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psicossomática

“Sinto tudo
e não tenho
nada?”
o sofrimento físico e mental marca o fenômeno
psicossomático, convocando profissionais da saúde a
considerar suas implicações, o papel do paciente no processo
de adoecimento e eventuais desdobramentos.
a própria clínica abre e amplia essa discussão

“S
A AUTORA
HELLY CARAM AGUIDA é médica,
mestre em cirurgia geral pela Santa
Casa de São Paulo, professora
do curso de Psicossomática
Psicanalítica do Instituto Sedes
Sapientiae, em São Paulo.
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ofro com intestino preso e com essas dores há mais de 20 anos. É como se tivesse
algo se movimentando dentro de mim,
querendo sair, mas não sai. Minha barriga
fica estufada, cheia de gases... Não aguento mais. Isso
está acabando comigo, afeta toda a minha vida!” Essas
palavras, em tom de desabafo, são ditas por Maura, no
desenrolar de sua primeira consulta comigo. Visivelmente
desgastada, a advogada elegante, de 41 anos, confessa
estar cansada de fazer exames, procurar inúmeros especialistas, seguir todas as prescrições e continuar sofrendo
e ouvindo as mesmas coisas: “Você não tem nada sério”;
“A síndrome do intestino irritável (SII) é assim mesmo,
de difícil tratamento”; “É apenas uma disfunção, nada
mais que isso”. Por fim, ela me questiona: “Terei que
simplesmente aceitar e me conformar? Sinto tudo e não
tenho nada? Como assim, doutora? ”.

perfil e alma. óleo sobre tela, 35 x 28 cm. ismael nery/coleção banco central-df/ divulgação

por Helly Caram Aguida

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sobre os registros e perturbadora conscientes e inconscientes da memória. sem possibilidade de evacuação.psicossomática Casos como esse exemplificam os desafios cada vez mais frequentes com os quais deparamos na prática clínica diária. Ao dizer “é apenas uma disfunção”. mesmo com a exclusão de algo grave? Como pode haver ausência diante da presença insistente e perturbadora de sintomas que desorientam. Diante desses questionamentos. desorganizam e assolam o corpo? Outra paciente. abrem caminho para uma interlocução entre profissionais da medicina. após extensa investigação diagnóstica. ela acordava de madrugada por causa da dor. ainda que fundamentadas em evidências biológicas. desconforto. Ao afirmar que o paciente apresenta alterações funcionais. com grande contribuição à compreensão das íntimas e recíprocas associações entre mente e corpo. inclusive aspectos psicossociais. o desenvolvimento tecnológico e das pesquisas em neurociência permitiu avanços no campo da psiconeuroimunologia. Como lidar com a sensação de nulidade. Seus sintomas não melhoravam com medicamentos e restrições dietéticas. Lídia. psicologia. Considerando a situação de Maura. O papel do sistema nervoso central e autônomo é preponderante na função intestinal. o médico se refere à exclusão de doença orgânica. com o intuito de sintomas que de proporcionar relações desorientam. os principais sintomas são dor. podendo haver constipação. a dor. o que responder? Como abordar o dilema da ambivalência do “sentir tudo e não ter nada”? Maura me fez pensar. é útil e precioso informar o pacienComo pode haver te a respeito da plasticidade do cérebro. “Sinto-me num beco sem saída. assolam o corpo? 30 psiquismo e soma. Ela se mostrava apreensiva e com muito medo do diagnóstico. Tampouco minimizar a complexidade da condição clínica de pacientes como Maura. As vertentes psicofisiológicas. associado ao nada. Eu sei que isso tudo tem a ver com meu emocional. a exclusão de lesões dos órgãos e sistemas orgânicos não deve implicar um reducionismo na concepção da desorganização somática – na verdade. Muitas vezes. sou muito nervosa. a referência é o campo biológico. entre cérebro e organismo. Nesse sentido. sem remédio. tudo. psicossomática. “demonstráveis” e. que ultrapassa as fronteiras do clássico modelo biomédico cartesiano (marcado pela dicotomia mente-corpo). de alívio. Entretanto. de suas coneausência diante da xões com órgãos e sistemas presença insistente do corpo.” E. nada. Tais situações demandam a revisão de conceitos e perspectivas de abordagem clínica e terapêutica envolvidos no processo do adoecimento. já que tinha fortes cólicas abdominais que precediam as idas frequentes ao banheiro. com a inclusão da subjetividade. então. não se observa alteração metabólica ou estrutural da víscera. Múltiplos fatores estão envolvidos na fisiopatologia desses distúrbios. Pesquisou sobre o assunto e ficou apavorada diante da condição debilitante vivida por muitas pessoas com a síndrome. desorganizam e “aceitáveis”. mente e corpo. de 38 anos. a caminho do caos. coisa nenhuma. sem solução. “apenas” de caráter funcional. através de importantes conexões que modulam as atividades motoras e sensoriais do intestino. de início se identificava como “um caso difícil e complicado” de SII. assim como aumento da percepção dos movimentos peristálticos. No caso da síndrome do intestino irritável. “nada sério”. diarreia ou alternância entre ambos. por fim. distensão abdominal. Por isso. especialmente nos possíveis significados de palavras como apenas. sentia algo se movimentando dentro do abdome. de fato. foi se tornando algo sem importância. ocorrem as disfunções de motilidade. tudo que eu tenho é por causa da minha ansiedade. Sabe-se que a maior parte dos quadros disfuncionais não apresenta uma causa claramente definida. Em sua peregrinação pelos consultórios médicos. Diante de alterações nesses sistemas reguladores. quando se sente “tudo”? É possível encontrar alívio e consolo nessa condição. em variados níveis de intensidade e comprometimento da saúde física e mental. disse: “Sou a responsável por estar . dor física e psíquica. Lídia contou ter perdido o emprego por causa de sua dificuldade de concentração no trabalho. psicanálise.

já não é do físico. à procura de causas internas ou externas. o excesso de comida. E a causa interna foi janeiro 2016 • mentecérebro 31 . Como o foco é buscar e tratar “a causa”. para que se possa ligar. que adoece ainda mais o corpo e a alma. isso é por causa do seu estresse. psicossomático. Há mais angústia e sofrimento à medida que as possibilidades de extirpação da causa e da tão esperada cura se tornam cada vez menos tangíveis. Esse é um aspecto que demanda atenção e cuidado. é do psicólogo! Permanece a dicotomia. a cisão. enquanto sua ausência. “nada” além disso. uma pessoa problemática. constituir a unidade psicossomática. de sua ansiedade”. emocional. toda estragada!”. nos jogamos com verdadeira fúria sobre as causas externas. colegas. O caso de Lídia aponta o surgimento de outro sintoma: se sentir responsável por estar “toda estragada” – a opressão da culpa. Georg Groddeck. integrar. Lídia carregava um rótulo.sem título (casal). psicólogos – que “isso é psicológico.5 cm. seus desarranjos e disfunções e vivem à procura do porquê de seus transtornos. profundamente interessado na teoria psicanalítica e em suas implicações terapêuticas também nas doenças orgânicas. mas sem doença alguma. já apontava de forma crítica os impasses do pensamento causalista. A questão é como o próprio médico concebe a necessidade e o papel do acompanhamento psicológico. “apenas” com distúrbio funcional. Ela disse que sempre ouviu de todos à sua volta – parentes. muitas pessoas sofrem com a cronicidade de suas dores. guache sobre papel. o estigma de ser “um caso difícil e complicado”. 58 x 45. Não raramente há a crença de que. é da mente. os acidentes de trabalho e sabe-se lá mais o quê. ismael nery/ coleção particular/ divulgação assim. se a então procurada e misteriosa causa é psicológica. muitos encaminhamentos se resumem a indicações para esse fim. é “da cabeça”. A presença do hífen traz apenas associação. representativa do que possa ser humano. isto é: os bacilos. não é do corpo. integração. “Após uma divisão assim tão nítida. médico contemporâneo de Freud. de bebida. não é somático. não é do médico. é psíquico. sem que se compreenda ao certo como a psicoterapia pode ajudar a combater a dor “no corpo”. é possível que faça encaminhamentos para profissionais da saúde mental. com a mesma sutileza que diferencia os conteúdos dos termos psico-soma e psicossoma. Sem dúvida. doente. que não é “do corpo”. ainda que disfuncional. Eu me pergunto: isso o quê? Ou o que é isso? Percebo que saber d’isso não a ajudou a compreender o que isso significa. Quando o médico se dá conta do esgotamento de suas possibilidades terapêuticas e da provável influência de fatores psíquicos. Fiquei impactada e perguntei o porquê de uma afirmação tão contundente. no caminho da compreensão do fenômeno psicossomático importa inicialmente associar psique e soma. os resfriamentos. médicos. Na verdade.

é como se representasse um objeto externo.5 x 13. Nesse contexto. de um existir (ou não existir) caótico. sem fim. Talvez por essa razão. Creio que o seu verdadeiro anseio por ajuda tinha uma relação muito estreita com essa frase. que requer avaliação 32 e conserto. Na verdade. não é fácil nem simples acessar causas internas.8 cm. a “causa externa” está assegurada. esforços e do valor inerentes à formação e capacitação do profissional médico. 21. É comum ouvir “meu intestino é preguiçoso e indisciplinado. E isso foi se revelando em meu percurso pessoal e profissional através do encontro com os conteúdos da psicossomática psicanalítica. como podemos compreender a demanda e o conteúdo do apelo implícitos no desabafo de Maura ao dizer “sinto tudo e não tenho nada?”. se prepara mais para conhecer.” De fato. tão enigmática e desafiadora para um médico. extirpar o que está fora do que o que está dentro. Será essa excitação o tudo irrepresentável. Considerando esses aspectos. pelo significado de tamanha desorganização. pois corpo e alma casal. que legitima o sofrimento no corpo. Apesar de todas as dificuldades. expõe a sensação de vazio e insegurança quando a esperada primazia da “causa externa” é descartada. pode parecer mais confortante do que sua exclusão.. que mobilizam profundas reflexões. Groddeck estava certo de que “não existem doenças orgânicas e doenças psíquicas. Apesar de a referência ser a um órgão interno. que se expressa como “nada” no corpo? Pensar essas questões somente se tornou possível com o reconhecimento da necessidade de ajuda por parte do que cuida para compreender e conceber a dimensão do que possa significar ser pessoa.. quando o problema é constatado. a obra freudiana proporcionou as bases para o desenvolvimento da escola psicossomática do século 20. acessar. Na verdade. neurose de órgão. apontou as relações entre pensamento e descarga motora e ressaltou a importância da dinâmica psíquica em toda e qualquer doença orgânica. oculto e inominado.completamente esquecida! Por quê? Porque é muito desagradável olhar para dentro de si mesmo – e é apenas em si mesmo que encontramos as poucas fagulhas que iluminam as trevas da causa interna. é perceptível uma contradição no discurso de muitos pacientes: falam de seus órgãos como algo que está dentro. A exclusão simplifica por um lado e complica por outro. sem reconhecimento. não me obedece. interpretar. Trata-se de uma pergunta ou de uma afirmação? A exclusão da causa externa reduz a nada o tudo que é sentido no corpo? Entendo haver um clamor pelo sentido intensamente contraditório de “nada” e “tudo”. O psicanalista Sándor Ferenczi desenvolveu conceitos importantes como patoneurose. sem nome. E. algo circula por todo o seu corpo e o desorganiza: uma excitação sem destino. guache sobre papel. não sei o que fazer com ele!”. o encontro de uma doença orgânica. tratar. mas é de fora. ismael nery/ coleção domingos giobbi/ divulgação psicossomática . uma peça do organismo.

Casa do Psicólogo. fundamentais para a ligação entre psique e soma. O consagrado psiquiatra infantil e psicanalista René Spitz postulava que “o organismo opera fisiológica e psicologicamente como um sistema binário”. ou de ambos? Para Kreisler. Rubens Marcelo Volich (orgs. Corpo. Cristiana Rodrigues Rua. exatamente porque não fala. ou partes dele. sem vida. tudo. ela pode recompensar os médicos através de uma compreensão insuspeitada sobre as relações entre o psíquico e o somático”. acrescento à lista a palavra excesso. constituída na qualidade de sujeito. Posteriormente. Michel Fain retoma e salienta a noção de trauma. mais do que informação. com ênfase na importância de aspectos do funcionamento mental nos processos de somatização. Essas considerações apontam para a importância do infantil. 2007. foi proposta uma reflexão em torno das palavras apenas.). Não é mesmo possível separar funcionamento mental de funcionamento orgânico. em que uma sobrecarga de excitação pode exceder os limites de resposta do psiquismo. o corpo fala. Psicossoma I: psicanálise e psicossomática. Casa do Psicólogo. recompensou.adoecem simultaneamente”. do ego. Flávio Carvalho Ferraz. construções. No início deste texto. É necessário que alguém escute e possa compreender o não dito. que carrega no próprio corpo as marcas de sua história. Rubens Marcelo Volich. Maria Auxiliadora de A. ambos desorganizadores. que possibilita o reconhecimento de si mesmo. Casa do Psicólogo. com impacto na organização psicossomática de todo indivíduo. Franz Alexander (1891-1964). ao que cuida. fundadores da escola de psicossomática de Paris. inclusive em psicossomática. Psicossomática: de Hipócrates à psicanálise.). Refiro-me ao precioso e singular encontro de uma pessoa bem formada. Os estudos do francês Pierre Marty. ampliaram os conceitos psicanalíticos. na dependência da qualidade e quantidade dos recursos presentes e disponíveis.). Em 1923. 2015. 2010. mas ressaltar a importância das pesquisas realizadas por autores como Spitz. e excesso de ausência. Psicossoma II: psicossomática psicanalítica. o corpo sofre. uma das principais funções do aparelho psíquico é possibilitar a assimilação de traumatismos ao longo da vida. O neurologista Paul Schilder (1886-1849) afirmou: “Utilizei o insight que nos dera a psicanálise com seus mecanismos psíquicos para elucidar problemas da patologia do cérebro”. e colaboradores.. muitas vezes aos pedaços e disfuncional. presentes no discurso de Maura. do acontecer vivenciado no corpo: único. dependendo do momento de sua vida. seja possível o caminhar em um percurso que possibilite a esse outro o encontro de “si mesmo”. Certamente. Maria Helena Fernandes. com conteúdos difusos.. C. para além da aquisição de saberes específicos dos especialistas. da mente. Essas capacidades variam entre as pessoas. 2005. a partir de então. psicanalista húngaro. Flávio Carvalho Ferraz. Donald Winnicott. Rubens Marcelo Volich. Os estudos evidenciaram a necessidade de equilíbrio do par presença-ausência da mãe na relação com seu bebê. PARA SABER MAIS Psicossomática e psicanálise: casos clínicos. a “nada”. janeiro 2016 • mentecérebro 33 . Leon Kreisler.”. 2011. Maura e Lídia sofriam de excessos. morto em 1993. das funções materna e paterna. Neste momento. Freud escreveu: “A psicanálise nunca pretendeu ser uma panaceia ou produzir milagres. transformar as excitações em representações psíquicas. Escuta. na clínica psicossomática. para a construção e constituição do self. o verdadeiro eu. que se dedicaram ao estudo das fases iniciais do desenvolvimento. com outro sujeito. assim como em um mesmo indivíduo. anunciava que “toda doença é psicossomática. ou seja. Maria Elisa Pessoa Labaki (orgs. representante da escola de psicossomática de Chicago. pois os fatores emocionais influenciam todos os processos fisiológicos pelas vias nervosas e humorais”. e “transbordar” para o corpo. é necessário formação. das vivências primitivas. Casa do Psicólogo. A manifestação de sintomas somáticos e de doenças se associa aos movimentos de organização e desorganização psíquicas. “na histeria. nada. não mais de um profissional bem informado com um organismo fragmentado. Quem sabe. Ana Maria Soares. Rubens Marcelo Volich. Excesso de presença não remete a “tudo”. Para além de seus efeitos de cura. singular. De fato. excesso de presença e excesso de ausência são profundamente desorganizadores. Por isso. sem possibilidade de nomeação e representação psíquica? Seus distúrbios funcionais são “apenas” disfunções? Do corpo. Arantes (orgs. Chamo atenção para a possibilidade de um verdadeiro encontro. Neste momento não cabe aprofundar. Segundo Wilhelm Reich (1897-1957). “as relações entre as esferas somática e psíquica são resultantes de um paralelismo psicofísico” – toda experiência psíquica apresenta uma ancoragem fisiológica.