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Patrimônio Imaterial: conceito e panorama histórico

No atual mundo contemporâneo, a princípio, patrimônio significa, mais do que


nunca, riqueza acumulada por gerações passadas, disponível hoje como recurso, que
deve ser valorizada e transmitida para as gerações futuras.
Antes do reconhecimento do patrimônio imaterial como um bem coletivo, o
destaque era dado para o patrimônio material1. A trajetória tem como ponto de partida a
preservação dos monumentos históricos da Europa no século XIX, por parte de
instituições governamentais e civis. Os países europeus consolidavam a idéia de
patrimônio histórico e artístico nacional através de leis de proteção, criadas até como
uma forma de catalogar e organizar seus bens materiais. Dentre o patrimônio
selecionado estavam os edifícios, obras de arte, templos religiosos, castelos da Idade
Média, etc. com valor reconhecido pela arqueologia ou pela história da arquitetura
erudita.
Este quadro começa a ser alterado somente às vésperas da Segunda Guerra
Mundial quando passam a ser selecionadas como patrimônio todas as formas de arte e
de construção, eruditas ou populares, urbanas ou rurais, edifícios públicos ou privados,
suntuosos ou utilitários, conjuntos de edifícios, vilas, cidades e até conjunto de cidades.
Paralelamente, a fronteira cronológica do patrimônio também se expandiu. De início,
contemplando apenas produtos excepcionais da antiguidade e da Idade Média, ao longo
do século XX passou a incluir a primeira metade do século XIX, depois a segunda, o
começo do século XX, até chegar a obras produzidas pelo modernismo (SANT’ANNA,
2001:151).
A expansão territorial da valorização dos bens materiais, antes restrita à Europa,
se expandiu muito mais tarde. Em 1972, em Paris, 80 países não-europeus assinam a
Convenção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da UNESCO2, o que demonstra
o definitivo reconhecimento mundial da importância da valorização do patrimônio
cultural, porém ainda com muitas restrições.

1
Também são utilizados os termos patrimônio tangível e intangível (material e imaterial).
2
UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). Organismo especializado
do sistema das Nações Unidas criado em 16 de novembro de 1945 com o objetivo de contribuir para a paz
e segurança no mundo mediante a ciência, a educação, a cultura e as comunicações. Com sede em Paris,
França.
Sendo assim, acrescentaram-se outras experiências àquela européia, novas
categorias foram postas em cena pelos países asiáticos e também por muitos países de
modernidade tardia3, sendo chamadas de “patrimônio imaterial”.
Se para os ocidentais, exclusivamente os europeus, a seleção de certos bens
materiais cria um testemunho e define uma perspectiva histórica numa relação
específica com o passado; para os orientais as tradições são vividas no presente
importando mais a transmissão dos saberes a elas vinculadas do que a conservação dos
objetos produzidos.
Segundo Márcia Sant’Anna:

“Os templos japoneses, por exemplo, são mantidos sempre novos


mediante reconstrução idêntica, periódica e ritual, o que evidencia uma
concepção de preservação totalmente diversa da ocidental, cuja ênfase recai
na permanência do objeto e na noção de autenticidade. Para os orientais, ao
contrário, o que importa não é a permanência da coisa, mas a preservação do
saber. Do saber fazer e refazer monumentos, escritos ou construídos, mas
também do saber reproduzir fielmente tradições que se manifestam de outro
modo na execução de rituais, por meio de expressões cênicas ou plásticas,
de celebrações. Há muito tempo, no Japão, tais manifestações são
percebidas como monumentos ou bens culturais e, desde os anos 50, aquele
país possui legislação voltada para a sua conservação e transmissão, por
meio de incentivos a grupos ou pessoas que as mantêm, preservam e
transmitem” (2001:154).

Deste modo, o patrimônio imaterial pode ser definido como o conjunto


de bens culturais formado por saberes, modos de fazer, formas de expressão e
comunicação e celebrações, enraizados no cotidiano das comunidades, vinculados ao
seu território e às suas condições materiais de existência, dando sentido às noções de
identidade cultural e de lugar.
Esta definição tem raiz eminentemente oriental e sua assimilação pelo mundo
ocidental só se alarga a partir dos anos 80.

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Por sua coerência, empresto aqui o termo utilizado por Stuart Hall (2001) em A identidade cultural na
pós-modernidade, para referir-me aos países que antes (ou para alguns autores ainda hoje), eram
chamados de sub-desenvolvidos ou de terceiro mundo - termos ultrapassados e que não condizem mais
com a atual realidade.
O primeiro documento a valorizar a importância do patrimônio imaterial foi a
Carta de Veneza, de 1964. Em seu artigo 1º estabelece que a noção de monumento
histórico se estende a “não só as grandes criações, mas também às obras modestas, que
tenham adquirido com o tempo, significação cultural”.
Ao longo dos anos 70 e 80, nos encontros internacionais em países menos
periféricos, com destaque para o México, vários países reagem ao conceito restrito da
UNESCO de considerar o patrimônio cultural como sendo marcadamente material. A
Bolívia lidera a reivindicação da realização de estudos a fim de se propor um
instrumento internacional para as “expressões populares de valor cultural”. Estes
estudos avançam, e em 1989 é aprovada pela 25ª Conferência Geral da UNESCO em
Paris, a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular,
definida da seguinte forma:

“Conjunto de criações que emanam de uma comunidade cultural,


fundadas na tradição, expressas por um grupo ou por indivíduos, e que
reconhecidamente respondem às expectativas da comunidade enquanto
expressão de sua identidade cultural e social. Seus padrões e valores são
transmitidos oralmente, por imitação ou por outros meios. Suas formas
compreendem, entre outras, a língua, a literatura, a música, a dança, os
jogos, a mitologia, os ritos, os costumes, o artesanato, a arquitetura e outras
artes”.

Esta recomendação é o documento que vigora a fundamentação do


patrimônio imaterial ou intangível. Nela se recomenda:
- identificação dos bens produzidos por essa cultura, por meio de inventários nacionais
ou outros registros;
- a sua salvaguarda contra a influência da cultura industrializada, dando-se suporte
econômico a essas atividades e introduzindo-as como tema nos sistemas educativos;
- sua conservação por meio de documentação, registro, acesso aos dados sobre suas
manifestações, bem como o estudo de sua evolução e modificação;
- sua difusão com vistas à sensibilização das populações;
- sua proteção – definida como análoga à das produções intelectuais – mediante
dispositivos semelhantes ao do direito autoral, com vistas à proteção da privacidade dos
detentores da tradição e dos interesses dos pesquisadores.
Vale um parêntese para ressaltar que neste documento não se menciona a
expressão “patrimônio imaterial ou intangível”, mas sim o conceito de cultura
tradicional e popular que inclui aspectos materiais e imateriais. De qualquer modo dá
importância aos processos de criação e manutenção do conhecimento sobre o produto
da manifestação popular expressado pela festa, dança, celebrações, música, pela peça de
artesanato, etc.

“As expressões ‘patrimônio imaterial’ ou ‘intangível’, procuram ressaltar


que o que interessa preservar como bem cultural é o modelo e suas
transformações/variações e não o objeto resultante, embora este seja sua
expressão material e seu fim. O problema é que estas expressões levam a
desconsiderar, não só o produto destas manifestações, mas, principalmente,
suas condições materiais de produção. Enfim, a cultura material que está por
trás ou imbricada em sua produção/reprodução. O que se conclui é que
ambas as expressões não dão conta da complexidade do objeto que
pretendem definir” (SANT’ANNA, 2001:155).

Outras expressões tentam complementar a definição de patrimônio


imaterial ou intangível, como por exemplo, “patrimônio oral”, “espaço cultural” e
“paisagem cultural”. A primeira tenta dar ênfase ao modo de transmissão dos bens
culturais, a segunda vincula essas manifestações ao espaço físico ou ao território em que
ocorrem, e a terceira busca realizar a síntese dos aspectos materiais e imateriais do
patrimônio cultural por meio da idéia de paisagem, que abarca todo esse conjunto e o
enraíza no território. Porém todas elas deixam lacunas.
Como conseqüência dos avanços para o reconhecimento das tradições populares
como patrimônio imaterial, em 18 de março de 2001, a UNESCO criou o título de
“Obras Primas do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade”, para homenagear
dezenove espaços culturais ou formas de expressão de diferentes regiões do mundo. Em
2003, foram acrescidos mais vinte e oito itens e a última, de 2005, chega a 90 obras-
primas inscritas. É curioso observar que a representatividade dos países menos
desenvolvidos é bastante significativa4.

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O Brasil possui dois itens inscritos na lista de “Obras Primas do Patrimônio Oral e Intangível da
Humanidade” da UNESCO: a arte Kusiawa dos índios Wajãpi e o samba de roda do Recôncavo Baiano.
Os critérios utilizados na seleção desses valores foram as raízes das tradições
culturais, a afirmação da identidade cultural, a fonte de inspiração e as trocas
interculturais, a cultura contemporânea e o papel social, a excelência na aplicação das
práticas, o testemunho único de uma tradição cultural viva e o risco de desaparecimento.
Esta iniciativa tem por objetivo preservar a cultura tradicional popular, devendo
se tornar complemento na lista dos Patrimônios da Humanidade.
As discussões em torno do reconhecimento do patrimônio cultural imaterial
trouxeram, a partir da década de 80, uma nova visão a respeito da preservação das
tradições e dos bens culturais dando um grande destaque à questão. Uns implementaram
um sistema de proteção há mais tempo como a Coréia, França e Japão, mais tarde vários
países começaram a repensar a valorização dos seus bens culturais, tomando medidas,
criando leis e incentivando projetos, que se não são completamente satisfatórios, ao
menos impulsionam um avanço para o reconhecimento da autenticidade de uma
identidade cultural.

Bibliografia

SANT’ANNA, Márcia (2001). Patrimônio Imaterial: do conceito ao problema da


proteção. In: Patrimônio Imaterial. Rio de Janeiro: ORDECC, pp.151-162 (REVISTA
TEMPO BRASILEIRO Nº 147 - 2001).