FACULDADE PADRE JOÃO BAGOZZI

CURSO DE FILOSOFIA – PROJETO SOPHIA DIDÁTICA

CURITIBA/PR Março/2008

FACULDADE PADRE JOÃO BAGOZZI RELAÇÕES VINCULADAS ENTRE O FILME “VEM DANÇAR” E DISCUSSÕES DE DIDÁTICA EM SALA DE AULA NO PROJETO SOPHIA Professora: Daniele Aluno: José André de Azevedo 2 .

CURITIBA/PR Março/2008 I . inserida num contexto social de extrema violência. Mas quando seus modos clássicos batem de frente com os instintos do hip-hop incutido nos alunos.cinepop. então. • Curiosidades: Inspirado em uma história real. onde o mesmo é o detentor do saber e o aluno um mero recipiente. A educação ali realizada. Queremos aqui. 1 Durante quatro encontros no Projeto Sophia. Lyriq Bent. refletimos sobre a importância da Didática para o processo educativo.htm 3 . 1 http://www. No filme em questão. é o organizar os conteúdos e modos de sistematizar a educação e a cultura de um povo. pelo que tudo indica. a reflexão sobre as doutrinas e os sistemas de educação presentes numa certa sociedade. Direção: Liz Friedlander Gênero: Romance Distribuidora: Playarte Estréia: 16 de Junho de 2006 Sinopse: O filme gira em torno de um profissional de dança que se voluntaria para ensinar no sistema de ensino público de Nova York. ou seja.O QUE É PEDAGOGIA? Deixando de lado a concepção etimológica e histórica do termo “pedagogia”. ele se junta a eles para criar um novo estilo de dança e se tornar o mentor dos alunos durante o processo. Brandon Andrews.SINOPSE DE VEM DANÇAR . Dessa maneira. percebemos que a escola surge.TAKE THE LEAD • • • • • • Elenco: Antonio Banderas.br/filmes/vemdancar.com. como uma instituição social que visa a própria manutenção dessa sociedade. Dante Basco. Rob Brown. Trata-se de uma escola pública. podemos afirmar que a Pedagogia é o estudo sistemático da educação. Alfre Woodard. simplesmente se reproduz um sistema e uma compreensão de mundo a partir da ótica do professor. Ray Liotta. preservando seus valores e culturas. trata-se daquilo que Paulo Freire chamava de “educação bancária”. apontar os pontos mais importantes da discussão e sua vinculação com o processo educativo vislumbrado no filme “Vem dançar”. II . percebemos que há na escola da periferia de Nova York essa sistematização do conhecimento e da cultura.

modelos de escolas em que o centro é o professor e o forte da educação é o empirismo.O QUE É DIDÁTICA? Se por pedagogia entendemos o processo educativo sistematizado. por didática compreendemos a seção ou ramo da pedagogia que se refere aos conteúdos do ensino e aos processos próprios para a construção do conhecimento. a Didática é definida como a ciência e a rte do ensino. o professor Pierre segue um padrão sistematizado: a dança como processo de conhecimento da realidade. Na película “Vem Dançar”. assumirem a existência da vida. De modo geral e a grosso modo. fortificarem sua confiança e “dançarem” a vida com os próprios pés. a confiança. isto é. 4 . Cabe. isto é. afirmamos que a Didática é a “roupagem” da Pedagogia. É interessante notar que. a certeza. a beleza. III .Nesse esquema ou sistema aparece o professor Doulayne com uma nova proposta: ajudar os alunos a pensarem por si mesmos. o professor consegue atingir o coração de seus educandos e torná-los protagonistas do processo educativo e não somente figurantes. de homem e de universo. Pela dança. É Didática o meio pelo qual a educação ou a pedagogia se encarna numa realidade. a existência. então. o professor Doulayne utiliza-se da dança como meio para trabalhar questões profundamente educacionais: a vida. observar que os modelos pedagógicos seguem modelos epistemológico. o método e a possibilidade da educação ganhar vida num processo educativo.MODELOS PEDAGÓGICOS E MODELOS EPISTEMOLÓGICOS Não podemos esquecer que a maneira como o educador concebe o processo educativo provém de sua concepção antropológica e cosmológica. etc. o educador quererá “forjar” seu educando a partir de sua concepção de vida. De modo geral. Modelo pedagógico diretivo: aqui podemos elencar a escola tradicional e tecnicista. o sentido das coisas. a compreensão de escola e de educação nasce de uma situação de compreensão da própria realidade. podemos citar os seguintes modelos pedagógicos: 1. IV . a maneira como a educação é apresentada e trabalhada. é o caminho. mesmo com uma proposta diferente daquela que ali se instaura. um meio artístico. Enquanto a Pedagogia pode ser conceituada como a ciência e a arte da educação.

Desse grande educador brasileiro. chega-se a um processo profundo de comunhão. Por certo. encontra o diálogo. instrumentos violentos como guerras. somente é conhecimento aquilo que possui efeito imediato e concreto na vida do estudante. Modelo pedagógico não diretivo: aqui se enquadra a escola nova e o centro das atenções não está voltado exclusivamente para o professor. lendo os escritos de Paulo Freire e procurando neles o instrumento para a libertação do mundo.ou seja. 2. as relações vividas constroem situações de aprendizagem e essas. Esse modelo de escola nasce da concepção pragmatista do conhecimento. por sua vez. V . nos colocam num processo de transformação. como comenta Jesus Arroyo. tais pessoas teriam desejado. o aluno aprende fazendo. conhece-se para “fazer” algo. por meio de relações estabelecidas entre o educador. De onde nasce essa concepção de escola e de educação? Nasce do modelo epistemológico do empirismo. seguramente. só é válido como conhecimento aquilo que pode ser comprovado empiricamente. “Muita gente leva. Modelo pedagógico relacional: o exemplo pedagógico que aqui se pode citar são as escolas libertárias e libertadores onde. O modelo epistemológico que servirá como base para a compreensão da educação a partir dessa vertente é o modelo do construtivismo. educando e a comunidade educacional. 3. que Paulo Freire apresentasse outros instrumentos para a libertação. isto é. mas esse é apenas um entre os outros. Mas qual a relação estabelecida entre “modelo pedagógico/modelo epistemológico” com as aulas ministradas pelo professor Pierre? Sua concepção de mundo – a concepção de que somos responsáveis pelo que fazemos e que somente aqueles que correm atrás de sua realização é que possuem a felicidade – está constantemente presente em suas teorias sobre a dança e nos diálogos estabelecidos entre eles e seus alunos. sangue. podemos citar: Ao analisarmos o pensamento de Paulo Freire. um grande susto ou tem talvez uma grande decepção quando. experiencialmente e o professor é esse que detém as informações para se chegar às conclusões por meio da experimentação. isto é. constata-se que o diálogo é o instrumento para a libertação. isto é. certamente. mudança e libertação.PAULO FREIRE: O APRENDER JUNTOS. mas esse fazer nasce e dependo exclusivamente do professor. é o método para a comunhão mediatizante da humanidade. EM COMUNHÃO Ainda em nossas aulas de Didática nos ativemos sobre a figura e o pensamento de Paulo Freire. o meio de os homens entrarem em comunhão. no 5 .

poderão assumir um compromisso. Tais instrumentos não aparecem no pensamento de Freire. 6 Estabelecendo o seu conceito de diálogo. no âmbito do diálogo libertador. palavra dos homens entre si. Segue-se. 1 A NATUREZA DO DIÁLOGO LIBERTADOR Fundamentalmente. pois. portanto.”3 “A humanização vem. a palavra dialógica se 3 2 6 . o real instrumento da libertação é o diálogo. dialogicamente e neste diálogo. p. Freire parte de uma definição dada por K. 5 Ibid. Sem ódio nem violência. J. p. 5. E se comunicando.estilo de tantos outros ‘revolucionários’. Se o dever dos homens é transformar o mundo dando-lhe um nome. p. o processo para se consegui-la deve ser.”5 No pensamento de Paulo Freire. São Paulo. pelo diálogo. os homens não podem se humanizar senão humanizando o mundo. “Esta palavra tornada diálogo existencial . eis. 160. seus componentes e a palavra transformadora e humanizadora. o diálogo. 7 “Dar nome ao mundo” (ou pronunciar o mundo): expressão muito querida a Paulo Freire e que significa “transformar o mundo”. então. 7 JORGE. Paulo. Pedagogia do Oprimido. é que o mundo será libertado. consciente e autêntico. uns com outros. ação e interação. segundo Freire. um eu e um tu. 33.”2 Porém. na visão libertadora freireana. Daí que a mediação do mundo é a base do diálogo autenticamente libertador. Não. profundamente humano. 1979. cit. antes de tudo. pois o que é o instrumento da libertação: o diálogo.comunicação e intercomunicação. é uma relação de comunhão entre dois pólos. sem a palavra do homem não pode haver libertação. Sem ódio nem violência. ele é o instrumento por excelência da libertação. para Freire. Simões. J. como um encontro através da mediação do mundo e cujo objetivo é dar um nome a este mundo. Jaspers: “O diálogo é uma relação horizontal de ‘A’ com ‘B’”. 34. FREIRE. justamente por isso. Op. Loyola. Por isso. Simões. E é nesta linha que Freire concebe o diálogo. a sua natureza. qual a justificativa para a presença do diálogo no processo de libertação? Observando as entrelinhas do pensamento freireano. 4 JORGE. Daí que. Para ele.”4 O diálogo contém em si aquilo que o homem tem de mais seu: a palavra. ambos sujeitos e conhecedores do mesmo objeto que os imediatiza. E nada mais humano que o diálogo. Op.6 O objeto que mediatiza os sujeitos dialogantes é a libertação. “O diálogo é a condição fundamental para a verdadeira humanização dos homens. notar-se-á que a libertação que se procura é a libertação dos seres humanos e não das coisas e. por ser ele o meio para humanizar o homem. e a mesma se existencializa no diálogo. relação implica um compromisso: a humanização do mundo de todos os homens. cit. É por ele que os homens comunicam e se comunicam. o compromisso da transformação da realidade.

com estas coordenadas. primeiramente. ‘encontro’ . o amor e esta busca permanente do amor mostra. Freire parte para a sua definição de diálogo: ‘um encontro amoroso dos homens que. Paulo Freire coloca diversas exigências. 5. no ser-com e. Amor O ser humano é aquele que busca. criação e recriação. as razões por que os homens o procuram: necessidade impõe como o caminho para a consecução deste objetivo. os homens não podem existir autenticamente porque a verdadeira existência. o diálogo não é viável. o diálogo só é possível na comunhão e não nas posições antagônicas. “Não podendo ser.’mundo mediador’ e ‘amor’.não pode prescindir do amor. as quais se constituem componentes essenciais de todo diálogo libertador. Entretanto. O amor é a base do encontro dos homens que procuram tornar o mundo mais humano. transformando-se em objetos. Sem ódio nem violência.“Mas este encontro para ‘dar um nome ao mundo’ . 9 Ibid. estes homens. 37. sendo o verdadeiro instrumento. para que o diálogo possa alcançar este objetivo de libertação. não é!” 9 Do exposto até aqui. estariam colocados fora do existir. através das relações personalizantes e dentro daquele horizonte cultural que envolve todos os homens. isto é. São esses elementos que fundirão o eu e o tu no nós.e aqui Freire volta a insistir na virtude-base de todo diálogo libertador . então. o libertam e humanizam. não sendo. o transformam e transformando-o. ou seja. O diálogo se plenifica na comunhão. mediatizados pelo mundo. por isso. justamente por isso. o diálogo este encontro amoroso para a humanização. a fé e confiança nos homens e a esperança. ele não pode prescindir da união. o diálogo é uma exigência existencial. J. claramente. e. Simões. pois. não cumprem a vocação ontológica e são impedidos de ser. Ninguém existe se. segundo Freire. 2 OS COMPONENTES ESSENCIAIS DO DIÁLOGO LIBERTADOR Vimos antes o significado do diálogo como o instrumento da libertação: encontro dos homens numa relação de comunhão que pronunciam o mundo. se deduz o valor fundamental da comunhão no processo da libertação proposto por Paulo Freire e se entende melhor a sua afirmativa de que fora da comunhão. a ser o caminho pelo qual os homens adquirirão significados enquanto homens. pp. E. coesão e participação de todos os sujeitos dialogantes. nas quais o homem se transforma em objeto. 8 JORGE. incansavelmente. Op. decisão. as quais geram violência. 35-36. cit. o pronunciam. 7 .”8 Sendo. assim. Esses componentes essenciais são: o amor. o humanizam para a humanização de todos’. é produção. p. a humildade. E o diálogo passa. então.

por que o amor? “Porque é por ele que os homens serão livres. opressões e passam a criar a si mesmos e ao mundo. FREIRE. em primeiro lugar. Op. como um paradoxo. “A fé no homem é a crença que se tem na sua capacidade de fazer e refazer. plenitudinização da própria existência. ordens. fé na sua vocação que é ‘ser mais’ e não direito só de alguns. cit. o amor como a componente dialógica fundamental. quando há imposições. de criar e recriar.fundamental de todo ser humano. J. 40. J.. não pode haver amor quando há sujeição. O ‘homem-objeto’ já não é mais uma pura reflexão abstrata. Simões. comandos daquele que diz que ama em relação ao que é amado. ”12 Humildade Outro componente essencial do diálogo é a humildade. opressão. Todo amor autêntico é gerado na liberdade e esta é a plenitude do amor. p. Op. p. principalmente. Op. Porém. não já como objetos. Esta é a triste e nefanda marca que tal sociedade está deixando na história do mundo moderno. Pedagogia do Oprimido. Quais as causas desta dicotomia entre esta busca incessante do amor e a sua ausência na história dos homens? “Muitas existem. p. ordens.): sem amor ninguém chega à libertação. 38. mas como sujeitos que fazem a própria história na liberdade que o amor lhes dá como direito. cit. mas de todos”. da atual sociedade tecnológica e de consumo que só sabe oferecer aos homens objetos para serem consumidos. componentes do diálogo libertador a fé e a confiança. parece-nos que Paulo Freire estava perfeitamente consciente quando. força e sustento para as lutas da vida. Este conceito do ‘homem-objeto’ ou ‘coisa’ flui. cit. o amor não é somente um ato livre. “O diálogo não pode existir se não há um profundo amor ao mundo e aos homens.. manipulação. 13 FREIRE. que é um ato de criação e recriação. De fato. colocou. 8 .” 10 Observando esta dura realidade.”11 Mas. 95. Sem ódio nem violência. 14 JORGE. também. 43. Daqui concluímos (. mas uma das principais é a perda de sentido do valor do outro. Paulo. Paulo.. em comunhão. não há ignorantes absolutos e nem sábios: há homens que.13 Fé e Confiança São.. Pronunciar o mundo. comandos. O amor é livre e é por ele que os homens se libertam das imposições. cit. procuram saber mais”. mas uma constatação histórica. pois no diálogo não pode haver atos arrogantes e diferenciação. afinal. Op. o amor está cada vez mais distante do mundo. p. 12 JORGE. na sistematização do seu pensamento sobre o diálogo. pp. “. não é possível se não se está impregnado de amor. Pedagogia do Oprimido.14 10 11 Ibid. 93-94. Sem ódio nem violência. Simões. Na reflexão de Paulo Freire. mas gerador de outros atos de liberdade.

E este. p. 9 . exigindo deles um novo pronunciamento’. porém. estar empapado da esperança. não deve ter como modelo ou método a luta armada. “A transformação do mundo é um dever de todos os homens. diálogo. problematizado. Nesta perspectiva . porque é por ela que os homens serão impelidos à realização da vocação histórica que lhes é inerente e. pois. Tal ele o faz com a palavra. transformação da realidade percebemos na atuação do Professor Doulayne no filme “Vem dançar”. que é uma virtude que leva o homem à busca de algo na expectativa de alcançá-lo. ‘retorna. 17 Ibid. 49. p. 48. por sua vez.a palavra criadora e transformadora . segundo o pensamento freireano. 15 16 Ibid. se ao homem compete esta transformação como sujeito. E deste modo. 45. Com ela. toda palavra autêntica é práxis e a prática é ação e reflexão dos homens sobre o mundo com o objetivo de transformá-lo. é a dinamicidade dos homens inconclusos para a sua busca. Paulo Freire não admite os homens que não sejam capazes de comunicação porque. os homens se comunicam pela palavra. a ele compete esta denúncia e este anúncio. p. assim. são comunicação. Ora. o homem é alçado ao ápice de sua história: sujeito da criação e recriação da história do mundo e dele.”17 E todas essas situações de comunhão. pois. ‘pronunciando o mundo’. o homem vai criando. Esta. “Todo diálogo autenticamente libertador deve.. A verdadeira transformação é a da denúncia de um mundo injusto e a proclamação de um mundo mais justo e equânime..”16 “Pela sua palavra.”15 A palavra que transforma e humaniza Como vimos. por natureza.) ‘imita a palavra divina que é criadora por excelência’.Esperança A quarta componente do diálogo libertador é a esperança. transformando e humanizando o mundo e a si. superarem a desumanização para a humanização. e para Paulo Freire. Ibid.(. Ora. aos sujeitos pronunciantes. o homem vai fazendo a verdadeira história.

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