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Sobrevivendo ao trauma

Sobrevivendo ao Trauma
(Surviving Trauma)
Néstor A. Braunstein1*

Palavras-chave:
Trauma – Sobrevivência – Freud – Lacan – Neuroses Traumáticas.
Resumo:
O Traumatizado é um sobrevivente, um ser que, de forma metafórica, tomou o
lugar de um outro que vivia anteriormente., que poderia ter morrido mas não o
fez. Há uma troca de identidade apesar do nome próprio ser conservado. O outro
demanda do traumatizado que continue sendo aquele que ele era antes, porém, a
sua resposta é “I am not myself any longer” (Já não sou mais quem eu era) “The
mirror doesn’t work anymore” (O espelho deixou de funcionar). Há referências
ao trabalho de Freud e Lacan nos quais a noção de trauma é elaborada, incluindo
a desqualificação da idéia de que o trauma é o que é verdadeiro, feita por Lacan,
ao final de seu seminário. São considerados exemplos históricos, como das
catástrofes do Século XX e obras literárias (Shakespeare, Giorgio Bassani,
Sartre, Primo Levi, Istvan Kertesz). A neurose traumática é a forma mais
dramática de questionamento das identificações subjetivas.
Em um trauma alguém (some-body, um corpo) atravessa uma situação na qual
poderia morrer mas não o faz. Portanto, do trauma, o sujeito é um sobrevivente.
Um morto potencial que apesar disso continua vivendo. Alguém que vive além
do momento em que deveria ter morrido.
Se já viveu a morte (física ou anímica), porém sem morrer quando era hora, pelo
menos, não deveria viver. Está “entre duas mortes”. Uma que já passou e outra
que está por chegar.
O trauma corta a vida em duas partes: antes e depois. Só que aquele que respira
depois não é o mesmo de antes. Um morreu; outro ficou em seu lugar. O
sobrevivente deve fazer o luto por aquele que se foi, aquele que ele nunca mais
poderá voltar a ser, para que alguém que está para chegar, um outro, portador do
mesmo nome, dono das mesmas memórias, fale e viva em seu nome. Com que
direito?
O sobrevivente é um “morto sem sepultura” (Sartre). Chegou à existência
brotando de uma sepultura sem morto.
Será um impostor? Poderá deixar de sê-lo? O sujeito que acreditava ser um, com
identidade narcísica mais ou menos consolidada (“Eu sou eu”), encontra agora
sua divisão no real. A sombra da lápide caminha ao seu lado: a menos que ele (ou
ela) seja, da lápide, a sombra.
Aquele “que voltou a nascer”é um lesado, um sonâmbulo que carrega os restos
mortais daquele que não voltará mais. O trauma deixa cicatrizes inapagáveis. O
sobrevivente é também uma testemunha que mostra sua ferida: “Vejam o que sou
1
Profesor de Pós-graduação de la Facultad de Psicología de la Universidad Nacional de México. Doutor
en Medicina e Cirugía na Universidad Nacional de Córdoba , Argentina. Psicanalista. Hortensia 234 – 11
(01030) MÉXICO D. F. Tel (5255) 5661 1386 Fax (5255) 5662 2227 nabraunstein@laneta.apc.org
Tradutora: Marylink Kupferberg (maryk@vetor.com.br) PUC-Rio
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agora; eu que fui...”. Em versão patética, em dimensão de tragédia: “Vejam ao


que me vejo reduzido”.
O trauma faz estalar os performativos: as promessas que foram recebidas, os
compromissos que foram aceitos. Os contratos perderam sua validade: não se
pode pedir ao sobrevivente que cumpra com o que assinou aquele que (se) foi. E,
contudo, o Outro segue pedindo ao sujeito para prestar contas, que pague suas
dívidas.
Onde ficam as esperanças e os juramentos de ontem quando se deixou de ser
quem se era? Lear: “Who is who can tell who I am ?.” Ninguém pode lhe dizer
quem ele é. Talvez alguém possa lhe contar quem ele foi.
Quem volta da guerra, quem volta do exílio: é aquele que se foi? Ou é um
irreconhecível, um homem apagado que deve construir, tijolo por tijolo, uma
nova identidade, uma nova morada para o ser?
O trauma dilui os contornos do ser social. O corpo carrega o peso do espectro, ou
é o espectro quem carrega a servidão de um corpo que já não coincide com ele?
Numa das “estarrecedoras” Storie Ferrarese – (Histórias de Ferrara) (“Una lápida
en la Via Mazzini”), Giorgio Bassani conta a história de Geo Josz que, ao voltar
de Büchenwald, encontra seu nome inscrito entre os 183 judeus ferrareses que,
presumidamente, haviam desaparecido nos Lager alemães. Havia sido dado como
morto e não era o caso de refazer a custosa lápide de mármore colocada na
entrada da velha sinagoga da Rua Mazzini. Geo é uma incômoda memória viva
para todos aqueles que querem voltar a uma vida normal e esquecer a história,
inclusive para os poucos judeus que regressam da Suíça em 1946. Por que, para
que, tinha que voltar? Fica vagando por mais de dois anos pelas ruas da cidade
vestindo roupas militares ridículas, já em desuso. Num dado momento se
estabelece uma conversação cortês entre ele e um conde que havia sido
informante dos fascistas. O conde Socca lhe pergunta, , pelos membros de sua
família, um por um, todos desaparecidos. De repente, de maneira imotivada, dado
o gentil teor da conversa, duas sonoras bofetadas se descarregam a partir da mão
de Geo e atingem o conde Socca em pleno rosto. Terá pensado Geo: “O que estou
fazendo aqui com este homen? Quem é ele? E eu, eu que respondo às suas
perguntas, e me presto ao seu jogo, quem sou?. Pouco depois do incidente Geo
Josz desaparece de Ferrara. Ninguém sabe aonde foi nem o que é ou será dele
(Palestina, América do Sul, algum país atrás da cortina?). O relato termina:
Foram duas bofetadas que, por detrás de um momento de um estupor mudo,
haviam respondido de forma fulminante às insistentes perguntas, ainda que
corteses, de Lionello Socca. Porém, também poderia ter respondido a essas
perguntas com um alarido furibundo, desumano, tão estridente que a cidade
inteira, que se aninhava desde o outro lado da enganosa e intacta casa da rua
Mazzini até as distantes muralhas em ruínas, pudesse ouvi-lo com horror.
É possível sobreviver ao nome inscrito no mármore como recordação de seu
desaparecimento? Ou resta apenas se desvanecer tão discretamente como se (re)
apareceu?
“Se a angústia é a reação do eu frente ao perigo parece evidente que a neurose
traumática, tão freqüentemente seqüela de um perigo mortal, tem que ser
concebida como conseqüência direta da angústia de sobrevivência ou de morte,
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deixando de lado as vassalagens do eu e a castração... Depois de tudo que já


sabemos a respeito da estrutura das neuroses mais simples da vida cotidiana é
bastante improvável que uma neurose sobrevenha apenas pelo fato objetivo de
um perigo mortal, sem a participação dos extratos inconscientes... Por isso me
atenho à conjectura de que a angústia de morte deve ser considerada como um
análogo da angústia de castração”. (Freud, 1926, p.122).

Todos tivemos vivências traumáticas que deixaram suas distintas espécies de


impressões na alma: recordações, neuroses de susto, repressão, forclusão. Se,
como queria Otto Rank, o próprio nascimento é um trauma, todo vivente é um
sobre - vivi – ente.
O sujeito, morto que vaga pela vida, segue sonhando. E conta seus sonhos a
alguém o escute. Os sonhos repetem o trauma: há um núcleo duro, um molde
inevitável, que os produz. E os reproduz: compulsão de repetição. Assim se
chama. Constante voltar ao mesmo: rosca espanada de um parafuso que não
avança. Fixação, cola, grude.
Faz falta o Outro, a testemunha, o olho e o ouvido, a transferência.
Auschwitz, Buchenwald, Hiroshima, torres gêmeas, esse é o novo nome do
sujeito que passou por esses lugares, sua nova e irrenunciável identidade. Esses
nomes do inferno são os exemplos históricos e coletivos inscritos na memória
coletiva que, por sua vez, obscurecem e tornam patente o anonimato das demais
vítimas de acontecimentos sem historiografia, dos infinitos encontros não
registrados de cada sujeito com o real.
O real é, neste caso, a intervenção astuciosa da crueldade do Outro.
Auschwitz, paradigma dos nomes do inferno, é o modo de nomear o encontro
traumático e inconcebível com o gozo perverso do Outro. Alguém planejou o
campo, a bomba, o impacto dos aviões contra os arranha-céus, a cena da sedução
infantil, a cena originária, a operação castradora. Por que, por que a mim, porque
era eu que tinha que estar neste momento, neste lugar? A pergunta é feita devido
a uma suposta culpabilidade inconsciente que recebeu esta resposta dos poderes
do destino.
Meu reino por uma narrativa na qual possa encontrar meu lugar, por uma
seqüência cronológica que dê sentido à minha travessia pelo mundo! Expliquem
– me! Digam-me por que)! Alguém, o Pai, o Sujeito Suposto Saber deve saber
por quê.
Acidente? Não. É algo que se apresenta ao sujeito como acidental, pura tiché.
Porém há premeditação por parte do Outro, proairesis (escolha voluntária)
dianoia e
(manipulação orientada por uma certa finalidade), quando o sujeito, sem saber a
que está exposto, sofre o encontro com a vontade maléfica do gozo do Outro
(Lacan, 1964/ano da edição, n/ da página) . De todo modo, nunca está excluída a
possibilidade de ação dessa “pulsão traumatofílica”, da qual falaremos mais
adiante.
O traumatismo deveria ser atenuado pela homeostase subjetivante, por uma
“função sintética do eu” que orientasse o sujeito pelas vias do princípio do prazer
recorrendo aos processos primários, tornando possível o dormir e o sonhar,
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decifrando e dando sentido ao gozo do Outro. Falta, faria falta o colchão


amortecedor da palavra.
Não é o que acontece nas neuroses traumáticas. O real se reproduz sem véu, a
realidade fica à espera, detida, em suspenso, en souffrance. E seu lugar é tomado
pela coação, o automatismo, Zwang, uma repetição que se impõe e até maneja os
fios dos processos primários em oposição ao princípio que manda, antes de mais
nada, evitar o desprazer.
Nas neuroses que não são traumáticas, no não traumático das neuroses, interpõe-
se um véu, o da fantasia: uma tela que transforma, dissimula os fatalismos da
repetição coativa. A neurose traumática pode ser concebida como uma falha da
função encobridora da fantasia. Pode postular-se uma oposição binária; ou a
fantasia que consola ou o trauma que perturba.
O grau de participação fantasmática é o critério que permite distinguir entre as
neuroses traumáticas (nunca puras, sempre marcadas pelo trauma infantil que é o
ingresso na realidade sexual do inconsciente), e as neuroses de transferência,
tampouco puras, pois o encontro com o Outro gozador da sedução, a cena
originária e a castração é, sempre e necessariamente, um acontecimento
traumático (Rudge, prelo).
Em 1916 – 1917 Freud (1916-1917, p.256) dizia que somente se podia dar
sentido ao conceito de trauma em termos econômicos, como uma vivência na
qual o sujeito é invadido por magnitudes energéticas hiper intensas impossíveis
de dominar. Esse “somente” permite excluir tanto a índole do acontecimento
como as conseqüências do mesmo no quadro clínico do paciente. Rompeu–se ou
não o Reizschutz, o aparato de paraexcitações, o filtro, o aparato protetor contra
as cargas excessivas?
No modelo freudiano se impõe uma analogia com o fusível elétrico, esse
dispositivo que “estoura” e deixa tudo na escuridão para proteger a casa do
incêndio.
Freud nunca deixou e considerar que o trauma implicava sempre em uma ação
intencional de mais alguém, do Outro, que estava incluído. Esse caráter sexual,
transubjetivo, interpretável, do trauma como relação entre um corpo e um desejo
que lhe é estranho é a diferença principal entre Freud e seus predecessores.
Franceses (Charcot e os irmãos Jules e Pierre Janet).
É esta ênfase na vontade perversa do gozo do Outro, exercida sobre corpos
condenados à falta de defesa, uma abordagem importante da psicanálise para
compreender o inexplicável que ultrapassa o politicamente compreensível: a
Guerra Civil Espanhola, a Shoah com sua “solução final”, Hiroshima, o 11 de
Setembro, a invasão do Iraque e do Afganistão e...e ?
Sobrepondo-se ao modelo econômico defendido em 1917, aparece em 1925 a
analogia com o “bloco mágico.” (Freud, 1925/ ano da sua edição) Neste caso o
trauma também é, como na medicina, uma lesão, uma efração dos tecidos. A
diferença é que já não se trata mais de uma comparação da mente com o
organismo que sofreu, fraturado, mas, agora, o modelo passa a ser um aparelho
de escrita. O trauma é um descolamento da capa de celulóide, capa que permite
que por debaixo dela, se conservem os escritos da experiência. A brutalidade do
impacto anímico torna possível que se conservem marcas no papel encerado (pré
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- consciente) ou na cera a ela subjacente (inconsciente).


A película de celulóide do bloco mágico é a figuração de um “tegumento
psíquico” que seria atravessado por um instrumento pontudo e cortante, o
estímulo hiper intenso impossível de simbolizar. Toda a preparação para o susto,
toda prevenção, toda tentativa de subtrair-se, de fechar os olhos, como no cinema
quando se assiste a um filme de terror, foi rebaixada pela intrusão do gozo
nefasto do Outro.
Em termos do último Freud, o trauma resulta de um fracasso dos mecanismos de
defesa do eu que deveriam ser restaurados de modo a devolver ao sujeito a
possibilidade de reprimir, racionalizar, intelectualizar, transformar no contrário,
etc.
Freud pensa em restituir e por isso, em 1937 deposita suas maiores esperanças
para o tratamento das neuroses quando nelas se encontra uma importante
participação do componente traumático em contraposição com o elemento
constitucional que resiste à transformação dos modos de satisfação libidinal.
“Não há nenhuma dúvida de que a etiologia traumática oferece uma oportunidade
muito mais favorável para a análise” (Freud, 1937, p. 223).
Clinicamente é difícil compartilhar desse otimismo. O traumatismo não é nunca a
etiologia da neurose. Existe uma predisposição a ser vítima que tem relação com
o problema econômico do masoquismo
Recordemos um momento esquecido da história da psicanálise. Foi Karl
Abraham, em 1907, quem propôs a noção de uma “diátese traumatofílica”
(1907/1961, p. 43)., verdadeiro antecedente da ulterior “compulsão à repetição”
freudiana, da pulsão de morte e do conceito lacaniano de gozo. Esta idéia de uma
“diátese” (eu preferiria falar diretamente de uma “pulsão traumatofílica” para
evitar esse conceito médico horrível e fora de uso, e para incorporar o termo em
seu lugar correspondente em nosso vocabulário), esta “pulsão traumatofílica”,
que o próprio Abraham reconhecia como possuindo um precedente freudiano na
multiplicação de exemplos de danos infligidos a si próprio incluídos na casuística
da Psicopatologia da vida cotidiana, é uma realidade clínica indubitável. A
teorização de uma tal pulsão se fortaleceria mais tarde com as noções de ataque
do sujeito à própria imagem narcísica, com a promoção da instância do Supereu,
com a consideração do “problema econômico do masoquismo” e com a análise
(em nenhum dos casos terminada, para pesar de Freud) dos pacientes que
sofreram experiências traumáticas durante e imediatamente após o término da
Primeira Guerra Mundial.
Quando se realizou, enquanto as bocas dos canhões ainda fumegavam durante a
Grande Guerra e a guerra civil húngara, o Congresso de Psicanalistas em
Budapest (Setembro de 1918), o trabalho doutrinário mais importante não foi o
de Freud, (Freud, 1919) “Introducción a Zur Psychoanalyse der Kriegsneurosen”,
e sim o de Karl Abraham(1921/1961).
. Nesse texto não aparece expressamente a expressão “diátese traumatofílica”
porém seu conceito pode ser rastreado no relato das experiências clínicas com os
sobreviventes dos traumas bélicos. Tanto Freud em sua “Introdução” como
Abraham em seu meduloso artigo estão preocupados com a idéia de que a
importância dada ao fator traumático poderia ir contra as descobertas da
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psicanálise e , em particular, da realidade sexual do inconsciente e do


determinante infantil da neurose, incluindo as traumáticas.
O sujeito se apega às situações de desamparo. Abraham havia demonstrado que
só o fato de haver sido a vítima passiva de um trauma sexual constituía, de per si,
uma forma de atividade e também de satisfação sexual. A “neurose básica”
proposta muito mais tarde por Bergler (1949/1964) consistia na reiteração das
situações nas quais o sujeito pode tratar a si mesmo como vítima, a partir do que
se concede as doces dores da auto-compaixão.
O trauma é um presente que não quer entrar no passado. Goza-se na sua
repetição? A quantos não vemos que estão enamorados das atrocidades do Outro,
que as amam mais que a si mesmos? Não é uma atração fatal a que leva o sujeito
a ceder sua causalidade ao Outro, a não ter mais outro desejo senão o de ser
objeto da demanda e do gozo do Outro?
No nó borromeano, o trauma se inscreve na área do gozo do Outro, entre o
imaginário da fantasia e o real que volta sempre ao seu lugar, fora do
simbólico(Lacan, 1974).
Quantas crianças buscam a participação dos mais velhos no cumprimento de
aspirações pulsionais, em princípio, dolorosas e suspeitas? Quanto gozo na
fantasia de ser batido – (re) querido pelo pai (Braunstein, 1994)?
Falha do princípio do prazer que leva necessariamente à concepção de uma
pulsão de morte, de retorno ao inanimado, de sufocação e anulação do aparato
significante.
“O mistério do trauma remete à repetição do signo, daquilo que não foi
simbolizado e incluído num sistema de diferenças significantes”(Lacan, 1961).
Por que o acontecimento insuportável retorna nos sonhos, contrariando o
princípio do prazer? Por que apresenta a morte e sua pulsão, uma energia não
ligada ao significante?(Lacan, 1964/ )
Antes de Heidegger, Freud já afirmara que o ser é para a morte e que a vida é
dissimulação desta verdade essencial, rejeição do inconsciente à idéia da própria
morte.
O traumático é a antecipação do sempre sabido e do sempre negado pelo eu, que
coloca a seu favor os serviços do inconsciente que o governa.
O traumático “não é o que irrompeu num certo momento e fraturou uma
estrutura, a do narcisismo, imaginada como total. O traumatismo é um valor
traumático que deve buscar-se (no grafo do desejo) na relação do sujeito com o
significante”(Lacan, 1961, p. )
Insensível, e gradualmente Lacan vai tomando suas distâncias de Freud: o trauma
freudiano é impensável e incoerente, pois propõe um “eu não sei” (inconsciente,
unbewusst) que por sua vez supõe um “eu penso”, desligado de todo pensamento
(Lacan, 1969).
O traumático não reside na positividade da cadeia significante, mas na ausência
nela de um elemento, o significante do desejo do Outro que não é formulado. É
no encontro com essa falta de significante que reside o “valor traumático” desta
ou daquela cena. Tal é a culpa do Pai, tal é a causa de Deus. S de A barrado.
Mais além do princípio do prazer e também mais além do princípio de realidade.
Mais além de todo princípio e de toda lógica. Fora do sentido: é ali onde reside o
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Real.
Cada um, se está submetido à compulsão de repetição (e quem não está?), é um
caso de neurose traumática. Um cenário para a atuação da pulsão traumatofílica.
A – pegado a seus traumas; (a) pegado. Criança batida (pegada) no encontro fatal
com o desejo do Outro.
José Saramago, em “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, conta que Jesus,
obedecendo a um conselho de Maria Magdalena, se nega a ressuscitar Lázaro
porque, segundo ela, ninguém na vida cometeu tantos pecados para que mereça
morrer duas vezes.
Todos somos sobreviventes, todos tocamos a morte com cada trauma padecido.
Estamos, como o Lázaro dos Evangelhos canônicos, não do piedoso Evangelho
de Saramago, entre duas (ou entre várias) mortes. Para Maria, a de Magdala, tão
mulher, bastava uma.
A idéia de ser sobrevivente por ter atravessado o trauma de nascer é
inconveniente: tira o sentido, primeiro, à noção de trauma que, ao ser a condição
de “todos”, passa a ser uma banalidade: é um universal do qual não valeria a pena
falar, e, segundo, retira o sentido também da noção de sobrevivência. O universal
“todos” não pode anular a odisséia dos particulares (cada um de “todos”, cada um
à sua maneira).
Contudo, o trauma não é uma vicissitude contingente. É uma necessidade
estrutural para que o falante (parlêtre) advenha. Não se pode entrar na linguagem
sem renunciar ao gozo. Esse é o conceito mesmo de castração. Por esta razão
Freud se negava, como já dissemos e já citamos, a separar a angústia de morte da
angústia de castração
Sobreviver à espera da segunda (ou enésima) morte, guardando as marcas da(s)
primeira (s) pode ser uma atrocidade. Porém é nosso destino, fecundo e fatal.
Podemos ser alguma coisa, porque somos o resultado da castração simbólica.
O acontecimento traumático, sim, é uma contingência: esse dia se poderia ter
estado em Kyoto e não em Hiroshima . Mas, quem estava em Hiroshima e não
morreu, será para sempre um hibakusha, um sobrevivente da bomba. O trauma é
o real, inevitável para a alma destroçada pela explosão e que nunca voltará a ser o
que era antes. Em troca, voltará sempre ao Verão de 1945. Por necessidade. Por
desgraça. Pelo império de um gozo maléfico.
O que se foi não desaparece: o buraco que fica no seu lugar, um buraco povoado
de fotografias e de recordações, o comemora. A lápide muda que não cabe em
nenhum cemitério diz as datas de nascimento e da primeira morte. Esse dia da
morte não acontecida é a do nascimento e a dos aniversários do sobrevivente.
Sabemos que devemos nascer duas vezes: uma da mãe, para respirar; outra do pai
para nos separarmos da mãe e ocuparmos um lugar na polis.
O primeiro nascimento não é traumático para o feto. O é, em troca, para a mãe:
“Poderia comparar-se a uma castração da mãe” (Freud, 1926/ , p. 123) (de acordo
com a equação filho = pênis).
O segundo nascimento, ex- padre natus, é nascer para a linguagem, é passar pela
castração, é renunciar à satisfação pulsional imediata, é perder o gozo do ser para
sempre. É renunciar à posição de substituto do falo materno. É fazer o luto pelo
lugar perdido e viver, sem retorno possível, no exílio.
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A morte fica inscrita como memória do trauma deste segundo nascimento, o


político, o do pai, o da pére-version, o da alienação no campo do Outro. A
separação está na inauguração da vida. Com ela começa a espera da segunda
morte, a definitiva.
A morte por vir é, assim, reminiscência (antecipada) do trauma. Futuro anterior.
A vida terá sido após a morte. É, por ora, espera pre-paração, pre-caução, pro-
gramação.
A angústia é uma prevenção do pânico (Schreck, Schreckneurosen [Freud]). É
um sinal sempre pronto a comandar ações de distanciamento, a fim de se colocar
fora de alcance da repetição da cena traumática. A angústia é antecipação de um
trauma já vivido e, por isso mesmo, pertinente e eminente. É trauma de separação
e da perda do outro que sustenta na vida. O abandono está programado, isto é,
escrito anteriormente, pre-escrito, prescrito. A morte é essa prescrição da vida:
está igualmente programada. É necessária: não deixa de se escrever.
O trauma é o real impossível de simbolizar. Desaloja o sujeito. Enquanto a
antecipação da separação inevitável é o que não deixa de não se escrever. Foi.
Está. Já virá.
Que fazer enquanto isso? Brincar. Encontrar os carretéis – carriles que permitam
se localizar no mundo: Fort-Da. Brincar em algum espaço transicional com um
objeto que represente o objeto (mãe) que brinca conosco com seus ritmos de
presença e ausência. Re-presentar in absentia o in effigie...como se
estivesse...como se...
O desamparo e o desespero são o efeito da partida do Outro. É a concepção
clássica de trauma, como morte atualizada e repetida, como separação. Mas, é a
vida que se perpetua sob os significantes do Outro que mortifica com suas
demandas e suas supostas “satisfações”?
Morte é a separação, porém não menos morte é a da alienação. Morte há no
autismo mas também na colméia. O sujeito só pode viver, e não apenas
sobreviver, na república dos diferentes. Porém o direito aponta que a república é
para os iguais (perante a lei). E lá se pode sobreviver? A vida no formigueiro não
é traumática mas também não é vida. Será que somente se vive, se vive
verdadeiramente, à beira do abismo, sobre o fio do traumatismo, perigosamente,
ali onde reside o que salva?
Não são iguais todas as sobrevivências. Há as animadas e as inertes. Navigare
necesse est, vivere non necesse (Freud, 1915, p. 292).
Lacan, pai ou avô? Vê com seus próprios olhos, alertados pela intuição materna,
como a criança, traumatizada por sua partida, sofre e balbucia numa demanda
incoercível, com a duração de meses inteiros, reclamando para que Lacan não se
vá. O adulto se transforma assim, num significante vivo. Seus ombros, sobre os
quais a criança pode adormecer, serão os únicos capazes de trazer consolo depois
do dia do trauma. Sobre esses ombros poderá se produzir o encontro sonhado
com aquele que anteriormente se ausentou (Lacan, 1964/ ano de publicação ).
O suporte perdido e reencontrado (wiedergefunden) no sonho ou na alucinação
do peito materno é o agente da Spaltung do sujeito.Por faltar e por estar. O
princípio de realidade impõe viver na ausência do Outro, habitar uma paisagem
na qual fatalmente falta o significante do Outro e de seu incompreensível desejo.
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Paisagem de desejo, nostalgia e saudade. Pois o Outro, inevitavelmente se vai.


Esse é o trauma do homem dos lobos: os pais ocupados numa ação
incompreensível da qual ele é uma testemunha limitada a expressar-se com o
movimento de seus intestinos. O trauma não depende da dimensão do
“acontecimento” do coito parental, e sim da dimensão fantasmática, que é
infinitamente mais importante.
Quando se produziu o trauma? Freud insiste em datá-lo com precisão: aos seis
meses ou com um ano e meio. Para Lacan (1954/ano de publicação....) essa
escrita da história é secundária: o trauma sobrevém après-coup: é uma efração
imaginária, uma fratura que não se integra no sistema verbalizado do sujeito.
A construção do trauma é um momento considerado essencial, mas também um
dos riscos do empreendimento analítico. Poder-se-ia chegar a pensar que ele foi
encontrado e com isso o enigma da neurose foi resolvido. Buscar o trauma
originário das histerias foi o primeiro dos projetos de Freud. Era a pré-história da
psicanálise.
“O tempo de uma análise é, por definição, aquele no qual o trauma é posto em
evidência; é o tempo da produção do trauma e, por conseguinte, de sua
construção simbólica. Assim, pois, a relação entre trauma e transferência é
estrutural.”(Mieli, 2001, p. 270) Este artigo de Paola Mieli e o anteriormente
mencionado de Ana Maria Rudge são as duas exposições mais sistemáticas e
melhor organizadas do conceito de trauma na perspectiva freudiana. Ambos
constituem os pressupostos desta série de aforismos.
O trauma se perpetra a si mesmo numa autofagia gozosa: quando se torna
narrativa começa a existir e a se nutrir de sentido. Ao mesmo tempo e por essa
mesma razão, se desfaz como trauma. Se a re-presentação e o re-lato de uma
experiência insuportável não conseguem desvanecer seus efeitos, é então que
podemos fundar o diagnóstico de neurose traumática. É quando o paciente não
consegue conceber uma narração como uma seqüência dotada de sentido.
A vivência traumática, não podendo se integrar no simbólico, não pode tampouco
cair no esquecimento. Lá permanecem as marcas corporais do gozo como signos
perceptivos (Wahrnehmugszeichen na carta 52) que não estão submetidos ao
deciframento do inconsciente e que resistem a serem colocados em palavras.
Por estar fora da articulação da linguagem e fora do sentido é que o trauma
pertence ao real. Somente se pode saber dele quando deixa de sê-lo. É “a palavra
ou a morte”como disse um dia Lacan a Moustapha Safouan (Safouan, 1993) e
que nós podemos reescrever como “a palavra ou o trauma”. Reiterando: ou
brincar ou gritar.
Nasce-se nesse “novo ato psíquico” no qual se constitui a fantasia do ego (moi),
do self. O sujeito sente que é ele mesmo (myself) e dele tem as precárias certezas
que lhe dá o espelho, o nome próprio, a inscrição feita pelo Outro no Livro dos
vivos (ou seja, dos futuros mortos). O sobrevivente recebe uma vida dentro dos
limites contratuais impostos pelo Outro. Deve entregar seu gozo para (sobre)
viver. “A bolsa ou a vida!”.
Que (me) quer (o Outro)? A resposta impossível a essa pergunta é o trauma. O
incompreensível. É um efeito de estrutura, não conjuntural ou anedótico.
Significante da falta no Outro é o nome “matemático” do trauma.
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Lo Ur-, o primitivo e originário, é sempre secundário: “O trauma só é concebido


como um ponto original na medida em que o sujeito o produz retroativamente
pela soma das interpretações.” (Lacan, 1969). É então, pela referida autofagia,
por articular-se em interpretações, que deixa de ser trauma.
Sem dúvida, a reconstrução de uma cena traumática à qual se pode dar crédito é
consoladora. Nesse ponto se produz a confluência do pensamento de Freud com a
crença do paciente. É o momento perigoso da “convicção”, quando psicanálise,
religião e delírio se aproximam (Freud, 1938). Já Lacan, distanciando-se do
fundador, resiste a considerar a convicção como prova da verdade da construção:
“O paciente diz o que é verdadeiro enquanto, o psicanalista sabe que ele só fala
margeando o verdadeiro, já que ele ignora o verdadeiro. Freud delira quando crê
que o verdadeiro é o núcleo traumático. Esse tal núcleo não tem existência: é um
efeito de que o sujeito tenha aprendido uma língua entre outras, uma
alíngua”(Lacan, 19-4-1977).
É preciso reconhecer que o “núcleo traumático” deste “delírio” freudiano tem, de
todo modo, sua “utilidade”terapêutica e não margeando, mas em oposição ao
verdadeiro. É a pedra basal e o mito fundamental de uma existência imaginária.
Ou a psicoterapia ou a psicanálise. Hyppolite, apoiando-se em Heidegger, o
percebeu quando começava o ensino de Lacan: o engano do terapeuta é, na
perspectiva de Heidegger, o pior que existe, “o esquecimento do
esquecimento”(Lacan, 1954, p. ). A construção retroativa do trauma como
explicação para o fracasso e da neurose de um sujeito é um consolo perigoso,
uma redução enganosa. Disso sabem, melhor que ninguém, as vítimas dos
“investigadores da verdade” do “movimento da recuperação da memória” que
nos Estados Unidos, em décadas já passadas, inspirando-se (sem sabê-lo, nem
reconhecê-lo) no último Ferenczi, faziam crer que a cura da neurose passava por
descobrir os abusos sexuais que o sujeito havia sofrido como objeto passivo.
Isso não quer dizer que o Outro seja inocente. Em todos os tempos, em todas as
partes, houve e há gente que sofre pela prepotência física e moral de abusadores
que privam de suas almas os corpos que seguem (sobre) vivendo. A verdadeira
“simpatia” pelas vítimas do abuso sexual infantil se manifesta no momento em
que elas podem assumir a responsabilidade pela vida que levaram a partir desse
momento dado. A comiseração pelo próprio sofrimento conspira contra esse
objetivo.
Conhecemos o padecer desses sobreviventes graças ao testemunho daqueles que
passaram pela experiência assustadora do encontro com um real inominável e
irrepresentável. Os que padeceram de abuso sexual, os que sobreviveram “por
milagre” a um acidente em que outros deixaram corpos e vidas, as vítimas de
“assassinatos da alma”, as testemunhas das grandes catástrofes dos últimos cem
anos.
O trauma mais antigo é filogenético: corresponde ao assassinato do pai primitivo

incorporação de sua figura como “identificação originária”. Ninguém pretende
que tenha acontecido, contudo, é fundador do sujeito como súdito de Deus, do
Pai e da Lei ( de proibição do incesto).
No trauma do nascimento, do qual fala Rank, não é o feto quem experimenta o
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sentimento de uma tragédia a partir da qual já nunca será ele mesmo, pois ainda
não existe esse him/herself. Não há quem possa dizer logo: “Já não sou mesmo”.
Não há ruptura de nenhum performativo. Não há S (barrado) ; não existe sujeito
cindido do inconsciente.
I am not myself any longer, é a frase que escutava uma vez ou outra o
psicanalista C. Edward Robins (prelo) depois da catástrofe de 11 de Setembro. A
“mesmidade”, selfhood, é um efeito de linguagem que se constitui na fase do
espelho. Supõe uma continuidade do ser consigo mesmo que se iniciaria então (I
am myself) e que se interromperia por efeito do trauma (not any longer).
Um morreu; outro, sem havê-lo pedido, usurpa seu nome e seu lugar. O
sobrevivente é um morto camuflado. Tal é o significado de sobre-vivência. Vive-
se sobre um cadáver. Depois do trauma o sujeito volta a nascer e se pergunta, não
sem surpresa, como é possível que continue “vivenciando”, sentindo. Nas
catástrofes coletivas, a pergunta é “Por quê eu e não outro no meu lugar?”. Com
o conseqüente acompanhamento, sem pausas, da culpa. Com a sombra que
prognostica o suicídio por acontecer.
Voltar a nascer, voltar a morrer. Viver entre duas mortes. Voltar a escolher,
repetir. Não há aprendizagem. Os automatismos manejam o veículo que crê
conduzir o sujeito. Parece uma condenação: não o é ... pois a repetição sempre
falha. O que se produz após o trauma é algo novo, algo que historiciza o caminho
do sobrevivente (como nas bofetadas que Geo Josz dá no conde Scocca). Muitos
sentem o dever da escrita da experiência: querem protocolizar sua morte e
ressurreição. Como se fosse necessário deixar uma prova. Será que não acreditam
nele ou será um dever irrenunciável da memória?
A história é feita a golpes de memória dos que já foram para os que ainda não
são. No meio, entre uns e outros, entre já sim e todavia não, estão os escritores e
os historiógrafos. O sujeito é seu próprio historiador. Trata de estabelecer as
continuidades, de contar a história de si mesmo como uma substância estável que
viaja no tempo. O self quer a continuidade e preenche as lacunas mnêmicas.
O relato autobiográfico aspira a ser metonímico, a colocar-se na continuidade de
quem o escreve: a permanência suposta do escrito transcenderia a transitoriedade
do autor. O testemunho viveria no lugar da testemunha.
O trauma interrompe essa deriva. Se o sujeito depois do incêndio do WTC de 11
de Setembro de 2001, diz: “I am not myself any longer”, expressa uma verdade
indiscutível. Houve substituição: ele, o traumatizado, é a metáfora de outro que
não é nem está. Um usurpador ou um exilado de sua identidade anterior.
Quem tenta contar ou escrever a história de seu trauma se apresenta como mártir
ou como testemunha (etimologicamente é o mesmo). A palavra é, queira-se ou
não, uma tentativa de cicatrização. Ou de sufocação do grito.
Wo Ich war, Es wird.. Onde Eu estava, Isso chegou a ser. Não é essa a definição
de trauma enquanto funda uma sobrevivência? Aonde Eu era, Isso adveio. Itself
tomou o lugar de myself. O mar de gozo ilimitado e inominável desalojou os
polders. Poderia ser um quadro: O Triunfo da Morte (Brueghel).
O trauma sexual infantil descoberto por Freud como causa das neuroses dava
lugar à repressão de representações que retornavam como sintomas e como
repetições do acontecimento insuportável no ataque histérico.
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Nas neuroses dominadas pelo mecanismo da repressão, o self, representante do


sujeito, desalojou a memória dos acontecimentos traumáticos que o constituíram.
O eu é uma renovação de esquecimentos entrelaçados. O sujeito sente que segue
sendo ele mesmo. A perplexidade faz dele sua presa quando se defronta com
certas lacunas inexplicáveis em seu relato. Há um saber que falta, que
necessariamente falta: De que causas, sou o efeito? O que aconteceu, o que fui na
origem? Alguém, o Outro da transferência, poderá ajudar a desvendar o mistério.
A cura analítica se instaura e tem objetivos supostamente claros.
Na neurose traumática o espelho já não funciona: nossa tradução ou interpretação
da frase dos traumatizados do 11 de Setembro é: “The mirror doesn’t work any
longer”. O real do acontecimento deslocou o sujeito. Sua mente é um aparato
“fixado” ao evento traumático. A vida de vigília e também os sonhos o devolvem
a uma recordação que é imune ao desgaste do tempo e ao esquecimento. O self
de um sobrevivente é uma metáfora do ser que foi, que já não é mais, e em cuja
representação vive o sujeito. Os demais esperam e demandam que continue a ser
ele/ela mesmo/a e que ocupe o lugar social que lhe é destinado.
Ou o eu desloca o evento (neurose de transferência) ou é o evento que desloca o
eu (neurose traumática). Metonímia no primeiro caso, metáfora no segundo. Ser
ele mesmo ou ser o substituto de quem poderia ter morrido mas que a sorte quis
que continuasse vivendo.
O trauma é a interrupção da continuidade metonímica de uma narrativa
autobiográfica e a aparição nesse tempo e lugar de um substituto metafórico que
é o sobrevivente.
O acidente, presumido, do encontro com o gozo do Outro, é essa contingência
que se torna necessidade. O mau encontro, o trauma. O real; esse que retorna
sempre ao seu lugar. O impossível (de apagar) porque não deixa de não se
escrever. O sujeito é o escravo de um passado que permanece.
“Ocorre também que certos homens, por obra de um acontecimento traumático
que comove os cimentos de sua vida, caem num estado de suspensão que os leva
a renunciar a todo interesse pelo presente e pelo futuro, e sua alma fica enredada
no passado, ocupando-se dele como [se estivesse] petrificada”. (Freud, 1916-
1917, p. 253)

Uma característica própria ao passado rememorado: se dilui, se adelgaça, se


deforma. A memória tem sua sombra e ela consiste no apagamento progressivo
das pistas da experiência. Não há “vivacidade” que não esteja submetida ao
esquecimento. A recordação vive em um presente que está sendo sempre
mortificado, suavizado. Com uma exceção: o trauma que se segue aos estados de
pânico (Schreck) e que retorna sempre ao seu lugar.
Por isso é trauma: porque é imune ao tempo, porque não se resigna a ser passado.
É uma incrustação, uma pedra que insiste em flutuar. Falta-lhe algo: fundir-se,
desaparecer, permitir sua substituição. Para Freud a consciência e a memória
eram incompatíveis. O trauma para ele, era a exceção a essa dissociação entre o
passado e o presente.
Só pode haver esquecimento daquilo de que se tem memória. O não memorizado
é a presença de um esquecimento que não se pode esquecer. Indelével.
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Um espírito vivente é o que aceita essa perda do passado para se abrir ao novo.
No sobre – vivente falta a falta, a queda da memória no esquecimento. O passado
segue atuante e presente. Um meteorito do passado se infiltrou na carne até o
ponto de enclausurar o restante da experiência possível.
A intromissão do passado traumático é a morte do espírito. Não se pode fazer o
luto do passado para que um novo presente permita virar a página. O livro da
vida se petrificou. O que perdeu o sujeito nas neuroses atuais, com predomínio
traumático? As páginas que seguem, os sonhos por sonhar. Os filhos por nascer.
Imre Kertesz (Kaddish por el hijo no nacido, 2001), traz sua experiência no
Lager e diz um não redondo. Não! Quando a mulher lhe manifesta o desejo de ter
um filho seu. Ele é um sobrevivente particular (como todos). Como se poderia
dar vida a uma nova criatura, sobreviver-se através de outro, dar lugar a uma
metonímia – o filho não é outra coisa, todo filho – quando o sujeito mesmo é
uma metáfora de alguém que se quebrou em uma sobrevivência jamais
sobrevivida ? Quem seria o pai, o que viveu ou o que sobreviveu?
Muitos destes “sobreviventes” (Améry, Celan, Levi, etc.) terminaram em
suicídio. Poucos como Semprún, souberam segurar a pena durante um tempo
prudente para dedicar-se a viver outra vida, uma vida na qual a morte era
impossível porque já havia sido vivida no campo. E poucos como Semprún se
atreveram depois a reviver, na escrita, essa morte.
Primo Levi se rebela contra as interpretações psicanalíticas que lhe parecem
imprecisas e simplistas, ainda que, como no caso de Bruno Bettelheim, seja
proveniente de alguém que atravessou a prova do Lager. “Todos padecíamos de
um mal-estar incessante que nos envenenava o sono e que não tinha nome.
Chamá-lo ‘neurose’ é simplista e ridículo. Seria mais justo ver nele uma angústia
atávica, aquela da qual se sente eco no segundo versículo de Gênesis: a angústia
inscrita em todos (agrego as itálicas) do universo deserto e vazio, esmagado sob o
espírito de Deus, e do qual o espírito do homem está ausente: ainda não nasceu e
já se extinguiu”(Levi, 19...,p. ).è preciso acrescentar o nome do livro na
bibliografia.

Dura é a vida do delegado que tem que ser porta-voz dos que desapareceram.
Dura até tornar-se impossível. É difícil emancipar-se da fantasia de que se vive
no lugar de outro, que se carrega o peso de cadáveres sem nome, enterrados em
fossas coletivas, jogados ao mar desde o aparato de alguma “Força Aérea”.
A vida definida como o conjunto das tendências que resistem à morte, é, segundo
se viu, sobrevivência. Posto termos atravessado distintos traumas, cada um dos
quais é um representante e uma antecipação da morte (trauma do nascimento,
trauma da ausência do Outro e do desamparo, trauma das separações, trauma de
acesso à linguagem e à sexualidade, trauma da castração, trauma de ser batido
pelo pai, como injeção da lei de proibição do incesto e como uma manifestação
do amor desse pai), somos sobreviventes que carregamos as cicatrizes de todas
essas mortes a partir das quais podemos ser o que somos. De todos os gozos aos
quais renunciamos pela interposição do Outro e para conservar o Outro.
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De todas essas mortes guardamos memórias obscuras, realizamos operações


titubeantes de defesa e de segurança , nos protegemos de sua eventual repetição.
Repetimos para não repetir. Somos prisioneiros de nossos traumas e tememos
que desencadeiem outra vez seus efeitos fatais. Somente as artes (entendidas em
sentido amplo, como techné) e seu derivado a religião (a idéia de deuses e de um
Deus é uma invenção poética) permitem agüentar com certa esperança a idéia de
que a morte pode ter férias.

Freud acabava seu “De Guerra e Morte” com um conselho, “se queres suportar a
vida, prepara-te”(Freud, 1915, p. 300) para a morte Ao final da psicanálise
constatamos que o aniquilamento está programado, está por vir, já que está
sempre presente. É inelutável como o horizonte e nos acompanha aonde formos.
Como está aí, como já ocorreu não pode nos trazer nada de novo.

Não se pode inventar um novo significante. Só nos resta jogar e conjugar os que
temos: sobrevivente: se queres suportar a vida declara-te como já morto, constata
tuas certezas (servidões) imaginárias e segue transitando pelos rumos de teu
desejo inconsciente. Inventa o discurso que te representará para o Outro.
Alcançarás assim a transcendência? Certamente não. Apenas, a duras penas, te
liberarás de sua fantasia.

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