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Dialogue Under Occupation VII

CADERNO DE RESUMOS

Dialogue Under Occupation VII CADERNO DE RESUMOS 28 a 30 de outubro de 2015 Auditório do

28 a 30 de outubro de 2015 Auditório do Prédio 32 PUCRS

Dialogue Under Occupation VII

VII CADERNO DE RESUMOS 28 a 30 de outubro de 2015 Auditório do Prédio 32 –

ISBN: 978-85-397-0706-5

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Faculdade de Letras

Programa de Pós-Graduação em Letras

Dialogue Under Occupation VII

CADERNO DE RESUMOS

Outubro de 2015

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Caderno de Resumos do Dialogue under Occupation VII

Os textos e as imagens são de responsabilidade de seus autores.

under Occupation VII Os textos e as imagens são de responsabilidade de seus autores. Dialogue Under

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Reitoria

Reitor Ir. Joaquim Clotet

Vice-Reitor Ir. Evilázio Teixeira

Pró-Reitor de Pesquisa, Inovação e Desenvolvimento Prof. Dr. Jorge Luis Nicolas Audy

Pró-Reitora Acadêmica Profª. Dra. Mágda Rodrigues da Cunha

Pró-Reitor de Administração e Finanças Prof. Dr. Paulo Roberto Girardello Franco

Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Prof. Dr. Sérgio Luiz Lessa de Gusmão

Faculdade de Letras

Diretora da Faculdade de Letras Profª. Drª. Regina Kohlrausch

Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Letras Profª. Drª. Maria da Glória Corrêa di Fanti

Coordenadora do Departamento de Estudos Linguísticos Profª. Drª. Lílian Cristine Hübner

Coordenador do Departamento de Estudos Literários Prof. Dr. Paulo Ricardo Kralik Angelini

Coordenadora do Departamento de Letras Estrangeiras Profª. Drª. Heloísa Orsi Koch Delgado

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COMISSÃO ORGANIZADORA DO DUO VII E DO CADERNO DE RESUMOS

COORDENAÇÃO GERAL

Maria da Glória Corrêa di Fanti (Presidente - PUCRS) Ana Maria Lisboa de Mello (PUCRS) Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA) Lilian Cristine Hübner (PUCRS) Marie-Hélène Paret Passos (PUCRS) Paulo Ricardo Kralik Angelini (PUCRS) Pedro Theobald (PUCRS)

COMITÊ EXECUTIVO

Bernardo Kolling Limberger (Doutorando/CNPq) Cécile Sidery (Doutoranda/Université Bordeaux 3) Kelli da Rosa Ribeiro (Doutoranda/CNPq) Milena Hoffmann Kunrath (Doutoranda/CAPES) Patrick Holloway (Doutorando/CAPES) Stéphane Rodrigues Dias (Doutoranda/CNPq) Tamiris Machado Machado (Doutoranda/CNPq) Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq)

APOIO E REALIZAÇÃO

Machado (Doutoranda/CNPq) Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq) APOIO E REALIZAÇÃO Dialogue Under Occupation VII
Machado (Doutoranda/CNPq) Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq) APOIO E REALIZAÇÃO Dialogue Under Occupation VII
Machado (Doutoranda/CNPq) Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq) APOIO E REALIZAÇÃO Dialogue Under Occupation VII
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Machado (Doutoranda/CNPq) Vanessa Fonseca Barbosa (Doutoranda/CNPq) APOIO E REALIZAÇÃO Dialogue Under Occupation VII

COMITÊ CIENTÍFICO

Adail Sobral (UCPEL) Biagio D’Angelo (UnB) Bruno Deusdará (UERJ) Del Carmen Daher (UFF) Diógenes Buenos Aires de Carvalho (UESPI) Elise Seip Tønnesen (Universitetet i Agder, Noruega) Fabiane Verardi Burlamaque (UPF) Fátima Pessoa (UFPA) Grenissa Stafuzza (UFG-CAC) Jacqueline Penjon (Université de la Sorbonne Nouvelle, Paris 3) Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA) Luciane de Paula (UNESP-Assis) Maria Cleci Venturini (Unicentro) Maria da Graça Lisboa Castro Pinto (Universidade do Porto) Maria José Finatto (UFRGS) Marilene Weinhardt (UFPR) Marília Ferreira (UFPA) Marília Rodrigues (Unifran) Mauro Nicola Póvoas (FURG) Rejane Pivetta de Oliveira (UniRitter) Rosângela Hammes Rodrigues (UFSC) Vania Pinheiro Chaves (Universidade de Lisboa) Vera Lúcia de Albuquerque Sant’Anna (UERJ) Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

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COMITÊ CIENTÍFICO PPGL/PUCRS

Ana Maria Lisboa de Mello Ana Maria Tramunt Ibaños Antonio Carlos Hohlfeldt Augusto Buchweitz Carlos Alexandre Baumgarten Carlos Gerbase Charles Kiefer Charles Monteiro Cláudia Regina Brescancini Cláudio Primo Delanoy Cristina Becker Lopes Perna Eneida de Goes Leal Jorge Campos da Costa Karina Veronica Molsing Leci Borges Barbisan Leda Bisol Lilian Cristine Hübner Luiz Antonio de Assis Brasil Maria da Glória Corrêa di Fanti Maria Eunice Moreira Maria Tereza Amodeo Marie-Hélène Ginette Paret Passos Noelci Fagundes da Rocha Norman Roland Madarasz Paulo Ricardo Kralik Angelini Pedro Theobald Regina Kohlrausch Ricardo Araujo Barberena Ricardo Timm de Souza Vera Wannmacher Pereira

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

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PROGRAMAÇÃO GERAL

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SESSÕES DE COMUNICAÇÃO

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TRABALHOS APRESENTADOS EM 29 DE OUTUBRO (QUINTA-FEIRA)

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TRABALHOS APRESENTADOS EM 30 DE OUTUBRO (SEXTA-FEIRA)

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ÍNDICE DE AUTORES

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APRESENTAÇÃO

No ano em que o Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL)

comemora 45 anos de atividade e a Faculdade de Letras, 75,

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),

a
a

via PPGL, sedia o DUO VII, Dialogue Under Occupation, evento

internacional, itinerante e interdisciplinar, que ocorre entre os dias 28 e 30 de outubro de 2015.

O evento reúne especialistas do Brasil e do exterior para refletirem sobre estudos relativos ao diálogo, a partir de três grandes eixos temáticos: Diálogo em Perspectiva, Dilemas Inter- culturais e Expressão de Conflitos.

Considerando as especificidades do DUO e as particulari-dades do Programa de Pós-Graduação em Letras, no que tange a suas áreas de concentração Linguística, Teoria da Literatura e Escrita Criativa e a interfaces com diferentes campos do conhecimento, como Filosofia, Sociologia, Comunicação, Educação, Psicologia etc., o DUO VII propõe-se, a partir de variados enfoques, aprofundar teorias e metodologias que possam iluminar estudos sobre os eixos temáticos focalizados.

Desejamos a todos um excelente evento!

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PROGRAMAÇÃO GERAL

28 de outubro (quarta-feira) Manhã:

8h30min-9h30min Credenciamento Auditório Térreo do Prédio 32

9h30min-10h Abertura Oficial

10h-12h - Conferência Inaugural:

Discurso político antirracista no Brasil” Teun A. van Dijk (Universitat Pompeu Fabra, Espanha)

Debatedora: Diana Luz Pessoa de Barros (UPM/USP)

Tarde:

13h30min-15h30min

MESA DE EGRESSOS: 45 ANOS DO PPGL A sociolinguística variacionista no Brasil: uma proposta que deu certo” Dermeval da Hora (UFPB)

A escrita criativa e a universidade” Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS)

O homem nasce na cultura: de uma antropologia da enunciação” Valdir do Nascimento Flores (UFRGS)

“Minha formação: 44 anos de PPGL” Vera Teixeira de Aguiar

Moderadora: Rejane Pivetta de Oliveira (UniRitter)

15h30min-16h30min Lançamento de Livros

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16h30min-18h30min - Mesa-Redonda:

EXPRESSÃO DE CONFLITOS: ABORDAGEM DISCURSIVA, LITERÁRIA E FILOSÓFICA

"Positioning the voices of conflict: language manipulation in the Diálogos de Paz" Lawrence N. Berlin (Northeastern Illinois University, EUA)

"'Eu sofro', é melhor que: ‘Esta paisagem é feia'? A literatura diante do trauma" Marcio Seligmann-Silva (Unicamp)

“Filosofia e violência” Ricardo Timm de Souza (PUCRS)

Moderadora: Cristina Perna (PUCRS)

29 de outubro (quinta-feira) Manhã:

8h-10h15min - Sessões de Comunicação

10h15min10h30min - Intervalo

10h30min-12h30min Painel:

DILEMAS INTERCULTURAIS: ALTERIDADE, MEMÓRIA E PRODUÇÃO DE SENTIDOS

Le choc des cultures : la femme migrante dans le roman contemporainJanet Paterson (University of Toronto, Canadá)

“Compartilhar as Américas: ressignificando a Americanidade em uma perspectiva relacional” Zilá Bernd (Unilasalle/UFRGS)

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Debatedor: Patrick Imbert (Université d'Ottawa, Canadá)

Tarde:

14h-16h Mesa-Redonda:

EXPRESSÃO DE CONFLITOS: IMPASSE, INTOLERÂNCIA E RESISTÊNCIA “O olhar enviesado do outro: a falência da ajuda externa ao desenvolvimento” Ricardo Seitenfus (UFSM)

“Estudos discursivos da intolerância na perspectiva semiótica: algumas reflexões sobre discursos políticos e discursos na internet” Diana Luz Pessoa de Barros (UPM/USP)

“Resistência ao Islã no poder: o (o)caso da Irmandade Muçulmana” Silvia Ferabolli (UniRitter)

Moderador: Charles Monteiro (PUCRS)

16h-16h30min Intervalo

16h30min-18h30min - Mesa-Redonda:

DIÁLOGO EM PERSPECTIVA: TRABALHO, LINGUAGEM E FORMAÇÃO

“Abordagem ergológica e necessidade de interfaces pluridisciplinares” Yves Schwartz (Aix-Marseille Université, França)

“Práticas discursivas contemporâneas: o que se modifica no trabalho?” Maria Cecília Pérez de Souza-e-Silva (PUC-SP)

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“Educação e ergologia: diálogos pertinentes” Maria Clara Bueno Fischer (UFRGS/Faced)

Moderadora: Maria da Glória Corrêa di Fanti (PUCRS)

20h Jantar por adesão

30 de outubro (sexta-feira)

Manhã:

8h-9h45min - Sessões de Comunicação

9h45min10h - Intervalo

10h-12h Painel:

DILEMAS INTERCULTURAIS: REPRESENTAÇÃO SOCIAL, DIVERSIDADE E IDENTIDADE “Las narrativas de resistencia” Irene Vasilachis de Gialdino (CEIL-CONICET, Argentina)

“Reflexiones sobre los diálogos culturales en el contexto de las perspectivas culturales y a-culturales de la modernidad” Patrick Imbert (Université d'Ottawa, Canadá)

Debatedor: Antonio Hohlfeldt (PUCRS)

Tarde:

13h-16h - Sessões de Comunicação

16h10min-16h50min Conferência: Memória e Linguagem Ivan Izquierdo (PUCRS/InsCer) Debatedora: Lilian Cristine Hübner (PUCRS)

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16h50min-17h30min Deslocamento para a Feira do Livro

17h30min-19h30min

Painel de Encerramento na Feira do Livro de Porto Alegre Local: Santander Cultural Sala Leste

DIÁLOGO EM PERSPECTIVA: A LINGUAGEM NA ARTE E NA VIDA

“A linguagem é a vida da arte e a arte é linguagem da vida” Adail Sobral (UCPEL)

“Experiência e linguagem” Milton Hatoum (escritor, São Paulo)

Debatedor: Luiz Antonio de Assis Brasil (PUCRS)

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SESSÕES DE COMUNICAÇÃO

Trabalhos apresentados em 29 de outubro (quinta- feira) Manhã:

8h-10h15min Sessões de comunicação

Sessão de comunicações individuais 1 - Multiculturalismo e Pós-modernidade Sala 603, prédio 40

1. Diversidade, diferença e alteridade na literatura brasileira contemporânea

Coordenadora:

Maria Tereza Amodeo mtamodeo@pucrs.br (PUCRS)

Apesar dos conflitos e das injustiças sociais que ocorrem nas mais diferentes partes do mundo, desde as últimas décadas do século XX, a consciência em relação aos direitos humanos tem, efetivamente, espraiado um discurso que valoriza o respeito ao outro e o direito à diferença, impondo como palavras de ordem a busca da conexão, da convivência, do diálogo. Organizações mundiais têm se orientado nessa direção, indagações filosóficas, práticas políticas (IMBERT, 2008), comportamentos e posições têm se erigido. Entretanto, ainda é necessário avançar no caminho da paz mundial e do bem-estar dos indivíduos. Uma nova ordem simbólica, marcada pela diversidade cultural no âmbito da globalização vem se desenhando no mundo desde o século passado e problematizando as formas de pensar, agir, legislar (KYMLICKA, 2014) e, principalmente, criar na contemporaneidade. O Brasil, país multicultural, é mundialmente reconhecido por seus estereótipos, associados ao exotismo, violência, cordialidade e sensualidade. Tais estereótipos contribuem para obnubilar movimentos importantes que têm se

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operado nos últimos tempos em relação à problematização das fragilidades do país nos mais variados âmbitos. Apesar da imagem de país cordial, marcada pelo discurso da igualdade, no Brasil ainda se identificam procedimentos que revelam posturas muito sectárias, obtusas, preconceituosas. Essa perspectiva constitui-se em interessante ponto de intersecção com a literatura, justamente porque, pelo caráter artístico desta, coaduna-se com a ideia de múltiplas possiblidades. Apesar de a concepção de univocidade relativamente às identidades (LANDOWSKI, 2002) ser tema recorrente na história da literatura, no Brasil contemporâneo, há uma fértil, qualificada e múltipla produção no trato de temas correlatos. Propõe-se, pelo exame de algumas produções literárias contemporâneas, analisar as formas como a literatura vem tratando temas relacionados a etnia, origem, classe social, gênero etc., considerando-se a tendência de abertura para o outro, de busca do entendimento, de consciência da alteridade como componente da complexidade deste tempo. Palavras-chave: alteridade, literatura brasileira, diferença.

2.

Por

uma

performance

hemisférica:

transculturalidade

e

descolonização

em

The

(post)

mistress

(2013),

de

Tomson

Highway

Rubelise da Cunha rubelise@hotmail.com (FURG)

Em seu artigo “Remapping Genre through Performance: From ‘American’ to ‘Hemispheric’ Studies” (2007), Diana Taylor enfatiza como as identidades são muito mais flexíveis e relacionais do que tem sido afirmado nas áreas de estudos étnicos ou nacionais. Tal afirmação é o ponto de partida para este trabalho sobre o artista canadense Tomson Highway, de etnia indígena Cree. Em sua obra artística, a qual compreende obras literárias, teatrais e musicais, Highway desenvolve um trabalho transcultural e transnacional que desafia convenções de gênero e território, em uma prática que pode ser relacionada com o que Diana Taylor denomina performance hemisférica. Este trabalho terá como foco de análise sua última peça teatral, o musical The (Post) Mistress (2013), que estreou no Canadá em 2011, mas é baseado em um Cabaret Show estreado em 2009. Em The (Post) Mistress, observamos como as viagens de Highway à América do Sul interferem na criação das diferentes

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formas assumidas pelo trickster Weesageechak, figura oriunda da mitologia Cree e que na peça é representada pela protagonista Marie-Louise Painchaud, funcionária do posto de correios de uma comunidade francófona do norte de Ontário. A abertura de Highway para as culturas do Brasil e da América do Sul e a integração de diferentes formas de conhecimento para redefinir-se como artista Cree e canadense demonstram a importância de repensarmos práticas descoloniais para além das fronteiras dos territórios colonizados. Sua performance como artista produz textos que desestabilizam as expectativas de representação do sujeito colonial, nos termos do que Mary Louise Pratt (1992) denomina expressão auto-etnográfica. Além disso, também são desestabilizadas as expectativas de construção do discurso ameríndio, pois seu trabalho parte do local para transformar-se em expressão cultural hemisférica. Palavras-chave: transculturalidade, literatura ameríndia, Tomson Highway.

3. Choque de culturas em Quarenta dias

Laila Ribeiro Silva laila.silva@acad.pucrs.br (PUCRS) Tiago Dantas Germano tiago.germano@acad.pucrs.br (PUCRS)

Este trabalho, que se localiza na discussão dos Dilemas Interculturais, mais especificamente no choque de culturas, propõe-se a analisar o livro Quarenta Dias, da autora Maria Valéria Rezende, publicado no Brasil pela editora Alfaguara no ano de 2014. O romance é narrado por Alice, uma professora aposentada que vive em João Pessoa, na Paraíba, e é pressionada pela filha a se mudar para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, com o intuito de ajudar na criação de um futuro neto. O relato em primeira pessoa remonta ao percurso da protagonista pela metrópole gaúcha, após uma querela familiar que a leva a viver nas ruas durante o período de quarenta dias mencionado pelo título. São dois momentos relevantes que este estudo aponta: a migração da personagem e seu choque cultural. Stuart Hall nos explica que o paradoxo da globalização contemporânea consiste em que as coisas pareçam homogeneizadas culturalmente, mas concomitantemente emerge uma proliferação das diferenças. Através da migração de Alice, percebemos esse elemento estranho em um novo contexto e todos os conflitos que daí se

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podem gerar. Acompanhar o movimento e as reflexões da personagem Alice

é absorver parte do mundo intercultural contemporâneo, abrindo o debate

para os aspectos discursivos sobre o “Outro”. Homi K. Bhabha afirma que, no processo de identificação, o espaço do Outro desenvolve uma especificidade cultural e histórica na cisão do sujeito migrante, emergindo assim a possibilidade de enxergar o invisível. A identidade só pode ser pronunciada quando se enxerga o Outro na posição de enunciador. Sendo assim este

trabalho visou elucidar esse olhar do Outro e compreender como a autora trabalha as diferentes identidades nesta narrativa. Palavras-chave: literatura contemporânea, choque de culturas, identidade.

4. Contrato de hostilidade: aspectos da hospitalidade derridiana no romance La ceiba de la memoria, de Roberto Burgos Cantor

Farides Maria Lugo Zuleta farides.lugo@gmail.com (Universidad Nacional De Colombia)

A seguinte comunicação propõe uma análise comparada (literatura-filosofia)

para estudar os matizes da ideia de hospitalidade, de Jacques Derrida, em relação ao romance colombiano La ceiba de la memoria (2007), de Roberto Burgos. Derrida apresenta, no seu livro Da Hospitalidade (2003), a figura do estrangeiro como pessoa questionadora da ordem autoritária, refletindo

sobre essa complexa condição. Como o estrangeiro é aquele das perguntas incômodas, há uma violência de poder contra ele. Por isso, é necessária a hospitalidade comum, aquela que é um pacto de generosidade, embora permaneçam resquícios de escolha em relação ao hóspede. Derrida também nos fala de uma hospitalidade que vai além: a hospitalidade absoluta ou incondicional, na qual sempre vivo de portas abertas ao outro. Segundo a argumentação do filósofo, podemos concluir que, quando não temos nenhuma das duas hospitalidades, estamos diante de um pacto de hostilidade que traz a terrível exploração do meu próximo. Fenômenos sociais como a escravidão são produtos dessa ausência de hospitalidade, que cria uma realidade doente e violenta, a qual é narrada extraordinariamente no romance de Burgos, e é sobre essa hostilidade que pretendemos refletir neste trabalho. Palavras-chave: estrangeiro, hospitalidade (comum; absoluta ou incondicional), hostilidade e escravo.

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5. Understanding intercultural hybridity through literature and visual arts: Canada-Brazil

Adina Balint-Babos a.balint-babos@uwinnipeg.ca (University of Winnipeg)

In our global world moved by cross-cultural dialogues and large movements of populations, multiculturalism and transculturality are at the core of many disciplines in the humanities. In the past twenty years, the interest for multiculturalism has become transcontinental in the societies of the Americas defined by liberalism and the legitimacy of cultural and geographic mobility, according to the Canadian thinker Will Kymlicka (Multicultural Odysseys, 2007). In the context of contemporary Canada and Brazil, can literature and visual arts lead us to expand our understanding of the multi- faceted aspects of (inter)cultural hybridity? Through comparisons and analysis of narratives by writers nourished by pluricultural backgrounds, such as: Kim Thúy, Sergio Kokis and Pico Iyer, and artists like P.K. Page, Wanda Koop and the participants to the recent exhibition at the Toronto Art Gallery of Ontario, Picturing the Americas I will study how the interactions of various cultural themes and works of art circulating between Canada and Brazil shape our understanding of multicultural identities, of alterity, métissage, transcultural life narratives and creative processes in the Americas. If “multiculturalism is not about relativism but an extension of Human Rights” (Patrick Imbert, Multicultural Interactions, 2014), is it possible to think that creative practices transgress national, linguistic and economic barriers? Do literature and the arts allow us to engage in constructive intercultural dialogues in order to evaluate the shift from dualism and mono- cultural attitudes to pluralistic views blending equality and difference? These are a few questions that I will explore in my talk while highlighting intercultural dilemmas and positive transformations for a future of diversity and freedom of expression. Keywords: multiculturalism, intercultural dilemmas, Canada-Brazil.

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6. Alteridade e estereotipia em James Joyce

Daniela Nicoletti Fávero daniela.favero@acad.pucrs.br (PUCRS)

O presente trabalho visa esboçar uma proposta de projeto de dissertação de

mestrado apresentando como temática o estudo de conceitos como alteridade e estereotipia nos romances Retrato de um Artista quando Jovem e Stephen Herói do escritor irlandês James Joyce. Tendo em vista tal objetivo, espera-se revelar, através do estudo das obras mencionadas, como os conceitos citados anteriormente permitem uma compreensão mais aprofundada da construção das personagens e das relações que as mesmas estabelecem dentro da narrativa, contribuindo, dessa forma, para uma leitura mais ampla do romance joyceano. Tomando como referência os estudos de Eric Landowski sobre alteridade, e entendendo o papel do outro na constituição identitária de um indivíduo, espera-se demonstrar de que

maneira a personagem principal dos romances selecionados, Stephen Dedalus, se desenvolve e como a mesma percebe, e julga, o outro que lhe serve como contraponto. A essa percepção do outro, pretende-se associar os estudos de Homi Bhabha sobre estereopia, prática social comum que reduz e segrega, de maneira indiscriminada, sujeitos que são definidos por traços genéricos. No caso do estudo de Retrato de um Artista quando Jovem e Stephen Herói, espera-se encontrar evidências das práticas de estereótipos tipicamente associados à Irlanda, como o alcoolismo, o fanatismo religioso e

o ufanismo irlandês. A análise desses estereótipos, também presentes em

outras obras joyceanas, permitirá entender o contexto e o lugar no qual James Joyce ambientou suas principais narrativas, definindo assim a importância de Dublin (e da Irlanda de maneira geral) na vida e no processo criativo do escritor auto-exilado. Palavras-chave: James Joyce, alteridade, estereotipia.

Sessão de comunicações individuais 2 Literatura e Cinema Sala 604, prédio 4

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1. Diálogo literatura e cinema: o personagem Dorival, de Tabajara Ruas

Coordenador:

Sandro Martins Costa Mendes sandromcm@gmail.com (PUCRS)

O romance O amor de Pedro por João (1982), de Tabajara Ruas, trata do exílio durante a ditadura militar no Brasil. A obra acompanha diversos personagens de forma não cronológica. Um dos personagens é Dorival, ex- boxeador que está exilado no Chile no momento em que há o golpe contra o presidente Allende. Por diversas vezes, em diálogos com outros personagens, é referido o dia em que Dorival, estando preso no Brasil, enfrentou a guarda de militares que o vigiava. Essa façanha é contada no capítulo 8 do livro de Ruas. Em 1988, houve a adaptação cinematográfica, ou cinematização (CUNHA, 2007), desse episódio no curta-metragem O dia em que Dorival encarou a guarda, dirigido por Jorge Furtado e José Pedro Goulart. O presente trabalho trata do diálogo entre literatura e cinema e consiste em estudo sobre a transposição intersemiótica desse episódio, destacando as peculiaridades de cada narrativa e a caracterização dos personagens. Utilizando Eco (2013) e Pamuk (2011), também foi discutido o embate entre ficção e realidade na criação da própria obra, apontada, pela crítica, como um relato sincero dos acontecimentos relacionados com o exílio na ditadura militar. Da mesma forma, o conflito entre ficção e realidade está presente na própria narrativa, tanto literária quanto cinematográfica, pois os personagens militares estão, a todo o momento, relacionando suas ações com personagens de outras artes, como música, cinema, quadrinhos, série de televisão e artes plásticas. Gaudreault e Jost (2009) ajudam a diferenciar a narrativa literária e cinematográfica e a justificar as escolhas do diálogo com outras artes na obra literária e na realização audiovisual do episódio em questão. Palavras-chave: literatura, cinema, narrativa.

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2. Representações da literatura cyberpunk, nas mídias fílmicas, reinventando identidades pós-modernas: um estudo do filme Real Steel gigantes de aço

Alessandra da Rosa Trindade Camilo alessandra_camilo@uniritter.edu.br (UniRitter)

A presente comunicação visa refletir sobre o gênero literário cyberpunk, que

vem inspirando diversas adaptações fílmicas contemporâneas, e sobre as representações que estas obras têm gerado e lançado à sociedade, introduzindo e reinventando formas de ser pós-moderno. O gênero literário- fílmico cyberpunk surgiu na década de 80, apresentando o mistério e incertezas na relação homem-máquina, sendo propagado por obras como Neuromancer, de William Gibson, autor responsável por colocar o cyberpunk na “vitrine” mundial. As investigações apresentadas nesta comunicação foram inspiradas por Hall (2009) e Kellner (2001) e pretendem analisar

formas de convergência invisível entre o humano e a tecnologia,

primeiramente introduzidas pelo cyberpunk, lançadas pelas telas do cinema

e que passam a constituir identidades pós-modernas, dentro da realidade

social de que o indivíduo está mesclado à high-tech de forma desmaterializada, mas com o mesmo poder de interferência da hibridização material, que constitui novas formas de pensar e ser pós-moderno. Junto à intenção anterior, pretende-se investigar de que forma essas representações se relacionam com as discussões realizadas no contexto das teorias pós- modernas. Como corpus, será analisado o filme Real Steel (Gigantes de Aço) do diretor Shawn Levy, lançado no Brasil em 2011 e inspirado no conto literário de Richard Matheson, Steel (1956). Esta pesquisa é realizada à luz dos Estudos Culturais, dos estudos da leitura e sua relação com práticas e processos próprios dos sistemas culturais, e tem como propósito investigar, compreender e apontar como essas mídias fílmicas têm se valido das características da literatura cyberpunk para ensinar, transformar e reinventar formas de ser pós-moderno na contemporaneidade. Palavras-chave: literatura cyberpunk, estudos culturais, pós-modernidade.

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3. Maciste no inferno: O cinema na obra de Valêncio Xavier

Fernanda Borges fernanda_etc@hotmail.com (PUCRS)

Valêncio Xavier publicou, em 1983, o livro Maciste no inferno, republicado em O mez da grippe e outros livros, de 1998. No texto, o narrador- personagem vai ao cinema em busca de prazeres maiores que o de assistir a um bom filme. A sessão é a de Maciste no inferno, filme mudo italiano de 1926, dirigido por Guido Brignone e protagonizado por Bartolomeo Pagano, um dos astros do peplum, gênero épico italiano realizado com baixo orçamento. O objetivo deste trabalho é analisar como a narrativa fílmica imiscui-se na textual, em uma montagem paralela que intercala fotogramas do filme a que o narrador assiste, a narração sobre o que acontece nesse filme e a que é realizada pela personagem. Tem-se, portanto: o filme de Guido Brignone, o narrador valenciano no cinema e o peplum sob a perspectiva do escritor gênero de massa retomado em uma narrativa que prima por escancarar seu caráter ordinário e barato. Esse livro de Valêncio Xavier utiliza-se da mise en abyme como estratégia de composição para encaixar as narrativas e as diferentes linguagens em uma obra que propõe a iconicidade e a verbalidade como elementos que se espelham o texto, de um modo bastante direto, constitui-se, portanto, a partir do cinema na literatura. Palavras-chave: Valêncio Xavier, literatura brasileira, cinema.

4. Tropicália, ditadura militar e vanguarda: diálogos experimentais no documentário brasileiro contemporâneo

Luiz Guilherme dos Santos Júnior lguilherme1973@gmail.com (PUCRS)

Esta comunicação analisa as relações entre tropicalismo, ditadura militar e vanguarda, a partir do documentário Tropicália (2012), de Marcelo Machado. Desse modo, objetivamos demonstrar de que forma o presente documentário realiza, nesse diálogo entre o estético e o político, retomadas experimentais no campo das vanguardas, instaurando-se como um novo produto no contexto presente do audiovisual brasileiro. Esteticamente, o

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filme apropria-se de experiências do “documentário poético”, na acepção de Nichols (2012), por meio do uso de colagens (ready-made) e formas de apropriação de arquivos audiovisuais. No campo político, o filme apresenta acontecimentos ligados ao período que compreende a ditadura militar brasileira, de 1967 e 1970. A abordagem fundamenta-se teoricamente em Bernardet (2000), Ramos (2008), Martins (2008), Parente (2011), Nichols (2012) e Xavier (2012). A metodologia está fundada na proposta de decupagem fílmica, de acordo com a elaboração de Aumont (2009), em diálogo com os agenciamentos produzidos pelas escolhas que constituem a montagem cinematográfica. Pretendemos evidenciar que o documentário Tropicália consegue estabelecer um diálogo profícuo com as diversas formas artísticas das décadas de 60 e 70 do século XX, ou seja, o teatro, o cinema, as artes plásticas, a poesia, entre outras manifestações; diálogo esse que foi a marca principal do movimento músico-cultural fundado por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros artistas. Palavras-chave: documentário, tropicalismo, diálogos experimentais.

5. Malévola, a boa vilã

Maria Dorothea Barone Franco dorotheafranco@hotmail.com (UniRitter)

Esta comunicação tem por objetivo examinar a complexidade envolvida na representação de personagens ficcionais na passagem do conto de fadas para suas releituras no espaço cinematográfico. As esferas de ação - antagonista e herói - estão em constante transformação cultural nessa troca de mídias: dos livros com histórias compiladas para os roteiros cinematográficos. São personagens muito mais humanas, conflitantes em suas escolhas morais, que transitam na imagem e na voz fílmicas. As ações- clichês do herói e do malfeitor nos contos maravilhosos - boas ou más e não boas e más - vão desaparecendo nos enredos mágicos para o cinema. A representação maniqueísta do comportamento moral enfraquece nas telas, tendo em vista a construção de um universo ficcional no qual as personagens alteram seus valores. São expressões do conflito “ser bom e ser mau” que identificamos nessas histórias universais reinterpretadas para o cinema. A comunicação Malévola, a boa vilãpretende apresentar essa tensão comportamental constante das personagens que migram do conto de fadas

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A Bela Adormecida no Bosquepara a adaptação fílmica Malévola. A sustentação teórica da investigação compreende o processo de adaptação textual para o cinema, segundo Linda Hutcheon, os conteúdos psíquicos do consciente, do inconsciente pessoal e do inconsciente coletivo, a partir de Carl Gustav Jung (2013) e a morfologia dos contos maravilhosos, conforme Vladimir Propp (1972). Palavras-chave: contos de fada, adaptação cinematográfica, conflitos morais.

a

hollywoodiana

6.

Diablo:

transculturação

como

resposta

à

hegemonia

Rosângela Fachel de Medeiros rosangelafachel@gmail.com (URI)

O mercado cinematográfico latino-americano é dominado pela hegemonia econômica e estética do cinema hollywoodiano administrado pelas majors transnacionais que, além de atuarem como produtoras, controlam os fluxos nacionais e internacionais de distribuição, decidindo assim que filmes chegam a que cinemas. Nessa perspectiva, imperam nas salas de cinema produções cinematográficas globalizadas (ORTIZ, 1999; CANCLINI, 2003) que têm como meta atingir o maior público possível. A percepção da importância econômica e cultural do setor no contexto nacional e regional vem originando, na América Latina, políticas nacionais e transnacionais de fomento à produção audiovisual. Destacam-se, nesse sentido, as ações do INCAA (Instituto Nacional de Cine e Artes Audiovisuales), na Argentina, que trouxeram o país ao patamar de maior produtor cinematográfico da região. Nesse contexto, surgem desde obras populares esteticamente “hollywoodianas”, realizadas com o objetivo de obter sucesso de público, até o cinema mais autoral e artístico, destinado aos festivais. No imbricamento dessas duas posições, surgem obras que, apesar de notoriamente geradas da grande influência estética (narrativa e formal) dos cinemas hollywoodianos, apresentam uma forte marca identitária construída através da apropriação e transculturação (RAMA, 1982) de modelos e de elementos recorrentes nesses cinemas. Esse é o caso de Diablo 2012, de Nicanor Loreti, que traz o cinema do gênero ação reconstruído por Quentin Tarantino para a tela e a cultura argentina. Violência e humor negro são o pano de fundo da história de Marcos, conhecido como “El Inca”, um boxeador que deixa os ringues

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após matar acidentalmente um oponente: peruano, judeu e peronista, ele leva tatuados no peito os rostos de Evita e de Perón. Palavras-chaves: cinema argentino, transculturação, Diablo.

Sessão de comunicações individuais 3 Múltiplas manifestações artísticas Sala 605, prédio 40

1. Literatura e cultura: a imagem poética como (re)significação de mundo

Coordenadora:

Ana Lúcia Montano Boessio anaboessio@unipampa.edu.br (Unipampa)

Como é enfatizado pelos Estudos Culturais, a linguagem é o lugar onde a identidade é produzida, ou seja, dentro de um discurso. Desse modo, as práticas e relações sociais não apenas ganham sentido, mas também definem quais os participantes incluídos e quais os excluídos do contexto social. Vale lembrar também que, segundo Bourdieu, toda relação social é marcada pelo poder, o qual é permeado pela linguagem, uma vez que o valor do discurso depende das relações de força entre um produtor e um consumidor desse discurso. Portanto, levar em conta o modo como as pessoas negociam identidades sociais, ou como a situação multilíngue se configura na comunidade, adquire grande relevância por tornar-se um elemento desvelador de uma cultura que se afirma e consolida tanto pelo não dito, pela ausência de voz de alguns membros da comunidade, quanto pelo que se apresenta de forma explícita. O texto literário, como espaço da imagem poética por excelência, torna-se então um território de confluências múltiplas e, consequentemente, não só de desvelamento mas também de invenção e/ou reinvenção da cultura à qual se relaciona. Sendo assim, este trabalho propõe uma leitura comparatista da representação do discurso feminino em O Livro de Fadas Prensadas de Lady Cottington, de Terry Jones, a partir da junção de dois campos: os estudos culturais, com sua contribuição para o entendimento do conceito de cultura como construção antropológica

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e, segundo Roy Wagner (2012), uma “invenção”; e a estética, mais especificamente a fenomenologia e o conceito de “imagem poética”, como proposto por Gaston Bachelard, entendido aqui como elemento-chave para o desvelamento do texto, da sua dimensão inter e transtextual, da cultura e do mundo. Palavras-chave: interdisciplinaridade, cultura, literatura, fenomenologia.

2. Literatura: uma performance inaugural

Camila Alexandrini camilalexandrini@msn.com (PUCRS)

Assim como a contemporaneidade tem provocado constantes deslocamentos no fazer literário, seja por intermédio da relação interartes ou ainda dos renovados debates sobre os limiares da literatura e dos saberes que são produzidos e disseminados a partir dela, a práxis teórica vem se modificando drasticamente nos últimos quinze anos. Partindo da pergunta:

Qual é o (seu) objeto de análise na/da literatura?, será apresentada uma proposta de percurso teórico-crítico que se direciona à performance da palavra na literatura e na teoria da literatura ou à palavra-performance, noção em desenvolvimento no projeto de doutoramento atual. Tal proposição reelabora princípios e práticas da performance para se constituir enquanto teoria literária e, desse modo, compreender percursos outros tomados pela literatura contemporânea e pelo leitor que se constitui a partir dela. A literatura, por ser uma potência de encontro à essência, se estebelece a partir de intencionalidades e experiências, e, segundo Jacques Derrida (2014), a lei que produz é nela mesma contestada. Sendo assim, o traço paradoxal da literatura suspende a ingenuidade da leitura transcendente, promovendo antes o acesso à sua fenomenologia. Para Derrida (2014, p.116), “cada obra é única e uma nova insituituição”, cujo leitor é por ela inventado. Na literatura, desse modo, haveria sempre uma performance inaugural, nas palavras do filósofo. Os estudos da performance, então, deparam-se com os literários, com três principais objetivos: (1) reunir perspectivas de performance para a proposição de uma rota à renovação do aporte teórico da teoria literária, (2) agenciar um campo de pesquisa da literatura que não tema a pluralidade de seu objeto e (3) valorizar relações que promovam a literatura, a partir de outras práticas. Dessa maneira,

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almeja-se que a liberdade conquistada pela literatura e garantida por seus leitores seja assegurada na teoria literária, a fim de promover diálogos cada vez mais provocadores. Palavras-chave: performance, teoria da literatura, literatura contemporânea.

3.

convergências

Paul

Auster,

entre

outros:

interfaces

interartísticas

e

Gabriela Semensato Ferreira gabisemensato@gmail.com (UFRGS)

Este trabalho parte de uma revisão do conceito de “representação” e seus limites, realizada em minha dissertação, tendo como enfoque a obra de Paul Auster, em diálogo com trabalhos de outros artistas reconhecidos. Apesar de muito utilizados ainda pela crítica especializada, termos como os de “representação”, “autobiografia” e “verdade” participam de um campo de sentidos cuja extensão e consequente crise já foi identificada pela teoria da literatura, da arte e da filosofia por estudiosos como Friedrich Nietzsche, Michel Foucault e Georges Didi-Huberman. Nos escritos e filmes de Paul Auster é possível reconhecer uma poética que lida com estes limites e se encontra em um limiar interartístico. Isso porque lida com a desidentificação entre nome e objeto, por exemplo, com a hibridez de gêneros literários, com a interface entre diferentes mídias e aspectos da intertextualidade. Em publicações desse norte-americano, como A invenção da solidão (1982) e O livro das ilusões (2002), é possível ver não apenas a interrelação entre literatura, cinema e pintura, mas principalmente um espaço de incerteza e indefinição entre artes, que não se define propriamente como adaptação, apropriação ou “influência”. Além disso, nestes casos estão em jogo elementos autobiográficos em textos que frequentemente questionam as noções de identidade e identificação, a arbitrariedade de um nome, os sentidos de ficção e de “verdade”. Assim, propõem-se diálogos gerados a partir da obra de Paul Auster com trabalhos de Diego Velázquez, René Magritte e Orson Welles, os quais sugerem conflitos e tensões, mas também possibilidades de uma poética de entrelugar. Situada na área da Literatura Comparada, a escolha por termos como “desidentificação”, “hibridez” e “convergência” parte, ainda, de escritos de Foucault, Homi Bhabha e Henry Jenkins, assim como da recente tese de Borbála Bökös (2014) relativa à

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intermidialidade em narrativas de Paul Auster. Palavras-chave: Paul Auster, interartes, convergência.

4. Uma performance linguística

Manoela Wilhelms Wolff manoela.wilhelmswolff@gmail.com (PUCRS)

Este trabalho visa aproximar o conceito de performance e literatura, questionando-se sobre os processos de escrita/criação, recepção/ interpretação de algumas obras literárias (ainda a serem definitivamente escolhidas). Desde meados do século XX, vem se construindo o conceito de performance, através das artes visuais e do teatro, sendo essa uma arte considerada “a vanguarda da vanguarda” (GOLDBERG, 1988) a última saída para formas aparentemente esgotadas. A dramaturgia, por exemplo, já não segue mais, necessariamente, uma concepção clássica de drama valendo- se de intervenções líricas, visuais, e rompendo com a construção de uma ação verossímil e linear – desestruturando, assim, a sua “qualidade canônica”. A necessidade de busca por novas formas e meios de comunicação transcende a questão tecnológica e se volta para a cultura: faz com que busquemos novas linguagens, novas poéticas. A industrialização e a mecanização do cotidiano, a globalização, a transformação de um status quo, e as “verdades absolutas” colocadas em conflito influenciam toda a construção das realidades artísticas. Dessa forma, o conceito de performance que abarca uma temporalidade, uma transformação e uma necessidade inerente de comunicação, vem como uma possível resposta a questionamentos atuais sobre literatura, e até mesmo como um refúgio, devida à complexidade e inespecificidade do próprio conceito. Tal qual o nosso tempo contemporâneo, a performance é um vir a ser. Através de leituras de autores como Richard Schechner, Paul Zumthor, Josette Féral, Roselee Golberg, Jacques Derrida, pretendemos construir uma concepção inicial de uma performance linguística, buscando, assim, novas formas de pensar a literatura contemporânea. Palavras-chave: performance, contemporâneo, intersemiótica.

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5. Virginia Woolf, apropriação e dramaturgia: um procedimento de escrita textual para o teatro

Virginia Maria Schabbach vikaschabbach@gmail.com (UFRGS)

Este trabalho investiga a construção de um texto dramatúrgico a partir de uma metodologia baseada no procedimento de apropriação, em que um texto referente é fraturado pelo recorte e posterior colagem dos intertextos em uma nova criação. O objetivo desta pesquisa é a escrita de uma dramaturgia literária sobre a vida da escritora inglesa Virginia Woolf, utilizando a sua obra e seus diários pessoais como textos referentes. O trabalho articula os estudos sobre citação e apropriação de Antoine Compagnon e Affonso Romano de Sant’Anna, apresentando a ocorrência de quatro grifos distintos (grifo temático, grifo imagem, grifo fragmento e grifo ação) no momento da leitura das obras de base e em sua posterior utilização na criação textual. Como resultado parcial desta pesquisa de mestrado, este trabalho apresenta dois fragmentos textuais que compõem a dramaturgia em criação, ambos criados a partir do diário da escritora, do seu romance Mrs. Dalloway e do conto Um esboço do passado. Palavras-chave: apropriação, dramaturgia, Virginia Woolf.

6. Espaços de alteridade e formas de presença do outro na ficção de Dalton Trevisan

Eneida Mader eneida.mader@gmail.com (PUCRS)

Este estudo apresenta a questão dos espaços do Outro a de suas formas de presença, expressas na relação social não harmônica no conto "Cemitério de elefantes", de Dalton Trevisan, sob a perspectiva de que a leitura do discurso literário pode proporcionar um debate ligado às questões culturais e filosóficas do homem. Organizou-se a pesquisa à luz de teorias de Eric Landowski, Hannah Arendt, Homi Bhabha e Emmanuel Lévinas, uma vez que esses estudiosos refletem culturalmente e filosoficamente sobre a identidade no mundo contemporâneo, sobre as formas de relacionamento e convivência e sobre o comportamento ético frente às diferenças sociais, raciais, étnicas e

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comportamentais que integram a existência. Palavras-chave: Dalton Trevisan, alteridade, identidade.

Sessão de comunicações individuais 4 - Bilinguismo:

aquisição e ensino de línguas Sala 606, prédio 40

1. Negociação de significados em aulas de alemão

Coordenadora:

Maria Nilse Schneider nilse_schneider@yahoo.com.br (UFPel)

Neste estudo, investigamos como se evidencia o uso das sequências contra- pergunta de referência e contra-pergunta de informação conhecida (doravante CPR e CPIC, respectivamente) como estratégias de negociação de significados (MARKEE, 2000), na interação professor-aluno em aulas de alemão. Este estudo insere-se na área de Ensino e Aprendizagem de L2 e na Sociolinguística Interacional. De acordo com esta área de estudos, os falantes estão continuamente negociando papéis sociais de falantes e ouvintes e introduzindo alinhamentos (footings) (GOFFMAN, 2002) e convenções de contextualização (GUMPERZ, 2002), que os orientam sobre as possibilidades de interpretação e co-construção de contextos interacionais, e sobre o que está acontecendo na interação social. Na geração e análise de dados, utilizamos o sistema de transcrição de Gail Jefferson e a perspectiva da análise da conversa (ATKINSON; HERITAGE, 1984), e categorias de análise da abordagem contextual. Na análise dos dados, discutimos a frequência e as funções sociais que os professores conferem a essas estratégias na interação com os alunos. Discutimos também se e de que modo os professores promovem e/ou inibem a aprendizagem do alemão com essas estratégias. Os resultados revelam que as duas estratégias têm um propósito conversacional e pedagógico e que ambas podem promover a co-construção e compreensão de significados em alemão. Com a sequência CPIC, no entanto, os professores, muitas vezes, acentuam a assimetria na interação professor- aluno, em virtude da função social que conferem a essa estratégia, e o seu

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uso, muitas vezes, não conduz à compreensão dos significados e pode inibir a aprendizagem do alemão. Palavras-chave: aprendizado de línguas, interação social, negociação de significados.

2. Questionário de histórico da linguagem em pesquisas com bilíngues e multilíngues

Ana Paula Scholl anapaulascholl@gmail.com (UFRGS) Ingrid Finger finger.ingrid@gmail.com (UFRGS)

Estamos vivendo em um mundo globalizado e, cada vez mais, podemos perceber que o bilinguismo ou o multilinguismo são muito facilmente encontrados em quase todos os lugares do mundo. Grosjean (1994) afirma que o bilinguismo está presente em praticamente todos os países do mundo, em todas as classes sociais e faixas etárias, sendo bilíngue mais da metade da população mundial. Muitos estudos têm sido realizados visando investigar diferentes aspectos e efeitos do bilinguismo. Várias dessas pesquisas têm resultados contrastantes, sendo que um dos possíveis motivos para tais discrepâncias pode ser a grande variabilidade que caracteriza os participantes bilíngues nos estudos, problema acentuado pela falta de instrumentos confiáveis para a avaliação do bilinguismo. Visando contribuir nesse sentido e levando em consideração as diferenças individuais de falantes multilíngues, a presente comunicação discute a elaboração de um questionário de histórico da linguagem que tem como objetivo avaliar a experiência linguística de indivíduos adultos bilíngues/multilíngues brasileiros em pesquisas sobre o bilinguismo e o multilinguismo, a partir de três critérios: (i) idade de aquisição; (ii) domínios de uso; e (iii) proficiência. Sob a luz desses critérios, são analisados três questionários de histórico da linguagem atuais: (i) L2 Language History Questionnaire (LI; SEPANSKI; ZHAO, 2006); (ii) Language Experience and Proficiency Questionnaire (LEAP-Q) (MARIAN et al., 2007); e (iii) Language and Social Background Questionnaire (LSBQ) (LUK; BIALYSTOK, 2013). Apesar de os questionários terem como objetivo a criação de um instrumento padronizado para ser utilizado em pesquisas, que compreendesse as questões fundamentais para o

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entendimento de uma experiência bilíngue, constatamos que eles não incluem perguntas que abordem de forma satisfatória todos os fatores essenciais discutidos. Por fim, propomos um questionário de histórico da linguagem com grupos de questões que refletem as discussões teóricas realizadas e que tem como grupo-alvo bilíngues brasileiros com diferentes experiências bilíngues e níveis de proficiência. Palavras-chave: bilinguismo, experiência bilíngue, questionário de histórico da linguagem.

3. Consciência fonológica da Libras por surdos com início da aquisição da Libras em diferentes períodos da vida

Carina Rebello Cruz crcpesquisa@gmail.com (UFRGS)

A maioria das crianças surdas (95%) não tem acesso à língua de sinais desde o nascimento, pois nascem em lares em que a língua oral é utilizada por seus pais e familiares ouvintes. A idade em que a criança será exposta à língua de sinais pela primeira vez pode ser influenciada por vários fatores, incluindo a idade em que a surdez foi diagnosticada, o status de audição dos pais, filosofias educacionais e opções regionais, a disponibilidade de ter a língua de sinais como modelo e atitudes culturais a respeito da surdez e sinalização. Muitas crianças iniciam o processo de aquisição da língua de sinais tardiamente, ocasionando atrasos importantes na área da linguagem. O presente estudo propõe uma investigação sobre a consciência fonológica na Língua de Sinais Brasileira (Libras) em crianças e adolescentes surdos, com faixa etária entre 9 e 14 anos, que iniciaram o processo de aquisição da linguagem, por meio da Libras, entre 0 e 4 anos de idade (precocemente) ou após 4 anos de idade (tardiamente). Este estudo é de cunho experimental e faz uso de um teste em Libras elaborado para essa investigação. O teste é apresentado em um computador com o software E-Prime instalado, e a tarefa envolve a análise das unidades sublexicais ou parâmetros que formam os sinais (configuração de mão, locação/ponto de articulação e movimento) a partir da visualização de imagens. As análises estatísticas mostram diferenças significativas na habilidade de consciência fonológica, sendo mais eficiente nos participantes que iniciam a aquisição da linguagem precocemente. Este estudo contribui para o aprofundamento de conhecimentos sobre

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consciência fonológica de crianças e adolescentes surdos, discussão sobre os efeitos do início da aquisição da linguagem tardia e, possivelmente, para o desenvolvimento de ações que oportunizem às crianças surdas o acesso precoce à língua de sinais, e um processo de aquisição da linguagem esperada (normal). Palavras-chave: Língua de Sinais Brasileira (Libras), consciência fonológica, surdos.

4. Bilinguismo na infância utilizando o método Learning fun

Gislaine Müller mullergislaine@gmail.com (PUCRS) Claus Dieter Stobäus stobaus@pucrs.br (PUCRS)

Lecionar língua estrangeira em um contexto de ensino formal bilíngue para crianças entre 4 e 6 anos de idade permite verificar a interação entre os processos de ensino e de aprendizagem. O objetivo deste estudo é caracterizar o desenvolvimento linguístico de cada participante das aulas a partir da sua produção oral e da interação em sala de aula, com a utilização do método Learning Fun, que é utilizado no ensino de língua inglesa para crianças, de forma lúdica e interativa, especialmente componentes auditivos (cantando e repetindo palavras/frases) e visuais (desenhos/figuras). A base teórica é a sociocultural a partir dos elementos trazidos por Vygotsky, complementados pelos conceitos sobre bilinguismo apresentados por Myers- Scotton. A forma lúdica como método conduzido nas aulas promove oportunidades para que os alunos aprendizes se familiarizem com o vocabulário da língua inglesa e o utilizem em sua produção oral e pictográfica. O contexto da pesquisa é o de uma escola privada no município de Porto Alegre, que oferece duas aulas extracurriculares de imersão bilíngue semanais, nas quais a presente pesquisa é realizada. Os dados gravados em áudio foram parcialmente transcritos, permitindo compreender elementos de aprendizagem da língua inglesa, em particular a produção oral bilíngue destes alunos. Palavras-chave: bilinguismo, infância, desenvolvimento linguístico.

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5. O acesso lexical em trilíngues do português brasileiro (L1), inglês (L2) e francês (L3): evidências em tarefas de decisão lexical

Laura Barcelos barcelos.lau@gmail.com (UFRGS)

Entender como indivíduos que falam mais de uma língua reconhecem palavras de diferentes idiomas tem sido questão central nas pesquisas em bilinguismo (GROSJEAN, 1982, GROSJEAN, 2013 LEMHÖFER e DIJKSTRA, 2004; DUYCK et al., 2007). Estudos evidenciaram que o reconhecimento de palavras em uma língua pode ser afetado pelo conhecimento de palavras de outra língua, ou seja, o acesso lexical dos bilíngues seria não seletivo: todas as línguas faladas pelo indivíduo estão ativas no momento do uso (GOLLAN, FORSTER e FROST, 1997, entre outros). No entanto, há ainda poucas evidências sobre o acesso lexical em trilíngues. O presente estudo testará 40 trilíngues de português (L1), inglês (L2) e francês (L3), de proficiência diversa, com o objetivo de investigar o acesso lexical em indivíduos que falam mais de duas línguas. Os sujeitos realizarão dois experimentos de decisão lexical em francês (L3), o primeiro composto por estímulos cognatos em português e francês, inglês e francês e cognatos nas três línguas e o segundo composto por homógrafos interlinguísticos (falsos cognatos) nas mesmas condições. Além disso, os dois experimentos contarão com uma lista de não palavras e de palavras-controle em francês. Os participantes serão orientados a responder se a palavra apresentada é do francês ou não. Serão medidos o tempo de resposta (TR) e a acurácia de resposta. Espera-se encontrar resultados semelhantes aos da literatura, dando suporte à hipótese de acesso lexical não seletivo, tanto no caso de interação de itens cognatos e controle, quanto no caso de interação de itens homógrafos e controle. Palavras-chave: multilinguismo, acesso lexical, efeito de facilitação de cognato.

6. O ingresso na língua estrangeira: pertencimentos culturais de futuras professoras de língua inglesa

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Luciana Specht luspecht@bol.com.br (UCPel/PPGL)

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O ingresso na LE constitui-se numa experiência nova para o sujeito-aprendiz e, muitas vezes, conflituosa, na medida em que inúmeros sentimentos podem surgir a partir dessa experiência, tais como: o desconforto, a frustração, a alegria e a ansiedade em relação à língua-alvo (CAVALHEIRO, 2008). Alguns desses sentimentos parecem ser vivenciados pelos aprendizes de uma língua estrangeira ao ingressarem, por exemplo, na língua inglesa. Nesse sentido, o presente estudo tem como objetivo analisar em que medida um grupo de futuras professoras de língua inglesa estabeleceram os pertencimentos culturais com a língua-alvo. Para tanto, fizeram parte desta pesquisa cinco alunas de graduação do sexto semestre de Letras de língua inglesa de uma universidade privada do Sul do Brasil. As alunas participaram, individualmente, de uma entrevista em língua materna, versando sobre o ingresso na língua estrangeira. Para a análise e interpretação dos dados, foram utilizados os pressupostos teóricos acerca do ingresso na língua estrangeira, fundamentado em Cavalheiro (2008), Cavallari (2005), Coracini (2003) e Revuz (1998). Outro aporte teórico consiste nos estudos culturais, conforme propostos por Kramsch (2013), Geertz (2008), Eagleton (2005), Tylor (2005), Hall (2004) e Bhabha (1998). Os resultados sugerem que a maioria das alunas não se considera fazendo parte da cultura da língua-alvo, ou seja, elas não estabeleceram pertencimentos culturais com essa língua. Em outros termos, elas não conseguiram, por exemplo, romper com as fronteiras entre as línguas e entrar num espaço simbólico, no qual é possível, por meio de um novo código linguístico, a produção de significados próprios e não apenas a reprodução da cultura-alvo. Palavras-chave: cultura, alunas, inglês.

Sessão de comunicações individuais 5 Conflitos e dilemas interculturais Sala 607, prédio 40

1. Docentes negros na cidade de Pelotas-RS: uma análise dialógica sobre os conflitos silenciados

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Coordenadora:

Olga Maria Lima Pereira olgapereira@ifsul.edu.br (IFSul)

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O trabalho visa desvelar as estratégias a que recorre o discurso do

silenciamento, persistindo em defender a ideia de uma igualdade de condições, independente da cor da pele, com base nas vozes presentes no discurso dos docentes negros em instituições de ensino da cidade de Pelotas- RS. As análises dessas percepções foram interpretadas a partir dos relatos de experiências e conflitos, ainda vivenciados por esses sujeitos-autores no

âmbito institucional e social de uma cidade historicamente marcada pelo longo e sofrido período charqueadense. O trabalho, através do discurso

desses docentes, visa trazer contribuições para uma análise mais crítica de algumas posturas que, de forma humilhante e depreciativa, continuam povoando o imaginário coletivo erigido pelo biologicamente incorreto: a cor

da pele como constitutivo capaz de medir a capacidade intelectual do ser

humano. Teoricamente, a pesquisa sustenta-se nos conceitos de exotopia e alteridade de Mikhail Bakhtin que são pertinentes para refletir sobre o distanciamento do pesquisador, não indiferente, mas necessário, diante do objeto pesquisado, bem como a percepção e respeito pelo outro, necessários para a construção de um indivíduo ainda desconsiderado. Para compreendermos os processos identitários, construídos de modo a levar ao silenciamento do negro em nossa sociedade, utilizamos propostas de Stuart Hall e Zygmunt Bauman, que nos falam sobre a fragmentação e o conflito das identidades; e Munanga, que rediscute o porquê de os negros serem considerados incapazes de construir identidades verdadeiramente mobilizadoras. Em relação ao instrumental metodológico, usado nesta pesquisa, podemos afirmar que se baseia numa abordagem qualitativa, de caráter explicativo, com o objetivo de descrever, compreender e explicar os fenômenos que ocorrem no universo de estudo. Portanto, essa abordagem busca dialogar com os aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na “compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais” (GERHARDT; SILVEIRA, 2009, p. 32). Palavras-chave: docente, negro, alteridade.

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2. “The meaning of the unsaid in the dialogues”: evidential analysis of presuppositions in Colombia’s peace dialogue first reports

Alejandra Prieto-Mendoza pmendoza@uic.edu (University of Illinois at Chicago UIC)

Colombia has been at war for more than 60 years, which has brought with it more than 200.000 deaths. After many attempts to find a way to solve this conflict, Colombia began its peace dialogues on October 18th, 2012, in Oslo, Norway. The people involved in these series of conversations are the Colombian government and one of Colombia’s guerrilla movements, the Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, Ejercito del Pueblo (FARC, e.p.). Since the dialogues started, both parties have made use of media statements at the beginning and/or end of each cycle of conversations. These speeches have been intended to show the development of these dialogues in a short and concrete way. This presentation analyzes the speeches delivered on two particular occasions: the inaugural ceremony, and the aftermath of the end of the first cycle of conversations. Even though each one of these texts presents valuable pragmatic content, the analysis of these four media statements makes it possible to observe the transmission of information beyond what the mere words are saying. The Multilayered Model of Context (BERLIN, 2007, 2011) will be used to conduct a critical discourse analysis; these analyses will facilitate the understanding of the way the dynamics of power are manifested in these peace dialogue reports. Aside from this initial analysis, this study will also provide an examination of evidentiality as a pragmatic device present in the presuppositions. An analysis of this type will be a step towards trying to “convey an explanation for the encountered discourse structures and the way they ‘enact, confirm, legitimate, reproduce, or challenge relations of power and dominance in society’” (VAN DIJK,

1999:353).

Keywords: presuppositions, evidentiality, multilayered model of context.

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3. Evangelização indígena: interincompreensão e simulacros

Alessandra Dias Carvalho ale.dicarvalho@hotmail.com (PUC-SP/Capes)

Este trabalho integra a tese de doutorado que é desenvolvida na PUC/SP, cujo objetivo principal é analisar a relação interdiscursiva que constitui o discurso católico e o discurso protestante batista, no que tange à evangelização indígena, a fim de apresentar um estudo da semântica global desses dois posicionamentos. Nesta comunicação, será abordada a polêmica interdiscursiva constituinte dos discursos mencionados. Há contribuições dos estudos pecheutianos na pesquisa, uma vez que ela está ancorada nos princípios teóricos da Análise do Discurso (AD) de linha francesa; a estruturação foi também composta a partir da noção de semântica global, proposta por Maingueneau (2008). Esta pesquisa se justifica pelo fato de não somente colocar em prática uma teoria linguística, mas, sobretudo, abordar por meio da escrita acadêmica o conflituoso convívio entre os povos indígenas e os não indígenas. O estudo compreende a análise discursiva de evangelização indígena, no viés do catolicismo a partir de enunciados da Revista Porantim e do Jornal Porantim e, quanto ao discurso do protestantismo batista, a fonte de pesquisa é composta por materiais de divulgação, tais como: revistas e folhetins produzidos pela Junta de Missões Nacionais (JMN) e a Junta de Missões Mundiais (JMM). Acredita-se que o interdiscurso precede o discurso. Destarte, a construção dos submodelos semânticos dos discursos supracitados não se constitui isoladamente um do outro, mas sim no interior do espaço discursivo ligado ao campo religioso. Os resultados parciais encontram-se em fase de elaboração. Palavras-chave: evangelização, indígena, polêmica.

4. Sentidos em conflito no discurso sobre o massacre de Curitiba

Antonia Zago antoniazago@gmail.com (IDEAU) Gabriela da Silva Zago gabrielaz@gmail.com (UFPel)

O trabalho procura abordar o discurso em torno do episódio ocorrido em

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Curitiba no confronto entre professores, governador e polícia. A partir de um corpus de tweets contendo os termos “massacre” e “Curitiba”, identificamos as principais formações discursivas observadas sobre o tema. O conceito de formação discursiva é tomado emprestado de Foucault (1999), para quem o discurso vai além do enunciado e abrange também o conjunto ideológico em que as formações discursivas se inserem. Nesse sentido, mais do que observar os enunciados, busca-se também perceber regularidades discursivas em termos de ideologia e sentidos. Para a operacionalização do estudo, partimos de uma leitura flutuante, através da qual foram identificadas as regularidades do discurso. Cada tweet é tomado como uma sequência discursiva. Assim, no contexto do conflito discursivo analisado, identificamos quem são os atores responsáveis pelo massacre e os conteúdos postos em circulação. Em alguns casos, a autoria é atribuída ao governador (“massacre de Beto Richa em Curitiba”) ou ao governo (“Governo tucano promove massacre”), em outros, o massacre não possui autoria (“Praça é palco de massacre”), e, ainda, há casos em que a culpa é atribuída à PM (“PM cumpriu seu papel”), ou à presidente (“culpa da Dilma”). Em termos de conteúdo, há situações em que a própria nomenclatura do episódio é discutida (confronto ou massacre). A partir da identificação das principais formações discursivas, foi possível perceber os diferentes sentidos atribuídos ao episódio por diferentes atores, tanto indivíduos quanto a mídia, que utilizaram os termos “massacre” e “Curitiba” para descrever o evento em seus tweets. Palavras-chave: discurso, conflito, formação discursiva.

5. Cuidado! Não rotule! Siga adiante! Uma pedagogia cultural de autoajuda em fan pages do Facebook

Lauren Escoto Moreira lalauzinhaster@hotmail.com (IFSUL) Angela Dillmann Nunes Bicca angela.bicca@hotmail.com (IFSUL)

Vivemos em um mundo globalizado que ora apresenta os encantos de estar em contato com o mundo ora desencanta com as injustiças sociais. Esse é o contexto em que surgem fan pages do Facebook nas quais seus/suas autores/as postam frases curtas que nos interpelam criando guias de ações

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voltados para o bem viver semelhante aos textos de autoajuda. Essa situação nos instigou a investigar, a partir dos Estudos Culturais de cunho pós- estruturalista, os modos como textos que não se afinam como as formas lineares de escrita e leitura estariam “ensinando” os indivíduos contemporâneos a viver mais e melhor. O corpus de análise é composto por postagens realizadas durante o mês de março de 2015, em fan pages localizadas através do descritor “frases” e que registrassem mais de 900.000 curtidas na data de 31 de março do mesmo ano. A análise das frases foi elaborada a partir da noção de representação cultural para a qual a linguagem age produzindo os objetos do saber, regulando condutas, construindo identidades e subjetividades. Ou seja, trata-se de um conceito que possibilita compreender as práticas de produção de significados. A análise indicou que as frases postadas nessas fan pages são escritas indicando ações tais como reflita, cuide da sua vida, não rotule, ouse, arrisque, não desista, entre outras expressões que comporiam imperativos sobre o que deveríamos fazer para viabilizar alguma conquista considerada positiva segundo o tipo de individualismo que se desenvolveu na era moderna. São textos curtos e impactantes baseados no problemático pressuposto de que todas as pessoas teriam em seu interior os recursos necessários e suficientes para a felicidade. Palavras-chave: pedagogias culturais, fan pages, autoajuda.

6. As redes sociais e a promoção de diálogo entre israelenses e palestinos

Rafaela Barkay rafabarkay@gmail.com (USP)

A presente comunicação visa tratar da interação online entre israelenses e palestinos estabelecida em um grupo de discussão no Facebook facilitado pela autora durante os anos de 2014/2015. Através da observação participante desta comunidade, visa-se explorar o potencial de diálogo entre indivíduos promovido pelas redes sociais, cujo advento permitiu o contato entre sujeitos para além das barreiras físicas e ideológicas. Ao buscar ferramental em modelos desenvolvidos na área de Resolução de Conflitos, pretende-se demostrar a possibilidade de encontro entre estas duas populações, mesmo que os obstáculos físicos e as políticas de Estado o

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impeçam de ocorrer presencialmente. Compreende-se, portanto, o processo de reconciliação com base na sociedade civil como elemento fundamental na criação de um novo paradigma de relacionamento entre populações que vivem sob conflito continuado, indispensável na promoção de um projeto de paz duradoura. Palavras-chave: redes sociais, conflito israelense-palestino, reconciliação, diálogo.

Sessão de comunicações individuais 6 - Teoria dialógica do discurso Sala 608, prédio 40

1. Ausência da cultura: retratos da linguística aplicada brasileira

Coordenador:

Hilário I. Bohn hinbohn@gmail.com (UCPel) Luiza Machado da Silva msluiza@hotmail.com (UCPel)

Uma característica da área do conhecimento da Linguística Aplicada, inclusive enfaticamente reivindicada pelos pesquisadores brasileiros, é a sua inter(trans)disciplinaridade (MOITA LOPES, 2006). A decisão de instituir uma ciência no entre-espaço de outras ciências certamente traz para o debate científico um conjunto de complexidades não experimentadas pela ciência normal conforme definida por Kuhn (2007) em sua obra sobre as Revoluções Científicas. Bohn (2015) analisa os resumos dos artigos publicados nos últimos dez anos em três periódicos nacionais Trabalhos de Linguística Aplicada, da Unicamp; Revista Brasileira de Linguística Aplicada, da UFMG, e Linguagem e Ensino, da UCPel. A análise mostra uma forte concentração das publicações e das pesquisas dos linguistas brasileiros na sala de aula, isto é, na formação de professores e no ensino, dando, às vezes, a impressão que essa formação e este ensino se desenvolvem num vácuo histórico, cultural e filosófico. Esta pesquisa visa ampliar esse debate, verificando o espaço que a Cultura ocupa nas pesquisas dos linguistas aplicados brasileiros, focalizando nos trabalhos apresentados pelos pesquisadores nos três últimos congressos

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nacionais promovidos pela Associação de Linguística Aplicada do Brasil (ALAB): o IX Congresso em 2011, o X Congresso em 2013 e o XI Congresso, realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 2015. O foco do trabalho está na cultura, porque como indica a pesquisa de Bohn (2015) há um silenciamento significativo nas publicações sobre esse aspecto nos periódicos nacionais pesquisados, apesar destes enfocarem questões como políticas linguísticas, estudos identitários fronteiriços, sexualidades, raça e grupos humanos periféricos, todos profundamente enraizados na cultura. A análise e interpretação dos dados se faz dentro de uma perspectiva do dialogismo bakhtiniano da linguagem. Palavras-chave: Linguística Aplicada brasileira, cultura, políticas linguísticas.

2. A formação continuada docente: da escuta à autoria

Alessandra Avila Martins alessa.avila@hotmail.com (FURG)

A

formação continuada de docentes, política pública prevista na Lei 5692/71

e

ratificada/ampliada pela Lei de Diretrizes e Bases, configura-se como um

espaço de (re)construção da identidade profissional e assume diferentes contornos. Em 2013, foi instituído o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino Médio, programa que prevê parceria entre os governos federal e estadual e tem como objetivo promover a formação continuada dos professores e coordenadores pedagógicos que atuam no Ensino Médio da rede estadual de ensino. Esse programa envolve todas as universidades federais, que são responsáveis pela formação e tem por objetivo possibilitar

a compreensão das Diretrizes Curriculares nacionais do Ensino Médio

(DCEM), criando um espaço para a reflexão coletiva acerca da prática docente e da importância da participação de todos os atores do processo educativo na reescrita do Projeto Político Pedagógico da escola (PPP). Diante disso, cada instituição elaborou metodologias para o processo formativo. Em cada encontro coletivo com os professores cursistas, estes eram convidados, por meio da escrita, a refletirem sobre o espaço de formação constituído na escola. A partir disso, este trabalho tem por objetivo analisar os dizeres dos

pesquisados e quais as vozes/sociais discursivas que atravessam esses dizeres

e como a identidade docente se reposicionou a cada enunciado. O material

de pesquisa foi analisado à luz da perspectiva bakhtiniana de linguagem e dos

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estudos identitários (HALL e SILVA). A leitura e a análise do material revelaram a importância da escola como um espaço para a reflexão e a qualificação das práticas docentes. Além disso, observou-se que o professor, que historicamente ocupou um papel de escuta, passa a ter voz, ou seja, transita em outra identidade, que é a da autoria. Palavras-Chave: formação continuada, discurso, identidade.

3. Tensões dialógicas nas eleições à presidência da república no Brasil

Andréa Gattelli Holler andrea.holler@acad.pucrs.br (PUCRS) Marlon Machado Oliveira Rio marlon.rio@acad.pucrs.br (PUCRS)

O cenário eleitoral no Brasil, em 2014, modificou-se de forma bastante drástica com a morte do candidato à Presidência da República, Eduardo Campos. Em decorrência desse fato, a candidata ao cargo de vice-presidente de Eduardo Campos, Marina Silva, toma o lugar de seu colega na disputa presidencial. Em pronunciamento acerca de seu programa de governo, Marina assume uma posição axiológica que, no dia seguinte, abandona. A candidata, ao enunciar como objetivo de seu governo apoiar o casamento gay, mesmo tendo um interlocutor específico em sua mente que também apoia a causa deveria ter levado em consideração que outras esferas sociais, com interesses distintos e/ou contrários, também dialogariam com seu enunciado e responderiam a ele. Dessa forma, o objetivo do trabalho é demonstrar, através de uma perspectiva enunciativo-discursiva, que o sentido do enunciado em que Marina modifica sua posição axiológica inicial está diretamente ligado ao enunciado anterior e que, sem entender o dialogismo existente entre eles e outros enunciados replicados, não há como compreender a complexidade das relações entre as diferentes vozes sociais que nele se inserem. Para isso, compararam-se os discursos da candidata, vinculados em sites jornalísticos, considerando que o segundo é uma resposta às tensões geradas pelo primeiro. Palavras-chave: esferas sociais, dialogismo, eleição presidencial.

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4. Análise verbovocovisual das canções do catupé amarelo da congada de catalão no Facebook: uma perspectiva dialógica

Wellington dos Reis Nascimento wellingtonreisn@hotmail.com (UFG/RC/Capes) Grenissa Bonvino Stafuzza grenissa@gmail.com (UFG/RC)

O trabalho que ora se apresenta tem por objetivo apresentar algumas hipóteses levantadas no projeto de dissertação intitulado: “Das canções da congada catalana do Catupé Amarelo no Facebook: uma análise dialógica do enunciado verbovocovisual”. O estudo focará nas publicações que estão disponíveis na página do Catupé Amarelo no Facebook, com o objetivo de identificar, interpretar e analisar os enunciados verbovocovisuais, verificando a recorrência temática, a produção de sentidos e como eles funcionam na construção das identidades dos participantes desse grupo de Congada. Este trabalho encontra-se fundamentado na perspectiva dialógica da filosofia da linguagem do Círculo de Bakhtin. O corpus será construído por enunciados verbovocovisuais da congada do Catupé Amarelo, por percebermos que existe uma maior recorrência desse grupo na rede social em estudo, o Facebook. Com relação aos pressupostos teóricos, este trabalho embasa-se nos escritos filosóficos do Círculo de Bakhtin, que se fundamentam na perspectiva dialógica da linguagem, em especial, nas noções de signo ideológico, interação verbal, enunciado, voz, eco, ressonância, reverberação, cronótopo, exotopia, reflexo, refração e identidade. Utilizaremos a metodologia dialética, uma vez que descreveremos, interpretaremos e analisaremos tais enunciados disponíveis na supracitada rede social. Ademais, a pesquisa é de cunho bibliográfico, uma vez que buscaremos nas obras do Círculo as pistas deixadas para pensarmos os enunciados, verbais, vocais e visuais. Por meio do presente estudo, compreenderemos que as músicas, a festa, as identidades dos sujeitos congadeiros têm se transformado, porque a linguagem se modificou e a sociedade também. Trata-se de um processo histórico e, por esse fato, demanda tempo. As identidades dos congadeiros estão sendo (re)construídas sócio- historicamente. Palavras-chave: Círculo de Bakhtin, enunciado verbovocovisual, perspectiva dialógica.

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5. Choque de realidade: análise do editorial de veja às vésperas das eleições 2014

Rafaelly Andressa Schallemberger rafaellyandressa@hotmail.com (UPF) Pedro Afonso Barth pedroabarth@hotmail.com (UPF)

O texto jornalístico utiliza uma linguagem clara e objetiva para informar os leitores dos acontecimentos. Contudo, isso não acontece em um gênero como o editorial, que possibilita as manifestações ideológicas da revista/jornal e abertamente influencia seus leitores em várias tomadas de decisão, inclusive durante o período eleitoral. Desta forma, propomo-nos a analisar no editorial de Veja (29 de out. 2014. Ed. 2397 ano 47, n. 44), que foi lançado às vésperas do segundo turno das eleições de 2014, os conceitos delineados por Bakhtin como ideologia, dialogismo, heteroglossia e vozes sociais. Buscamos demonstrar o poder de persuasão exercido pela mídia através da manipulação das palavras. Este trabalho é de natureza aplicada, baseada no método dialético, exploratória, pesquisa bibliográfica, de abordagem qualitativa, e a base teórica se dá essencialmente em Bakhtin (2011, 2014), Faraco (2009), Hernandes (2004, 2006) e Marcuschi (2005). Por fim, verificamos que a revista se posiciona como uma voz monológica, classista, que busca impor a sua verdade e a sua ideologia sobre as demais. Palavras-chave: ideologia, dialogismo, revista Veja.

Sessão Coordenada 1: Diálogos em psicolinguística e multilinguismo: uma discussão sobre as pesquisas realizadas no laboratório de bilinguismo e cognição LABICO/UFRGS

Sala 609, prédio 40

Coordenadora:

Ingrid Finger finger.ingrid@gmail.com (UFRGS)

O uso da linguagem na interação com outros falantes ocorre com aparente

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facilidade e rapidez e de forma automática no nosso dia-a-dia. Mas esse uso envolve um sofisticado processamento linguístico e cognitivo e, no caso de falantes multilíngues, no contato com falantes de outras línguas e de outras culturas, esse processamento torna-se ainda mais complexo. Atualmente, o número de usuários de mais de uma língua no mundo, bilíngues ou multilíngues, ultrapassa o número daqueles que são capazes de se comunicar somente em um idioma. Como as pessoas aprendem e processam outras línguas além da sua língua materna é o foco das pesquisas realizadas a partir da perspectiva da Psicolinguística do Bilinguismo/ Multilinguismo. Nesta sessão coordenada, serão discutidos os principais aspectos teórico- metodológicos das pesquisas desenvolvidas pelos membros do Laboratório de Bilinguismo e Cognição, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LABICO/UFRGS), que, a partir de uma perspectiva Psicolinguística, tratam de diversos temas relacionados ao processamento linguístico e cognitivo em contextos de bilinguismo unimodal e bimodal e de multilinguismo. Serão, ainda, apresentados os principais resultados de pesquisa, discutindo sua relação com as investigações da área realizadas no resto do país e no exterior.

1. Diálogos em processamento linguístico e processamento cognitivo no bilinguismo: de que bilíngues estamos falando?

Ingrid Finger finger.ingrid@gmail.com (UFRGS)

Estudos atuais sobre o bilinguismo sugerem que a experiência de falar mais de uma língua molda o cérebro de forma única e acarreta consequências profundas para o processamento da linguagem e para a cognição (KROLL; BIALYSTOK, 2013). Em termos de processamento da linguagem, existem evidências de que informações sobre as duas línguas do bilíngue são ativadas mesmo que o contexto conversacional em questão exija o emprego de somente uma delas. Essa ativação paralela tem sido demonstrada através de estudos de compreensão e de produção em vários níveis de proficiência e em vários contextos comunicacionais (GOLLAN; KROLL, 2001). No que se refere ao processamento cognitivo, pesquisas recentes sugerem um domínio mais acelerado de certos processos cognitivos (como a atenção seletiva e o controle inibitório), linguísticos e metalinguísticos em crianças bilíngues se

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comparadas com crianças monolíngues de mesma faixa etária (BIALYSTOK, 2001; 2009). No caso de idosos, vários estudos sugerem que o bilinguismo pode ser um fator experiencial que serve como reserva cognitiva na velhice, retardando os sintomas de declínio cognitivo resultantes do envelhecimento normal e da demência (BIALYSTOK et al., 2007), embora alguns estudos registrem resultados conflitantes. Nesse contexto é que se insere a presente comunicação, que tem como objetivo discutir resultados de pesquisas realizadas no LABICO/UFRGS, relacionando-os com estudos nacionais e internacionais e problematizando aspectos teórico-metodológicos que caracterizam as pesquisas sobre processamento linguístico e sobre processamento cognitivo bilíngue que estão em pauta atualmente. Palavras-chave: bilinguismo, processamento linguístico, processamento cognitivo.

2. Diálogos sobre a co-ativação das línguas durante o processo de acesso lexical bilíngue

Ana Beatriz Arêas da Luz Fontes aninhafontes@icloud.com (UFRGS)

Uma das principais questões de pesquisa nos estudos sobre o bilinguismo na área da Psicolinguística nos últimos 30 anos discute a natureza do acesso lexical bilíngue. Esses estudos têm como maior objetivo investigar em que medida as duas línguas de um bilíngue interagem durante o processo de acesso lexical. Por exemplo, imagine que você é bilíngue de inglês-português, lendo este texto em português. O que acontece com a língua que não está sendo utilizada para essa tarefa? Ela é “desligada” para que você possa ler este texto como um leitor monolíngue? Ou ela continua “ligada” e exerce influência sobre seu processo de leitura? Essas perguntas estão no centro da discussão sobre o acesso lexical bilíngue: ele é seletivo, onde somente a língua utilizada na tarefa é ativada, ou não seletivo, onde as duas línguas do bilingue são ativadas, independentemente da língua necessária para a tarefa? A resposta a tais perguntas tem implicações não somente para modelos de representação da linguagem na memória bilíngue, mas também para o ensino de línguas. Estudos nessa área de pesquisa ainda são incipientes no Brasil. No entanto, é fundamental que se estabeleça um diálogo sobre essas investigações no Brasil, já que nosso contexto de

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bilinguismo é distinto do contexto de outros países - o bilinguismo no Brasil ocorre geralmente em comunidades isoladas, em contexto familiar e da comunidade local. Por esse motivo, propomos, nesta comunicação, uma discussão sobre os objetivos e descobertas dos estudos sobre acesso lexical bilíngue desenvolvidos no LABICO/ UFRGS. Através da exposição dos resultados empíricos desses trabalhos, que serão analisados a partir de um debate sobre a seletividade das línguas, pretendemos discutir de que forma as investigações desenvolvidas junto a este grupo de pesquisa refletem o contexto nacional da área, bem como debateremos, de maneira pontual, os principais temas de pesquisa e as dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores desse campo de estudos. Palavras-chave: bilinguismo, acesso lexical, seletividade das línguas.

3. Diálogos entre línguas: em foco a proximidade linguística e suas implicações na fala em L2

Elena Ortiz Preuss elena.ortizp@yahoo.com.br (UFG)

Português e espanhol são línguas próximas e com grande compartilhamento lexical. Porém, o histórico da investigação sobre o multilinguismo evidencia que a similaridade linguística não torna o processo de aquisição mais fácil e pode gerar dificuldades extras. Além disso, a seleção das palavras a serem empregadas na produção da fala abrange uma etapa de seleção na qual ambos os sistemas linguísticos do bilíngue estão ativados (COLOMÉ, 2001), o que requer um mecanismo cognitivo que garanta a acurácia da seleção lexical na língua-alvo da comunicação. Diferentes perspectivas teóricas investigam empiricamente essas questões. Nos estudos desenvolvidos no LABICO, investigam-se os efeitos de interferência entre as línguas portuguesa e espanhola na produção de fala em L2, através de experimentos de nomeação de desenhos e de percepção e produção de palavras e frases, com vistas a compreender: (a) como se dá o processo de seleção lexical, (b) o papel de mecanismos cognitivos na fala em L2, e (c) analisar efeitos da instrução no desenvolvimento da oralidade em L2. No que se refere especificamente a contextos formais de ensino, investigamos tanto a interferência da variedade linguística do português falado em Goiás na interlíngua de brasileiros aprendizes de espanhol, quanto o papel da

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instrução na aquisição fonológica, envolvendo percepção e produção de enunciados (afirmativos e interrogativos totais) em espanhol, cuja função comunicativa se evidencia exclusivamente por meio da entonação. Nesse caso, observa-se que o apoio na língua materna (português) ao produzir enunciados em espanhol pode gerar conflitos comunicativos, porque há diferenças sutis na curva melódica entre os enunciados em cada uma das línguas que interferem na produção de sentido. Palavras-chave: seleção lexical, produção de fala, interferência interlinguística.

4. Diálogos sobre percepção e produção de sons em língua

estrangeira: temas de metodológicos

desafios teórico-

investigação

e

Ubiratã Kickhöfel Alves ukalves@gmail.com (UFRGS CNPq)

A área de Aquisição Fonético-Fonológica de Língua Estrangeira caracteriza um tema de investigações que tem recebido grande destaque nos últimos anos, considerando-se o contexto brasileiro. Esse destaque pode ser verificado não somente por meio do número expressivo de trabalhos de Mestrado e Doutorado que têm sido desenvolvidos, mas, também, através das discussões acerca dos desafios teórico-metodológicos a serem enfrentados pelos pesquisadores da área. Os referidos desafios dizem respeito, justamente, às diversas possibilidades de enfoques teóricos que podem explicar tanto o processo de percepção quanto o de produção de uma nova língua. Dadas as diferentes propostas de modelos teóricos para dar conta da língua do aprendiz, notamos a necessidade crescente de que sejam discutidos os primitivos de análise fonético-fonológica, bem como as perspectivas de língua que se encontram entrelaçados a tais primitivos. O entendimento dessas questões abre, também, espaço para o diálogo acerca dos desafios metodológicos, vista a necessidade de abordagens experimentais que, além de possibilitarem descrições empíricas pertinentes, venham a ser coerentes com as concepções de língua expressas pelos diferentes modelos. Em meio a esse diálogo, propomos, nesta comunicação, uma exposição dos objetivos e descobertas dos projetos de pesquisa sobre percepção e produção fonético-fonológica de LE, desenvolvidos no

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LABICO/UFRGS. Através da exposição dos resultados empíricos desses trabalhos, que serão analisados a partir de uma perspectiva de língua como Sistema Adaptativo Complexo (BECKNER et al., 2009), pretendemos discutir de que forma as investigações desenvolvidas junto a esse grupo de pesquisa refletem o contexto nacional da área, bem como debateremos, de maneira pontual, os principais temas de pesquisa e as dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores deste campo de estudos. Palavras-chave: percepção e produção fonético-fonológica, língua estrangeira, Sistema Adaptativo Complexo.

Sessão Coordenada 2: Processamento, leitura e compreensão de texto em populações diversas Sala 610, prédio 40

Coordenadora:

Lilian Cristine Hübner lilian.c.hubner@gmail.com / lilian.hubner@pucrs.br (PUCRS/CNPq)

O processamento da leitura e sua compreensão têm sido tema de pesquisa há décadas. Mesmo assim, muito ainda há a investigar, em especial em se tratando de um viés psicolinguístico e neurolinguístico. O objetivo desta mesa, composta por seis comunicações, é abordar esse complexo fenômeno, aprofundando essa complexidade por meio da discussão da leitura e sua compreensão em populações com características variadas, saudáveis ou com declínio cognitivo, de diferentes faixas etárias. Devido à natureza multidisciplinar dos diferentes temas a serem abordados, diversos são os fundamentos teóricos a sustentar cada uma das comunicações. A primeira comunicação trará dados teóricos e experimentais sobre o papel do conhecimento e da integração do vocabulário para a compreensão leitora ao final do Ensino Fundamental, uma questão a ser debatida por Lucilene Sousa. Diane Bencke discutirá o papel da metacognição no processamento de texto, relacionando teoria e ensino. Ainda merecem mais estudos os processos ligados à leitura no cérebro que processa simultaneamente mais de uma língua. Duas apresentações tratarão desse tema: Bernardo Limberger discutirá a relação entre leitura no cérebro bilíngue, linguística e neurociência, e Talita Gonçalves e Ellen Siqueira abordarão o papel da

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escolaridade e do desenvolvimento da metalinguagem no bilinguismo infantil, sob um viés da psico e da neurolinguística. Finalmente, contemplam- se nesta mesa temas ligados à produção e à compreensão de textos por populações idosas com comprometimento cognitivo. Bruna Tessaro e Ellen Siqueira abordarão o tema da produção de notícias e de histórias de cunho humorístico por pessoas com Comprometimento Cognitivo Leve e Doença de Alzheimer, cujas produções serão comparadas às de indivíduos saudáveis de baixa e de alta escolaridade. Na outra comunicação, Gislaine Machado Jerônimo e Fernanda Loureiro discutirão características da produção de narrativas orais com pistas visuais na Doença de Alzheimer, comparadas às da produção de idosos saudáveis. Com este panorama, pretende-se discutir alguns dos tipos de estudos desenvolvidos em compreensão e produção de textos, contemplando-se diferentes populações cujas peculiaridades de processamento podem ajudar pesquisadores a desvendar várias facetas ainda desconhecidas desses fenômenos.

1. Vocabulário e integração léxico-semântica e global como caminhos de intervenção na compreensão leitora

Lucilene Bender de Sousa lucilene.sousa@acad.pucrs.br (PUCRS/Capes) Lilian Cristine Hübner lilian.hubner@pucrs.br (PUCRS/CNPq)

Diante dos problemas de compreensão em leitura dos estudantes brasileiros, fazem-se necessárias cada vez mais pesquisas que investiguem formas efetivas de intervenção. Estudos internacionais (CLARKE et al., 2013) verificaram que os leitores se diferenciam na profundidade do conhecimento das palavras, e que o trabalho com o vocabulário é capaz de melhorar o desempenho na compreensão leitora. Neste estudo objetivamos investigar se tarefas que explorem vocabulário, integração local e global, quando antecedem questões de compreensão leitora, são capazes de melhorar o desempenho de leitores com dificuldades de compreensão. Os participantes, 36 alunos com dificuldades de compreensão leitora cursando a 8ª série de escolas públicas, leram quatro textos, comparáveis em extensão e leiturabilidade, seguidos de cinco questões abertas. Foram propostos dois tipos de tarefas: 1) usar o glossário para escrever o significado das palavras,

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previamente destacadas no contexto; e 2) escrever a ideia principal do texto

e de cada parágrafo. Metade dos participantes recebeu dois textos com a

primeira tarefa, e outros dois textos com a segunda tarefa, a outra metade

dos estudantes recebeu os mesmos pares de textos, mas com as tarefas trocadas. Como tarefa-controle foram empregados três textos, semelhantes em extensão e grau de leiturabilidade, seguidos cada um de cinco questões abertas. Os participantes tiveram desempenho semelhante na primeira e na segunda tarefa, porém houve diferença significativa na comparação das mesmas com a tarefa controle. Os leitores com dificuldades de compreensão

tiveram maior percentual de acertos em questões de compreensão leitora quando essas eram antecedidas por tarefa de integração local com glossário

e por tarefa de integração global. Os resultados confirmam a importância do vocabulário, bem como da integração local e global para a melhora da compreensão leitora, indicando, assim, que os mesmos podem ser caminhos promissores para a elaboração de programas de intervenção com o objetivo

de remediar as dificuldades de compreensão em leitura.

Palavras-chave: compreensão leitora, vocabulário, integração local e global.

2. A leitura sob o viés da metacognição

Diane Blank Bencke diane.bencke@acad.pucrs.br (PUCRS/Capes)

A metacognição, automonitoramento de qualquer iniciativa cognitiva

(FLAVELL, 1981), está relacionada à potencialização da cognição. A leitura é, entre outros aspectos, uma atividade cognitiva, que pode ser desenvolvida

por meio do emprego de procedimentos metacognitivos, de modo a melhorar a performance na compreensão leitora. Para isso, faz-se importante pensar em diretrizes para um ensino da leitura considerando a metacognição. O objetivo é mapear, por meio de revisão bibliográfica, algumas abordagens teóricas na investigação da leitura, atividade comunicativa e habilidade linguística que inclui procedimentos cognitivos e metacognitivos (KLEIMAN, 1998), sob o viés da metacognição, especialmente com relação ao ensino. Em um processamento leitor automático, o sujeito emprega estratégias cognitivas de leitura; entretanto, quando encontra algum problema na leitura, pode lançar mão de estratégias conscientes para compreender o texto - as estratégias metacognitivas de leitura. O seu uso

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está relacionado à proficiência leitora (LEFFA, 1996) e várias características dos bons leitores vinculam-se à metacognição. Quanto ao tipo de processamento envolvido, as estratégias metacognitivas de leitura envolveriam consciência e controle e intencionalidade no propósito da leitura (KLEIMAN, 1998). Quanto ao uso de estratégias na leitura e sua relação com os tipos de conhecimento, para Cross e Paris (1988), a metacognição no tocante às estratégias envolve o conhecimento declarativo (identificar uma estratégia de leitura específica), o conhecimento procedural (empregar essa estratégia), e o conhecimento condicional (conhecer por que utilizar essa estratégia). Cantalice (2004) sugere estratégias que o professor pode ensinar para estimular os alunos a controlarem a leitura. Diferentes abordagens teóricas indicam que há melhor desempenho leitor a partir do emprego de estratégias metacognitivas na leitura e que um ensino voltado à sua instrução explícita representa uma abordagem pedagógica mais eficaz frente às abordagens tradicionais de leitura. Palavras-chave: metacognição, leitura, estratégias metacognitivas de leitura.

3. Linguística e neurociência em diálogo: o processamento de múltiplas línguas no cérebro

Bernardo Kolling Limberger bernardo.limberger@acad.pucrs.br (PUCRS/CNPq)

O multilinguismo é cada vez mais frequente em países como o Brasil, onde são faladas 216 línguas, segundo dados do site www.ethnologue.com (LEWIS et al., 2015). Como o cérebro se adapta à fascinante habilidade de compreender e produzir duas, três ou mais línguas é uma questão em voga para a Linguística e a Neurociência. Este entendimento entre os estudos linguísticos e os neurobiológicos permite avançar o conhecimento sobre processos de aprendizagem e sobre processos de compreensão e produção, sobre como estes interagem e convergem entre línguas. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é apresentar um panorama de estudos sobre o processamento de múltiplas línguas no cérebro, com foco nas habilidades leitoras. A metodologia deste trabalho é bibliográfica: foram procurados estudos em diferentes bases de dados sobre o processamento da leitura no cérebro multilíngue, que tenham sido realizados com ressonância magnética funcional. Categorias linguísticas como idade de aquisição, proficiência,

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exposição às línguas, status das línguas e consistência ortográfica parecem

ser as mais investigadas. As buscas preliminares demonstram que os estudos são conduzidos desde a década de 1990, de forma crescente a cada ano. Eles têm avaliado sobretudo as bases neurais de bilíngues e multilíngues precoces

e tardios e/ou com baixo e alto nível de proficiência. Os fatores idade de

aquisição e proficiência, respectivamente, parecem desempenhar um fator determinante nos resultados da ativação cerebral. Apesar de algumas generalizações serem possíveis, elas não podem ser categóricas, porque os estudos variam muito no que tange aos experimentos, aos grupos linguísticos contemplados e aos softwares utilizados nas análises. O panorama da pesquisa demonstra que há uma gama de possibilidades de pesquisas, a fim de se chegar a dados mais convergentes. Tais trabalhos podem fornecer um melhor entendimento da interação entre as línguas no cérebro e subsídios para práticas de ensino de línguas estrangeiras. Palavras-chave: multilinguismo, processamento, leitura.

4. A consciência metalinguística em crianças bilíngues

Ellen Cristina Gerner Siqueira ecgsiqueira@gmail.com (PUCRS/BPA PUCRS) Talita dos Santos Gonçalves talita.goncalves@acad.pucrs.br (PUCRS/Capes)

Este estudo encontra-se no espaço de interação entre estudos da Psicologia

Cognitiva e da Psicolinguística, no que diz respeito ao bilinguismo infantil e a consciência metalinguística. O objetivo é discutir evidências de vantagens no desenvolvimento metalinguístico de crianças bilíngues em comparação com crianças monolíngues. A consciência metalinguística refere-se à habilidade de segmentar e manipular a língua reflexivamente em seus diferentes níveis (GOMBERT, 1990; MALUF, 2003). Em geral, a capacidade de usar o conhecimento sobre línguas, contraposto à capacidade de usar a língua, parece ser antecipada em crianças bilíngues. Por volta dos dois anos de idade

a criança já apresenta comportamentos reflexivos sobre aspectos fonológicos

(BARRERA; MALUF, 2003). Posteriormente, outros aspectos da língua serão objeto do pensamento, como a morfologia, a sintaxe, a semântica, a pragmática e o texto. O estudo da consciência metalinguística relacionada ao bilinguismo é de grande relevância, pois a literatura indica que processos

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metalinguísticos parecem desenvolver-se precocemente em crianças bilíngues (BIALYSTOK, 2006). Este trabalho apresenta uma discussão sobre o desenvolvimento metalinguístico no bilinguismo a partir de uma revisão bibliográfica realizada em consulta a artigos científicos selecionados em bases de dados, como: Apa Psycnet, Directory of Open Access Journals, ProQuest Central New Platform, EBSCOhost Academic Search Premier, Elsevier ScienceDirect Journals, PUBMED e Scielo. Os artigos foram publicados em português brasileiro (PB) e inglês, entre os anos de 2000 e 2015. Os indexadores empregados foram “children AND metalinguistic awareness AND bilingualism” e “crianças AND consciência metalinguística AND bilinguismo”. A partir da revisão de estudos, espera-se contribuir com a discussão sobre a cognição bilíngue na infância, com ênfase na questão da existência ou não da vantagem bilíngue em termos da metalinguagem. Palavras-chave: consciência metalinguística, bilinguismo, crianças.

5. Relação entre produção discursiva, nível de escolaridade e declínio cognitivo

Bruna Tessaro btessaro@icloud.com (PUCRS/CNPq) Ellen Cristina Gerner Siqueira ecgsiqueira@gmail.com (PUCRS/ BPA PUCRS) Lilian Cristine Hübner lilian.c.hubner@gmail.com (PUCRS/CNPq)

A Doença de Alzheimer (DA) e o Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) são caracterizados por uma degeneração cognitiva que acarreta déficits, incluindo os de linguagem. A escolaridade impacta a cognição, porém, pouco se sabe sobre sua relação com a linguagem no declínio cognitivo. O objetivo é comparar o desempenho na produção de uma notícia e de uma história engraçada autobiográfica entre pessoas com DA (n=7, média de idade=71,3 ± 9,5), CCL (n=7, média de idade=72 ± 8,4), pessoas saudáveis de alta escolaridade (SA) (n=18, média de idade=66,9 ± 6,3) e baixa escolaridade (SB) (n=5, média de idade=70,3 ± 6,3). As análises foram realizadas com base nos critérios: compreensão da instrução, necessidade de encorajamento, informação apenas do tópico, troca de tópico, perseveração, verborragia, anomias, elementos essenciais da notícia e da narrativa. SA e SB não se

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distinguiram em nenhum quesito na comparação entre as duas produções (p>0,05). O grupo CCL obteve desempenho mais baixo na notícia (p=0,045) e na história engraçada (p= 0,039) na comparação com SB, ao passo que DA obteve escores mais baixos que SB na produção da notícia (p=0,024), mas não na história engraçada (p>0,05). Na comparação entre os grupos DA e CCL não houve diferenças significativas (p>0,05). Os resultados preliminares parecem permitir inferir que, como a memória autobiográfica de longo prazo (envolvida na história engraçada) encontra-se mais preservada na DA do que

a memória de evento recente (envolvida na notícia), a produção da notícia

mostrou-se mais prejudicada na DA do que no CCL na comparação com SB. Uma análise mais aprofundada das produções dos grupos saudáveis deve ser desenvolvida para confirmar o desempenho similar entre os grupos nos quesitos gerais aqui observados. Os resultados sugerem que as tarefas discursivas, em especial a notícia, diferenciam grupos clínicos de saudáveis, podendo ser adotadas como instrumentos complementares na avaliação de declínio cognitivo em populações de baixa escolaridade.

Palavras-chave: produção oral, comprometimento cognitivo leve, doença de Alzheimer, escolaridade.

6. Produção de narrativa oral na doença de Alzheimer: uma análise linguística

Gislaine Machado Jerônimo gislaine.mjeronimo@gmail.com (PUCRS/CNPq) Fernanda Loureiro fernanda0801@gmail.com (PUCRS/PNPD)

A doença de Alzheimer (DA) acomete a cognição como um todo, trazendo

prejuízos não só à memória, como também a outros componentes, dentre eles, a linguagem. Neste aspecto, pouco se sabe sobre as características da produção oral. Segundo o modelo de tipo de sequência narrativa proposto por Adam (1987), o tipo textual comporta dois tipos de sequências:

homogêneas e heterogêneas. Na narrativa, quando há apenas uma sequência (homogênea), ocorre o que Adam chama de narrativa mínima. As

sequências homogêneas dividem-se em homogênea coordenada (texto em que não há mistura de outros tipos textuais e ocorre uma ordem canônica da superestrutura narrativa) e sequência homogênea alternada (texto em que

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não há mistura de outros tipos textuais e que alterna a ordem canônica da superestrutura narrativa, isto é, que alterna a ordem cronológica dos acontecimentos, podendo iniciar pela situação final, por exemplo). Já as sequências heterogêneas dividem-se em heterogênea dominante (mescla de tipos textuais, com predomínio de tipo narrativo) e heterogênea com inserção (mescla de tipos textuais, sem predomínio de tipo narrativo + outra sequência). O objetivo é analisar as características da produção de narrativas orais na DA, com base no modelo de tipo de sequência narrativa de Adam. Participaram do estudo dois grupos, um com DA (N=15) e outro controle de idosos saudáveis (N=15). Os participantes foram convidados a contar uma história, baseada em uma sequência de sete figuras. As histórias foram gravadas, posteriormente transcritas e analisadas de forma qualitativa intra e intergrupo. No grupo com DA houve predomínio de textos heterogêneos com inserção, ao passo que no grupo controle o predomínio foi de textos homogêneos coordenados. Com o tipo de análise proposto foi possível obter- se uma visão das características globais de organização dos textos orais produzidos pelos idosos com DA e sem. O estudo permite atingir um panorama geral das características de produção narrativa dos grupos investigados, contribuindo com dados para a melhor compreensão de como se dá a produção de narrativas com pistas de figuras na DA. Palavras-chave: narrativa, oralidade, envelhecimento, doença de Alzheimer.

Sessão Coordenada 3: Diálogo e inferência Sala 611, prédio 40

Coordenadores:

Jorge Campos jcampos@pucrs.br (PUCRS) Fábio Rauen fabio.rauen@unisul.br (Unisul)

As pesquisas pragmáticas de tradição austiniana e griciana fundamentam-se nos conceitos de “significado da sentença” e de “significado do falante”. Decorrem dessa tradição modelos de desenho e instanciação de princípios de racionalidade, como o princípio de cooperação (GRICE), de pressões cognitivas inatas, como o princípio de relevância (SPERBER; WILSON), ou

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mesmo de competências de base linguística (LEPORE; STONE). Na sessão “Diálogo & Inferência”, buscaremos discutir criticamente teorias inferencialistas sobre o significado em contexto dialógico que emergem dessas vertentes dos estudos semânticos e pragmáticos.

1. Interface sistema-usuário no mecanismo de busca do Google:

personalização e metarrepresentação

Fátima Hassan Caldeira fatima.caldeira@unisul.br (Unisul) Suelen Francez Machado Luciano suelen.francez@gmail.com (Unisul) Fábio José Rauen fabio.rauen@unisul.br (Unisul)

Esta comunicação constitui pesquisa de caráter fundamentalmente bibliográfico cujo objeto de análise é o mecanismo de busca do Google. Parte-se da proposta de Yus (2014) de que a teoria da relevância é capaz de dar uma explicação científica às atividades humanas na internet. Para o autor, as pesquisas sobre os procedimentos cognitivos humanos em cenários físicos são necessariamente paralelos àqueles de ambientes virtuais. Dentre as atividades humanas na rede, analisa-se a relevância procurada pelo sistema para o usuário, área em que se insere o resultado de um mecanismo de busca. O estudo presume que um mecanismo desse tipo “metarrepresenta” a meta de um usuário que utiliza sua interface, maximizando a relevância do input (a consulta) para disponibilizar outputs (resultados) que atendam à relevância de cada indivíduo. A pesquisa utiliza- se da teoria da relevância de Sperber e Wilson, aliada aos achados da ciberpragmática de Yus, e da teoria de conciliação de metas de Rauen como embasamento teórico. Argumenta-se que os avanços tecnológicos do mecanismo de busca do Google, com a introdução do algoritmo Hummingbird, da Web Semântica e das ferramentas de personalização dos resultados, têm permitido reconhecer o comportamento do usuário na internet. Isso possibilita atender, de modo relevante, às necessidades e às intenções de cada indivíduo, numa tentativa de contextualizar a experiência e de heteroconciliar os resultados do buscador com as metas do usuário. Palavras-chave: Google, teoria da relevância, metarrepresentação.

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2. Conflitos usuários/desenvolvedores de soluções informatizadas sob a perspectiva da Teoria de Conciliação de Metas

Sandra Vieira sandra@ifc-sombrio.edu.br (IFCSombrio/Unisul)

Esta comunicação aborda conflitos entre usuários e desenvolvedores de soluções informatizadas que não atendem às expectativas do usuário. Parte- se da hipótese de que a teoria de conciliação de metas de Rauen (2014), baseada em relações de relevância (SPERBER; WILSON, 1986, 1995), permite descrever e explicar processos interacionais abdutivo/dedutivos entre usuários e desenvolvedores e, assim, contribuir para minimizar esses conflitos. Para dar conta dessa demanda, analisou-se um caso de help desk publicado para estigmatizar o papel do usuário, onde o usuário questiona por que os produtos de sua empresa não foram cadastrados na solução informatizada. Os resultados sugerem que a ausência de esclarecimentos na fase de levantamento e análise de requisitos gera uma representação equivocada da meta final do usuário pelo desenvolvedor. Apesar de responsável pelo equívoco, o desenvolvedor: atribui a falha ao usuário; assume postura assimétrica de poder, prevalecendo sua interpretação da meta final sobre a interpretação original do usuário; e publica o conflito como exemplo de incompetência do usuário. Essa assimetria de poder poderia ser evitada se o desenvolvedor possuísse uma formação mais completa que incluísse competências e habilidades comunicacionais, de modo que, nas interações, preferencialmente orais e presenciais, o desenvolvedor se dispusesse a ouvir as necessidades do usuário, esclarecer a ele o que está propondo como solução e produzir interfaces de boa qualidade. Apesar de principal responsável pela qualidade do serviço contratado, ao inferir que o usuário foi responsável pelo conflito, o desenvolvedor o expõe e o ridiculariza. Paradoxalmente, o que se registra é a incompetência do desenvolvedor que não foi capaz de compreender as necessidades do usuário; não esclareceu o usuário sobre o que estava propondo; não interagiu com o usuário presencialmente, pois comunicou a entrega do sistema por telefone; e não foi capaz de explicitar as responsabilidades do usuário na transação. Palavras-chave: teoria de conciliação de metas, teoria da relevância, conflito usuários/desenvolvedores.

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3. Teoria da Conciliação de Metas e relação terapêutica

Andréia da Silva Bez andreiabez@yahoo.com.br (IFCSombrio/Unisul) Leila Minatti Andrade leila.minatti@ifc-sombrio.edu.br (IFCSombrio/Unisul) Fábio José Rauen fabio.rauen@unisul.br (Unisul)

A interação paciente/terapeuta em sessões de terapia cognitivo-

comportamental é complexa. Entre outras razões, isso se deve ao fato de que

o terapeuta, de um lado, tem objetivos específicos e um conjunto de

conhecimentos teóricos próprios, e o paciente, de outro, encontra-se orientado pelo seu sistema de crenças e pensamentos automáticos. Assim, dado que terapeuta e paciente têm metas especificas próprias, ao interagirem eles devem construir um espaço de intersecção, e é nesse espaço que se dá a negociação dialógica dos propósitos terapêuticos. Em outras palavras, terapeutas e pacientes devem traçar metas para a terapia e para o próprio paciente de modo proativo, fundamentados no que se convencionou denominar de empirismo colaborativo. Nesta comunicação, consideram-se as noções de conciliação de metas e de confirmação de hipóteses abdutivas antefactuais, analisando convergências entre a terapia cognitivo-comportamental de Beck (1997) e a teoria de conciliação de metas de Rauen (2014). Partimos do argumento de que a consideração dessas noções teóricas pode contribuir para o aprimoramento do empirismo colaborativo e para a elaboração de melhores conceptualizações cognitivas. Palavras-chave: teoria de conciliação de metas, terapia cognitivo- comportamental, empirismo colaborativo.

4. Lógica, linguagem e direito

Daisy Pail paildaisy@ulbra.edu.br (Ulbra)

O presente trabalho tratará de argumentos apresentados em diálogos de

interesse jurídico. O tratamento se dará através de interface entre linguística

e lógica formal e informal, fazendo-se distinção entre argumentos práticos e

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técnicos. Uma vez que o tema se apresenta complexo e amplo, será realizado recorte com enfoque em aspectos de natureza pragmática. Conforme Wilson e Sperber (2012), para se ter uma proposição completa se faz necessário um processo de enriquecimento (chamado explicatura), para o qual a pragmática se torna determinante. Uma vez que em contexto jurídico a noção de verdadeiro e falso é assumida como premissa para tomada de decisões, é importante que a proposição seja completa. Apesar disso, não apenas argumentos dedutivos compõem o diálogo jurídico (que apresenta uma heterogenia de tipos, como apontado por Walton, 2008), há uma mistura também de argumentos indutivos e plausíveis, que podem se caracterizar como falácias e ainda assim serem aceitos. Ademais, também se abordarão aspectos retóricos desses argumentos, pois a sua forma pode vir a ser determinante para as implicaturas geradas. Esse último aspecto é abordado em uma perspectiva de retórica linguística (COSTA, 2010), na qual se defende que a forma tem efeito sobre o conteúdo. Esse efeito, contudo, não é composicional, e, logo, se encontra fora do escopo da semântica formal, impossibilitando condições de verdade, inserindo-se inevitavelmente no âmbito pragmático. Desta forma, as interfaces internas linguísticas serão entre pragmática e semântica, morfologia, fonologia e sintaxe, porquanto elementos dessa natureza podem vir a contribuir para a geração de implicaturas, ainda que fracas (na acepção da Teoria da Relevância, Sperber e Wilson, 1995). Este trabalho está em desenvolvimento e integra um projeto maior, inserido no grupo de pesquisa SynSemPra. Palavras-chave: diálogo, proposição, pragmática.

5. O diálogo: argumentação prática e condições de afetividade

Jorge Campos da Costa jcampos@pucrs.br (PUCRS) Claudia Strey claudia.strey@acad.pucrs.br (PUCRS-CNPq)

O presente trabalho é uma tentativa de abordagem interdisciplinar sobre o diálogo argumentativo prático em sua dimensão lógica e afetiva, na perspectiva de um desenho teórico em que razão e emoção coexistam numa relação entre racionalidade natural e racionalidade formal. As hipóteses assumidas são as de que o diálogo representa o locus clássico da

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argumentação prática em sua estrutura linguístico-cognitivo-comunicativa; que a racionalidade stricto sensu, representada pela dedutibilidade, é objeto de uma disciplina, a saber, a Lógica Clássica, e que tal disciplina pode ser incluída numa perspectiva de racionalidade lato sensu, objeto de uma visão interdisciplinar em que coexistem Lógica, Linguística, Psicologia Cognitiva, Teoria da Comunicação, entre outras. Central para a investigação é a identificação de inferência em suas variadas dimensões dentro das mencionadas áreas, o jogo da linguagem das emoções e suas conexões com as condições de verdade, na perspectiva da validade e aceitabilidade de argumentos, e com as condições de afetividade. Palavras-Chave: diálogo, inferência, emoção.

6. Addressing rationality via dialogue

Stéphane Dias stephane.dias@acad.pucrs.br (PUCRS-CNPq/Fulbright-Capes) Jorge Campos da Costa jcampos@pucrs.br (PUCRS)

Dialogue can be approached both as a key interdisciplinary theoretical object and a key process in everyday life, especially in conflict resolution. In order to bring a contribution for a conference on dialogue, we propose to reflect upon dialogue and rationality. We can interpret Ellinor & Gerard (1998) as claiming that in (pure) dialogues the central aims would be: (i) to construct a picture of a debate, (ii) to see connections among the parts/participants, (iii) to inquire into assumptions, (iv) to learn trough inquiry and disclosure, (v) to create scales of meaning manifestability. In discussions/debates, the central aims would be: (i) to break issues/problems into parts, (ii) to see distinctions between parts, (iii) to justify and to defend assumptions, (iv) to persuade, (v) to gain agreement on one meaning (see Ellinor & Gerard, 1998: 21). When the former includes evaluation of many perspectives towards a topic of inquiry, the letter aims at a group decision-making regarding the options available. We will claim that this dichotomy illustrates two aspects of rationality. By exploring a design of rationality of such “poles of a conversation continuum”, we can develop a sense of a universal game people play together. Keywords: dialogue, rationality, deliberation.

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Sessão coordenada 4: Olhares bakhtinianos: questões teóricas e metodológicas Sala 612, prédio 40

Coordenadoras:

Flávia Fialho Cronemberger flavia.fialho@ig.com.br (UNEB) Patrícia Ribeiro de Andrade patricia_campus5@yahoo.com.br (UNEB)

Esta sessão tem como objetivo discutir o desenvolvimento de diferentes pesquisas, partindo de estudos elaborados por Bakhtin e seu Círculo que levam a reflexões e discussões acerca da língua viva, em situações variadas, que exigem olhares teóricos e metodológicos diferenciados devido às particularidades de cada objeto de investigação.

1. A dialética nos escritos do Círculo de Bakhtin

Daniela Cardoso danicardoso96@yahoo.com.br (UPF)

Neste estudo, discutem-se os pressupostos teóricos apresentados nos escritos do Círculo de Bakhtin acerca da linguagem cotejados com os embasamentos da teoria dialética apresentada por Marx e Engels, em Ideologia Alemã e nos Manuscritos Econômico-Filosóficos. Apresenta-se o caráter dialético-materialista das propostas conceituais do Círculo de Bakhtin para definir a linguagem. Elucida-se a relação de influência recíproca entre a alteridade, o dialogismo e a ideologia, conformadas no enunciado concreto e, em última instância, no gênero discursivo. Procura-se comprovar que as elaborações do Círculo acerca do fenômeno linguístico são manifestações de uma concepção dialético-materialista da realidade/objeto investigado. Palavras-chave: linguagem, alteridade, dialogismo, ideologia, dialética.

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2. Dialogismo e subjetividade: contribuições para a clínica de linguagem

Fernanda Dias-Schütz nani.dias@ig.com.br (PUCRS)

O presente estudo teve como objetivo investigar a relação eu/outro na interação entre uma criança com deficiência e familiares, analisando (i) o favorecimento ou não das potencialidades de linguagem da criança em cenas de interação com familiares, bem como (ii) imagens de sujeito discursivo construídas sobre a criança pelo discurso de familiares. O trabalho considerou as relações entre o discurso infantil e o de membros de sua família a partir dos pressupostos da teoria dialógica do Círculo de Bakhtin, complementada pelas considerações da história da pessoa com deficiência e da fonoaudiologia com as especificidades clínicas da primeira infância. A coleta do material de análise ocorreu durante quatro meses em uma Unidade da Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas Portadoras de Deficiência e Pessoas Portadoras de Altas Habilidades no Rio Grande do Sul (FADERS). A metodologia valeu-se de duas instâncias de análise: interação de vozes no discurso e responsividade do enunciado. A partir da investigação, verificou-se uma interação de vozes no discurso familiar cujo tom valorativo oscila entre a concepção de anormalidade e a singularidade do discurso do sujeito em tratamento, que luta para sustentar o seu lugar discursivo. Constatou-se também que a imagem do destinatário infantil é construída em resposta aos diferentes pontos de vista sobre a pessoa com deficiência. Palavras-chave: teoria dialógica, relação eu/outro, linguagem da criança com deficiência.

3. Entre palavras e gêneros: plasticidade e construção de sentidos

Adriana Danielski Batista adrianaelski@yahoo.com.br (IFRS/Rio Grande)

Partindo dos conceitos postulados por Bakhtin e seu Círculo (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1929/2010; BAKHTIN, 1975/1998, 1979/2011), que entendem a palavra como elemento polissêmico e plurivocal da língua, o

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presente trabalho estuda a plasticidade da palavra de modo a compreender o funcionamento discursivo da língua e, consequentemente, como ocorre a construção de sentidos nos gêneros discursivos piada e ata. A piada analisada foi extraída de um sítio eletrônico, denominado PIADAS.COM.BR. O gênero piada exige o entendimento da plurivocalidade das palavras para que a compreensão se efetive. Essa plurivocalidade reside, geralmente, em uma determinada palavra ou expressão, que reflete e refrata diferentes ideias, pensamentos, significações. Já a ata analisada foi retirada do processo físico de seleção para professor substituto do IFRS Campus Rio Grande e é composta, até certo ponto, por instruções rígidas, sugeridas a partir de um modelo tradicional de ata, mas também opera com elementos não tradicionais, proporcionando o desvelamento da plasticidade das palavras. Para tanto, desenvolveram-se procedimentos metodológicos próprios que orientam as análises dos gêneros selecionados a partir dos conceitos postulados pela teoria dialógica do discurso. Assim, buscou-se analisar aspectos que propiciem a plasticidade das palavras em diferentes gêneros, verificando a evocação de diferentes valorações e vozes discursivas que imprimem sentidos às palavras e, consequentemente, ao discurso. Registra- se que existem variados níveis de plasticidade que perpassam a língua. Há gêneros mais coercitivos, que impõem à palavra um funcionamento discursivo mais estável, em que o estabelecimento de diferentes vozes sociais é coibido. Há gêneros que são extremamente plásticos, que propiciam maior mobilidade à palavra. A palavra imprime mobilidade ao gênero, mas este também condiciona o funcionamento da palavra. A plasticidade se estabelece a partir da relação palavra versus gênero. Essa relação indica a polivalência e a plasticidade da palavra de adequar-se ao projeto enunciativo dos gêneros, em sintonia com as exigências contemporâneas da sociedade. Palavras-chave: plasticidade da palavra, gênero do discurso, piada e ata.

4. Tensionamento de vozes em práticas de análise: contribuições de Bakhtin e os desafios da pesquisa

Maria da Glória Corrêa di Fanti gloria.difanti@pucrs.br (PUCRS-Fapergs) Kelli da Rosa Ribeiro kelli.ribeiro@acad.pucrs.br (PUCRS-CNPq/Fapergs)

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Tamiris Machado Gonçalves tamiris.machado@acad.pucrs.br (PUCRS-CNPq/Fapergs) Vanessa Fonseca Barbosa vanessa.barbosa@acad.pucrs.br (PUCRS-CNPq/Fapergs)

Nesta reflexão, é apresentado um recorte de discussões teóricas e metodológicas suscitadas por um projeto de pesquisa em andamento no Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS. O projeto “A tensa relação com o discurso do outro e a produção de sentidos: contribuições bakhtinianas para a pesquisa e a formação na contemporaneidade”, coordenado pela Profa. Dra. Maria da Glória di Fanti e apoiado pela Fapergs (Edital Pesquisador Gaúcho), tem como objetivo estudar noções, conceitos e princípios na obra de Bakhtin sobre a relação de tensão entre discursos, observando como o outro aparece no discurso e quais são os modos de apreensão/transmissão do discurso alheio. A motivação da pesquisa é subsidiar análises do funcionamento do discurso, especialmente do tenso diálogo de vozes, a fim de compreender como ocorre a produção de sentidos e, por consequência, possibilitar a formação de leitores críticos. Como referencial teórico central, o projeto baseia-se nos pressupostos do Círculo de Bakhtin, especialmente no estudo de conceitos, como alteridade e dialogismo, que têm em seu princípio a constitutiva relação com o outro como condição indispensável para a existência do sujeito, do sentido e do discurso. As pesquisas vinculadas ao projeto, não se restringindo a uma esfera de produção e circulação de discurso, desenvolvem metodologias a partir da interação entre o objeto de reflexão e a teoria bakhtiniana, enfrentando o desafio de não dissociar o mundo da teoria e o mundo da vida, a fim de contribuir com diferentes campos de atividade humana. Seguindo a perspectiva de estudar a tensão em diferentes materialidades discursivas, espera-se contribuir para o conhecimento de diferentes funcionamentos enunciativo-discursivos de produção de sentidos, o que pode auxiliar na formação de pesquisadores atentos aos problemas da contemporaneidade. Palavras-chave: tensão de vozes, discurso do outro, análise dialógica.

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5. Um algo mais sobre o livro didático

Patrícia Ribeiro de Andrade patricia_campus5@yahoo.com.br (UNEB)

O estudo ora apresentado discute a possibilidade de se implementarem

mudanças no sistema de produção, avaliação e distribuição de obras destinadas a escolas públicas brasileiras, funções que se encontram, atualmente, aos encargos do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Com este trabalho objetivamos abordar algumas motivações que endossam a necessidade dessas mudanças, além de apresentar propostas que as contemplam. Teoricamente a discussão está embasada na perspectiva dialógica da linguagem, desenvolvida por Bakhtin e seu Círculo, que permite entrever a edificação de visões do mundo ocasionada por uma consecutiva interação discursiva, a partir da qual posicionamentos são suscitados. Os procedimentos metodológicos empreendidos para a produção deste trabalho

compreendem: a análise dos discursos constitutivos de uma obra didática adotada por uma escola municipal, a despeito de enunciados oriundos da equipe produtora do livro, do edital que estabelece as normas para a composição de coleções didáticas e dos discursos que circulam no meio acadêmico; contemplam, ainda, a análise dialógica dos posicionamentos assumidos por três professoras da educação básica sobre a suficiência e utilização das coleções. Os resultados da análise dos referidos discursos apontam para uma necessidade premente de reformas no PNLD. Palavras-Chave: livro didático, PNLD, dialogismo.

6. Grupo de vivência em voz na clínica-escola de fonoaudiologia da UNEB: uma visitação à filosofia Bakhtiniana

Flávia Fialho Cronemberger flavia.fialho@ig.com.br (UNEB)

A literatura especializada em Fonoaudiologia, tradicionalmente, aborda a

temática sobre saúde vocal com foco no tratamento de sujeitos com alterações vocais. No entanto, o avanço da Fonoaudiologia em Saúde Pública impulsionou os estudos para uma revisão de paradigmas, ou seja, a busca de práticas não só voltadas para a cura das alterações, mas com foco na

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promoção de saúde. Os grupos de vivência em voz vêm sendo sinalizados como práticas sociais importantes em Fonoaudiologia para a promoção de saúde vocal e buscam intervir nas mudanças das condições de vida e trabalho dos sujeitos que fazem uso profissional e/ou cotidiano da voz, otimizando suas habilidades comunicativas. Entretanto são escassas as discussões envolvendo a filosofia bakhtiniana nessas atuações. Compreende-se que, se tomada como base teórica a concepção bakhtiniana, os sujeitos poderão passar a compreender melhor como suas manifestações vocais são de natureza social e o quanto revelam da sua forma de pensar, agir e interagir no mundo, passando a ter novas motivações para repensar suas produções vocais. O objetivo dessa proposta é realizar uma análise retrospectiva de um grupo de vivência em voz, buscando refletir sobre a importância de se estar atento, nesse espaço, à sócio-historicidade constitutiva dos sujeitos, com foco no desenvolvimento mais integral da vida e voz dos indivíduos. Para análise, serão filmados em áudio e vídeo 10 encontros de um grupo de vivência em voz, composto por professores e a fonoaudióloga/pesquisadora. Das gravações realizadas, serão selecionados e analisados enunciados que apontem para a troca e construção compartilhada de vivências e conhecimentos entre os sujeitos. Entende-se que ao se perceber a força que o entrelaçamento de vozes, ao longo da vida e no próprio grupo de vivência, tem na constituição e transformação dos indivíduos, atentar-se-á mais às ações em promoção de saúde vocal, norteadas pela filosofia bakhtiniana. Palavras-Chave: grupos de vivência em voz, promoção de saúde, filosofia bakhtiniana.

Trabalhos apresentados em 30 de outubro (sexta-feira) Manhã:

8h-9h45min Sessões de comunicação

Sessão

Coordenada

1:

Mídia

e(m)

Diálogo

na

Contemporaneidade: a Diferentes Gêneros

Construção

de

Sentidos

em

Sala 603, prédio 40

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Coordenadora:

Cristhiane Ferreguett cristhianefe@gmail.com (UNEB)

Os trabalhos que compõem a presente sessão contemplam diferentes gêneros midiáticos: culto televisivo, publicidade bancária, charge, cinema e reportagens em revistas infantis. Problematizando variadas questões relativas à mídia na sociedade contemporânea, as pesquisas valem-se de estudos discursivos, como é o caso dos pressupostos do Círculo de Bakhtin, e, quando necessário, estabelecem diálogo com outras abordagens teórico- metodológicas a fim de atender às especificidades dos objetos de investigação. No conjunto das reflexões, percebe-se a preocupação com o desenvolvimento de um olhar crítico frente à produção, circulação e recepção dos discursos midiáticos que circulam nos diferentes espaços sociais contemporâneos.

1. A incitação ao patrocínio no culto televisivo Show da Fé:

tensionamento de vozes nos discursos bivocais

Kelli da Rosa Ribeiro klro.rib@gmail.com (PUCRS CNPq/Fapergs)

Na sociedade contemporânea, é cada vez mais crescente a diversidade de vozes religiosas, principalmente de discursos neopentecostais, circularem livremente em meios de comunicação de massa, tais como rádio e televisão. Nesse contexto, o discurso bíblico transmitido em culto de igrejas em geral, que usam como principal suporte a Bíblia, se constitui basicamente de um processo de bivocalização, tratando-se de um discurso que possui duas vozes que estão “dialogicamente relacionadas, como se conhecem uma à outra” e se fundem num só discurso, tendo-se não só duas vozes, mas também “dois sentidos, duas expressões” (BAKHTIN, [1975], 2010, p. 127). No Show da fé, programa televisivo da Igreja Internacional da Graça de Deus, há o momento do Testemunho do fiel, o qual se configura num espaço publicitário que promove tanto as benesses alcançadas pelo fiel quanto os benefícios, sobretudo os financeiros, do patrocínio. O patrocínio do programa é solicitado em variados momentos do culto, pelo dizer legitimado do Missionário R. R. Soares e pelo dizer engajado do fiel-testemunha e consiste

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em pagar um carnê mensal que contribui para diferentes obras que a igreja realiza, inclusive manter o Show da Fé no ar em horários concorridos no contexto brasileiro de televisão. Pensando nessas questões, analisamos de que forma acontece a incitação ao patrocínio no programa Show da Fé, observando dois trechos dos discursos produzidos no Testemunho do Fiel, considerando i) os signos ideológicos verbais e não verbais e os efeitos de sentidos refratados no discurso; ii) os processos bivocais que retomam a palavra divina, engendrados para incitar o patrocínio; iii) o diálogo polêmico com vozes sociais concorrentes. Para tanto, recorremos às reflexões teóricas do Círculo de Bakhtin, pontuando os conceitos de bivocalidade, signo ideológico e vozes sociais. Esperamos perceber a tensão entre os discursos religioso e publicitário e a produção de sentidos na mídia televisiva. Palavras-chave: testemunho, bivocalidade, tensão.

2. Modos de enunciar de um garoto-propaganda

Élida Lima lima.elida@gmail.com (Unisinos)

A interação das celebridades com seus públicos e a consequente influência destas no modo de viver de uma sociedade em midiatização permite observar marcas das mudanças vivenciadas nos últimos anos. O surgimento de dispositivos tecnológicos interacionais possibilita o acesso aos espaços públicos sem a mediação das instituições midiáticas clássicas, como observado na sociedade dos meios. Eram as mídias tradicionais, e seus especialistas, que detinham a exclusividade sobre as restritas tecnologias que permitiam enunciar para as grandes massas. E mesmo figuras que se destacam publicamente por sua capacidade de influenciar os demais dependiam de uma negociação com as instituições midiáticas para dialogar com seus fãs. Nas últimas duas décadas, entretanto, a banalização de aparatos tecnológicos usados para interação passou a permitir a protagonização de produções enunciativas e, consequentemente, mudanças nos modos de enunciar dos atores sociais na esfera pública. É nesse contexto que o ator Reynaldo Gianecchini se apresenta como um garoto-propaganda que não se furta em apresentar aspectos de sua vida privada, como o sofrimento com o câncer, na campanha publicitária do Banco do Brasil. As concepções desenvolvidas por Braga (2006, 2011) e Fausto Neto (2008, 2012

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e 2014) contribuem para a observação dessas novas práticas sociais, as quais estão marcadas pela ambiência de uma sociedade em midiatização. Temos como objetivo neste trabalho desenvolver uma reflexão teórica com vistas a subsidiar a análise de produções discursivas apresentadas em publicidades do Banco do Brasil, as quais deixam emergir pistas dos novos modos de enunciar das celebridades na contemporaneidade, ou seja, os diálogos possíveis empreendidos na esfera pública a partir das lógicas midiáticas. Palavras-chave: mídia, midiatização, celebridade.

3. Charges polêmicas: vozes sociais em tensão

Tamiris Machado Gonçalves mtamiris@gmail.com (PUCRS-CNPq/Fapergs)

Charges que abordam a temática da morte tendem a ser polêmicas: ou são vistas como insulto ou entendidas como homenagem às vítimas. Como a charge é um gênero que se constitui a partir de acontecimentos sociais que sejam contemporâneos a ela, faz-se oportuno o questionamento de como se dá a construção dialógica dos sentidos, considerando a produção e recepção do discurso, em charges tidas como polêmicas por tratarem de mortes trágicas. Nessa perspectiva, este trabalho visa examinar de que forma diferentes vozes sociais que atravessam charges polêmicas sobre morte trágica se engendram e refletem e refratam sentidos no discurso. Para tanto, analisa-se como recorte de pesquisa uma charge de Chico Caruso em diálogo com discursos-resposta a ela relacionados, todos veiculados em meio digital em 2013 e que fazem referência a fatos divulgados pela mídia brasileira também nesse ano. Como embasamento teórico, recorre-se às ideias postuladas pelo Círculo de Bakhtin, sobretudo as noções de gêneros discursivos, enunciado, acento de valor e vozes sociais. Destaca-se, quanto às considerações finais, que charges que dialogam com incidentes trágicos, geralmente, são alvos de críticas por serem vinculadas em um momento delicado. Assim, sublinha-se que não só os elementos culturais são importantes para a valoração que se faz da charge como o momento histórico da enunciação em que ela é edificada importa para compreendê-la, bem como entender a polêmica de sua recepção. Palavras-Chave: produção e recepção do discurso, construção de sentidos, charge jornalística, teoria bakhtiniana.

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4. Palavrão no cinema brasileiro: por uma visão bakhtiniana

Veridiana Caetano veri@vetorial.net (PUCRS Capes)

O cinema é visto como uma arte expressiva de muitas individualidades, inserida em um contexto sócio-histórico responsável por construir diferentes representações da realidade. Nos últimos anos, o cinema brasileiro cresceu, demonstrou sua qualidade técnica e artística e hoje se consolida no mercado nacional. A maior prova dessa maturidade tem sido o reconhecimento do público que, cada vez mais, tem comparecido às salas de exibição. Vendo esse crescimento e sua importância para a sociedade contemporânea, este trabalho tem como objetivo analisar diferentes recortes discursivos de dois filmes brasileiros, em que o palavrão tem destaque, observando, a partir das relações dialógicas estabelecidas nos enunciados analisados, efeitos de sentido construídos pela mobilização desses signos ideológicos, os palavrões. Para o desenvolvimento do objetivo, foram selecionadas cenas dos filmes Tropa de elite Missão dada é missão cumprida (2007) e Mato sem cachorro (2013), nas quais o uso de palavrões é colocado em destaque. Para respaldar este estudo são utilizados os pressupostos teóricos bakhtinianos (BAKHTIN, 1998, 2003, 2008; BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2006) e os estudos de Robert Stam (1992, 2003, 2008). Este estudo pressupõe que o palavrão, como toda palavra, não é uma unidade neutra, mas sim um signo ideológico pluriacentuado. Palavras-chave: palavrão, dialogismo, cinema.

5. Relações dialógicas em revista infantil: processo de adultização de meninas

Cristhiane Ferreguett cristhianefe@gmail.com (UNEB)

No presente trabalho analisam-se reportagens impressas, veiculadas na revista especial Recreio Girls, que tem como público-alvo meninas de seis a onze anos. Do montante de cinco exemplares publicados da revista, selecionaram-se três reportagens, que constituem o corpus de investigação.

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O objetivo geral do trabalho é analisar como o discurso publicitário se

engendra na tessitura discursiva de reportagens da revista Recreio Girls e que efeitos de sentidos produz no que se refere à adultização precoce da menina.

O estudo parte de considerações a respeito da criança em uma perspectiva

sócio-histórica e desenvolve reflexões sobre a comunicação de massa, publicidade em geral e publicidade para crianças, incluindo-se também uma abordagem sobre a legislação específica. Como embasamento teórico, a pesquisa busca respaldo nos pressupostos do Círculo de Bakhtin. As análises são desenvolvidas qualitativamente, observando os diversos elementos

verbais e verbo-visuais que constituem as reportagens selecionadas. A partir

da

análise, conclui-se que as reportagens apresentam diversas características

do

discurso publicitário, como apresentação de marcas e preços de produtos.

Observa-se um empenho do locutor em se aproximar da criança e conquistar sua confiança, usando para isso uma variação de tom, ora de um locutor infantil, ora de um adulto que quer aparentemente cuidar e proteger. A adultização precoce da menina é construída discursivamente e pode ser observada pelos modelos adultos apresentados como referência de como a menina/interlocutora deve se vestir, se maquiar, se pentear e do modo como ela deve agir e ser. A partir do trabalho desenvolvido, chega-se à tese de que o discurso publicitário, mais ou menos aparente, se engendra em diferentes materialidades discursivas e estimula, por meio de enunciados verbais e não verbais, o processo de adultização precoce da menina, a fim de promover e incentivar o consumo de produtos normalmente desnecessários para uma criança. Palavras-chave: Bakhtin, publicidade infantil, adultização.

Sessão de comunicações individuais 1 Leitura e escrita Sala 604, prédio 40

1. Uma conexão entre leitura, escritura e consciência textual

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Coordenadora:

Jésura Lopes Chaves jesuralc@gmail.com (PUCRS)

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Este trabalho consiste no resultado de uma tese de doutorado que investigou a relação entre compreensão leitora, consciência textual e escritura argumentativa, pautando-se especialmente em postulados psicolinguísticos. Buscou-se contribuir para o aprimoramento de práticas pedagógicas concernentes à leitura e à produção textual, considerando o importante papel que a consciência exerce nesse processo. Os objetivos da pesquisa residiram, primeiramente, em verificar a correlação entre as variáveis em pauta; a seguir, em propor estratégias pedagógicas que pudessem potencializar a compreensão leitora e a escritura de textos argumentativos por intermédio da consciência textual. Nesse intuito, avaliou-se o desempenho de setenta e quatro alunos do primeiro, do segundo e do terceiro ano do ensino médio por meio de testes específicos. Procedeu-se, então, à análise de correlação entre duas variáveis separadamente, em cada ano escolar, pelo cálculo do coeficiente de correlação linear de Pearson (r). Os resultados da pesquisa confirmaram a correlação entre as variáveis avaliadas, que se estabeleceram sob diferentes índices. A partir da análise dos dados obtidos, que oferecem importantes indícios sobre o comportamento dos sujeitos, destaca-se a necessidade de se estimular mais precocemente o raciocínio argumentativo nas escolas, com base em atividades de reflexão e de automonitoramento. Palavras-chave: leitura, escritura, consciência textual, argumentação.

2.

enunciação

A

leitura

do

hipertexto

sob

a

perspectiva

da

teoria

da

Juliana Rossa julirossa@hotmail.com (UCS)

Este artigo tem como objetivo realizar o cruzamento interdisciplinar das teorias da enunciação e do hipertexto. O estudo, de natureza teórica, caracteriza-se por ser uma análise que interliga as contribuições da teoria da enunciação de Émile Benveniste com teorias sobre hipertexto, pela ótica de autores como Lúcia Santaella, Pierre Lévy, Alex Primo e George Landow. Observamos que as categorias de pessoa, tempo e espaço as quais Benveniste debita à subjetividade da linguagem potencializam-se no hipertexto. Essa potencialização, que é uma das características do ciberespaço pela infinidade de elos multiconectados, induz a uma forma

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especial de leitura desses hipertextos. Dessa forma, propomos o termo

hipersubjetividade da linguagem para tratar do discurso no ambiente virtual,

o qual possui um leitor diferenciado e imersivo no complexo cenário do ciberespaço. Palavras-chave: enunciação, hipertexto, subjetividade da linguagem.

3. Formação leitora: diálogos entre o ler, o brincar e o olhar

Marília Forgearini Nunes mariliaforginunes@gmail.com (UFRGS/Gearte) Tatiana Telch Evalte tatitelch@yahoo.com.br (PPGEDU/UFRGS/Gearte)

O presente estudo reúne pesquisas (NUNES, 2013; EVALTE, 2014) que se

preocupam com a formação leitora. Os diálogos entre a leitura, a brincadeira e o olhar serão abordados a partir da análise de textos literários infantis: um

livro-brinquedo e um livro de imagem. Com essa análise pretendemos refletir sobre a formação do leitor que, diante de algumas publicações literárias infantis, não necessita somente de uma mediação para a compreensão da linguagem verbal, mas também de uma mediação interessada no brincar e no olhar. A semiótica discursiva procura explicitar o que o texto diz e como faz para dizer o que diz (BARROS, 2005), e essa será a teoria de base para identificar os possíveis efeitos de sentido das duas obras literárias. A identificação desses efeitos de sentido é uma ação relevante para que a mediação da leitura dessas obras seja vivenciada a partir do ler, do brincar e do olhar. Dois conceitos serão estabelecidos: o de leitura, que será discutido de maneira ampla, como uma ação que também pode ser vivida a partir de outras linguagens além da verbal, presentes no mundo e que constituem os diversos objetos de leitura (MARTINS, 2006; FREIRE, 2005; GREIMAS, 2004); e também o conceito de sincretismo, que, pela união de diferentes linguagens, caracteriza os textos sobre os quais nos debruçaremos nesse trabalho, tornando a leitura uma experiência que exige não apenas um olhar decodificador, mas também sensível, um leitor capaz de sentir fisicamente o livro a partir de seu tato e sensivelmente a partir de um olhar que se educa na experiência de ler (PILLAR, 2003) e que também se permite brincar (VYGOTSKY, 1998). Dessa maneira, a formação leitora deixa de ser apenas um ato alfabetizador, no seu sentido restrito à aquisição da compreensão do

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funcionamento do sistema alfabético, e torna-se uma experiência de desenvolvimento inteligível e sensível. Palavras-chave: literatura infantil, ludicidade, educação do olhar.

4. A consciência textual em diálogo com o ensino de uma compreensão leitora eficaz

Patricia de Andrade Neves andradeneves.patricia@gmail.com (PUCRS/CNPq) Danielle Baretta daniellebaretta@hotmail.com (PUCRS/Capes) Fernanda Schneider fernanda.schneider.001@acad.pucrs.br (PUCRS/IFRS/Capes)

Já é reconhecida a dificuldade de leitura dos estudantes brasileiros, sendo este um tópico recorrente no discurso de pais, professores e estudiosos e atestado por meio de avaliações oficiais que comprovam o baixo desempenho dos nossos alunos. Sendo assim, partindo desse contexto, o presente trabalho tem por objetivo propor um diálogo no sentido de se discutir o ensino e a aprendizagem da compreensão leitora em sala de aula. Para isso, são apresentados conceitos sobre consciência, em especial a consciência textual. A consciência textual (GOMBERT, 1992) foca sua atenção nas propriedades do texto e não em seus usos. Esse monitoramento pode se fixar em aspectos da coerência e da coesão dos textos ou da estrutura textual. Além da consciência textual, para que uma compreensão leitora seja eficaz, tem grande importância a consciência procedimental, caracterizada pela percepção dos procedimentos que o leitor usa para compreender o texto. Utilizando-se de tais conceitos, este estudo discutirá alternativas para um trabalho pedagógico tendo em vista os processamentos cognitivos e conscientes de leitura com ênfase na consciência textual. Ser letrado atualmente é muito mais do que decodificar palavras, é necessário compreender conscientemente aquilo que se escreve e se lê, sendo o ensino o fator preponderante para o desempenho de tal habilidade. Palavras-chave: consciência textual, compreensão leitora, ensino.

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5. Leitura de textos verbovisuais contemporâneos: graus de intimidade entre linguagens em Diário de Bordo

Ruth Rejane Perleberg Lerm ruthlerm@yahoo.com.br (Faced/UFRGS)

Na contemporaneidade presenciamos crescente número de manifestações culturais inclassificáveis, que se situam nas bordas, nas fronteiras entre diversos campos como a literatura, a arte e o design. Livros, revistas, cartazes, entre outros, sincretizam linguagens e apontam para a necessidade de outras formas de leitura. Na busca pelos efeitos de sentido provocados por essas manifestações culturais, na pesquisa de mestrado Leitura de textos sincréticos: relações entre o verbal e o não-verbal em Diário de bordo’, de José Bessa, concluída em 2010 no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fizemos um recorte nessa produção contemporânea, propondo-nos a estudar as relações entre as linguagens no livro de artista Diário de bordo, de José Bessa, tendo como aporte teórico e metodológico a semiótica discursiva. Dentre os desdobramentos da investigação buscamos desvendar com que intensidade se dá o sincretismo entre as linguagens que fazem parte da obra,

comparando os graus de intimidade apresentados por Carmo Jr. (2009) com base na linguística de Hjelmslev (1978), com o quadro de inter-relações entre

as formas de Wucius Wong (2001) proveniente da linguagem visual. Além das

quatro existentes: incoerência (inexistência de conexão), aderência (contato),

coerência (conexão relativamente íntima) e inerência (superposição total das expressões), sugerimos a inclusão de outras quatro possibilidades de relações entre as expressões das linguagens envolvidas num texto sincrético verbovisual: superposição, interpenetração, subtração e intersecção. Devido

a sua complexidade, o tema retorna na pesquisa de doutoramento, em

andamento, no mesmo Programa, quando ampliamos o objeto empírico de estudo para os fanzines. Com isso, pretendemos contribuir com o campo do

ensino da arte, em especial, com pesquisas voltadas para a leitura de imagens e alfabetização visual. Palavras-chave: leitura, semiótica, verbovisual.

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Sessão de comunicações individuais 2 Variação, léxico e terminologia Sala 605, prédio 40

1. Interações linguístico-discursivas na avaliação da oralidade

Coordenadora:

Célia Helena de Pelegrini Della Méa celiahp@terra.com.br (UFSM)

Com esta pesquisa, objetiva-se resgatar subsídios linguístico-discursivos para o trabalho com a oralidade em sala de aula da educação básica. As bases teórico-metodológicas eleitas para que se elaborassem parâmetros linguístico-discursivos para avaliação da oralidade são Dolz; Schneuwly (2004), com a obra Gêneros orais e escritos na escola, Adam (2008), A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos e Bronckart (2009), Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. Não se quer com isso propor a união de questões que sabidamente pertencem a concepções teóricas diversas. O que se pretende é considerar as peculiaridades, o que aqui se intitula de “novidade”, próprias das diferentes abordagens sobre a linguagem, a fim de estabelecer um panorama das possíveis contribuições de cada proposta para a avaliação da oralidade e de descrever cronologicamente o modo de inserção dessas contribuições na prática docente. Assim, é mérito desta pesquisa suscitar uma proposta que objetiva propor subsídios que permitem uma avaliação processual das produções orais de sala de aula. O foco é a observação do que cada teoria traz como “novidade” para a análise linguístico-discursiva da oralidade, para, a partir de um diálogo possível entre elas, descrever a incorporação desses conhecimentos na prática docente na Educação Básica. Como resultados parciais, tem-se a constituição de um quadro teórico- metodológico condizente com os gêneros escolares, cuja fundamentação abarca teorias pensadas de forma articulada. Palavras-chave: educação, linguística, oralidade.

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2. Caracterização acústica das sibilantes em português brasileiro:

uma interface entre a Linguística e a Engenharia

Ana Paula Correa da Silva Biasibetti biasibetti.ana@gmail.com (PUCRS/CNPq)

Estudos sobre as línguas inglesa (HEFFERNAN, 2004; STUART-SMITH, 2007; FUCHS; TODA, 2010; MUNSON, 2011), japonesa (KAJINO, 2014), espanhola (MACK, 2011) e dinamarquesa (PHARAO et al., 2014) revelam que há indexadores sociais associados às produções variáveis da fricativa /s/. Isso significa que a variação fonética relativa à produção da referida consoante é percebida, nessas línguas, como marcadora de diferenças sociais. Em português, uma consoante /s/ subjacente é produzida variavelmente em coda silábica, sendo subespecificada quanto ao ponto de articulação (alveolar ou palato-alveolar) e ao vozeamento (sonora ou surda). Em outras palavras, /s/ em coda pode realizar-se como [s, z] ou [ʃ, ʒ] e é um marcador dialetal por excelência (CALLOU et al., 1994; CÂMARA JR., 2009). A investigação sobre a produção de /s/ em coda em Porto Alegre (percebido predominantemente como alveolar) e em Florianópolis (percebido predominantemente como palato-alveolar) justifica-se uma vez que análises preliminares sobre quatro informantes indicam que as produções da sibilante em coda nem sempre são categóricas, isto é, observa-se uma certa gradiência que, em termos articulatórios, indica uma articulação ora mais anteriorizada, ora mais posteriorizada em ambas as localidades. Tais resultados foram obtidos através da análise de dois momentos espectrais, a saber, centro de gravidade e assimetria. A presente pesquisa fundamenta-se nas premissas teórico- metodológicas da Sociofonética (FOULKES; DOCHERTY, 2006; FOULKES et al., 2010; THOMAS, 2011; DIPAOLO; YAEGER-DROR, 2010) e da Fonética Acústica (LADEFOGED, 1974, 1975; KENT; READ, 1992; STEVENS, 2000). O estudo tem um viés interdisciplinar entre a linguística e a engenharia e seus principais objetivos são a identificação de possíveis padrões sociofonéticos (gênero, idade, etnia) intrínsecos às produções variáveis de /s/ e a caracterização acústica dessas produções com vistas às aplicações em síntese de fala e no reconhecimento forense de locutor. Palavras-chave: sibilantes, variação sociofonética, acústica.

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3. Clarity in teaching and writing legal English: por um inglês jurídico com mais clareza e simplicidade

Elisa Correa Santos Townsend elisacorrea@mx2.unisc.br (Unisc) Christiane Heemann cheemann@univali.br (Univali)

O trabalho aborda as dificuldades do Inglês Jurídico para quem usa o inglês como língua franca jurídica, arguindo a necessidade de maior clareza e simplicidade em sua redação. Norteiam o trabalho ideias de Beveridge, Kimble, Mellinkoff, Wydick, Tiersma e Daly. Parte-se de textos do Legal English redigidos com jargão secular, maculado de redundâncias, formas arcaicas, negações múltiplas e frases complexas. Uma versão depurada é oferecida como exemplo de solução, substituindo expressões de difícil compreensão por outras de fácil entendimento. Esta é a tendência mundial dos autores de linguagem jurídica. Com a lei The Plain Writing Act de 2010, que obriga o uso de plain English, a clareza no Inglês é defendida por muitas organizações. O legislador quer atender às necessidades de pessoas leigas que firmam contratos. Com a lei supra uma linguagem mais acessível surge, mais autores defendem sua aplicação e já se notam resultados nos contratos de massa. A tendência é a expansão desta prática afetando, assim, o ensino do Inglês Jurídico. Palavras-chave: clareza, inglês jurídico, ensino.

4. Gaúchos versus não gaúchos; oposição interacional e a construção de identidades sociais em sala de aula

Laura Knijnik Baumvol laura.knijnik@gmail.com (Unisinos)

Esta pesquisa visa a examinar a construção conjunta, local e contingente da oposição de identidades sociais dos participantes de uma sala de aula de inglês como língua adicional, através da análise de sua fala-em-interação durante uma atividade pedagógica. Os dados analisados foram selecionados entre treze horas de registros audiovisuais concebidos em uma sala de aula de nível intermediário. A pesquisa baseia-se na perspectiva teórico-

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metodológica da Análise da Conversa Etnometodológica (GARFINKEL; SACKS, 1970; SCHEGLOFF, 1991) e nos estudos das identidades e linguagem no contexto social (MOITA LOPES, 1996, 2002, 2003; GIDDENS, 2005; HALL, 2001). O trabalho permitiu averiguar que, ao longo da interação, os participantes exibem uns para os outros relações identitárias opostas e conflituosas, ao se darem conta de quem são e quem não são, ou seja, de que são agentes da construção de uma polarização entre as categorias identitárias de “gaúchos” versus “não gaúchos”. A co-construção de tais identidades sociais foi desencadeada por uma oposição ou discordância dos alunos em relação à posição assumida pela professora, responsável pela realização do mandato institucional. Portanto, o “outro” é crucial para a construção momento-a-momento dessas identidades sociais opostas, que não são fixas e nem podem ser pré-determinadas pelo pesquisador ou por apenas um dos envolvidos. Além disso, constituem-se em um “produto emergente” da interação, tendo permitido a mobilização de diferentes recursos linguísticos e extralinguísticos na língua adicional para a sua construção e o surgimento de novos objetos de aprendizagem, não previstos inicialmente no plano de ensino. Ao demostrar que o confronto instaurado abriu espaço para que os participantes, através do uso da linguagem, co- construíssem suas identidades sociais, a pesquisa fornece uma contribuição para os estudos sobre formação de professores e identidades em sala de aula, trazendo elementos para que os educadores realizem suas práticas pedagógicas de modo inclusivo e reflexivo. Palavras-chave: interação em sala de aula, oposição, identidades sociais.

5. Variação conceitual do feminicídio: análise terminológica dos atributos conceituais do crime em diferentes gêneros textuais do domínio jurídico brasileiro

Luciana Monteiro Krebs luciana.monteiro@ufrgs.br (Unisinos) Maria da Graça Krieger mkrieger@unisinos.br (Unisinos)

A pesquisa tem como tema o estudo da variação terminológica presente em documentos que tratam do feminicídio no Brasil, apoiando-se principalmente na Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré) e nos aspectos de variação

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denominativa e conceitual que esta desenvolve. Delineia-se para o trabalho a meta principal de analisar a ocorrência da variação conceitual de termos típicos do Direito Penal brasileiro, sendo que neste recorte o estudo recai sobre o termo feminicídio. Como objetivos específicos, busca-se: (a) identificar a densidade conceitual do termo feminicídio e suas variações em diferentes tipos textuais; (b) propor atributos que caracterizem a variação conceitual a partir dos esquemas de conteúdo. Metodologicamente é utilizada a Lexicologia da Verticalidade (Wichter), através de uma análise contrastiva entre documentos de diferentes gêneros textuais (legislação, artigo especializado e notícia midiática). Como resultado são apresentadas as diferenças categoriais e vazios conceituais entre os gêneros. Palavras-chave: terminologia jurídica, variação terminológica conceitual, lexicologia da verticalidade.

Sessão de comunicações individuais 3 Diálogos entre Sintaxe, Semântica e Pragmática Sala 608, prédio 40

1. Funcionalismo givoniano e os PCN

Coordenadora:

Tatiana Schwochow Pimpão tatianapimpao@furg.br (ILA/FURG)

O objetivo desta proposta é estabelecer um diálogo entre Linguística e Educação mediante a aproximação de pressupostos teóricos do Funcionalismo Linguístico de orientação givoniana (GIVÓN, 1995; 2001) e as orientações oficiais dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) (2000). Ainda que o funcionalismo linguístico não se proponha a práticas relacionadas ao ensino, sua concepção de língua e de gramática, bem como alguns de seus princípios teóricos, encontram eco na orientação curricular dos PCN, segundo o qual a língua é uma atividade interindividual, maleável, heterogênea. O princípio da continuidade tópica, especialmente quanto ao subprincípio da quantidade, pode contribuir com o ensino-aprendizagem de conteúdos gramaticais, como o estudo da categoria sujeito (simples, composto e oculto) e da estrutura interna do sintagma nominal,

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especificamente os artigos. O princípio da continuidade tópica diz respeito à manutenção de um referente/tópico no discurso, e esse referente, antes de ser mantido, deve ser apresentado ao interlocutor e, se houver outros referentes, poderá ser retomado. A sintaxe, nesse sentido, é percebida como uma estratégia de organização de enunciados para um determinado fim comunicativo. Dessa forma, o usuário da língua organiza as informações do discurso a cada enunciado, por meio de sintagmas nominais, que, em geral, funcionam para apresentar e retomar um referente; e vazios para manter o tópico. Percebe-se a sintaxe como parte constitutiva do discurso, e, desse modo, a escolha do tipo sujeito não se resume a uma escolha livre entre preencher ou não a posição de sujeito; essa escolha, ao contrário, é motivada discursivamente. Como, em um texto narrativo, um referente é apresentado, mantido e retomado, o princípio da continuidade tópica situa-se como uma categoria não marcada. É nessa relação que os conteúdos gramaticais de sujeito e artigo se fazem presentes e, a partir dessa relação, práticas de ensino podem ser propostas para ressignificar o ensino-aprendizagem. Palavras-chave: funcionalismo, PCN, gramática.

2. Estruturas interrogativas no português brasileiro: um estudo gramatical das perspectivas GT e GD

André da Luz Pereira andre.luz@acad.pucrs.br (PUCRS)

Embora o modelo declarativo seja o padrão mais usado em explicações gramaticais, a ocorrência de estruturas interrogativas em estudos linguísticos e gramaticais é constante tanto na abordagem tradicional quanto na abordagem descritiva. Entretanto, abordagens descritivas, mais recentes, criticam as abordagens tradicionais de uma forma geral. Neste sentido, é objetivo deste estudo comparar as duas abordagens em caráter introdutório, especialmente em relação às estruturas interrogativas. Assim, busco investigar se a abordagem descritiva contempla mais fenômenos em suas abordagens do que a abordagem tradicional. Partindo da perspectiva da Gramática Tradicional (GT), realizo um levantamento sobre as estruturas interrogativas e em uma gramática representativa do modelo. Por outro lado, analiso a abordagem de uma Gramática Descritiva (GD), que se propõe mais científica do que a GT, a fim de verificar os avanços no tema específico. Esta

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análise acaba por identificar as contribuições de cada uma das perspectivas para os estudos das estruturas interrogativas no Português Brasileiro (PB). O estudo analisa criticamente a organização do assunto das interrogativas nos dois modelos, buscando construir um diálogo entre as duas abordagens que são frequentemente apresentadas como contraditórias. Preliminarmente, defendo que a crítica da abordagem descritiva à gramática tradicional funciona como uma mola propulsora para os estudos descritivos. Neste sentido, é possível afirmar que as explicações propostas pela GT são, em geral, insuficientes para contemplar a totalidade dos fenômenos encontrados em textos, especialmente pela priorização dos estudos de estruturas oracionais. Já a GD é mais abrangente quanto aos fenômenos, mas ainda precisa fazer adequações em suas descrições, especialmente para contemplar o modelo básico de estruturas interrogativas: interrogativas fechadas (sim/não) e interrogativas abertas (interrogativasQ). Palavras-chave: estruturas interrogativas, gramática tradicional, gramática do português brasileiro.

3. Linguagem e cognição: a interface do processamento sintático através de um experimento de produção de sentenças do PB

Mariana Terra Teixeira mariana.terra@acad.pucrs.br (PUCRS)

A interação entre linguagem e cognição é, há muito tempo, foco de estudos linguísticos. Com o intuito de desvendar como o conhecimento linguístico interage com a cognição humana, surge a psicolinguística, resultado da interface entre a Psicologia Cognitiva, área que estuda a natureza e o funcionamento da cognição humana, e a Linguística, área que estuda a linguagem. Neste trabalho, temos como objetivo descrever, através de um experimento de produção de sentenças, os processos psicológicos envolvidos no processamento de sentenças ativas e passivas do português brasileiro. Nosso experimento é baseado no paradigma de priming sintático de Segaert (2011). Priming sintático é o efeito de repetir a estrutura de uma sentença processada anteriormente (SEGAERT, 2011; 2013). Em geral, na oralidade, produzimos mais frases na voz ativa. Entretanto, aumenta-se a probabilidade de alguém produzir uma estrutura passiva como “A mulher foi ajudada pelo homem” se for lhe dado, em um momento anterior, um priming passivo,

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como a sentença “O menino foi fotografado pela menina”. Neste trabalho, investigaremos o efeito de priming sintático com crianças e adultos falantes de português brasileiro. O experimento será aplicado, pela primeira vez, com crianças. Os participantes do presente estudo são crianças entre 8 e 12 anos matriculadas em escolas públicas vinculadas ao Projeto ACERTA (Avaliação de Crianças Em Risco de Transtorno de Aprendizagem), do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, e adultos acima de 18 anos, estudantes de graduação da PUCRS. Os objetivos desta pesquisa são: (i) verificar o efeito de priming sintático em português brasileiro; (i) identificar o efeito de priming sintático em crianças, já que, com 8 anos, já adquiriram a estrutura de sua língua (CHOMSKY, 1965); e (iii) colaborar para o entendimento da natureza da linguagem humana e para o diálogo entre postulados linguísticos teóricos e experimentos psicolinguísticos. Palavras-chave: psicolinguística, sentenças passivas, produção.

4. Desafios na anotação automática morfossintática de corpus de língua falada

Mônica Rigo Ayres monicarigoayres@hotmail.com (PUCRS)

A etiquetagem automática morfossintática é uma ferramenta que pode ser útil para a investigação linguística porque, em uma época em que a tecnologia auxilia pesquisas em vários âmbitos da ciência, é preciso que os estudiosos se familiarizem com as possibilidades de otimizar seu trabalho, utilizando ferramentas através do computador. Um etiquetador morfossintático automático nos permite submeter um texto e conseguir, automaticamente, que as palavras sejam uma a uma etiquetadas conforme sua categoria, por exemplo, verbo, artigo, adjetivo etc. Assim, nosso trabalho pretende contribuir com a melhoria do etiquetador automático morfossintático Aelius, desenvolvido originalmente pelo prof. Dr. Leonel Alencar, da Universidade Federal do Ceará, coordenador do projeto CompLin Computação e Linguagem Natural. As etiquetas utilizadas no Aelius são as mesmas do corpus do português histórico Tycho-Brahe (corpus eletrônico já anotado). Os textos que utilizamos para a anotação são do banco do projeto Varsul, que estuda a variação linguística na região Sul do Brasil. Trabalhamos com anotação automática de 20 textos, contendo 154.530 palavras.

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Revisamos manualmente a anotação automática feita pelo etiquetador, e acabamos descobrindo vários desafios na anotação, já que o corpus de língua falada possui particularidades não encontradas na língua escrita, por exemplo: onomatopeias, marcadores conversacionais, interjeições e aféreses. A partir dos erros do etiquetador, buscamos depreender certos padrões de anotação para superar limitações apresentadas pelo programa, a fim de que possa ser elaborada uma nova versão do etiquetador que dê conta das limitações apresentadas, tendo assim maior acurácia na etiquetagem. Esperamos que o Aelius possa ser utilizado para anotação de corpora de língua falada, além de corpora de língua escrita - que ele já etiqueta satisfatoriamente. Dessa maneira, com os resultados alcançados, almejamos dispor à equipe do Varsul um etiquetador automático de qualidade e gratuito. Palavras-chave: etiquetagem automática, etiquetagem morfossintática, linguística de corpus.

5. Habilidade metalinguística pragmática em crianças em idade escolar

Talita dos Santos Gonçalves talita.goncalves@acad.pucrs.br (PUCRS/ Capes)

Este estudo encontra-se no espaço de interação entre estudos da Psicolinguística, no que diz respeito à consciência metalinguística pragmática; e em estudos da Pragmática, no que tange à compreensão do dêitico ‘aqui’ e

de um ato de fala ilocutório/perlocutório direto. O objetivo foi traçar uma

reflexão sobre o comportamento metalinguístico pragmático de crianças em idade escolar em relação à compreensão de uma promessa em tom de ameaça e um mecanismo de localização espacial do diálogo. Essa habilidade metalinguística consiste na capacidade do indivíduo de refletir sobre os aspectos contextuais que determinam o uso da língua, bem como de manipular informações advindas dessa relação (GOMBERT, 1992). Por exemplo, para compreender um ato de fala, os falantes se apoiam tanto em informações linguísticas quanto no contexto onde a interação verbal ocorre.

O ato de fala ilocucionário (AUSTIN, 1962; SEARLE, 1979, 1981) é um

exemplo dessa relação, já que o contexto e as informações linguísticas determinam/desencadeiam a realização de uma ação. Além desse exemplo, o

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uso de dêixis de lugar (LEVINSON, 2007) indica a localização onde ocorre a interação verbal, permitindo observar a relação entre o enunciado e o contexto de onde se fala. Os participantes da pesquisa foram oito crianças entre sete e dez anos de idade, alunos de uma escola municipal da cidade de Jaguarão/RS. Como instrumento, foi aplicada uma tarefa contendo duas situações interativas, adaptadas de uma investigação sobre o processamento inferencial e a compreensão de implícitos (FLÔRES et al., 2013). Os participantes apreenderam, de alguma forma, as informações contextuais para atingir a compreensão do dêitico ‘aqui’ e o ato de fala de promessa. De um modo geral, este trabalho pretende auxiliar nas reflexões sobre as habilidades metalinguísticas em crianças e também contribuir com discussões no campo da Pragmática. Palavras-chave: consciência metapragmática, pragmática inferencial, crianças.

Sessão de comunicações individuais 4 Estudos da linguagem e Abordagem ergológica Sala 611, prédio 40

1. Entre o prescrito e o realizado: a comunicação na atividade de trabalho associado

Coordenadora:

Vera Regina Schmitz vera.schmitz@ufrgs.br (UFRGS)

Esta pesquisa tem como objetivo refletir sobre o lugar da comunicação na atividade de trabalho associado, buscando conhecer e reconhecer a criação e recriação de novas linguagens e processos comunicacionais, perscrutando esse acontecer no modelo de organizações associativas, ligadas ao movimento da economia solidária. Para tanto, aborda o trabalho associado e seus percursos sócio-históricos; a comunicação e a comunicação organizacional, aqui entendida como espaço de conversações e trocas simbólicas; a ergologia, que traz a possibilidade de entender melhor o papel do sujeito, suas relações e valores balizadores da ação consigo e com o outro. Traz autores como Paul Singer, Dominique Wolton, Patrick Charaudeau, Yves

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Schwartz e Roseli Fígaro. Apresenta alguns excertos originados de um estudo de caso realizado em uma cooperativa de produção autogestionária. Para coleta e análise de dados foram utilizados recursos metodológicos de observação direta e entrevistas semiestruturadas e como técnica de análise, a análise de conteúdo. Evidenciam-se, no exercício do trabalho associado, diferentes espaços de diálogo, formais e informais, que contribuem para a eficiência da produção e para experienciar o espaço político, que inclui o exercício da democracia e da autogestão. Também traz contribuições para a discussão da comunicação no mundo do trabalho, que permite perceber como se constituem os coletivos do trabalho que estão fora da estrutura de poder estabelecida pelas cooperativas, como os sujeitos fazem suas escolhas para a resolução de problemas e as redes de solidariedade e ajuda-mútua que são construídas nos espaços do trabalho. Palavras-chave: trabalho associado, comunicação, ergologia.

2. Trabalho e gestão organizacional discurso e conflitos históricos do trabalho

Lucia Helena Alencastro luciah.alencastro@gmail.com (PUCSP)

É possível considerar que o trabalho existe desde os primórdios da humanidade, embora ao longo da história tenham ocorrido diversas mudanças estruturais e conceituais, reinventando-o e desenhando inúmeras possibilidades de ser e de fazer o trabalho humano. A gestão organizacional, bastante difundida e abordada nas últimas décadas resulta em uma destas mudanças e tem se consagrado como tema central da categoria trabalho. Assim, a presente reflexão buscou compreender o trabalho humano tomando por base os discursos produzidos pelos principais modelos de gestão organizacional difundidos no Brasil, especificamente no meio acadêmico. Tomou-se como referência central a análise do discurso, especificamente as condições de produção do discurso (CP). Compreende-se que reflexões pautadas nas condições de produção do discurso devem considerar as determinações históricas desse discurso e igualmente os efeitos de sentido que provocam mudanças na realidade na qual ele é produzido. Segundo as proposições teóricas defendidas por Pêcheux, o sentido das palavras não se encontra dado a priori a partir de seu

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significante, ao contrário, participam diretamente posições ideológicas presentes na dinâmica sócio-histórica do contexto de produção e reprodução destas palavras, expressões e proposições (AMARAL, 2005, p. 28). Para tanto, o corpus se constituiu de sequências discursivas obtidas de um conjunto de textos sobre modelos de gestão organizacional, pelos autores mais utilizados no meio acadêmico, especificamente nos cursos de administração e gestão nos últimos dez anos. Desta forma, foi possível compreender os processos de gestão, a partir dos condicionantes históricos, sociais e econômicos e as relações de força presentes nos discursos constituídos e constituintes nestes processos. Além disso, surgiu a possibilidade de dimensionar com maior clareza a origem de alguns dos construtos teóricos centrais à gestão organizacional, como também compreender suas implicações na organização atual do trabalho e, consequentemente, na atividade de trabalho dos atores sociais que vivem do trabalho. Palavras-chave: trabalho, gestão, condições de produção do discurso.

3. A complexidade do campo do currículo: um olhar para a disciplina de língua portuguesa

Nara Caetano Rodrigues nacaetano@yahoo.com.br (UFSC)

O campo do currículo tem se mostrado uma arena na qual se explicitam diferentes visões de mundo, de escola, de sujeito, de linguagem, de ensino e aprendizagem, de avaliação, de conteúdos de ensino entre outras. Nosso foco, na presente comunicação, diz respeito aos embates travados, em diferentes esferas, no que se refere à constituição da disciplina de língua portuguesa nas escolas brasileiras. Essa é uma questão que tem inquietado pesquisadores das áreas da educação e da linguística aplicada, tendo em vista principalmente as dificuldades constatadas na implementação das indicações de documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais. Em um primeiro momento, traçamos um panorama das diferentes instâncias de objetivação do currículo, a fim de compreender a correlação de forças que se estabelece na escolha dos conteúdos de ensino que constituem determinada disciplina escolar, focando mais especificamente a disciplina de língua portuguesa. Em um segundo momento, analisamos o discurso de professores de uma escola pública do município de Florianópolis, procurando

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auscultar as vozes que dão a tessitura a esse discurso e a correlação de forças que se estabelece nas diferentes instâncias discursivas nas quais se efetivam os diferentes níveis do currículo da disciplina. A abordagem teórico- metodológica de referência é a teoria/análise dialógica do discurso, proveniente dos estudos do Círculo de Bakhtin e seus seguidores. Também são agenciados fundamentos de estudos da área do currículo, da história das disciplinas escolares e da história da disciplina de língua portuguesa. Palavras-chave: currículo, análise dialógica do discurso, disciplina de língua portuguesa.

4. Gestão dos usos de si na atividade laboral: tensões evidenciadas nos discursos em editoriais de um jornal de empresa

Gislene Feiten Haubrich gisleneh@gmail.com (Feevale)

Ao tratar da interação verbal, Bakhtin (2011) atesta que todo texto é dialógico. Tal premissa, no entanto, é por vezes desconsiderada na produção dos discursos organizacionais, visto que o caráter informacional parece tentar subtrair a dimensão da alteridade na construção de sentidos. Mesmo inerente, a perspectiva sociocultural do trabalho é secundária às estruturas da enunciação na comunicação organizacional. Tal cenário conduz a proposição deste estudo: compreender como as tensões da gestão dos usos de si, na atividade laboral, são evidenciadas no ato de linguagem da empresa Hera. A fundamentação teórica é constituída por apontamentos acerca do uso de si pelo outro (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007), que implica normalizações, aspecto que assume evidência nos editoriais e, também, circunscreve possíveis aberturas às renormalizações perante o uso de si por si (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007). A ocorrência de tensão entre os usos de si perante as relações de poder (GALBRAITH, 1989; FOUCAULT, 2007) norteia o esboço de uma identidade projetada pelo sujeito enunciador quanto ao sujeito destinatário, expressa no discurso do sujeito comunicante. No âmbito discursivo, são considerados o ato de linguagem, o contrato de comunicação e as estratégias de organização discursivas (CHARAUDEAU, 2010). Trata-se de um estudo de caso, com abordagem qualitativa ancorada na análise teórico- ergo-discursiva. O corpus é composto por editoriais do jornal da empresa, publicados no período de janeiro/2012 a junho/2014. Como resultado

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principal pode-se apontar que o discurso da Hera seja normatizador, na intenção de restringir espaços do dizer e para produzir efeitos de “verdade”, além de outorgar aos trabalhadores a vigilância uns dos outros, aspectos que tendem a estimular a competitividade. As possíveis coerções emanadas do “dizer para fazer” e a crença de que as prescrições atenderiam às necessidades interacionais dos sujeitos na atividade laboral podem reduzir a comunicação organizacional a simples simulacros de produtividade no desempenho das organizações. Palavras-chave: jornal de empresa, atividade laboral, ato de linguagem.

5. A cultura e o comportamento linguageiro do líder como um discurso da identidade de marca

Rosana Vaz Silveira rosanavaz@feevale.br (Feevale) Ernani Cesar De Freitas ernanic@feevale.br (Feevale)

Este estudo tem por objetivo reconhecer se a cultura e o comportamento linguageiro das lideranças empresariais, que devido ao sistema de coerções provocados pela relação Eu (gestor) X Outro (empresa) constituem sua formação discursiva na identidade de marca. O estudo baseia-se na fundamentação teórica defendida por Maingueneau (2008), onde o Eu e seu Outro são indissociáveis enquanto formação discursiva. Utiliza-se a concepção de marca como linguagem na produção de sentido (BAKHTIN, 1992) em interface com o conceito de representação proposto por Charaudeau (2006), o qual investiga as três razões sociais: a organização do sistema de valores, a exibição de rituais que constroem a identidade e a encarnação do objeto simbólico. Como metodologia, este trabalho propõe uma abordagem discursiva, de interação entre sujeitos sócio-históricos, mediante a observação do comportamento, manifestado na interação verbal, do gestor e da cultura organizacional da empresa sob o universo, o campo e o espaço discursivos considerando a identidade de marca como competência discursiva, a que Maingueneau entende como uma interação semântica entre os discursos. Desse modo, tensiona-se a discussão nos exemplos de empresas que transparecem características comportamentais linguageiras como estratégias de vendas aplicadas por grandes marcas, de acordo com

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estudos de Lindstrom (2012). As hipóteses que contemplam a problemática decorrem de como o poder comportamental linguageiro do gestor pode refletir no espectro simbólico da empresa, atribuindo valores e identidade cultural representativa para o discurso da marca, assim como a corporação constrói, através das coerções situacionais, um espaço de discurso capaz de tornar o Eu e o Outro no Mesmo do Discurso. Palavras-chave: marca, linguagem, discurso.

Sessão de comunicações individuais 5 Escrita Criativa A Sala 606, prédio 40

1. Projeto Balbúrdia: escrita criativa no espaço de fronteira

Coordenadora:

Renata Silveira da Silva resilv@gmail.com (Unipampa) Sandro Martins Costa Mendes sandromcm@gmail.com (Unipampa/PUCRS)

A presente pesquisa pretende acompanhar a realização e os resultados da segunda edição do projeto de extensão Balbúrdia na Escrita Criativa, promovido pelo Programa de Educação Tutorial (PET) Letras da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Campus Jaguarão. A edição em análise tem como tema o “Espaço”. O projeto é desdobramento de outro, também de extensão, realizado quinzenalmente no ano de 2012, coordenado pelos autores desta pesquisa. O Balbúrdia se caracterizava em discutir um tema através de leituras teóricas e literárias, vídeos, músicas e dinâmicas, apresentando pontos de vista em diversos campos de estudo, cultura erudita e popular. Com treze edições em 2012, percebeu-se que havia a possibilidade de criar atividades de ensino (realizando, em 2013 e 2014, o Balbúrdia na Língua Portuguesa) e também de escrita criativa, visto que alunos criavam poesias, esquetes teatrais e vídeos para as edições do projeto. Por isso, em 2015, criou-se o Balbúrdia na Escrita Criativa, com três edições previstas, sendo a primeira ocorrida em maio, com o tema Tempo. Em agosto, o tema será Espaço. Por ser uma universidade inserida no contexto da fronteira, os estímulos teóricos, sensoriais e culturais que serão

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apresentados nos primeiros 45 minutos de encontro tratarão do espaço da fronteira, pensando esse “entrelugar” e também questões como “circulação urbana”, “mobilidade linguística”, “transnação”, entre outros verbetes do Dicionário das Mobilidades Culturais (BERND, 2010). Ao discutir espaço urbano (CERTEAU, 2011) e espaço sonoro (SCHAFFER, 2011), há a intenção da escrita de textos criativos que discutam mobilidades, choque de culturas e pensem o espaço de fronteira, aproveitando que muitos participantes são alunos vindos de todas as regiões do país. Espera-se envolvimento e resultados, como na primeira edição, quando 18 participantes escreveram dois textos individuais, cada um, e três textos coletivos. Palavras-chave: escrita criativa, fronteira, mobilidade cultural.

2. Criativo ou padronizado: o fazer literário contemporâneo

Emir Rossoni emir.rossoni@acad.pucrs.br (PUCRS)

Este trabalho visa discutir as formas de criação literária e as razões que levam o escritor a realizar seu ofício. Ernest Hemingway, Prêmio Nobel de Literatura de 1954, tinha fama de escrever em pé. Simenon isolava-se e permanecia assim até terminar o trabalho que levava em média duas semanas; no final desse tempo, o autor estava tão exausto que necessitava de atendimento médico. Através desses clássicos foi-se buscar exemplos próximos de como escrevem os contemporâneos e quais suas inspirações. Entre essas inspirações, e de forma bastante crescente, estão as oficinas literárias. Através da leitura do livro de José Hidelbrando Dacanal Oficinas Literárias:

Fraude ou negócio sério?, fez-se uma análise e buscou-se um contraponto. Dacanal classifica as oficinas literárias numa crítica ferrenha. Em contrapartida, Pedro Gonzaga, escritor e professor de oficina, deu uma entrevista sobre os métodos de criação e inspiração que usa para escrever e também respondeu sobre o processo de professor de oficina. Dacanal e Gonzaga são expostos e confrontados. Para isso, foram usadas teorias de Barthes, Carlos Reis, Ramon Nieto, Dante Moreira Leite e Milan Kundera. Palavras-chave: oficina literária, criação literária, literatura contemporânea.

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3. Bóris e Dóris: algumas notas sobre o diálogo

Guilherme Azambuja Castro guilherme.castro.001@acad.pucrs.br (PUCRS)

Em um capítulo de Para ler como um escritor: um guia para quem gosta de livros e para quem quer escrevê-los, Francine Prose discorre sobre a técnica de escrever diálogos. Prose analisa trechos de obras (romances e contos) de escritores norte-americanos e britânicos sobretudo, Henry Green , expondo o que, sob o seu ponto de vista, são diálogos bem escritos ou seja:

dinâmicos, econômicos, capazes de por si só delinearem o caráter dos personagens, e que podem esconder um subtexto: uma intenção apenas sugerida pela fala superficial e mal escritos aqueles que, dentre outras falhas, pretendem apenas imitar a fala real, e por isso apresentam hesitações, banalidades, clichês. Segundo Prose, são ainda falhos os diálogos utilizados como mera exposição da trama ou dos personagens, “em benefício do leitor”. Em outro ensaio, no livro organizado pela escola de escrita criativa de Nova York, Gothams’ Writer Workshop, intitulado Escribir ficción (tradução ao espanhol, do inglês Writing fiction), Allison Amend também analisa a técnica de escrever diálogos. E, para tanto, assim como Prose, também utiliza trechos de obras reconhecidas. Aqui, pretendemos nos concentrar na abordagem sobre o equilíbrio que, segundo Amend, deve haver entre narrativa (representação dos personagens em seus movimentos) e diálogo (representação direta da fala), ou seja: quando funciona o diálogo por si só, e quando não funciona. Portanto, pretendemos comparar as sugestões de escrita trazidas por Francine Prose e Allison Amend, comentando os pontos convergentes e divergentes, para em seguida trazer como ilustração a novela Bóris e Dóris, do brasileiro Luiz Vilela, cuja trama é construída unicamente sobre o diálogo entre os protagonistas. Ao lermos com atenção a novela, podemos visualizar o uso da técnica em suas múltiplas funções: o desenvolvimento da identidade dos personagens, suas intenções (expressas e veladas), por exemplo, e como, se bem aplicada, pode ser eficaz na propulsão da trama. Palavras-chave: diálogo, trama, escrita criativa.

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4. Livros high-tech: reflexões sobre a nova experiência literária- tecnológica

Iuli Gerbase iuli.gerbase@acad.pucrs.br (PUCRS)

As inovações tecnológicas, além de transformarem nosso trabalho, rotina e relacionamento pessoal, também afetam a arte. A literatura, embora menos propensa a influências tecnológicas que o teatro, música ou cinema, vem recebendo nos últimos anos inúmeras tentativas de implementação deste campo. O digi-novel, por exemplo, é o livro que conta com vídeos que ilustram certos trechos, complementando a experiência literária do leitor com um artefato audiovisual facilmente acessível pela internet. Alguns livros já utilizaram suplementos tecnológicos como webcam, GPS, internet, DVD e mp3 para estender a outras plataformas o universo da trama. Um caso distinto, mas significativo para esta discussão, são as franquias que começam com livros tradicionais, que se sustentam apenas com palavras impressas no papel, mas têm suas histórias adaptadas para o cinema, muitas vezes em filmes de produções milionárias com efeitos visuais de última geração. A presente comunicação tem como objetivo refletir quais seriam as possíveis mudanças que estas novas tecnologias podem trazer tanto para o escritor no momento da produção literária quanto para as novas gerações de leitores. Essa reflexão é feita à luz do livro The Writing Life, de Anne Dillard, do artigo “Young Adult Literature Goes Digital: Will Teen Reading Ever Be the Same?”, de Susan L. Groenke e Joellen Maples e através da investigação dos dados de lançamento e sucesso comercial dos aqui nominados “livros high-tech”. Como resultado, temos o levantamento de possíveis desdobramentos que estas novidades trarão para a criação e o consumo da literatura. Palavras-chave: literatura, tecnologia, escrita.

5. Imagens criadoras

Nadja da Silva Voss nadjavoss@gmail.com (PUCRS)

mais

especificamente da imagem simbólica, percebe-se a dificuldade, ou até

Já no primeiro momento

em

que

se

tenta

falar

da

imagem,

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mesmo impossibilidade de conceituá-la de forma fixa. A imagem simbólica

não pode ser decifrada completamente, não pode ser colocada no campo da razão como signo duro. Ela acontece ao ser, e, nesse acontecer, abarca o ser

e permite a ele se perder na esfera de energia psíquica. Estamos falando aqui

das imagens endógenas, que ocorrem no interior, e não das imagens exógenas, técnicas, segundo as definições de Hans Belting. Buscamos o interno, a criação e, assim, através de documentos de processo de criação, a imagem que, pela energia, faz surgir um processo psíquico, ou seja, o diálogo entre a imagem e o criador, ou mais, o diálogo entre imagens, que ocorre no processo de criação. A imagem só pode ser suportada interiormente, onde já não se pode perguntar por fundamentações lógicas, e por isso é transformadora, reintegrando o que nós temos de esfacelado, de partido. É justamente essa partição que permite o acesso da imagem ao interior, e é o jogo entre esfacelamento e reintegração que permite ao artista acessar as imagens que perfazem e permitem o seu processo. Buscamos assim, por meio de conceitos acerca do imaginário e do processo de criação, tendo principalmente em conta as definições de Gilbert Durand e Philippe Willermart, compreender a imagem em diálogo no momento da criação artística, e sua presença na obra como um todo. Palavras-chave: imagem, símbolo, criação.

6. O que pesa no norte: um romance em processo

Tiago Dantas Germano tiago.germano@acad.pucrs.br (PUCRS)

O trabalho pretende investigar questões pertinentes à criação literária à luz

do processo de composição do romance O que pesa no Norte, objeto de estudo de minha pesquisa de mestrado na área da escrita criativa. Dialogando com a crítica genética de Pierre-Marc de Biasi, Almuth Grésillon, Philippe Willemart e Cecília Almeida Salles, bem como com as teorias sobre a narrativa e a criação ficcional, de filósofos como Aristóteles, escritores como J. M. Coetzee e Antonio Dutra, além de autores de manuais de escrita como Robert J. Ray e Natalie Goldberg, recorremos aos manuscritos da obra em

progresso para examinar as técnicas aplicadas e as influências incorporadas ao longo da escritura do romance. Analisando os primeiros esboços do enredo, uma história sobre a procura de um pai por um filho desaparecido,

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cotejamos também a presença do tema na tradição literária e sua representação na literatura contemporânea. Palavras-chave: criação literária, processo de composição, manuscritos.

Sessão de comunicações individuais 6 Escrita Criativa B Sala 607, prédio 40

1. Narrativa, ficção, autobiografia e outras fronteiras entre literatura e arte contemporânea

Coordenador:

Reginaldo da Luz Pujol Filho reginldo_pujol@yahoo.com.br (PUCRS)

Apresentarei as questões norteadoras de meu projeto de doutorado em Escrita Criativa surgido de indagações como: quantas vezes ficamos mais tempo lendo textos numa exposição de arte contemporânea do que observando os objetos? É como se executássemos o percurso Olho a obra Leio o texto Vejo a obra, pensando a imagem da arte em consonância com

Louis Marin: “economia paradoxal de Sentido (

discursiva”. Esta questão primordial me leva a outra indagação, mote de meu projeto de investigação: seria possível fazer um percurso alternativo? Apenas lendo textos expositivos, chegaríamos a ver, imaginar algo próximo do objeto que nos ajudam a ver? A palavra conseguiria “ativar o cinema mental do

leitor”, como propôs Calvino no capítulo visibilidade das propostas para o novo milênio? Ou nos comportaríamos como se diante de micronarrativas? Nesta apresentação, não pretendo responder tais perguntas, mas, sim, apresentar as propostas de criação que pretendo desenvolver em meu projeto de escrita criativa para investigar o lugar da palavra na arte contemporânea, seu poder de fazer ver, em tempos de saturação de imagens, o lugar da biografia (valorizada na compreensão da arte conceitual e tão polêmica na avaliação literária, desde A morte do autor, de Barthes). Quero assim apresentar minha proposta híbrida, posicionada entre artistas que usam palavra e narrativas (Joseph Kosuth, Lawrence Weiner, Elida Tessler, Michel Zózimo) e escritores que dialogam com a arte para escrever (Enrique Vila-Matas, Borges & Bioy Casares, Gonçalo M. Tavares

simbólica, semiológica,

Borges & Bioy Casares, Gonçalo M. Tavares simbólica, semiológica, ), Dialogue Under Occupation VII 989898
Borges & Bioy Casares, Gonçalo M. Tavares simbólica, semiológica, ), Dialogue Under Occupation VII 989898

),

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Apresentarei nesta comunicação minhas hipóteses criativas, método de trabalho e o que pretendo produzir nesta investigação tautológica (ao gosto do artista/pensador Joseph Kosuth, que afirma a função tautológica da arte:

pensar a arte). Ou seja, tentarei demostrar como pretendo, através da prática literária e artística, indagar onde estão ou se ainda existem fronteiras entre os campos literário e da arte conceitual. Palavras-chave: escrita criativa, arte contemporânea, literatura.

2. A pulsão da escrita feminina: ensaio passos na narrativa autoficcional

Olívia Scarpari Bressan oliviascarpari@gmail.com (PUCRS)

Escrevo. Reescrevo. Tento uma, duas, três, infinitas vezes. A caneta resiste em continuar dando corpo à narrativa. Tomba, combalida. Me calo e me calo outra vez. As medusas se multiplicam, mas seus-meus gritos são surdos. Por que tanto silêncio? Este trabalho fala do percurso criativo na escritura de uma narrativa autoficcional de autoria feminina e também de um processo catártico, acerto de contas com a criação literária: escrita como modo de salvar da neurose e também como desafio de constructo de linguagem. Durante o trajeto, porém, alguns percalços: como lidar com a autocensura das temáticas abordadas e com a precariedade da palavra, que por tantas vezes é mais adequada para os homens do que para mulheres? A escrita feminina constitui um ponto de tensão entre o desejo de escrever e uma sociedade que manifesta, em relação a esse desejo, uma hostilidade sistemática ou uma forma atenuada ironia ou depreciação. O resultado são menos mulheres escrevendo 72% dos escritores publicados pelas três maiores editoras brasileiras são homens, segundo pesquisa de 2012 da professora da UnB, Regina Dalcastagnè , que renunciam ao seu impulso criativo. Se, como diz Sartre, em seu autobiográfico As palavras, renunciar à escrita é renunciar a si mesmo, quando as mulheres não expressam seus próprios assuntos e deixam que os homens façam isso por elas, as questões femininas acabam sendo consideradas irrelevantes ou retratadas de maneira simplificada, pois não são os “grandes temas da humanidade”. Dessa forma, muitas autoras encontram na narrativa autoficcional uma forma de expressão de suas memórias e de suas experiências, uma vez que ao criarem

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um duplo de si, conseguem se expor, já que a autoficção não tem compromisso com a verdade é uma ficção que se inspira e joga livremente com os biografemas. Assim, lançar mão da paleta de cores oferecida pela autoficção foi a saída criadora que me permitiu escrever, fabular e achar um caminho de liberdade. Palavras-chave: escrita feminina, autoficção, impulso criativo.

3. Sobre o que fazemos: diálogo de Bernardo Carvalho com Ramón Nieto sobre o processo de criação ficcional

Rodrigo Alfonso Figueira rodrigo.figueira@acad.pucrs.br (PUCRS)

O ato de escrever é permeado de desafios que perturbam o escritor. Desde a inspiração inicial, mola propulsora da obra de ficção, passando pela rotina e método de trabalho, até alcançar o instante do questionamento sobre o papel do escritor e da própria literatura, cada momento representa um espaço de reflexão individual de diferentes autores, amadurecendo seu ponto de vista à medida que sua produção se consolida. Em NIETO (2001) são exploradas estas três questões, buscando exemplificar através da visão de autores do cânone literário (em sua maioria) a diversidade de perspectivas sobre estes elementos fundamentais à criação ficcional. No entanto, para o pesquisador da escrita criativa contemporânea, existe uma lacuna na abordagem de NIETO (2001), em função da ausência da perspectiva de um escritor do século XXI, deixando unicamente a cargo de autores clássicos a análise destas questões. Dentro desta ótica, buscou-se agregar o ponto de vista de um autor brasileiro contemporâneo ao universo criado por NIETO (2001), ampliando sua discussão e a localizando no espaço da escrita criativa brasileira contemporânea. Para tanto, realizou-se uma entrevista com o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, onde o autor expõe àqueles que se dedicam ao labor literário as suas considerações sobre a inspiração, sobre a situação ideal para a construção de uma obra e, por fim, sobre suas crenças a respeito do objetivo da literatura e do papel do escritor. Como resultado deste diálogo entre escritores de gerações distintas, obtém-se uma atualização da proposta de NIETO (2001), dando voz à literatura brasileira do século XXI no espaço de discussão da criação ficcional. Palavras-chave: Ramón Nieto, Bernardo Carvalho, escrita criativa.

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4. Henry Lawson em português: dilemas interculturais em tradução de literatura

Gustavo Arthur Matte gustavo.a.matte@gmail.com (PUCRS)

Este estudo visa relatar e problematizar o processo de tradução de alguns contos de Henry Lawson (1867-1922), autor incontornável no processo de formação de uma literatura australiana na década de 1890. Partir-se-á do pressuposto de que um texto literário é um objeto cultural criado para ser compreendido em determinado contexto histórico e cultural e que, portanto, a prática de tradução deve ser pensada muito mais como uma atividade intercultural do que meramente linguística, conforme Bassnet e Lefevere (2001). Dessa forma, baseado em sua ideia de cultural turn (a “virada cultural” dos estudos em tradução), a tradução do corpus foi realizada com rigoroso cuidado para as manifestações linguísticas diretamente relacionadas com questões históricas, econômicas, sociais e culturais tanto do contexto de origem (a Austrália do século XIX) quanto do contexto de chegada (o Brasil do século XXI). Para conduzir essa discussão, prestaremos especial atenção, dentre os diversos elementos históricos e culturais que se manifestam, em alguns que são certamente sobressalentes nos textos de Henry Lawson, quais sejam, certos termos que caracterizam tipos sociais cujos sentidos são derivados especificamente do contexto australiano, e que não encontram equivalentes na sociedade brasileira. Somente então faremos uma avaliação das implicações de optar ou não pela tradução desses elementos, considerando-se a validade de opções diversas como, por exemplo: notas de rodapé; tradução direta por supostos equivalentes aproximados em português; produção de textos de apoio. Palavras-chave: cultural turn, tradução literária, literatura australiana.

5. A estética da solidão: da milonga ao conto

Gabriel Eduardo Bortulini gabriel.bortulini@acad.pucrs.br (PUCRS)

Monótona e ondulante, a milonga parece sintetizar o pampa, seu lugar de origem. Mas só a milonga despertaria esse sentimento? Qual seria essa

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síntese transposta à literatura? A indagação surge da leitura do ensaio de Vitor Ramil (2004) intitulado A estética do frio. O autor entende o frio como o elemento diferencial entre uma “estética” do Brasil tropical e uma estética do frio, do imaginário pampeano. Mas, além do frio, nada nos distingue? Por trás do imaginário do gaúcho personagem heroico e aguerrido não haveria uma condição velada? A solidão – essa “profundeza última da condição humana”, segundo Octavio Paz (1984) – nos define e nos une ao mundo. Através dessa hipótese, surgiu este trabalho que não busca verdades: mas, acima de tudo, refletir sobre a influência do espaço geográfico no imaginário, na cultura e na produção artística deste Sul. Para isso, além do ensaio de Vitor Ramil, este trabalho apresenta a revisão bibliográfica das obras A poética do espaço (BACHELARD, 1993) e O labirinto da solidão, (PAZ, 1984). Ainda, discute dois ensaios sobre a inspiração no processo criativo: La manzana anónima de Newton y lo que de verdad expresan las historias(DUEL, 2007) e A inspiração(NIETO, 2001). Assim, o conto surge como uma narrativa que sofreu peculiares transformações no espaço e no universo do pampa. Esse espaço não gerou apenas contistas mas reflexões sobre a narrativa curta. As ideias de QUIROGA (apud FARACO e MOREIRA, 2009), CORTÁZAR (2006) e PIGLIA (2004) são aqui retomadas. O conto, então, é posto em paralelo com a milonga: duas possíveis formas para solidão dos vastos campos do Sul. Palavras-chave: espaço geográfico, criação literária, a estética do frio.

6. O ofício literário e seus processos de combustão na reescritura

Débora Ferraz debora.lais@acad.br (PUCRS)

Esta comunicação pretende abordar uma contradição patente no que concerne aos estudos de Escrita Criativa: o criador deve ou não censurar as próprias ideias antes de passá-las para o papel? Nesta pesquisa traçamos, a partir das comparações entre modos díspares de escrever, declarados por 12 escritores em entrevistas para a Paris Review, algumas considerações que as relacionam ao funcionamento da criatividade de modo geral (ou seja: a capacidade do ser humano de buscar respostas para problemas cotidianos), e o seu direcionamento quando voltado à escritura de ficção. Sob a luz dos estudos cognitivos, e amparada por autores como Don Fabun,

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Nachmanovitch e Nicolau, consideramos o que há de mais consensual entre pesquisadores: a de que a criação, em um primeiro momento, precisa acontecer livre de críticas e censuras, a fim de evitar produzir bloqueios. E a partir desta premissa, dividimos os autores em dois grupos, para melhor demonstrar a relação de cada autor com a reescrita, como, de uma forma ou de outra, o que existe pode não ser uma censura às ideias no momento inicial, e sim que o primeiro momento, o da escritura, ocorre longe do papel e sempre predeterminado pelas condições dentro das quais cada escritor se põe a trabalhar, entre seus próprios limites e suas próprias liberdades. Ao fim, pretendemos, a partir deste estudo, contribuir primeiro com um novo olhar acerca da reescritura, mas também, e de forma mais ampla, com a aproximação entre dois campos de estudo que muito dialogam: os estudos cognitivos* e a criação literária e os programas de Escrita Criativa, como importante campo de interesse acadêmico. *Os estudos cognitivos se constituíram como um amplo programa de pesquisa ao combinar esforços da neurobiologia, antropologia cognitiva e psicologia evolucionária, com a investigação nos campos das artes e das humanidades Palavras-chave: escrita criativa, criatividade, estudos cognitivos.

Sessão de comunicações individuais 7 - Literatura e cultura latino-americanas Sala 609, prédio 40

1.

brésilienne contemporaine

D'un

extrême

à

l'autre:

l'amérindien

dans

la

littérature

Coordenadora:

Cécile Sidery cecile.sidery@outlook.fr (Université Bordeaux Montaigne/PUCRS)

L’Amérindien est un des personnages clés de la littérature brésilienne. Il est présent tout au long de son histoire, quoique de façon non continue. Des chroniques des grandes découvertes au Manifeste Anthropophage des modernes, il a été l’Autre absolu, le dissemblable. Diabolisé ou idéalisé, il incarnait alors le contre-pied de la culture européenne. Qu’en est-il à présent? Le personnage amérindien est-il toujours stéréotypé? Représente-t-

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il encore une altérité radicale? Pour répondre à ces questions, ce travail de

recherche étudie la poétique de l'altérité dans la littérature brésilienne, plus particulièrement dans les œuvres qui mettent l'Amérindien en scène dans le monde contemporain. En établissant une étude des rapports interculturels issus de la rencontre des civilisations, ce travail invite à une réflexion sur les rapports à l’Autre. La manière dont est caractérisée la présence simultanée de ces deux univers, représentés comme deux pôles opposés, est très

révélatrice. En effet, le choc culturel qui en découle a de nombreuses conséquences: il invoque les mirages du passé et de l'Histoire, provoque le repli sur soi et même dans certains cas, la mort. Ceci met en exergue l'effet de miroir qui naît de la représentation de la marginalité amérindienne: non seulement elle lève le voile sur les paradoxes de la société contemporaine, mais elle interroge aussi le rôle de l'écriture et suscite un questionnement plus narcissique et également universel sur la condition de l'homme. Mots-clés: littérature contemporaine, amérindien, Brésil.

2. Mães e filhos na literatura hispano-americana: conflitos e (não) diálogos entre gerações

Pedro Afonso Barth pedroabarth@hotmail.com (UPF) Rafaelly Andressa Schallemberger rafaellyandressa@hotmail.com (UPF)

Relações entre mães e filhos podem ser permeadas de conflitos e embates. Na literatura, podemos encontrar exemplos de relações que podem nos ajudar a tecer reflexões e problematizar questões sobre conflitos de gerações. O presente trabalho propõe-se a analisar dois textos literários em que confrontos de mães e filhos possuem uma centralidade narrativa: o romance mexicano Como água para chocolate, de Laura Esquivel (2009) e o conto A Rogação, do escritor paraguaio Augusto Roas Bastos (1968). Ancoraremos nossas reflexões em Michelle Pèrrot (1991), Pierre Bourdieu (2014), Michèle Petit (2008) e Zygmunt Bauman (2003). No romance de Esquivel temos um embate de gerações: uma mãe dominadora tenta sufocar

a feminilidade de sua filha. Já no conto de Roa Bastos, a mãe, seca de

palavras e carinhos, tenta impedir a imaginação da filha. Confrontaremos as narrativas e verificaremos a dinâmica das relações entre mães e filhos e as

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consequências da ausência/presença do diálogo entre gerações. Ao final do trabalho, concluímos que ambas as narrativas, apesar de retratarem diferentes realidades em diferentes contextos, tematizam a importância do diálogo por meio de relações extremas: mães tentam impedir a autonomia de pensamento de suas filhas, assim são proibidas de fazer suas próprias escolhas, de sonhar, de imaginar uma nova realidade. Verificamos assim o quão perigosa é a ausência de diálogo para construção da individualidade. Pontuar tais questões em obras literárias hispano-americanas é duplamente importante, pois além de auxiliar na divulgação da literatura de países como o Paraguai e o México, permite refletir sobre a universalidade das relações entre mães e filhos. Palavras-chave: literatura hispano-americana, diálogos, representação feminina.

3. Medianeras: Buenos Aires em tempos de globalização

Michele Neitzke michele@neitzke.com.br (URI/FW)

Esta comunicação abordará a representação das identidades híbridas, que surgem em decorrência da globalização, na obra fílmica Medianeras: Buenos Aires da era do amor digital (Medianeras 2011) do cineasta argentino Gustavo Taretto. Objetiva-se identificar e analisar o processo de globalização enfrentado pela sociedade contemporânea e sua representação no filme em um contexto sociocultural urbano e cosmopolita a fim de analisar as mudanças sofridas pela sociedade em decorrência dessa globalização. Para desenvolver esta proposta, foi adotada a pesquisa bibliográfica e a análise da obra em si. O estudo está amparado teoricamente em proposições acerca de culturas híbridas produzidas através da globalização, conforme Néstor Garcia Canclini, bem como em relação à globalização e aos gêneros cinematográficos, apontados por Octavio Gentino, e a representação de realidade latino-americana no cinema, a partir de Darcie Doll. Nesta análise, constata-se que é muito forte a influência estrangeira e hegemônica sofrida pelas culturas latino-americanas através da globalização, que se reflete na configuração de suas identidades. Palavras-chave: gobalização, hibridismo, Medianeras.

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4.

Lavadeiras, costureiras, malandros, compadritos: dois olhares

sobre subúrbios latino-americanos na passagem para o século XX

Gabriela Hardtke Böhm gabohm@uol.com.br (UFSC)

Um dos espaços simbólicos mais ricos da América do Sul, o subúrbio portenho do início do século XX, também denominado como as orillas da cidade, guarda um universo de tipos e de práticas que serviu de matéria para os primeiros livros de Jorge Luis Borges, sem deixar de permear seus escritos até os anos 70. Um desses livros foi dedicado ao “cantor do subúrbio portenho” que, muito além de um personagem de Borges, foi um poeta que eternizou, na memória de muitos leitores, esse espaço há muito desaparecido: Evaristo Carriego (1883 1912). Na mesma época, no Brasil, o subúrbio carioca começava a surgir para a literatura pela pena de Lima Barreto (1881 1922). Trata-se, assim, de dois espaços periféricos que dividiram essa condição, durante muito tempo, com seus “descobridores” para a literatura. Consagrado atualmente, Lima Barreto tem sua obra amplamente discutida pela crítica, enquanto que o poeta argentino ainda se encontra a meio caminho desse processo. Assim, numa perspectiva comparativista, o trabalho enfoca quatro tipos que emergem desses espaços simbólicos, a saber: a costureira e o compadrito do bairro carrieguiano; a lavadeira e o malandro do subúrbio barretiano. Assim, por meio de pesquisa bibliográfica e pautando-se em contribuições da história social (SCOBIE, 1977; CARVALHO, 1987; MUMFORD, 1982), geografia (ABREU, 1997; FERNANDES, 2011) e da sociologia (PRIGNANO, 2008), o principal objetivo da análise é verificar como ambos os autores constroem a representação do subúrbio em cada um dos universos ficcionais/poéticos. Palavras-chave: subúrbio, América Latina, literatura.

5. A representação da figura histórica no romance A solidão

segundo Solano López

Fernanda Barros de Oliveira fernanda.barros@acad.pucrs.br (PUCRS)

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Há muito se fala nas relações estabelecidas entre a literatura e as outras disciplinas, de como são passíveis de conversar entre si, criando um diálogo muito mais abrangente e interessante no âmbito dos descobrimentos e desdobramentos das personagens e das histórias que precisam ser contadas. No caso da literatura sul-rio-grandense, as relações entre Literatura e História têm sido frequentes no âmbito da produção literária do Estado. Situa-se, nesse plano, o romance A solidão segundo Solano López, do escritor

sulino Carlos de Oliveira Gomes, em que episódios da Guerra do Paraguai são apropriados pela ficção. Nesse sentido, a presente comunicação, a partir da contribuição de estudiosos da literatura do Estado, como Regina Zilberman, Guilhermino César e outros, pretende analisar o romance antes referido, identificando os processos de ficcionalização da História utilizados pelo autor, especialmente aqueles referentes à configuração da figura do gaúcho e de sua participação no evento histórico focalizado pela obra. O objetivo do trabalho, enfim, é desenvolver uma reflexão que procure dar conta das complexas relações que se estabelecem entre duas modalidades de discurso:

o da Literatura e o da História.

Palavras-chave: literatura, história, discurso.

6. A ausência que seremos, de Héctor Abad: uma escrita para não esquecer

Amanda da Silva Oliveira amanda.oliveira.002@acad.pucrs.br (PUCRS)

A identidade cultural e política de um médico sanitarista colombiano é o tema central da obra de Héctor Abad. Publicado no Brasil em 2011, o texto biográfico narra a história do pai do autor: a vivência do filho com o pensamento libertário, confusamente confundido com o comunismo; a experiência de fazer da medicina a forma de melhoria de vida de muitas pessoas; o papel do professor como mestre de aprendizagens para a vida; a confusa criação de um pai ateu e uma mãe fervorosa e pragmaticamente católica. Abad nos apresenta a seu pai, e suas histórias, de pai e de filho, se mesclam num discurso carregado de emotividade, carinho, saudade e amor. Em A ausência que seremos, de um verso atribuído a um poema de Borges, passamos a identificar não só a vida de Abad pai, nem só a de Abad filho, mas

o quanto a escrita identifica as marcas identitárias de uma América Latina

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negligenciada e injusta à maioria da população. Com o objetivo de pensar a

América Latina em sua formação identitária, pautada na heterogeneidade desenvolvida a partir da imposição do domínio espanhol, a proposta de trabalho é a de analisar a representação da identidade latino-americana sob

o pensamento crítico de Ángel Rama, em La ciudad letrada, e Ana Pizarro, em

América Latina: palavra, literatura e cultura, na obra do escritor colombiano.

A partir da hipótese de que o texto de Abad é a rememoração da identidade

do filho em relação ao pai, e do choque social que o caráter idealista poderia sofrer frente às adversidades sociais da Colômbia daquele tempo, as conclusões iniciais já são perceber e identificar as possibilidades que a escrita mantém como elemento unificador e compensador das memórias e lembranças pessoais, bem como a biografia ser vista como valorativa na reescrita da(s) história(s) oficial(is). Palavras-chave: identidade, América Latina, biografia.

Sessão de comunicações individuais 8 Literatura e Memória Sala 610, prédio 40

1. Espelho da saudade: A (re)constituição identitária do vaqueiro do Vale do Pampã MG

Coordenadora:

Maria de Fátima Rocha Medina medinafatima@ceulp.edu.br (CEULP) Maria Aparecida da Rocha Medina cidinhamedina@ceulp.edu.br (CEULP)

A força da narrativa oral (Benjamin e Zumthor) da própria epopeia foi a

estratégia que o vaqueiro do passado utilizou para situar-se como sujeito,

inclusive porque o ofício dessa profissão foi aprovado apenas em 2013. Um dos objetivos da pesquisa em desenvolvimento é delinear a identidade do vaqueiro do Vale do Pampã-MG a partir da memória do aposentado Valdomiro Francisco Medina e de alguns de seus companheiros. “A memória normalmente tão frágil e enganadora” (LE GOFF) revela realidades vividas outrora por meio de brechas e/ou do filtro da imaginação. São situações

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revisitadas pelo excedente de visão (BAKHTIN) permitido pela distância. Ao provocar a memória, o ancião, distante geográfica e temporalmente, se depara, após oito décadas, com o pequeno garoto que foi emprestado pelo pai a um fazendeiro do Vale do Pampã e, ao se tornar vaqueiro, entre reses, cavalos, intempéries e aboios, constituiu sua identidade. De caráter qualitativo, o percurso metodológico deste trabalho tem priorizado o registro de narrativas orais de vaqueiros por meio de entrevista semiestruturada. Como resultado parcial, é possível constatar tensão na (re)constituição do sujeito. O ex-vaqueiro considera as lembranças da lida com o gado, do convívio com companheiros e com fazendeiros como “espelho da saudade”, por gostar da profissão que exerceu. No entanto, ele se mostra intrigado como conseguiu sobreviver apesar da exploração do trabalho infantil e do trabalhador adulto, das condições laborais extremamente precárias e dos sofrimentos a que fora submetido. Assim, ainda que seja pelas fissuras da memória, é possível valorizar vozes capazes de (re)constituir realidades identitárias de grupos que compõem a heterogeneidade do nosso país. Palavras-chave: vaqueiro, memória, identidade.

2. História, trauma e literatura: a posição do narrador em Os anéis de Saturno, de W. G. Sebald

Carla Lavorati ca_lavorati@yahoo.com.br (UFSM)

Nascido em 1944, em Wertach, na Alemanha, W. G Sebald começa sua carreira de escritor com um livro de poesias, mas ganha reconhecimento a partir da publicação de suas ficções em prosa: Vertigem (1990), Os emigrantes (1992), Os anéis de Saturno (1995) e Austerlitz (2001). Suas obras trabalham de modo recorrente com temas como: violência, guerra, abandono, trauma, memória, esquecimento. As narrativas de W. G Sebald, de modo geral, oferecem aspectos interessantes para observações sobre os rumos tomados pela literatura do pós-guerra e para a problemática do silenciamento e da representação de eventos traumáticos. Nesse sentido, o objetivo da pesquisa é analisar como essas questões são trabalhadas no romance Os anéis de Saturno a partir da posição assumida pelo narrador na dinâmica da representação. Como suporte teórico para as reflexões, recorreu-se ao texto “O narrador: observações acerca da obra de Nicolau

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Leskow”, de Walter Benjamin (1983), com o objetivo de observar as relações que o autor estabelece com os narradores arcaicos apoiados na tradição oral; e ao texto “Posição do narrador no romance contemporâneo”, de Theodor Adorno (2003), que aponta para as principais mudanças ocorridas em relação a esse “organizador da narrativa” na ficção contemporânea. Desse modo, a análise pretende pensar os limites dessas mudanças no próprio corpus de pesquisa, para localizar as possibilidades de o narrador empreender uma representação da própria (in)comunicabilidade das experiências de destruição. Palavras-chave: narrador, trauma, memória, história.

3. Maus um roer pós-moderno do holocausto

Gabriel Felipe Pautz Munsberg gabriel_munsberg@yahoo.de (UFPel)

O presente trabalho pretende expor, ainda que de forma sucinta, uma análise sobre o trabalho de relato, representação e narração do Holocausto a partir da graphic novel Maus (1991), de Art Spiegelman, por meio de análise contrastiva das textualidades. Ao tratar da rememoração do judeu polonês Vladek Spiegelman em Auschwitz, a narrativa atua com intenso exercício metalinguístico e reavalia a posição das histórias e da memória individual dos participantes de acontecimentos empíricos em detrimento do “real” dos eventos. Deseja-se aqui evidenciar as problemáticas criadas pela representação de experiências através da memória no confronto com a História a partir das teorias de Walter Benjamin (2012, 2013) e as atualizações referentes de Giorgio Agamben (2005), além dos apoios interdisciplinares com a psicanálise (Werner Bohleber, 2007) e história (Norberto Guarinello, 2004, Jacques Le Goff, 1996), entre outros, evidenciando, através da crítica literária (Márcio Seligmann-Silva, 2003; Jeanne Marie Gagnebin, 2003), a importância da memória na constituição do pós-moderno (Jean-François Lyotard, 1986; Linda Hutcheon, 1991; Veronika Zangl, 2009). Percebe-se neste trabalho a complexidade da rememoração da experiência do Holocausto, apesar do testemunho de um sobrevivente dos campos de concentração, a narrativa não consegue constituir-se fielmente ao acontecimento empírico, além de que, em virtude do trabalho da linguagem, a experiência torna-se ficção e pontua o paradoxo entre literatura e história.

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Sendo assim, o processo do testemunho e da memória, ora exercidos através da linguagem, mostra-se falho, por vezes incompleto, e coloca toda a narrativa em dúvida. Como reflexo do pós-modernismo, a subversão dos centros de poder é acionada pela arquitetura narrativa de Art Spiegelman que, mobilizado, demonstra sua deliberada labuta de questionar o fato da mesma forma que o acontecimento, no incômodo roer das memórias. Palavras-chave: Holocausto, pós-modernismo, história.

4. Alfred Andersch: reflexões sobre o conflito não resolvido entre biografia e obra à luz da estética da recepção

Milena Kunrath milena.kunrath@acad.pucrs.br (PUCRS)

A reflexão desta comunicação nasce da consideração sobre a importância da estética da recepção na análise posterior de obras literárias. Neste caso desejo cotejar a vida e obra do escritor alemão do pós-guerra, Alfred Andersch, e demais opiniões suscitadas pela incoerência entre as duas:

Andersch sofreu num campo de concentração por ser comunista, casou-se com uma judia para salvá-la, combateu na Segunda Guerra Mundial e finalmente desertou; esses fatos de sua biografia são contados pelo próprio em seu primeiro livro: Die Kirschen der Freiheit: Ein Bericht (sem edição em português, "As cerejas da liberdade: um relato", numa tradução livre), de 1952. Ao investigarmos, porém, sua vida, observamos que seu relato, que em nenhum momento foi apresentado como ficção, é uma grande deformação da verdade, como a compreendemos. Sabe-se hoje, principalmente devido às denúncias do escritor Sebald, que as atitudes de Andersch se deveram mais a interesses pessoais e que em nenhum momento arriscou sua vida para ajudar alguém. Os questionamentos que surgem acerca dessas constatações permitem-nos refletir sobre impasses ainda atuais na teoria literária, investigando a intersecção entre relato, realidade e valor ficcional. A pesquisa busca refletir se o movimento do escritor, em criar uma biografia mais heroica para si, afeta o valor da sua obra; e se a qualidade do trabalho se altera com a revelação de seus controversos bastidores. Serão discutidos conceitos de veracidade, verossimilhança, e principalmente da teoria da recepção, com o auxílio, entre outros, de Jauss e Wolfgang Iser. Palavras-chave: Alfred Andersch, recepção, biografia.

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5. Memória do trauma na literatura contemporânea

Mônica Klen de Azevedo monica.azevedo@acad.pucrs.br (PUCRS)

Há anos, a literatura se encarrega de apresentar como o passado e o

presente são ligados ao individual e ao coletivo através do testemunho de catástrofes. Percebendo a memória traumática como tema de inúmeras obras literárias e reconstruindo os fatos a partir do distanciamento temporal,

o narrador da catástrofe estabelece como ponto de partida a memória

traumática coletiva e individual. Tendo como base as reflexões do teórico

Marcio Seligman-Silva, este trabalho propõe-se a refletir acerca da irrealidade que permeia a narração do trauma, visto seu caráter absurdo e

incoerente de relação entre seres humanos, que faz com que o narrador, também vítima dos fatos narrados, precise superar o dilema da testemunha.

A memória da narração, considerada o nascer póstumo da experiência,

possibilita o entranhamento na consciência e na apresentação das palavras, daquilo que chamamos de real. A história contemporânea vem sendo entendida, desta forma, a partir do testemunho, e a memória é a ferramenta utilizada na construção de relatos que dão origem à criação da literatura contemporânea. Em vista disso, o presente trabalho é uma tentativa de reflexão acerca do percurso que a memória do trauma estabelece ao longo do tempo na literatura. São muitos os autores que presenciaram o Holocausto e usaram suas memórias na construção de narrativas sobre suas experiências, contando suas memórias a partir do horror do inenarrável. Outros autores contam a história a partir da memória coletiva emprestada de testemunhas do horror. Assim, será traçada uma linha a partir da qual será possível perceber as diferentes formas como tais conflitos são narrados até chegar à contemporaneidade. Palavras-chave: literatura contemporânea, memória, trauma.

6. Memória e identidade nas produções culturais de surdos

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Alessandra Gomes da Silva aletrasufrj@hotmail.com (PUC-RJ)

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Neste trabalho, pretendemos analisar os entrelaçamentos memória e identidade nas produções culturais de sujeitos surdos, usuários da língua de sinais. Selecionamos, para isso, fragmentos de dois documentários, Sou surda e não sabia e Surdos estrangeiros da própria terra. Isso porque, no caso dos surdos, percebe-se uma tentativa de modificar a visão estabelecida de sujeitos que sofrem de uma perda, uma marca, que muitas vezes aparece estigmatizada, para o reconhecimento de sujeitos que possuem formas próprias de viver e de lidar com o mundo. A partir disso, interessa-nos pensar de que modo, nessas obras, aparecem claramente atreladas as categorias de língua e memória, identidade e cultura. Para isso, articulamos a proposta de Patrocínio (2013) que, ao analisar a produção literária de autores chamados marginais, ou periféricos, destaca duas características dessas produções: a forma identitária e o teor testemunhal. Acreditamos que tais características também estejam muito presentes na produção dos surdos. Tais sujeitos, sobretudo os usuários da língua de sinais, não escapam de uma lógica periférica, das margens, tentando obter visibilidade e dar voz a um grupo minoritário. Nesse sentido, eles também utilizam diferentes manifestações culturais, sobretudo, audiovisuais, como “veículo de um discurso político formado no desejo de autoafirmação” (PATROCÍNIO, 2013, p.12). Narrar, portanto, tem a ver com o modo como construímos nossa identidade, uma vez que as narrativas são consideradas “instrumentos que utilizamos para dar sentido às nossas experiências, ao mundo a nossa volta e a nós mesmos, ao mesmo tempo em que (re)produzimos identidades através das histórias que contamos” (STAROSKY, 2011, p. 66). Assim, tencionamos perceber estratégias presentes nas produções analisadas que são acionadas como meio de legitimar as narrativas desse grupo, numa clara tentativa de ruptura de discursos constituídos e excludentes. Palavras-chave: surdos, memória, identidade.

Sessão de comunicações individuais 9 - Autores brasileiros/gaúchos Sala 610, prédio 40

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1. Entre e por meio de um vaqueiro: um diálogo na literatura de Guimarães Rosa

Coordenadora:

Elizabeth da Silva Mendonça bethmenca@hotmail.com (UNESP/IBILCE)

“Entremeio: com o vaqueiro Mariano” é um relato jornalístico ou reportagem poética realizada por João Guimarães Rosa, em 1947, em uma visita ao Pantanal mato-grossense. Como forma de apresentação do texto, o autor simulou um diálogo entre o narrador e um vaqueiro chamado Mariano, ficando para o leitor a participação como intérprete deste, uma vez que a interpretação do que é dito não está dada. Pensando nas formulações de Vicent Crapanzano (1991) sobre o diálogo na etnografia e nas ideias de Silviano Santiago (1989) sobre o narrador pós-moderno, procuramos refletir como esse diálogo poético cria uma forma de compreender dois mundos distanciados, aproximando pessoas. O acesso à alteridade conduziria o narrador a explorar a sua própria subjetividade através do espelhamento provocado pelo encontro com o vaqueiro e abriria a possibilidade de uma autocrítica cultural. O texto é uma montagem para enfatizar a fala de Mariano. Isso deixa entrever a preocupação do narrador com esse discurso, que ele quer que soe autêntico, sem interferências, por isso não há a preocupação em controlar a fala do outro. Por isso, o estar com o vaqueiro, tanto na sua moradia quanto em seu local de trabalho, é importante para a condução do diálogo, pois a assimetria formal é eliminada, tanto é que o narrador é totalmente aceito pelo vaqueiro, uma vez que Mariano lhe conta histórias sobre sua vida quando os dois cavalgam juntos. A retórica no relato é de encantamento com o meio, com o mundo, resvalando para o poético. Palavras-chave: diálogo, reportagem poética, Guimarães Rosa.

2. Identidade e alteridade em O fervo da terra, de Deborah Goldemberg, e Guapear com frangos, de Sergio Faraco

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Mauro Nicola Póvoas mauropovoas@furg.br (FURG) Tiago Goulart Collares tiagocollares1984@gmail.com (FURG)

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A identidade do gaúcho vem sendo forjada, ao longo dos anos, por meio de um viés ideológico conservador, que reforça o amor irrestrito à terra e a exaltação de valores como coragem, liberdade e honra. Se o Romantismo sul- rio-grandense, com a Sociedade Partenon Literário, construiu, na segunda metade do século XIX, essa figura heroica do gaúcho, posteriormente uma série de autores colocou em xeque, em suas obras, essa mitificação, entre os quais se destacam Simões Lopes Neto, Cyro Martins, Erico Verissimo e Luiz Antonio de Assis Brasil. A intenção da comunicação é discutir como essa questão identitária regional vem sendo trabalhada na literatura brasileira atual, por meio da análise da novela O fervo da terra, da paulista Deborah Goldemberg, e do conto “Guapear com frangos”, do gaúcho Sergio Faraco. Para tanto, serão usados os conceitos de identidade, alteridade e hospitalidade, a partir de Emmanuel Levinas e Jacques Derrida, além dos pressupostos fornecidos pela crítica e pela historiografia literária sul-rio- grandense, em especial Guilhermino Cesar, Regina Zilberman e Maria Eunice Moreira. Palavras-chave: identidade, gaúcho, literatura sul-rio-grandense.

3. Sobre escritores em Rio Grande: cogumelos de verão?

Andréia Alves Pires andreiaapires@gmail.com (PUCRS)

Em oposição ou alternativa às condições de difusão e consumo de bens simbólicos que os centros culturais hegemônicos impõem, forças culturais descentradas e múltiplas emergem ao redor do mundo, criando novas rotas de circulação e sistemas artísticos que acolhem expressões híbridas, diferentes, deslocadas. O comportamento desses levantes assemelha-se, segundo Charles Kiefer (2010), ao dos cogumelos de verão. Com base nos conceitos de cronotopo textual (Bakhtin, 2002) correlacionado ao cronotopo cultural do deslocamento e às questões relativas ao conceito cultural de lugar (lugar, não-lugar, entrelugar, deslocamento), e com referência das pesquisas de Luis Torres (2002), de Hugh Hazelton (2006) e de Jorge Etcheverry (2006) sobre o desenvolvimento e a repercussão da escrita de escritores oriundos de cerca de vinte países latino-americanos, este trabalho desenvolve, através do estudo de cinco obras de estreia de autores

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residentes em Rio Grande e de entrevistas com esses artistas, a metáfora dos cogumelos para problematizar a recente tendência literária rio-grandina, discutindo a percepção da influência do lugar de residência do escritor no seu processo criativo e possíveis contribuições desse movimento para a consolidação de uma identidade literária. Palavras-chave: processo criativo, deslocamento cultural, identidade literária.

4. Memória involuntária em Quincas Borba diálogo entre discurso literário e psicologia

Janaína Tatim janaina@live.co.uk (UNICAMP)

Quincas Borba, de Machado de Assis, foi publicado pela primeira vez em A Estação, entre 1886 e 1891. Por seu texto ter recebido mudanças significativas para a publicação em livro, a crítica reconhece duas versões para o romance. Na versão da revista, evidencia-se a elaboração de uma resposta a um problema que emergiu da confrontação de Machado com o Naturalismo e o Realismo: diante da proposta das novas poéticas de animalização do humano, como poderia a forma romance conceber e apresentar pessoas humanas e morais? Pela primeira versão, percebe-se que não havia uma resposta constituída, definitiva, e que Machado parece operar tanto uma revisão dos modos de narrar e representar quanto uma pesquisa de expedientes literários para trabalhar o conceito de pessoa. O tema da psicologia recebe forte investimento. Isso aparece em forma de análises psicológicas e na tematização de processos mentais, como memória, sonho, loucura, obsessão. Assim, tanto o romance quanto nossa pesquisa trabalham no sentido da construção de um diálogo entre o discurso literário - e sua crítica - e o campo da psicologia. Aqui, interessa-nos interpretar os efeitos que o diálogo causou em Quincas Borba. Por exemplo, partindo dos conceitos de memória voluntária e involuntária apresentados por Walter Benjamin, colocaremos em discussão os efeitos do incrustamento de uma memória involuntária que veicula uma cena do cotidiano escravista brasileiro na construção do realismo sui generis do romance. Quando esta memória involuntária irrompe, cifrada de horror, ela permanece insidiosamente em aberto, desligada, sem integração lógica ao resto da narrativa. A estruturação do romance conduz para que não seja integrada nem à história do

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personagem que rememora, nem à história de leitura do romance. Põe-se em negativo a tarefa aberta de perlaborá-la contra seu esquecimento na memória de leitura do romance, e quiçá em nossa memória histórica e social. Palavras-chave: Quincas Borba, Machado de Assis, memória.

5. A origem abismal da criatividade no conto Linda, uma história

horrível”, de Caio Fernando Abreu: um estudo sobre o hibridismo

dos gêneros

Gilberto Chaves gilberto.chaves@acad.pucrs.br (PUCRS)

Este trabalho visa analisar o limite tênue da origem criativa de três gêneros literários. Através do estudo entre um conto, uma carta e uma música, envolvendo trabalhos criativos de Caio Fernando Abreu e Cazuza, procuro identificar uma boa circularidade existente entre eles. Procuro identificar a impossibilidade de uma origem pura do trabalho criativo. Ao contrário, tento identificar uma contaminação permanente e salutar entre vida e arte, arte e vida, e toda origem híbrida da sua construção. Através de alguns conceitos de Paul Ricoeur em Tempo e narrativa, faço uma análise dos três tempos miméticos, tentando encontrar um abismo multicultural e constante que pode perambular em todos os gêneros, mas cristaliza-se em determinado gênero, mesmo com influências distintas. Palavras-chave: Ricoeur, narrativa, hibridismo.

6. A vida como ela é, segundo o olhar de Silviano Santiago

Wilson Ferreira Barbosa tetei42@hotmail.com (PUCRS/CAPES)

Narrado em terceira pessoa, com um narrador que é apenas um observador dos fatos, o livro publicado em 1974, O olhar, de Silviano Santiago, é um romance de aventura, em formato de uma exposição de quadros que são observados por uma plateia apática (a sociedade). Apresenta ao leitor uma família que pertence à classe social abastada tipicamente do início do século XX. O romance apresenta uma particularidade, que é de ser escrito sem os sinais gráficos de pontuação (de acordo com a norma padrão da língua culta),

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causando, por isso, estranhamento no leitor, e isso cria certa dificuldade para se compreender a narrativa, se não for feita uma leitura com bastante atenção. A tessitura do texto se dá como um emaranhado, em que um capítulo se completa em vários outros antes ou depois, num entrelaçamento como na vida, um eterno devir. Pois é assim que acontece com a vida das personagens de Silviano Santiago através dos fluxos de consciência. Uma movimentação de idas e vindas, felicidades e tristezas, liberdade e escravidão, amor e ódio numa situação paradoxal, e constante luta pela felicidade. Este trabalho tem como subsídio teórico principal Mikhail Bakhtin, com seus estudos sobre a polifonia, apresentados nos romances que ele classificou como “romance de aventura”. Em Problemas da poética de Dostoiévski (1981), o narrador em suas diversas falas dá oportunidade para que cada personagem se manifeste, dando espaço aos seus sentimentos com

o propósito de que cada uma perceba a sua existência e se realize enquanto

ser humano. Também nos embasaremos nos estudos da obra Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (2010), também de Mikhail Bakhtin. Palavras-chave: literatura brasileira, teoria literária, Silviano Santiago.

Trabalhos apresentados em 30 de outubro (sexta-feira) Tarde: 13h 13h-14h30min Sessões de comunicação

Sessão coordenada 1: Linguagem na afasia monolíngue e bilíngue: processamento, recuperação e reabilitação Sala 507, prédio 40

Coordenadora:

Lilian Cristine Hübner lilian.hubner@pucrs.br (PUCRS/CNPq)

A afasia é um quadro caracterizado por distúrbios cognitivos, incluindo os de

caráter linguístico, com graus variados de acometimento, conhecida pela dificuldade ou impossibilidade do indivíduo de acessar palavras na fala ou na escrita. É uma das maiores causas incapacitantes da população brasileira e

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mundial, por acarretar sequelas que podem levar o indivíduo afásico a se afastar de suas atividades profissionais, afetando também sua funcionalidade social e familiar. O objetivo desta mesa é discutir diversas facetas da afasia, apresentando quatro comunicações que a abordam em diferentes aspectos. A primeira comunicação, de Lisandra Rutkoski Rodrigues, tratará da reabilitação da fala na afasia, a partir da exploração de verbos, os quais, devido ao seu caráter integrador em termos de sintaxe e semântica, propiciam a exploração do acesso lexical de forma abrangente, o que tem voltado as atenções para este tipo de tratamento. Em seguida, Fernanda Loureiro e Bruna Tessaro apresentarão estudos sobre o processamento semântico na afasia de Wernicke e ilustrarão os pressupostos teóricos da sua discussão a partir de um caso. Na sequência, Fernanda Schneider e Jeana Bittencourt da Silva abordarão questões ligadas à produção discursiva na afasia bilíngue, com ênfase nos padrões de recuperação das línguas. A última apresentação será desenvolvida por Sabrine Martins, que discutirá dados comparativos entre a compreensão leitora e a compreensão auditiva na afasia, com o intuito de analisar semelhanças e diferenças entre esses dois processos. A mesa assim constituída pretende contribuir com a discussão de aspectos atinentes à afasia sob um viés linguístico abrangente.

1. Reabilitação da fala na afasia com enfoque em verbos: uma revisão de estudos

Lisandra Rutkoski Rodrigues lisandra.rutkoski.rodrigues@gmail.com (PUCRS/Capes)

Nos estudos que incluem reabilitação da competência linguística em afásicos, constata-se um número maior de pesquisas que focam em substantivos do que em verbos. No entanto, segundo Conroy et al. (2006), o trabalho com foco em verbos se justifica pelo fato de esses terem um papel muito importante: 1) verbos tendem a ser morfologicamente mais ricos que substantivos, e 2) verbos têm um papel central na produção de sentenças e consequentemente na produção de fala encadeada. Eles apresentam um número de fatores intrínsecos que os tornam mais suscetíveis ao comprometimento nos casos de afasia, demandando um maior controle executivo do que o exigido na produção de outras classes de palavras. Há, portanto, motivações claras e fortes de cunho teórico e clínico para que se

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busque um maior entendimento dos processos e representações envolvidos nos verbos e em sua consequente recuperação. Os estudos com foco na reabilitação de verbos podem ser divididos em quatro classificações (Webster e Whitworth, 2012): 1) estudos em que os verbos foram tratados no contexto da palavra isolada; 2) aqueles que compararam o tratamento de

verbos e substantivos; 3) os que trataram os verbos no contexto da sentença;

e 4) os que trataram da recuperação do verbo com suas respectivas

estruturas de argumentos. Considerando essas quatro classificações, propõe- se uma revisão de estudos, procurando salientar os achados de cada um, bem como apontar as vantagens do tratamento de reabilitação tendo o verbo como núcleo da sentença, com a sobreposição entre os substantivos que podem preencher papéis temáticos com diferentes verbos, o que colabora não apenas para a estrutura sintática, mas também para o fortalecimento da rede semântica. Palavras-chave: afasia, comprometimentos linguísticos, reabilitação.

2. A natureza da dificuldade de compreensão na afasia de Wernicke: qual o papel do processamento semântico?

Fernanda Loureiro fernandaloureiro@uol.com.br (PUCRS/Capes) Bruna Tessaro btessaro@icloud.com (PUCRS/CNPq)

A afasia de Wernicke (AW), desde sua publicação do primeiro caso em 1874,

é um modelo neurológico clássico de severa alteração na compreensão de

palavras e sentenças, como resultado de uma lesão adquirida no lobo temporal posterior esquerdo. No entanto, esta mesma área também é descrita como parte da extensa rede responsável pelo processamento semântico, com comprometimento nas doenças degenerativas como a demência semântica e a afasia progressiva primária. O objetivo da comunicação é apresentar um panorama de estudos sobre o papel do processamento semântico na compreensão de palavras e sentenças na AW. Além da apresentação de revisão de literatura, será ilustrada, por meio de um relato de caso, a performance de um sujeito adulto com AW durante as tarefas de compreensão verbal e de associação semântica (Pyramids and Palm Tree Test adaptado para o português brasileiro). Os resultados sugerem

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que, além do prejuízo acústico-fonológico, o processamento semântico tem papel importante subjacente à desordem de compreensão na AW. Estratégias terapêuticas que reforcem a rede de categorias semânticas podem trazer benefício no tratamento a esses indivíduos afásicos. Estudos que comparam alterações por lesões cerebrovasculares com aquelas apresentadas por doenças degenerativas podem trazer enorme contribuição acerca do funcionamento linguístico. Palavras-chave: afasia de Wernicke, compreensão, processamento semântico.

3. Produção discursiva na afasia bilíngue: enfoque nos padrões de recuperação das línguas

Fernanda Schneider fernanda.schneider.001@acad.pucrs.br (PUCRS, IFRS, Capes) Jeana Bittencourt da Silva jeana.silva@acad.pucrs.br (PUCRS)

O presente estudo, de natureza teórica e com base em pesquisas realizadas,

aborda noções acerca da produção discursiva na afasia bilíngue e aponta para a complexidade do seu estudo e tratamento. Para isso, parte-se da seguinte questão: Qual é a relação entre o tipo de tratamento e a recuperação das línguas na afasia bilíngue? Buscam-se respostas para essa questão nas investigações de Fabbro (2001), Obler e Park (2012), Adrover- Roig, Marcotte, Scherer e Ansaldo (2012), Verreyt (2013) e Ansaldo e Saidi (2014), entre outros. Apesar do crescente número de pesquisas sobre a afasia bilíngue, ainda é difícil afirmar se é vantajoso o paciente receber tratamento em apenas uma ou nas duas línguas, ou se a opção por uma língua gera benefícios na recuperação da língua não tratada. Estudos como o de Verreyt (2013) apontam para o fato de que o tratamento das duas línguas

pode evitar que a língua mais preservada se torne ainda mais forte e dificulte

a ativação da menos preservada. Já as pesquisas de Ansaldo e Saidi (2014)

sugerem que a tranferência dos efeitos gerados na língua tratada para a não tratada dependerá de uma série de fatores, dentre eles o grau de

sobreposição estrutural das línguas, tipo de abordagem terapêutica e os perfis de competência linguística. Assim, tanto a avaliação como o tratamento do processamento discursivo de um bilíngue oferecem desafios a

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pesquisadores e terapeutas e o fato de a linguagem possuir muitas facetas (SCHERER, 2015), talvez dificulte a unicidade na forma de se tratar os distúrbios. Desse modo, o grande desafio, segundo apontam os estudos analisados, é o de se desenvolverem estratégias comunicativas compensatórias, que proporcionem ao afásico a possibilidade de reinserir-se em seu meio social, familiar e até mesmo profissional, apesar de suas limitações linguísticas. Palavras-chave: afasia bilíngue, produção discursiva, reabilitação.

4.

sistemática

Compreensão

leitora

e

auditiva

na

afasia:

uma

revisão

Sabrine A. Martins sabrine.martins@acad.pucrs.br (PUCRS/Capes)