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Expressões Português 12.° ano

Textos Informativos Complementares

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EXP12 © Porto Editora

SEQUÊNCIA 1

O sonho na poesia de Fernando Pessoa

O sonho ocupa um papel principal na obra – e por consequência nas vivências de Fernando Pessoa. Mas porque é o sonho tão importante em Pessoa? É um assunto que merece um espaço ade- quado de estudo, mas para começar podemos dizer que o sonho é importante para Pessoa essen- cialmente como alternativa à vida. Quando ele diz, através de Soares, que nunca fez nada senão sonhar, está a dizer simultaneamente uma verdade e uma mentira: é mentira que ele nunca tenha sido um homem ativo, pois foi editor, inventor, trabalhou em escritórios comerciais e ainda foi tradutor; e é verdade que, ao mesmo tempo, todos os seus verdadeiros projetos, o projeto a que ele chamava a sua “obra”, a sua “vida ideal”, nunca se realizaram realmente. Progressivamente Pessoa ficou cada vez mais frustrado com a sua vida, que o deitou a um es- tado solitário e triste. Afastou-se da vida e dos outros. Passava muito tempo sozinho, mesmo que muitos dias pudesse estar nos cafés ou na companhia de amigos nos cafés, nunca estava verdadei- ramente acompanhado. A sua grande inteligência sentia-se prisioneira deste estado doentio – de ter ideias sem as conseguir concretizar, de se sentir um grande homem mas sem possibilidade de concretizar essa grandeza no mundo real. Ele era – em essência – apenas potencial de si próprio, pólvora presa dentro de uma arma que nunca iria disparar. “Nunca fiz senão sonhar” é o epíteto desta enorme frustração, da sensação de que nada se tornava real, que ficava sempre no reino da imaginação, do sonho. Esta é a base da importância do sonho em Fernando Pessoa. Mas Pessoa não se limitou a sen- tir-se frustrado. Ele foi um enorme poeta, um enorme escritor e criador. Isto porque soube pegar nesta frustração e transformá-la em algo mais, em algo superior. O sonho passou a ser uma ferra- menta da sua poesia – e da sua própria vida interior, que em larga medida se começou a confun- dir com a sua poesia. Ele era o que escrevia, e a sua obra passou a ser todo o seu mundo. Assim se explica também como o sonho construiu os seus heterónimos, como construiu os seus poemas, toda uma realidade paralela, em que ele era o Deus todo-poderoso, onde ele podia decidir quem vivia e quem morria, mas, ainda mais importante, quem era feliz e quem era infeliz. Mas temos de compreender o enorme fosso entre sonho e realidade. Esse fosso é magnifica- mente ilustrado na abertura do poema “Tabacaria”, quando Pessoa escreve: “Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Quem ler esta passagem pode pensar que se trata de uma grande contradição – não ser nada e ter todos os sonhos do mundo; mas ela explica-se pelo que dissemos atrás. Ele não podia ser nada no mundo exterior, na vida, mas podia ser tudo dentro dele, no seu mundo interior, nos sonhos, na vida imaginada. Ele imaginou a vida a tal ponto que colocou nela as suas persona- gens, permitindo aos seus heterónimos publicar textos, enviar cartas, e mesmo falar através da sua boca (Álvaro de Campos aparecia muitas vezes aos seus amigos quando estava mal-disposto, ou então a Ophélia, a sua namorada). Não se tratou de uma solução para a sua infelicidade, mas podemos ver na sua obra como o sonho tomou um papel principal, inestimável, na medida em que pelo menos manteve a sua esperança em alguma coisa, numa coisa imaginada, mas que era ainda uma coisa, um destino, um desejo, algo que ele pudesse pensar ser seu.

in http://www.umfernandopessoa.com/análises/papel-do-sonho-na-obra-de-fernando-pessoa.html [consult. 11-05-2012]