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Espiritismo ou a mecânica newtoniana

aplicada à metafísica
Em termos filosóficos, modernidade é o período que inicia-se com o renascimento e a dúvida
metódica de René Descartes até a Primeira Guerra Mundial. Foi um período de profunda ruptura
com os princípios fundamentais do pensamento e a substituição por uma visão completamente
diferente. Não mais a verdade contida nas coisas seria o propelente do labor filosófico, mas
aquilo que o homem é capaz de elucidar e demonstrar experimentalmente. Tudo isso construiu
um teto, aprisionando o homem numa casca impedindo-o de avançar para além do material,
encerrando-o no claustro psíquico do materialismo racionalista, ao mesmo tempo que o
relativismo liberal tomou gradativamente o lugar da moral. Cada vez mais, o afastamento radical
do homem das verdades superiores a ele mesmo, bem como um apego exacerbado ao
cientificismo, coloca-o numa “ciranda” onde todo real é empírico, ao mesmo tempo em que
toda opinião deve ser aceita como verdade enquanto opinião1. A ilusão do mundo ex machina
newtoniano gerou um fenômeno até então inédito na humanidade. Enquanto a Filosofia Perene
– entendida aqui como a filosofia que nasce na Grécia e avança continuamente pelos séculos,
tendo seu ápice em Santo Tomás de Aquino – usa como método a observação dos entes para a
observação que permite nosso intelecto abstrair da essência das coisas e a partir impressões ou
“phantasmas” se realize o processo intelectivo2, a filosofia da modernidade prega que o
comportamento de todas as coisas deve ser enquadrado nos postulados da física de Isaac
Newton (1643-1727 e comprovados por meio de experimentos. Assim, enterra-se quase que por
completo a metafísica, uma vez que seus princípios são infinitamente mais elevados e
impossíveis de se provar empiricamente.

Contudo, não é possível simplesmente ignorar o fato que o ser humano, assim como todas as
coisas, não surgiu ex nihil e está ordenado a um fim para além de sua existência. Lança-se assim
um desafio: Como atribuir uma explicação para as duas perguntas essenciais ao ser humano –
de onde vim e para onde vou - que coadunem-se com a física newtoniana e o ceticismo
racionalista da visão propostas pelos céticos, críticos e racionalistas? A resposta para tais
dilemas surgiu quase que simultaneamente, oriunda de uma combinação de correntes e idéias
filosóficas, que partiam dos mesmos princípios críticos e pseudo-empíricos. No campo da
criação, o evolucionismo darwinista ganhou força e logo tornou-se uma das correntes mais
difundidas pelos meios acadêmicos como verdade absoluta, ainda que não haja – até hoje – uma
única evidência que aponte a transição de uma espécie para outra por meio de mutações “autoconciêntes” e seleção natural. No campo da filosofia, Immanuel Kant e Friedrich Hegel foram os
grandes expoentes desta tentativa. Não obstante, também Allan Kardec usou-se de tais
postulados para elaborar sua teoria espiritualista. Muito mais pobre que a dialética hegeliana,
Kardec propôs uma explicação materialista para fenômenos ordenado para além da matéria. Tal
afirmação soa como um contrassenso absurdo. Mas, uma atenciosa leitura de algumas de suas
obras, como O Livro dos Espíritos, O Evangelho segundo o Espiritismo etc., mostrará sua
intenção de provar a existência do mundo espiritual, nos termos aceitáveis pela ciência da
época, o que exigiria a criação de uma doutrina que respeitasse conforme reprodutíveis pelos
métodos empíricos e/ou racionalistas. Tal afirmação está baseada na insistente afirmação de
que a doutrina espírita era uma obra filosófica que “deduzida da observação e da experiência,

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(cf. Carlos Nougué)
(Tomás de Aquino, Questões disputadas sobre a Alma, Q.1; Resp.)

A continuidade do tempo obriga um constante progresso. o homem seria um espírito (um ente) que estaria aprisionado em um corpo feito para este como uma espécie de invólucro (outro ente). "O progresso material de um planeta acompanha o progresso moral de seus habitantes. segundo o espiritismo. que o permitiria aperfeiçoar e engrandece-se. trata do progresso contínuo em diversos planos inferiores ou superiores até sua perfeição. portanto. ao qual opõe uma barreira insuperável. portanto. em graus diversos de adiantamento físico e moral. Povoada de espíritos relativamente inferiores. A famosa frase do Epitáfio de Allan Kardec mostra a aplicação de tal postulado: “Nascer. pois. Deste ponto de vista. FEB 1949) (O evangelho segundo o Espiritismo. renascer ainda e progredir sempre. Vejamos algumas citações que sustentam tal afirmação: “Transportando-nos pelo pensamento às regiões do espaço além do arquipélago da nossa nebulosa. onde é mais ou menos material a encarnação e onde. conforme o uso que façam do livre-arbítrio. Diz Allan Kardec: “O dogma da eternidade absoluta das penas é. 16ª Edição FEB) 4 . FEB 1949) 5 (O céu e o Inferno. O continuo avanço temporal provê a evolução do espírito. onde a existência é ainda mais penosa do que na Terra e em confronto com os quais esta seria.. Ed.207. é porque a outra não existe"5. a criação dos mundos e dos espíritos e progredindo estes mais ou menos rapidamente. imprescritível. relativamente.78. morrer. um mundo ditoso"(A gênese. Qual dos dois existe de fato? A lei do progresso é evidente: não é uma teoria. por conseguinte. Ed.34. a injustiça etc. tal é a lei”. constitui o cerne de toda doutrina espírita. e a condição indeclinável da existência de um é o aniquilamento do outro. Cito aqui uma passagem apenas para ilustrar algo que é vastamente encontrado em sua obra: “A pluralidade das existências. Ed. apresentando uma solução mecânica e materialista que fosse aceitável. p. “encaixado” no espaço na medida do tempo. Quais seriam as “bases científicas” que Allan Kardec e tantos outros tomaram para suas deduções e estudos? Newton postulou que o tempo e o espaço eram entes incomensuráveis e constantes sendo o primeiro era eterno e o segundo infinito. FEB 1949). segue-se que há mundos mais ou menos antigos. como a existência do mal. para os espíritos. A teoria da "palingenesia” (também conhecida como reencarnação). nem procurarmos impor as nossas idéias a quem quer que seja"3. divina. como é. incompatível com o progresso das almas. havendo-os também mais atrasados. p. difere essencialmente da metempsicose. E. o trabalho. difundidos por seitas exotéricas que o próprio Hegel utilizou em sua dialética. a vida corpórea é aí mais penosa do que noutros orbes. Outro postulado importante de Allan Kardec é a dualidade substancial que existe no homem. Baseada em ditames gnósticos antigos. o sofrimento. Esses dois princípios destroem-se. Ora. é um fato corroborado pela experiência: é uma lei da natureza. contendo cada um milhões de sóis e centenas de milhões de mundos habitados"4. segundo o senso comum da comunidade científica. constitui uma sofisticada tentativa de explicar diversos problemas de ordem filosófica. p. p. veremos em tomo de nós milhões de arquipélagos semelhantes e de formas diversas. sendo incessante. se esta lei existe inconciliável com a outra. sendo admitir a possibilidade de um retrocesso um contrassenso com o senso comum vigente. Tudo quanto há seria.124. em não admitir aquele a encarnação da alma humana 3 (A gênese. a Terra é um dos mundos menos adiantados.sem nunca nos considerarmos chefe da doutrina. é mais ou menos rude. Segundo a doutrina espírita.

Newton contesta isso. 97. dado senso comum criado pelas idéias iluministas. penetrantes.nos corpos dos animais. o “espírito de Galileu Galilei” assim diz: "Há Um fluido que enche o espaço e penetra os corpos. Assim. chamado motor. tal qual Aristóteles havia afirmado em sua Física por volta de 400 A. Eis um exemplo em meio a suas citações: Capítulo VI do livro “A gênese”. p. Em um mundo perfeitamente newtoniano. a passagem de planos e a contínua melhora apresentada por Allan Kardec é algo que só poderia existir se a alma estivesse contingenciada pela matéria. Identificamos aqui os dois pilares da doutrina espírita. 6 (O que é o espiritismo. afirmando ser a inércia do próprio objeto que o mantem em repouso ou em movimento retilíneo e uniforme. em termos filosóficos clássicos. adstringentes. Contudo. 260) 8 (Ibdem. 268) 7 . fluídicos e vitais de todos os universos. Newton toma dois princípios para sua física: A eternidade do movimento e a lei da inércia. todo movimento tem origem em outro corpo.. p. reparadores. geradora do mundo e dos seres(. 261) 9 (Ibdem. A doutrina espírita encontra eco até hoje em dia. os menos puros. Allan Kardec pressupõe um fluido místico. De fato. O progresso contínuo pela reencarnação e a dualidade existencial do homem.C. com características materiais ainda que evanescentes. que os espíritos encarnados e desencarnados. "Os fluidos mais próximos da materialidade. ed. mesmo como castigo. Modificam-se pelos eflúvios desse meio como o ar pelas exalações. dulcificantes. mas progride sempre”6.. irritantes. p. haurem os elementos necessários à economia de suas existências"7.. Ele não percebe que o seu postulado só é possível se houver um movimento a ser medido e. a teoria da evolução darwinista e o espiritismo constituiriam visões perfeitas de uma biologia e uma metafísica enquadradas no tempo e espaço contínuos. o tempo está subordinado ao movimento. sendo este um espírito que possui um corpo que. onde igualmente vários são os graus de pureza. expulsivos"10.) A matéria cósmica primitiva fez com que sucessivamente nascessem turbilhões. compõem o que se pode chamar a atmosfera espiritual da Terra. a água pelos sais": “São excitantes.. p. calmantes. Pois assim como os peixes precisam da água e o homem do ar. narcóticos. Vejamos quais seriam esses problemas. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva. tóxicos. Também o espaço não pode ser outra coisa senão a medida do comprimento dos corpos. 264) 10 (Idem. deste planeta. "São a matéria do mundo espiritual"8.". assim os espíritos precisam do fluido e nele vivem: "O fluido etéreo está para as necessidades do espírito. como a atmosfera para as dos encarnados"9. O problema é que a própria percepção de Newton do tempo é tomada com base no movimento. aglomerações desse fluido difuso. FEB 1949) (Ibdem. É desse meio. tais propostas encontram um grave problema na realidade. soporíferos. constituiriam dois entes separados e distintos. Segundo a física clássica. p. no qual a alma “navegaria” de alguma maneira. Os espíritos ensinam que a a1ma não retrograda. portanto. A matéria cósmica primitiva continha os elementos materiais.

Q. um balão. o conhecer do homem seria semelhante ao conhecer angélico. 14 (Questões Disputadas sobre a Alma. como tal. o que é visivelmente falso. passando por diversos planos sempre superiores.1. por exemplo."11 Em sentido contrário. Isto significa que todas as imagens sensíveis captadas pela alma são indeléveis. a alma seria um ente meramente intelectual. A consequência da teoria kardecista do progresso contínuo é uma perene busca de perfeição e aprimoramento. Se você não é capaz de dizer a quantidade exata de sangue 11 (A gênese. diz Santo Tomás de Aquino nas pegadas de Aristóteles em sua Metafísica12 que todo ente material é constituído de gênero e forma. 16 FEB). Ora. Segundo Allan Kardec.1. Q. 12). bem como o reconhecimento de cores etc. R. não deixa de ser matéria e. todo e qualquer conhecimento seria feito por meio de uma infusão intelectual.Notem que o “mundo dos espíritos” descrito por Kardec é muito semelhante ao mundo físico. a cada morte. Resp. Ed. Ou seja.”13 Ademais. 12 . o espírito “"reveste outro invólucro apropriado ao novo gênero de trabalho que lhe cabe executar. O outro ponto da doutrina Kardecista a ser desvendado é a dualidade substancial existente entre o corpo e a alma. (Questões Disputadas sobre a Alma.) 13 (Questões Disputadas sobre a Alma.de maneira que podemos chamar vulgarmente de “imprópria” – visto exatamente que esta não constitui um ente individual apartado do corpo. Trata-se da roupa do rei. p. Precisamos perguntar se isso acontece ou não na realidade? Outro problema do pensamento mecanicista do espiritismo é a gnosiologia nele abarcada. A diferença com a fábula é que dessa vez. pretensamente subordinada as leis naturais ainda que este diga que não. seja o tipo de matéria que o compõe. talvez. ficando apenas com a “matéria espiritual” sutil. Se o corpo é um mero “invólucro”. a partir do momento em que uma criança fosse capaz de usar minimamente seus sentidos internos e externos. tudo quanto ela já havia aprendido em vidas passadas poderia ser comunicado. este seria apenas um instrumento extrínseco. sem necessidade do uso dos sentidos. Q. Tal operação acontece por meio da apreciação das espécies intelectivas. na medida em que sem o corpo a alma não chega ao complemento de sua espécie. Resp. que são objetos do intelecto. não estando radicada em nenhum órgão corporal14. adquiridas pela apreensão das imagens sensíveis. não podendo assim existir sem este. A diferença. esta não precisaria de uma explicação sobre o que se trata. Se a substância fosse constituída apenas de alma independentemente do corpo. Afirma Santo Tomás de Aquino: “a alma depende do corpo. sendo apenas necessário aprender coisas novas do tempo em que esta nascera. 198. pois todos também estão em pelo a pensar que estão vestidos. Ainda assim. a alma é forma do corpo. que por sua vez não podem existir em órgão corpóreo. A própria educação moral seria desnecessária. até que o espírito se disponha da matéria física.2. apesar desta subsistir após a morte do corpo . sendo esta última o que especifica e define os atributos naturais e/ou razoáveis à substância. Ainda que Allan Kardec estivesse certo. nos lembra o Doutor Universal que a intelecção é uma operação própria da alma. mesmo que esta necessite dos sentidos internos e externos para captá-las. desprovido de forma e matéria.). que só os inteligentes são capazes de ver. não haverá ninguém para avisar que o rei está nu. Bebendo das antigas heresias gnósticas. Ao ver.

Se o espiritismo é algo tão contraditório com a realidade. Heidegger. De Lubac ou Von Baltazar: O sistemático afastamento da filosofia perene e o abandono do exercício do conhecimento em ordem à contemplação.que corre no corpo do seu cachorro. . Hegel. Marx. Decorre da argumentação anterior a seguinte pergunta. Hume. por que fez tanto sucesso? A resposta para essa pergunta é a mesma para o florescimento de teorias como as de Kant. Sobre isso. trataremos na série de vídeos que farei em breve. é provável que a proposta do senhor Kardec seja equivocada.