AS GARANTIAS DOS ADMINISTRADOS NO ORDENAMENTO JURÍDICO
MOÇAMBIQUE E A RELAÇÃO COM O PRINCÍPIO DA IMPARCIALIDADE
MARQUESA SULI1
RESUMO
O presente artigo faz uma reflexão sobre as garantias dos administrados e a relação com o
principio da imparcialidade, procurando assim promover um estudo aprofundado, porém,
simplório e lacónico em relação à temática ora apresentada. No entanto, dentre as várias
garantias dos administrados, temos a reclamação onde o administrado pelo demérito da
Administração Pública, impugna decisão administrativa perante o próprio autor do acto ou da
omissão para que este possa rever, modificar, substituir ou concordar com a sua decisão. Sendo
que o próprio autor do ato ou da omissão quem vai rever aquele acto que ele mesmo já praticou.
A pergunta é: aplicar-se-ia de forma correta e imparcial os princípios da boa administração
pública como a imparcialidade ou como o princípio da prossecução do interesse público, pelo
mesmo agente? Temos como objectivos da nossa pesquisa : analise das garantias dos
administrados e a relação com o princípio da imparcialidade. Tendo como objectivos específicos:
descrever o conceito e espécies das garantias dos administrados; compreender as garantias
impugnatórias dos administrados; e explicar a aplicabilidade do princípio da imparcialidade em
face as garantias dos administrados.
Palavras-chaves: Garantias dos administrados; princípio da imparcialidade; órgãos da
administração pública.
ABSTRACT
This article reflects on the guarantees of those administered and the relationship with the
principle of impartiality, thus seeking to promote an in-depth study, however, simplistic and
laconic in relation to the topic presented here. However, among the various guarantees of the
administrators, we have the complaint where the administrator, due to the demerit of the Public
Administration, challenges an administrative decision before the author of the act or omission so
that he can review, modify, replace or agree with his decision. The author of the act or omission
himself is the one who will review that act that he himself has already carried out. The question
is: would the principles of good public administration be applied correctly and impartially, such
as impartiality or the principle of pursuit of the public interest, by the same agent? The objectives
of our research are: analysis of the guarantees of those administered and the relationship with the
principle of impartiality. The specific objectives are: to describe the concept and types of
guarantees for those administered; understand the objectionable guarantees of those
administered; and explain the applicability of the principle of impartiality in light of the
guarantees of those administered.
1
Estudante do Curso de Licenciatura em Direito, 2° Ano – Laboral na Faculdade de Direito da Universidade
Católica de Moçambique; Trabalho individual de Direito Administrativo I.
2
Keywords: Guarantees of those administered; principle of impartiality; public administration
bodies.
INTRODUÇÃO
O presente artigo faz uma reflexão sobre as garantias dos administrados e a
relação com o principio da imparcialidade, procurando assim promover um estudo aprofundado,
porém, simplório e lacónico em relação à temática ora apresentada.
As garantias dos administrados constituem mecanismos estabelecidos na CRM e
na Lei do Procedimento Administrativo, de modo a assegurar os direitos e interesses legalmente
protegidos dos administrados em face das ilegalidades e omissões dos órgãos da Administração
Pública.
São garantias que se encontram dentro do âmbito administrativo, capaz de regular
a relação entre o particular e a Administração antes da demanda nos tribunais administrativos.
São, sobretudo, um organismo de defesa distinto das judiciais, ao qual o administrado busca
directamente, na própria Administração Pública, o direito de fazer um pedido ou de ter a
modificação, revogação ou anulação de um ato administrativo que lese os seus interesses.
Os órgãos que integram a Administração Pública na prossecução das suas
atribuições e competências, são obrigados a respeitar diversos princípios, sendo um deles o da
imparcialidade. Neste sentido à Administração Pública deve respeitar o princípio da
imparcialidade como um dos princípios preponderante para sua actuação, vinculando os órgãos
da Administração Pública a actuarem com isenção, equidade, objectividade, neutralidade e
justiça.
No entanto, dentre as várias garantias dos administrados, temos a reclamação onde
o administrado pelo demérito da Administração Pública, impugna decisão administrativa perante
o próprio autor do acto ou da omissão para que este possa rever, modificar, substituir ou
concordar com a sua decisão. Sendo que o próprio autor do ato ou da omissão quem vai rever
aquele acto que ele mesmo já praticou. A pergunta é: aplicar-se-ia de forma correta e
imparcial os princípios da boa administração pública como a imparcialidade ou como o
princípio da prossecução do interesse público, pelo mesmo agente?
3
Quanto aos objectivos desta pesquisa, postulamos como objectivo geral: analise
das garantias dos administrados e a relação com o princípio da imparcialidade. Tendo como
objectivos específicos: descrever o conceito e espécies das garantias dos administrados;
compreender as garantias impugnatórias dos administrados; e explicar a aplicabilidade do
princípio da imparcialidade em face as garantias dos administrados.
No que concerne a metodologia utilizada neste artigo científico, tiveram-se em
conta alguns critérios, nomeadamente: quanto a finalidade, a abordagem, dos objectivos e do
procedimento. No primeiro critério, a pesquisa classifica-se como básica, no segundo como
qualitativa, no terceiro como explicativa, e no quarto como bibliográfica e documental.
I. ENQUADRAMENTO TEÓRICO
1. Definição de garantias dos administrados
As garantias são os meios, mecanismos, instrumentos previstos na Constituição e
nas demais leis para assegurar, de forma preventiva ou repressiva, a legalidade administrativa
e/ou a protecção dos direitos e interesses legítimos dos cidadãos. Portanto, há a atribuição aos
particulares de determinados poderes legais que funcionam como protecção contra abusos e
ilegalidades da Administração Pública. Em outras palavras, podemos dizer que as garantias são o
meio legal de proteger os indivíduos contra a administração pública.2
As garantias são todos os meios criados pela ordem jurídica com a finalidade
imediata de prevenir ou remediar, quer as violações do direito objectivo (garantias da
legalidade), quer as ofensas dos direitos subjectivos ou interesses legítimos dos particulares
(garantias dos administrados).3
1.2. Espécies das garantias
São espécies de garantias dos administrados:
a) As garantias preventivas – são aquelas que se destinam a evitar as violações por parte da
Administração pública4, por exemplo: a suspensão jurisdicional de eficácia do acto, a
substituição imediata do funcionário, órgão ou agente em casos de impedimento de
2
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria – Universidade
Eduardo Mondlane, Maputo, 2002.P.13
3
SOUSA, Marcelo Rebelo de, Lições de Direito Administrativo, Lisboa, 1994/95. P.1201
4
actuação para dar vazão ao princípio da imparcialidade vide artigos 51 a 58 da Lei n.º
14/2011, de 10 Agosto, e artigos 132 a 142 da Lei n.º 7/2014, de 28 de Fevereiro.
b) As garantias sancionatórias ou repressivas – são aquelas que se destinam a sancionar ou a
repreender caso tenha existido uma violação por parte da Administração pública. As
garantias repressivas mais relevantes são o direito de denúncia (al. h) n.°1 do art.18 da
Lei n.º 14/2011, de 10 Agosto), o direito de queixa, o direito de reclamação e o direito de
recurso nas suas varias modalidades.
O direito de denunciar inclui todos os poderes destinados a informar as
autoridades ou agentes da administração da ocorrência de um facto ou da existência de uma
situação em relação à qual o destinatário tem a obrigação funcional de investigar. A denúncia
pode desencadear o início de um procedimento de investigação.5
O direito de reclamar representa uma forma do direito de denunciar, traduzido
pela definição dos elementos que podem determinar a abertura de um processo disciplinar, que
pode conduzir à aplicação de uma sanção ao agente administrativo. Em outras palavras,
reclamação é um tipo de reclamação sobre o comportamento de um agente administrativo. 6
O direito de reclamação é o direito de particular titular de direito subjectivo ou
interesse legalmente protegido, que se considere lesado por certo acto administrativo, solicitar,
ao autor do acto, a sua revogação, ou modificação, para tanto invocando a correspondente
ilegalidade ou inconveniência.7
Outra garantia administrativa repressiva é o direito de recurso de um acto
administrativo para um órgão superior hierárquico daquele que praticou o acto recorrido (recurso
hierárquico) ou que sobre ele exerça poder de supervisão fora do âmbito da hierarquia
administrativa (recurso hierárquico impróprio) ou poder de tutela ou superintendência (recurso
tutelar).8
4
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria – Universidade
Eduardo Mondlane, Maputo, 2002. P.16
5
SOUSA, Marcelo Rebelo de, Lições de Direito Administrativo, Lisboa, 1994/95. P.541
6
Idem.
7
SOUSA, Marcelo Rebelo de, Lições de Direito Administrativo, Lisboa, 1994/95. Pp.541-542
8
Idem. P.544
5
As garantias dos particulares, seguindo-se um critério puramente orgânico,
recebem diversas classificações, porque umas podem se efectivar através dos órgãos políticos do
Estado, ou no seio da própria Administração Pública ou mesmo dentro dos tribunais.
Quer dizer, elas podem ser politicas, administrativas ou jurisdicionais (ou
contenciosas) conforme se destinem a suscitar, da parte do órgão interpelado, o exercício da
função política, da função administrativa ou função jurisdicional do Estado, respectivamente.
O que importa é, assim, a actuação solicitada e não o órgão a que de dirigir o
exercício da garantia.9
Deste modo, podemos agrupar estas três grandes categorias:
a) Garantias politicas;
b) Garantias graciosas ou administrativas;
c) Garantias contenciosas.
São garantias políticas aquelas que se efectivam através de órgãos políticos do
Estado. Determinam o exercício da função política do Estado. É relevante nesta matéria, uma
excursão pelo texto constitucional, no sentido de se alcançar a noção de órgãos políticos do
Estado e mesmo em legislação extravagante onde algumas matérias são reguladas. 10
Garantias graciosas são garantias graciosas todas as que se efectivam através dos
órgãos da Administração activa. Pretende-se com elas confiar a prevenção e a repressão das
violações do direito objectivo e dos direitos subjectivos e dos interesses legítimos dos
particulares às próprias autoridades administrativas, mediante funcionamento dos poderes da
superintendência e fiscalização que certos órgãos exerçam em relação à actividade de outros,
esperando-se que a legalidade e os administrados possam ser garantidos com esta dinamização
interna do Poder administrativo.11
As garantias graciosas dos administrados consistem fundamentalmente na
faculdade, que a estes é reconhecida, de impugnar perante as autoridades da Administração
activa os actos que estas tenham praticado com ilegalidade, injustiça ou inconveniência,
9
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria – Universidade Eduardo
Mondlane, Maputo, 2002. P.17
10
Idem. P.18
11
CAETANO, Marcelo, Manual de Direito Administrativo, 10ª Ed., TOMO II, Almedina, Coimbra, 1994. P.1205
6
faculdade que a própria CRM consagra, ao referir no art.79.°, que a todo cidadão tem direito de
reclamação ou queixa perante quaisquer autoridades, em defesa dos seus direitos. Esta faculdade
de impugnar, exercida junto do autor ou do superior hierárquico, tem por objectivo a revogação,
a modificação ou a suspensão do acto praticado: visa, pois, obter da autoridade que exerça, no
interesse do administrado e em defesa dos direitos deste, certos poderes que se acham incluídos
na sua competência própria. A revogação, a modificação ou a suspensão não representam, por
conseguinte, nestas hipóteses, garantias da legalidade, mas antes garantias dos administrados. 12
São garantias dos administrados, segundo o art. 18.° Lei n.º 14/2011, de 10
Agosto, com a epígrafe garantias dos particulares, temos como garantia dos direitos das pessoas
singulares ou colectivas:
a) O requerimento;
b) A reclamação;
c) O recurso hierárquico;
d) O recurso hierárquico impróprio;
e) O recurso tutelar;
f) O recurso de revisão;
g) A queixa;
h) A denúncia;
i) A petição, queixa ou reclamação ao Provedor de Justiça;
j) O recurso contencioso.13
I.2. Garantias impugnatórias
As garantias impugnatórias são aquelas que, perante um acto administrativo já praticado, os
particulares são admitidos por lei a impugnar esse acto, isto é, a ataca-lo com determinado
fundamento.
12
Idem. P.1207
13
REPÚBLICA DE MOCAMBIQUE Lei n.º 14/2011, de 10 Agosto, Regula a formação da vontade da
Administração Pública, estabelece as normas de defesa dos direitos e interesses dos particulares in Boletim da
República, I Série n° 32 de 10 de Agosto.
7
As garantias impugnatórias, fazem parte das garantias graciosas – podem definir-
se, assim, como os meios de impugnação de actos administrativos perante a autoridade da
própria administração pública.14
São garantias impugnatórias dos particulares em Moçambique:
Se a impugnação é feita perante o autor do acto impugnado, temos a
impugnação;
Se a impugnação é feita perante o superior hierárquico do autor do acto
impugnado, temos o recurso o hierárquico;
Se a impugnação é feita perante autoridades administrativas que não são
superiores hierárquicos do autor do acto impugnado, mas que são órgãos
da mesma pessoa colectiva e que exercem sobre o autor do acto
impugnado poderes de supervisão, estaremos perante o que se chama de
recurso hierárquico impróprio;
Finalmente, se a impugnação é feita perante a uma entidade tutelar, isto é,
perante um órgão de outra pessoa colectiva diferente daquela cujo órgão
praticou o acto impugnado e que exerce sobre esta poderes tutelares, então
estaremos perante um recurso tutelar.15
1.2.1. Reclamação
Nos termos do preconizado no artigo 157º da , Lei n.º 14/2011, de 10 Agosto,
Regula a formação da vontade da Administração Pública, estabelece as normas de defesa dos
direitos e interesses dos particulares, entende-se por reclamação o meio de impugnação directa
ao autor do ato ou da omissão.
O direito de reclamação é o direito do particular, titular de direito subjectivo ou
interesse legalmente protegido, que se considere lesado por certo ato administrativo, solicitar, ao
autor, a sua revogação ou modificação, para tanto invocarem a correspondente ilegalidade ou
inconveniência.”16
14
AMARAL, Diogo Freitas do. Curso de Direito Administrativo, Volume IV, Editora Almedina, Lisboa, 1988. P.25
15
AMARAL, Diogo Freitas do. Curso de Direito Administrativo, Volume IV, Editora Almedina, Lisboa, 1988. P.26
16
SOUSA, Marcelo Rebelo de. Lições de Direito Administrativo. Vol. I. Lisboa 1995. P.541
8
É a hipótese do autor do acto rever o acto praticado por ele mesmo, cabendo-lhe a
confirmação, revogação, anulação, declaração de nulidade, modificação, substituição ou apenas
sanar o ato, sempre pautado à luz dos princípios da boa administração. É, de certa forma, uma
“segunda chance” que o autor possui para prática correta do ato, suposto, neste aspecto
considerar que a lei de certa forma obriga o agente a se rever e rever seus actos praticados que
até o momento são supostamente ilegais/arbitrários, não podendo, por lei, se recusar em rever o
ato.17
Quando a impugnação é feita perante o autor do acto impugnado, estamos perante
a reclamação. Deste modo, a reclamação é o meio de impugnação de um acto administrativo
perante o próprio autor. É um pedido de reapreciação do acto administrativo dirigido ao seu
autor.18
Na reclamação, regra geral pode-se reclamar de qualquer acto administrativo, no
entanto não se pode impugnar ato administrativo que decida anteriormente reclamação ou
recurso administrativo conforme o n.°2 do art. 157º da Lei do Procedimento Administrativo.
Deferido ou indeferido total ou parcialmente, não admite novo pedido, nem
possibilita nova modificação pela autoridade que já reapreciou o acto – artigo 157 da Lei n.º
14/2011, de 10 de Agosto, se outro prazo não estiver fixado em lei, extingue-se o direito de
reclamar ao término de quinze dias, contados desde a notificação do acto ou da data em que o
interessado tiver conhecimento do acto (conforme dispõe o artigo 158 da Lei n.º 14/2011, de 10
de Agosto – Lei do Procedimento Administrativo).
Tem efeito suspensivo quanto ao prazo nos tribunais que só retoma o seu curso
com a notificação da decisão proferida sobre a impugnação administrativa ou com o decurso do
respectivo prazo legal. Está suspensão não impede o interessado de proceder à impugnação
contenciosa enquanto decorre a impugnação administrativa nem de requerer providências de
medidas cautelares.
17
PATRÍCIO, Pâmela Baraúna Prieto, As garantias administrativas e o princípio da imparcialidade, dissertação
(Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Porto, Porto, 2019. P.21
18
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria – Universidade Eduardo
Mondlane, Maputo, 2002. P.39
9
Assim, a reclamação (facultativa ou necessária) faz-se uma mais-valia, pois o
interessado tem a liberdade de buscar primeiro impugnar o acto na esfera administrativa,
podendo esta impugnação ser resolvido pela própria Administração e caso o conflito não se
resolva administrativamente poderá buscar na esfera judicial.19
O recurso contencioso não depende de qualquer reclamação prévia; a reclamação
do acto administrativo nunca é (salvo lei especial) uma reclamação necessária. Acrescente-se
ainda que a reclamação interrompe e suspende os prazos legais de impugnação do acto
administrativo - artigo 161 da Lei n.º 14/2011, de 10 de Agosto, a reclamação deve ser decidida
no prazo de dez dias, é uma garantia de natureza facultativa na medida em que os particulares e
servidores podem lançar mão dela se o quiserem fazer.
1.3. O princípio da imparcialidade
No direito positivo, este princípio é definido da seguinte maneira: “a
imparcialidade impõe que os funcionários e agentes do Estado se abstenham de praticar actos ou
participar na prática de actos ou contratos administrativos, nomeadamente de tomar decisões que
visem interesse próprio, do seu cônjuge, parente ou afim, bem como de outras entidades com as
quais possa ter conflito de interesse nos termos da lei”.20
Nos termos do n.°1 do art. 7 da Lei n.º 14/2011, de 10 Agosto, dispõe que “no
exercício da sua actividade, a Administração Pública deve tratar de forma justa e imparcial todos os que
com ela entram em relações administrativas”, já no n.°2 do mesmo artigo “a imparcialidade impõe
que os titulares e os membros dos órgãos da Administração Pública se abstenham de praticar, ordenar
ou participar na prática de actos ou contratos administrativos, designadamente de tomar decisões que
visem o interesse próprio, do seu cônjuge ou de quem viva em união de facto, parente ou afim, bem como
de outras entidades com as quais possa ter conflitos de interesse, nos termos da lei”.21
19
PATRÍCIO, Pâmela Baraúna Prieto, As garantias administrativas e o princípio da imparcialidade, dissertação
(Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Porto, Porto, 2019. P.23
20
MACIE, Albano, Lições de Direito administrativo, Vol. I, Escolar Editora, Maputo, 2012. P.166
21
REPÚBLICA DE MOCAMBIQUE, Lei n.º 14/2011, de 10 Agosto, Regula a formação da vontade da
Administração Pública, estabelece as normas de defesa dos direitos e interesses dos particulares in Boletim da
República, I Série n° 32 de 10 de Agosto.
10
A imparcialidade impõe que os órgãos e agentes administrativos ajam de forma isenta e
equidistante relativamente ais interesses em jogo nas situações que devem decidir ou sobre os quais se
pronunciem sem carácter decisório.
Com efeito, o princípio da imparcialidade permite que, no desempenhar das
funções, da Administração Pública, respeite determinados valores e princípios que irão reger a
sua conduta de modo a garantir a segurança e defesa dos cidadãos contra possíveis abusos e
arbitrariedades da própria administração.
Para o renomado Professor Diogo Freitas do Amaral “o princípio da
imparcialidade impõe que os órgãos e agentes administrativos atuem de forma isenta e
equidistante relativamente aos interesses em jogo. Este princípio vincula os órgãos da
Administração Pública, em especial nas suas relações com os particulares, a agirem com isenção,
rectidão, objectividade, neutralidade e equidistância perante os interesses em presença.”. 22
II. APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E DISCUSSÃO DE DADOS
As garantias dos administrados são uma forma que a ordem jurídica preconiza,
tanto na CRM, como na lei, de modo a fazer valer os direitos e interesses legalmente
protegidos dos particulares.
No ordenamento moçambicano, é possível encontrarmos diversas garantias, as
preventivas, repressivas ou sancionatórias, onde podemos encontrar.
O direito de denúncia consiste no feixe de faculdades que se destinam a levar
ao conhecimento de órgãos ou agente administrativo a ocorrência de facto ou a existência de
situação, relativamente aos quais o destinatário tenha dever funcional de investigar. A
denúncia pode conduzir a desencadear de um procedimento de inquérito.
O direito de queixa representa uma espécie do género do direito de denúncia,
traduzida no facultar de elementos, que podem determinar a instauração de procedimento
disciplinar, eventualmente culminando na aplicação de sanção ao agente administrativo. Ou
seja, a queixa é uma modalidade da denúncia, que incide em comportamento de um agente
administrativo.
22
AMARAL, Diogo Freitas. Curso de direito administrativo. Volume II. 2º Edição. Almedina., Coimbra, 2015.
11
O direito de reclamação é o direito do particular, titular de direito subjectivo
ou interesse legalmente protegido, que se considere lesado por certo ato administrativo,
solicitar, ao autor, a sua revogação ou modificação, para tanto invocarem a correspondente
ilegalidade ou inconveniência.
É a hipótese do autor do acto rever o acto praticado por ele mesmo, cabendo-
lhe a confirmação, revogação, anulação, declaração de nulidade, modificação, substituição ou
apenas sanar o ato, sempre pautado à luz dos princípios da boa administração. É, de certa
forma, uma “segunda chance” que o autor possui para prática correta do ato, suposto, neste
aspecto considerar que a lei de certa forma obriga o agente a se rever e rever seus actos
praticados que até o momento são supostamente ilegais/arbitrários, não podendo, por lei, se
recusar em rever o ato.
Quando a impugnação é feita perante o autor do acto impugnado, estamos perante
a reclamação. Deste modo, a reclamação é o meio de impugnação de um acto administrativo
perante o próprio autor. É um pedido de reapreciação do acto administrativo dirigido ao seu
autor.23
Contudo, para que o autor do ato seja objecto da denúncia, é necessário e
adequado que haja imparcialidade de sua parte. Neste sentido, o autor do ato e, portanto, a
Administração Pública devem respeitar o princípio da imparcialidade como um dos princípios
prevalecentes da sua actuação, obrigando os órgãos da Administração Pública a actuar com
imparcialidade, justiça, objectividade, neutralidade e justiça.
Com base em garantias impugnatórias, especialmente em matéria de reclamações,
o princípio da imparcialidade torna-se um dos parâmetros mais importantes na decisão, pois é
justamente através do princípio que a obrigação de ser parcial será imposta ao autor da decisão
organização , impedindo o autor da acção ou omissão lesiva da falta de imparcialidade no
momento em que cancela, anula, modifica ou substitui o seu acto. Ao cumprir suas funções à
Administração Pública deve sempre respeitar os princípios constitucionais e fundamentais de
direito, tais princípios irão reger os actos e condutas administrativas, de modo a garantir a
segurança e defesa dos cidadãos.
23
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria – Universidade Eduardo
Mondlane, Maputo, 2002. P.39
12
Neste sentido à Administração Pública deve respeitar o princípio da
imparcialidade como um dos princípios preponderante para sua actuação, vinculando os órgãos
da Administração Pública a actuarem com isenção, equidade, objectividade, neutralidade e
justiça. Para o Professor Freitas do Amaral o princípio da imparcialidade “impõe que os órgãos e
agentes administrativos actuem de forma isenta e equidistante relativamente aos interesses em
jogo.”24
Da mesma forma, através de garantias administrativas, os cidadãos têm a
oportunidade de solicitar à Administração Pública um comportamento neutro, justo e igualitário.
Assim, aliado ao princípio da imparcialidade no domínio das garantias administrativas, surge o
princípio de validar as garantias administrativas e de prevenir a ocorrência de atos e decisões que
não visem a protecção do interesse público.
O princípio da imparcialidade surge como um auxílio preventivo e repressivo às
garantias administrativas, preventivas, uma vez que respeita o princípio da imparcialidade em
todos os actos e comportamentos da Administração Pública, as garantias administrativas,
especialmente as garantias punitivas, nem sequer são eficazes como existem hoje. administrativo
e repressivo hoje, porque impõe o princípio positivo nas decisões administrativas.25
Tendo como base as garantias impugnatórias, especificamente a reclamação, o
princípio da imparcialidade torna-se um dos parâmetros mais importantes na tomada da decisão,
pois é através do princípio que será imposto a obrigatoriedade do autor do órgão ser parcial,
evitando que o autor do ato lesivo ou omisso falte com a imparcialidade no momento em que
este revogar, anular, modificar ou substituir seu acto.
Assim, o princípio da imparcialidade é essencial junto as garantias administrativas
e no ordenamento jurídico moçambicano, visto ser a partir deste que a segurança jurídica dos
cidadãos é preservada, proibindo à Administração Publica decidir as questões dos particulares
com base em interesses próprios obrigando-a de tomar uma conduta imparcial.26
24
AMARAL, Diogo Freitas. Curso De Direito Administrativo. Tomo I. 4º edição. Editora Almedina, Coimbra,
2015. pg.152
25
PATRÍCIO, Pamela Baraúna Prieto, As garantias administrativas e o princípio da imparcialidade, dissertação
(Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Porto, Porto, 2019. P.52
26
PATRÍCIO, Pamela Baraúna Prieto, As garantias administrativas e o princípio da imparcialidade, dissertação
(Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Porto, Porto, 2019. P.55
13
A relação entre a garantia impugnada e a decisão do autor passa por “linhas
ténues.” As garantias administrativas precisam de maior efectivo posicionamento jurídico. Faz-se
necessário que o princípio da imparcialidade, assim como os demais princípios precursores da
boa administração, deve-se fazer sempre presente em todos os actos da administração
independente de quem ou qual pessoa julgadora está tratando.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho reporta sobre as garantias administrativas e a importância da
sua utilização como mecanismo de defesa contra actos ou omissões da Administração Pública.
Foram abordados, em especial, sobre as garantias administrativas do tipo impugnatórias com
particular destaque para a reclamação.
Tivemos também a oportunidade de discutir o princípio da imparcialidade. Com
efeito, o princípio da imparcialidade permite à Administração Pública respeitar determinados
valores e princípios que irão regular o seu comportamento no exercício das suas funções para
garantir a segurança e protecção dos cidadãos contra possíveis abusos e arbitrariedades da
própria administração. .
A partir deste momento torna-se muito importante considerar que, depois de o
autor do ato ter reavaliado o ato que reclama, deve agir de acordo com os princípios da boa
administração e da imparcialidade, para decidir de forma objectiva e clara. , apoia a sua decisão
em bases jurídicas, protegendo assim os direitos e interesses legítimos daqueles que são
administrados.
De fato, as garantias administrativas acarretam inúmeras vantagens para o
cidadão, garantindo para todos, que seus direitos sejam protegidos. As garantias administrativas
torna-se um direito eficaz e válido para o particular, visto ser um benefício, além de proporcionar
resultados satisfatórios.
Além disso, as garantias administrativas permitem ao indivíduo obter um
resultado mais rápido na resolução face ao as garantias contenciosas O particular deve buscar,
14
antes de tudo, a esfera administrativa para a resolução do conflito, tornando garantias
administrativas comuns e não atípicas.
Em segundo lugar, foi mencionada a noção do princípio da imparcialidade e a sua
aplicação às garantias administrativas. O princípio da imparcialidade garante que não haja
interferência pessoal ou emocional nas decisões tomadas em tribunal e que o processo em curso
seja julgado de forma neutra e imparcial.
Referências bibliográficas
Legislação:
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Lei n.º 1 da revisão de 2018, de 12 de Junho,
Constituição da República de Moçambique, in Boletim da República, I série n. 115 de
12 de Junho.
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Lei n.°7/2014, de 28 de Fevereiro, regula os
procedimentos atinentes ao processo administrativo in Boletim da República I série
n.°18.
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Lei n.°14/2011, de 10 de Agosto, regula a
formação da vontade da Administração Pública, estabelece as normas de defesa dos
direitos e interesses dos particulares in Boletim da República I série n.°32.
Doutrina:
15
MACIE, Albano, Lições de Direito administrativo, Vol. I, Escolar Editora, Maputo,
2012.
AMARAL, Diogo Freitas. Curso De Direito Administrativo. Tomo I. 4º edição. Editora
Almedina, Coimbra, 2015.
AMARAL, Freitas do, Curso de Direito Administrativo. Vol. II. 2ª ed., Almedina. 2011.
AMARAL, Diogo Freitas. Curso de direito administrativo. Volume II. 2º Edição.
Almedina., Coimbra, 2015.
CAETANO, Marcelo, Manual de Direito Administrativo, 10ª Ed., TOMO II, Almedina,
Coimbra, 1994.
CHAMBULE, Alfredo, Garantias dos Particulares, Vol. I, Imprensa Universitaria –
Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 2002.
PATRÍCIO, Pamela Baraúna Prieto, As garantias administrativas e o princípio da
imparcialidade, dissertação (Mestrado em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade
do Porto, Porto, 2019.
SOUSA, Marcelo Rebelo de. Lições de Direito Administrativo. Vol. I. Lisboa 1995.
16