Análise da Dispensa de Licitação para aplicação na esfera Municipal
MOREIRA, Aparecida Carmo Mori
Resumo:
O objeto deste artigo é analisar a Dispensa de Licitação no âmbito municipal, para que conforme
legislação possa ser aplicada e estruturada na sua melhor forma, coerência e efetividade. A partir
de pesquisa bibliográfica pretende-se desenvolver um esquema ideológico sobre a presente Lei
de Licitações, ainda criando ênfase no parâmetro de dispensa, analisando relativamente os
princípios a serem observados previamente. Resultando em uma consolidação de idéias que
remontam aos momentos oportunos e legais para que o administrador público municipal possa
efetivar e concluir uma licitação dispensável. Constata-se que a ausência do procedimento
licitatório gera controvérsias tanto a nível constitucional quanto em outros setores do certame,
sendo assim, obrigasse o administrador público municipal o planejamento prévio de todos os atos
considerando os limites legais, fatores materiais e temporais em questão. O intuito do presente
artigo é destinado ao auxílio da administração pública municipal para que os processos
licitatórios e ausência dos mesmos se tornem concluídos de forma fluída e com a maior eficácia e
clareza possível perante as situações ocorrentes.
Palavras Chave: Licitação, Dispensa de Licitação, Compras Municipais.
1. Introdução:
A Administração Pública Municipal é hoje um dos entes políticos mais importantes na estrutura
organizacional do estado. É nele que detenham as ações, intentos e as demandas da população,
ou seja, toda política pública tem que visar em primeiro lugar o bem-estar dessas comunidades.
Neste artigo pretende-se abordar a temática de aquisição por meio de licitação e quais os
momentos oportunos para que a licitação tornasse dispensável com o intuito de fazer o bom uso
do dinheiro público, a partir de pesquisa bibliográfica foram desenvolvidos os temas e conceitos
presentes neste desenvolvimento.
Sendo, a Administração é submetida a uma série de procedimentos com controles, com a
finalidade de evitar desvios e mau uso dos recursos públicos. Podemos observar que a gestão de
recursos municipais está se tornando uma atividade cada vez mais complexa, demonstrando a
necessidade de ter uma administração preparada para operacionalizar o gasto público de forma
rápida e eficiente, exigindo pessoal especializado.
2. Lei 8.666/1993 e seus Conceitos:
A Lei 8.666/1993 aborda o ato de procedimentos administrativos e institui normas para
Licitações e Contratos da Administração Pública e outras providências.
Segundo PIETRO (2004, p. 300) os procedimentos administrativos são atos preparatórios do ato
final objetivado pela Administração Pública.
Para a Lei 8.666/1993 as principais finalidades do referido procedimento administrativo são a
obtenção da proposta mais vantajosa (estimulando a competitividade) e a observância do
princípio constitucional da isonomia (o oferecimento de iguais condições a todos que pretendem
contratar com a Administração), ainda se torna explícito que o procedimento licitatório é regra
geral e não exceção.
A licitação é observada como uma oferta dirigida para quem tem interesse e se sujeita á
desistência ou aceitação dos trâmites.
Para MEIRELLES (2008, p.274), licitação é um procedimento administrativo mediante o qual a
administração pública seleciona a proposta mais vantajosa para o contrato de seu interesse.
Podemos observar no artigo 1º, parágrafo único da Lei 8666/1993 que todos os órgãos da
administração direta, fundos especiais, as autarquias, fundações públicas, as empresas públicas,
sociedades de economia mista e demais entidades controladas direta ou indiretamente pela
União, Estados, Distrito Federal e Municípios são obrigados a licitar.
O Art. 9º da Lei 8.666/1993 observa que pessoas físicas e/ou jurídicas podem participar dos
procedimentos licitatórios exceto nos casos que se seguem:
I. O autor do projeto, básico ou executivo, pessoa física ou jurídica;
II. Empresa, isoladamente ou em consórcio, responsável pela elaboração
do projeto básico ou executivo ou da qual o autor do projeto seja dirigente,
gerente, acionista ou detentor de mais de 5% (cinco por cento) do capital
com direito a voto ou controlador, responsável técnico ou subcontratado;
III. Servidor ou dirigente de órgão ou entidade contratante ou responsável
pela licitação.
§1º É permitida a participação do autor do projeto ou da empresa a que se
refere o inciso II deste artigo, na licitação de obra ou serviço, ou na
execução, como consultor ou técnico, nas funções de fiscalização,
supervisão ou gerenciamento, exclusivamente a serviço da Administração
interessada.
§2º O disposto neste artigo não impede a licitação ou contratação de obra
ou serviço que inclua a elaboração de projeto executivo como encargo do
contratado ou pelo preço previamente fixado pela administração.
§3º Considera-se participação indireta, para fins do disposto neste artigo, a
existência de qualquer vínculo de natureza técnica, comercial, econômica,
financeira ou trabalhista entre o autor do projeto, pessoa física ou jurídica,
e o licitante ou responsável pelos serviços, fornecimento e obras,
incluindo-se os fornecimentos de bens e serviços a estes necessários.
§4º O disposto no parágrafo anterior aplica-se aos membros da comissão
de licitação.
Segundo GASPARINI (2011), por se tratar de procedimento administrativo, a competência para
legislar sobre licitações cabe a cada entidade política, sendo eles a União, Estado-Membro,
Distrito Federal e Município. Entretanto, cabe à União estabelecer as normas gerais de Licitação
e contratação, conforme institui o inciso XXVII do art. 22 da Constituição Federal.
Previsto também na Lei de licitações observa-se o impedimento para contratar e licitar com a
Administração Pública, segundo FILHO (2003) o impedimento para licitar ou contratar com a
Administração Pública restringe direitos constitucionais. Em decorrência desse entendimento a
administração pública, através de seus agentes, somente pode restringir o direito de licitar ou de
tratar aos casos especificados na Constituição ou na lei, não cabendo ao instrumento
convocatório inserir cláusulas e , muito menos, ao aplicador da lei ( comissão de Julgamento de
licitações ou Pregoeiro), dar interpretação que amplie ou restrinja as restrições. Sendo assim, na
seara de licitações e contratos administrativos, a garantia de que todos são iguais, sofre restrições
constitucionais, com suporte na premissa de que a Administração deve fazer exigências
indispensáveis à garantia de execução do contrato.
2.1. Princípios basilares da Licitação:
Podemos observar oito princípios destacáveis no processo licitatório sendo eles, a legalidade,
impessoalidade, moralidade, igualdade, publicidade, probidade administrativa, vinculação ao
instrumento convocatório e o julgamento objetivo.
Segundo FILHO (2003) no que se refere ao procedimento licitatório, o princípio da vinculação
ao instrumento convocatório, objetiva obrigar tanto a Administração Pública, que utilizando seu
poder discricionário nele estabeleceu suas regras com respaldo nos princípios de legalidade, de
moralidade, de eficiência e de publicidade, quanto os interessados em participar do certame, que
aos seus termos se submetem. A licitação tem como finalidade a obtenção da proposta mais
vantajosa para o Poder Público, mas não dispensa a rigorosa observância, além do princípio da
isonomia, dos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da
publicidade, da eficiência, da probidade administrativa, da vinculação ao instrumento
convocatório e o da garantia do julgamento objetivo, como preconizado pelo art. 3º da Lei
8.666/93:
Art.3º - A licitação destina-se a garantir a observância do princípio
constitucional da isonomia e a selecionar a proposta mais vantajosa para
a Administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável
e será processada e julgada em estrita conformidade com os princípios
básicos da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da
vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos
que lhe são correlatos. (Redação dada pela Lei nº 12.349/2010)
A legalidade no âmbito licitatório significa a vinculação dos licitantes e da Administração às
regras estabelecidas nas normas e princípios em vigor.
O princípio da Impessoalidade significa que, nos procedimentos licitatórios, a Administração não
pode beneficiar nem prejudicar pessoas determinadas, é vedado, por exemplo, inserir item no
edital que favoreça um licitante em detrimento do outro.
A Moralidade na licitação traduz-se na atuação de acordo com a lealdade e boa-fé.
A isonomia faz parte do próprio instituto de licitação, e significa dar tratamento igualitário a
todos os interessados.
O princípio da Publicidade impõe a divulgação pela Administração de todos os atos praticados
nas fases de licitação, e qualquer interessado pode ter acesso ao procedimento.
A Probidade Administrativa impõe ao administrador público atuar dentro de padrões éticos na
condução do procedimento licitatório.
A Vinculação ao Instrumento Convocatório obriga tanto a Administração quanto o licitante a
observarem as normas e condições estabelecidas no edital.
O Julgamento Objetivo decorre da legalidade e significa que o julgamento deve ser feito com em
critérios prefixados, afastando assim a subjetividade dos julgamentos das propostas.
2.2. Exceções à regra geral:
Conforme os Arts. 17; 24; e 25; da Lei 8.666/93 existem exceções à regra geral, eximindo o
Administrador do processo licitatório. No referido Art. 17 a licitação é dispensada, embora seja
possível, por determinação legal, como por exemplo, a venda a outro órgão da Administração
Pública, de qualquer esfera de governo.
No Art. 24. a Licitação é dispensável, cabe ao Administrador Público "decidir" se a licitação
ocorrerá ou não, por exemplo em casos de perturbação grave da ordem pública. Já no Art. 25; a
licitação é inexigível, ou seja, quando for inviável a competição, como, por exemplo,
produtos/serviços fornecidos por produtor, empresa ou representante comercial exclusivo ou
então para contratação de profissional de qualquer setor artístico.
Estas exceções não eximem a Administração Pública de responder por tal aquisição/contratação.
2.3. Dispensa de Licitação:
Existe um variado número de casos onde vemos a licitação ser dispensável em casos reais, tais
como em situações de emergência, por motivo de licitação frustrada por fraude ou abuso de
poder econômico, intervenção no domínio econômico, dispensa para contratar com entidades da
Administração Pública, contratação de pequeno valor, dispensa para complementação de
contratos, ausência de interessados, imóvel destinado à Administração, gêneros perecíveis, entre
outros.
Segundo MEIRELLES (2008) a dispensa da licitação com base no inciso IV do art. 24, exige a
grave perturbação da ordem, ou seja, a comoção interna generalizada ou circunscrita a uma
região, provocada por atos humanos, tais como revolução, motim, greve que paralise os serviços
essenciais, ou calamidade pública, que se referência pela situação de perigo e de anormalidade
social, decorrente de fato da natureza, inundações, vendavais destruidores e aí acrescem-se
maremotos, terremotos, tsunamis, etc.
O Decreto nº. 67.347 de 05/10/1970 conceituam as calamidades públicas como “a situação de
emergência, provocada por fatores anormais e adversos que afetem profundamente a
comunidade, privando-a, total ou parcialmente, do atendimento de suas necessidades ou
ameaçando a existência ou integridade de seus elementos componentes”.
Para ALMEIDA (2000) as hipóteses de dispensabilidade do art. 24 constituem rol taxativo, isto
é, a Administração somente poderá dispensar-se de realizar a competição se ocorrente uma das
situações previstas na lei Federal, lei estadual, municipal ou distrital, o regulamento interno da
entidade vinculada não poderá criar hipótese de dispensabilidade sendo assim mesmo na
dispensa existe um procedimento administrativo para justificação do ato.
Entende-se que, não poderá haver dispensa sob o argumento de que a medida é necessária em
razão da situação administrativa ou da municipalidade.
Segundo FILHO (2003) a possibilidade de dispensa de licitação prevista nos incisos I e II do Art.
24 da Lei de Licitações, é justificada pelos princípios da razoabilidade e da economicidade em
razão dos custos decorrentes do procedimento licitatório, tanto os típicos da rotina administrativa
caracterizados por dispêndios fixos com salários, equipamentos, energia e insumos, quanto os
decorrentes da publicidade dos atos da licitação, aconselhando a Administração a contratar
diretamente as obras, serviços e bens de valor de pouca expressão financeira, desde que não se
refiram a parcelas de uma mesma obra, serviço, compra ou alienação de maior vulto que possa
ser realizada de uma só vez tornando-se incompatível com os princípios da moralidade, da
probidade administrativa, da isonomia e da legalidade sendo a utilização da dispensa de licitação
em razão do valor do objeto, com o fim de fracionar a contração para burlar a exigência de
prévia licitação. Portanto, somente se encaixam no figurino legal aquelas contratações
esporádicas, cujo objeto não se refira a parcelas de uma mesma obra serviço, compra ou
alienação, sob pena de caracterizar o fracionamento da licitação, frustrando a competitividade.
2.4. Conduta do Administrador Público Municipal:
A conduta do Administrador Público Municipal deve observar o que leciona o Art. 26 da Lei
8.666/93, ou seja:
Art.26. As dispensas previstas nos §§ 2º e 4º do art. 17 e no inciso III e
seguintes do Art. 24, as situações de inexigibilidade referidas no art. 25,
necessariamente justificadas, e o retardamento previsto no final do
parágrafo único do art. 8º desta Lei deverão ser comunicados, dentro de 3
(três) dias, à autoridade superior, para ratificação e publicação na
imprensa oficial, no prazo de 5 (cinco) dias, como condição para a
eficácia dos atos. (Redação dada pela Lei nº11.107 de 2005)
Parágrafo único. O processo de dispensa, de inexigibilidade ou de
retardamento, previsto neste artigo, será instruído, no que couber, com os
seguintes elementos:
I. Caracterização da situação emergencial ou calamitosa que justifique a
dispensa, quando for o caso;
II. Razão da escolha do fornecedor ou executante;
III. Justificativa do preço;
IV. Documento de aprovação dos projetos aos quais os bens serão
alocados. (Incluído pela Lei nº 9.648, de 1998).
Para o Administrador Público Municipal um fator que gera muita controvérsia na dispensa de
licitação por valor diz respeito ao aspecto temporal e à abrangência material.
Segundo FILHO (2003) a abrangência temporal é o período em que as contratações são
contabilizadas até atingir o limite legal permitido, é o da vigência dos crédito orçamentários,
assim considerado de 1º de Janeiro a 31 de Dezembro de cada exercício. Nesse lapso de tempo a
soma das parcelas não pode ser superior aos limites previstos nos incisos I e II do art. 24 da Lei
8.666/93. Já a abrangência material é determinada pelo grupo de bens e de serviços e não de
forma individualizada.
4. Conclusão:
Conclui-se, que a administração pública, deve desenvolver constantemente as suas ações
baseadas em planejamento, cabendo ao administrador público desenvolver todas as atividades
necessárias no sentido em que as aquisições cumpram os prazos legais, estabelecendo prazo de
execução compatível, sendo que, o procedimento licitatório tem como principal objetivo visar a
contratação do objeto, contudo no curso do procedimento poderão surgir razões que o impeçam,
ressaltando, como abordado anteriormente que o procedimento licitatório se torna regra e não
exceção.
Eventualmente se a administração pública, constatar possível prejuízo para a atividade a ser
desenvolvida, com a abertura da licitação, quando observados os prazos e justificadamente,
poderá dispensar a licitação. Observa-se que a alteração de qualquer exigência impossibilita a
dispensa de licitação e requer a abertura de novo procedimento licitatório.
Relativamente à possibilidade de dispensa de licitação, sem dúvida, constitui-se em desacordo
com a determinação constitucional que prevê a licitação com regra geral, violando assim o
princípio da isonomia, por outro lado, há que considerar a importância de alguns setores. A
divulgação dos atos oficiais, através dos órgãos competentes, evita a divulgação privilegiada de
determinados atos.
5. Referências:
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF:
Senado
Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.
ALMEIDA, Leila Tinoco da Cunha Lima. Dispensa e inexigibilidade de licitação: casos mais
utilizados.
Jus Navigandi, Teresina, a. 4, n. 43, jul. 2000.
BORGES, Cyonil; BERNARDES, Sandro. Licitações e Contratos. Elsevier Brasil, São Paulo,
2aEd.,
2008.
MADEIRA, José; MELLO, Cleyson. Lei 8.666 comentada e [Link] Bastos Editora,
Rio de
Janeiro, 2014.
TANAKA, Sônia Yuriko. Dispensa e Inexigibilidade da Licitação, in Licitações e Contratos
Públicos. Saraiva, 5a Ed.
MENEZES, Niebuhr. Dispensa e Inexigibilidade de Licitação Pú[Link]. Fórum, 4a Ed., 2015.
MEIRELES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 34. Ed. São Paulo: Malheiros
Editores, 2008.
MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 28. Ed. São Paulo:
Malheiros Editores, 2008.
PIETRO, Maria Sylvia Zanella Di. Direito Administrativo. 17. Ed. São Paulo: Atlas, 2004.
PÊRA. Iausy Anahy Farias Martins. Licitação e Contratos. Maringá: Unicesumar, 2011.
OTERO, Luis Fernando. Licitação e Contratos na Administração Pública. Maringá, 2012.
ALMEIDA, Leila Tinoco da Cunha Lima. Dispensa e inexigibilidade de licitação: casos mais
utilizados. Jus Navigandi, Teresina, a. 4, n. 43, jul. 2000;
FILHO, Benedicto de Tolosa. Licitações e Contratos Administrativos. São Paulo: IBRAP , ed.
1.03 , 2003.
GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.