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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Faculdade de Letras

Aluno: Phelipe Fernandes de Oliveira


DRE: 110094450

O riso de Vinte Um Anos?


Leitura do caso “Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva”.

Sabe-se que trocadilhos e anedotas sempre interessaram a Freud em suas análises do


inconsciente. O livro dedicado aos chistes1 traz enunciados recortados de modo
riquíssimo da cultura letrada de sua época. Certamente, Freud ambicionava formular
uma teoria do cômico para além do que já havia se falado. Seus exemplos são um
arsenal moderno para sequestrar o riso da análise puramente “literária” e jocosa, a fim
de situá-lo como fenômeno estratégico para compreensão da psique humana.

O livro dos chistes é de uma extensão fenomenal de conceitos que são repetidamente
revistos e intuídos por Freud2. Por isso vamos nos ater a duas formulações em que
desembocarão todas as análises: o chiste é uma condensação (geralmente reiterada pela
noção de uma economia do enunciado, não apenas unilateralmente sintética) e o chiste é
a formulação de um substituto (um traço significante é substituído por outro, mais
propriamente uma troca simbólica). Acrescenta-se que as funções da condensação e da
substituição em um chiste é fazer rir. Com isso, temos as espinha dorsal do jogo em que
um mero trocadilho ou uma comédia de Terêncio podem estar envolvidos.

O caso exemplar do jogo cômico escolhido por nós avança onze anos da publicação do
livro sobre os chistes. Trata-se de “Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva” em

1
A edição de que tomamos referências é a tradução brasileira da estadunidense Standart: Os
chistes e sua relação com o Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago editora, 1969.
2
Embora seja uma classificação pouco rigorosa – Freud a chama de “desconcertante” – o quarto
capítulo sumariza onze técnicas de chiste apresentadas no livro: I) Condensação: (a) com
formação de palavra composta; (b) com modificação. II) Múltiplo uso do mesmo material: (c)
como um todo e suas partes; (d) em ordem diferente; (e) com leve modificação; (f) com sentido
pleno e sentido esvaziado. III) Duplo sentido: (g) significado como um nome ou uma coisa; (h)
significados metafóricos e literal; (i) duplo sentido propriamente dito (jogo de palavras); (j)
double entendre; (k) duplo sentido com uma alusão.
que um jovem paciente (que vamos chamar de Vinte e Um Anos) associava uma palavra
e uma imagem obsessivas (Zwangswort e Zwangsbild respectivamente) toda vez que via
o pai: a palavra Vaterarsch e a imagem do corpo do pai, cujo abdômen nu era seu rosto
desenhado, sem cabeça, pescoço e genitálias. Após a descrição introdutória, Freud
analisa, pela luz de sua ciência, esse objeto tresloucado e seu primeiro diagnóstico
resume-se em: possui vivo erotismo anal; exposto à repressão instintal e ao ascetismo,
embora o pai lhe parecesse um defensor da intemperança e da busca de fruição nas
coisas materiais.

No entanto a conclusão final de Freud sobre Vinte Um Anos não é propriamente


“clínica”. O veredito salta aos olhos: “a imagem obsessiva é uma evidente caricatura”.
Ora, ele só chega a essa conclusão depois de perceber a “germanização maliciosa” da
palavra obsessiva condensada nos radicais Vater/arsch (literalmente “cu do pai”)
contraposta por Freud em semelhança fônica e oposição semântica a Patriarch
(“patriarca”). Explica-se de modo bastante dedutivo e breve a associação entre a palavra
e a imagem obsessivas, que não passam de chistes (em que grau de voluntariedade?)
acerca da figura paterna. A parte final do artigo escrito por Freud nada mais é que uma
divagação bastante arbitrária e quase holística de figuração mitológica da imagem
chistosa – que aliás é o próprio objetivo do artigo: o que Vinte Um Anos vê em seu pai
é – a arbitrariedade da metáfora reside freudianamente nesta copla – o que Deméter viu
em Baubo. É preciso ver Deméter morrer de rir para contemplar Vinte Um Anos alegre.

Retomemos a conclusão de Freud de que a imagem de Vinte e Um Anos é uma


caricatura. Freud pretendeu alargar a noção de Fischer3, muito embora seu trabalho
sobre os chistes quase se limite aos signos verbais. Os apontamentos sobre caricaturas
são bem relevantes e se Freud fosse mais vezes ao cinema, encontraria um vasto
conteúdo “coletivo” para aprofundar seus estudos. De acordo com Freud, portanto, o
caso de Vinte e Um Anos compor-se-ia de chiste verbal: a condensação dos signos
“Vater” e “arsch”, associação indecorosa, se pensarmos na moral civilizatória4; e de
chiste visual: a caricatura baubônica que emerge de uma grotesca natureza obsessiva,

3
Fischer, amplamente citado por Freud, define o chiste como “um juízo que produz contraste
cômico; participa já tacitamente da caricatura, mas apenas no juízo assume sua forma peculiar e
a livre esfera de seu desdobramento” (1969, p.22)
4
A história europeia parece ocultar ao longo dos séculos o “cu” do homem. Lembremos que
Noé bêbado tem de ser coberto para que os filhos não vejam suas “vergonhas”. O castigo para o
vidente é expropriação da liberdade para sempre.
também portadora de um processo de condensação que desumaniza a Figura paterna e a
substitui. A troca dos símbolos e a sua não expectativa resultam no tom jocoso que
Freud identifica no caso de Vinte e Um Anos. Seria um caso de revolucionária
edipianização contra a figura patriarcal ou um aleatório desajuste de forças
inconscientes que o Id pintou a seu modo? Freud não deixa de avaliar as intenções de
alguns chistes :

A prevenção das inventivas ou das réplicas insultuosas por circunstâncias extremas é um


caso tão comum que os chistes tendenciosos são especialmente utilizados para possibilitar a
agressividade ou a crítica contra pessoas em posições elevadas, que reivindicam o exercício
da autoridade. O chiste assim representa uma rebelião contra tal autoridade, uma liberação
de sua pressão. O fascínio das caricaturas baseia-se no mesmo fator: rimos delas, mesmo se
malsucedidas, simplesmente porque consideramos um mérito a rebelião contra a
autoridade. (1969, p. 125)

Vinte e Um Anos antepõe-se à autoridade do pai, disso não há dúvida, e seu caso é um
bom prosseguimento para o estudo do cômico porque demonstra com clareza os dois
eixos que singularizam o chiste: condensação e substituição. De que faz rir? Gostaria de
Vinte e Um Anos fazer rir a si mesmo do pai ou seria majestoso pensar que lançava uma
grande piada contra seu próprio analista?

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Os chistes e sua relação com o Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago
editora, 1969.

______. “Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva”. In.: Introdução ao


narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. São Paulo: Companhia das
Letras, 2010.
Anexo:

Mythologische Parallele zu einer plastischen Zwangsvorstellung (1916) Paralelo mitológico de uma imagem obsessiva (1916)

Bei einem etwa 21jährigen Kranken werden die Produkte der Num paciente de cerca de 21 anos de idade, os produtos do
trabalho mental inconsciente se tornavam conscientes não só como
unbewußten Geistesarbeit nicht nur als Zwangsgedanken, sondern auch
pensamentos obsessivos, mas também como imagens obsessivas. Os
als Zwangsbilder bewußt. Die beiden können einander begleiten oder dois podiam aparecer juntos ou separadamente. Em determinada
unabhängig voneinander auftreten. Zu einer gewissen Zeit traten bei ihm época, ao ver seu pai entrar no aposento, uma palavra obsessiva e
uma imagem obsessiva lhe surgiam intimamente ligadas. A palavra
innig verknüpft ein Zwangswort und ein Zwangsbild auf, wenn er seinen
era “Vaterarsch” [“bunda do pai”], e a imagem trazia o pai como a
Vater ins Zimmer kommen sah. Das Wort lautete: »Vaterarsch«, das parte inferior de um corpo nu, dotado de braços e pernas, faltando
begleitende Bild stellte den Vater als einen nackten, mit Armen und a cabeça e a parte superior. Os genitais não eram mostrados, e os
traços do rosto estavam desenhados no abdome.
Beinen versehenen Unterkörper dar, dem Kopf und Oberkörper fehlten.
Die Genitalien waren nicht angezeigt, die Gesichtszüge auf dem Bauch Para explicação desse sintoma, mais absurdo que o habitual, deve-
aufgemalt. se notar que esse indivíduo, de pleno desenvolvimento intelectual e
elevados padrões éticos, manifestara um vivo erotismo anal, em
Zur Erläuterung dieser mehr als gewöhnlich tollen Symptombildung ist zu variadas formas, até depois dos dez anos de idade. Superado este,
sua vida sexual foi empurrada de volta ao estágio anal prévio,
bemerken, daß der intellektuell vollentwickelte und ethisch devido à luta contra o erotismo genital. Amava e respeitava
hochstrebende Mann bis über sein zehntes Jahr eine sehr lebhafte bastante o pai, e também o temia em não pouca medida. Do
Analerotik in den verschiedensten Formen betätigt hatte. Nachdem sie ponto de vista de suas elevadas exigências quanto à repressão
instintual e ao ascetismo, porém, o pai lhe parecia um defensor da
überwunden war, wurde sein Sexualleben durch den späteren Kampf
intemperança, da busca de fruição nas coisas materiais.
gegen die Genitalerotik auf die anale Vorstufe zurückgedrängt. Seinen
Vater liebte und respektierte er sehr, fürchtete ihn auch nicht wenig; vom “Vaterarsch” logo se revelou uma germanização maliciosa do
honroso título “Patriarch” [patriarca]. A imagem obsessiva é uma
Standpunkte seiner hohen Ansprüche an Triebunterdrückung und Askese
evidente caricatura. Lembra outras figuras, que depreciativamente
erschien ihm der Vater aber als der Vertreter der »Völlerei«, der aufs substituem a pessoa inteira por um único órgão, os genitais, por
Materielle gerichteten Genußsucht. exemplo; lembra fantasias inconscientes que levam à identificação
dos genitais com todo o indivíduo, e também locuções jocosas
como “Sou todo ouvidos”. A colocação de traços do rosto na
»Vaterarsch« erklärte sich bald als mutwillige Verdeutschung des
barriga da figura me pareceu algo estranho, inicialmente. Mas logo
Ehrentitels »Patriarch«. Das Zwangsbild ist eine offenkundige Karikatur. Es me lembrei de ter visto algo semelhante em caricaturas francesas.
erinnert an andere Darstellungen, die in herabsetzender Absicht die Depois o acaso me fez tomar conhecimento de uma figura antiga
ganze Person durch ein einziges Organ, z. B. ihr Genitale ersetzen, an que corresponde inteiramente à imagem obsessiva de meu
paciente.
unbewußte Phantasien, welche zur Identifizierung des Genitales mit dem
ganzen Menschen führen, und an scherzhafte Redensarten wie: »Ich bin De acordo com uma lenda grega, Deméter chegou a Elêusis, em
ganz Ohr.« busca de sua filha sequestrada, e foi acolhida por Disaules e sua
mulher, Baubo. Tomada de profunda tristeza, porém, recusou
comida e bebida. Então Baubo a fez rir, ao levantar subitamente a
Die Anbringung der Gesichtszüge auf dem Bauche der Spottfigur
roupa e lhe mostrar o ventre. Uma discussão dessa anedota, que
erschien mir zunächst sehr sonderbar. Ich erinnerte mich aber bald, provavelmente explicaria uma cerimônia mágica não mais
ähnliches an französischen Karikaturen gesehen zu haben. Der Zufall hat compreendida, acha-se no quarto volume da obra Cultes, mythes et
religions, de Salomon Reinach (1912). Ali também é mencionado
mich dann mit einer antiken Darstellung bekanntgemacht, die volle
que nas escavações de Priene, na Ásia Menor, encontraram-se
Obereinstimmung mit dem Zwangsbild meines Patienten zeigt. terracotas que representam Baubo. Elas mostram um corpo de
mulher sem cabeça e sem peito, em cujo abdome está desenhado
Nach der griechischen Sage war Demeter auf der Suche nach ihrer um rosto; a saia levantada emoldura esse rosto como uma coroa de
geraubten Tochter nach Eleusis gekommen, fand Aufnahme bei Dysaules cabelos (S. Reinach, op. cit., [Paris,] p. 117).

und seiner Frau Baubo, verweigerte aber in ihrer tiefen Trauer, Speise und
Trank zu berühren. Da brachte sie die Wirtin Baubo zum Lachen, indem sie
plötzlich ihr Kleid aufhob und ihren Leib enthüllte. Die Diskussion dieser
Anekdote, die wahrscheinlich ein nicht mehr verstandenes magisches
Zeremoniell erklären soll, findet sich im vierten Bande des Werkes Cultes,
mythes et religions, 1912, von Salomon Reinach. Ebendort wird auch
erwähnt, daß sich bei den Ausgrabungen des kleinasiatischen Priene
Terrakotten gefunden haben, welche diese Baubo darstellen. Sie zeigen
einen Frauenleib ohne Kopf und Brust, auf dessen Bauch ein Gesicht
gebildet ist; der aufgehobene Rock umrahmt dieses Gesicht wie eine
Haarkrone. (S. Reinach, ibid., S. 117.)