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TEXTO – AULA 14 – ARGUMENTAÇÃO – ITA – 2017

Prof. Tiago Fernandes

1. TIPOS DE ARGUMENTO comissões oficiais da Argentina ou Chile, que surgiram logo no início do
processo democrático pós-regime militar.
(Marsílea Gombata. Último Segundo. 16.05.2012)
A) PROVA CONCRETA – dados estatísticos, documento, história,
cotidiano, pesquisa, exemplos

E) REFUTAÇÃO (contra-argumento) – ataque a uma ideia


Mas o maior exemplo desse revisionismo histórico encontra-se na contrária
crença, de 68% da população brasileira, de que aquele era um período [a
ditadura militar] de menos corrupção. Alguém deveria enviar para cada uma
dessas pessoas os dossiês de casos como: Coroa-Brastel, Capemi,
Projeto Jari, Lutfalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.
(Vladimir Safatle. Folha de São Paulo. 01.04.2014) É senso comum dizer que jovem não tem interesse por
política; todavia nota-se o contrário nas recentes manifestações de junho de
2013: milhares deles tomaram as ruas da capital paulista, evidenciando o
engajamento política da atual juventude.
(Redação de aluno)
B) ARGUMENTO DE AUTORIDADE / CITAÇÃO DE
ESPECIALISTA – alusão a uma autoridade (professor, autor,
filósofo, especialista, etc.)

F) ARGUMENTO POR DIÁLOGO – referência a livro, filme ou


obra de arte plástica
Segundo a professora de Filosofia da USP Marilena Chauí, a
democracia tem como um de seus pilares o conflito de interesses. Sem tal
oposição de ideias e necessidades, não é possível pensar em um Brasil
democrático. O interior humano é facilmente perceptível por meio da arte
(Redação de aluno) produzida. Picasso, cubista, com Guernica, mostrou sua aversão à guerra,
a qual foi capaz de destruir uma cidade espanhola. Munch, pintor
norueguês e expressionista, por meio da obra O grito, consegue
transpassar o sentimento do desespero. Já Salvador Dalí, surrealista,
imprimia em suas pinturas uma estética que defendia: o livre fluxo do
C) CONSENSO – ideia que não permite discordância e baseada pensamento, fato que levou o artista a produzir diversas obras fantásticas de
no bom senso livre associação. De fato, a arte é um meio de manifestação da alma
humana.
(Redação de aluno)

O povo está cansado de tanta enganação. Devemos ir às ruas já,


porque ninguém aqui quer seu dinheiro roubado com tanta corrupção.
Chegou a hora de o brasileiro ir às ruas e exercer seu poder de decisão, sem
esperar mais. 2. INDUÇÃO E DEDUÇÃO
(Opinião retirada do Facebook)
A) DEDUÇÃO

D) RACIOCÍNIO LÓGICO – comparação, causa-consequência,


oposição, perspectiva, finalidade-meio, condição etc.

Diferentemente de países que vivenciaram pesados anos de


chumbo com os regimes militares na América Latina, o Brasil inicia nesta O grande problema do Brasil tem sido a falta de investimento
quarta-feira os trabalhos da Comissão da Verdade com atraso em relação nas áreas fundamentais. Parece que, no país, coisas tão simples são
aos vizinhos regionais. ignoradas por nossos políticos. A educação é algo fundamental ao Brasil, e
A Comissão da Verdade, que investigará violações de direitos disso ninguém duvida. Pois temos aí um enorme entrave: nossa educação
humanos cometidos entre 1946 e 1988, entra em vigor quase 30 anos depois não tem tido a merecida atenção do governo. Quem sabe, com os 75%
do fim da ditadura militar (1964-1985), distanciando-se da criação de dos royalties do petróleo, nossos alunos não melhoram?

1
O SILOGISMO – tipo de raciocínio dedutivo 3. OUTROS ASSUNTOS de menor importância
FALÁCIA ARGUMENTATIVA – argumento incoerente, sem base, falso argumento
PREMISSA 1 (geral ou maior) + PREMISSA 2 (particular ou menor) = CONCLUSÃO
SOFISMA – (tipo de falácia) raciocínio lógico equivocado
DIALÉTICA – tese + antítese = síntese (apresentação de prós e contras de algo
Termo maior: elemento mais abrangente (final da premissa 1) seguida de um posicionamento ou uma análise)
Termo menor: elemento mais específico (início da premissa 2) PERGUNTA RETÓRICA – pergunta 1) sem o objetivo de receber uma resposta, 2)
Termo médio: elemento que aparece nas duas premissas, mas não na sem resposta existente, 3) cuja resposta já é conhecida ou óbvia ou 4) cuja resposta
conclusão. será dada a seguir pelo próprio autor — usa-se a pergunta retórica como recurso de
convencimento / é um recurso estilístico e uma estratégia argumentativa. Exemplos:

Quantas vezes vou ter que dizer para vocês lerem o comando da questão?
Como ler melhor? Lendo diariamente!
Cai muito Português. Será, então, importante fazer minhas listas?
Consuma menos açúcar. Quer morrer doente?
Afinal, quem é a mais linda mulher da sua vida, amor?
Até quando, ó Vida, tu me maltratarás?
Colou na prova! Você não tem vergonha?
Quem não gostaria de muito, mas muito dinheiro?
Passei no vestibular! Não é maravilhoso?!
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QUESTÕES RECENTES

01. (Fuvest 2012)


Todas as variedades linguísticas são estruturadas, e correspondem a
sistemas e subsistemas adequados às necessidades de seus usuários. Mas o fato de
estar a língua fortemente ligada à estrutura social e aos sistemas de valores da
sociedade conduz a uma avaliação distinta das características das suas diversas
modalidades regionais, sociais e estilísticas. A língua padrão, por exemplo, embora
seja uma entre as muitas variedades de um idioma, é sempre a mais prestigiosa,
porque atua como modelo, como norma, como ideal linguístico de uma comunidade.
Do valor normativo decorre a sua função coercitiva sobre as outras variedades, com o
que se torna uma ponderável força contrária à variação.
Celso Cunha. Nova gramática do português contemporâneo. Adaptado.

Considere as seguintes afirmações sobre os quatro períodos que compõem o


texto:
I. Tendo em vista as relações de sentido constituídas no texto, o primeiro
período estabelece uma causa cuja consequência aparece no segundo
período.
II. O uso de orações subordinadas, tal como ocorre no terceiro período, é
muito comum em textos dissertativos.
B) INDUÇÃO III. Por formarem um parágrafo tipicamente dissertativo, os quatro períodos
se organizam em uma sequência constituída de introdução, desenvolvimento
e conclusão.
IV. O procedimento argumentativo do texto é dedutivo, isto é, vai do geral
para o particular.

Está correto apenas o que se afirma em


a) I e II.
b) I e III.
c) III e IV.
Nossa educação não tem tido a merecida atenção do governo. d) I, II e IV.
Como pode nossa administração pública ignorar os alunos que são, de fato, e) II, III e IV.
o futuro da nação. Basta olhar para as escolas públicas e ver como elas
estão. O fato é que o grande problema do Brasil tem sido a falta de 02. (Fuvest 2007)
investimentos em áreas fundamentais. Das vãs sutilezas
Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa
atenção. (...) Aprovo a atitude daquele personagem a quem apresentaram um homem
que com tamanha habilidade atirava um grão de alpiste que o fazia passar pelo buraco
de uma agulha sem jamais errar o golpe. Tendo pedido ao outro que lhe desse uma
recompensa por essa habilidade excepcional, atendeu o solicitado, de maneira
DEDUÇÃO INDUÇÃO prazenteira e justa a meu ver, mandando entregar-lhe três medidas de alpiste a fim de
que pudesse continuar a exercer tão nobre arte. É prova irrefutável da fraqueza de
nosso julgamento apaixonarmo-nos pelas coisas só porque são raras e inéditas, ou
ainda porque apresentam alguma dificuldade, muito embora não sejam nem boas nem
úteis em si.
Montaigne, Ensaios.

O texto revela, em seu desenvolvimento, a seguinte estrutura:


a) formulação de uma tese; ilustração dessa tese por meio de uma narrativa;
reiteração e expansão da tese inicial.
b) formulação de uma tese; refutação dessa tese por meio de uma narrativa;
formulação de uma nova tese, inspirada pela narrativa.
c) desenvolvimento de uma narrativa; formulação de tese inspirada nos fatos
dessa narrativa; demonstração dessa tese.

2
d) segmento narrativo introdutório; desenvolvimento da narrativa; formulação
de uma hipótese inspirada nos fatos narrados. 05. (AFA 2017)
e) segmento dissertativo introdutório; desenvolvimento de uma descrição; PARA SEMPRE JOVEM
rejeição da tese introdutória. Recentemente, vi na televisão a propaganda de um jipe que saltava
obstáculos como se fosse um cavalo de corrida. Já tinha visto esse comercial, mas
comecei a prestar atenção na letra da música, soando forte e repetindo a estrofe de
03. (ITA 2014) A questão refere-se ao texto de Manuel Bandeira, publicado
uma canção muito conhecida, ―forever Young...I wanna live forever and Young...(para
em 1937. sempre jovem...quero viver para sempre e jovem). Será que, realmente, queremos
(...) Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da viver muito e, de preferência, para sempre jovens? (...)
entrevista fornecida a Florent Fels pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. O crescimento da população idosa nos países desenvolvidos é uma
Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem bomba-relógio que já começa a implodir os sistemas previdenciários, despreparados
uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos Estados Unidos Carlito é para amparar populações com uma média de vida em torno de 140 anos. A velhice se
o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver como os tornou uma epidemia incontrolável nos países desenvolvidos. Sustentar a população
outros, não se acomoda em meio algum, –em suma um inadaptável. O espectador idosa sobrecarrega os jovens, cada vez em menor número, pois, nesses países, há
americano ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que também um declínio da natalidade. Será isso socialmente justo?
faz o sucesso de Chaplin nos Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis Uma pessoa muito longeva consome uma quantidade total de alimentos
aventuras constitui ali uma lição de moral para educação da mocidade no sentido de muito maior do que as outras, o que contribui para esgotar mais rapidamente os
preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem quaisquer! recursos finitos do planeta e agravar ainda mais os desequilíbrios sociais. Para que
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu uns poucos possam viver muito, outros terão de passar fome. Será que, em um futuro
critério de sucesso para julgamento das ações humanas, do seu gosto pela breve, teremos uma guerra de extermínio aos idosos, como na ficção do escritor
estandardização, não deixa de surpreender aquela interpretação moralista dos filmes argentino Bioy Casares, O diário da guerra do porco? Seria uma guerra justa? /.../
de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para surpresa. A (TEIXEIRA, João. Para sempre jovens.In: Revista Filosofia: ciência & vida.
interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem Ano VII, n. 92, março-2014, p. 54.)
verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e
estropiados, o que propõe o pacto contra a guerra e ao mesmo tempo assalta a
Nicarágua, não poderia sentir de outro modo. O emissor do texto apresenta um discurso parcial no qual se percebe uma
Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é visão bastante negativa do crescimento da população idosa. Apenas um dos
verdade que tudo cabe na humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um recursos abaixo NÃO foi utilizado para convencer o leitor de seu ponto de
pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar Carlito como um herói. Carlito passa por vista. Assinale-o.
todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto? Não perde a bondade a) Hiperbolização da linguagem evidenciada na grande quantidade de
apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito de advérbios de intensidade e no exagero de algumas afirmações.
amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice? b) Metáforas impactantes e alarmistas como ―epidemia incontrolável‖ e
Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não
―bomba-relógio‖.
dorme, come sola de sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio
Grande. É um inadaptável? c) Argumentos de dados, baseados em provas concretas e/ou pesquisas
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas científicas.
haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem d) Uso do contraste, caracterizado pela presença de antíteses e pela
dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlito oposição de ideias.
com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando um ajuntamento se
forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar de 06. (UERJ 2016-1 - o texto não foi reproduzido nesta folhinha) Por meio da
curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que generalização, pode-se atribuir um determinado conjunto de traços que não
está certo do prazer ingênuo de olhar. (...)
se relacionam apenas com o que está sendo nomeado. O melhor exemplo
desse procedimento de generalização está presente em:
Considerando a estrutura do texto, pode-se dizer que Bandeira
(A) Branco: o branco é uma cor que não pinta. (l. 13)
I. vale-se de outro texto para refletir sobre a recepção do público americano
(B) Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro, somente seus
aos filmes de Chaplin.
filhos. (l. 14)
II. considera fatos da época para refletir sobre o comportamento dos
(C) Céu: de onde sai o dia. (l. 15)
americanos.
(D) Universo: casa das estrelas. (l. 25)
III. descreve cenas de filmes para enaltecer a criação de Chaplin.
IV. usa recursos linguísticos, como perguntas retóricas e adjetivos, para
07. (UERJ 206-1 - o texto não foi reproduzido nesta folhinha)
reforçar seu ponto de vista.
essa estranha pressa de acabar se ostenta como a marca do século.
Está(ão) correta(s)
A ( ) apenas I e II. O trecho acima contém o eixo temático da crônica escrita por João do Rio em
B ( ) apenas I, II e IV. 1909. Na construção da opinião presente nesse trecho, é possível identificar
C ( ) apenas II, III e IV. um procedimento de:
D ( ) apenas III e IV. (A) negação
E ( ) todas. (B) dedução
(C) gradação
04. (ENEM 2016) (D) generalização
A obra de Túlio Piva poderia ser objeto de estudo nos bancos escolares,
ao lado de Noel, Ataulfo e Lupicínio. Se o criador optou por permanecer em sua
querência — Santiago, e depois Porto Alegre, a obra alçou voos mais altos, com 08. (ITA 2010)
passagens na Rússia, Estados Unidos e Venezuela. Tem que ter mulata, seu samba Alguma onda conservadora, sempre tão pronta na imprensa e nas
maior, é coisa de craque. Um retrato feito de ritmo e poesia, uma ode ao gênero que academias de ginástica, move-se contra a obrigatoriedade dos cursos de filosofia e
amou desde sempre. E o paradoxo: misto de gaúcho e italiano, nascido na fronteira sociologia no ensino médio do Brasil. Digo que são conservadores os responsáveis por
com a Argentina, falando de samba, morro e mulata, com categoria. E que categoria! essa onda porque aquilo que externam tais pessoas de formação culta vai embasado,
Uma batida de violão que fez história. O tango transmudado em samba. admitamos, numa razão antiga, embora compreensível.
RAMIREZ, H.; PIVA, R. (Org.). Tulio Piva: pra ser samba brasileiro. Porto Alegre: No Brasil, não se ensinam direito matemática, geografia, lógica ou
Programa Petrobras Cultural. 2005 (adaptado). português, então por que deveríamos nos preocupar com a transmissão dos modos de
exercitar o pensamento no decorrer do tempo? Quem vai transmitir coisas tão
complicadas em torno da história das interpretações de mundo se não há no mercado
O texto é um trecho da crítica musical sobre a obra de Túlio Piva. Para do ensino pré-universitário aqueles mestres capazes de ensinar as coisas simples já
enfatizar a qualidade do artista, usou-se como recurso argumentativo o(a) pensadas?
a) contraste entre o local de nascimento e a escolha pelo gênero samba. Da forma como vejo, matemática não é coisa simples. Nem português.
b) exemplo de temáticas gaúchas abordadas nas letras de sambas. Matemática é Pitágoras, Antônio Vieira, português. E Filosofia, Platão; Sociologia,
c) alusão a gêneros musicais brasileiros e argentinos. Émile Durkheim. Na minha vida de leitora, talvez tenha percorrido mais vezes Platão e
d) comparação entre sambistas de diferentes regiões. Durkheim do que aquele Pitágoras que, quando bem explicado por alguém, pareceu-
e) aproximação entre a cultura brasileira e a argentina.
3
me cristalino. Então, matemática não pode ser mais simples que filosofia (isto se não origens precoces, quem sabe constitucionais ou genéticas, no ódio ou recusa das
considerarmos a matemática uma pura implicação filosófica). diferenças.
Matemática tem apenas mais professores especializados a ensiná-la. É A mesma precocidade, dizem alguns, encontra-se nas crianças. Uma
preciso que se formem professores novos, não daqui a cem anos, quando parecermos criança uruguaia, com clara ascendência europeia, como é comum em nosso país,
prontos, mas já, estimulados por uma lei à primeira vista arrogante e inadequada. Ou resultado do genocídio indígena, denuncia, entre indignada e temerosa, sua repulsa a
isto acontece agora ou jamais começaremos a preparar quem estuda para a uma criança japonesa que entrou em sua classe (fato raro em nosso meio) e
verdadeira vida acadêmica que, esperemos, terá depois. argumenta que sua linguagem lhe é incompreensível e seus traços são diferentes e
Seria perda de tempo estender-me aqui sobre as razões pelas quais áreas incomuns.
como filosofia, condenada como grande abstração, e sociologia, por sua concretude, Se as crianças e os primitivos reagem deste modo, poder-se-ia concluir –
tornaram-se vitais ao conhecimento de qualquer habitante de um mundo civilizado. O precipitadamente – que o que manifestam, de maneira tão primária e transparente, é
Brasil está atrasado em relação ao Primeiro Mundo sonhado, a escola vai mal? A algo que os desenvolvimentos posteriores da civilização tornarão evidente de forma
filosofia deve entrar na cabeça dos alunos e a sociologia precisa explicar aspectos mais complexa e sofisticada, mas com a mesma contundência elementar.
importantes do país, tão logo isto seja possível. Aos 15 anos de idade, um mortal, Por esse caminho, e com a tendência humana a buscar causalidades
mesmo que um brasileirinho, pode começar a aprendê-las... [...] simples e lineares, estamos a um passo de “encontrar” explicações instintivas do ódio
(Rosane Pavam. Carta Capital, 03/07/2008.) e da violência, em uma hierarquização em que a natureza precede a cultura, território
de escolha das argumentações racistas. A “natureza” – o “biológico” como “a” origem
NÃO faz parte da argumentação do texto a autora ou “a” causa – operam como explicação segura e tranquilizadora ante questões que
A) reportar-se à sua experiência pessoal. nos encurralam na ignorância e na insegurança de um saber parcial. [...]
(*) Pierre Clastres (1934-1977) / (VIÑAR, M. O reconhecimento do próximo.)
B) valer-se de perguntas retóricas para a progressão do texto.
C) eximir-se a defender um ponto de vista sobre o ensino de Filosofia e
Em relação às estratégias argumentativas, os Textos 1 e 2 igualmente
Sociologia no Ensino Médio.
apresentam
D) citar autores representativos de algumas áreas do conhecimento.
A ( ) informações ordenadas do geral para o específico como forma de
E) delinear, em linhas gerais, as áreas da Filosofia e da Sociologia.
persuasão.
B ( ) referências externas para discussão dos respectivos temas.
09. (ITA 2015)
C ( ) comparações de comportamento de grupos sociais.
D ( ) testemunhos de autoridade.
TEXTO I
E ( ) definições de palavras.
José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde ficam os imigrantes
logo que chegam. E falou dos equívocos de nossa política imigratória. As pessoas que
ele encontrou não eram agricultores e técnicos, gente capaz de ser útil. Viu músicos 10. (ITA 2015) (O texto é o I, da questão anterior) O objetivo do autor é
profissionais, bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas. Paul Balt toca acordeão, A ( ) discutir a reportagem de José Leal sobre a chegada de imigrantes ao
Ivan Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Nedko é ex-oficial, Luigi Brasil.
Tonizo é jogador de futebol, IbolyaPohl é costureira. Tudo gente para o asfalto, “para B ( ) apoiar a imigração europeia, independentemente da condição social dos
entulhar as grandes cidades”, como diz o repórter. imigrantes.
O repórter tem razão. Mas eu peço licença para ficar imaginando uma C ( ) mostrar que o Brasil não precisa de imigrantes sem qualificação
porção de coisas vagas, ao olhar essas belas fotografias que ilustram a reportagem.
profissional.
Essa linda costureirinha morena de Badajoz, essa Ingeborg que faz fotografias e essa
Irgard que não faz coisa alguma, esse Stefan Cromick cuja única experiência na vida D ( ) defender uma política imigratória não necessariamente vinculada a
parece ter sido vender bombons – não, essa gente não vai aumentar a produção de critérios profissionais.
batatinhas e quiabos nem plantar cidades no Brasil Central. E ( ) criticar a legislação brasileira sobre imigração vigente na época.
É insensato importar gente assim. Mas o destino das pessoas e dos
países também é, muitas vezes, insensato: principalmente da gente nova e países 11. (Unicamp 2016) Leia com atenção o texto abaixo.
novos. A humanidade não vive apenas de carne, alface e motores. Quem eram os pais
de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quisesse hoje entrar no Brasil acaso Nunca conheci quem tivesse sido tão feliz como nas redes sociais
poderia? Ninguém sabe que destino terão no Brasil essas mulheres louras,esses
homens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma coisa: emigraram. Trazem (...) Eu tenho inveja de mim no Instagram.
pelo menos o patrimônio de sua inquietação e de seu apetite de vida. Muitos se (…) Eu queria ser feliz como eu sou no Instagram.
perderão, sem futuro, na vagabundagem inconsequente das cidades; uma mulher Eu queria ter certeza, como eu tenho no Facebook, sobre as minhas posições
dessas talvez se suicide melancolicamente dentro de alguns anos, em algum quarto de políticas.
pensão. Mas é preciso de tudo para fazer um mundo; e cada pessoa humana é um E no Twitter, bem, no Twitter eu não sou tão feliz nem certa e é por isso que de longe
mistério de heranças e de taras. Acaso importamos o pintor Portinari, o arquiteto essa ganha como rede social de mi corazón.
Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como vieram eles ou E quanto mais eu me sinto angustiada (quem nunca?), mais eu entro no Instagram e
seus pais? Quem pergunta hoje, e que interessa saber, se esses homens ou seus pais vejo a foto das pessoas superfelizes. E mais angustiada eu fico. Por mais que eu saiba
ou seus avós vieram para o Brasil como agricultores, comerciantes, barbeiros ou que aquela felicidade é de mentira.
capitalistas, aventureiros ou vendedores de gravata? Sem o tráfico de escravos não Outro dia uma editora de moda que faz muito sucesso no Instagram escreveu em uma
teríamos tido Machado de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem uma gota legenda: "até que estou bem depois de tomar um stillnox e um rivotril." (!!!!! Gente!)
de sangue (ou uísque) escocês nas veias, e quem nos garante que uma legislação Mas ufa, ela assumiu. Até então, seus seguidores talvez pudessem achar que ela era
exemplar de imigração não teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos uma super-heroína que nunca tinha levado porrada (nem conhecido quem tivesse
mexicano, ou Pancetti chileno, o general Rondon canadense ou Noel Rosa em tomado). Ela viaja de um lado para o outro, acorda cedo, mas tem uma decoração
Moçambique? Sejamos humildes diante da pessoa humana: o grande homem do Brasil linda na mesa, viaja de país em país. Trabalha loucamente. Mas ela sempre está
de amanhã pode descender de um clandestino que neste momento está saltando disposta e apaixonada pelo que faz.
assustado na praça Mauá, e não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma Escuta! Quanta mentira! Nenhuma de nós está apaixonada o tempo todo pelo que faz.
política de imigração sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem Eu, hoje, escrevi esse texto com muito esforço. Eu, hoje, estou achando que eu
aos inúteis e aos vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum escrevo mal e que perdi o jeito para a coisa. Quem nunca?
deles, como sorte grande da fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção e a Quem nunca muitas vezes?
nossa glória. Quem estamos querendo enganar? A gente. Mas tem vezes, como agora, em que não
(BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela. Rio de Janeiro, dá. Eu queria muito voltar no tempo quando as redes sociais não existiam só para
Editora do Autor, 1963) lembrar como era… Às vezes eu acho que, com todas as vantagens da vida em
rede…, talvez a gente se sentisse melhor. Sério. "Estou farto de semideuses. Onde é
TEXTO II que há gente nesse mundo?", grita o Fernando Pessoa lá do túmulo.
Nos estudos de antropologia política de Pierre Clastres*, estudioso francês
que conviveu durante muito tempo com tribos indígenas sul-americanas, menciona-se (Adaptado de Nina Lemos, disponível em http://revistatpm.
o fato de frequentemente os membros dessas tribos designarem a si mesmos com um uol.com.br/blogs/berlimmandaavisar/2015/07/13/nunca-conheci-quemtivesse-sido-tao-
vocábulo que em sua língua era sinônimo de “os homens” e reservavam para seus feliz-como-nas-redes-sociais.html.)
congêneres de tribos vizinhas termos como “ovos de piolho”, “subhomens” ou
equivalentes com valor pejorativo. Considerando os recursos linguísticos e discursivos presentes na
Trago esta referência – que Clastres denomina etnocentrismo – eloquente configuração do texto, é correto afirmar que:
de uma xenofobia em sociedades primitivas, porque ela é tentadora para propor a) ―Nunca conheci quem tivesse sido tão feliz como nas redes sociais / Eu
tenho inveja de mim no Instagram‖ é um enunciado que se espelha nos
4
versos ―Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus três sentenças em sequência. A organização do silogismo sintetiza a
conhecidos têm sido campeões em tudo‖, do Poema em Linha Reta, de estrutura do próprio método dedutivo, que se encontra melhor apresentada
Fernando Pessoa, por meio do recurso ao paralelismo de estruturas em:
sintáticas. (A) premissa geral - premissa particular - conclusão
b) No texto de Nina Lemos, alguns recursos linguísticos e discursivos são (B) premissa particular - premissa geral - conclusão
mobilizados de modo a promover um tipo particular de interação entre o (C) premissa geral - segunda premissa geral - conclusão particular
produtor do texto e seus leitores por meio de diálogos entre personagens, (D) premissa particular - segunda premissa particular - conclusão geral
pontuação com funções estilisticamente diversas, um léxico de natureza
coloquial e perguntas retóricas. 14. (UERJ 2015-2)
c) Baseado no Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa, o texto de Nina
Lemos apresenta argumentos para convencer seus leitores de que ela tem Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde. O Incrível Hulk é um abacate
uma vida difícil em relação à de outras pessoas felizes que conhece pelo
Instagram, e de que é possível mostrar a essas pessoas que a vida não é tão Este parágrafo indica como o leitor deve ler todos os anteriores. Segundo
boa quanto parece. essa indicação, os argumentos apresentados pelo cronista devem ser
d) O texto de Nina Lemos apresenta uma organização textual e sintática compreendidos como:
típica da esfera jornalística, que se caracteriza pelo uso de marcas de (A) críticas irônicas
oralidade como o recurso a sequências de diálogos (―Quem estamos (B) exercícios formais
querendo enganar? A gente.‖), o uso de marcadores discursivos (―bem‖, (C) raciocínios aceitáveis
―sério‖) e de enunciados inseridos (―quem nunca?‖). (D) recriações linguísticas

12. (UERJ 2013) 15. (UERJ 2015-2) Todo argumento pode se tornar um sofisma: um
raciocínio errado ou inadequado que nos leva a conclusões falsas ou
Recordações do escrivão Isaías Caminha improcedentes. O último parágrafo do texto é um exemplo de sofisma,
Eu não sou literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. O considerando que, da constatação de que todo abacate é verde, não se pode
que observei neles, no tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante deduzir que só os abacates têm cor verde. Esse é o tipo de sofisma que
para não os amar, nem os imitar. São em geral de uma lastimável limitação de ideias, adota o seguinte procedimento:
cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher fatos detalhados e
(A) enumeração incorreta
impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às ideias vencedoras, e antigas,
adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um (B) generalização indevida
pueril e errôneo critério de beleza. (C) representação imprecisa
Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha. (D) exemplificação inconsistente

só capazes de colher fatos detalhados e impotentes para generalizar... 16. (AFA 2017)

Esse trecho se refere à utilização do seguinte método de argumentação: PROMESSA CONTRA SINAIS DA IDADE
a) indutivo. O tempo passa, e com ele os sinais da idade vão se espalhando pelo
nosso organismo. Entre eles, os mais evidentes ficam estampados em nossa pele, e
b) dedutivo.
rostos, na forma de rugas, flacidez e perda de elasticidade. Um estudo publicado
c) dialético. ontem no periódico científico ―Journal of Investigative Dermatology‖, no entanto,
d) silogístico. identificou um mecanismo molecular em células da pele que pode estar por trás deste
processo, abrindo caminho para o desenvolvimento de novos tratamentos para, se não
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 13 A 15 impedir, pelo menos retardar o envelhecimento delas e, talvez, as de outros tecidos e
órgãos do corpo.
TERRORISMO LÓGICO Na pesquisa, cientistas da Universidade de Newcastle, no Reino Unido,
O terrorismo é duplamente obscurantista: primeiro no atentado, depois nas reações analisaram amostras de células da pele de vinte e sete doadores com entre seis
que desencadeia. e 72 anos, tiradas de locais protegidos do Sol, para determinar se havia alguma
Said e Chérif Kouachi eram descendentes de imigrantes. Said e Chérif diferença no seu comportamento com a idade. Eles verificaram que, quanto mais velha
Kouachi são suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, na França. Se não a pessoa, menor era a atividade de suas mitocôndrias, as ―usinas de energia‖ de
houvesse imigrantes na França, não teria havido ataque ao Charlie Hebdo. nossas células. Essa queda, porém, era esperada, já que há décadas a redução na
Said e Chérif Kouachi, suspeitos do ataque ao jornal Charlie Hebdo, eram capacidade de geração de energia por essas organelas celulares e na sua eficiência
filhos de argelinos. neste trabalho com o tempo é uma das principais vertentes nas teorias sobre
Zinedine Zidane é filho de argelinos. Zinedine Zidane é terrorista. Zinedine envelhecimento. /.../
Zidane é filho de argelinos. Said e Chérif Kouachi, suspeitos do ataque ao jornal (BAIMA, César. O Globo,27 de fev.2016, p.24.)
Charlie Hebdo, eram filhos de argelinos. Said e Chérif Kouachi sabiam jogar futebol.
Muçulmanos são uma minoria na França. Membros de uma minoria são Sabe-se que, ao divulgar informações de caráter científico em um texto,
suspeitos do ataque terrorista. Olha aí no que dá defender minoria... alguns recursos de linguagem podem ser empregados para transmitir ao
A esquerda francesa defende minorias. Membros de uma minoria são leitor maior confiabilidade quanto ao conteúdo apresentado. Em relação ao
suspeitos pelo ataque terrorista. A esquerda francesa é culpada pelo ataque terrorista.
texto, assinale a alternativa que NÃO apresenta um desses recursos.
A extrema direita francesa demoniza os imigrantes. O ataque terrorista
fortalece a extrema direita francesa. A extrema direita francesa está por trás do ataque a) Referência a um periódico científico no qual foram publicados os
terrorista. resultados da pesquisa em questão.
Marine Le Pen é a líder da extrema direita francesa. ―Le Pen‖ é ―O b) Emprego de afirmação categórica sobre o resultado irrefutável da pesquisa
Caneta‖, se tomarmos o artigo em francês e o substantivo em inglês. Eis aí uma no sentido de retardar o envelhecimento.
demonstração de apoio da extrema direita francesa à liberdade de expressão — e aos c) Menção ao fato de a pesquisa ser desenvolvida em uma universidade, ou
erros de concordância nominal. seja, um espaço científico confiável.
Numa democracia, é desejável que as pessoas sejam livres para se d) Apresentação de dados numéricos ao se referir à quantidade de indivíduos
expressar. Algumas dessas expressões podem ofender indivíduos ou grupos. Numa
pesquisados pelos cientistas.
democracia, é desejável que indivíduos ou grupos sejam ofendidos.
Os terroristas que atacaram o jornal Charlie Hebdo usavam gorros pretos.
―Black blocs‖ usam gorros pretos. ―Black blocs‖ são terroristas. 17. (Unifesp 2017) Leia o trecho do conto ―A igreja do Diabo‖, de Machado de
Todo abacate é verde. O Incrível Hulk é verde. O Incrível Hulk é um Assis (1839-1908), para responder à questão.
abacate.
Antonio Prata. Adaptado de Folha de São Paulo, 11/01/2015. Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em
enfiar a cogula* beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma
13. (UERJ 2015-2) Antonio Prata, ao comentar o ataque ao jornal Charlie doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele
Hebdo, construiu uma série de variações do argumento típico do método prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites
mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção
dedutivo, conhecido como ―silogismo‖ e normalmente organizado na forma de

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que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as doenças da alma, a melancolia, que esgarça todos os laços da pessoa com a vida.
velhas beatas. Mas achar um nome, novo ou antigo, não resolve a questão, dado que a melancolia foi
– Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos desde sempre um enigma tanto para a religião como para a medicina. Até o século
contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio XVII, por exemplo, acreditava-se que a enfermidade era causada por uma hipotética
da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede- bile negra secretada pelo organismo, em algum lugar do corpo que a anatomia
me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, moderna nunca encontrou.
inventado para meu desdouro*, fazei dele um troféu e um lábaro*, e eu vos darei tudo, O que faz então esse silencioso terrorista da alma decidir-se a decolar
tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... para a mais definitiva carreira solo, levando todo o mundo com ele? (...)
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os Por coincidência ou não, eu estava lendo esses dias o texto de Giorgio
indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que Agamben chamado “O que é um dispositivo?”. A ideia vem de Michel Foucault.
vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de Chama-se dispositivo qualquer coisa capaz de intervir sobre outras, capturando-as,
um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas modelando-as, determinando-as, direcionando-as, de modo a modificar “os gestos, as
vezes sutil, outras cínica e deslavada. condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes”. Em suma, dispositivo é tudo
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, o que exerce poder, da menor à maior escala: palavras, máquinas, fábricas, escolas,
que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e leis, imagens, armas, roupas, religiões, carros, bebidas, bolas de futebol, drogas, arte,
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com prisões, o iPhone, o silicone, o dinheiro, o sexo, a mídia, os meios de enfrentar o
a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada*. A ira tinha a melhor mosquito e, no limite, o mosquito. Os seres viventes estão (estamos)
defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: ―Musa, permanentemente sujeitos ao poder dos dispositivos, e é nisso que se constituem (nos
canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu‖... [...] Pela sua parte o Diabo prometia constituímos) como sujeitos.
substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta Segundo Agamben, a fase extrema do desenvolvimento capitalista
e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do promoveu “uma gigantesca acumulação e proliferação de dispositivos”. Não há
mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de instante em que não estejamos sendo modelados ou modelando, contaminados ou
prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao contaminando, controlados ou controlando algum dispositivo, além de interpelados a
próprio talento. brincar de consumir dispositivos-bugigangas. O bombardeio dessa massa de
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a dispositivos não corresponde mais, ou somente, à sua antiga função de produzir
grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, sujeitos responsáveis e governáveis. Em meio ao fogo cruzado o ser vivente passa por
fazendo amar as perversas e detestar as sãs. processos de subjetivação e processos de dessubjetivação que “parecem tornar-se
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da reciprocamente indiferentes” e que “não dão lugar à recomposição de um novo sujeito”
fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e senão de maneira espectral.
concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem Voltemos ao voo. O avião tornou-se em nossa civilização o
canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a superdispositivo que paira sobre todos os outros como máquina perfeita suspensa
todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e sobre o fio de navalha da morte. Deixado sozinho na cabine de comando, o subpiloto
profunda, foi a da venalidade*. Um casuísta* do tempo chegou a confessar que era um tomou para si o dispositivo guarnecido contra terroristas, pondo-o em rota de
monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito aniquilação. Chama a atenção que não tenha dito ou escrito uma palavra, nem antes
superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o nem durante nem para depois. E que tenha confundido e indiferenciado solenemente o
teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo seu desígnio com o de todos que estavam (ou estamos) no mesmo barco terreno e
caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua celeste. Enquanto os dispositivos mundiais de controle tentam entender inutilmente
palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria quem é esse sujeito, o seu silêncio exterminador talvez esteja falando de um tremendo
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não processo de dessubjetivação que se dá no choque entre os viventes e os mecanismos
há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu de controle onipresentes, para os quais, diz Agamben, “nada se assemelha melhor ao
sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes terrorista do que o homem comum”. No acidente da Germanwings, de fato, como nas
físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? piores fantasias dos controladores de todos os dispositivos, é o homem comum que
Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de transparece como uma espécie de terrorista.
ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito (Adaptado: José Miguel Wisnik em http://oglobo.globo.com/cultura/quem-o-sujeito-
social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao 15775842?topico=topicojose-miguel-wisnik)
mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
(Contos: uma antologia, 1998.) No contexto do segundo parágrafo, a afirmação contida na passagem ―... a
melancolia foi desde sempre um enigma‖ é confirmada por meio da seguinte
*cogula: espécie de túnica larga, sem mangas, usada por certos estratégia argumentativa:
religiosos.
*desdouro: descrédito, desonra.
(a) formulação de uma tese
*lábaro: estandarte, bandeira. (b) apresentação de um fato
*esgalgado: comprido e estreito. (c) síntese dos argumentos
*venalidade: condição ou qualidade do que pode ser vendido. (d) comparação entre processos
*casuísta: pessoa que pratica o casuísmo (argumento fundamentado em raciocínio (e) exposição de um contra-argumento
enganador ou falso).
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ROTEIRO DE ESTUDO
No último parágrafo, o principal recurso retórico mobilizado pelo Diabo em
sua argumentação a respeito da venalidade é 1. Tarefa obrigatória: questões desta folhinha e releitura da teoria da lousa e da
(A) a repetição. folhinha
(B) a interrogação.
2. Tarefa facultativa 1: lista extra disponível no HD - “Argumentação – listra
(C) a citação. extra - 2017”
(D) a hesitação.
(E) a periodização. 3. Tarefa facultativa 2: seleção de questões do livro do Poliedro
a) Exercícios propostos, p.142
18. (Insper 2015-2) 8a!, 8c!, 8d!, 09, 10, 11
b) Exercícios complementares, p.147
Quem é o sujeito? 07, 14, 16!, 18!, 19a, 20a
Os passos do copiloto do avião da Germanwings que caiu na semana ______________________________________________________________
passada continuam a ser rastreados pelos poderes do mundo. Já que ele não GABARITO DAS QUESTÕES RECENTES
apresenta o perfil do terrorista, não pertence a nenhuma organização, e ninguém 01. E 02. A 03. E 04. A 05. C 06. B
reivindica a ação, supõe-se que suas motivações sejam de ordem pessoal, íntima, 07. D 08. C 09. B 10. D 11. B 12. A
secreta, que a psicologia tentaria explicar. 13. A 14. A 15. B 16. B 17. B 18. B
(...)
Tecnicamente, Lubitz é o terrorista pelo avesso: surpreendendo o resto da
tripulação, teria se aproveitado das circunstâncias para ocupar o lugar onde o terrorista
não pode estar, a cabine blindada por dentro justamente para impedir a entrada do
eventual invasor em tempos pós-11 de Setembro. Psicologicamente, tenta-se
enquadrá-lo na tipologia da depressão, nome novo para a mais antiga e indomável das
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