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GRUPO DE ANIMA-AÇÃO CULTURAL E INTER(IN)VENÇÕES ANIMAGÓGICAS CÍRCULO DE SÃO FRANCISCO (GAIA

F)
ADILSON MARQUES
O uso da Apometria como heurísica para o estudo do suicídio e da eutanásia:
a educação de seres incorpóreos e a questão do livre-arbítrio
SÃO CARLOS INVERNO DE 2010
Resumo Entre os mais polêmicos temas abordados pelo Espiritismo estão o suicídio e a e
utanásia. Em O Livro dos Espíritos encontramos a seguinte afirmação: “não importa o perigo,
ninguém morre antes da hora” (questão 853). Porém, é quase consenso no meio espiritista qu
e o suicida ou aquele que é vitima da eutanásia teriam desencarnado “antes da hora” prog
ramada. Quem está errado? O Livro dos Espíritos ou os mais influentes escritores do
movimento espiritista? Através do acompanhamento de inúmeros atendimentos mediúnicos c
om espíritos que vivenciaram as experiências acima, e também analisando o motivo de se
us sofrimentos na vida espiritual, encontramos fortes indícios para afirmar que o
sofrimento que narram é fruto do egoísmo com o qual vivenciaram sua vida humanizada
e também pela intenção de cometer o ato, no caso de suicidas. Porém, tudo leva a crer qu
e o desencarne aconteceu na hora prevista, confirmando o ensinamento que diz que
Deus sabe o gênero de morte de cada um e o espírito, freqüentemente, também (idem). Nes
se sentido, a dúvida que sempre assola a mente de quem vivencia estas experiências é a
de se questionar, como podemos ter livre-arbítrio nos atos se uma determinada ação es
tá prevista para acontecer? Além disso, será que escolhemos, de fato, um gênero de prova
s antes de encarnar, como ensina os espíritos para Kardec, na questão 258? Usando a
Apometria, técnica psíquica criada pelo médico José Lacerda em meados do século passado, u
samos o recurso de levar o espírito incorporado em um médium ao passado para que o m
esmo pudesse se lembrar do gênero de provas que supostamente escolheu e, no caso d
e suicidas ou vítimas da eutanásia dizer se o desencarne aconteceu antes do tempo pr
evisto para aquela encarnação.
Levantando o problema Entre os anos de 2001 e 2006, fui convidado por um ser inc
orpóreo que se indetificava como Dr. Felipe para acompanhar as reuniões de desobsessão
organizadas pelo médium que o incorporava na cidade de São Carlos. O meu papel seri
a o de estudar os casos que ali eram tratados para poder escrever um livro sobre
o tema. Aceitei o desafio e, neste período, tive a oportunidade de acompanhar dif
erentes reuniões onde suicidas, vítimas da eutanásia, falsosprofetas etc. foram atendi
dos e auxiliados pela equipe mediúnica. O livro se encontra na segunda edição e se cha
mou “Educação após a morte: princípios de animagogia com seres incorpóreos”. Neste paper ab
arei um pouco da experiência adquirida e apresentarei algumas reflexões sobre o auxi
lio, particularmente, aos espíritos que desencarnaram em função do suicídio ou por eutanás
ia, no qual a Apometria foi utilizada como recurso psico-terapêutico. Não vamos abor
dar o que vem a ser a Apometria e como a utilizamos, pois já publicamos dois traba
lhos sobre esse assunto, ambos disponíveis para consulta gratuita na internet. Aqu
i vamos, exclusivamente, abordar os atendimentos realizados, apresentando uma re
flexão sobre a
questão do livre-arbítrio através de uma série de perguntas formuladas aos espíritos atend
idos sobre assuntos presentes em O Livro dos Espíritos, como a escolha do gênero de
provas e se o mesmo desencarnou antes da hora. O interesse pela pesquisa nasceu
após a leitura de vários livros espiritistas e também da conversa com vários representan
tes do movimento espiritista que negam ou tentam “contextualizar” o polêmico ensinamen
to da doutrina espírita que afirma que não importando o perigo, ninguém morre antes da
hora. Para todos, o suicida ou a vítima da eutanásia desencarna antes da hora e por
isso “sofrem”, Esse fosso entre os ensinamentos presentes em O Livro dos Espíritos e
a orientação geral aceita pelo movimento espiritista em relação às questões acima (o suicíd
e a eutanásia) nos levou a formular a pesquisa abaixo, realizada através da observação d
e 70 atendimentos a espíritos que desencarnaram em função do suicídio ou por eutanásia. Co
mo todos os espiritistas devem saber, O Livro dos Espíritos traz o seguinte ensina
mento na questão 258: o livre-arbítrio foi exercido antes da encarnação durante a escolh
a do gênero de provas e, após a encarnação, o livre-arbítrio é moral. E, mais adiante, na q
estão 851, os espíritos esclarecem que se há fatalidade, ela se encontra nas provas físi
cas e nunca na esfera moral, tanto que Kardec ao questionar os espíritos se alguém e
stava fadado à infelicidade, ouve como resposta que ele está confundindo os aconteci
mentos materiais da vida e os atos da vida moral, ou seja, se alguém é infeliz por p
assar por vicissitudes negativas, isso é fruto do seu livre-arbítrio, já que está livre
para passar pelas mesmas situações materiais com paz interior e felicidade ou sofren
do, sendo infeliz. Em suma, para os espíritos, ser ou não feliz é escolha de cada um.
A felicidade se encontra na esfera do livre-arbítrio. Qualquer um de nós pode ter um
a vida humanizada cheia de vicissitudes negativas, caso isto contemple o gênero de
provas solicitado, e mesmo assim optar em ser feliz, aprendendo com tais tribul
ações ao invés de apenas se indignar e passar o tempo sofrendo, acreditando que está fad
ado à infelicidade, como questionou Kardec. Mas, e o suicídio? Como esta questão se co
loca para os espíritos? Na questão 944 encontramos que o suicídio voluntário é um crime di
ante de Deus. E, adiante, o esclarecimento que nem todos os suicídios são voluntários.
Ou seja, apenas quando há a intenção de cometer o ato, o mesmo se torna um “crime”. Porém,
nem sempre a pessoa comete o suicídio voluntariamente, E no caso das vítimas de euta
násia? Nos atendimentos realizados, encontramos três tipos bem definidos: os que se
mostram mais espiritualizados e se desligam com facilidade da vida terrena, e do
is que necessitavam de uma ajuda mais enfática: o dos que ficavam vagando pela Ter
ra, sem compreender o que estava acontecendo e o dos que se transformavam em obs
essores daquele que desligou ou solicitou que a eutanásia ativa ou passiva fosse p
raticada. Neste grupo de espíritos se encontrou o maior número dos que acreditavam t
er desencarnado “antes da hora”, o que motivou o desejo de vingança contra aquele que,
supostamente, seria o algoz e o responsável pelo “sofrimento” que diziam sofrer.
Desenvolvimento da pesquisa
Para melhor compreender a questão do livre-arbítrio, nós optamos em fazer uma experiênci
a durante os atendimentos aos seres incorpóreos que praticaram o suicídio ou foram d
esligados da vida material pela eutanásia ativa ou passiva. Na reunião em que se man
ifestavam, após terem sido esclarecidos de sua nova condição e já manifestando uma seren
idade que possibilitava o estabelecimento de um diálogo mais fraterno, passamos a
utilizar uma das leis da chamada técnica apométrica, conforme ilustrada pelo dr. Lac
erda em seus livros: a que consiste em levar o espírito incorporado no médium ao pas
sado para que possa se lembrar de fatos vividos por ele na erraticidade ou em vi
das passadas. Nos atendimentos que participamos, utilizamos como recurso heurístic
o a pergunta sobre o gênero de provas escolhido pelo mesmo, antes da sua última enca
rnação. Para aqueles que diziam não se lembrar, utilizávamos a técnica acima, ou seja, após
o espírito estar mais calmo e em condições de conversar com o grupo, davamos um comand
o para que o mesmo pudesse acessar a lembrança de quando fez a opção por um determinad
o gênero de provas. Nem todos os espíritos auxiliados eram capazes de se lembrar sem
o uso da técnica apométrica, Porém, com o seu uso, os casos de rememorização chegaram a c
erca de 90 %. E, um dado surpreendente, muitos diziam ter encarnado para vencer
a tentação do suicídio. Ou seja, vencer essa tendência fazia parte do gênero de provas esc
olhido pelo espírito. É óbvio que não temos como saber se o que o espírito está falando é v
ade ou não, mas essa resposta nos mostra um lado do problema negligenciado nos liv
ros ou artigos espiritistas sobre o suicídio. Não conheço nenhum livro que afirme que
vencer a tentação do suicídio seja um genero de provas. Porém, se aceitarmos, pelo menos
como hipótese, que haja essa possibilidade, nossa visão sobre a questão do suicídio mud
a significativamente, inclusive a nossa forma de pensar a vida humanizada. A dem
onização do suicídio no meio espiritista deixa de fazer sentido e o fato passa a ter o
mesmo peso que qualquer gênero de provas. Enfim, o espírito pode ou não passar na pro
va que escolheu e somente aí se encontra o problema. Problema que, aliás, cabe somen
te a ele superar. Também encontramos a mesma resposta com alguns espíritos que viven
ciaram experiências com o vício do alcoolismo. Ou seja, eles afirmaram que vencer o
alcoolismo era o gênero de provas que escolheram. Enfim, o que importa é o fato de u
m número significativo de espíritos afirmar que escolheu como prova vencer uma “tentação”.
esse sentido, para que a prova pudesse acontecer , era preciso que a tendência ao
alcoolismo ou ao suicídio fosse programado, seja no DNA (numa visão materialista) ou
no Ego (numa visão espiritualista) daquele ser que encarnaria para passar por ess
a provação. Em suma, apesar de programado para ter o desejo de beber ou de se matar,
esta tentação também é fruto do livre-arbítrio do espírito que, como escreveu Kardec, foi
xercido na “erraticidade”, antes da encarnação. Em suma, podemos dizer que nenhum espírito
é suicida ou viciado, mas seu Ego pode ser programado com essa tentação para que sua
prova aconteça na Terra. Vou ilustrar essa reflexão com um atendimento a um espírito q
ue obsediava uma pessoa do sexo masculino para beber. O socorro foi solicitado p
ela mãe do jovem alcoólatra. Ao iniciar o atendimento, uma falange de espíritos foi lo
calizada junto ao rapaz. Todos foram atendidos e o líder, após recuperar a consciência
espiritual, relatou o seguinte: em uma vida passada abandonou um filho por esse
ser alcoólatra. Ele considerava o filho como um fracassado. Na erraticidade, arre
pendido, solicitou passar também por essa prova: a do alcoolismo. Ele narrou ao gr
upo que sucumbiu, ou seja, a
materialidade da encarnação foi mais forte que ele, o espírito. Assim, enquanto não foi
despertado daquela ilusão, ou seja, da personalidade provisória, viveu como obsessor
de outros alcoólatras encarnados. Isso nos mostra que não basta desencarnar para se
libertar do Ego criado para uma determinada encarnação. Porém, o que esse e outros ca
sos parecem elucidar, o vício está no Ego programado para uma provação e não no espírito. E
te apenas não é tão forte como imaginava, pois acreditou que poderia vencer a prova do
vício e sucumbiu. Em suma, este e tantos outros, quando recuperam a consciência esp
iritual, se dão conta de que não precisam mais da bebida na erraticidade. Com a cons
ciência desperta, conseguem se aperceber que ficar bebendo com os encarnados era a
inda fruto do gênero de provas que havia escolhido e do qual ainda não havia se desv
encilhado. E, possivelmente, Deus teria permitido que ele ficasse influenciando
outros espíritos encarnados que passavam pela mesma prova como mais um dos inúmeros
instrumentos inconscientes que Ele se utiliza para criar as provas que cada um d
eve passar. E como se faz para o espírito se lembrar do gênero de provas? A técnica ad
otada é muito simples e consiste em dar a sugestão para que se lembre da reunião em qu
e escolheu o gênero de provas, seguida de pulsos energéticos, normalmente sete, para
que o espírito (incorporado em médiuns de psicofonia) possa se lembrar daquele mome
nto. Por ser apenas uma técnica, a Apometria e, particularmente, o comando para qu
e o espírito se lembre do gênero de provas é um procedimento que pode ser reproduzido
facilmente por qualquer agrupamento mediúnico e, dentro de uma perspectiva científic
a, comparar as respostas de diferentes espíritos. Com os espíritos que atendemos, não
importando se foram suicidas ou vítimas de eutanásia que acreditavam ter morrido ant
es da hora, após a recuperação da consciência espiritual ou lembrar da escolha do gênero d
e provas que fizeram, nenhum manteve a opinião de ter morrido antes da hora. Ao co
ntrário, com a nova consciência, passaram a perdoar aqueles que, antes, consideravam
como algozes. Apresentarei, com mais detalhes, um caso para melhor esclarecer a
problemática. Um estudo de caso Em um dos atendimentos nos deparamos com o caso d
e um espírito que sofria pelo fato de ter deixado na Terra dois filhos pequenos. E
le dizia sofrer por não ter mais condições de ajudar as crianças e que elas sofreriam se
m o pai por perto. Ele teria sido, segundo suas palavras, um policial militar. O
atendimento aconteceu através de uma médium de psicofonia semi-consciente. Ao abrir
o trabalho daquela noite, o espírito foi o primeiro a se manifestar. Ele dizia ac
eitar o desencarne, mas acreditava que tinha morrido antes da hora, pois havia d
eixado na Terra dois filhos pequenos e ainda necessitados da presença do pai. O co
ordenador do atendimento, que aqui vamos chamar de animagogo, perguntou ao espírit
o se ele acreditava em Deus. Com sua resposta afirmativa, perguntou-lhe se ele a
chava que Deus seria capaz de abandonar qualquer um de seus filhos e o espírito di
sse que não.
O diálogo prosseguiu e o animagogo perguntou se ele gostaria de se lembrar do mome
nto em que aceitou ser pai daqueles espíritos. Como ele já se encontrava mais tranqüil
o, aceitou a proposta e colaborou com o processo se colocando em uma posição de rece
ptividade. O animagogo fez os procedimentos necessários, dando um comando para que
ele acessasse aquelas informações presentes em seu inconsciente e deu uma sequência d
e pulsos magnéticos. Em poucos segundos o espírito começou a chorar e a pedir perdão a D
eus, pedindo desculpas pela falta de Fé. Consolado pelo grupo de atendimento, o es
pírito contou que os espíritos que encarnaram como seus filhos precisavam vivenciar
a experiência de ficarem órfãos ainda na tenra infância. Este fato fazia parte das provaçõe
que necessitavam passar, ele afirmou. Em outras palavras, se ele não tivesse dese
ncarnado, a prova daqueles outros espíritos não poderia ter se iniciado. Ao recupera
r essa consciência, o espírito se conformou e compreendeu que estava enganado, achan
do que havia desencarnado antes da hora. A partir desse momento, passou a aceita
r o desencarne com naturalidade, e agradeceu o grupo pelo auxilio prestado a ele
e se despediu, sendo conduzido pela espiritualidade socorrista que assiste ao g
rupo mediúnico. Em suma, ao se lembrar do momento em que fez a escolha do seu gênero
de provas, no qual concordou em ser o pai biológico de outros espíritos que passari
am pela prova da orfandade, recuperou sua consciência espiritual e se lembrou que
seu desencarne precisava ser na hora em que aconteceu. Sua vida humanizada estav
a em harmonia com a daqueles que precisavam passar pela experiência de ficarem órfãos
ainda na infância. Entre a sugestão dada e o momento da lembrança não se passaram mais d
o que 30 segundos. A lembrança mudou radicalmente sua forma de encarar o problema
e, o que é mais importante, o libertou do sofrimento que o afligia após o desencarne
, enquanto achava que ainda precisava cuidar dos filhos. Depois da lembrança, aque
les deixaram de ser filhos para se tornarem irmãos espirituais em provação. O fato não m
udou o seu amor por eles, mas mudou a maneira de os encarar. O apego paternal fo
i substituido por um amor realmente fraterno. Enfim, este atendimento demonstrou
como o fato material é aquele necessário para as provações de todos os envolvidos, porém,
cada um sempre conserva o livre-arbítrio moral, inclusive após a morte. No exemplo
acima, o espírito socorrido teve a liberdade de aceitar o fato, compreendendo que
o seu desencarne era necessário para a prova dos outros ou ficar sofrendo, como ac
onteceu durante algum período de tempo. Porém, quando acontece a recuperação da consciênci
a espiritual, ou seja, a libertação do Ego (a consciência provisória criada para mais um
a encarnação), tudo se transforma e o sofrimento termina rapidamente, como acontece
quando acordamos de um pesadelo. Podemos dizer que ao se aperceber que desencarn
ou na hora certa para que a prova daqueles outros espíritos acontecesse como previ
sto antes da encarnação de todos, ele deixou de pensar como ser humano, mesmo sem te
r mais o corpo físico, para pensar como espírito eterno que encarna para passar por
provas, expiações ou cumprir missões (questão 132 de O Livro dos Espíritos). Este caso, su
pondo que o espírito falou a verdade e que não se tratava de animismo do médium, apres
enta evidências de que a nossa existência está relacionada com as dos outros espíritos q
ue fazem parte do nosso circulo familiar. No exemplo acima, vencendo ou não a prov
a, ele precisava desencarnar para dar inicio a prova daqueles que precisavam viv
enciar a experiência da orfandade. Tudo leva a crer que, ao mesmo tempo que passam
os por nossas
provações, somos também os instrumentos necessários para as provas dos outros, de tal fo
rma que nossos atos necessitam ser direcionados para que essa ordem cósmica preval
eça, restringindo o nosso livre-arbítrio para a esfera moral, ou seja, da escolha do
s sentimentos com os quais vivenciaremos os atos praticados, uma vez que eles es
tão interligados com os dos demais espíritos humanizados, não podendo ser diferentes d
aqueles que o outro necessita receber. No exemplo acima, alguém precisou ser o ins
trumento para desligar o aparelho que “provocou” o desencarne desse espírito “antes da h
ora”.
Algumas conclusões preliminares Tanto no caso apresentado acima, como em tantos ou
tros que acompanhamos ao longo dos anos, uma constante pode ser observada. O fim
do sofrimento acontece quando o espírito recupera sua consciência espiritual e deix
a de pensar como um ser humano. No exemplo acima, enquanto o espírito pensava os o
utros como sendo os seus filhos, sofria por não conseguir ajudálos. Porém, no momento
que passou a compreender que eles eram os seus irmãos espirituais também passando po
r provações, todas escolhidas voluntariamente antes de mais uma encarnação, o sofrimento
desvaneceu como em um passe de mágica. É como se ele acordasse de um sonho e perceb
esse que tudo não passou de uma grande ilusão. Temos nestes casos a evidência de que o
sofrimento ou a felicidade depende da nossa consciência e não dos atos materiais pr
aticados. Enquanto o espírito se ver como vítima de alguém, pode sofrer ou até mesmo se
tornar um obsessor após a morte, mas quando retoma a consciência espiritual e toma c
onsciência que aconteceu apenas o que estava de acordo com o gênero da prova escolhi
da, ele passa a ver o outro como o instrumento necessário das suas provações, mesmo qu
e este último não tenha a consciência desse fato, ou seja, é um instrumento inconsciente
da ação carmática do outro. O espírito que tem essa consciência, deixa de ver o outro com
o um inimigo e passa a vê-lo como um irmão espiritual, mesmo quando este é o escolhido
para ser o instrumento de uma vicissitude negativa. Com base no estudo aqui apr
esentado, podemos afirmar que há um forte indício de que mesmo no caso do suicídio ou
da eutanásia, ninguém morre antes da hora. No caso da eutanásia alguém precisa ser o ins
trumento e fará os procedimentos necessários, na hora certa, tendo seus pensamentos
e atos dirigidos pelos espíritos, como aparece na questão 459 de O Livro dos Espíritos
. Já no caso do suicídio, se a tentativa acontece antes do momento do desencarne, al
go vai falhar e a morte não acontecerá. Porém, no momento derradeiro, passando ou não na
prova, o desligamento acontecerá. Contra essa possível fatalidade nos atos materiai
s, muitos espiritistas dizem que em O Livro dos Espíritos também está escrito que se u
ma telha cai em nossas cabeças não significa que este ato estava previsto. Sim, mas
nele também encontramos a afirmação de que se alguém não merece receber um tiro, será intuí
para se desviar. Logo, podemos concluir que mesmo não sendo um ato escrito antes d
a encarnação do espírito, se ele não merecer que uma telha lhe caia na cabeça, receberá uma
intuição para se desviar da mesma. Enfim, se a telha lhe acertou a cabeça é porque aquel
e ato era importante, trazia algum ensinamento embutido.
Enfim, a partir dos mais de 70 casos observados, podemos apresentar a teoria de
que temos sim o livre-arbítrio nos atos, principalmente quando temos a intenção de pra
ticá-los. Porém, o nosso ato, paradoxalmente, terá que ser aquele que o outro, naquele
momento, merece receber. Obviamente que esta conclusão enfurece os defensores dos
direitos humanos, mas é importante ressaltar que devemos ter sempre a intenção de pra
ticar atos moralmente aceitáveis, de praticar o Bem Porém, enquanto alguém merecer pas
sar por uma experiência que não seja compatível com os chamados direitos humanos, alguém
terá que ser o instrumento necessário para essa expiação acontecer. Podemos procurar não
ser este instrumento, perseverando no Bem, mas alguém o será e colherá os frutos desse
ato, sobretudo quando agir intencionalmente. Devemos lembrar que, no capítulo sob
re o mal, em O Livro dos Espíritos, encontramos que ele é necessário, mas que acarreta
conseqüências espirituais em quem o realiza, sobretudo quando há a intenção de o praticar
. Enfim, é o mesmo ensinamento de Jesus quando afirma que o escândalo é necessário, mas
ai daquele por quem o escândalo acontece. Em outras palavras, parece existir uma r
elação oximorônica (paradoxal) entre a liberdade e a necessidade ou entre o livre-arbítr
io e a fatalidade. Ou seja, apesar de termos a liberdade de escolher roubar ou não
(uma atitude egoísta), nosso ato será guiado para que a vítima seja alguém que precisav
a, naquele momento, passar por tal provação. E, obviamente, o responsável pelo ato acu
mulará débitos em sua economia espiritual, uma vez que teve a intenção de cometer aquele
ato. O mesmo vale para qualquer ação egoísta, entre elas o suicídio, já que todos os moti
vos para quem comete o ato, intencionalmente, são egoístas (perda material, sentimen
tal, orgulho ferido etc.). Podemos ilustrar a problemática acima com o seguinte es
quema conceitual. O espírito, quando se encontra com sua consciência espiritual plen
a, escolhe um gênero de provas. A partir dessa escolha será criado um Ego (uma consc
iência provisória para ser vivenciada na Terra) e toda uma programação genética para a pro
va acontecer. O espírito não é homem ou mulher, branco ou preto, rico ou pobre, mas, e
ssa diversidade acontecerá em função da escolha da prova realizada no plano espiritual
. No caso daquele que opta por vencer a tentação do suicídio, ele poderá vir a ter duran
te a sua existência várias tentações programadas, em diferentes momentos de sua existência
, mas que não vão se concretizar. Neste caso, mesmo que tente o suicídio, não alcançará êxi
Porém, quando chegar a prova derradeira, se suportar a tentação que se abate sobre el
e, conseguirá alcançar o objetivo almejado pelo espírito. Porém, se a materialidade da v
ida humanizada for mais forte e não a suportar, desencarnará vítima do suicídio e será, ob
viamente, responsabilizado pelo ato, sofrendo nos mundos de purgação (umbral) o temp
o necessário para purificar seu perispírito da toxidade acumulada na Terra e estar e
m condições de voltar para a dimensão espiritual originária, onde analisará seu desempenho
naquela prova e poderá programar sua próxima encarnação, tentando novamente esta prova
ou uma outra. Porém, com esse ato, vai gerar naqueles que foram seus familiares ou
amigos também uma prova, que pode ser a do desapego sentimental. E isso vale para
todos os tipos de prova. Obviamente que ninguém encarna, por exemplo, com a missão
de tirar a vida de um outro espírito, mas enquanto houver espíritos que precisem des
encarnar com um tiro, será necessário que alguém seja o instrumento para a ação acontecer.
E, se o escolhido agir com intenção, assumirá a responsabilidade pelo ato e colherá tod
a a conseqüência do mesmo. Porém, pode ser que o ato aconteça em um acidente, sem que ha
ja a intenção. Nesse caso, ou no anterior, a “vítima” desencarnou na hora certa, pois só De
s tem, em
tese, o direito de tirar a vida, afirma O Livro dos Espíritos. Assim, quem atira c
om intenção gera um débito e aquele que se torna um instrumento involuntário, não se compr
ome com a Lei de causa e efeito, pois não teve a intenção de cometer o crime. E essa h
ipótese se torna mais evidente quando se estuda os atendimentos espirituais às vítimas
da eutanásia. No grupo mediúnico que acompanhamos ficou patente que o responsável pel
a prática da eutanásia foi também um instrumento e sua prova sempre foi moral e não mate
rial: com qual intenção ele praticou a eutanásia ativa ou passiva, uma vez que ela aco
nteceu na hora certa, e alguém precisava ser o responsável por essa ação? Como já salienta
mos, os espíritos afirmam que eles freqüentemente agem sobre nossos pensamentos e no
ssas ações (questão 459), logo, também devem agir sobre aquele que pratica a eutanásia. En
fim, são vários os indícios que nos levam a afirmar que o espírito que desencarna através
da eutanásia também morre na hora certa e, quando o espírito narra que sofreu na errat
icidade, não foi por causa do ato praticado, mas, na maioria das vezes, em função da s
ua não preparação para o retorno ao mundo dos espíritos ou por seu egoísmo. Tivemos a opor
tunidade de acompanhar vários espíritos cuja existência foi, predominantemente, marcad
a pelo materialismo ou cuja religiosidade não passava de mera formalidade exterior
, afirmando que, ao se verem desvinculados do corpo físico, passaram a sofrer. Enf
im, como afirmam, não foi a eutanásia, mas a não aceitação da morte. Em outros casos é o ap
go material e o egoísmo que leva os espíritos a desejar se vingar e se tornam obsess
ores, querendo prejudicar aquele que foi o instrumento para que o desencarne aco
ntecesse. E outros sofrem, como no caso apresentado acima, porque sentem a neces
sidade de continuar junto aos familiares, não compreendendo que todos possuem prov
as para passar. Enfim, no caso do livre-arbítrio, a tendência existente no movimento
espiritista de colocar em frentes opostas a liberdade de escolha e a fatalidade
é fruto do imaginário tipicamente ocidental, marcado pelo dualismo, e não um ensiname
nto dos espíritos para Kardec. Ou seja, está no imaginário ocidental a nossa tendência e
m pensar que o mundo é feito de relações antagônicas. Esse posicionamento diante dos fat
os é diferente do imaginário oriental no qual predomina a crença na existência de polari
dades que se complementam. Ou seja, onde cada um dos pólos contém essencialmente o o
utro, como na famosa relação Yin-Yang proposta pelo pensamento taoista. Assim, anali
sando os casos acima, podemos afirmar que existe uma relação paradoxal ou oximorônica
entre o livre-arbítrio e a fatalidade. Ou seja, mesmo aquele que exercita o seu li
vrearbítrio de forma egoísta, desejando assaltar alguém, a lei de “causa e efeito” vai det
erminar quem será a vítima e não o acaso. Em suma, para que a “colheita” possa acontecer,
um instrumento sempre se faz necessário. A interpretação do livre-arbítrio no movimento
espiritista, de maneira geral, está na aceitação universal de que tudo o que plantarmo
s hoje, colheremos no futuro, mas, por uma razão que desconhecemos, quando a colhe
ita acontece, temos dificuldade em aceitá-la e passamos a ver injustiça. É como se o m
omento presente fosse apenas de plantação e não também de colheta. É por isso que muitos p
alestrantes espiritistas afirmam que inocentes sofreram na mão de Hitler nos campo
s de concentração ou que pessoas morreram antes da hora na queda do WTC, nos EUA, ou
no acidente com o avião da TAM, em 2007, na cidade de São Paulo.
Em muitos livros espiritistas o nosso livre-arbítrio seria capaz de alterar a prov
a, a expiação ou a missão de um outro espírito encarnado, antecipando o seu desencarne,
por exemplo, ou fazendo com que alguém passasse por experiências que não merecesse pas
sar. A nossa experiência com o socorro de suicidas ou de vítimas da eutanásia nos leva
a pensar na existência de uma relação paradoxal entre o livre-arbítrio e a fatalidade,
demonstrando que a Lei de causa e efeito não possui falhas. Além disso, parece compr
ovar os ensinamentos dos espíritos para Kardec quando afirmam que após a encarnação o li
vre-arbítrio é moral e não material. Há fortes evidências que após a encarnação temos a lib
e de manifestar amor ou egoísmo, mas os atos materiais são coordenados por uma força s
uperior, chamada de carma ou de Lei de causa e efeito, para não haver injustiças. Ou
seja, para que cada um possa colher o que necessita e merece, em cada momento d
e sua vida humanizada. E isso vale para as vicissitudes positivas como para as n
egativas, mesmo que isso desagrade os defensores dos direitos humanos e o sentim
entalismo de parte do movimento espiritista ainda apegado a uma simplória noção de bem
e de mal. Bibliografia consultada Azevedo, José Lacerda de. Espírito/Matéria: novos h
orizontes para a medicina. Porto Alegre – RS, Casa do Jardim, 2005. Kardec, Allan.
O Livro dos Espíritos. Tradução de Salvador Gentile. Araras – SP, IDE, 2002. Marques, A
dilson. Educação após a morte: princípios de animagogia com seres incorpóreos . São Carlos
P, BN, 2009 (2 edição).