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VÍCIOS REDIBITÓRIOS

Tanto o vício redibitório como a evicção são institutos jurídicos que têm a finalidade de resguardar ou garantir
o adquirente de determinada coisa em contratos translativos* da posse ou da propriedade, inclusive nas
doações onerosas.
*Contratos translativos: o ato dá causa à transmissão da propriedade do bem, e fundamenta a tradição ou o
registro.

1. Conceito e Características

Os vícios redibitórios, por definição, são defeitos ocultos que diminuem o valor ou prejudicam a utilização da
coisa recebida por força de um contrato comutativo* (art. 441 do CC/02).
*Contrato comutativo: em regra, há um objeto determinado, com a equivalência das prestações e
contraprestações, além da certeza no que tange ao seu valor quando as sua formação. A distinção entre
contratos comutativos e aleatórios tem grande distinção prática na disciplina dos vícios redibitórios, uma vez
que, conhecendo-se previamente as prestações devidas, com vantagens e sacrifícios, a ocorrência de vícios ou
defeitos ocultos da coisa, que a tornem imprópria ao uso a que é destinada ou que lhe diminuam o valor,
alteram a equação financeira do contrato, o que inexiste, a priori, nos contratos aleatórios.

Art. 441. A coisa recebida em virtude de contrato comutativo pode ser enjeitada por vícios ou defeitos ocultos,
que a tornem imprópria ao uso a que é destinada, ou lhe diminuam o valor.
Parágrafo único. É aplicável a disposição deste artigo às doações onerosas.

O principal aspecto a ser considerado é, precisamente, portanto, o fato de este vício ser oculto, recôndito, ou
seja, não aparente.
Se for aparente, não se tratará de vício redibitório.

O vício redibitório aproxima-se muito mais de uma causa de dissolução contratual do que propriamente do
sistema de responsabilidade civil, muito embora a parte prejudicada tenha o direito de ser devidamente
indenizada.
Ex: Simplício, ao comprar um relógio de ouro da marca Rolex, ignora que ele é portador de um defeito oculto –
uma conexão equivocada de suas engrenagens – que prejudica a sua utilização.

Note-se que esse defeito deverá acompanhar a coisa, quando da sua tradição.

Se o vício é posterior à aquisição da coisa, ou seja, a causa do defeito operou-se já quando a res estava em poder
do adquirente, por má utilização ou desídia, em nada poderá pleitear.

Elementos caracterizadores ou requisitos do vício redibitório:


a) a existência de um contrato comutativo (translativo da posse e da propriedade da coisa);
b) um defeito oculto existente no momento da tradição;
c) a diminuição do valor econômico ou o prejuízo à adequada utilização da coisa.

2. Fundamento da Garantia Contra os Vícios Redibitórios

O fundamento jurídico da garantia legal contra os vícios redibitórios assenta, fundamentalmente, em três
teorias:

a) Teoria da evicção parcial – para entendermos essa teoria, necessário se faz definirmos o que se
entende por evicção.
Evicção
Consiste na perda da propriedade de um bem, móvel ou imóvel, por força do reconhecimento judicial ou
administrativo do direito anterior de terceiro.
Ex: Oliveira compra um iate de Zigfrida. Pouco tempo depois, o comprador é surpreendido por uma ação
reivindicatória, proposta por Bonfino, que prova seu anterior direito de propriedade sobre a coisa. Em tal caso,
Oliveira pode ser compelido a devolver o bem, voltando-se, regressivamente, contra o antigo vendendo
(Zigfrida), para haver a devida e justa compensação.
Nota-se, do exposto, que razão nenhuma existe para justificar a garantia contra os vícios redibitórios nesta
teoria. Isso porque a evicção guarda íntima conexão com descumprimento contratual e responsabilidade civil,
ao passo que os defeitos de que tratamos têm mais a ver com a redibição ou rejeição do contrato (dissolução),
pela existência de um vício prejudicial ao direito do novo dono.

b) Teoria do erro – segundo Orlando Gomes, a semelhança com essa teoria, que vê no vício redibitório a
incidência de um erro sobre a vontade do adquirente, é impressionante. Ocorre que, se houvesse identificação
com o erro, seria o caso de anular o contrato, o que, nos termos das regras positivas em vigor, não ocorre. De
fato, erro e vício redibitório não se devem confundir, mormente em se considerando que o primeiro tem
dimensão subjetiva ou psicológica e o segundo é de natureza eminentemente objetiva.

c) Teoria do risco – segundo essa teoria, a garantia legal contra os vícios redibitórios decorreria da própria lei,
que imporia ao alienante os riscos pelos eventuais defeitos ocultos existentes na coisa. O grande problema desta
teoria é que, por definição, em Direito Civil, risco traduz uma ideia de perigo concreto de dano por caso fortuito
ou força maior. Ora, se tal conceito guarda relação com fortuito, chegar-se-ia à conclusão de que o alienante
suportaria a redibição da coisa em face de defeitos por ele desconhecidos. E se assim o for, retornaremos à
mesma ideia, geral, de “garantia”.

*Caso fortuito e força maior: são fatos ou eventos imprevisíveis ou de difícil previsão, que não podem ser
evitados, mas que provocam consequências ou efeitos para outras pessoas, porém, não geram responsabilidade
nem direito de indenização.
Segundo Pablo Stolze, a característica básica da força maior é a sua absoluta inevitabilidade, enquanto o caso
fortuito tem como nota essencial a imprevisibilidade, para os parâmetros do homem médio, motivos pelos
quais, ambos, inclusive, são causas excludentes de responsabilidade.

Art. 393. O devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se
expressamente não se houver por eles responsabilizado.

A previsão legal dos vícios redibitórios encontra a sua justificativa jurídica – e por que não dizer ideológica – na
noção maior de “garantia contratual”.

E essa garantia decorrente dos vícios redibitórios é tal, em nosso direito positivo, que o art. 444 do Código Civil
chega ao ponto de impor responsabilidade ao alienante, ainda que a coisa pereça em poder do alienatário
(adquirente), se tal perecimento decorrer de vício oculto, já existente ao tempo da tradição. Ou seja, se a coisa
viera ser destruída ou se extinguir, em virtude do próprio defeito, já existente quando da tradição, ainda assim
o adquirente terá o direito à compensação devida.

Art. 444. A responsabilidade do alienante subsiste ainda que a coisa pereça em poder do alienatário, se
perecer por vício oculto, já existente ao tempo da tradição.

3. Vícios Redibitórios x Erro como Vício de Consentimento

Vício redibitório e erro, posto que sejam conceitos muito próximos, não devem ser confundidos.
O erro expressa uma equivocada representação da realidade, uma opinião não verdadeira a respeito do
negócio, do seu objeto ou da pessoa com quem se trava a relação jurídica. Este defeito do negócio, portanto,
vicia a própria vontade do agente, atuando no campo psíquico (subjetivo).

Diferente é a hipótese de vício redibitório que é a garantia legal prevista para os contratos comutativos em
geral. Se o adquirente, por força de uma compra e venda, recebe a coisa com defeito oculto que lhe diminui o
valor ou prejudica a sua utilização (vício redibitório), poderá rejeitá-la, redibindo o contrato, ou, se preferir,
exigir o abatimento no preço.

Note-se que o agente, ao adquirir a coisa, não incorreu em erro, uma vez que recebeu exatamente aquilo que
pretendia comprar. Apenas a coisa portava defeito oculto que lhe depreciava ou tornava imprópria a sua
utilização.
O vício redibitório não toca o psiquismo do agente, incidindo, portanto, na própria coisa, objetivamente
considerada.
Ex: um indivíduo pretende comprar um relógio de ouro da marca ‘x’. Um vizinho lhe faz uma oferta, e então ele
compra o produto desejado, sem que haja erro em sua manifestação de vontade. Alguns dias depois, observa
que o relógio não funciona bem, em virtude de um defeito oculto em seu maquinismo. Trata-se de vício
redibitório, que desafia, em concurso de ações, duas vias judiciais (ações edilícias): a ação redibitória (para
desfazer o contrato e exigir o que se pagou, com perdas e dano se o alienante sabia do vício) ou a ação ‘quanti
minoris’ (para se exigir o abatimento no preço).

Ações edilícias
Ação redibitória – desfaz o contrato e exige o que se pagou, com perdas e danos se o alienante sabia do vício.
Ação ‘quanti minoris’ – exigir o abatimento no preço.

4. Consequências Jurídicas da Verificação de Vícios Redibitórios

As consequências jurídicas, verificada a incidência de vício redibitório, estão no art. 422. Abrem-se, para o
adquirente, duas possibilidades:
a) rejeitar a coisa, redibindo o contrato (via ação redibitória);
b) reclamar o abatimento no preço (via ação estimatória ou “quanti minoris”).

Art. 442. Em vez de rejeitar a coisa, redibindo o contrato (art. 441), pode o adquirente reclamar abatimento no
preço.

Ação redibitória
A primeira solução é mais drástica. O alienatário, insatisfeito pela constatação do vício, propõe, dentro do prazo
decadencial* previsto em lei, uma ação redibitória, cujo objeto é o desfazimento do contrato e a devolução do
preço pago, podendo inclusive pleitear o pagamento das perdas e danos.
*Decadência: No direito civil, decadência é a extinção de um direito por não ter sido exercido no prazo legal, ou
seja, quando o sujeito não respeita o prazo fixado por lei para o exercício de seu direito, perde o direito de
exercê-lo. Desta forma, nada mais é que a perda do próprio direito pela inércia de seu titular.

Ação estimatória ou “quanti minoris”


Neste caso, prefere o adquirente, também dentro do prazo decadencial da lei, propor ação para pleitear o
abatimento ou desconto no preço, em face do defeito verificado.

Tanto a ação redibitória quanto a ação quanti minoris são espécies das denominadas ações edilícias, existindo,
entre ambas, uma relação de alternatividade, ou seja, um concurso de ações: o adquirente somente poderá
propor uma ou outra, visto que comportam pedidos excludentes entre si.

Observe que nos termos do art. 443, se o alienante conhecia o vício ou defeito oculto da coisa, deverá restituir o
que recebeu com perdas e danos, mas, se não o conhecia, apenas restituirá o valor recebido, mais a despesas do
contrato.

Art. 443. Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá o que recebeu com perdas e danos; se o
não conhecia, tão-somente restituirá o valor recebido, mais as despesas do contrato.

Trata-se de um dispositivo que guarda íntima conexão com a noção de boa-fé objetiva. A quebra do dever de
lealdade, consistente na alienação de coisa que sabe ser defeituosa, sujeita o alienante a pagar, a título
indenizatório, perdas e danos à parte adversa. Caso desconheça o defeito, apenas restituirá o status quo ante,
devolvendo o preço pago mais as despesas do contrato.

Alienante sabe que a coisa é defeituosa: restituição do que recebeu mais perdas e danos.
Alienante desconhece o defeito: devolução do preço pago mais as despesas do contrato.

5. Prazo para a propositura das ações edilícias

Por se tratar de ações que têm por conteúdo o exercício de direitos potestativos, os prazos, em questão, são
decadenciais, e não prescricionais.
Para saber mais
Prescrição x Decadência
Prescrição e decadência dizem respeito à perda de um direito, por motivos do não exercício pelo seu titular.
Elas fazem parte do direito civil e sua diferença está no estágio onde o sujeito se encontra na busca de seu
direito.
Na prescrição, o sujeito perde o direito à determinada ação, ou seja, seu direito de exigir algo por meios legais
deixam de existir. Na decadência, a pessoa perde o próprio direito material, por não ter formalizado o pedido de
seu direito dentro de um prazo definido.
A prescrição acontece quando alguém perde o direito de exigir de outrem o cumprimento de alguma ação, por
não tê-lo feito dentro de determinado período de tempo.
Os prazos prescricionais estão determinados nos artigos 205 e 206 do Código Civil, e eles não podem ser
modificados. Porém, eles podem sofrer suspensão, interrupção ou impedimento, uma única vez.
Em caso de impedimento, não chega a se iniciar o prazo prescricional, enquanto na suspensão, o prazo de
prescrição que estava em curso sofre uma parada, e continua do mesmo ponto assim que o problema for
solucionado.
Já na interrupção, o prazo de prescrição que estava em curso deve ser reiniciado, desconsiderando o período
anterior.
Assim como a prescrição, a decadência também está diretamente ligada ao decurso do tempo, porém, na
decadência, o que o sujeito perde é o direito material, caso ele não o utilize dentro de determinado prazo.
Ou seja, nesse caso, a pessoa tem o direito, porém, como não entrou com pedido formal para sua realização
dentro de determinado período de tempo, esse seu direito caduca.
Os prazos de decadência podem ter origem legal, ou por meio de acordo entre as partes envolvidas. Esses
prazos estão dispostos em diversas partes no Código Civil, porém se encontram principalmente na Parte
Especial do Diploma Civil.
Diferentemente da prescrição, o prazo decadencial não pode ser impedido, suspendido ou interrompido.

DIFERENÇAS ENTRE PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA


Prescrição Decadência
 O que é:  O que é:
A prescrição extingue o direito à pretensão, ou seja, o Na decadência, também chamada de caducidade, o
poder de exigir algo de alguém por meio de um que se perde é o próprio direito material, por falta do
processo jurídico, caso esse direito não tenha sido uso desse direito.
utilizado em determinado espaço de tempo. Nele, existe um direito, e seu pedido deve ser
O direito material ainda existe, porém ele não pode formalizado na justiça dentro de determinado prazo.
ser alcançado por vias jurídicas. Caso a formalização não seja feita, o direito deixa de
A prescrição pode ser alegada a qualquer momento existir.
pelas partes. Na decadência, a ação deve ser reconhecida de ofício
pelo juiz.

 Lei:  Lei:
Artigos 205 e 206 do Código Civil. Está espalhado por todo o Diploma Civil.

 Renúncia:  Renúncia:
Admite renúncia. Não admite a renúncia da decadência legal
(estabelecida na lei), mas admite da decadência
convencional (convencionada entre as partes).

 Instituto de interesse:  Instituto de interesse:


Privado. Público.

 Interrupção:  Interrupção:
Pode ser interrompida, nos casos descritos no Não pode ser suspenso ou interrompido.
art. 202 do Código Civil. A interrupção só pode
ocorrer uma vez.

 Exceções:  Exceções:
A prescrição não ocorre para todos. Segundo o artigo Não há exceções para casos de decadência, ela ocorre
197, não ocorre a prescrição entre cônjuges, entre para todos.
ascendentes e descendentes, e entre tutelados e seus
tutores.

 Início do prazo:  Início do prazo:


O prazo prescricional se inicia após a violação do Na decadência, o prazo de perecimento se inicia junto
direito, e geralmente é de 10 anos. Porém, a lei aponta com o próprio direito
prazos diferentes para casos específicos.

 Exemplo:  Exemplo:
Uma empresa mandou seu funcionário embora, sem Maria comprou um eletrodoméstico na loja de João.
pagar pelos seus direitos. Chegando em casa, ela percebeu que o produto estava
O funcionário então decide não colocar a empresa na com problema, porém, ela não conseguiu ir reclamar
justiça. Porém, 10 anos depois, ele resolve entrar com no mesmo dia, e logo saiu de viagem, voltando apenas
ação pedindo o que lhe é devido. 30 dias depois.
Nesse caso, o juiz irá negar o pedido, pois o prazo para Quando chegou de volta, ela foi até a loja para
entrar com ação já havia prescrito. reclamar sobre o eletrodoméstico, porém, o vendedor
Porém, se a empresa resolver pagar a sua dívida, e já não podia fazer nada, pois o prazo já havia decaído.
depois se arrepender, ela não poderá exigir o dinheiro
de volta, visto que o direito material do
funcionário ainda era válido.

É interessante observar o artigo regente da matéria (art. 445 do CC/02).

Art. 445. O adquirente decai do direito de obter a redibição ou abatimento no preço no prazo de trinta dias se
a coisa for móvel, e de um ano se for imóvel, contado da entrega efetiva; se já estava na posse, o prazo conta-se
da alienação, reduzido à metade.
§ 1o Quando o vício, por sua natureza, só puder ser conhecido mais tarde, o prazo contar-se-á do momento em
que dele tiver ciência, até o prazo máximo de cento e oitenta dias, em se tratando de bens móveis; e de um ano,
para os imóveis.
§ 2o Tratando-se de venda de animais, os prazos de garantia por vícios ocultos serão os estabelecidos em lei
especial, ou, na falta desta, pelos usos locais, aplicando-se o disposto no parágrafo antecedente se não houver
regras disciplinando a matéria.

Imagine-se que Juca estivesse na posse de uma fazenda, pertencente a Chico, há dois anos, na qualidade de
arrendatário. Resolve, então, comprá-la. Ora, em tal caso, se vier a perceber a existência de vício redibitório
(defeito oculto), terá o prazo de um ano, reduzido à metade (6 meses, portanto), a contar da data do registro do
título de transferência no cartório de imóveis (data da alienação formal) para propor ação edilícia. O mesmo
raciocínio se aplica, ao se tratar de bens móveis, operando-se, todavia, a redução de prazo de 30 para 15 dias.

A justificativa é que, uma vez que o adquirente já estava na posse do bem, o legislador entendeu que ele já
disporia de tempo maior para a detecção do defeito, razão pela qual o prazo seria contado pela metade.

No parágrafo 1º, cuidou-se de regular situação muito comum de o vício redibitório apenas ser detectado após a
tradição ou, como que o legislador, “ser conhecido mais tarde”, hipótese em que o prazo será contado a partir
do momento em que o adquirente tiver ciência do defeito (termo a quo), até o prazo máximo de 180 dias, se a
coisa for móvel, e de um ano, se for imóvel.

Saliente-se este ponto: tal prazo somente ocorrerá a partir do momento em que o dono da coisa detectar o vício,
o qual, obviamente, não poderá decorrer de má utilização, e sim, ser anterior à tradição da coisa.

O Código de Defesa do Consumidor (art. 26) também dispõe acerca do prazo decadencial para que o
consumidor reclame por vícios do produto ou serviços:

Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos duráveis.
(...)
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito.
Em se tratando de venda de animais, o § 2º do art. 445 do CC/02 prevê que prazos de garantia serão os
estabelecidos em lei especial, ou, na falta desta, pelos usos locais, aplicando-se o disposto no parágrafo
antecedente, se não houver regra disciplinando a matéria. Vê-se, portanto, tratar-se de regra supletiva, cuja
finalidade é evitar eventuais litígios quando o vício redibitório incidir em animal, objeto de contrato de compra
e venda.

Outro importante aspecto deve ser ressaltado: a previsibilidade normativa da suspensão do prazo de garantia
legal, enquanto estiver em curso a garantia contratual. Estamos a tratar da regra prevista no art. 446.

Art. 446. Não correrão os prazos do artigo antecedente na constância de cláusula de garantia; mas o
adquirente deve denunciar o defeito ao alienante nos trinta dias seguintes ao seu descobrimento, sob pena de
decadência.

O que o legislador fez foi solucionar a delicada situação consistente no fato de existirem duas modalidades de
garantia: a legal e a contratual. Isso ocorre com frequência no âmbito do mercado de consumo.
Ex: o indivíduo compra uma televisão de determinada marca com garantia contratual de 5 anos. Sem prejuízo
de tal cláusula, entretanto, gozará também de garantia legal genérica, prevista no Código de Defesa do
Consumidor para o caso de se verificar defeito no produto adquirido.

Em tal circunstância, enquanto estiver em curso o prazo de garantia contratual, a garantia legal estará
paralisada, ou seja, não correrá prazo decadencial em desfavor do adquirente.
Todavia, verificado o defeito, o adquirente, por imperativo da boa-fé objetiva, deverá denunciá-lo (notificá-lo)
ao alienante, nos 30 dias seguintes ao descobrimento, sob pena de decadência.
Caso o alienatário descumpra esse dever de informação, perderá o direito à garantia legal.

PRAZO PARA AS AÇÕES EDILÍCIAS


Prazo geral, contado da entrega efetiva
30 dias – bem móvel
1 ano – bem imóvel
*se o bem já estava na posse, o prazo conta-se da alienação reduzido à metade
Prazo quando o vício, por sua natureza, só puder se conhecido mais tarde
180 dias – bem móvel
1 ano – bem imóvel
*conta-se a partir do momento em que ele teve ciência
Prazo na venda de animais
Estabelecidos em lei especial ou, na falta desta, pelos usos locais
*Aplica-se o disposto no §1º do art. 445 se não houver regras disciplinando a matéria
Prazo no Código de Defesa do Consumidor (CDC)
30 dias – serviços e bem não duráveis
90 dias – serviços e bem duráveis
*O prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o defeito

EVICÇÃO

1. Noções Conceituais

Conceito: consiste na perda, pelo adquirente (evicto), da posse ou propriedade da coisa transferida, por força
de uma sentença judicial ou ato administrativo que reconheceu o direito anterior de terceiro, denominado
evictor.

A sua previsão legal decorre especialmente da necessidade de se resguardar o adquirente de uma eventual
alienação a non domino, ou seja, alienação de coisa que não pertence ao alienante.

Em tal caso, poderá o alienatário (adquirente) voltar-se contra aquele, se vier perder a coisa para terceiro.

Vê-se que da evicção participam três personagens fundamentais:


a) alienante
b) adquirente (evicto)
c) terceiro (evictor)

Caso o adquirente (evicto) venha a perder a coisa para o terceiro/reivindicante (evictor), que prova o seu
legítimo e anterior direito à propriedade da coisa, poderá voltar-se contra o alienante, para haver deste a justa
compensação pelo prejuízo sofrido.

2. Fundamentos Jurídicos

Mesmo que analisássemos o instituto sob uma ótica estritamente patrimonialista, teríamos por certo que o
princípio geral da proibição do enriquecimento se causa já legitimaria social e juridicamente a sua utilização.

A evicção somente é cabível nos contratos onerosos (em que os “ônus” da avença devem ser divididos entre os
contratantes, para que possam obter os proveitos desejados), e a perda do bem, sem que se buscasse reparar as
coisas ao status quo ante, importaria em locupletamento sem contraprestação do alienante.

Para saber mais


Locupletamento ou Enriquecimento sem causa
O tema é tratado pelo Código Civil, em seu artigo 884, que determina que quem, sem justo motivo, enriquecer
gerando danos ou perdas a outra pessoa, será obrigado a restituir o que foi indevidamente obtido.
A palavra locupletamento deriva de locupletar, que significa enriquecer, ou ter acréscimo de patrimônio ou
riquezas, não necessariamente de forma ilícita. Todavia, no âmbito jurídico, a palavra geralmente é utilizada no
sentido de enriquecimento sem causa, ou ilícito, que ocorre em prejuízo a alguém.
O tema é tratado pelo Código Civil, em seu artigo 884, que determina que quem, sem justo motivo, enriquecer
gerando danos ou perdas a outra pessoa, será obrigado a restituir o que foi indevidamente obtido.
Ex: multas contratuais que sejam desproporcionais, taxas cobradas por serviços não prestados.

Todas essas noções vêm profunda e umbilicalmente informadas e influenciadas por um princípio maior, o da
boa-fé objetiva.

A ocorrência da evicção não deixa de traduzir, na esmagadora maioria das situações, uma afronta a esse
princípio basilar das relações jurídicas, pela inegável quebra da lealdade que deve pautar toda e qualquer
relação negocial.

Assim, a garantia da evicção guarda íntima conexidade com o princípio da boa-fé, informador de todo o Direito
Privado.

 Não se pode falar de evicção, se o arrematante sabia que a coisa era alheia ou litigiosa, na forma do art.
457 do CC/02.

Art. 457. Não pode o adquirente demandar pela evicção, se sabia que a coisa era alheia ou litigiosa.

3. Requisitos

Em nosso Código Civil, a evicção é disciplinada a partir do seu art. 447:

Art. 447. Nos contratos onerosos, o alienante responde pela evicção. Subsiste esta garantia ainda que a
aquisição se tenha realizado em hasta pública.

A primeira pare do dispositivo deixa bem claro quem responde pelos riscos: o alienante.

E para que a sua responsabilidade se manifeste, três requisitos devem ser conjugados:
a) aquisição de um bem;
b) perda da posse ou da propriedade;
c) prolação de sentença judicial ou execução de ato administrativo.
Aquisição de um bem

Para que a evicção se opere, é preciso verificar qual foi a maneira pela qual o bem foi adquirido. Isso porque,
para caracterizar a evicção, tal aquisição deve preceder cronologicamente à perda da coisa.

 Esta aquisição pode-se dar por duas maneiras, quais sejam, a celebração de um contrato oneroso,
translativo de posse ou propriedade da coisa, ou a sua aquisição e hasta pública.

 Contratos onerosos

Obs: Encontram-se fora da proteção contra os efeitos da evicção todos os contratos gratuitos translativos de
posse e propriedade de bens. Por exemplo, não há que se falar do instituto nos contratos de doação simples ou
comodato, uma vez que os ônus patrimoniais foram impostos apenas para uma das partes pactuantes.

Quando se fala em risco de evicção, a concepção doutrinária tradicional faz menção sempre ao contrato de
compra e venda.

É importante frisar que a evicção já poderá operar-se com a perda da simples posse da coisa, não sendo uma
figura exclusiva de tal figura contratual (compra e venda).

 Aquisição em hasta pública

O art. 447 do CC/2002 teve uma parte final acrescentada pelo codificador de 2002, que até então não existia
na lei anterior: “subsiste esta garantia ainda que a aquisição se tenha realizado em hasta pública”.
Ex: imagine que Carlos haja arrematado determinado bem móvel ou imóvel (em leilão ou praça,
respectivamente). Se, após a arrematação e a expedição da imprescindível carta (comprobatória do seu novo
direito de propriedade), vier a ser demandado, em sede de ação reivindicatória, proposta por Adolfo, e
sucumbir, poderá exercer o seu direito de regresso (fruto da garantia de evicção) contra o devedor, de cujo
patrimônio se originou o bem levado à hasta.

Para saber mais


Hasta Pública
É a alienação forçada de bens penhorados, realizada pelo poder público, por leiloeiro devidamente habilitado,
pelo porteiro ou por um auxiliar da justiça. O porteiro hoje não é uma função muito exercida e, por isso, muitas
vezes seu trabalho é promovido pelo oficial de justiça. Ela pode ser dar de duas formas: pela praça, quando
houver, entre os bens penhorados, algum imóvel, ou por leilão, quando todos bens penhorados forem móveis.
Considera-se a aquisição de bem em hasta pública como aquisição originária, razão pela qual não existe
nenhuma relação jurídica entre o arrematante e o antigo proprietário do bem, assim como todos os débitos
existentes sub-rogam-se no preço avençado.

Nesse caso, o arrematante, Carlos, uma vez litigando com o terceiro, Adolfo, sobre a coisa adquirida em hasta
pública, deve valer-se da denunciação da lide como meio de sua pretensão regressiva (art. 125, I, do
CPC/2015).

CPC/2015
Art. 125. É admissível a denunciação da lide, promovida por qualquer das partes:
I - ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao denunciante, a fim de que
possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam;
(...)

Quando Carlos arrematou um bem, o fez em sede de execução, para viabilizar que os credores do
devedor/executado fossem satisfeitos. Ora, se o arrematante vier a perder a coisa, concluímos que o devedor
locupletou-se indevidamente, por haver propiciado a hasta de um bem aparentemente seu, mas que, de fato,
não lhe pertencia. Em tal caso, o valor pago por Carlos caracterizaria pagamento indevido, cabendo ao mesmo,
por força da segunda parte deste dispositivo, voltar-se contra o executado (devedor), para exercer o direito que
da evicção lhe resulta.
Perda da posse ou da propriedade

A evicção remete-nos à ideia de perda do domínio (ou da posse), por força de ato judicia ou administrativo que
reconheça direito anterior de terceiro.

Note-se que o prejudicado, quando consumada a perda do bem (e, consequentemente, a evicção), é o
adquirente, também denominado evicto.

 Basta que se perca a posse daquilo que legitimamente se transferiu ao evicto (independentemente de a
sentença transitar em julgado ou da transferência do domínio), para que este possa valer o seu direito
contra o alienante.

Prolação de sentença judicial ou execução de ato administrativo

Tradicionalmente, a doutrina costuma referir que a evicção decorre de uma sentença judicial, que reconhece
direito anterior de terceiro sobre a coisa.

Entretanto, nada impede que a perda do bem se dê por força de um ato administrativo, como, por exemplo, uma
apreensão policial.
Ex: imagine que Leodegário esteja guiando o seu veículo, recém-comprado, e seja parado por uma blitz policial.
Após apresentar seus documentos, o policial verifica que o automóvel havia sido roubado. Situação
extremamente desagradável e desconcertante, sobretudo porque Leodegário de nada sabia. Em seguida, o
veículo é apreendido, operando-se, por consequência, a perda da posse (e posteriormente da propriedade) do
bem. Nesse contexto, nada impede que o evicto (Leodegário), sem que houvesse sido prolatada nenhuma
sentença, ingresse de imediato, com ação judicial para haver do alienante do veículo a justa compensação por
sua perda.

 Concluímos que a sentença nem sempre é indispensável para que se consume o risco decorrente da
evicção.

Claro está que esse ato administrativo deve ser firme o bastante para implicar efetiva perda da posse ou da
propriedade (outro bom exemplo seria a apreensão de produtos por ficais da alfândega).

4. Direitos do Evicto

O evicto, ao exercer o seu direito, resultante da evicção, formulará, em face do alienante, uma pretensão
tipicamente indenizatória.

 Poderá pleitear, salvo estipulação em contrário, além da restituição do preço ou das quantias que pagou
(art. 450 do CC/2002):
a) a indenização dos frutos que tiver sido obrigado a restituir;
b) a indenização pelas despesas dos contratos e pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção;
c) as custas judiciais e os honorários do advogado por ele constituído.

Art. 450. Salvo estipulação em contrário, tem direito o evicto, além da restituição integral do preço ou das
quantias que pagou:
I - à indenização dos frutos que tiver sido obrigado a restituir;
II - à indenização pelas despesas dos contratos e pelos prejuízos que diretamente resultarem da evicção;
III - às custas judiciais e aos honorários do advogado por ele constituído.
Parágrafo único. O preço, seja a evicção total ou parcial, será o do valor da coisa, na época em que se evenceu,
e proporcional ao desfalque sofrido, no caso de evicção parcial.

A obrigação prevista neste artigo subsiste para o alienante, ainda que a coisa esteja deteriorada, exceto se tiver
havido dolo do adquirente (art. 451). Ou seja, se a coisa alienada não estava em perfeito estado de conservação
ou estava parcialmente destruída, e o evicto vem a perdê-la, ainda assim terá direito à restituição integral, na
forma do art. 450. Perderá, entretanto, esse direito, se atuou dolosamente, dando causa à deterioração. Em tal
caso, não terá direito à compensação integral, abrangente das perdas e danos.
Art. 451. Subsiste para o alienante esta obrigação, ainda que a coisa alienada esteja deteriorada, exceto
havendo dolo do adquirente.

Caso o evicto já tenha sido compensado pelas deteriorações, o alienante poderá reduzir o valor dessas
vantagens da quantia que teria de restituir-lhe, a teor do art. 452 do CC/2002.

Art. 452. Se o adquirente tiver auferido vantagens das deteriorações, e não tiver sido condenado a indenizá-
las, o valor das vantagens será deduzido da quantia que lhe houver de dar o alienante.

5. Espécies de Evicção: Total e Parcial

Na medida em que implique a perda completa da propriedade ou apenas de fração dela, a evicção será chamada
de total ou parcial, respectivamente.

Na forma do parágrafo único do art. 450 do CC/2002, vale notar que, seja total ou parcial:

Art. 450. Salvo estipulação em contrário, tem direito o evicto, além da restituição integral do preço ou das
quantias que pagou:
(...)
Parágrafo único. O preço, seja a evicção total ou parcial, será o do valor da coisa, na época em que se evenceu,
e proporcional ao desfalque sofrido, no caso de evicção parcial.

 Evicção parcial

Na perda não integral da coisa alienada (por exemplo, a reivindicação de parte de livros de uma biblioteca, de
parte de um terreno adquirido ou de alguns animais de uma fazenda comprada de “porteira fechada”), poderá o
evicto optar entre a dissolução do contrato ou a restituição da parte do preço correspondente ao desfalque
sofrido.

Caso não seja considerável a evicção (circunstância que deverá ser aferida pelo juiz in concreto), terá direito
apenas à indenização (art. 455).

Art. 455. Se parcial, mas considerável, for a evicção, poderá o evicto optar entre a rescisão do contrato e a
restituição da parte do preço correspondente ao desfalque sofrido. Se não for considerável, caberá somente
direito a indenização.

Trata-se de uma hipótese de concurso de direitos ou pretensões não podendo, por óbvias razões, o evicto
cumular ambos os pedidos.

 O que se tem, efetivamente, é uma pretensão e, por isso, o prazo deverá ser considerado prescricional.

O que se verifica é uma pretensão de reparação civil, pois o alienante (ou devedor expropriado, no caso da hasta
pública) acabou por gerar um dano no patrimônio do adquirente evicto, por submeter um bem, que não era seu,
mais sim do terceiro evictor

 O prazo para tal pretensão é de 3 (três) anos, na forma do art. 206, § 3º, V, do vigente Código Civil
(prazo para se formular pretensão de reparação civil).

Art. 206. Prescreve:


(...)
§ 3o Em três anos:
V - a pretensão de reparação civil;