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2017­6­11

CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

Psychê versãoimpressa ISSN 1415­1138
Psychê versãoimpressa ISSN 1415­1138

versãoimpressaISSN1415­1138

Psyche(SaoPaulo)v.12n.23SãoPaulodez.2008

ARTIGOS

CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:

apontamentossobreumadorquedormecomas palavras 1

CatastrophesandsublimationinPaulCelanpoetry:

notesonapainthatsleepswiththewords

MarianaCamilodeOliveira

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RESUMO

Nopresenteartigopretende­sediscorrersobreoproblemadarepresentaçãoliteráriadaexperiência

catastróficaouconsideradaindizível.Visa­se,ainda,promoverumareflexãosobreosefeitosdaaproximação

deumaexperiênciadetalnatureza.Elegeu­seoconceitopsicanalíticodesublimaçãocomoumoperador

adequadoparasepensarofazerartístico.Paratalempreitada,serãopercorridosfragmentosdolegadoliterário

dePaulCelan,eminentepoetadaliteraturaalemãdoséculoXX.Trata­sedeumautorcujapoesiatestemunha

elipticamenteaexperiênciacatastróficanoperíodoapósaSegundaGuerra.Apartirdesteselementos,serão

apontadosalgunscaminhosparaaabordagemda(im)possibilidadedeserepresentaraexperiênciada

catástrofe.

Palavras­chave:Sublimação;Catástrofe;Representação;PaulCelan;LiteraturaePsicanálise.

ABSTRACT

Inthisarticlewediscussthequestionofliteraryrepresentationofcatastrophicexperience,thatwhichis

consideredinexpressible.Weintend,inaddition,tobringaboutareflectionontheforthcomingeffectsofsuch

experience.Thepsychoanalyticalconceptofsublimationiselectedasanadequateoperatortothinktheartistic

performing.Forthistask,wegothroughfragmentsfromliterarylegacyofPaulCelan,distinguishedpoetofthe

XXCenturyGermanLiterature.Itisanauthorwhosepoetrywitnessesellipticallythecatastrophicexperienceof

thepostSecondWorldWartimes.Basedonthesegrounds,wefollowsomepointsaiminganapproachofthe

(im)possibilityofrepresentingtheexperienceofcatastrophe.

Keywords:Sublimation;Catastrophe;Representation;PaulCelan;Literatureandpsychoanalysis.

2017­6­11

CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

Opoemamostra,eissoéindesmentível,umafortetendênciaparaoemudecimento(PaulCelan,

[1960]1996a).

Apoesiajánãoseimpõe,expõe­se(PaulCelan,[1969]1996a).

Asublimaçãoesuasaporias

"Comosefazempoemas?",indagaPaulCelanemumacartaaHansBender,em1960(1969,p.66).Tempos

antes,Freudestariaintrigadocomquestãosemelhanteaoinvestigarescritoreseartistas,esimultaneamente brindar­noscomumimportanteoperador:asublimação.Aindagaçãofreudiananãoseria,contudo,arespeito daconstruçãodopoemaemumaespéciedeavaliaçãoestética,nemumaexplicaçãosobreodomartístico

(Kofman,1996,p.8).Aquestãodeveaproximar­se,portanto,deumareflexãosobreoquelevaalgunsa

escreverempoemas,queoperaçãoestáemjogo–soboaspectometapsicológico–,comosedáestaviade

transformaçãoequaisseriamseusefeitos.

Semumensaiodedicadodemodoexplícitoàmesmaeamiúdereferidacomoumconceitocarentede informaçõesnolegadofreudiano,asublimaçãoeasteorizaçõesaelaconcernentespassaramaserconstruídas àmedidaqueoutrosconceitoseramformulados,dispersaaolongodaobra.Porcerto,trata­sedeumaidéia apenasconcebívelaosepensarofundamentalconceitofreudianodepulsão,limiteentreopsíquicoeo somático,passíveldediferentesdestinos."Apulsãoéumaforça(Drang)quenecessitasersubmetidaaum trabalhodeligaçãoesimbolizaçãoparaquesepossainscrevernopsiquismopropriamentedito"(Bartucci,

2001,p.11).Asublimação–eacriaçãoartísticaaelaatrelada–écelebrada,demaneirageral,comoum

destinonobredapulsão,quesedistanciadorecalqueediferedosintoma,bemcomoumaformapessoalde

estruturararealidade,ordenandocircuitoseinscrevendoapulsãonoregistrodasimbolização(p.11).A

sublimaçãodemonstraaenormecapacidadetransformadoradapulsão.

Cabe­nos,assim,ointentodeumpequenoexercíciodeestéticapsicanalítica,utilizando­nosdeseus instrumentosnaapreensãodaobradearte.Muitosefalanasupostacarênciadeinformaçõessobrea sublimação–conceitotomadoaquicomocentralparasepensaraartenaobradeFreud.Talexercícioestético, consideradonasdevidasproporçõesecomcautelas,mostra­nosqueempreitadasdessanaturezaestejam, talvez,muitomaispróximasdaescuta 2 psicanalíticadoquesupomos,equedisponhaassimdeinstrumentação diversa.Dessaforma,olegadofreudiano–emsuavariedadeequantidadedematerialdedicadoàcultura,bem comoostextosrelativosàmetapsicologiaeàtécnica–mostrou­sericoemferramentasparaaabordagemda arte,eterrenoprofícuoparaumaarticulaçãometapsicológicacomela.

Umainquietaçãoquenosmobilizouaolongodestetrabalhoérelativaaofatodequetradicionalmente,tanto entrecríticosquantoentreartistas,considerou­seumavicissitudebem­sucedidaàsimbolizaçãodadorpormeio dalinguagem.HugoFriedrichmencionaqueospoetassempresouberamqueaafliçãosedissolvenocanto–o conhecimentodacatarsedosofrimentomediantesuatransformaçãoemlinguagemformalmaiselevada.Cita aindaaspalavrasdeBaudelaire,queexprimiramuitasvezesoconceitodesalvaçãopormeiodaforma,eque

afirma,ademais,queadorritmizada,articulada,preencheoespíritocomumaalegriatranqüila(1978,p.40­

41).

Contudo,háalgumtempoinstiga­nosofatodequetaisatividades–comoacriaçãoartística–,quesugerem restituiçãoeordenamento(equesemdúvidaconduzemataisefeitos,corroboradopordiversosexemplos), possamseraomesmotempoincapazesdeefetuarcontenção,atenuarosofrimento,ouaindalheaparentem

certotipodeacoplamento.Astaisfuncionalidadesoudisfuncionalidades(Carvalho,2003)dasublimação

parecemaindamaisinquietantesdiantedoscasosemqueaescritadeumautorsedáprecisamenteperante algoqueparecetratar­sedaquiloquemaisescapaàrepresentação 3 ,acatástrofe;eaindaemqueoartistapõe termoasuaobraevidapormeiodosuicídio.

PaulCelannosterritóriosdacatástrofe

MárcioSeligmann­Silva,emseuensaioLiteraturaetrauma:umnovoparadigma,mencionaumtextodeWerner Bohleber,publicadonarevistaalemãdepsicanálisePsyche,noqualoautorafirmaqueascatástrofesdoséculo passado,assimcomoasdoséculoqueseinicia,asguerraseaviolência,fazemdostraumatismosdaspessoas edesuasconseqüênciasumatarefaincontornávelparaodesenvolvimentoteóricoeparaatécnicada

psicanálise(BohleberapudSeligmann­Silva,2005,p.63).Seligmann­Silvaprossegueafirmandoquesomos

partedeumaencenaçãocatastrófica,paraaqualnãoexistekátharsisemvista(p.63).Dessaforma,olegado

dePaulCelansuscitagrandeinteresseparaumnovoparadigmadaliteratura,bemcomoparaateoriaetécnica

dapsicanálise,eemespecialparaodebateaquipropostosobreoconceitopsicanalíticodesublimação.

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

Istosedádevidoaofatodequeaobraemquestãoapresentaumaexperiênciasingularnaarticulaçãoentreum

eventotraumático–compreendidoaquicomoaquiloqueresisteàrepresentação–eaescrita.Embora

consagradocomoumdosmaioresautoresdaliteraturaalemãdoséculoXX–inclusivecomalgumascoletâneas

disponíveisparaoleitordalínguaportuguesa–,permanecempontosquesetêmtornadocentraisnosdebates

atuaissobreachamadaliteratura"pós­traumática".Propõe­seaqui,ainda,umapossívelarticulaçãocoma

psicanálise.

PaulCelan,pseudônimoanagramáticoeliteráriodePaulAntschel,nasceunacidaderomenadeCzernowitz,

Bucovina(hojepertencenteàUcrânia),aos23denovembrode1920,filhodejudeusfalantesdealemão.No

anode1942,seuspaisforamdeportadosparaumcampodeconcentraçãoemMichailowkaealimorreram.

Celanfoideportadoparaumcampodetrabalhoondeestevedurante18meses.Permaneceualgumtempojunto

àstropassoviéticas;residiuemseguidaemBucareste,ondetrabalhavacomotradutor,emViena,até

estabelecer­seemParis,em1948.Obtevegrauemfilologiaeliteraturaalemãepassoualecionardoisanos

depois.Traduziuparaoalemãopoemasmodernosfranceses,russos,italianoseportugueses.Oautorrecebeu,

então,importantesprêmiosdaliteraturaalemã,comooBremerLiteraturpreis,em1958,eoGeorg­Büchner­

Preis,em1960.PaulCelansuicidou­seemParis,aos20deabrilde1970,deixandoimportanteslivros,dentre

eles:MohnundGedächtnis[Papoulaememória],de1952;VonSchwellezuSchwelle[Delimiaralimiar],de

1955,quenosconduzapensaracercadolimiardodizível;Niemandsrose[Arosadeninguém],4de1963;

Atemwende[Sopro,viragem 4 ],de1967;eSprachgitter[Gradedepalavras 5 ],de1959 6 ,emque,pormeioda rupturadasintaxeedeimagensenigmáticas,remete­nosaoslimitesrepresentacionaisdalinguagem.Paul Celanconsagrou­secomoumdosmaioresautoresdaliteraturaalemãdopós­guerra–sobretudoapósseu

poemaTodesfuge[Fugadamorte],escritoem1944,noqual,pormeiodeumaconstruçãoprimorosa,evocao

horrordaShoah,mencionadotambémcomorespostaaosupostoveredictoadorniano:

Acríticaculturalencontra­sediantedoúltimoestágiodadialéticaentreculturaebarbárie:escrever umpoemaapósAuschwitzéumatobárbaro,eissocorróiatémesmooconhecimentodeporquese

tornouimpossívelescreverpoemas(Adorno,1998,p.26).

ApoesiadeCelaneaafirmaçãodeTheodorAdornosobreaimpossibilidadequepermeiaapoesiaapós

Auschwitzsãofreqüenteseexaustivamentetrazidasàbaila,umaemrespostaàoutra.Porcerto,tal

experiênciamostraumacatástrofeproduzidanointeriordaEuropacivilizadanoséculoXX.Aguerra,aShoahe

osgenocídiosatestamofracassodasimbolização.AafirmaçãodeAdornoéperpassadaporincompreensões:

tratar­se­iadapoesia,dapoiesis,dacriaçãooudanarrativaapósAuschwitz?Talvezapoesiatalcomofora

concebidaatéentãofosseimpossível.PaulCelaneoutrossobreviventesdacatástrofenosauxiliama

aproximarmosdasaporiasrelativasaestacontroversaarticulação.

Procuramosdelinearduasquestõesaolongodestepercurso:oproblemadarepresentaçãodaquiloquemais

resisteàsimbolização,afunçãomiméticadaliteratura–apossibilidadedeserecobriro"real"comoverbal.

Ainda,osefeitosdela,asfunçõessubjetivasdestarepresentaçãodoirrepresentável,reflexãofecundaparase

pensaroconceitopsicanalíticodesublimaçãoeseusdestinos.

Épreciso,deantemão,efetuarbrevesconsideraçõesarespeitodotemadacatástrofeedotestemunho,em especialaacepçãoquevemsendoadotadanosúltimosanosnoBrasil,asquaispropõemumnovoparadigma paraacríticaliterária.Istosedeveaofatodequeanoçãodeteortestemunhalpermitepensarnãoapenasa ShoaheoTestimoniodasditadurasnaAméricaLatina(quesão,defato,osespaçosinauguraisetradicionaisda literaturadetestemunho),masaliteraturademaneirageral,emsuarelaçãocomaexperiência.Seligmann­ Silvaevocaaduplaorigemdotermonolatim:testisesupertes.Aprimeiradesignariaodepoimentodeum terceiroemumprocesso;easegunda,osobreviventequepassouporumaprovação,talcomooMartyros,que,

emgrego,significatestemunha(Seligmann­Silva,2003b,p.377­378).Otestemunhocomumterceiro,

acompanhandoasreflexõesdeSeligmann­Silva,jásinalizaoproblemalocalizadonocernedestedebatena

literatura:encontra­seemumazonadeindefiniçãopeladúvida,peloriscodamentira.Porsuavez,o

testemunhosobreviventepareceterqueabarcaro"real"daexperiência,edecertaforma,desarmaa

incredulidade.Percebemo­nos,portanto,nesseterrenonebulosoquepermeiaateorizaçãodaliteraturadesde

suasorigens,equeotestemunhodeixaapenasmaiseloqüente.

Quantoapossíveisdefiniçõesdecatástrofe,traumaeShoah,NestrovskieSeligmann­Silvamencionam:

Apalavra"catástrofe"vemdogregoesignifica,literalmente,"viradaparabaixo"(kata+strophé). Outratraduçãopossíveléo"desabamento",ou"desastre";oumesmoohebraicoShoah, especialmenteaptonocontexto.Acatástrofeé,pordefinição,umeventoqueprovocaumtrauma, outrapalavragregaquequerdizer"ferimento"."Trauma"derivadeumaraizindo­européiacom doissentidos:"friccionar,triturar,perfurar";mastambém"suplantar","passaratravés".Nesta contradição–umacoisaquetritura,queperfura,masque,aomesmotempo,éoquenosfaz suplantá­la,jáserevela,maisumavez,oparadoxodaexperiênciacatastrófica,queporisso mesmonãosedeixaapanharporformasmaissimplesdenarrativa(NestrovskieSeligmann­Silva,

2000,p.8).

Trata­sedeumpercursoetimológicoadequadoparaestainvestigação,umavezquedemonstraaambigüidade

dotermo,queéamesmadoscaminhosconcebíveisparaumapoesiapós­traumática:queperfuraesuplanta.

Sinaliza,ainda,ofatodequeaexperiência,noterrenoemquenosencontramos,nãosedeixaapanharpor

"formassimplesdenarrativa".OmesmodemonstraPaulCelan,quenãofazdesuaexperiênciaumrelato

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

testemunhallinear.Suaobra,porsuavez,parecedeixarnoleitoralgodamarcadeumaexperiência

traumáticaoudeseu"resto"nãosimbolizável.

NestrovskieSeligmann­Silvaacrescentamaindaqueolocusclassicusdoestudomodernodotraumaéo

capítulo18dasConferênciasintrodutóriasdeFreud,noqual,aoefetuarumestudosobreossoldadosque

retornavamdaPrimeiraGuerra,define­setraumacomoumaexperiênciaquetrazàmente,numcurtoperíodo

detempo,umaumentodeestímulograndedemaisparaser"absorvido"(2000,p.8).

Algumasressalvasdevemserfeitasnoqueserefereaousodosdadosbiográficosarticuladosàobra.Deve­se ponderarofatodetratar­sedeumaexperiênciadeescrituraemumterrenonoqualanarrativanãoincorreem formassimples.Celannãopretendefazerdesuaexperiênciaumrelato,masdeixaapenasvestígiosdonão simbolizável.Caberessaltarquenãosepretende,aqui,reduziralíricacelanianaàprojeçãodeumavivência 7 . Contudo,nãohácomonegligenciarahistória/vidaeoptarporumaabordagemimanentistanaleituradetais poemas.Éperceptívelaoleitorofatodequeointrincamentomencionadonãosedádeformalinear,nãoestá sujeitoàcronologia,nãoédeviaúnicaenãosemostracomfacilidade.

Consiste,ainda,emumterrenoarriscadoparaoleitor,quecomfreqüêncianãosabecomoreagiraoefeitode recepçãoproduzidopelaobradeumautorqueexperimentouonão­representávele,ademais,quepõefimà vidaeàobrademaneiratrágica.Aomesmotempo,portanto,impõeriscosàcríticaquenãoquertornar­se uma"camisa­de­força"ou"máquinadedesleitura" 8 .OdesafioresideemnãocircunscreverPaulCelanauma chavedeleituraouignoraracomplexarelação(ouimpossibilidadederecobrimento)entrelinguagemeos eventos.Verifiquemos,assim,algodoquepartedolegadocelanianonostemadizereasilenciar.

ApoesiadePaulCelan:silêncioquetestemunha

Percorrer­se­á,aolongodestareflexão,opoemaTodesfuge[Fugadamorte],comointuitodeidentificara

maneiraelípticaesemlocalizaçõespelasquaissetestemunha,silenciosamente,aexperiênciacatastrófica.Em

seguida,serãofeitasmençõesatrechosdetextospoetológicoseopoemadoespólio:Wolfsbohne[Grão­de­

lobo],devidoàapresentaçãoeloqüentedostemasdaescrita,apalavrae,emespecial,alíngua.

IniciemospeloconsagradoTodesfuge,poemadedestaquenodebatesobreapossibilidadedeliteraturanopós­

guerraedeprofundarelevânciaparaadiscussãoqueaquiseesboça:

Leitenegrodamadrugadabebemo­loaoentardecer

bebemo­loaomeio­diaepelamanhãbebemo­lodenoite

bebemosebebemos

cavamosumtúmulonosaresaínãoficamosapertados

Nacasaviveumhomemquebrincacomserpentesescreve

escreveaoanoitecerparaaAlemanhaosteuscabelosdeoiroMargarete

escreveepõe­seàportadacasaeasestrelasbrilham

assobiaevêmosseuscães

assobiaesaemosseusjudeusmandaabrirumavalanaterra

ordena­nosagoratoquemparacomeçaradança

Leitenegrodamadrugadabebemos­tedenoite

bebemos­tepelamanhãeaomeio­diabebemos­teaoentardecer

bebemosebebemos

Nacasaviveumhomemquebrincacomserpentesescreve

escreveaoanoitecerparaaAlemanhaosteuscabelosdeoiroMargarete

OsteuscabelosdecinzaSulamithcavamosumtúmulonosaresaínãoficamos

apertados

Elegritacavemmaisfundonoreinodaterravocêsaíevocêsoutroscanteme

toquem

levaamãoaoferroquetrazàcinturabalança­oazuissãoosseusolhos

enterremaspásmaisfundovocêsaíevocêsoutroscontinuematocarparaa

dança

Leitenegrodamadrugadabebemos­tedenoite

bebemos­teaomeio­diaepelamanhãbebemos­teaoentardecer

bebemosebebemos

nacasaviveumhomemosteuscabelosdeoiroMargarete

osteuscabelosdecinzaSulamithelebrincacomasserpentes

Egritatoquemmaisdoceamúsicadamorteamorteéummestrequeveioda

Alemanha

gritaarranquemtonsmaisescurosdosviolinosdepoisfeitosfumosubireisaos

céus

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

etereisumtúmulonasnuvensaínãoficamosapertados Leitenegrodamadrugadabebemos­tedenoite bebemos­teaomeio­diaamorteéummestrequeveiodaAlemanha bebemos­teaoentardecerepelamanhãbebemosebebemos amorteéummestrequeveiodaAlemanhaazuissãoosteusolhos atinge­tecomumabaladechumboacerta­teemcheio nacasaviveumhomemosteuscabelosdeoiroMargarete atiçacontranósosseuscãesoferece­nosumtúmulonosares brincacomasserpentesesonhaamorteéummestrequeveiodaAlemanha osteuscabelosdeoiroMargarete

osteuscabelosdecinzaSulamith(Celan,1996b,p.15­19).

"OconhecidoLeitenegrodamadrugadabebemos­te":umoximoroquedáinícioaoprimeiroverso–,ecomo lembraModestoCaroneNetto,sabemospelalinguagemcomumquenenhumleiteénegro,masopoetaodiz, semcerimônias,etemosqueaceitá­lo,intuindoobscuramenteopesodessadeclaração,aacataraqualidade doleitequenósbebemos–edessaformanosenvolveopoetaemsuavivênciatenebrosa(CaroneNetto,

1973)."Nós"e"ele"diferenciados,marcamumendereçamento(nósbebemos,cavamos,jazemos;eleescreve,

brada,atiça)."Afuga",porsuavez,remeteàformamusicalemqueserepetemtemaecontratema(os

cabelosdeourodeMargarete,personagemgoethianadeFausto,eoscabelosdecinzasdeSulamith,doCântico

dosCânticos),conduzindo­nosaperceber,nopoema,ametáforaproporcionadapeloritmoepelarepetição.Tal

"fuga'deveriasersenãosobreamorte,temadedestaqueemCelan,queperpassasuaobrademaneiras

diversas.

CaroneNettomencionaaindaotemadaAlemanhacomomestredamorteeadamúsicaquefundaaestrutura dapeça. ‘ DerTodisteinMeisterausDeutschland"(amorteéummestredaAlemanha)ficaramgravadosna memóriadoleitoralemãoaomesmotempoemqueopoemaentravaparaahistóriadalíricacontemporânea

comoumdosseusmomentosmaisrefinadose"terríveis"(CaroneNetto,1979,p.19).

ShoshanaFelmanexaminaaspectosdaFugadamorte.Argumentaafunçãotestemunhalcomorelaçãoentre

linguagemeeventoseumaexperiênciadaescritadotraumático,nãocomorelatolinear,maselíptico,circular,

porintermédiodaartepolifônica–tratar­se­iadeumpossívelsilêncioquetestemunha:

UmtalpoemaqueintentaexperimentarcomestarelaçãoentrelinguagemeoseventoséTodesfuge( ).A poesiadramatizaeevocaumaexperiênciaemcampodeconcentração,porémnãodiretaeexplicitamente,por intermédiodeumanarrativalinear,deconfissãopessoaloudereportagemtestemunhal,maselipticamentee circularmente,porintermédiodaartepolifônica,( )deumamúsicadeloucos,cujolamento–meioblasfêmia, meioprece–irrompedeumasóveznumchoromudoesemvozenotumultodançantedeumacelebração

embriagada(Felman,2000,p.41).

AautoradestacaaformasurpreendentepormeiodaqualaFugadamorte,queretrataasmaisinimagináveis

complexidadesdohorroredegradação,nãoconsisteemumpoemasobrematar,massobre"beber",ea

relação(enãorelação)entre"beber"e"escrever".Relaciona,ainda,aperformancedoatodebeberà

tradicionalmetáforapoéticadamelancolia,àsederomântica,àabsorção,àembriaguez–metáforaquese

agravapelaenigmáticaimagemdo"leitenegro".

AleiturafeitaporShoshanaFelmandaTodesfugeconduzàreflexãosobreumarelaçãoentrealinguagemeos

eventos,quenãosedáporrelatolinear.Estaespéciedetestemunhopormeiodosilêncioindica,paraoleitor,

vestígiosdaexperiênciaterrível.Oquenãodeve,contudo,serequiparadoaohermetismo.

Alíricacelanianaé,amiúde,referidapeloscríticoscomohermética,opaca,dedifícilacesso.Éválidolembrar,

porém,comBarrento,queCelannãoseconsideravaumhermético–assimodizemumpoemadoespólio–,e

queaspalavrashermetismoehermenêuticasãodeetimologiaaproximável(ofechamentoopacoeaabertura

desentidosestariam,assim,emummesmomovimento).Longedeumaidéiadefechamentofrio,opoemaé,

paraCelan,aberto,dialógico,umaformadeencontro.

"Línguasobrevivente"–maternaedosassassinos

Asidéiasacimamencionadassãoexpostasemalgunsdeseustextospoetológicos,queconstituempequena

partedesuaobra;contudo,espaçoprofícuonoqualsuasidéiassobreescrita,línguaepoesiaaparecemde

formabastanteeloqüente.Trata­sedeummaterial(assimcomoospoemas)deleituraárdua,circulare

artesanal.Na"AlocuçãoàentregadoprêmioliteráriodacidadelivreehanseáticadeBremen",Celandiz:

Nomeiodetantasperdas,umacoisapermaneceuacessível,próximaesalva–alíngua.Sim, apesardetudo,ela,alíngua,permaneceuasalvo.Masdepoisdeatravessaroseuprópriovaziode respostas,oterrívelemudecimento,miltrevasdeumdiscursoletal.Elafezatravessiaenão gastouumapalavracomoqueaconteceu,masatravessouessesacontecimentos.Fezatravessiae

pôde"reemergirenriquecida"comtudoisso(1996a,p.33).

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Nofragmentoencontra­seumaapostanalíngua,poucoantesimpregnadadejargõesnazistas.Nospoemas, coloca­aasalvorecorrendotambémàmemóriadosquemelhorausaram,antesdetodos,Hölderlin(Barrento,

1998,p.131).Ressaltatambémquealínguapôdere­emergirenriquecidadesuatravessia(indagamo­nosse

talenriquecimentoabrangeriaos"restos"ou"vestígios"daexperiência,comsuasimplicações).Seligmann­ Silva,emaproximaçãoàsformulaçõesdeWalterBenjamin,afirmaquealínguaseriatambémum sobrevivente:"alínguaésobreviventedacatástrofeeéaúnicaqueportatantooocorridocomoapossibilidade

detrazê­lodevolta"(Seligmann­Silva,2003c,p.402).EprossegueCelan,referindo­seàsuaempreitada:

Nessesanosenosanosseguintestenteiescreverpoemasnestalíngua:parafalar,parame orientar,parasaberondeeumeencontravaeondeissoiriamelevar,parafazeromeuprojectode

realidade(1996a,p.33).

Arealidadeé,nareflexãoemquestão,umprojetoaserfeito,pormeiodaescrituranestalíngua.Naalocução, Celanmencionaqueospoemassãomensagensnagarrafa[Flaschenpost]lançadasaomaremdireçãoaalgo aberto,ocupável,"umtuapostrofável",umarealidade"apostrofável".Acredita­senaescritanestalíngua,na "nossalíngua",comoteminícioaalocução,naconstruçãodeumarealidade.Ainda,opoemacomoaberturaem direçãoaumoutroou,talvez,comosaída.Otextoéfinalizadomencionandoquesãoosesforçosdequem, assimcomooutrospoetas,sobrevoadoporestrelasquesãoobrahumana,semteto,vaiaoencontrodalíngua comasuaexistência,feridoderealidadeeem"buscaderealidade" 9 .Semdúvida,parececonsistir precisamentenoqueestaobrasinaliza:alguémquevaiaoencontrodalínguacomsuaexistência.Estaéa línguaemjogo–damãe,dosassassinos,dapoesia.Aarticulaçãoambivalentecomapalavraapareceem diversospoemasdoespólio."Palavra­limiar",palavraquejáestevetempodemaisno"mundo",palavraemque "acreditaste",palavra"dor","ferida","silêncio",sãoapenasalgumasdasváriaspalavrasquetrazemumpouco destaambivalência.

Celanescrevenestepoemade1966:Minado/peladortransbordante,/aalmaamarga,/ergo­meíngremeno

meiodaobediênciaàpalavra,"livre"(Celan,1998,p.62).Apoesiaaparececomomaneiradefazerrespirara

língua.LembremosqueemseutextoOmeridianoconstaquepoesiaseriaqualquercoisaquelevaauma mudançaderespiração,dandoaelaumestatutodefluidez,bemcomocertadimensãocorporal.RolandBarthes profere,emsuaAula,quealínguaéopressora,apenaspassíveldeflexibilidadeatravésda"trapaçasalutar", "esquiva",logromagníficoquepermiteouviralínguaforadopoder,noesplendordeuma"revolução

permanentedalinguagem":aliteratura(1977,p.15).

Eloqüentenoqueserefereaostemasdedestaquenaobracelaniana,eporcertomaisexplícito,éopoema

Grão­de­lobo:

Põeoferrolhoàporta:há

rosasnacasa.

seterosasnacasa.

ocandelabrodesetebraçosnacasa.

Onosso

filho

sabeissoedorme.

(Lálonge,emMichailowka,na

Ucrânia,onde

elesmematarampaiemãe:

quefloriaaí,que

floresceaí?Que

flor,mãe

tefaziadoeraí

comoseunome,

mãe,ati,

quediziasgrão­de­lobo,enão

lupino?

Ontem

veioumdelese

matou­te

outravezno

meupoema.

Mãe,

mãe,que

mãoaperteieu

quandocomastuas

palavrasfuipara

aAlemanha?

EmAussig,diziastu,sempre,em

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Aussigjunto

aoElba,

durante

afuga.

Mãe,aímoravam

assassinos.

Mãe,eu

escrevicartas.

Mãe,nãoveioresposta.

Mãe,veioumaresposta.

Mãe,eu

escrevicartasa­­

Mãe,elesescrevempoemas.

Mãe,elesnãoosescreveriam

senãofosseopoemaque

euescrevi,por

ti,pelo

amor

doteu

Deus.

Bendito,diziastu,seja

oEterno,e

louvado,três

vezes

Amém.

Mãe,elesficamcalados.

Mãe,elesconsentemque

aignomíniamedifame.

Mãe,ninguém

calaabocaaosassassinos.

Mãe,elesescrevempoemas.

Oh,

mãe,quanto

chãomaisestranhodáoteufruto!

Dáessefrutoealimenta

Osquematam!

Mãe,estou

perdido.

Mãe,estamos

perdidos.

Mãe,omeufilho,que

Separececontigo.)

Põeoferrolhoàporta:há rosasnacasa. Há seterosasnacasa. Há ocandelabrodesetebraçosnacasa. Onosso filho

sabeissoedorme(Celan,1998,p.29­35).

Wolfsbohne[Grão­de­lobo]comoutrospoemascompõemumconjuntonãodadoàpublicação,escritos sobretudonosúltimosdezanosdevidadeCelan.Apoesiadispersanãopublicadacorrespondequaseaomesmo númerodepoemaspublicadosemvida.Osmotivosdaexclusão,deacordocomJoãoBarrento,nãotêmaver apenascomasexigênciascrescentesdopoeta.Emalgunscasos,tratar­se­iamdepoemasmaispessoaise íntimos,polêmicos,oumaisexplícitosqueohabitual.Nãoapenasmaispessoais,contudo,tambémmais provisórios,nosquaisaoficinadopoetaestariamaisàmostra,oquepermiteentendermelhoroprocesso

criativoehumanizam­lheohermetismo(Barrento,1998,p.129).

Grão­de­loboé,decerto,umpoemacentralnestedebate.Chamaaatençãodoleitoramaneiraexplícitacomo sãotratadosostemasfundamentaisdalíricacelaniana,antescodificados,quaseirreconhecíveisemsua imprecisão.Celanmanifesta,emumacartaaRudolfHirsch,agradecimentoporsuanãopublicação,poisnão

seria,defato,poesia,edeveriapermanecerprivada(Wiedemann,2005).Barrentomenciona,nasnotasde

tradução,queemGrão­de­loboosgrandestemasdapoesiacelanianaresultamemumduplojogode

referências–asduasdesignaçõesalemãsdetremoceiro:LupineeWolfsbohne.Natraduçãooptou­sepor

manteromotivodolobo,usadonapoesiadeCelanparareferir­setambémaos"assassinos".Wolfsschanze

["redutodolobo"],presenteemalgumasvariantesdopoemaemcontrapontoaWolfsbohne,eraonomedo

quartel­generaldeHitlernaPolôniaduranteaSegundaGuerra.Constamtambémas"seterosas",motivo

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

presentejáemoutropoema,alémdeelementosdeoraçãojudaica.Asreferênciasclarasaoslugarespresentes emGrão­de­lobotambémsãopoucohabituaisnapoesiadeCelan:Aussig–localidadetchecaondeamãe viveracomorefugiadajudiaantesdaGuerra–eMichailowka–campodeconcentraçãoemGaissin,Ucrânia–,

ondemorreramospaisdeCelan(Barrento,1998,p.122).

Aescrita,apoesiaealínguaestãoaqui"nuas","àbeiradanavalha"."Eu","tu,mãe",emcontrapontoa"eles",

articulam­seàescritaeexpõemaambivalênciaemrelaçãoàpalavra:umdelesmatou­tenomeu"poema",

comastuaspalavrasfuiparaa"Alemanha","escreviacartas",eles"escrevempoemas",elesnãoescreveriam

senãofosseopoemaqueeu"escrevi",elesficam"calados"eainda"mãe,quantochãodomaisestranhodá

teufruto".

Comoretirar­sefeito"cascadapalavra" 10 damãe,amesmaquealimentaaosquematam?Estaquestão, talvezfiotemáticoconcentradonoextensoparêntesisdopoema,étambémaquemobilizaareflexãoproposta. SeésurpreendenteofatodequetodaaobradePaulCelantenhasidoescritanalínguaalemã,ados assassinos,comtodasasimplicaçõesqueissoterianaquelemomento,poroutroladoparecenãohaveroutra saída,poisaíestáaempreitadaemjogo.Sabe­sedarelevânciaerecorrênciadetaismotivosaolongoda obra 11 –atematizaçãoMuttersprache­Mördersprache.CaroneNettomenciona:(‘MeineMutterspracheistdie SprachederMördermeinerMutter"/minhalínguamaternaéalínguadosassassinosdeminhamãe)–eletinha,

porassimdizer,queconstituiruma"línguaprópria"(1979,p.20).Àmesmalíngua–anossa"língua"–

dedicavaseutrabalhoacadêmicoemParisesuasdiversastraduções."Poderiaestalínguacontercerta

neutralidade,serrestituídaapósaimpregnaçãodejargões,fazeratravessiaenãogastarumapalavracomo

queaconteceu"?

Bartheslembraquenãovemosopoderqueresidenalíngua,quenosesquecemosdequetodalínguaéuma classificação,eassim,éopressiva.Menciona,remetendo­nosaJakobson,queumidiomadefine­semenospor aquiloqueelepermitedizerdoqueporaquiloqueeleobrigaadizer.Afirma,enfim,que"alínguanãose esgotanamensagemqueengendra;queelapodesobreviveraessamensagemenelafazerouvir,numa

ressonânciamuitasvezesterrível,outracoisaparaalémdoqueédito"(Barthes,1977,p.12­13).

Talvezalgodaexperiênciapregressatenhasidoressignificada,oraem"embalagemverbal",oranosespaços

vazios,nosilêncioounohermetismo,pormeiodoqualobtemosapenasvestígios.Quiçáaexperiênciada

escritaemCelan,ademais,contenhacerta"ressonânciaterrível",umrestonãosimbolizável.Assim,podemos

pensaremalgunscaminhosparaafunçãosubjetivadaescritaemCelan,reflexõesparaasquaisoconceitode

sublimaçãomostra­seválido,necessárioe,ainda,podetambémsairenriquecido.

Sublimação,representaçãoeseusefeitos

Porqueaopçãopeloconceitodesublimaçãonareflexãosobreoprocessocriativoe,nestecaso,proveitosoao pensarasfunçõessubjetivasdaescritaemPaulCelan?Primeiramente,éprecisopercorreralgunscaminhos, queforamnossosesforçosdeelaboraçãonasinvestigaçõessobreasublimaçãonosúltimosanos.Devemos insistirnaadvertênciafeitaporSarahKofmanelembradaporAnaCecíliaCarvalhodequeasublimaçãonão devesertratadacomoumconceitomoral,massimmetapsicológico,edessaforma,relativoaocampo

pulsionalecomsuasdimensõesdinâmica,econômicaesuadeterminaçãoinconsciente(Carvalho,2006,p.16).

Aobstinaçãoénecessáriadevidoaofatoqueemborasetratedeumaconstataçãosimplesemsuaaparência,

observa­seadificuldadededesprender­sedeumaformaaristocráticadeseconceberasublimação,como

privilégiodosgênios,equeemmuitodifeririadeoutrasatividadesdavidahumana.Celanparecesaberdisso

aoafirmar,namesmacartaaHansBender,queacondiçãodetodapoesiaéoofício–coisademãos.Afirma

nãoverdiferençadeprincípioentreumapertodemãoeumpoema.Nãosetrata,portanto,dedesignar

atividadesintrinsecamentesublimatórias.Asublimaçãoestariaparatodos–oartistaapenasatornamais

eloqüenteparanossosfins.

Outroaspectoquenosconduzàretomadadesseconceitoéofatodequepermitepensarseuslimitescoma introduçãodanoçãodepulsãodemorte.Aíseencontraoutroaspectoquesuscitaforteresistênciaeotornade difícilacolhimentodotermo.Compreende­seagora,comoafirmaKofman,osmotivospelosquaisa‘aplicação" dapsicanáliseàartetenhaencontradoumaresistênciatãoforte:équeaarteeraoúltimo"bastiãodo

narcisismo"(1996,p.26).Kofmanreferia­seaoquedesignacomoagrandecontribuiçãodapsicanáliseà

biografia–esta,umailusãoquemobilizaumaatitudeidealizadora,religiosaenarcísicaporpartedebiógrafos

eestetas.Freud,aodemonstrarqueosartistasnãoestariamdestituídosdesofrimentoedesintomas,é"um

intérpretedemolidordeídolos","perpetradordoassassinatodopai",algoqueemnadaagradaaopúblico.

Quantoaosaspectosdisfuncionaisdacriação,parecehaverumareaçãosemelhante.Diantedoavessoà

simbolização,dovaziodesentidosdopós­guerra,PaulCelanemergecomorespostaaoveredictoadornianode

queseriaimpossívelescreverpoesiaapósAuschwitz.CelannãoapenasescreveapósAuschwitz,mastambém,

(in)diretamente,sobreaexperiência.

Formulamos,portanto,trêsviasdeabordagemdosdoisproblemasaquiesboçados–darepresentaçãoeseus

efeitos:aprimeiradelasseriaadapossibilidadederepresentação,queporvezesimplicaumaformasilenciosa

defazê­lo,umtestemunhonão­linear,elíptico,circulareindireto.Asegunda,seriaadaimpossibilidade,do

núcleoinenarrável,doindizíveldamortequesempreescaparáàlinguagem.Trata­se,talvez,deuma

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

perspectivamaisimobilistaouobscurantista,aoafirmarumanarrativaquenãodácontadopassado.A terceira,eventualcompromissoentreasanteriores,seriadequearepresentaçãoépossível,emboranãosem preço.Narrarotraumáticoéumaformadeesquecê­loerelembrá­lo,poissabemosqueesqueceréumaforma aberrantedelembrar–ou,naspalavrasdeSeligmann­Silva:recordareesquecersãodoisfatoresdinâmicos

"inseparáveis"(2003a,p.14)e,ainda,escrituracomasuatramadeesquecimentoe"recordação"(p.29).É

emcertamedidarevivê­loerecriá­lo.ApoesiadeCelantorna­semaissilenciosa,materialefragmentária.E,

porfim,parecenãohaveroutrasaídaquenãoamortecomoinscriçãoúltima.Aestaterceiraviaassociamoso

conceitodesublimação,apartirdaintroduçãodapulsãodemortenateorizaçãofreudiana.

Separeciadifíciladmitir,nosmoldesdaprimeirateoriadaspulsões,queasublimaçãoteriasuasorigensna sexualidadeperversapolimorfainfantileseestaconstataçãojásuscitariatodootipoderesistência–em especialnoquetangeàatividadeartística–,aintroduçãodoconceitodepulsãodemortetornariataisidéias absolutamenteinaceitáveis.Devidoaisso,talvez,AnaCecíliaCarvalhodesignecomo"noçãorecalcada"a

passagemnaqualFreudapresentademaneiraclaraasublimaçãosobaégidedapulsãodemorte,em1923,e

convoqueaumaleituracuidadosadotrecho(Carvalho,2006,p.17).Freudafirma,naocasião,adesfusão

pulsionalenvolvidanaoperaçãodasublimação,naquala"dessexualizaçãocolocariaoeuaserviçodeobjetivos

opostosaosdaspulsõesdevida,deixandooeuaoperigodemaus­tratosemorte".Napassagem,emsua

integridade,consta:

Masjáqueotrabalhodesublimaçãodoegoresultanumadesfusãodosinstintosenumaliberação dosinstintosagressivosnosuperego,sualutacontraalibidoexpõe­noaoperigodemaustratose morte.Sofrendosobosataquesdosuperegoetalvezaelessucumbindo,oegosedefrontacom umasortesemelhanteàdosprotistasquesãodestruídospelosprodutosdadecomposiçãoqueeles

próprioscriaram(Freud,1923,p.73–grifonosso).

AnaCecíliaCarvalhofazumaleituracautelosadestapassagememumartigonoqualefetuaumexercíciode aproximaçãodaaporiaemtornodacriatividadecomoformadetransformaçãoeprazerparaalguns,ecerta alimentaçãodosofrimentoparaoutros.Aautoraressaltatrêsnoçõesmaisconhecidasnoqueserefereà criatividadee,porvezes,àsublimação.Aprimeiradelasseriaaformulaçãofreudianadasublimaçãocomo destinopulsionalquepromoveapaziguamento,orientaosofrimentoemumadireçãobenéfica,equedeforma diversadosintoma–umarranjo(conciliatório)quemuitasvezesnãofracassa–nãoseriaumaconciliação,mas talvezumaalternativamais"saudável".Asegunda,deinspiraçãolacaniana,seriaumasublimaçãoquenãose oporiaaosintoma,masquepermitiriaumainscriçãosubjetiva,talcomodemonstraLacanaoreferir­seaJoyce. Naterceira,derivadadaanterior,atransformaçãoemalgocompartilháveldaquiloqueseriaumaexperiência subjetivasingular,i.e.,olaçosocialestabelecidopeloprodutoartísticoconstitui­seaespecificidadeda sublimação.Carvalhomencionaserinegávelaeficáciadestasvias,maschamaaatençãoparaofatode evidenciaremapenasoaspectofuncionaldacriação,eenfatizaanecessidadedesepensarassituaçõesnas

quaistudoparececaminharparaoutradireção(2006,p.16­17).

AformulaçãotardiadeFreudsobreasublimaçãosupracitadaforneceaportesparaaelaboraçãodeumcaminho diverso.SuatrajetóriaéefetuadaporAnaCecíliaCarvalho,aoafirmarqueasublimação,alémdenãopoder deixardesereferiràangústiaouàdor,temtambém,emseuinterior,apossibilidadeouonecessárioretorno doselementossentidoscomoperigosos,colocandosobriscosaconcepçãodedestino"menosdefensivo".Por fim,acompanhandoaleituradeCarvalhodestavertentedotrabalhodasublimação,oartistaeoescritordevem

manteralgumgraudecontatocomafontedessesperigosparapodercriar(2006,p.17­18),soborisco,

contudo,desucumbirataisperigos 12 .

Compreendemos,então,queopoemaseja,demaneiraestrita,umaexperiência:etimologicamente,dolatim ex­periri:umatravessiaarriscada;tambémnoalemãoEr­fahrung,quecontémossemasdetravessia(fahren) edeperigo(Gefahr)–masnãosepodeconfundircomuma"vivência",quenãotemconseqüências"poéticas, nemresto"(Barrento,1998,p.133)."Oresto"dapoesiadeCelanseria,também,algodeinscritoeveiculado 13 –algodeafeto,dorou"ressonânciaterrível",transportadanalíngua,aolongodesuaobranatotalidade,ados assassinosesimultaneamentematerna.Ograudecontatocomafontedeperigoquepermiteescrever,antes mencionado,podeserdescritopormeiodomitodaMedusa,evocadoporItaloCalvinoerelembradoporEneida

MariadeSouza,nointuitodeexplicitararelaçãodopoetacomomundo(CalvinoapudSouza,2001,p.137).O

poetadeveteroolharenviesadoeindiretoparacomomundo,talcomoPerseu.Estevaleu­sedoapoiodas sandáliasaladasnovento,dalevezacomosinaldeestratégiaguerreiraedaimagemoblíquadosimulacroda

Medusapresanoescudodebronze.Seriaaliçãodoprocessodecontinuar"escrevendo"(p.138).Emboraesteja

nohorizontedapoesiadizertudo,percebemosquenãofazê­loétambémumaformadecontinuarescrevendo,

equediantedoexcesso,acontençãopareceseramorte.Faz­semisterressaltarquecomtaisformulaçõesnão

sepretendefazeralgumtipodeelogioaosilêncio,aosuicídioou,ainda,consideraroúltimoagrandeobrado

autor.Éimprescindíveldissolveroriscodeumamáinterpretaçãodestanatureza,umavezqueadotamos,

antes,umaposiçãocontrária.Estamoscientesdavertenteterrívelemortíferadosilêncioimposto,equenarrar

otraumaéumanecessidade.Odireitodenarrarousilenciardeve,porcerto,sergarantidoaotestemunho.O

quesepropôsaquifoiverificarosefeitos,emumcaso,daaproximaçãodaexperiênciadeexcessodotrauma

emsuarevivescêncianaencenaçãoeapresentaçãonaarte.

Assim,temososdoisladosdaexperiência–travessiaperigosa–daescrita:aquelequetransforma,restaura,e odaimediaticidade,doexcesso,queapresentao"Realmaisdoqueorepresenta",comoafirmaMassimo

RecalcatiemAstrêsestéticasdeLacan(2005).Aadoçãodoconceitodesublimaçãoéfeita,portanto,nessa

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CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

reflexãosobreoprocessocriativo,devidoaofatodeconter,atreladoasuaprópriadefinição(apartirdanoção

dedesfusãopulsionaledaintroduçãodapulsãodemorte),oseulimite.

Finalmente,seporumlado,comapoesiainéditadeCelan,pareceserrevelado(ouprofanado?,indagariaJoão Barrento)ummaterialantessilenciado;esealocalizaçãoclaraeatípicadoseventosrecobertospela linguagemaproxima­nosdoriscodeumbiografismoingênuo,poroutroéaíquepercebemosoartifícioda literaturadodeslocamentodotextoficcionalparaotextodavida.Revela­seoquehádesinceroeartificialna literatura.Nadamaiselucidativodoqueaconhecidamençãoaopoetafingidor,quefingeadorquesente.Ador éverdadeira(adorimitada,notextoescritoouvivido,contémemambosumaverdade).Taldor,verdadeira, devesertransformada(simbolizada,representadaouapresentada)notrabalhodacriação.Eaí,nomesmo movimento,estãoseusefeitos.Emnossosesforçosdeelaboração,procuramosporumladodebateroproblema darepresentaçãodoinenarrável,eporoutro,seusefeitos,tendoemcontaooperadorpsicanalíticoda sublimação–paracompreenderoprocessocriativoemumâmbitometapsicológicoeparaentenderquena atividadedacriaçãosedáseulimite.Ousodaspalavras,feitopelopoeta,serveparaprotegerdaquiloque advémsenãodelas.Compreendemosjustamenteaí,comCelan,queadordormecomas"palavras"(Celan,

1998,p.45).

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Tel:+55313441­0764

Recebidoem:09/08/07

Versãorevisadarecebidaem:24/12/07

Aprovadoem:08/08/08

MarianaCamilodeOliveira

Psicóloga(FaculdadedeFilosofiaeCiênciasHumanas/UFMG);MestreemEstudosLiterários/TeoriadaLiteratura

(FaculdadedeLetras/UFMG,BolsistaCNPq).

Notas

1 EsteartigoéumdesdobramentodeumapesquisasobreasublimaçãoorientadapelaProfessoraAnaCecília Carvalho,aquemdedicoestetrabalho,eco­orientadapeloProfessorGuilhermeMassaraRocha,juntoà FAFICH/UFMG.ConstituitambémpartedapesquisadesenvolvidaemminhadissertaçãodeMestrado,orientada peloProfessorGeorgOtte,FALE/UFMG.Registromeusagradecimentospeloapoio.

2 NoartigoÉpossívelumacríticaliteráriapsicanalítica?,AnaCecíliaCarvalho(1999)tematizaapossibilidade

detalcríticamencionandoosimpassesdasutilíssimadistinçãoentreacriaçãoliteráriaeoutrasformaçõesdo inconsciente,bemcomoatransposiçãodeumaescutaparaumaleiturapsicanalítica,queexigiriaum redimensionamentodanoçãodeinterpretação.

3 Cabeumabreveressalvadiantedapolêmicaemtornodotermo"representação".Énecessáriosituá­lo, diferenciando­odamimesis,sujeitaadiversosequívocos,desdeatraduçãotratadistaparaimitatio.LuizCosta

Limadedica­seaotemanaobraVidaemimesis(1995).Auerbachutiliza­sedamimesisemsuaacepçãode

interpretaçãodarealidadeatravésda"representaçãoliterária"(2004,p.499).Partedacríticaopta,porsua

vez,por"apresentação".Adotar­se­á,aqui,anoçãode"representação"demaneiradescritiva,semsupor qualquerrelaçãoespecularcomarealidade,mascomoumaoperaçãodetransformaçãooudeslocamento,que sinalizaalgodeum"real",maisdoqueoexpõe.Semignorar,ainda,tendênciasqueconduzemapensara literaturanãocomolugarderepresentação,masdeinvençãodavida.

4 TambémtraduzidoporGirodefôlego,MudançaderespiraçãoouMudançadeinspiração.

5 TambémtraduzidoporGradedelinguagem,GrelhadelinguagemouGradeverbal.

6 Ostítulosmencionadospodemserencontradosnasobrascompletasenaediçãodapoesiacompleta:Celan

(1983)eCelan(2005).

7 Considera­seaquiquenãosepodefalaremvidaeobracomoumaarticulaçãodual,deoposiçãoou

paralelismo.Nãosetratadeumarelaçãoespecular,masmetonímica–amatériadavidaestáligadaàletra,

2017­6­11

CatástrofeesublimaçãonapoesiadePaulCelan:apontamentossobreumadorquedormecomaspalavras

comoformuladoporRuthSilvianoBrandãoemAvidaescrita(2006,p.25).

8 ExpressõesutilizadasporMárcioSeligmann­Silva(2003,p.375).

9 Nooriginal:"mitseinemDaseinzurSprachegeht,wirklichkeitswundundWirklichkeitsuchend"(Celan,1983,

p.186–grifonosso).

10 FragmentodeumpoemadeCelandenominadoConversascomcascasdeárvore,noqualconsta:Tu,/tiraa

casca,anda,/tira­me,feitocasca,daminha"palavra"(Celan,1998,p.36).

11 VerpoemascomoWinter[Esfälltnun,Mutter,ScheeinderUkraine],NähederGräber,SchwarzeFlocken,

Espenbaum,DieHandvollerStunden,Sobistdudenngeworden,DerReisekamerad,SiekämmtihrHaareVor

einerKerze.

12 AnaCecíliaCarvalhoinauguraareflexãosobreoslimitesdasublimaçãoedemaistesesrelativasaotema

emseulivroApoéticadosuicídioemSylviaPlath(2003)enotextoPulsãoesimbolização:limitesdaescrita

(2001).

13 DiantedeumaindagaçãoacercadograudelembrançaeesquecimentopromovidopelapoesiaemPaul Celan,parece­mefecundoacompanharaformulaçãodeAnaCecíliaCarvalho,aoafirmarqueaoveicularo afeto,semrecalcá­looutorná­loconsciente,aescritapermitequeumapresençaseinscreva,muitoalémdo

nívelmimético,nasmarcassemióticasquebordejamapulsão(Carvalho,2006,p.21).

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