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ARQUEOMETRIA

Pretende, investigando os testemunhos acidentalmente sobreviventes da acção humana e outros


documentos importantes em estudos de arqueologia e também de história da arte, contribuir
– mediante métodos das ciências físicas – para a interpretação de tais testemunhos e
documentos ou mesmo para a prospecção dos sítios arqueológicos.

JOÃO M. PEIXOTO CABRAL

C onstituindo os testemunhos arqueológicos o


objecto principal imediato da investigação
em qualquer trabalho de arqueometria convi-
rá, antes de mais, dizer ao leitor, particularmente ao
menos informado sobre o que trata a arqueologia, o
nhos arqueológicos não representam o único tipo de
documento com que temos de contar. Usando as pa-
lavras de Vitor Oliveira Jorge, «o documento pré-
-histórico tem sofrido uma progressiva ampliação, pois
se estende hoje não somente a todas as alterações pro-
que são tais testemunhos. Segundo Gordon Childe, um vocadas pelo homem no meio natural, de forma directa
dos maiores pré-historiadores da primeira metade deste ou indirecta, mas também a todos os elementos que
século, «entre os resultados sobreviventes do compor- nos permitam reconstituir a própria evolução autóno-
tamento humano os mais familiares são, evidente- ma desse meio natural».
mente, as coisas que os homens Os documentos pré-históricos
criaram ou destruiram e que podem são, por conseguinte, de natureza
ser chamados artefactos. Isto abran- muito diversificada, desde artefac-
ge, por um lado, instrumentos, ar- tos de diferentes materiais como ro-
mas, objectos de adorno pessoal, chas, minerais, cerâmica, metais e
enfeites, estatuetas e, por outro la- ligas metálicas, vidro, pigmentos,
do, casas de habitação, templos, âmbar, restos de animais e restos de
castelos, canais, túmulos, ruínas... plantas (Figs. 1-9), até camadas de
Mas nem todos os dados arqueo- sedimentos que, embora não afec-
lógicos... podem ser de maneira al- tadas pelo homem, poderão ajudar
guma chamados artefactos... As li- a estabelecer cronologias e a dar in-
gações dos monumentos e objectos formações sobre a evolução do
com o ambiente humano também meio natural, nomeadamente no
podem ser dados arqueológicos. O que se refere ao clima. Deste mo-
local de fixação em relação aos do, «a realidade arqueológica dei-
bons lugares de pesca, terrenos de xou há muito de ser monopólio dos
fácil cultivo ou portos abrigados, arqueólogos». Exige a colaboração
pode dar uma indicação decisiva de cientistas de numerosas discipli-
quanto às actividades e economia nas, entre os quais geólogos, geó-
dos colonos. Um ambiente natural grafos, pedólogos, antropólogos,
é portanto um incentivo e um limi- etnólogos, biólogos, paleobotâni-
Licenciado e doutorado em engenharia quími-
te à acção humana. Ao mesmo tem- ca pela Universidade Técnica de Lisboa, agre- cos, físicos, químicos, metalurgis-
po a acção do homem pode por si gado de química inorgânica e análise da mesma tas, matemáticos, técnicos de
só afectar profundamente o am- Universidade, João Peixoto Cabral é hoje Direc- informática, etc.
biente exterminando alguns animais tor do Departamento de Química do Instituto Ao campo pluridisciplinar, ho-
de Ciências e Engenharia Nucleares, Laborató-
e introduzindo outros, derrubando rio Nacional de Engenharia e Tecnologia Indus- je em dia muito vasto, das aplica-
florestas e transformando estepes trial; é também professor catedrático convidado ções de métodos físicos e químicos
cobertas de erva em campos úteis. do Instituto Superior Técnico. Investigador no na investigação de testemunhos ar-
Estas mudanças são fundamental- domínio da radioquímica, um dos seus interes- queológicos e doutros documentos,
ses científicos actuais situa-se na área da ar-
mente o resultado da acção huma- queometria, onde tem produzido obra valiosa, associados não só a estudos de ar-
na». Note-se, contudo, que no que publicada em numerosas revistas e livros da es- queologia mas também a estudos de
se refere à pré-história os testemu- pecialidade. história da arte, é habitual dar-se o

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Fig. 1 – Ponta de silex em forma de folha de loureiro, de Vale Almoinha (Cambelas, Torres Vedras). Paleolítico Superior (Solutrens).

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nome de arqueometria. O uso deste termo ficou a fim imediato a caracterização dos materiais de que são
dever-se à vulgarização da palavra archaeometry, es- feitos tais testemunhos e documentos, caracterização
colhida pelo Research Laboratory for Archaeology essa que poderá ser mineralógica, química, estrutural
and the History of Art, da Universidade de Oxford, e/ou isotópica, dependendo da natureza dos objectos
para título da revista que começou a ser editada por em causa. O seu objectivo final é que pode ser diver-
esse laboratório, em 1958, destinada à publicação de so. Destacaremos os seguintes: (3.1) a determinação
artigos de investigação e de artigos de revisão sobre da proveniência dos artefactos, importante para o es-
trabalhos realizados aí ou noutros laboratórios, envol- tudo das relações comerciais e, consequentemente,
vendo o emprego daqueles métodos na referida inves- para a compreensão dos processos de permuta cultu-
tigação. Repare-se que a arqueometria, encarada nesta ral; e (3.2) o conhecimento das tecnologias usadas na
acepção, não compreende os campos, não menos vas- fabricação de certos materiais, designadamente cerâ-
tos e importantes, das aplicações de métodos próprios mica, metais e vidro, essencial para solucionar alguns
das ciências da Terra, das ciências biológicas e das ciên- dos problemas mais interessantes na história da huma-
cias exactas na mesma investigação. Por vezes, embo- nidade como, por exemplo, o problema das origens
ra raramente, o termo arqueometria é também e evolução da metalurgia.
utilizado num sentido amplo, ou seja, para designar o Dada a vastidão do campo da arqueometria, mes-
domínio global da interacção das ciências naturais e mo quando considerado de acordo com a acepção es-
das ciências exactas com a arqueologia e a história da trita, não podemos, neste curto texto, informar o leitor
arte. de maneira minimamente inteligível sobre todos os
A arqueometria, encarada de acordo com a acep- seus aspectos, tanto no respeitante aos métodos apli-
ção estrita e tendo em atenção os tipos de métodos que cados como no que se refere aos resultados obtidos e
se aplicam, compreende essencialmente três grandes à sua importância para o avanço dos estudos de ar-
áreas: (1) a prospecção arqueológica; (2) a datação ab- queologia e de história da arte. Poderiamos, sim,
soluta; e (3) a análise de materiais. As designações das enumerar-lhe esses métodos, em cada uma das áreas
duas primeiras são suficientemente esclarecedoras acima mencionadas, e expor-lhe brevemente um ou
quanto aos seus objectivos. Mas a da terceira exige uma outro resultado a que se tem chegado por meio deles.
explicação. É claro que a análise dos testemunhos Julgamos, contudo, que tal procedimento seria dema-
arqueológicos e doutros documentos tem sempre por siado fastidioso para o leitor e que, além disso, dificil-

Fig. 2 – Objectos de adorno do concheiro de Moita do Sebastião (Muge). Em cima: 1 concha de Cerastoderma edule (ex. Cadium edule) e
um seixo de xisto; em baixo: três conchas de Theodoxa fluviatilis (ex. Nerithina fluviatilis ). Mesolítico.

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Fig. 3 - Espólio da Anta Grande da Comenda da Igreja (Montemor-o-Novo). Neolítico Final/Calcolítico.

mente lhe permitiria tomar consciência do interesse seis protões, electricamente carregado com carga po-
das aplicações dos métodos das ciências físicas na in- sitiva, rodeado por seis electrões com carga negativa,
vestigação histórica. Preferível será, no nosso enten- o qual difere de espécie para espécie quanto ao núme-
der, focar a atenção num conjunto restrito de questões, ro das outras partículas de que é feito – os neutrões.
das quais pelo menos uma tenha contribuído substan- O núcleo do 12C possui seis neutrões, o do 13C sete e
cialmente para o progresso daqueles estudos. Deste o do 14C oito. Dos três isótopos do carbono, os dois
modo, talvez consigamos despertar no leitor um cer- primeiros são estáveis. O mais abundante é o 12C, que
to gosto pela arqueometria, que o estimule a procurar ocorre numa percentagem média de 98,89%. Repare-
saber mais sobre as matérias que vamos apresentar-lhe -se que o seu número de neutrões iguala o de protões.
e a informar-se sobre muitas outras que deliberadamen- A percentagem média do 13C é de 1,11%. Neste caso,
te omitimos. A nossa selecção confina-se às áreas da o número de neutrões excede em uma unidade o de
datação absoluta e da análise de materiais, e nessas protões. O menos abundante é o 14C, cuja percenta-
áreas às questões da datação pelo radiocarbono e da gem média no carbono dos seres vivos, por exemplo,
determinação da proveniência de artefactos, respecti- é muitíssimo mais pequena (0,00000000012%). Este
vamente. Não esconde o autor que, para esta selecção, terceiro isótopo do carbono já não é estável mas sim
contribuiu também a circunstância de tais questões se- radioactivo e, por isso, deu-se-lhe o nome de radio-
rem aquelas a que ele próprio tem dedicado ultima- carbono. Note-se que o número de neutrões do res-
mente uma parte significativa da sua actividade de pectivo núcleo excede em duas unidades o de
investigação. protões. É precisamente por ter demasiados neutrões
em relação ao número de protões que o 14C não é es-
I - DATAÇÃO PELO RADIOCARBONO tável. O seu núcleo apresenta uma tendência para re-
duzir espontaneamente a desproporção de neutrões,
Nem todos os átomos do carbono são iguais. Na transformando-se em um núcleo de azoto-14, 14N, on-
natureza existem três espécies – os isótopos 12 C, 13 C de o número de neutrões (sete) passa a ser igual ao de
e 14 C – todos eles constituídos por um núcleo com protões. Esta transformação é acompanhada pela emis-

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Fig. 4 – Copo canelado e vasos campaniformes, de Casal do Pardo (Palmela) e Lapa da Rotura (Setúbal). Calcolítico.

são de uma partícula beta (um electrão) e de um anti- Porque Existe Radiocarbono
neutrino (a antipartícula do neutrino) [ver De que são na Natureza
feitas as coisas? Colóquio/Ciências, N.° 21].
Os raios cósmicos emitidos pelas estrelas, ao pe-
14
C – 14N + β - + ν– netrarem na atmosfera terrestre, reagem com núcleos
A taxa de declínio radioactivo do 14 C é caracteri- de átomos dos elementos constituintes do ar dando ori-
zada pelo período desta espécie, que é igual a 5 730 gem a diversas partículas, entre as quais neutrões de
anos. Quer isto dizer que, se num certo instante hou- energia elevada. Alguns desses neutrões, depois de per-
ver uma dada quantidade de átomos de radiocarbono, derem a maior parte da sua energia em processos de
decorridos 5 730 anos haverá metade dessa quantida- colisão com núcleos de diversos átomos, reagem por
de; passados 2 x 5 730 = 11 460 anos subsistirá meta- sua vez com núcleos de átomos de azoto-14 conduzin-
de da metade, ou seja 1/4; volvidos 3 x 5 730 = 17 190 do à formação de radiocarbono.
anos restara 1/8; etc... O leitor determinará facilmen- n + 14N – 14C + 1H
te que ao fim de 10 períodos, i. e., de 57 300 anos,
já só haverá cerca de 0,1 % da quantidade de átomos O radiocarbono está, portanto, a ser continuamente
de 14 C existentes no início. Assim, se atendermos a produzido na Terra, a um ritmo que se estima andar
que a Terra se formou há cerca de 4 500 milhões de à volta de 7,5 kg/ano. Por outro lado, em virtude de
anos, não poderemos deixar de reconhecer que prati- ser radioactivo, está a ser sistematicamente transfor-
camente todo o 14C que terá existido na Terra na al- mado em 14 N de acordo com uma taxa de declínio
tura da sua formação já se transformou em 14N e que, correspondente ao período de 5 730 anos. Assim, a
por isso, a ocorrência de radiocarbono na natureza se quantidade de 14C existente na Terra permanece pra-
deverá a fenómenos que conduzem à sua produção ticamente constante, em resultado do equilíbrio que
contínua no nosso planeta. se estabelece entre o ritmo da sua produção e a taxa

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Fig. 5 – Espólio de sepultura individual da Quinta da Água Branca, Vila Nova de Cerveira. Idade do Bronze Inicial.

do seu declínio radioactivo. Essa quantidade é de cer-


ca de 62 toneladas e representa, de facto, uma peque-
níssima percentagem da quantidade total do carbono
natural.
A comprovação da existência de radiocarbono na
natureza foi feita por Libby e colaboradores, em 1947,
medindo a sua radioactividade numa amostra de me-
tano colhida dos efluentes gasosos da instalação de tra-
tamento de esgotos da cidade de Baltimore. Constituiu
o primeiro acto duma série de experiências planeadas
por aquele investigador com base na ideia de que o
14
C produzido nas altas camadas da atmosfera acaba-
ria por se distribuir não só pelo resto da atmosfera mas
também por outros reservatórios de carbono, nomea-
damente o oceano e a biosfera.

O Radiocarbono como Meio para


Estabelecer uma Cronologia Absoluta

Segundo Libby, na atmosfera os atomos de 14 C


produzidos começariam por reagir com moléculas de
oxigénio do ar originando moléculas de dióxido de car-
bono, 14 CO 2 , que se dispersariam depois por toda a
atmosfera e se misturariam com as moléculas de dió-
xido de carbono estável, 12 CO 2 e 13 CO 2 , existentes Fig. 6 – Machado de talão e dupla azelha, do depósito de Paredes
neste reservatório. A distribuição do 14C pelo oceano de Coura. Idade do Bronze.

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Fig. 7 – Vaso de cerâmica decorada, de Santa Vitória de Ervidel
(Beja). Idade do Bronze.

Fig. 8 – Elemento de arreio de cavalo, da necrópole de Olival do


Senhor dos Mártires (Alcácer do Sal). 1.a Idade do Ferro.

Fig. 9 – Conjunto de garrafas da sepultura do Pombalinho (Santarém). Finais do Séc. I d.C./segundo quartel do séc. II d.C.

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ln 2
A = Ao exp (- t) (2)
t1/2
onde A representa a actividade específica do 14 C no
instante t (a actividade específica na amostra cuja data
se pretende determinar) e A o a actividade específica
do 14C no instante t = 0 (a actividade específica na ma-
téria viva).
A data da amostra determina-se, portanto, pela ex-
pressão
t1/2 A
t= ln o (3)
ln 2 A

Fig. 10 – O 14C produzido nas altas camadas da atmosfera distribui- A fim de demonstrar que o radiocarbono poderia
-se pela atmosfera, oceanos e biosfera, sendo continuamente per- ser usado para datar materiais em termos absolutos,
mutado entre esses reservatórios. Libby e colaboradores começaram por provar, em
1949, medindo a actividade específica dessa espécie
radioactiva em amostras de madeira e de conchas ma-
seria consequêcia da reacção reversível do CO 2 rinhas de origem recente, colhidas em diferentes lu-
atmosférico com a água (H 2O), a qual dá origem aos gares da Terra, que ela se mantém praticamente
iões bicarbonato e carbonato. Por outro lado, a sua dis- uniforme na matéria viva qualquer que seja o lugar
tribuição pela biosfera dever-se-ia quer às reacções da- onde se encontre. Mostraram, em seguida, medindo
quele gás com as plantas, de acordo com o processo a actividade específica do 14 C em amostras de anéis
de fotossíntese, quer às reacções que promovem o me- de árvores e em amostras de madeira colhidas de cai-
tabolismo do carbono nos animais, quer ainda às reac- xões de múmias e barcos funerários do antigo Egipto,
ções ligadas à respiração de animais e plantas que de idade conhecida, que os resultados obtidos concor-
levam à produção de CO 2 e H 2 O (Fig. 10). A morte davam satisfatoriamente com os valores calculados a
dos seres vivos poria termo às trocas de carbono en- partir da equação que traduz a lei geral do declínio ra-
tre eles e o seu ambiente, resultando daí que o teor de dioactivo (Fig. 11).
14
C naturalmente existente na matéria viva passaria a
diminuir na matéria morta de acordo com o período
característico do declínio desta espécie radioactiva. As-
sim, seria possível datar materiais carbonados recor-
rendo à lei geral do declínio radioactivo, desde que
se soubesse, com rigor, o valor do período do radio-
carbono, se conhecesse o teor de 14C na matéria viva
e ele fosse uniforme em todas as regiões da Terra, se
admitisse que este teor não teria variado ao longo do
tempo, e se determinasse o teor de 14C nos materiais
que se pretendia datar.
O método mais frequente para determinar os refe-
ridos teores baseia-se na medição da actividade espe-
cífica do 14 C, i.e., do número de partículas beta
emitidas por unidade de tempo e por unidade de mas-
sa de carbono. Na verdade, de acordo com a lei geral
que regula o fenómeno da desintegração radioactiva,
a actividade do 14C é proporcional ao número de áto-
mos presentes desta espécie. Se no instante t houver
N átomos de 14C, a actividade nesse instante será da-
da por

- dN = λ N (1)
dt
onde λ, a constante de desintegração, está relaciona-
Fig. 11 – Actividade específica do 14C medida em amostras de ida-
da com o período t 1/2 pela expressão λ = ln 2/t 1/2. In- de conhecida. A curva a cheio representa os valores calculados com
tegrando aquela equação entre 0 e t, e tomando em base na lei geral do declínio radioactivo (adaptado de W. F. Libby
conta a definição de actividade específica, obtém-se Radiocarbon Dating, 1952, p. 9).

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Como veremos, a aplicação do método de datação trodução do método do radiocarbono, é o correspon-
pelo radiocarbono em estudos de arqueologia teve con- dente ao Paleolítico, em particular ao Paleolítico Su-
sequências verdadeiramente revolucionárias. Porém, perior da Europa, período que teve início há cerca de
não foi só nesta disciplina que isso se verificou. O seu 35 000 anos. Com efeito, no fim da década de 50, já
emprego mostrou-se também muitíssimo importante se conseguira reunir um número de datas de radiocar-
em geologia, geofísica e noutras disciplinas das ciên- bono suficientemente grande para permitir organizar
cias naturais que se ocupam do estudo de acontecimen- cronologicamente as culturas europeias do referido pe-
tos ocorridos nos últimos 50 000 anos. Daí que Libby ríodo de maneira muitíssimo mais exacta do que an-
tivesse sido galardoado em l960 com o prémio Nobel tes. Além disso, foi possível datar, com razoável rigor,
da química. algumas das mais belas obras de arte do homem pré-
-histórico na gruta de Lascaux, na região de Dordog-
ne, designadamente as suas impressionantes pinturas
A Primeira Revolução do Radiocarbono rupestres (Fig. 12). Também neste caso o método de
datação pelo radiocarbono conduziu a um resultado
Meia dúzia de anos de aplicação do método de da- inesperado: a data obtida foi de 15 520 ± 900 BP,
tação pelo 14C bastaram para alterar significativamen- muito posterior à prevista. Repare-se que, ao contrá-
te alguns aspectos da imagem da pré-história oferecida rio do que se verificara em relação à invenção da agri-
pela arqueologia da primeira metade do século. cultura, este resultado veio mostrar que as primeiras
Um desses aspectos é o que está relacionado com pinturas de qualidade excepcional produzidas pelo ho-
a invenção da agricultura. As datas de radiocarbono mem teriam sido feitas muito mais tarde do que se ad-
obtidas para alguns estabelecimentos agrícolas do mitia. Alguns anos depois, foi possível datar os
Próximo-Oriente e da Europa vieram mostrar, em am- materiais da pequena gruta La Tête du Lion, na comu-
bos os casos, que tal invenção era muito mais antiga na de Bidon, os quais são do “estilo III” segundo a no-
menclatura de Leroi-Gourhan, i.e., do estilo anterior
do que se pensava. Datações subsequentes para outros
ao que assinala o apogeu da arte paleolítica. Neste se-
estabelecimentos agrícolas da Europa mostraram, além
gundo caso, o resultado obtido foi de 20 650 ± 800
disso, que a agricultura não fora iniciada ao mesmo
BP, confirmando a idade aproximada que havia sido
tempo em todos os lugares. Na verdade, as datas de
atribuída às pinturas daquele estilo.
radiocarbono determinadas para os primeiros estabe-
Um terceiro aspecto da imagem da pré-história que
lecimentos agrícolas da Grécia andavam à volta de foi completamente alterado em resultado da aplicação
8 000 BP (*), indicando que eram posteriores às dos do método do radiocarbono é o relacionado com a
estabelecimentos do mesmo tipo do Próximo-Oriente perspectiva global do mundo pré-histórico. Até à al-
(anteriores a 9 000 BP). As obtidas para os primeiros tura do aparecimento deste método, os arqueólogos
estabelecimentos agrícolas da Europa Oriental tinham conseguido elaborar uma estrutura cronológi-
revelaram-se, por sua vez, ulteriores às dos estabeleci- ca para a Europa estudando o intercâmbio de produ-
mentos da Grécia, podendo dizer-se que na Europa tos entre o Egipto e as regiões adjacentes, particular-
Oriental tais estabelecimentos só estariam largamente mente o Egeu, e, em seguida, procurando encontrar
enraizados por volta de 7 000 BP. Verificou-se, por ou- sincronismos entre as culturas do Egeu e as culturas
ro lado, que as datas dos primeiros estabelecimentos das restantes regiões da Europa. Mas o mesmo
agrícolas da Europa Central e Setentrional andavam à já não foram capazes de fazer para a África e a Ásia,
roda de 6 500 BP e que no caso da Europa Ocidental em virtude de o número de dados arqueológicos para
elas se situavam próximo de 5 000 BP. Contudo, é de estes continentes ser muito reduzido e as dificuldades
notar que, embora cada uma dessas datas fosse muito demasiado grandes. Por outro lado, para as Américas
diferente do que se previa, os resultados obtidos por e as regiões do Pacífico nem sequer havia possibilida-
meio do radiocarbono não vieram pôr em xeque as re- de de o fazer, por motivos de natureza geográfica. Mes-
lações previamente estabelecidas pelos arqueólogos, mo assim, alguns arqueólogos – os chamados
em termos de cronologia relativa, entre as diferentes hiperdifusionistas – atreveram-se a datar a civilização
áreas da Europa e o Próximo-Oriente. Vieram, sim, de- mesoamericana com base em supostas ligações com o
monstrar que a velocidade de difusão das primeiras téc- Egipto. Ora, o método do radiocarbono veio permitir
nicas agrícolas teria sido mais lenta do que se julgava. que se começassem a construir estruturas cronológi-
A primazia do Oriente, postulada pelos difusionistas, cas para estes continentes e, além disso, que se fizesse
permaneceu inquestionável. a unificação dessas estruturas e da estrutura cronoló-
Outro aspecto da imagem da pré-história que so- gica já existente para a Europa. Tornou-se possível,
freu alterações substanciais, em consequência, da in- deste modo, estudar as culturas e civilizações pré-
-históricas das diferentes partes do Mundo de uma ma-
neira completamente independente, e compará-las
(*) As datas de radiocarbono são expressas em relação ao pre-
sente, definido por convenção como sendo o ano de 1950 d.C.. O
numa perspectiva mundial. Não é de estranhar, por
símbolo BP, universalmente adoptado, deriva das palavras inglesas conseguinte, que a primeira pré-história mundial só ti-
Before Present. vesse sido publicada em 1961.

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Fig. 12 – Pormenor duma pintura rupestre na gruta de Lascaux (fotografia de Éditions d’Art Albert Skira S.A.).

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Necessidade de Calibrar as
Datas de Radiocarbono

Se é certo que as datas de radiocarbono obtidas na


segunda metade da década de 50 não puseram em cau-
sa, em termos de cronologia relativa, as relações que
tinham sido estabelecidas pelos arqueólogos entre as
diferentes áreas da Europa e do Próximo-Oriente, certo
é também que algumas dessas datas não se mostraram
coerentes com a estrutura admitida. Isso aconteceu
com as datas determinadas para vários túmulos mega-
líticos de falsa cúpula da Bretanha, para alguns esta-
belecimentos calcolíticos dos Balcãs e ainda para
diversas amostras colhidas em estações arqueológicas
do Egipto, correspondentes ao período compreendi-
do entre 3 000 e 2 000 a.C., cujas datas históricas eram co-
nhecidas. Neste último caso verificou-se mesmo, ao
contrário do que se julgava ter ficado antes demons-
trado, que as datas de radiocarbono eram sistematica-
mente mais recentes (de alguns séculos) do que as datas
históricas. A princípio os desvios observados foram
atribuídos a erros aleatórios, alegando-se que a técni-
ca de medição da actividade específica do 14C não ti-
nha atingido ainda uma precisão suficientemente boa.
Todavia, logo que se obteve um número considerável
de datas de radiocarbono tornou-se evidente que se tra-
tava, de facto, de um desvio sistemático e que, por-
tanto, o motivo da anomalia era outro; ou o teor de
14
C na biosfera terrestre, entre 3 000 e 2 000 a.C., te-
ria sido maior do que é hoje, ou haveria qualquer coi- Fig. 13 – Pinheiro da espécie Pinus longaeva. Esta árvore desempe-
nhou um papel muito importante na calibração de datas de radio-
sa errada na cronologia estabelecida pelos arqueólogos
carbono (fotografia de W. Robert Moore © 1958 National
para o Egipto com base em documentos escritos. Ce- Geographic Society).
do se averiguou que o erro estava no postulado de que
o teor de 14C na biosfera não teria variado no decur-
so do tempo.
Na comprovação de que este postulado era falso
desempenhou um papel muito importante a investiga-
ção desenvolvida paralelamente na área da dendrocro-
nologia, sobretudo com certos pinheiros das
Montanhas Brancas da Califórnia, em particular da es-
pécie Pinus longaeva (Fig. 13), alguns dos quais che-
gam a atingir idades de quase 5 000 anos. A referida
investigação permitiu que se viesse a dispor de uma
sequência contínua de anéis de árvores, em que cada
anel corresponde a um ano de crescimento, sequên-
cia essa que já abrange actualmente um intervalo pró-
ximo de 9 000 anos. Assim, foi possível determinar as
datas de radiocarbono de um grande conjunto de
amostras de madeira seleccionadas daquela sequência
dendrocronológica, cada uma das quais compreendia
10 anéis, i.e., equivalia a intervalos de 10 anos, e cor-
relacionar as datas determinadas com as datas de ca-
lendário. Os primeiros resultados obtidos foram
publicados nos últimos anos da década de 60, por
Suess, para o intervalo de tempo compreendido entre
5 400 a.C. e o presente. Tais resultados vieram mos- Fig. 14 – Relação entre datas de radiocarbono e datas de calendário.
trar que as datas de radiocarbono determinadas para O segmento de recta representa a relação 1:1 (adaptado de G. W.
o período anterior a 1 200 a.C. eram sistematica- Pearson Antiquity, 61, 1987, p. 98).

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mente mais recentes do que as indicadas pelos dendro- por unidade de tempo nas altas camadas da atmos-
cronologistas, como acontecia com as datas obtidas pa- fera, maior será o ritmo de produção de 14C na Terra
ra as amostras das estações arqueológicas egípcias. Por e, dado que a taxa do seu declínio radioactivo é cons-
conseguinte, o teor de 14C na biosfera terrestre, nes- tante, mais elevado se tornará o teor de 14C no carbo-
sa altura, tinha sido mais elevado do que é hoje. Por no natural. Alguns investigadores procuraram indagar
outras palavras, os referidos resultados vieram provar se haveria uma correlação entre a variação com o tem-
que “um ano de radiocarbono” não corresponde exac- po do campo geomagnético dipolar e a variação com
tamente a um ano do calendário solar. o tempo do teor de 14 C na biosfera terrestre, o que,
A curva que estabelece a relação entre as datas de a verificar-se, seria muito vantajoso, pois talvez pudes-
radiocarbono e as datas de calendário designa-se em se permitir extrapolar a curva de calibração para valo-
geral por curva de calibração. Hoje em dia já se esten- res aquém do limite inferior atingido presentemente
de até um pouco antes de 7 500 a.C. (Fig. 14) e, devi- por essa curva e calibrar datas de radiocarbono ante-
do aos progressos feitos, por um lado, em riores a 8 000 BP. Contudo, os resultados obtidos
dendrocronologia de carvalhos europeus e, por outro (Fig. 15), que se traduzem por variações sinusoidais da-
lado, na técnica de medição da actividade específica quelas grandezas, não merecem por enquanto grande
do 14C, possui uma precisão e um rigor muito maio- confiança, em particular os que se referem à variação
res do que a de Suess. Não obstante, já no fim da déca- do campo geomagnético dipolar cujo esclarecimento
da de 60 se tornara claro que há dois tipos de variações exige a prossecução dos trabalhos de investigação.
naturais com o tempo do teor de 14C na biosfera ter-
restre: 1) uma variação de longo período, traduzida por
uma diferença progressiva entre as datas de radiocar-
bono e as datas de calendário, a qual atinge um máxi-
mo de cerca de 800 anos à volta de 5 000 a.C.; e 2)
variações de curto período, do tipo observado pela pri-
meira vez por De Vries, em 1958, que se sobrepõem
à variação de longo período.

Causas das Variações Naturais com o


Tempo do Teor de 14C na Biosfera
Fig. 15 – Variação com o tempo do teor de 14C na biosfera terrestre
Diversas causas têm sido sugeridas para explicar as (curva a cheio) e da intensidade do campo geomagnético dipolar (cur-
variações naturais do teor de 14C na biosfera terrestre, va a tracejado). As ordenadas à esquerda representam diferenças,
traduzidas em anos de radiocarbono, entre os teores de 14C das
com o tempo, as quais podem classificar-se em duas amostras depois de transformados em relação ao ano de 1950 re-
categorias: 1) causas que promovem alterações do rit- correndo à lei do declínio radioactivo, e o teor de 14C da amostra
mo de produção do 14C nas altas camadas da atmos- referente a esse ano. Adaptado de R. E. Taylor, Radiocarbon Da-
fera, nomeadamente variações da intensidade e/ou da ting: An Archaeological Perspective, 1987, p. 28.
composição dos raios cósmicos galácticos, i.e., dos
raios cósmicos que provêm de regiões do espaço ex- Quanto às variações naturais de baixo período do
teriores ao sistema solar, variações da actividade so- teor de 14C, julga-se que elas são devidas, por um la-
lar e variações do campo magnético terrestre; e 2) do, a alterações da actividade solar e, por outro, à va-
causas que produzem alterações dos parâmetros do ci- riação com o tempo do campo geomagnético não
clo do carbono (como, por exemplo, as dimensões dos dipolar. Desde o início dos anos 50 que se sabe que
reservatórios, a velocidade de permuta do carbono en- a intensidade dos produtos secundários dos raios cós-
tre esses reservatórios, e a quantidade de dióxido de micos galácticos exibe uma periodicidade à roda de 11
carbono na atmosfera), designadamente variações de anos, aproximadamente sincronizada com o ciclo de
factores climáticos ou ambientais. cerca de 11 anos das manchas solares, as quais são a
A opinião que mais tem sido manifestada relativa- manifestação da actividade solar mais facilmente ob-
mente à variação natural de longo período do teor de servável pelo homem, correspondendo a regiões de
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C é a de que ela se deve sobretudo à variação com campo magnético extraordinariamente elevado e mais
o tempo do campo magnético terrestre, em particular frias do que as regiões fotosféricas adjacentes. O mí-
da intensidade do campo geomagnético dipolar. Co- nimo valor do fluxo de raios cósmicos galácticos é atin-
mo as partículas primárias dos raios cósmicos (sobre- gido quando o número de manchas solares é máximo
tudo protões e partículas alfa) possuem carga eléctrica e vice-versa. Este sincronismo tem sido explicado do
e, por isso, são deflectidas pelo campo geomagnético seguinte modo. Os raios cósmicos provenientes de es-
dipolar, excepto quando se movem paralelamente às linhas trelas distantes aproximam-se do sistema solar em to-
de força, à medida que a intensidade desse cam- das as direcções e mais ou menos uniformemente.
po for, por exemplo, diminuindo menos raios cósmi- Quanto entram dentro deste sistema são dispersos no
cos serão deflectidos, mais neutrões serão produzidos meio interplanetário por irregularidades magnéticas

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associadas ao vento solar. Devido ao movimento ra- xidade derivada da grande quantidade de factores que
dial de tais irregularidades, as interacções que se dão para elas concorrem, entre os quais os já referidos fac-
provocam uma alteração da velocidade das particulas tores climáticos. Ela constitui, por isso, ainda hoje um
dispersas, conferindo-lhes uma componente geralmen- tema de activa investigação. Tais variações contribuem
te orientada para fora do sistema solar, donde resulta para aumentar a imprecisão das datas de radiocarbo-
uma diminuição da intensidade dos raios cósmicos ga- no calibradas.
lácticos no interior do referido sistema. Assim, sem-
pre que a actividade solar aumenta, diminui o fluxo
dos raios cósmicos galácticos que atingem a Terra de A Segunda Revolução do Radiocarbono
tal modo que a intensidade total destes raios na região
correspondente à órbita da Terra passa a ser, nos mo- Apesar da curva de calibração de Suess, publicada
mentos em que o número de manchas solares é máxi- nos últimos anos de década de 60, não atingir o grau
mo, cerca de metade do valor que tem quando esse de rigor das curvas de calibração de alta precisão de
número é mínimo; consequentemente, diminui tam- que se dispõe actualmente, ela permitiu aos arqueólo-
bém o ritmo de produção de neutrões nas altas cama- gos, logo no começo da década de 70, converter as
das da atmosfera terrestre. Daí que se tivesse procurado datas de radiocarbono até então determinadas em da-
igualmente averiguar se haveria uma correlação entre tas de calendário e, desse modo, corrigir a cronologia
a variação da actividade solar e a variação do teor de absoluta que tinha sido elaborada com base naquelas
14
C na biosfera terrestre, com o tempo. Foi Stuiver o datas. Recorde-se que esta cronologia, embora nalguns
primeiro investigador a mostrar, no início dos anos 60, pontos surpreendente, não veio colocar em xeque a
que essa correlação parece existir. Ela é sobretudo evi- estrutura cronológica que havia sido estabelecida por
dente em alguns períodos realativamente longos du- Gordon Childe para a Europa e o Próximo-Oriente.
rante os quais praticamente nenhuma mancha solar foi Deve-se a Colin Renfrew a iniciativa de calibrar as da-
observada, em particular o de 1645-1715 d.C. (míni- tas de radiocarbono respeitantes àquelas duas regiões
mo de Maunder), o de 1416-1534 d.C. (mínimo de Spö- do mundo pré-histórico, bem como a de identificar as
rer) e o de 1282-1342 d.C. (mínimo de Wolf), períodos principais diferenças observadas entre a cronologia tra-
estes a que correspondem máximos na curva de varia- dicional e a resultante da calibração. Algumas dessas
ção do ritmo de produção do 14C (Fig. 16) calculada diferenças foram tão pronunciadas que este pré-
a partir dos teores de 14 C medidos em amostras de -historiador não hesitou em considerar a calibração co-
anéis de árvores. Note-se, no entanto, que a questão mo promotora de uma segunda revolução do
das variações naturais de baixo período do teor de radiocarbono.
14
C está ainda em grande parte por esclarecer, o que Uma área onde Renfrew verificou desacordos mui-
é compreensível se atendermos à sua enorme comple- to grandes foi a relacionada com o megalitismo euro-

Fig. 16 – Influência da actividade solar no ritmo de produção do 14C. (a) Frequência de manchas solares observadas: as barras representam o
número de manchas vistas a olho nu por década antes de 1610; a área tracejada representa o número das observadas ao telescópio. (b) Altera-
ções do ritmo de produção do 14C. Adaptado de M. Stuiver e P. D. Quay, Science, 207, 1980, p. 15.

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Fig. 17 – Anta do Tapadão (Alentejo).

peu (Fig. 17). Ao contrário da cronologia tradicional, do Egeu e de que ele precedia a Idade do Bronze Ini-
que admitia que a prática do enterramento colectivo cial do Egeu de pelo menos um milénio. Tal calibra-
teria sido trazida do Mediterrâneo Oriental para o Su- ção veio comprovar, por conseguinte, que a metalurgia
doeste da Península Ibérica e daí se teria difundido para do cobre se terá desenvolvido nos Balcãs independen-
a Bretanha Francesa, Grã-Bretanha, Irlanda e Europa temente de influências do Egeu. Deste modo, Renfrew
Setentrional, a calibração das datas de radiocarbono foi levado a sugerir que ela terá sido inventada local-
determinadas para os monumentos megalíticos veio mente, não muitos anos depois do seu aparecimento
mostrar que a origem destes monumentos não estava no Próximo-Oriente, como já havia sugerido relativa-
no Mediterrâneo Oriental. Renfrew sugeriu, por isso, mente ao desenvolvimento da metalurgia na Ibéria.
e também porque se tinha apercebido de certas defi- Pelo contrário, não foram detectadas discrepâncias
ciências das teorias difusionistas sobre a pré-história significativas entre a cronologia tradicional estabele-
da Europa, que na fachada atlântica europeia, em vez cida para o Próximo-Oriente, o Egipto, Creta e o Egeu
de um centro difusor único do megalitismo, terá havi- e a resultante da calibração, no que se refere ao 3.°
do várias regiões onde a prática do enterramento co- milénio a.C.
lectivo em túmulos de pedra se desenvolveu Assim, a estrutura cronológica que tão cuidadosa-
independentemente, e, baseado em dados da antropo- mente havia sido construída por Childe desmoronou-
logia cultural, procurou explicar a origem local des- -se e, com a sua derrocada, as hipóteses da descoberta
ses desenvolvimentos em termos paleo-sociológicos e única e da difusão, que se vira obrigado a admitir para
demográficos. levar a cabo a sua construção, foram seriamente aba-
Outra área onde foram identificadas grandes diver- ladas. Todavia, consoante Renfrew fez notar, muita
gências foi a respeitante à cronologia dos Balcãs. Se- coisa valiosa foi possível aproveitar dos destroços da
gundo a estrutura cronológica tradicional, as culturas estrutura tradicional, dado que a calibração não pro-
do Neolítico Final desta região eram consideradas con- vocou a alteração, por um lado, das relações cronoló-
temporâneas da Idade do Bronze Inicial do Egeu. A ca- gicas entre o Egipto, o Próximo-Oriente, Creta e o Egeu
libração das datas de radiocarbono para essas culturas no 3.° milénio a.C. e, por outro, das relações crono-
veio revelar que elas eram, afinal, pelo menos 2 000 lógicas entre as outras culturas da Europa. Consequen-
anos mais antigas do que se supunha. Por outro lado, temente, grande parte do trabalho inovador realizado
a calibração das datas de radiocarbono determinadas pelos arqueólogos da primeira metade do século não
para alguns estabelecimentos calcolíticos da mesma re- foi gravemente afectada por aquele desmoronamento,
gião veio confirmar as opiniões de alguns arqueólogos, resultando daí que muitas das conclusões dos seus es-
baseadas em dados estratigráficos, de que o Calcolíti- tudos sobre as culturas das referidas regiões ainda
co dos Balcãs era contemporâneo do Neolítico Final hoje se mantêm válidas. Tornou-se claro, porém, que

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quase todos esses arqueólogos subestimaram a origi- duzidos a partir da amostra numa fonte de iões espe-
nalidade e a criatividade dos habitantes da Europa pré- cial, mediante um acelerador de partículas. Este mé-
-histórica ao procurarem no Próximo-Oriente as todo foi introduzido no final dos anos 70 e, desde
explicações para as transformações que tiveram lugar então, vem seguindo duas vias distintas de desenvol-
na Europa desse tempo. O reconhecimento deste fac- vimento: uma em que se utiliza como acelerador um
to operou, a partir do início da década de 70, uma mu- ciclotrão, e outra em que se recorre a um acelerador
dança radical na orientação da pesquisa arqueológica. electrostático, em geral do tipo Van de Graaff. Essas
vias diferem essencialmente quanto à estratégia adop-
Novo Método para tada para a separação e identificação das espécies ió-
Determinar Teores de 14C nicas envolvidas no processo.
Uma das grandes vantagens do método de espec-
Como foi dito atrás, o método que se usa mais fre- trometria de massa de iões acelerados é ter muito maior
quentemente para determinar os teores de 14C baseia- sensibilidade do que o método convencional, tornan-
-se na medição da sua actividade específica. Desde as do possível, portanto, fazer uso de pequenas amostras
primeiras experiências de Libby, nos anos 40, até à ac- (2-5 mg de carbono) e de um tempo de medição rela-
tualidade que não se parou de fazer progressos no de- tivamente curto (1-2 horas). Além disso, supõe-se que
senvolvimento de novos instrumentos e técnicas para poderá atingir limites de aplicabilidade mais amplos,
realizar tal medição. Esses progressos têm-se reflecti- da ordem de grandeza de 100 000 anos. Todavia, na
do sobretudo numa melhoria contínua da precisão das fase de desenvolvimento em que se encontra, ainda
datas de radiocarbono que vêm sendo obtidas, a qual, não superou a este respeito, e também no que se refe-
em instalações de alta precisão, já atingiu em termos re à precisão, o método convencional.
de desvio padrão valores inferiores a ± 20 anos. Note- Para ilustrar a vantagem do novo método quanto
-se, no entanto, que para se conseguirem estes valores à sensibilidade citaremos a sua aplicação à datação
nessas instalações se torna necessário utilizar amostras do célebre sudário de Turim (Fig. 18) que, desde
que contenham uma massa de carbono da ordem de 1353 d.C., data do seu primeiro testemunho históri-
grandeza de 10 g. Mesmo em instalações actuais para co, muita gente cria que tivesse sido usada para envol-
trabalho de rotina é possível alcançar desvios padrão ver o corpo de Cristo após a sua morte, cuja imagem
de ± 40 anos, desde que a amostra não seja demasia-
do velha e possua cerca de 5 g de carbono.
A necessidade de quantidades de carbono desta or-
dem de grandeza, embora não constitua uma limita-
ção à resolução da maior parte dos problemas de
datação que se colocam aos arqueólogos, em virtude
de as suas amostras serem em geral suficientemente
grandes, impede a solução de alguns desses problemas.
Além disso, devido ao facto dessas quantidades repre-
sentarem um volume relativamente avultado de amos-
tra, obsta à realização de testes de autenticidade de
alguns objectos de arte e de documentos históricos va-
liosos. Daí que se tenha procurado desenvolver detec-
tores proporcionais miniaturais para datar pequenas
amostras, o que alguns investigadores acabaram por
conseguir tornando possível o uso de amostras con-
tendo 3-10 mg de carbono. Há que notar, contudo, que
para se obter com esses detectores e esta quantidade
uma precisão aceitável nas datações, é forçoso prolon-
gar muito o tempo de medição (> 1 000 h).
A inovação mais importante, do ponto de vista tec-
nológico, feita nos últimos anos no domínio da data-
ção pelo radiocarbono foi, porém, o desenvolvimento
dum novo método para determinar os teores de 14C, o
qual, em vez de assentar na medição do número de nú-
cleos de 14C que se transformam por unidade de tem-
po e por unidade de massa de carbono, se baseia pelo
contrário na medição do número de núcleos de 14 C
que ainda não se transformaram. Trata-se de um mé-
todo de espectrometria de massa, cuja característica
especial é a aceleração de iões de carbono. que são pro- Fig. l8 – Negativo da fotografia dum pormenor do sudário de Turim.

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teria, por isso, ficado impressa no sudário. Foi a con- escavações, em virtude de as condições do solo em que
fiança adquirida na possibilidade de fazer datações pelo permaneceram enterrados não serem em geral propí-
radiocarbono com amostras muito pequenas que terá cias à conservação dessas inscrições.
levado as autoridades eclesiásticas a promover aquela A investigação de sistemas comerciais na antigui-
aplicação em 1988. Para esse efeito, foi colhida uma dade sofreu um impulso muito significativo a partir do
pequena amostra do sudário e esta dividida em três par- começo da década de 70, aparentemente correlacio-
tes, as quais foram em seguida enviadas para três dife- nado com a segunda revolução do radiocarbono, o
rentes laboratórios de reconhecido prestígio. Os qual trouxe como consequência um crescimento mui-
resultados obtidos em cada um desses laboratórios to acentuado das aplicações dos métodos de análise
revelaram-se concordantes entre si, dentro do erro ex- de materiais naquela investigação. De salientar é a
perimental, mostrando, depois de calibrados, que o su- enorme variedade dos produtos analisados: materiais
dário datava de 1260 - 1380 d.C., i.e., da época em geológicos como o silex, a obsidiana, o mármore, o
que a sua existência havia sido pela primeira vez tes- jade e a turquesa; materiais cerâmicos compreenden-
temunhada. do cerâmica comum e cerâmica fina de diferentes pe-
ríodos; materiais metálicos nomeadamente o cobre, o
estanho, o bronze, o ferro, o ouro, a prata e o chum-
ANÁLISE DE MATERIAIS NA bo; materiais de vidro de diversas épocas e qualida-
INVESTIGAÇÃO DE RELAÇÓES COMERCIAIS des; materiais biológicos como conchas, ossos e o
âmbar; etc. É compreensível portanto que, para levar
Desde os tempos mais remotos que os homens vêm a cabo tal investigação, se tenha procurado recorrer
trocando produtos entre si: por um lado, matérias- a uma vastíssima gama de métodos de análise, em par-
-primas, cuja ocorrência na natureza está, como é sa- ticular aqueles que por via de regra são utilizados em
bido, limitada a certas áreas geográficas; e, por outro investigação física, química e das ciências dos ma-
lado, produtos manufacturados, cujo fabrico, quando teriais.
especializado, se encontra igualmente restringido a re- De acordo com o que referimos no início, não apre-
giões particulares, embora neste caso a localização de sentaremos aqui uma lista, que seria necessariamente
tais regiões dependa em grande parte da capacidade longa, dos métodos que têm sido aplicados na área da
criativa e inovadora dos seus habitantes e, claro está, análise de materiais arqueológicos. Em vez disso, ten-
doutros factores económicos. Segundo Renfrew, nos taremos aproveitar o espaço que nos resta para pôr em
tempos pré-históricos os produtos de troca mais co- evidência a importância de alguns desses métodos no
muns eram os do primeiro tipo. Assim, é natural que estudo de duas questões: 1) a questão das trocas de pro-
os processos usados para estudar os sistemas comer- dutos alimentares; e 2) a questão da origem dos már-
ciais na antiguidade pré-histórica se baseiem mais na mores. A primeira é importante sobretudo para os
análise dos materiais de que são feitos os objectos tro- historiadores interessados no estudo da vida econó-
cados do que na sua análise tipológica. mica dos povos. A segunda, podendo ser útil também
para esses historiadores, tem interesse principalmen-
Note-se que os processos que assentam na análise
te para testar a autenticidade de obras de arte e para
dos materiais também têm sido frequentemente utili-
associar de forma correcta fragmentos de estátuas ou
zados para estudar o movimento de trocas de muitos
de documentos epigráficos.
produtos manufacturados num passado mais recente
(das comunidades com escrita) como, por exemplo, al-
Determinação da
guns produtos alimentares que eram transportados em
Proveniência de Ânforas
ânforas. É certo que a determinação da proveniência
das ânforas pode ser efectuada com base em dados epi- As ânforas (Fig. 19) foram a embalagem usada por
gráficos, designadamente marcas impressas e inscrições excelência para transportar produtos alimentares na
pintadas. As marcas impressas aparecem muitas vezes antiguidade clássica. Elas poderão, por isso, desempe-
nas asas, na pança ou no fundo das ânforas e, por ve- nhar um papel relevante no estudo do comércio de tais
zes, também na tampa. Contudo, só raramente essas produtos desde que se conheçam a natureza do pro-
marcas contêm nomes de localidades. Além disso, não duto transportado, a data em que teriam sido fabrica-
se sabe exactamente o seu significado, em particular das e o seu lugar de origem.
se representam o nome dos proprietários das herda- Para determinar a proveniência das ânforas o pro-
des onde as ânforas teriam sido fabricadas e enchidas cesso mais seguro é o da análise química do material
ou o nome dos oleiros que as teriam produzido. Deste cerâmico de que são feitas, o qual se baseia nos seguin-
modo, são raros os exemplos em que as referidas mar- tes postulados: (1) as argilas provenientes de barreiros
cas tenham possibilitado a determinação precisa de diferentes apresentam diferenças de composição quí-
proveniências. Quanto às inscrições pintadas, que pro- mica que, por via de regra, excedem significativamente
vavelmente quase sempre seriam postas nas ânforas, as diferenças de composição química existentes den-
raras vezes se encontram nos materiais recolhidos em tro de cada barreiro; (2) embora a lavagem e purifica-

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Fig. 19 – Ânfora do tipo Dressel 14b, de Tróia (Grândola), dos séculos I-II d. C.

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ção das argilas e a adição de têmpera ou doutros ma- por conhecer-se através da descoberta de fornos de ce-
teriais, que se fazem nalgumas olarias, levem a que a râmica. No entanto, é possível ultrapassar a dificulda-
composição química das pastas passe a não ser a mes- de que de modo geral existe na selecção de amostras
ma que a das argilas “tal qual” utilizadas na sua manu- de referência recorrendo a argilas, designadamente de
factura, essa composição não deixa de ser característica formações situadas na região onde foi colhido o ma-
das olarias de cada região; (3) a cozedura das pastas terial em estudo.
não provoca a volatilização dos seus elementos cons- Ilustraremos a enorme potencialidade do proces-
tituintes, salvo raras excepções; (4) durante o tempo so de análise química na determinação da proveniên-
em que as cerâmicas permanecem enterradas não se cia de ânforas com resultados dum estudo sobre as
dão alterações importantes da sua composição quími- ânforas da Gallia Narbonensis no Alto Império, rea-
ca, se exceptuarmos alguns elementos. lizado por Wiedemann, Laubenheimer e colaborado-
A experiência tem mostrado que tanto o primeiro res, no qual se recorreu ao método de análise por
postulado como o segundo são dignos de confiança, activação com neutrões que é um dos mais eficazes em
desde que se tomem certas precauções em particular tal determinação. A Fig. 20 mostra como se agrupa-
as seguintes: se analise, em cada amostra, um número ram as amostras colhidas em 12 oficinas da Narbonen-
razoavelmente grande de elementos químicos (> 16) sis tomando por base os valores das concentrações
sobretudo elementos vestigiais e, no tratamento esta- medidas para 18 elementos em cada amostra.
tístico dos resultados da análise, se tenham em devida Obtiveram-se três grandes grupos de composiqão: (1)
conta as correlações que possam existir entre os dife- o das ânforas produzidas nas oficinas de Istres, Beau-
rentes elementos analisados. O terceiro postulado pa- caire, Aspiran, St-Marcel, Sauveterre, Tressan, La Crau
rece merecer também confiança. É certo que a d’Hyères, Sallèles d’Aude e Corneilhan; (2) o das ân-
cozedura das pastas conduz a uma alteração da sua foras produzidas nas oficinas de Fréjus; e (3) o das
composição química, devida sobretudo a perdas de
água, à oxidação da matéria orgânica e à dissociação
dos carbonatos, alteração essa cujo grau depende da
natureza das argilas utilizadas e da temperatura de co-
zedura. No entanto, ela não provoca a volatilização dos
restantes elementos constituintes, salvo raras excep-
ções como o cloro e o bromo. O último postulado é
que oferece algumas dúvidas. De facto, trabalhos efec-
tuados sobre o estudo dos efeitos da acção de agentes
naturais, como as águas subterrâneas, na cerâmica en-
terrada mostraram que, no decurso do tempo, poderá
haver alterações significativas do teor de alguns ele-
mentos como, por exemplo, o cálcio. Assim, quando
na caracterização química do material cerâmico se pre-
tende utilizar também este elemento como atributo,
torna-se necessário verificar cuidadosamente se tal uti-
lização é ou não de confiança. Para isso, recomenda-
-se a realização prévia de exames petrográficos de
lâminas delgadas do material cerâmico.
Em geral, muito pouco se sabe sobre as antigas ofi-
cinas e zonas de produção de cerâmica. Consequente-
mente, a determinação da proveniência das cerâmicas
exige primeiro que se proceda à operação de localizar
essas oficinas e definir as características de composi-
ção dos respectivos materiais. Isso faz-se usualmente
em duas fases: (1) a repartição do material cerâmico,
cuja origem se procura determinar, por grupos ou clas-
ses de acordo com a sua composição química (classifi-
cação); e (2) a comparação dos grupos de composição
obtidos nessa classificação com amostras de referên-
cia ou grupos de referência. Note-se, todavia, que são
muito poucos os casos em que se tem um conhecimen-
to exacto da localização das oficinas de cerâmica. Por Fig. 20 – Dendrograma obtido na análise de grupos dum conjunto
de amostras recolhidas em 12 oficinas de cerâmica da Gallia Nar-
vezes, ela pode ser achada a partir de características bonensis, baseada nos resultados da análise química dessas amos-
tipológicas da cerâmica, como acontece por exemplo tras para 18 elementos. (segundo F. Laubenheimer, La Production
com certas cerâmicas gregas; outras vezes, ela acaba des Amphores en Gaule Narbonnaise, 1985, p . 366).

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ânforas produzidas nas oficinas de Tresques e Chus- d'Aude, que a achada em Wiesbaden proviria de La
clan. No primeiro é possível distinguir com toda a cla- Crau d'Hyères e que a encontrada em Genebra teria
reza vários sub-grupos, que correspondem a ânforas sido produzida em Corneilhan. Pôde concluir-se, além
das oficinas especificadas. Há que notar, todavia, que disso, que a ânfora do tipo D.2/4 achada em Sallèles
no terceiro grupo algumas amostras da oficina de Chus- d'Aude não provinha dessa região, nem tão pouco de
clan aparecem misturadas com amostras da oficina vi- nenhuma das oficinas conhecidas da Gallia Narbo-
zinha de Tresques. nensis.
Tem interesse salientar que no estudo das ânforas
da Gallia Narbonensis se procurou também fazer a
identificação de ânforas dos tipos G.3 e G.4, abundan- Determinação
temente fabricadas nesta província, que haviam sido da Origem dos Mármores
encontradas longe do seu lugar habitual de produção,
particularmente em Óstia, Wiesbaden e Genebra. A questão da origem dos mármores tem-se posto
Pretendeu-se ainda verificar se uma ânfora do tipo sobretudo para a escultura clássica e monumentos epi-
D.2/4 com uma forma pouco comum, que foi achada gráficos lavrados nesse material (Fig. 22), em particu-
na oficina de Sallèles d'Aude e cuja pasta não se dis- lar quando está em causa a sua autenticidade ou,
tinguia a olho das ânforas G.4, muito frequentes nesta tratando-se de fragmentos, o rigor da maneira de fa-
oficina, seria de fabricação local ou importada. Foi pos- zer a sua associação.
sível concluir (Fig. 21), comparando as composições Ainda não há muito tempo era costume atribuir
das pastas destas ânforas com as dos grupos de com- proveniências aos mármores com base nas caracterís-
posição referentes às oficinas estudadas, que a ânfora ticas descritas por Lepsius, no fim do século passado,
encontrada em Óstia teria sido fabricada em Sallèles para os mármores das pedreiras gregas mais importan-
tes que operaram durante a época clássica, caracterís-
ticas essas que se baseavam em exames petrográficos
de lâminas delgadas e numa inspecção simples da tex-
tura. Assim, por exemplo, admitia-se que um mármo-
re de grão médio, com pouca foliação e por vezes com
mica provinha do Monte Pentélico, perto de Atenas,
porque eram essas as características do material que
ali tinha sido explorado. Dava-se-lhe, por isso, o no-
me de pentélico. Pressupunha-se, por outro lado, que
um mármore de grão médio a grosseiro, de cor bran-
ca, puro, e translúcido procedia da ilha de Paros, por
serem essas as propriedades do material que naquele
lugar tinha sido extraído. Daí que se chamasse pário.
Acabou-se porém por reconhecer, embora só há pou-
co mais de 20 anos, que os exames petrográficos do
mármore são insuficientes para fazer determinações
fiáveis da sua proveniência. Por essa mesma altura
realizou-se, com idêntico propósito, o primeiro estu-
do importante de caracterização química daquele ma-
terial, recorrendo ao método de análise por activação
com neutrões, a que se seguiram mais estudos por meio
não só do mesmo método mas também doutros méto-
dos de análise química. No entanto, os resultados ob-
tidos nestes estudos mostraram que a caracterização
química dos mármores, mesmo quando baseada em
elementos vestigiais, é igualmente insuficiente para
efectuar as referidas determinações.
No caso dos mármores, o processo mais promis-
sor para determinar a sua origem parece ser o da aná-
lise isotópica dos seus elementos constituintes
principais, nomeadamente o carbono e o oxigénio, o
qual foi sugerido por Craig, em 1972. Este processo
Fig. 21 – Determinação da proveniência de 3 ânforas dos tipos G.3 baseia-se no facto de as composições isotópicas de tais
e G.4 encontradas em Óstia, Wiesbaden e Genebra, longe portanto elementos nos carbonatos variarem, por um lado, com,
do seu lugar habitual de produção, e de uma ânfora do tipo D.2/4
achada em Sallèles d'Aude (segundo F. Laubenheimer, La Produc- o modo da sua formação (precipitação puramente quí-
tion des Ampbores en Gaule Narbonnaise, 1985, p. 364). mica ou elaboração biológica) e, por outro, com a ma-

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Fig. 22 – Cabeça feminina da época flávia, porventura de Júlia, filha de Tito, encontrada em Milreu.

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neira como se processa o seu metamorfismo. Para me- tópica entre os mármores de muitas das pedreiras uti-
dir aquelas composições recorre-se ao método de es- lizadas na antiguidade clássica são suficientemente
pectrometria de massa, que permite determinar as grandes para, a partir dessa composição, se poder de-
razões isotópicas 13C/ 12C e 18O/ 16O nos referidos ele- terminar com rigor a sua origem. Mas esta determina-
mentos, determinação essa que é feita, em geral, to- ção nem sempre é possível. Contudo, trabalhos
mando como referência o padrão internacional PDB recentes tem mostrado que a conjunção da análise iso-
(um carbonato marinho) e exprimindo os resultados tópica com a análise química, usando por exemplo o
em termos de diferenças relativas, designadamente método de análise por activação com neutrões, per-
δ 13C e δ 18O por mil. A Fig. 23 mostra como se distri- mite diferenciar os mármores de algumas das pedrei-
buem os mármores colhidos em diversas pedreiras da ras que se sobrepõem no referido diagrama.
época clássica, localizadas na Grécia, Itália e Turquia, Note-se que a demonstração de que o mármore du-
num diagrama de δ 13 C em função de δ 18 O. Como se ma obra de arte, aparentemente clássica, provém de
pode ver nesta figura, as variações de composição iso- uma pedreira utilizada na época clássica, embora ne-
cessária, não é prova suficiente da autenticidade des-
sa obra. Na verdade, ela poderá ter sido falsificada
exculpindo-a numa pedra colhida recentemente da
mesma pedreira, ou num fragmento duma obra da mes-
ma época. Mas se assim for ela não terá pátina ou, se
a tiver, será porque a produziram artificialmente por
meios químicos. No entanto, é possível discernir uma
pátina falsa doutra verdadeira determinando os valo-
res de δ 13 C e δ 18 O ao longo do perfil duma lasca
delgada extraída da superfície da pedra e complemen-
tando esta informação com resultados de análises quí-
micas efectuadas numa microssonda electrónica. O
desenvolvimento recente de novas técnicas de microa-
nálise isotópica veio permitir que essas determinações
Fig. 23 – Discriminação dos mármores das pedreiras mais importan- se possam fazer com amostras de mármore muito pe-
tes da antiguidade clássica com base na composição isotópica dos
quenas, de cerca de 0,02 mg, e portanto que os testes
seus elementos constituintes principais, expressa em termos de di-
ferenças relativas δ13C e δ18O por mil, tomando como referência o de autenticidade se possam realizar com pequenas las-
padrão internacional PDB (segundo N. Herz, Classical Marble: Geo- cas cuja extracção não desvaloriza em regra a obra de
chemistry, Technology, Trade, 1988, p. 308). arte.

SUGESTÕES DE LEITURA

De índole geral CABRAL, J. M. P. – “Arqueometria no LNETI – Balanço e Pers-


AITKEN, M. J. – “Science-based Dating in Archaeology", London, pectivas”, Arqueologia N.° 20, 1989, pp. 110-123.
Longman, 1990. CABRAL, J. M. P. – “Química e Pré-história: datação pelo radio-
GOFFER, Z. – “Archaedogical Chemistry: A Source Book on tbe carbono”, em A. Romão Dias e J. J. Moura Ramos eds., Química e
Applications of Chemistry to Archaeology”, New York, John Wi- Sociedade: a Presença da Química na Actividade Humana, Esco-
ley & Sons, 1980. lar editora e Sociedade Portuguesa de Química, Lisboa, 1990, pp.
JORGE, V. O. – “Projectar o Passado: Ensaios sobre Arqueologia 89-144.
e Pré-história”, Lisboa, Editorial Presença, 1987. CABRAL, J. M. P. – “Determinação da proveniência de ãnforas
RENFREW, C. – “Before Civilization: The Radiocarbon Revolu- mediante a análise química da cerâmica”, em A. M. Alarcão e F.
tion and Prehistoric Europe”, Penguin Books, 1976. Maye, eds., «Ânforas Lusitanas: Tipologia, Produção, Comércio»,
Museu Monográfico de Conímbriga, Diffusion E. de Boccard, 1990,
TITE, M. S. – “Methods of Physcal Examination in Archaeology”,
pp. 273-288.
London, Seminar Press, 1972.
De índole restrita HERZ, N. & WAELKENS, M., eds., – “Classical Marble: Geoche-
mistry, Technology, Trade”, Dordrecht, Kluwer Academic Publis-
CABRAL, J. M. P. – “Caracterização de cerâmicas arqueológicas
hers, 1988.
mediante análise por activação com neutrões: classificação das
cerâmicas por métodos de taxonomia numérica”, Conímbriga, TAYLOR, R. E. – “Radiocarbon Dating: An Archaeological Pers-
XVI, 1977, pp. 103-137. pective”, London, Academic Press, 1987.

FONTES DAS ILUSTRAÇÕES

As fotografias foram cedidas pelos seguintes organismos e enti- também a sua gratidão: ao Serviço de Documentação fotográfica de
dades, cujo obséquio se agradece com reconhecimento. Museu Na- La Réunion des Musées Nationaux, França, e a Éditions d’Art Al-
cional de Arqueologia: Fig. 1-9, 19, 22; Museu Monográfico de bert Skira S. A., pela licença concedida da reprodução a cores da
Conímbriga: Figs. 12, 18; National Geographic Magazine: Fig. 13; fotografia da Fig. 12.
Serviço Regional de Arqueologia do Sul: Fig. 17. O autor manifesta

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