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DISCIPLINA DE HIDROGEOLOGIA

Docente: Elónio Muiuane, PhD


Hidrogeofisica 1
CONTEÚDO:

• Astectos introdutórios e factos históricos;

• Ciclo hidrológico e água subterrânea;

• Geologia geral, geomorfologia e formações geológicas;

• Escoamento subterrâneo e características dos aquíferos;

• Instrusão salina em aquíferos.


SUMÁRIO:
Hidrologia de superfície e subterrânea. Balanço Hídrico
do solo. Qualidade físico-química e biológica das
Águas. Qualidade hidrodinâmica dos Aqüíferos.
Propriedades físicas das rochas. Perfuração de Poços.2
Hidrogeologia – Elónio Muiuane
OBJETIVOS : Apresentar aos estudantes do curso de Engenharia
de Minas um conjunto de conceitos fundamentais relacionados
com a água subterrânea e sua inter-relação com as águas
superficiais e pluviais. Desenvolver mecanismos de entendimento
dos principais processos associados à gestão da água na sociedade e
do papel da população neste contexto.

MÉTODO DIDÁTICO: A disciplina tem carácter conceitual e


será desenvolvida do seguinte modo: 1) Aulas expositivas
com auxílio do Data Show; 2) Aulas práticas descritivas do
material relacionado à interação água-rocha; e 3)
Apresentação de seminários, pelos estudantes, sobre
temas variados de interesse aos objetivos da disciplina.

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CONTEÚDO - PROGRAMA

Aspectos Introdutórios
 Nós...a água...e a vid;
 A abordagem hidrogeológica – multidisciplinaridade;
 A Hidrogeologia e o mercado de trabalho;
 Conceito de hidrogeologia;
 Evolução dos estudos hidrogeológicos com o tempo;
 Importância histórica das águas subterrâneas;
 Águas subterrâneas – um bem mineral.

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A Problemática da Água
 Recursos hídricos – Cenário Mundial (Graphics)
 Recursos hídricos Continente Africano (Graphics)
 A Situação nas regiões do interior e zonas costeiras
 Fatos e Mitos

As Águas Subterrâneas no Ciclo Hidrológico


 O Ciclo hidrológico (Graphics)
 Águas superficiais (Graphics)
 Águas sub-superficiais (Graphics)
 Águas subterrâneas (Graphics)
 Balanço hídrico do solo (Graphics)
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Aquíferos
 Definição do termo
 Tipos de aquíferos (Graphics)
 Relações entre águas subterrâneas e
águas superficiais
 Condições geológicas criando aquíferos

Parâmetros Hidrogeológicos Fundamentais


Condutividade hidráulica
Cargas hidráulicas Lei de Darcy
Potenciais hidráulicos Gradiente hidráulico
Coeficiente de porosidade total Permeabilidade intrínseca
Porosidade específica Transmissividade
Retenção específica Porosidade efectiva
Grau de saturação Descarga específica
Teor de humidade Velocidade de percolação
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BIBLIOGRAFIA BÁSICA PARA O CURSO
•Fetter, C.W., 2001. Applied Hydrogeology (4th edition). Prentice Hall, London. 598 pp.

•Fetter, C. W., 2008. Contaminant Hydrogeology. Waveland Pr Inc, 500 pp.

•Freeze, R.A. and Cherry, J.A., 1979. Groundwater. Prentice Hall, London. 604 pp.

•Brasington, F.G., 1991. Field Hydrogeology, Geological Society of London, Professional


Handbook series. John Wiley & Sons Inc, 192 pp.

•Bear, J. and Cheng, A. H.-D., 2010. Modeling Groundwater Flow and Contaminant
Transport(Theory and Applications of Transport in Porous Media. Springer, 856 pp.

•Lenton, R. and Muller, M., 2009. Integrated Water Resources Management in Practice: Better
•Water Management for Development. Routledge, 248 pp.

•Langmuir, D.,1997. Aqueous Environmental Geochemistry. Prentice Hall Ed., New Jersey,
USA, 600 pp.
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Hidrogeologia – Elonio Muiuane
•Telford, W.M., Geldart, L.P., Sheriff, R.E. & Keys, D.A., 1976. Applied Geophysics, Cambridge
University Press, Cambridge, UK, 860 pp.

•Hydrogeophysics, Editors: Rubin, Y and Hubbard, S.S. ISBN: 978-1-4020-3101-4 (Print) 978-1-4020-
3102-1 (Online).

•Applied Geophysics for Geologists and Engineers. The Elements of Geophysical Prospecting, (Second
Edition). Author(s): D. H. Griffiths and R. F. King. ISBN: 978-0-08-022072-7.

•Clark, L., 1996. The Field Guide to Water Wells and Boreholes. Geological Society of London,
Professional Handbook series. Chichester: John Wiley & Sons, Inc,

•Dobrin, M., 1981. Introduction to Geophysical Prospecting. MacGraw-Hill Book Company, Singapura,
630 pp.

•Kirsch, R., 2010. Groundwater Geophysics: A Tool for Hydrogeology. Springer, 568 pp.

•Parasnis D.S., 1986. Principles of Apllied Geophysics, Chapman and Hall, London, UK, 402 pp.

•Rubin, Y. and Hubbard, S. S., 2006. Hydrogeophysics (Water and Technology Library). Springer, 533
pp.

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Aspectos Introdutórios

Nós...a água...e a vida

A água está no mundo e em cada um de nós. Ela


está sobre nós, nas núvens, como parte da
atmosfera; ao nosso redor, nos rios, lagos, linhas de
drenagem e valetas, componentes da atmosfera;
está abaixo de nós, circulando nos maiores rios da
Terra – os aquíferos – como parte das águas
subterrâneas; está caminhando até nós, nos
sistemas hidráulicos de distribuição de água até
nossas casas.
A água está também dentro de nós, perfazendo cerca
de ¾ de nosso organismo e como elemento
imprescindível à manutenção de nossa vida
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 10
Assim como a água nos dá a vida, pode também tira-
la. Pois como acontece entre os humanos, existem
as águas boas e as águas más! As boas são as
águas puras, sem cor, odor ou cheiro, que matam
nossa sede. Algumas águas, porém, são traiçoeiras,
nos alimentam de doenças – ditas doenças de
veiculação hídrica – que podem nos levar á morte.

A água surgiu na Terra há mais de 3.5 bilhões de anos


e veio tornar nosso planeta único no Universo. Até
agora somente a Terra mantém as condições básicas
para sustentar a vida.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 11


Desde a formação das primeiras moléculas orgânicas que
antecederam a geração das primeiras células vivas, a água
tem tido um papel fundamental na Terra. Os primeiros animais
foram marinhos. Depois os anfíbios começaram a povoar a
Terra sólida. Os homens, surgidos há 4 milhões de anos,
passaram a formar as aglomerações sociais em volta dos
cursos de água. Passaram, então, a transformar as águas boas
em águas más!

Agora que iniciamos a disciplina de Hidrogeologia, oferecida


pelo Departamento de Engenharia Civil da Universidade
Eduardo Mondlane, é importante que o mestrando entenda não
só a importância dos principais conceitos que governam as
águas subterrâneas – a base da disciplina – mas também do
papel de cada um de nós no processo de uso e conservação dos
Recursos Hídricos em geral que, no fundo, está diretamente
ligado à sobrevivência das gerações futuras.
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Nas maiores bacias hidrograficas do país, com a
abundância de água que temos, essa conscientização é
muito mais difícil, pois já desenvolvemos a cultura do
desperdício. Achamos que temos muita água.

Talvez a melhor maneira de consciencializar as


comunidades da necessidade de preservar nossas
águas, é lembrar da situação do nivel de escassez de
água nas zonas áridas e semi-áridas, notavelmente nos
distritos do interior das províncias de Maputo, Gaza e
Inhambane e sul da província de Manica e algumas
faixas territoriais da provincia de Tete.
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As águas subterrâneas, objeto de nossa disciplina, vêm se
inserindo cada vez mais no cenário nacional – e no internacional
- como uma das alternativas mais importantes na matriz da
gestão dos recursos hídricos no sentido de atender plenamente
à sociedade moçambicana naquilo que vem sendo considerado
o mais precioso bem do Terceiro Milênio – a água.
O conhecimento deve ser considerado o principal capital humano
no modelo actual de sociedade actual do nosso país. Neste
contexto, torna-se imprescindível que o mestrando do curso deste
mestrado adquira os fundamentos básicos da moderna
Hidrogeologia e suas interações com uma grande gama de outras
áreas das geociências e das ciências humanas em geral.
A busca de sucesso no mercado de trabalho actual de nosso país
tem demonstrado que a área dos Recursos Hídricos vem
representando uma fatia considerável, juntamente com suas
interações com a Geologia Ambiental e Geotecnia com
ferramentas indispensáveis existente no campo do
Geoprocessamento e do Sensoriamento Remoto.
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Além disso, o entendimento dos processos relacionados com a
prospecção das águas subterrâneas e suas inter-relações com
os outros componentes do ciclo hidrológico, permitirão a
obtenção de fortes subsídios para o exercício da cidadania
plena.
Cremos que um dos maiores desafios que o país enfrentará nas
próximas dêcadas nas questões da água será modificar os
modelos institucionais, técnicos e educacionais actuais e abordar
a problemática da água na concepção de gestão integrada, onde
cada gota d’água deverá ser utilizada de forma racional.

Para tanto, o entendimento da moderna


Hidrogeologia pode constituir o primeiro de
muitos passos a serem dados na direção do
uso e proteção dos Recursos Hídricos.
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Aspectos Introdutórios

A abordagem hidrogeológica –
multidisciplinaridade
Hidrogeologia Interdisciplinar!

Qualquer Ciência Actual Interdisciplinar!

Geocientista Em Baixa no Mercado


Especialista de Trabalho

Geocientista Em Alta no
Generalista Mercado de Trabalho
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HIDROGEOLOGIA
ESTRATIGRAFIA GEOFÍSICA

GEOL. ESTRUTURAL GEOTECCNIA

GEOTECTÔNICA GEOLOGIA DE
ENGENHARIA
PETROLOGIAS HIDROQUÍMICA
ÍGNEA ENGENHARIA
SEDIMENTAR SANITÁRIA
METAMÓRFICA MECÂNICA DOS
FLUIDOS
GEOMORFOLOGIA
MODELOS
HIDROLOGIA
MATEMÁTICOS
CLIMATOLOGIA CIÊNCIAS DOS
OCEANOGRAFIA COMPUTADORES
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 17
A Hidrogeologia e o mercado de trabalho
A importância da Hidrogeologia em Moçambique e no exterior
tem crescido muito nos últimos 10 anos. Os indicadores sócio-
econômicos têm mostrado que tal tendência deve continuar nas
próximas décadas, se não incrementar-se fortemente
Isso tem decorrido não somente pela consciência da sociedade da
importância de ambientes limpos para viver, como também pelo
fato de que há uma crescente idéia de que somente haverá um
futuro para a humanidade com a erradicação da pobreza e isso
terá que passar necessariamente pela democratização do acesso à
água potável e ao saneamento.
Acrescenta-se também que está se tornando cada vez mais
claro que o desenvolvimento não se contrapõe ao controle
ambiental e ao contrário, algumas técnicas ambientalmente
salutares tem elevado o lucro a médios e longos prazos das
empresas.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 18
Nesta conjuntura, o mercado profissional para o
hidrogeólogo tem se diversificado tremendamente nas
últimas décadas. Antigamente as possibilidades de
trabalho restringiam-se em actuar com perfuração de
furos, avaliações hidrogeológicas e estudos acadêmicos
de contaminação de aquíferos. As empresas onde se
deixava o currículo eram as perfuradoras de furos e se
esperava por um concurso público para entrar em uma
instituição de pesquisa governamental.
Hoje o recém formado de Hidrogeologia ou de engenharia,
que queira trabalhar em hidrogeologia, tem muito mais
opções:
Obras de captação: i) acompanhamento de perfuração de
furos mecânicos em companhias privadas; ii)
desenvolvimento de novas tecnologias de perfuração de
furos (lama, polímeros, etc.) e iii) projeto de captações de
água subterrânea.
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Hidrogeologia – Elónio Muiuane
Avaliação hidrogeológica: localização de pontos para a
abertura de furos de captação de água, inclusive com a
incorporação às técnicas tradicionais de análises
geológicas mais sofisticadas, como a neotectônica e o
estudo de ambiente de sedimentação (faciologia).
Prospecção de água mineral: busca de fontes de água
mineral que atenda á demanda, a não-contaminação e a
química.
Gestão ou manejo do recurso hídrico: i) exploração e
produtividade do aquífero; ii) sustentabilidade da
exploração do aquífero; iii) impactos que a exploração pode
causar em áreas ecologicamente frágeis e iv) impactos do
abandono da exploração em áreas urbanas (elevação de
níveis potenciométricos e problemas geotécnicos).

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 20


Contaminação ambiental: i) hidrogeoquímica (estudo das
anomalias químicas); ii) contaminação de solos e de
aquíferos (caracterização de locais impactados por
actividades humanas); iii) remediação de áreas
contaminadas (solo e aquíferos).
Geologia do planejamento: i) compatibilização do uso da
terra frente à capacidade da hidrogeologia (abastecimento
de água, vulnerabilidade de aquíferos); ii) avaliação de
áreas de risco geológico

Campos de Actuação
Prospecção de Águas
Subterrâneas
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 21
As empresas e instituições contratantes dos serviços
hidrogeológicos também se diversificaram. Um fenômeno
bastante notável nestes últimos anos foi à criação e expansão
das empresas de consultoria em meio ambiente. Também foram
criados instituições e programas acadêmicos especificos para a
área de recursos hidricos e comitês de gestão de bacias
hidrográficas, que devem mudar ainda mais este perfil de
empresas no País.

Os concursos para contratação de Geólogos que


houveram no País, nos últimos 10-15 anos foram
para a área de Recursos Hídricos

Para além de geologia e minas o Governo contratou


profissionais geólogos para a área de
Hidrogeologia/Hidrologia/Recursos Hídricos nos últimos 10-15
anos

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 22


As tendências de desenvolvimento na área dos Recursos
Hídricos indicam que nas próximas décadas poderemos ter os
seguintes cenários:

i) Crescimento acentuado do sector água subterrânea/meio


ambiente (que já está se notando).

ii) Aquisições e fusões de empresas privadas menores por


outras maiores, geralmente com participação de capital
estrangeiro; como pode ser observado em várias áreas da
economia nacional.
Estes casos são comuns quando as empresas estrangeiras
querem entrar no mercado nacional e preferem comprar ou se
associar a uma outra, nacional.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 23


iii) Mudança de foco, que hoje é centrado em estudos de avaliação de
aquiferos para estudos de contaminação e/ou descontaminação de solos
e aqüíferos. Estas serão umas das grandes mudanças para os próximos
anos. A descontaminação de sites envolve, via de regra, grandes
investimentos, que muitas de nossas pequenas empresas de meio
ambiente não terão condições de implementar. Caso tenham interesse
nesta grande fatia do mercado, haverá a necessidade de buscar capital,
através de associações com empresas estrangeiras ou nacionais.
O que acontecerá, então com as pequenas empresas nacionais, que por
vários motivos não se associarão ou não serão compradas pelas
empresas maiores? Para as pequenas não associadas, creio que
teremos dois tipos de situação:
(A) Pequenas e Médias Empresas, onde haverá especialistas para a
solução de problemas específicos das empresas maiores, que não terão
interesse em manter em seus quadros técnicos especialistas, pois os
problemas que o envolvem são ocasionais;
(B)Pequenas e Médias Empresas, onde apresentam baixo custo e
baixa qualificação profissional. Estas continuarão actuando na
periferia do mercado.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 24
Conceituação de Hidrogeologia
Foi o naturalista francês Lamark, em 1802, quem primeiro
utilizou o termo Hidrogeologia para definir um conjunto de
fenômenos de erosão, transporte e sedimentação produzidos por
agentes hídricos.

No mesmo sentido o termo foi utilizado pelo americano Powell,


em 1885.

É evidente que o significado do termo Hidrogeologia, como


empregado por Lamark e Powell não foi bem aceito nem entre
seus contemporâneos, nem posteriormente.

Depois disso, seguiram-se algumas contribuições:

Hidrogeologia – Elonio Muiuane 25


 O alemão Prinz publicou “Handebuch der Hydrologie”, em
1919, tratando somente das águas subterrâneas e não das
superficiais

 Meinzer propôs, em 1939, A ASSOCIAÇÃO


INTERNACIONAL DE HIDROGEOLOGIA CIENTÍFICA e a
parte da Hidrologia que tratava das águas subterrâneas foi
denominada Geohidrologia

 Hidrologia foi definida como a ciência que se ocupa da água


que interage no Ciclo Hidrológico. Meinzer a dividiu em
Hidrologia Superficial e Hidrologia Subterrânea ou
Geohidrologia.

 A partir daí se discutiu muito a adequação dos termos


Hidrologia Subterrânea, Hidrogeologia e Geohidrologia
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 26
Hoje se entende que Hidrologia é a ciência que trata do estudo
da água na natureza, sua ocorrência, circulação e distribuição,
suas propriedades físicas e químicas e suas reações com o meio-
ambiente, incluindo suas relações com a vida.(Definição
recomendada pelo United States Federal Concil of Science and
Tecnology, 1962)

O termo HIDROGEOLOGIA tem sido usado para


a parte subterrânea da Hidrologia

Evolução dos Estudos Hidrogeológicos

Existe um ditado que diz “ninguém pode realmente ser um


mestre em uma ciência a menos que estude sua história
específica.”
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 27
Isso é também válido para os estudos hidrogeológicos. Para que
entendamos a Hidrogeologia hoje, é importante que conheçamos
como esses estudos têm evoluído ao longo do tempo.

Durante cerca de 99% de sua existência na Terra, o homem foi


caçador-extrativista, seguindo animais e vegetais, segundo as
estações.

Somente durante os últimos 10 000 anos é que tornou-se


sedentário, na medida em que foi obrigado a praticar a agricultura
para sobreviver nas regiões áridas, para onde teve que migrar,
fugindo da calota polar do último grande período glacial.

As aldeias se transformaram em Cidades e Estados


organizados, sendo JERICÓ a cidade mais antiga já descoberta,
datando de 8 000 anos a.C.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 28
As águas subterrâneas eram a base do desenvolvimento das
civilizações antigas, pré-Cristo.O exemplo mais claro da utilização
das águas subterrâneas na antiguidade foram as KHANATS. Eram
galerias que captavam as águas e as transportavam por longas
distâncias. Os khanats penetravam por baixo das zonas saturadas
e captavam água ao produzir uma linha de menor potencial.

A origem dos khanats se perde na antiguidade, mas segundo De


Camp (1963) in Custódio & Llamas (1983), quando Sargon II de
Asíria invadiu a Armênia em 714 a.C., destruiu os khanats que lá
encontrou e transportou a técnica para seu país.

A construção de poços escavados começou a ser desenvolvida no


Oriente. Eram normalmente profundidades a 50 ou 100m e
diversas referências podem ser encontradas no livro da Gênese,
do Antigo Testamento quanto à construção desses poços e aos
consequentes problemas legais e políticos.
Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 29
Os sistemas de perfuração de furos semelhantes aos actuais
só foram conhecidos depois da Idade Média. A exceção é a
China onde há 1 500 anos se pratica a perfuração a
percussão baseada nos mesmos princípios utilizados pelas
técnicas modernas.

A crescente complexidade das actividades de produção e de


ocupação do meio ambiente da sociedade moderna exigiu um
permanente desdobramento das ciências em geral.

Como resultado disso, a Hidrogeologia evoluiu, durante o último


milênio, de uma abordagem quase mitológica para uma fase
altamente tecnicista, a qual passou rapidamente, durante o
último quarto de século, para uma abordagem ecológica
(Rebouças, 1995)

Hidrogeologia – Elonio Muiuane 30


Segundo Rebouças (1995) os grandes marcos da Hidrogeologia
compreendem as seguintes etapas:

Fase Empírica – Se estende desde os primórdios da


civilização, há cerca de 10 000 anos a.C., quando foram
escavados os primeiros poços para abastecimento humano,
animal e irrigação até a experiência de Darcy, em 1856 d.C.

Com o famoso teorema sobre o deslocamento de fluidos,


apresentado no Tratado de Hidrodinâmica de Bernoulli (1738), e a
lei de Darcy (1856) sobre os fluxos nos meios porosos, teve início a
fase quantitativa da Hidrogeologia. Esta fase de abordagem
científica teve um grande impulso, graças ao sucesso dos poços
artesianos perfurados na França a partir de 1126, em Artois, de
onde deriva o nome de artesiano que foi dado ao poço jorrante.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 31
Período de 1856 – 1935 – foi lançado o embasamento
científico, correspondentes aos fundamentos geológicos e a
mecânica dos fluidos, com as condições de ocorrência e de fluxo
das águas subterrâneas nos meios porosos e produtividade das
obras de capacitação.

Período de 1936 – 1950 – houve um grande crescimento na


industria, que deu suporte a II Guerra Mundial, exigindo o
desenvolvimento dos métodos de avaliação da produtividade de
poços, raios de influência, precursores da hidrogeologia
quantitativa moderna.Os modelos físicos (caixas de areia, placas
paralelas ou de viscosidade) tiveram um relativo sucesso, sendo
posteriormente substituídos pelos modelos analógicos elétricos.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 32


Década de 1950 – o consumidor atingiu a fase comercial,
possibilitando a evolução da tradicional abordagem pontual da
hidráulica de poços, para uma análise mais ampla, em que se
considerou a Unidade Aquífera. Nesta fase, as unidades lito-
estratigráficas, ou corpos rochosos com relativamente melhor
permeabilidade foram denominados de aquíferos, em
contraposição às camadas praticamente impermeáveis que
foram denominadas de aquicludes, e os aquitardes sendo termos
intermediários. Os modelos analógicos elétricos foram,
progressivamente, substituídos pelos modelos matemáticos
analíticos.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 33


Década de 1970 – teve início a abordagem sistêmica dos
problemas hidrogeológicos. Nesta etapa, as aplicações se
restringiram, praticamente, às análises de alternativas de usos
múltiplos de reservatórios.

Nos estudos hidrogeológicos passou-se a considerar o Sistema


Aquífero, o qual compreende suas zonas de recarga, de trânsito
de fluxo e zonas de descarga, todas associadas e
interdependentes do sistema hidrológico ou da unidade
hidrográfica onde ocorria o aquífero em questão.

Seguiu-se uma teorização que foi embasada na crescente


capacidade de cálculo dos computadores, atraindo o interesse de
especialistas de áreas afins, nem sempre sintonizados com os os
fundamentos conceituais dos modelos hidrogeológicos,
culminando com o desenvolvimento dos modelos numéricos de
fluxo/transporte de massa de diferenças finitas e de elementos
Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 34
finitos.
A crise do petróleo foi uma grande impulsionadora dos avanços
alcançadas neste período, cujos conhecimentos foram,
rapidamente, apropriados pelo sector da hidrogeologia física
e/ou de produção de água subterrânea para abastecimento
urbano, industrial e irrigação.

Década de 1980 – cresce a percepção sobre as interações


hidrodinâmicas e hidroquímicas que ocorrem no subsolo,
envolvendo aquíferos, aquicludes e aquitardes, resultando na
abordagem actual do Sistema de Fluxos Subterrâneos. Os
resultados da investigação de campo e de laboratório tornam
evidente a inexistência, em absoluto, de água subterrânea
desconectada do ciclo hidrológico.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 35


A partir 1985 – cresce a percepção sobre os problemas de
poluição que afetam as águas subterrâneas. Em consequência,
desenvolvem-se os método de estudo da zona não saturada,
intensificam-se, substancialmente, os estudos de hidrogeologia
física e, sobretudo, desenvolve-se rapidamente a hidrogeologia
química ou hidroquímica. Os estudos dos processos hidrológicos ou
físicos passam a ser tão importantes quanto os processos
geoquímicos ou hidroquímicos, exigindo um maior
aprofundamento dos conhecimentos de matemática, química e das
ciências computacionais.

No início da década de 1990 – a microbiologia das águas


subterrâneas (solo, zona não saturada e zona saturada) passa a
ser uma importante fase dos estudos hidrogeológicos. Esta fase
exige um grande esforço dos hidrogeólogos, no sentido de um
maior aprofundamento científico em microbiologia e de ajuste
cultural para abordagem de estudos experimentais no campo e
Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 36
laboratório.
No momento, os estudos hidrogeológicos têm como
objetivo básico o uso e a proteção das águas
subterrâneas, exigindo o concurso de um amplo
espectro interdisciplinar de especialistas.

Importância histórica das águas


subterrâneas

Sabe-se que o organismo humano pode privar-se de alimento por


alguns dias. Mas, privando-se de água ele morrerá rapidamente. Não
admira, pois que, desde muito antes que o homem primitivo
houvesse deixado sua presença sobre a Terra por meio de incisões
nas paredes de suas cavernas a água tenha sido a força propulsora
de toda a civilização.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 37
Na realidade a quantidade de água que nosso organismo necessita
para sua subsistência é relativamente pequena, se comparada com o
peso do corpo: cerca de 2.5 litros por dia, para uma pessoa de
atividade moderada, em clima temperado. Cada função orgânica,
porém, está condicionada a presença de uma porção dessa
quantidade, de tal forma que se pode afirmar que a vida depende da
água.

A água participa na proteção do embrião antes do nascimento, na


manutenção da temperatura do corpo, no processo respiratório, no
funcionamento das glândulas, na digestão, na lubrificação das
articulações móveis. Sem água suficiente para a manutenção das
funções orgânicas, o homem perde o apetite, torna-se subnutrido e
incapacitado, até chagar à morte!

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 38


Além dessas há outras necessidades prementes de um adequado
suprimento de água. Os alimentos produzidos pelo solo dependem
da água para seu crescimento e para o seu valor nutritivo, uma vez
que os minerais do solo devem ser dissolvidos para poderem ser
utilizados pela planta.

Uma parte substancial das proteínas e carboidratos que o corpo


humano necessita provém de animais (peixes) e vegetais encontrados
no mar, lagos e rios, ou nas suas proximidades.

Tem sido ao longo de hidrovias que o homem tem se movimentado,


desde os tempos remotos, ao procurar expandir sua cultura e
dominar sempre mais as regiões incultas. Basta se observar as
maiores cidades das nações e atentarmos para suas relações com o
oceano, com um lago ou com um rio, para se constatar que, a
despeito de nossa habilidade em vencermos o tempo, distância e
espaço, não deixamos de -estar
Hidrogeologia subordinados
Prof. Milton Matta à agua. 39
O fato de ser a água o mais essencial entre todos os minerais, que o
homem aprendeu a utilizar nos seus estados líquido, sólido e vapor,
tem amparo na própria Bíblia, conforme já mencionado. Os Livros
Sagrados estão entremeados de inserções sobre a importância da
água para aquela época.
Também para as civilizações pagãs que precederam a era cristã, a
água era considerada de suma valia. Ruínas escavadas na Índia,
datando mais de 5000 anos, revelam sistemas de abastecimento de
água e de drenagem tão completos que incluíam piscinas de natação
e banho.
Por essa época, o Egipto tinha construído a primeira represa
conhecida de conservação de água potável e de irrigação: uma
estrutura de pedra, com 12.20m de altura e 102m de comprimento.
Os agricultores árabes aproveitavam as crateras de vulcões extintos
para os seus reservatórios de água de irrigação.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 40
Onde se tem conseguido atender à demanda de água potável, a nação
tem progredido e os padrões de vida têm melhorado. Onde isso não
foi conseguido, o progresso retarda e os padrões de vida
permanecem baixos.
Actualmente o uso da água não satisfatória ou insalubre é, em geral,
um dos maiores entraves para o desenvolvimento nacional e para a
melhoria do nível de vida das comunidades.
Existe uma tendência, em geral até justificada, das pessoas
exagerarem na importância das águas superficiais em detrimento
das águas subterrâneas.
As águas de superfícies podem ser vistas. Além disso, enormes somas
de dinheiro têm sido gastas em construções de represas, barragens,
reservatórios artificiais (açudes), aquedutos e canais de irrigação
envolvendo águas de superfície. É natural que se queira considerar
essa fonte como a mais importante para abastecimento de nossas
necessidades.
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 41
Água do Planeta
100%
H
i Água Salgada
97,5%
Fonte: Matta,
2002
d
r Água das
Calotas e

o Geleiras
1,72%

s
f Água Doce
0,78%

e
r
a Rios e Lagos Hidrogeologia - Prof. Milton Matta Outras 42
1,01% Água Subterrânea 2,89%
96,1%
Comparação entre os
Volumes das diversas
águas do Planeta

Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 43


Relação entre
águas superficiais
e subterrâneas.

Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 44


Planeta Terra = único Planeta já conhecido do Universo
com água nos três estados físicos fundamentais,
equivalendo a um volume estimado em torno de 1,4
bilhões de km3.

Posição da Terra em relação ao Sol

Marte: muito perto do Sol = vapor de água

Outros corpos: muito longe do sol = gelo

Em termos de água subterrânea o Brasil utiliza cerca de


0.6 % da vazão total (anos 2000)

30% doa paises da Europa (Alemanha , Bélgica) estão


em situação crítica ( >20% das reservas)
Hidrogeologia – Elónio Muiuane 45
Águas Subterrâneas X Águas Superficiais
1- Mais abundantes

2- Melhores qualidades Físico-


químicas e Bacteriológicas
3- Mais protegidas
contra contaminação
4- Mais protegidas
contra evaporação
5- Mais baratas
(abastecimento)
6- Dispensa longas redes de
distribuição (poço no local)
7- Permite investimentos
gradativos com a demanda
Hidrogeologia – Elonio Muiuane 46
Tendo em vista os grandes volumes de capital
necessários aos projetos de utilização das águas
superficiais – construção de açudes, estações de
recalque, adutoras e estações de tratamento,
principalmente – os investimentos são feitos, regra geral,
com dinheiro público. Por causa disso desenvolve-se a
idéia de que o fornecimento de água a qualquer preço é
uma obrigação do estado e verifica-se uma falta de
compromisso com o seu uso eficiente.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 47


A cobra
representativa
da ordem de
valores dos 30
mais
importantes
matérias primas
minerais do
mundo.
O tamanho de
cada bola e o
número
associado
representam a
ordem de
importância do
Hidrogeologia - Prof. Milton Matta 48
bem mineral.
Na realidade, em diversos paises do mundo e mesmo em algumas
regiões de Moçambique, as águas subterrâneas passaram a ser
olhadas dentro de um outro prisma. Elas têm sido consideradas
como um bem mineral e têm passado a representar um importante
papel no contexto sócio-econômico e financeiro.

Nos estados Unidos, por exemplo, e em diversos paises ditos do


primeiro mundo, a motivação primária para o estudo das águas
subterrâneas tem sido, tradicionalmente, sua importância como
um bem mineral, com grande interesse econômico.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 49


Para se alcançar um uso mais eficiente da gota d’água disponível no
mundo, uma das recomendações do Banco Mundial (BM) e da
Organização das Nações Unidas (ONU) é considerá-la uma mercadoria,
com preço de mercado.

Neste quadro, como os investimentos necessários à perfuração de


furos e ao bombeamento da água subterrânea são feitos, regra geral,
pelos próprios usuários, a sua utilização tende a ser mais eficiente em
relação ao uso das águas superficiais, cuja oferta é feita e garantida por
um “provedor” que investe muito dinheiro público para construção de
obras extraordinárias.

Assim, no Centro Oeste dos Estados Unidos - a maior economia de todos


os tempos num meio árido com um coração desértico - o custo da água
que é bombeada de furos cada vez mais profundos sendo crescente
levou os agricultores a trocar os métodos de irrigação, cujas perdas
totais da gota d’água disponível eram de 50%, por outros mais eficientes,
com perdas de apenas 5%.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 50


Da mesma forma, passaram a recuperar os estoques dos aquíferos
intensamente utilizados com águas de reuso, de enchentes dos rios ou
importadas de bacias hidrográficas vizinhas.
Por sua vez, trocaram culturas tradicionais por outras que consomem
menos água e alcançam melhor preço no mercado.

Certamente, seria de fundamental importância informar mais a mídia


e a sociedade, em geral, sobre a existência das águas subterrâneas e
o grande alcance social e econômico da sua utilização racional.

É preciso mostrar que a utilização da água subterrânea, isto é,


aquela que flui “escondida” pelo subsolo da região ainda é a
alternativa mais barata para solução dos problemas hídricos nos
países em desenvolvimento e desenvolvidos, principalmente.

O desafio que se apresenta é fornecer de forma regular a gota


d’água pelo menor preço possível e usá-la com eficiência é mais
importante que ostentar sua abundância.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 51


O raciocínio nas cidades da Europa e Estados Unidos, por exemplo, é de
que os índices de perdas totais da água fornecida às redes de
distribuição - vazamento físico e perdas financeiras decorrentes do roubo
d’água ou das célebres ligações “clandestinas” - fiquem em níveis
considerados razoáveis, entre 5 e15%.
Entretanto, e paises do Terceiro Mundo, salvo honrosas exceções,
estas perdas totais atingem níveis que variam entre 40 e 60%. Por sua
vez, cerca de 64% das empresas de abastecimento de água, não
coletam, sequer, os esgotos domésticos que geram e estima-se que
nove de cada dez litros de água utilizados são devolvidos aos rios,
principalmente, sem nenhum tipo de tratamento.
Desta forma, em termos de utilização das águas subterrâneas, continua
sendo de fundamental importância que se diferencie um furo de um
buraco de onde se extrai água. Para tanto, é de fundamental importância
exercer um controle das obras de captação da água subterrânea, ou dos
furos, por exemplo, para que estes sejam sempre bem construídos,
operados e abandonados de forma adequada, isto é, baseados no tripé
do desenvolvimento sustentável: Ética, Ecologia e Economia.

Hidrogeologia – Elónio Muiuane 52