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EMENTÁRIO DE VOTOS

(que, em matéria criminal, proferiu o Desembargador CARLOS


BIASOTTI, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Veja
a íntegra do voto no Portal do Tribunal de Justiça:
http://www.tj.sp.gov.br).

• CITAÇÃO DO RÉU
(art. 351 e segs. do Cód. Proc. Penal)

Voto nº 1302
HABEAS CORPUS Nº 334.414/9
Art. 171 do Cód. Penal;
art. 351 do Cód. Proc. Penal

– “Princípio e fundamento de toda a ordem judicial”, como lhe chamavam os


velhos praxistas (cf. Alexandre Caetano Gomes, Manual Prático Judicial
Civil e Criminal, 1820, p. 3), é a citação do réu ato da primeira importância na
formação do processo de conhecimento, para a pesquisa da verdade real.
– “A citação é um princípio, não só de direito natural, como de direito divino:
está escrito no Evangelho de São João que nemo inauditus debet damnari,
isto é, ninguém deve ser condenado sem ser ouvido” (Gabriel de Rezende
Filho, Curso de Direito Processual Civil, 1963, vol. II, p. 70).
– Ainda que recomendável, não exige a lei processual que o Juiz, primeiro que
proceda à citação por éditos, oficie à Polícia e aos presídios para saber se ali
está preso o réu, dado regularmente em lugar ignorado.

Voto nº 801
APELAÇÃO CRIMINAL Nº 1.072.197/6

Art. 155, § 4º, ns. I e IV, do Cód. Penal


– Citado pessoalmente para o interrogatório, se o acusado resiste à vocação da
Justiça, não entra em dúvida que dá péssima opinião de si mesmo, pois a
inocência não foge.
– Embora consumidor das coisas – “tempus edax rerum” (Ovídio,
Metamorfoses, liv. 15, v. 234) –, nem tudo se sujeita de repente à tirania do
tempo. Das ações humanas ficam sempre vestígios, e estes bastam à prova da
existência de um fato.
–Ainda quando a ausência de prejuízo da vítima se equipare ao pequeno valor da
“res furtiva”, pode o Juiz deixar de conceder ao réu o privilégio do art. 155,
§ 2º, do Cód. Penal, se lho não recomendarem as circunstâncias pessoais, v.g.:
maus antecedentes, personalidade inclinada para o crime etc.

Voto nº 3986
HABEAS CORPUS Nº 416.680/2
Art. 303 do Cód. Trânsito;
art. 72 da Lei nº 9.099/95;
art. 565 do Cód. Proc. Penal

– Não se aperfeiçoa a relação jurídico-processual sem a citação válida do réu. É


a lição dos patriarcas do Direito: “O princípio e fundamento de toda a ordem
jurídica é a citação, de sorte que sem ela se não pode tomar conhecimento de
causa alguma” (Alexandre Caetano Gomes, Manual Prático Judicial Civil e
Criminal, 1820, p. 3); “A citação é tão essencial que nem o Príncipe a pode
dispensar” (Cons. Ramalho, Postilas de Prática, 1872, p. 71).
– Não pode alegar constrangimento ilegítimo por nulidade processual o réu que,
citado pessoalmente para os atos e termos da ação penal e intimado para a
audiência preliminar prevista na Lei nº 9.099/95 (art. 72), não comparece a
Juízo e, pois, frustra a tentativa de conciliação. “Nenhuma das partes poderá
arguir nulidade a que haja dado causa, ou para que tenha concorrido” (art.
565 do Cód. Proc. Penal).

Voto nº 238

APELAÇÃO CRIMINAL Nº 1.040.743/1

Art. 361 do Cód. Proc. Penal;


art. 572 do Cód. Proc. Penal
– A revelia do acusado, sobre arguir-lhe sumo desdém pelo êxito do processo,
entende-se por efeito da clara consciência da própria atuação criminosa. Da
mesma forma que ao devedor aborrece passar pela porta do credor, assim ao
culpado repugna sempre dar estritas contas à Justiça!
– Isso de não ter sido afixado o edital no lugar do costume não invalida a citação
ficta nem induz nulidade ao processo. Com efeito, já proclamou o Pretório
Excelso que “a ausência da afixação do edital não anula a ação penal se não
ocorreu prejuízo para o réu e não argui este, por seu advogado, a nulidade na
primeira ocasião de falar no processo” (Rev. Trim. Jurisp., vol. 68, p. 34; apud
Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 1996, p. 240).
– “O Código de Processo Penal adotou o princípio de que as nulidades se consideram
sanadas, desde que o interessado as não alegue no momento oportuno” (Damásio E.
de Jesus, op. cit., p. 394).

Voto nº 270

HABEAS CORPUS Nº 301.868/4

Art. 361 do Cód. Proc. Penal;


art. 156 do Cód. Proc. Penal

– Ainda que indivíduo de sombria nomeada nas expansões do crime, tem


direito o réu à apreciação pelo Tribunal de questão de seu interesse. Como o
Sol, a Justiça tem sua jurisdição sobre bons e maus indistintamente. Mesmo
o mais vil dos homens não decai nunca da proteção da Lei.
– Princípio e fundamento do juízo, na frase dos praxistas, “a citação é tão
essencial que nem o Príncipe a pode dispensar” (Cons. Ramalho, Postilas
de Prática, 1872, p. 71).
– “É nula a citação por edital de réu preso na mesma unidade da Federação
em que o juiz exerce a sua jurisdição” (Súmula nº 351 do STF).
– É regra de Direito geralmente recebida que não basta alegar um fato, cumpre
demonstrá-lo à saciedade.

Voto no 287

REVISÃO CRIMINAL No 299.682/1


Art. 360 do Cód. Proc. Penal;
art. 302 do Cód. Proc. Penal

– Por encarecer a importância do ato de citação no processo, referem graves


autores que até o Criador, antes de condenar Caim, “vocavit eum”, isto é,
chamou-o (cf. Repertório Enciclopédico do Direito Brasileiro; v. citação).
– Mas, porque ninguém estará em condições de pontualmente responder à
acusação primeiro que lhe conheça o teor, bem claro se mostra que o
principal intuito da citação é garantir ao réu o direito de saber por que a
Justiça o está processando.
– No caso, porém, de réu preso em flagrante, escusável é sua citação; basta
que o requisite o Juízo para o interrogatório. É que, ao receber a nota de
culpa, já não pode alegar que desconhece a acusação.

Voto nº 435

REVISÃO CRIMINAL Nº 305.650/8

Art. 360 do Cód. Proc. Penal

– Embora seja a citação “o princípio e fundamento de toda a ordem judicial”, não


há mister fazê-la por mandado ao réu preso, “bastando sua requisição para o
interrogatório” (Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 1996,
p. 237);
– “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos
desiguais, na medida em que se desigualam” (Rui, Oração aos Moços, 1a. ed., p.
25).

Voto nº 1514
APELAÇÃO CRIMINAL Nº 1.134.283/4

Art. 171 do Cód. Penal;


art. 361 do Cód. Proc. Penal

– É válida a citação-edital, se o oficial de justiça, primeiro que o tenha dado em


lugar não-sabido, procurou o réu nos endereços que este declarou nos autos
(art. 361 do Cód. Proc. Penal).
– A mesma contumácia do réu depõe contra seus protestos de inocência: apenas
foge da Justiça o que se tem na conta de culpado.
– Aquele a quem o crime aproveitou, esse foi o que o cometeu! “Cui prodest
scelus, is fecit”.

Voto nº 2880
APELAÇÃO CRIMINAL Nº 1.242.169/8

Art. 168, § 1º, nº III, do Cód. Penal;


art. 44, § 2º, do Cód. Penal

– A responsabilidade criminal independe da civil; não há, pois, razão de direito


em suspender o curso do processo-crime por apropriação indébita até se
resolva, no cível, pendência entre as partes. É que a prova elementar do crime
não está subordinada ao desfecho da ação cível.
– “A citação é o princípio e o fundamento do juízo” (Barão de Ramalho,
Postilas de Prática, 1872, p. 71).
– A suspensão do processo (art. 366 do Cód. Proc. Penal) visa a impedir que o
réu, com postergação de princípio de direito natural, seja condenado sem ser
ouvido (“nemo inauditus damnari potest”). Mas, no caso que se oculte para
não ser citado, não lhe aproveita a cautela da lei: reconhecê-la a seu favor o
mesmo seria que admitir pudesse o réu beneficiar-se da própria torpeza
(“turpitudinem suam allegans, non est audiendus”).
– Comete o crime de apropriação indébita qualificada (art. 168, § 1º, nº III, do
Cód. Penal) o advogado que, em nome do cliente, efetua levantamento de
depósito em dinheiro e não lho entrega, ao invés o emprega em proveito
próprio.
– Ainda que, ao praticar apropriação indébita, o advogado ofenda a ínclita
profissão em seu ponto mais sagrado – a força moral – e dê em terra com os
princípios fundamentais do Direito, não se lhe haverá agravar o rigor da lei: se
primário e de bons antecedentes, faz jus à substituição da pena privativa de
liberdade por restritivas de direitos (art. 44, § 2º, do Cód. Penal).

Voto nº 2408
REVISÃO CRIMINAL Nº 357.704/1

Art. 155, § 4º, nº II, do Cód. Penal;


art. 155, § 2º, do Cód. Penal;
art. 361 do Cód. Proc. Penal

– Desde que o oficial de justiça o tenha procurado intensamente, sem êxito feliz,
é válida a citação do réu por edital (art. 361 do Cód. Proc. Penal). A
provocação do auxílio dos órgãos policiais, administrativos e judiciários, para
a obtenção de seu paradeiro, constitui superfetação a que a lei processual não
obriga o Juiz da causa.
– Ainda que satisfaça aos requisitos objetivos da lei, não faz jus ao privilégio
(art. 155, § 2º, do Cód. Penal) o condenado que ostenta maus antecedentes. É
de Damásio E. de Jesus a lição: “O privilégio tem por fundamento princípios
de política criminal, visando à individualização da pena, e, assim, evitando
que o sujeito que envereda pela primeira vez no campo do atentado ao
patrimônio alheio encontre sérios obstáculos à sua recuperação social”
(Código Penal Anotado, 9a. ed., p. 514).

FINIS
(Em breve, novas ementas).