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Lendas urbanas, de Itaipu a M’Boy

Alceu A. Sperança

        O desenho do lago de Itaipu forma um enorme dragão que cospe de volta o rio Paraná 

Há inúmeras lendas e relatos de milagres sobre localidades do Paraná. Alguns contos são divertidos, transitando da lenda mais ou menos disfarçada de antiga até a evidente brincadeira. A de Itaipu, por exemplo. Três brigões – um argentino, um paraguaio e um brasileiro – trocavam sopapos em cima de um terreno pedregoso às margens do Rio Paraná em complicada negociação referente ao contrabando de especiarias orientais. À medida que os socos ficavam mais raivosos e o vigor dos contendores arrefecia, iam caindo e se batendo nas pedras. O primeiro a cair foi o platino, que ao levar um bofetão cruzado desabou e bateu a cabeça na pedra maior. Sua dignidade não lhe permitia admitir que sentiu os golpes. Não se dando por vencido, levantou-se de pronto e começou a cantar um animado tango.

A pedra.. E assim nasceu Itaipu. E o brasileiro? Último a cair e a cabeça bater na pedra. esse índio teria determinado o local em que a cidade de Curitiba seria edificada. no século XVII. Já uma lenda urbana contada de modo que se acredite ser bem antiga.” Itaipu não merecia essa “lenda”. Basicamente é a continuação da lenda. do índio Tindiquera. que teve a vantagem de não pagar royalties a Shakespeare: a bela Julieta-Naipi. a padroeira da música.  Lenda das Cataratas: Shakespeare tropical             Santa Cecília e sua harpa ‐ guarani?  O segundo a cair foi o paraguaio. ao se erguer começou a cantar: “Ai. merecia? Uma das lendas mais belas do Paraná é a das Cataratas do Iguaçu. ai se eu te pego. dos tempos da criação da capital. que no idioma indígena significa “pedra que canta”. que perdia lascas a cada batida. também dificílima de engolir. . ai. cantando uma acelerada guarânia. como se fosse esculpida tomou a forma de Santa Cecília. foi punida com a morte por amar seu Romeu-Tarobá. cobiçada pelo monstruoso deus-serpente M’Boy. é a da cobra do subterrâneo de Curitiba.. que também de um salto se reergueu e voltou ao combate. Inspirado por Nossa Senhora da Luz dos Pinhais.

Como todas as profecias. pelo não. mas acordou com a insuportável barulheira do trânsito curitibano. Curitiba. até 2014 ele vira Curitiba pelo avesso. porém. aconselha-se aos motoristas curitibanos que buzinem mais baixo ao dar seus rolês pela cidade. vivia uma enorme e ameaçadora cobra. a cidade cuja santa visão ajudou a projetar. essa também foi amplamente desmoralizada. Ele não deixará barato: se os maias não derem um jeito já.Pois consta que depois de sonhar acordado com a santa. Não vão acordar o estressado M’Boy! Bem fresquinha. que vem causar uma nova perturbação em seu tranquilo sono. havia se tornado no futuro de seu pesadelo uma metrópole gigantesca. exatamente o M’Boy que deu origem à lenda das Cataratas. mas. Ao se remexer raivosamente em sua perturbação. Tindiquera ao dormir teve um pesadelo. já se espalha a lenda urbana segundo a qual o deus-serpente está de bronca é com o metrô de Curitiba. O deus-cobra dormiu por longo tempo. Em seu subterrâneo. que engoliram a cidade inteira numa imensa cratera fumegante. . M’Boy causou grandes rachaduras. O pesadelo-profecia do suposto índio Tindiquera ganhou na década de 80 uma versão científica: de tanto mexer na cidade. pelo sim. Envergonhado pelos chifres que Naipi lhe aplicou. os urbanistas alargaram as rachaduras tectônicas do subsolo da capital e o apocalipse curitibano viria em algum momento fatídico entre 2009 e 2011. seguindo das Cataratas até os subterrâneos da capital. M’Boy se mudou para Curitiba a pretexto de protestar contra a destruição ambiental causada por Itaipu.

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