os outros idiotas, para ficar sob a
terrível chuva de granadas. Os poucos
de nós que mantivemos a cabeça fria
ficamos cá atrás, sob uma chuva, muito
menos perigosa, de papéis e máquinas
de escrever. Vamos mantendo as coisas
normalmente até que um dia a paz
ressurja e um novo sol nos ilumine.
— Fui um bobo — admitiu Porta,
com ar triste, lançando um olhar crítico
sobre sua imagem refletida no espelho
colocado atrás da mesa. — Resolva
você mesmo a sua sorte, Porta! — falou
energicamente à sua imagem no espelho,
virando a cabeça, de modo que, com
certo esforço, podia ver-se também em
perfil. — Você parece bastante
inteligente — disse a si mesmo com um
ar de satisfação. — Aqueles pirocas
moles vão saber direitinho que querer
passar a perna no cara dos oitenta por
cento não é coisa para ficar impune.
O Subtenente Sally sorriu,
inclinando-se para trás em sua cadeira
giratória.
— A propósito, você sabia que
Egon, o Pulha, pintou e bordou a seu
respeito? Ele anda por aí, dizendo a
todo mundo que você não passa de um
refinado malandro, entupido de chucrute,
e que se você teve bastante sorte para
voltar da frente, ele vai, no entanto, vê-
lo deportado para um buraco na Baviera
do Sul, cuja população é formada
exclusivamente de aldeões idiotas.
— Jesus — exclamou Tiny, fingindo-
se amedrontado, batendo palmas com as
mãos acima da cabeça, o que era
realmente urna proeza, porquanto ele
estava deitado de bruços, com a barriga
rente ao tapete.
— Já seria tempo de deixarmos
Adolf cuidar ele mesmo da sua guerra,
de modo que a gente pudesse se arrumar
na frente interna!
— Mas que inferno! — gritou Porta,
indignado. — Está aí uma piada
grosseira daquele pulha, uma piada de
absoluto mau gosto. A não ser que seja
um modo de se suicidar ou coisa
parecida.
— Vamos lá agora bater nele com
um saco de areia — propôs Tiny.
— Não precipitemos as coisas
agora, não vamos fazer algo de que
possamos nos arrepender — aconselhou
Sally, enchendo novamente os copos. —
Sigam o meu exemplo e vão ver como
têm a lucrar. Procedam sempre de
acordo com um plano de ação bem
bolado.
Porta olhou pensativamente para
fora da janela. Seus olhos
acompanhavam uma barcaça carregada
navegando lentamente no Canal
Landwehr com uma mulher gorda no
timão e uma outra, magra, em
observação na proa.
— Egon é um sujeito sujo — disse
ele, violento, batendo com o punho na
soleira da janela. — Vou lhe dar um tiro
no coração que vai reduzi-lo a
pedacinhos. Antes de saber disso já
estará morto.
— Eu sei de algumas pessoas que
gostam de se vestir de padres de vez em
quando — disse Sally, com ares
misteriosos, acendendo um grande
charuto brasileiro e lançando uma
nuvem de fumaça sobre a mesa.
— Botar roupa de padre? —
perguntou Porta, não entendendo direito
e afundando na poltrona. — Mas desses
troços sagrados que eles usam quando
vão bater um papo mais íntimo com
Jesus e Deus?
— Roupas de passeio de padres —
respondeu Sally, chupando
deliciadamente o seu charuto. — Esses
caras sabem o que querem. Levam o
Livro de Moisés na mão esquerda e
parecem divinos quando iluminados.
“Jesus sabe tudo a seu respeito”, dizem
eles quando se encontram com a gente, e
em seguida puxam de dentro das vestes
sagradas um bom “removedor de alma”,
e em menos de um minuto está tudo
acabado. Ganham trinta e três e um terço
por cento de tudo o que coletam.
— Como é que se pode encontrar
esses caras? — perguntou Porta,
interessado. — Serão por acaso esses
italianos comedores de macarrão?
Nesse caso ninguém verá nunca um
pouquinho do que coletam.
— Não, absolutamente, não são
esses — respondeu Sally, rindo com
vontade.
— São mais durões, são sujeitos
ruins mesmo, vindos de Berlim-Moabitt.
Bons amigos meus!
— Como bons amigos? — perguntou
Porta, cheio de suspeitas.
— Bastante bons para irem te
encontrar, se eu pedir — respondeu
Sally, rindo disfarçadamente e
mostrando uma fileira de belos dentes
brancos com contornos de ouro.
— Você tem um bom dentista —
suspirou Porta, com inveja. chupando o
seu derradeiro dente, por sinal já preto.
— Tenho mesmo — respondeu Sally.
— É ali bem numa esquina da Prinz
Albrecht Strasse.
— Creio que é também dentista de
Heini, das Tropas de Assalto — disse
Porta, com um meio sorriso.
— É isso mesmo — respondeu
Sally, com uma gargalhada feliz. — Eu
achei umas coisinhas comprometedoras
na família dele, quando andei
pesquisando velhos documentos dos
dias de Weimar.
E assim eu não tenho de marcar
consulta e nunca recebo contas para
pagar.
— Veja lá se ele não vai um dia
pendurar você pelo pescoço —
comentou Porta, sombrio. — Eu não
deixaria um cara das SS tratar dos meus
dentes. Quando esta guerra acabar, quem
sabe vão descobrir que o ouro dos seus
dentes vem da queixada de um judeu e
que o dono dele desapareceu pela
chaminé sob a forma de fumaça?
Sally deu uma alta e gostosa
gargalhada, passando a mão para alisar
o seu bem talhado uniforme.
— Vocês dois É que vão ser
liquidados pelos libertadores, e seus
corpos vão ser estraçalhados pelos
urubus, antes que alguém chegue a
pensar em mim. E até então eu me terei
tornado insubstituível. Vão precisar de
alemães “puros”
para poderem dar um pontapé na
bunda dos heróis do último ano!
— E você pensa que eles vão te usar
para isso? — perguntou Porta, sorrindo,
com altivez. — Eles não são tão bobos!
— Eu não penso assim, eu sei que
vai ser assim — doutrinou Sally, cheio
de confiança em si e apertando um botão
sob a mesa.
— Mas vamos tratar do seu caso. de
modo que se possa arrancar a cabeça
dos vilões que estão querendo bagunçar
o seu coreto.
Alguém bateu discretamente à porta.
Um 2º sargento antipático, com
expressão de infelicidade estampada na
face decorada com óculos de aros de
ouro. dos usados por professores, entrou
nervosamente no espaçoso gabinete.
Ele fez uma tímida tentativa de bater
os calcanhares, à moda militar. Saiu
mais um troço assim como uma galinha
doente dançando sapateado numa bacia
de água quente do que um soldado
alemão tomando posição de sentido.
Sally inclinou-se para trás na
cadeira e encarou o 2º sargento
militarmente.
O homem ficou parado, duro. à
frente da mesa, com olhos de cão fiel,
aguardando ordens.
— Ouça com atenção, Lange. Vou
torná-lo responsável para ter segurança
de que o Tenente Hartnacke esteja
presente no Ganso de Três Pernas às
seis horas e que leve consigo o seu
equipamento especial. Dois primeiros-
sargentos dos blindados vão entrar em
contato com ele.
— Muito bem, senhor — pipilou o
2º sargento Lange, tentando novamente
bater os calcanhares.
— Que diabo. homem! — resmungou
Sally. — Você não vai aprender nunca.
Olha para os seus braços, como
estão pesados, caídos. Ponha esses
dedos ladrões sobre a costura das
calças, cotovelos para a frente, e aperte
as nádegas.
Seus braços caem como se
estivessem querendo coçar as costas.
Acho que vou conseguir isso, afinal. Vou
mandar você para o Irmão Ivan. Talvez
ele possa lhe ensinar como um soldado
toma posição de sentido. Você não é
nada, você é uma vaca! Que que você é,
Lange?
— Com sua licença, senhor,
Segundo-Sargento Lange não o nada, é
uma vaca, senhor.
— Saia daqui — ordenou Sally,
gesticulando com a mão como se
estivesse enxotando uma mosca.
Lange fez meia-volta e, claro, caiu
sobre a soleira da porta. Suando em
bicas, pôs-se de pé, inclinou-se numa
reverência sem a menor postura militar e
saiu, fechando cuidadosamente a porta.
— Jesus e Maria, que palhaço! —
disse Tiny lá do chão. Esticou o braço
para lhe tornarem a encher o copo. — O
que nós, experimentados prussianos,
temos de aguentar nestes tempos de
guerra!
— Ele era professor em alguma
universidade do sul, antes de o
conhecermos — explicou Sally com voz
agradável. — Depois que quase dizimou
uma companhia inteira na linha de tiro,
mandaram-no para mim. Corno soldado
ele e completamente inútil, mas é muito
bom em matéria de apagar coisas
escritas e escrever outras.
— Puxa! É formidável dispor de
gente assim, às vezes — disse Porta. —
Algumas palavras removidas de um
documento perigoso podem logo torná-
lo numa agradável comunicação.
Pouco depois das seis horas da
tarde, Porta e Tiny entraram
discretamente no Ganso de Três Pernas,
onde o 2º Tenente Hartnacke já se
achava instalado no bar com um prato
grande de salada mista e molho de alho
ã sua frente.
Tiny, como sempre, ocupou duas
banquetas.
— Uma para cada nádega — disse
ele à enfezada garçonete, rindo
ruidosamente.
Ela parecia gorducha, mas era
porque estava com uma roupa muito
apertada. Eles pingaram um pouco de
slivovitz na cerveja.
— E bom para ficar bem-humorado
— disse Porta rindo e esvaziando o
copo num gole prolongado e ruidoso.
— Outro? — perguntou a garçonete,
de um modo brusco.
Ela passou o garfo pelos cabelos,
depois o enrolou, juntamente com a faca,
num guardanapo de papel, colocando-os
ao lado do prato de um freguês.
— Se você ficar perguntando a toda
hora, acaba ficando rouca — comentou
Tiny, de um modo amigável.
Porta virou-se e piscou para o
grandalhão.
— Ouvi dizer que você pode
executar rapidamente uma tarefa sem o
menor estardalhaço — disse ele.
— Me chamam de “Disparo Feliz”
— respondeu Hartnacke, laconicamente,
jogando o molho de alho na boca como
se estivesse empilhando capim.
— E nunca acontece sair algo
errado? — perguntou Porta, mostrando-
se duvidoso. — O pessoal de que você
se encarrega apaga rapidamente? Quer
dizer, muito rapidamente, sem ter tempo
nem para um ai?
— Eu nasci em Chicago — disse
Hartnacke, com orgulho. — Minha mãe
era de Palermo. Meu pai foi mandado de
volta para a Grécia. Você pode
adivinhar o resto.
— Jesus e Maria! — gritou Tiny,
eufórico. — Isto está me parecendo
muito prometedor.
— Qual é o seu macete? —
perguntou Porta, sem rodeios. — Ouvi
falar em qualquer coisa assim como
vestir-se de padre. “Deus esteja
convosco, aleluia", coisas assim?
— Está pagando? — perguntou
Hartnacke, empurrando o copo para a
frente.
Porta deu à garçonete o sinal
internacional de “encha”.
— Olha aqui — sussurrou
Hartnacke, num tom de voz
conspiratório e dando tapinhas num
pacote grande que estava ao seu lado. —
Quando um dos escolhidos de Deus
chega, o público é geralmente amistoso
e um pouquinho contrafeito. Até os
piores canalhas nunca se dirigem a um
padre sem certa cerimônia. Outra grande
vantagem é que quando a coisa termina a
polícia está rondando, à procura de um
padre e não de um simples segundo-
tenente alemão.
— Esses fricotes da polícia criminal
atingem essa espécie de pequenas
tarefas que as pessoas como nós
realizam? — perguntou Porta, olhando
com curiosidade para o manchado
retrato de Hitler, pendurado atrás do bar.
— Na realidade, não — respondeu
Hartnacke, enxugando com um pedaço
de pão a última porção do molho de
alho. — Eles dão umas batidas para
salvar as aparências, mas acham-se
muito ocupados com sabotadores e
criminosos políticos que são contra a
Áustria absorver a nossa velha e querida
Alemanha para se incomodarem
conosco. E assim, se um zeloso sujeito
achar de meter o nariz onde não é
chamado, o Ministro da Guerra Sally
aperta uma das suas fileiras de botões e
antes que o cara saiba onde está já se
verá fazendo novo uso de suas energias
na caça de perigosos guerrilheiros pelas
florestas da Polônia. Mantendo-nos
afastados das coisas de política nós nos
conservaremos em boa situação por
muito tempo. Se agora, por exemplo,
você quiser mandar um chefão para o
céu com um bastão de nitroglicerina no
rabo, não me procure! Isso cria
problemas. Os rapazes da polícia
ocupam todas as saídas e não desistem
enquanto não encontram alguém que seja
persuadido a confessar.
— Começo a entender — disse
Porta, pensativo, voltando o rosto para
ver melhor uma mulher com uma capa de
couro. — Você vai andando, metido na
falsa indumentária de padre, com um
riso simpático no rosto, e interpela o
alvo, mal ele ponha o pé na igreja. Antes
que ele tenha tempo de pensar no que se
passa, você o costura a bala, dizendo-
lhe adeus e mandando lembranças para o
Velho Amigo.
— Mais ou menos assim —
respondeu Hartnacke. — Que tal agora
um bife? De cavalo eles servem sem
cupom.
19
A ideia não agradou nada à
garçonete, que não estava disposta a
servir comida quente no bar. Mas
acabou cedendo quando Tiny puxou de
sua faca de combate e colocou-a
discretamente entre as pernas dela,
perguntando-lhe se conhecia uma outra
mais afiada do que aquela.
— Nunca alguém deu a perceber que
desconfiava desse seu truque da roupa
de padre? ~— perguntou Tiny, com a
boca cheia de carne de cavalo sangrenta.
— Engraçado — interveio Porta. –~
Se eu soubesse que um amigo meu fora
mandado para os céus por um padre, eu
não deixaria nenhum cara de batina preta
chegar perto de mim. Pelo menos sem
que ele primeiro tirasse fora a batina.
— A maioria das pessoas adultas
são mais estúpidas agora do que quando
vieram ao mundo — explicou
Hartnacke. — E não deve ser esquecido
que o único sujeito que sabia ter sido um
padre quem o liquidou não podia mais
falar: estava morto!
— Como é que você faz comumente
para liquidá-los? — perguntou Porta,
com interesse e pedindo outro bife.
Hartnacke manteve-se calado
enquanto a garçonete servia a cerveja e
o slivovitz.
— Eu só emprego métodos práticos
e eficientes. Cordão de enforcar ou
revólver silencioso. Nada que faça
barulho. O barulho me faz mal. Aprendi
o ofício no Forte Zittau, onde entrei
como voluntário. Uma. vez que se
aprendam as coisas lá, nunca mais se
pode tomar lições em outro qualquer
lugar, em tempo de paz.
— Que coisas? — perguntou Porta,
despachando com a mão uma prostituta
que se preparava para sentar-se junto
com eles.
Ela abriu a boca para dizer alguma
coisa mas fechou-a rapidamente quando
seus olhos caíram sobre uma faca e um
jogo de soco-inglês.
— Aprendemos os tipos de truques
que os cavalheiros da velha escola não
poderiam absolutamente aceitar —
continuou Hartnacke, metendo na boca o
resto do seu bife de cavalo com um
movimento parecido com o de uma
pessoa lavando um chiqueiro.
Quando saíram do Ganso de Três
Pernas, algumas horas mais tarde, Porta
disse em voz baixa, dando em Hartnacke
pequenas cotoveladas expressivas: —
Eu quero que Egon, o Pulha, mude de
vivo para carne de carneiro congelada.
Mas quero que esse pequenino e tortinho
chupador de pênis fique sabendo que eu
é que acabei com ele! E quando você
mandar essa almazinha suja para o
inferno, quero que deixe no corpo um
cartão de oitenta por cento. E para
mostrar a Berlim o que acontece com as
pessoas que pensam que não pagar suas
dívidas ao homem dos oitenta por cento
é uma grande, uma enorme piada!
— Isso não será um tanto temerário?
— perguntou Hartnacke, precavido. —
Todo mundo sabe que você é o homem
dos oitenta por cento, e mesmo que os
tiras da polícia não fossem realmente a
nata dos solucionadores de crimes eles
não deixariam de quebrar a cabeça para
descobrir esse. O Pulha possui uma
equipe inteira de mulheres que fazem o
trottoir. Se elas falarem, o pessoal da
polícia cairá em cima de você
imediatamente.
— Não haveria graça nenhuma se
Egon não viesse a saber que eu é que
firmei o contrato — respondeu Porta
rindo alto. — O prazer valerá um
pouquinho de risco.
— Está bem — respondeu Hartnacke
— o pescoço é seu. O meu interesse é
me manter em segurança, seja como for.
— Está certíssimo — disse Porta,
com um sorriso. — Quando acharem
aquele cartão de oitenta por cento no
corpo, haverá uma porção de gente aqui
em Berlim que vai começar a se borrar
toda e a correr feito doida para liquidar
seus débitos.
— Nossa paciência tem limite —
berrou Tiny, e sua voz ecoou entre as
casas.
— Eles vão saber que estamos
voltando da guerra.
Quando o Pulha der por si, o diabo
do anão já estará em nossas mãos.
Porta ligou para Egon de uma cabina
telefônica para lhe dar a boa nova de
seu retorno a Berlim.
— Amemo-nos uns aos outros, meu
caro! E você mesmo, Porta? Que
surpresa maravilhosa! — gritou Egon.
— Não lhe aconteceu nada desagradável
enquanto esteve nessa guerra cruel, não
é? Há tanta coisa ruim que se ouve sobre
o que se passa lá. Quando se pensa que
um bom e querido amigo está ainda no
meio dos vivos, de repente alguém sai
com a notícia de que ele morreu!
— Então não chore — disse Porta,
confortando-o. — Existe muito mais
vida neste velho cachorrão do que você
e alguns outros possam imaginar. Você
mesmo pode comprovar isto se o que
está me devendo desde os últimos dois
anos não for pago até as oito horas esta
noite!
— Meu caríssimo Porta, tudo mudou
desde que você partiu para conseguir um
pouco mais de espaço vital para a nossa
velha e querida Alemanha. Eu lamento
muito ser o primeiro a ter de contar isto
a você, mas outras pessoas tomaram
conta de todos os seus negócios.
Sujeitos mal-encarados, nunca sorriem
para ninguém!
— Vá para o inferno! — rosnou
Porta, perdendo o controle, lançando um
jato de fumaça dentro do fone, como se
ele fosse a própria cara do Egon. —
Você vem à hora que eu disse e me
entrega meus niqueis. E pode enfiar os
seus homens mal-encarados na bunda, se
couberem.
— Mas Porta, meu querido — disse
Egon, com uma voz descansada. — Você
não vai supor que eu deseje me suicidar,
vai? Especialmente agora, quando o
futuro começa a se apresentar um pouco
mais promissor.
— Ouça bem, ouça com toda
atenção, seu fedorento cuzinho de
macaco, seu sujo e podre filho de uma
prostituta zulu, seu puxa-saco e
traiçoeiro chacal — rosnou Porta ao
telefone. — Se você não aparecer por
aqui com um grande e pesado saco cheio
de moedas tinindo, alguma coisa ruim
vai lhe acontecer.
Alguma coisa muito ruim mesmo.
Alguma coisa que afastará você do
convívio com as pessoas humanas para
todo o sempre!
— Oh! não, você não seria capaz —
disse Egon, nervoso, tremendo de medo
e batendo com o telefone contra a
parede, de pavor.
— Pense nisso, seu verme, e escolha
por si mesmo quem é o mandachuva por
estas bandas.
Porta deixou o fone caído fora do
gancho e saiu da cabina.
Bem longe na rua, eles ainda ouviam
os gritinhos excitados de Egon.
— Ele ficou mesmo com medo —
comentou Tiny, rindo alegremente. —
Ele vai aparecer.
Mas Tiny estava enganado. Egon não
foi. No dia seguinte Porta e Tiny
passavam pela Sperling Strasse,
juntamente com o 2º Tenente Hartnacke,
para irem ter uma conversa pessoal com
Egon, o Pulha. Quando transpuseram os
portões do edifício de apartamentos de
Egon, Viola Quebra-Bolas veio
saracoteando lá de dentro e deu uma
esbarrada em Tiny.
— Que diabo! — gritou ele,
zangado, apanhando o quepe na sarjeta.
— Não vê por onde anda, sua porca
prenha?
— Quem você chamou de porca
prenha? — gritou Viola, chutando-o no
tornozelo.
— Que que você está pensando, sua
prostituta de sétima classe?
— explodiu Tiny, furioso, pulando
sobre um pé só e esfregando o tornozelo
atingido. — Você me paga! Vou rasgar
essa boceta piolhenta e fodida de gorila
desde o cu até o umbigo.
— E eu arrebento com você, seu
roceiro chupador de pau — reagiu
Viola, começando a se refazer. — Vou
arrancar suas bolas, se é que você tem
alguma!
— Você deve ter sido fodida por um
octópode — rosnou Tiny, desferindo um
violento soco que teria matado Viola. se
a tivesse acertado. Ela o evitou, dando
rapidamente um passo para trás. Sem
perder tempo, desfechou um tremendo
pontapé que o acertou em cheio no
joelho. Ele dobrou-se para a frente,
soltando um urro, e ela aproveitou para
meter-lhe um dedo no olho. Tiny
rodopiou e agarrou-se a um cesto
transbordando de peixes, pendurado do
lado de fora da peixaria ali existente.
Num mesmo movimento ele levantou o
cesto, com o seu conteúdo de peixe
estragado e malcheiroso, acima da
cabeça, e descarregou-o sobre a mulher
com toda a sua tremenda força. Os
peixes saíram voando para todos os
lados.
— Acabe com essa brincadeira! —
berrou Porta, irritado, tentando em vão
apartar os brigões. — Não há tempo
para isso. Estamos aqui a negócios!
Mas Viola estava agora inteiramente
fora de si, como lebre no cio. Agarrou
um enorme peixe-gato, rodou-o em volta
da cabeça para tomar impulso e largou
no ar, errando, porém, o alvo — Em vez
de atingir Tiny, o peixe-gato acertou o
dono da peixaria, que viera de dentro da
casa, aos berros e com cara de meter
medo. Com um grito estridente ele caiu
para trás, e a perna postiça, resultado da
Primeira Guerra Mundial, voou pelos
ares, indo bater no rosto de Viola. Ela
pensou que era um pontapé de Tiny e
com os dedos mais parecendo garras de
águia avançou para ele. Dez unhas
pintadas rasgaram o rosto de Tiny.
O sangue chegava a esguichar.
Tiny pegou a perna artificial do
peixeiro e deu com ela na cabeça de
Viola, partindo o objeto em dois
pedaços. Mas Viola não esmoreceu.
Estava em plena forma e acostumada a
levar garrafadas na cabeça. Mesmo
ofegante, ela partiu para cima de Tiny,
procurando agarrar-lhe as partes
íntimas. Seus dedos já práticos nisso
enfiaram-se por baixo do sobretudo e
por entre as três ceroulas de inverno
roubadas do Exército.
Tiny abriu desmesuradamente a boca
e um grito prolongado e tenebroso ecoou
pela rua afora. Os joelhos levantaram-se
simultaneamente acima da cabeça, de
modo que por um momento ele perdeu o
contato com o solo. Se fosse no Circo
Kranz, teria merecido uma chuva de
aplausos. Tiny saiu rolando para a
estrada, onde um triciclo de entregas,
carregado com sacos de milho, o
atropelou. Ele estava em tamanha agonia
que nem o percebera. Quando voltou a
si, seu único pensamento foi para Viola.
Ela havia desaparecido, como se
tragada pelo chão.
— Minha perna! — gritava o
peixeiro, cercado de caixas de peixe
arrebentadas.
— Cá está, ô capenga — gritou Tiny,
atirando a perna quebrada para o meio
daquela confusa montanha de peixes.
Seus olhos bateram no chapéu azul
de Viola que surgia atrás de uma barrica
cheia de peixes passados.
— Ah! você está aqui, hem? sua puta
engolidora de pau — berrou ele,
agarrando-a pelos peitos arremessando-
a através da porta do Galinha Verde.
Viola saiu voando como uma bala,
levando Porta de roldão e indo chocar-
se com um pesado cabide, feito de
cascos de granadas da Primeira Guerra
Mundial, pesando quase meia tonelada.
Com uma barulheira infernal, o cabide
desabou sobre a mesa especial dos
pintores, reduzindo-a a pedaços.
Cerveja, carne de porco, carne de
cavalo, molhos e frios espalharam-se
pelo ar e escorreram pelas paredes.
— São os russos! — gritou um
inválido da Primeira Guerra Mundial,
atrapalhado com a perna mecânica que
enguiçara e não o deixava mover-se. —
Frente Vermelha! — tentou ele gritar,
mas logo caiu desmaiado. Esquecera-se
de tirar o emblema do Partido, que
brilhava, ostensivamente, em sua lapela
esquerda. Daquele dia em diante ele
nunca mais usou o emblema.
Hartnacke, ocupado em
desembrulhar a sua indumentária de
padre, foi jogado sobre o bar e levou
com ele três pratos de chucrute e
Eisbein. Ele deu um grito rouquenho,
como o da coruja, e entrou num acesso
de fúria. Todos os planos iniciais foram
anulados. Não havia mais tempo para
precauções e ações furtivas. Agora era
ir direto ao ataque. E com um riso
diabólico ele sacou do coldre do ombro
o seu Nagan.
— Muito bem, Egon, agora é a sua
vez!
Ele sabia que Egon se achava no seu
escritório, sentado, entretido com a
ultramoderna máquina de somar,
esperando por um resoluto matador que
lhe explodiria a cabeça. Pulou agilmente
sobre o bar, evitando, com dificuldade,
pisar em Porta e Viola, ali deitados no
chão, cada um mascando a orelha do
outro. Limpou o chucrute do rosto e
entrou como um furacão pelo bar
adentro.
Isto, pensou ele, vai entrar para a
história de Berlim, pois nunca aconteceu
coisa igual. Quando o velho Fritz e
todos os seus generais estiverem mortos
e esquecidos, todo mundo ainda estará
falando de Disparo Feliz e do que ele
fez com Egon na Segunda Guerra
Mundial.
Egon estava sentado numa cadeira
toda acolchoada, gozando os números a
que chegara com a sua máquina de
somar, quando a porta foi aberta a
pontapés com tanta violência que ficou
presa a uma dobradiça. A primeira
impressão foi de que um regimento
inteiro ia entrando pela porta
arrombada. Ele deu com os olhos no
cano escuro de uma pistola pesada. Um
grito lhe feriu o ouvido, fazendo arrepiar
os poucos cabelos que ainda lhe
restavam na cabeça, e ele teve uma
tremedeira de medo. Era Leo, o
cozinheiro, tentando avisá-lo da rápida
aproximação do perigo de morte, O
anão, Olfert, que tinha de altura apenas
1,47m e quase o mesmo de ombro a
ombro, afundou atrás da cadeira de Egon
com a velocidade do raio, batendo os
braços como peru ao qual cortaram a
cabeça.
Egon, aterrorizado, esbugalhou os
olhos azuis e começou a emitir gemidos
comparáveis aos de um gato encharcado
numa massa de gelo.
— Você vai ter o que merece,
miserável explorador de putas! —
rosnou Hartnacke. — Vou acabar com
todas as suas sujas artimanhas!
— Não podemos ter um
entendimento? — apelou Egon, perito
em cantadas para se sair de
dificuldades.
— Já falou bastante em sua vida —
respondeu Hartnacke, paralisando-o
com uma gargalhada glacial. — Agora
você vai ter é isto! — Encostou a boca
da pistola no nariz de Egon e apertou o
gatilho! Uma violenta explosão ecoou
por todas as dependências do Galinha
Verde e fez o peixeiro na rua arrastar-se
pelo chão para abrigar-se atrás de uma
barrica com arenques.
Egon saiu às cambalhotas, mas
sempre sentado na cadeira. O anão
Olfert sentou-se no meio da sala e ficou
gritando pela polícia e pelas tropas de
assalto.
Ele era um dos fundadores do
Partido e sempre fazia isso ser lembrado
quando sua vida estava em perigo.
Hartnacke ficara de pé, perplexo,
olhando para o que restara de sua mão.
O sangue jorrava dela e espalhava-se na
mesa, sobre a papelada. Na afobação,
ele cometera um erro fatal, imperdoável
até mesmo num recruta que acabasse de
receber o seu primeiro uniforme. Ele
tinha o péssimo hábito de sempre
carregar dois diferentes tipos de pistola
— a Nagan russa e a P-38 alemã, e a
munição no bolso para ambas. A queda
de Viola sobre o cabide e a resultante
confusão o levaram a carregar a Nagan
com a munição da P-38. Nenhuma arma
resiste ao carregamento com munição
errada. A Nagan ficou reduzida a
pedaços, salpicando as paredes com o
impacto de seus fragmentos e o dos
dedos de Hartnacke, arrancado por ela.
Completamente transtornado, ele saiu
em disparada do Galinha Verde e nunca
pôde saber como foi bater de volta no
Ministério da Guerra. O 2º Tenente de
Saúde Steinhart coseu-lhe os dedos mas
tão desajeitadamente que com certeza
nenhum cirurgião do mundo aprovaria a
operação.
— Não ponha o nariz para fora do
Ministério da Guerra, no mínimo durante
um mês! — trovejou, furioso, Sally. —
Espero que pelo menos esteja curado da
mania de carregar duas armas
diferentes! Você está louco! Ainda não
percebeu que está louco varrido, louco
de ódio? Toda Berlim já sabe que foi
você, seu débil mental, que fez aquilo no
Galinha Verde! Nem mesmo um judeu
miserável faria uma besteira dessa!
Depois disso, acredito que sua mãe
devia estar com o cérebro paralisado
quando botou você na sarjeta!
Hartnacke amarrou a cara e
lamentou-se, num estado lastimável.
Mas jurou a si mesmo que quando
topasse novamente com Egon ele o
meteria para dentro da primeira parede,
no mínimo um metro.
No seu santuário privado do Galinha
Verde, Egon continuava sentado,
apalpando cuidadosamente o rosto. Aos
poucos foi ficando convencido de que
não havia sangue e que suas feições
estavam direitinho no lugar. Uma
inacreditável sensação de alegria lhe
percorreu o corpo.
— Eu ressuscitei! — exclamou,
chorando e rindo ao mesmo tempo.
Começou agradecendo a Deus e logo
em seguida a xingá-lo.
— Vingança! — gritava
furiosamente. — Vingança! Quero que
me tragam esse maldito Disparo Feliz
em vinte e cinco pedaços. Vou mandar
passá-lo no moedor de carne e vendê-lo
para alimento de cachorro, como ração-
especial!
Com o anão Olfert na direção, o
bando de Egon percorreu toda a Berlim,
à caça de Hartnacke. Egon andava tão
indignado que não conseguiu comer
durante três dias, ele que era um
tremendo glutão.
Aos poucos a caça foi arrefecendo.
Ao fim de uma tarde, quando Egon se
divertia em companhia de duas de suas
favoritas, Porta e Tiny entraram na sala
sem bater. Egon estava metido num
conjunto de roupas de baixo femininas,
de seda e com laçarotes. Ele gostava de
senti-las no corpo.
— Pensou que estava tudo acabado.
hem? — disse ele, gozando a surpresa.
— Pois não está. Agora é que vai
começar! Esses sujeitos cultos que
frequentam o ópera costumam dizer que
o final é o melhor de tudo.
— Nós pedimos que você fosse nos
procurar, não foi? — perguntou Porta,
delicadamente, curvando-se para Egon,
sorrindo e beliscando-lhe
carinhosamente o rosto. — Você parece
não querer ouvir o que lhe dizemos, de
modo que concluímos que você pode
perfeitamente dispensar as orelhas,
ambas. E portanto vamos agora tirá-las a
bala. Mas É claro que você terá o prazer
de ouvir os tirinhos. Não seríamos nós
que lhe negaríamos essa alegria.
Será o maior tiraço que você já
ouviu. Vai ter a impressão de que toda a
sua cabeça está sendo arrebentada.
Talvez aconteça isso exatamente. E as
suas preciosas orelhas, que você não
gosta mesmo de usar, irão com ela!
— Vocês não podem fazer isso! —
gritou Egon, com uma voz de fazer pena,
de mãos postas à sua frente.
— Não podemos? — reagiu Tiny,
com uma gargalhada, — Pois é melhor
acreditar, seu trambiqueiro frustrado.
— Isso é assassinato! — balbuciou
Egon, com voz rouca e tentando escapar.
— Mania de grandeza! — disse
Porta, rindo com vontade. — Chamemos
a isso um pesticidio. Não cai bem, para
um rato como você? Quando cortarmos
sua piroca e a entregarmos na repartição
policial, vão nos dar uma medalha!
Vocês dois aí, para dentro do
armário! — ordenou ele aos comparsas
de Egon, que estavam sentados no sofá,
seminus, tremendo de medo. — Se
fizerem um barulhinho maior do que o
de um gato na pontinha dos pés, atrás de
boceta de gatinha, nós fazemos seu olho
do cu subir até os miolos! Sabe o que
significa isso?
— Sabe rezar? — perguntou Tiny,
com fingida camaradagem, batendo em
Egon com as costas da mão. — Você
sabe como temos bom coração. Não
gostaríamos de mandar um sujeito para a
sua última viagem sem lhe dar uma
chance de lavar a alma.
— Vamos conversar direitinho —
implorou Egon, com voz sumida. — Eu
disponho do dinheiro. Se não procurei
vocês foi por um mal-entendido.
— Claro, claro. Enganos, mal-
entendidos, são as causas das
dificuldades do mundo — suspirou Tiny.
— Agora faça sua reza para termos
certeza de que São Pedro vai recebê-lo
alegremente.
— Não sei nenhuma reza, não tenho
religião — disse Egon, a figura da
infelicidade.
— É de supor que não tenha mesmo.
Só as pessoas boas são religiosas, e
você positivamente não está entre elas
— disse Tiny, dando-lhe umas
pancadinhas na nuca com o frio cano da
sua espingarda.
— Você reza por ele, então — gritou
Porta, fechando a porta atrás dos
companheiros de Egon.
— Pai nosso que estás no céu —
começou Tiny, com os olhos voltados
para o forro da sala — fica onde estás e
deixa-nos cá embaixo para realizarmos
nós mesmos esta pequena tarefa, de
modo que tua reputação não seja
afetada.
— Então vamos, Egon, vamos dar
um pequeno passeio juntos — disse
Porta, jogando para ele uma capa de
chuva. — Vista isto. Não queremos que
ande por aí em trajes íntimos femininos,
afrontando as ruas de Berlim. Teríamos
a polícia de costumes em nossa
perseguição.
— Nada de gritos — disse Tiny,
impositivo, ao descerem a escada. — A
não ser que queira ver sua piroca e suas
bolas arrancadas e metidas em sua
goela!
Com Egon caminhando entre eles,
Porta e Tiny desceram a Friedrichs
Strasse até um anfíbio do Ministério da
Guerra, fornecido pelo Subtenente Sally.
Um policial olhava, interessado,
enquanto eles embarcavam Egon no
veículo.
— Desertor? — perguntou ele,
lançando a Egon um olhar de desprezo.
— Exatamente — respondeu Porta.
— Pedindo um pelotão, que é o que este
cara merece. O negócio é o seguinte:
quando os sacanas têm medo de levar
tiro do inimigo a gente dá conta deles.
— Assim e que deve ser —
concordou o policial, dando-se ares de
importante. E meteu os dedos polegares
por trás do cinto imaculadamente
polido.
— Eles vão me assassinar — gritou
Egon, desatinado, na esperança de uma
oportunidade.
— “Executar” é a palavra certa —
corrigiu o policial asperamente, dando
pancadinhas no coldre de sua pistola,
num gesto que dizia tudo. — Espero que
eles lhe deem uma boa surra antes de
mandá-lo para o outro mundo.
Miseráveis traidores!
— Não — respondeu Porta com um
falso sorriso. — No Exército não
fazemos essas coisas. Somos humanos.
Nós miramos a testa e pum!
Em seguida levou a mão à pala do
quepe, numa elegante continência. O
policial correspondeu na forma
regulamentar.
Eles se deslocaram pela Friedrichs
Strasse a alta velocidade.
— Eu vou lhe proporcionar uma
experiência rara — disse Porta, ao
descerem a Claarlottenburg Chausse. —
Você vai ser a primeira pessoa no
mundo a cair do Siegessäule!
— Vamos acabar com isto —
murmurou Egon, quase desfalecendo. —
Vocês não sabem o que tenho passado!
Vocês tiveram somente a guerra para
lhes criar problemas, e ela vai
continuando de mal a pior.
— E nós não sabemos disso? —
retrucou Porta, batendo no volante com
uma das mãos. — Essas preocupações
fazem este mundo podre e torpe balançar
e levar com ele todos os miseráveis
atormentadores para o buraco. Sujeitos
otimistas como eu vamos pairando
acima de toda essa merda. Desde o
primeiro dia em que penetrei neste
mundo germânico, tenho sido um
respeitável homem de negócios,
explorando honestamente toda a gama de
suprimentos que alguém venha a
necessitar.
— Por exemplo — interveio Tiny
com conhecimento de causa — boceta. E
você nunca, nunca mesmo, pediu mais
do que uns bastante razoáveis oitenta
por cento de lucro.
— Você deve estar biruta, Egon —
prosseguiu Porta. — Mesmo que você
tivesse um corte de cabelo civil, não
pense que pudesse puxar o tapete de sob
meus pés.
— Bobo é o que ele e — completou
Tiny, zangado. — Pensou que pudesse
ficar com a grana e mandar a gente
passear.
— E a gente voltando para Berlim,
que bruto choque para você, hem? —
disse Porta, sacudindo tristemente a
cabeça.
— Sempre tenho sido um bom amigo
dos meus amigos — lamentou-se Egon,
inferiorizado. — Sejam camaradas
agora, companheiros, vamos voltar para
o bar. Todos os oitenta por cento estão
lá em pacotes, esperando vocês. Tudo
contabilizado. Pode haver aqui e ali um
pequenino erro, de soma, sei lá, mas
isso é perfeitamente compreensível
nesta terrível época de guerra. Não
acreditem em nada do que dizem a meu
respeito. No fundo sou uma boa pessoa.
Mereço agradecimentos pelo que tenho
feito pelas pessoas, mas nunca ouvi uma
palavra de gratidão.
— O que você merece mesmo é
receber na cabeça, uma porção de vezes,
uma pancada com o globo terrestre -—
disse Porta, dando tapinhas no volante.
— Eu sei, por exemplo, que foi você
quem espancou o Ladrão de Bicicleta e
que foi por sua causa que a Charlotte
Prostituta teve a cabeça estourada.
— É mentira, uma grossa mentira!
— protestou Egon, batendo com as mãos
no rosto. — Minhas mãos nunca, nunca
ficaram manchadas de sangue. —
Esticou as mãos na cara de Porta para
que ele visse a prova do que dizia, e o
resultado foi que Porta confirmou sua
ojeriza a quem se vista de roupa azul de
mulher e sapecou-lhe uns tabefes.
— Não, você é ,por demais covarde
e esperto para fazer isso você mesmo —
disse Porta com um sorriso. — O anão
cuida dessa parte dos negócios para
você.
20
Ele estava lá com a Charlotte, e o
Stork lhe fazia companhia. Eles
disseram a ela que jogariam seus dois
garotos de ponta-cabeça pela janela se
ela não concordasse em lhes pagar
sessenta por cento do que ganhava no
Coruja.
Quando ela deixou de pagar, eles
voltaram lá e retalharam a cara dela.
Mas não adiantou porque ela pensou que
o Ladrão de Bicicleta pudesse tomar
conta de um merda como você. Então ela
e os seus rapazes saíram mesmo pela
janela, de ponta-cabeça.
— Vocês não acreditariam que eu
pudesse fazer uma maldade dessas, não
é?
— perguntou Egon, com voz trêmula.
— Procurem o Ladrão de Bicicleta e ele
vai confirmar que isso tudo é uma bruta
mentira.
— É bastante engraçado você tocar
nesse assunto — ironizou Porta. — Se
alguém chegar a ver o Ladrão de
Bicicleta novamente, levando em conta
o tempo a que ele foi condenado, vai
encontrá-lo com uma comprida barba
branca e passando dos noventa e sete
anos. Pelo que me contaram, ele já está
parecendo um cruzamento de
Frankenstein com a Múmia.
— Vocês têm de me ouvir — gritou
Egon, ansioso. — Que que vocês sabem
do Ladrão? Ele era um sujeito terrível,
torturava mulheres!
— Como tem coragem de falar? —
interveio Tiny, irritadíssimo. — Seja um
bom alemão pelo menos uma vez.
Encare a morte com bravura. Você é um
dos caras da velha guarda do Führer,
acostumado a ir por aí levantando as
massas em 1933.
— Não quero ninguém pelos
corredores, como disse o carrasco ao
entrar com a sua décima vítima —
exclamou Porta, às gargalhadas, virando
o veículo para entrar no parque.
— Não se transformem, por culpa
minha, em.desprezíveis assassinos —
balbuciou Egon. — Eu estava só
brincando quando disse que vocês já
eram. Não tem mais senso de humor,
homem? E bom dar de vez em quando
uma boa gargalhada, nestes tempos
horríveis, — Então gargalhe —
respondeu Porta, dando ele mesmo uma
gostosa gargalhada. — É exatamente por
essa razão que estamos indo para
Siegessäule, para podermos rir à
vontade num dia miserável. Tiny e eu
temos visto toda espécie de morte
rápida em nossos dias, mas nunca vimos
ninguém cair do alto do Siegessäule.
Tenho ideia de você me dizer um dia que
o seu maior desejo era aprender a
planar. Pois bem, você vai agora
realizar esse desejo. Não se esqueça de
abrir bem os braços e agir como as
gaivotas. O que nos vamos fazer será
apenas dar a partida e prometo que você
terá uma boa despedida.
— Você terá uma linda vista —
disse Tiny, animadamente. — Sessenta e
sete metros de altura, e quando aterrar
será no meio de um roseiral!
— Sessenta e sete metros e meio —
corrigiu Porta — mas não se esqueça de
bater bem com os pós, Egon, para não
cair de nariz, e não creio que sua
cabecinha delicada possa aguentar o
baque.
— É, fique teso, como dizem nos
clubes de planadoristas — aconselhou
Tiny.
— E use as correntes de ar
ascendentes!
Um estrondo abafou-lhe a voz. Porta
foi atirado abruptamente do anfíbio e
voou pelos ares, descrevendo um grande
arco e indo cair dentro do lago. Patos e
gansos voaram, fazendo uma algazarra
infernal, batendo as asas loucamente.
Tiny rolou pelo asfalto como uma
bola, mas logo se pôs de pé novamente.
Correu pelo gramado, tentando fugir
do anfíbio, que vinha atrás dele
descontroladamente. As chamas subiam
além do topo das árvores à medida que
o fogo ia devorando o carro.
Xingando e praguejando mais alto
do que os gritos de protesto dos patos e
dos gansos, Porta voltou ã margem do
lago.
— Aquele maldito verme — berrou
com raiva. — Ele nos tapeou. Para onde
foi?
— Tomou o táxi de onde atiraram em
nós — exclamou Tiny, agitando os
braços nervosamente. — Eu vi o táxi
antes. Estava por ali, esperando por nós
como um papa-defunto. Pensei que se
encontrasse no ponto, esperando freguês.
Então percebi o anão no volante,
mas já muito tarde para fazer alguma
coisa.
— De certo modo ele aguardava
uma corrida — vociferou Porta. tirando
a água do quepe. — Mas não uma
corrida comum.
— Se você quer minha opinião —
disse Tiny, em tom de pessoa insultada
— ele foi de uma tremenda ousadia ao
embarcar deliberadamente num veículo
pacífico do Exército de Adolf, em pleno
parque. Está lá nos sinais: Velocidade
máxima vinte, e aquele porquinho entrou
aqui a cem! Onde anda a droga da
polícia de trânsito quando se precisa
dela? Nunca aparece nessas horas!
— Agora entendi realmente tudo —
disse Sally, com raiva quando eles
voltaram ao Ministério da Guerra e
contaram o incidente do táxi. — Nunca
ouviram falar de dinamite? Pois metam
umas bananas de dinamite no traseiro
desse veado cretino. Uma coisa é certa:
vocês têm de liquidar esse rato, se
querem continuar vivos. Os seus
capangas estarão agora em toda a parte,
esperando para arrebentar os seus
miolos. E vocês estão aí sentados, como
dois encharcados gatos vagabundos,
secando-se nos meus aquecedores
governamentais! Puxa! Eu devia era...
era... cuspir em vocês!
— Este caso vai acabar em sentença
de morte — disse Porta, com um
lampejo de ódio no olhar e torcendo o
capote para tirar um resto de água. — O
Pulha vai pagar caro. Quando eu
resolver que ele vai dar um mergulho do
Siegessäule, ele não terá mais chance de
fugir num táxi.
— Não posso entender é como
souberam que estávamos indo para o
parque — comentou Tiny, com ar
pensativo.
— Os dois que você fechou no
armário — explicou Sally, abrindo os
braços em sinal de desagrado. — Eles
ouviram tudo o que vocês disseram,
inclusive para onde iam levá-lo. Não é
preciso um Einstein para levantar o
ponto fraco de um plano. A massa
cinzenta do anão começou a agitar-se em
sua enorme cabeça, e o resto vocês
sabem. Vamos, afastem-se daqui e façam
esse troço de uma vez para sempre.
Egon deve estar lá no Coruja, falando
pelos cotovelos.
Vá pelo quintal e entre pela janela
da adega, de modo que possa atacá-lo
por trás. É sempre mais fácil. É por isso
que os comissários de Stalin sempre
atiram na nuca das pessoas que tenham
de ser liquidadas.
Porta colocou a sua favorita Nagan
no coldre do ombro. E meteu nos bolsos
dez carregadores de munição.
— Acha bom levarmos também uma
metralhadora? — perguntou, metendo a
P-38 em outro bolso, de onde seria mais
fácil tirá-la, se surgissem problemas.
— Não faça isso — disse Sally
secamente. — Você está agora na Berlim
civilizada, onde ninguém gosta de ver
gente de metralhadora em punho,
quebrando janelas.
— Vamos embora — disse Porta, de
cara amarrada. — Desta vez a gente não
vai complicar. Vamos passar-lhe a corda
do mesmo jeito que fazem no Texas com
os ladrões de cavalo, — Tenham
cuidado — alertou Sally, quando se
retiravam. — Contem com surpresas.
Egon não é nenhum matuto qualquer de
Schleswig, lembrem-se. E um
verdadeiro berlinense e sabe bem o que
é necessário aqui para continuar vivo
Quando eles rastejaram e entraram na
janela da adega, para pegar Egon por
trás, Tiny ficou preso na armação da
janela. Porta teve de usar um pé-de-
cabra para livrá-lo. Subiram pé ante pé
os degraus da escada até o primeiro
andar, de onde vinham vozes altas. As
duas primeiras salas pelas quais
passaram estavam vazias mas na terceira
havia muita gente.
Egon achava-se atrás de uma enorme
secretária, o que o fazia parecer ainda
menor do que era. Vestia uma roupa
preta, sobre a qual se destacava uma
camisa de uma brancura de cegar, que
ele acreditava formar um belo contraste
com a sua pele queimada do sol.
Convencer-se de que o tom bronzeado
dá ao homem uma aparência de poder e
sucesso. Em cada lado da cadeira
mantinha-se de pé um guarda-costas
espadaúdo, absolutamente atento a tudo
que se passasse na sala. Na iluminação
mortiça viam-se também dois outros
capangas montando guarda na porta que
dava para o restaurante. Ouvia-se,
distante, o som de tambores e saxofones.
— Au-au! — latiu Tiny, curvando-se
sobre Egon. — Você da a impressão de
ter andado às voltas com um bando de
vespas, mas quem sabe foi só um
passeiozinho de táxi à volta do
Zoológico?
— Vocês iam me matar — disse
pausadamente Egon, soprando uma
baforada de fumaça na cara de Tiny, à
maneira dos filmes americanos de
gângsteres.
Tiny deu um riso prolongado e alto.
Ele achou isso necessário para salvar o
pelo.
Subitamente uma série de coisas
começou a acontecer ao mesmo tempo.
Mais tarde Porta disse que fora o
acontecimento mais próximo de um
violento terremoto o que ele ali
presenciara. Toda a turma de Egon
investiu contra eles.
O capanga mais próximo de Tiny
deu-lhe uma pancada no rosto com uma
prancha, um golpe tão forte que o objeto
se partiu em dois.
— Matem! — gritava Egon, feliz da
vida, aplicando em Tiny um tremendo
pontapé.
Os dois guardas próximos agarraram
Porta e tentaram arrancar-lhe a cabeça.
Porta percebeu o brilho do soco-inglês
descendo sobre seu rosto.
Desviou-se e largou para cima um
terrível pontapé, que atingiu em cheio
uma coisa muito macia. Um dos guardas
deu um pulo e saiu berrando, com as
mãos apertando qualquer coisa entre as
pernas.
Tiny rolou como uma bola e num
instante já estava novamente de pé.
Agarrou uma cadeira e descarregou-
a com toda a sua força na nuca do
atacante mais próximo. A cadeira fez-se
em pedaços e o homem foi ao chão
grunhindo e ofegante. O guarda restante
voou para cima de Tiny, brandindo um
porrete.
Tiny reagiu, lançando-se de ponta-
cabeça sobre ele com todos os seus 120
quilos. Ele enganchou um pé atrás de
uma das pernas do homem e os dois
foram ao chão com tamanho estrondo
que dava a impressão de ter caído um
peso descomunal sobre a casa.
Tiny disparou um terrível soco na
garganta do algoz, esmagando-lhe a
laringe como se fosse casca de ovo. O
homem soltou um grito horrível, corno
de animal, e ficou caído, inerme. O
porrete lhe escapou das mãos. Porta
agarrou o porrete e começou a distribuir
bordoadas nos seus dois perseguidores.
Egon logo viu que as coisas estavam
virando contra ele, e uma vez que não
era do tipo de gente que gosta de ficar
no centro de uma cena de violência
como aquela, tratou de pegar seu bem
talhado sobretudo preto e escapar
rapidamente.
— Atrás dele! — gritou Porta,
baixando o porrete sobre a cabeça de
um dos capangas, mas de maneira quase
amigável.
— Vocês me deixam com o coração
despedaçado — gritou Tiny, apontando a
pistola para um e outro lado. — Desta
vez vamos deixá-los por aí, mas algum
dia vamos acabar de vez com todos. Em
geral a gente não mata ninguém, a não
ser por acordo. Agora, contra a parede!
Abram as pernas e ponham as mãos
sobre elas! Levantem o queixo!
Qualquer um pode ver que vocês, seus
merdas, nunca estiveram em Hamburgo!
Tiny então correu as mãos práticas
sobre eles, tirando-lhes dos bolsos tudo
que encontrou, chaves, moedas,
cigarros, carteiras, pistolas. As carteiras
ele meteu no próprio bolso, o resto
jogou pela janela. Caminhou de costas
para fora da porta, fechou-a a chave e
colocou uma cadeira contra a maçaneta.
Porta saiu desabalado pelo
restaurante, atropelando na passagem um
garçom e ganhando a rua, que percorreu
alguns minutos, parando depois ao se
convencer de que Egon teria muito
provavelmente tomado outro rumo.
Então desfez toda a caminhada.
Tiny correu para fora do portão, com
a pistola ainda em vista, e olhou em
torno, um tanto confuso. Ouviu-se um
tropel atrás dele.
— Você vai ver comigo! — gritou,
com raiva, um dos guarda-costas,
August, que conseguira escapar e
retomar a perseguição. — Vou
massacrá-lo! — rosnou ele, levantando
o porrete, que Porta deixara cair, para
mostrar que não estava blefando.
Uma bala passou silvando, vinda da
escuridão. Isso o transtornou de tal
forma que ele se atirou contra a porta,
quebrando-a em pedacinhos e
provocando uma chuva de vidros
partidos e lascas de madeira. Por
momentos, ele pareceu querer desviar-
se para um lado, mas depois foi
desabando lentamente como um saco de
grãos no qual se fez um furo.
— Atenção! — gritou Porta,
sentindo, mais do que vendo, um vulto
escuro sair de trás de umas latas de lixo,
apontando para eles uma coisa grande e
negra.
Numa réstia de luz ele pôde ver que
a mão que segurava o objeto ameaçador
estava muito suja. Atirou-se, juntamente
com Tiny, para trás de uma pilha de
sacos de batatas. Uma saraivada de tiros
passou zunindo sobre suas cabeças,
denunciando intenções assassinas. Eles
mantinham suas pistolas prontas para
entrar em ação. O vulto desapareceu,
tudo voltou à calma, uma perigosa
calma. Os dois foram se pondo de pé
cautelosamente.
— Diabo, diabo, diabo! — gritou
Porta. — Tudo está saindo errado para a
gente! Quem será esse porco puxa-saco
nazista que atira assim em pessoal do
Exército perfeitamente legalizado?
— Egon não pode ser — comentou
Tiny. — Ele se partiria em dois se
atirasse com uma arma desse porte. Ela
é só para velhos soldados e homens de
verdade.
Começaram a se movimentar,
colados às paredes, com as precauções
de pessoas bem experientes. Tiny estava
quase para dobrar uma esquina quando o
fragor de uma tremenda explosão abalou
a noite. O estrondo foi ecoando por ali
afora, ao longo das mas, escuras por
causa do blecaute, porém não houve
viva alma que levantasse uma ponta de
cortina para uma rápida espiada. Todos
os berlinenses sabiam que uma
indiscrição desnecessária poderia
abreviar consideravelmente a vida de
uma pessoa. Se não fosse a Gestapo
fazendo das suas, poderia ser coisa
ainda pior, e portanto, por via das
dúvidas, o melhor era não ser
testemunha de nada.
Na ponta dos pés, como gatos, e
sempre com as pistolas em riste, Porta e
Tiny foram descendo a rua. Examinavam
os carros estacionados, olhando-os
detidamente por dentro, por baixo e por
trás, e levantavam a tampa de todos os
depósitos de lixo. Foi Tiny quem
primeiro ouviu o ruído de passos
apressados, destacando-se no silêncio
da noite escura. Logo depois eles deram
com um vulto atravessando rapidamente
a rua.
— Puxa! — exclamou Porta
alegremente, agachando-se e segurando
a Nagan à sua frente, com as duas mãos,
segundo o figurino da polícia nova-
iorquina.
Ele fez cinco disparos, tão rápidos
que quase pareceram um só, prolongado.
Nenhum deles alcançou o alvo, o
que o surpreendeu bastante, pois os tiros
dados pela polícia de Nova York nunca
erram. — Uma metralhadora teria feito o
serviço — disse ele, com raiva. — Esse
porco escapou sem um arranhão. Mas
não perde por esperar.
— O cara está se cagando de medo
— falou Tiny, escarnecendo. — Deve
estar correndo como um coelho com as
bolas arrancadas. Aqui e ali e não se
ajeitando em lugar nenhum. Está em
nossas mãos. Não demora e vamos
meter-lhe uma bala. Vamos pegar um de
cada vez e no fim a gente terá liquidado
todo um bando sem levar um arranhão.
— Vá andando com as suas fantasias
para o outro pavimento — ordenou
Porta — que eu vou por este. Logo que a
geme encontre aquele macaco safado é
fogo nele e será um a menos no mapa de
Berlim.
— Não será aquele cara nem
qualquer outro que vai me liquidar. Nem
com dinamite nem com troço nenhum —
disse Tiny, rilhando os dentes. — Por
todos os diabos sujos e bárbaros e, ao
mesmo tempo, pelo sagrado corpo de
Cristo, eu vou dar àquele ateu cretino o
que ele merece!
Porta rodeou a semidestruída
estatua, depois de atravessar a Franken
Strasse, espiando tudo, e foi bater
direitinho nos braços do atirador, que
estava agora armado com uma pistola
automática. É impossível dizer qual
deles levou maior susto e deu o berro
mais alto. A gritaria alertou Tiny. Sem a
menor hesitação, ele começou a atirar
através da rua. As janelas das lojas e as
vitrines de exposição do lado de fora do
cinema fechado desapareceram numa
chuva de cacos de vidro e lascas de
madeira sobre a estrada.
— Graças a Deus ainda viemos da
Rússia em plena forma — rosnou Tiny,
abrigando-se na sarjeta.
O atirador fugiu em disparada por
uma estreita ruela. Porta vinha em seus
calcanhares, com a Nagan sempre em
riste à frente dele. As janelas e os
espelhos das frentes das lojas ficaram
quebrados na passagem. Alguns para-
brisas de carros espatifaram-se. No
terminal de bondes Porta parou,
arquejante, para dar tempo a Tiny de
chegar a fim de prosseguirem na caçada
juntos. Tiny surgiu como um furacão,
com os pregos dos sapatos tirando
faíscas das pedras da rua.
— Jesus — gaguejou, em grande
excitação, ao parar ao lado de Porta. —
Esse miserável civil certamente está
com o rabo pegando fogo. Acho que
conseguimos tirar um pedaço dele.
Andou deixando manchas de sangue pela
sarjeta quando passou pela Bellevue
Strasse.
— Eu acho que lhe tirei um naco —
disse Porta, examinando com o olhar a
rua em toda a sua extensão e doido para
continuar a caçada. Em algumas portas
já começavam a surgir cautelosamente
cabeças amedrontadas.
O som de uma sirene da polícia foi
se tornando cada vez mais audível,
vindo dos lados da Link Strasse. E os
holofotes passaram a varrer a área onde
teve início o tiroteio.
— Nunca aparecem quando são
necessários, esses polícias de merda —
resmungou Porta, tornando a carregar a
Nagan. — Que bom se o Deus da
Alemanha cortasse as nádegas deles a
canivete!
— Sabe quem é que atirou em nós?
— perguntou Tiny. — Você esteve bem
perto dele para poder até espremer suas
hemorroidas. Até uma mosca, com seu
olhinho de nada, tinha de reconhecê-lo.
— E um cara que chamam de Creme
de Morango — disse Porta, pensativo,
soprando a boca do cano da Nagan e
metendo na câmara o carregador com
balas dundum. — Quando acabarmos
com ele vamos mudar seu nome para
Geleia de Morango.
— Por que é chamado de Creme de
Morango? — perguntou Tiny.
— Cabelos vermelhos, bochechas
brancas. Parece que foi metido em
farinha de trigo. Cabeça mole também
— respondeu Porta.
— O apelido veio a calhar.
— Deve ser um solitário —
considerou Tiny, esticando o pescoço
para ver toda a rua. — Andando sem
rumo pelas ruas, atirando a esmo como
um louco, ostensivamente, não é preciso
ser psiquiatra para ver que ele tem
merda na cabeça, em vez de cérebro, e
que este, por sua vez, lhe foi enfiado cu
acima.
Pensativo, Porta enviesou o quepe e
coçou a cabeça com o visor da pistola.
— Vamos correr a Koester Strasse.
Ou muito me engano ou ele deve estar
indo para as docas, onde pode se
esconder no meio das bagagens.
Quando dobraram para a Hafenplatz,
foram recebidos por uma chuva de
balas, vinda do outro lado da estrada.
Os projéteis batiam nas paredes atrás
deles e faziam despencar sobre suas
cabeças uma grossa poeira de cal e
cimento.
A P-38 de Tiny roncou, cortando ao
meio um tijolo da esquina de um edifício
e espatifando uma janela. Um dos
ocupantes recebeu uma chuva de cacos
de vidro.
— Saia para fora, seu torta de
morango estragada — berrou Porta,
grandemente excitado, disparando a
Nagan tão rapidamente que mais parecia
uma metralhadora.
— Bota a cabeça para fora, que eu
quero meter uma bala nela — gritou
Tiny, doido para atirar e recarregando a
P-38.
O atirador, para sua desgraça,
perdeu a cabeça e atravessou a praça
correndo, transpôs de um pulo uma alta
cerca e foi cair do outro lado, com um
barulho como o de uma P-38, dentro de
uns caixotes de lixo.
— Esse patife do Morango vai ter o
seu agora! — disse Tiny alegremente.
Pulou a cerca no mais puro estilo
olímpico, indo, por azar, cair
redondamente dentro de um malcheiroso
depósito de lixo. Bufando de raiva, ele
levantou a cabeça para fora e viu, ali
pertinho, a dois metros de distância,
Morango sentado num saco de cebolas e
examinando a sua metralhadora, cujo
carregador enguiçara.
— Jesus Cristo! — gritou ele,
arremessando a Sten para o chão, em
desespero. E então ela passou a
funcionar, disparando todo o carregador
de uma só vez. As balas caíam sobre as
casas.
Cautelosamente Porta levantou a
cabeça por cima da cerca e num relance
compreendeu tudo. Deu um salto
monumental para o outro lado e, ainda
no ar, começou a atirar. As balas
cantavam e ricochetavam ã volta de
Morango, que se jogou ao chão, aos
gritos, julgando-se já morto. Tudo
terminado. Porta e Tiny estavam de pe
sobre ele, cada um apontando-lhe a arma
à cabeça.
Morango fechou os olhos e esperou
pelos tiros. Para sua enorme surpresa,
nada aconteceu. Se ele, Morango,
estivesse na posição dos dois, Porta e
Tiny, ha muito que já teria atirado. A
experiência lhe ensinara a sabedoria
desse procedimento.
— Era só isso que você tinha para
nos mostrar? — perguntou Porta, em tom
de desapontamento, dando-lhe um chute.
— Fique de pé, seu morango verde, e
diga para nós onde Egon e o anão se
esconderam. Não tente embromar. Não
estamos dispostos a ser enganados por
um porcaria como você! Se abrir essa
boca fedorenta para avisar a eles, o seu
cerebrozinho já tão insignificante será
espalhado por toda a Moabitt! E quando
deixarmos você ir embora, dirija-se
para o lado do sol poente, entendeu?
— Por que não vamos chutando a
bunda dele até chegarmos ao
esconderijo de Egon e do anão? —
perguntou Tiny, impaciente.
— Você é um desses caras malucos
por mulher que gostam de garotas com
botas de montaria, não é? — perguntou
Porta, encostando o cano da arma nas
costelas de Morango para estimular sua
atividade mental.
Morango concordou timidamente,
limpando a sujeira que lhe ficara no
rosto. Ele estava no lado do despejo do
lixo quando Tiny deslocou sobre ele o
conteúdo do grande depósito.
— Se você não fizer exatamente o
que nós queremos e não disser a
verdade — gaguejou Porta, agitando o
dedo debaixo do nariz de Morango —
você nunca mais verá um par de botas
de montar em qualquer garota. O seu
futuro par de calçados será um de
concreto que lhe será posto antes de o
jogarmos de uma das pontes do Spree.
Então, como e? Não vai nos dizer onde
encontrar Egon, o vendedor de bocetas
por atacado?
21
Morango olhou em torno,
desesperado, como um afogado à
procura de terra. Ele não via nenhuma
saída e então considerou mais prudente
responder a Porta dizendo a verdade e
torcendo para que liquidassem Egon
antes que ele descobrisse quem revelara
o seu esconderijo. Respirou
profundamente e tratou de dar à
fisionomia uma expressão de absoluta
honestidade.
— Egon e o anão acham-se com o
maluco do dono do zoológico,
aguardando a informação de que vocês
dois foram mortos! — revelou, num
sussurro, olhando assustado para todos
os lados. — É aquele sujeito doido que
compra tudo quanto é animal morto para
empalhar? — perguntou Porta, dando-
lhe umas palmadinhas para mantê-lo
lúcido.
— Isso, isso! — respondeu
Morango. — Quando se entra lá a
primeira vez, leva-se um choque. Ele
conserva os bichos cheios de
mecanismos, de modo que eles rosnam e
se movem como se estivessem vivos.
— O choque quem vai levar é o
Egon e o anão, quando nos virem de
volta — comentou Tiny, rindo
gostosamente.
— Não saia daqui senão depois de
meia hora de nós sairmos — avisou
Porta, ao pularem a cerca para o outro
lado. — Do contrário, será um filho da
puta morto, porém com todos os
requintes.
Eles atravessaram o jardim e
chegaram à casa do proprietário.
— Agora! — ordenou Porta, ao se
aproximarem da entrada. Estavam
encharcados por terem caído numa
piscina na qual o homem costumava
lavar os animais mortos, antes de
começar a operação de empalhamento.
Mas encontraram um obstáculo na
pessoa de uma zeladora, uma enorme
mulher que mantinha uma corrente na
porta.
— Bom dia, dona — cumprimentou
Porta, sorrindo e inclinando-se
polidamente.
Ela franzia a testa e olhou com
desconfiança para as armas nas mãos
deles.
— Que que os senhores desejam
aqui? — perguntou, com sotaque
prussiano.
— O chefe está em conferência e
não deseja ser perturbado.
— Sou irmão dele e vim visitá-lo —
disse Tiny, sorrindo descaradamente.
— É mesmo? — redarguiu a mulher,
mostrando claramente não acreditar. —
Nunca soube que o chefe tinha um irmão.
Seu nome também é Taut?
— Em geral irmãos têm o mesmo
nome — respondeu Porta, sorrindo
amistosamente.
— Saia da frente — gritou Tiny,
perdendo de repente a paciência e quase
encostando a P-38 na garganta dela. —
Está querendo uma pílula de chumbo
para seu estômago!
— Oh! Deus, não! — exclamou ela,
cobrindo o rosto com as mãos.
— Tire essa corrente e fique calada
e nada lhe acontecerá — disse Porta. —
Não queremos fazer nada contra uma
senhora tão suave e encantadora. Isso
seria doloroso e causaria um transtorno
danado para o pessoal do seguro de
vida!
Com mãos trêmulas, ela retirou a
corrente e se afastou da porta.
— Agora está melhor — disse Tiny,
rindo e empurrando-a para o toalete, do
qual fechou a porta.
Silenciosos como gatos espreitando
sua presa, eles foram entrando pela
casa. Tiny se achava furioso e tomado
de uma força incontrolável. Estava até
mesmo disposto a atravessar uma parede
de concreto e surpreender Egon e o
anão. Olharam debaixo dos sofás,
abriram armários. Tiny chegou a abrir as
janelas e espiar para o jardim.
Acabaram encontrando-os juntos no
primeiro andar, com o dono maluco e
duas prostitutas, as mulheres deitadas
em sofás separados, fazendo coisas que
poriam qualquer censor de filme a
nocaute.
O anão tinha na mão uma pistola
quase do seu tamanho.
— Pare ou atiro! — gritou, agitando
a pistola para um e outro lado, como
quem espanta galinhas de um canteiro de
flores.
— Você vai é se mijar todo — disse
Tiny as gargalhadas, acertando tremendo
murro no peito do anão. — De certo
modo eu diria que você teve as suas
bolas apanhadas numa ratoeira.
— Pela janela, de ponta-cabeça! —
ordenou Porta com firmeza.
— A que distância devo atirá-lo? —
perguntou Tiny, usando a cabeça do anão
para quebrar as vidraças. Os cacos de
vidro foram caindo na área cimentada,
lá embaixo.
— O mais longe que puder —
respondeu Porta — e capricho para ele
cair numa rocha bem grande e pontuda.
Tiny manteve o anão acima da
cabeça, no alto de seus braços
esticados, e deu um passo atrás para
conseguir maior impulso no arremesso.
As mulheres taparam o rosto e
começaram a soluçar.
— Adeus, seu pigmeuzinho —
berrou Tiny, e arremessou o anão pela
janela.
A armação e tudo mais foram bater
com ele lá embaixo no jardim.
O anão aterrissou com um pancada
surda, mas estava longe de ter morrido.
Exatamente o contrário. Como uma
flecha lançada de um arco, ele foi cair
sobre pequeninas árvores frutíferas e
desapareceu nos campos encharcados,
depois de na passagem tomar um banho
involuntário na piscina para animais
mortos.
— Agora, então, você chamou seu
último táxi — gritou Porta.
Com um ágil movimento, passou uma
fina corda em volta do pescoço de Egon.
Uma das mulheres entrou em ação — a
de preto. Pulou nas costas de Porta e
meteu os dentes em sua orelha. Com um
grito, ele largou Egon. O Pulha ia sair
pela porta quando Tiny caiu sobre ele.
Rolaram degraus abaixo, atracados um
ao outro, fazendo um barulho infernal.
Na luta eles atropelaram um enorme
orangotango empalhado, que estava
cheio de mecanismos de relojoaria e
começou a andar sozinho, mostrando
uma imensa boca vermelha e abrindo os
braços inteiramente. Tiny não pôde
acreditar no que via. Procurou pegar a
pistola e não conseguiu, soltou um grito
de horror, deu um pulo no ar, como gato
em braseiro, pulou para fora da janela e
saiu aos tropeções por uma série de
poças profundas, espalhando água e
lama por toda parte e passando, sem
sentir, novamente pela piscina do
homem.
Egon, caído de cara no chão, virou-
se com dificuldade para ver por onde
saíra Tiny. Mas em vez de Tiny o que ele
viu foi um enorme e peludo monstro que
se aproximava dele, virando-se para um
e outro lado, com enormes dentes
caninos amarelados salientando-se de
uma boca vermelha escancarada. Das
profundezas do monstro vieram dois
terríveis urros. Egon, que já se
levantava para fugir, caiu para trás,
quase morto de terror. Mas a vida foi lhe
voltando rapidamente quando o monstro
de pelo alaranjado caiu sobre ele com
olhos em brasa e as presas rangendo.
Ele tentou rolar para um lado e fugir,
mas ficou inteiramente paralisado pelo
medo, da cabeça aos pés, ao ver que os
dentes do animal raspavam seu rosto.
Emitiu dois gritos. O segundo foi
quando sentiu sua cabeça dentro da boca
escancarada do orangotango, a última
coisa a lhe acontecer em sua vida curta e
atribulada. Não teve tempo sequer para
entrar em pânico. Seu coração parou
completamente. Um espasmo após outro
o contraíram. Morreu ali mesmo, do
choque, com um grito e uma profunda
inspiração.
— Que inferno! — gritou Porta,
sacudindo a garota vestida de preto. —
Será melhor sairmos todos daqui. Os
roceiros que vieram à grande cidade
para se distrair um pouco estão agora
lotando as ruas. Já ouviram dizer que
vai haver um “Festival Berlim” na casa.
E os policiais aparecerão por aqui
sem demora, e olhe que usam canhões!
— Vão atirar na gente? —
perguntaram as duas garotas a um só
tempo.
— Podem apostar sua vida que vão
— respondeu Porta, arrastando-as para
a rua, onde se misturaram com os
turistas curiosos, que davam a
impressão de terem vindo diretamente
do trem que os trouxera da Silesia ou
Westphalia.
— Jesus sobre a cruz! — gritou
Porta, inspirando profundamente, ao se
sentar, um pouco mais tarde, no gabinete
de Sally. — Agora tenho de descansar
um pouquinho, para poder voltar a
raciocinar claramente, como uma pessoa
normal.
— Ainda arranco as orelhas daquele
anãozinho — jurou Tiny que. como de
hábito, estava deitado de bruços no
chão. — Não podemos de modo algum
deixá-lo fugir, sabendo do que ele é
capaz. Ele tem a mentalidade de um
gorila que ao nascer caiu de cabeça
numa arvore.
— Antes de mais nada, precisamos
de novas armas, que não possam ser
identificadas — disse Porta, pensativo,
coçando o peito de pombo. — Não pode
ser piolho outra vez, não é? —
perguntou, espiando para dentro do
uniforme.
— Para que você quer novas armas?
— quis saber Tiny, sem entender. — Eu
tenho minha arma e com ela posso
acertar entre os olhos de uma mosca
numa noite tão escura como as
profundezas do inferno. Com armas
novas a gente tem de se acostumar de
novo.
— Você está mais burro agora do
que no dia em que nasceu — comentou
Porta, irritado. — Não da para entender,
rapaz, que quando a gente atira nos
outros, fora da guerra, é preciso ter uma
arma que não nos denuncie? Isso evita
tremendos problemas e uma porção de
perguntas bobas. Se a gente é preso e o
promotor fica lá com uma arma que
pode provar ser nossa e foi usada para
mandar alguém para outro lugar, seria
motivo de grande indignação para todo
mundo se o júri não nos considerasse
culpados. Está entendendo agora por que
razão nós temos de nos apossar de
alguma arma nova, que pertença a outra
pessoa e que não possa nos identificar?
— Vou providenciar algumas —
respondeu Tiny, rindo satisfeito. — Vai
ser mole. Posso consegui-las aqui
mesmo, na guarda. Todas as suas armas
estão penduradas num cabide aqui
embaixo. Basta esticar a mão e pronto!
— Não, eu protesto! — gritou Sally,
surpreso, pulando fora de sua cadeira na
secretária. — Nada de armas de fogo do
Ministério da Guerra! Nossa coleção já
está muito desfalcada!
— Está bem, esta bem. Então vou
apelar para o depósito da Prinz Albrecht
Strasse — declarou Tiny,
despreocupado. — Conheço lá um cara
que me arranja uma. Quando os tiras
souberem que o safado do anão foi
mandado para as cucuias por armas
oficiais, vão achar que a execução foi o
tipo de troço legal e a engolirão como a
um tijolo quente.
— Não é estúpido de todo —
admitiu Porta. até com certo ar de
admiração.
Quando Tiny voltou com três
grandes PP 7.65 Walther, que trouxe do
QG
da Gestapo, na Prinz Albrecht
Strasse, Sally quase teve um troço.
— Como é que conseguiu passar
com elas? — perguntou. admirado. —
Não revistaram você na saída?
— Como já disse, conheço lá um
cara sensacional — respondeu Tiny,
piscando um olho.
— O próprio Himmler, talvez? —
perguntou Porta, com um sorriso maroto.
— Também o conheço — respondeu
Tiny rindo, em estado de graça. — Mas
por sorte ele não me conhece. Eu trouxe
umas pilulazinhas verdes, que peguei lá
também. São suficientes para fazer um
eunuco voltar à plena forma.
E Tiny tirou do bolso uma caixa de
pílulas verdes. Porta e Sally engoliram
duas cada um, enquanto Tiny ingeriu
três. Explicou que estava um tanto
combalido. Para ajudá-las a descer,
usaram o uísque de Sally.
— Estas verdinhas são fantásticas
— disse Porta. — Elas já começam a
funcionar no meio da garganta. Eu não
sei qual é o efeito em vocês, mas eu
estou me sentindo como uma divisão
blindada com armas auxiliares,
marchando para achatar toda uma aldeia.
Esse anão será mais do que feliz se
atravessar vivo o dia de hoje, e eu tinha
vontade de ver alguém ficar zangado
conosco ao saber que ele deixou este
vale de lágrimas.
Em suas andanças por Berlim eles
vasculharam o Porco Dourado, mas
ninguém ali havia visto o anão há
tempos.
— Este lugar é geralmente muito
agitado — comentou Porta, ao cruzarem
Gendarmenmarkt. — Uma vez, numa
festa de Natal, um cameleiro que
trabalhava na Siemens, preparando
caixas de papelão, teve como resultado
ficar aleijado para o resto da vida e
alguns dos seus companheiros escuros
foram postos imediatamente fora de
ação. Foi um Natal realmente bom. Pelo
menos é o que dizem. Fecharam o lugar
por três meses. Um comissário
grandalhão e gordo, que vendia porcos,
apareceu e disse: “Estamos fechando,
rapazes!”
— E eles fizeram isso? — perguntou
Tiny, admirado.
— Tinham de fazer — disse Porta
sorrindo. — Esse comissário dispunha
de todos os policiais do mundo. e todos
de armas na mão.
Eles percorreram uma porção de
lugares. No Perna de Pau encontraram
um conhecido de Porta. Estava sentado
numa alta banqueta de bar, de chapéu,
capote de peles e óculos escuros, apesar
da escuridão e do calor do ambiente.
— Você viu o anão? — sussurrou
Porta.
— Não te conheço mais —
respondeu Óculos de Sol. — Você está
acabado em Berlim.
Com um movimento suspeito. meteu
a mão no interior do capote. Ouviu-se
uma pancada surda. Os óculos escuros e
o chapéu foram bater no forro e o dono
deles ficou rodando na porta giratória.
Tiny lhe havia dado tremendo pontapé
no traseiro.
— É membro do Anel — disse
Porta, cuspindo para mostrar desprezo.
— Anel? — perguntou Tiny, curioso.
— É, o Anel. Todos os membros
dele estiveram atrás da cerca durante
três anos, pelo menos.
— Está procurando o anão? —
perguntou uma prostituta vestida de
vermelho.
— Você deve ser clarividente —
disse Porta, com uma risada.
— Dá uma espiada no Travesti —
informou ela, sorrindo astutamente e
piscando para ele com os seus longos
cílios postiços.
— Gozado ele no Travesti — disse
Porta, pensativo, quando passaram, de
volta, pela Gendarmenmarkt. —
Geralmente são caras doidos, esses que
frequentam aqui, que têm bolas mas não
se sabe para que, usam salto alto e
cheiram a perfume de prostituta.
O anão estava lá dentro, sentado no
fundo da sala, apagando o cigarro no
peito desnudo de uma prostituta para, da
próxima vez, não se esquecer de pagar o
dinheiro da “proteção”.
— Tenho andado doido para
encontrá-lo novamente — disse Porta
baixinho, chegando atrás dele em
silêncio e espetando-lhe a nuca com a
ponta da faca de combate.
O anão deu um grito horrível e caiu
da banqueta do bar. Bateu com a cabeça
na parede, levantou-se num pulo e voou
pela porta, mas deu de cara com Tiny.
Lançou outro grito e mergulhou de
cabeça através de uma janela fechada,
sem levar em conta que se achava num
alto primeiro andar.
Tiny disparou duas vezes a
silenciosa Walther.
— Você pode dormir comigo uma
semana inteiramente de graça se der um
tiro nas bolas desse anão sádico! —
disse a garota que o anão estivera
fazendo-a de cinzeiro.
— Dormir? — respondeu Tiny rindo
e abanando a cabeça. — Você está
completamente enganada. Passei uma
temporada em hospital e não vou
precisar dormir pelo menos por uma
semana!
— Você é uma garota maravilhosa
— disse Porta em tom de galanteria,
enfiando a mão entre as coxas dela. —
Bastante bonita para virar a cabeça de
qualquer um — continuou para em
seguida ir espiar pela janela. — Para
onde terá ido o diabo do pigmeu?
— Você vai encontrá-lo no
Tiergarten — falou uma garota com
meias prateadas e ligas vermelhas
presas as coxas. — Quando as coisas
ficam pretas para o lado dele, em geral
se esconde fora com um dos seus
guarda-costas.
Você não tem como errar. É uma
casa branca, arredondada, que é vista
logo que se entra no parque onde
começam as pistas de equitação, um
lugar cheirando a cocô de cavalo.
— Estamos no caminho! — gritou
Porta, aflito.
Desceu as escadas em dois pulos,
com Tiny atrás, feito uma avalanche. Um
alcoviteiro postado it entrada vigiando
suas mulheres levou um trompaço e caiu
redondamente.
— São os russos? — perguntou,
confuso, olhando aterrorizado para Tiny
e Porta, que desciam a rua em louca
correria.
A poucos metros dentro do
Tiergarten eles avistaram o anão. Ele
também os viu ao mesmo tempo e com
um grito penetrante, de morte, desandou
a correr, deixando uma nuvem de poeira
atrás de si. Aí ele cometeu um erro
tático, escapando para dentro da torre de
água abandonada.
— Está no papo! — gritou Porta. —
Daqui a pouco vamos ver alguém
despencando de uma grande altura.
Muito melhor do que o Siegessäule!
Tiny virou a cabeça para trás, a fim
de verificar a altura.
— Puxa! Como é alto! — disse ele
impressionado. — Quando ele cair de
lá, garanto que não vai sair só
mancando. E se não puder pular? Ora,
vai ter que transpor a grade, e como é
um merdinha de nada, e capaz de não
alcançar o ponto mais alto, mesmo com
os braços esticados e na ponta dos pés.
— Não queremos que ele se esfalfe.
Nós levantamos ele! — disse Porta,
rindo deliciado, já antevendo em sua
imaginação o homenzinho caindo da
torre de e rodopiando pelos ares em
direção ao solo.
Forçaram a porta de ferro, cujo
ranger ecoou amplamente pelo vazio da
torre. O anão havia travado uma pá sob
a maçaneta da porta. Eles ouviam o
ruído dos passos dele ressoando nos
degraus de ferro.
— O homem está com uma pressa
danada de chegar lá em cima — disse
Porta rindo.
— E vai descer muito mais depressa
— comentou Tiny, com uma boa
gargalhada. — Não será um troço
formidável ver esse porcariazinha
despencar de lá, como uma bomba
anglo-americana despejando-se em cima
do QG do Führer?
Eles chegaram à plataforma mais
alta nos calcanhares do anão, que
choramingava e gritava, tomado de
pavor. Rodearam a plataforma quatro
vezes, até que Porta deu meia-volta e
prosseguiu no sentido oposto, e o
resultado é que ele e o anão acabaram se
encontrando cabeça com cabeça.
— Você está frito, bonitão! —
rosnou Porta satisfeitíssimo, procurando
agarrar o homenzinho pela garganta.
— Não, não! — gritou o anão,
pulando para trás e largando um pontapé
com a sua bota cravada.
Porta desviou-se muito lentamente,
de modo que a bota o pegou bem no
queixo, e quando levantou o rosto com a
dor, o anão, entesado como uma flecha,
voou sobre ele, depois deu um pulo para
trás, meteu-se entre as pernas de Tiny e
em seguida, rodando como um pião,
desferiu tremendo chute entre as coxas
do homenzarrão. Tiny urrou como dez
violões sendo esticados ao mesmo
tempo num instrumento de tortura
medieval, agarrando os escrotos com
ambas as mãos.
— Já se divertiu bastante! —
vociferou Porta, apontando para o anão
a arma já engatilhada e dando três tiros
que erraram o alvo.
O anão pulou para o alto da grade da
plataforma e ficou ali de pé, oscilando
perigosamente, por momentos.
Porta baixou a pistola e ficou, com
os olhos fixos e de boca aberta,
acompanhando o homenzinho que ali
permanecia agitando desesperadamente
os braços para manter o equilíbrio.
— Jesus e Maria! — gritou Tiny,
esquecendo-se da dor nos testículos. —
Esse pigmeu de merda parece não ver
como isto aqui é alto do chão.
— Sagrada Mãe de Deus! — rogava
o anão, em desespero.
Ele ia virando para trás, mas
recuperou o equilíbrio com um
movimento de braços.
— Se ele escapar desta, vai fazer
sucesso num show — comentou Porta,
admirado. — Estou pensando se não se
poderia vendê-lo para um circo.
Tiny esticou o braço para dar um
empurrãozinho no anão, mas uma lufada
de vento antecipou-se a ele. O
homenzinho inclinou-se para fora da
plataforma, na qual o equilíbrio se
tornara impossível. Esticou o braço a
fim de se segurar em alguma coisa, mas
não encontrou nada. Então perdeu de vez
o equilíbrio e caiu desamparado no
meio da cerração.
Porta e Tiny inclinaram-se sobre o
gradeado e acompanharam a queda.
— Use os braços! — gritou Tiny, —
Use os braços e faça como as gaivotas.
Vai ver como chega em terra
suavemente e não quebra o pescoço!
Um policial que conversava com um
zelador do parque, no portão de entrada,
sobre alta traição, olhou para cima e viu
o anão caindo. Deu um grunhido e as
pernas lhe faltaram completamente.
Chamavam-no de Pedro Coragem e tinha
uma bela reputação de bravura,
merecidamente obtida nas unidades de
choque, no fim dos anos vinte, quando
mostrou ser um dos melhores homens,
fosse com um porrete ou com uma
coronha nas mãos.
O zelador do parque correu para se
abrigar, colado ao chão, atrás de um
depósito de lixo. Ele confundiu o anão
com um novo tipo de bomba aliada ali
caindo.
A marca do corpinho do anão,
deixada no teto arrebentado de um
Volkswagen cor de areia da organização
Tod, foi tudo o que restou visível dele.
O resto do corpo misturou-se com o
volante e a alavanca de mudança ou
espalhou-se pelo painel de instrumentos.
— Veja lá: ele fez isso
voluntariamente! — gritou Porta, como
um possesso, quando desciam, ele e
Tiny, a escadaria de ferro, fazendo
ressoar os passos. — Nós estamos
completamente inocentes!
— Nossas mãos são tão puras
quanto as do cara que pregou Cristo na
cruz e depois disse o mesmo que estou
dizendo — falou Tiny exultante e
descendo tão depressa que quase
tropeçou no próprio pé.
Poucos minutos depois o posto
central da polícia começou a ser agitado
por uma série de telefonemas. O
Comissário Schultz, apelidado O
Assassino, por causa do seu
subcomando no Esquadrão Homicida,
mal podia crer no que ouvia.
— Que foi que disse? Pulou da torre
de água e amassou um dos veículos da
Pátria? Deve ser estrangeiro, ou judeu,
ou uma coisa assim. Nenhum alemão
verdadeiro seria estúpido a tal ponto.
Junte todas as peças. Vou examinar.
Estarei aí imediatamente.
Mal chegou, Assassino Schultze
prendeu Pedro Coragem e o zelador do
parque por não terem evitado que o
maluco pulasse da torre e danificasse
uma propriedade do governo.
Quando descobriram que fora o anão
o tal mergulhador no espaço, Assassino
acendeu um bruto charuto e começou a
pensar finalmente. O porcariazinha foi
empurrado, pensou consigo mesmo,
soltando uma nuvem de fumaça azul: se
eu soubesse quem fez isso apertaria a
mão dele e lhe ofereceria um dos meus
bons charutos brasileiros. O ar de
Berlim está muito mais puro agora que
aquele merdinha abotoou o paletó.
O bom desfecho foi causa de uma
celebração no gabinete de Sally.
— Uma queda como essa, setenta e
cinco metros e meio — disse Tiny, rindo
alto — pode certamente consertar as
coisas A essa hora já devem estar
formando fila para pagar seus débitos.
Vamos ter tanto dinheiro que eu. não sei
mesmo a quanto monta o total.
— Não perca tempo para arrecadar
— avisou Sally, dirigindo-se a Porta. —
.No domingo você vai voltar para o
diabo da guerra. Não tenho mais
condições de mantê-lo aqui escondido.
Já identificaram uma das armas como
nossa e fizeram perguntas muito chatas.
Você tem de estar fora antes que a
Polícia Secreta de Campanha tome a si o
caso, que está com a Policia Criminal.
Nosso chefe. um tenente-coronel de
cabeça oca, começou a dar sinal de si
pela primeira vez em dez anos. Ele me
telefonou há pouco para saber se alguém
do meu departamento andava por aí
atirando nos outros — Abençoados
sejam os frutos da terra — entoou Tiny
solenemente.
Ele meteu na boca. uma gorda perna
de ganso e fê-la descer com um bom
gole de vinho.
— E também todos os que partilham
isto — prosseguiu Porta, servindo-se
uma boa quantidade de ameixas.
— Amem — suspirou Sally,
bebendo pelo gargalo da garrafa.
Sua risada é uma canção
interrompida e a morte encontrou você
amável e alegre.

Siegfried Sassoon

Quando acordou, Porra teve a


impressão de que uma granada de mão
havia estourado dentro de sua cabeça.
Olhou em torno, inteiramente confuso.
Achava-se num quarto de dormir
que não conhecia. A cor ambiente
predominante era o vermelho, uma cor
de que ele gostava. Para sua surpresa,
notou que havia uma outra pessoa,
deitada ao lado dele: uma rapariga de
cabelos negros e olhos amendoados.
— Que diabo é isto? — exclamou
ele. — Será que estou morto e vim de
primeira classe para o céu?
Lentamente foi se levantando e
começando a pensar como um soldado.
Pulou da cama, pegou a garrafa de
vodca e tomou alguns bons goles.
Você não morreu, disse a si mesmo.
Não foi pro céu coisa nenhuma. Está é
na casa da gorda e faladeira Natasha e
pagou 500 marcos por esta cama,
incluído o serviço.
Procurou a carteira. Não estava ali.
Puxa! Que lugar mais caro é o céu!,
pensou ele, pegando novamente a
garrafa de vodca.
A garota dos olhos amendoados
acordou e parecia conjecturar sobre o
que um homem estranho, nu e de quepe
na cabeça estaria fazendo em sua
cama. Ela se esticou toda e bocejou.
— Eh, alemão! Se você vai querer,
tem que ser agora. Você pagou até as
oito horas. Daqui a quinze minutos
você pode ir para o inferno. Entendido,
.senhor soldado alemão?
— Estou com dor de cabeça —
respondeu Porta. — Mas muito
obrigado pelo oferecimento.
— Se não quer — respondeu a
garota, virando-se para o lado — então
vou dormir. Feche a porta quando sair,
senhor alemão.
22
A luta de boxe

— Não tenho a menor duvida sobre


o lugar em que estamos — disse Tiny
com um riso infeliz. — Isto é Rússia no
duro Achei meu primeiro piolho. O
pobre coitado estava morto.
— Você teve -sorte — disse Porta
rindo. — A família que tomou conta de
mim é realmente encantadora!
— Também acho que tive sorte —
suspirou Tiny, tristemente. — Mas
oitocentos convidados vieram para os
funerais do piolho e me parece que
resolveram ficar por aqui.
— Vou andando — disse Porta. —
Tenho coisas mais importantes a fazer
do que ficar aqui discutindo sobre os
funerais de um piolho.
Logo em seguida ele parou e
começou a examinar, interessadamente,
um grande cartaz amarelo-claro, que
dizia, em letras pretas garrafais:
GEHEIME SONDERKOMMANDO
IV/3 z.b.v.
GABINETE DO COMANDO

ENTRADA TERMINANTEMENTE
PROIBIDA PARA PESSOAS NÃO
AUTORIZADAS
Como de hábito. ele estava
absolutamente convencido de ser pessoa
autorizada. E foi entrando sem a menor
cerimônia.
A palavra “terminantemente” estava
sublinhada. Ele coçou uma orelha,
depois mandou um pontapé na porta, que
se abriu ruidosamente, e foi entrando.
Achou-se em um grande e
elegantemente mobiliado gabinete, que
faria morrer de inveja até mesmo um
general prussiano nascido em berço
aristocrático.
— Que diabo você quer? —
perguntou o mecânico-chefe Wolf,
considerado no Exército o imperador
não coroado dos suprimentos e
equipamentos.
Ele se achava de pé, em frente a um
enorme espelho, admirando a própria
imagem refletida.
— Não percebe que estou me
aprontando para sair? — perguntou, sem
um pingo de cordialidade, despejando
quase meio vidro de água-de-colônia
sobre os cabelos pretos brilhantes.
Depois abriu os lábios e ficou
apreciando embevecido os seus ricos
dentes de ouro.
— Escuta: como é que entrou aqui?
— perguntou, visivelmente contrariado.
— Não viu o aviso “Entrada
Terminantemente Proibida”?
— Como entrei? — respondeu Porta
com um sorriso moleque.
— Pela porta, claro. Que outra
maneira podia ser? Para que está
botando em cima esse “Sonho de
Prostituta”? Vai atrás de alguma russa
por ai?
— É para não cheirar feito você,
cabeça de merda — respondeu
rispidamente Wolf.
— Você é um cara de bela aparência
— disse Porta, lisonjeiramente e
tentando estalar os dedos, sem
conseguir.
— Bem, que você esperava? —
reagiu Wolf, com angélica
superioridade. — Não deve esperar que
um mecânico-chefe como eu ande por aí
mais parecendo um bunda-suja como
vocês, escória da sociedade, não é?
— Exatamente minha opinião —
respondeu Porta com um sorriso de
absoluta falsidade, escondendo seu
verdadeiro juízo. Sua sincera opinião
era a de todo mundo, para quem Wolf
não passava de uma respeitável
cavalgadura. — Você é de uma
elegância fora do comum. Sua água de
rosas chega a perfumar o ambiente a
cinco quilômetros, contra o vento.
Ninguém acredita que você possa ter
alguma dúvida sobre o seu próprio
valor.
— Você tem razão — respondeu
Wolf, que não escondia seu orgulho pela
óbvia admiração de Porta. — Se se quer
chegar às alturas, bafejado pela fortuna,
a gente tem de levar consigo uma aura
de respeito. Não se consegue nada
andando por aí como você anda. Você
mais parece um sujeito que passa o
tempo empurrando tambores de óleo.
Desse jeito não vai muito longe. Você
tem que entender que o que vale mesmo
é ter classe. Se tiver classe, aí os idiotas
vão até beijar sua bunda!
— Não posso negar — disse Porta,
em tom de bajulação. — Todos dizem
que o mecânico-chefe Wolf é realmente
um bonito homem.
— Eu estou bem sabendo disso —
respondeu Wolf, envaidecido e virando
a cabeça para se ver sob outro ângulo.
— Estamos tendo dificuldades —
disse Porta, mostrando-se preocupado,
mas na verdade procurando tirar
vantagem.
— Quê? — perguntou Wolf. —
Aqueles comedores de merda não vão
comprar entradas?
— Não é isso — explicou Porta. —
Todos compraram, mas agora
começaram a vendê-las no câmbio negro
para as divisões vizinhas, lucrando à
nossa custa.
— Então ponha mais lugares —
respondeu Wolf, com indiferença e
fazendo um gesto de reprovação. — E
você precisava vir me aborrecer com
um troço desses?
— Quem está fazendo toda essa
confusão é o Velho Perna de Couro —
disse Porta. — Era só ele deixar a gente
usar aquele pequeno espaço onde guarda
os seus tratores. São tratores dos
comunistas russos. É o único lugar onde
podemos acomodar o nosso pessoal.
— Vamos pensar — disse Wolf,
pegando um charuto e cheirando-o,
como um armador grego que começou a
vida lã de baixo.
— Experimente um — ofereceu a
Porta.
Cada um acendeu o charuto do outro,
exalaram grandes nuvens de fumaça e
puseram-se a pensar. Ambos eram
homens de negócio e olhavam a guerra
como uma espécie de empreendimento
de alto risco. Para eles, linhas de frente
e inimigos não existiam.
Eram muito mais sócios em negócios
“difíceis” — Se alguém pensasse que
eles iriam deixar passar uma
oportunidade estaria redondamente
enganado. Para aqueles dois, tudo tinha
um preço, fosse de que modo fosse.
— Que tal um Enzian? — propôs
Porta, apontando para uma grande
garrafa de vinho sobre uma mesa
francesa ali ao lado do capacete pessoal
de Wolf, com a águia de prata. — Um
pouco dessa bebidinha faz a gente
pensar melhor.
Ele levantou-se e tomou um trago
diretamente na garrafa.
— Você nunca vai aprender boas
maneiras — reclamou Wolf. — Nem
mesmo ficando rico.
De cara amarrada, apanhou em um
armário dois pequenos cálices.
— Não tem menor? — perguntou
Porta, ironicamente.
— Infelizmente não — respondeu
Wolf, fingindo não compreender.
Os três primeiros cálices foram
engolidos rapidamente.
— Como ia dizendo — começou
Porta — vai ser realmente uma grande
luta. Nosso pessoal de publicidade já
chegou à cidade para isso. Cada
individuo em todo o Corpo de Exército
já comprou sua entrada, de modo que a
casa estará inteiramente lotada com a
vinda deles. Mas lotada mesmo! E
dinheiro no duro! E não somente navios
de madeira do Exército. Mas esse
bobalhão do Perna de Couro é a
estupidez em pessoa. Um sujeito
quadrado, que quer se manter dentro da
lei. Esta sempre me dizendo que é
responsável pela observância do
Regulamento de Defesa do Exército. —
E Porta prosseguia sua análise: — E
desse tipo de gente tão amarrada que
nunca usa uma privada diferente sem
telefonar para o QG a fim de saber se
isso é permitido. Não faz muito tempo
que sua unidade ficou sem nada para
beber e sem poder tomar banho e
escovar os dentes porque não havia
recebido permissão por escrito para
abrir as torneiras! A pior coisa que se
diz dele é que dá ouvidos às outras
pessoas, acredita em tudo que elas lhe
dizem. Eu fico danado da vida quando o
vejo dar de ombros e fazer uma cara de
porco premiado que não pode dar seus
roncos à vontade.
Porta inclinou-se para a frente, seus
olhos tomando também um aspecto
porcino. E continuou: — Por que você
não bota aqueles seus chineses para
diverti-lo um pouco? Podia ser até que
ele passasse a compreender que os
amigos são para as ocasiões,
descobrindo alguém a quem devesse um
favor. Não suporto essas pessoas que
estão sempre no mundo da lua e não
aceitam a vida como ela é.
— Vou procurar ter um entendimento
com ele — prometeu Wolf, com os olhos
brilhando. — Levamos os rapazes
conosco. Eles podem dizer a ele o que
os chineses e os negros são capazes de
fazer com as pessoas de quem não
gostam. Vamos começar com Albert
soprando em cima dele.
Juntamente com Tiny, Albert e
Gregor, Wolf e Porta caminharam, de
peito elevado, pelo enorme depósito de
material bélico ocupado por todo tipo
de peças de artilharia pesada. Os
canhões se alinhavam, lado a lado, ao
longo das paredes, com os tubos em
ângulos de elevação que os faziam ficar
voltados para as claraboias.
Os obscuros, com seus tubos curtos
e grossos, ocupavam o espaço
intermediário.
O oficial do material bélico Kunze,
apelidado Velho Perna de Couro, estava
sentado à sua secretária, gordo e
grandalhão e literalmente pingando
poder e autoridade. Mantinha uma dura
expressão de nazista compenetrado.
— Que desejam? — perguntou,
tentando impor respeito, sem sucesso.
— Eu imagino que o que ouvi não
passe de boato. mas será verdade que
você se recusa a tirar daqui toda essa
sua merda? — perguntou Wolf, iniciando
a conversa, lançando uma fumaceira na
orelha do homem. — Ou não ouvi
direito?
Kunze passou a mão gorda pela
cabeça totalmente calva e lançou sobre
Wolf um olhar enfurecido.
— Só quero dizer uma coisa —
respondeu, com uma voz sibilante e
raivosa.
— Nem você nem Porta nem
ninguém pode vir aqui para me dizer o
que devo fazer. Vocês não têm nenhum
negócio a tratar aqui. Tudo aqui é meu.
Lembrem-se disso!
Porta bateu palmas, aplaudindo, e
virou-se todo, num tremendo ataque de
riso.
— Deixa disso, seu caga–regras
convencido! Você não é dono de um só
pedacinho deste arsenal. Você não é
dono nem dos pregos das suas botas! O
Exército emprestou tudo a você. Tudo
isto é do Exército. O Exército é dono até
de você mesmo, e quem é o Exército? Se
deseja saber, o Exército somos nós!
— Vou dar parte de você ao QG do
Corpo! — ameaçou Kunze, furioso,
levantando-se arquejante e com visível
dificuldade. — Aí é que vamos ver o
que o QG tem a dizer. Ele é duro como
aço Krupp.
— A gente dá uma mijada no seu QG
— reagiu Wolf, rindo com ar superior,
metendo o dedo no peito de Kunze. —
Você vai fazer exatamente o que
dissermos. Senão alguma coisa
desagradável pode acontecer.
— Solta os cachorros nele — disse
Tiny, maldosamente.
Gregor espalhou pela mesa alguns
vultosos desenhos.
— Isto é o que sugerimos — disse
ele com ares de promotor, apontando
para os planos.
— Não concordo com isso — disse
Kunze com sua voz de falsete, caindo
pesadamente em sua cadeira, bastante
humilhado.
— Você não tem que concordar
coisa nenhuma — declarou Porta. —
Você vai fazer exclusivamente o que
mandarmos. Todos estes canhões têm
que sair daqui.
Percorreu minuciosamente com o
olhar através das pequenas janelas e sua
atenção foi atraída para Lobo de Pau,
chefe do pelotão de serviços especiais
de Kunze. Ele servira três anos no
interior, em Torgau, por negligência no
manejo de armas de fogo. Ele e um
amigo, oriundo da Escola de
Suboficiais, entraram no Banco
Dresdener, em Bielefeld, para arrancar
um empréstimo rapidíssimo.
Na hora estavam de armas na mão.
Em lugar do empréstimo deram a eles
quatro anos de cadeia, rebaixaram-nos
para trabalhadores especiais e os
declararam “incapacitados
definitivamente para transportar armas”.
— Venha cá, delinquente — ordenou
Porta, acenando superiormente para
Lobo de Pau.
— Não seja besta, seu caipira —
reagiu Lobo de Pau, indignado.
Ele continuou onde estava,
provocadoramente, e Porta teve de ir até
ele.
— Ouça bem, tartaruga — começou
Porta. — Queremos cadeiras ao longo
de todas estas paredes, e tudo, vou
repetir, tudo muito caprichado e posto
no lugar até o meio-dia de sábado. —
Fez uma pausa e continuou, quase
solenemente, com uma voz baixa e
ameaçadora: — É a hora em que chegam
os espectadores e não será um bando
muito paciente.
— Que que você está pensando? —
perguntou Lobo de Pau, cuspindo
desdenhosamente no chão impecável de
cimento. — Hoje é quarta-feira —
continuou ele, contando nos dedos. —
Só três dias para sábado!
— Conte também as noites e assim
temos seis dias — disse Porta. — Haja
o que houver, as acomodações têm de
estar prontas ao meio-dia de sábado,
quando começará a maior luta de boxe
da história. Senão, você estará lá na
frente varrendo minas, antes de saber o
que o feriu. E isso é um pouco mais
perigoso do que valsar com uma russa
magricela e muito usada, que é o que
você faz agora.
— Que que Kunze diz a isso? —
perguntou Lobo de Pau, cautelosamente,
olhando para o pequeno gabinete, de
onde se ouviam vozes. O tom agudo
lamentoso da voz do encarregado do
material bélico Kunze era abafado pelo
vozeirão rude do mecânico-chefe Wolf.
— Quem está ligando para o que ele
diz? — respondeu Porta, abrindo
desmesuradamente a boca para desancar
Lobo de Pau com o seu rico repertório
de adjetivos próprios do Exército. —
Seu lenhador de uma figa, faça o que lhe
digo! Reúna o seu grupo de comedores
de merda e removedores de bosta. Junte
alguma ferramenta e movimente o
traseiro. E depressa com isso, pois
posso perder a tramontana e endurecer
de uma vez!
— Estou vendo que você não
conhece o nosso Senhor Kunze —
alertou Lobo de Pau. — É bom saber
que ele tem seus pistolões. E que
pistolões! Mais importantes do que você
possa imaginar! Acabar com a raça de
um 1º sargento como você não é nada
para Kunze. Ele quebrou as costas de um
tenente-coronel que veio aqui tentando
mijar em cima de nós.
— Cale essa boca! — gritou Porta
furioso — e cumpra as minhas ordens.
De outro modo você vai saber logo
quais são os meus pistolões!
O mecânico-chefe Wolf entrou
pomposamente no saguão do material
bélico, encantado com o tinir de suas
esporas não regulamentares. Ele
levantava os pés como um galo de briga
e batia com eles no chão fortemente,
para que o som ecoasse entre as vigas
de aço que sustentavam o enorme
telhado. Havia canhões por toda parte,
camuflados em marrom e verde, tratores
de artilharia, caminhões do último tipo,
carros de munição, veículos de meia
lagarta e lagarta inteira. Tudo alinhado
em longas e perfeitas fileiras. Wolf
cuspiu desdenhosamente em um canhão
antiaéreo de 80 mm e acendeu um
charuto brasileiro, esfregando o fósforo
num cartaz que dizia: cerimônia,
cumprimentando. de passagem, o gato
favorito do mecânico-chefe Wolf, que
fora promovido a 2º tenente e estava
sentadinho, lambendo-se todo, no
radiador de um veículo do Exército. Ele
foi andando por um longo e estreito
corredor e parou do lado de fora de uma
porta pesada, na qual se via um cartaz
branco:
TERMINANTEMENTE PROIBIDO
FUMAR
23
— Por que que aquele carneiro-guia
está ali de pé coçando os ovos? —
perguntou, apontando na direção do
Lobo de Pau com o seu bastão de oficial
inglês. — Não tem nada que fazer?
— Uma besta! — disse Porta. —
Estúpido como uma vaca!
Kunze veio correndo do seu pequeno
gabinete, as pernas rangendo como uma
fábrica de arreios e suando de nervoso.
— Saiam do meu barracão de
armamento! — silvou ele furiosamente,
quase deixando cair a dentadura postiça.
— Eu acho, você sabe bem, que é
melhor obedecer às ordens — disse
Porta, com os olhos fuzilando Kunze. E
ajuntou, em atitude feroz e ameaçadora:
— Este barracão tem de ser esvaziado
como boceta de prostituta aspirada em
manhã de Natal.
— Mas, mas ouça — gemeu Kunze,
desolado, os dentes postiços
chocalhando. — Eu não posso botar este
armamento em qualquer lugar. Sabe
quanto um desses canhões custou ao
povo alemão?
Eles são caríssimos. E vão ser
indispensáveis quando começar a grande
ofensiva de que estão tratando agora no
QG do Führer. E de qualquer modo eles
não são meus. Pertencem ao Quarto
Exército Blindado! — Então está tudo
muito bem! — trovejou o mecânico-
chefe Wolf, para terminar. — Nós somos
o Quarto Exército Blindado!
O Quarto Exército Blindado somos
nós!
— Que quer dizer com isso? —
resmungou Kunze, perplexo, olhando
boquiaberto para Porta e depois para
Wolf e voltando novamente a Porta.
Eles se mantinham como
verdadeiros prussianos, fazendo
mesuras como dois marechais de campo.
— O que eu digo — respondeu Porta
com um sorriso superior — é que nós
somos o Quarto Exército Blindado! —
bateu no nariz de Kunze com o seu livro
de pagamentos. — Diz aqui, preto no
branco, que nós pertencemos ao Quarto
Blindado. Então, como você mesmo já
disse, esta sucata é toda nossa e nós
queremos ela fora daqui, seu zelador de
meia tigela! E se não andar direitinho —
continuou Porta — você pode ser
afastado e tomar conhecimento dos
chineses do mecânico-chefe Wolf. Eles
adorariam jogar com você. Mas você
não iria gostar do tipo de jogo que eles
praticam.
— Está me ameaçando? —
perguntou Kunze, fazendo uma
malograda tentativa de fingir que ainda
era ele que tomava as decisões.
— Você é bastante sagaz — ironizou
Porta. — As pessoas que tiveram as
pernas arrancadas, como você, em geral
perdem um pouco do cérebro. Sai pelos
buracos das coxas.
— Os canhões vão ficar onde estão
— disse Kunze, com severidade. dando
pancadinhas com a régua numa das
pernas artificiais fornecidas pelo
Exército. — E eu estou lhe dizendo,
Sargento Porta. Não venha entrando no
meu depósito com toda essa empáfia. Eu
sou um servidor militar, veja bem! Não
um piolho como você, que qualquer
cachorro vagabundo pode mijar em
cima. — E arrematou, batendo
orgulhosamente nas suas estreitas
ombreiras verdes: — Eu sou um oficial,
ouviu?
— Sagrada Agni! — respondeu
Porta, rindo com arrogância. — Domar
um cara como você é mais fácil do que
arrancar pelos da bunda de uma vaca
russa capenga.
— Não admito isso! — gritou
Kunze, insultado. — Você tem de falar
comigo de maneira educada.
— Você há de compreender que nós
temos de tirar esses canhões para fora
— interveio Wolf, tentando uma
aproximação diplomática, porém
deixando transparecer uma falsa
camaradagem. — Seja sensato, Bernt.
Tire essa máscara governamental e volte
ao normal. Estamos promovendo uma
luta de boxe que o mundo nunca viu
igual. O pessoal já pagou os lugares.
Não podemos pedir que se equilibrem
em cima dos tubos dos canhões. Diga:
podemos? Sentando-se assim eles se
pareceriam com um bando de periquitos
chilreando e vendo um papagaio
trepando numa lhama vadia.
— Não é que eu não queira cooperar
— respondeu Kunze, ofegante — mas
não vai dar certo. Mal a gente tenha
posto para fora o primeiro canhão, o
serviço de informações russo já vai
saber de tudo. E quem vai pagar o pato?
Eu, Mestre do Material Bélico de
Campanha Kunze! Eu é que vou parar
numa corte marcial e quem sabe
fuzilado! Vocês não desejam que isso
aconteça, não é?
— Na verdade isso não nos
preocupa — respondeu Porta, sem se
comover. — O que queremos é estes
troços fora daqui para podermos
aprontar as nossas lutas.
— Já estou cansado desta conversa
fiada — rosnou Wolf, num súbito acesso
de raiva. — Este monte de merda tem de
ser deslocado para que a gente possa se
organizar. — Lançou uma grossa nuvem
de fumaça sobre Kunze. que começou a
tossir e protestar.
— Se não quer engolir suas pernas
postiças ou ficar sem orelhas, você deve
botar esses canhões para fora daqui o
mais depressa possível.
— Seja sensato — disse Kunze
quase chorando, torcendo a régua nas
mãos. — Que que você diria se eu lhe
pedisse para retirar todos os seus
caminhões?
— Não diria nada — respondeu
Wolf com um riso. — Apenas mandaria
meus chineses cortar você em
pedacinhos o tempo que quisessem. E
olhe que eles não se cansam facilmente.
— Pois veja — disse Kunze com ar
de vitória. — Mantenho a minha
posição, com chinês ou sem chinês. Os
canhões ficam comigo, dentro do
barracão, que é um lugar agradável e
seco.
— Ponha o nariz para fora — gritou
Wolf, já sem paciência e agitando o seu
bastão inglês, bastante irritado. — Lá
fora é seco como o deserto de Gobi,
onde água é coisa que só conhecem por
ouvir falar. O sol dos comunistas está
brilhando, dando até a impressão de que
pensa estar sobre um país capitalista
altamente desenvolvido. Seria bom para
os seus canhões que tomassem um pouco
de ar.
Dentro da cabeça de Kunze, tomada
por uma dor intensa, tudo começava a
entrar em completa confusão, e o ponto
central localizava-se numa espécie de
nó atrás da testa. Ele abriu a boca e deu
um grito. mas não adiantou. Então
começou a bater com a cabeça num
casco de granada que estava pendurado,
oscilante, num arame. Isso adiantou de
certo modo. Ele desandou a dar uma
série de ordens absolutamente confusas.
— Os espectadores vão se sentar ali
— disse Porta em altas vozes,
apontando para o espaço tomado por 35
pesados obuseiros.
— Deem o fora, vocês aí, mexam-se
— gritou ele, dirigindo-se a um grupo de
soldados sentados no reparo de um
canhão, tomando cerveja, como se não
tivessem nada com aquilo tudo. —
Vamos .botar esse rebotalho militar para
fora daqui. A civilização está chegando.
Preparem-se para receber a cultura
ocidental, como disse um camponês
russo quando os libertadores queimaram
sua casa.
— Aqui você não dá ordens! —
gritou um trabalhador, que mais parecia
um gorila adulto, com uma cabeça
excessivamente grande para o corpo. —
Daqui não vai sair coisa nenhuma. Isto é
um depósito de canhões, e o que está
aqui vai continuar aqui, a menos que se
receba ordem por escrito, selada e em
quatro vias.
— Jesus e Maria, vamos ficar aqui
ouvindo essa merda? — vociferou Tiny,
já agitando os braços. — Esse homem
está completamente maluco, com um
ataque agudo de complexo de
superioridade. Me deixe dar-lhe um
pouco de senso com um bom chute no
traseiro!
— Espere um pouco! — disse Porta,
agarrando Tiny, que já avançava para o
homem. — Esses trabalhadores ainda
não perceberam que não quero
complicações. Prefiro a linha reta.
— Isto aqui é um abrigo para
canhões — insistiu o gorila — e não um
campo de esportes para idiotas! Se quer
lutar, vá lutar no monte de lixo lá fora!
— Nenhum sacana de trabalhador
me fala assim duas vezes — gritou Tiny,
tomado de ódio. Em seguida, aplicou um
pontapé no estômago do homem,
fazendo-o vergar-se com um grunhido,
segurou-o pelos cabelos e amassou-lhe
o rosto contra uma superfície muito
dura. O grupo de trabalhadores começou
a se movimentar, particularmente depois
que Tiny jogou um deles de ponta-
cabeça pela janela, em cima de um
monte de lixo coberto de moscas.
O primeiro dos obuseiros começou a
rolar em direção ao ar livre. Kunze
andava em círculos, como uma galinha
tonta.
— Cuide deles! Cuide deles! —
gaguejava ele, nervosamente, — Ponha
eles em linha, caprichado, e separe por
calibres, senão nunca mais vamos poder
reuni-los. depois de tudo.
Quando um canhão de 105 mm cano
longo resvalou e caiu no rio que ali
passava, Kunze mergulhou, desesperado,
numa pilha de granadas.
— Não leve isto tão a sério — disse
Porta, confortando-o e passando-lhe um
cachorro-quente. — Que é um canhão,
quando estamos para perder a guerra?
Nos três dias seguintes, só se ouvia
ali o som de martelos e serrotes. De
tempos em tempos a Comissão da Luta
reunia-se na oficina do mecânico-chefe
Wolf, onde serviam “maçãs celestes” e
pastelaria judia, acompanhadas de
“champanha dos pobres”, isto é,
Slivovitz misturada com cerveja.
— Quem vai ser o vencedor? —
perguntou Tiny, metendo um enorme
pedaço de “maçã celeste” na boca ainda
maior.
— Claro que o vencedor —
respondeu Porta, com a boca cheia de
pastel judeu.
— Por quê? — perguntou Tiny, rindo
astutamente. — Quando David e eu
promovíamos lutas para os aficionados,
lá na Hein Hoyer Strasse, muito antes de
começar a luta nós já sabíamos o
vencedor.
— Então foi isso que você quis dizer
— respondeu rindo Porta. — Está tudo
combinado. O pessoal vai fazer tudo
direitinho, de modo que quem sairá
vencedor seremos nós mesmos. Vamos
nadar em dinheiro.
— E se formos apanhados? —
perguntou Albert, franzindo a testa. —
Aí só há um jeito. Para os russos, o mais
depressa possível.
— Nós aqui não somos africanos
comedores de bananas — ironizou Wolf.
— Teremos seis lutas antes da principal,
filho, e nessas seis, o sinal de partida
será um leve estalido do chicote. Na
principal, campeonato de peso-pesado
entre o campeão soviético e o alemão,
nós vamos para a cabeça.
— E a Grande Alemanha será a
vencedora, naturalmente — disse Heide,
com patriótica autoconfiança, sorrindo o
sorriso gostoso do vencedor.
— Não, meu caro, isso é justamente
o que a Grande Alemanha não vai fazer
— respondeu Porta rindo, batendo com
o cotovelo nas costelas de Wolf e
revelando assim uma conspiração entre
os dois. — Todos os tolos que se
deixarem levar por uma completa
euforia germânica, reforçada pela
presença de suásticas e molhos de
saladas, estarão dando força à velha
Alemanha para vencer a luta, e todo o
dinheiro que juntos vão aplicar estará na
dependência do comportamento do
alemão.
— E vão perder tudo — disse Wolf,
emocionado — porque o brutamontes
soviético vai nocautear o nobre
representante da superior raça
germânica.
— Vocês não têm medo de que haja
problemas? — perguntou o Velho,
preocupado.
— Nem um pouco — respondeu
Porta, os olhos brilhando. — Os únicos
a ter problemas serão os caras que vão
confiar no alemão. Quando as seis
primeiras lutas terminarem, eles vão dar
urras de vitória e o seu complexo de
superioridade chegará a tal ponto que
quando for a hora do choque principal
eles empenharão o cu para poderem
apostar, convencidos da invencibilidade
dos alemães.
Wolf, em sua euforia, deu tamanha
martelada na mesa que a “maçã celeste”
balançou no prato, derramando geleia
em seu charuto.
— Vão ficar umas feras — disse o
Velho, sombrio — e depois vai haver
encrenca, com E maiúsculo.
— Mas aí já estaremos longe —
disse Albert com um riso que lhe tomou
toda a cara.
— Como teremos certeza de que os
lutadores não vão topar e, portanto,
deixar mal a gente? — perguntou
Barcelona, que já nasceu desconfiado.
— Alguém pode ter posto na cabeça
deles que isso não vale a pena.
— Pode ser — admitiu Porta. —
Seria até interessante ficarmos
prevenidos contra isso, para estarmos
em segurança. Mas como?
— jaulas! — disse Tiny, com a boca
cheia de geleia.
— Jaulas? — perguntou Porta,
intrigado.
— Jaulas de macaco — respondeu
Tiny, rindo abertamente. — Jaulas
puxadas para cima até quase o forro. Um
cara de uma loja de artigos para
animais, em Paljma, tem um porção
delas. Agora mesmo ele está com uma
ocupada por uma pantera negra, uma
fera de olhos amarelados. Um cara com
ela correndo atrás é até mesmo capaz de
quebrar o recorde mundial de corrida de
Jesus Owens.
— Nada de panteras! — protestou o
Velho, agitado. — É uma ordem!
Panteras, não!
— Por que não? — perguntou Porta,
intrigado. — A gente pode se divertir à
beça com um bichinho como esse.
— Você deve estar louco —
interveio Barcelona, colocando-se a
favor do Velho. — Já pensou no que
esses bichos comem?
— Comem gente — admitiu Tiny,
brincalhão. — Conheço muita gente que
não me importava de dar à pantera negra
para alimentá-la.
— Tempestade num copo d'água —
observou o jovem Legionário, friamente.
— Por que não comprar a jaula sem
a pantera?
— O cara tem também jaulas para
execução, iguais à que usaram para o
judeu Süss — explicou Tiny. — O
sujeito leva uma laçada em volta do
pescoço, fica de pé no chão da jaula e a
corda é amarrada lá em cima. Aí
desprendem o chão e ele vai caindo até
que a corda estica toda, ele leva aquela
puxada violenta e fica de pescoço
quebrado.
— Não vejo como nós pudéssemos
usar isso — disse Porta, esforçando-se
para compreender. — Não queremos
executar os lutadores.
— Às vezes você emburrece —
replicou Tiny com impaciência. — Não
se vai passar corda nenhuma no pescoço
deles. A gente apenas pendura as jaulas
com eles dentro. Assim ninguém pode
falar com eles e passar a perna na gente.
Logo que soe o gongo, nós abrimos o
fundo das jaulas, os dois merdas caem
no ringue e começam a pancadaria.
— Pode ser uma boa ideia —
admitiu Porta. — Uma novidade em
matéria de luta: dois pesos-pesados
caindo do céu!
O mecânico-chefe Wolf pegou um
charuto e fez funcionar o acendedor
dourado com um discreto estalido.
Manteve o charuto entre o polegar e o
indicador da mão esquerda e deu
algumas boas tragadas, soltando depois
a fumaça sobre a mesa.
— Vamos comprar a jaula com
pantera e tudo — disse ele, com
determinação — mas só no caso de se
conseguir uma outra inteiramente igual.
Botamos o alemão numa jaula, o russo
na outra.
— E que fazemos com a pantera? —
perguntou o Velho, pensando com temor
em outros animais que o Número 2
pegara à força.
— Certamente a gente encontra um
uso para ela — respondeu Porta rindo e
pegando um dos charutos de Wolf sem
consultá-lo.
— Não quero ela dentro do tanque
— disse o Velho, resoluto, percebendo,
muito tarde, que praticamente já havia
cedido.
— Não, não é possível. Só se tirar a
metade da torre — interveio Tiny, rindo
ruidosamente. — Eu vi o bicho. Mesmo
sendo ainda filhote, que não sabe
morder direito, quando aprender vai ser
fogo na roupa.
Já era bastante tarde quando
paramos e fomos ver a tal casa dos
animais.
Tiny se apaixonou por um velho
gorila que imitava toda espécie de
gargalhada e bebia cerveja feito gente.
Mas o dono não o vendia de jeito algum.
Ele o considerava como um membro da
família, quase um irmão.
— Para que vão querer as jaulas? —
perguntou o homem, intrigado, quando o
negócio foi fechado e começamos a
levar as jaulas para fora.
— Vamos iniciar um tráfico de
escravos — disse Porta baixinho, ao
ouvido dele — mas não diga a ninguém.
— Mas agora? — espantou-se o
vendedor de bichos, arregalando os
olhos. — E isso dá dinheiro?
Que bicho mais esquisito, pensou
Porta, espiando pela grade da jaula da
pantera. Pernas compridas demais e pés
enormes.
— Esta ainda é filhote — observou
o dono. — Não tem mais de oito meses.
— No entanto parece que não se
importaria se pudesse mastigar minha
mão — disse Porta, dando um pulo para
trás enquanto uma garra peluda, com
unhas que pareciam facas recurvadas,
batia contra as grades.
— Não tenha medo — acudiu o
dono. acalmando-o. — Ela é muito fácil
de ser levada. Ponha um pedaço de
carne em sua frente e ela. esquece tudo o
mais.
Ainda tem um pouco de medo de
gente, mas é só esperar alguns meses. A
pantera negra é conhecida como
atacando sempre qualquer coisa ou
qualquer pessoa que esteja por perto. E
mais perigosa do que dez homens da
Gestapo armados de metralhadora.
Por volta da meia-noite, gritos e
roncos altos se faziam ouvir no caminho
para o barracão. Cabeças curiosas
espreitaram das portas, mas não por
muito tempo. As portas se fecharam
precipitadamente quando Tiny apareceu
trazendo a jaula com a pantera lá dentro
fazendo o diabo.
Praguejando em altas vozes, ele
arrastou e empurrou a jaula para dentro
da sala de Wolf, desarrumando móveis,
caixas e sacos e finalmente levando-a
para um compartimento vazio, ali atrás.
Pegou um pernil inteiro que estava
pendurado num gancho e empurrou pelas
grades da jaula. Depois trancou a porta.
— Um bicho desses pode realmente
ser um sucesso — disse Porta, com
admiração, ao mesmo tempo que tratava
dos inúmeros e profundos arranhões no
corpo de Tiny. — E por enquanto ela
está levando tudo apenas na brincadeira.
Eu quero ver é quando ela crescer e
perceber para que lhe deram dentes e
unhas afiadas.
— No momento não é tão perigosa
— disse Tiny, esforçando-se para abrir
um olho que o último ataque da pantera
fechara completamente.
— Só vai trazer problemas — disse
o Velho, contrariado. — O Coronel
Hinka vai dar pulos quando souber de
tudo. Desde que tivemos aquele urso ele
proibiu animais de qualquer espécie.
Antes de sairmos, Tiny jogou dentro
da jaula um bom pedaço de carne
partida. A pantera acompanhava seus
movimentos com .olhos cobiçosos. Duas
enormes patas apanharam a carne no ar e
de uma só bocada ela sumiu goela
abaixo.
— Jesus! — gritou Tiny, encantado.
— Viu? Imagina quando lhe dermos
gente!
A última prancha ainda não estava
pregada quando os aficionados
começaram a se amontoar no barracão.
O ambiente era. De animação. Os
maníacos do esporte começaram a
discutir entre si ou com outras pessoas
que não podiam estar menos
interessadas do que eles. Os patriotas
alemães gritavam “Heil”! O pessoal da
Renânia assoviava com os dedos
enfiados na boca, à moda dos franceses.
Uma unidade da Polícia Militar, sem
o provocante capacete de aço, fazia os
maiores esforços para manter a multidão
em ordem. Mas o pau comeu quando um
2º tenente do Tirol empurrou uma
salsicha coberta de ketchup e mostarda
na cara de um policial e chamou-o de
“turbulento suíno prussiano”.
A confusão melhorou um pouco
quando soou o gongo e começou o
primeiro assalto da primeira luta. Era
entre um macilento e pequeno búlgaro e
um mal-encarado e duro alemão da
Westphalia. A luta terminou no segundo
assalto. Venceu o alemão, por nocaute
previamente decidido por Porta e Wolf.
Quando terminaram o segundo e o
terceiro combates, com a vitória das
cores nacionais, parecia que a ruidosa
euforia patriótica não terminaria mais. E
quando a quarta luta deu também
Alemanha, eles deliraram e começaram
a cantar as canções patrióticas clássicas
Deutschland, Deutschland Über alles e
Wacht am Rhein. Abraçavam-se,
tomavam posição de sentido e gritavam;
“Alemanha eterna!”
— Deve ter sido assim quando
voltaram da França em 1871 — disse o
Velho. — Deus nos proteja. Eles estão
empedernidos, pasmosamente loucos!
A quinta luta foi entre um grego,
Konstantino, que era o campeão dos
meio-pesados de sua aldeia, e um
austríaco de Salzburgo chamado
Rudolph, que parecia fazer jus ao nome.
— Quer rezar antes de morrer? —
perguntou o grego com um riso perverso.
— Você não pode aceitar isso —
vociferou o 1º Tesoureiro Saul, do QG
do Corpo.
— Achata ele! — gritou o italiano
Alpinos lá da última fila, esquecido de
que os gregos eram os seus tradicionais
inimigos.
Com um rosnar animalesco, o
austríaco avançou para o grego e
martelou-o com o punho fechado, logo
abaixo da cintura. Um perigosíssimo
golpe baixo que deveria pôr um lutador
fora de combate imediatamente. O grego
pareceu não sentir absolutamente nada.
Ele acertou uma marrada no rosto de
Rudolph, outra falta grave. Ao mesmo
tempo deu-lhe uma rasteira, e esta falta
pôs o juiz em cena com uma feroz
gesticulação. O grego ainda tentou dar
no outro uma esquerda, uma direita e um
hook, antes que o austríaco se
levantasse. A multidão exigia a
continuação da luta, o que acabou sendo
feito. O austríaco venceu por nocaute no
18º assalto.
— Isso faz com que essa desgraçada
guerra mundial valha a pena — gritou
Albert, juntando-se ao júbilo ruidoso da
multidão deliciada, a despeito do fato de
que ele não costumava ir muito com
austríacos.
— Espere então pela luta principal
— disse Wolf, acendendo um charuto
brasileiro com a habitual classe.
O barracão do material bélico
estava com uma lotação três vezes maior
do que a que ele poderia comportar,
fossem quais fossem os cálculos. Todos
vinham de longe e de diferentes partes,
gastando-se nas conduções uma enorme
quantidade de petróleo, muito
necessário nas operações de guerra. Os
homens sentavam-se em vigas altas,
abaixo do teto, equilibrando-se como
galinhas em poleiro. E continuavam
chegando. Os apostadores empurravam-
se, apertavam-se, quase sem fôlego,
disputando a entrada no pequeno espaço
em que Porta e Wolf registravam as
apostas. Através da pequena abertura,
eles só viam mãos que lhes passavam
dinheiro, mãos agarrando os
comprovantes das apostas feitas. Eram
mãos de todos os feitios e tamanhos.
Mãos gordas, mãos magras, mãos
pálidas, mãos morenas, mãos limpas,
mãos sujas.
Todos os olhos estavam pregados
nas duas jaulas que pendiam,
balançando, lá do alto, sob o teto.
Ouviu-se um burburinho, parecendo
interminável, quando as portas do fundo
das jaulas se abriram e os dois lutadores
caíram de quase uns quatro metros sobre
o tablado, com uma pancada seca.
O russo caucasiano foi o primeiro a
ficar de pé e levantou sobre a cabeça um
par de punhos que mais pareciam
clavas. O alemão, peludo como um
macaco, deu volta pelo ringue com as
mãos caídas abaixo dos joelhos. Parecia
mesmo um macaco gingando para um e
outro lado, com os nós dos dedos
voltados para o chão. Ele rosnou alto
seu desafio: o russo caucasiano ia ser
nocauteado antes do fim do primeiro
assalto.
A boca do caucasiano abriu-se
completamente num riso animalesco. Ele
passou a mão espalmada contra a
garganta e, sem palavras, mostrou a
todos o que pretendia fazer com o
alemão. Um frenético rumor levantou-se
do meio da massa. Várias filas de
cadeiras quebraram-se sob a ação
conjunta dos pés dos espectadores.
O gongo soou e os dois monstros
partiram um contra o outro, babando e
espumando. Os punhos de ferro
martelaram os músculos retesados dos
estômagos e estouraram sobre cabeças
igualmente duras, Um uppercut caiu em
cheio. Era para arrancar a cabeça de
qualquer homem normal, mas pareceu
não causar efeito algum no que o
recebeu.
— Gongo do inferno! — resmungou
Barcelona, nervosamente. — Esses dois
idiotas sabem quem deve vencer, não
sabem? Do jeito que vão, parece que
estão querendo um duplo suicídio.
— Calma — disse Wolf rindo,
completamente tranquilo. — Eles não
são burros a ponto de não saberem o que
é melhor para eles. No último minuto é
que o brutamontes de Leipzig cai de uma
vez. Tínhamos de dar ao pessoal alguma
coisa pela grana que gastou ou eles
começariam a imaginar coisas e aí podia
acontecer um troço.
Nos dois primeiros assaltos parecia
que o caucasiano não estava querendo
ser atingido muitas vezes. Combatia
defensivamente e entrava em clinches
para evitar os ataques esmagadores do
alemão. Mas então subitamente, no
terceiro assalto, ele tomou a ofensiva,
avançou e acertou dois socos
fulminantes no estômago do alemão.
A massa prendeu a respiração por
alguns segundos. Aqueles golpes teriam
derrubado um cavalo. Mas o lutador de
Leipzig apenas se sacudiu, como um
cachorro molhado, e riu maldosamente.
Sua esquerda atacou, enquanto o
adversário o perseguia de perto. O soco
foi cair em cheio no nariz do russo, com
um som abafado e impressionante. Eles
passaram a rodear um ao outro,
cuspindo e respirando ruidosamente
pelo nariz. Um murro atingiu a fronte do
alemão, abrindo-lhe o supercílio. O
sangue correu-lhe pelo rosto. Os lábios
incharam. O rosto parecia paralisado
parcialmente.
— Santa Maria! — suspirou Gregor,
os olhos arregalados. — É o mesmo que
esmurrar um touro com as mãos nuas.
— Um touro não aguentaria isso! —
disse Porta, metendo, pensativo, os
dentes numa salsicha que arrancara das
mãos de um bávaro empolgado pela
cena de violência inaudita.
O caucasiano começou a procurar
um impacto no rosto do outro, mas isso
não preocupou o alemão. Ele se
esquivava bem, fazendo com que os
socos passagem rente ao alto da cabeça,
e reagia com uma perigosa esquerda.
Tudo indicava que ele pretendia abrir a
guarda do nisso com a sua esquerda, e
alguns hooks acertaram em cheio. Para
estupefação da assistência, o caucasiano
limitou-se a dar um grunhido,
continuando sua dança em torno do
ringue.
— Mata ele! Acaba com essa fera
miserável! — berravam os fiéis
partidários do alemão, batendo seus
capacetes de aço estanhado uns contra
os outros. — Esmaga ele no chão de
onde veio!
O 6º Regimento de Cavalaria da
Westphalia virava-se contra o 5º
Regimento Blindado prussiano,
berrando em uníssono: — Miseráveis
comedores de salsicha! Porcos!
A batalha oral entre os dois
regimentos variava de intensidade de um
a outro lado no grande depósito de
material de artilharia. O barulho podia
ser ouvido a quilômetros de distância.
Os bávaros do 8º Blindado e o 116º
de Infantaria tomaram partido e
empenharam-se alegremente na briga.
Policiais, com os cassetetes em riste,
surgiram aos montes pelas diversas
entradas e malhavam
indiscriminadamente as cabeças da
multidão exaltada.
— Morra a Alemanha! — berrava
Tiny como um fanático, trepado em um
barril de cerveja.
— Ei! Você aí, canibal! — gritou um
bávaro, arremessando sobre Albert uma
caixa vazia que o jogou para fora da
mesa na qual estava sentado.
— Seu porcaria! — rosnou Tiny,
levantando um dos policiais acima de
sua cabeça.
— Você está preso! — gritava o
policial, desesperado, dando pontapés
no ar, um dos quais foi alcançar um
sargento que ficou como se sua cabeça
tivesse sido ensopada de mostarda e
ketchup.
— Em nome do Führer ordeno que
me largue!
— Ordem ouvida e obedecida —
gritou Tiny, arremessando o policial
sobre dois bávaros, que caíram para trás
e saíram escorregando para baixo do
estrado, só se vendo os seus pés
agitando-se freneticamente.
Por fim os PM conseguiram acalmar
suficientemente a multidão para que a
luta pudesse prosseguir. Eles então
retiraram-se e mantiveram-se de
sobreaviso atrás da igreja, onde
apelaram a Deus. para que não fossem
novamente obrigados a entrar naquele
barracão.
— Esse tipo de espetáculo esportivo
não devia ser permitido — disse o
comandante deles, um major já idoso, ao
que todos os homens deram ampla
aprovação com um expressivo gesto de
cabeça.
A luta prosseguiu e era como se os
dois pesados contendores tivessem
enlouquecido de uma vez. Dali por
diante passaram a mostrar um completo
desrespeito às regras do jogo. O alemão
avançou para o caucasiano e deu-lhe um
pontapé no estômago. Em resposta o
alemão levou uma dentada no queixo.
O sangue jorrou sobre o rosto de
ambos os lutadores.
— Jesus e Maria — gritou Tiny,
muito agitado, batendo num barril de
cerveja. — Estão se comendo um ao
outro.
O juiz, um iugoslavo com cara de
rato, tentou separar os dois boxeadores.
De repente ele achou-se imprensado
entre duas sanguinárias montanhas de
músculos. Pareceu que ia ser triturado.
Mas deu um jeito de se livrar e correu
cambaleante para as cordas, onde ficou
pendurado, com os braços caídos para
fora, até que dois assistentes médicos o
levaram ao oficial médico.
Um novo juiz entrou em cena. Falou
seriamente com os dois boxeadores,
agitando o dedo na cara de ambos. Eles
pareciam mostrar que no íntimo o que
gostariam mesmo de fazer era jogá-lo
para tora do ringue contra a massa de
espectadores.
No terceiro assalto, o caucasiano
acertou um soco abaixo da orelha do
alemão. do que resultou ele cambalear e
procurar o clinch. O juiz avançou para
lá, mas antes que pudesse gritar
“Separa!” o alemão havia quebrado o
clinch e partira para o caucasiano com
um ataque que só teve igual na história
do boxe na luta Carnera-Sharkey em
1933.
Houve um silêncio de morte entre a
multidão durante alguns segundos. Em
seguida um barulho infernal tomou conta
do ambiente. Cada espectador batia nas
costas do companheiro ao lado e
berrava de satisfação. Se o vizinho não
concordava, então o pessoal todo
virava-se contra ele, pronto para
esmurrá-lo.
— Hurra! — gritavam os loucos
aficionados nas cadeiras ao lado do
ringue.
O caucasiano baixou a cabeça como
um búfalo prestes a atacar e mandou um
tremendo murro, com toda a sua terrível
força, na região dos rins do alemão. Os
amantes do bom esporte protestaram
naturalmente em altos brados.
O terrível punho esquerdo do
alemão agiu novamente. Mas quando
atingiu o alvo ele soltou um curto grito.
A mão sofrera com o impacto. O ruído
da fratura pôde ser ouvido à volta do
ringue. Um arrepio de horror percorreu
os que perceberam a coisa.
Agora não havia mais dúvida de que
os boxeadores haviam esquecido toda a
combinação que porventura tivesse sido
feita. Eles se atacavam mutuamente
como animais selvagens. Intentos
assassinos estavam expressos em cada
osso do seu corpo. O mecânico-chefe
Wolf mostrou-se nervoso. Tiny e Porta
tiveram de contê-lo à força para que ele
não invadisse o ringue com uma
metralhadora, lembrando-lhe o acordo
que haviam feito.
O rumor da multidão ameaçava
levantar o teto do barracão do material
bélico. Ele devia estar sendo ouvido no
outro lado da frente, a 80 quilômetros
dali.
Os lutadores já não eram mais seres
humanos civilizados. Haviam se tornado
inteiramente irracionais. Seus gritos
teriam feito Tarzan morrer de inveja.
— Nós devíamos ter dado a esse
cara do Cáucaso um par de ferraduras
para ele pôr dentro das luvas —
resmungou Tiny, meio preocupado. —
Assim ele teria certeza de amassar a
cara desse alemão desgraçado.
— Que inferno! — praguejou Porta,
deprimido. — Se esse danado do
alemão nocautear o caucasiano,
estaremos arruinados.
— Ele prometeu — resmungou
Gregor, desanimado. — Ele prometeu
perder.
Alemão safado, mentiroso, como
sempre. Que decepção!
— Jesus! — exclamou o Velho,
aterrorizado, quando o alemão desferiu
um violentíssimo soco que levantou do
chão o caucasiano e lançou-o contra as
cordas.
— Eu corto fora as tetas de tua mãe
e mijo no teu túmulo! Ah! seu alemão de
merda — rosnou Tiny, sacudindo o
punho na direção do lutador germânico.
— Vamos cortar a cabeça doida dele
— propôs Albert, pálido — e mandar
embrulhar para a mulher.
Gregor juntou as mãos e fez uma
oração silenciosa, enquanto o alemão
afundava o punho no plexo solar do
caucasiano. O golpe foi seguido de um
terrível uppercut que pareceu separar a
cabeça do homem dos seus ombros.
— Homem nascido de mulher e
criado à imagem de Deus — gaguejou
Albert, metendo o rosto entre as mãos.
— Não aguento olhar para você, homem.
— Merda, estamos fritos! Pobres
como quando começamos! — murmurou
Barcelona.
— Não podemos permitir isso —
vociferou Wolf, agitado, mascando o
charuto. — Pobre, pobre como o diabo!
Quando se é pobre mijam em cima. É
ser burro, muito burro!
Cadeiras quebravam-se com as
batidas dos pés em cima delas. A massa
gritava, excitada. Os homens abraçaram-
se uns aos outros, esquecendo as
diferenças, quando o alemão disparou
um gancho de esquerda, seguido de um
de direita fulminante, com todo o peso
do corpo reforçando-o, indo abater
sobre o ombro do russo.
— Está tudo acabado — disse
Gregor, em desespero. — Agora vamos
ter mesmo é de viver do dinheirinho
mirrado do Adolf.
Mas eis que a sorte da luta pareceu
mudar, melhorando a situação do
caucasiano. A mão esquerda do alemão
não dava mais nada. Não podia aguentar
a parada. Já estava com o dobro do seu
tamanho normal, de tão inchada. Ele
empregava, tanto quanto possível, a mão
direita e protegia a esquerda. O
caucasiano mudou sua tática. Agora
atacava a garganta do alemão.
— Macanudo! — gritou Barcelona,
alegremente. — Ele vai acabar com esse
alemão de merda.
Porta abriu a boca para dizer alguma
coisa mas calou-se, atraído pelo que se
passava no ringue. O caucasiano atacava
o alemão, que se limitava a evitar o
vendaval de murros rebentando em cima
dele, vindo de todos os ângulos. Ele foi
atirado contra as cordas. Um murro
estourou-lhe na fonte e ele caiu sobre um
joelho. O sangue espirrou do seu nariz.
Estava banhado em sangue. Ao levantar-
se, um vigoroso pontapé jogou-o na
lona.
— Amassa ele! Arranca as tripas
dele! — berrava Tiny com seu vozeirão
de baixo e entupido de cerveja.
O novo juiz avançou, agitando os
braços, mas o que arranjou foi colocar-
se no ponto de destino de um tremendo
pontapé que o mandou voando sobre as
cordas. Os assistentes médicos o
carregaram para o posto de primeiros
socorros atrás da lixeira, onde ainda se
achava o seu colega, em tratamento para
recuperar a respiração normal. Não era
mais uma luta de boxe. Descambara para
uma briga de morte, na qual valia
qualquer sujeira, que o mais violento
filme americano jamais mostrara. Aos
roncos eles entraram novamente em
clinch e caíram ao chão. E rolaram por
todo o ringue, como feixes de músculos
entrelaçados.
O caucasiano soltou um grito de
angústia quando os dentes do alemão
penetraram nos seus testículos.
— Esse cara não vai dar mais nada
— rosnou Porta, desferindo um chute
num barril de cerveja vazio, que rolou
para o meio da área dos espectadores
sem assento, derrubando-os como no
jogo de boliche.
Com um pontapé para cima, seguido
de um murro que se abateu sobre o
pescoço do alemão, o caucasiano
recuperou totalmente os movimentos e
ficou de pé. Por sua vez o alemão já
voltara à forma. Ele deu uma corrida,
aproximando-se do adversário a uma
velocidade que deixaria no chinelo o
campeão mundial da especialidade. E
então mergulhou uma direita bem no
fundo da região media do caucasiano. O
russo respondeu com outra direita, que
pareceu deixar o alemão vergado,
seguida de uma sibilante esquerda que o
teria mandado diretamente para as
regiões celestiais, se acertasse.
Com exceção dos aficionados do
verdadeiro boxe, que não estavam
gostando, a massa fremia ferozmente.
Quebravam-se cadeiras, botas batiam
furiosamente no chão.
— Arranca as orelhas dele! —
gritavam dos lugares mais baixos.
— Jesus e Maria, é a melhor luta
que já vi em toda a minha vida —
gritava Tiny, feliz da vida.
Uma bota descomunal desabou em
cima do joelho do alemão. Ele deu um
berro e caiu. com ambas as mãos
apertando o lugar atingido.
— Vou amassar você! — gritou ele,
já de pé mas com o rosto torcido de dor.
— Faça suas orações, russo do
inferno! Vou te mandar para o cemitério!
Em sua raiva ele parecia ter
esquecido completamente que devia
perder a luta no assalto final.
— Mata ele! — gritava Porta,
agitado, enquanto os dois lutadores,
cada um agarrando o outro, moviam-se
em volta do ringue, empregando, como
se costuma dizer, “tudo a que tinha
direito” em matéria de sujeira.
Os entusiastas do boxe protestavam
veementemente. Não queriam, como
diziam, ver uma boa luta de boxe
transformada em briga de rua. Mas todos
os outros que, como Tiny e Porta,
achavam nunca ter presenciado uma
exibição de boxe tão maravilhosa,
batiam-lhes na cabeça com o que
tivessem à mão.
A luta prosseguia. O barulho
assemelhava-se ao de uma incursão
aérea sobre uma grande cidade
industrial. De repente parou. Era como
se tivéssemos chegado ao tranquilo
vórtice de um tufão. Houve um silêncio
sepulcral. O alemão levantou o
caucasiano, manteve-o por um momento
sobre sua cabeça e arremessou-o à lona.
Ele ali ficou, imóvel.
O 8º Regimento Blindado, em peso,
levantou-se e começou a cantar
solenemente Wacht am Rheín.
— Ah! esses miseráveis patriotas!
— exclamou Porta. — Não estão
sabendo da missa a metade. Não deviam
cantar Wacht AM Rheín e sim Wacht an
der Volga.
O russo já estava de pé novamente e
a luta entrava na fase final. Os patriotas
alemães chegaram ao clímax do seu
entusiasmo quando o seu ídolo preparou
a esquerda para o golpe decisivo. Mas o
caucasiano atacou novamente, como uma
doninha a uma pobre galinha
adormecida.
Ele o chutou no pulso e depois
arriou os dois punhos sobre sua cabeça.
O esqueleto inteiro do alemão soltou
sons de coisas quebradas. A boca do
alemão abriu-se num grito de agonia e
ele inclinou-se para a frente. O terrível
golpe que se seguiu, dado pela mão
direita do caucasiano, atirou-o no ar. Ele
quase deu uma cambalhota e de maneira
inteiramente inexplicável caiu de pé. E
então despejou a mão direita no rosto do
caucasiano. Na raiva se esqueceu da
mão esquerda fraturada e mergulhou-a
com toda a sua força no plexo solar do
adversário.
— Oh! Não! — resmungou Wolf,
vendo seus lucros ameaçarem fugir.
Porta começou a pensar em planos
desesperados de fuga para os russos. Se
o caucasiano perdesse, como parecia
agora bastante provável, não haveria
possibilidade alguma de eles poderem
pagar aos vencedores.
24
Mas o russo não estava ainda
liquidado. Ele pulou sobre o alemão,
que se virou, com a velocidade do raio,
uns 80 graus e desferiu tremendo
pontapé contra os testículos do outro,
errando, porém, o alvo. O caucasiano
esquivou-se e tentou uma arriscada
manobra visando a quebrar o pescoço
do adversário. O alemão percebeu e deu
um pulo alto para o lado. Dali ele
avançou furiosamente e meteu uma
direita no ombro do russo. Este soltou
um urro de vitória ao ver o caminho
inteiramente aberto para a garganta do
alemão. A cabeça deste virou para trás
duas vezes. Era como se tivesse sido
separada da espinha. Com um grito, ele
caiu de joelhos, cuspiu e grunhiu e ficou
com o rosto em brasa.
Lentamente foi tombando para um
lado e pôs para fora tudo o que tinha no
estômago. Com grande dificuldade
conseguiu ajoelhar-se, cuspindo uma
grande quantidade de sangue. Com a
ajuda das cordas conseguiu pôr-se
novamente de pé.
— Agora esse alemão de merda está
mesmo liquidado — rosnou Tiny,
deliciado. — Só falta o vizinho lhe dar
mais um e pronto!
Mas Tiny se enganara. O alemão não
estava liquidado. Depois que os seus
segundos lhe derramaram em cima
alguns jarros d’água, ele retornou mais
uma vez, martelando o caucasiano como
um alce enlouquecido que foi afastado
das fêmeas. O caucasiano despejou-lhe
tremendo murro na garganta, pegando em
cheio a laringe. O alemão foi atirado
para trás contra as cordas, amassando a
sua banqueta e uma jarra d'água.
O caucasiano percorreu o ringue
com as mãos acima da cabeça. De vez
em quando dava um chute no alemão,
que jazia esticado no ringue como se
fora crucificado.
A multidão delirou. Um 2º tenente
bávaro correu em direção às cadeiras
próximas ao ringue, girando um saco
sobre a cabeça.
No que viu o mecânico-chefe Wolf,
com o seu uniforme bem talhado. ele lhe
jogou em cima, bem no rosto, o saco,
que se abriu, espalhando pelo ar tomates
amassados, sabugos de milho, pedaços
de pato assado e muitas outras coisas.
Um gordo 3º sargento do Serviço
Aéreo de Suprimento veio gritando do
lado das cadeiras baratas com uma bota
puxada pelo cordão e caída atrás dele.
Queria seu dinheiro de volta. A luta
tinha sido uma farsa, reclamava.
Porta fazia o sinal da vitória com o
dedo médio e o indicador.
— O que está feito está feito! —
gritou ele, enfiando os dedos nos olhos
do insistente 3º sargento.
— Viva a Grande Alemanha! —
gritou um 1º sargento do 8º Regimento
Blindado e derramou um balde grande e
preto na cabeça de um inspetor da
Polícia Militar. O conteúdo malcheiroso
respingou em seu próprio rosto.
— Bom Deus Todo-Poderoso! —
gritou Porta, pulando para um lado. — O
que está aí dentro pode matar uma
pessoa mais depressa do que uma
farmácia inteira.
Logo depois os bávaros começaram
a usar como mísseis os talharins e
chouriços que tinham trazido para seu
lanche. Em poucos minutos o barracão
apresentava o aspecto de uma cozinha
de campanha destruída. Um enorme
sanduíche de queijo com cebola
arrebentou-se como uma granada, contra
a parede, pertinho do Velho.
Um pedaço de linguiça desceu
voando sobre nós. Porta desviou-se e
ele foi bater no rosto de Tiny com uma
pancada forte.
Porta virou-se para ver de onde
tinha vindo e levou com um grande peixe
na nuca. A cabeça do peixe separou-se e
foi entrar na boca aberta de Gregor,
quase asfixiando-o.
Porta correu atrás de um pequeno
artilheiro para dar-lhe um chute, porém
errou o alvo e caiu de costas. O
artilheiro apanhou um salame e
esfregou-o na cara de Porta, que se pôs
de pé, passou-lhe uma rasteira e fô-lo
sair cambaleando.
Tiny salvou Albert no exato
momento de ser estrangulado por dois
sujeitos da Renânia.
— A pantera! — gritou Porta. —
Alguém deve soltá-la. Ela vai mostrar a
essa gente o que é bom!
Com um incessante roncar de meter
medo, a pantera foi trazida por Tiny para
dentro do barracão. A fera sentiu o
cheiro de alimento. Seu rabo começou a
agitar-se de um lado para outro. E ela
mostrava as compridas presas.
— Jesus Cristo! — gritou Tiny, numa
ansiosa expectativa. — Começou a
insana! Vai lá, Ulrich, pode pegar eles
todos!
— Velho nas mais das vezes é
melhor quando morto — gritou Porta, ao
tempo em que atirava uma prancha sobre
um idoso subtenente das Oficinas
Divisionárias.
A pantera soltou um rugido atroador
e preparou-se para pular.
— Nããão! — berrou um sargento
artilheiro, aterrorizado, agitando uma
garrafa quebrada, acima da cabeça,
estatelado, com olhos rolando, diante da
boca aberta da pantera e suas pernas
arriaram. Ela acocorou-se sobre a parte
traseira e ficou medindo a distância para
o longo balcão que estava atulhado de
salame, salsicha, peixe, linguiça e
chucrute.
Dois vivos policiais, com o
emblema da meia-lua no peito, pararam
horrorizados quando a pantera se lançou
no ar como uma flecha negra, caiu sobre
o balcão com uma pancada surda e
escorregou na massa de comidas
espalhadas. Ela começou a comer como
se se estivesse preparando para dez
anos de jejum. Um dos policiais atirou
fora o capacete e mergulhou para o chão
num monte de linguiça, O outro, cujo
apelido era Quebra-Ovos, isso por
causa do seu método favorito de
interrogar, ficou estatelado, com olhos
rolando, diante da boca aberta da
pantera e sentindo o calor do seu bafo.
Tremendo de medo, ele rolou para trás
do balcão e se meteu à força sob uma
prateleira onde normalmente só haveria
espaço para uma criança de dez anos e
nunca para um homenzarrão de uns cem
quilos.
Ulrich olhava para baixo com
curiosidade. Estaria imaginando se ela
própria caberia debaixo daquela
prateleira.
— Meu Führer, me salva! — gritava
Quebra-Ovos, completamente indefeso.
Os olhos amarelados da pantera
luziam na meia claridade. Com um
rugido de alegria, ela esticou uma pata
enorme e começou a “acariciar”
arteiramente o aterrorizado Quebra-
Ovos, que já não .aguentava mais.
— Ela vai me devorar! — berrava
ele.
Com um ganido prolongado e
profundo, quase choramingando, ele
rolou para fora da prateleira e rastejou
rapidamente pelo chão imundo,
escorregando na grossa camada de
restos de comida que o cobria.
Mas Ulrich imaginou que o que o
homem queria era brincar. E então, feliz
da vida, deu um pulo acrobático e foi
cair, com todo o seu peso brutal, nas
costas do aterrorizado policial, dando-
lhe ainda uma “pancadinha” amiga com
a pata. O policial deu um prolongado
grito de terror e virou-se de costas,
agitando os braços e as pernas. Ulrich
estava se divertindo um bocado. Mordia
o pé do policial, com espírito
brincalhão, dava-lhe tapinhas no ombro.
A túnica do uniforme dele já era um
frangalho. O homem espiou para dentro
da boca aberta de Ulrich e lá estavam as
terríveis presas. Foi a última coisa que
ele viu neste mundo.
— Colapso — disse o médico que
examinou o corpo.
— Duas vodcas grandes e uma
garrafa de vinho tinto para rebatê-las —
disse Porta, em atitude de provocação,
quando chegou ruidosamente ao
Natascha’s.
— Você não tem crédito aqui —
gritou a dona da casa, Ana, apelidada
isca, defendendo as garrafas.
— Crédito? — respondeu Porta com
uma risada e tirando do bolso um
punhado de notas. — Eu posso até
comprar o estabelecimento, se você
quiser.
Os olhos de Ana esbugalharam-se e
ela passou a se mostrar bastante
amistosa.
— Quer conhecer o meu gatinho? —
perguntou a Tiny, enchendo-lhe
liberalmente o copo.
— Não estou interessado —
respondeu Tiny, torcendo o nariz. —
Certamente todo encarquilhado e com
cara de velho.
— Não quero confusões por aqui! —
alertou Tambor, que era em verdade um
2º sargento da Segurança, escalado para
o bordel a fim de manter a ordem ali. O
apelido de Tambor era devido a ele
tocar tambor antes da guerra, no clube
noturno O Lobo Amarelo, de Leipzig.
— Você bem que podia ficar calado
— disse o Velho, com um soluço bem
dentro do seu copo de vodca.
Tambor ficou todo vermelho e
protestou veementemente.
— Já lhe disse para calar a boca! —
repetiu o Velho, desdenhosamente. — Eu
sou um primeiro-sargento, uma estrela
mais do que você!
— Que que isto tem a ver com
estrelas? — gritou Tambor, com uma voz
efeminada. — Vocês todos vão proceder
como eu disser.
— Será que ele já teve relações
sexuais com a própria mãe? — disse
Porta, rindo ruidosamente.
— Mandaram-no para a guerra
porque a irmã tinha medo dele —
acrescentou Tiny, rindo-se a valer da
própria graça.
— Agora vamos todos ficar
bonzinhos uns com os outros -—
interveio Ana. — Seria muito
desagradável ter de pô-los fora daqui.
— Por que não experimenta? Agora,
já! — gritou Barcelona, jogando uma
cadeira no chão em atitude de desafio,
na frente de Tambor.
— Como é que você ficou preto
assim? — perguntou Boneca do
Danúbio, uma garota vinda extraditada
da Romênia, insinuando-se para Albert.
— Ele é preto porque é um negro
prussiano — explicou Tiny, com os
lábios quase fechados, a maneira de
Humphrey Bogart.
Tiny era fanático admirador de
Humphrey e dava a vida para imitá-lo,
Uma vez levaram na frente de batalha
um filme no qual Bogart empurrava duas
senhoras de cadeiras de rodas por uma
escada abaixo e depois cortava a
garganta delas. Ele se entusiasmou tanto
com esse filme que ficou por ali e o
assistiu mais três vezes. No dia seguinte
ficou três horas numa fila para garantir o
primeiro lugar na distribuição das
entradas.
–— Você é uma coisinha adorável
— disse Tiny, carinhosamente,
postando-se como um idiota na frente de
uma rapariga alta e elegante sentada
numa banqueta do bar, exibindo um par
de pernas memorável. Tiny inclinou-se
para ela e disse, num moderado rugido
de leão, que pensava ser um sussurro:
— Gostaria muito de sentir você
pertinho. E você podia brincar um pouco
comigo.
— Fazendo-se de engraçado? —
respondeu ela com voz áspera, pondo
nos lábios vermelhos quase um metro de
cigarreira.
Tiny lastimou-se, sem perder o
humor, e correu um dedo não muito
limpo para cima e para baixo na perna
nua.
— Não vá muito longe agora,
grandalhão — reagiu ela, sensualmente,
batendo-lhe na mão. — Não sou fã de
Frankenstein nem dos seus descendentes.
Lembre-se disso, soldado!
— Primeiro-sargento, me faça o
favor — corrigiu Tiny. — A espinha
dorsal do Exercito. Não se esqueça
disso, minha senhora.
— A extremidade de baixo, não é?
— respondeu ela, sorrindo
ironicamente, doce como açúcar.
— Como posso saber? — rosnou
Tiny, disfarçando.
Ele riu baixo, satisfeito, beliscou-lhe
o peito e lhe deu uma palmada nas
costas. Ela soltou um gritinho de dor.
Porta dissera a ele que quando as
mulheres se defendem é porque querem
justamente o contrario.
— A senhora e eu vamos jogar um
joguinho legal — insistiu Tiny,
explicando-se melhor com o gesto
universal para o tal “joguinho”.
— Nunca entro em casa de macaco
— respondeu ela, empurrando-o pelo
peito com ambas as mãos.
— Que quer dizer com macaco? —
perguntou ele rindo. — Uma vez que a
gente enrosque as pernas um no outro,
você nem se lembra mais de macacos.
— Arrastou-a com firmeza para a pista
de dança, onde o trio havia iniciado com
um número musical excitantemente
animado.
— Ai, meus pés! — resmungou a
mulher.
— Fique em cima dos meus —
sugeriu ele. — E o melhor meio de
aprender a dançar. Sabe, eu aprendi no
Lausen, em Hamburgo.
— Aposto que as ambulâncias
estavam de prontidão lá fora — caçoou
ela.
— Não, no Lausen não é permitido
brigar — explicou Tiny, agressivamente.
— Você quer se referir ao Lanterna
Vermelha, na Davidstrasse. Todas as
noites uma dentadura voa de lá.
Ela deu um grito agudo quando Tiny
executou um passo que ele pensou ser de
tango e deu nela um pontapé acima do
joelho com a sua descomunal bota
ferrada.
— Onde é que está o cavalo que me
escoiceou? — ironizou a mulher,
esfregando a perna dolorida.
— Podemos subir? — sugeriu Tiny
com um riso expressivo.
— Para quê? — perguntou ela,
procurando livrar-se das mãos que a
agarravam.
— Não fique protelando isso por
mais tempo — disse ele
ameaçadoramente, fazendo-a rodar em
volta de si e tentando um ,passo em que
ela girava como um pião, tal como ele
vira dançarinos profissionais executar
em filmes.
A mulher resmungou alto quando deu
com a cabeça numa cadeira.
— Como é? Não se vai la para cima
para uma rodada valendo tudo? —
perguntou Albert, que passou dançando
com uma garota cuja altura não passava
do seu umbigo.
— Não vamos demorar —
respondeu Tiny, fazendo sua
companheira rodar tanto que acabou
caindo e batendo com a testa no chão.
Ela nem cogitou de lhe pedir auxílio.
Porta passou dançando com tanta
rapidez que os dois foram sugados no
vácuo deixado.
— Que foi isso? — perguntou ela,
dirigindo-se a Porta.
Ele parecia um furacão sobre a pista
de dança, volteando desabaladamente
com uma respeitável matrona conhecida
como Petúnia, a Porca, por causa da
gordura descomunal e da semelhança da
boca com um focinho de porco.
— Não estou mais com vontade de
dançar — disse a rapariga, dirigindo-se
ao bar. De propósito ela foi sentar-se no
outro lado do balcão para ficar longe de
Tiny, e pediu três aspirinas.
— De onde você é? — rosnou Tiny,
do outro extremo.
— Moscou — respondeu, friamente.
— Muitas prostitutas por lá? —
perguntou Tiny.
— Suíno — respondeu ela, de cara
amarrada.
— Como é, vocês dois não querem
ir lã em cima bebericar conosco e juntar
nossas coisas? — perguntou Porta, sem
rebuço, ao passar acompanhado pela sua
matrona suave e gorducha.
— Vocês dois serão por acaso os
precursores da cultura germânica? —
perguntou a rapariga alta, com um riso
de escárnio.
— Você agora acertou na mosca —
respondeu Tiny com orgulho, enchendo o
peito com tal exagero que as costuras do
uniforme já ameaçavam despregar. —
Com o tempo vocês vão aprender
conosco a não limpar a bunda com areia,
como fazem agora. Vão passar a usar
papel. como nos ocidentais, Agora
vamos parar com esse papo e subir as
escadas para mostrarmos a vocês como
é que um povo culto dá suas trepadas.
— Você não vai oferecer uma
biritinha para a sua pequena? —
perguntou Petúnia a Porta, com um
sorriso de falsidade.
— Rum da Crimeia com laranja —
pediu ele, batendo delicadamente no
balcão.
O boato de que tínhamos dinheiro
correu rápido. Muito dinheiro. De
repente vimo-nos cercados de mulheres
interesseiras. Duas raparigas que no
momento dançavam urna com a outra
lançaram sobre Wolf uns olhos ternos,
convidativos e ambiciosos. Ele se
colocara meio sentado meio deitado
numa banqueta especial do bar, com
encosto móvel.
— Você parece querer mais alguma
coisa do que simplesmente beber —
disse melosamente uma das raparigas,
esfregando o corpo, como uma gata,
para cima e para baixo num lado dele.
— Acho que não estarei errando se
pensar que você quer trepar.
— É isso por acaso o que chamam
de cantada na União Soviética? —
perguntou Wolf, rindo e enfiando um
dedo entre as coxas dela. — Ué! Está
ficando careca? — perguntou, surpreso,
levantando-lhe a saia.
— Fiz a barba, queridinho, um efeito
especial. Normalmente custa dez por
cento a mais, mas você é tão bonito que
não vou cobrar extra. Quinhentos pela
noite. Que acha? À francesa, à alemã, à
sueca, tudo! Mas à japonesa é mais
duzentos.
— É o último preço? — perguntou
Wolf, metendo mais a mão para
examiná-la melhor.
Acabaram concordando em 400 e
assim desapareceram pela porta com a
placa PARTICULAR.
Alguns minutos mais tarde Wolf
botou a cabeça para fora da porta e
assobiou chamando seus cachorros. E
eles lá se foram atrás dele, latindo,
felizes da vida.
— Será que os cachorros também
vão trepar nela? — perguntou Tiny,
bocejando.
— É bem provável — disse Porta.
— Wolf é terrivelmente atencioso com
animais.
Alguém começou a meter a mão
magra, com unhas pintadas de verde,
pelo meio das coxas de Gregor, e ali
ficou esfregando-as. A mão ia abrindo
caminho por dentro das calças, de
maneira tal que revelava longa prática
no assunto.
— Eu podia afiar a sua espada. Você
teria a sensação de estar flutuando no
céu — disse ela, seduzindo-o. — Sou
boa na Cama!
Gregor dava risadinhas, deliciado.
— Então vamos subir e resolver
isso.
— Primeiro uma dancinha para
esquentar — disse ela com um risinho,
puxando-o para a pista de dança.
Logo depois os dois desapareceram
pela porta marcada PARTICULAR.
Albert, que ainda conservava certa
timidez, cacarejou ,como um papagaio
embriagado quando uma rapariga de
olhos oblíquos e negros e positivamente
profissionais pegou sua mão e dirigiu-a
delicadamente para o meio das coxas
dela.
— Você é maravilhoso, meu negro
querido — suspirou ela, torcendo os
quadris e esfregando-se contra a mão
dele. — Venha comigo, soldadinho —
disse ela. — Vamos trepar, de modo que
você não saia por aí e leve um tiro
desses malvados do Exercito Vermelho
sem ter dado uma boa trepada antes.
Você é o meu primeiro canibal —
continuou ela, já atravessando a sala em
direção a porta assinalada
PARTICULAR. — Vou me entregar a
você pela metade do preço, mas você
promete não me devorar, que não sou
comida.
Mal voltávamos ao bar quando um
repentino rugido de animal, seguido de
outros, fez parar a música e calar os
presentes.
— Ulrich! — gritou Porta,
amedrontado, largando Petúnia, que caiu
ao chão com um ruído surdo.
— Oh, diabo! — resmungou
Barcelona, esvaziando de um trago um
copo de Krazisom, uma bebida que se
pode tomar quando não se tem o paladar
apurado para bebidas nobres e se esta
com o sentido do olfato reduzido ao
mínimo.
Albert, que saboreava o seu prato
predileto, peixe ligeiramente ácido,
quase se esqueceu da comida ao dar
com o comprido e negro feixe de
músculos e nervos encurvado à altura da
porta, aprontando-se para saltar.
O engraxate mongol, que caprichava
no polimento das botas de montar de
Wolf, feitas a mão por Rosseli, de
Roma, desmatou após duas profundas
inspirações quando olhou dentro dos
olhos da pantera e ela perversamente
rangeu os dentes.
De trás da porta marcada
PARTICULAR vinham pungentes gritos
de terror. Todos olharam para cima,
esquecendo momentaneamente a pantera.
— Assassino! Assassino! — gritava
a garota alta e esbelta, correndo, com
Tiny em sua perseguição, aos berros.
Ele estava completamente nu e agitando
no ar uma cadeira.
— Pare aí, seu veado nojento! Vou
arrancar essa piroca inútil — berrava
Tiny, fora de si, de raiva.
— Pobre coitado! — gritou o
Legionário, rindo gostosamente. — Foi
arranjar um travesti.
— Toma! — rosnou Tiny, atirando a
cadeira atrás do aterrorizado travesti. —
Quinhentos mangos, ele cobrou, e só
para sustentar essa vergonheira!
25
O travesti estava tão apavorado que
nem notou a pantera agachada e
rosnando na porta. Passou por ela como
uma bala e bateu a porta atrás de si,
apertando o rabo da pantera, que estava
no caminho. Ela lançou no ar um uivo de
dor que fez o salão esvaziar-se em
segundos e ficou rodando e urrando
ferozmente na porta. Com o pelo todo
eriçado nas costas, a fera estirou os
músculos, preparando-se para a ação.
De um salto magistral alcançou o bar.
Sua respiração quente sobre a nuca
da Boneca do Danúbio fê-la cair, dando
um grito estranho e metendo o rosto,
exageradamente pintado, numa travessa
de peixe quente. As pessoas que se
achavam de pé no bar atiravam nela tudo
o que tinham à mão. Um leitãozinho
assado entrou pela goela da pantera de
uma só vez. Ulrich passeou ao longo do
bar e esticou uma pata negra na direção
de um prato de macarrão e rim. De
passagem, ela deu no Carlo das
Granadas, do depósito de munições, um
tapa no ombro que fez a sua dentadura,
fornecida pelo Exército, voar longe. Ele
desabou como um castelo de cartas
exposto a vento forte.
O oficial das SS Gernert, da Divisão
T das Forças de Assalto, conhecido pela
sua brutalidade, empurrou o seu prato de
leitão assado para longe dele quando a
pantera veio em sua direção com as
patas abertas. Ele só teve tempo de dar
um grito antes de a pantera vir
pesadamente sobre ele, ficando ali
caído, sem sentidos. A pantera farejou
demoradamente o corpo inerte e depois
atacou os restos do leitão, fazendo um
barulho tão grande com a boca que
qualquer pessoa poderia pensar que o
oficial estava sendo comido.
— Vai haver complicação — disse o
Velho, com um mau pressentimento.
— Seria melhor levá-la para fora
daqui — opinou Barcelona, atirando
para Ulrich um coelho acabado de ser
morto.
O animal deitara-se num largo divã,
depois de ter provocado o esvaziamento
completo do bordel.
— Ela não vai para lugar nenhum —
disse Porta, zangado. — Vai ficar É
aqui!
— Diabo, cara, ela vai nos trazer
incalculáveis problemas — gritou
aborrecido o Velho.
— Os problemas são de vocês —
interveio o mecânico-chefe Wolf. — Eu
nunca vi uma pantera em toda a minha
vida. E na verdade eu nunca nem ouvi
falar de pantera. Anote isto, se é seu
desejo.
— Seu merda nojento — reagiu
Porta, com desdém. — Acho que não
conheço ninguém tão traiçoeiro e falso
como você. Nem mesmo os chineses
aceitariam de você fogos de artifício,
caso tivesse algum.
— Não quero ver minha seção
transformada em jardim zoológico —
gritou o Velho, dando um murro na mesa.
— A pantera Ulrich fica na Seção
Dois — disse Porta, com um gesto
brusco, apontando para o Velho com um
dedo sujo. — Senão, a pantera e eu
vamos embora, e isso você teria de
lamentar.
— Eu dou parte! — gritou o Velho,
furioso.
— Não me faça morrer de rir —
respondeu Porta. — Isso é justamente o
que você não vai fazer. Você sabe bem o
que acontecerá se descobrirem quem é o
responsável por toda essa história da
pantera. Vão cair em cima dele por tudo
o que possa ser, desde exposição ilegal
a assassino e alta traição, ou lá o que
quiserem chamar. Vai ser executado
umas quinze vezes, fora algumas penas
de morte por causa das dúvidas. Ele e a
pantera vão ser dependurados lado a
lado, com o vento agitando os seus
cabelos, um lindo quadro!
Logo no dia seguinte o telefone do
Quartel-General começou a chamar
insistentemente.
— O quê? Você está dizendo uma
pantera? — perguntou o funcionário
chefe, o Subtenente do Estado-Maior
Weingut, vagamente.
— Uma pantera preta, bolas —
gritou o funcionário divisionário,
excitado.
— Você está maluco — disse
Weingut, com um riso curto. — Todas as
nossas Panteras são amarelas ou
cinzentas e têm um motor Maibach na
parte de trás.
— Você não perde por esperar. Vai
ter esse riso idiota tirado de sua cara —
ameaçou o funcionário divisionário,
secamente. — O General von
Hühnersdoif está danado da vida, fulo
de raiva.
Nossa estação telefônica está
congestionada com as chamadas sobre
queixas a respeito de Panteras. Antes de
sabermos o que está se passando. o
marechal de campo virá aqui
pessoalmente para ver o que há.
— Não estou entendendo o que a sua
queixa tem a ver conosco — respondeu
Weingut, despreocupado. — Nossas
Panteras estão onde devem estar. As
únicas pessoas que podem ter queixas a
respeito delas estão lá do outro lado, o
lado do inimigo, e não acredito que
queixas assinadas por Ivan tenham muito
valor.
— Você tem aí uma pantera negra,
que anda fazendo mal ao coração das
pessoas e até lesões cerebrais. O
general exige uma investigação. Uma
completa investigação. Tome nota. meu
caro amigo estúpido como um porco.
— Por que você não se gruda ao
médico e tira essas coisas da cabeça?
— respondeu Weingut em tom paternal.
— Aqui no Vigésimo Sétimo Regimento
Blindado não tem ninguém tão pobre de
espírito que vá ficar andando por ai com
um troço tão perigoso como uma pantera
negra, Você sabe que elas comem gente,
ou não sabe?
Meia hora depois, quem estava ao
telefone era o ajudante divisionário.
— Que negócio é esse de vocês
terem aí uma pantera negra? —
perguntou ele ao ajudante do Regimento,
um jovem tenente sem experiência
alguma, recém-chegado do depósito. —
Aqui na Divisão estão correndo os mais
absurdos boatos.
— Que cor é a Pantera? —
perguntou o ajudante regimental,
ingenuamente. — Aqui não tem nenhuma
Pantera negra.
— Diabo, homem, não estou falando
de tanques — tornou o divisionário,
chiando como motor superaquecido. —
Trata-se de uma espécie de gato, grande,
enorme, um verdadeiro gato selvagem,
que come policiais aos montes. Você
pode imaginar o oficial comandante do
batalhão da Polícia Militar metido numa
camisa de força, no hospício, depois de
um encontro com a sua maldita pantera
negra?
— Mas, senhor, eu posso assegurar
que nós não temos nenhuma pantera
negra — explicou, num lamento, o
ajudante regimental, servilmente. — Os
únicos animais que existem aqui são
dois cachorrões de caça pertencentes ao
mecânico-chefe Wolf, que estão
perfeitamente legalizados, com licença
do oficial comandante.
— Exploradores de animais — disse
o ajudante divisionário, sem outra
alternativa. — Espere por um inferno de
confusão a esse respeito. Dos corpos já
estão chegando rumores de agitação, e a
população civil da área está toda
reclamando.
— Senhor, não estou entendendo
patavina disso tudo — respondeu o
ajudante regimental, completamente no
ar. — Não sei de nada a respeito de
panteras negras no Regimento Blindado.
Em tudo isso deve haver um lamentável
engano. Por que não consulta o Corpo
Veterinário?
— Você será atendido — respondeu
rindo maliciosamente o ajudante
divisionário e pondo o fone no gancho.
O Tenente-Coronel Hinka estava
fazendo a barba quando o telefone de
linha direta começou a soar
ininterruptamente.
— Hinka — atendeu ele, secamente.
— Hühnersdorf! Que diabo está
acontecendo em seu regimento? —
começou o general de divisão, sem
qualquer espécie de um polido introito.
— O que está acontecendo? —
repetiu Hinka, com certo nervosismo.
— Você é o comandante, não é? Se
você não souber o que se passa quem
diabo vai saber? Mas eu posso informar
a você que o seu pessoal está brincando
com um tipo de animal carnívoro e
amedrontando toda a gente na sua área.
A metade dos meus policiais está no
hospício por causa disso. Se você me
diz que não sabe nada a esse respeito,
Coronel Hinka, então devo dizer-lhe que
você é a única pessoa em todo o Quarto
Exército Blindado que ignora o fato! O
marechal de campo em pessoa está
exigindo um completo esclarecimento do
assunto, dentro de uma hora!
— Tudo isso está me soando como
uma piada maluca, general — respondeu
Hinka, bastante sincero. — Que espécie
de animal carnívoro é essa?
— Já não lhe disse? — rosnou o
general, espumando de raiva. — E uma
pantera, em nome de todos os infernos!
Uma pantera negra chamada Ulrich!
Hinka fechou os olhos e praguejou
consigo mesmo. Já não tinha dúvida
sobre onde encontrar a pantera negra,
Ulrich, e sobre os seus cúmplices
humanos.
Inspirou profundamente duas vezes e
limpou raivosamente a espuma do rosto.
— Dentro de uma hora o senhor
receberá um relatório — disse ele.
— Assim espero, para sua
tranquilidade — sibilou o general. —
Este caso é mais sério do que você
pensa. O marechal de campo quer a
pantera morta a tiros e os culpados
defronte de uma corte marcial. Danem-
se, coronel, a pena tem de ser rigorosa.
Quero o seu relatório dentro de sessenta
minutos!
— Capitão Soost! — chamou Hinka,
com uma voz que ressoou em todo o
Regimento. — Capitão Soost! — repetiu
ele impacientemente, jogando com um
gesto brusco a toalha para um canto.
— Pronto, coronel! — gaguejou
aterrorizado o ajudante, batendo os
calcanhares.
— Procure o diabo desse Porta e
traga-o aqui! — ordenou Hinka.
indignado.
— Porta? — perguntou o ajudante,
que nunca soubera de alguém com esse
nome.
— Diabo, homem! — vociferou
Hinka. — Você não entende nada? É o
Primeiro-Sargento Porta, em nome do
inferno. Número cinco da Segunda
Seção da Quinta Companhia, O patife
tem de se apresentar a mim agora, já,
trazendo com ele uma pantera negra
chamada Ulrich!
O ajudante embarcou num Kübel,
firmemente convencido de que fora cair
dentro de um regimento inteiramente
constituído de malucos.
— Para onde, capitão? — perguntou
o motorista, com um riso aberto, com o
pé para baixo e para cima no acelerador.
— Vamos prender um primeiro-
sargento chamado Ulrich e uma pantera
de nome Porta — gaguejou o ajudante,
inteiramente confuso, acendendo um
cigarro com mão trêmula.
— Então é a Quinta Companhia,
senhor — disse rindo o 1º Sargento
Helmer, partindo como um foguete.
— Dirija com cuidado —
repreendeu o capitão, ajeitando
nervosamente a túnica do uniforme.
— É exatamente o que estou
fazendo, senhor — disse rindo o
Sargento Helmer. Começou a abrir,
contra a norma regulamentar, um grande
embrulho de sanduíche quando pararam
na frente do posto de comando da 5?
Companhia.
O 1º Sargento do Estado-Maior
Hoffmann estava sentado, com seus
ombros largos e sua autoconfiança, atrás
de uma grande secretária que herdara de
um antigo comissário político. Aquela
hora ele ainda usava os seus chinelos
russos de levantar. Bateu continência e
se colocou numa posição que lhe
permitisse esconder do ajudante os seus
sofisticados chinelos vermelhos.
— De ordem do oficial comandante
eu venho prender uma pantera — disse o
ajudante, procurando dar à voz um tom
de severidade. — O nome dela é Ulrich
— acrescentou, depois de um longo e
penoso silêncio.
— Muito bem, senhor — resmungou
Hoffmann, já antevendo problemas de
inacreditáveis dimensões. — Sargento
Müller! — gritou para o mensageiro da
Companhia.
O sargento estava na sala do
arquivo, ao lado, tão perto que bastaria
um sussurro para chamá-lo, sendo
desnecessário gritar.
— Tome jeito, dorminhoco, acorde.
Número dois, diga ao Sargento Porta e à
pantera Ulrich para se apresentarem a
mim imediatamente. Entendeu? Se voltar
sem eles, vai se ver comigo. Vai logo
enfrentar os vizinhos, onde uma morte
heroica está esperando por covardes
como você.
Mais de uma hora se passou até que
Porta aparecesse. Ele entrou na reserva
da Companhia como um furacão e bateu
três vezes os calcanhares: duas para o
ajudante e uma para Hoffmam.
Fez a saudação nazista e disse um
ressoante “Heil” a frente de um retrato
de Hitler, que tomara o lugar de um de
Stalin.
— Chega! — avisou Hoffmann,
lançando-lhe um olhar tão duro que
poderia fazê-lo engolir os dentes.
— Não me é permitido saudar o
Führer? — perguntou Porta, com fingida
surpresa.
— Idiota — rosnou Hoffmann —
não quando ele estiver pendurado aí.
— Então onde é que ele devia ficar
pendurado? — perguntou Porta com um
sorriso.
— Considere-se preso! — rosnou o
ajudante, com voz trêmula. — Você está
preso! — repetiu, apontando
acusatoriamente para Porta.
— Preso? — perguntou Porta, sem
se alterar. — Eu? Por que, senhor?
— Por andar por aí com uma
pantera, ameaçando a vida das pessoas
— gritou o ajudante, que começava a
perder o controle de si mesmo.
— Não é mais permitido a gente ter
animais domésticos no Exército alemão?
— perguntou Porta, candidamente,
batendo três vezes os calcanhares
novamente e fazendo menção de saudar
outra vez o retrato de Hitler, porém
percebendo um olhar fulminante de
Hoffmann e desistindo a tempo.
— Pantera não é animal doméstico
— disse o ajudante, seco.
— Perdão, senhor capitão — tornou
Porta, em sua usual maneira caipira de
falar. — Existe uma grande variedade de
animais de estimação. O Imperador da
Abissínia, por exemplo, tem leões como
animais domésticos, senhor, e na Índia
eles possuem elefantes. Então por que
não posso ter uma pequenina e doce
panterinha comigo?
— Você está preso! — voltou a
gritar o ajudante, com o rosto em brasa.
— Você explicará tudo sobre o seu
animal doméstico a uma corte marcial.
Você e sua pantera vão prestar contas a
um pelotão de execução! Você arruinou
o moral de metade da Wehrmacht!
— Muito bem, senhor — respondeu
Porta, voltando resignadamente os olhos
para o céu. — Com sua licença, senhor,
devo dizer que na qualidade de soldado
alemão eu estou certo, de acordo com o
parágrafo duzentos e nove, subparágrafo
cinco, do Regulamento do Exército, que
diz: Prisão e detenção de pessoal
militar. Resistir a qualquer ordem de
prisão em desacordo com o Código
Penal Militar do Exército da Grande
Alemanha. Peço ao ajudante para
comunicar que o Primeiro-Sargento
Joseph Porta se nega à prisão pelo fato
de que a acusação não tem fundamento.
— Você ficou completa e
absolutamente fora do seu juízo, homem
— reagiu o ajudante, espumando de
raiva e perdendo completamente o
controle de seus nervos. — Não se
atreva a me ensinar a mim, um oficial!
Sabe bem o que está dizendo, sargento?
— Com sua licença, senhor, o
Primeiro-Sargento Porta sabe
perfeitamente o que está dizendo.
— Cale a boca! — cacarejou o
ajudante, histericamente, com os dedos
batendo nervosamente no coldre
amarelo da pistola, como se estivesse
pensando em atirar em Porta.
— Toca para o Regimento! —
ordenou ao 1º Sargento Helmer, ao
voltar para o Kübel, juntamente com
Porta.
Helmer, que saboreava uma perna de
peru e um pedaço de pão com geleia,
fingiu não ouvir a ordem e ficou olhando
tranquilamente para a perna de peru,
antes de dar outra bocada.
— Está surdo? Não ouviu minha
ordem? — berrou o ajudante, louco de
raiva.
— Que ordem? — perguntou
Helmer, com a boca cheia.
O ajudante acabou perdendo o
restinho de controle emocional que
ainda tinha e despejou uma enxurrada de
ordens e ameaças indecifráveis, para o
indisfarçável contentamento de Porta e
Helmer. Por trás da lambuzada janela da
reserva da Companhia podia-se ver to
rosto gordo e de feições suínas de
Hoffmann.
— Com sua licença, senhor —
perguntou Porta em voz alta –— eu sou
um primeiro-sargento alemão livre ou
um primeiro-sargento alemão preso?
— Você está preso — vociferou o
ajudante, fora de si, sem se preocupar
em entender por que razão a pergunta
tinha sido feita.
Helmer prestou continência e
desembarcou do Kübel, levando as
chaves.
— Onde é que vai, homem? —
rosnou o ajudante.
Helmer repetiu a continência,
batendo os calcanhares com tanta força
que levantou lama à sua volta.
— Com sua licença, senhor, de
acordo com o Regulamento do Exército
os prisioneiros só podem ser conduzidos
por pessoal devidamente autorizado. Só
quem tenha prestado um juramento
especial pode ser mandado executar
serviços dessa natureza, senhor!
— Então vá a pé para o QG —
ordenou o ajudante, secamente. — Me
passe as chaves e os documentos do
veículo.
— Com sua licença, senhor, não
posso passar a outro a responsabilidade
deste veículo sem ordem escrita do
comando do Regimento — respondeu
Helmer, com nova continência. — Mas
se o senhor ajudante puser o Sargento
Porta para fora do veículo ou declarar
que ele foi liberado, aí então eu posso
levar o senhor ajudante de volta ao QG.
Depois de pensar sobre o assunto
alguns segundos, o ajudante declarou
Porta livre temporariamente. E ia se
sentando novamente no seu lugar no
Kübel quando uma coisa comprida e
negra passou por ele e caiu com
estrépito no banco traseiro. Era Ulrich,
que tornara a encontrar Porta e agora se
ajeitava orgulhosamente ao lado dele. O
ajudante tonteou, caiu para o lado e
mergulhou com um gorgolejo na lama
junto ao Kübel.
— Estará morto? — perguntou
Helmer com indiferença, esticando o
pescoço.
— Puxa vida, rapaz, daqui a pouco
você não vai fazer outra coisa senão
contar os ataques de coração que seu
gato anda causando.
— Vamos levantá-lo — disse Porta
— e levá-lo para o QG. O comandante
quer conversar com Ulrich e comigo.
Houve enorme susto e confusão no
quartel assim que Porta e Ulrich
entraram no gabinete do comando. Três
funcionários tiveram um distúrbio
nervoso quando a pantera lhes mostrou
as compridas presas.
— Por que diabo você vive fazendo
essas coisas, Porta? — perguntou o
Tenente-Coronel Hinka com voz
tranquila, porém ameaçadora, quando
Porta bateu os calcanhares em frente à
mesa dos mapas. — Você sabe o que o
livro dos bichos diz a respeito dessa
fera que você comprou? Um animal
assassino.
Mata qualquer coisa viva que lhe
chegue ao alcance. E mata porque gosta
de matar!
— Com sua licença, senhor, o livro
está cheio de mentiras, do princípio ao
fim. Ulrich é mansa como um cordeiro.
Só é brincalhona.
— Eu não desejo ter mais problemas
com você, Porta. A pantera tem de ir
embora! E se não for embora
imediatamente, quem vai é você, mas
para a frente de uma corte marcial.
Como vou conseguir salvar sua pele
desta vez eu não posso nem pensar, mas,
tome nota de minhas palavras, esta é a
última vez que vou procurar ajudá-lo.
Minha paciência chegou ao fim. Saia
daqui e tenha a bondade de levar esse
monstro negro com você!
Porta bateu novamente os
calcanhares, fez a continência e se
retirou, levando a pantera.
— A propósito, para onde foi
Ulrich? — perguntou Helmer a Porta.
encontrando-se com ele um belo dia
no posto de suprimentos de Charkov,
onde estávamos recebendo novos
tanques Tigre.
— Emigrou para a Suécia —
respondeu tristemente Porta. — Já
estava cheia da ditadura alemã.
— Para a Suécia? — perguntou
Helmer, boquiaberto. — Uma pantera
não pode ir assim tão facilmente para a
Suécia.
— Bem se vê que você não conhece
os macetes de que ela é capaz —
respondeu Porta. — Ela tomou um trem-
hospital daqui para Libau. De lá ela
viajou a bordo de um barco sueco. E a
esta hora deve estar provavelmente
passeando por Estocolmo, apreciando as
vitrines. E aposto que até já comprou
uma nova capa de pele, com pintas, para
pôr em lugar da sua preta, muito
manjada. Se a Gestapo ainda estiver
atrás dela, um disfarcezinho não ficaria
mal.
Se é necessário economizar tempo
— e quase sempre é –
então jogamos mil, ou três mil,
bombas sobre uma cidade que
está nos atrasando e deixamos
apenas um monte de destroços para
trás.
Não podemos permitir-nos ter pena
da população civil.
Nossa missão é tocar para a frente
e destruir o inimigo tão depressa
quanto possível.
Guerra é guerra, uma coisa
impiedosa.

General Bradley
Um bando de gansos atravessa a
praça poeirenta, grasnando no seu
andar gingado. Esticam os pescoços e
batem as asas. Paz e quietude
impregnam o ambiente.
— Este buraco está deserto — diz o
comandante da seção.
— Espere um pouco — intervém o
chefe do tanque. — Com Ivan nunca se
sabe.
Os quatro tanques da seção
estiveram esperando, preparados para
atacar. durante uma hora. Há alguma
coisa pairando no ambiente da aldeia
de que eles não estão gostando, mas o
único sinal de vida, no decurso daquela
hora, foi o grasnar dos gansos.
— Vamos ter de entrar lá — diz o
comandante da seção, fazendo um sinal
para os outros três tanques. — Mas
vamos entrar passando pelo rio. A
ponte pode estar minada, e quem
deseja ir para o céu no topo de uma
onda de choque?
Os tanques atravessam o rio com os
motores roncando, sobem pela margem
oposta, derrubando algumas cabanas
de barro, e param no meio da praça da
aldeia.
Os gansos grasnam. Um valente
ganso macho avança contra os tanques,
grasnando e batendo as asas. Tudo está
tranquilo. Nenhum som no ar calmo.
— Motoristas e artilheiros da torre
permaneçam nos postos — ordena o
comandante da seção. — O resto
desembarca. Vamos pegar os gansos.
As torres se abrem. Com acessos de
riso, as guarnições dos ,tanques pulam
para o chão e correm a toda atrás dos
gansos assustados. Um dos homens
acaba de agarrar um ganso e neste
momento uma metralhadora abre fogo,
espalhando balas por toda a praça.
Em instantes o lugar se assemelha
à área de um matadouro. Os ,homens
dos tanques se lançam às tantas no
meio dos gansos assustados. Dois
deles, seriamente feridos, tentam
arrastar-se para trás, em direção aos
seus veículos.
Os soldados russos saem correndo
das cabanas. As granadas explodem, as
escotilhas fecham-se com fragor.
Canhões atroam, metralhadoras
matraqueiam.
Cargas explosivas são jogadas
entre as lagartas dos tanques,
imobilizando-as. Minas são atiradas
debaixo das torres. No espaço de
alguns minutos, os quatro tanques
constituem o centro de um explosivo e
infernal mar de chamas.
Pouco depois os tanques destruídos
são encontrados por um regimento
blindado de vanguarda. Breve
intermezzo num belicoso dia de verão.
26
Os tigres

— Vocês todos vão chegar sem


demora lá onde a merda está voando —
gritou o mecânico-chefe Wolf, que dessa
vez arriscava mesmo sua preciosa pele,
ali colado à linha de frente. — Quando
eu vier a saber, dentro de alguns dias,
que você ficou inteiramente assado, meu
bom Porta, vou me afundar como uma
salamandra no melhor champanha
francês.
— Você só tem lama na cabeça, seu
grandessíssimo merda — sibilou Porta,
lá de dentro do tanque Tigre, embaixo
do motor.
— Cuide bem que essa sua máquina
de costura não lhe vá cair na cabeça —
casquinou Wolf, num risinho de gozação,
quando o pesado motor do Tigre estava
sendo manobrado para cima e para fora
do tanque.
Foi ele dizer isso e o cabo
arrebentou, deixando o motor cair sobre
o braço do mal-encarado mecânico
Brandt. Levou tempo para que se
levantasse o motor e libertasse o braço
do homem, já impressionantemente
pálido. A mão ficara completamente
esmagada.
Fizemos nele um curativo grosseiro
e deixamo-lo deitado à sombra de uns
pinheiros. Brandt pedia um médico, mas
não havia nenhum disponível, assim
como um enfermeiro. Ele teria de ficar
esperando até que um carro de
suprimento o levasse para o depósito na
retaguarda.
Um dos mecânicos perguntou a Wolf
se podia levar o ferido.
— Você deve ter parafusos e porcas
onde devia ter o cérebro — rosnou
Wolf, com uma gargalhada idiota. —
Acha então que eu vou ficar com o meu
carro todo sujo de sangue de uma
porcaria de mecânico?
Ao chegar, finalmente, o caminhão,
Brandt já estava morto, de tanto sangue
que perdera.
À nossa direita, um pouco distante, o
Tigre de Barcelona avançava roncando.
O pequeno Legionário partiu ã nossa
esquerda, com o cano longo do seu
canhão de 88 mm apontado para o céu.
— Segunda Seção, postos de
batalha! — ordenou o Velho pelo rádio.
— Canhões carregados e em posição de
segurança.
Tiny abriu as caixas de munição,
pronto para carregar rapidamente
quando o Velho começasse a dar ordens
de fogo. À sua direita ele tinha as HE de
ogiva amarela e à esquerda as granadas
de ogiva preta próprias para penetração
em blindados. Atrás dele estavam os
projéteis S, de nariz azulado. Era
importantíssimo separar — e usar — a
munição certa. Seria catastrófico para o
veículo e a guarnição se o carregador
cometesse um erro.
— Blindados, marche! — ordenou o
comandante da companhia, Capitão
Löwe.
Numa formação larga, em feitio de
flecha, os Tigres avançaram roncando,
esmagando tudo em sua passagem. Uma
língua de fogo brilhou nas ruínas de uma
casa. Imediatamente uma granada tocou
na torre e resvalou, ricochetando no ar,
verticalmente.
— Perigo à frente! Posição
antitanque inimiga. Torre um, preparar!
— comandou o Velho. — Blindados,
alto! Carregar HE!
— Brecha aberta — avisou Tiny,
empurrando uma granada de ogiva
amarela para a câmara de explosão.
Um fragor de ensurdecer ecoou pela
manhã nascente e o canhão antitanque
voou pelos ares, juntamente com os
sangrentos destroços de sua guarnição.
— Fechar torres, blindados...
marche! — comandou o Velho.
Os 700 cavalos dos motores do
Tigre roncavam e com o ruído rangente
das lagartas nós varamos a aldeia,
fazendo as galinhas, assustadas,
esvoaçar em todas as direções.
Um grupo de soldados russos correu
desabaladamente para procurar abrigo
atrás de arbustos. Uma saraivada de
projéteis traçantes partida das
metralhadoras de torre os perseguiu,
atingindo-os e fazendo-os misturar-se à
poeira da estrada. Eles gritavam e
olhavam aterrorizados os tanques que
lhes vinham em cima. As enormes
lagartas os colheram e esmagaram,
transformando-os numa massa que se
confundia com o leito da estrada.
Atravessamos roncando um largo
espaço no qual se viam roupas lavadas
secando nos varais. Roupas de baixo,
roupas de cama e toalhas passaram a
enfeitar nossas torres e nossos canhões,
como bandeiras festivas no 19 de maio.
— Amanhã no Pravda vai sair
assim: “Tropas blindadas alemães
saqueiam lavadeiras russas.” —
comentou Porta, rindo e baixando o pe
no acelerador. — Oh, diabo! — gritou
ele. — Não consigo ver nada. Tem um
par de ceroulas azuis caídas na frente do
meu visor.
— Que diabo você quer com isso?!
— explodiu o Velho?
–— Eu disse que não estava vendo
nada — reagiu Porta. — Tem um par de
ceroulas comunistas bloqueando minha
visão. Que variedade de armas usam
esses russos! Por que razão não temos
ainda um plano de ação prontinho para
funcionar quando os vizinhos nos
bombardearem com calcinhas de
mulher?
Precisamos de uma circular partida
da fábrica de papelada do Sally.
O rádio começou a chamar. O Velho
foi atender.
— Que diabo você está fazendo,
Beier? — rosnou o comandante da
companhia, com impaciência. — Saia
logo desse buraco, merda, ou pega uma
corte marcial! Não se pode parar!
— Só têm merda na cabeça, todos
eles! — gritou Porta, irritado, fazendo o
tanque dar uma volta sobre as lagartas,
numa tentativa de tirá-lo da armadilha.
Foi preciso a ajuda de outro tanque a
fim de arrancar as 68 toneladas de metal
para fora do buraco.
Naqueles vinte minutos em que
ficáramos parados, o panorama geral da
batalha havia mudado. Um enxame de
tanques russos avançou, igualmente em
formação de flecha.
Nós paramos, atiramos, mandando
granadas em inúmeras posições
antitanque, rolamos por cima de
unidades de infantaria, trituramos
trincheiras individuais, esmagando os
homens que ali se escondiam.
Os tanques inimigos ainda estavam a
uma distância de cerca de dois
quilômetros. Não seriam perigosos
enquanto não atingissem uma distância
de uns 800 metros de nós, ao passo que
podíamos alcançá-los a 1.800 metros.
Nossos canhões longos de 80 mm
dos tanques, com sua fantástica
velocidade inicial e pequenos ângulos
de elevação, trajetória tensa, podiam
destruir qualquer tanque inimigo.
As duas companhias de tanques
Tigre reuniram-se numa única formação
em flecha e fizeram chover granadas
sobre os blindados russos que
avançavam.
Em certo momento a estepe parecia
transformada num grande cemitério de
tanques. Aquele dia de verão, antes tão
claro e agradável, ficou escurecido
pelas nuvens espessas da fumaça que
subia dos inúmeros veículos em chamas.
No entanto pareceu que os russos
tiraram algum ensinamento do revês,
pois passaram a avançar ousadamente, a
mais alta velocidade, com a visível
intenção de se colocarem dentro do raio
de 800 metros e assim poderem usar
eficazmente os seus canhões de 76 mm.
— Mantenham-nos à distância! —
ordenou pelo rádio o comandante da
companhia. — Espalhem-se! Aguentem
os flancos!
O calor dentro do tanque tornara-se
insuportável. O suor nos caía em bicas e
estávamos com o rosto tão preto quanto
o de Albert. Só o branco dos olhos e os
dentes não escureceram.
Um tanque russo T-34 passou por um
montículo e voou, indo bater numa rocha
com um barulho de arrebentar os
ouvidos. Era como se quisesse abrir
caminho para dentro da terra. Um
segundo depois uma granada de
perfuração penetrou na couraça de 60
mm da sua frente. A torre foi
violentamente sacudida e o cano do seu
canhão ficou caído entre duas grandes
rochas.
Uma companhia de pesados KW-2,
de 57 toneladas, avançou em linha e
parou à beira da floresta. Das bocas dos
seus canhões de 150 mm começaram a
surgir línguas de fogo.
O Tigre de Barcelona. que se achava
um pouco atrás do nosso, pareceu inchar
como um balão inflado demais e
explodiu numa gigantesca bola de fogo.
Três dos quatro homens da
tripulação rolaram desesperadamente
pelo chão, tentando extinguir as chamas
que dançavam animadamente em seus
uniformes.
O Tigre do Legionário manobrou
para lhe dar auxílio. E antes que o Velho
pudesse evitá-lo, Tiny pulou da torre e
saiu em disparada na direção do tanque
em chamas. Levantou Barcelona até os
seus ombros, como se estivesse
levantando um saco vazio, e voltou
correndo com ele. Albert veio atrás,
cambaleando, o rosto acinzentado do
susto.
Rapidamente nós os ajudamos a
entrar nas escotilhas. Tiny fez um aceno
e voltou correndo para pegar o atirador
do canhão, que ficara sem o braço
esquerdo.
Alguns infantes russos vieram
correndo do alto e as balas passavam
zunindo em volta de Tiny, que corria
desesperadamente com o ferido sobre os
ombros.
Subi até alcançar a metralhadora
antiaérea, que fiz girar em volta, abrindo
fogo contra os russos.
Suando e praguejando, Tiny
arrastou-se até o alto do tanque e
conseguiu se meter, com grande esforço,
por uma escotilha lateral. Um estilhaço
de granada produzira-lhe um profundo e
extenso corte no rosto. O sangue
espirrou pelo tanque e gotejou sobre
Heide.
— Comunistas filhos da puta —
xingou Tiny, fechando ruidosamente a
escotilha.
Meus olhos estavam colados na
ocular do periscópio. Trezentos metros
adiante, um KW-2 fazia pontaria para
nós. Eu me achava exatamente na mira
do seu enorme canhão.
— Ataque de tanque! — gritei
aterrorizado.
No mesmo instante Tiny gritou: —
Canhão livre!
Baixei o pé no pedal de fogo. Com
um som seco a granada partiu do canhão
e foi penetrar na couraça anterior do
KW-2. A alta torre foi arrancada de sua
base e caiu ao lado do veículo, que já se
incendiava. Uma comprida coluna de
fogo elevava-se dele. Dois soldados da
guarnição, envolvidos pelas chamas,
pareciam oscilar no topo do fogaréu.
Um dos nossos Tigre foi envolvido
num vulcão de fogo. Ninguém da
guarnição teve meios de escapar. Se
alguém nunca teve ocasião de assistir a
um espetáculo igual não teria a mínima
possibilidade de imaginar o que é que
acontece quando 102 granadas HE e de
penetração, 6.000 projéteis de
metralhadora e 800 litros de
combustível são atingidos
simultaneamente no impacto de uma
explosão e se desagregam
instantaneamente.
Depois disso, a impressão era de
que uma tempestade de chamas havia
queimado o terreno num raio de muitos
metros. Vegetação, casas, tudo o que
havia sobre a superfície desaparecera
sem deixar vestígio. Pedaços do tanque
espalharam-se por toda a grande área, e
da guarnição de cinco homens não ficou
o menor fragmento.
Continuamente nós parávamos e
atirávamos. Granadas após granadas
penetravam nos blindados inimigos e os
destruíam. Seis horas de batalha feroz
resultaram em 116 impactos em nosso
Regimento, dos quais 29 foram na nossa
Companhia. Naquela noite, o 27º
Regimento Blindado foi citado na
Ordem do Dia do Exército. Todos os
oficiais e Julius Heide empavonaram-se
e exibiam sua alegria pela recompensa.
Nós, os restantes, preferiríamos um bom
prato de purê de batata com carne de
porco. Mas o desapontamento de Julius
Heide foi enorme quando ele verificou
que não havia nenhuma Cruz de Ferro de
Primeira Classe para ele. O Regimento
recebeu apenas duas e estas foram
concedidas a dois tenentes que não as
possuíam.
Porta era tão desprendido que
ofereceu a Heide a sua própria Cruz de
Ferro.
— Que adiantaria sem o documento
que acompanha a medalha? — lamentou-
se Heide.
— Se é esse papelzinho que está te
preocupando — disse Tiny rindo — eu
te arranjo logo um. Sally está lá no
Ministério da Guerra, como uma espécie
de ministrinho, e tem tudo quanto é
papel. Papelada e carimbo é com ele!
— Psicopata imundo — respondeu
Heide, cuspindo desdenhosamente —
então você pensa que eu usaria uma
medalha a que não tivesse direito?
— Seca esses olhos grandes e azuis,
Julius — interveio Porta, confortando-o.
— Esta guerra ainda não acabou e
um belo dia chega a sua vez. E só
continuar sendo um bom e bravo
soldado alemão e o Tio Adolf pode até
lhe dar uma boceta com ímã para você
pendurar no seu melhor casaco.
— Blindados. –. ma-a-a-arche! —
ouviu-se pelo rádio.
— Segunda Seção. .— embarcar! —
comandou o Velho, entrando em seguida
no seu tanque.
Examinamos nossas armas,
lubrificamos molas e metemos as
pistolas nos bolsos de cima do uniforme.
Quando se está com muita pressa, dali é
mais fácil sacar. Em geral, quando se
consegue tirar a arma do coldre
regulamentar, já se recebeu um balaço
mortal.
O Velho rodou o braço em círculo,
sinal para ligar os motores. E com um
barulhão tremendo, os Maibachs de doze
cilindros e 700 HP começaram a
funcionar.
Um grande número de tanques russos
T-34 veio vindo do lado do milharal.
Avançavam a grande velocidade e já
atirando.
— Desperdício estúpido de munição
— comentou Heide, que não conseguia
conformar-se com aquele gasto
indiscriminado. — Que diabo! Eles
deviam ter aprendido que se para para
depois atirar. Deviam ir para uma corte
marcial, esses idiotas mal treinados!
— Eu não pararia um segundo se
estivesse num desses tanques —
replicou Porta. — Eles precisam andar
outros duzentos metros para poderem
pelo menos arranhar nossas calças,
enquanto nós podemos acabar com eles
com a mesma facilidade com que
coçamos as costas. Eles vêm atirando a
esmo só para assustar a gente e talvez
assustem mesmo alguns.
— E o que se chama “guerra
psicológica” — disse Tiny, dando-se
ares de importância. — Quando eu
estava no depósito de munições de
Bamberg, ouvia falar muito disso. A
gente saía com umas latinhas que faziam
um barulho capaz de interromper um
cara que estivesse fazendo cocô ou
bocejando. Diziam que isso se chamava
psicologia. Deixa-se cair a lata, ela faz
bang e o inimigo fica olhando para a
gente com cara de besta e aí se tem
tempo bastante para mandar-lhe um
balaço.
— Segunda Seção, à direita,
formação em flecha! — comandou o
Capitão Löwe pelo rádio.
Com precisão matemática, os quatro
tanques da 2º Seção volveram à direita e
entraram em formação. Houve uma
ensurdecedora detonação e uma língua
de fogo de vários metros rompeu de um
espesso arvoredo baixo, à beira da
floresta.
— Canhão antitanque de 150 mm,
bem à frente, trezentos metros! — gritou
assustado o Velho, mergulhando
inadvertidamente na cúpula do
comandante.
Pelo periscópio eu fiz imediatamente
a identificação e girei o regulador da
abertura da ocular para uma imagem
precisa. Era um canhão baixo, enorme,
colossal, e apontava exatamente para
nós.
— Esquerda! — gritou o Velho,
nervosamente. — Portal Esquerda!
Diabo, ele vai nos destruir!
— Aqui que ele vai! — reagiu Porta,
rindo, sem dar a mínima bola. —
Segure-se bem, Velho!
Em lugar de volver à esquerda,
Porta calcou o pé no acelerador e partiu
direto para cima do pesado canhão
autopropulsado à máxima velocidade.
— Você ficou maluco? — gritou o
Velho, horrorizado. — Pare, homem, em
nome do inferno! Você vai matar todos
nós!
Encolhi-me por baixo do periscópio
e esperei pela destruição total. A aguda
detonação da enorme boca de fogo me
feriu o ouvido.
A granada inimiga passou
tangenciando a torre, mas nem nos
convencêramos ainda de estar vivos
quando fomos atirados uns contra os
outros, numa confusa mistura de braços,
pernas e corpos.
Eu dei com a cabeça contra o
controlador de elevação e com as costas
no regulador de imagem. O sangue
escorreu pelo meu rosto, cegando-me.
A estrutura da blindagem rangeu,
estalou, gemeu e estirou-se quando Porta
começou a afastar o Tigre do antitanque
inimigo, que tínhamos abalroado de
frente, à mais alta velocidade. Três
homens saltaram da escotilha lateral do
canhão e correram em nossa direção
com cargas explosivas nas mãos. Uma
longa saraivada partida da metralhadora
frontal de Heide jogou-os ao chão. Um
rio de petróleo em chamas escorreu do
canhão emborcado e foi atingir as vestes
dos soldados caídos. Uma lebre deu um
enorme salto no ar e fugiu em disparada
para dentro de um riacho, onde
acreditava estar a salvo das loucuras de
seres humanos.
— Ué, que diabo! Lebre nada? —
gritou Tiny, admirado.
— Parece que sim, quando é
preciso. — respondeu Porta, com um
riso cínico.
— Torre T-34 a mil e duzentos
metros. Blindados alto! Fogo! —
comandou pelo rádio o Velho.
Assim que Porta parou o tanque,
pisei no pedal de fogo. Com absoluta
clareza observei a granada penetrar na
torre do T-34 e transformá-la em uma
bola incandescente, quebrando-se
depois com terrível estrondo em milhões
de fragmentos de aço.
— No papo! — exclamou Heide,
com ar triunfante, anotando logo em sua
lista.
— Conseguiu pegar o número? —
perguntou ele a Porta.
— Você deve estar biruta — sibilou
Porta, irritado. — Eu sou motorista de
tanque e não guarda-livro. Minha missão
é levar a gente a um lugar onde se possa
eliminar a merda da crosta da terra e
nada mais.
Um débil grito de socorro foi ouvido
através do rádio. O Tigre do Legionário
fora atingido. Grandes chamas
vermelhas surgiam do motor e da torre.
Tiny e eu subimos lá e tiramos o
Legionário para fora. O rosto dele havia
recebido graves ferimentos. Entregamo-
lo ao Velho. O atirador do canhão da
torre já não precisava de ajuda. Seu
estomago ficara inteiramente aberto e as
entranhas caíam em rolos vermelhos e
azulados. O motorista, 1º Sargento Hans,
estava meio caído sobre a borda da
torre e seu corpo pegava fogo e enchia-
se de bolhas, que rebentavam
produzindo como que um estalo.
— Vamos sair daqui — gritou o
Velho. — Se isso explode agora, nós
todos vamos com ele.
Mal alcançamos uns 200 metros de
distância a munição do Tigre explodiu,
esfacelando completamente o veículo.
Um jogo de lagartas veio pelos ares e
chocou-se com um dos lados do nosso
tanque. Por um momento pensamos ser
— uma granada inimiga.
— Venha, morte, venha... —
resmungava o Legionário, calmamente,
piscando os olhos num rosto todo
ensanguentado.
— Deixe de besteira! — ralhou o
Velho. — Não precisa chamar a morte.
Ela já deve estar vindo por aí.
Um T-34/85mm passava pelo alto de
uma colina e de lá, num salto que mais
pareceu um voo, projetou-se
estrondosamente no chão, a algumas
centenas de metros do nosso Tigre.
— O diabo! — gritou o Velho,
perplexo. — De onde raios ele vem?
— O Deus de todas as Rússias fez
ele cair do céu — disse Porta, rindo e
manobrando para evitar um P-4
destruído, de cujas escotilhas pendiam
os corpos do pessoal da guarnição.
— Fogo nele, seu idiota! — gritou o
Velho, dando-me um chute no traseiro.
O canhão de 85 mm do T-34
começava a girar para ficar apontado em
nossa direção.
— Calma — disse Porta, rindo
despreocupado. — Esses caras não
serão capazes de ouvir nem de pensar
depois dessa viagem. Caindo daquele
jeito, é claro que suas bolas e seu olho
do cu foram bater na garganta.
Girei a torre nos dispositivos
hidráulicos, mas antes que pudesse visar
perfeitamente o canhão, um jato de
chamas rompeu do cano longo do T-34 e
o Tigre foi atirado para trás. Uma luz
amarela ofuscante iluminou o interior do
nosso tanque.
— Jesus e Maria! — gritou Tiny,
aterrorizado, deixando cair ao chão uma
granada de perfuração. — Os sacanas
atiraram em nós!
Por verdadeiro milagre a granada de
ferro acerado ricocheteou e saiu zunindo
para um lado.
Com a visão inteiramente
comprometida por uma espécie de
cerração, visei o T-34 e pressionei o
pedal de disparo. O ruído do disparo e o
fragor do impacto vieram quase
simultaneamente. A granada penetrou no
motor e um jato de chama amarelo-
avermelhada elevou-se no mesmo
instante.
–— Estão abandonando o tanque! —
gritou jubilosamente Heide, ao mesmo
tempo em que mandava uma saraivada
sobre a guarnição, que ia caindo dos
destroços incendiados.
Tiny, manipulando a pesada
munição, suava em bicas. O serviço de
municiador de um tanque pesado só é
comparável ao dos antigos foguistas dos
navios a vapor.
Um T-34/76mm rompeu da espessa
vegetação a grande velocidade. Suas
enormes lagartas vinham amassando
árvores e arbustos e atirando-as para
trás.
Mesmo havendo 25 tanques russos
para um dos nossos, sua superioridade
numérica desaparecia pelo fato de
apresentarem uma inferioridade técnica
marcante quanto aos mecanismos de
pontaria e ao baixo nível dos seus meios
de comunicação. Estes últimos lhes
dificultavam enormemente as manobras,
sabendo-se que as comunicações
constituem importantíssimo fator de
sucesso numa batalha de tanques, que se
caracteriza pela mudança das situações
de segundo em segundo. Mas a sua
verdadeira e grande desvantagem era o
precário treinamento das guarnições.
Isso levava com frequência a perdas
verdadeiramente catastróficas, apesar da
fanática coragem com que combatiam.
Outra coisa surpreendente eram as
tardias reações russas em situações
prementes da batalha.
A torre do Tigre girou e o canhão foi
apontado cuidadosamente. Uma
flamejante língua de fogo de muitos
metros irrompeu da boca do canhão e
com velocidade inicial acima de 10.000
metros por segundo a granada voou em
direção ao alvo. A torre do T-34 foi
atingida. Ela voou para trás, rolando
como uma bola de brinquedo, e foi
esmagar-se contra as lagartas de outro
T-34 que lhe vinha atrás. A metade
inferior de um corpo humano pendia do
assento do comando. Suas calças azul-
escuro e as botas novas amarelas
cobriam-se de sangue.
— Gostaria de ter um par de botas
igual àquele — disse Porta, esticando o
pescoço. — Pode-se andar por toda a
Rússia, com botas como essas, sem ficar
cheio de bolhas.
— Botas — disse Tiny, tossindo e
cuspindo um muco escuro provindo dos
pulmões impregnados. — Vamos tomar
um pouco de ar e aproveitar para trazer
aquelas botas.
— Saquear corpos dá em pena de
morte — avisou Heide.
— Dispor de um par de botas
perdidos num corpo não é saquear —
protestou Porta. — Ninguém entra de
botas no Paraíso.
Nunca ouvi falar de um anjo que
usasse botas.
— Torre — interrompeu o Velho
nossa discussão sobre botas — T-34 a
mil e quinhentos metros.
Girei a torre rapidamente para a
posição indicada e enquadrei no visor o
T-34, que surgia de um muro de pedras.
Não havia possibilidade de falhar.
Apertei confiantemente o pedal de
disparo, porem apenas um “clique” foi o
que se ouviu. O tiro não saiu!
Todo mundo voltou-se e olhou para
Tiny, que estava sentado no chão,
completamente alheio, jogando dados.
— Em nome de todos os demônios,
que que você está pensando? — rosnou
o Velho, enfurecido, ao lado dele. —
Por que diabo não carregou o raio do
canhão, seu maluco?
— Acabou a munição — respondeu
Tiny, indiferente, acertando um “seis”,
com o que se alegrou.
— Só me faltava essa! — gritou,
furioso, o Velho. — Por que diabo você
não comunicou, como é sua obrigação?
— Você mandou a gente ficar calado
— respondeu Tiny. — Disse que só
você podia falar.
— Ah, meu Deus do céu! —
resmungou o Velho. — Que foi que eu
fiz para merecer uma seção como esta?
Vamos dar o fora daqui! Para trás, a toda
a velocidade!
Porta fez o motor Maibach dar tudo
o que podia e o Tigre se enfiou por uma
pedreira funda, na qual podíamos ter um
pouco mais de proteção contra o
mortífero tanque russo. Meia hora
depois, entramos em Tortschin, em cujas
imediações as unidades abastecedoras
de munição e petróleo nos atenderam.
Tivemos a surpresa de encontrar lá o
mecânico-chefe Wolf, sentado,
refestelado, em seu Kübel de oficial
general, envergando o uniforme muito
bem talhado e as ainda mais reluzentes
botas de montaria feitas pelos Roselli,
de Roma.
— Você está assim como quem já
vai morrer — disse rindo, examinando
Porta de alto a baixo. — Espero que os
vizinhos lhe deem uma folguinha para
você poder se coçar.
— Meta-se com a sua vida — reagiu
Porta, agressivamente. — Você está
parecendo um sujeito com os ovos sendo
comidos pelos cupins. Prega mais
sermão do que todo um colégio de
padres.
— Escuta agora, rapaz — redarguiu
Wolf, em tom camarada. — Tenho um
plano. Descobri onde é que alguns
sujeitos do Kremlin esconderam uma
porção de ouro comunista. Não mais do
que três mil quilômetros daqui. Vou
cuidar disso. O que você terá de fazer é
só ir lá apanhar o ouro.
— Há dinheiro nisso? — perguntou
Porta, mostrando interesse imediato.
— Mais do que se possa imaginar
— respondeu Wolf com um riso. —
Largue esta estúpida batalha de tanques
de uma vez e volte sem muitos
arranhões, para podermos estabelecer
rapidamente o negócio e gozar a vida.
Barcelona ganhou um tanque novinho
em folha. Albert já estava ocupando o
assento do motorista, com uma pesada
bandagem envolvendo a sua cabeça.
— Esse Exército não vai ficar
satisfeito enquanto não nos vir a todos
reduzidos a pedaços — queixou-se ele,
acelerando o motor com desnecessária
violência.
Os abastecedores de petróleo
correram para encher o nosso tanque
com 700 litros, e dois tambores de 500
litros foram firmemente adaptados ao
alojamento do motor como reserva.
— Quem me dera que todo esse
troço aí pegasse fogo — disse Porta
para todos ouvirem. — Só assim a gente
teria a chance de uma cama e uma
comidinha.
27
— Que que você disse, você aí,
sargento? — gritou o mecânico-chefe
Müller, um sujeito muito corado e
conhecido em toda a Divisão como o
Nazista Müller.
— Que que eu disse? — perguntou
Porta, apontando com fingida
ingenuidade para si mesmo. — Que foi
que eu disse?
Nazista Müller perdeu o corado do
rosto e começou a dar gritos, como
fazem os graduados quando lhes faltam
argumentos.
— Você sabe quem eu sou? —
perguntou Müller.
— Com sua licença, senhor, eu vou
dizer. O senhor é o mecânico-chefe
Müller, responsável pela unidade de
suprimento de petróleo — começou
Porta, batendo os calcanhares. — Com
sua licença, senhor, houve um guarda-
cancela chamado Heinz Schröder, que
trabalhava na passagem de nível da
Estrada de Ferro Nacional da Alemanha
situada entre Paderbom e Bielefeld.
Uma cruel casualidade fez com que ele
um dia caísse de um vagão de
suprimento. Infelizmente isso aconteceu
nas vésperas de ser designado chefe dos
guarda-cancelas, com direito a usar
alamares vermelhos no ombro. A
promoção não se realizou, uma vez que,
ao levantar-se depois da queda, ele não
conseguia lembrar-se de sua própria
pessoa e começou a correr sem destino,
perguntando a todo mundo: “Você me
conhece? Você sabe quem eu sou?”
Porta interrompeu sua torrente de
palavras e examinou o rosto vermelho
de Müller, que parecia inchar, dando a
impressão de que ia explodir a qualquer
momento. Mas Porta insistia: — Com
sua licença para perguntar, senhor, se o
senhor chefe não terá caído algum dia de
um vagão de suprimentos.
— Já passou da conta, sargento! —
sibilou o Nazista Müller, batendo
violentamente com o pé no chão. —
Estou avisando: não tente me fazer de
palhaço!
— Com sua licença, senhor, não
tenho nenhuma intenção de fazer
qualquer espécie de graça com o senhor,
mas isso me faz lembrar o Senhor
Weinhuber, que foi empregado como
salva-vidas pelo Corpo Nacional de
Salva-Vidas. O Senhor Weinhuber
também tinha cisma de que toda pessoa
que encontrava estava caçoando dele.
Quando o promoveram a chefe dos
salva-vidas em Zell-amSee, tudo
começou a sair errado. O desastre final
aconteceu numa manhã de domingo de
julho, quando ele ia, como de costume,
para Zell-am-See, na bicicleta fornecida
pelo Corpo de Salva-Vidas. Naquele
domingo chovia terrivelmente. Ninguém
pensaria em banhar-se fora de casa, de
modo que o Senhor Weinhuber achou
por bem ficar em casa, igualmente. Até
mesmo o mais estúpido dos homens
tinha de compreender que um salva-
vidas não tem nada que fazer na praia
quando lá não vai banhista nenhum.
Nazista Müller levantou as mãos
para o céu numa atitude de quem está
orando. Abria e fechava a boca, como
que querendo dar um grito de protesto,
mas o que saiu foram uns sons estranhos,
de gorgolejo, assim como água escoando
da banheira.
— Mas o problema era realmente no
Regulamento do Serviço de Salva-Vidas
— continuou Porta, sorrindo para
Nazista Müller, que estava de pé, zonzo,
no alto do tanque. — O tal regulamento
dizia que o serviço devia começar às
oito horas e não fazia menção às
condições de tempo, como chuva ou
neve, e devia ser alterado para que os
salva-vidas, em tais casos, pudessem
ficar em casa. Em outro qualquer país
do mundo o nosso salva-vidas não teria
saído de casa naquele dia. Mas não na
Alemanha, senhor.
Com sua licença, senhor, devo dizer
que estou agora me lembrando de um
assunto muito interessante, no qual uma
disposição do Regulamento dos
Serviços da Alemanha leva a um fato
incomum. Nos porões do Ministério da
Guerra, os regulamentos são impressos
numa prensa fornecida pela Companhia
Graphik AG, de Heidelberg. Havia lá
um tipógrafo chamado Ludwig Kaltblut.
Esse Senhor Kaltblut apareceu um
dia com uma ideia absolutamente
maluca.
— Eu me recuso a ouvir uma
palavra mais — vociferou Nazista
Müller, em desespero.
Ele caiu para trás, para fora do
veículo, e foi bater no chão com um
baque surdo — Isso sempre acontece —
disse Porta, suspirando e sacudindo a
cabeça, como que em desespero — mal
eu começo a dar explicações detalhadas
a respeito de algum assunto, para que
eles possam entender direitinho as
coisas, que aliás sempre parecem sair
erradas para eles.
Porta foi interrompido pelo pelotão
de municiamento, que chegou para nos
dar ajuda, como de hábito. Nós
alojamos as compridas granadas nos
respectivos alvéolos.
Fiquei com a pior parte do trabalho:
abrir as caixas, remover a borracha
protetora e retirar as coifas
antiferrugem. Era um trabalho pesado.
Cada caixa continha três granadas,
bastante pesadas. O resto da guarnição
gritava comigo continuamente para
andar mais depressa. Tínhamos de
terminar antes que os aviões russos
Jabos surgissem das nuvens e
desovassem sobre nossas cabeças.
Completamos o serviço limpando o
canhão. Um canhão sujo pode causar
acidentes, e uma explosão prematura não
é nada engraçado.
Porta voltou para onde estávamos,
bufando, com uma caixa de linguiça e
um grande queijo redondo que havia
surripiado do pessoal dos suprimentos.
— Quinta Companhia — transmitiu
o oficial comandante pelo rádio — à
direita, formação em flecha. Atravessar
a ponte. Atirar em tudo que se mova. O
Regimento tem de atravessar a ponte
antes que ela seja dinamitada.
À velocidade máxima, a 5ª
Companhia, composta de 16 tanques
Tigre, avançou roncando motores na
direção do rio. O ranger infernal das
lagartas abafou o rumor da infantaria.
Soldados russos abandonaram os
abrigos individuais e saíram correndo
pelas ruínas afora, fugindo
desabaladamente dos gigantes que
avançavam. Muitos não conseguiram
escapar e foram esmagados pelas
lagartas.
Três tanques da 5ª Companhia foram
atingidos e pegaram fogo. Num espaço
de tempo impressionantemente curto, a
área da batalha, que se estendia por
vários quilômetros, ficou coberta de
destroços fumegantes dos blindados
alemães. Eram Krupp Sports, Panzer-3 e
o lendário Panzer-4, assim como os
tanques Pantera e Tigre. Mas a grande
maioria do material destruído era russa:
BT-7, T-34, juntamente com inúmeros
Christies americanos e Matildes
britânicos.
Para evitar um KW-2, Porta girou o
veículo e foi entrando destruidoramente
por uma casa, com o que a torre encheu-
se de artigos domésticos e mobiliário.
Paramos abruptamente no meio da casa
e espiamos com cuidado pelas vigias de
observação.
Um grande piano branco jazia a um
canto da vasta sala. Um oficial russo
estava caído, sem vida, sobre as teclas.
Dois outros, jogados sobre cadeiras,
com os rostos cobertos de sangue.
— Vamos sair daqui — sussurrou o
Velho, receoso de que alguém pudesse
estar ouvindo.
— Esta porcaria de motor alemão
enguiçou — reclamou Porta. — Esse
diabo de poeira russa solta no ar
certamente entupiu o filtro. Alguns de
vocês vão ter que manejar a manivela. A
partida automática não dá para arrancar.
— Vire-se, meu chapa! — gritou
Tiny. — Não vou sair para manobrar
manivela nenhuma!
— Você e Sven — ordenou o Velho
— e nem mais um pio. É uma ordem!
Protestando violentamente, saímos
pelas escotilhas. Em pouco nossas mãos
estavam cortadas e sangrando por causa
dos retentores que prendiam a manivela
e a mantinham no lugar. No começo, mal
podíamos fazer um esforço para girá-la.
Foi quando Tiny teve um ataque de
raiva, deu um pulo no ar e caiu com todo
o seu peso sobre a manivela. E só tive
tempo de procurar abrigo, atrás de uma
das lagartas, quando uma saraivada
partida de uma metralhadora passou
rentinho por cima de nossas cabeças.
Virei-me e vi um russo atrapalhado com
o carregador de sua Kalashnikov. Como
um raio, puxei do bolso uma granada de
mão e atirei em cima dele. Ela explodiu
com fragor, abrindo-lhe completamente
o peito.
— Que diabo você está querendo?
— berrou Tiny, branco de raiva,
atirando-me pontapés. — Você não pode
ir jogando explosivos assim a torto e a
direito.
Podia ter me matado, seu neurótico
de guerra.
O motor pegou. Uma língua de fogo
de um metro escapou do cano de
descarga e o motor passou a funcionar
com um barulho infernal. Do teto caía
reboco em cima de nós.
A manivela de partida desandou,
atirando Tiny para o ar. Ele foi cair
sobre o piano, quebrando-o inteiramente
e provocando um emaranhado de sons
tão alto como o de uma orquestra inteira
a plenos pulmões.
— Para mim chega! — berrou ele,
levantando-se dos destroços do piano,
todo enrolado nas cordas. — Está
querendo me matar? — perguntou, e num
salto colossal já se colocava em cima
do Tigre, a P-38 na mão, pronto para
acabar com Porta, em retribuição pela
viagem aérea terminada no piano.
— Largue isso! — gritou o Velho,
encostando o cano de sua metralhadora
na testa do homenzarrão.
Os olhos de Tiny fixaram-se no cano
da metralhadora, que pressionava o
ponto do seu nariz bem entre os olhos, o
que o obrigava a ficar ridiculamente
vesgo.
Com um riso de desânimo, Tiny
tomou a meter a pistola no coldre e
arrastou-se cheio de revolta para dentro
do veículo. Uma granada de mão o
atingiu nas costas e rolou para dentro do
tanque.
— Sacanas! — rosnou,
amedrontado, segurando a granada e
verificando, ao espiá-la meio confuso,
que o pino de segurança ainda estava no
lugar. — Jesus!
— exclamou, retirando o pino e
devolvendo a granada ao ponto de onde
viera.
Uma estrondosa explosão envolveu a
casa e dois corpos foram atirados para o
feto.
— Vão para o inferno! — resmungou
Tiny, pálido de susto. — Quase o diabo
nos acerta desta vez. Imagine se esse
comunista de merda tivesse tirado o
pino!
— Muito bem, então o interior deste
tanque estaria parecido com uma pintura
medieval do inferno. Sangue e corpos
por toda parte — respondeu Porta, de
coração apertado, inspirando
profundamente.
Os 700 cavalos do motor soltaram
seu brado quando Porta fez o tanque
andar em círculo. A comprida mesa de
jantar e as ladeiras forradas de seda
viraram lenha. Um sofá chegou a atingir
o teto, seguido de uma estante de livros.
Estes choveram sobre a torre do tanque.
As duas metralhadoras
matraqueavam perigosamente. O tanque
foi em cheio contra uma parede,
atravessando-a e destruindo uma cozinha
tão grande quanto um salão de baile.
Paredes divisórias foram abaixo,
provocando nuvem de poeira e de
emboço. Com um ruidoso impacto
acabamos enveredando por um jardim,
espatifando no caminho um terraço
envidraçado. Arrancamos, com raiz e
tudo. uma cerca de lilases e o Tigre
ficou coberto por uma capa azul e lilás,
como se fosse um desses carros
apropriados para casamento em seu
caminho para a igreja, conduzindo a
noiva.
Passamos sobre uma dependência
externa, amassando-a completamente.
Foi quando avistamos, vinte metros
à nossa frente, um tanque russo Stalin de
55 toneladas. A guarnição estava
mudando as lagartas. Ficaram olhando
para nós, imóveis, paralisados pelo
pavor. Dois segundos se passaram e no
lugar em que o pesado tanque e sua
apavorada guarnição se encontravam só
havia agora sinais de terra queimada. A
casa que ficava ao lado desapareceu
igualmente. A granada de alto teor
explosivo feita de ferro acerado deve ter
acertado em cheio na munição de
reserva e as 85 granadas desintegraram-
se completamente, numa tremenda
explosão. O choque atirou o Tigre
alguns metros para trás, de volta ao
jardim de onde tínhamos vindo. Numa
árvore desgalhada ficara pendurado um
capitão russo, com o corpo todo
dilacerado, parecendo uma posta de
carne espalhada numa grelha.
Inúmeras baterias dos “órgãos de
Stalin” estabeleceram uma parede de
fogo e aço, destinada a destruir nossa
infantaria de apoio aos tanques. Elas se
posicionavam logo atrás dos tanques,
mas em pouco tempo batalhões inteiros
foram reduzidos a uma mistura de carne,
sangue e ossos.
Dois T-34/85mm vieram rachando
em nossa direção como galgos.
Atiravam estupidamente ainda em
movimento e as suas granadas passavam
sobre nós sem nos causar o menor dano.
— Torre dez horas — comandou o
Velho com toda a calma.
— Blindados alto! Alcance
oitocentos, granada de perfuração, fogo!
A primeira granada passou sem
atingir o T-34, porém a segunda rompeu
a couraça anterior como se fosse um
abridor de lata.
O corpo do motorista, com a cabeça
decepada, pendia para fora da chapa
fendida. O telegrafista perdera a metade
inferior do corpo.
Duas granadas atingiram nossa
couraça frontal, sem conseguirem
penetração nos dez centímetros de
blindagem. Ricochetaram, sibilando, e
perderam-se nos ares.
— Deus devia tirar o traseiro do
caminho, antes que elas batam por lá —
gritou Porta, rindo.
Minha granada seguinte arrebentou
uma lagarta do T-34 mais próximo. Ele
deu uma guinada e foi bater num outro
que o acompanhava.
— Bem em cheio! — gritou o Velho.
— Granada S, rápido!
— Dá uma folga, companheiro —
protestou Tiny. — Já carreguei uma de
perfuração neste troço e não estou
disposto a retirá-la. Há um limite para o
trabalho que se pode esperar de um
sujeito, diante do que o Exército lhe
paga.
Enxugou o rosto sujo com um pedaço
de estopa ainda mais suja e tomou um
grande gole de água.
— Raio de escravidão, é o que isto
é — resmungou ele, aborrecido. — O
Exército alemão nos trata pior do que
qualquer vendedor de escravos da
América tratava os antepassados de
Albert, quando os arrancaram da África.
— Cale a boca! — gritou o Velho.
— Fogo!
— Você disse Granada S. Eu
protesto e cruzo os braços. Já tem uma
granada de perfuração na câmara. Que
que eu faço?
— Fogo, foi minha ordem! — gritou
o Velho, furioso., batendo o pé no chão
de aço. — Ainda te estrangulo um dia!
Uma tremenda detonação quase
arrebenta nossos tímpanos. Ficamos
completamente surdos durante alguns
minutos. O rádio despencou de sua
prateleira, indo cair no colo de Heide, e
os cabos soltos voavam em torno de
nossas cabeças. Uma tubulação
perfurada espalhou óleo sobre Porta,
dando-lhe o aspecto de monstro dos
filmes de horror americanos.
— Nos acertaram! — gritou Heide,
e já ia saindo para fora da escotilha
quando Porta o puxou para dentro
novamente.
— Espere um pouco, Tenente Heide.
Ainda não terminamos. O nosso
maravilhoso, valoroso, abstinente,
sexófobo Führer não gostaria de ver seu
soldado modelo fugindo do inimigo de
raça inferior. Ele não suportaria uma
coisa dessas. Ficaria tão desapontado
que voltaria para a Áustria e deixaria a
Alemanha entregue à sua própria sorte.
Nossa granada seguinte foi precisa.
Exatamente no lugar das munições. O
tanque russo explodiu como um melão
maduro caído de um arranha-céu. O
outro tanque rolou como uma lata
chutada e acabou mergulhando no rio. E
explodiu debaixo d’água como um
vulcão submarino.
Quatro tanques Tigres avançaram
por dentro da floresta, quebrando
grossas árvores como se fossem palitos
de fósforos. Uma casa da floresta ficou
reduzida em poucos segundos a um
monte de entulho. Um garoto tropeçou e
foi esmagado pelas enormes lagartas.
Ao ritmo dos motores, avançamos
através de uma espessa cerca viva.
Galhos cheios de espinhos grossos
como braços prenderam-se às lagartas,
como que querendo sustar o avanço dos
tanques. À nossa frente surgiu uma
aparentemente interminável coluna de
caminhões verdes, carros de tração
animal, tanques e inúmeros ônibus
carregados de mulheres-soldados. A
coluna estava parada, retida
irremediavelmente num confuso tráfego
que se estendia por um quilômetro e
meio e que se alongava mais de minuto
em minuto.
Soldados da polícia russa (OGPU)
corriam de um lado para outro, tentando
manter a coluna em movimento. Pesados
caminhões inteiramente carregados
bloqueavam a estrada e por isso eram
violentamente empurrados para a
margem e desciam estrepitosamente pela
encosta adjacente. Os gritos e
lamentações podiam ser ouvidos a
quilômetros de distância. De vez em
quando uma rajada de metralhadora
vinha das sempre prontas Mpi dos
homens da OGPU, com os seus quepes
azuis, falavam tudo o que fosse
necessário falar.
— Deus nos ajuda — resmungou o
Velho. — Eles nos foram ofertados numa
bandeja. Lá estão quietinhos, à espera
de serem mandados para o inferno.
Segunda Seção! Ouçam-me! Apontar
para os transportadores de combustível,
e só para eles. Carregar granadas
incendiárias. O resto cuidará de si.
— Que tal tomar conta daquele
ônibus carregado de beldades
perfumadas, antes de mandar fogo nos
merdas? — propôs Porta, apontando
para um ônibus branco cheio de
enfermeiras.
— Fechar escotilhas! — comandou
o Velho. — Fogo à vontade!
Os soldados russos nos viram. Um
murmúrio percorreu a longa e
heterogênea coluna. Em seguida ouviu-
se um coro de gritos de terror.
Guarnições e passageiros pularam
para fora dos veículos e fugiram
correndo pela planície. Todos sabiam o
que estava para acontecer. Mulheres-
soldados lutavam desesperadamente
para escapar dos compridos ônibus
escuros.
Os canhões dos tanques abriram
fogo. As granadas incendiarias
penetravam dentro das cargas
inflamáveis dos grandes caminhões-
tanques.
Gigantescas colunas de fogo
elevavam-se em direção aos céus e
petróleo em chamas espalhava-se sobre
os caminhões carregados de munição.
Num abrir e fechar de olhos a coluna se
transformara numa enorme e crepitante
fogueira.
Centenas de pessoas morreram
imediatamente no ruidoso inferno.
Um pequeno grupo de soldados
russos veio correndo em nossa direção,
quando paramos dentro de um profundo
buraco. Tirei a metralhadora do seu
montante e forcei a tampa. É preciso
agir rapidamente quando se quer evitar
que nos destruam, no caso com as
bombas de combate aproximado, que
são o terror dos homens de tanques.
Eu estava a meio caminho para sair
da escotilha quando, olhando para cima,
dei com uma cara estranha. Era um
exótico emaranhado de uma cabeleira
vermelha com uma barba da mesma cor.
— Schort — exclamou ele,
mostrando na mão uma granada.
Apertei o gatilho e disparei um
carregador inteiro. A saraivada de balas
jogou-o para trás e dilacerou-lhe todo o
rosto. Banhado em sangue, ele
despencou do tanque e ficou caído entre
os cilindros. A granada escapou-lhe das
mãos e foi explodir ao seu lado.
— Raios do diabo! — praguejou o
Velho. — Será que inutilizou o cilindro?
Fechei a escotilha com estrondo. Já
tinha tomado bastante ar fresco.
O Velho chamou Barcelona pelo
rádio e lhe deu ordem de providenciar
nossa saída daquele buraco. Rebocar
era, em verdade, absolutamente
proibido, uma vez que o esforço
excessivo podia estourar o motor
Maibach. Mas na emergência fizemos
isso, embora quase sempre importasse
em sérios danos para o motor do tanque
que fizesse o reboque. A proibição era
para todos os tipos de tanque e a
decisão, tal como a que tomamos,
tornava-se difícil.
A guarnição pagaria um altíssimo
preço por maltratar um veículo ainda
utilizável. Era caso de prisão por
danificar seriamente um motor, usando-o
para auxiliar um outro em dificuldade.
— A quem toca a vez de um
passeio? — perguntou o Velho, com um
sorriso malicioso.
— Ao supersoldado do Führer e
Sven — respondeu Porta, rindo também
com malícia.
— Então, mãos à obra. Aprontem o
cabo — ordenou o Velho,
energicamente.
— Na última vez fomos nós —
reclamou Heide, afrontosamente.
— Por que essa reclamação? —
perguntou Tiny, com um riso sádico. —
Isso vai lhe dar uma chance de morrer
como grande herói, companheiro. Vá
andando e veja se dá uma puxadinha no
troço do Ivan.
— Cá estamos — anunciou
Barcelona pelo rádio. — Vão se
mexendo e botando logo esse cabo para
funcionar. O inimigo já está a caminho
com suas espingardas de brinquedo.
— Transmita ao Ivan bundudo
nossos protestos de amor — disse Porta
com uma gargalhada quando Heide abriu
a escotilha e saiu esgueirando-se.
Joguei-me entre os vãos dos
cilindros, abrigando-me contra uma
metralhadora que rompeu fogo, fazendo
levantar poeira com os seus tiros ao
longo do tanque.
— Parem com isso, seus demônios
— gritou Barcelona, impacientemente,
do alto de sua torre. — Vamos acabar
levando uma carga pela garganta abaixo,
antes de sabermos onde estamos.
— Cale essa boca, seu bobo —
reagiu Heide, com raiva. — O que você
faria de melhor era vir aqui dar uma
mãozinha à gente. Esse cabo é fogo!
Praguejando e lamentando-nos, com
as mãos sangrando, conseguimos por fim
ajustar o cabo nos pesados ganchos de
reboque.
— Puxe! — gritou Heide, furioso.
Soltei um grito terrível quando uma
granada de mão caiu ao meu lado. Por
puro reflexo dei um chute nela, fazendo-
a voltar à origem. Foi cair perto de um
cabo, explodindo e mandando-o pelos
ares.
— Que diabo você está fazendo aí?
— perguntou Barcelona, botando a
cabeça para fora da borda da torre, com
ar de troça.
— Não vê que estão atirando contra
nós? — gritei, zangado.
— Que que você esperava? —
respondeu com um riso sarcástico. —
Ainda não percebeu que está tomando
parte na guerra mundial?
O motor roncou. As chamas saíam
do cano de descarga e as lagartas
reviravam a terra, lançando grandes
torrões sobre nós.
— Saiam daí, raios! — gritou
Barcelona, inclinando-se para fora da
torre. — Querem ficar de bolas
esmagadas, tartarugas preguiçosas?
Pulei para fora e deixei minha
metralhadora cair sob as lagartas.
— Você vai ter que pagar a
metralhadora — gritou Heide,
autoritariamente. — Vão descontado do
seu pagamento tostão por tostão.
— Quadradão! — gritei para ele,
abrigando-me por causa de uma rajada
de metralhadora.
— Agora vamos tirar o cabo —
ordenou Barcelona, de testa franzida,
quando o nosso Tigre saiu do buraco.
— Como estava o tempo lá fora? —
perguntou Porta, ao entrarmos de volta.
— Os rapazes vizinhos contaram alguma
nova história?
Nem cogitamos de dar resposta.
À noitinha, o Regimento se mantinha
à espreita na borda da floresta. Os canos
apontavam para a estrada Charkov-Kiev,
que se dirige a Moscou, passando por
Orel. Muitos duvidavam que
pudéssemos chegar tão longe. Em nossa
Seção, só Heide acreditava nisso, mas
sua crença era tão forte que nos levava a
todos a acompanhá-lo. Vinda do rio, a
cerração chegava até nós, deslocando-se
através dos campos de milho e girassol.
Uma bateria dos “órgãos de Stalin”
lançava foguetes contra as posições
alemãs. Era uma coisa impressionante
acompanhar um foguete que vinha
voando através da cerração e explodia
acima do nível do chão. Isso fazia
lembrar aqueles antigos lampiões a gás,
que pareciam sempre estar se apagando
e de repente voltavam a luzir,
espalhando uma luz clara e cintilante.
No topo de uma colina as chamas
elevavam-se de uma casa incendiada.
Devia ser a residência de algum alto
funcionário. A colina era inteiramente
coberta por um tapete de flores
artisticamente arranjado. Uma visão
fantasticamente bela na luz bruxuleante
dos incêndios.
Nuvens de fumaça negra elevavam-
se de tanques T-34 russos e P-4 alemães,
em chamas à beira do rio.
Foram dadas ordens para se manter
o silêncio dos rádios e pairava no ar
uma estranha e ameaçadora sensação. A
nossa volta, árvores desgalhadas
pareciam enormes sentinelas nuas. Na
estação da estrada de ferro, ou melhor,
nas ruínas do que fora a estação,
estavam paradas locomotivas atingidas
por granadas e vagões de suprimentos
incendiados. Um trem de passageiros
deve ter sido colhido subitamente por
uma chuva de fogo e aço. Corpos de
soldados jaziam espalhados por toda
parte.
Uma mulher idosa perambulava sem
destino entre as ruínas do que um dia
fora sua aldeia. Farejava tudo
cuidadosamente, como um gato
movendo-se no meio de uma floresta
escura. Um tiro de fuzil soou,
perversamente. Ela caiu, arrastou-se um
breve trecho, em seguida saiu rolando,
cada vez mais rapidamente, por sobre as
ruínas, como um agitado feixe de trapos.
28
— Por que tinham de fazer isso? —
lamentou Porta, com ar tristonho. —
Aproveitem a vida enquanto podem,
rapazes. Estão arriscados a perdê-la
cedo.
— Já imaginou o que um cara pensa
quando é morto por um balaço? — disse
Tiny, vivamente interessado. — Será
que há tempo para se arrepender do
tempo que esbanjou?
— A coisa é muito rápida e não se
sabe nada até tudo terminar —
respondeu o Velho.
— Alguns gritam durante bastante
tempo — discordou Tiny, pensativo.
— É, acho que você tem razão —
concordou o Velho, cansado.
Granadas rubras de calor varavam
os céus, provindas da margem oposta do
rio. Caíam em plenas ruínas, derrubando
paredes já sem janelas. As baterias de
foguetes alemães respondiam das
posições atrás dos bosques. Uma
barreira de fogo estendia-se através das
nuvens. O ar enchia-se de gritos e
lamentações e do fragor das explosões,
como se mil demônios se dirigissem
para a terra.
O enorme edifício da OGPU em
Styrty desabou no meio de um mar de
chamas. Uma salva inteira de foguetes
atravessou o teto. As telhas foram
atiradas para a margem oposta do rio.
Paredes da grossura de um metro foram
abaixo, espalhando pela Praça
Proletária gigantescas nuvens de poeira
misturada a destroços de tijolos e
emboço.
Uma comprida série de minúsculas
celas de prisioneiros ficou exposta,
atrás da parede caída.
— Jesus e Maria — gritou Tiny,
boquiaberto. — Lá se foi a maldita
prisão!
— É com isso que um condenado a
longa pena sonha durante toda a sua vida
miserável — disse Porta, pegando um
dos cigarros do Legionário. -— Diabo,
deve ser chato para um lugar ficar vazio
quando um merda fardado resolve
finalmente fazer sua pontaria para ele.
— Repararam no céu? — perguntou
o Velho, completamente calmo, pondo as
mãos por trás da cabeça. –— Há tanta
estrela que se chega a não acreditar.
Estiramo-nos no chão úmido do
orvalho e ficamos apreciando a noite de
meio de verão. O rio brilhava e lançava
chispas de luz, como um colar cravejado
de brilhantes.
Longe, muito longe, na margem
oposta, a artilharia pesada dos russos
troava. As granadas passavam muito
acima de nossas cabeças, fazendo um
ruído que se comparava ao de um
comprido trem de suprimentos
atravessando uma ponte metálica. De
repente as estrelas foram suplantadas
pela luz ofuscante dos paraquedas
conduzindo fontes de magnésio. A
brilhante luminosidade revelava tudo.
Eram ruínas, corpos, trens destruídos,
tanques inutilizados, canhões retorcidos,
um panorama desolador, revelado na
cruel luminosidade do magnésio
incandescente. A luz macabra punha em
evidência cada recesso, cada fenda,
alertando para o perigo de uma morte
súbita, violenta. As chamas pareciam
penduradas no céu para toda a
eternidade, a luz gotejando delas como
sangue branco, e as ruínas e as margens
do rio cintilando como vidros em sua
exuberante claridade. Muito tempo
depois de apagada a última chama e as
estrelas tornadas a brilhar sobre nossas
cabeças, pusemo-nos de pé
cautelosamente e começamos a procurar,
tensos e nervosos, onde, dentro da noite,
a morte estaria espreitando, a coberto de
cada árvore, de cada rocha.
Os canhões voltaram a atroar os
ares, provocando um prolongado e mil
vezes repetido eco ao longo do rio. As
chamas e os clarões tornaram a brilhar,
em todos os matizes imagináveis. A
fumaça enjoativa dos tanques em chamas
tomava um colorido violeta
avermelhado. Um rifle automático fez-se
ouvir e uma saraivada de projéteis
traçantes serpenteou através do rio. Uma
série de disparos cortou a noite. Chamas
se erguiam. Os soldados colaram-se ao
solo, enfiando os rostos no capim
molhado.
Os milharais pegavam fogo.
Pipocavam sem cessar, como se uma
infinidade de detonações estivesse
ocorrendo na escuridão dominante. O
chão estava ensopado de orvalho
noturno, mas nós não dávamos atenção a
isso.
Estiramo-nos exaustos embaixo dos
tanques, com um só pensamento: dormir
cem anos!
Os 36 tanques Tigre aguardando
ordens dentro da borda da floresta eram
o remanescente de três companhias
pesadas que conseguiu escapar do
inferno de ferro e fogo. Estavam todos
negros da fuligem e sua cor amarelo-
esverdeada se enchera de bolhas e
descascava. Em sua maior parte os
veículos haviam perdido os protetores
das lagartas, e as couraças apresentavam
nossas produzidas pelas granadas que
não lograram penetração. As enormes
lagartas de um metro de largura
atestavam a passagem por cima de
corpos humanos e de animais, tal a
quantidade de resíduos de carne gordura
e ossos que nela se prenderam,
pendendo dos seus elos As guarnições
acabaram se acostumando-se àquilo. O
pior era o mau cheiro. Ficava
impregnado em nossos uniformes e o
pior — em nossa pele. O Velho disse
que esse cheiro nos acompanharia por
toda a nossa vida.
Um bando de perdizes bateu as asas
logo a nossa frente e fugiu assustado,
fazendo grande alarido. Porta e Albert,
indóceis como cães de caça, saíram
atrás das aves fugitivas. Albert foi o
primeiro a desistir, mas Porta estava tão
otimista que as seguiu até o rio, onde
finalmente teve de entregar os pontos.
Eles as acompanhavam
desapontados, mastigando em seco,
sonhadoramente.
— Pense bem, aqueles diabinhos
deviam estar há muito tempo ciscando
por ali, nas nossas barbas, esperando a
vez de pular para dentro da panela. E eu,
burro, não vi nada — disse Porta, quase
chorando de desapontamento. — A
propósito, vocês conhecem um prato
peruano chamado Perdiz Encapada? —
perguntou, lambendo os beiços. —
Primeiro apanha-se quatro perdizes,
torcesse o pescoço delas, depena-se,
limpa-se cuidadosamente e corta-se em
dois, ao comprido, com uma faca bem
afiada. Corta-se cinco cebolas em
rodelas bem finas. Dois pimentões
maduros, vermelhos como comunistas,
cortados em fatias. Aipo branco, cortado
fino. Três cabeças de alho são de
absoluta necessidade, assim como uma
folha de louro, que deve ser rasgada
atravessado.
Aí então não se deve esquecer, pelo
amor da Virgem Santíssima, sal e salsa.
A metade disto deve ser espalhada numa
pequena panela de assar e as perdizes
postas sobre ela, com as partes
gordurosas para cima. Cobre-se tudo
cuidadosamente com o restante das
verduras e faz-se um molho que os bons
cozinheiros chamam escabeche. Aí põe-
se três colheres de sopa cheias de azeite
de oliva. Nada de, vejam bem, nada de
manteiga ou óleo de fuzil. Isto espantaria
nossas perdizes e elas se juntariam de
novo e sairiam voando.
Porta acompanhou com os olhos a
ruidosa trajetória de uma granada e
prosseguiu: — Agora uma gota de
vinagre aromatizado com estragão, um
salpico de vinho branco, uma pontinha
de pimenta-branca, uma colher de sopa
de pimenta do chile, em homenagem ao
diabo, um limão inteiro espremido até a
última gota. Toda essa mistura é
espalhada sobre as perdizes, ainda na
panela.
Deixe-se ferver até ficarem tenras.
Põe-se de lado para esfriar. é que esta a
essência da coisa, pois elas devem ser
comidas frias.
— Pelo amor de Cristo, pare com
isso — resmungou o Velho, tirando do
bolso um pedaço de pão seco. —
Ouvindo isso a gente fica ainda mais
esfomeado.
— Isso acontece comigo, quando
vejo você sentado por lá e mastigando
esse seu pão — respondeu Porta, rindo
gostosamente, — O que me faz lembrar
um prato marroquino chamado Pão de
Coco. Primeiro rouba-se dois pães
brancos de um padeiro, enquanto ele
está entretido com uma garota ou outra
coisa qualquer, mergulhe no creme,
passe numa panela com coco ralado, que
se pode igualmente roubar do mesmo
sujeito louco por mulheres, e leve a
tostar em fogo brando, de carvão.
Devem ser servidos ainda bem quentes,
acompanhados, por exemplo, de cerejas
geladas ou damasco cozido. Eu
pessoalmente prefiro cerejas. Um
marroquino culto saboreia três ou quatro
pedaços, antes de tirar suas largas
calças e entregar-se aos prazeres do
harém.
— Uma palavra mais e essa será a
sua última! — gritou Barcelona,
puxando a pistola. — Eu queimo seus
miolos, se é o que está querendo.
— Você, Albert, cujos antepassados
vieram das partes mais selvagens, há de
certamente conhecer o prato indiano
conhecido como Talharim Doce, não é?
— continuou Porta, sem ligar para a
ameaça de Barcelona. — Quem me deu
a receita foi um humilde selvagem que
tinha em Berlim uma cozinha para
canibais.
— Viram os cogumelos em nossa
passagem hoje de manhã? — perguntou
Tiny, da escuridão.
— Não! — gritou o Velho, tapando o
ouvido com as mãos. — E não queremos
saber nada sobre eles!
— Cogumelos — suspirou Porta,
lambendo os beiços. — Se a gente
passar outra vez pelo lugar, a gente pode
fazer aquele prato chinês Cogumelos
Cantantes. A receita dele me foi dada
por um major chinês que visitou o
depósito de munições do Exército em
Bamberg. Eu tive de explicar a ele o
funcionamento das novas latas de
explosivos, mas deve ter havido algum
mal-entendido, questão de língua, sei lá,
porque ele acabou se mandando direto
param o inferno chinês por causa de
duas das tais latas. Por sorte minha; ele,
antes de partir para a eternidade, me deu
a receita dos Cogumelos Cantantes. É
um prato notável, uma pièce de
résistance, como dizem os franceses,
tanto com carne como com peixe. E
também uma dádiva para o estômago
quando usado com arroz cozido ou...
— Deem-lhe uma porrada! —
rosnou Gregor. — Esse maluco já
encheu a paciência de todos nós.
Pouco antes do amanhecer, o
Regimento partiu. Duzentos e sessenta
tanques, encabeçados pelos pesados
Tigres. À nossa frente apresentava-se
uma enorme rodovia, reta como uma
corda esticada.
Passamos roncando por unidades
russas, que nos ficavam olhando
aparvalhadas, sem esboçar um
movimento. Em seguida atravessamos
estrepitosamente uma aldeia, levantando
na passagem uma gigantesca nuvem de
poeira. Atirávamos algumas rajadas
curtas e impiedosas contra grupos de
soldados russos que víamos em plena
fuga.
— Que diabo é isso? — gritou
Porta, freando o pesado Tigre junto a
uma ponte.
O trecho da estrada à nossa frente
estava inteiramente ocupado por
animais. Eram carneiros, milhares de
carneiros. Eles se comprimiam à nossa
volta, empurrando-se, apertando-se,
fazendo com que a estrutura da ponte
estalasse.
O rádio chamava impacientemente.
— Comando da Companhia para
Segunda Seção. Por que razão está
parando, Beier? Para a frente! Mova-se,
mova-se! Movimento, abra esses olhos!
Não pare, haja o que houver! Quantas
vezes tenho de lhe dizer isto?
— Mas, senhor... — ia dizendo o
Velho.
— Não quero ouvir uma palavra —
berrou Löwe, histericamente. — Para a
frente! Vá passando por cima do que
encontrar pela frente! Quer que exiba
isso para você num papelão? Se parar
mais uma vez, vai bater numa corte
marcial!
Fim de papo!
— Segunda Seção, marche! —
comandou energicamente o Velho.
— Oh, não! — resmungou Porta,
revoltado. — Deixar esta comida toda?
Eu tenho uma receita para costeleta de
carneiro com conhaque e erva-doce.
Muito estimulante para pessoas que
tenham estômago forte. Me disseram que
aumenta a potência sexual dos homens.
A continha para quando se vai a uma
casa de tolerância.
— Cale a boca e trate de dirigir! —
berrou o Velho, já irritado, descendo da
torre.
— Isto é uma vergonha! — protestou
Porta. — Mas se é assim que querem,
paciência! — Até então nenhum de nós
sabia que os cabritos e os Carneiros
podiam gritar. Pois agora sabíamos. Os
seus gritos são como os de crianças
amedrontadas.
A ponte e a estrada viraram uma
mistura de sangue, carne e ossos.
Nuvens de lã voavam pelo ar quando
passamos pelo imenso rebanho. Já
estávamos quase nos livrando dele
quando, alguns quilômetros adiante,
alcançamos uma coluna de civis
refugiados que se deslocava apressada e
rumorosamente, tomando o leito da
estrada, de lado a lado.
— Venha morte, venha — dizia a
voz do Legionário, pelo rádio.
— Um dia eu esgano esse sujeitinho!
— berrou o Velho, furioso.
— E agora? — perguntou Porta. —
Não posso passar por fora deles. Nem
pensar. E tudo pântano. Se sairmos da
estrada, não vamos poder evitar que este
troço afunde com a gente dentro.
Como que respondendo à pergunta, o
rádio ordenou: — Para a frente! Vão por
cima deles! A guarnição que parar vai
para a corte marcial!!
— Blindados, marche! Segunda
Seção, siga-me! — ordenou o Velho,
batendo com ambos os punhos na borda
da torre, absolutamente acabrunhado.
Os civis fugiram para os lados,
caindo no pântano. Um garoto ficou de
bicicleta na frente dos tanques. Uma
tentativa louca, desesperada de fazer
parar o Tigre. Outros indivíduos
errantes, carrinhos com crianças,
inválidos, todos foram deixados à sua
própria sorte. Os que escaparam das
ruidosas lagartas acabaram mergulhando
no abismo do pântano. A última imagem
que tivemos deles foi de suas mãos
estendidas, desamparadas, em inútil
apelo aos céus, antes de desaparecerem
com um gorgolejo impressionante no
lodaçal esverdeado.
— Isto é puro assassinato! — disse
o Velho, horrorizado.
Escoltas russas foram surgindo,
buzinando, de uma estrada lateral,
encabeçando um grupo de tratores que
rebocavam obuseiros saídos da fábrica.
Soldados da OGPU, com
metralhadoras mantidas atravessadas no
peito, fizeram-nos sinal para que
parássemos. Descobriram. tarde demais,
que éramos uma tropa de tanques Tigre,
com as quais não poderiam competir, e
que não toleraríamos sinais de parar
interferindo em nosso caminho.
Um comissário ficou de pé no
sidecar mais avançado, agitou os braços
nervosamente e caiu por terra crivado
de traçantes.
— Alvo inimigo exatamente à frente!
— gritou o Velho. — Alcance trezentos
e cinquenta metros! Carregar HE! Alto!
Fogo!
Os pesados tratores da artilharia
foram reduzidos a pedaços e os
obuseiros.
atirados para os lados. As escoltas
de motocicletas voaram para dentro da
floresta, ficando suas máquinas
retorcidas à volta dos grossos troncos
das árvores.
Um graduado da OGPU foi jogado
sobre uma torre, pendeu por momentos
sobre a cobertura do motor e depois
escorregou, chiando, para dentro do
rubro cano de descarga. A gordura do
seu corpo queimou-se em pequenas e
esvoaçantes chamas. O horrível cheiro
penetrou no tanque, e todos nos sentimos
mal.
O sol havia raiado. O horizonte se
apresentava banhado numa luz
maravilhosamente dourada. Abrimos as
escotilhas, inspiramos profundamente
um ar revigorante e por alguns segundos
esquecemos a dureza da guerra. Um
bando de faisões voava baixo e
ruidosamente, atravessando a estrada.
— Santa Maria! — gritou Porta,
acompanhando-os com a vista como uma
raposa faminta. — Se eu conseguisse
apanhar alguns desses amiguinhos
mostraria a vocês o que é um Faisão à la
Hannibal. Além das aves nós só
precisaríamos de uni pouco de canela,
uni punhado de damasco seco, ameixas,
cerejas, um pouquinho de açafrão,
cravo-da-índia e cogumelos cortadinhos.
Para completar, um copo de vinho
branco e uma colher de chá de açúcar.
Um pouco de osso com tutano de novilha
não seria demais, pois nesta época do
ano essas lindas aves estão muito
gordinhas.
— Ainda não acabou, suíno
desnaturado? — rosnou o Velho,
jogando em cima dele uma caixa vazia.
Um grande veículo de transporte de
pessoal de infantaria surgiu
repentinamente de uma estrada de terra,
a toda velocidade, e ao fazer a curva,
rodopiou como pião e virou, jogando
longe, sobre a estrada, os soldados que
nele iam. O Tigre de Barcelona, que
descia uma colina, tentou frear, porém as
suas 68 toneladas o obrigaram a
deslizar, com as lagartas freadas, e a
alcançar os soldados caídos na estrada,
passando por cima deles e reduzindo o
caminhão tombado a um monte de
sucata. E continuou deslizando, só sendo
contido ao abalroar um veículo de
transporte de tropas.
— Puxa vida! — exclamou
Barcelona, aterrorizado, olhando por um
óculo de observação. — A estrada está
em chamas!
— Eles devem ter empregado lança-
chamas — resmungou o Velho. — Foi o
que arranjamos.
O Tigre de Barcelona já se achava
no meio de um inferno de fogo, com o do
Legionário a apenas uns poucos metros
atrás. Centenas de lança-chamas
vomitavam fogo sobre toda a estrada,
tornando o lugar como que num forno.
As pinturas se iam desfazendo em
grandes bolhas. O ar era tão quente que
só respirar já queimava nossa garganta e
nossos pulmões.
— Não estou vendo nada, nada! —
disse Porta, tossindo e derramando água
sobre a cabeça.
— Avancem!! — ordenou o
comandante da Companhia pelo rádio.
— Se pararmos estamos perdidos!
A meio caminho do mar de chamas o
motor começou a espirrar. Os lança-
chamas estavam absorvendo todo o ar.
— Engrenem a primeira — ordenou
o Velho. — A primeira marcha exige
menos ar.
— Vá ensinar padre-nosso ao
vigário! — reagiu Porta, irritado. —
Cuide da parte de tiro e deixe a máquina
por minha conta. Nesta droga o
engenheiro-chefe sou eu!
De repente ficamos fora do cinturão
de fogo. Sem atentar para o que pudesse
estar se passando lá fora, abrimos
rapidamente todas as escotilhas, com um
só pensamento: respirar!
— Bem, pelo menos ficamos
sabendo o que é a gente estar como que
sendo assado — resmungou Porta com
voz rouca, enxugando o rosto suado com
panos úmidos.
— Avançar a toda velocidade! —
comandou com raiva o comandante da
Companhia, pelo rádio, mostrando-se
bastante impaciente. — Não parem!
A 5ª Companhia entrou como um
furação numa aldeia, sem ligar para o
fogo de infantaria vindo das casas, e
prosseguiu em sua marcha através de
intermináveis campos de girassol. Com
os canos de descarga vomitando línguas
de chamas, penetramos numa grande
cidade-mercado, na qual soldados
russos, em uniforme de verão,
passeavam despreocupadamente, como
se estivessem em serviço de guarnição
de tempo de paz.
Do lado de fora de uma casa que se
assemelhava a um castelo, alguns
pelotões faziam exercícios. Praticavam
a continência em marcha. Marchavam
com passo de ganso perante um
graduado, levando a mão ao quepe e
girando o corpo a partir dos quadris,
desajeitadamente, como típicos recrutas.
A Companhia fez um ruidoso alto,
com as torres girando para nos garantir
contra a possibilidade de um ataque
vindo de qualquer direção.
Os russos nos olhavam admirados,
como se tivéssemos caído do céu. Um
soldado continuou a marcha de
treinamento de continência porque o
graduado não deu o comando de “Alto!”.
Se não tivesse ido esbarrar numa
parede, talvez continuasse marchando
através da Rússia, da China, entrando no
Oceano Pacífico e morrendo afogado.
Um oficial de grandes galões nos
ombros abriu uma janela e gritou
qualquer coisa que ninguém entendeu.
Estávamos quase tão admirados
quanto os russos. Ninguém deu um tiro,
ninguém fugiu. Até as galinhas ficaram
paradas, olhando com o pescoço
esticado.
Um grupo de oficiais saiu do
castelo. Toda espécie de armas portáteis
se achava exposta em conjunto,
formando um grande monte no meio da
praça local, ao pé de um monumento
alusivo à Primeira Guerra Mundial e
consistindo em uma figura que apontava
para o céu como um dedo de pedra.
Um general de exército russo,
comandante de um corpo de tanques de
reserva, foi feito prisioneiro pela 2ª
Seção, juntamente com todo o seu
estado-maior, sem que se desse um tiro.
— Que diabo vamos fazer com eles?
— perguntou Porta, preocupado. — Se
começam a planejar coisas, nosso
traseiro vai ficar preto como o do Albert
antes que a gente abra os olhos.
— Dá-se uns tirinhos — propôs Tiny
— eles fogem e a gente fica livre deles.
Um general como ele, com todo esse
estado-maior, pode nos criar um monte
de problemas.
Antes que o Velho tomasse uma
decisão, o Capitão Löwe entrou na
praça à frente da 5ª Companhia — Por
que diabo você está parado, Beier? —
foi ele gritando, branco de raiva, da
torre aberta. — Não lhe dei ordem de
não parar? Quer passar o resto da vida
em Germersheim?
— Com sua licença, senhor a
Segunda Seção capturou um general,
comandante de corpo, e todo o seu
estado-maior.
— Que que você fez? — perguntou
Löwe, pasmo olhando pela primeira vez
em torno de si.
A escotilha abriu-se ruidosamente e
Löwe pulou para fora da torre, ajeitou o
uniforme manchado de óleo e ajustou o
capacete de campanha como mandava o
regulamento. Cumprimentou o general
russo com todo o formalismo, sendo
correspondido de um modo reservado.
Apertaram-se as mãos e observaram as
normas de polidez das pessoas
civilizadas.
— Olha lá — disse Porta, apontando
na direção dos oficiais que se
aglomeravam no enorme terraço. — Não
passam de uns sujos! É o que eles são,
esses sujeitos de botões polidos. Nós do
ralé eles esquecem por completo. Löwe
recebe um trocinho bonitinho para usar
em volta do pescoço e nós levamos um
pontapé na bunda por termos parado!
Pouco depois os órgãos de comando
do Regimento entraram ruidosamente na
praça. O Tenente-Coronel Hinka
cumprimentou o general e seu estado-
maior e logo depois a 5ª Companhia
retomou a marcha a grande velocidade.
— Ué, que diabo! Onde se meteram
os vizinhos? — perguntou Porta,
cismado, depois de marcharmos várias
horas sem nenhum sinal de russos.
— O Ivan foi para casa. Acho que
acabou enchendo desta guerra mundial
— pensou Tiny, com otimismo.
A floresta espalhava-se à nossa
volta como um infindável oceano verde
quando fizemos um alto momentâneo
numa colina, para verificação do nível
do óleo. Era esse um dos pontos fracos
do tanque Tigre. Se houvesse pouco óleo
o motor se superaquecia e podia até
pegar fogo.
A conversa descuidada pelo rádio
diminuía à medida que íamos penetrando
fundo na floresta interminável. Até Porta
estava calado. Enchemos os tanques num
depósito de combustível russo
abandonado. Depois prosseguimos a
marcha.
Botei o olho na ocular forrada de
borracha do periscópio, examinando
tensamente todos os grupos de árvores
onde pudesse estar emboscado um
canhão antitanque. Eu ansiava para ouvir
o som do tiro de um fuzil, o que
certamente relaxaria um pouco a tensão
nervosa decorrente daquele misterioso
silêncio.
Porta fazia o motor dar o máximo de
sua potência, serpenteando entre as
crateras de granadas e as carcaças dos
veículos incendiados. Corpos de
soldados e civis espalhavam-se pelo
meio da estrada. Eram corpos inchados,
em decomposição, cobertos de milhões
de grandes moscas azuis, que zumbiam,
em nuvens. ao serem espantadas pela
rumorosa passagem dos pesados tanques
Tigre.
O Legionário ia marchando à frente
da coluna quando avistou, felizmente
para a Seção, uma barricada contra
tanque, coberta pelos novos canhões
antiaéreos russos, que podiam passar a
antitanques mediante uma simples
adaptação. A 300 metros eles eram
fatais para os tanques Tigre. A essa
distância suas granadas penetravam nos
nossos dez centímetros de blindagem
frontal como faca em manteiga.
O velho mandou fazer alto e
examinou cuidadosamente o perigoso
obstáculo pelo binóculo.
— Impossível continuar avançando
— informou ele pelo rádio, —
Desborde pelo braço do rio e atravesse
lá — foi a ordem consequente.
Forçamos a passagem pela floresta,
paramos por momentos diante de um
lago interno, tão largo que quase se
poderia chamá-lo de mar.
— Fechar escotilhas! — comandou
o Velho. — Levantar o respiradouro!
29
Em linha, lado a lado, continuamos
nosso deslocamento, agora por dentro
do lago. Os tanques Tigre podiam se
aprofundar na água até aproximadamente
três metros e meio do nível, mas a
verdade é que ficávamos extremamente
nervosos quando nos aventurávamos em
lugares que absolutamente não
conhecíamos. Sabia-se de tanques que
atolaram no fundo lodoso e afundaram
nele em pouquíssimo tempo. Quando
trazidos novamente à tona, e nos casos
em que isso foi possível, as guarnições
já estavam mortas há muito tempo por
asfixia.
— Puxa, que raio de lago mais
gelado! — reclamou Porta, levantando
os ombros e tiritando de frio.
— Olha aqui. Veja isto. Tem arenque
por todo lado — gritou Tiny,
maravilhado e apertando os olhos
ansiosamente na ocular do periscópio.
— Se se pudesse dar uma paradinha
de um minuto — sugeriu Porta —
poderíamos dar um pulinho lá fora e
pegar um bocado de mexilhões. Aí eu
podia preparar meu Mexilhões à la
Normande para vocês. Seria fácil
encontrar cebolas para serem cortadas
juntamente com salsa e cerefólio...
O Velho puxou a pistola e encostou o
cano na nuca de Porta.
— Uma palavra mais sobre comida
e esse maldito crânio berlinense vai
ficar espalhado pelo teto.
— Você nunca será um apreciador
da boa comida — respondeu Porta,
desdenhosamente. — Você me faz
lembrar muito o Senhor Kamphalter, que
morava nos roseirais na vizinhança de
Paderborn...
— Cale-se — vociferou o Velho,
possesso.
Ele foi interrompido por um
estrondo que abalou nossos ouvidos.
Fomos jogados para a frente, sobre os
instrumentos, e para cima, contra a
couraça de aço.
— Que diabo foi isso? — perguntou
o Velho, atordoado, com um filete de
sangue escorrendo da testa, da pancada
na borda da torre.
— Uma enorme rocha comunista e
ateísta em nosso caminho — respondeu
Porta, tomando um grande gole d'água
do seu cantil.
— Será que pode contornar? —
perguntou afobado o Velho. — O fundo
aqui é fofo como bosta fresca de vaca.
você sabe.
— Pare de cagar regras — disse
Porta, presunçosamente, fazendo o
tanque contornar a rocha mas levantando
tanta lama que ficamos impossibilitados
de ver alguma coisa. Passamos ao longo
da pedra que Porta havia abalroado,
gastando um tempo que nos pareceu uma
eternidade, até que se conseguiu
encontrar uma saída bastante espaçosa
para o Tigre. Finalmente achamo-nos
com terra bastante firme sob as lagartas
e voltamos à margem, deixando para trás
a perigosa posição antitanque.
Uma companhia de tanques russos T-
34 achava-se em linha um pouco atrás
de um ponto em que quatro estradas se
entroncavam na estrada principal para
Charkov. Abrimos fogo contra eles à
distância de 15 metros. Eles foram
tomados pelas chamas e nós então
passamos livremente sobre os destroços.
Algumas esquadrilhas de
bombardeiros de mergulho russos
atacaram nossa coluna, porém as
bombas explodiram longe na estepe e
nos bosques, com um impacto abafado
que não nos causou o menor dano. Sem
encontrar resistência séria,
prosseguimos em frente, descortinando
em pouco o brilho prateado das águas
do rio, bem à nossa frente. Ali se viam
embarcações emborcadas, girando à
deriva na superfície da água, e corpos
inchados boiavam entre as margens
verdes, onde um bando de aves
pernaltas espiava com curiosidade.
Atrás de nós caíram algumas
granadas, levantando terra e troncos
decepados de árvores.
— Segunda Seção à beira do rio —
informou o Velho pelo rádio.
— Atravessar! — foi a ordem que
veio secamente. — Segunda Seção,
siga-me! — comandou o Velho,
assinalando com a mão o rumo da ponte.
Dois aviões russos Jabo surgiram
voando baixo, logo acima do topo das
árvores. Varreram a estrada com as
metralhadoras. Soldados soviéticos
surgiram em grande número, vindos das
dachas ao longo do rio e dos edifícios
em chamas de um kolchos. Uma vara de
porcos, tomados de terror, corria
grunhindo na frente deles, voltando-se
repentinamente e correndo desatinada
para dentro do mar de chamas. Tanto os
soldados como os civis abriam os
braços para mostrar que não estavam
armados. Vadearam, indiferentemente, o
lamaçal, que lhes cobria até os joelhos,
desceram em magotes a colina e vieram
como uma sólida parede humana
diretamente para o nosso lado. Os mais
avançados diminuíam receosos o passo,
mas a massa que vinha atrás os
empurrava vigorosamente. Sentaram-se
à volta dos nossos tanques, olhando para
as janelas de visada e esperando, tensos,
o que estava para lhes acontecer.
— Que é que devemos fazer com
eles? — perguntou o Velho, olhando
para a multidão que nos cercava e que
exibia um triste ar de derrota.
— Estão desarmados — reparou
Heide, brincando inquieto com a
metralhadora frontal.
— Como é que vamos ter certeza
disso? — resmungou Porta. ainda em
dúvida.
— Que diabo faço com esse
pessoal? — perguntou nervosamente
Barcelona pelo rádio. — Tem tanta
gente que podiam pegar os raios destes
tanques e fugir com eles, se quisessem.
— Cabeça fria agora — aconselhou
o Velho. — Antes de mais nada,
mantenha essa gente afastada dos
tanques. Basta um incitar para eles nos
dominarem.
— Russos de merda! Nulidades! —
disse Heide, enfezado, sentindo-se
ferido em sua honra de soldado. — Na
União Soviética é considerado como
alta traição o sujeito se render.
— E, esse pessoal aí parece que não
aceitou o pensamento do soldado fiel
“Morrer pela Pátria é doce e honroso”
— comentou Porta, rindo
debochadamente.
— Dulce et decoram est pro patria
mori — citou Heide, exibindo com ares
de importância o seu latim.
Um dos antigos “moinhos de café
voou baixo, pouco acima dos soldados
que se tinham rendido. Estava bastante
perto, de modo que pudemos ver
perfeitamente o piloto ameaçando-os
com o punho fechado. Depois subiu e em
pouco não passava de um pontinho no
céu.
Alguns minutos depois ouviram-se
silvos conhecidos e uma salva de
granadas explodiu no meio da multidão,
arremessando muitos deles para dentro
do rio.
Um grande grupo de KW-2 e T-34
russos veio deslocando-se através dos
campos de girassol, mantendo larga
formação em flecha.
Suas metralhadoras despejavam
prolongadas salvas de projéteis no meio
da massa humana à sua frente. Os
canhões abriram fogo. As chamas
elevavam-se do chão. Houve uma
verdadeira chuva de partes dilaceradas
de corpos humanos.
— Vamos arrasar esses miseráveis!
— gritou Porta fora de si. — Filhos da
puta sujos, nojentos!
— Segunda Seção, todos os
veículos! Fogo a vontade. — comandou
energicamente o Velho.
— Granada S! — comandei, e a
culatra fechou-se.
A granada atingiu o primeiro KW-2,
arrebentando-lhe a torre.
— Venha, morte, venha... —
murmurava o Legionário, pelo rádio. —
Um Panzer-3 ficou completamente
destruído. Pouco depois dois Panzer-4
tiveram o mesmo destino. Os
comandantes dos T-34 agiram com
bastante esperteza para concentrar o
fogo nos blindados mais leves, nos quais
eles podiam ser mais eficientes a grande
distância.
Os nossos tanques foram tomados
por uma fumaça espessa, venenosa de
cordite Nossos dentes e olhos se
destacavam numa cara preta de fuligem.
Cada vez mais tanques atropelavam
e atropelavam a massa humana presa de
indescritível pânico. A guerra estava
celebrando uma orgia triunfal e a
humanidade transformou-se numa farsa.
As munições explodiam nos vagões
incendiados, torres de tanques Pesando
toneladas eram atiradas para o ar e
caiam ao solo com força arrasadora.
Aviões blindados roncavam nas
alturas e lançavam sobre os tanques
foguetes que vinham, assobiando,
atormentá-los em sua sarabanda
assassina pelo chão.
Na esteira dos aviões blindados
surgiam os caças ME-110 e YAK.
metralhando céus afora. Os
bombardeiros de mergulho e os aviões
blindados fugiram em pânico. Muitos
não conseguiram escapar e desceram em
parafuso, indo explodir no meio dos
tanques.
Em um curto espaço de tempo todos
os homens que se achavam sentados ou
deitados à volta dos tanques Tigre
haviam sido reduzidos a uma massa
sangrenta irreconhecível, depois de
submetidos à ação destruidora das
lagartas e granadas.
— Torre, três horas. T-34 —
ordenou tranquilamente o Velho.
Girei vertiginosamente a torre e
coloquei o T-34 na mira. Vi
perfeitamente a granada penetrar num
lado dele, mas para nosso
desapontamento o monstro verde
continuou sua marcha como se nada
tivesse acontecido.
— Canhão carregado. Pronto —
anunciou Tiny mecanicamente, já com
outra granada de ogiva negra, para
perfuração de blindagens, nas mãos.
Houve o choque de aço contra aço,
ouviu-se o ruído da detonação e o fragor
da explosão, e a fumaceira aumentou à
nossa volta. fazendo do interior do
tanque um completo inferno.
Novamente a granada penetrou no T-
34. Uma longa coluna de fogo elevou-se
da torre. Três dos quatro homens da
guarnição pularam fora e abrigaram‹se
atrás do tanque. O uniforme de um deles
estava em chamas.
Heide lançou uma longa série de
projéteis traçantes em cima deles, mas a
trajetória era curta. As balas levantavam
terra atrás deles. sem alcançá-los na
fuga.
— Pare de atirar! — ralhou o Velho,
zangado. — Não temos necessidade de
sermos piores assassinos do que já
somos obrigados a ser!
Chamas avermelhadas elevaram-se
do T-34 e uma fumaça negra e oleosa
subiu ao céu limpo e azul. Mas para
nossa estupefação ele começou
novamente a mover-se, vindo roncando
e a ainda maior velocidade em nossa
direção.
Girei a torre pelo controle manual e
lancei três granadas de fragmentação
contra o tanque que se aproximava, sem
acertar uma só.
— Será que esse maluco filho da
puta está farto da vida? — gritou Porta,
pressionando os 700 cavalos do motor
para lhe dar toda a potência disponível,
de modo que o Tigre dava a impressão
de empinar e oscilar sobre as lagartas.
Porta conduziu-o diretamente ao T-
34, em rumo de colisão.
— Pare! — berrou o Velho. — Você
também enlouqueceu?
— Agarre-se à sua dentadura! —
respondeu Porta, como um lobo açulado.
— Isto é um assunto entre um motorista
de tanque alemão e um russo. Dê o fora
e vá passear, se está com medo. Eu vou
mostrar a esse vizinho de miolo mole
com quantos paus se faz uma canoa!
30
Nunca em minha vida completei uma
perfeita visada tão rapidamente. A
granada partiu do cano do canhão a uma
velocidade inicial de mais de mil metros
por segundo e foi chocar-se com a borda
da torre do T-34. Faíscas riscaram o ar e
fragmentos de aço passaram zunindo
como vespas enfurecidas, mas a granada
de perfuração de 88 mm ricochetou e
desviou-se em direção às nuvens. A
numerosa bola de fogo em que se
transformara o T-34 continuou rolando
em nossa direção inexoravelmente.
— Ele deve estar louco! — gritou
Heide, agachando-se amedrontado
debaixo do rádio. — Ou então é o
próprio demônio, em pessoa.
Com um estrondo e um terrível
rumor de ferragens, o T-34 em chamas
abalroou o nosso tanque. Em questão de
segundos estávamos cercados por um
paredão de fogo e uma fumaça negra e
oleosa.
— Para trás! Para trás! — berrava o
Capitão Löwe pelo rádio. — Ficaram
malucos?
Por momentos pareceu que todo o
conjunto da grande batalha de tanques
havia parado para apreciar o combate
singular e insano entre o fanático
motorista de tanque russo, no seu P-34
em chamas, e nós. Em toda a área da
tremenda refrega, parecia que as
respirações estavam suspensas. A
qualquer momento a munição do T-34
poderia explodir e causar uma reação
em cadeia de dimensões raras, talvez
nunca vistas até então.
Porta tentou recuar e livrar-nos da
proximidade mortal do T-34, mas o
tanque inimigo parecia preso ao nosso
por garras de ferro. Ele nos seguia,
grudado ao nosso.
— Vamos sair daqui antes que a
munição e o combustível explodam —
gritou Heide, aterrorizado, abrindo à
força a escotilha.
— Firmem as escotilhas! — ordenou
o Velho, energicamente. — Ninguém sai
daqui sem minha ordem!
— Que diabo está acontecendo? —
perguntou Tiny inocentemente, pondo os
olhos na ocular do visor. — Será que
seremos esculhambados por um T-34
— Deixa de dizer besteira! —
reagiu Porta rindo — Estamos é nos
Preparando para uma viagem aérea sem
regresso em companhia de um dos
malucos do vizinho.
O interior do tanque ficou tomado
por uma fumaça negra, malcheirosa, e
nós já lutávamos com violentos acessos
de tosse. O calor era insuportável as
chamas já infiltravam algumas pontas
luminosas no recinto.
Porta xingava e blasfemava
acremente, tentando todos os meios
possíveis de dar uma guinada no Tigre
Mas o fato era que estávamos
irremediavelmente agarrados, Os metais
retorcidos rangiam e estalavam.
— Dá-lhe uma pílula, em nome do
inferno! — gritou Porta furioso. —
Enxota esse comunista safado da face da
terra!
— Não posso — respondi
desesperado — Este merda de canhão
está apontado em cima deles.
— Atira assim mesmo — gritou
Porta — Pode ser que o choque e o
estrondo façam o sacana se mancar.
— Granada S! — ordenou o Velho
— A chama a boca deve queimar a
roupa desse maluco idiota!
A granada partiu com uma detonação
ensurdecedora, mas pareceu não
produzir nenhum efeito no motorista
suicida do T-34. Ele fez com que o
tanque em fogo forçasse mais a nossa
chapa frontal As chamas lambiam todo o
Tigre.
— Ele deve estar com o crânio na
bunda — gritou Porta ao ver o bojo da
torre do T 34 bem a frente de sua Janela
de observação. — Não é como nós, —
Porra! Ele está esmagando meu canhão!
— gritei aterrorizado, quando o cano foi
deslocado de sua posição com um
barulho de metal forçado, — Adeus
canhão disse Porta, bombeando o pedal
do acelerador quando o motor começou
a ratear por falta de ar. Com um ronco e
trovão o Tigre parece pular para a frente
e com tal força que o T–34 tombou para
trás. Então avançamos sobre ele.
Pareceu que a própria terra explodia.
Uma cortina de fogo nos cobriu e a onda
choque nos arrancou todo o ar dos
pulmões. Cabos, rádio todo os
instrumentos, munição, tudo voava em
torno do nosso ouvido. Óleo
combustível, graxa espirravam por tudo
quanto era brecha aberta. O interior do
tanque era como se dez demônios
possessos tivessem passado por ali.
Fiquei imprensado entre a base do
clinômetro e o reparo do canhão. Tiny
usou uma alavanca para me libertar.
Deitei-me no chão, tremendo de tenor, e
o coração parecia querer sair pela boca.
O Velho jogou-me um extintor de
incêndio. Todos nós cinco começamos a
lançar espuma sobre as chamas
movediças, as quais pareciam
relâmpagos em tomo do espaço em que
estávamos.
— Para trás! — ordenou o Velho.
— Então vá lá fora e empurre, Velho
— respondeu Porta. — O motor está em
mil pedaços.
— E o rádio, como está? —
perguntou o Velho.
— Quebrado — disse Heide,
consternado.
— Merda! — exclamou o Velho. —
Pode dar um jeito no motor, pelo menos
para dar uma recuada?
— Talvez sim — respondeu Porta,
arrogantemente — mas não estou
autorizado a fazer isso, por causa do
Apêndice do Regulamento do Exército,
que diz: “Reparos mais importantes nos
tanques Tigre só podem ser feitos pelo
pessoal técnico do Exército.”
— Não podemos ficar aqui! —
explodiu o Velho.
— Ah! não? Pois isto por aqui está
um paraíso, agora que os guerreiros
malucos saíram correndo para outras
bandas para se esganarem uns aos outros
— disse Tiny, rindo e olhando em torno
com um ar de satisfação.
— Olha aqui, Porta — argumentou o
Velho, tentando a via diplomática. — Se
você quiser você pode consertar o
motor, tá? A avaria não é tão séria
assim.
Nós ajudamos você e entregamos a
você tudo o que precise para fazer este
troço ir para trás, certo?
— Estou preso ao Regulamento do
Exército — respondeu Porta, em sua
teimosia, mas cuidando de não ficar sem
o seu pedaço da linguiça que estava
sendo distribuída. — Tudo que é
permitido a mim fazer é mudar velas e
óleo, mas não se trata disso.
Trata-se da cabeça do cilindro! E eu,
Joseph Porta, primeiro-sargento pela
graça de Deus. nela não tocarei! É
exatamente o que todos os sujeitos
inteligentes lhe disseram que não
fizesse.
— Também é proibido abandonar o
Tigre aqui! — berrou o Velho, em
absoluto desespero.
— Faça ele explodir, então —
sugeriu Porta. — E para isso que eles
mandam guardar cargas explosivas na
torre.
— Você está sabendo muito bem —
respondeu espumando o Velho, vermelho
como um peru — que este veículo não
pode ser demolido, a menos que esteia
completamente perdido e não possa ser
rebocado.
Porta estirou-se todo, acendeu um
cigarro e ficou pensando, inteiramente
alheio ao perigo do fogo do cigarro num
lugar em que o líquido altamente
inflamável escorria por todos os cantos.
— Me chame quando aparecer por
ai um reboque para nos ajudar.
— Cale essa boca! — berrou o
Velho, indignado. — Vamos ver esse
motor.
Todo mundo para fora!
Porta deu, despreocupadamente, uma
volta pelo compartimento. cantando com
voz suave:
Es geht alles vorüber es geht alles
vorbei...

Pouco depois sentou-se no chão, ao


lado do Velho.
— Ate agora uma meia lagarta é o
que se tem para chegar a Moscou. Dois
dos quatro cilindros se acham
completamente inutilizados e o canhão
está pendurado feito piroca mole de
ministro.
— Diabo! — praguejou o Velho,
abatido moralmente. — Se se destruir o
tanque, é certo que botam a gente numa
corte marcial.
Um de vocês vai ter de voltar para
conseguir um veículo de socorro.
— Tenho uma ideia — acudiu Tiny,
levantando a mão. — Nem mesmo um
psicólogo podia pensar em coisa
melhor.
— Santa Mãe de Deus! —
resmungou Porta. — Conheço você e
suas ideias. A gente sempre acaba
levando na cabeça.
— Diga o que é — falou o Velho,
disposto a aceitar qualquer plano,
mesmo maluco, que nos tirasse da
enrascada.
— Lá longe, atrás daquela linha de
grandes carvalhos — explicou Tiny —
está um T-34/85 avariado. Os quatro
caras que estão lá dentro não saem das
janelas de observação, como os chefes
índios em pé de guerra. Que tal a gente
ir lá, bater um papinho, trocar uma
bebidinha e sugerir que eles façam o
serviço na camaradagem? Assim
ninguém poderia dizer que nós
abandonamos o tanque sem necessidade.
— Me recuso a tomar conhecimento
disso — protestou Heide, chocado. — É
a pior forma de sabotagem e vai lhes
custar a cabeça. Vocês devem estar
completamente loucos!
— Você é tão inteligente quanto um
monte de bosta de vaca, Julius —
caçoou Tiny. — Se o seu Führer só
arranjou por lá gente tão pequenina
como você, nós estamos caminhando
para a pior derrota que o mundo já viu!
— Não é tão maluco assim — disse
o Velho, como que voltando de um
profundo exame mental e olhando para o
T-34, no qual se podia observar uma
cabeça. protegida por capacete de
couro, espiando cautelosamente sobre a
borda da torre.
— O que se tem a fazer é agitar uma
bandeira branca — disse Tiny, otimista
— de modo a pensarem que nós só
queremos um papinho com eles.
— Assim por alto isto parece
completamente doido — disse o Velho
— mas é urna chance. Aqueles quatro lá
ganham uma bonita medalha por
destruírem um Tigre e a gente se livra de
uma corte marcial. Mas por que diabo
eles ainda não atiraram em nós?
— Claro como água — explicou
Porta, rindo com vontade. — As lagartas
deles acabaram-se, do mesmo modo que
as nossas. Não podem marchar. E de
onde estão não podem ver o nosso
canhão inutilizado. Se falhassem na
primeira granada certamente acham que
nós os reduziríamos a pedaços antes que
tivessem tempo de coçar o traseiro.
— Que vá tudo para o inferno! —
concordou o Velho. — Vamos tentar!
Tiny levantou entusiasticamente a
bandeira branca. Pouco depois foi
aparecendo, como que timidamente,
outra bandeira branca na escotilha da
torre do T-34.
— Ora muito que bem! — exclamou
o Velho, um tanto admirado — Eles
também querem brincar!
— Eu me sinto tão envergonhado
como um cachorro de judeu que cheirou
a bunda de um árabe — protestou Julius
Heide, furioso. — Não se conversa com
russos. Acaba-se com a raça deles! O
Führer disse isso pessoalmente.
— Então vai para trás de uma árvore
e dê um berro — aconselhou
desdenhosamente Tiny, agitando ainda
mais entusiasticamente a bandeira
branca.
— Me dá o resto do conhaque e a
linguiça — pediu Porta, sem mais
delongas. — Vou lá expor a eles o
problema. Continue agitando a bandeira.
E nada de fricotes, Julius. Não estou
disposto a ficar sem minhas bolas.
Levando o conhaque e a linguiça
debaixo do braço, ele começou a
caminhar em direção ao T-34 verde, que
se mantinha meio escondido atrás dos
pés de carvalho.
Um sargento alto e magro, com uma
grande barba avermelhada que lhe dava
um aspecto feroz, pulou para fora do T-
34 e aproximou-se cautelosamente de
Porta. O sol se refletia num par de
binóculos assestados para nós e fazia o
mesmo nos nossos próprios binóculos,
que visavam o T-34. Porta e o barbado
encontraram se a meio caminho. Com
certa desconfiança, que procuravam
disfarçar, avançaram hesitantemente as
mãos para se cumprimentarem.
Porta ofereceu a garrafa de conhaque
e cortou um pedaço de linguiça. O
sargento puxou do bolso uma garrafa de
vodca. Trocaram garrafas. Após alguns
goles cordiais, chegaram à fase dos
abraços e beijos nas faces. Tomaram
mais alguns goles e começaram a vir,
rindo alto, para o nosso lado.
— A paz é agora um fato — disse
Tiny, rindo triunfantemente. — Vou tratar
de descansar neste restinho da guerra
mundial.
— Sargento Gregorii Poleshaiev, da
43ª Brigada Blindada de Guarda —
apresentou Porta, com um largo
movimento de braço que quase o fez
desequilibrar-se e cair.
Com as devidas reservas
cumprimentamos o sargento, que parecia
o próprio demônio, com as suas
cerradas suíças e seus olhos negros.
Porta explicou as operações do
Tigre, nada escondendo. Tudo foi
examinado. O russo mal-encarado
mostrou indisfarçável admiração pelo
equipamento, dizendo que só lamentava
os alemães não serem russos.
— Com uma máquina igual, nós já
teríamos a esta hora alcançado Paris e
Londres — disse ele.
Pouco depois os outros três
membros da guarnição do T-34 vieram
se chegando para nós. Sentamo-nos na
palha de milho, toda queimada,
dividimos com eles o que tínhamos e
conversamos sobre tempos de paz e
mulheres, Porta explicou como preparar
Omelete de caviar e ostras ao
champanha.
Largamo-los ao amanhecer, depois
de assistir, cobertos pelo T-34, o Tigre
ser reduzido a frangalhos. Tiveram que
lhe meter cinco granadas para que
começasse a incendiar-se. Depois disso
nós os ajudamos a reparar as lagartas
quebradas do T-34.
— Dasvidânia! — gritaram eles
enquanto íamos desaparecendo entre as
árvores.
Quando estávamos já um pouco para
dentro da floresta, ouvimos o motor Otto
começando a roncar. O barulho foi se
extinguindo pouco a pouco na distância.
— Esperemos que eles não
atropelem algum maluco alemão e não
deem com a língua nos dentes Sentamo-
nos num tronco de arvore caído e
ficamos ali, olhando sonhadoramente
através de um lago. Heide estava de mau
humor e recusou-se a falar conosco.