1123 CAPÍTULO V

1. OS TRÊS PRIMEIROS ANOS DE VIDA 1.1 Introdução Os três primeiros anos de vida têm forte determinação nos valores; na própria construção do ego da criança; como o ego se projeta no corpo, uma boa estruturação nesta época é condição importante de saúde física, mental e espiritual. Esta época de vida é o tempo de possibilidade de formação de um estado contínuo de consciência; aí ficam inscritas as boas e as más histórias de vida. Lembrando que a grande jornada começa na concepção e quanto mais tenras as impressões, mais duradouras estas se tornam. Assim, as impressões deixadas pela mãe, refletidas pelo seu estado de espírito durante a gravidez, serão mais impactantes do que as de quando a criança já nasceu. Seguindo este raciocínio, os fatos ocorridos no parto são mais importantes do que eventos nos dias seguintes a ele. Analogamente, os eventos ocorridos nos três primeiros anos são capazes de determinar o sistema de crença que uma pessoa carregará por toda a vida adiante. Até os sete anos pode-se dizer que as fundações da vida foram colocadas e o edifício humano construído terá então saúde ou problemas para o resto da vida os quais depois, só a poder de muito trabalho interno, é possível resolver.
As primeiras impressões recebidas na vida são as mais fortes e as mais ricas em conseqüências, mesmo sendo inconscientes, e talvez, justamente porque jamais se tornaram conscientes, ficando assim inalteradas. Apenas na consciência algo pode ser corrigido. O que é inconsciente permanece inalterado. (JUNG, 1981b, p. 158)

Logo no começo deste período é importante seguir as orientações de Michel Odent, que diz que, logo após o nascimento, deve-se deixar a mulher em paz, examinando isto por 12 perspectivas: (ODENT, 2007a) 1 – Perspectiva da respiração: A necessidade que a criança tem de respirar, agora por um novo circuito de circulação do pulmão para o coração. Fecham-se os ductos de

1124 comunicação que existiam na vida fetal, o ductus arteirosus e o forâmen ovale. A partir do nascimento um aprendizado de respiração começa a ocorrer. 2 – Perspectiva do altruísmo: a oxitocina é o hormônio do amor e do altruísmo em qualquer faceta que se considere - e a privacidade facilita sua liberação. Quanto mais a mãe sentir-se pele a pele com seu bebê e olhar nos seus olhos, mais liberação de oxitocina haverá em ambos os organismos. 3 – Perspectiva etológica do vínculo: os etólogos foram os primeiros a se dar conta da importância do vínculo mãe e filho em todas as espécies e tem sido bem documentada a complicação da privação, para os filhotes, do contato na primeira hora de vida com mãe. 4 – Perspectiva da lactação: à primeira hora, o bebê encontra o bico do seio por si mesmo, bastando colocá-lo sobre o peito da mãe; ele segue nesta direção até encontrar e mamar, isto acontece se não nasceu sob efeito de anestesia. Quanto mais rápida a exposição ao peito, melhor o prognóstico de amamentação, mais rápido a punjatura do leite se dá. 5 – Perspectiva metabólica: O bebê tinha no ventre uma alimentação contínua e, à primeira hora de vida, vive uma adaptação metabólica para passar a dispor de uma alimentação descontínua. A capacidade de regulação dos níveis de glicose no sangue essencial para a manutenção da qualidade de vida - se dá nesta primeira hora e tem sido observada em profundidade por M. Cornblath nos Estados Unidos e por Jane Hawdon, Laura Deroy e Suzanne Colson no Reino Unido. 6 – Perspectiva bacteriológica: o bebê nasce de um meio asséptico e, uma hora mais tarde, milhões de bactérias cobrem suas mucosas. A questão é: quais germes vão colonizar primeiro o organismo do recém-nato. Os bacteriólogos sabem que quem vai vencer a corrida serão os germes que primeiro chegarem às mucosas. É interessante que

1125 sejam os do corpo da mãe, pois mãe e bebê compartem a mesma IgG, os mesmos anticorpos. Ou seja, desde que nasce, o bebê precisa urgentemente ter contato com uma só pessoa, a própria mãe. Além disto, ao ingerir o colostro, vai receber ajuda para estabelecer uma flora intestinal ideal. 7 – Perspectiva de termo-regulação: no útero, o bebê nunca teve de experimentar temperatura diferente, então os primeiros minutos do pós-parto marcam fortemente este aspecto; o organismo do bebê vai ter de ser capaz de manter sua termo-regulação e, para tanto, o contato pele a pele com a mãe é de fundamental valia. 8 – Perspectiva do equilíbrio motor: adaptação à gravidade, que também não era vivida pelo feto, nessa primeira hora sobrecarrega subitamente o nervo vestibular que conduz, a partir do ouvido, estímulo para o cérebro para que se desenvolva o equilíbrio. 9 – Perspectiva etológica da não violência: a maioria das culturas intervém, separa ou mesmo interdita o colostro para o bebê. Tal procedimento de afastamento precoce afeta a interação protetora da mãe para com o filho, mais tarde. O que a farta literatura hoje disponível aponta é que, quanto mais destrutiva é uma cultura, mais intrusivos são os rituais e crenças para perpetrar separação entre mãe-filho no pós-parto imediato. 10 – Perspectiva do vínculo: a grande maioria dos hospitais no mundo têm protocolos que entendem que é necessário manter a mulher sob vigilância, no pós-parto, aplicar-lhe oxitocina para aumentar a contração uterina e diminuir a perda sanguínea. Na verdade, as duas condutas levam à perda da liberação da oxitocina endógena, com perda bio-psicológica para a relação mãe-filho. 11 – Perspectiva das Parteiras: elas procuram proteger o processo fisiológico, pois sabem que isto assegura quantidade grande de oxitocina na circulação da mulher, o que garante a expulsão da placenta, então elas aquecem o ambiente. Nesta fase as mulheres não se queixam de sentir muito calor, criando um clima que permite um namoro mãe e

1126 filho sem distrações ou desconforto. Neste momento é importante que a mãe esteja com o neocórtex relaxado e não ativo, para que mais instintiva seja a experiência. 12 – Perspectiva sócio-política: estudos que enfocam as conseqüências a longo prazo das intervenções separando mãe-bebê, resultam mais tarde em maiores índices de criminalidade juvenil, suicídio entre adolescentes, droga-adição, anorexia nervosa, autismo, etc. Portanto há que fazer intervenções em níveis políticos, para que mudanças ocorram. (ODENT, 2007a) 2 As Capacidades do Recém-nascido 2.1 Estados de Consciência – Ciclos Em 1960 cientistas começaram a identificar que o cérebro dos recém-nascidos era desenvolvido além de um nível primitivo. Peter Wolff, psiquiatra infantil em Boston, trabalhou em lares com bebês recém-nascidos. Ele sentava-se demoradamente, discretamente, registrando cada ação dos bebês, acordados e adormecidos. Independentemente, Heinz Prechtl fez estudos semelhantes em Groningen, na Holanda, mas acrescentou registros da freqüência cardio-respiratória e ondas cerebrais. (KLAUS e KLAUS, 1989) Reunindo os achados, os dois cientistas organizaram suas informações e descobriram a atividade cerebral do recém-nato. Eles perceberam que existiam seis estados de consciência diferentes, de acordo com o grau de vigília ou sono do bebê. Dois estados de sono: sono tranqüilo e sono ativo; três estados de alerta: inatividade alerta, alerta ativo, e choro; e um sexto estado que é o de torpor, uma transição entre sono e vigília. Cada um destes estados é acompanhado por comportamentos específicos e individuais. (KLAUS e KLAUS, 1989) No estado de inatividade alerta, os olhos estão totalmente abertos, luminosos e brilhantes, neste estado os recém-nascidos conseguem brincar. Podem seguir uma bola

1127 vermelha, selecionar figuras e até imitar a face da mãe. Logo após o nascimento, os bebês têm um período prolongado de inatividade alerta, durante os quais eles olham diretamente para a face e para os olhos da mãe e do pai e podem responder a vozes. Neste estado, a atividade motora está suprimida e toda a energia do bebê parece estar canalizada para ver e ouvir. Durante a primeira semana de vida, o bebê normal passa aproximadamente dez por cento de qualquer das 24 horas do dia neste estado, o que lhe permite captar muita coisa e ter condições de se adaptar ao ambiente. (KLAUS e KLAUS, 1989) Durante o estado de alerta ativo, ocorrem movimentos mais freqüentes dos olhos; os olhos olham em torno e os bebês emitem alguns sons. Este estado aparece antes de se alimentar ou quando ele está inquieto além de surgirem movimentos a cada um ou dois minutos: braços, pernas, corpo, face. (KLAUS e KLAUS, 1989) O estado de choro, que é uma forma de comunicação, indica fome ou desconforto: os olhos podem estar abertos, ou firmemente fechados, a face contorcida e vermelha, braços e pernas movem-se vigorosamente. Muitas mães conseguem alterar este estado, segurando os bebês, acariciando-os, colocando-os no colo, na vertical. (KLAUS e KLAUS, 1989) No estado de torpor, quando o bebê está adormecendo, ele pode continuar a mover-se, sorrindo, franzindo as sobrancelhas ou mexendo os lábios. O olhar está apático, sem focalizar nada. As pálpebras pendem e antes de fechá-las os olhos podem girar para cima. (KLAUS e KLAUS, 1989) Logo após o nascimento, o bebê dorme aproximadamente 90% do dia ou da noite; frequentemente adormece durante a amamentação. Metade deste período de sono é passado em sono ativo e a outra metade em sono tranqüilo; estes estados se alternam a cada 30 minutos. (KLAUS e KLAUS, 1989)

1128 No sono tranqüilo, a face do bebê está relaxada e as pálpebras estão fechadas e imóveis. Não há movimentos do corpo, exceto raros sobressaltos e movimentos leves da boca. Ele está em total repouso e a respiração é muito regular. (KLAUS e KLAUS, 1989) No sono ativo, os olhos do bebê flutuam entre abertos e fechados, vê-se o movimento dos olhos sob as pálpebras. Este estado de sono REM já havia sido observado dentro do útero por Jason Birnholz. No sono ativo aparece movimentação do corpo: ocasionalmente, pernas, braços ou o corpo inteiro. A respiração não é regular e é ligeiramente mais rápida do que no sono tranqüilo. Mesmo estando dormindo, fazem caretas, sorrisos e carrancas e pode aparecer movimento de mastigação ou sucção. (KLAUS e KLAUS, 1989) Quanto aos movimentos no alerta, sem chorar, por um minuto e um quarto, ele não se move e aí ocorre uma explosão de movimentos. Este ciclo de atividade e serenidade ocorre continuamente a cada um ou dois minutos quando ele está em estado de alerta ativo de consciência; Steven Robertson verificou que o mesmo já ocorria desde a vigésima semana de gestação. Ainda assim há uma diferença nas respostas de acordo com a cultura, grupo racial e uma certa individualidade. (KLAUS e KLAUS, 1989) O recém-nato espirra cerca de 11 a 12 vezes ao dia, a fim de limpar o nariz. O bebê já é capaz de bocejar, logo após o nascimento. (LINDEN, 1977) 2.2 Visão No primeiro minuto de vida, mãe e filho devem começar sua interação, olho no olho, pele na pele, toda a ligação que ali se estabelece. Se o pai está perto e se estão próximos os irmãos, a ligação da família que ali acontece, de acolhimento, é fundamental para cada um e extraordinariamente fundamental para o bebê. Que nada perturbe este tempo; se o bebê for prematuro ou com problemas, o cuidado deste

1129 momento inicial é muito importante, assim como o tempo que se segue; se a mãe está deprimida, deve ser-lhe dado suporte, pois suas emoções terão muito peso no desenvolvimento de seu filho. (KLAUS et al. 1995, KENNELL et al. 1998, KLAUS, 1998, KENNELL e McGRATH, 2003) Marshall Klaus e Phyllis Klaus estudaram muitos recém-nascidos. Descobriram que, se uma criança nasce em condições de luminosidade, silêncio e manuseio diminuído, rapidamente começa a se adaptar e em 6 minutos de nascidos está com os olhos bem abertos. Isto é demonstrado em seus livros com inúmeras fotos. (KLAUS e KLAUS, 2001) A capacidade de enxergar foi testada por Robert Fantz, em 1960, utilizando um método para documentar a visão que já havia utilizado em aves e macacos, porém com uma adaptação para humanos. A observação baseia-se no fato de que, quando se fixa um objeto, ele fica refletido na córnea e na pupila. Quando a figura se localiza na pupila, ela é alinhada para se enquadrar no centro da retina. O bebê é colocado em alerta sereno, em assento e num capuz são mostradas as figuras; para se ter certeza de que o olhar é ou não casual, trocam-se as figuras a cada 10 segundos. Assim, Fantz mostrou que os bebês são capazes de distinguir e mostrar preferências por formas e cores, que distinguem e, estando atentos, suspendem as sobrancelhas e param de sugar. As formas preferidas são: figuras de círculos e faixas decoradas sobre superfícies lisas, são também escolhidos padrões complexos de muitos elementos a padrões simples e padrões curvos a retos. Quanto a formas de rosto, são atraídos pela face regular. Inicialmente, a atenção é intensa, mas depois perdem o interesse. Alguns ficam atentos e olham por períodos de até 10 minutos. Têm memória visual. A visão do recém-nascido é melhor a uma distância de 20 a 25 cm, que costuma ser a mesma distância do peito à face da mãe. (KLAUS e KLAUS, 1989)

1130 Os recém-nascidos possuem visão tridimensional. Em oito semanas são capazes de diferenciar entre formas dos objetos, além de cores e normalmente preferem o vermelho e depois o azul. Aos quatro meses discriminam entre os movimentos de objetos animados e inanimados. (VERNY e WENTRAUB, 2004) No estado de inatividade alerta, a tendência é um magnetismo mútuo ocorrer no contato olho-a-olho da mãe com o filho. Por outro lado, se for colocada uma máscara no rosto da mãe quando o bebê tem oito dias, ele perceberá a mudança e olhará para ela freqüentemente durante a amamentação. Ele tomará menos leite e não vai conseguir adormecer facilmente, pois está inquieto e dormirá por menos tempo que anteriormente. (KLAUS e KLAUS, 1989) Sabe-se que o comportamento materno é influenciado por fatores múltiplos, que incluem a própria educação da mãe, as condições socioeconômicas, as convicções culturais dela e a relação dela com o pai da criança, assim como suas experiências naquele momento da vida assim como gravidezes passadas. Em contraste com outras espécies animais, a criança humana não pode sobreviver, sem o apoio extenso e o cuidado da mãe. Logo após o nascimento, a mãe está em um estado de prontidão que lhe permite interagir com o bebê. É bem conhecido que o neonato tem habilidade para interagir socialmente. Além disso, recentes estudos sugerem que o bebê recém-nascido tenha uma maior gama de capacidades dantes não reconhecidas. Saigal et. em 1981, observaram de minuto a minuto o estado de comportamento de 36 neonatos nascidos a termo, durante a primeira hora de vida. As crianças gastaram 60% da primeira hora aproximadamente no estado de alerta inativo e só 10% do tempo no estado chorando. Estudos por Brazelton et al., em 1972 demonstraram que, durante o período de alerta inativo, a criança está em um estado receptivo. (SOSA, 1980)

1131 A criança humana tem um certo grau de acuidade visual: ela pode focalizar e mostrará preferências por padrões que simulam faces humanas, segundo demonstrou Hack et al. em 1976, Kornel e Thoman em 1970, Gregg et al. em 1976, Fantz et al. em 1975, Robson em 1967. Suas pesquisas sugeriram que o contato de olho a olho pode ser um fator importante que aumenta o comportamento maternal. O recém-nascido também responde preferencialmente à voz da mãe, como foi observado por Eisenberg em 1969. Entre seis e 10 dias de idade, o neonato exibe um pouco de capacidade olfatória, dirigindo a cabeça em direção ao peito de sua mãe. Tais capacidades funcionam como um atrativo para as mães, o que estimula a interação entre ambos, segundo MacFarlane em 1975. (SOSA, 1980) Uma revisão de literatura verificou que o bebê é capaz de reconhecimento de rostos e objetos até os seis meses. Se este reconhecimento não ocorrer, revela a possibilidade de lesão cerebral, descrito por Bentin et al. em 1999, Ellis e Young em 1988, Mancini et al. em 1994. (NELSON, 2001) 2.3 Audição Meses antes de nascer, a capacidade acústica já está bem desenvolvida. Os fetos distinguem entre tipos de som, intensidade e altura, sons familiares e estranhos e também podem determinar a direção de onde vem o som. Preferem vozes agudas. Pais e mães no mundo todo tendem a falar de maneira mais aguda como observou o lingüista Charles A. Ferguson. (KLAUS e KLAUS, 1989) Eles fazem associações entre audição e outros sentidos. T.G.R. planejou um dispositivo que dava ao bebê a possibilidade de escolha do som. Percebeu-se que eles são mais responsivos às vozes humanas. Anthony DeCasper julgou que, se os bebês têm controle inato da boca, ao acoplar uma chupeta conectada a um computador, logo eles acertariam o ritmo de sucção, para poderem fazer as escolhas. De fato, ao ouvirem por

1132 fones de ouvido, preferiram estórias contadas pela mãe durante a gestação, às estórias desconhecidas. (KLAUS e KLAUS, 1989) São descritas quatro experiências que investigam o papel da voz da mãe facilitando reconhecimento da face materna ao nascimento. A conclusão é que, quando a criança tem a experiência de ouvir a voz e ver o rosto da mãe, concomitantemente, ela faz a associação. A habilidade que os neonatos têm de reconhecer a face da mãe, provavelmente está ancorada na aprendizagem pré-natal da voz materna (SAI, 2004). Foi feito um teste onde a voz da mãe vinha do rosto de uma outra mulher e isto desencadeou os mesmos comportamentos de desconfiança que a experiência com a máscara. (KLAUS e KLAUS, 1989) O aprendizado intra-uterino pode fazer um recém-nato prematuro de apenas cinco meses de gestação reconhecer as características de freqüência da voz da mãe. (TRUBY apud JANUS, 2001) Os recém-nascidos reconhecem a voz da mãe como sendo a mesma que eles escutaram, ainda que filtrada pela parede abdominal. Também reconhecem a voz do pai desde que este homem tenha falado perto do ventre ou se tenha feito presente para a criança ainda no útero. Desde T.B. Brazelton, pioneiro no campo da pesquisa sobre hipersensibilidade dos recém-nascidos, há um consenso a esse respeito. M.C. Busnel forneceu um critério de verificação que comprovou que o ritmo cardíaco da criança desacelera enquanto a mãe lhes fala. Outros usaram como medida o reflexo de sucção, não provocado por fome, nas mesmas circunstâncias. Outros mediram freqüência da resposta motora à fala da mãe. Com medidas diferentes, a conclusão foi a mesma: a criança de poucos dias reage a estímulos de linguagem mais do que a outros tipos de estímulos, apesar de supostamente não entender nenhuma palavra. Sabe-se também que a criança aprendeu algo da estrutura de seu idioma quando dentro da barriga da mãe.

1133 Isto é tão forte, que acontece de crianças surdas, filhos de surdos, terem desenvolvido a capacidade de movimentação de mãos e diferenciação de gestos ordinários. Os pesquisadores descobriram uma “tagarelice” gestual, que correspondia a mais da metade da atividade da criança surda, contra 10% dos controles. Este estudo foi feito por Petitto e Marentette em 1991, duas psicolingüistas que compararam as atividades manuais de dois bebês surdos e três outros normais, com idades de 10 a 14 meses. (SZEJER, 1999) Um trabalho pesquisou o aspecto da experimentação vocal mãe e filho. Os bebês se utilizam de uma coordenação temporal precisa e de expressões que são partilhadas com a mãe. Os ritmos constituídos pelo bebê são seus recursos para descobrir o próprio mundo; eles transmitem sua afeição e subjetividade. Há uma qualidade musical na interação vocal precoce. A mãe e o bebê fabricam uma interação dinâmica e ambos brincam com estes ritmos. (GRATIER, 2001) Foi examinado o efeito do cantar materno nos níveis de estimulação de crianças saudáveis, não-aflitas. Mães cantaram para suas crianças de seis meses durante 10 minutos, depois dos quais eles continuaram interagindo durante outros 10 minutos. Para calcular a estimulação infantil, juntaram-se amostras de saliva imediatamente antes e depois do canto. Análises de laboratório das amostras de saliva revelaram níveis de cortisol salivar no período pós-teste. Especificamente, crianças que exibiam os mais baixos níveis de linha base de cortisol aumentam-no após o cantar materno; os com níveis de cortisol mais altos exibiram reduções modestas. Estes resultados são consistentes com a visão de que o canto materno modula a estimulação de crianças no nível pré-lingüístico. (SHENFIELD et al. 2003) Reproduções de sons intra-uterinos como os batimentos cardíacos têm sido usadas com o propósito de relaxamento de recém-nascidos, especialmente em Unidades Neonatais, pois verificou-se que os bebês recém-nascidos movem-se menos, choram

1134 menos, respiram mais profunda e regularmente e ganham peso mais rapidamente do que recém-nascidos expostos a outros sons ou a nenhum som. (COSTA, 2001) Foi realizado estudo para determinar o efeito de sons que pudessem acalmar ou mesmo reduzir a dor em 121 neonatos que sofrem circuncisão sem anestesia. Foram colocados neonatos fortuitamente em um de seis grupos: ouvindo música clássica, sons intra-uterinos, chupeta, música e chupeta, chupeta e sons intra-uterinos, e grupo controle, sem que nenhuma enfermeira apresentasse nenhum expediente para alívio da dor. Foram monitorados os batimentos cardíacos, ritmo, disritmias, pressão sanguínea, oxigênio transcutâneo (tcpO2) e estado de comportamento, medidos durante os 14 passos da circuncisão. Observou-se aumentos de: 42% das taxas de coração, 78% das pressões sanguíneas sistólica (SBP), 30% das pressões sanguíneas diastólica (DBP) e 81% das pressões de tcpO2, portanto, todos os índices eram anormais. Foram achadas poucas diferenças significantes entre quaisquer dos passos. SBP e DBP diferiram positivamente de maneira significativa nos grupos que receberam estímulo de som comparativamente aos que não receberam, durante seis dos passos do procedimento. (MARCHETTE et al, 1991). Estudos sobre a capacidade auditiva de recém-nascidos sugerem que a exposição a ambientes barulhentos pode induzir ao estresse, passível de verificação pelas medições de aumento de batimentos cardíacos, diminuição dos níveis de saturação de oxigênio, maiores variações na pressão sangüínea e aumento dos níveis de agitação. Por outro lado, alguns tipos de músicas podem ter um efeito relaxante sobre os bebês, perceptível pela diminuição da freqüência cardíaca, elevação da temperatura periférica, diminuição da agitação, etc. De maneira geral, as músicas onde predominem altas freqüências e possuam andamento acelerado produzirão tensão, aumento das freqüências cardíaca e respiratória, aumento da atividade muscular e movimento do corpo. De modo diverso,

1135 músicas onde predominem baixas freqüências e andamento lento produzirão relaxamento. Esse efeito relaxante, com diminuição da atividade e diminuição do estresse ocorre não apenas em recém-nascidos, mas também em bebês mais velhos e, inclusive, em adultos segundo descrições de Livingston em 1979, Hicks em 1995. (COSTA, 2001) Os comportamentos do recém-nascido são coordenados e integrados: os sistemas sensoriais e motores são estreitamente associados uns com os outros. Contudo, parece haver uma dissociação temporária logo após o nascimento, e uma recuperação por volta do 3º mês de vida. Assim, aos quatro meses de vida, a integração de atividades sensoriais visuais e auditivas com os sistemas motores já está presente, segundo Vinter em 1987. (COSTA, 2001) Treinaram-se crianças com três meses de idade para mover os braços para cima em berço móvel, enquanto uma de duas seleções musicais eram tocadas, com variações do clássico e de jazz. O aprendizado da experiência foi avaliado um e sete dias depois, na presença da mesma música ou uma seleção musical diferente. Crianças em ambas as experiências exibiram aprendizado de um dia a qualquer música do ritmo apresentado do teste inicial. Aos sete dias, só foi verificado o aprendizado com relação à música específica tocada durante o teste inicial do treinamento. Os bebês são capazes de perceber e reter ritmos, melodias, freqüência e padrão temporal de seqüências musicais. (FAGEN et al. 1997). Um trabalho foi feito para fins de análise da atividade motora apresentada por um bebê de quatro meses de idade, em seu próprio domicílio, durante a audição de duas peças musicais a que foram previamente habituados: Sinfonia no. 40 de Mozart e a música Happy Nation do grupo Ace of the Base. Observou-se que a atividade motora do bebê é acentuadamente reduzida pela audição da música clássica aqui estudada. Em

1136 relação à música dancing, existiria uma redução da atividade, porém, esta redução na atividade motora do bebê produzida pela música dancing, é menor do que a redução na atividade motora produzida pela música clássica. (COSTA, 2001) Foi feito um trabalho de revisão dos escritos sobre música e o primeiro ano de vida e examinou-se sua contribuição em outros domínios como desenvolvimento da criança e educação musical. Na primeira parte, a experiência se ateve a pesquisas prévias sobre características musicais e memória a longo prazo para música. Depois atentou-se para a descrição de estudos que investigaram os usos de música na vida cotidiana de crianças e seus cuidadores e aplicabilidade em contextos domésticos e terapêuticos. Na terceira parte fez-se uma crítica da literatura prévia e atual, inclusive uma discussão de direções para pesquisa futura. Incluíram-se as implicações destes estudos para os pedagogos. (ILARI, 2002) Na revisão do livro “The Singing Neanderthals: The Origins of Music, Language, Mind and Body, (As Origens de Música, Linguagem, Mente e Corpo) de Steven Mihen e Weidenfels e Nicholson em 2005, revisaram o que se sabe sobre a música e a linguagem é que suas codificações são compartilhadas em determinados circuitos cerebrais e outros circuitos são especializados em cada um destes elementos. A mãe cantando para o bebê ou a mãe falando para o bebê, ela tende a uma fala que exagera nas vogais, aumenta as pausas e se repete, dando uma conotação musical à fala, propiciando uma interação que acaba por criar uma mútua modulação de sons. (BENZON, 2005) Foram realizados estudos nas últimas décadas que aprofundaram o conhecimento sobre desenvolvimento da audição do recém-nato assim como a visão. As preferências observadas foram: os bebês preferem o som da voz humana a outros sons; o som da voz da própria mãe ao som da voz de outras mulheres e estórias conhecidas contadas por

1137 suas próprias mães a estórias novas (DeCASPER e FIFER, 1980, DeCASPER e SPENCE, 1986). Outros estudos mostram que eles podem distinguir entre sons de consoante como p e b, e vogais. (CLARKSON. e BERG, 1983) Aos dois dias de vida podem distinguir o idioma da própria mãe. (MOON et al. 1993) Um estudo descritivo avalia e compara o efeito de música apresentada de forma auditiva e vibro - tátil. Ambas as formas reduzem a agitação e instabilidade fisiológica após intervenção em displasia bronco-pulmonar. O que é perceptível nas tomadas de batimento cardíaco, níveis de saturação de oxigênio, registro de expressões faciais, e indicadores de função do sistema nervoso autônomo para quatro crianças prematuras, que se alteravam positivamente. Todas as crianças experimentaram uma redução no nível de estimulação durante a intervenção de música gravada quando comparadas com a condição de controle. Três crianças gastaram uma quantia aumentada de tempo em um estado alerta inativo e tinham melhorado os níveis de saturação de oxigênio durante a intervenção vibro-tátil. Todas as crianças gastaram mais tempo dormindo durante a condição de música gravada, do que sem música ou com a intervenção de vibro-tátil. Mostrou-se então que a música é efetiva na redução de comportamentos relacionados à tensão em crianças. (BURKE et al. 1995, KAMINSKI e HALL, 1996, KLEIN e WINKELSTEIN, 1996, OLSON, 1998) Bebês de oito meses são capazes de distinguir entre Prelude e Forlane Le Tombeau de Couperin: de Maurice Ravel (1875-1937). Peça para piano com seis movimentos: Prelude, Fuga, Forlane, Rigaudon, Minueto e Toccata. Viu-se que os bebês diferenciavam, aos oito meses, o Forlane do Prelude. (ILARI e POLKA, 2006) Recente pesquisa mostrou que as crianças de quatro meses de idade demonstram uma preferência inata para música consoante em lugar de música dissonante. (WHITWELL, 2006)

1138 Na verdade, muito já se tem escrito sobre a educação precoce de arte. É sabido que, durante o primeiro ano de vida, se uma criança ouve Mozart, Beethoven, Bach, compositores barrocos e renascentistas, aos sete e oito anos, setênio em que deve ser introduzida a plena educação musical, ele terá melhor capacidade de notação para os fraseados musicais e poderá ter um ouvido bem mais perceptivo para as sutilezas musicais. Do mesmo modo que, se no quarto do bebê houver quadros dos grandes pintores, à idade dos sete e oito anos ele terá capacidade de notar nuances de cor num leque maior que o usual. Ambos os sentidos ampliados falam de uma sensibilidade maior em nível consciencial, pode–se mesmo avaliar o nível de consciência de uma pessoa por sua capacidade de descriminar tons de cores. Mas é importante que se diga que, se os pais não gostam nem deste tipo de música, nem deste tipo de arte, isto não será igual, pois dominantemente a criança é sensível à sensibilidade de sua mãe e pai, portanto, se não houver um sabor por parte deles, isto tende a não ampliar tanto a consciência da criança. Na verdade, o melhor é que a música e a grande arte pictórica já seja parte da vida dos pais antes da concepção. Que a música e a pintura tenham sido partes do deleite de gestação da mãe. Então a música no quarto do bebê é uma natural conseqüência, pois não se ensina o que não é verdadeiro para os pais. O alimento do corpo é importante, tanto quanto o alimento da alma. Então, aos sete e oito anos, a criança terá capacidade de sensibilidade musical e pictórica impressionantes. O objetivo não é criar gênios da música ou pintura, mas é sabido que, quanto maior for a sensibilidade de alguém para tons e sons, maior é sua consciência e sua percepção espiritual e é isto que se deseja. (UPLINGER, 2007) 2.4 Coordenação Motora C. Amiel-Tison e A. Grenier, demonstram que um em cada dois recém-nascidos pode procurar objeto com dias de nascido, se estiver em estado de inatividade alerta,

1139 desde que tenham sido massageados seus músculos do pescoço. (KLAUS e KLAUS, 1989) 2.5 Tato Quanto ao tato, os bebês percebem texturas, umidade, temperatura, pressão e dor. Os lábios e as mãos têm maior número de receptores do tato. Isto explica o conhecer as coisas através do pôr na boca. (KLAUS e KLAUS, 1989) Tiffany Field, que trabalha com pesquisa sobre tato, em estudos, aplicava massagens diárias em 20 bebês prematuros, num tempo total de 45 minutos, divididos em 15 minutos para cada massagem, num tratamento de 10 dias de duração. Após teste de tempo, verificou-se que os bebês tinham aumentado de peso 47% a mais que o grupo controle, que não teve massagem. Além disto, eles mantinham-se despertos e ativos e obtiveram melhor evolução numa série neurológica e de funcionalidade. Estavam

também mais aptos para sair do hospital numa média de seis dias antes, em relação aos que não passaram por este procedimento. (FIELD apud VERNY e WENTRAUB, 2004) Em outro estudo, T. Field aplicou massagens em 40 bebês a termo, cujas mães, aos três meses, estavam deprimidas. Observou-se que 15 minutos de massagens diária eram mais eficientes que balançarem os bebês em dois dias por semana, durante seis semanas. Comparados os massageados com os balançados, os primeiros passaram mais tempo acordados, choraram menos e os índices de cortisol em suas salivas sugeriam que estavam menos estressados. Durante o período de seis semanas de terapia, ganharam peso e mostraram ganho na qualidade de bem estar sócio-emocional, apresentando níveis sangüíneos mais baixos de noradrenalina, epinefrina, cortisol e aumento dos níveis de serotonina. (FIELD, 1998) Frédérick Leboyer, obstetra francês, lançou uma grande luz sobre o nascimento quando fotografou os rostos de recém-natos, nascidos sem estresse. Pesquisador

1140 incansável, poeta, filósofo, observou nas ruas de Calcutá, uma mulher que emocionou o cientista e o poeta. O nome da mulher era Shantala, e o que o obstetra viu foi quão benéfica era aquela massagem amorosa no filho. Acabou por fotografar e publicar um livro não só belo, como poético, um guia de cuidado para mães, descrevendo seu poder curativo, e harmonizante. (LEBOYER, 1995) 2.6 Olfato Os bebês podem reconhecer odores, adaptam-se e rapidamente param de responder a um odor, quando passam a percebê-lo como familiar. Aidan Macfarlane percebeu que eles são capazes de identificar o cheiro de suas mães com dois dias de nascidos. (KLAUS e KLAUS, 1989, PORTER, 2004) Há 50 anos tem sido estudado o olfato entre recém-nascidos. Inicialmente o etólogo Konrad Lorenz investigou o sentido do olfato entre animais, René Spitz identificou casos de hospitalismo, Fraçoise Dolto utilizou este conhecimento no período da Segunda Guerra e Schaal provou experimentalmente no fim dos anos 80: os recémnatos têm olfato particularmente desenvolvido, cuja acuidade perderão mais tarde. Eles têm memória olfativa. (SZEJER, 1999) Odores que podem ser classificados como lácteos ou frutados despertam, no recém-nato, expressões faciais sorridentes acompanhadas de movimentos de sucção e lambidelas. No entanto, os odores de pescado e de ovos podres suscitam expressões de desagrado, acompanhadas, comumente de movimentos de cuspe. (VERNY e WENTRAUB, 2004) 2.7 Paladar Um experimento, feito pelo psicólogo Jacob Steiner, revela a aprovação e desaprovação de um determinado sabor pela expressão facial. (CHAMBERLAIN, 1998)

1141 Examinaram-se a distinção e o reconhecimento de sabores através de expressões faciais para experiência gustativa em recém-nascidos, em dois estudos. Foram apresentadas sacarose, cloreto de sódio, ácido cítrico e soluções de hidroclorito de quinino a 12 crianças com 2 horas de idade. A base anatômica utilizada foi o Sistema de Código de Ação Facial, adaptado para bebê. Foi usado, para obter descrições detalhadas e objetivas, um video-tape com respostas faciais das crianças para cada solução. Respostas faciais para sacarose foram caracterizadas principalmente por relaxamento facial e sucção. As respostas para salgado, azedo e soluções amargas compartilharam o mesmo resultado: negativas ou reações diferentes: abaixar a cabeça e enrugar o lábio face ao sabor azedo e abrir a boca com respeito a amargo. Não havia nenhuma expressão facial distintiva para cloreto de sódio. Estes resultados demonstram que recém-nascidos diferenciam azedo de amargo e de sal, como também distinguiam doce de gostos de não doces. (ROSENSTEIN e OSTER, 1988). Expressões faciais são um exemplo de comportamento emocional que ilustra a importância de emoções relativas à sobrevivência básica e à interação social. Respostas faciais básicas para estímulos como doçura e gosto amargo são importantes para a aptidão das espécies de se governarem através de regras simples. Até mesmo este nível básico de respostas faciais tem valor comunicativo com outros da mesma espécie. Durante a evolução, respostas faciais simples estenderam-se para uso em formas de comunicações não-verbais mais complexas. A percepção e produção de expressões faciais são processos cognitivos e se dão em áreas subcorticais e áreas corticais. Emoção não deveria ser divorciada de cognição, mesmo em se tratando de tão simples reações. (ERICKSON e SCHULKIN, 2003) Em um estudo obtiveram-se, através de registro em vídeo de movimentos faciais de recém-nascidos saudáveis e a termo, respostas a estímulos gustativos em 15 recém-

1142 natos e respostas a estímulos olfativos em 16, entre 10 e 72 horas de vida (média de 43 horas). Os gustativos utilizados eram soluções aquosas de sacarose, (25%) para o sabor doce, também foi testado ácido cítrico, (2,5%) para sabor azedo e sulfato de quinino, (0,25%) para o amargo. Como estímulo neutro e de comparação, utilizou-se água destilada como explicado por Bergamasco e Beraldo em 1990. Os estímulos olfativos eram substâncias líquidas com aromas artificiais de alimentos: baunilha, morango, chocolate, mel, leite, manga, peixe, alho e cebola, apresentados, por aproximadamente 15 segundos, em cartuchos de papel filtro embebidos com a substância aromática. A análise dos movimentos faciais com base nas categorias mais freqüentes de resposta a cada estímulo gustativo permitiu a definição de um padrão de reação para cada modalidade de sabor. Esta análise mostrou que as expressões faciais a estes estímulos não são tão estereotipadas como é usualmente sugerido na literatura, conforme descrito por Rosenstein e Oster em 1988, Steiner em 1977 e 1979. Existe uma significativa sobreposição de ações faciais discretas, assim como da configuração total da face para diferentes sabores. Além disso, embora se possam identificar reações típicas para cada sabor, são aparentes as diferenças individuais, como já havia sido descrito por Bergamasco em 1994 e Bergamasco e Beraldo em 1993. (BERGAMASCO, 1997) 2.8 Integração dos Sentidos Fez-se um estudo em que se solicitou que 26 mães relatassem as expressões que percebiam no rosto dos seus bebês. O resultado foi: alegria 95%, raiva 78%, estresse 65 %, surpresa 68%, tristeza 40% e medo 35%. Este é o espectro de emoções que um recém-nato é capaz de demonstrar. Assim como a análise acústica dos sons emitidos por eles mostrou que podiam ser de: continuidade de máximo prazer, parcial prazer, neutro, parcial desprazer e máximo desprazer (choro). Esta documentação foi feita por Hanus e Mechthild Papousek. (CHAMBERLAIN, 1998)

1143 De 74 bebês neonatos, com 36 horas de nascidos, foram recolhidas três expressões faciais: alegria, tristeza e surpresa, como imitação à expressão da face da mãe. (FIELD et al. 1982) Outro estudo observou se as crianças jovens separam fotografias de emoções diferentes em grupos de 17, 23, 29, 35 e 41 semanas. Mostraram-se slides de oito mulheres com rostos demonstrando emoções e feições com dentes grandes, sem dentes e sorridentes. Em todas as idades, houve alguma reação para faces sorridentes, mesmo que com dentadura protusa. O aspecto das faces algo estranhas não pareceu provocar diferença, mas o aspecto emocional, sim. (CARON et al. 1985) Dois estudos, um realizado quando os bebês tinham dois para três meses de idade e outro com seis para oito meses de idade, onde foram avaliadas as reações infantis para faces atraentes. Uma técnica de preferência visual era usada. Foram mostradas às crianças seqüência sobrepostas de faces de mulheres adultas previamente escolhidas por sua atratividade. Quando mostrados pares de faces atraentes ou sem atrativo, as crianças mais velhas e mais jovens pareciam observar mais longamente as faces atraentes. (LANGLOIS et al. 1987) Os bebês demonstraram concatenar percepções diferentes, num teste com uma chupeta granulosa ou outra lisa, posta na boca; depois eles selecionam a imagem da chupeta que tinha estado na sua boca. (KLAUS e KLAUS, 1989) 2.9 Sorriso O primeiro sorriso no rosto do neonato foi descrito como ocorrendo durante o sono. Em geral, após seis semanas, a maioria dos bebês responde com sorriso ao sorriso do adulto, o que é chamado de “responsividade ao sorriso”. Durante algumas experiências com neonatos, apareceu a habilidade de sorrir, chamada de “sorriso

1144 cognitivo”, descrito por Bower em 1977, Papousek et al. em 1986. (CHAMBERLAIN, 1999a, 1999e) 2.10 Choro O choro do bebê comunica uma variedade de acontecimentos: além de fome, frio, a cólica pode estar presente, problemas de digestão especialmente quando não há aleitamento materno ou quando não há contato físico. Muitas mulheres relatam que seus filhos param de chorar quando elas retiram de suas dietas: cebola, alguns legumes, uva, chocolate, café, álcool, ovos, nozes, alimentos cítricos, morangos, derivados de trigo. Pode haver choro como instrumento de liberação de tensão. Há choro devido ao parto ter sido traumático, há choro por agitação e excesso de estimulação, como há choro por sono, por frustração, por dor e por medo. (SOLTER, 1995) Oitenta mães de crianças normais recém-nascidas mantiveram registros diários do choro de suas crianças durante as primeiras 12 semanas. Vinte e oito bebês eram primogênitos na família. Uma tentativa foi feita para eliminar a tensão ambiental excessiva como um fator adicional. Também foram retirados da amostra os bebês com patologia subjacente. Havia uma média de chorar duas horas nas primeiras sete semanas, diminuindo a cada semana depois disso. Bebês que choraram durante um tempo incomum responderam à manipulação de tensão ambiental. A hipótese que se faz é que um certo tempo de choro é necessário, na saúde do bebê, pois tem função de comunicação. O aspecto de afiliação emocional está presente na incidência do choro

"normal". (BRAZELTON, 1962) Em estudo de 193 primogênitos, foi observado que nos casos em que as mães achavam que o choro de seus filhos era normal, as crianças tendiam a terem freqüência de choro normal, no entanto, as mães que entendiam que o choro de seus filhos era excessivo, o fato ajudava a torná-lo de fato excessivo. (ELLIOTT et al. 1996)

1145 Com o objetivo de avaliar o comportamento de choro em crianças prematuras com ou sem dano no cérebro, foram observados um total de 125 bebês de baixo peso ao nascimento que sobreviveram durante janeiro de 2001 a julho de 2004, no Hospital Universitário de Turku, na Finlândia. Eles foram categorizados de acordo com as patologias cerebrais encontradas no ultra-som ou MRI. O Baby Day Diary (Diário do Bebê) foi usado para avaliar choro em comportamento de crianças a termo, com seis semanas e cinco meses de idade corrigidos. O comportamento de um grupo de 49 crianças controles, a termo, foi avaliado por cinco meses. Danos de cérebro severos em crianças de peso muito baixo ao nascimento não afetaram a duração do choro. Aos cinco meses de idade corrigidos, turnos de choro eram mais freqüentes em crianças de muito baixo peso ao nascimento, comparadas com crianças de controle a termo (6.4 por dia vs 4.5 por dia) e foram seguidas muito mais que as crianças a termo (169 minutos, vs 130 minutos, respectivamente). Não houve aumento da freqüência do choro ou no desenvolvimento do ritmo circadino, de modo imediato ao nascimento, porém depois quando a idade se corrigiu, precisavam de ser mais acalentados, e choravam mais. (MAUNU et al. 2006) A autora vem, ao longo destes 20 anos trabalhando com orientação a casais, solicitando que a mãe use sua intuição e seu ouvido para diferenciar os tipos de diferentes de choro. Em geral, se ela fica calma, seu ouvido e sua intuição serão capazes de perceber as sutilezas que lhe servirão de orientação. O contato físico é imprescindível, pois alivia tensões e desconfortos. Conversar, falando baixinho e

calmamente, também ajuda. Quando o cansaço vence, é aconselhável rezar baixinho no ouvido do bebê. Muitas vezes, a recorrência da cólica do bebê que está recebendo aleitamento materno se conecta a um conflito na mãe, no casal, no pai – se o filho for homem ou na linhagem familiar. Os sonhos da mãe e do pai são as melhores pistas para

1146 ajudar a resolver o conflito. É relevante levantar-se o que a mãe ou o pai viveram na mesma idade em que se encontra o filho, pois o choro e a reação de desespero do bebê pode revelar a dor não vivida pelos pais. É importante cuidar disto com carinho e acolhimento. Neste momento, as essências florais, que trabalham o campo de consciência individual e familiar, podem ser de grande valia, suavizando este aprendizado. 2.11 Sensibilidade para o Desconforto e para a Dor Experimentos sobre dor foram realizados nos anos 20 e 30 no Chicago’s Lysin-In Hospital e no Hospital de Bebês da Universidade de Columbia e concluíram que bebês não eram afetados pelo frio, calor, dor e toque. Foram 2.000 observações, porém estas não levaram em consideração que todos estavam sob efeito de anestesia dada às suas mães durante o parto. No entanto, apesar deste grave erro de observação, esta pesquisa até hoje segue sendo uma crença médica. A nova fronteira da neonatologia foi ultrapassada quando, em 1994, neonatologistas mensuraram a reação de estresse à dor de 46 neonatos, durante uma transfusão de sangue intra-uterina e verificaram que os níveis de cortisol eram de 138% depois de 10 minutos e de beta-endorfina eram de 590%. (CHAMBERLAIN, 1999b, 1989) Com o objetivo de desenvolver diretrizes baseadas em evidência para prevenir ou tratar a dor dos neonatos e suas conseqüências adversas, compararam-se crianças mais velhas, adultos e neonatos. Estes são mais sensíveis à dor e vulneráveis a seus efeitos a longo prazo. Apesar da importância clínica de dor no neonato, práticas médicas atuais continuam expondo as crianças à dor repetitiva, aguda, ou prolongada. (ANAND, 2001) O Projeto de peritos The International Evidence-Based Group for Neonatal Pain. (Grupo Internacional Baseado em Evidências de Dor Neonatal) representa vários países diferentes, disciplinas profissionais, e discute práticas utilizando revisões sistemáticas,

1147 síntese de dados e discussão aberta para desenvolver consensos em práticas clínicas que foram apoiadas através de evidência publicada. Criou-se um protocolo para descrever a administração de analgésico em procedimentos invasivos específicos em caso de dor contínua em neonatos. (ANAND, 2001) O reconhecimento das fontes de dor e avaliações de rotina de dor neonatal deveria ditar a evitação de estímulos dolorosos periódicos e o uso de intervenções ambientais, de comportamento e doses de fármacos específicos. Cuidado individualizado, planejamento de analgésicos, protocolos para situações clínicas específicas e orientações de cuidado médico deveriam constar nestas diretrizes. Nesta área de

pesquisa no manejo da dor em neonatos ainda não se chegou a um consenso, havendo apenas um esboço de protocolos de conduta. A administração da dor deve ser considerada um componente importante do cuidado médico provido a todos os neonatos, independente da idade, de sua idade gestacional ou severidade de doença. (ANAND, 2001, 1988, McCLAIN e KAIN, 2005, SIMONS et. 2003, BERRY e GREGORY, 1987, FRANCK e MIASKOWISKI, 1997, TYLER, 1988) Num estudo, foram avaliadas as mudanças da oxigenação cerebral medidas em relação à excitação dolorosa, usando espectroscopia com onda próxima a infravermelho em tempo real, em 18 crianças entre 25 e 45 semanas contadas a partir da data da última menstruação da mãe. Os estímulos dolorosos eram feitos com agulha, para a retirada de sangue em provas rotineiras; nenhum exame de sangue foi executado somente com a finalidade do estudo. Excitação dolorosa produziu uma resposta cortical clara, medida como um aumento em concentração de hemoglobina total no córtex. Foi observada resposta reflexa de retirada do pé à picada da agulha no mesmo. Prematuros de 25 semanas processam a dor. (SLATER et al. 2006)

1148 Foi feito um estudo no qual se analisaram os conhecimentos dos pediatras que atuam com pacientes neonatais em relação à avaliação e ao tratamento da dor do recémnascido. Foi um estudo transversal que incluiu 104 pediatras (de um total de 110) que trabalhavam entre 1999 a 2001 nas sete unidades de terapia intensiva e nos 14 berçários da cidade de Belém, no Brasil. Eles responderam a um questionário escrito a respeito do seu perfil demográfico e do conhecimento de métodos de avaliação e de tratamento da dor no recém-nascido. Cem por cento dos médicos referiram acreditar que o recémnascido sente dor, porém apenas um terço deles conhecia alguma escala para avaliar a dor nessa faixa etária. A maioria dos entrevistados referia perceber a presença de dor no recém-nascido por meio de parâmetros comportamentais. O choro foi o preferido para avaliar a dor do bebê a termo; a mímica facial no prematuro e a freqüência cardíaca para o neonato em ventilação mecânica. Menos de 10% dos entrevistados diziam usar analgesia para punções venosas e capilares; 30 a 40% referiam empregar analgesia para punções lombares, dissecações venosas, drenagens de tórax e ventilação mecânica. Menos da metade dos entrevistados referiram aplicar medidas para o alívio da dor no pós-operatório de cirurgia abdominal em neonatos. O opióide foi o medicamento mais citado para a analgesia (60%), seguido pelo midazolam (30%). (CHERMONT et al. 2003) Examinaram-se, em recém-nascidos de dois a três dias, os efeitos da circuncisão através de 59 pares de mãe-criança no hospital. Cada par foi observado durante quatro alimentações, usando um sistema especificamente projetado que avalia a interação mãecriança. Listaram-se 43 comportamentos relativos à alimentação, expressão facial, vocalizações e toque. O grupo experimental foi circuncidado e avaliado após a alimentação. Foram observadas tendências diferentes entre os dois grupos, considerando-se duas variáveis logo após cirurgia: o toque - a criança ficava retraída- e

1149 a alimentação - mamava menos, no grupo alvo, em relação ao grupo controle. (MARSHAL et al. 1982) As origens da circuncisão perdem-se na antiguidade. Circuncisão masculina é descrita em tumbas egípcias há 5.000 anos atrás. Segundo Gairdner em 1949, esta se originou na pré-história há 15.000 anos atrás. Bem antes de adquirir suas implicações religiosas, era um ritual claramente sacrificatório, pois exigia a perda de algo de grande valor. Nas palavras do Rabino Maimonides do século XII, que apóia a visão das perdas: "A respeito da circuncisão, eu penso que seu objeto é limitar relações sexuais e debilitar o órgão de geração até onde possível. Assim o homem fica moderado... Esta ordem não foi um mandamento devido a uma criação física deficiente, mas um meio para aperfeiçoar as faltas morais do homem. O dano corporal causado àquele órgão é exatamente o que é desejado; não interrompe nenhuma função vital, nem destrói o poder de geração. Circuncisão simplesmente limita a luxúria excessiva; não há nenhuma dúvida de que circuncisão debilita o poder de excitação sexual e às vezes minora o prazer natural...” (PRICE, 1997) No século XIX era praticada nos países de língua inglesa como preventivo para a masturbação e era vista como “higiênica”. Tal crença ainda persiste. Depois disso se tornou um procedimento creditado com uma gama extensa de benefícios supostos. Até mesmo hoje, o prepúcio é visto popularmente apenas como um pedaço de pele vestigial, sem função e que sua remoção não causa nenhuma real dor, envolve pouco ou nenhum risco e não produz nenhum dano a curto ou a longo prazo. A prática ainda é difundida no EUA onde atualmente 60% (abaixo de 90% dos anos setenta) de neonatos masculinos são circuncidados. Para pais judeus e muçulmanos a circuncisão é motivada por razões de fé. Nos Estados Unidos é dado o poder aos pais para a autorização de uma operação não terapêutica, embora contrária aos interesses da criança. Sem controvérsias,

1150 os fatos são que a circuncisão: inflige dor severa e os anestésicos, se usados, levam a riscos significativos de mutilação do órgão e hemorragia bem como infecção; produz dano a curto e a longo prazo, no nível emocional e diminui a função sexual e não tem nenhum benefício médico, segundo a American Academy of Pediatrics. (PRICE, 1997) A American Academy of Pediatrics, no The Committee on Fetus and Newborn (O Comitê sobre Feto e Neonato) em seus sucessivos relatórios diz em 1971, que não há validade médica que indique circuncisão para o período neonatal. Prossegue então que "fimose do recém-nascido" não é uma indicação médica válida para circuncisão. Circuncisão executada mais tarde na vida em aproximadamente 2% a 10% de homens com verdadeira fimose tem a vantagem de não ter risco anestésico. Esta só deveria ser executada quando é menos provável que o trauma na genitália não cause tantos problemas psicológicos, ou seja, quanto mais tarde possível, orientação desde 1975, pela AAP. (AAP, 1999) Quanto à higiene, deveria ser discutida a necessidade de orientação aos pais antes do nascimento da criança de como proceder para realizar a higiene, pois esta é a melhor profilaxia do câncer de pênis. Não há evidência que indique que a circuncisão previne o câncer de próstata. Extensa revisão de literatura indica que a circuncisão masculina não previne o câncer de colo de útero nas suas parceiras, pois não é sua etiologia, como assinala a AAP em seus relatórios de 1975 e 1977 (AAP, 1997) Desde 1977, a AAP informa que a pele é um órgão protetor e qualquer ferimento em sua integridade predispõe a uma oportunidade para iniciação de infecção. (AAP, 1999)

1151 O prepúcio é a dobra de pele que cobre a glande. Ao nascimento, o prepúcio estáse desenvolvendo ainda histologicamente e sua separação da glande está normalmente incompleta. Só aproximadamente 4% de meninos têm um prepúcio retrátil ao nascimento, 15% aos seis meses e 50% com um ano; antes de três anos, o prepúcio pode ser retrátil em 80% a 90% dos meninos. Fimose é uma estenose do prepúcio com inabilidade resultante para retratar um prepúcio completamente diferenciado. Parafimose é a retenção proximal do anel prepucial ao sulcus coronal, criando maior tensão linfática que pressiona a glande resultando em edema subseqüente do prepúcio. Balanite é a inflamação da glande e postite é inflamação do prepúcio; estas condições normalmente acontecem junto com balanopostite. Meatite é inflamação do meato uretral externo. Apenas as patologias ligadas à existência do prepúcio são evitadas com a circuncisão. (AAP, 1999) Estudos prévios sobre a relação entre circuncisão e prevenção contra infecção urinária foram feitos. Em 1982 um destes estudos, realizado em hospitais militares que até hoje é referência devido à sua grande casuística, teve erros metodológicos. (AAP, 1999) A afirmação quanto a ser à circuncisão ser preventiva de doenças sexualmente transmitidas não é correta; os recentes achados clínicos evidenciam que não há diferença na incidência de gonorréia e de uretrite em circuncidado. Quanto às outras patologias, questões metodológicas fazem estes artigos de validade discutível. (AAP, 1999) Desde 1977, a AAP informa que a circuncisão é um procedimento cirúrgico que requer técnica asséptica cuidadosa, observação pós-operatória sistematizada e avaliação depois da alta do hospital. Os perigos imediatos de circuncisão do recém-nascido

1152 incluem infecção local que pode progredir para septicemia, hemorragia significativa e mutilação. Remoção incompleta do prepúcio pode resultar em fimose. (AAP, 1999) Crianças que sofrem circuncisão sem anestesia demonstram respostas fisiológicas que sugerem que elas estão experimentando dor que incluem mudanças de comportamento, cardiovasculares e hormonais. Rotas neuronais para condução do estímulo doloroso como também o cortical e centros subcorticais necessários para percepção de dor estão bem desenvolvidos desde o terceiro trimestre da gravidez. Foram documentadas respostas para estímulos dolorosos em neonatos de todas as idades gestacionais viáveis. Mudanças de comportamento incluem um padrão de grito que indica angústia durante o procedimento de circuncisão; mudanças em atividade irritabilidade, padrões de sono variados e mudanças da interação materna infantil retraimento do contato e diminuição da alimentação. (AAP, 1999) Desde 1977 a AAP informa que circuncisão neonatal predispõe à meatite que pode conduzir à estenose do meato. Meatite resulta indubitavelmente em urinação dolorosa. (AAP, 1999) Mortes são atribuíveis à circuncisão em recém-nascido. Nos Estados Unidos, devido à circuncisão, em 1973, houve uma morte entre as 175.000 circuncisões no Exército dos EUA. Revisão da literatura durante os últimos 25 anos documentou duas mortes prévias devido a este procedimento. (AAP, 1999) Complicações devido à anestesia local consistem principalmente em hematomas na pele seguidos de necrose. No entanto, até mesmo uma dose pequena de lidocaína pode resultar em níveis de sangue altos o bastante para produzir respostas sistêmicas mensuráveis em neonatos. Anestesia de Circunferencial pode ser perigosa. Seria

1153 prudente, obter mais dados de séries controladas de grande porte antes de defender anestesia local como uma parte integrante de circuncisão em recém-nascidos. (AAP, 1999) Desde 1977, a AAP informa que prematuridade, doenças neonatais, qualquer anomalia congênita (especialmente hipospadias), ou sangramento são contra-indicações absolutas à circuncisão neonatal. A evitação de circuncisão é particularmente importante porque doença neonatal nem sempre é aparente ao nascimento. Não há indicação médica absoluta para a circuncisão, portanto, não deve ser um procedimento de rotina. (AAP, 1999) É enfatizado que circuncisão no recém-nascido é um procedimento eletivo. Por causa da falta de dados científicos claros, não foi provida uma recomendação firme para método apropriado de controle de dor. (AAP, 1999) Em 1989, a AAP orientou que, ao considerar circuncisão dos seus filhos, os pais deveriam ser informados inteiramente dos possíveis benefícios e riscos potenciais da circuncisão em recém-nascidos, tanto com, ou sem anestesia local. (AAP, 1999) Professor Dwyer, jurista, em 1996, convincentemente discute que a visão de que os pais têm dos direitos sobre suas crianças está incorreta e insustentável: os direitos residem nas crianças e os pais devem ser agentes destes direitos delas. Até mesmo a Academia Americana de Pediatria na orientação em como tratar as crianças afirma: “Assim, ‘consentimento por procuração’ representa um sério problema para provedores de cuidados médicos pediátricos. Tais provedores têm deveres legais e éticos com seus pacientes, de praticarem um cuidado médico competente baseado nas necessidades de seus pacientes, não o que outra pessoa expressa... as responsabilidades do pediatra para com o paciente dele existem independentes de desejos parentais ou ‘consentimento por

1154 procuração’”. Não se pode deixar de considerar, que aqui a conivência médica é comparável com o pouco ético comportamento de um médico envolvido em tortura, que também usa a desculpa de estar praticando o que lhe foi solicitado pela autoridade. Eles também poderiam explicar por que o comportamento abusivo para com uma criança é menos abusivo quando executado por um médico. (PRICE, 1997) A Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança assinada em 1959, deixa clara a posição a respeito de circuncisão. Artigo 24(3) provê: “Todos os Estados Parte deverão tomar medidas efetivas e apropriadas com uma visão para abolir práticas tradicionais prejudiciais para a saúde das crianças." Alguns buscaram discutir que esta provisão só era direcionada à circuncisão feminina, mas este argumento não se sustenta na Convenção erudita com as providências interpretativas da Convenção de Viena na Lei de Tratados de 1969. (PRICE, 1997) Ainda assim, 6% dos meninos nos Estados Unidos fazem circuncisão cosmética. As autoridades médicas alegam razões não muito claras para tal prática, como curar asma, alcoolismo, incontinência urinária, sífilis, doença mental e compulsão à masturbação. Estas foram razões que os médicos nos Estados Unidos recentemente mudaram para: previne doenças sexuais, câncer, infecções urinárias e até AIDS. (CHAMBERLAIN, 1998) Foi feito uma pesquisa sobre 26 recém-natos randomizados circuncidados com dois dias de nascidos e com três semanas. Cada bebê foi examinado três vezes, usando a Escala Brazelton de Avaliação Neonatal (NBAS), na qual o examinador não sabe que bebê foi circuncidado. A redução na escala da média de demonstração de desanimado ou hiperativo atingiu a 90% do grupo que sofreu o procedimento nas últimas 4 horas, comparado com os controles. Nos Estados Unidos 80% das crianças, ou seja, 1.600.000 homens que nascem a cada ano são circuncidados, segundo Kaplan em 1977 e Grimes

1155 em 1978. Embora amplamente usada nos EUA, tal prática não ocorre na Europa. Há muito poucos estudos que justifiquem sua realização, segundo Emde, Harmon, Metcalf, Koenig e Wagonfeld em 1971, Anders e Chalemian em 1974, Brackbill em 1975. (MARSHALL et al. 1980, 1982, DIXON e SNYDER, 1984) Estudos preliminares já observaram que meninos que passaram por circuncisão têm menor tolerância à dor. Foi realizado estudo para verificar se havia alteração da dor aos quatro e seis meses, por ocasião de vacinação. Este estudo envolveu 87 meninos divididos em três grupos. Utilizou-se vídeo - tape para medir expressão facial, choro, duração do choro, e escala de dor análoga a tais reações. Os circuncidados mostraram mais forte resposta à dor da vacinação. (TADDIO et al. 1997) Um estudo avaliou as conseqüências da circuncisão sobre o sono. Um deles usando polígrafo para averiguar a qualidade das fases de sono REM, e não REM, que normalmente se alternam, para que o sono tenha sua natural função reparadora de energia. O outro estudo, feito por Anders e Roffwarg em 1973, já haviam descrito alteração no ciclo de sono entre os circuncidados, que ficam com o sistema supra-renal alterado por reação de estresse prolongado. De fato, as crianças apresentavam um aumento de cortisol nos níveis plasmáticos, assim como alteração do ciclo de sono. (ANDERS et al. 1974) A Fetus and Newborn Committee, Canadian Paediatric Society, em revisão de literatura feita, concluiu que a circuncisão não deve ser praticada como rotina em neonatos. (CANADIAN PAEDIATRIC SOCIETY, 1996) Em muitos hospitais nos Estados Unidos a circuncisão é parte rotineira do cuidado provido às crianças masculinas. Denniston entende que está na hora de o

estabelecimento médico repensar as razões para e as conseqüências deste procedimento. O trabalho de Terris M, Wilson F, Nelson JH em Relation of circumcision to cancer of

1156 the cervix, publicado no Am J Obstet Gynecol em 1973 e que justificou a idéia de que a circuncisão prevenia contra câncer do colo de útero, está incorreto. Supondo que o trabalho estivesse correto, ainda assim, a idéia de submeter todos os bebês a este procedimento tão doloroso, sem anestesia, para evitar algo que só poderá acontecer na vida adulta, não soa razoável. (DENNISTON, 1992) Sob o ponto de vista fisiológico; antes do nascimento, a glande do pênis está coberta com pele. Esta pele é firmemente presa na glande como o é a pele da mão. Na 17ª semana de gestação aproximadamente, células na área de separação entre o prepúcio futuro e a glande iniciam o processo de criar o espaço prepucial (isto é, o espaço entre a glande do pênis e o prepúcio intacto). Começam a formar-se bolas microscópicas que incluem camadas múltiplas de células. À medida que elas aumentam, os nutrientes que vão para as células do centro são cortados e então morrem, criando um espaço. Estes espaços minúsculos fundem-se, tornando-se o espaço prepucial. Este processo é completado por volta dos três anos de idade em 90% dos meninos, mas pode levar até 17 anos para que alguns meninos terem um prepúcio completamente retrátil. (DENNISTON, 1992) Ao nascimento, começa aos poucos a separação do prepúcio da glande. O pênis do recém-nascido não está completamente desenvolvido. Por isto, a circuncisão não só interfere no seu desenvolvimento, mas também ocorre que, na cirurgia, a pele da glande sensível seja lacerada para permitir a remoção. (DENNISTON, 1992) O prepúcio cumpre várias funções. Na infância, o prepúcio protege a glande de irritação e de material fecal. A função do prepúcio na maioridade pode parecer mais obscura a princípio. A cabeça e normalmente a glande do pênis de um homem está coberta de uma pele por cima da outra, pois durante a ereção, a cabeça do pênis se

1157 prolonga, tornando-se aproximadamente 50% mais longa. O prepúcio cobre este alongamento da cabeça e é projetado especificamente para acomodar um órgão que é capaz de tal aumento. Além disso, o prepúcio é uma das partes mais sensíveis do pênis e pode aumentar a qualidade das relações sexuais. Estudos anatômicos demonstram que o prepúcio tem maior concentração de terminais nervosos complexos do que a glande, como demonstrou Taylor J. no Segundo Simpósio Internacional sobre Circuncisão, em 1991, em San Francisco, Califórnia. (DENNISTON, 1992) Aos pais cabe a proteção de seus filhos, mas Jeannine Parvati Baker dirige-se especialmente às mães, pois, como já visto, seus filhos vão tomar menos leite delas, vão confiar menos nelas, nos dias que se seguem à circuncisão. Na verdade, a elas cabe proteger a integridade física de seus filhos, e ela afirma: “Basta dizer não à Circuncisão”. Como mãe, diz ela, esta é a “Sagrada Obrigação”. Diante de tão poderosa e dolorosa mutilação, que criança se ligará de fato num deus interior? O trabalho de Rima Laibow em 1991, conclui que homens que passaram por este nível de dor, carregam uma profunda mágoa, pois suas mães os traíram. A conseqüência de abandono pela mãe é violência contra mulher, e há estudos que relacionam circuncisão e estupro. Marilyn Milos, diretora do NOCIRC, grupo de proteção contra violência, explica que a circuncisão é quando o primeiro encontro com a sexualidade foi marcado por violência. (BAKER, 2005)
A circuncisão é um dos piores tratamentos dados à criança. E o que acontece com elas? Simplesmente olhe para elas. Elas não podem falar com você. Elas só podem chorar, o que elas podem fazer é contrair-se. Elas contraem-se, vão para o interior, vão embora deste mundo feio. (REICH, 1950, p. 7)

A mutilação genital feminina (FGM), segundo relatório de abril de 2006, é uma prática que ocorre em 28 países africanos. De 100 milhões a 140 milhões de mulheres foram submetidas à mutilação genital, no relatório das Nações Unidas de 2000, e estima-se que dois milhões de mulheres passam por isto a cada ano, e 6.000 correm tal

1158 risco a cada dia. Muitas meninas morrem em conseqüência de hemorragia, choque, retenção urinária, fístula vaginal com injúria a outros tecidos, ulceração da região genital ou infecção devido a este procedimento. Outras sofrem conseqüências a longo prazo, que são infecção urinária recorrente, abscessos, infecções pélvicas e infecção ginecológica. Muitas vêm a morrer das complicações a longo prazo. As decorrências também podem ser: problemas psicossociais, estresse pós-traumático, falta de confiança no cuidador, fechamento da vagina devido à cicatriz, cistos, neuroma, corte de alguma terminação nervosa causando dor permanente e infecção crônica por obstrução do fluxo menstrual, dispareunia (dor durante o coito), frigidez, conflito conjugal, infertilidade por infecção da pelve crônica, trauma ao dar à luz, com laceração vaginal e fistula vaginal, infecção pós natal, prolongamento do trabalho de parto ou obstrução do períneo devido à cicatriz, com morte da mãe e da criança, e também fístula vaginal em conseqüência da obstrução do trabalho de parto. (ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006) Muitas mulheres morrem de hemorragia de parto devido a este procedimento, se a hemorragia se inicia durante o trabalho de parto, e não na fase expulsiva, a criança pode morrer por falta de oxigênio. Na Somália, onde 90% a 98% das mulheres são infibuladas, uma em cada 100 morrem no parto devido a este procedimento. No Reino Unido, entre as que foram exiladas para lá ou entraram como refugiadas, 86.000 mulheres, segundo estimativa do FORWARD – Foundation for Women’s Health, Research and Development (Fundação para a Saúde e o Desenvolvimento da Mulher), submeteram-se a tal mutilação. E 7.000 jovens adolescentes estão sujeitas a risco anualmente, especialmente se retornarem aos seus países de origem. De acordo com a classificação, da FGM, segundo a OMS em 2000, há quatro procedimentos: Tipo 1 – exêrese da parte retrátil da pele que cobre o clitóris, com ou sem excisão de parte ou de todo o clitóris; Tipo 2 - excisão do clitóris parcial ou total e dos pequenos lábios; Tipo 3

1159 – excisão parcial ou total da genitália externa e costurar ou deixar mais estreita a abertura vaginal, ou infibulação; Tipo 4 – furar, perfurar, ou cortar o clitóris e, ou o lábio, cauterizando ou queimando o clitóris e o tecido ao redor, raspando o tecido à volta do orifício ou cortando a vagina, com introdução de substâncias corrosivas ou ervas para dentro da vagina, que causam sangramento, ou com o propósito de estreitá-la. (ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006, NOBLE, 1993) A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo, em 1994, entendeu que seu alvo para a redução de tal prática já começou a ser atingido, pois verificou-se que 20.000 mulheres foram poupadas do procedimento. Outro ganho foi a redução da incidência de circuncisão nas regiões administrativas de Asyut, Sawhaj, Qena, Minya, Cairo e Alexandria entre meninas 5 a 10 anos de idade de 95% para 70%. Segundo a Maternal and Child Health Survey (Pesquisa de Saúde Materno-Infantil) em 1991, 95% das meninas nas áreas rurais do Egito e 80% das áreas urbanas eram circuncidadas, embora o procedimento fosse proibido por lei. A informação, com um aperfeiçoamento de educação sobre o assunto, tem sido fundamental para a mudança de atitude tanto do governo do Egito, como do clero. (FEDERAL MINISTRY FOR FAMILY AFFAIRS, SENIOR CITIZENS, WOMEN AND YOUTH, 2007) Segundo o Ato de Direitos Humanos de 2000, os profissionais de saúde têm o dever de proteger as crianças de tais mutilações. Na Convenção dos Direitos da Criança, a página 10 orienta sobre a necessidade de proteção da criança. Foi então firmado o Protocolo da Carta Africana (União Africana de 2003) onde estão tais compromissos. (ROYAL COLLEGE OF NURSING, 2006) 2.12 Imitação e outras Evidências do Desenvolvimento Inicial Olga Maratos, psicóloga grega, percebeu a capacidade do recém-nato de imitar. Mais tarde, Andrew Meltzoff estudou esta capacidade em grande detalhe: protundindo a

1160 língua, abrindo a boca, franzindo os lábios, o recém-nato, imita a careta para a pessoa que a fez, demonstrando registro de memória. Os bebês também imitam rostos de tristeza, felicidade e surpresa. (KLAUS e KLAUS, 1989) Fez-se um estudo para observação do uso de movimentos expressivos como indicadores de estados subjetivos no bebê recém-nascido, a partir de registros de reações a estímulos nociceptivos e a estímulos olfativos e gustativos. A análise dessas reações (choro e expressões faciais de agrado e desagrado) evidenciam sintonia com o ambiente e variabilidade individual - duas condições incluídas no sentido de consciência como "awareness"- e excluiu-se a possibilidade de uma interpretação desses movimentos como reações reflexas. Considerando-se o bebê como ser social e altamente comunicativo, estas evidências permitem admitir uma correspondência estreita entre movimentos expressivos e estados internos, um pressuposto comum às teorias de emoção. (BERGAMASCO, 1997) Décadas de pesquisa têm confirmado que os bebês emitem sinais para as mães, que geram respostas nelas, e esta comunicação implica em desenvolvimento cognitivo para o bebê. Hoje já existem estudos em animais e estudos endocrinológicos que dão sustentação às observações antigas, assim como estudos transculturais que marcam diferenças de comunicação. (STALLING, 1994) Meltzoff e Moore publicaram o primeiro estudo, que já se tornou clássico, de uma extensa linha de pesquisas sobre imitação em recém-nascidos. A hipótese deles era que os recém-nascidos são capazes de imitação de movimentos faciais. Usaram quatro modelos: três faciais (colocar a língua para fora, estender o lábio, abrir a boca) e um envolvendo os dedos, com bebês de 12 a 21 dias de idade. Cada um deles era apresentado para os bebês por um adulto e as respostas eram codificadas por observadores que desconheciam o movimento a ser imitado. Foi verificada uma

1161 freqüência significativamente maior do gesto que estava sendo mostrado, do que de qualquer outro. (MELTZOFF, 1977) Em uma amostra de 40 bebês de menos de uma hora a bebês de 71 horas, apresentaram-se dois gestos de um modelo adulto: abertura da boca e protrusão da língua. Os resultados indicaram que os bebês imitaram ambos. (MELTZOFF e MOORE, 1983a) Em outro estudo foi evidenciou-se que os bebês são capazes de reconhecer visualmente a chupeta que sugam. (MELTZOFF e BORTON, 1979) Na tentativa de tornar mais precisa a experiência anterior, foi feito um experimento em que se criaram procedimentos para impedir que os bebês respondessem imediatamente à ação do modelo. Os resultados corroboraram os anteriores. (MELTZOFF e MOORE, 1983b) A habilidade de crianças de nove meses para imitar ações simples com objetos foi investigada. Depois colocou-se uma demora de 24 horas entre o estímulo-apresentação e os períodos de resposta. Os resultados demonstram evidência de que existe imitação imediata e também mediata. Estes resultados mostram que esta habilidade está a serviço de um desenvolvimento social. Ações e novos objetos que são observados um dia podem ser armazenados pela criança e repetidos no próximo dia. (MELTZOFF, 1988b) Imitação com demora de l semana foi examinada em crianças de 14 meses. Seis ações, cada uma usando um objeto diferente. Uma das seis ações era um comportamento novo que tinha nenhuma probabilidade de ocorrência espontânea. As crianças demonstraram ter memória evocativa. (MELTZOFF, 1988a) Outro experimento incluiu a protrusão da língua e movimento de cabeça. Com os mesmos cuidados de usar observadores que desconheciam o gesto que serviu de modelo, verificaram que os bebês eram capazes de reproduzir ambos os movimentos.

1162 Mais tarde, após algum tempo depois da execução do movimento pelo adulto, eles repetiam o gesto. Daí começou-se a pensar na questão da memória. MOORE, 1989) A partir de estudos com bebês de seis semanas e de dois a três meses, atribuiu-se uma função social e psicológica às imitações iniciais. Posturas faciais estáticas e movimentos, tanto de estranhos como das respectivas mães, eram imitados; portanto, os resultados não dependiam da familiaridade com o modelo. Esse comportamento apresentado em bebês de seis semanas de idade continuava presente aos dois e três meses. Para os autores, a imitação inicial tem uma função comunicativa e os bebês a utilizam nos encontros com outros para enriquecer seu conhecimento de pessoas e de suas ações e também para identificar essas pessoas. O que este pesquisador percebeu é que o desenvolvimento do cérebro humano depende desta imitação, e o ato de imitar é, dentre outras coisas, um importante exercício de memória. A criança percebe o rosto do adulto como um espelho que se comunica com ela, portanto é fundamental como aprendizado de auto-estima. (MELTZOFF e MOORE, 1992) O trabalho de Sophian em 1980 trouxe dados na mesma direção e o autor afirma que a memória de reconhecimento está presente desde os primeiros dias de vida. Legerstee em 1991 também encontrou evidências confirmatórias, ao examinar o papel de pessoas e objetos ao provocar imitação em bebês de cinco e oito semanas. Para os três autores, a imitação é uma resposta social que tem implicações para o desenvolvimento, especialmente da comunicação e da linguagem. (MOURA e RIBAS, 2002) As crianças desenvolvem a fala com padrões de linguagem universal e um mecanismo que influi é a imitação. As crianças buscam copiar as vogais. Em análise em (MELTZOFF e

1163 espectrógrafo, as vogais vão-se separando quando as crianças tinham entre 12 a 20 semanas. (KUHL e MELTZOFF, 1996) A idéia de imitar está conectada com a idéia de se inserir no contexto social. Mas, além disto, envolve a observação e a própriocepção, assim como habilidades motoras. Nos pacientes com Síndrome de Down e com autismo, esta capacidade de imitar está alterada. Por outro lado, padrões de imitação são observados em muitas culturas, como descrito nos Estados Unidos, por Abravanel e Sigafoos em 1984, e por Field et al. em 1982 no Canadá por Legertee em 1991, na França por Foutaine em 1984, na Suíça por Vinter em 1986, na Suécia por Helmann e Schaller em 1985 e por Heinann et al. em 1989, em Israel por Kaitz et al. em 1988, no Nepal, em área rural por Reissland em 1988. (MELTZOFF e GOPNIK, 1993) No trabalho de Reissland foi confirmada a imitação de posições dos lábios em 12 bebês com uma hora de vida de uma região rural do Nepal, para quem o experimentador era a primeira pessoa com quem interagiam após o nascimento. (REISSLAND apud MOURA e RIBAS, 2002) Confirmaram-se as evidências de que em fase muito precoce existe uma variedade de gestos imitados. A imitação de ações novas, portanto não pode ser resposta. A estereotipada, visto que a possibilidade de imitação facial diferente com intervalos de 24 horas. (MELTZOFF e MOORE, 1999) Foi feito um estudo para testar a imitação imediata e a memória (com intervalo de 24 horas). Este trabalho utilizou um procedimento experimental muito cuidadoso, incluindo a micro análise da topografia da resposta. Os procedimentos foram testados para fidedignidade, apresentando índices bastante altos. Os resultados mostraram imitação imediata, e imitação após um intervalo de tempo. Esse último resultado indica que memória de evocação em bebês de seis semanas pode gerar ações com base em

1164 alguma forma de representações armazenadas. A organização motora envolvida na imitação, investigada pela micro análise das respostas, revelou que os bebês se modificam. (MELTZOFF e MOORE, 1994) Neste caso, Meltzoff (1995) relata um estudo com crianças de 18 meses, no qual o modelo tentava realizar uma determinada ação com um objeto, mas falhava. A conduta imitativa observada levava em conta o que os adultos haviam tentado fazer, e não o que eles de fato haviam feito. É com base nesse tipo de dado que os autores ressaltam que estas crianças de 18 meses não estavam apenas imitando o que elas haviam visto, mas realizando atos de certa complexidade de intenção. (MELTZOFF, 1995) Gallagher e Meltzoff (1996) discutem alguns pressupostos tradicionais sobre o desenvolvimento do esquema, da imagem corporal e do processo de tradução entre a experiência perceptual e a capacidade motora. Com os achados nas pesquisas de Meltzoff sobre a imitação de gestos não-vistos, defende-se então uma capacidade rudimentar de diferenciação entre o self e o que não é o self presente no recém-nascido. (GALLAGHER, S. MELTZOFF, 1996) Foram analisadas questões relativas ao processo de imitação e entenderam que os bebês relacionam partes de seus próprios corpos aos correspondentes nos adultos. Ao mesmo tempo, realizam movimentos espontâneos que são como "balbucios" e que lhes dão experiência em mapear mudanças e configurações de seu próprio corpo. Finalmente, estabelecem relações entre órgãos que lhes permitem perceber e emparelhar seus movimentos com os do modelo. (MELTZOFF e MOORE, 1997) Já ficou comprovada a existência de memória nos primeiros meses e há uma complexa mente funcionando nos bebês de 18 meses. O cérebro é uma estrutura inata e de evolução progressiva, há uma reorganização qualitativa na vida mental do bebê, com base em sua experiência com pessoas e eventos de sua cultura. (MELTZOFF, 1999)

1165 Algumas coisas foram mudando e Meltzoff entende que, primeiro, a psicologia do desenvolvimento veio transformando-se ao entende-se o sentido da imitação nos bebês; segundo, é preciso mudar paradigmas de pesquisa em bebês, e deixar de considerá-los iguais aos ratos de laboratório, pois sua psicologia é mais complexa. E em terceiro lugar a comparação de imitação de animais e de humanos, demonstra que nestes a mente é contínua e descontínua em função da subjetividade. Em quarto lugar, neurocientistas vêm, através das experiências de imitação, explorando o conceito de neurônio espelho, como Decety em 2002, Prinz, 2002, Rizzolatti, Fadiga, Fogassi e Gallese em 2002. (MELTZOFF, 2002a) A imitação é um recurso para entender como outra mente funciona. O passo um sendo “Como eu” e o passo dois, “Compreensão do outro”. De algum modo a direção da imitação é inclusiva de si próprio, num contexto de relação e do outro, no contexto afetivo das relações sociais. A criança de 14 meses é capaz de perceber a direção do jogo que o adulto pretende desenvolver, sem que antes tenha sido feito. Isto ocorre com a criança humana, pois há uma interação lúdica que a faz antecipar no jogo à ação a ser realizada e, quando percebe que isto de algum modo era o que se esperava, ela fica satisfeita e ri. (MELTZOFF 2002b) Um aspecto importante da imitação na interação social é o da empatia. As crianças imitam gestos novos, demonstrando flexibilidade e não há automatismo. Crianças que dão respostas corretas é que estão confiando no modelo. Não há fixidez neste aspecto; e crianças imitam por memória, não por reflexo. (MELTZOFF, 2005) Outras evidências do desenvolvimento inicial parecem consistentes com os achados sobre imitação e serão apresentadas a seguir. A literatura sobre esse tema é muito extensa e optou-se por citar somente alguns estudos básicos. A capacidade de estabelecimento de intersubjetividade entre o bebê e os adultos é um dos aspectos

1166 centrais que se podem vincular às evidências que vêm sendo descritas. Trevarthen e Hubley em 1978 discutem que a comunicação entre o bebê e os adultos -principalmente a mãe - e suas transformações, se devem à diferenciação de uma função inata, interpessoal, geral e altamente complexa, que se manifesta muito cedo de uma forma rudimentar. Essa função identifica pessoas, regula motivação e intenção em relação a elas e constrói simultaneamente atos rudimentares de fala e gesto em combinações e seqüências-padrão. Uma forma primitiva de intersubjetividade começa nas primeiras semanas de vida, com o prazer do contato visual entre a mãe e o bebê (ao qual se deveria acrescentar o prazer do toque). A partir disso, desenvolve-se, transformando-se na capacidade de compartilhar atenção a objetos comuns e tornando-se verbal na época da pré-história. No curso das primeiras semanas, os bebês apresentam uma ligação estreita entre os sistemas de percepção e ação organizada e uma sensibilidade essencialmente humana para estímulos sociais. No segundo mês, mostram os primeiros sinais de "intersubjetividade primária", definida originalmente por Trevarthen e Hubley (1978). Esta é caracterizada como uma forma de interação que tem como aspectos essenciais o interesse que o bebê demonstra pela fala da mãe e sua capacidade de orientar a atenção para o rosto da mesma e de responder às solicitações dela. (MELTZOFF, 2005) As capacidades imitativas iniciais, entretanto, não podem ser entendidas de forma isolada, mas se inserem em um panorama mais geral. Os bebês parecem predispostos a responder seletivamente a eventos sociais e demonstram uma motivação básica para se relacionar com pessoas. Além disso, revelam um conjunto de características que os capacitam para os primeiros contatos e trocas com os membros da cultura, inicialmente representados, sobretudo, por sua mãe. (MOURA e RIBAS, 2002)

1167 O sistema auditivo parece pré-adaptado para identificar a voz humana. Os bebês discriminam sons da voz humana de outros sons, preferindo os primeiros, em especial, os das vozes femininas (Eisember, 1975). Esta capacidade discriminativa se manifesta também no sistema olfativo. Tem sido verificado que, desde o terceiro dia de vida, conseguem distinguir sua mãe de uma estranha com base no odor (Engen, Lipsitt & Haye, 1963). (MOURA e RIBAS, 2002) No campo visual, as investigações de Fantz em 1965 demonstraram a capacidade de discriminar e manifestar preferências por configurações de rostos humanos. Em condições normais, os bebês buscam estabelecer contato visual com os adultos que cuidam deles e são estimulados e incentivados a fazê-lo, segundo Schaffer em 1979. (MOURA e RIBAS, 2002) Há divergências entre os autores quanto à natureza das percepções iniciais do bebê. Em geral, não tem sido confirmada a concepção piagetiana de que estas são modais e justapostas e de que a organização comportamental é não-coordenada e constituída de reflexos isolados. Bertenthal em 1996 revê e analisa as evidências das origens e do desenvolvimento inicial da percepção, ação e representação. Para este autor, os resultados das pesquisas recentes desafiam "crenças antigas" que viam os recém-nascidos como dotados apenas de um repertório muito simples de comportamentos sensório-motores que são gradualmente integrados e internalizados. Além disso, evidenciam que a capacidade de representação pode estar presente desde o nascimento. (MOURA e RIBAS, 2002) Este mesmo autor Bertenthal em 1996 questiona a visão monolítica da percepção de que diferentes inputs sensoriais convergem numa representação única que precede o pensamento e ação. Propõe, então, um modelo em que o sistema visual é dividido em duas rotas funcionalmente dissociáveis. Uma dessas rotas trata do controle perceptivo e

1168 da orientação das ações, e a outra da percepção e do reconhecimento de objetos e eventos. Diferentes fatores contribuem para mudanças evolutivas nos dois sistemas. Nem percepção, nem ação, nem representação são privilegiadas ontogeneticamente. (MOURA e RIBAS, 2002) O que essas pesquisas têm indicado é que o estado inicial do desenvolvimento talvez não seja exatamente o que Piaget propôs e, é necessário levar em conta algumas predisposições inatamente especificadas. As evidências mostram que a percepção depende de relações e de descrições abstratas, permitindo defender a hipótese de que a obtenção de aspectos do conhecimento conceitual e a aprendizagem sobre os mundos físico e social através da percepção. Deste modo, é preciso repensar o estágio sensóriomotor tal como apresentado e explicado por Piaget. (MOURA e RIBAS, 2002) É necessário adotar uma posição que inclua as novas evidências sobre o estado inicial e que inclua também um processo em que a representação sofra transformações e tenha maior complexidade, ou seja, passe por uma construção gradual. Essa é a proposta de Meltzoff e Moore. Num modelo mais geral, isto é o que propõe também KarmiloffSmith em 1995. Márcia L.S. Moura e Adriana F.P. Ribas admitem tais capacidades inatas, mas também a hipótese de um mecanismo de construção. Pensam que as predisposições inatas podem ser especificadas em detalhe ou ter apenas uma direção geral. No primeiro caso, os estímulos do ambiente são apenas disparadores do processo. No segundo caso, o ambiente influencia a estrutura subseqüente do cérebro através de uma interação rica e específica entre a mente e o ambiente físico e sociocultural. Karmiloff-Smith desenvolveu o que chama de modelo RR (Redescrições

Representacionais). O modelo pressupõe um processo cíclico pelo qual a informação, já presente no funcionamento independente do organismo, se apresenta sob a forma de representações com finalidades específicas e se torna progressivamente disponível, por

1169 meio de redescrição, para outras partes do sistema cognitivo. Para elas, é necessário acrescentar à visão de Piaget algumas predisposições inatas, impregnadas de conhecimento, dando ao processo epigenético uma base para se desenrolar. (MOURA e RIBAS, 2002) 3 O Vínculo e a Vida Dois conceitos sobre adaptação social e recém-nascidos foram empregados: John Bowlby analisou o processo de estabelecimento de apego com a mãe nos primeiros seis meses (attachment). Klaus e Kennell aplicaram o termo vínculo (bonding) ao começo desta ligação que se dá na primeira hora depois de nascimento. Ambos os conceitos especificam comportamentos que fixam condicionamentos precoces na infância, para uma relação mutuamente satisfatória entre a mãe e criança. (SCHORE, 2001) A autora vai usar sempre a palavra vínculo para a tradução de bonding e de attachment. O primeiro trabalho sobre a Teoria do Vínculo foi escrito no livro “The Nature of the Child’s Tie to his Mother” (A Natureza da Ligação da Criança com sua Mãe) em 1957, calcado em conceitos etológicos. Foram escritos três artigos para a Sociedade Psicanalítica de Londres, dos quais o primeiro foi este: Bowlby propunha que o vínculo entre crianças de um a dois meses com suas mães tinha um forte componente instintual, que respondiam através de: chupar, agarrar e comportamentos de sinalização como sorrir e chorar. Descreveu que as crianças alcançavam alguma maturidade e independência durante o primeiro ano de vida, que aumentava a partir de um foco mantido na figura materna dos seis primeiros meses de vida. (BOWLBY, 2002) A teoria do vínculo foi desenvolvida pelo psiquiatra John Bowlby que foi em 1950, Diretores do Departamento de Clínica Tavistock na Inglaterra e Consultor de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde, em 1951. Descreveu que crianças privadas de contato com mãe, vivendo em suas próprias casas, eram mais passíveis de

1170 infecção e corriam maior risco de contrair difteria. Na verdade, foram feitos filmes, e até um documentário em 1952, A Two-Year Old Goes to the Hospital, (Uma Criança de Dois anos vai para o Hospital) onde ele observou o que ocorria na separação de curta duração de uma criança nesta idade. Outro filme da Tavistock registrou crianças que ficam em casa enquanto suas mães estavam em hospitais, para o nascimento de um irmão. As crianças demonstravam-se agitadas por um tempo, em protesto, depois desesperadas, inquietas, e em seguida começavam a se desinteressar do ambiente, num comportamento de negação da dor. Na continuidade da privação, finalmente, elas adoeciam de infecção do trato respiratório. (BOWLBY, 2002) A necessidade de vínculo é universal. Nossos parentes mais próximos, os macacos de quem nos distanciamos por 1% do código genético, também têm necessidade de vínculo para manter sua saúde mental e emocional. Os estudos de Harlow, na década de 50, foram muito ilustrativos na questão do vínculo. Ao nutrir macacos rhesus com mamadeira em gaiolas metálicas, a mortalidade entre eles aumentou. Ele introduziu na pesquisa duas mães substitutas inanimadas, uma com acolchoamento e outra sem. A não acolchoada portava a mamadeira. O macaco bebê ia até esta apenas para o tempo de mamar, mas ficava com a acolchoada o maior tempo possível. Acompanhados até a vida adulta, percebeu-se alteração no domínio da sociabilidade. (MONTAGU, 1986) Por 35 milhões de anos os primatas sobreviveram estando próximos às suas mães nas primeiras horas depois de nascidos. O que mostram as pesquisas sobre vínculo, com medições de onda cerebrais, com estudo de mímica e estudo de hormônios do bebê, é que nenhuma criança está pronta física e emocionalmente para suportar a separação da mãe logo após o nascimento. O que ocorre é que se sucedem o pânico, o desespero, a depressão e a perda de imunidade. (MONTAGU, 1986)

1171 O segundo trabalho de Bowlby foi “Separation Anxiety” (Ansiedade de Separação) que foi apresentado em 1959, onde ele explicava as fases que ocorriam em função da separação da mãe com o bebê: 1 – Protesto, 2 – Desespero, 3 – Desvinculo ou negação. Esta descrição é crucial até hoje, para entender os movimentos emocionais por que passa a criança deixada, ainda que por pouco tempo. Neste trabalho, ele já salientava que o excesso de separação, geralmente causado por famílias disfuncionais, repetem o abandono e a rejeição dos pais que pode acabar parecendo doença e morte nos pais, que é vivida pela criança como sendo de sua responsabilidade. O terceiro trabalho foi “Grief and Mourning in Infancy and Early Childhood” (Luto e Pesar na Infância e em Idade Precoce), onde ele contesta a visão prevalente de narcisismo infantil e fala da importância da questão da perda do objeto amado. Ele entende que a criança pequena não tem condições de elaborar perda, tendo em vista que não tem ego suficiente para fazê-lo. (BRETHERTON, 1992) Mary Ainsworth diplomou-se na Universidade de Toronto, no final dos anos 30 e início dos anos 40, onde fez cursos com William Blatz que a tinha apresentado à teoria de segurança de Blatz em 1940. Ambos reformularam e desafiaram as idéias

Freudianas. Uma das doutrinas principais de teoria da segurança é que as crianças jovens precisam desenvolver uma dependência segura em relação aos pais antes de se lançar no mundo, em situações pouco conhecidas. Ainsworth desenvolve essa tese em sua dissertação intitulada: An Evaluation of Adjustment Based Upon the Concept of Security, (Uma Avaliação de Ajuste Baseado no Conceito de Segurança). (BRETHERTON, 1992) Em 1951, Bowlby pôde desenvolver e publicar seu trabalho a respeito dos efeitos de separação da mãe sobre a criança, pois escreveu para a Organização Mundial de Saúde sobre as condições mentais das crianças sem lar, no pós-guerra. Este trabalho foi

1172 escrito em seis meses, foi traduzido para 14 idiomas e o título era: “Maternal Care and Mental Health pela WHO” (Cuidados Maternos e Saúde Mental pela OMS). Na sua segunda edição: Child Care and Growth of Love, (Cuidado Materno e Desenvolvimento do Amor) teve um capítulo escrito por Mary Ainsworth. (BRETHERTON, 1992) Em 1957, Ainsworth vai para Uganda, onde desenvolve um projeto de observação de 26 famílias com bebês que ainda não desmamaram entre um e 24 meses. Estes eram observados a cada duas semanas, por duas horas, e visitados por nove meses. Ela estava particularmente interessada em determinar a proximidade entre mãe e filho e os sinais de comportamento. Ela e Bowlby já haviam começado uma intensa colaboração: ela publica o projeto de Uganda em 1962 e 1967; ele reformula algumas coisas sobre sua própria teoria em 1969, com idéias partilhadas por ambos. Uma delas é que a importância da ontogenia do vínculo humano. (BRETHERTON, 1992) Hoje, a teoria do Vínculo tem-se desenvolvido muito com trabalhos como: Sroufe em 1988, sobre psicopatologia do vínculo; em estudos longitudinais sobre famílias com depressão, como os conduzidos por Radke-Yarrow, Cummings, Kuczinsky e Chapman em 1985; em estudo sobre famílias onde há maus tratos como observaram Cicchetti e Barnett em 1991, Crittenden em 1983, Schneider-Rosen, Braunwald, Carlson e Cicchetti em 1985; estudos sobre intervenções clínicas em família com baixo suporte social, como os de Lieberman e Pawl em 1988, Psieker e Booth em 1988; problemas de comportamento como o trabalho de Greenberg e Speltz em 1988 e o trabalho de Belsky e Nezworske em 1988. Há estudos sobre vínculo e sistema familiar, como Bronfenbrenner em 1979; vínculo e pai, por: Belsky, Gilstrap, Rovine em 1984, Lamb em 1978, e Parke e Tinsley em 1987; vínculo e irmãos: por Stewart e Marvin em 1984, Teti e Ablard em 1989. Autores como Fish, Belsky e Youngblade, em 1991,

1173 demonstraram a relação entre vínculo inseguro e a incapacidade de tomar as decisões necessárias aos quatro anos de idade. (BRETHERTON, 1992) Existem estudos feitos sobre vínculo em outras culturas: Grossmann e Grossmann, Spangler, Suess, Unzner em 1985, na Alemanha, Sagi et al., também em 1985, em Israel, e no Japão Miyake, Chen e Campos em 1985. (BRETHERTON, 1992) O vínculo, ou apego, pode ser visto como um laço afetivo que a criança tem com um número reduzido de pessoas em quem ela é impulsionada a buscar um contato duradouro. Tal necessidade é biologicamente humana: com as condutas do apego, entram em cena o ajuste postural, o olhar nos olhos e o choro, pois isso tudo tem a função de sinalização para atrair a mãe. Existem também as respostas de orientação e sucção, sorriso, discriminação auditiva e imitação. O apego nasce do comportamento da mãe e da criança. (GARCÍA, 2006) Segundo Brazelton, se as crianças apresentam um desenvolvimento adequado, então são capazes de viverem em sincronia mãe com filho, e vice-versa. A falta desta sintonia segundo Brazelton, é interpretada pelo bebê como uma violação da sua expectativa. (BRAZELTON, apud GARCÍA, 2006) Não se pode deixar de considerar que o bebê, estando na barriga da mãe, já pensava em agradá-la e também tendia a se responsabilizar pelos acontecimentos insatisfatórios ocorridos com ela, mesmo que seja, no caso de ela esperar ter o filho em parto normal e, no lugar disso, ter sido submetida a uma cesárea, uma parcela de sentimento de frustração no bebê, carrega, pois no útero o que frustra a mãe, tende a ser vivido como responsabilidade pelo bebê. Mas mesmo diante de tudo isto o poder do amor materno é extraordinário, e é capaz de a tudo transformar. (NOBLE, 1993) Do feto para o bebê há uma continuidade, ou seja, continua a existir uma fusão entre mãe e filho: além do contato áudio-tátil, há o contato olho a olho e uma gama de

1174 comunicações não verbais que aí se estabelecem num continuum, como um seguimento da ligação intra-uterina. (SZEJER, 2005) Para ter uma avaliação classificatória de vínculo, que inclusive facilita os trabalhos científicos, foram estruturada a expressão de vínculo como: (SIEGEL, 1999) Na mente adulta: A disponibilidade para o vínculo pode caracterizar-se por: a) Coerente, colaborativo, discursivo disponível para o vínculo - Seguro/autônomo b) Não coerente, mais livre, o Vínculo - Solto c) Não coerente, preocupado com vínculos antigos, falante, raivoso, passivo ou medroso, sentenças longas – Preocupado d) Durante as discussões tende ao abuso. - Desorganizado Quanto à criança: a) A que explora o quarto e brinquedos com interesse, mostra sinais de perda quando elas ocorrem; geralmente chora com separação, prefere parentes a estranhos, tem contato físico com quem gosta. S – Seguro b) Difícil chorar diante de separação de parente, ignora a reunião com parentes, não tem muito contato ou proximidade, doente, não estressada, não tem raiva, resposta pouco emocional, foco em objetos. Evitadora – Q c) Pode ser muito aflita, angustiada, pouco exploradora, preocupada, parece conter raiva, passiva, falha em sentir-se confortável em reunião familiar, chora, difícil exploração. Ambivalente – C d) Desorganizada e desorientada com o comportamento e presença dos pais, parece que vive em colapso com estratégias de convivência, comportamentos físicos que sugerem expressões desconcertantes, pode chorar. – D –desorientada e desorganizada (A,B, C e outras categorias) (SIEGEL, 1999)

1175 Simplificadamente pode-se colocar que o vínculo na escala Siegel e Hartzell em 2003: é do tipo A – Harmonioso - B – Equilibrado – C – Coerente D – Desorientado. (SIEGEL, 2004) Siegel dá uma lista de cinco elementos para propor um bom desenvolvimento emocional e cerebral para a criança. 1) Colaboração: relações seguras são estabelecidas em comunicações

cooperativas. Os sinais não verbais entre pais e filhos são sintonizados. 2) Diálogo receptivo: nas relações seguras, compartilham-se as experiências internas, sejam emoções, percepções, pensamentos e crenças, além de ensinar que a subjetividade da criança é um fator importante na vida. 3) Reparação: se a comunicação for interrompida deve ser restaurada, num tempo mais breve possível, para não abalar a base emocional da criança. 4) Narrativa coerente: As histórias narradas para a criança sobre os acontecimentos da vida fornecem à criança uma sensação de passado, presente e futuro, tanto no mundo interno, como no externo. E as histórias familiares ajudam a criar um sentido de identidade familiar compartilhada. 5) Comunicação Emocional: ao compartilhar e ampliar tanto emoções positivas, como alegrias e excitação, são lançados os alicerces de uma atitude positiva. A conexão, existindo nos momentos de emoções negativas, ensina e garante à criança que ela não será abandonada no momento de dor. Estas experiências são chaves para modelar futuros relacionamentos pessoais. (SIEGEL, 1999) Foi desenvolvida uma Escala Materna de Vínculo (MFAS), por Cranley em 1981, mas mesmo a melhor das escalas tem insuficiências para avaliar uma interação com tantas outras variáveis sutis. (DOAN et al. 2003)

1176 É importante notar que, quando uma criança chega ao mundo, como diz Jung (JUNG, 2000a), ela não é uma tabula rasa; existem os olhos da mãe para a criança, que passam pelos filtros da própria criança interior da mãe. Do mesmo modo que a criança já vem com suas lentes para enxergar os pais. Assim, a criança, quando chega ao

mundo, vem com sua bagagem arquetípica desenvolvida transgeracionalmente, ou foi algo moldada a possuir uma melhor constelação arquetípica, se tenha ocorrido uma concepção consciente, e uma gestação com imaginação da mãe plasmando um arranjo interior harmonioso para adaptação positiva no mundo, favorecendo os contatos humanos, desde o início da vida. Assim é o rosto, a voz, que vão comunicar a carga arquetípica dos pais. Por outro lado, os filhos ativarão comportamentos arquetípicos nos pais; se estes forem atentos, as situações poderão ser breves, e portanto pouco danosas, mas se inconscientes, podem se prolongar numa desorganização do vínculo. Os estados de desenvolvimento dos circuitos cerebrais estão muito

importantemente ligados aos estados emocionais maternos. No hemisfério direito materno está o que será posto no inconsciente do filho: em seu hemisfério direito, onde residem suas emoções. Nos primeiros meses, as comunicações mais importantes se dão de inconsciente para inconsciente, isto é, a criança recebe mensagens puramente emocionais. O tom da voz da mãe reflete seu estado interior. Tudo o que ameaça a mãe, ameaça e desorganiza a criança. O odor da mãe percebido por uma criança de seis dias, pode identificar que a mãe está com medo. Da segunda à sétima semana, a criança se organiza orientada pela face da mãe. (MATÉ, 2000) Daniel J. Siegel e Mary Hartzell perceberam que um vínculo seguro gera uma reação interativa parental emocionalmente perceptiva e responsiva, enquanto o vínculo inseguro-evitador gera reação não responsiva e rejeitadora. O vínculo inseguro-ansioso tem uma resposta inconstante no bebê, e no vínculo inseguro-desorganizado, aparece a

1177 resposta de luta e desorganização, desorientação. Portanto, o relacionamento mãe-bebê vai moldar um padrão de resposta que pode seguir mais adiante na vida. Estes cientistas afirmam que mais importante do que a estimulação sensorial nos primeiros anos de vida, são os padrões de interação entre a criança e a pessoa que cuida dela. (SIEGEL e HARTZELL, 2003) Baseando-se em técnicas muito recentes, neurocientistas traçaram os fundamentos biológicos do vínculo e do afeto. O corpo da criança é dotado de hormônios da socialização e empatia, e quando uma mãe olha com amor para seu filho, eles organizam uma programação que a nomenclatura científica denomina entrainment, propiciadora da capacidade de amar. Investigações têm permitido demonstrar que nos primeiros anos de vida, o cérebro do bebê está constantemente sintonizado com o da mãe para gerar os hormônios adequados, na seqüência apropriada. Tal programação determina, em grande proporção, a arquitetura cerebral que o indivíduo terá durante toda a sua vida. Um processo de sintonização defeituoso poderia trazer danos às redes neurais do córtex pré-frontal, sede de funções humanas mais sofisticadas, produzindo uma permeabilidade duradoura aos problemas psicológicos. Com o avanço destas pesquisas sabe-se que, quando uma mãe acaricia seu filho e um pai brinca com ele, tais acontecimentos se convertem em processos neurohormonais que transformam o corpo e configuram o cérebro da criança. (VERNY e WEINTRAUB, 2004) Em 1976, a idéia de criar vínculos com o bebê, foi descrita por Marshall Klaus e John Kennell. Suas publicações, atualizadas em 1983 e 1995, foram de importância revolucionária. Não obstante ter-se passado mais de um quarto de século desde a observação daqueles cientistas, ainda há pais e mães que não conseguem estabelecer vínculo com seus filhos, ou sentem-se desvinculados deste, mesmo não sabendo o motivo. Muitas vezes ocorre que a conexão no início da vida ficou falha, resultando em

1178 afastamento emocional por longos anos: “Quando não se pode estabelecer um vínculo afetivo paira uma obscuridade sobre a relação, falta intimidade, como uma sombra inexplicável.” Klaus e Kennel perceberam que mães separadas de seus filhos por muito tempo, ficam incrédulas, e até mesmo surge a dúvida de terem tido um filho. Nas mães desvinculadas, a lactação não tem sucesso. Em alguns casos, o desvinculo se converte em raiva e a raiva, em abuso. Um estudo, em 1994, sobre 8.000 mulheres mostrava que os bebês não desejados tinham um risco 2,5 vezes maior de vir a falecer nos primeiros 28 dias de vida. “Os bebês sabem telepaticamente se são desejados ou não”. Os bebês de mães desvinculadas podem ter dificuldade em ganhar peso, ou facilidade em cair doentes. Durante as duas últimas décadas na Califórnia, foram feitas séries de estudos clínicos mostrando a freqüência entre vínculo materno e asma nas crianças. (CHAMBERLAIN, 2007) Numa população, foram estudadas, em dois grupos, 30 mães asmáticas e seus filhos asmáticos e não asmáticos. Os dois grupos foram avaliados pela M.I.B.S. Maternal Bonding Infant Survey (Pesquisa De Vínculo Materno-infantil), para estudar a freqüência de eventos de não vínculo na história de vida das crianças. 86% das crianças asmáticas tinham problemas de vínculo comparado com 26% das não asmáticas. (MADRID e SCHARTZ, 1991) Ao tratar das mães para que melhorassem os vínculos, houve remissão em quadros asmáticos nas crianças. (MADRID et al. 2000) “Durante o período crítico depois do parto, aparece uma cadeia de milagres químicos que levam a mãe e o bebê a estabelecerem um aperfeiçoamento básico no desenvolvimento do vínculo afetivo”. Historicamente, quando os argumentos sobre os vínculos afetivos apareceram nos anos 70, o controle médico sobre o nascimento estava em seu apogeu, o parto estava quase destituído de seu valor humano, violavam-se as necessidades psicológicas e biológicas dos pais e da criança, em nome do processo

1179 “científico de nascer”: esta mesma ciência levou mais de 16 anos para aceitar que o recém-nascido sentia dor, e que justificou milhares de cirurgias sem anestesia. Neste período, o entendimento de que o bebê não era capaz de reconhecer seus pais tão logo nascesse, e outras crenças “científicas”, só dificultaram as coisas por muito tempo, gerando danos a muitos. Não se pensava, então, que houvesse diferença entre mamadeira e aleitamento materno. Na verdade, “ao mudar o cenário do nascimento da casa para o hospital violaram-se as necessidades psicológicas tanto dos pais como dos bebês”. Atualmente a Associação Americana considera que o bebê deve ser deixado com a mãe durante os seus primeiros 10 minutos de vida, que é o tempo que os médicos hoje acham suficiente para que se crie o vínculo após o nascimento. (CHAMBERLAIN, 2007) A pele representa 12% do peso total do corpo e é de longe o maior sistema de órgãos que expomos ao mundo. (MONTAGU, 1986, p. 56) A necessidade de contato da mãe com o filho excede a necessidade inversa de contato. Os Harlows já haviam notado tal fato em macacos rhesus. Trata-se de assegurar a sobrevivência da espécie. Na mãe humana esta necessidade prolonga-se mais do que nos outros mamíferos, pois está implicado uma maior complexidade de necessidades. (MONTAGU, 1986, SOLTER, 2001) O bebê humano nasce com uma imaturidade que não tem semelhança a nenhuma outra espécie animal, pois ele só consegue engatinhar aos oito meses, leva dez meses e 12 meses ou mais para andar e 14 meses para conseguir começar a falar. Leva anos até que não dependa mais de outros para sobreviver. Ao nascer, tem imaturidade bioquímica e fisiológica. Em outras espécies de lento desenvolvimento, as mães permanecem próximas aos filhotes até que estejam aptos. O fato é que o bebê humano nasce prematuro, por total impossibilidade de permanecer no útero mais tempo, devido

1180 a razões anatômicas. O bebê humano tem uma gestação intra-útero e uma externogestação. (MONTAGU, 1986) A maior parte do crescimento cerebral se dá no primeiro ano de vida. A biologia evolutiva mostra que os mamíferos nascem com 80% de seus cérebros prontos, contra 25% do cérebro humano, que alcança os 80% no seu primeiro ano de vida, aos 21 meses de sua concepção. (BERGAMAN apud GARCIA, 2006) Em vista dos sentidos que o neonato traz como sensibilidade cenestésica e capacidade de resposta emocional a estímulos, memória, a importância do toque, com tal banco de dados, faz diferença na percepção tátil direta e proprioceptiva e contribui para que a personalidade do bebê possa se desenvolver bem. (GARLAND, 1992) No caso do bebê humano, uma condição de básica maturidade é chegada quando a criança tem noção de sua própria existência, podendo dizer sobre si “eu”. Por outro lado, para muitos veterinários, o tempo de entender um ser como sendo filhote, é o tempo em que ele é capaz de sobreviver sem os pais. Jamais se teve notícia de uma criança até três anos de idade que sobreviveu sozinha por dias após um cataclismo onde perdeu os pais. Quando, entre dois e três anos, a criança começa a falar, é possível que, durante este estado de relaxamento, possa fazer perguntas sobre as coisas que se passavam no útero e mesmo sobre seu nascimento. Podem descrever detalhes como as pessoas de máscara na sala de cirurgia, luz, etc. Logo que a criança começa a falar, muitas vezes a primeira coisa que pergunta, são dados referentes ao seu nascimento

(CHAMBERLAIN, 1990) Os recém-natos respondem aos membros da família de modo distinto, e isto pode ser sintetizado na observação de um provérbio Maia: “No bebê está o futuro do mundo. A mãe deve segurá-lo apertado; assim ele saberá que o mundo é seu. O pai deve levá-lo

1181 à montanha mais alta; assim ele poderá ver com o que seu mundo se parece” (KLAUS e KLAUS, 1989, p. 120)
A primeira forma de consciência acessível à nossa observação e ao nosso conhecimento parece consistir, simplesmente, em perceber a conexão entre dois ou mais conteúdos psíquicos. Neste nível, por conseguinte, a consciência ainda está inteiramente ligada à percepção de algumas conexões e, por isto, é puramente esporádica e seu conteúdo não é mais lembrado posteriormente. É fato comprovado que não existe memória contínua dos primeiros anos de vida. Quando muito, o que existe são “ilhas de consciência”, que são como luzes isoladas ou objetos iluminados dentro da noite imensa. Mas estas ilhas de memórias não são aquelas conexões mais antigas que foram apenas percebidas; elas contêm uma nova série muito importante de conteúdos, isto é, aqueles conteúdos que pertencem ao próprio sujeito percipiente, o chamado ego. Inicialmente esta série é apenas percebida, como as séries originais de conteúdos, e é por esta razão que a criança, quando começa a falar de si própria, logicamente o faz na terceira pessoa. Só mais tarde, quando a série de conteúdos do eu ou o chamado complexo do eu, adquire energia própria – provavelmente como resultado de exercícios – é que surge o sentimento da subjetividade ou da egocidade. Este é, provavelmente, o momento em que a criança começa a falar de si na primeira pessoa. Provavelmente é nesse estágio que tem início a “continuidade da memória”. Essencialmente ela seria, portanto, uma continuidade das reminiscências do eu”. (JUNG, 1984, p. 408)

Para avaliar o efeito do toque e da interação da mãe com o recém-nascido de baixo peso, e que conseqüências isso tem para seu desenvolvimento, numa amostra de 114 bebês socioculturalmente diferentes, foram feitas gravações em video-tape, e analisadas as interações mãe-bebê. A adaptação social e emocional foi avaliada dois anos depois. O que se viu é que as crianças cujas mães se relacionaram com seus filhos, promovendo-lhes mais toque, tiveram um melhor desenvolvimento emocional e social. (WEISS et a. 2001) Por muitos anos, se pensava que o bebê prematuro não deveria ser acariciado, pois não sobreviveria, hoje sabe-se que o amor é que os faz sobreviver. Os prematuros experimentam sentimentos intensos num CTI neonatal, que pode ir desde a incredulidade até o choque, tristeza, raiva e depressão. Até prematuros de 25 semanas de gestação diferenciam perfeitamente suas mães das demais pessoas e, só de vê-las, a saturação de oxigênio no sangue melhora. Um prematuro sob estresse apresenta

mudanças de temperatura, braços e pernas rígidos, dedos estirados e costas arqueadas.

1182 Pode ter dificuldade de despertar, ou dormir abruptamente e ficar irritado ao acordar. Se está relaxado, desperta lentamente. O cuidado do prematuro, segundo Edgar Rey e Héctor Martinez no final dos anos 70, consiste em: “calor, amor e leite materno”. Nas unidades de neonatos, o recurso da proximidade no cuidado do método canguru permite uma grande melhora do vínculo e da saúde do bebê. (OLZA, 2007) Uma conclusão principal da última década de pesquisa da neurociência é que o cérebro infantil “é projetado para ser moldado pelo ambiente que encontra”, segundo Thomas et. al em 1997. Agora considera-se que o cérebro é um órgão bio-ambiental ou um órgão biossocial, segundo Gibson em 1996. Investigadores estão explorando os domínios sem limites do que está sendo chamado de o “cérebro social” por Brothres em 1990 e o papel central das emoções na comunicação social, segundo Adolphus em 2000. Aplicando este princípio de desenvolvimento socio-emocional, as conexões entre o conceito neurobiológico de “ambiente enriquecido” e o conceito psicológico de “ótimo desenvolvimento” podem ser unidos agora dentro da psiconeurobiologia e construir o conceito de “crescimento-facilitado” (ao invés de “crescimento-inibido”) pelo ambiente interpessoal, como enfatizaram Greenspan em 1981 e Schore em 1994, que a maturação cerebral é dependente da experiência. (SCHORE, 2001b) Um interesse primário no campo de saúde mental infantil está nas condições do início da vida, as quais colocam as crianças em risco de desenvolver menos que o seu desenvolvimento possível. O problema fundamental do desenvolvimento normal ou anormal é agora um foco da psicologia, psiquiatria infantil e neurociência. Um trabalho seqüente com dados interdisciplinares faz ligações teóricas mais profundas entre fracassos de vínculos, prejuízos do desenvolvimento do cérebro e má adaptação de saúde mental infantil. O conceito de John Bowlby de 1969 sobre o vínculo como sendo um processo que se desenvolve por interação única dada pela condição genética e

1183 interação com o meio. Bowlby entende que a complexidade do desenvolvimento normal só pode ser alcançada com a integração da psicologia, psicanálise, biologia e neurociência. A última década do século foi chamada de “a década do cérebro” em face às inúmeras descobertas vindas de diferentes áreas que trouxeram compreensão para muitos aspectos do desenvolvimento cerebral. Chegou-se a mapear as diferenças de relações entre experiências precoces de vínculo e mudanças bioquímicas cerebrais, que afetam sua organização. Além do mais, descobriram-se os “reguladores” fisiológicos associados à interação criança e cuidador. (SCHORE, 2001a) Bowlby em seu trabalho clássico, em 1969, sobre ciência do desenvolvimento, o autor chamou atenção para explorações mais profundas de como um organismo imaturo é moldado criticamente por sua relação primordial com um membro maduro de sua espécie, isto quer dizer, que se trata de estudos mais extensos de como formas de vínculo entre mãe e criança afetam o desenvolvimento cerebral deste. (SCHORE, 2001a). Nesta concepção o processo de desenvolvimento é o produto entre interação de um dom genético particular e atividade de adaptação ao ambiente e, especialmente, da interação do bebê com a figura principal nesse ambiente, que é a mãe, como assinalou Bowlby em 1969. Assim, a criança emerge da reunião social, e não se podem entender capacidades psicológicas e biológicas à parte de sua relação com a mãe. (SCHORE, 2001b) Mais especificamente, Bowlby em 1969 investigou o vínculo e os mecanismos pelos quais a criança forma um laço seguro de comunicação emocional com a mãe, e como este laço sócio-emocional, faz com que aprenda cedo e interiorize este laço em uma capacidade duradoura de regular e prover estados de segurança emocional. Ele observou que a relação de vínculo mãe-criança é “acompanhado pelos mais fortes sentimentos e emoções, felizes ou infelizes.” Esta interação acontece dentro de um

1184 contexto de expressão facial, postura, tom de voz, mudanças fisiológicas, tempo de movimento e ação. Interações de vínculo permitem o aparecimento de um controle biológico de função adaptativa. A capacidade da criança para conter a tensão é

relaciona com certos comportamentos maternos. (SCHORE, 2001b) Fez-se em Baltimore um estudo sobre interação face a face com bebês e suas mães e entre bebês e com estranhos. Foram 732 episódios em vídeo - tape em sessões de 6 a 15 semanas; os vínculos eram qualificados em seguros ou ansiosos. As mães que aos 12 meses mostravam uma interação face a face mais harmoniosa com a criança eram as que despendiam mais tempo olhando e brincando com elas. Crianças que interagiam bem com suas mães tendiam a ser responsivas com estranhos. (BLEHAR et al. 1977) No Minnesota Birth Annoncements Study (Estudo dos Declarados Nascidos em Minnesota) havia um grupo original de 60 participantes, sendo que 50 tomaram parte na entrevista sobre vínculo na idade de 20 a 21 anos. As transcrições foram examinadas, assim como as categorizações de vínculo dos últimos 20 anos. Entrevistaram-se 64% dos participantes: os de vínculo seguro e inseguro tinham classificações diferentes como adultos. Os que tiveram alto nível de estresse e eram seguros na infância, tornaram-se inseguros na vida adulta. Situações estressantes na vida não eram relatadas pelos que tinham classificação de inseguros na infância. (WALTERS et al. 2000). Allan Schore em 2000 afirmou que a teoria de Bowlby é, em essência, a teoria da regulação: mais especificamente, as transações de vínculo que a mãe segura e intuitiva troca continuamente com o bebê regulam os níveis de estimulação e seus estados emocionais. Emoções são as ordens mais altas de expressão de bio-regulação em organismos complexos, como descrito por Damásio em 1998. Vínculo pode ser

definido como uma díade regulatória de emoção, segundo Sroufe em 1996. Como resultado de ser exposta, primariamente às capacidades reguladoras do cuidador a

1185 criança amplia sua adaptatividade, que lhe servirá de base para mudanças em momentos estressantes no ambiente externo, especialmente o ambiente social e, além disso, lhe permite começar a formar respostas coerentes para enfrentar os fatores estressores. (SCHORE, 2001b) A maturação dos sistemas cerebrais que medeiam esta capacidade ocorre na primeira infância. O desenvolvimento da habilidade para adaptação e para enfrentar tensões é diretamente e significativamente influenciado pela interação precoce da criança com o seu cuidador primário, segundo Schore, em 1994, 1997, 2000. Em defesa das especulações de Bowlby na associação entre vínculo como mecanismo de confronto ou competição, recentes estudos interdisciplinares indicam que “até mesmo diferenças sutis em comportamento materno podem afetar o vínculo infantil, seu desenvolvimento, e seu bem-estar físico”, como observado por Champoux, Byrne, DeLizio, Suomi em 1992. Variações no cuidado materno podem servir como base para uma transmissão não genética de comportamento e de diferenças individuais dentro da ênfase na reatividade intergeracional, segundo Francis, Diorio, Liu, Meaney em 1999. (SCHORE, 2001b) Sinalização facial recíproca harmoniza-se num ritmo mútuo, com ressonância na díade, de modo que, num contexto psicobiológico, um canal de comunicação se abre para a comunicação social, e esta matriz interativa promove a expressão externa de estados afetivos internos nas crianças, segundo Scander em 1997. Ele que afirma que o pai expressa um comportamento que catalisa uma troca, dentro do estado da criança. Tronick et al. em 1998 achavam que o estado de complexidade da criança é expansível conforme a contribuição de um cuidador, que é a fonte externa. Para entrar nesta comunicação, a mãe precisa estar afinada com a psicobiologia do comportamento evidente da criança, mas também, e principalmente, com os estados de espírito dela própria mãe. (SCHORE, 2001b)

1186 Em várias contribuições, as evidências indicam que as comunicações emocionais de transações de vínculo fazem evoluir a maturação dependente de experimentação do bebê, no seu desenvolvimento cerebral. Trevarthen em 1993, também observou que o crescimento do cérebro do bebê requer literalmente interação de cérebro a cérebro, e acontece no contexto de uma relação afetiva positiva. Mas à luz dos novos fatos de que o amadurecimento do hemisfério direito ocorre em impulsos de crescimento no primeiro ano e meio de vida, e de que isto é dominante para os primeiros três anos de vida, segundo Chiron et al., em 1997. Experimentos de Ryan, Kuhl e Deci usando eletroencefalografia, confirmaram isto em 1997. A comunicação de cérebro para cérebro com interações de comunicação facial, de face a face, numa proto-comunicação é mediada por orientação olho para olho, gestos de mãos, movimentos dos braços e cabeça; todas essas ações são coordenadas para expressar um conhecimento interpessoal de comunicação emocional. Esta conexão se dá de um hemisfério materno de um lado, para o do bebê do lado oposto, como se fosse um recebimento de informações de múltiplos matizes, mas que passam, e só passam, pelo espaço de tonalidade emocional. Ou seja, através da relação olho no olho, o hemisfério direito da mãe plasma o hemisfério direito do filho. (SCHORE, 2001b) Winnicott em 1971 descrevia a expressão da criança como um “gesto espontâneo”, uma expressão somato-psíquica no germinar “do seu verdadeiro ego,” e a mãe afinada “devolvendo ao bebê o próprio ego do bebê.” Winnicott afirmava que como resultado de suas transações com a mãe, a criança, por identificação, cria interiormente um “objeto subjetivo.” Recentes pesquisas indicam que o hemisfério direito é especializado para “a descoberta de objetos subjetivos” segundo Atchley em 1998, e para o processo e regulação auto-referenciado, segundo Schore em 1994, Ryan et al. em 1997; Kennan, Wheeler, Gallup, Pascual Leone em 2000. (SCHORE, 2001b)

1187 O contato que a OMS tem enfatizado sobre alojamento conjunto, já mostrou seus benefícios: o Hospital Maharaj Nakhonratchasima, Thailand, que adotou a condição de Hospital Amigo do Bebê, na Tailândia, notou que o abandono de bebês se reduziu muito em um hospital: de 36 casos em 10.000, em 1987 para um caso em 10.000, em 1990. (BURANASIN, 1991) A taxa de abandono infantil foi estudada na Maternidade 11, em um hospital público em St Petersburgo na Rússia, antes e depois da introdução de contato mãecriança logo após o nascimento e com amamentação o mais cedo possível e alojamento conjunto. Este local foi escolhido para este estudo porque suas práticas de cuidado na maternidade mudaram recentemente, onde foram implementadas ações do Fundo das Crianças de Nações Unidas, Iniciativa de Hospital Amigo da Criança. Em maio de 1992, o hospital 11 mudou suas práticas, encorajando a amamentação o mais cedo possível e o contato cedo, bem como alojamento conjunto. Este serviço atende a uma comunidade proletária urbana, sendo que a maioria com mães com tratamento pré-natal. Foram estudados todos os partos neste hospital entre 1987 a 1998, com foco no abandono infantil. A taxa de abandono infantil na Maternidade 11 foi estudada de 1987 a 1998, 6 anos antes e seis anos depois das mudanças implementadas de contato de mãe-criança. A taxa de abandono infantil diminuiu de 50.3 ± 5.8 por 10.000 nascimentos nos primeiros seis anos, para 27.8 ± 8.7 por 10.000 após as medidas da Iniciativa de Hospital Amigo da Criança serem implantadas. (LVOFF et al. 2000) Em um estudo brasileiro numa casuística de 528 crianças, o que se observou foi que crianças que nasceram com peso entre 1.500 gr. e 2.499 gr, tiveram 29 vezes mais chances de apresentar risco nutricional até os 12 meses de idade, em relação àquelas com peso maior que 3.500 gr. ao nascer. (MOTTA et al. 2005)

1188 A Organização Mundial de Saúde orienta que um casal deve esperar pelo menos dois a três anos para ter outro filho, a fim de evitar problemas adversos para a saúde da mãe e do filho. Estudos recentes, implementados pela United States Agency for International Development (USAID), sugerem que o intervalo de três a cinco anos seria ainda mais eficaz ainda na redução de riscos. Estes relatórios foram examinados pela OMS em Genebra, em junho de 2005. Há evidências de que um intervalo menor que cinco anos, aumenta o risco de pré-eclampsia, prematuridade, nascimento de bebê de baixo peso e crianças pequenas para a idade gestacional (WHO, 2005, 2006a,) Muitas vezes pode ocorrer algo como um prematuro pesar 1.000 gramas. Alguns sobrevivem com os recursos das Unidades Neonatais, como a história de Adrien que pesava 795 gramas, um exemplo do sofrimento demorado que estes bebês têm e o quanto será preciso muito para que venham a ter um desenvolvimento emocional para que superem a cólera gerada por tanto tempo em UTI neonatal. (RELIER, 2002) Em um estudo, 91 mães foram entrevistadas, seus bebês nascidos a termo, e mantidos em contínua proximidade. Mães de bebês prematuros foram separadas, e de bebês de baixo peso também foram separados. Com pouco tempo, as mães que foram separadas dos seus bebês mostravam maior preocupação com eles. Ansiedade e depressão da mãe estavam relacionadas com menor vínculo com seus filhos. (FELDMAN et al. 1999) A depressão puerperal é importante de ser atalhada, pois causa dano para a relação e para a criança. A terapia floral, pode ser um valioso recurso para estas situações. Um dos florais que pode ser de grande auxílio é Bálsamo do Repertório de Filhas de Gaia. (MACHADO, 2007) Para determinar se há uma diferença significativa entre as temperaturas dos nascidos com baixo peso acentuado, estudou-se crianças prematuras na incubadora e

1189 nos braços das mães. Foram feitas medidas repetidas, num berçário com 40 berços em um hospital pedagógico universitário. Elaborou-se uma amostra de 20 crianças prematuras que pesam 1,095 a 1,500 gr, e de 30 a 37 semanas de pós-concepção. As crianças foram protegidas dos fatores que interfeririam com manutenção de sua temperatura. Temperaturas axilares foram medidas com um termômetro eletrônico para períodos iguais de tempo em incubadoras e nos braços de mães. Compararam-se as diferenças de temperatura, seus pesos foram monitorados e analisados para evidência de atividade metabólica aumentada. As crianças estavam significativamente mais mornas enquanto nos braços das suas mães, sem evidência de atividade metabólica aumentada, e sem perda de peso. (MELLIEN, 2001, LUTZ e PERLSTEIN, 1971, MOTIL e

BLACKBURN, 1973, NALEPKA, 1976, OLIVER, 1965) Mães que experenciaram contato adicional com seus filhos logo após o nascimento, foram observadas e constatou-se que falam de modo diferente com eles, quando estes estão com dois anos. (RINGLER apud BUCKLEY, 2005) Um estudo longitudinal realizado por Trause, Klaus e Kennell descobriu que o contato mãe-bebê, resulta em vantagens na aquisição de linguagem e QI. Observaram 28 mães das quais, um grupo podia ficar com seus bebês na primeira hora de nascidos e por cinco horas por dia, nos próximos cinco dias; o outro grupo teve curto contato na primeira hora, e contato de meia hora para amamentação só depois de 12 horas. No fim de um mês havia significativas diferenças entre o grupo de maior contato para o de menor contato. E, quando as crianças foram testadas, depois de dois anos e com cinco anos, os que tiveram contato com a mãe mais tempo tinham melhores índices de QI, melhor compreensão da linguagem, e melhor capacidade para se expressar, com melhor vocabulário. (TRAUSE et al. apud MONTAGU, 1986)

1190 Em um estudo 32 crianças foram observadas com suas mães até a idade de seis anos. Nesta idade, verificou-se a EE baseada na amostra de cinco minutos de conversa. Mães completaram questionários, mensurando estresse familiar, estado atual durante o exame, e existência de depressão materna. A Emoção Expressa (EE) pela mãe aumenta significativamente a segurança do vínculo mãe-bebê na idade de seis anos. Análises revelaram que a expressão da mãe não fluente determinou o desenvolvimento de um padrão de vínculo desorganizado aos seis anos de idade. Este padrão foi associado com comportamento materno intruso e hostil. A relação foi confirmada quando se consideraram outras variáveis pertinentes, inclusive desorganização do vínculo infantil e uma tensão familiar percebida, simultaneamente. O estudo provê validação independente de Emoção Expressa como uma medida de qualidade de relação na primeira infância. (JACOBSEN et al. 2000) O impacto da depressão pós-natal na propensão de uma criança torna-se violenta foi avaliado em uma amostra de comunidade britânica urbana (N _ 122 famílias). Entrevistaram-se as mães durante a gravidez, a três meses pós-parto, e quando a criança tinha um, quatro, e 11 anos de idade. Mães, professores e crianças fizeram a reportagem de sintomas violentos aos 11 anos. As equações estruturais revelaram que a violência da criança foi prevista até mesmo pela depressão pós-natal da mãe, quando da depressão durante a gravidez, e na história posterior de depressão, e também levaram-se em conta características familiares. Violência era associada com sintomas de déficit de atenção/hiperatividade, desordem e problemas com administração de raiva. As crianças eram muito violentas se as mães tivessem estado deprimidas aos três meses ou pelo menos uma vez do pós-parto. (HAY et al. 2003) Marjorie J. Seashore e colaboradores pesquisaram o efeito da interdição precoce de contato entre mãe e bebê e sobre a confiança materna, em prematuros. Um grupo de

1191 21 mães foi impedida de interagir fisicamente com seus bebês, nas primeiras duas semanas do pós-parto, e um grupo controle de 22 mães, pôde cuidar de seus bebês no berçário. Resultou que as mães primíparas ficaram muito inseguras perante seus filhos, as multíparas nem tanto, mas mesmo estas também tinham baixa confiança. Um ano depois as que não haviam sido separadas tocavam muito mais seus filhos. E o comportamento de afastamento e pouco toque ainda era mais acentuado se o filho era menino. (SEASHORE apud MONTAGU, 1986) Em 1972, Ringler et al. observaram 28 mulheres primíparas de baixa renda, que tiveram contato com suas crianças cedo e este foi estendido (uma hora de contato extra com suas crianças por 3 horas após o nascimento, e cinco horas de contato extra diariamente durante três dias). Elas tiveram comportamento com vínculo

significativamente mais alto quando comparadas com um grupo semelhante de mulheres que seguiram rotinas de hospital. É interessante notar que esta diferença ainda era evidente no acompanhamento feito um ano depois. Era mais comum despenderem tempo brincando com suas crianças, e quando estas tinham dois anos, havia uma diferença significativa nos padrões de fala das mães para com suas crianças. As mães no grupo de contato extra usavam poucos imperativos e havia uma comunicação idiomática mais sociável entre eles. (RINGLER et al. apud SOSA, 1980) DeChateau e Wibwrg na Suécia, conduziram dois estudos em 1977 sobre o comportamento materno durante a primeira hora depois do parto, num grupo de 62 mães de renda mediana. Delas, 22 mães primíparas receberam suas crianças 15 minutos depois do nascimento. As crianças eram despidas e as mães foram encorajadas a amamentar. Nos dois outros grupos de 20 primíparas e 20 mães multíparas, as crianças foram recebidas 30 minutos depois de nascimento, vestidas e em um berço. Nos três grupos, as crianças ficaram com suas mães e pais no pós-parto e num período que se

1192 estendeu a duas horas. Depois deste período de tempo, todos os grupos receberam cuidados de acordo com rotina de hospital. Durante os primeiros três dias, as mães a quem se permitiu somente contato com suas crianças só para alimentações. Durante a segunda parte da hospitalização, permitiu-se às mães participar no cuidado diário de seus bebês. Foram feitas observações 36 horas depois do parto. As mães primíparas com contato extra se comportaram semelhantemente a mães multíparas. Porém, quando comparadas com mães primíparas sob regime de cuidado de rotina, as mães no grupo de contato extra se comportaram com diferença significativa: elas seguraram mais freqüentemente suas crianças e seus bebês choravam menos. A diferença era mais pronunciada nas mães de crianças masculinas. Visitadas após três meses, a diferença no comportamento materno persistiu. As crianças masculinas no grupo de contato extra sorriam mais e freqüentemente choravam menos. (De CHATEAU e WIBERG apud SOSA, 1980) Na experiência de contato extra de mães de classe média, realizado por Svejda et al. em 1980, a observação de que as mães eram mais afetuosas com as filhas mulheres aparecia também. (SVEJDA et al. apud SOSA, 1980) O'Connor et al. em 1980, nos Estados Unidos, num estudo que incluiu de 301 mães, notou que, aumentando o tempo de contato entre mãe e bebê depois do nascimento, o número de desordens de comportamento de maternidade era menor, comparado com um grupo controle de mães que seguiram rotinas hospitalares. (O’CONNOR et al. apud SOSA, 1980) Os Harlow, na experiência que fizeram com cinco macacas, que nunca tinham tido uma mãe de verdade, imediatamente após o nascimento foram separadas de suas mães e postas em jaulas com instrumentos substitutos. Quando as macacas tiveram seus filhos, não eram simplesmente capazes de comportamento amoroso, sendo que 3 se comportavam de modo muito violento. Segundo Harry Harlow “formam-se múltiplas

1193 respostas aprendidas e generalizações de afeto a partir da íntima ligação da criança com a mãe” (HARLOW apud MONTAGU, 1986, p.52) É interessante o fato de que os grandes símios lambem seus filhotes imediatamente após o nascimento, mas de não continuarem a fazê-lo por muito mais tempo. Tal comportamento é percebido em todos os animais mamíferos. Tal comportamento se repete, demonstrando uma necessidade não ensinada; a separação praticada na espécie humana deixa perturbação no padrão de comportamento. (MONTAGU, 1986) James H. Prescott, neuropsicólogo do desenvolvimento, que trabalhava no Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano, acredita que uma das mais importantes causas da violência humana provém de uma falta de prazer corporal durante o período formativo da vida. Pesquisas em animais mostram que, quando eles estão irados, seus eletrodos estimulam o centro do prazer no cérebro, e o comportamento de raiva é revertido. Prescott entende que é ou um ou outro alternadamente, o comportamento que domina e, se houve estimulação tátil nos primeiros anos de vida, a presença de amor inibe a ira. (PRESCOTT apud MONTAGU, 1986) John D. Benjamim, na Universidade do Colorado, fez uma pesquisa em que acariciava ratos e havia controles não tocados; os primeiros tinham um melhor desenvolvimento intelectivo e cresciam mais rápido. (BENJAMIN apud MONTAGU, 1986) Patton e Gardener publicaram relatos detalhados de crianças que haviam sofrido carências maternas e mostraram, baixo crescimento físico e mental. O crescimento ósseo de uma criança de três anos era no experimento, metade do que o observado numa criança normal. (PATTON e GARDENER apud MONTAGU, 1986)

1194 Martha Welch, psiquiatra infantil, fez relatos de recuperação de crianças autistas ao colocar a mãe, a criança e o pai, em contato físico, que permitisse à mãe olhar da criança. A terapeuta não coloca a criança no colo: a dificuldade inicial da criança acaba dando lugar a melhora. A terapia teve sucesso em outros países onde foi praticada, não só para autismo, mas para outros distúrbios de comportamento, incluindo gagueira. (MONTAGU, 1986) Na Inglaterra, Gerlad O’Gorman convocou meninas retardadas, algumas com traços autistas, institucionalizadas e pediu que enfermeiras as tratassem mais calorosamente. As crianças autistas apresentaram desenvolvimento motor e

coordenação de fala, a partir de então. (O’ GORMAN apud MONTAGU, 1986) Hebert Weiner diz que o envolvimento e a identidade ficam consolidados no envolvimento e identidade que existem entre mãe e filho, o que se dá principalmente pelo tato. A falta de exposição tátil no primeiro ano de vida, resulta em alheamento, não-envolvimento, falta de identidade, distanciamento, superficialidade emocional e indiferença, que são aspectos de personalidade esquizóide. (WEINER apud MONTAGU, 1986) O terapeuta húngaro Istvan Hollos fez uma descrição clínica de agressão sofrida por bebê prematuro, que se dizia prematuro, e na verdade para ele isto tinha uma conotação de ser física e mentalmente inferior. (JANUS, 2001) Marie Louise von Franz, escreveu o livro “O Trauma de Descartes”. Nele ela declara que Descartes nunca confiou nele mesmo, nos outros ou na vida, pois a morte de sua mãe tão cedo tirou dele o otimismo, a confiança na vida, e nos seus próprios sentimentos. Isto o encapsulou exclusivamente na atividade mental. (JANUS, 2001) No século XIX, nos Estados Unidos, havia uma “doença” que atacava os bebês em instituições e eles morriam no primeiro ano de vida: eles definhavam e morriam, a

1195 doença era intitulada marasmos, palavra grega que significa definhar. Até 1920, a mortalidade chegava perto de 100%, até que J. Brennemann, pediatra, criou a regra que, em seu hospital as crianças deveriam ser colocadas no colo, postas nos braços e aconchegadas, e recebessem cuidados como se fosse da mãe, várias vezes ao dia. Então a mortalidade por marasmos no Hospital Bellevue em 1938 caiu para 10%. (MONTAGU, 1986) Um grande corpo de trabalhos apóia a evidência de que o córtex e redes subcorticais são engendrados por uma produção inicialmente abundante, geneticamente programada, de conexões sinápticas a que se segue uma interação com o meio ambiente, que tenta buscar qual a interação mais eficaz para aquele meio, para desenvolvê-la. Esta tarefa já é parte do mecanismo central da ego-organização do cérebro em desenvolvimento, segundo Chechik, Meilijson, Ruppin em 1999, e também Schore em 1994. É importante enfatizar, porém, que a experiência ambiental tanto pode habilitar, como pode constranger o desenvolvimento do cérebro nas suas funções e estrutura. Em outras palavras, eventos interpessoais no início da vida marcam positivamente ou negativamente a estrutura organizacional do cérebro e suas capacidades funcionais adaptáveis. Isto mostra que há uma relação direta com o ambiente sócio-emocional, habilitando uma otimização do desenvolvimento cerebral e da adaptável saúde mental infantil. (SCHORE, 2001b) Davies e Frawley, em 1994, descreveram os efeitos imediatos de trauma infligido pelo pai, no vínculo. O que a criança sente é que sua sobrevivência está continuamente em risco, esta é a realidade do abuso por parte do pai, que é o primeiro objeto que mereceria sua confiança, desafia sua capacidade de confiar, e ainda por outro lado, a segurança da criança depende deste cuidador. (SCHORE, 2001a)

1196 O trauma de relacionamento com o cuidador, além de desregular a criança, altera seu funcionamento normal, se for vivido por um longo período. Altera sua psicobiologia e a deixa à mercê de estratégias imaturas de relação. Ela precisa usar todos os seus recursos para auto-regular sua homeostase, de modo que não lhe resta energia para fazer muito mais coisas, como descreveram Tronick e Weinberg em 1997. (SCHORE, 2001a) Main e Solomon em 1986, e depois em 1999, estudaram os padrões do vínculo da criança que tinha sofrido trauma no primeiro ano de vida. Esta descoberta levou à criação de uma nova categoria de vínculo, “tipo D”, que é inseguro-desorganizado e desorientado padrão. Este padrão de vínculo “tipo D” é encontrado em 80% de crianças maltratadas segundo Carlson et al., 1989. Spangler e Grossman, em 1999, demonstraram que este grupo de crianças exibia ativação de taxa de batimentos cardíacos mais alta além de mais intensa reação de alarme na reação ante uma situação estranha. Elas também mostram níveis de cortisol mais altos que todas as outras classificações de vínculo, e observaram maior fator de eixo HPA com respostas prejudicadas por tensão, segundo Hertsgaard, Gunnar, Erickson, Nachimias em 1995. (SCHORE, 2001a) Main e Solomon concluíram que estas crianças sofrem de baixa tolerância à tensão. Estes autores alegam que a desorganização e desorientação refletem o fato de que as crianças, em vez de achar um porto seguro na relação, estão alarmadas por causa do pai. Eles notaram que, devido ao fato de a criança inevitavelmente buscar o pai quando alarmadas, qualquer comportamento parental que diretamente alarme uma criança deve colocá-la frente a um paradoxo insolúvel: não pode aproximar-se e ter a atenção do pai e nem pode fugir. (SCHORE, 2001a) Além disso, Main e Solomon mostram que o “tipo D” de comportamentos apresenta um estereótipo de achados neurológicos prejudicados. Dever-se-ia enfatizar

1197 que estes comportamentos são manifestações evidentes de um sistema regulador obviamente prejudicado, que rapidamente se desorganiza debaixo de tensão. Tais sintomas foram notadas em crianças entre 12 a 18 meses, um período crítico de maturação de cortico-límbico e isso reflete um prejuízo estrutural severo do sistema de controle de órbito-frontal, que está envolvido em comportamento de vínculo e estado de auto-regulação. As áreas de órbito-frontal, e outras estruturas límbicas, como as áreas temporais anteriores e a amídala, contêm neurônios que expressam emoções na face. A face da mãe é o estímulo visual mais potente no mundo para a criança. Sabe-se que é para a face da mãe que a criança instintivamente dirige o olhar para receber mensagens, que, se forem agressivas terão grande poder traumatizante para a criança. A imagem da face agressiva, gera alterações corporais caóticas na criança. Tal estado fica associado, e indelevelmente impresso nos circuitos subcorticais e límbicos, que assim as armazenam na memória implícito-processual, como descrito por Brown & Kulik em 1977. No hemisfério direito, visuo-espacial, estão armazenadas tais recordações segundo Lieberman em 1997. (SCHORE, 2001a) As chamadas “atribuições maternas negativas” contêm um custo afetivo intensamente negativo e rapidamente desregulam a criança. No curso da interação traumática, a criança é apresentada à expressão facial opressiva ou uma expressão materna de medo-terror. Main e Solomon notaram que quando a mãe retira da criança o repouso e o transforma em fonte de alarme, ela se dissocia, e passa a ter um comportamento medroso que é observado dentro do vínculo dos pais de crianças tipo “D”. O comportamento materno amedronta e desorganiza a criança, isto foi descrito também por Schuengel, Bakersmans-Kranenburg, Van Ijzendoorn em 1999. (SCHORE, 2001a)

1198 Alan Shore sugere que, durante estes episódios, a criança esteja espelhando as estruturas desreguladas da mãe, e que esta sincronização é registrada nos padrões dispares nas regiões córtico-límbica, sensíveis à tensão no cérebro em fase de crítico crescimento da criança Este é o contexto de programas de psicopatológicos. (SCHORE, 2001a) Mães de crianças com vínculo desorganizado se descrevem como incapazes de se preocupar com, ou proteger suas crianças, infligindo-lhes castigos severos, sentindo-se deprimidas, fora de controle. Em geral, têm alto risco de serem abusivas, comparadas às mães sem estas queixas. Elas também têm diferentes tipos de percepções, atribuições, avaliações e expectativas sobre o comportamento de suas crianças, usam menos comportamentos de maternidade positivos, se ocupam menos com as interações, se comunicam menos com as suas crianças e usam técnicas disciplinares mais adversas, como descrito por Nayak e Milner em 1998. Frequentemente, tendem à reversão de papel, segundo Mayseless em 1998, e a um sentimento subjetivo de desamparo, segundo George e Solomon, em 1996. As mães de crianças desorganizadas geralmente sofreram trauma não resolvido, segundo Famularo, Kinscherff, Fenton, em 1992, este espaço-temporal imprime alterações caóticas no estado de desregulação materno. Podendo ser um mecanismo central para a “transmissão intergeneracional de abuso de criança” segundo Kaufman e Zigler descreveram em 1989. Na verdade, a maturação do cérebro da criança está relacionada com a qualidade de interação com seu cuidador nos dois primeiros anos de vida. (SCHORE, 2001a) Pesquisas atuais em neurobiologia do vínculo revelam que as experiências precoces de crianças femininas com suas mães (ou ausência destas experiências) influenciam como elas responderão às suas próprias crianças quando elas se tornarem mães, e isto provê um mecanismo psicobiológico para a transmissão intergeneracional

1199 de adaptação, estilos e responsabilidade de maternidade mal adaptada segundo Fleming, O'Day, Kraemer em 1999. Este princípio psicobiológico tem evoluído nas muito recentes descrições clínicas de Silverman e Lieberman que concluíram que a condição de cuidadores, tem uma base instintual, expressa através de um filtro padrão, que está ligada ao senso desenvolvido ao ser cuidado ou protegido pelos seus próprios pais. Ponto de vista com que concordam outros autores como Bruce Perry em 1995 e Maestripieri em 1999. Este último notou que em humanos, há uma maior sensibilidade na regulação neurobiológica, nas respostas parentais, e o abuso na criança humana tende a ser mais danoso para seu desenvolvimento ulterior como pais. A mãe que expressa um mínimo de cuidado materno sofreu um máximo de negligência e, agravando a situação, mostra uma grande vulnerabilidade a estresse. Desordem emocional é comum entre pais que sofreram abuso. (MAESTRIPIERI apud SCHORE, 2001a) A mãe que tem um histórico de abuso pode entrar em pânico no final de sua gravidez, e vir a entrar em depressão no pós-parto, e esta condição vai preparar o início da situação de ela negligenciar seu filho, que irá chorar e desesperá-la, fazendo-a viver uma condição inscrita em sua neurobiologia, dissociativa e afetando-a a ponto de ela mesma vir a abusar do seu filho, segundo Frodi e Cordeiro em 1980. Episódios de choro persistente segundo Papousek e von Hofackerem em 1998, podem ser um potente impulsionador de dissociação. E a entrada do cuidador em um estado dissociativo representa a manifestação em tempo real de negligência. A mãe dissociada, emocionalmente indisponível, desorganiza a criança que, evocativamente, lembra-lhe sua própria dissociação precoce, segundo Fraiberg. (SCHORE, 2001a) Harry Chugani vem estudando mapeamento cerebral e suas relações com as bases emocionais do desenvolvimento. Fez um estudo em oito crianças adotadas por famílias americanas, provindas da Romênia. As tomografias cerebrais destas crianças mostravam

1200 um metabolismo anormal na área dos lóbulos temporais do cérebro, área que se acredita estar ligada à sociabilidade, se comparadas com tomografias de crianças que viviam com sua própria família. Isto mostra as conseqüências do abandono materno, numa fase crucial. (CHUGANI, 2007, CHUGANI apud VERNY e WENTRAUB, 2004) Após uma conexão por nove meses, onde houve interação de emoções, em que a criança esteve por baixo da pele e do sangue da mãe, de seus pensamentos e emoções, representa uma perda de importância capital. E a psicologia pré e perinatal veio dar uma luz na compreensão dos indivíduos adotados, suas dores e dificuldades de construção de identidade, sua busca por verdade, e suas cóleras e depressões. Madaule e seus colegas, no Centro de Ajuda para Crianças Adotadas, cujo objetivo é auxiliar os pais a compreenderem seus filhos adotivos, perceberam que estas crianças têm em comum sensação de vazio, dificuldades de adaptação social, dificuldades de se relacionar com sua mãe adotiva, problemas com figuras de autoridade, falta de intimidade física ou emocional, e também evidenciam seu desagrado diante das demonstrações físicas de afeto. Muitas vezes provocam o desagrado na mãe afetiva, buscando criar uma situação para novamente se sentirem rejeitadas. Assim a ferida se repete numa perpetuação de dor. (MADAULE apud VERNY e WENTRAUB, 2004) Verrier, um investigador do assunto, tem estudado os reflexos da sensação de perda e rejeição que os adotados relatam, mesmo na vida adulta, além dos medos e situações conflitivas que existem com os pais adotivos que isso tende a se estender a outras relações pela vida. Este autor constatou que, sistematicamente, eles falam de uma perda da sua sensação do eu. Muitos acham que ocultam um eu real, e projetam um falso eu, pois o tempo todo estão temerosos de receber rejeição das pessoas. (VERRIER apud VERNY e WENTRAUB, 2004)

1201 Revelado ou não, para o adotado que ele é adotado, por tudo que hoje se sabe de psicologia pré-natal, ele já sabe que é adotado e entende que há um segredo em torno do seu nascimento. Freqüentemente não se sente encaixado no ambiente que o rodeia. Ele carrega um sistema de crença, de que, se a própria mãe o deixou, o que não faria qualquer outra pessoa? (VERNY e WENTRAUB, 2004) Ser mandado embora, é uma questão que permeia a vida do adotado, e lidar com isto é um desafio, que pode demorar muitos anos, tocando suas mentes e corações. (AXNESS, 2007) Em sua tese de doutorado Marcy Axness fala sobre a questão do vínculo partido e as conseqüências de dor e de desordens afetivas que se desenvolvem na vida do adotivo. Ela enfoca também a falta de confiança e a depressão que marcam a trajetória de suas vidas. (AXNESS, 2004) Analisando registros da Asseguradoria Nacional de Saúde na Suécia, relativos a 2.323 adotados, foi observada uma maior incidência de enfermidades psicológicas, consumo de álcool e drogas, assim como transtornos de personalidade, em comparação com grupo controle, de não adotadas. No Texas, em estudo que comparou 42 crianças adotadas com 2.991 crianças não adotadas, as primeiras apresentavam mais problemas de conduta e delinqüência e os meninos experimentavam mais desajustes que as meninas. Os adolescentes adotados, também apresentavam uma maior tendência a problemas emocionais, mas uma grande parte transforma-se em adultos equilibrados. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Na Universidade de Otawa, num acompanhamento durante cinco anos, de crianças adotadas e não adotadas, que haviam sido encaminhadas para tratamento psiquiátrico, os adotados tinham maior proporção de problemas sérios: transtorno de conduta, agressão social, transtorno de déficit de atenção, ansiedade, psicose, hiperatividade e

1202 depressão. Mas após tratamento, tanto adotados, quanto não adotados, haviam melhorado. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Dos bebês encaminhados para adoção, as mães foram agrupadas em dois tipos: as que entregaram para adoção, pois se viram despreparadas para a gravidez, e aquelas que decidiram ou porque foram forçadas por seus pais a agirem deste modo. Uma vez decidido o caso, desconectaram-se de seus filhos. No futuro eles não têm vontade de conhecê-las. Já há um segundo tipo: que são as mães que, mais estáveis, amam seus futuros filhos, e são capazes de quase tudo para lhes assegurar um futuro melhor, e optam pela adoção privada combinada, sempre que possível, e com os anos, quando a situação se estabiliza, contatam seus filhos, que, por seu turno terão vontade de conhecê-las. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Marcy Wineman Axness, uma especialista em assunto de adoção e psicologia pré e perinatal ministra curso de pós-graduação sobre esta nova vertente da psicologia, interligada a outros saberes, na Universidade de Santa Bárbara, na Califórnia. Ela chama a atenção para as conseqüências emocionais sobre a criança, conforme o período da gestação que a mãe decide que vai entregá-la à adoção. Em que condições foi gestada. Por exemplo, importa saber se foi concebida com amor, se foi uma relação que terminou, no meio da gravidez, e gerou a condição de adoção: neste caso houve, uma base inicial mais sólida. Também faz diferença quando a mãe perde as condições de amparo e não se vê tendo um bebê sozinha, como esta mãe vive seu luto do parceiro? E como foi seu luto em relação à própria criança? Tudo isto terá importantes conseqüências sobre a vida emocional, da futura criança e adulto. (AXNESS, 2007b) A terapeuta Wendy McCord, psicoterapeuta especializada em trauma precoce, recomenda que os pais adotivos que reconheçam com palavras, explicitamente, a

1203 mudança que ocorreu para a criança que agora está sob a tutela de pais adotivos. (VERNY e WENTRAUB, 2004) 4 - Uma nova Visão de Neurofisiologia e da Neuroquímica do Desenvolvimento Cerebral Infantil Os estudos na Universidade de McGill, no Canadá, abriram caminho para James W. Prescott empreender sua busca pelo entendimento das origens do amor humano e também da violência humana. Nos anos 50, grupos de pesquisa desta instituição de ensino documentaram os primeiros estudos que tratavam do isolamento da união social, resultando em filhotes de cachorro que, ao se tornarem adultos, demonstravam comportamento emocional-social aberrante, além de que, possuíam cérebro de desenvolvimento e funcionamento anormais. Estes estudos relacionados com privação sensorial e isolamento social em primatas, foram feitos pelos psicólogos Austin Riesen, no Centro Yerkes de Primata, em Atlanta, Geórgia, e por Harlows, na Universidade de Wisconsin. Estes profissionais forneceram uma base teórica e experimental sobre isolamento e desenvolvimento cerebral, especialmente quanto ao isolamento da mãe e desenvolvimento do filhote. Prescott trabalhou com macacos nesta área de pesquisa, no Instituto Nacional de Saúde da Criança e Desenvolvimento Humano (NICHD), nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Outros trabalhos foram realizados por Meizack e Thompson, em 1956; por Thompson e Scott, em 1956; por Meizack e Scott, em 1957; por Hebb, em 1958; por Harlow, em 1958; por Riesen, em 1961 e 1966; por Meizack e Burns, em 1965; por Mitchell, em 1968; por Mason, em 1968; por Sackett, em 1970; e por Mason e Berkson, em 1975. (PRESCOTT, 2007) Outros trabalhos científicos significantes que influenciaram os programas teóricos e experimentais do NICHD, nos efeitos de “privação social materna” foram os de Cannon, em 1939; Cannon e Rosenbleuth, em 1949; Dow e Moruzzi, em 1958; Essman, em 1971; Health, em 1968; Hebb, em 1958; Hunt, em 1961; o Grupo de Berkeley:

1204 Krech, Rosenzweig e Bennett, em 1960, e Rosenzweig, Krech, Bennett e Diamond, em 1968; Levine, em 1974; MacLean, em 1962 e 1973; Mark e Ervin, em 1970; Money, Wolff e Annecillo, em 1972; Selye, em 1956; Sharpless, em 1969; Wiesel e Hubel, em 1963; Ainsworth, em 1967; Appley e Trumbull, em 1967; Barry, Bacon e Child, em 1967; Bowlby, em 1952, 1969 e 1973; Cairns, em 1966; Casler, em 1961; Spitz, em 1965; Textor, em 1967; Whiting e Child, em 1953; Yarrow, em 1961; Zubek, em 1969; e, de uma perspectiva teórica diferente, Francoeur, em 1965,1982 e 1992; e Francoeur e Rami, em 1979. (PRESCOTT, 2007) Em 1966, Prescott criou o NICHD para estabelecer programas de pesquisas básicas relacionadas ao desenvolvimento do cérebro e ao comportamento. Durante sua posse no NICHD (1966-1980), ele formulou a teoria, que relacionava comportamento de regulação emocional-social a desenvolvimento cerebral, para explicar a depressão patológica e a violência como resultados de privação materno-social ou de isolamento social, em filhotes de animais. Esta teoria envolveu o complexo do lóbulo cerebelarlímbico-frontal e ele arbitrou que o cerebelo teria o papel principal na regulação do sistema sensório-límbico (emocional) e também na atividade cerebral que integra (ou não) a atividade dos processos do córtex frontal-temporal. Prescott estabeleceu vários programas de pesquisas básicas para avaliar esta teoria e, como outros cientistas, documentam que o fracasso do “amor de mãe” resulta em deficiência orgânica do cérebro em desenvolvimento e tal dano é o que está por baixo da depressão, de movimentos estereotipados desordenados, como o comportamento de balanço e de automutilação; do comportamento de reatividade hiperativa para excitação sensória, particularmente, ao toque paradoxalmente, percepção de dor prejudicada; de alienação social, raiva e violências patológicas contra outros animais. (PRESCOTT, 2007)

1205 Tanto Harry Harlow, em 1964, quanto Rene Spitz, em 1965, negaram que a privação materno-social envolvia privação sensorial. Antes de Prescott ninguém havia associado comportamentos emocional-sociais anormais, observados no isolamento de laboratório, ou privação materno-social com desenvolvimento e função cerebral anormais. (PRESCOTT, 2007) A síndrome de privação materno-social, que Prescott redefiniu como Seasonal Affective Disorder (SAD) - Somato- Sensorial-Aficional de Privação que envolveu o sistema cerebelar-límbico-frontal e o lóbulo cerebral, abriu caminho para Mason, em 1968, e para Mason e Berkson, em 1975, que demonstraram que o isolamento produz filhotes de macacos com uma “mãe oscilante, gerando o desenvolvimento da síndrome SAD”. As implicações e efeitos dramáticos do trabalho de Mason e Berkson, substituto de “mãe oscilante”, podem ser vistos no documentário da Time Life Rock a Bye Baby, realizado por Dokecki, em 1973. (PRESCOTT, 2007) É importante enfatizar que, na síndrome SAD, os sistemas sensório-emocionais organizam-se de modo diferente no corpo, as fundações neuropsicológicas são determinadas por estados psicológicos alterados. Especificamente, o sistema vestibularcerebelar sensorial provê as fundações da neuropsicologia primária para “confiança básica”; o toque provê o suporte neuropsicológico primário para “afeto”; e o olfato é o sistema sensório que provê a base neuropsicológica primária para “intimidade”. No desenvolvimento normal, estes sistemas emocional-sensórios são combinados em ricos padrões que resultam no desenvolvimento de um cérebro “neurointegrativo”, no qual “confiança básica”, “afeto” e “intimidade” são integrados um ao outro formando um comportamento e uma gestalt do cérebro emocional, que pode ser chamado “amor”. Portanto, antes que a criança possa entender a palavra falada ou escrita, mediada pelos sensos cognitivos audíveis e visuais, o amor já está presente. (PRESCOTT, 2007)

1206 É claro que todos os três sistemas sensório-emocionais são envolvidos dentro da experiência de “prazer” e “união”. É pelos sentidos emocionais que a criança sabe quando está sendo amada ou quando está sendo rejeitada e isto é particularmente verdade para os surdos de nascença, como observou Fraiberg e Friedman, em 1964; Bowyer e Gillies, em 1972; Dokecki, em 1973; e Prescott, em 1976. O olfato é uma sensibilidade importante na maturação do cérebro emocional-sexual primitivo. É um sistema sensório negligenciado quando a criança deixa de estar exposta ao cheiro da mãe durante a amamentação, trazendo conseqüências adversas, a longo prazo, na capacidade de união homem-mulher, assim como de viver em intimidade e união, segundo Kohl e Francoeur, em 1995. (PRESCOTT, 2007) A ausência de qualquer um destes três sentidos emocionais no desenvolvimento da criança, - como por exemplo, pelo fracasso para amamentar, - não somente remove a base neuropsicológica primária para “intimidade” (no caso do cheiro, o olfato primitivo no cérebro sexual), mas também impede a formação da gestalt do cérebro que só pode ser formada quando todos os elementos sensórios estão presentes. Através da analogia com a imagem de um triângulo, este não pode se formar só com duas linhas. Tal figura não só precisa de três linhas, como também de uma combinação de relações específicas entre elas para formar a gestalt perceptual do “triângulo”. Precott usa esta analogia para descrever que o cérebro sensorial, de modo semelhante no seu desenvolvimento, precisa de “confiança básica”, “afeto” e “intimidade", os quais têm conseqüências, a longo prazo, na capacidade de estabelecer relações de amor. Segundo Prescott, o amor é uma “Gestalt Cerebral” na qual, realmente, o todo é maior que a soma de suas partes. (PRESCOTT, 2007) O fracasso na integração do prazer, nos centros do córtex cerebral frontal, a “consciência”, é o principal fator neuropsicológico condicionador para a expressão de

1207 violência, particularmente a violência sexual. O prazer é uma experiência que é reflexo genital espinhal, processada em nível límbico e não gera danos lesivos na agressividade, pois são os níveis mais baixos do cérebro que processam o prazer sexual, onde o sadomasoquismo floresce, segundo Prescott em, 1977 e 1990. (PRESCOTT, 2007) Os substratos neurobiológico e neuropsicológico afetados são o resultado de privação sensória precoce que geram um “cérebro dissociativo” o qual produz comportamentos dissociativos: depressão, alienação, raiva, violências e dependências químicas. (PRESCOTT, 2007) Nos últimos 10 anos, o conhecimento sobre o desenvolvimento cerebral se expandiu vastamente e isto pode dar maior sustentação na compreensão do desenvolvimento infantil. Hoje, os estudos sobre vínculos se imbricam com neurociência, as questões sobre o desenvolvimento do cérebro direito, as descobertas da psicopatologia do estresse, os mecanismos psiconeurobiológicos e o desenvolvimento da saúde mental da criança. Um dos expoentes deste conhecimento é Allan N. Schore, que mostrou como a maturação da área órbito-frontal do córtex, executora do hemisfério direito, é influenciada pela relação de vínculo mãe-filho, visto por SCHORE, em 1997. Este cientista tem demonstrado que, nos dois primeiros anos de vida, a maturação do cérebro é controlada através da interação com o cuidador. O cérebro do bebê se sintoniza literalmente com seu cuidador para produzir neurotransmissores adequados na seqüência correta, de modo permanente e potente. A região do cérebro que se mostra mais receptiva, com o modelo, determina a arquitetura cerebral de modo definitivo e eficaz. A mais receptiva à sintonização é o hemisfério direito do córtex cerebral, especialmente a região órbito-frontal. O processamento do hemisfério direito é não-linear, holístico, visual-espacial, especializado em informação autobiográfica, envia sinais não verbais, intenso em emoções, tem conhecimento e regulação do corpo, assim

1208 como o mapa do corpo e entendimento social. Com o desenvolvimento posterior, o hemisfério esquerdo amadurece até o final do segundo ano de vida, e seu processamento é linear, lógico, lingüístico, especializado em causa e efeito, análise lingüística e definições, certo versus errado. Uma ligação de vínculo mãe-filho desenvolve e ajuda a organizar as funções cerebrais. (SCHORE, 2001a, 2001b) A amídala, que, vem do grego e significa amêndoa, é um feixe com esta forma, de estruturas interligadas. Este órgão se situa acima do tronco cerebral, próximo à parte inferior do anel límbico. Há duas amídalas, uma de cada cérebro, é um órgão relativamente grande nos humanos, se comparados aos primatas. (GOLEMAN, 1995) O hipocampo e a amídala eram duas partes chave do primitivo “nariz cerebral”, o que na evolução, deu origem ao córtex e depois ao neocórtex. Estas estruturas límbicas são responsáveis por grande parte do aprendizado e da memória do cérebro. A amídala é depositária da memória emocional, e portanto, do próprio significado emocional. Se ela for cortada, a conseqüência é a chamada “cegueira afetiva”, uma condição na qual o paciente é incapaz de avaliar o significado emocional dos fatos. (GOLEMAN, 1995) Os animais que têm a amídala cortada não sentem medo nem raiva, perdem o sentido de competir ou cooperar e perdem também o senso do lugar que ocupam na ordem social de sua espécie. As lágrimas são provocadas pela amídala e uma estrutura próxima à circunvolução cingulada. Ser abraçado, acariciado, confortado de algum modo, acalma estas regiões cerebrais. (GOLEMAN, 1995) Joseph LeDoux, neurocientista, foi o primeiro a descobrir o papel-chave emocional da amídala no cérebro, como descrito por R. Joseph, em 1993. Usando métodos novos e com precisão, não disponíveis anteriormente, sobre o mapeamento da função cerebral, LeDoux publica, em 1986, dois artigos reveladores: Sensory Systems and Emotions (Sistemas Sensórios e Emoções) e Emotion and the Limbic System

1209 Concept (Emoções e o Conceito de Sistema Límbico). Suas descobertas puseram

abaixo o que se tinha como verdadeiro, até então, sobre neurofunção emocional. Ele explica que a amídala pode assumir o controle do que fazemos, enquanto o neocórtex ainda toma decisão. (LeDOUX apud GOLEMAN, 1995; LeDOUX, 1993) Por outro lado, a amídala é capaz de, na posição de sentinela emocional, “seqüestrar” o cérebro. Os sinais sensoriais provindos dos órgãos dos sentidos dirigemse ao tálamo, depois, através de uma única sinapse, seguem para a amídala, e um segundo sinal do tálamo é encaminhado para o néocortex. Assim, a amídala começa a responder antes do néocortex. Desta forma o hipocampo, que era considerado estrutura chave do sistema límbico, na verdade, está mais envolvido com o registro e a atribuição de sentidos aos padrões perceptivos do que com as respostas emocionais. É ele que fornece uma memória precisa do contexto, vital para o significado emocional. O hipocampo lembra os fatos puros, e a amídala retém o sabor que os acompanha. (LeDOUX apud GOLEMAN, 1995; LeDOUX, 1993) Estudos de LeDoux, em 1989, mostraram que, num rato, a rota da percepção até o neocórtex pode durar duas vezes o tempo de o órgão do sentido perceber e executar ação de luta ou fuga. (LeDOUX apud MORSE e WILEY, 1997) LeDoux pesquisou o papel da amídala cerebral na realização de impulsos sem participação do córtex e verificou que, sob condições de grande excitação emocional, a amídala cerebral emite sinais, que ultrapassam a intermediação cortical, como uma forma de a natureza se assegurar de que, em caso de necessidade imediata face a uma ameaça, ocorrerá uma resposta eficaz de defesa. (LeDOUX apud MORSE e WILEY, 1997) A amídala parece desempenhar um papel essencial em muitos aspectos de processamento de informação emocional e de comportamento. Estudos feitos em 1991

1210 começaram a clarificar a organização anatômica da amídala e a contribuição de suas sub-regiões individuais e as funções emocionais, especialmente a aprendizagem emocional e memória. Os investigadores podem agora apontar os plausíveis circuitos envolvidos na transmissão de contribuições sensórias na amídala e suas sub-regiões que levam estímulos para as áreas corticais e subcorticais, para aprendizagem emocional específica e processos de memória. (LeDOUX, 1992) A amídala cerebral é um sistema de alarme, como o que nossa sociedade possui: uma campainha de alarme ou um sistema de auxílio de serviços de emergência. Ela prepara a resposta impulsiva, enquanto que o neocórtex tem respostas mais lentas. Porém, sem o funcionamento dos lobos pré-frontais, grande parte da vida emocional desapareceria, pois não haveria o que pudesse avaliar aquilo que merece resposta emocional. Os neurologistas já suspeitavam do papel dos lobos pré-frontais desde os anos 40. (GOLEMAN, 1995) Supõe-se que os seqüestros emocionais envolvem duas dinâmicas: o disparo da amídala e a não ativação dos processos neocorticais que, em geral, mantêm o equilíbrio da resposta emocional, assim como a possibilidade do recrutamento das zonas corticais para a emergência emocional. Nestes momentos, a mente reacional é inundada por emoções. Uma das maneiras de o neocórtex agir com eficiência na administração da emoção, ou seja, de avaliar a emoção antes de agir, é amortecendo os sinais para ativação enviados pela amídala e outros centros límbicos. A chave que desliga a emoção aflitiva parece estar no lobo frontal esquerdo, o qual age como um termostato regulando emoções desagradáveis. (GOLEMAN, 1995) Ao estudar meticulosamente o que compromete os pacientes no processo decisório, Antonio Damásio, neurologista, observou que a dificuldade advinha de danos no circuito pré-frontal-amídala. O processo decisório naqueles pacientes é falho, sem

1211 que haja comprometimento do QI, ou de qualquer outra capacidade cognitiva, apesar de a inteligência ser capaz de escolhas desastrosas nos negócios e vida pessoal. O neurologista entende que isto ocorre porque estas pessoas perderam acesso ao seu aprendizado emocional, já que o circuito pré-frontal-amídala é a porta de entrada crucial para o repositório das preferências e aversões que adquirimos durante a vida. Desligado da memória emocional da amídala, qualquer coisa que o córtex pense não dispara as reações a ele associadas no passado, tudo fica numa neutralidade cinzenta, e algo que, no passado, foi objeto de afeto, mais adiante não desperta nem atração nem aversão. Estes pacientes “esqueceram” as lições emocionais que estavam armazenadas na amídala. Estas indicações levaram Damásio a concluir que os sentimentos são indispensáveis nas decisões racionais. (DAMÁSIO, 1998) O caminho provindo, não somente da visão, mas também da audição, passa pelo circuito amídala mais rápido do que pelo do córtex. (LeDOUX et al., 1990) 5 - Quando o Amor Falta, a Violência Impera A primeira monografia importante que descreve a síndrome da criança maltratada foi escrita em 1860 por Ambroise Tardieu, um médico forense francês. Mais tarde, seu artigo foi publicado em Annales d’hygiene publique et médecine légale (Anais de Saúde Pública e Medicina Legal), com o título Étude médico-légale sur les sérvices et mauvais traitements exercés sur des enfants (Estudo Médico Legal sobre Serviços e Maus Tratos Praticados contra as Crianças). Ele discorre sobre o assunto através do relato de 32 casos. (ROCHE et al., 2005) O fato é que os cuidadores criam as condições de trauma, os “fantasmas no berçário”, na visão de Fraiberg, Adelson e Shapiro, em 1975. Na realidade, esta criança é descrita por Robin Karr-Morse e por Meredith S. Wiley, em 1997, duas sociólogas

1212 que escreveram o livro Ghosts from the Nursery – Tracing the Roots of Violence (Fantasmas do Berçário: Localizando as Raízes da Violência). (SCHORE, 2001a) Os profundos estudos de Karr e Wiley focaram análise em um jovem de 17 anos que participou com outros dois (um rapaz e uma moça) de agressão com morte. Um dos rapazes, cometeu assassinato completamente não planejado e impulsivo, foi condenado à prisão perpétua. Elas levantaram que as raízes do comportamento violento devem ser procuradas no que acontece durante os 33 meses do início da vida (nove meses intrauterinos, e os dois primeiros anos de vida). No caso do rapaz, houve uso de drogas e má nutrição durante a gravidez. As autoras relacionam cada achado da “ciência do cérebro” e da ciência pré-natal para analisar o que se passou com o rapaz, desde seu nascimento até a indiferença com que foi tratado quando era bebê. Elas mostram que ele é uma entre milhares de pessoas com as mesmas histórias de gravidez descuidada, falta de afeto e de paciência para com a criança. A conseqüência disso é criminalidade e um impulso agressivo incontrolável, como se fosse reação de curto-circuito. A história de Jeffrey e a de outros são histórias dos fantasmas dos berçários. (KARR-MORSE e WILEY, 1997) Estas sociólogas, levantando a situação naquele momento, sintetizaram:
• • A cada minuto, nasce um bebê na América do Norte de mãe de menos de 20 anos. O índice de mortalidade infantil, com menos de um ano, na América do Norte, é maior do que em qualquer outro país industrializado. Afroamericanos morrem duas vezes mais que brancos no primeiro ano de vida. 25% das crianças da pré-escola vivem em condições abaixo do nível de pobreza. Uma em cada quatro crianças são adotadas, numa amostra em cinco estados, e são entregues à adoção antes do seu primeiro aniversário. Recém-nascidos compõem a maior parte dessas crianças. Uma em três crianças é vítima de abuso físico, antes dos 12 meses de idade. A cada dia um bebê morre devido a abuso ou negligência dos seus cuidadores na América do Norte. Três de cada quatro crianças assassinadas, nas 26 nações industrializadas combinadas, eram americanas. Apenas 8,4% dos lugares que cuidam de bebês nos Estados Unidos são considerados apropriados, 51,1% são julgados medíocre, e em 40,4% o cuidado é pobre em qualidade. (KARR-MORSE & WILEY, 1997, p. 13 -14)

• • • • •

1213 Anatomicamente, o cérebro é dividido em: medula oblonga (área parecida com uma haste existente na parte inferior do cérebro ligando-o com a coluna vertebral), cérebro intermediário, sistema límbico, cuja parte central é amídala cerebral, e córtex. Estas partes se desenvolvem de menos complexas para mais complexas. A medula oblonga é quem controla as funções de manutenção da vida, que são funções involuntárias, como a regulação da pressão arterial, os batimentos cardíacos e a temperatura corporal. O próximo a se desenvolver é o cérebro intermediário que controla apetite e sono, entre outras coisas. Depois vem o sistema límbico que é a sede dos impulsos e emoções, e, finalmente, o córtex onde se dão as funções de cognição, lógica, planejamento e funções de execução. B. Perry descobriu que havia diferenças no sistema límbico e no funcionamento cerebral do indivíduo de comportamento particularmente violento. Quando o ser humano está sob condições de lutar ou fugir, os hormônios do estresse dominam e o lado analítico do córtex não funciona. Nestas condições extremas são o sistema límbico e o cérebro intermediário que assumem o comando e estas pessoas agem antes de pensar. Quando uma criança tem uma superestimulação por situação de ameaça constante à vida, ela desenvolve mais o sistema límbico do que seu córtex e, se isto é crônico, o sistema vai desenvolver-se de forma desarmônica, e este indivíduo terá problemas de comportamento no futuro. (KARRMORSE e WILEY, 1997) Uma vez que os bebês de menos de dois anos não possuem uma linguagem estruturada, nem tampouco uma razão estruturada, as experiências, como percebeu Le Doux, atingem a amídala, o hipocampo e o sistema límbico. Isto explica como os fatos ocorridos no primeiro ano de vida, especialmente os que geraram fortes emoções, permanecem por tanto tempo na vida adulta, pois formam um corpo de memórias não racionais, até mesmo não verbais, atuantes na vida da pessoa. Segundo LeDoux, as

1214 experiências emocionais pré-cognitivas continuam a desempenhar papel na vida adulta e o indivíduo não tem consciência associativa sobre o evento. (LeDOUX apud KARRMORSE e WILEY, 1997) Outro ponto importante do conhecimento é sobre a serotonina. Em 1970, Marie Asberg, do Hospital Karolinska, em Estocolmo, observou baixos níveis de serotonina em jovens que praticam suicídio violento, envolvem-se com gangues violentas, usam armas, envolvem-se em estupros, ou se jogam de lugares altos. Criminosos com história de violência têm níveis baixos de serotonina. Mas o efeito da serotonina está relacionado com um contrabalanço da adrenalina. A serotonina é a chave da modulação do comportamento impulsivo no nível do neocórtex e do cérebro, a noradrenalina é um hormônio de alarme, do sistema de resposta ao perigo. As duas interagem de forma que, quando uma está presente, a outra baixa. A serotonina é alta durante o sono e baixa na vigília, quando a noradrenalina, então, é alta. O uso de álcool, drogas e outras exposições tóxicas, durante a gestação, estão envolvidos na lesão dos genes implicados com a regulação serotonina- noradrenalina. Pesquisadores suspeitam que este equilíbrio serotonina-adrenalina é alterado em: no bebê negligenciado, abusado, em gangues em luta, ou em quem sofre violência doméstica, antes dos dois anos de idade, o que gera a perpetuação do ciclo de violência. (KARR-MORSE e WILEY, 1997). No caso de Jeffrey, sua mãe fumou durante a gravidez e era regularmente espancada por seu pai alcoólatra. Então, além da existência da memória celular, descrita por David Chamberlain, em 1987, na qual específicas partes do corpo retêm informação de padrões de memória, existem as conseqüências no cérebro em formação e muitas não são detectáveis, senão tardiamente. O desenvolvimento do sistema nervoso acontece por um complexo processo de migração neuronal que se atém à forma e ao tempo para que se realize de modo correto.

1215
Se o complexo processo de migração é perturbado por fatores genéticos ou por toxinas, as células não alcançam a posição que lhes é própria. Se isto ocorre de modo extremo o feto é abortado. Se for moderado, um patologista detectará malformação. No entanto, se for brando, o portador não irá ao patologista, mas ao psiquiatra. (RESTAK apud KARR-MORSE e WILEY, 1997, p. 54)

Quando Jeffrey nasceu, com circular de cordão e cianótico, levou alguns segundos para começar a respirar e foi deixado num hospital por seis dias, sem contato com a mãe que teve depressão pós-parto. (KARR-MORSE e WILEY, 1997) Bebês que sofrem estresse gestacional, com ou sem complicações obstétricas, têm mais chances de desenvolver comportamento criminal, como já citado neste trabalho. (RAINE, 2002; RAINE et al., 1994, 1997; BARBER et al., 1999; HODGINS et al., 2001; KEMPPAINEN et al., 2002; AXINN et al., 1998, 1999; WAKSCHLAG et al., 2006; WAKSCHLAG et al., 2002; FERGUSSON, 1999; BRENNAN et al., 1999; McGLOIN et al., 2006; PRATT et al., 2006; RÄSÄNEN et al., 1999; KEMPPAINEN et al., 2001; RANTAKALLIO et al., 1992; DAVID et al., 2003; KUBIČKA et al., 1995a) Jeffrey tinha cólicas em bebê e foi de saúde frágil, na primeira infância. A escola diagnosticou-o, como tendo desordem de atenção, e por orientação médica prescreveram-lhe ritalina (anfetamina). Toda a sua história é contada através da sua avó, sua cuidadora. Tal diagnóstico, em 1997, estava na proporção de 5% a 6% de crianças entre quatro e seis anos. Algumas estimativas colocam um percentual de 20%. Em um estudo em Ontario, no Canadá, por Widom, em 1988, foi encontrada a prevalência de 9% em meninos e de 3,3% em meninas. (KARR-MORSE e WILEY, 1997) A história de Jeffrey segue com uma mãe de comportamento instável e um pai ausente. Ele era cuidado pela avó, numa situação familiar pobre, em muitos sentidos. Mas Jeffrey não está sozinho em sua situação, pois o quadro social de “Jeffreys” é grande. (KARRMORSE e WILEY, 1997)
• Aproximadamente 50 crianças foram mortas em escolas de ensino fundamental, nos últimos três anos.

1216
• • • • • Três milhões de crimes capitais e contravenções são cometidos nas escolas, a cada ano, e houve um grande aumento no ano em que foi escrito o livro, 1997. 5.000 professores foram atacados e assaltados na escola, em cada mês 1.000 requereram atenção médica. Um entre 11 professores relata ter sido atacado na escola. 160 mil estudantes deixam de ir à escola por medo. 135 mil jovens portam armas diariamente nas escolas. (KARR-MORSE e WILEY, 1997, p. 261)

Por outro lado, ocorre um padrão desorganizado de vínculo na criança que foi submetida a abuso ou negligência, pois se cria aí um padrão de má-adaptação de saúde mental infantil, como descreveram Carlson, Cicchetti, Barnet e Braunwald, em 1989, e Lyons-Ruth, Repacholi, McLeod e Silva, em 1991. Isto foi associado com dificuldades severas de lidar com estresse, e comportamento dissociativo na vida adulta, como descrito por van Ijzendoorn, Schuenguel e Bakersman-Kranenberg, em 1999. A psiconeurobiologia já tentou explicar como eventos externos podem ter impacto na estrutura intrapsíquica e no desenvolvimento da criança, dificultado por um risco psicosocial, segundo Osofsky, Cohen e Drell, em 1995. (SCHORE, 2001a) Kalin, Shelton e Lynn relatam que a qualidade do vínculo precoce afeta as relações para o resto das vidas. Por exemplo, o uso de opiáceos na mãe e no bebê pode não afetar a vida da criança, mas afetará suas relações na vida adulta. (SCHORE, 2001a) Cuidadores abusivos provocam alteração na bioquímica cerebral, gerando uma imaturidade do cérebro, em áreas relacionadas à capacidade de estabelecer relações de pares, como foi descrito por Schore, em 1996 e em 1997. (SCHORE, 2001a) Há acordo agora que o abuso emocional repetitivo e contínuo está no centro do trauma infantil, como descreveu O'Hagan, em 1995, e o abuso parental ou negligência inclui alteração do desenvolvimento cognitivo, segundo Trickett e McBride-Changem, em 1995. O abuso na infância é a principal ameaça à saúde mental delas, segundo Hart e

1217 Brassard, em 1987. Um contexto de trauma causado pelas relações primordiais muito cedo, serve como uma matriz para a criança ser mal adaptada, o que segue acontecendo depois de adulta. Pesquisas atuais estão aprofundando o conhecimento sobre as formas mais severas de perturbações de vínculo e reatividade, como descreveu Boris & Zeanah, em 1999. A desorganização foi descrita por Lyons-Ruth e Jacobvitz, em 1999, e por Solomon e George, em 1999. As disfunções do vínculo têm oferecido modelos neurobiológicos que estão por baixo das psicopatologias precoces, segundo HinshawFuselier, Boris e Zeanah, em 1999. Tais deficiências orgânicas de vínculo estão claramente associadas com padrões de má adaptação de saúde mental infantil. (SCHORE, 2001a) Dentro do modelo biopsicossocial, em psiquiatria infantil, segundo Dobbing e Smart em, 1974, existe o conceito de tendência para aquelas desordens psiquiátricas causadas pela combinação de uma predisposição genético-constitucional e por fatores ambientais ou estressores psicosociais que ativam a vulnerabilidade neurofisiológica inata, levando em conta o fato de que o crescimento do cérebro começa no terceiro trimestre, no ambiente materno-infantil uterino. Pesquisas recentes mostram que os hormônios maternos regulam a expressão de genes no cérebro fetal e as mudanças agudas nestes hormônios induzem as mudanças na expressão do gene, no cérebro fetal, detidos quando a criança alcança a maioridade, segundo Dowling, Martz, Leonard e Zoeller, em 2000. Outros estudos revelam que altos níveis de corticotrofina liberados pela mãe, durante a gravidez, afetam negativamente o desenvolvimento do cérebro fetal, segundo Glynn, Wadhwa e Sandman, em 2000, e reduzem capacidades pós-natais posteriores para responder a desafios estressantes, segundo Williams, Hennessey e Davis, 1995. (SCHORE, 2001a)

1218 Dados indicam que certos estímulos maternos que provocam impacto negativo no eixo hipotálamo-pituitário-adrenal (HPA) do feto produzem uma vulnerabilidade neurofisiológica duradoura, segundo Glover, em 1997, Sandman et al., em 1994, e Weinstock, em 1997. (SCHORE, 2001a) Durante a gravidez há evidência convincente dos efeitos prejudiciais duradouros que a exposição, a álcool, descrito por Streissguth et al., em 1994, à droga, segundo Espy, Kaufman e Glisky, em 1999 e Jacobson et al., em 1996, e a tabaco, como descrito por Fergusson, Woodward e Horwood, em 1998, tais exposições alteram o desenvolvimento do cérebro da criança. Estes fatores de risco, em parte, refletem uma demora no desenvolvimento do cérebro pós-natal, pelo que observou Huppi et al., em 1996, pois isto não se expressa apenas na pré-maturidade e baixo peso ao nascimento, mas também em pobre capacidade interativa infantil, como visto por Aitken e Trevarthen, em 1997. Estas limitações de responsabilidade social podem ser alinhadas com a evitação parental ou rejeição, como observado por Field, em 1977, e até mesmo com o abuso físico da criança prematura, como descrito por Hunter et al., em 1978. (SCHORE, 2001a) Estes princípios sugerem que os cuidadores induzem a traumas qualitativa e quantitativamente mais potencialmente psicopatogênicos do que qualquer outro estressor social ou físico (à parte os que diretamente afetam o cérebro em desenvolvimento). Em um organismo imaturo pouco desenvolvido e contendo capacidades restritas, o cuidador primário é a fonte de regulação da tensão da criança e do senso de segurança. Quando, de quem deveria prover segurança, advém perigo, o vínculo fica comprometido e as conseqüências, a longo prazo, são somadas na psique que está amadurecendo. A tensão que regula sistemas que integram mente e corpo é

1219 fruto do desenvolvimento de circuitos do sistema límbico-autonômico, segundo Rinaman, Levitt, e Card, em 2000. (SCHORE, 2001a, PERRY et al., 1995) Recente pesquisa revelou que as bases perinatais de angústia conduzem a um embotamento da resposta no córtex pré-frontal direito, o que se manifesta na maioridade, segundo Brack, Sullivan e Gratton, em 2000; e que interrupções precoces, especificamente do desenvolvimento cortical, afetam áreas de associação límbicas e de comportamento social, segundo Talamini, Koch, Luiten, Koolhaas e Korf, em 1999. (SCHORE, 2001a) Em seguida, Schore faz considerações sobre o impacto negativo dos vínculos traumáticos no desenvolvimento cerebral e na saúde mental infantil, e a neurobiologia do trauma infantil, a neuropsicologia de um padrão de vínculo desorganizado, associado a abuso e negligência. Considera também sobre os prejuízos de trauma induzido no sistema regulador do córtex na área órbito-frontal. Traça as ligações entre deficiência orgânica órbito-frontais e uma predisposição pós-traumática que dão ênfase a desordens. Este autor expõe a neurobiologia da defesa de dissociação, a etiologia de dissociação com o corpo e sua psicopatologia, os efeitos de trauma relacional precoce duradouro no funcionamento do hemisfério direito. Tais eventos justificam a criação de modelos de intervenção precoce. Os resultados das pesquisas sugerem conexões diretas entre vínculo traumático e função reguladora do hemisfério direito ineficiente, que acarreta em criança mal adaptada e, posteriormente, saúde mental do adulto profundamente afetada. (SCHORE, 2001a) A literatura de neuropsicobiologia sublinha um achado central: a maturação do cérebro da criança é uma experiência dependente do vínculo com seu cuidador, como já demonstrado por Schore, 1994, 1999, 2000. A segurança primária é uma defesa primitiva contra o trauma induzido. Toda uma outra psicobiologia cerebral se

1220 desenvolverá nos dois primeiros anos de vida, caso, ao invés de vínculo, ocorra ameaça à segurança pessoal da criança. Isto não tem sido objeto de informação pela mídia, nem na literatura atual, não obstante as descobertas serem muitas e em vários países. Se a ciência do cérebro é nova, ela é prolífica em achados e os efeitos de novas experiências em desenvolvimento de cérebro foram bem atestados, por exemplo, por Bruer, em 1999, e por Gopnik, Meltzoff e Kuhl, em 1999. (SCHORE, 2001a) Freud já havia notado que a dor física é uma experiência que esvazia o ego, entendido por ele como parte da organização superior do aparelho mental, que tem como função ser mediador entre o id (impulsos instintivos) e a realidade. Ele também acreditava que os perigos internos modificam-se com os períodos da vida, mas possuem uma característica comum, envolvem perda ou separação do ser amado, ou a perda do amor deste ser pelo indivíduo. Experiências traumáticas nos primeiros anos de vida são de grande importância na vida ulterior. (FREUD, 1976b) A explosão atual de estudos pertinentes ao problema do trauma, nos primeiros anos de vida, que alteram a maturação contínua de cérebro, mente e corpo, como Gaensbauer e Siegel descreveram, afirmam que episódios prolongados e freqüentes de intensa desregulação interativa nas crianças causam efeitos devastadores na capacidade de confiar. É esclarecedor o fato de que a desregulação experimentada conduz a um vínculo inseguro e ativa uma caótica alteração da emoção, processada pelo sistema límbico em um período crítico do crescimento. Este sistema é o local de mudanças associadas com a modificação do comportamento ligado ao vínculo, segundo Anders & Zeanah, em 1984, e está centralmente envolvido com a capacidade de adaptação rápida à variação ambiental e com a conseqüente organização de nova aprendizagem, segundo Mesulam, em 1998. Estes circuitos límbicos se expressam particularmente dentro do hemisfério direito, segundo Joseph, em 1996, e Tucker, em 1992, o qual está em

1221 acelerado crescimento nos primeiros dois anos de vida, segundo Schore descreveu, em 1994. (SCHORE, 2001a) O trauma precoce altera o desenvolvimento do cérebro direito, pois este hemisfério é especializado no processo de informações sócio-emocionais e em estados corporais. O amadurecimento precoce do córtex cerebral direito é importante para funções de vínculo – como descrito por Henry, em 1993, e por Schore, em 1994 e em 2000, e também por Siegel, em 1999 – e para a criação do armazenamento de um modelo articulado interno da relação de vínculo. Assim sendo, um prejuízo duradouro durante o período do desenvolvimento deste sistema seria expresso por uma severa limitação da atividade essencial do controle de hemisfério direito, nas funções vitais de apoio à sobrevivência, segundo Wittling e Schweiger, em 1993. (SCHORE, 2001a) Um estudo foi feito por Brandt F. Steele e C.B. Pollock, psiquiatras da Universidade do Colorado, que analisaram o abuso em crianças de três gerações de famílias que abusaram fisicamente de seus filhos. Eles concluíram que os pais que abusaram dos filhos tinham sido invariavelmente privados do afeto físico, durante sua infância e a afetividade da vida sexual adulta era extremamente pobre. Steele notou que, quase sem exceção, as mulheres que abusaram de seus filhos nunca haviam experimentado orgasmo. E o grau de prazer experimentado pelos homens era definido como insatisfatório. (PRESCOTT, 1975) O National Institute of Research (NINR) (Instituto Nacional de Assistência à Pesquisa) atua nas áreas biomédicas, de comportamento e de maternidade e tem como foco primário a promoção da saúde, com ênfase na atenção às populações mais vulneráveis, socioeconomicamente. Em 1992, eles destinaram US$ 1,2 milhões para pesquisas cujo objetivo era subsidiar seis projetos relacionados à violência, na tentativa

1222 de prevenir o abuso infantil, que pode afetar desde o abuso contra grávidas, como contra o nascimento, e contra a criança. (PRESCOTT, 2004) Podem ser considerados como fatores predisponentes à violência na vida futura: se, nos primeiros meses de vida, o bebê estiver: isolado, deprimido, pedindo ajuda. Muitas vezes, neste caso, as visitas de enfermeiras e assistentes sociais demonstram ter impacto positivo; se a mãe está perdendo a paciência com a criança, neste caso, ajudá-la vai melhorar, pois a mãe que se sente apoiada torna-se mais paciente – o suporte do grupo social é muito importante para evitar depressão ou irritação maternas. (VERNY e WEINTRAUB, 2004) No Brasil, acidentes e agressões são as principais causas de morte em crianças de um a seis anos. No ano de 2003, o último ano de que se tem notícia, pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, estas mortes correspondiam a 21,11% das causas de morte de crianças entre um e seis anos, no país. E, se forem consideradas as idades menores de sete anos, este índice chega a 32,5%. O Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São Paulo (USP), mostra no quadro abaixo a síntese da violência doméstica a que estão submetidas crianças e adolescentes até 19 anos. A mais comum é a negligência que corresponde a 40,2% das notificações, em 2005. Neste levantamento, foram pesquisados 16 estados e o Distrito Federal. Portanto, o relatório aponta estes números como sendo “a ponta do iceberg” do problema. (UNICEF, 2006d) No Brasil, dos 61 milhões de crianças e adolescentes, 23,1 milhões têm idade de zero a seis anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2000, o mais recente disponível. (UNICEF, 2006a) Segundo dados das estimativas do UNICEF: 600 mil crianças no Brasil, em 2000 sofreram exploração sexual e comercialização infantil. Na época a população era de

1223 169.590.693 habitantes. Isto faz o país ocupar o primeiro lugar, não somente em números, mas também em pontos percentuais, se compararmos com a população, nesta lista dantesca. Ao Brasil se segue a Índia com 450 mil crianças, país que, em 2000, tinha 1,013 bilhões de habitantes, depois os Estados Unidos, que possuíam, naquele ano, 300 mil crianças entre 281.421.906 habitantes, e em seguida a Tailândia que, na mesma época, tinha 61,4 milhões de habitantes e 200 mil crianças e, nas Filipinas são 100 mil e 82.841.518 de habitantes. Os demais países de uma longa lista estão abaixo de 100 mil crianças. (UNICEF apud SANDERSON, 2005)

Gráfico 3: Violência Infantil no Mundo. Uma análise do nível dos custos dos estados associados, gastos com abuso de criança e suas conseqüências foi feita por Robert A. Caldweel, com auxílio do Michigan Children’s Trust Fund (Fundo de Proteção para as Crianças de Michigan). Estes custos foram comparados com os custos que provêem prevenção de abuso de criança com intervenções de auxílio em vários momentos. Os custos anuais de abuso de criança ficaram em torno de US$ 823 milhões. Estes custos incluem os associados a bebês de baixo peso, mortalidade infantil, educação especial, serviço protetor, cuidado adotivo,

1224 criminalidade juvenil e serviços psicológicos. Foram calculados os custos de prevenção, em programas para estes aspectos, os quais ficaram orçados em anuais US$ 43 milhões. A economia para o estado ocorreria na proporção de 19 a um de custo para a prevenção. (CALDWELL, 1992) Há problemas para a obtenção de estimativas claras sobre a questão de conseqüências de abuso. Primeiro, há larga variabilidade em estimativas da incidência de abuso de criança. Neste trabalho, os relatórios oficiais de casos de abuso de criança substanciados foram usados para medir a incidência de abuso de criança, como informado pelo Departamento de Michigan de Serviços Sociais. Porém, é preciso ter cuidado para não confundir o relatado com o absolutamente preciso, pois ocorrem fatores imprecisos como os que envolvem os pais, fatores como a filosofia do Serviço de Proteção local (PS), o nível do pessoal do departamento, a quantidade de casos tratados pelo departamento, o fato de não haver clareza sobre o incidente familiar abusivo, o fato de que nem toda reclamação é examinada ou substanciada, segundo observaram Hampton, Daniel, Newberger, em 1983; Turbett e O'Tool, em 1983; Wilson, Thomas, Schutte, em 1983. Na realidade, a estimativa provida por tais contas dos funcionários deste setor de casos de abuso substanciados é compreendida como a mais baixa estimativa de incidência atual de abuso de criança, segundo o Departamento Norte-Americano de Saúde e Serviços Humanos, em 1982. (CALDWELL, 1992) Os custos do abuso de criança também são muito difíceis de calcular. Alguns custos parecem diretamente relacionados ao abuso, alguns exemplos incluem os custos de hospital para tratamento médico de danos como resultado de abuso físico e os custos de cuidados adicionais, como as remoções de crianças das casas onde sofreram o abuso. Mas existem outros custos, pois as vítimas têm maior chance de dificuldades na escola, segundo Daro, em 1988. Também há o envolvimento com o sistema de justiça juvenil,

1225 segundo Lewis et al., em 1989, e problemas de saúde mental, segundo McCord, em 1983. Embora nem todos os abusados externem estes problemas, ainda assim, ignorar estes custos seria uma omissão séria da análise do custo de abuso de criança. Contudo, deve ser tomado o cuidado para não superestimar os custos envolvidos. (CALDWELL, 1992) Os custos de prevenção são as partes mais fáceis da equação a ser medida. A maior parte das despesas com prevenção e o número de pessoas alcançadas por estas intervenções preventivas são conhecidos. A parte difícil da equação da prevenção é a estimativa de efetividade dela. A maioria das intervenções preventivas não são avaliadas e, de certo modo, isso permitiria uma declaração definitiva sobre quantos exemplos de abuso de criança foram prevenidos, de fato. Até mesmo quando programas são avaliados, as avaliações faltam, freqüentemente, com o rigor metodológico que é exigido para demonstrar a efetividade de um programa que verdadeiramente previne o abuso. (CALDWELL, 1992) Além disso, o fato de o custo-benefício da prevenção do abuso ser levantado em dólares, como mostra Deborah Daro, em seu livro Confronting Child Abuse (Confrontando Abuso de Criança), em 1988, implica que as suposições e técnicas de trabalho e metodologia de custo-benefício padrão dos programas de prevenção contra os tipos mais populares de abuso infantil levam a certas conseqüências. Por exemplo, usando medidas econômicas do valor de uma vida, subestima-se o valor de programas que trabalham com segmentos da população que estão em desvantagem salarial (por exemplo, mulheres ou pessoas pobres). Quantificar os benefícios de intervenções com crianças em condições financeiras é particularmente difícil, pois como saber quais contribuições financeiras elas trariam para sociedade no futuro? (CALDWELL, 1992)

1226 Apesar destas dificuldades, é importante examinar a informação que uma análise de custo benefício provê. Pois é necessário levantar custos de programas para que possam ser implementados e a responsabilidade que a sociedade tem com estas crianças faz com que tais programas sejam logo postos em prática. No caso do estado do Michigan, assim como outros nos Estados Unidos, tais custos são de competência dos estados, portanto, as medidas levantadas são relativas aos custos somente neles.(CALDWELL, 1992) O Michigan Children’s Trust Fund (Fundo de Proteção para as Crianças de Michigan) foi criado em 1982 com o propósito exclusivo de prevenção de abuso de criança. Nos 10 anos de sua existência, o MCTF gastou mais de US$ 7 milhões em prevenção de abuso de criança e negligência. Desta quantia, mais de US$ 5 milhões foram gastos em programas diretos de prevenção, enquanto aproximadamente US$ 2 milhões foram gastos em construir infra-estrutura de comunidade para prevenção de abuso, segundo relatório do Michigan Children’s Trust Fund (Fundo de Proteção das Crianças de Michigan). (CALDWELL, 1992) Em âmbito nacional, entre 1985 e 1990, os relatórios de abuso de criança declarados por agências de serviço sociais aumentaram em 31%, segundo relataram Daro e McCurdy, em 1991. Os mais recentes números indicam que mais de 2,5 milhões de crianças sofreram abuso nos EUA em 1990, segundo Daro e McCurdy. Durante o ano fiscal de 1991, havia 15.940 casos de abuso de criança no estado do Michigan, segundo o Centro de Dados de Saúde e Bem-Estar. Cada caso representa uma família e, freqüentemente, inclui mais de uma criança. As estatísticas de Michigan identificam dois tipos de vítimas infantis: crianças para quem abuso foi substanciado e as outras crianças da casa. Durante 1991, havia 39.452 crianças envolvidas nos Serviços Protetores (PS) que trabalharam com a questão direta do abuso. Neste mesmo ano,

1227 foram abusadas 26.366 destas crianças sendo vítimas de abuso ou negligência. Com a exceção do cálculo para os custos médicos com danos dos que sofreram abuso, a maior parte destes dados vem do trabalho de Caldwell. (CALDWELL, 1992) Este tipo de programa pode ajudar as crianças a, de fato, entrarem na vida em um estado mais saudável. Então, também serão incluídos custos apropriados de prevenção do baixo peso e de mortalidade de criança nos custos de abuso de criança. Além destes custos, serão apresentados dados para custos associados com várias conseqüências, a curto prazo, de abuso de criança (por exemplo, tratamento médico, serviços protetores da criança, cuidado adotivo) e conseqüências a longo prazo de abuso de criança (por exemplo, educação especial, envolvimento de sistema legal, problemas psicológicos). Bebês de baixo peso são os que pesam menos de 2.500 g., segundo o Fundo de Defesa de Crianças, em 1990. O custo de um bebê de baixo peso está entre US$14 mil e US$ 30 mil, em relação ao custo de bebês normais, segundo o Congresso NorteAmericano, o Escritório de Avaliação de Tecnologia, em 1988, e o Fundo de Defesa de Crianças, em 1990. Estes custos incluem hospitalização de recém-nascidos, rehospitalização dentro do primeiro ano e outros custos de cuidados médicos associados com baixo peso, segundo o Congresso Norte-Americano e o Escritório de Avaliação de Tecnologia, em 1988. Durante 1989 (o mais recente ano disponível), 7,6% de todos os nascimentos em Michigan eram de bebês de baixo peso, segundo o Centro para o Estudo de Política Social, em 1992. Em Michigan, havia 153.080 bebês nascidos durante 1990, segundo o Departamento de MI de Saúde pública, em 1992. É provável que 11.634 destes bebês fossem de baixo peso. Considerando o ponto mediano da gama de custo (isto é, US$ 22 mil), estes bebês de baixo peso despenderam US$ 255,9 milhões. (CALDWELL, 1992)

1228 Sobre morte de criança devido a abuso e mortalidade infantil evitável, os custos são mais difíceis de calcular, pois como se mede o valor de uma vida humana? Avaliouse segundo a média de valor levantado em vida no estado. Em 1989, a renda per capita no estado de Michigan era de US$ 17, 745, segundo Hoffman, em 1990. A participação vitalícia comum na mão-de-obra é, aproximadamente, de 33 anos, segundo Daro, em 1988. Usando estes números, o residente comum de Michigan teria US$ 585,585 em salários vitalícios. Podemos dizer, seguramente, que cada fatalidade de criança, durante este ano, resultou em uma pessoa que não ganha acima de meio milhão de dólares, em 1992. Isto representa uma perda para a economia e por habitante, estado e renda de impostos federais. O imposto de renda do estado de Michigan era, na ocasião, de 4,6%. No curso de toda vida, Michigan perderia US$ 26,937 por pessoa, em renda em impostos. (CALDWELL, 1992) Em 1989, a taxa de mortalidade infantil em Michigan era de 11,1 mortes por 1.000 nascimentos, segundo o Centro para o Estudo de Política Social, em 1992. Em 1990, este índice era de 153.080 nascimentos e 1.669 mortes ao nascimento ou dentro do primeiro ano de vida. A contribuição deles para os cofres estatais teria sido de US$ 45,8 milhões, durante o curso de suas vidas. (CALDWELL, 1992) Além de mortalidade infantil devido a problemas de saúde, as crianças morrem, a cada ano, pelos seus próprios cuidadores. O Comitê Nacional para a Prevenção de Abuso de Criança (NCPCA) administra uma pesquisa anual para determinar o número de fatalidades de criança, devido a abuso. Eles informam que, nacionalmente, 1.211 mortes eram diretamente atribuíveis a abuso infantil, durante 1990, segundo Daro e McCurdy, em 1991. Calculou-se que 16 crianças morreram em Michigan, em 1990, devido a abuso infantil. Seguindo a mesma lógica, calculavam o custo de mortalidade

1229 infantil; estas 16 mortes valeram ao estado de Michigan US$ 430,992 em imposto de perdido. (CALDWELL, 1992) Em termos nacionais, aproximadamente 3,2% de crianças abusadas requerem hospitalização por danos sérios, como fraturas de crânio, ossos quebrados, danos internos, envenenamento, e queimaduras, segundo Daro, em 1988. Aplicando esta porcentagem às crianças abusadas de Michigan, 844 crianças requerem hospitalização. Em 1991, a permanência comum em hospitalização levou a um custo anual de US$ 4,64 milhões. Os custos médicos totais devido a abuso de criança seriam então, anualmente, US$ 4,98 milhões. (CALDWELL, 1992) Quanto aos custos de educação especiais. Aproximadamente 30% de crianças abusadas têm algum tipo de prejuízo cognitivo, como de fala, 50% de crianças abusadas têm problemas sócio-emocionais; aproximadamente 14% de crianças abusadas exibem auto-mutilação ou outro comportamento auto-destrutivo; 50% de crianças abusadas têm dificuldade na escola; 22% de crianças abusadas apresentam uma desordem de aprendizagem. Para o estado do Michigan, o custo por serviços de educação especial para vítimas de abuso infantil é de US$ 6,46 milhões. (CALDWELL, 1992) Sobre os custos de serviço protetores. Durante ano fiscal 1992, a despesa de Serviço de Proteção Total, na área de abuso de criança, foi de US$ 37,9 milhões. Durante 1991, eles receberam mais de 100 mil relatórios de abuso de criança e administraram mais de 50 mil investigações. Como mencionado antes, este trabalho substanciou quase 16 mil casos de abuso de criança, o que envolve 39.452 crianças. (CALDWELL, 1992) Uma estratégia usada é a colocação destas crianças em casas adotivas. São cerca de 7.101 crianças que ficam em cuidado adotivo, em média, por 7,68 meses, a um custo

1230 mensal de US$ 1,357 por criança. Michigan gastou US$ 74 milhões em colocação de cuidado adotivo para crianças afetadas por abuso, durante 1990. (CALDWELL, 1992) Em alguns estudos, quase 80% de todos os ofensores juvenis informam uma história de abuso em criança ou negligência. Porém, McCord, em 1983, estudou as conseqüências, a longo prazo, de abuso infantil e de negligência e observou que, aproximadamente, 20% de crianças abusadas estavam condenadas por crime juvenil sério. Lewis et al., em 1989, também concluiu que 20% era um número razoável, depois de uma revisão da literatura pertinente. É difícil calcular o custo deste envolvimento. Há pelo menos três sistemas diferentes envolvidos com crime juvenil: a polícia, os tribunais e a casa de correção. Enquanto nenhuma estimativa de custo estava disponível para os primeiros dois sistemas, durante 1991, o cumprimento comum de encarceramento em instalações residenciais juvenis era de 15 meses. O estado de Michigan gasta US$ 207 milhões anuais para encarcerar as crianças de lares abusivos, envolvidas em comportamento delinqüente juvenil. (CALDWELL, 1992) Durante o ano de 1970, vários estudos foram feitos para examinar a relação entre a delinqüência juvenil e o encarceramento de adulto posterior. É predito que 1.996 das 39.452 crianças do Michigan de casas abusivas virão a se tornar adultos que vão para o sistema de justiça criminal. A estimativa, baseada em cálculos complexos, é de que a criminalidade do adulto gerou custos a Michigan, provindos do abuso infantil, de US$ 174,65 milhões. (CALDWELL, 1992) Embora haja ampla documentação de que abuso de criança é associado com níveis mais altos de desajustamento psicológico, há poucos estudos que examinam a ajuda formal do sistema de saúde mental, entre vítimas de abuso. Por exemplo, um estudo feito por Scott, em 1992, verificou que as vítimas de abuso sexual na infância têm quase quatro vezes mais possibilidades de desenvolver desordem psiquiátrica, do que os que

1231 não sofrem abusos. Se as suposições sobre o uso destes serviços são corretas, o tratamento psicológico para vítimas de abuso de criança, em Michigan, custa US$ 16 milhões anuais. (CALDWELL, 1992) Somando os custos esboçados de rendimentos, a conclusão é que, durante um ano, em Michigan, mais de US$ 823 milhões foram gastos nas conseqüências, a curto prazo, de tratamentos pré-natais inadequados e abuso de criança. Este dinheiro vem de uma variedade de fontes, inclusive dos cofres estatais, de companhias privadas de seguro e de fundos pessoais. Este dinheiro poderia ser economizado ou ser colocado em outros usos, se os tratamentos pré-natais fossem adequados e pudessem ser providos e o abuso de criança pudesse ser prevenido. (CALDWELL, 1992) Existem programas pré-natais de visitas familiares, de educação de pais e de intervenções para deixar a criança menos vulneráveis ao abuso. Tais programas devem ter metas educacionais definidas em áreas como gravidez e parto, crescimento da criança, habilidades de maternidade e paternidade. São projetadas intervenções na criança para que seja menos vulnerável a abuso. Programas de prevenção de abuso sexuais que ensinam às crianças habilidades auto-protetoras são o tipo mais popular de programa nesta categoria. (CALDWELL, 1992) Em média, porém, os programas de visita a casas familiares eram muito caros (US$ 324 por família, entre 1990 e 1991, pelo MCTF), seguidos do programa de educação de pai (US$ 253 por família, entre 1990 e 1991, pelo MCTF) e intervenção em prol da criança (prevenção de abuso sexual baseada na escola) (US$ 2,14 por criança, entre 1987 e 1988, pelo MCTF). Estes números representam somente parte do custo destes serviços. Os custos totais para estes programas eram de US$ 950 para programa de visita domiciliar programada e US$ 473 para programas de educação de pai. (CALDWELL, 1992)

1232 Nas avaliações de efetividade, percebem-se algumas mudanças, em curto prazo, típicas em participantes de programa, e mudanças em incidência de abuso a crianças. Acredita-se que o envolvimento aumentado reduz a probabilidade de abuso de criança no futuro. Alguns pais abusivos tinham um conhecimento deficiente do

desenvolvimento da criança, em Dubowitz, 1986. (CALDWELL, 1992) Não foram concluídos os programas de avaliação da efetividade em Michigan, porém os realizados no estado do Kansas, Healthy Start in Kansas (Princípio Saudável em Kansas) mostraram diminuições significativas nas taxas de abuso de criança, entre certos subgrupos de participantes de programa. (CALDWELL, 1992) 6 - A Questão do Distúrbio da Tensão Pós-traumática O mais detalhado estudo sobre as causas de mudanças no cérebro tem sido feito no Centro Nacional do Distúrbio da Tensão Pós-Traumática, uma rede de locais de pesquisa com base em hospitais da Administração dos Veteranos, onde há grandes concentrações de pessoas que sofrem de PTSD (post-traumatic stress disorder). As experiências colhidas aí também se aplicam às crianças. Não importa se foi incessante terror de combate, tortura, repetidos maus-tratos na infância ou uma experiência única de quase morte. Toda tensão incontrolável tem efeito biológico. A palavra-chave é “incontrolável”. Se as pessoas sentem que podem fazer algo na situação, ela é menos devastadora do que se a pessoa se vê impotente perante ela. O elemento impotência é que dá o efeito subjetivo devastador, segundo John Krystal, diretor do laboratório de Psicofarmacologia do Centro. Quando a pessoa percebe que nada pode fazer para escapar de uma ameaça, neste momento, o cérebro começa a mudar. (KRYSTAK apud GOLEMAN, 1995)

1233 O medo que aparece na PTSD ocorre por mudanças nos circuitos límbicos que se concentram na amídala, segundo Denis Charney et al., em 1993. Algumas das mudanças chaves se dão no locus cerulus, uma estrutura que regula a secreção no cérebro de duas substâncias, chamadas catecolaminas: a adrenalina e a noradrenalina. Estas substâncias neuroquímicas mobilizam o corpo para uma emergência e também gravam lembranças com uma força especial. No PTSD este sistema torna-se hiperreativo, secretando doses ultra aumentadas de tais substâncias no cérebro, em situações que, aparentemente, não representam qualquer ameaça à vida, mas que, de algum modo, são lembretes do trauma original. (GOLEMAN, 1995) O locus cerulus e a amídala estão estreitamente ligados, junto com outras estruturas límbicas, como o hipocampo e o hipotálamo: os circuitos das catecolaminas estendem-se até o córtex. Mudanças nestes circuitos estão na base biológica dos sintomas de PTSD, os quais incluem ansiedade, medo, hipervigilância, fácil irritação e provocação, disposição para lutar-ou-fugir e indelével codificação de intensas lembranças emocionais. (KRYSTAL apud GOLEMAN, 1995) Outras mudanças ocorrem no circuito que liga o cérebro límbico é a glândula pituitária, que regula a liberação de CRF, o principal hormônio de tensão que o corpo secreta para mobilizar a resposta “lutar-ou-fugir”, numa emergência. As mudanças levam a uma supersecreção deste hormônio, especialmente na amídala, no hipotálamo e no locus ceruleus, alterando o corpo para uma emergência que, na verdade, não existe. (NEMEROFF apud GOLEMAN, 1995) Um terceiro nível de mudanças ocorre no sistema opiódico do cérebro, que secreta endorfinas para amortecer a sensação de dor. Também este sistema fica hiperativo. Este circuito neuronal também envolve a amídala, desta vez em combinação com o córtex cerebral. Os opióides são produzidos no cérebro e são poderosos agentes entorpecentes,

1234 como o ópio, seu parente, segundo Pitman, em 1990. Em conseqüência, surgem alguns sintomas como: entorpecimento para certas sensações, anedonia (incapacidade de sentir prazer) e um embotamento emocional generalizado, a sensação de estar isolado da vida ou do interesse pelos sentimentos dos outros. Ocorre também uma dissociação que incapacita estes pacientes de se lembrar de dias, horas e minutos cruciais do fato traumático, além do quê eles ficam mais susceptíveis a outras traumatizações. Ocorre que a amídala está preparada para funcionar como um alarme, porém no PTSD, ela reage a qualquer perigo concreto com um aumento intenso de volume de alarme. (GLOVER apud GOLEMAN, 1995) Judith Lewis Herman, em 1992, traçou quatro etapas para a recuperação de um trauma. Primeiro, alcançar o senso de segurança; segundo, lembrar os detalhes do trauma; em terceiro, lamentar a perda que ele trouxe à pessoa e, finalmente, restabelecer a vida normal. (HERMAN apud GOLEMAN, 1995) Bruce Perry e Maia Szalavitz, escreveram o livro The Boy who was raised as a dog (O menino que foi educado como um cão). Neste livro, eles relatam vários casos de PTSD e esta entidade nosológica só foi introduzida em psiquiatria nos anos 80. Em 2004, em uma estimativa isolada, três milhões de crianças foram abusadas, segundo relatórios oficiais de abuso ou negligência infantil, feitos por agências do governo de proteção à criança e, em torno de 872 mil destes casos foram confirmados. Mas o verdadeiro número é muito superior a estimativa de três mil, visto que a maioria dos casos nunca são reportados. Além do mais, acredita-se que 10 milhões de crianças americanas são expostas à violência doméstica, anualmente, e 4% destas crianças, com idade de 15 anos, perdem seus pais a cada ano. Cada ano, 800 mil crianças estão em orfanatos e milhões mais são vítimas de desastres de automóvel. O que quer dizer que, mais de oito milhões de crianças, na América, sofrem de sérios traumas e milhões mais

1235 experienciaram problemas menos sérios, de graves conseqüências. (PERRY e SZALAVITZ, 2006)
Eu não acredito em na “desculpa do abuso” para o comportamento violento e ofensivo, mas tenho encontrado a existência de uma complexa interação começando na infância, que afeta a habilidade para antever escolhas que mais tarde limitam nossa habilidade de tomar as melhores decisões. (...) Apesar da dor e do medo, as crianças neste livro, e muitas outras como elas, têm mostrado grande coragem e humanidade, e elas me dão esperança. Com elas aprendi muito sobre perda, amor e cura. (.) Para se entender trauma é necessário entender memória. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 6)

A autora desta tese escolheu três casos deste livro por sua importância e síntese, casos esses que retratam o que milhões de crianças passam hoje, seja pela violência, seja pela não competência dos Estados, ou a não presteza no cuidado que precisaria ser urgente, seja pelas conseqüências possíveis de abandono de filhos menores de idade, uma situação epidêmica. A autora vê que muitas destas jovens que têm filhos adolescentes são da geração em que as mães saíam para trabalhar, ou seja, elas já viveram a privação de contato e, inconscientemente, têm um filho para que a mãe, desta vez, cuide da “criança dela”. Neste momento, a mãe já está aposentada e, se assume a responsabilidade do neto como se fosse mãe, de certo modo, acaba por piorar a ferida da filha e deixa o neto emocionalmente órfão, pois a relação que se estabelece com a mãe verdadeira é de irmã mais velha implicante, enciumada daquele ser. A jovem mãe pensa que seu filho está recebendo amor de mãe, amor este que ela própria acha que não teve, e isto acaba por deflagrar uma situação onde acontece o abandono, seja em nome do estudo, ou de moradia em outro estado, ou como for. Mas a história se repete: a jovem abandona o bebê com a própria mãe, que, na maioria das vezes, pensa que assim a filha não será prejudicada. Quando a avó está presente na mesma casa, a criança, necessariamente, perde a mãe. Pois, enquanto mãe e filha (o) habitam o mesmo espaço, a velha hierarquia permanece, portanto, a criança não tem experiência de ter mãe. Na verdade, todos perdem. As causas da gravidez em adolescentes precisam ser atalhadas,

1236 pois a perpetuação deste ciclo de abandono e de se sentir mal-amado é extremamente grave. Este primeiro caso relatado em The Boy who was raised as a dog é um exemplo da distância de entendimento que a cultura tem sobre sofrimento infantil. Quanto mais jovem se é, menor é a possibilidade de elaborar o sofrimento, com os autores deste livro e toda a literatura moderna de neurobiologia, psicologia e psiquiatria infantil demonstram. Quanto mais cedo o trauma, mais graves as conseqüências. As idéias de que a criança suporta traumas melhor do que adultos, são idéias comuns vigentes, e não passam de uma invenção, que Post-Traumatic Stress Disorder (PTSD) (Desordem de Estresse Pós- Traumático) em criança é semelhante a trauma em adulto, não é real. É necessário mais cuidado e criatividade para se conseguir que a criança revele e elabore o trauma. O caso abaixo estava sendo passado a Perry e, a maneira como foi passado, se de um lado parece surreal, de outro, infelizmente, é absolutamente real é ainda comum neste estado de civilização em que nos encontramos. (PERRY e SZALAVITZ, 2006)
Sim, deixe-me entender isto novamente, eu disse, Uma criança de três anos foi testemunha de morte. Ela ficou sozinha com sua mãe morta, por 11 horas, em seu apartamento. Depois foi levada para o hospital, onde trataram do ferimento no pescoço. No hospital, os médicos recomendaram que ela fosse levada para uma avaliação mental e tratamento. Mas, depois ela foi liberada e colocada em um orfanato, como uma custódia do estado. Seu assistente social não achava que ela precisava ver uma profissional de saúde mental. Assim, apesar das recomendações médicas, ela não teve nenhuma ajuda. Por nove meses, esta criança tem sido mudada de orfanato para orfanato, sem psicólogo ou psiquiatra, ou seja o que for. E os detalhes da experiência da criança nunca foram compartilhados com a família adotiva, porque ela está se escondendo, Certo? - Sim, eu acho que tudo é verdade. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 6)

A menina estava num serviço de proteção a testemunhas, visto que o assassino da mãe queria matá-la e ela precisava ser preparada para ir para ao tribunal depor. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 6) Outra situação demonstra a falta de percepção da dor da criança, se ela é pequena. Em 1992, o fanático religioso David Koresh, da seita Davidiana, foi cercado por agentes

1237 do FBI, num demorado cerco, no Texas, que terminou em uma grande tragédia. Muitas crianças, que já eram tratadas de modo abusivo durante a existência da seita, após a invasão ficaram órfãs, pois quando o cerco teve fim, eram 80 mortos da seita, incluindo 23 crianças. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 6) B. Perry foi chamado para dar suporte às crianças sobreviventes que estavam sob proteção do estado. A maneira como foi recebido e o que revelou mostram o desconhecimento do que é dor infantil.
Quando eu cheguei, um dos guardas me parou na porta. Ele era alto, imponente com seu chapéu, o arquétipo da força coerciva do Texas. Ele não se impressionou com o homem de cabelos longos e calça jeans dizendo que era psiquiatra, que tinha vindo para ajudar as crianças. Até mesmo depois de eu ter estabelecido que realmente era o Dr. Perry, ele me disse que não gostava de doutores e, mais adiante, disse que essas crianças não precisavam de psiquiatra. “Tudo o que elas precisam era de um pouco de amor e sair dali o mais rápido possível”. (...) Eu disse a ele: Ok, você sabe tomar pulso? Eu dirigi sua atenção para uma menina próxima dormindo na cama. Eu disse que se o seu pulso estivesse menos que 100, eu daria a volta e iria embora para casa. O batimento cardíaco normal numa criança, na sua idade, é, em média, em repouso, entre 70 a 90 batimentos por minuto. Ele curvou-se gentilmente e pegou o pulso da menina e, em momentos, sua face ficou tomada por ansiedade. “Chamem um médico, ele disse”. Eu sou um médico”, eu repliquei. “Não, um médico de verdade”, ele disse, “O pulso da criança está em 160”. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 62-63)

O menino que deu nome ao livro foi uma criança cuja mãe tinha 15 anos, quando o deixou com sua mãe, permanentemente, com dois meses de idade. A avó, obesa, tinha muitos problemas de saúde e, quando ele tinha 11 meses, faleceu, depois de ter ficado internada por muitas semanas. O parceiro da avó tinha 60 anos e estava vivendo seu luto, e não conseguia dar suporte para aquela criança que tanto chorava. Ele chamou um serviço de proteção para crianças. Como não foi atendido, por total ignorância, entendeu de tratar o menino colocando-o numa caixa e de educá-lo como se educa um cachorro. Assim, o bebê precisava só ser trocado e alimentado, raramente o homem falava com o bebê. Aos dois anos, o menino tinha o diagnóstico de “encefalite estática”, o que significava dano severo ao cérebro, de origem desconhecida. Seu desenvolvimento deteriorava-se, não era capaz de andar ou de dizer qualquer palavra. A história não foi

1238 bem colhida e ele fez testes com alimentos. Seu cérebro foi escaneado, apresentou atrofia cortical com aumento dos ventrículos no centro. Na verdade, assemelhava-se ao de um paciente com Alzheimer: a circunferência craniana era 2% menor que o normal para sua idade. Os médicos acharam que o problema era de alguma lesão pré-natal ou defeito genético. Embora crianças institucionalizadas, que não são estimuladas, também tenham cabeça e cérebros pequenos, ele foi visto por muitos médicos, escaneado muitas vezes, e escaneado duas vezes, cromossomialmente. Aos cinco anos, o menino mostrava não ter feito nenhum progresso motor, comportamental, cognitivo ou de fala. Devido ao pessimismo dos médicos, nunca foi submetido a uma terapia de fala, fisioterapia ou terapia ocupacional e nenhum serviço social domiciliar foi oferecido ao idoso cuidador, pois ele nunca tinha tido um filho ou cuidado de uma criança em toda a sua vida, além de ter algum retardo mental. Finalmente, ele foi ter com Perry, que foi o primeiro a escutar sua história e acabou por internar a criança para um cuidado de vários profissionais e, duas semanas depois, ele foi encaminhado para uma família adotiva. Esta foi a maior recuperação de severa negligência acompanhada por Perry. Seis meses depois, a criança foi transferida do hospital para a casa dos pais adotivos. Dois anos, depois Perry recebeu uma carta dos pais adotivos: aos oito anos, Justin começara a freqüentar um jardim de infância e começara a ler e escrever, desenhava, ia de ônibus para a escola e havia, na carta de punho de Justin, um agradecimento a Perry. (PERRY e SZALAVITZ, 2006, p. 6) No campo da neurobiologia, as conseqüências do abuso sexual na infância já foram estudadas. Pesquisadores como Danya Glaser, em 2000, C. B. Nemeroff, em 1999, Bruce D. Perry, em 2000 e 2002, Alan Shore, em 2002, utilizando técnicas de neuroimagem e estudos psicofisiológicos que mensuram a função autônoma, a reação ao medo e a atividade elétrica cerebral, demonstraram o quanto o estresse em idade

1239 precoce pode ativar mudanças significativas no desenvolvimento cerebral. Tais pesquisas são concordes em que, tanto em modelos animais, como em humanos, o estresse excessivo determina alteração do sistema neuroendócrino, no eixo hipotálamopituitário-suprarenal (HPA – sigla em inglês) e em outros eixos neuroendócrinos e no funcionamento neuropsíquico, especialmente, catecolaminas, serotonina e outros neurotransmissores. (SANDERSON, 2005) Tem sido relatado que trauma sexual e abuso na infância podem ser as formas mais comumente encontradas, inerentes em nossa cultura, segundo Sirven e Glasser, em 1998. Trauma nos primeiros dois anos, como em qualquer período de vida, pode ser infligido no indivíduo pelo ambiente físico ou interpessoal. Porém, tem sido entendido que os estressores da capacidade social são mais prejudiciais, como descrito por Sgoifo et al., em 1999. SCHORE chama estes de “traumas relacionais”. (SCHORE, 2001a) Não há nenhuma síndrome de pós-abuso, os resultados variam devido a diversos fatores, inclusive natureza, duração e contexto interpessoal do abuso, como também a natureza de intervenção posterior. Ocorre então uma série de influências ambientais no desenvolvimento do cérebro, demonstrando a dependência do processo do neurodesenvolvimento e o ambiente da criança. Abuso de criança é uma potente fonte de estresse e de resposta exaltada às tensões. Hoje se entende que os efeitos cerebrais de abuso e negligência levam a uma desregulação no cérebro dos eixos hipotálamopituitário-adrenal, parassimpático e das respostas das catecolaminas. Recente evidência sobre redução no volume do cérebro de crianças violentadas e negligenciadas tem sido observada e percebem-se algumas mudanças bioquímicas, funcionais e estruturais no cérebro. Os mecanismos que provocam estas mudanças são menos claramente compreendidos e podem ser relacionados tanto para abuso em idade precoce, como crônico, assim como é afetado por negligência o processo de desenvolvimento do

1240 cérebro. A importância da intervenção cedo e da atenção para a cronicidade da adversidade ambiental pode indicar a necessidade de cuidadores alternativos permanentes para preservar o desenvolvimento das crianças mais vulneráveis. (GLASER, 2000) Foi realizado um estudo com ratos para ver o efeito na bioquímica cerebral, diante do afastamento da mãe, em período de amamentação. Evidenciou-se alterações endócrino-neuronais, assim como alterações no sistema nervoso autônomo e no sistema imune. Especificamente, ratos adultos masculinos, previamente isolados por seis horas, diariamente, de dois a 20 pós-natais, reagiam, bioquimicamente, de maneira distinta a um choque, se comparados a controles. Além disso, ratos privados de contato materno exibiram um aumento de 125%, em concentrações imunoreativas. Alterações no sistema hipotalâmico eram aparentes. Havia também alterações no sistema nervoso central e pituitário, depois de vários meses, provavelmente associadas com alterações persistentes nas respostas de comportamento dos ratos adultos. (LADD et al., 1996) O funcionamento anormal do eixo hipotálamo-pituitário-adrenal (HPA), um sistema de resposta para tensões críticas no mamífero, foi associado com respostas emocionais como ansiedade e depressão, como também com processos de comportamento e cognitivos, como agressão, aprendizagem, déficits de memória e inibição de resposta. Foi feita uma revisão que examina a evidência sobre a desregulação do eixo HPA, relacionado-o com abuso sexual na infância. Concluiu-se que o abuso à criança pode conduzir a rompimentos do funcionamento do eixo HPA e os fatores que influenciam são a idade do abuso, responsabilidade parental, exposição subseqüente a estressores, tipo de abuso e tipo de psicopatologia ou perturbação de comportamento influenciando na relação dos pais com filhos. (VAN VOORHEES e SCARPA, 2004)

1241 No abuso sexual na infância, a principal área lesada é o sistema límbico, composto por um sistema de núcleos cerebrais (centros neurais) interligados que desempenham papel central na regulação das emoções e da memória, particularmente, o hipocampo e as amídalas, ambos situados abaixo do córtex, no lobo temporal. O hipocampo é importante na formação e na recuperação de lembranças verbais e emocionais, fundamentais para a memória declarativa. Esta estrutura não se torna madura antes dos três ou quatro anos de idade. Os traumas experimentados por crianças pequenas serão lembrados de um modo diferente do trauma experimentado na idade adulta. E este é o motivo pelo qual as crianças pequenas, e mesmo sobreviventes adultos (33%), não têm lembrança ou a têm parcialmente, segundo Williams descreveu, em 1992. (SANDERSON, 2005) É o hipocampo quem avalia e classifica eventos recebidos, comparando-os com informações anteriormente armazenadas ou esquemas. A criança pequena ainda está desenvolvendo os seus esquemas, sendo incapaz de comparar, por sua experiência própria, e armazenar evento abusivo, principalmente pela ambigüidade do fato que é amoroso, porém, nocivo. A linguagem também é importante para a memória declarativa porque o sistema requer palavras para funcionar de maneira eficaz. Se uma criança é incapaz de dar um nome a algo, como ocorre no caso do abuso sexual, fica difícil armazenar a informação. Além disto, se a criança é incapaz de conversar sobre a experiência, pelo fato de ainda estar na fase pré-verbal, então, tanto a experiência, como o evento, não podem ser totalmente processados. (SANDERSON, 2005) As amídalas são essenciais para a criação do conteúdo emocional da memória, como sentimentos ligados a medo e condicionamentos relativos a medo e respostas agressivas. O abuso sexual precoce pode perturbar a maturação saudável do cérebro e, em particular, do sistema límbico, em razão dos níveis de estresse associados à

1242 sexualização prematura. Além disto, o estresse leva à secreção de hormônios suprarenais, como glicocorticóides, fundamentais em processos como lutar, fugir ou paralisar. Pesquisas mostram que uma exposição prolongada ou excessiva a glicocorticóides leva a um dano ou atrofia do hipocampo, segundo van der Kolk descreveu, em 1994. Isto pode exigir, nas terapias, uma verdadeira reprogramação para que se obtenha sucesso terapêutico. (SANDERSON, 2005) A ativação repetida do eixo hipotálamo-pituitário-supra-renal (HPA) pode lesar outros órgãos, gerando doenças relacionadas ao estresse. O impacto das respostas ao estresse cria problemas na regulação e na modulação das emoções, afetando a interação da criança com outras pessoas. Os efeitos cognitivos se fazem notar, assim como o desenvolvimento psicológico pode ser afetado na formação, armazenamento, consolidação e recuperação da memória. (SANDERSON, 2005) O abuso sexual infantil tem sido visto como distúrbio de estresse pós-traumático (post- traumatic stress disorder – PTSD), causando transtorno do déficit de atenção, hiperatividade anti-social e distúrbio de personalidade anti-social. Alguns destes problemas se manifestam logo na infância, porém, outros só vão se externalizar na vida adulta, sob a forma de depressão, abuso de drogas, auto-mutilação, distúrbios de personalidade limítrofe, distúrbios dissociativos e distúrbios dismórficos do corpo. (SANDERSON, 2005) De fato, a criança que apresenta um alto nível de ansiedade o qual em qualquer momento da vida pode ser reencenado. Quando a ansiedade interna se combina com a interrupção no funcionamento cognitivo, a criança fica impedida de desenvolver um sentido organizado do eu. A isto Fonagy, em 2002, chamou de “falha de mentalização”, pois inibe a auto-representação unificada e cria descontinuidade no desenvolvimento do eu da criança. (SANDERSON, 2005)

1243 Não foram poucos os autores, como Andersen e Phelps, em 2000; Burgess et al., em 1995; LeDoux, em 1994 e 1998; Pollack e Sinhá, em 2002; Teicher, em 2002; e Teicher et al., em 2002, que afirmaram que o estresse intenso ativa o sistema suprarenal e o cortisol, em particular, o eixo HPA, assim como o sistema noradrenérgico, o hipocampo, que é fundamental para o aprendizado e a memória. Krystal, em 1988, e Krystal et al., em 1995 e 1998, propuseram que os neuropeptídeos e os neurotransmissores liberados durante o estresse afetam os neuromoduladores, na função da memória no hipocampo e nas amídalas, e isto pode interferir no estabelecimento de aspectos da memória. Tais respostas ao estresse ativam respostas primitivas do tipo lutar, fugir ou paralisar para sobreviver. Um estresse grave desencadeia um fenômeno em cascata que pode alterar, de modo irreversível, o desenvolvimento do cérebro, em especial, durante períodos críticos sensíveis, como na primeira infância.

(SANDERSON, 2005) Programas de estresse induzido do sistema de resposta ao estresse glicocorticóide, noradrenérgico, vasopressina-oxitocina aumentam as respostas que geram um impacto na neurogênese de superprodução sináptica e mielínica primária, durante a primeira infância. A conseqüência disto é a redução do tamanho das proporções médias do corpo caloso, desenvolvimento atenuado do neocórtex esquerdo, do hipocampo e das amídalas, atividade elétrica fronto-temporal anormal e atividade funcional reduzida da parte média do cerebelo, proporcionando um quadro neurobiológico que faz com que abusos sexuais e outros, sofridos nos três primeiros anos de vida, aumentem o risco de distúrbio de estresse pós-traumático, depressão, sintomas de déficit de atenção e de distúrbios dismórficos do corpo e abuso de substâncias. (SANDERSON, 2005)

1244 A oxitocina e a vasopressina têm importante função nos padrões de regulações em complexos comportamentos sociais e estão ligadas à fisiologia do vínculo e presentes na patofisiologia de desordens, como o autismo e inabilidade social. (INSEL, 1997) A exposição ao estresse grave nos três primeiros anos de vida gera efeitos moleculares e neurobiológicos que agem sobre o desenvolvimento neuronal de tal modo que cria condições de adaptação para que aquela criança venha a sobreviver e se reproduzir num mundo perigoso. (SANDERSON, 2005) Nemerhof, em 1999, declarou que o estresse precoce resulta na persistente sensibilização dos circuitos do sistema nervoso central, integralmente envolvidos na regulação do estresse e da emoção. Substratos subjacentes aumentam a vulnerabilidade ao estresse, à depressão e à ansiedade, induzindo, deste modo, a uma enorme reatividade de corticotropina de longa vida, liberando sistemas de fatores e alterações em neurotransmissores. O aumento da resposta ao estresse faz com que o sistema regulatório emocional seja afetado, o que pode ser responsável por efeitos de longo prazo, observados em crianças e adultos, incluindo a violência, que acaba sendo transmitida transgeracionalmente. (SANDERSON, 2005) O abuso sexual na infância também tem impacto na regulação da emoção, segundo Forrest, em 2001, o estresse nos três primeiros anos de vida afeta a interação entre criança e seu cuidador, gerando inibições laterais entre subsistemas de autorepresentação conflitantes, que são integrados a um sistema unificado, gerando uma descontinuidade na organização do eu. Tal falha resulta em catastróficas ansiedades internas na criança, que podem ser inconscientemente reencenadas. Assim o impacto do abuso sexual nas crianças está sendo visto cada vez mais como seguindo o modelo do distúrbio de estresse pós-traumático, que foi originalmente descrito para diagnosticar conseqüências de trauma de guerra, porém, diversos autores, perceberam a similaridade

1245 de efeitos das duas nosologias, como Benedek, em 1985; Courtois, em 1988; Danaldson e Gardner, em 1985; Eth e Pynoos, em 1985; Finkelhor, em 1986; Gil, em 1988; Goodwin, em 1985; Lindberg e Distad, em 1985. (SANDERSON, 2005) A síndrome de estresse pós-traumático caracteriza-se por:
o desenvolvimento de sintomas típicos subseqüentes a um evento psicologicamente estressante que está fora do leque de experiências usuais humanas que seriam motivo de sofrimento para praticamente qualquer pessoa, e é usualmente experimentado com medo intenso, terror e impotência. (APA apud SANDERSON, 2005) Para se fazer o diagnóstico, alguns dos critérios precisam estar presentes: 1. A experiência de um evento traumático que geraria sintomas de sofrimento na maioria dos indivíduos, como uma séria ameaça à vida de uma pessoa ou à sua integridade física, ou à de uma pessoa a quem ela é apegada. 2. Uma persistente re-experimentação do evento traumático por meio de: a) lembranças recorrentes e intrusivas; b) sonhos recorrentes em que aparece o trauma; c) sentimentos súbitos de que o evento é recorrente, incluindo ilusões, alucinações, dissociação e flashbacks; e d) sofrimento diante da exposição a traumas que simbolizam o evento traumático ou que se assemelham a ele. 3. Fuga persistente de estímulos associados ao trauma, incluindo adormecimentos de resposta, como indicado por, pelo menos, três dos seguintes itens: a) fuga de sentimentos ou de pensamentos associados ao trauma; b) fuga de atividades ou situações que provocam a lembrança do trauma; c) amnésia psicológica; d) interesse diminuído em atividades significativas; e) sentimentos de desapego ou de estranhamento em relação aos outros; f) leque restrito de afeto (emoção) como a incapacidade de experimentar sentimentos de amor; e g) perspectiva de futuro diminuída. 4. Persistentes sintomas de excitação aumentada, como indicado por dois dos seguintes fatores: a) dificuldade para pegar no sono ou para dormir; b) irritabilidade ou ataques de raiva; c) dificuldade de concentração; d) hipervigilância; e) reação de susto exagerada; e f) reação fisiológica quando exposto a acontecimentos que simbolizam aspectos do evento traumático ou que são semelhantes a ele. (SANDERSON, 2005, p. 187 a 189)

Pesquisas documentam que a desorganização em crianças de 12 a 18 meses está ligada às estratégias de vínculo, segundo Lyons-Ruth, Alpern e Repacholi, em 1993. Na realidade, este intervalo é um período crítico para a maturação, dependente de experimentação nas áreas órbito-frontal do córtex. (SCHORE, 2001a)

1246 Perry et al., em 1995, mostraram que ambientes traumáticos na vida precocemente induzem a padrões atípicos de atividade neural, interferindo na organização de áreas cortico-límbicas, chegando, em particular, às funções do cérebro mediano, que são funções de vínculo, empatia, cuja regulação fica afetada. Estas e muitas outras funções são mediadas pelas áreas fronto-límbicas do córtex e, por causa da deficiência orgânica nelas, as perturbações afetivas são um carimbo do trauma precoce. Teicher, em 1996, fornece relatos de que as crianças que sofreram abuso físico e sexual cedo apresentam anormalidades de EEG em área fronto-temporal e regiões de cérebro anteriores. Teicher conclui que aquela tensão altera o desenvolvimento do córtex pré-frontal e impede que uma capacidade completa de adulto seja alcançada. (SCHORE, 2001a) Mas não somente o abuso causa isto. A simples colocação de crianças nos centros de cuidado, durante o dia, como creches, na faixa etária precoce, tem o mesmo efeito. O estresse da separação da mãe é tal que ativa o eixo hipotálamo-pituitário-adrenal, acelerando os hormônios de luta-fuga e, na criança, o desenvolvimento disto significa empatia lesada, córtex pré-frontal alterado e vínculo desorganizado. Estas crianças acabam por desenvolver insegurança, evitação de vínculo ou desordens da capacidade de formação de vínculo. (BRANDTJEN e VERNY, 2001) A organização pós-natal do cérebro tem um padrão bem específico e sua progressão pós-natal reúne os circuitos límbico-autonômicos, segundo Rinaman, Meloy, Bihrle, Stoddard, Laçasse e Bachsbaum, em 2000. Durante um período crítico de crescimento de regiões cerebrais, fatores genéticos se expressam numa superprodução inicial de sinapses. Isto é seguido por um processo dirigido pelo meio que mantém a organização das conexões sinápticas e a organização de circuitos funcionais. Este processo de organização genético-ambiental de uma região do cérebro é dependente de energia, segundo Schore, em 1994, 1997 e 2000, e pode ser alterado, especialmente

1247 durante o crítico período de crescimento. A construção de instabilidade no desenvolvimento, descrita por Moller e Fralde, em 1997, tem sido invocada para compreender a expressão imprecisa, no plano genético, do desenvolvimento, como são exemplo as mutações e efeitos ambientais de toxinas. Alan Schore sugere o que chama de fatores psicotóxicos, os quais agem, dentro do contexto de traumas relacionais precoces, como indutores de instabilidade de desenvolvimento, contribuindo nas alterações de lateralização cerebral, segundo Yeo, Gangestad, Thomas, Shaw e Repa, em 1997, e como um fator de vulnerabilidade na etiologia de desordens do neurodesenvolvimento, segundo Yeo et al., em 1997. (SCHORE, 2001a) Sabe-se que a tensão do estresse causa oxidação que danifica estruturas lipídicas, protéicas e de ADN, segundo Liu et al., em 1996, inclusive o ADN mitocondrial, como foi observado por Bowling, Mutisua, Walker, Price, Cork e Beal, em 1993, por Schinder, Olson, Spitzer e Montal, em 1996, e por Schore, em 1997. O estresse aumenta a excitação de aminoácidos, como o glutamato, no córtex pré-frontal, segundo Moghaddam, em 1993, e estas excito-toxinas podem destruir neurônios na região orbito-frontal, segundo Dias et al., em 1996. (SCHORE, 2001a) 7 – Dados de Psico-História O que esta nova ciência vem ensinando abre um novo entendimento da trajetória do ser humano. Na verdade, o que a Ciência do Início da Vida propõe é que as crianças sejam desejadas, amadas e cuidadas de um modo como nunca aconteceu na humanidade, até porque, os adultos não tinham consciência e elas sempre permaneceram não vistas. Assim, crianças eram escravas sexuais, em larga escala, no século IV d. C. e tal prática só começou a diminuir na Idade Média. (GRILLE, 2005) Em antigas culturas, mesmo antes da Idade do Gelo, nas sociedades primitivas era praticado o infanticídio em escala de 15% a 50%. (GRILLE, 2005)

1248 Estudos antropológicos feitos por De Mouse revelaram que a prática de infanticídio realizada em Papua, da Nova Guiné, era praticada pelas próprias mães. (De MAUSE, 1999). Entre vários povos: os Ijaw, na Nigéria, matavam gêmeos ao nascer; a tribo brasileira dos Yanomami, durante guerras, assassinavam crianças; na Polinésia, tal prática estava associada a rituais, e também no Hawai, no Tahiti, em Bali, e mesmo na Grécia ou Roma Antigas; entre árabes pré-islâmicos isso era comum; na China, na dinastia do século XVIII, era direito do pai matar a “filha desonrada”, assim como na Roma Antiga; em terras germânicas, até o século VIII, crianças ilegítimas eram mortas ou abandonadas. Esta prática parou só com a reforma Luterana; na França foi a intervenção da Igreja que proibiu as práticas de abandono e abuso sexual nas crianças, no século XII. (GRILLE, 2005) O filicídio, ainda hoje, é praticado. Considera-se mais provável que seja um filho primogênito, prematuro, e nos primeiros dias de vida. Overpeck et al., em 1998 e 1999, estudando filicídio nos Estados Unidos, atribuem a esta causa 1/3 das mortes dos bebês. O assassinato naquele país sofreu um aumento, entre 1983 e 1991, quando se identificaram 2.776 homicídios de menores de um ano, 5% dos quais ocorrido no primeiro dia de vida, 95% nasceu em hospital. (GUERRERO, 2006) Em muitas culturas, o infanticídio era prática religiosa: Hebreus Antigos, Fenícios, Cartagineses, Knossos, Spartanos, Stonehenge (celtas), Astecas, Maias, Incas, Mupuche (no Chile), na Nigéria, no Zimbabwe, na Índia, China. (DeMAUSE, 2001; GRILLE, 2005) Mutilações, especialmente genitais, mas não apenas: na Polinésia; entre alguns nativos da América do Norte; entre Judeus, até hoje; no Antigo Egito, a castração de meninos não era rara; na Idade Média, na Itália e, até mais tarde, os castrados usados em

1249 canto lírico até pouco mais de um século; na China; Índia; entre os Astecas, que mutilavam a genitália de meninos e meninas; em Papua Nova Guiné. Na verdade, a prática da mutilação genital em crianças foi universal. (GRILLE, 2005) Crianças foram escravas e abusadas psicologicamente na civilização hebréia, na Grécia Antiga, onde mesmo Platão e Aristóteles advogavam tal prática em pré-púberes. Na Roma Antiga, entre os Sumérios, Persas, Chineses, Japoneses, Indianos, Astecas, Mesopotânios, Celtas, Egípcios, Etruscos, Cartagineses. Na Índia, a prática do casamento entre crianças só foi proibida por lei em 1929, mas ainda se pratica. Em muitas ilhas do Pacífico, tanto incesto materno como paterno não eram raros. Na Europa, até o século XV, a violência sexual contra crianças não era caso para tribunais. Hoje, entre molestados sexualmente no mundo, as cifras são de uma a cada quatro crianças, sendo 60% meninas e 45% meninos. Ainda há milhões que são escravos ou estão no comércio sexual ou outros. (DeMAUSE, 1991, GRILLE, 2005) Até o século XVIII, em Paris, 20% a 25 % das crianças eram abandonadas, sendo que 1/3 ocorria na classe média. Tal prática também ocorria em outras cidades européias. (GRILLE, 2005) Sobre as amas de leite. Desde tempos imemoriais, mulheres rejeitavam esta forma de intimidade e, desde muito, as amas de leite pagas existem, como já diz citação bíblica. Já existe referência a este respeito no Código de Hamurabi, em torno de 1.750 a.C. Em todas as antigas religiões, no hinduísmo, no islamismo, nos países nórdicos, pela Europa, era prática recomendável. As amas moravam, às vezes, em vilas longínquas, e no transporte, por exemplo, na França, 15% delas morriam. Tal mortalidade ocorria em outros países da Europa. Em um estudo de 57 sociedades, feito por Dan Raphael, em 1992, viu-se que apenas em nove sociedades as mães amamentavam seus filhos. No século XVIII, o pediatra inglês William Cadogan ao

1250 observar que as crianças amamentadas por suas mães eram mais saudáveis, começou a incentivar a prática, mas a prática da ama de leite só desapareceu no final do século XVIII, na Inglaterra e América, no século XIX, na França e Itália, e no século XX, na Alemanha. (GRILLE, 2005) A limitação de trabalho, pela primeira vez foi lei na Inglaterra, em 1802, no Factory Act (Ato das Fábricas) que limitava o trabalho infantil a 12 horas por dia, e parece que a legislação não era cumprida. (GRILLE, 2005) Uma prática universal era a de enfaixar as crianças, como múmias. Isto aconteceu entre judeus, gregos, romanos, na Idade Média, em grupos na América, no leste europeu, na área rural do Japão. (GRILLE, 2005) Pesquisas revelam que animais imobilizados desenvolvem úlcera péptica e a imobilização em animais, duas horas por dia, é suficiente para causar-lhes lesões cerebrais. Tal prática aumenta medo, raiva e violência. Em crianças, mantê-la atada por um prolongado tempo, resulta em retardo motor e social, queda de oxitocina no organismo – o hormônio do sentimento amoroso –, aumento dos níveis de cortisol. Também aqui o pediatra William Cadogan se pronunciou contrário à prática. (GRILLE, 2005) Na Renascença, as meninas eram responsabilizadas por seduzir homens adultos, entre os séculos XVI e XVII. (GRILLE, 2005) A idéia de amor de família e de amor materno só surge na literatura, na França, no século XVIII. (GRILLE, 2005) No século XIV, na Europa, a criança era vista como um ser diabólico que precisava ser adestrado para adquirir a forma humana. Nesta época, surgem os manuais que sugerem punições para conseguir efeito “humanizador” sobre as crianças. Os pequenos eram imobilizados, com freqüência, e isto continuou por muitos séculos.

1251 Mesmo no século XVIII, a prática dominante na Europa era o brutal espancamento. (DE MAUSE, 2006a) Quando o casamento arranjado acabou na Europa passou a existir uma centelha de amor nos lares, e as crianças, nascidas a partir daí, eram tratadas com mais cuidado. Houve uma queda no abandono de crianças. Por outro lado, começou-se a notar crianças como seres em desenvolvimento, e não somente um ser utilitário. Neste período, começaram as exigências educacionais punitivas, pois as crianças precisavam ser rigorosamente adestradas e limpas. Entra, então, a prática dos enemas, a proibição da masturbação, o requinte de aparelhos e substâncias. O filósofo John Locke, dentro da era Vitoriana, começa a falar contra a prática de castigos tão fortes. Rousseau seguiu acompanhando esta linha, observando que as crianças que não eram atadas cresciam mais robustas. Cadogan escreveu um artigo que era um ensaio de cuidados das crianças, desde o nascimento até os seus três anos de vida. Apesar dos enemas terem virado uma prática em muitos países, uma outra visão começava a surgir e Rousseau, em seus trabalhos, começava a pregar o contrário da linha idéia, então dominante, de que a criança tinha parte com o demônio, que era um ser essencialmente mau, e que precisava ser purificado e posto sob rígidas condições de disciplina. Rousseau começa a dizer que as crianças são boas, uma idéia nova a surgir no século XIX. (GRILLE, 2005) O trabalho escravo foi erradicado pelo Factory Act (Ato das Fábricas) de 1874, na Inglaterra, mas só foi implementado em 1880 e, mesmo assim ainda havia um milhão de jovens, entre 10 e 15 anos, trabalhando, até 1880. Nos Estados Unidos o trabalho escravo foi abolido em 1938. Segundo a The International Labour Organization (Organização Internacional do Trabalho), em 2002, estimava-se que 110 milhões de crianças, abaixo de 15 anos, ainda trabalhavam sob duras condições no mundo e 25 milhões ainda faziam trabalhos forçados. (GRILLE, 2005)

1252 O vitorianismo chegava a fazer vítimas mortais na tentativa de controlar a genitália infantil. Muitas crianças morreram de tais práticas na Europa e nos Estado Unidos, onde as proibições sobre masturbação só caíram nos anos 50. Claro que tanta preocupação tinha uma contrapartida que era a prática de abuso sexual em crianças pequenas, muito disseminadas, pois era entendido que uma criança de até cinco anos não podia se lembrar de nada, portanto, podia ser molestada sem problemas. A prostituição infantil, em cada grande centro europeu era comum, por exemplo, em média, um prostíbulo tinha 60 crianças em Viena, mais de 50% das prostitutas não registradas eram crianças, ainda no século XIX. (GRILLE, 2005) A Sociedade Protetora dos Animais nasceu primeiro, entre 1865 e 1870, na França, e só em 1895 é que surgiu, na Inglaterra, a Sociedade Protetora das Crianças. Os primeiros playgrounds urbanos aparecerem em 1885. Em 1912 é criado, nos Estados Unidos, um Departamento para Assuntos da Criança. (GRILLE, 2005) Em 1866, aparece o primeiro manual encorajando os pais a participarem da educação dos filhos, escrito por Gustave Droz, na França, Monsieur, Madame et Bébé (Pai, Mãe e Bebê). (GRILLE, 2005) A percepção das necessidades das crianças é matéria de estudos recentes, o que justificou, até mesmo, o aparecimento de legislação sobre o assunto, como demonstram as leis: só em 1908 na Inglaterra é que o incesto passou a ser considerado delito criminal. (GRILLE, 2005) Em 1948, as Nações Unidas formulam a Declaração dos Direitos Humanos, e em 1957, a mesma entidade produziu a Declaração dos Direitos da Criança. Só em 1969, a Suprema Corte Americana declarou que a criança era uma “pessoa”, perante a Constituição Americana, pois, até então, os pais tinham direito de proprietários sobre ela. Em 1989, a Convenção de Direitos da Criança passou na Assembléia das Nações

1253 Unidas. Todos os países ratificaram, exceto os Estados Unidos e a Somália. Este documento reconhece que toda criança é livre para pensar e falar e os estados signatários comprometem-se a tomar diretrizes para coibir a exploração sexual e econômica na infância. O documento também estipula que crianças não podem ser condenadas a pena de morte ou prisão perpétua, por ofensa imputada a adulto, e isto ocorre em alguns estados dos Estados Unidos, um dos cinco países onde este tipo de lei existe. (GRILLE, 2005) O Dr. Spock, que foi, por mais de uma década, o grande orientador de diretrizes pediátricas que passaram das fronteiras americanas, entendia que a amamentação materna era necessária, embora o leite materno, segundo ele, fosse “fraco”. Spock orientava que não se deveria dormir junto da criança, que não fazia mal uma criança chorar por 20 minutos, e que o medo e a dependência deveriam ser combatidos. Vínculo não era questão discutida, e esta visão influenciou gerações, até hoje. (GRILLE, 2005) Em 1956, surge a La Leche League (A Liga do Leite), uma organização, sem fins lucrativos, que combate a desinformação sobre os benefícios da amamentação materna. Num relatório da OMS, em 2004, a instituição informa que um milhão de bebês morrem no mundo por amamentação inadequada. (GRILLE, 2005) Em 1960, John Bowlby desenvolve a Teoria do Vínculo que antecipou conhecimentos sobre imunologia, envolvimento do vínculo no padrão de conduta adulto e na qualidade de saúde da criança. (GRILLE, 2005) A psico-história ensina quatro mensagens: 1 – Cada problema, em cada parte do mundo, necessita, primeiro, de que se saiba como as crianças daquele lugar foram tratadas. 2 – Cada povo pode ser guerreiro ou pacífico, e isto não é genético, mas tem base em como as crianças daquele lugar se desenvolveram.

1254 3 – O autoritarismo patriarcal educa, em qualquer país ou etnia, a predispor crianças a se tornarem adultos dispostos à violência. 4 – Legislação e medidas políticas não podem, sozinhas, alterarem uma sociedade ou cultura. Isto só pode ser feito através da educação das crianças. (GRILLE, 2005) Os antropólogos John e Shirley McConahy, em 1977, conduziram estudo comparativo de 17 culturas e verificaram que quanto mais rígidos os papéis de gênero, mais violenta era a cultura. Estudo feito por Prescott, também intercultural, confirmou os mesmo achados. Esta família de fortes papéis definidos é também a que tem mais risco de incesto. (GRILLE, 2005) Dos exemplos recentes, um é o da Yugoslávia, onde a geração que foi pivô da guerra dos anos 90, foi também criada em família de rígida estrutura patriarcal, e que moravam juntas nas zadrugas (casa do patriarca). As famílias se agregavam, nestas casas, segundo a linhagem paterna, como casa de cômodo. As mulheres não tinham nenhum papel relevante e eram espancadas, as crianças oprimidas, a idéia de bebês como contendo algo do “mal” existia e baniu-se a aceitação de que qualquer criança pudesse ser espancada, e o parto era ignorado e esperava-se que a mãe, logo após parir, continuasse a viver como se nada houvesse acontecido. Conseqüentemente, em algumas partes da Bósnia e da Macedônia, a mortalidade materna chegava a 50%. Mas, famílias eslavas mudaram estas práticas e começaram a achar os patriarcas obsoletos, e criaram leis que proibiam o espancamento de crianças por seus pais, na Croácia. Esta história foi levantada por uma jornalista que entrevistou famílias em 300 cidades da Yugoslávia e levou seu material para uma psicanalista, Vera Stein Erlich, que escreveu livro Family Transition - A Study of 300 Yugoslav Villages (Transição Familiar - Um estudo de 300 Cidades Yugoslavas). Uma nova geração surgiu naquele país e, em apenas uma geração, este grupo lidou com o conflito de deposição de seu ditador de forma pacífica. Padrões

1255 autoritários familiares levam as políticas autoritárias coletivas em estados. (GRILLE, 2005) Sobre a História do Nazismo. No final do século XIX, a mortalidade mais alta da Europa era a da Alemanha e lá havia uma distinta preferência por meninos. As meninas eram maltratadas, as amas de leite ainda eram uma prática que havia sido abandonada na França, há 200 anos, aquela geração que foi os braços e pernas de Napoleão. Na Alemanha, um pediatra que virou conselheiro dos pais, tal como o Dr. Spock, chamavase Dr. Daniel Gottieb Moritz Schreber, que segundo a historiadora Maria Piers, era um consumado sádico e foi o formador da geração “Gestapo”. Ele aconselhava não somente a atar as crianças, mas também a amarrar-lhes nas bocas pano contendo sopa e, de preferência, não tocá-las. Quando elas estivessem ainda maiores, ele sugeria que os pais deveriam comer e beber algo de que a criança gostasse na frente delas, mas negar-lhes sistematicamente, pois a privação fortalecia o caráter. Este tratado foi a Bíblia dos pais por um bom tempo, chegou a ter 40 edições. Outro livro que teve peso foi um de orientação pedagógica The German Mother and Her First Child (A Mãe Alemã e sua Primeira Criança), escrito pela médica Johanna Haarer, que cultuava a obsessão por obediência, pois as crianças eram sujas por natureza e o sistema de purificação deveria ser estabelecido logo após o nascimento. Ela advogava que os bebês deveriam ser separados de suas mães, tão logo nascessem, e assim, por 24 horas. Por volta da virada do século XX, o índice de suicídio na Alemanha era três vezes maior do que no resto da Europa e a causa mais comum era pavor de castigo dos pais. Esta geração estava psicologicamente preparada para aceitar o nazismo. (GRILLE, 2005) Um estudo escrito por Samuel e Perl Olinder que entrevistaram 400 indivíduos do mesmo nível socioeconômico e cultural, que tinham, durante a guerra, posto suas vidas em risco para ajudar famílias judias, e compararam com um grupo que, mesmo não

1256 sendo nazista, não conseguiu este altruísmo. Depois de questionários onde nada diferia, os pesquisadores encontraram um ponto. Os que ajudaram não tinham sido amarrados quando bebês, nada mais distinguia estes dois grupos. Todo genocídio é conseqüência direta de uma sociedade em guerra contra crianças. No ano 2000, o parlamento alemão proibiu castigos corporais como forma de punição às crianças. A Alemanha é uma das 13 nações que decretou tal interdição. (GRILLE, 2005) Sobre nas histórias pessoais dos ditadores. Hitler, que era diariamente espancado por seus pais até mais de 200 vezes ao dia a ponto de entrar em coma muitas vezes, desenvolveu uma técnica para suportar a violência, pela qual contava as pancadas ao invés de sentir as dores. Mão Tse-Tng, outro que foi vítima de extrema brutalidade paterna, acabou que, mais tarde, perpetuou a morte de 30 milhões de chineses. Saddam Hussein havia sido concebido desejado, mas durante a gestação a mãe perdeu o marido e o filho. Ela tentou suicídio e, depois tentou abortá-lo, batendo com uma porta contra a própria barriga. Acabou por rejeitar sua criança depois de nascida e Saddam Hussein foi criado por um tio. Voltou para a mãe com três anos, foi física e mentalmente abusado por seu padrasto e, quando fica um pouco mais velho, volta para a casa do tio, um ultranacionalista. (GRILLE, 2005) O castigo corporal nas escolas permaneceu por muito tempo. Foi banido no Uruguai, em 1876, que foi também o primeiro país da América do Sul a promulgar o sufrágio universal em 1932, assim como o seguro desemprego, aposentadoria, jornada de trabalho de oito horas, em 1916, férias remuneradas e assistência médica subsidiada. Ainda hoje, 22 estados nos Estados Unidos permitem punição corporal em escolas. Um estudo verificou que entre 57% e 90% dos pais americanos espancam seus filhos, cerca de 80% dos franceses, 92% Irlandeses. (GRILLE, 2005)

1257 Estudos como os de Elizabeth Gershoff, em 2002; Maurer e Wallerstein, em 1987; Muller, Hunter e Stollak, em 1995; Dubow, Huesmann e Eron, em 1987; Waletrs e Grusec, em 1977; Bandura, em 1973; Baron, em 1977; Berger, Knutson, Mehm e Perkins, em 1988, Knutson e Selner, em 1994, estudaram as conseqüências para a perpetuação do ciclo de violência que se repete como uma imagem de espelho que, irrevogavelmente, copia o que nela se espelha. (GRILLE, 2005) A Suécia foi o primeiro país do mundo a ter a lei que igualou salários femininos e masculinos. Há muito tempo este país adotou hábitos de cuidado com crianças, há 200 anos tem um dos mais baixos índices de homicídios do mundo. A escola fundamental iniciou, em 1842, ano da mais baixa taxa de mortalidade infantil, em 1979, promulgou o Código para Crianças, segundo o qual, elas não podem sofrer castigos físicos ou passar por atos de humilhação. A morte de crianças por homicídio é zero, há 15 anos. Desde 1979, o crime juvenil começou a cair, assim como álcool na juventude e drogas também. Em 1998, a licença-maternidade passou a ser de 450 dias. (GRILLE, 2005) Em 2004, 12 países proibiram castigos corporais em criança: Finlândia, em 1983; Noruega, em 1987; Áustria, em 1989; Cyprus, em 1994; Dinamarca, em 1997; Latvia, em 1998; Croácia, em 1999; Alemanha, em 2000; Israel, em 2000; Islândia, em 2003; România, em 2004, e Ucrânia, em 2004. (GRILLE, 2005) Outros estão em vias de colocar tal proibição: Canadá, Reino Unido, Irlanda, Bélgica, Itália, Espanha, Suíça, Coréia, Nova Zelândia, Ilhas Fidji e Haiti. (GRILLE, 2005) 8 – Pedagogia para o Bom Desenvolvimento Carl Gustav Jung entendeu a importância dos primeiros anos de vida, e hoje mais e mais educadores e pesquisadores concordam com isto. (JUNG, 1984, 1981b) Na verdade este é o tempo de filhote do ser humano. Todas as espécies que habitam este

1258 planeta têm suas vidas calculadas por fatores aplicáveis, seja pelo tempo de desenvolvimento do seu esqueleto, ou da menarca da fêmea. Repara-se que pode haver alguma diferença entre um cálculo ou outro, mas, no menor dos cálculos, o ser humano deveria viver 120 anos. Ele é a única espécie que não cumpre seu ciclo biológico natural, bem provavelmente, porque é o único que tem tal descuido para as necessidades de seus filhotes, além de atrapalhar bastante seu modo de nascer. O tempo de filhote de uma espécie é percebido pelo tempo que um ser é capaz de sobreviver sem ajuda dos pais. Já foram encontradas, na natureza, crianças sozinhas por um tempo, sobreviventes de catástrofes, com quatro anos de idade. No entanto, de três anos para baixo, isso não ocorre. Então, o filhote humano é o único dos filhotes mamíferos abandonado, devido a um errôneo entendimento de que o seu tempo de “independência” é mais cedo. Nossa sociedade nunca viveu o tempo que deveria como espécie, nunca também cuidou de seus filhotes como eles precisavam ser cuidados. Agora, a ciência alerta sobre o que se deve fazer para ter saúde, o que necessita ser feito pelas crianças até, no mínimo, os três primeiros anos de vida. Agora urge informar e escolher um melhor destino para a humanidade. Este é o objetivo da Ciência do Início da Vida. A psico-história ensina que, nunca antes, a humanidade conseguiu olhar, de fato, a criança. As datas de reconhecimento de que são merecedoras de cuidado são recentes, na História. Pode-se dizer que, da década de 40 para cá, o ser humano começou a prestar atenção a si mesmo, de maneira mais coletiva. Culturalmente falando, o domínio de conhecimentos psicológicos passou a ser mais universal. E depois de quase um século do desenvolvimento das ciências humanas, elas praticamente tornaram-se, em seus conceitos, pilares, acessíveis ao grande público. Os livros de auto-ajuda, sempre muito vendidos, refletem um interesse cada vez maior de o cidadão comum querer compreender a si mesmo, deixou de ser prática das sociedades especiais.

1259 Na virada do século XX, e na primeira década do século XXI, tornou-se profusa a literatura sobre a criança, ainda que quase restrita ao meio científico. Não se pode deixar de considerar que, neste momento, o ser humano está sendo capaz de descobrir sua criança interior, está sendo capaz de visualizá-la fora. Esta tese serve ao propósito de tornar-se um instrumento na tarefa de universalização do conhecimento sobre a criança, desde sua concepção, suas necessidades, pois ela é o alicerce da saúde física, mental e espiritual do indivíduo adulto. É fundamental entender o tempo em que a criança precisa de cuidado diretamente provindo da mãe e do pai. Na verdade mãe e pai são uma díade que corresponde, na mente da criança, a deus. Ambos têm papel importante e a quebra desta díade, antes dos três anos, é catastrófica, lesa a própria fé na vida. Toda separação é vista pela criança como abandono, que a leva a estabelecer um julgamento ruim a seu próprio respeito, o que termina por acompanhá-la pela vida. (JUNG, 1984, 1981b,1982) A autora viu o que Jung falava sobre “a fé de ver os pais como deus” – juntos formam a imagem de deus - e o sistema de crença que a criança define para si, em tenra idade. A criança credita a si a responsabilidade tanto da morte, como da separação dos pais, o que implica em perda maior, além da perda da convivência. O modo como isto se dá revela que ela não tem a organização de ego completa, tanto que fala de si na terceira pessoa do singular, pois, de certo modo, está fundida aos pais, irmãos, e também porque projeta na díade pai-mãe a figura de deus. E, se “deus” fez algo como ir embora, é porque ela não foi boa, não é essencialmente digna de amor, afinal, deus não pode estar errado. Se ele decidiu ir embora, ou maltratar, ou o que for de negativo vivido pela criança, pode ser que a dissolução desta crença demore muito a se dar, talvez a vida toda, com um alto custo para o indivíduo.
“Ser bom é ser amado pela própria mãe; como sua mãe não ama você é mau”. Uma relação primal negativa numa fase precoce da infância causa um distúrbio não apenas parcial mas total: uma criança expulsa da relação primal

1260
é expulsa da ordem natural do mundo e duvida que haja justificativa para a sua existência. (NEUMANN, 1991, 71)

As questões de saúde da criança têm suas origens nas angústias dos pais. É importante lembrar que tudo o que um pai e uma mãe viveram com a mesma idade pode voltar sob a forma de sintoma. Hoje, isto fica evidente com as modernas descobertas sobre memória celular, corporal, por Candice Pert, em 1999, que descobriu que as moléculas de memória se encontram por todo o corpo. (PERT, 2003) É importante a compreensão de que, por exemplo, um dado traumático ocorrido em algo que um pai escutou aos dois anos de idade, pode, na mesma época de dois anos do filho homem, causar uma otite. Hoje a Terapia Sistêmica (HELLINGER, 2001, 2004, 2006) já demonstrou isto em milhares de pessoas, em vários países. É importante lembrar que a energia da criança é cinética, ela expressa no corpo o que não pode elaborar de outro modo, seja adoecendo, seja tornado-se agitada. A agitação de uma criança, antes dos três anos de idade, é igual à angustia em adulto e o motivo de angústia de criança é sempre o mesmo: abandono da mãe ou do pai ou a quebra desta dupla que deveria ser um só bloco. James W. Prescott foi um dos fundadores do Instituto Nacional da Saúde da Infância e do Desenvolvimento Humano, que realizou vários estudos inter-culturais. Um dado importante foi que 80% das 49 tribos estudadas, nas quais cometia-se homicídio ou suicídio, verificou-se que os níveis de vínculo mãe-filho, no primeiro ano de vida, eram precários. Tais estudos foram publicados em 1975, 1979 e 1996. Outros estudos investigaram a relação entre violência (suicídio e homicídio) e pouco contato mãe-filho até os dois anos e meio e este vínculo era frágil ou disfuncional em 77% das 26 tribos estudadas por Prescott, em 1996, 1997 e 2001. (VERNY e WENTRAUB, 2004)

1261 Os estudos foram ficando tão chocantes em seus resultados que justificaram um Ato Nacional, ocorrido em cinco de dezembro de 1970, na Conferência na Casa Branca sobre a Criança. No sumário das conclusões entendia-se que era preciso haver quatro mudanças primárias na vida para que culturas totalitárias se transformassem em mais igualitárias e pacíficas: a primeira, era que a sociedade deveria apoiar a mulher e seu filho para o aleitamento ou permanência juntos, até que seu filho tivesse dois anos e meio; a segunda, era que a sociedade deveria apoiar mães e pais, para que as crianças pudessem ter todo afeto destes, no primeiro ano de vida; o terceiro tópico era que deveriam ser eliminadas da sociedade todas as formas de causar dor a uma criança como forma de punição, seja física ou emocional, o que começa em muitas crianças pela circuncisão; a quarta, foi que a sociedade deveria apoiar a emergência da sexualidade do jovem sem que isto fosse motivo de punições. (PRESCOTT, 2007) Em 1956, Marcele Geber, subvencionada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), viajou para a África e esteve, no Quênia e em Uganda. Ela descobriu que, naquela região, os bebês e as crianças as mais precoces que já vira. Observou 300 bebês. Eles sorriam contínua e intensamente até o quarto dia de nascidos. As análises sanguíneas mostravam que o hormônio do estresse, ligado ao parto, havia desaparecido na corrente sangüínea deles, no mesmo período. Em verdade, um fato relaciona-se com o outro. Suas mães haviam dado à luz sozinhas, seguravam-nos e os massageavam constantemente, além de cantarem e os carregarem nus, dentro de uma tipóia, próximos ao peito. Elas dormiam com eles e os alimentavam no ritmo deles. Os bebês ficavam acordados por um longo período, quase nunca choravam, sentiam suas necessidades antes pela sensibilidade tátil. A mãe reagia a qualquer vontade do bebê, que logo alcançava sua intenção. Entre seis e sete semanas, todas as 300 crianças engatinharam, podiam sentar-se sozinhas e olhar-se por horas no espelho. Nas crianças

1262 do ocidente, esta capacidade é esperada aos seis meses. Testes sensórios motores com resultado pleno eram alcançados pelos ugandenses entre seis e sete meses, o que nos ocidentais são alcançados no 15° e 18° meses. Com dois dias, as crianças sentavam-se retas, com equilíbrio na cabeça e olhando para as mães, sorridentes. Quando, na região, apareceram hospitais e partos hospitalares, as crianças demonstraram o mesmo modo de desenvolvimento infantil conhecido no ocidente. Mas há um tabu na tribo de Uganda: a mãe abandona o filho, sem aviso. Quando ele tem cerca de quatro anos é enviado para outra aldeia, onde será criado por parentes. O choque e a depressão que sobrevêm são tamanhos, que alguns não sobrevivem. Neste caso, a criança é preparada para ter vinculação só com a cultura e o desenvolvimento da inteligência estaciona. (GEBER apud PEARCE, 1989) Só nos Estados Unidos 22 milhões de menores são cuidados, em parte do dia, pelo menos, por pessoas que não suas mães, nem pais. Até o início da década de 1990, segundo informações colhidas pelo Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD), dependendo dos institutos estaduais de saúde, mais da metade das mães com filhos menores de um ano passam boa parte do dia sem contato com seus filhos. Sabendo hoje que o cérebro se estrutura de forma importante no primeiro ano de vida, a partir de contato olho a olho e do vínculo com os pais, é preciso repensar como a sociedade precisa organizar-se em face às verdadeiras necessidades de neurodesenvolvimento, o qual traz conseqüências para a vida emocional de uma pessoa. Os estudos do NICHD apontaram para o fato de que bastam 20 horas de cuidados de crianças em instituições antes de um ano de vida para a construção de vínculo negativo entre pais e filhos. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Estudos do Quality 2000, um exame feito ao longo de seis anos de duração, realizado em creches e escolas infantis em todos os Estados Unidos, os pesquisadores

1263 constataram que entre 12% e 14% das crianças americanas encontram-se em situação que promove crescimento e aprendizagem, e, entre 12% e 21% está em creche que põe em perigo seu desenvolvimento e, inclusive, a segurança. No caso de bebês e de crianças entre um e dois anos, as conclusões são alarmantes: entre 35% e 40% estavam em ambiente considerado prejudicial à saúde e à segurança do seu desenvolvimento. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Muita literatura relaciona a creche como foco de infecção. A autora, em trabalho de orientação com pais, costuma explicar que não se pode ver criança como se fosse um ser com uma anômala capacidade de coletar, reter e propagar bactérias, pois, atrás disto, ainda estão os velhos conceitos arquetípicos de que a criança é a portadora do mal. O que existe, como mostraram os filmes feitos por Bowlby, há 50 anos, é que, quando ainda é um filhote mamífero, a criança que é privada do essencial, ou seja, sua mãe, em certo um momento desiste e deprime, e nesta desistência seu sistema imunológico desaba. Ela fica imunodeprimida. Então é preciso rever o conceito de creche como “foco de infecção”, pois isto é o mesmo que dizer que criança é foco de infecção. A criança vai para a creche e os fatos se repetem: ela adoece, primeiro, de doença do trato respiratório, depois, com o passar do tempo, as infecções chegam à pele. Nos últimos 20 anos, a autora, não ouviu uma única história de criança que, antes de dois anos, tenha ido para creche e não tenha feito este périplo de patologias nesta ordem. Alguns adoecem com infecção intestinal e, tão graves, que morrem de infecções de repetição. É fundamental lembrar que a criança adoece porque não há outro modo de expressão da dor da alma senão a expressão física. Cabe ao adulto ler e não seguir julgando a criança como os antepassados faziam, como se ela fosse portadora do mal, ou como se fosse um adulto em miniatura. A criança expressa no corpo seu processo e dor. Se está ansiosa, fica agitada ou sem sono, se deprimida, a imunidade cai. (BOWLBY, 2002)

1264 Quando a autora orienta pais em relação a não colocar seus filhos em creche, costuma usar uma analogia. Já se sabe que a criança antes dos três anos não tem orientação de tempo, que seu nexo afetivo primordial se dá com mãe. Ao longo do primeiro ano de vida, ocorre uma aproximação maior com o pai, e irmãos e as outras pessoas da família precisam ser muito presentes e voltadas para a criança para terem uma conexão maior com ela. A conexão não se dá de maneira uniforme, ou seja, se a criança está em sua casa, ela mantém referencial do espaço conhecido que ela “domina”, o que é diferente do filhote exilado do seu ninho, pois a criança vive uma gama de emoções e tem alguma memória. Então, a experiência de uma criança, que é deixada antes de um ano, e mesmo até os três anos na creche, seria semelhante à que passaria um adulto que fosse abduzido à revelia, para outro planeta. Ninguém e nada faz sentido para ela: tudo o que ela sabe é que não tem mãe, não tem pai, nem irmão. É outro mundo, onde ela está indefesa e realmente não importa quão bonita seja a creche, este não é um mundo conhecido. Há medo real quando um filhote sai de perto da mãe, seja pingüim ou leão ou o que for. Eles sabem que podem voltar para a mãe, que em geral está nas cercanias, mas se está prolongadamente longe do contato visual, o animal entra em estresse. Se o ser humano continuar a esquecer sua condição animal, as crianças continuarão a deprimir, adoecer e morrer, pois a vivência da creche é de abandono: um filhote num mundo estranho. Podemos observar o despertar da consciência na criança pequena. Qualquer pai pode perceber, se prestar atenção. E o que podemos ver é o seguinte: quando a criança reconhece alguém ou alguma coisa, sentimos que ela tem consciência. (JUNG, 1984, p. 407) Num relatório feito por Claudio Violatio e Clare Russel, analisando 88 relatórios publicados envolvendo 22.072 crianças, confirmou-se o que as observações do NICHD

1265 já haviam apontado. Nas testagens, os melhores escores e os mais significativos no âmbito emocional, social e de comportamento, eram atingidos por crianças cuidadas por suas próprias mães, e não por algum outro cuidador, mesmo que familiar. Os resultados dos meninos eram inferiores aos das meninas, em todos os âmbitos. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Para formar a mente de uma criança, faz falta o modelo de outra mente, e as crianças que estão expostas a muitos cuidadores têm mais probabilidade de acabar sem saber qual é o seu lugar no mundo e de serem emocionalmente inseguras. (VERNY e WENTRAUB, 2004) A UNICEF considera importante que as crianças tenham um bom começo de vida e, por isso, defende que até os três anos de idade elas possam usufruir da conivência da família. Apesar de a UNICEF reconhecer a creche como um direito, não a vê como a melhor possibilidade de educação. (UNICEF, 2006a) Muitos países estão começando a rever suas políticas de licença-maternidade, aumentando-a para mais próxima de dois anos, isto porque já estiveram contabilizando os prejuízos para a nação de uma geração de jovens que não sabe o que quer, que não consegue se estruturar para deixar o lar paterno e começar a fazer seu próprio ninho; que se coloca na vida como filhote eterno, assume fraco compromisso com o trabalho e prefere utilizar suas energias em diversões supérfluas e, muitas vezes, daninhas. Para os Estados, são altos os custos dos seguros desempregos de jovens que, na verdade, não se entendem com a responsabilidade de trabalho, ou daqueles que acabam aposentando- se cedo, por acidente ou fraude. Este fenômeno se vem tornando comum em vários países e tem sido motivo de estudos sociológicos. Hoje as raízes deste comportamento são muito bem mapeadas, como o que está documentado nesta tese. Os Estados precisam pensar também no custo alto de saúde e criminalidade, e também no próprio custo

1266 humano, impossível de por em número. Finalmente, a autora não tem conhecimento de um cientista que tenha contabilizado as lágrimas de pessoas que perdem filhos jovens para droga ou criminalidade, ou dos jovens que não conseguem encontrar um lugar no mundo para eles, e isto é hoje cada vez mais comum como queixa em consultório: os pais que se queixam de que seus filhos estão deixando, distraidamente, esvaírem-se as próprias vidas. Hoje há pais que já sabem quão rápido correm os anos e quão rapidamente se fecham as portas de oportunidades. Eles vivem a angústia de sustentar filhos adultos e mesmo família de filhos adultos, pois estes filhos, “puer eternos”, não podem ou não conseguem enxergar. (VON FRANZ, 1992) Portanto, o custo disto tudo justifica, mesmo em termos econômicos, uma licença maternidade mais prolongada. Assim, na Suécia, a licença maternidade cobre 80% do salário durante as 78 semanas após o parto; a França dá cobertura de 100% entre 16 e 26 semanas; a Tchecoslováquia 69%, em 28 semanas; e a Itália cobre 80% do salário por cinco meses. Nesta lista há dados sobre 29 países e suas políticas de licença maternidade. E tramitavam, na época deste levantamento, projetos de lei em vários países do mundo com o objetivo de ampliação de licença maternidade. (CLEARINGHOUSE ON INTERNATIONAL DEVELOPMENTS IN CHILD, YOUTH AND FAMILY POLICIES AT COLUMBIA UNIVERSITY, 2003) Nos Estados Unidos, nos últimos 20 anos, tem aumentado a licença maternidade paga e não paga. Entre 1981 e 1985 e até o período de 1991 a 1995, a proporção de mães que usaram a licença maternidade paga foi de 32% para 36%, e, no mesmo período, as que usaram a licença não paga variou de 30% a 37%. As mães que usam licença maternidade paga costumam ser mais velhas e com grau de escolaridade maior. Naquele país, em 1900, 19% das mulheres trabalhavam fora; em 2007, 65% de todas as

1267 mulheres trabalham fora. E 52,9%, em 2004, eram as que tinham filho com menos de um ano. (CALNEN, 2007) Em 29 de março de 2005, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Roberto Busato, recebeu da Sociedade Brasileira de Pediatria a minuta do projeto de lei propondo a ampliação do período de licença-maternidade dos atuais quatro meses para seis meses. A proposta foi encaminhada por Busato para análise de quatro comissões da OAB: Comissão Nacional de Direitos Humanos, Comissão Nacional de Direitos Sociais, Comissão Nacional da Mulher Advogados, e Comissão da Criança e do Adolescente. Posteriormente a minuta seria avaliada pelo Conselho Federal da entidade. (OAB, 2005) Desde o desenvolvimento fetal, o cérebro se utiliza de 50% do genoma para se organizar e, depois do nascimento, o cérebro não pára de fabricar sinapses até os três anos. Até os três anos o cérebro do bebê terá formado bilhões de sinapses, duas vezes mais que um adulto, no mesmo período. Uma única célula pode conectar-se a 15.000 outras. Quanto mais sinapses possuir uma pessoa, mas complexas e variadas serão suas redes neuronais e, deste modo, mais brilhante e criativa será. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Uma grande energia é consumida na primeira infância para o crescimento do cérebro. Tal tarefa usa 70% da energia do metabolismo basal no primeiro ano de vida, quando o cérebro atinge 70% da sua massa final, ganhando 600 gramas, sendo que, ao nascer, o peso cerebral em média é de 400 gramas. No segundo ano o crescimento continua, só que mais lento, e no terceiro ano o crescimento prossegue dando ao cérebro 90% do peso que terá na vida adulta. O que faz o cérebro crescer é objeto de estudo na neurociência e concluiu-se que é a relação amorosa com a mãe. Estudos em animais e humanos apontam para o balanço de hormônios como noradrenalina, serotonina e

1268 cortisol que desempenham papel importante no desenvolvimento cerebral e são influenciados de maneira significativa pelo olhar e pelo toque. Áreas como o hipocampo, responsável pela empatia, e a área do córtex na região orbito-frontal, ligada à capacidade de adequação emocional, são regiões que muito expressivamente têm seu desenvolvimento aumentado pela relação mãe-filho nos três primeiros anos de vida. Sabe-se que o sentimento de vergonha, experimentado com freqüência por criança por volta de 18 meses, faz alterar o curso de desenvolvimento cerebral. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Uma criança de menos de três anos está formando seus sistemas de convicção para o resto de suas vidas. Primeiro, as certezas sobre si mesmas, depois, em sua visão de mundo. Portanto, ao educarem, os pais devem ter em mente que é neste tempo que valores estão sendo transmitidos para a criança. E entender como é que ela aprende. O grito, a falta de paciência e a violência, como já foi visto, causam apenas destruição de um sistema nervoso. Por outro lado, deixar uma criança fazer o que bem lhe apraz porque não se quer dizer “não”, é outro grave erro, pois não é natural no mundo a não ocorrência de frustração. Então, o modo de fazer, envolve a consciência dos pais, e seus valores. Educar é, antes de tudo, debruçar-se e rever os próprios valores. A melhor maneira de a criança aprender é por animismo, que é sua capacidade natural. Por exemplo: se uma mãe vê sua criança jogando um objeto no chão, ela pode recolher, aconchegar o objeto ao colo dela, e falar, como se fosse o objeto ferido. A criança em conseqüência, demonstra simpatia, e é capaz de beijar o objeto. Naquele momento, ela aprende, com aquele objeto específico e com muitos outros, que deve ter cuidado com as coisas, pessoas, animais, e assim por diante. O animismo e a simpatia são as linguagens naturais da criança antes dos três anos. Neste caso, o que a autora está citando é apenas um exemplo elucidativo de educação pela via do animismo, não tem

1269 intenção de ser manual de como fazer. Isto é justo o que não existe. Cada criança e seus pais são um complexo. Os pais, desde antes da concepção, já devem ter discutidos os valores que querem que seus filhos desenvolvam. É na realidade do cotidiano que se vão criar situações, que levarão a criatividade dos pais a saber qual é o melhor método de comunicação com a criança, dentro dos limites de percepção deles. A voz alta é um expediente, como diz Jung, que tira o ego de cena e então já são os arquétipos que dominam: definitivamente isto não é consciência. A voz baixa, o olho no olho, a vivência da autoridade intrínseca e sempre exercida com respeito à sensibilidade daquela criança específica, funcionam muito bem, pois isto é cuidado e amor, e este é sempre inspirador criativo e transformador. Uma outra questão é sobre o sacrifício pelo filho. Os casais que conceberem e planejarem ter um filho, deverão estar conscientes dos sacrifícios financeiros que precisarão fazer, enquanto os Estados não criam as licenças devidas; pode levar alguns anos, portanto, para que um casal esteja em condições financeiras e de maturidade para poder receber todo o prazer um filho. Educar é um dos maiores exercícios de consciência que existem. Se pensarmos em uma vida numa cela de inconsciência, a porta seria a própria consciência, mas a chave, são as escolhas. Não há exercício de consciência sem escolhas. Então, se um casal acha que ainda precisa viver viagens e mais outros planos, que os viva e os esgote, e, quando escolher ter um filho, saiba que haverá neste grande projeto – Vida – muita demanda de tempo, criatividade, energia e dinheiro. E Vida vale a pena, sobretudo quando tenham sido feitas as melhores escolhas. Jovens na adolescência não precisam ser problemáticos. O que vem à tona são os valores colocados nos três primeiros anos de vida. A criança humilhada é o adolescente que agride verbal e fisicamente. O que se droga, o que se alcooliza, o que se envolve em delito é sempre uma criança ferida explodindo. Os que não se cansam de

1270 dizer que não se sentem compreendidos estão desconectados, em geral, com a percepção de seus pais sobre eles mesmos durante a primeira infância. É uma questão de projeto: uma vez escolhido o projeto, que ele seja motivante, para ser vivido. Com tudo o que se sabe hoje, educar é uma grande escolha que implica em postergar as coisas ou desistir delas. Quando uma criança nasce, ela traz consigo uma bagagem arquetípica que recebeu no psiquismo herdado, assim como recebeu a herança de traços físicos. Ela pode ter uma lente que a faça olhar os pais de um modo particular, e isto é observável entre vários irmãos, também o modo de percepção dos mesmos pais é diferente, e assim poderá ocorrer uma integração específica, de mútua ativação arquetípica, a que os pais devem estar atentos. (JUNG, 1984, 2000, 1981b, 1964, HARDING, 1975, KNOX, 2003) Esta percepção da particularidade e da dificuldade intrínseca com que crianças nascem, fez por milhares de anos, na Índia, com que os pais procurassem astrólogos para que pudessem orientá-los sobre como melhor educar aquela criança, com tais particularidades. Hoje muitos pais buscam o mesmo recurso e acoplam a esta prática o uso da numerologia, para orientação do nome, que melhor ajudará o pleno desenvolvimento daquela vida. O nome, também é arquetípico. Ao escolher um nome, os pais devem pensar em que arquétipo estarão ativando nos filhos e isto pode ser entendido com simples pesquisa sobre personagens marcantes da história ou da mitologia.
Se, por causa de sua própria insegurança, os pais não conseguem aceitar suficientemente a natureza básica de seu filho, então a personalidade da criança será então apartada do cerne de seu ser e se sentirá forçada a abandonar seu padrão natural de desenvolvimento. (ABRAMS, 1994, p.189)

Os quadros abaixo mostram como é percebida a psique da criança e como ela olha os pais por uma lente, e estimula neles comportamentos inconscientes, e isto à mercê de cuidado contínuo. No quadro 1 percebemos a questão da consciência ainda pouco

1271 definida e o ego sem delimitação clara. A outra gravura, é a ilustração de como a criança percebe e recebe de volta as projeções. De algum modo há sempre uma linguagem de arquétipos para arquétipos entre pais e filhos e isto pode ser menos trabalhoso se os pais tiverem mais atenção e consciência. Os dois primeiros quadros mostram a psique da criança em formação. As dimensões de ego e consciência diferem das do adulto, cujos dois outros quadros representativos seguem abaixo. O primeiro, retrata o esquema da fisiologia da psique, em bom estado de comunicação com o Eu Superior. O segundo esquema demonstra o estado em que uma pessoa fica com seu ego desorganizado, quando foi constelado um complexo.

Figura 119: Esquema 1(LUZES, 2003)

Figura 120: Esquema 2 (LUZES, 2003)

Figura 121: Esquema 3 (LUZES, 2003)

Figura 122: Esquema 4 (LUZES, 2003)

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Um arquétipo que está envolvido de maneira importante na relação mãe-filho é o da Grande-Mãe que tem seus dois aspectos: o nutridor e o transformador. Uma mulher, na sua relação pessoal com seu filho, pode ter dentro de si um arquétipo de figura da grande Mãe ou então mais inclinada para a atitude de eterna nutridora, ou eterna transformadora. A nutridora é aquela que vai lidar muito bem com o filho bebê, dele dependente, mas tem dificuldade de deixá-lo ser independente, podendo viver cada ciclo de transformação do filho como uma perda para si. Já a mulher que tem constelado em si o arquétipo da grande mãe transformadora, terá dificuldade e pouco prazer na fase de dependência dos filhos e será a que estimula os processos de transformação e que consegue achar mais agradável a relação mãe filho, quando este é adolescente. Claro está que há culturas cujo arquétipo de grande-mãe constelado vai para um ou outro modo. Há as figuras dos panteões míticos que encarnam um ou outro modo de relação. Da mesma forma que existe a questão da grande mãe destruidora, também bastante exemplificado nas mitologias. Na vida pessoal, se uma mulher tem constelado em si, um ou outro aspecto, deve tornar-se consciente desta tendência e ajudar a equilibrá-la, pois na prática a grande mãe destruidora, é a manifestação do arquétipo atingindo as atitudes da mãe, em momento do desenvolvimento indevido. Deste modo, a mãe que olha para o aspecto independência como a meta constante a ser atingida pelo filho pode negligenciar as necessidades de aconchego e momentos de puro lazer que, de fato, são importantíssimos para o devido desenvolvimento da criança, pois ela precisa de um tempo de criação, caracterizado pelo que Jung chama de brincar como atividade séria, comparada à que o adulto vive quando medita: a regularidade desta atividade permite o pleno desenvolvimento psico-cerebral. É fundamental para o desenvolvimento da criança o tempo em que ela fica “sem fazer nada”. Naquele momento ela está fazendo

1273 tudo o que precisa para se desenvolver, especialmente sua capacidade de concentração. A criança que não tem este espaço, tem antes, uma agenda cheia, apresentará problemas de concentração. Pois a capacidade da criança de se concentrar advém de ter podido ficar, especialmente até os três anos, livre fisicamente, para o seu desenvolvimento motor e, ao mesmo tempo, para o desenvolvimento sensório-intelectivo-emocional. Portanto, a mãe que tem uma meta determinada de transformar, implementar mudanças, criar agendas para seus filhos pequenos, está, sem perceber, tomada pelo arquétipo da grande mãe transformadora que, no momento de a criança crescer, está fora do tempo e aí se converte em grande mãe destruidora. É preciso hoje estar atenta à obsessão da cultura dominante competitiva que ajudou na constelação deste arquétipo em todas as culturas. A mulher, perdendo a percepção das necessidades básicas de aconchego, acaba por atrapalhar o desenvolvimento de seus filhos e justo a cognição que tanto almeja ver desenvolvida será a que ficará prejudicada. A criança pequena, com agenda cheia de tarefas, converte-se no adulto incapaz de lidar com mínimos compromissos. Por toda a natureza um fato se repete: quando um animal vai desenvolver uma habilidade, ele faz, antes, um recuo para poder avançar, por simples mecanismo de contenção de energia, para gerar propulsão, bem descrito por Jung, em uma das obras mais importantes como chave de entendimento do desenvolvimento do processo de consciência humana: a obra A Energia Psíquica, contida no A Dinâmica do Inconsciente. Deste modo, quando uma criança vai crescer alguns centímetros ou quando lhe vão aparecer dentes, ela dias antes pode ficar muito mais necessitada de colo, chorando, precisando estar grudada na mãe por todo o tempo. E a mulher que está tomada pela grande-mãe transformadora vai preocupar-se muito com estas “regressões” e ver aí um episódio de “virose”, que muitas vezes os pediatras, como modo de acalmar as mães, confirmam. O melhor seria conhecer as etapas do processo normal de crescimento, e se assim fosse as crianças

1274 seriam menos medicadas enquanto se desenvolvem normalmente. (JUNG, 2000, HARDING, 1975) É preciso lembrar que as mães têm uma enorme capacidade curativa. Uma prática sugerida por Aïvanhov, o pedagogo que nos anos 30 formulou a ciência pré-natal e foi o primeiro a explicar, ponto a ponto, as conseqüências hoje reconhecidas por milhares de estudos, é que mães e pais acariciem a cabeça de seus filhos enquanto eles dormem e lhes digam o quanto são amados e lhes desejem os melhores valores, pois isto atingiria a formação da criança. Do mesmo modo, se existe uma situação de doença ou sofrimento significativo, no momento do sono profundo podem ser ditas palavras-chave que ajudem a criança a elaborar a solução de um conflito que se está manifestando em sua saúde. Do mesmo modo, ele afirmava que, quando uma mãe ou pai vão repreender um filho não pode existir raiva. Eles devem olhar nos olhos do filho, e só falar quando não estiverem possuídos pela raiva. Pouca coisa podem ser tão destrutiva quanto um olhar de raiva vindo de pai ou mãe, penetrando na alma da criança. Isto não educa, isto fere. (AЇVANHOV, 1996) Claro que existe também o poder da prece, nunca descartável. O diálogo quando a criança está acordada também pode ser fonte de auxílio, e a mãe falar de modo claro, olhando nos olhos da criança. Isto também foi amplamente confirmado no auxílio de problemas graves de saúde, até mesmo em recém-nascido, por Françoise Dolto, Miriam Szejer e Caroline Eliacheff. (SZEJER, 1999) É importante prestar atenção para as palavras e o peso que elas têm para os pequeninos. Mais tarde eles podem povoar os consultórios terapêuticos para ajudá-los a arrancar de si sistemas de crenças profundamente arraigados por simples palavras proferidas. E depois de enunciadas há pouca valia em desculpas, e menos ainda em explicações cujo valor pedagógico é risível. (AÏVANHOV, 1999)

1275 Por outro lado, a mãe que pretende nutrir eternamente o filho, tem dificuldade de comemorar os pequenos ganhos de cada dia, pois vê como perdas do poder que tem sobre a criança. Aqui, esta palavra é chave para o desenvolvimento da criança, poder ou amor. Na verdade, no plano das relações, estes dois substantivos são antagônicos. Ou ações são pautadas por um, e aí já se pode esperar que são inspiradas por arquétipos, ou por amor, que traz a marca da consciência. A criança que nota que a mãe não a quer adulta, vive um conflito tenso ante seu próprio desenvolvimento. (JUNG, 2000, HARDING, 1975) E para educar amorosamente precisa-se estar presente. Hoje se fala da criança como se ela fosse por si responsável por todas as doenças que lhe acometem, como por exemplo, os de distúrbios de atenção que se sucedem. O manejo que consiste em dar o medicamento, implica contenção química, similar à que, em séculos passados, amordaçava os bebês, amordaçados durante séculos, como nos ensina a psico-história. O arquétipo da criança ferida está presente, mesmo nos cuidadores de crianças em instituições como creches e ainda podem ser vistas pessoas que abusam emocionalmente das crianças com o mesmo intento de humilhação e sujeição, como no passado era feito. Deste modo, quando uma criança se sente angustiada por privação materna, ela tem pouco recurso, como já foi demonstrado, para agir, então esta angústia migra para o plano onde a energia psíquica corre melhor, que é o corpo. É para lá que vai toda a tensão, todo o desespero e desamparo, e é a isto que se dá nome e que se medica. Na verdade, em sua clínica, a autora tem visto casos de agitação infantil desaparecerem, ou bem porque a mãe passa a se dedicar à criança, ou bem porque procura uma Pedagogia Curativa ou Waldorf, que olha a criança em muitas dimensões e que tem conhecimento da complexidade do que pode ser o psiquismo infantil – a única pedagogia que dá conta de trabalhar a integralidade criativa do ser humano, sem perder

1276 a noção de praticidade, vida em conjunto, conexão. A autora entende que uma escola que não tem espaço para ensinar a criança a brincar (que é sua prática dominante do refletir), não prepara para uma vida interior saudável. A autora, assim como profissionais de psicologia pré e perinatal, nota o mesmo fato no Brasil e fora dele, que é: os pais que concebem conscientemente, e também assim vão vivendo cada passo do processo de desenvolvimento do seu filho, escolhem escolas Steiner ou Waldorf, no mundo, simplesmente porque querem que seus filhos desenvolvam seu potencial pleno, e é uma escola voltada para a educação integral do ser que faz toda a diferença.
Como diz Michel Odent: È difícil perceber como as visões de um ser humano extraordinário, que morreu em 1925, estão afinadas com os problemas do século XXI. As influências das percepções de Steiner são mais fortes que nunca em vários campos práticos, englobando as artes, ciências, a educação, a agricultura, a medicina e as questões sociais. (...) Encontrei por acaso alguns efeitos inesperados na saúde. Por exemplo, 210 alunos de uma escola Waldorf (pedagogia antroposófica), entre cinco e 18 anos, apenas quatro precisavam usar óculos. Mais recentemente, um jornal médico de prestígio estudou o baixo índice de alergias entre crianças que compartilham um estilo de vida Antroposófica. Rudolf Steiner não conseguia dissociar seu interesse pelo desenvolvimento dos seres humanos. Este simples fato é uma lição valiosa num momento em que somos vítimas do tipo de cegueira gerada por especializações estreitas. (...) O movimento biodinâmico surgiu a partir de oito palestras dadas por Rudolf Steiner no início, em resposta a uma solicitação de vários agricultores. Foi o primeiro método alternativo de agricultura organizado a se basear num quadro global que abraçasse tanto a ecologia quanto a vida social. Agricultura biodinâmica previu os efeitos destrutivos da agricultura convencional: o solo erodido, o húmus perdido, flores e animais desaparecidos – dano que terá de ser sofrido por futuras gerações (ODENT, 2004b, p. 57)

Jung afirma, baseado em sua experiência do complexo materno, que o arquétipo da mãe é quem ajuda a constelar o complexo. Segundo ele, a mãe desempenha sempre um papel ativo. Segundo Jung, em 1928: “Os pais devem sempre estar cientes do fato de que eles são a principal causa da neurose dos filhos”. (ABRAMS, 1994, p.188) Nos casos de neuroses que atingem a mais tenra infância, a mãe desempenha papel ativo na causa da neurose manifesta na criança. Na filha mulher, o complexo materno se manifesta como:

1277 a) Atrofia do feminino, com exagero do papel maternal: é a mulher que só consegue viver sua dimensão de procriação. Acaba depois por tornar-se dependente dos próprios filhos, cuja vida é a única razão da própria existência. Existe um lado amoroso, na inconsciência, e, na consciência, manifesta-se um lado de exercício de poder nas relações. Assim sendo, de fato, ficam incapazes de fazer verdadeiros sacrifícios. Ao exercer muito poder na relação, pode aniquilar a personalidade da criança. b) Exaltação do eros, esse complexo provoca na filha a exaltação do feminino erótico ausente na mãe e isto pode fazer com que a filha fique presa incestuosamente na relação com o pai. Muitas vezes, as filhas procuram relações com homens casados, repetindo uma busca que não é pela felicidade, mas pela necessidade de transtornar um casamento. Quando consegue a relação, já não se interessa mais por ela. De todo modo, não há interesse na maternidade. c) Identificação com a mãe, resultando em uma paralisação do instinto feminino, tanto da maternidade como do eros. A filha vive dependendo da mãe e negando a si mesma a própria existência, levando uma existência de sombra, muitas vezes visivelmente absorvida pela mãe. São figuras desamparadas. d) A defesa contra a mãe, o complexo materno negativo, no qual existe continuamente um antagonismo à mãe. Deste modo se define, sabendo bem o que não quer, mas não tem muita idéia do seu próprio destino. Tanto o eros não vai bem, como o materno também não. E isto pode desencadear problemas tanto durante a gravidez, como a própria vida menstrual. Podem se dirigir para o intelecto, que não é identificado como o universo da mãe, e ter problemas com coisas do mundo material (matéria – mater). A inteligência dirige as portadoras de tal complexo que são mais propensas ao desenvolvimento do próprio lado masculino.

1278 No filho homem, o complexo materno aprisiona o filho na condição de forte ligação com a mãe, tendo-a como única na vida. As outras são descartáveis.
Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas que foi impedida por motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria vida. (JUNG,

1981b, p. 196) O assunto é vasto, pois existem, entre estes tipos, nuances que vão envolver o modo como esta menina um dia será mãe e este homem será pai. Portanto, o autoconhecimento, muito antes de constituir família, ajuda a desativar complexos importantes que podem causar problemas enormes. Outro aspecto que é preciso entender é que estes problemas são reversíveis, quase sempre. Um exemplo disto aconteceu no Brasil, em Recife num projeto que atendeu a uma população carente e desnutridas. Foi um trabalho realizado no Centro Infantil Frei Tadeu, Recife em Pernambuco, coordenado pela assistente social Mavis Cerqueira, que realizou as ministrações de florais sob orientação de Maria Grillo, criadora do repertório Filhas de Gaia. O Centro Infantil foi criado pela Associação de Moradores da Ilha de Santa Terezinha, uma favela próxima do centro de Recife, para tentar reverter o alto índice de mortalidade infantil na comunidade, devido à desnutrição infantil. Tratava-se de uma comunidade com cerca de 600 casas e mais de 4.800 moradores. Ela iniciou suas atividades em abril de 1990 com recursos de ONG’s Européias. Apesar dos cuidados, da alimentação adequada e da medicação alopática, as crianças sempre apresentavam doenças recorrentes como asma, diarréia, pneumonia, etc. Este quadro levou Mavis Cerqueira a procurar medidas complementares que pudessem alterar este quadro. Foi quando então introduziram a homeopatia e fitoterapia. Conseguiram em 1991 uma diminuição significativa destas doenças recorrentes. No final de 1991, foi introduzida a utilização de Florais de Bach com as crianças. Em 1993 foram

introduzidos os Florais da Califórnia. Estudando os florais, Mavis foi compreendendo

1279 melhor a desnutrição e percebeu que ela era muito mais que uma doença da fome, era um sintoma aparente de causas muito mais profundas. A constatação de que a desnutrição era uma ausência não somente de alimentos, mas também de afeto, aceitação, proteção, favorecimento, desenvolvimento, educação e alento, que atingem o ser em todos os seus corpos (físico, emocional, mental e espiritual), levou-a a considerar as crianças desnutridas como a evidência material e tangível de carências nutricionais em todos os níveis. Ao entrevistar suas mães em 1993, já com este novo foco, verificaram que em todas as crianças atendidas era evidente a rejeição da mãe, sobretudo na fase intra-uterina. Destas entrevistas colheram-se os seguintes dados: 66% das crianças se desnutriram antes dos dois anos e meio. (uma faixa etária onde a necessidade do vínculo forte e nutridor com a mãe é imprescindível, 43% destas crianças já nasceram desnutridas. 63,3 % das mães admitiram que tentaram aborto até o quinto mês sem sucesso. Entre estas estão as de quadros de desnutrição mais grave ou moderada e aquelas que não responderam com rapidez ao tratamento inicial. Pesquisando as mães cujos filhos nasceram de baixo peso, colheram as seguintes informações: 64% não queriam o filho, 35% não fizeram o pré-natal, 24% foram recém nascidos prematuros. Mais da metade delas fumou e usou bebida alcoólica durante a gravidez. Diante deste perfil, Mavis ampliou sua visão da desnutrição. Começou a aprofundar seu conhecimento sobre a alma do bebê e sobre a importância do vínculo mãe/filho, e a considerar as feridas profundas da rejeição, abandono, falta de confiança na vida e ausência de amor, que estavam na base da história de vida de cada uma delas como tão importantes quanto seus sintomas físicos, para sua recuperação. Foi quando então começaram a utilizar os florais com uma nova abordagem, buscando a nutrição, amor e proteção da Grande Mãe para refazer o tecido básico da vida e reavivar o desejo de viver. E esta nova abordagem trouxe então resultados muito significativos na

1280 regeneração emocional, autonomia, desenvolvimento físico, emocional e psicomotor das crianças. Em fevereiro de 1995 começaram a utilizar os Florais Filhas de Gaia, que se tornaram a base dos compostos utilizados com as crianças, exatamente por trazerem as qualidades fundamentais para a cura emocional das crianças desnutridas, com a acessoria técnica de Maria Grillo. Inicialmente, além da formulação de compostos individualizados para as crianças, começaram também a trabalhar com fórmulas comum a todas as crianças, e que eram ministradas quatro gotas quatro vezes ao dia e em spray no ambiente. A partir de 1996, as formulações individualizadas foram reduzidas e as crianças passaram a receber, fórmulas florais idênticas que eram definidas para pequenos grupos segundo suas faixas etárias. Em 1997 e 1998 utilizaram-se somente as fórmulas compostas para os grupos, segundo suas faixas etárias. No período de 1994/98 foi notável o ganho de peso das crianças e seu desenvolvimento psicomotor ficou mais visível. Avaliando o prontuário médico das crianças, foram verificados os seguintes dados: DOENÇA/ANO Diarréia Desidratação Pneumonia Doenças de pele Otites Anemia Grave Asma 1994 30 16 32 42 20 18 28 1995 15 02 06 40 12 20 12 1996 06 01 02 18 06 10 05 1997 02 zero 02 13 03 04 01

Tabela 7: Resultado do Trabalho de Campo com Floral, na mudança de plano de consciência, com crianças de uma favela. (GRILLO, 2006) Assim, constatou-se também o efeito preventivo dos florais. Houve uma redução significativa dos gastos com medicamentos e cresceu o número de crianças que venceram definitivamente a desnutrição. As essências utilizadas para estas formulas florais foram, em 1996, reunidas em fórmulas compostas chamadas:

1281 Aconchego: Nutrição da alma e cura das feridas no vínculo mãe/filho - o primeiro composto a ser utilizado com os bebês. Sorriso: Para dissolver a dor gerada pelo abandono ou rejeição. Borboleta: para resgatar o desejo de viver da alma. Fraternidade: Para facilitar uma socialização amorosa, pacífica e nutridora. Manto de Luz: Para facilitar o sentimento de estar protegido no mundo. Vagalume: para despertar e fortalecer os dons e a criatividade da alma. Arco-Íris: para recuperar as seqüelas da desnutrição relacionadas ao

desenvolvimento cognitivo das crianças. Também as cuidadoras das crianças recebiam essências florais. Estas essências foram reunidas no composto floral Chamego – para trazer nutrição emocional e a habilidade de criar vínculos amorosos e nutridores, necessário para que estas pudessem exercer com maior qualidade seu papel de mães substitutas. No final de 1998, devido à falta de recursos oficiais, o Centro Infantil encerrou suas atividades mais cedo. No início de 1999, Mavis foi à Europa tentar conseguir novos recursos para dar continuidade ao trabalho, mas veio a falecer, e os dados referentes ao ano de 1998, apesar de reunidos, não foram avaliados e tabulados e se perderam. (GRILLO, 2006) O resultado foi que não só as crianças melhoraram em seu desenvolvimento, como seus pais mudaram não apenas de modo de vida, mas inclusive de lugar de habitação para um lugar melhor, e deixou de existir aquele grupo de pessoas como habitantes de favela. (GRILLO, 2006) Muitos são os recursos hoje disponíveis para limpar matrizes interiores com problemas devidos a concepção, gestação, parto: Hipnose, terapia Primal, Respiração Holotrópica, Técnicas de Renascimento, Biossíntese, Vegetoterapia, Terapia Reichiana,

1282 Rolfing (massagem profunda), Meditação, Terapia Floral, Análise Junguiana, e outras formas quantas sejam possíveis para a criatividade humana. A terapia Crânio-Sacral tem resultados muito bons com traumas de gestação, parto, primeira infância com a vantagem de poder tratar mãe e filho, em uma mesma sessão. (UPLEDGER, 1995) É de suma importância que os traumas ocorridos sejam solucionados, pois, caso contrário, tendem a se repetir de um modo ou outro. É necessário que jovens se preparem emocionalmente para poder viver com satisfação e plenitude a maternidade e a paternidade, o que permite infância e vida adulta mais saudáveis. No adulto está oculta uma criança eterna, algo ainda em formação e que jamais estará terminado, algo que precisará de cuidado permanente, de atenção e de educação. (JUNG, 1981b, p. 175) Um problema atual de extensa gravidade é o isolamento familiar causado pelo, cada vez mais onipresente, aparelho de TV. Em estudos realizados nos Estados Unidos contabilizou-se que, em média, uma criança chega aos cinco anos já tendo assistido a seis mil horas de televisão. Ao terminar o ensino médio, um adolescente terá sido exposto a 18 mil assassinatos e 800 suicídios a cada ano. A criança americana assiste, em média, a 12 mil atos de violência, 14 mil referências a sexo, e mil violações. Quando tiverem chegado aos 70 anos, terão passado sete anos de sua vida na frente da TV, além de terem desenvolvido minimamente sua imaginação na infância. Pesquisas mostram que crimes violentos são marcados por uma capacidade limitada para a fantasia, ao mesmo tempo em que são conectados com material de TV. (VERNY e WENTRAUB, 2004) Antigamente, os grupos tribais sentavam-se na frente do fogo e esta visão os agregava. Possivelmente, esta é uma das muitas dimensões da descoberta do fogo, como

1283 começo da civilização. Passaram-se milhares de anos e a TV consegue que mentes parem e famílias deixem de se comunicar. Joseph Chilton Pearce localiza aí também o fim do brincar, (PEARCE, 1999) aquela atividade fundamental para o desenvolvimento do cérebro de uma criança; diante da TV, não há o que imaginar, a imagem é pronta, os olhos parados, e a ingestão automática de comida aumenta. E, sobretudo, a inexistência de comunicação familiar torna-se um grave problema. Os pais são responsáveis pela formação de valores que precisam ser transmitidos as seus filhos, as redes de TV não podem ser “responsáveis” por decidir por quais valores seus filhos serão guiados. A televisão acelera a transição das crianças para a idade adulta, expondo-as a questões do mundo dos adultos, além de torná-las consumidoras precoces. Em 2002, a Associação Americana de Pediatria divulgou carta aberta orientando os pais, conscientizando-os de que o abuso de TV tornava os jovens mais agressivos. Em 1997, as transmissões de Pokemon nas TVs do Japão provocaram ataque epiléptico em quase 700 crianças, devido às luzes brilhantes projetadas. (HONORÉ, 2005) São os pais que precisam dar as linhas de orientação para os filhos. Delegar as instruções de valores a instituições ou pessoas é uma forma de omissão e negligência. Os pais não devem cuidar apenas das necessidades básicas e primárias. A eles também é delegado o cuidado com a alma. “Ninguém pode educar para a personalidade se não tiver personalidade. E não é a criança, mas sim o adulto quem pode atingir a personalidade como o fruto amadurecido pelo esforço da vida orientada para esse fim.” (JUNG, 1981, p. 177) A autora tem orientado que as famílias privilegiem o contato com atividades artísticas, e o diálogo, e abandonem o uso mecânico da TV. Ela tem falado com pais, orientando-os para ter atenção com um processo que vem ocorrendo, especialmente nos últimos cinco anos, que ela nomeou de “síndrome do escravo feliz”. Descreve a

1284 seguinte situação: pai ou mãe saem de casa às sete ou 8 da manhã e pouco vêem o filho. Em muitos casos, as conduções contratadas é que levam as crianças para a escola. Por outro lado, estes pais trabalham sobre grandes tensões de prazos e fazem parte de reuniões demoradíssimas, alimentam-se mal, voltam para casa, ligam a TV e pedem para que seus filhos não os perturbem. Nestas famílias não há refeições à mesa, nenhum ritual de aconchego. No fim de semana, estes pais enviam os filhos para casa dos avós, pois estão exaustos e as crianças “não dão sossego”. No entanto, ele e ela recebem prêmios, promoções, altos salários, os quais vão permitir comprar um apartamento novo, uma TV nova, um bom carro (para, dominantemente, levá-los ao trabalho) e mais máquinas eletrônicas etc. O resto do dinheiro é para pagar a creche e toda sorte de terapias para a criança que fica com uma agenda cheia de atividades, pois os pais escolhem escolas de perfil competitivo, na certeza de que, deste modo, seus filhos serão vencedores como eles, os “escravos felizes”, que a toda hora recebem convites das empresas para viajar, embora o tempo seja curto para apreciar. Mal sabem eles que tais viagens são vividas, pelas crianças pequenas, como abandono. A angústia na espera do aeroporto faz lembrar os filhos e, aí entram nas lojas com brinquedos muito pouco educativos que compram o consolo dos pais. Na volta da viagem, os filhos estão distantes, esquivos. O tempo passa e a empresa oferece máquinas que mantêm este indivíduo ligado à atividade profissional, mesmo em casa, no lazer, em qualquer situação. No entanto, ele ou ela se sente “prestigiado”, enquanto seus filhos adoecem numa estranha orfandade. Um dia esses pais descobrem que não existem mais crianças na casa e esta descoberta acontece, em geral, subitamente, devido a algum incidente desagradável de adolescência, que vem a ser o primeiro de uma série. Um outro dia vem a depressão como resultado da fraca vida interior, que ainda não sabe comunicar-se direito informando que o “escravo feliz”, trabalhou automaticamente, durante anos, e

1285 não usufruiu nada com os filhos, nem os viu crescerem, ainda que morando na mesma casa. Um dia mais adiante, às vezes por um drama, às vezes por uma tragédia, eles descobrem que a máscara cai e que, atrás do “escravo feliz”, está uma vida vazia. A autora, conversando com pessoas aposentadas com este histórico de vida, observou que ninguém lembra de nenhum “memorando que era imprescindível”. Consciência é escolha, é preciso que se escolham quais fotografias de tempo serão guardadas. O “escravo feliz” não pode deixar de acordar no primeiro choro do filho sem partilha, na primeira carta de criança pedindo ajuda. É preciso escolher na vida se o patrão determina prioridades, no melhor estilo escravagista moderno, ou se são os pais, não robotizados, que usam o coração como bússolas e não esfarinham suas vidas e a dos seus filhos. Em pesquisa na revista Newsweek, entre adolescente americanos em 2000, 73% disseram que os pais passavam muito pouco tempo com eles. (HONORÉ, 2005) A Academia Americana de Pediatria adverte que a prática precoce de exercícios pode causar problemas de saúde e psicológicos. Países estão repensando a prática do aceleramento do estudo, para crianças. Na Finlândia, as crianças começam com seis anos sua formação pré-escolar e o aprendizado formal aos sete anos. E este país se tem mantido em primeiro lugar na classificação mundial de desempenho educativo, estabelecida pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Rudolf Steiner se opunha à alfabetização antes dos sete anos. Segundo ele, as crianças deveriam passar os primeiros anos da vida brincando, desenhando, aprendendo histórias e sobre a natureza. Este pedagogo também entendeu a ineficácia de horários rígidos de matérias que fazem os alunos roboticamente irem de um lugar para outro na escola, sem conexão com um sentido fluente, de fato. Hoje existem mais de 800 escolas Steiner no mundo, e outras novas estão sendo abertas, mais e mais. Durante estes 80 anos de

1286 ensino, com eficiência comprovada. A educação é vital, a procura cada vez maior por escolas Steiner no mundo reflete uma evolução, pois segundo Roland Meighan, especialista britânico em educação: “Quando as pessoas começam a se fazer perguntas sobre a educação, começam também a fazer perguntas sobre tudo mais – política, meio ambiente, trabalho”. (HONORÉ, 2005, p.297) Depois que a criança completa os três anos, os pais precisam continuar atentos aos valores que querem para seus filhos e isto é determinante para a escolha da escola onde vão matricular os filhos. Para isto, antes de olhar fisicamente uma escola, é interessante conhecer a linha pedagógica que esta segue, pois ela pressupõe uma cosmovisão. A autora fará um brevíssimo sumário das mais conhecidas linhas existentes, pois já externou que, na verdade, só entende uma pedagogia para prover uma educação integral. Porém, ela entende também que as pessoas devem buscar escolhas, que reflitam os valores de suas aspirações. É importante compreender que os pais mantenham este fundamento da cosmovisão, que não se fechem em teorias únicas, até porque o conhecimento se constrói todos os dias. Pode se ver que existem quatro correntes pedagógicas enunciadas por Allet em 1998:
1 – A corrente magistro-centrista, que tem por finalidade a transmissão, pelo professor, de um saber constituído; 2 – A corrente puero-centrista, que tem por finalidade ‘o desenvolvimento, a formação e o desabrochar do aluno-pessoa’; 3 – A corrente sociocentrista, que ‘ tem por finalidade formar um homem social’, ‘membro da comunidade e sujeito social’; 4 – A corrente tecnocentrista, que ‘tem por finalidade adaptar o aluno à sociedade técnica e industrial’ (LIBÂNO et al. 2005, p.153)

A Pedagogia de Piaget que nasceu em Neuchâtel na Suíça, em 1896, e faleceu em Genebra, em 1980. Formado biólogo, estudou psicologia e psicanálise. Muda-se para a França e trabalha com testes de inteligência infantil. Escreve A Linguagem e o Pensamento da Criança. Leciona Psicologia, Sociologia e Filosofia da Ciência, História do Pensamento Científico, Psicologia Experimental na Universidade de Neuchâtel. Baseando-se na observação de seus filhos, estuda e depois publica O Nascimento da Inteligência da Criança, seguindo-se depois A psicologia da Inteligência. Em 1946,

1287 participou da elaboração da Constituição da UNESCO, órgão das Nações Unidas para educação, ciência e cultura. Escreve Introdução à Epistemologia Genética e, em 1966, A Psicologia da Criança. Em 1967, escreve Biologia e Conhecimento. Em seu livro A Formação do Símbolo na Criança afirma: “a criança não reflete”, afora isto a genética em que se baseou a maior parte do seu arcabouço teórico ruiu, hoje, com as descobertas da Nova Biologia. Assim como também ruiu a visão de psicologia que não emprestava valor ao conhecimento antes dos dois anos e meio. Além disto, as inúmeras pesquisas que surgiram deixaram patente que, diferente do que Piagert pensava, o desenvolvimento cognitivo não é o que mais importa, e que a adaptação ao meio, entendido como meio físico, tem na vida, grande peso. Na verdade, a relação entre desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento social é mais complexa do que ele formulou. Inúmeras pesquisas foram mostrando que o papel desempenhado pelos processos afetivo e cognitivos, por ele negligenciados, são de extrema importância no desenvolvimento. A ênfase de Piaget se mostra em sua própria formação que é a da aquisição do conhecimento para a inteligência matemática. Esta tem sido a pedagogia dominante no mundo – ou ela, ou algo que dela derive, como foi o caso da pedagogia desenvolvida por Emilia Fereiro, discípula de Piaget. (PIAGET, 1967, 1978; ALMEIDA, 2002; PINTO, 2005a, 2005b, 2005d) Maria Montessori, psiquiatra, começa a se dedicar ao ensino, pensando numa pedagogia voltada para a educação na primeira infância, já abarcando algo da dimensão espiritual da criança. Em 1909, publica O Método de Pedagogia Científica e entende que deve haver materiais pedagógicos específicos para crianças entre seis e 11 anos. Praticamente só 50 anos depois é que serão publicados seus livros A Formação do Homem, Para Educar o Potencial Humano e O que você precisa Saber sobre Seu Filho. (PINTO, 2005d)

1288 Lev Semenovich Vygotsky nasceu em 1896, em Osrha, lecionou literatura, chega a abrir uma editora. Em 1922, acontece a Criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1924, é convidado a trabalhar no Instituo de Psicologia de Moscou e, no mesmo ano, casa-se, e tem duas filhas. Em 1925, escreve sobre Psicologia da Arte, e organiza Laboratório de Psicologia para Crianças Deficientes. Ainda em 1925, começa a escrever os seus artigos. Em 1927, escreve O significado Histórico da Crise da Psicologia e em 1931, o Desenvolvimento das Funções Psicológicas Superiores. Em 1934 publica Pensamento e Linguagem e, no mesmo, ano morre. (PINTO, 2005c) Vygotsky buscava resposta para três questões fundamentais: primeiro, compreender o ser humano e seu ambiente físico e social; segundo, identificar as novas formas de atividade que fizeram do trabalho um meio fundamental de relacionamento entre o homem e, terceiro, a natureza, das relações entre o uso de instrumentos e o desenvolvimento da linguagem. (REGO, 1998) As três questões enfocam o ser que produz. É importante, porém, perceber que há outras dimensões que precisam desenvolver-se. Parece que ele não compreendeu a função meditativa do brincar.
O que restaria se o brinquedo fosse estruturado de tal maneira que não houvesse situações imaginárias? Restariam as regras. Sempre que há uma situação imaginária no brinquedo, há regras – previamente formuladas e que mudam durante o jogo, mais aquelas que têm sua origem na própria situação imaginária. Portanto, a noção de que uma criança pode comportar-se em uma situação imaginária sem regras, é simplesmente incorreta. (VYGOTSKY, 1988, p. 125 p. apud LUZES 2003)

Outro autor, Gardner, tenta uma aproximação pedagógica mais voltada para o ser, mas consegue não usar a palavra “sentimento” em toda a sua obra, lida pela autora. Ele fala de sete inteligências: lingüística, musical, lógico-matemática, espacial, corporalcinestésica e pessoal. (GARDNER, 1994) Paulo Freire nasceu em 1921, e estuda Direito. Em 1947, passa a lecionar no Setor de Educação e Cultura Social. Em 1959, escreve Educação e Atualidade Brasileira.

1289 Dedica-se a alfabetizar filhos de trabalhadores rurais. Publica Alfabetização e Conscientização. Em 1964, o Programa Nacional de Alfabetização (PNA) é oficializado. Devido a questões políticas fica exilado na Bolívia e, depois, no Chile. Em 1968, escreve A Pedagogia do Oprimido. Em 1969, vai viver nos Estados Unidos onde leciona em Harvard. Em 1970, torna-se consultor do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, participando de ações educativas em outros continentes, como na África. Em 1971, publica Extensão ou Comunicação? Em 1980, torna-se professor da Unicamp. Em 1982, publica a Importância do Ato de Ler; em 1991 publica a Educação da Cidade. A dimensão social tem forte matiz na pedagogia de Freire. (PINTO, 2005e) Por 30 anos Paulo Freire defendeu que o conhecimento não se transfere o conhecimento, se constrói, como a inteligência. (SANTOS, 2003) Portanto, resulta da relação professor aluno. “Todo o nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educador no adulto”. (JUNG, 1981b, p. 174-175)

O educador deve sempre ter em mente que pouco adianta falar e dar ordens: o importante é o exemplo. (JUNG, 1981b, p. 137) O profissional está como que inevitavelmente condenado a ser competente. (JUNG, 1981b, p. 175) A pedagogia formativa não pensa exclusivamente na formação para o mercado de trabalho. Este aspecto vem contextualizado dentro da formação de uma juventude competente profissionalmente, mas, também, capaz de construir sua felicidade mediante conhecimentos, fortalecendo a auto-estima. Isto significa encarnar o conhecimento como uma razão de ser. (SANTOS, 2004, p. 83)

1290 Henri Wallon opõe-se às concepções reducionistas, que limitam a compreensão do psiquismo humano a um ou outro termo da dualidade espírito-matéria. Wallon tece críticas à psicologia da introspecção, baseada na concepção idealista, assim como aos materialistas mecanicistas que proclamam as bases biológicas da ciência psicológica, cuja visão organicista coloca a consciência como simples decalque de estruturas cerebrais. (GALVÃO, 1998) Wallon propõe um estudo integrado do desenvolvimento que envolva vários campos funcionais, nos quais se distribuem as atividades infantis (afetividade, motricidade, inteligência). Seu trabalho consiste na elaboração de uma psicogênese da pessoa completa, necessitando para isso integrar conhecimentos de neurologia, psicopatologia, antropologia e psicologia animal. Defendia a plasticidade do sistema nervoso e evidenciou as estreitas relações existentes entre movimento e psiquismo, bem como o papel fundamental do meio social. (GALVÃO, 1998) Buscando apreender a função da emoção, Wallon defende que as emoções são reações organizadas e que se exercem sob o comando do sistema nervoso central e que é na ação sobre o meio humano, e não sobre o meio físico, que deve ser buscado o significado das emoções. Para Wallon as emoções podem ser consideradas como a origem da consciência. Ressalta para isto a importância do grupo. (WALLON apud ALMEIDA. 2002) Rudof Steiner entendia que o professor moderno deveria ter, como fundamento do que faz na escola, uma ampla visão do universo. (STEINER, 1981 b) Jean Paul, escritor, escreveu: “Nos três primeiros anos o homem aprende muito mais para a vida do que nos três anos acadêmicos” (STEINER, 2005, p. 10)

1291 A criança começa a andar por volta de um ano, a falar por volta de dois anos, e a pensar por volta de três anos. Nesta mesma seqüência, diz Steiner (2005), há uma certa dependência de uma para a outra atividade. Afirma ele:
por um misterioso processo do organismo humano, da mesma maneira como aprende a criança a andar, a orientar-se no espaço, a deslocar-se de um lugar a outro, chega o andar a manifestar-se como linguagem. O falar, portanto, é um produto do andar, isto é, é um produto da orientação no espaço". (.) é um fato verdadeiro que, quando a criança está começando a falar, o organismo inteiro é ativo. Os movimentos exteriores se transformam nos movimentos internos da linguagem. (STEINER, 2005)

No desenvolvimento da linguagem: aproximadamente aos 1,3 anos a criança usa 100% de substantivos, entre 1,8 anos: 78% de substantivos, e 22% de adjetivos, e aos 1,11 anos sua linguagem; compõe-se de 63% de substantivos, 14% de adjetivos, e 23% de verbos. (KÖNIG, 2002) Quanto à memória, ela surge em três etapas: perceber (lembrança localizada), recordar (lembrança rítmica) e lembrança imaginativa (lembrar). Até o terceiro ano a memória está formada e é a partir daí que se dá um continuum para as experiências diárias. (KÖNIG, 2002) A criança percebe a cor complementar e reage a ela. Assim, se uma criança está agitada e for exposta à cor vermelha, ela produz intimamente a imagem complementar verde. E a produção desta cor tem efeito calmante. (STEINER, 1996, 1992) Se alguém quer educar, que primeiro seja educado. (JUNG, 1981b, p. 174) Na pedagogia e no ensino futuro, Steiner dizia que se deveria dar ênfase ao cultivo da vontade e da vida emocional. Mesmo para aqueles que não cogitam uma reforma do ensino e da pedagogia. Porém, se a pedagogia for centrada na volição e emoção, fica aquém das necessidades educativas da criança.

1292 A criança precisa vivenciar, explorar e elaborar o mundo, brincando. (GOEBEL, CLÖCKER, 1993) A pedagogia Waldorf almeja o desenvolvimento integral do ser humano. Na escola todas as atividades devem estar bem estruturadas na direção de pensar, sentir e fazer. A arte é parte fundamental do ensino, o respeito aos ritmos e à percepção da criança dentro do seu contexto familiar. A atividade criativa e constante, porém rítmica, permite o desenvolvimento da vida reflexiva, ao mesmo tempo em que a capacidade destas crianças é desenvolvida ao máximo e sem estresse. (GUERRA et al., 2006) O que a autora vem percebendo nestes anos é que os pais que tiveram filhos com estas cinco condições de que se fala na tese, não pensam em colocar os filhos numa escola que não dará seguimento a este trabalho que fizeram com seus filhos. Deste modo, a pedagogia que mais se expande hoje no mundo consciente é a Waldorf, pois é plena. E irradia felicidade. As crianças que irradiam felicidade são também líderes natos para as outras crianças. (REICH, 1987, p. 21)

9. Os Três Primeiros Anos de Vida e Antropologia A criança que necessita de proteção de forças malignas foi algo que se verificou em muitas culturas.
Entre os Majhwâr, uma tribo aborígine de uma província em uma colina do Sul de Mirzapur, um instrumento de ferro tipo uma foice ou um talhador de arequeira é constantemente mantido perto da cabeça da criança durante seus primeiros anos de vida com a finalidade de repelir os ataques de fantasmas. (CROOKE apud FRAZER, 1980c, p.234)

1293 Duas tribos observadas por Margaret Mead são demonstrações da questão tratamento do bebê e tipo de civilização que se desenvolve. Esta antropóloga observou duas tribos na Nova Guiné: os Arapesh e os Mundugumor, sendo os primeiros uma tribo marcadamente terna. Ela descreve que eles têm uma atividade sexual diferenciada, entendendo dois modos de sexo: o que é para divertimento e o que é para procriação. Assim sendo, quando há intenção de procriar, a atividade sexual passa a ser intensa, pois eles entendem que no primeiro momento o feto é formado pelo sangue da mãe e o esperma do pai. No momento que os seios ficam descolorados e incham, caracterizando a gravidez, diz-se então que a criança “está terminada, isto é, um ovo perfeito, e agora repousará no ventre materno. A necessidade de um ambiente calmo é sempre ressaltada. A mulher que deseja conceber deve ser tão passiva quanto possível” (MEAD, 1979, p. 56) Desde então fica interditada toda relação sexual pois é entendido que a criança precisa dormir tranquilamente, podendo alimentar-se com a comida que lhe faz bem. Isto implica também várias restrições dietéticas, que poderiam afetar ou o bebê ou o trabalho de parto. O enjôo matinal é desconhecido por esta tribo. (MEAD, 1979) No momento do parto, o pai não pode estar presente. Depois ele se travará conhecimento com o bebê e a mulher, e então observarão restrições dietéticas, realizarão pequenos ritos para assegurar o bem-estar da criança. Os dois receberão cuidados vindos das esposas do irmão do pai. (MEAD, 1979)
Entre os Arapesh: O homem que tem o primeiro filho (homem) se vê num estado tão precário como o menino recém-iniciado ou o individuo que matou pela primeira vez numa luta. Somente poderá purificá-lo deste estado um homem que já teve filhos, o qual se tornará seu padrinho e executará a cerimônia necessária. Após um período de cinco dias, durante os quais permanece na mais rigorosa segregação com sua esposa, sem tocar o tabaco com as mãos, usando de uma varinha para se coçar e ingerindo todos os alimentos com uma colher, é levado à beira d’água, onde foi construída uma colher, e, onde foi construída uma pequena choça de folhagens, alegremente ornamentada com flores vermelhas e ervas apropriadas para a magia do inhame. Esta casinha é levantada perto de um poço, em cujo leito se coloca um grande colar branco, chamado ritualmente “enguia”. O pai do recémnascido e seu padrinho descem ao poço, onde o progenitor ritualmente limpa a boca num colar que seu padrinho lhe estende. Em seguida, o pai bebe a

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água do poço onde foram mergulhadas algumas ervas aromáticas e perfumadas, e banha o corpo inteiro. Entra na água e consegue capturar a enguia, que ele devolve ao padrinho. A enguia está intimamente ligada, de maneira simbólica, ao falo, e é tabu especial para meninos durante os períodos de crescimento (MEAD, 1979, p. 58-59)

Pai e mãe cuidam do bebê. A atividade sexual fica interrompida desde os primeiros meses até as crianças darem, seus primeiros passos. A mãe a amamenta até três ou quatro anos. Mesmo que o pai tenha outra esposa, a atividade sexual é considerada prejudicadora ao desenvolvimento da criança. Depois que a atividade sexual é recomeçada, o pai pode dormir com outra esposa se quiser, não é mais necessário permanecer dormindo com a esposa e a criança. Eles acreditam que não é bom nascerem crianças com idade próxima, pois a mãe é sacrificada e as crianças também. O aleitamento permanece, não obstante alimentos tenham sido incluídos na dieta, para a criança ter um lugar onde possa estar para combater o medo ou a dor. O pai cuida bastante do bebê, tanto cuidados higiênicos, quanto de alimentação e é com ela tão pouco severo quanto a mãe. (MEAD, 1979) A educação da criança Arapesh faz com que ela tenha comportamentos como Margaret Mead percebeu: “plácida e satisfeita, não-agressiva e não iniciatória, não competitiva e receptiva, cordial, dócil e confiante” (MEAD, 1979, p. 63). Nos seus primeiros anos a criança nunca está longe dos braços de alguém fica, em geral, com a mãe, colocada numa cestinha que ela apóia na testa, de acordo com o temperamento da criança, a colocação é mais fácil de acesso ao seio. Nesta comunidade o choro da criança é visto como algo urgente de ser acolhido, outras mulheres podem dar-lhe de mamar, e ela dorme em contato íntimo com a mãe, nunca é deixada sozinha. Com o tempo outras brincadeiras com outras crianças passam a interessar mais do que o relaxado aleitamento. Ela desenvolve relação afetiva com animais e pessoas. Os pais vão apresentando os seres à criança com voz calma e sempre assegurando que se trata de um alimento bom, de um animal bom, de uma pessoa boa, a mãe explica à

1295 criança que outra mulher é “outra mãe”, e a criança pode entender que uma outra mulher de outro grupo racial, que assim lhe foi apresentada, é também alguém em quem pode confiar. “Não há ninguém a quem não chame tio, irmão ou primo, ou nomes semelhantes para as mulheres. E como estes termos são empregados em larga extensão e com total indiferença quanto às gerações, até mesmo as gradações de idade nelas implicadas se apagam” (MEAD, 1979, p. 68) É uma sociedade que não conhece violência sexual, onde há um forte senso de amizade entre os pares, a ponto de ser difícil saber exatamente quem são os parentes. (MEAD, 1979) Por outro lado, na tribo dos Mundugumor, quando a mulher conta ao esposo que está grávida ele fica insatisfeito. Automaticamente ele fica excluído de atividades de que gostava, o que agrava o afastamento entre marido e esposa. As relações sexuais são interrompidas, para impedir o nascimento de gêmeos. A taxa de nascimento de gêmeos nesta região é superior à de qualquer outra na Nova Guiné. A adoção é prática freqüente nestes casos. E a adoção nesta tribo pode ocorrer por mulheres que nunca conceberam, e se alimentam de água de coco e levam o bebê ao seio, sem muita delonga quando ocorre a descida do leite. A privação sexual é vivida pela mulher como odiosa. Fica constantemente preocupada que ele tome outra mulher por esposa durante o período da gravidez. As estórias com rivais são freqüentes, os próprios parentes da mulher a abandonam, e ambos perdem a confiança na parceria e fidelidade. Se o marido efetivamente começou novo relacionamento, quando a criança nasce a mãe estará ainda mais distante dela do que seu pai. (MEAD, 1979) As cestas em que as mães carregam os bebês são em geral duras, e apertadas, e acabam por manietá-los de bruços. Carregam-nos somente em caso de necessidade; normalmente quando saem, deixam-os em casa. Enquanto para os Arapesh o choro da

1296 criança é motivo de mobilização de todos por contato físico com a criança, e calor, aqui, as pessoas sem sequer olhar para elas, arranham os cestos onde estão, e o som desagradável acaba sendo entendido pelo bebê, como resposta possível a seu choro, e só se o choro continuar é que a criança é amamentada. A amamentação ocorre de pé, e não tem nada de afeto e carícia corporal mútuas que se observam entre os Arapesh; não há contato prolongado, e no momento em que para de mamar, a criança é devolvida a seu cesto. Assim sendo, as crianças desenvolvem uma atitude de luta para mamar, segurando vigorosamente o seio, e sugando-o de modo rápido, e muitas vezes se engasgam, o que irrita a mãe, tingindo o aleitamento em um forte ódio, ao invés de afeição. (MEAD, 1979) Margaret Mead observou:
Esta atitude para com os filhos condiz com o individualismo desumano, com peculiar sexualidade agressiva, com a hostilidade intra-sexual dos Mundugumor. Um sistema que tornasse o filho valioso como herdeiro, como extensão da sua própria personalidade do pai, poderia combinar o tipo de personalidade do Mundugumor com um interesse na paternidade, mas sob o sistema de casamento Mundugumor, um homem não tem herdeiro, apenas filhos que são rivais hostis por definição e filhas que, por mais que as defenda, lhe serão finalmente arrebatadas. Para o homem a única esperança de força e prestígio reside no número de esposas, que hão de trabalhar para ele e dar-lhe os meios de adquirir poder. (MEAD, 1979, p. 190-191).

A primeira criança é a mais mal recebida. Com o tempo, outros filhos vão sendo melhor aceitos. E uma vez nascido um menino, é imperioso que nasça uma menina para poder trocar uma esposa. (MEAD, 1979) Nesta tribo apenas as crianças mais fortes sobrevivem, o aleitamento no seio só ocorre quando a mãe avalia real necessidade de alimento; por dor ou medo isto não ocorre. Logo que aprende a andar a criança é largada a maior parte do tempo: não lhe é permitido andar longe, por medo de afogamento, uma vez que onde o afogamento ocorrer a água fica interditada para beber. (MEAD, 1979) Para os Mundugumor o êxito está na capacidade de violência. São canibais. (MEAD, 1979)

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O canibalismo é de essência mágica”. Relaciona-se com a cobiça: aquele que leva em sua mão outra pessoa, o faz unicamente para seu prazer e seu enriquecimento pessoal. (SCHUBART, 1975, p.55) “A cobiça não quer ouvir falar de sacrifício e de comunidade: ela só reconhece o prazer, ela isola, separa, mata. (KIERKEGARD apud SCHUBART, 1975) Ora, um traço notável das sociedades que praticam o canibalismo parece ser que, com relação a esse uso, as mulheres ocupam sempre posição fortemente marcada... Em face do canibalismo, por conseguinte, a posição atribuída às mulheres raramente é neutra. Quando a sociedade não as exclui, dir-se-ia que se espera das mulheres (se nos permitem a expressão) que “tomem parte”. A própria mitologia faz freqüentemente remontar a uma mulher a origem primeira dos costumes canibais. (LÉVI-STRAUSS, 1986, p. 143-144)

O atendimento que a mãe Netsilik dá a seu filho satisfaz as exigências de suas necessidades programadas filo-geneticamente; as respostas do bebê são invariavelmente agradáveis. Essa invariabilidade da resposta de prazer, sugere De Bôer, é a chave para a capacidade dos esquimós Netsilik enfrentarem os estresses. Eles raramente têm comportamentos adversos a outros indivíduos ou situações, embora sejam constantemente ameaçados pelas incertezas de seu ecossistema. Situações

ecologicamente estressantes jamais transtornam sua homeostase emocional: ele se defronta com um urso polar enfurecido com a mesma frieza e serenidade com que se mostra capaz de enfrentar a ameaça de escassez de alimentos. A invariabilidade de sua resposta homeostática emocional não implica que estas respostas sejam estereotipadas; pelo contrário, a homeostase implica uma força vital dinâmica. Do ponto de vista evolutivo, este equilíbrio homeostático tem oferecido vantagens seletivas para a sobrevivência tanto do indivíduo quanto de seu grupo. (MONTAGU, 1986) Quando está com aproximadamente três anos de idade, a criança Netsilik já alcançou “as únicas duas características motivacionais necessárias ao seu

funcionamento como ser humano auto-regulado”, ou seja, respostas altruístas ou agradáveis aos relacionamentos interpessoais e o poder de realizar manipulações simbolicamente. Uma vez que inexistem relacionamentos de dominância-submissão nas relações familiares e especialmente nas materno-filiais, existe um equilíbrio harmônico

1298 entre o indivíduo Netsilik e sua sociedade; o indivíduo vive relações gratificantes e mutuamente altruístas. (MONTAGU, 1986) Todavia, é incomum que o bebê esquimó urine ou defeque enquanto está dentro da bolsa – amauti – da parka de sua mãe. Quando o Dr. Otto Schaeffer perguntou a uma mãe esquimó como é que ela sabia quando seu bebê queria urinar, e sempre recebia a mensagem a tempo, tal mãe ficou muito espantada pela implicação da pergunta: que poderia haver mães tão “estúpidas” que não conseguissem sabê-lo. (MONTAGU, 1986) Os movimentos da mãe durante a execução de suas atividades rotineiras dão à criança esquimó uma visão do mundo a partir de um amplo ângulo; com base nesta visão, amadurecerão suas habilidades espaciais que serão reforçadas por experiências subseqüentes. As extraordinárias capacidades espaciais dos esquimós, assim como suas notáveis habilidades mecânicas, talvez estejam intimamente relacionadas a essas experiências iniciais, às costas da mãe. (MONTAGU, 1986) Em Ganda na África Oriental, a Dra. Mary Ainsworth realizou um estudo detalhado das práticas de criação de filhos junto aos Ganda, da África Oriental. Seu estudo de campo foi conduzido numa única aldeia, a cerca de 24 km de Kampala. A maioria das mães ainda carregava, seus filhos às costas e beneficiava-se da amamentação natural que durava um ano ou mais. Lá os bebês passam a maior parte de suas horas de vigília no colo de alguém. Enquanto segura o bebê nos braços, a mãe lhe dá delicados tapinhas ou faz carícias. Observou-se que o ritmo do desenvolvimento sensório-motor era acelerado na maioria dos bebês. Eles se sentavam, ficavam em pé, engatinhavam e andavam muito antes do eu, que é a média constatada em bebês das sociedades ocidentais. Ainsworh atribui isto ao tipo de atendimento recebido pelo bebê.

1299 Infelizmente, o estudo de Ainsworth lida apenas com os primeiros quinze meses de desenvolvimento da criança de Ganda e nada nos informa a respeito dos traços posteriores de personalidade do adulto deste povo. (MONTAGU, 1986) Os dados levantados pela Dra. Marcelle Géber, que estudou 308 crianças de Kampala, endossam também essa última possibilidade, pois constatou que os recémnascidos e os bebês até dois anos mostravam vantagens consideráveis tanto de desenvolvimento físico quanto intelectual, e nas relações pessoais e sociais, se comparadas às crianças européias de idade equivalente e, o que é ainda mais significativo, quando comparadas também com as crianças de Ganda criadas à européia. As crianças examinadas antes e depois do desmame mostraram acentuadas diferenças de comportamento. A mãe nunca o deixa e o carrega às costas, frequentemente num contato pele-pele, para onde for; ela dorme com ele, e alimenta-o. Ele também é o centro do interesse para vizinhos visitantes, para quem é oferecido, assim que foram trocados os cumprimentos de prazer como parte do ritual. Porém ao atingir a idade de dezoito meses e até os dois anos de idade, criança é tirada da mãe e dada a uma outra mulher de outra aldeia para ser disciplinada e “socializada”. A mãe natural não vai “treiná-lo”. Essa é a tarefa para a mãe substituta. A Dra. Géber descobriu que essas crianças passavam por uma acentuada desaceleração em seu desenvolvimento; algumas delas mostravam menos capacidades que antes, presumivelmente porque tinham perdido habilidades adquiridas antes. (MONTAGU, 1986) Lorna Marshall, que passou muitos anos morando com os Kung, num período que se estendeu de 1950 a 1961, observou que eles vivem uma sensação de pertinência e companheirismo, que está sendo constantemente reforçada pela alta freqüência de contato tátil. Os bebês Kung são carregados pelas mães a maior parte do tempo, atados à lateral de seu corpo por sacolinhas de couro macio de onde podem facilmente alcançar o

1300 seio materno. Mamam quando e quanto querem. Eles não usam roupas e estão em contato direto de pele com suas mães. À noite, dormem nos braços da mãe. Quando não estão nos braços da mãe nem atados à lateral de seu corpo, estão no colo de alguma outra pessoa; ou quando são colocados no chão para brincar, amontoam-se em cima dos mais velhos, que ficam deitados conversando, ou então brincam ao alcance da mãe. (MONTAGU, 1986)

10. Os Três Primeiros Anos de Vida e Tradições Talvez um mito que se pode dizer que não foi superado por nossa civilização é o mito de Moisés, este arquétipo da criança abandonada que é colocada num rio, pois um poder assim o determina. Na Bíblia, foi a ordem do Faraó, o poder que comanda. Nos dias atuais, são mulheres de todo mundo que deixam seus filhos em creches, pois assim lhes é imposto pelo desamparo de seguridade social. Mulheres que não vão sequer poder ter a chance do contato com o filho, prolongadamente como a mãe de Moisés. Êxodo: 1: “Todo filho recém-nascido deveis lançar no Nilo, mas toda filha deveis preservar viva” (BIBLIA, 183, p. 74)
Hebreus: Capítulo 11 Versículo 21 Pela fé Jacó, quando estava para morrer, abençoou a cada um dos filhos de José e adorou encostado na extremidade do seu bordão. 22 Pela fé José, próximo do seu fim, fez menção do êxodo dos filhos de Israel; e ele deu mandado a respeito dos seus ossos. 23 Pela fé, Moisés foi escondido pelos seus pais por três meses depois de ter nascido, porque viam que a criancinha era bela e não temiam a ordem do rei. (BÍBLIA, 1983, p.1363)

Nesta passagem fica claro que grande reino pode existir na terra, vindo do cuidado aos bebês, pois é deles que vai surgir uma nova humanidade mais harmônica.
Salmos: Capítulo 8 Ó Jeová, nosso Senhor, quão majestoso é o teu nome em toda a terra, Tu, cuja dignidade é narrada acima dos céus! 2 Da boca de crianças e de bebês fundaste a força. (BÍBLIA, 1983, p.651)

A orientação que aí se vê é que é importante que os pais controlem sua raiva, pois o ato com raiva é tremendamente humilhante.

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Colossenses: Capítulo 3 Versículo 18 Vós, esposas, estai sujeitas aos [vossos] maridos, assim como é decente no Senhor. 19 Vós, maridos, persisti em amar as [vossas] esposas e não vos ireis amargamente com elas. 20 Vós, filhos, em tudo sede obedientes aos [vossos] pais, pois isso é bem agradável no Senhor. 21 Vós, pais, não estejais exasperando os vossos filhos, para que não fiquem desanimados. (BÍBLIA, 1983, p.1335)

Na tradição tibetana, chama a atenção que: • É entendido que o vínculo ocorre durante a pré-concepção, e no desenvolvimento no útero. Que o vínculo se desenvolve a partir do amor, profundo que cresce entre criança e os pais. • Existe um tempo para união da família depois do nascimento, antes da celebração onde a comunidade pode dar boas vindas à criança. • Contínuo vínculo mãe e pai e criança e membros da família é essencial para o desenvolvimento do cérebro da criança. • O nome do bebê é geralmente um modo de ele manter conexão com sua linhagem espiritual. Muitas vezes os nomes são escolhidos pelo Dalai Lama. No dia ou semana em que a criança nasce é que lhe é dado o nome. • A depressão pós-parto é conhecida medicina tibetana, e o tratamento é feito logo depois do nascimento, assim como é apoiado o relacionamento mãe-filho, e família, pois é crucial. (MAIDEN e FARWELL, 1997, p. 93) Na teosofia: A percepção de nossos campo mentais como influenciam o estado do bebê, é bem clara na observação de Nancy Bullock:
Para satisfazer as necessidades de uma criança, a atitude interna da pessoa é muito essencial. Agir exteriormente como se estivesse amando e intimamente estar apressado, dá à criança senso de insegurança e agitação. Crianças podem sentir-nos e eles sempre reagirão de algum modo. Nós não sonharíamos com entrar no quarto de uma criança se tivéssemos uma doença contagiosa ativa, porém fazemos muito pior quando nós trazemos pensamentos odiosos e mórbidos conosco. ... A ansiedade é transferida prontamente para o bebê e prejudica seus corpos sutis. (PARENTS THEOSOPHICAL RESEARCH GROUP, 1981, p. 78 -79)

Clara Codd no livro Thought: The Creator, fala daquilo que na prática psicoterápica resulta ser de observação constante: a mais invisível de todas as influências, para o bem ou para o mal, que se evidencia quando se cuida de crianças é que elas são extraordinariamente responsivas, refletindo quase como um espelho os pensamentos e os humores das pessoas crescidas à sua volta. Então bebês devem ser, o máximo possível protegidos de tudo o que for feio, desarmônico, imoral, pois a criança adquire nos primeiros anos de vida uma estrutura de ego que nunca a abandona

1302 inteiramente depois. O principal fator para a saúde mental e moral se desenvolver é o amor. A criança que não teve suficiente amor, nos seus primeiros anos de vida, sofrerá devido a esta falta pelo resto da encarnação, e não alcançará sua plena maturidade física, psíquica e espiritual. (PARENTS THEOSOPHICAL RESEARCH GROUP, 1981) A experiência me demonstra que o trabalho da mãe, o afastamento físico, mental e espiritual da mãe junto à criança gera danos consideráveis à educação (AÏVANHOV, O. 1999) Muitos hoje acham que a educação é algo que deve vir do exterior, isto é um grave erro, que o livre arbítrio a fará desenvolver. É fato que nelas habitam as boas e mais tendências, que não estiver preparado para inspirar o melhor, que aguarde o pior. (AÏVANHOV, O. 1999) “A educação atual fica na superfície, na periferia. Ora, a verdadeira pedagogia é uma pedagogia do centro.” (AÏVANHOV, O. 1999, p. 149)
Acredita no que te digo: todos esses eloqüentes pedagogos desconhecem completamente a verdadeira pedagogia. Não sabem que para iluminá-los é necessário ser luminoso, que para vivificá-los é forçoso estar vivo. Os educadores querem impor às jovens gerações qualidade morais que eles mesmos não possuem e dos quais não conseguem dar-lhes exemplo (AÏVANHOV, O. 1999, p. 148 -149)

“Tenho dito sempre que a melhor profissão, a mais nobre, é a de educador, de pedagogo” (AÏVANHOV, O. 1999, p.155)

11. Os três Primeiros Anos de Vida e a Arte Na visão de Goethe a boa educação, é possível de ocorrer, se pais e mães tiverem sido desenvolvidos para tanto. “Podiam-se parir meninos educados Se os pais já fossem bem-criados” (GOETHE, J. W., 1986)

1303 Por outro lado não há declaração mais cristalinamente clara e verdadeira que: “A primeira violação, o pior que pode ocorrer a qualquer criatura recém nascida é a separação de sua mãe, de seu habitat natural”. (Nils Bergman apud GARCIA, 2006, p. 53)
Amor de Mãe: Uma anedota popular árabe conta que uma mãe, a quem perguntaram a qual dos filhos mais amava, respondeu: - Ao pequenino, até que cresça; ao enfermo, até que se cure; ao ausente, até que volte. (Al-Asbahami) (O Alcorão, 1967, p. 239)

Este texto abaixo, é um texto anônimo, mas extremamente importante:
Quero Ser Uma Televisão Ana Maria, professora do ensino fundamental, pediu aos alunos que fizessem uma redação sobre o que gostariam que Deus fizesse por eles. Ao fim da tarde, quando corrigia as redações, leu uma que a deixou muito emocionada. O marido, que, nesse momento acabava de entrar, viu-a a chorar e perguntoulhe: - "O que é que aconteceu?" Ela respondeu: - "Lê isto." Era a redação de um aluno. - "Senhor, esta noite peço algo especial: - Transforma-me na televisão. - Quero ocupar o lugar dela. Viver como a TV da minha casa. Ter um lugar especial para mim, e reunir a minha família comigo... - Ser levado a sério quando falo... - Quero ter as atenções e ser escutado sem interrupções nem perguntas. - Quero receber o mesmo cuidado especial que a TV recebe quando não funciona. - Ter a companhia do meu pai quando ele chega em casa, mesmo quando está cansado. E que a minha mãe me procure quando estiver sozinha, cansada ou aborrecida. E ainda que os meus irmãos discutam para ver quem fica comigo. -Quero sentir que a minha família deixa tudo de lado, de vez em quando, para passar alguns momentos comigo. E, por fim, faz com que eu possa diverti-los a todos. - Senhor, não te peço muito... só quero viver o que vive qualquer televisão" Naquele momento, o marido de Ana Maria disse: - "Meu Deus, coitado desse menino! Que pais..."! E ela olhou-o e respondeu: - "Esta redação é do nosso filho". (Autor desconhecido)

Na História da pintura, a família quase nunca é retratada com esta interação que aparece no quadro de Reynolds. Este quadro foi a ilustração do XVI Encontro de

1304 Gestação e Parto Natural Conscientes – A Vida Bem Vinda, que aconteceu em novembro de 2006, no Rio de Janeiro.

Figura 123: Lady Cockburn e seus Filhos, Joshua Reynolds, 1774. Tela 14,5 X 113 cm Londres, National Gallery. (VALSECCHI, 1972b, p. 490) Joshua Reynolds, pintor inglês, nasceu em Plympton, em 1723, e morreu em Londres, em 1792. Teve esmerada educação, era filho de um clérico, reitor de uma escola de latim e grego. Na bagagem de sua formação pictórica estava a admiração pelos clássicos: Van Dyck, Tiziano, Tintoretto e o Veronês. Voltando de uma longa viagem, começa em Londres a pintar clientes ricos, acaba, através da influência deles, a ser indicado para a Royal Academy. Depois de ir para a Holanda e se inspirar nas obras de Rubens, pinta sua grande obra Máster Hare, e um ano depois fica cego, os discípulos terminaram uma longa galeria de retratos. Pintou mais de 2.400 retratos, um documento histórico de sua época. (PASQUAL e PIQUÉ, 1996b) A autora acredita que, ainda hoje, a sociedade não resolveu o mito do abandono de Moisés. Naquele tempo, por ordem do Faraó, a mãe teve que deixar seu filho no rio. Hoje, os poderes constituídos da sociedade, sem apoio de nenhuma securidade social, obrigam as mulheres a deixarem seus filhos nas creches, é preciso que a sociedade

1305 resgate os Moisés que ela abandona, e os entregue as suas mãe e pais e irmãos, isto é um dos pontos para as fundações de uma sociedade fraterna. Se os professores, projetarem a imagem destes quadros, seus alunos poderão lembrar de se julgar abandonados em criança, e só lembrar isso já é um primeiro passo para resolver, pois não resolver é o roteiro para repetir.

Figura 124: O Abandono de Moisés, Nicolas Poussin, 1645, tela 150 X 204 cm. Museu de Ashmolean em Oxford. (HINDLEY, 1982, p. 185)

Figura 125: Moisés salvo das águas. Paolo Calliari dito o Veronese. Tela 56 X 43 cm, Madrid, Museu do Prado. (VALSECCHI, 1972b, p. 220, VICENS, 1978c)

1306

Figura 126: Moisés salvo das Águas, Charles de La Fosse (1636 – 1716), Paris Mouseu do Louvre. (THUILLIER e CHÃTELET, 1964, p.117)

Figura 127: Moisés Salvo das Águas, Nicolas Poussin, 85 X 121cm (GIBELLI, 1967i, p.49) Paolo Calliari, pintor italiano nascido em 1528, em Verona, e falecido em 1588 em Veneza. Para ele Veneza era uma terra sem outonos ou invernos, o pai trabalhava com mármore. Aos 14 anos foi aprendiz do pintor Antonio Badile, que com o tempo seria seu sogro. Depois de sair da tutela do mestre, começa a trabalhar com afrescos. Depois de trabalhar junto a um arquiteto, recebe um prêmio, faziam parte da banca Tiziano e Sansovino. Começa então a pintar motivos bíblicos. Morreu aos 70 anos, de um resfriado. (PASQUAL e PIQUÉ, 1996b)

1307

Figura 128: Escultura de Nefertite e Akenaton. (BROWN, 1992, p. 93) Uma das razões que tornava difícil para os pais, olharem seus filhos, eram os trabalhos que tomavam tempo: eram pesados, e demorados. Estes são alguns retratos de cenas domésticas, das poucas que existem na história, pois a família, não era muito importante, só a sagrada era retratada, ou quando muito a do próprio pintor. Na verdade, o tempo para os pequenos sempre foi diminuto, e os artistas os ignoravam e não os retratavam, ocultando o ser humano. No momento que se vivia, esperava-se como um milagre, como a água poder aparecer no poço vazio. A estrutura familiar apresentava-se plena e ávida de pequenos arroubos de fé de um lado, mas de outro lado enfrentando dificuldades e rudeza, o resultado era não exatamente união, mas sim cada qual vivendo sua história particular de dor, nem tão compartilhada assim com seus familiares.

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Figura 129: A Lavadeira, Pissarro, 1878, tela 54,5cm X 46 cm, Estados Unidos, coleção particular. (KUNSTLER, 1973, p.41)

Figura 130: O Milagre do Poço, Alonso Cano, 1645, Óleo sobre tela 216 X 149 cm, Museu do Prado. (LOPERA e ANDRADE, 1995c, p. 84)

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Figura 131: Família de Camponeses em Interior, Luis lê Nain, Museu do Louvre. (VICENS. 1978. p. 147, MATHEY, 1951, p. 54, LACLOTTE e CUZIN, 1993, 53) A proximidade com a miséria atingia muitos camponeses na antiga Europa, e este pintor foi um dos melhores retratistas da história da pintura, exatamente do povo, e não de mecenas.

Figura 132: A Charrete, Louis lê Nain, Museu do Louvre (VICENS. 1978. p. 144)

1310 Este é outro retrato de como o ser humano ainda não percebeu como é sagrado o corpo de uma criança, e com tudo o que se sabe, é cada vez mais inaceitável, tal prática mutilatória. Como se observa no quadro abaixo que retrata uma circuncisão, um pintor tem a percepção de colocar o livro – símbolo da sabedoria - desdenhado, mas no chão, em tal cena.

Figura 133: A Circuncisão, Luca Signorelli, 258 X 180 cm, Galeria Nacional de Londres, (GIBELLI, 1967m, p. 49) Conforme é citado na psico-história, era natural que os bebês fossem enfaixados. Estes quadros são depoimentos pictóricos deste fato que durou tanto tempo, a se observar pela datação dos quadros.

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Figura 134: A Adoração dos Magos, Velázquez, 1622, Museu do Prado (VICENS, 1978 d, p. 90)

Figura 135: A Adoração dos Pastores, Georges de la Tour, tela 107 X 137 cm em 1640, Museu do Louvre. (HINDLEY, 1982, p. 186)

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Figura 136: A Apresentação no Templo, Andrea Mantegna (1401 – 1506), 69 x 86,3 cm. Museu Gemäldegalerie Staatliche, do Museu Preussischer Kulturbesitz, Berlim. (BERNARD, 1989, p. 82)

Figura 137: O recém-nascido, Georges de la Tour (1593 -1652), tela 0,76 X 0, 91, Museu de Rennes. (MATHEY, 1951, p. 35)

1313 Conforme foi ressaltado no capítulo Os Três Primeiros Anos de Vida e Antropologia, em algumas culturas as mães carregam seus filhos colados pele a pele. Deste modo, proporcionam a segurança deles e um melhor desenvolvimento cerebral. Chama a atenção que a ilustração abaixo não seja européia, mas oriental. Como exemplo de cultura africana, também registrada na escultura e presente neste trabalho, no capítulo anterior, está a figura de Mãe e Filho, da Nigéria Yoruba. A seguir, a alegre gravura japonesa.

Figura 138: Mulher com Kintoki às Costas, Kitagawa Utamaro, 1806. Museu Guimet, Paris. (VICENS, 1978a, p.308) Este é um quadro que retrata uma rara cena, a família e o lazer, Mesmo nos dias atuais, muitas famílias devotam à TV a ocupação do seu dia livre. Na verdade, no próprio mito cristão, Deus criou o mundo e depois reprovou.

“Gênesis: 2. E ao sétimo dia, Deus havia acabado a sua obra que fizera e passou a repousar no sétimo dia de toda a obra que fizera, 3. E Deus passou a abençoar o sétimo dia e fazê-lo sagrado” (BÍBLIA, 1983, p. 10) Ao ler esta passagem no mito, o que este

1314 arquétipo do sétimo dia comunica é que neste dia, Deus que havia criado em todos os outros dias, parou. E mais que parou, usufruiu, degustou, apreciou sua criação. Isto ensina o caminho da consciência: e é no dia livre onde mais se pode exercer a escolha, o caminho da consciência. Delegar este dia a qualquer automatismo é dar as costas, ao que a estrutura desta passagem mostra. São dois aspectos, um é o ritmo, e hoje cada vez mais se sabe em medicina que o ritmo é fundamental para a saúde. Porém ainda mais, que é preciso criar, e desfrutar, saborear, e isto pode ser melhor feito quando se faz com quem se ama. O fato de serem raras as famílias retratadas em descanso, faz pensar sobre o quanto é preciso ainda que o ser humano se esforce para sair de automatismos.

Figura 139: Banho em Asnières, Georges Seurat, 201 X 302 cm, (HINDLEY, 1982, p. 239, GIBELLI, 1967n, p. 79)

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Figura 140: O Descanso Durante a Fuga para o Egito, Lucas Cranach, 1550. (VICENS, 1978c, p. 310)

Figura 141: O Repouso Durante a Fuga para o Egito, Jean-Honoré Fragonard (1732-1806), 67 X 57 cm, Museu de Arte de Baltimore, Coleção Mary Frick Jacobs. (BERNARD, 1989, p. 68)

1316 Como intuíram os grandes pintores, a interação do cérebro materno com seu bebê permite um melhor desenvolvimento cognitivo emocional. Isso aparece simbolizado com as madonas apresentando livros aos bebês que têm ao colo.

Figura 142: Madona do Livro. Sandro Botticelli, Museu Poldi Pezzoli, Milão

(BERNARD, 1989, p. 127, VICENS, 1978b, p. 248)

Figura 143: A Virgem e o Menino com Dois Santos (detalhe), Rafael de Urbino, 215x148 cm. (GIBELLI, 1967m, p.70)

1317

Figura 144: Madona do Magnificat dos Uffizi, Botticelli, 1485. (BERNARD, 1989, p. 126, VICENS, 1978b, p. 249) Na História da Humanidade, só as famílias dos deuses mereciam representação, como foi representada na figura 129. No nosso mito cristão, a família retratada tem sido a de Jesus.

Figura 145: A Sagrada Família, Frans Floris de Vriendt, 1,25 x 0,93m. Musée Royal dês Beaux – Arts Bruxelas. (BERNARD, 1989, p. 59)

1318

Figura 146: Sagrada Família, Diego de Siloé. (PASQUAL E PIQUÉ, ANO, P. 79)

Figura 147: A Sagrada Família com Anjos, Rembrandt, 1645, óleo sobre tela. (MANNERING, 1994, p. 37)

1319

Figura 148: A Sagrada Família, Rembrandt, 1634, Alte Pinakothek. (VICENS, 1978, p. 224) O que os professores precisam, ao expor seus alunos a estes quadros, é inspirá-los para que a humanidade viva uma nova realidade, onde todas as famílias sejam sagradas.

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