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Design, arte e tecnologia: projetos fotográficos

Jofre Silva

Resumo: Este artigo apresenta o modo como projetos experimentais


exploram as relações entre design, arte e tecnologia. A discussão toma por
base o estudo e a análise de imagens, representando um mundo imaginário;
bem como o desenvolvimento desta articulação visual. Busca identificar o
trabalho de designers e fotógrafos envolvidos nestas propostas, como
também a tecnologia usada em sua construção. Ensaios fotográficos
ampliam a compreensão crítica por meio da experiência prática.

Visibilidade oculta

A discussão apresentada a seguir é baseada em resultados de projetos experimentais


desenvolvidos com o objetivo de ampliar a compreensão sobre as relações entre o design, a
arte e a tecnologia. A intenção aqui é analisar, sobretudo, aspectos da construção da
imagem para uso no design de interfaces. A tecnologia fotográfica tem sido debatida com
sucesso em áreas de comunicação (jornalismo e documentação), bem como nas artes
plásticas, especialmente a partir da década de sessenta. No campo do design, porém, a
fotografia costuma receber uma atenção indireta por meio de seu uso comercial como, por
exemplo, na moda e na publicidade. O advento de novos sistemas fotográficos, eletrônico e
digital, tem aumentado as opções do designer tanto na fase de concepção quanto de
execução do projeto, tornando-se imperativo uma reflexão do papel da fotografia no
design.

Os recursos da tecnologia fotográfica podem ser vistos como ferramentas essenciais ao


design. Na percepção de Ambrose e Harris (2005, p. 6), a imagem dá vida ao design, tanto
quando desempenha papel de componente principal do projeto quanto quando atua apenas
com uma função de apoio. As imagens, segundo argumentam, são fundamentais para a
comunicação de uma mensagem e, assim, tornam-se peça chave na construção da
identidade visual de um projeto. Conferem drama a uma narrativa, bem como apóiam e
complementam o argumento de um texto. A simples tarefa de fornecerem um descanso
visual para espaços entre textos ou, até mesmo, vazios, no design, também são destacados
pelos autores. O poder da imagem, complementam, está em oferecer uma informação
detalhada, ou então ainda, um sentimento possível de ser compreendido rapidamente,
eliminando as dificuldades em explicar por meio de palavras situações novas e inusitadas.

A tecnologia fotográfica facilita estabelecer relações entre os discursos visuais da arte e do


design. A utilização dos sistemas digitais de captação, tratamento e reprodução da imagem,
nestes dois campos profissionais, contribui para que o trabalho do designer adquira “um

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valor de signo em detrimento do seu valor de uso”, conforme explica Darras (2006). As
aproximações entre a arte e o design geram, na visão deste pesquisador, confusão e certa
dificuldade pelo fato dos profissionais ligados ao design não aceitarem mais uma posição
subordinada ao campo artístico. Esta reação, observa, é uma tentativa de ruptura com um
sistema de valores que há mais de dois mil e quinhentos anos continua estruturando e
hierarquizando nossas concepções de conhecimento, ciência, técnica e artes, para justificar
a manutenção de um modelo de sociedade aristocrática e escravista. Diante da lógica dos
setores produtivos ligados ao design contemporâneo, Darras esclarece:

O sistema de valores adotado por eles, a priori mais industrial e


funcionalista do que artístico, compartilha, no entanto, uma dimensão
estética com o domínio da arte. Embora de natureza industrial, esta
dimensão estética causa certa confusão que é reforçada pelas relações de
criação e de busca do novo, estimulando as vanguardas dos dois lados.
Não obstante, estética e design industrial têm avançado e sido atraídos
pelo domínio da arte e de seus valores, seu público e seu mercado elitista
(Ibid., p. 15).

Dimensão do invisível

A noção de um mundo imaginário, neste artigo, apóia-se na semiótica da fotografia.


Barthes (1980, p. 108-122) percebe a imagem fotográfica como um “certificado de
presença”. Para o autor, a imagem revela a verdade de que algo esteve na frente da câmera,
confirmando sua presença, muito mais que sua aparência: “uma referência, que impõe a
verdade da existência real do objeto, ‘isto-foi’... e já não pode ser tocado”. Na teoria de
Peirce (CP 2.257-265), este é um conhecimento independente da estrutura do signo e seu
processo de representação.

Assim, para efeito de análise, a imagem, representando o mundo da imaginação, tenta


estabelecer uma conexão com algo que é, na verdade, criado, fabricado e manipulado. A
referência pode até existir, mas ela não reivindica seu status como um signo de existência.
Numa trajetória inversa, esta imagem evita olhar para o mundo real, levando sua
compreensão para o plano da fantasia e da imaginação.

O debate sobre mundo real e imaginário permeia o estudo semiótico da fotografia e


ofereceria diversas compreensões teóricas (BURGIN, 1982; SANTAELLA e NÖTH,
1998; SCHAEFFER, 1996; BATCHEN, 1999), caso fosse este o objetivo principal aqui.
Por esta mesma razão, adotar uma perspectiva psicanalítica do imaginário, embora
relevante, acaba deslocando o eixo da discussão para o campo da recepção, conforme
apresentado abaixo. Indiscutivelmente, a reflexão sobre processos de representação ajuda
conhecer a dimensão do impensado e do invisível no design, explica Portinari.
Compreender o campo do imaginário no design, na verdade sua “matéria-prima”, significa
perceber seu duplo papel, como agente e como objeto: “trabalhando com o imaginário,
sobre o imaginário, e sendo ‘trabalhado’ por ele, na medida em que este o define e lhe
atribui determinadas funções” (1999, p. 99).

Outra forma de ver

Como já foi dito acima, a intenção deste estudo não é definir o caráter semiótico da
imagem e seu impacto no âmbito da recepção – usuário, audiência ou consumidor. O
objetivo é conhecer seu projeto e aspectos do seu processo de construção. Buscar meios de
conhecer o modo como a imagem é desenvolvida, bem como enfocar sua dimensão
conceitual e as soluções técnicas empregadas em sua realização.

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Sobre isso, as palavras “técnica” e “tecnológico” exigem certos cuidados no debate
contemporâneo. Na visão de Raymond Williams (1988, p. 315), “técnica” define questões
de construção prática, enquanto “tecnológico”, embora seja usado com este mesmo
sentido, acrescenta a noção de um tratamento mais sistemático. Segundo o autor, o
significado de “ciência” e “cientista” abriu caminho para uma distinção moderna familiar
entre conhecimento (“ciência”) e sua aplicação prática (“tecnologia”). O autor aponta nesta
discussão o modo como a palavra “tecnologia” é usada para descrever o estudo sistemático
das artes no século 17; adquirindo depois uma conotação de descrição das artes,
especialmente as mecânicas, no século 18; e atingindo em seguida o conceito especializado
de artes práticas, no século 19, período em que surge ainda o termo “tecnologista”.
Refinando sua reflexão, Williams identifica “técnica” como um método ou uma construção
particular; “tecnologia” como um sistema envolvendo estes métodos; e “tecnológico”
como indicativo dos sistemas cruciais em toda a produção, diferente das aplicações
específicas.

Do mesmo modo como os conceitos semânticos são produtos da cultura e sociedade de


uma época, o impacto causado pelas novas tecnologias fotográficas também pode ser visto
como reflexo do sistema de valores humanos, indicado acima. Quando considera o
surgimento dos sistemas digitais, por exemplo, Batchen (1999) até vislumbra a
possibilidade da fotografia perder seu espaço privilegiado na cultura moderna. Ele ressalta
ser possível perceber a transformação dramática de seu valor, significado e, naturalmente,
de sua importância mesmo que imagens fotográficas continuem disponíveis. No entanto,
acredita que estas alterações dependerão tanto de mudanças epistemológicas gerais quanto
de novos sistemas de imagens digitais.

A fotografia somente deixará de ser um elemento dominante na vida


moderna quando o desejo de fotografar, e o peculiar arranjo de
conhecimentos e investimentos que este desejo representa for redefinido
como uma outra formação cultural e social. O desaparecimento da
fotografia deve acarretar necessariamente a inscrição de uma outra forma
de ver – e de ser (Ibid., p. 215-216).

Estas observações são relevantes para destacar como o design na imagem fotográfica
reflete um contexto cultural amplo, global. O fato deste artigo tratar apenas do estágio de
desenvolvimento do projeto de construção da imagem não impede o reconhecimento dos
vários fatores circundando este processo. Afinal, o “design deve ser entendido não apenas
como uma atividade de dar forma a objetos, mas como um tecido que enreda o designer, o
usuário, o desejo, a forma, o modo de ser e estar no mundo de cada um de nós” (COUTO
e OLIVEIRA, 1999, p. 9). Neste sentido, esta compreensão é ampliada quando Moura
arremata:

O design é plural, está relacionado ao ser e ao viver humanos, e assim à


cultura, ao universo de conhecimentos e de pesquisas, ao universo
tecnológico e produtivo, à exploração e à instituição de uma linguagem
através dos elementos e características existentes em um projeto
conforme o campo a que este se destina. Apesar de ter o
desenvolvimento no tempo presente, o design se relaciona com o
passado em busca de referências, mas destinado ao futuro (2003, p. 133).

Modo de ser

No desenvolvimento do projeto fundamentando a construção da imagem, o modo como


fotógrafos aplicam a tecnologia fotográfica é resultado de uma escolha pessoal, orientada

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pelo discurso visual, buscando articulação em seu trabalho. Na fotografia de publicidade,
por exemplo, esta concepção no tratamento projetual torna-se nítida.

Os vários interesses delineando a organização de uma campanha publicitária exigem um


complexo grupo de profissionais tanto na formulação do conceito da imagem e definição
do projeto, quanto no seu desenvolvimento e finalização. Nesta indústria, designers e
fotógrafos trabalham juntos, estabelecendo uma integração cooperativa na execução da
proposta, dificultando a identificação dos limites de um e de outro.

Embora esteja citando um expressivo setor da fotografia comercial, este artigo não
pretende discutir, com a atenção merecida, o modo de construção da imagem publicitária.
Este assunto é tema de um estudo anterior (1999) em que analiso os diversos estágios deste
método de trabalho, considerando as participações não só de designers e fotógrafos, mas
também da equipe de criação das agências de publicidade, anunciantes, modelistas,
estilistas, assistentes de estúdio e de laboratórios, retocadores e manipuladores de imagens,
impressores, dentre outros. Uma linha de produção que reflete o caráter industrial do setor.

Dois aspectos deste setor ajudam a ilustrar o método de trabalho presente na fotografia
publicitária. Num primeiro momento, a parceria dos profissionais apontados acima, e,
depois, o modo como fotógrafos descrevem sua aplicação tecnológica. A experiência da
fotógrafa e historiadora Sue Atkinson, por exemplo, revela a prática das agências em
consultar o fotógrafo durante a elaboração do projeto de uma campanha. Segundo ela, a
intenção é verificar a viabilidade técnica da idéia antes de apresentá-la como uma proposta
formal ao seu anunciante. Por outro lado, o fotógrafo David Hiscock costuma ser
convidado pela equipe de criação da agência para participar da discussão conceitual do
projeto antes do início de seu desenvolvimento. Na percepção de Hiscock, o designer
responsável pelo anúncio prefere tratar o projeto como uma colaboração entre eles (Ibid.).

Quando atingem o estágio de realização da foto em estúdio, fotógrafos definem o


tratamento técnico necessário para a captação da imagem do objeto (ou cena) que será
veiculado na campanha publicitária. Na escolha dos procedimentos técnicos adotados, eles
buscam registrar ou traduzir a condição do objeto (ou cena), podendo ser desde uma
atmosfera ou um estado de espírito até uma história, um processo narrativo ou um
movimento (Ibid.).

Teatro da morte

Pela habilidade da imagem fotográfica traduzir a condição de um objeto, Barthes defende


sua aproximação com o teatro, descartando alguns paralelos de seu suposto parentesco
com a pintura, muito em voga em alguns setores da crítica especializada. Em sua
abordagem:

O primeiro homem a ver a primeira fotografia deve ter pensado que se


tratava de uma pintura: o mesmo enquadramento, a mesma perspectiva.
A Fotografia foi e ainda é atormentada pelo fantasma da Pintura; ela faz
dela, através das suas cópias e das suas contestações, a Referência
absoluta, paternal, como se tivesse nascido do Quadro. Não é, no
entanto, pela Pintura que a Fotografia participa na arte, é pelo Teatro.
[...] um teatro de vistas animadas por movimentos e jogos de luz (1980,
p. 51-52).

Barthes ressalta em sua análise a ligação da fotografia com o teatro pelo viés da morte,
recuperando aspectos do teatro primitivo e da máscara mortuária. Na articulação da

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representação da morte pela fotografia, o estudo histórico de Batchen (1999) aponta os
ensaios pioneiros de Hippolyte Bayard no sentido de enfatizar a aplicação da tecnologia em
projetos conceituais de natureza poética que exploram um mundo imaginário.

Batchen explica detalhadamente os vários fatores determinantes para o design, neste


projeto fotográfico do inventor francês, Bayard. A proposta conceitual de realizar auto-
retratos como se estivesse morto (figura 1), vítima de afogamento, surge como uma forma
de protesto por ter suas pesquisas com a fotografia totalmente ignoradas pelo governo da
França. A composição da imagem, com seu corpo nu, sentado em um banco, apoiado na
parede, é adotada como paródia a importantes pinturas de sua época, retratos de mártires
franceses. A atmosfera da imagem é reforçada por vários objetos incorporados à cena.
Segundo Batchen, estes objetos podem ser vistos como uma leve ironia ao gosto romântico
daquele tempo. Na tentativa de impedir qualquer confusão no processo de interpretação de
seu projeto, do qual restaram apenas três imagens, Bayard elabora, ainda, um texto, com
certa dose de humor, discorrendo sobre as razões da escolha temática destas imagens. Em
primeira pessoa, o mártir afogado fala de seu túmulo sobre o desespero que o leva a
cometer suicídio por afogamento. Com este projeto fotográfico, o historiador arremata:

A fotografia do morto e a simulação teatral do corpo atuam como uma


morte dupla, um movimento para frente e para trás entre o êxtase da
descoberta (um tipo de clímax que os franceses têm prazer em chamar
de le petit mort) e a desolação e ruína do desconhecido. O projeto de
Bayard engendra, assim, um espaço de incertezas, uma hesitação
estratégica, um movimento problemático dentro da lógica fotográfica.
Em momento algum ele tenta apresentar suas fotos como analogia da
‘vida real’; muito pelo contrário (aqui não há nada mais do que
representação e representações de representações) (1999, p. 172).

Figura 1: Hippolyte Bayard. Le Noyé (O afogado). Auto-retrato. Fotografia. 18 de Outubro de 1840.


Sociedade Francesa de Fotografia, Paris. (Ibid.)

Bayard inicia cedo, logo nos primeiros anos de existência da fotografia, a explorar o
potencial das relações entre o design, a arte e a tecnologia. Os muitos aspectos deste
exercício revelam-se pela motivação de suas imagens (protesto contra governo francês); a
construção das fotos (cenários e arranjo de objetos); as referências com o universo da arte
(posição da figura humana em pinturas); o autor como objeto de representação (fotográfo e
modelo são a mesma pessoa); e o método de produção do trabalho (tecnologia fotográfica
– imagem pela luz). O desejo de comunicar e dar voz a sua imaginação, a organização dos
elementos para compor e articular seu discurso visual, bem como o conhecimento técnico

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para manipular o sistema de produção da fotografia são condições orientando projetos de
outros profissionais no campo do design e da arte. Na esfera comercial da imagem
publicitária, indicado acima, Hiscock (figura 2) traz em sua experiência uma bagagem
conceitual, plástica e tecnológica. No contexto da arte contemporânea, a americana Cindy
Sherman recria cenas clássicas do cinema e da pintura por meio do auto-retrato, da
montagem de cenários, do controle de gestos, de poses e pela manipulação da tecnologia
fotográfica.

Figura 2: David Hiscock. Untitled XXX (Sem Título XXX). Fotografia. 1993. (MELLOR, 1995, p.
77)

Projetos experimentais: aprendizado e transformação

Conforme apontado acima, o campo profissional oferece condições para designers e


fotógrafos trabalharem em parceria. A história da fotografia também mostra profissionais
respondendo sozinhos pela concepção, planejamento e produção de suas imagens. Por
outro lado, a introdução dos sistemas digitais amplia o acesso à tecnologia fotográfica
permitindo ao designer um controle maior de seu projeto.

Durante a pesquisa sobre a fotografia de publicidade, apontada acima, identifico designers


confirmando maior independência oferecida pelos sistemas digitais. No caso de Graham
Fink, por exemplo, na época atuando como representante da Associação dos Designers
Britânicos, “todos estão conseguindo fotografar melhor. Os diretores de arte das agências
de publicidade estão conseguindo realizar fotos sozinhos. Este trabalho está ficando mais
fácil graças aos avanços tecnológicos da fotografia” (1999, p. 97). Estas mudanças têm
gerado uma transformação no processo de construção da imagem e um vernáculo distinto
parece ganhar forma, observa o designer, Adrian Shaughnessey. Com a foto digital,
complementa, fica possível interferir e trabalhar com a fotografia durante o
desenvolvimento de um projeto. “Não existe mais a tirania da imagem perfeita. A
tecnologia disponível hoje ajuda o designer, por exemplo, a escanear objetos e incorporá-
los no trabalho visual, criando até mesmo novidades no tratamento estético da fotografia”
(ibid.).

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Estas condições tecnológicas possibilitam também o desenvolvimento de projetos
acadêmicos junto aos cursos de design da Universidade Anhembi Morumbi. Propostas de
exercícios destinados à realização de ensaios fotográficos implicam na definição de um
tema; pesquisa deste assunto na esfera da cultura visual; concepção e planejamento do
projeto; produção e montagem de cenários; a fotografia, isto é, o registro ou captação da
imagem; e sua finalização por meio do tratamento e manipulação da foto.

Estes projetos fotográficos tornam-se, assim, responsabilidade total do designer, autor da


proposta, confirmando a autonomia profissional festejada nos depoimentos acima. Sem
querer impor hegemonia, eles refletem a busca de caminhos metodológicos. Como resume
Coelho, a intenção é utilizar a experiência projetual como mais “um passo estratégico na
cadeia de transformação da maneira de ver e trabalhar o entorno e, com ele, a viabilização
da modificação do próprio indivíduo” (1999, p. 48).

Em um projeto desenvolvido recentemente no contexto do curso de pós-graduação Lato


Sensu em Design de Hipermídia, o designer Eduardo Franceschi tem como objetivo inicial
criar um website a partir da paisagem arquitetônica do campus universitário onde estuda. A
necessidade de humanizar os espaços físicos contemplados na estrutura deste site
determina a captação de imagens fotográficas de pessoas que freqüentam o ambiente.
Entretanto, a manipulação das imagens da escola, no sentido de atenuar seus elementos
realistas para acrescentar uma atmosfera imaginária ao lugar, exige naturalmente o uso de
fotos de figuras humanas desprovidas da lógica descritiva e direta da tecnologia fotográfica.

Estes critérios orientam o enfoque dos retratos. Colegas do curso são levados para o
estúdio fotográfico e suas imagens capturadas em câmaras digitais. O designer opta por
efeitos de iluminação na tentativa de impedir um registro fiel dos modelos. O
enquadramento é fechado nos rostos das pessoas. A lente normal do formato 35 mm
possibilita sua aproximação do objeto, fortalecendo o impacto da expressão facial de seus
modelos. A presença de um assistente no estúdio facilita ainda a produção de alguns auto-
retratos (figura 3 e 4). Com o uso de sua própria imagem, Franceschi exercita em um único
projeto o papel de autor, designer, fotógrafo e objeto de estudo, tornando-se mais uma
peça de composição do website. A atividade percorre caminhos essenciais no campo do
design: definição e concepção do tema, planejamento, produção e captação de materiais.

No estágio de integração da figura humana ao projeto do website, o tratamento visual


adotado originalmente nas fotografias não harmoniza com o espaço imaginário idealizado
pelo designer. Este conjunto de fotos é levado, então, para retoques junto aos programas
de manipulação de imagens disponíveis em sistemas de editoração digital, especificamente,
o programa Photoshop instalado em um computador de mesa – o desktop publishing.
Alteração de cores, contraste, luz, bem como ainda a aplicação de efeitos visuais e filtros
permitem a adequação final destes elementos à estrutura conceitual e formal do projeto.

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Figura 3 e 4: Eduardo Franceschi. Estudos (Auto-retrato). Fotografia. 2005

Para Homem de Melo, o encerramento de uma etapa significa também o início de outra. A
proposta de comunicação do design não se completa com a finalização do projeto. Sobre
isso, o designer esclarece:

No ciclo de vida de uma mensagem ou de um produto, o fim do


processo de projeto é, na verdade, um começo. Após a conclusão das
etapas de produção, o uso representa o início da participação do projeto
no cotidiano das pessoas. Todo projeto implica aprendizado. O balanço
do processo visa tirar conclusões, sedimentar convicções, abrir novas
perspectivas. Em outras palavras, acumular conhecimento (2005, p. 85-
86).

Curiosamente, os retratos de Franceschi adquirem um tom fantasmagórico, como se de


fato as figuras fossem apenas mais um dos vários materiais empregados na edificação do
conjunto arquitetônico do campus. A própria imagem do designer parece sugerir uma
máscara. E aqui, uma vez mais, podemos voltar ao pensamento Barthesiano:

... a máscara é o sentido, quando é absolutamente puro (como o era no


teatro antigo)... a Foto é como um teatro primitivo, a figuração do rosto
imóvel e pintado sob o qual vemos os mortos... um teatro desnaturado
em que a morte não pode contemplar-se, reflectir-se e interiorizar-se; ou
ainda: o teatro morto da Morte (1980, p. 57-127).

As áreas do design, da arte e da tecnologia encontram-se uma vez mais reunidas no


desenvolvimento deste projeto experimental. O exercício proporciona aprendizagem,
desencadeando transformação do sujeito (estudante), do processo (projeto) e do objeto
(website). Diálogo, troca e formação interdisciplinar evidenciam mediações comuns no
cenário da cultura visual contemporânea. Inevitavelmente, esta é uma discussão presente,
hoje, na trajetória profissional de designers, artistas, fotógrafos, pesquisadores, educadores,
críticos e muitos outros que de forma direta ou indireta trabalham no campo da cultura.

Referências

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Jofre Silva, PhD em Arte e Design: Fotografia (CSM CAD – Londres). Especialista em Fotografia
(Goldsmiths College, Universidade de Londres). Bacharel em Jornalismo (UFG – GO). Fotógrafo e
Jornalista.
Pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design – Mestrado, bem como
dos cursos de graduação e pós-graduação Lato Sensu em Design, da Universidade Anhembi Morumbi.

Design, Arte e Tecnologia: espaço de trocas | SP | Universidade Anhembi Morumbi, PUC-Rio & Rosari | 2006.
Membro dos Conselhos do Curso Design Digital.
jofre@anhembi.br

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