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MAQUIAVEL,

A POLÍTICA E O
ESTADO
MODERNO

' H-

li

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
MAQUIAVEL,
A POLÍTICA
E O ESTADO MODERNO

I
Coleção
PERSPECTIVAS DO HOMEM
Volume 35
Série Política
ANTONIO GRAMSCI

Maquiavel,
a Política
e o Estado Moderno

7? Edição
Tradução de

Luiz Mário Gazzakeo

civilização
brasileira
Título do original italiano:
NOTE SUL MACHIAVELLl
SULLA política
E sullo stato moderno

Copyright Istituto Gramsci

SUMARIO

Diagramação e supervisão gráfica: IX


Roberto Pontual
Pequeno Glossário

Parte I «
1. O moderno príncipe .... ... • • • • ^
Desenho de capa: 2 Roberto Michels e os Partidos Políticos .... 103
DOUNÊ 3'. Notas Sobre a Vida Nacional Francesa 11^
4. Notas Esparsas
5. Miscelânea

Parte II
1989
Notas de Política Internacional 191
Direitos para a língua portuguesa adquiridos por
Parte III
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
R. Benjamin Constant, 142 - Glória Notas Sobre o Aparelhamento Nacional e Sobre
20241 - Rio de Janeiro, RJ a Política Italiana 217
Tel.:(021)221-1132
Parte IV
Resenhas e Notas Bibliográficas 255
Parte V
Impresso no Brasil 1. A Ação Católica 275
Printed in BrazH
2. As Concordatas 301
3. Católicos Integrais, Jesuítas e Modernistas ... 317
4. A Religião, o Jogo e o Ópio da Miséria 345
5. Notas Esparsas 351
6. Notas Bibliográficas 365

Parte VI
1. Americanismo e Fordismo 375
2. Rotary Clube, Maçonaria, Católicos 415
3. Notas Esparsas 423
Pequeno Glossário

(Algumas expressões e pseudônimos usados por Gramsci em


substituição de nomes e termos que podiam chamar a atenção da
censura)

O corifeu da filosofia de praxis


O fundador da fisolofia da praxis Marx
O autor da economia crítica

Crítica da economia política O Capital de Marx


A filosofia da praxis O materialismo histórico e o marxismo
A economia crítica A economia política marxista
Ilitch

Filitch Lênin
O maior teórico moderno da filosofia da praxis

As notas sem indicações são do próprio Gramsci. As notas


com a indicação N. e. I. são da edição italiana. As notas com
a indicação N. d. T. são do tradutor brasileiro.
PARTE I
o Moderno Príncipe

Notas sobre a política de Maquiavel. O caráter fundamen


tal do Príncipe consiste em que ele não é um trabalho siste
mático, mas um livro "vivo" em que a ideologia política e a
ciência política fundem-se na forma dramática do "mito". En
tre a utopia e o tratado escolástico, as formas através das quais
se configurava a ciência política até Maquiavel, este deu à sua
concepção a forma fantástica e artística, pela qual o elemento
doutrinai e racional incorpora-se num condottiero, que repre
senta plasticamente e "antropomorficamente" o símbolo da "von
tade coletiva". O processo de formação de uma determinada
vontade coletiva, para um determinado fim político, é represen
tado não através de disquisições e classificações pedantescas de
princípios e critérios de um método de ação, mas como quali obra, mais ainda, como aquele elemento que lança a sua ver
dades, traços característicos, deveres, necessidades de uma pessoa dadeira luz sobre toda a obra e faz dela um "manifesto político".
concreta, tudo o que faz trabalhar a fantasia artística de quem Pode-se estudar como Sorel, a partir da concepção da
se quer convencer e dar forma mais concreta às paixões políticas.^ ideologla-mito, não tenha alcançado a compreensão do partido
O Príncipe de Maquiavel poderia ser estudado como uma político, ficando apenas na concepção do sindicato profissional.
exemplificação histórica do "mito" soreliano, isto é, de uma Na verdade, para Sorel o "mito" não encontrava a sua expres
ideologia política que se apresenta não como fria utopia, nem são maior no sindicato como organização de uma vontade co
como raciocínio doutrinário, mas como uma criação da fantasia letiva, mas na ação prática do sindicato e de uma vontade
concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para coletiva já atuante, ação prática cuja maior realização deveria
despertar e organizar a sua vontade coletiva. O caráter utó ser a greve geral, isto é, uma "atividade passiva", por assim
pico do Príncipe consiste em que o Príncipe não existia na dizer, de caráter negativo e preliminar (o caráter positivo só é
realidade histórica, não se apresentava ao povo italiano com dado pelo acordo alcançado nas vontades associadas), uma ati
características de imediatismo objetivo, mas era uma pura vidade que não prevê uma fase própria "ativa e construtiva".
abstração doutrinária, o símbolo do chefe, do condottiero ideal; Em Sorel, portanto, chocavam-se duas necessidades: a do mito
mas os elementos passionais, míticos, contidos em todo o livro, e a da crítica do mito, na medida em que "cada plano preesta-
com ação dramática de grande efeito, juntam-se e tornam-se belecido é utópico e reacionário". A solução era abandonada
reais na conclusão, na invocação de um príncipe "realmente ao impulso do irracional, do "arbitrário" (no sentido bergso-
existente". Em todo o livro, Maquiavel mostra como deve ser niano de "impulso vital"), da "espontaneidade".^
o Príncipe para levar um povo à fundação do novo Estado, e Mas, pode um mito ser "não-construtivo", pode-se imagi
o desenvolvimento é conduzido com rigor íógico, com relevo nar, na ordem de intuições de Sorel, que seja efetivamente pro
científico; na conclusão, o próprio Maquiavel faz-se povo, con dutivo um instrumento que deixa a vontade coletiva na sua fase
funde-se com o povo, mas não com um povo "genericamente" primitiva e elementar de mera formação, por distinção (por
entendido, mas com o povo que Maquiavel convenceu com o "cisão"), embora com violência, isto é, destruindo as relações
seu desenvolvimento anterior, do qual ele se torna e se sente morais e jurídicas existentes? Mas esta vontade coletiva, assim
consciência e expressão, com o qual ele sente-se identificado: formada elementarmente, não deixará imediatamente de existir,
parece que todo o trabalho "lógico" não passa de uma reflexão pulverizando-se numa infinidade de vontades individuais, que
do povo, um raciocínio interior que se manifesta na consciência em virtude da fase positiva seguem direções diversas e con
popular e acaba num grito apaixonado, imediato. A paixão, trastantes? Além do que, não pode existir destruição, negação,
de raciocínio sobre si mesma, transforma-se em "afeto", febre, sem uma implícita construção, afirmação, e não em sentido
fanatismo de ação. Eis por que o epílogo do Príncipe não é
qualquer coisa de extrínseco, de "impingido" de fora, de re I Nota-se aqui uma contradição implícita do modo com o qual Croce
tórico, mas deve ser explicado como elemento necessário da apresenta o seu problema de História e anti-História com outros modos
de pensar de Croce: a sua aversão pelos "partidos políticos" e o seu
modo de apresentar a questão da "previsibilidade" dos fatos sociais
1 Verificar entre os escritores políticos anteriores a Maquiavel se exis (cf. Conversazioni critiche, primeira série, págs. 150-152, recensão do
tem textos configurados como o Príncipe. Também o final do Príncipe livro de Ludovico Limentani, La previsione dei fatti sociali, Turim,
está ligado a este caráter "mítico" do livro; depois de ter representado Bocca, 1907): se os fatos sociais são imprevisíveis e o próprio conceito
o condottieTO ideal, Maquiavel, num trecho de grande eficácia artística, de previsão é um puro som, o irracional não pode deixar de dominar,
invoca o condottiero real que o personifique historicamente: esta invo e cada organização de homens é anti-histórica, é um "preconceito"; só
cação apaixonada reflete-se em todo o livro, conferindo-lhe exatamente resta resolver um a um, e com critérios imediatos, os problemas práti
o caráter dramático. Em Prolegomeni de L. Russo, Maquiavel é de cos colocados pelo desenvolvimento histórico. (Cf. o artigo de Croce,
nominado o artista da política e uma vez aparece, inclusive, a expres II partito come giudizio e come pregiudizio, em Cultura e vita morale.)
são "mito", mas não precisamente com o sentido acima indicado. Assim, o oportunismo torna-se a única linha possível.
"metafísico", mas praticamente, isto é, politicamente, como pro la novamente e fortalecê-la, e não que se deva criar uma von
grama de partido. Neste caso, supÕe-se por trás da espontanei tade coletiva ex novo, original, e orientá-la para metas con
dade um puro mecanicismo, por trás da liberdade (arbítrio- cretas e racionais, mas de uma concreção e racionalidade ainda
impulso vital) um máximo de determinismo, por trás do idea não verificadas e criticadas por uma experiência histórica efe
lismo um materialismo absoluto. tiva e universalmente conhecida.
O moderno -príncipe, o mito-príncipe, não pode ser uma O caráter "abstrato" da concepção soreliana do "mito"
pessoa real, um indivíduo concreto; só pode ser um organismo; deriva da aversão (que assume a forma passional de uma re
um elemento complexo de sociedade no qual já tenha se inicia pulsa ética) pelos jacobinos, que certamente foram uma
do a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e fun "encarnação categórica" do Príncipe de Maquiavel. O moder
damentada parcialmente na ação. Este organismo já é deter no Príncipe deve ter uma parte dedicada ao jacobinismo (no
minado pelo desenvolvimento histórico, é o partido político: a significado integral que esta noção teve historicamente e deve
primeira célula na qual se aglomeram germes de vontade cole ter conceitualmente), para exemplificar como se formou concre-
tiva que tendem a se tornar universais e totais. No mundo tamente e atuou uma vontade coletiva que, pelo menos por
moderno, só uma ação histórico-política imediata e iminente, alguns aspectos, foi criação ex novo, original. Ê preciso tam
caracterizada pela necessidade de um procedimento rápido e bém definir a vontade coletiva e a vontade política em geral
fulminante, pode-se encarnar miticamente num indivíduo con no sentido moderno; a vontade como consciência atuante da
creto; a rapidez só pode tornar-se necessária em virtude de um necessidade histórica, como protagonista de um drama histó
grande perigo iminente, grande perigo que efetivamente leve a rico real e efetivo.
um despertar fulminante das paixões e do fanatismo, aniquilan Uma das primeiras partes deveria precisamente ser dedica
do o senso crítico e a corrosividade irônica que podem destruir da à "vontade coletiva", apresentando a questão deste modo:
0 caráter "carismático" do condottiero (o que ocorreu na aven "Quando é possível dizer que existem as condições para que
tura de Boulanger). Mas uma ação imediata de tal gênero não possa surgir e desenvolver-se uma vontade coktiva nacional-
pode ser, pela sua própria natureza, ampla e de caráter orgânico: popular?" Portanto, uma análise histórica (econômica) da es
será quase sempre de tipo restauração e reorganização, e não trutura social de um determinado país e uma representação
de tipo peculiar à fundação de novos Estados e- de novas estni- "dramática" das tentativas feitas através dos séculos para suscitar
turas nacionais e sociais (como no caso do Príncipe de Maquia- esta vontade e as razões dos sucessivos fracassos. Por que nao
vel, em que o aspecto de restauração era só um elemento houve, a monarquia absolutista na Itália no tempo de Maqum-
retórico, isto é, ligado ao conceito literário da Itália descendente vel? É necessário remontar ao Império Roma.no (»questao da
de Roma, que devia restaurar a ordem e a potência de Roma)^. língua, dos intelectuais, etc.), compreender a função das co
Será de tipo "defensivo", e não criador original, em que se su munas medievais, o significado do catolicismo, etc., deve-se,
põe que uma vontade coletiva já existente tenha-se enfraque enfim, fazer um bosquejo de toda a história italiana, sintético
mas exato. . .
cido, disseminado, sofrido um colapso perigoso e ameaçador
mas não decisivo e catastrófico que torne necessário concentrá- A razão dos sucessivos fracassos das tentativas de criar
uma vontade coletiva nacional-popular deve ser procurada na
1 Além do modelo exemplar dado pelas grandes monarquias absolu- existência de determinados grupos sociais que se formam a par-
tistas da França e da Espanha, Maquíavel foi levado à sua concepção
política da necessidade de um Estado unitário italiano pela evocação rece, se colocado exatamente no clima do Humanismo e do Renasci
do passado de Roma. Deve-se ressaltar, porém, que nem por isso Ma- mento. No Livro VII da Arte delia guerra lese: Esta provmcia (a
quiavel deve ser confundido com a tradição literária-retóríca. Inclusive Itália) parece ter nascido para ressuscitar as coisas mortas, como se
porque este elemento não é exclusivo e nem ao menos dominante, e viu pela poesia, pela pintura e pela escultura , porque então nao ne-
a necessidade de um grande Estado nacional não é deduzida dele. E cessitaria a virtude militar?", etc. Reagmpar as outras citações do
também porque o próprio apelo a Roma é menos abstrato do q\ie pa mesmo gênero para estabelecer o seu carater exato.
tir da dissolução da burguesia comunal, no caráter particular
ulterior da vontade coletiva nacional-popular no sentido de
de outros grupos que refletem a função internacional da Itália
como sede da Igreja e depositária do Sagrado Império Romano, alcançar uma forma superior e total de civilização moderna.
etc. Esta função e a posição conseqüente determinam uma Estes dois pontos fundamentais: formação de uma vonta
situação inte-ni?, que pode ser chamada "econômico-corporati- de coletiva nacional-popular, da qual o moderno Príncipe é ao
va", isto é, politicamente, a pior das formas de sociedade feudal, mesmo tempo o .organizador e a expressão ativa e atuante, e
reforma intelectual c moral, deveriam constituir a estrutura do
a forma menos progressista e mais estagnante. Faltou sempre,
e não poília constituir-se, uma força jacobina eficiente, exata trabalho. Os pontos programáticos concretos devem ser incor
mente a 'orça que nas outras nações suscitou e organizou a porados na primeira parte, isto é, deveriam, "dramaticamente",
vontade coletiva nacional-popular e fundou os Estados moder resultar do discurso, não ser uma fria e pedante exposição de
argumentos.
nos. Finalmente, existem as condições para esta vontade, ou
seja, qual é a relação atual entre estas condições e as forças Pode haver reforma cultural, elevação civil das camadas
que se opõem a ela? Tradicionalmente, as forças oponentes fo mais baixas da sociedade, sem uma precedente reforma econô
ram a aristocracia latifundiária e, em geral, o latifúndio no seu mica e uma modificação na posição social e no mundo econô
conjunto, com o seu traço característico italiano: uma "bur mico? Eis por que uma reforma intelectual e moral não pode
guesia rural" especial, herança de parasilismo legada aos tem deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica.
pos modernos pela ruína, como classe, da burguesia comunal E mais, o programa de reforma econômica é exatamente o mo
(as cem cidades, as cidades do silêncio). As condições positivas do concreto através do qual se apresenta toda reforma" intelec
devem ser localizadas na existência de grupos sociais urbanos tual e moral. O moderno Príncipe, desenvolvendo-se, subverte
convenientemente desenvolvidos no campo da produção indus todo o sistema de relações intelectuais e morais, na medida em
trial, que alcançaram um determinado nível de cultura histórico- que o seu desenvolvimento significa de fato que cada ato e con
política. A formação de uma vontade coletiva nacional-popular cebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso;
é impossível se as grandes massas dos camponeses cultivadores mas só na medida cm que tem como ponto de referência o
não irrompem simultaneamente na vida política. Maquiavel próprio moderno Príncipe e serve para acentuar o seu poder, ou
pretendia isto através da reforma da milícia, como os jacobinos contrastá-lo. O Príncipe toma o lugar, nas consciências, da divin
o fizeram na Revolução Francesa. Deve-se identificar nesta dade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicis-
compreensão um jacobinismo precoce de Maquiavel, o germe mo moderno e de uma laicização completa de toda a vida e de
(mais ou menos fecundo) da sua concepção da revolução na tôdas as relações de costume.
cional. Tuda a História, a partir de 1815, mostra o esforço das
classes tradicionais para impedir a formação de uma vontade
coletiva deste gênero, para manter o poder "econômico-corpo- A ciência da política. A inovação fundamental introduzida
rativo" num sistema internacional de equilíbrio passivo. pela filosofia da praxis na ciência da política e da História é a
Uma parte importante do moderno Príncipe deverá ser demonstração de que não existe uma "natureza humana" abstra
dedicada à questão de uma reforma intelectual e moral, isto é, ta, fixa e imutável (conceito que certamente deriva do pensa
à questão religiosa ou de uma concepção do mundo. Também mento religioso e da transcendência); mas que a natureza hu
neste campo encontramos na tradição ausência de jacobinismo mana é o conjunto das relações sociais historicamente determi
e medo do jacobinismo (a última expressão filosófica de tal nadas, isto é, um fato histórico comprovável, dentro de certos
medo é a atitude malthusiana de B. Croce em relação à reli limites, através dos métodos da filologia e da crítica. Portanto,
gião). O moderno Príncipe deve e não pode deixar de ser o a ciência política deve ser concebida no seu conteúdo concreto
propagandista e o organizador de uma reforma intelectual e (e também na sua formulação lógica) como um organismo em
moral, o que significa criar o terreno para um desenvolvimento desenvolvimento. Todavia, deve-se observar que a forma dada
por Maquiavel à questão da política (isto e, a afirmação implí-
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1

cita nps seus escritos de que a política é uma atividade autôno é verdadeira abstratamente. O próprio Maquiavel nota que as
ma, com seus princípios e leis diversos daqueles da moral e da coisas que ele escreve são aplicadas, e foram sempre aplicadas,
religião, proposição que tem um grande alcance filosófico, pois pelos maiores homens da História, Por isso, não parece que
implicitamente inova toda a concepção do mundo) é ainda hoje ele queira sugerir a quem já sabe, nem o seu estilo é aquele
discutida e contraditada, não conseguiu tomar-se "senso co de uma desinteressada atividade científica; nem se pode pensar
mum". Qual o significado disto? Apenas que a revolução inte que ele tenha chegado às suas teses sobre ciência política atra
lectual e moral, cujos elementos estão contidos in nuce no pen vés de especulações filosóficas, o que no caso desta particular
samento de Maquiavel, ainda não se efetivou, não se tornou matéria seria algo milagroso no seu tempo, já que, inclusive,
forma pública e manifesta da cultura nacional? Ou será que hoje ela encontra tanto contraste e oposição.
só tem um mero significado político atual, serve para indicar
apenas a separação existente entre governantes e governados, Pode-se, portanto, supor que Maquiavel tem em vista
para indicar que existem duas culturas; a dos governantes e a "quem não sabe", que ele pretende educar politicamente "quem
dos governados! e que a classe dirigente, como a Igreja, tem não sabe". Educação política não-negativa, dos que odeiam
uma atitude sua em relação aos simples, ditada pela necessi tiranos, como parecia entender Foscolo, mas positiva, de quem
dade de não afastar-se deles, de um lado, e, de outro, de man deve reconhecer como necessários determinados meios, mesmo
tê-los na convicção de que Maquiavel nada mais é do que uma se próprios dos tiranos, porque deseja determinados fins. Quem
aparição diabólica? x* • i nasceu na tradição dos homens de governo, absorvendo todo o
Coloca-se, assim, o problema do significado que Maquiavel complexo da educação do ambiente familiar, no qual predomi
teve no seu tempo e dos fins que ele se propunha escrevendo nam os interesses dinásticos ou patrimoniais, adquire quase que
os seus livros especialmente o Príncipe. A doutrina de Maquia automaticamente as características do político realista. Quem,
vel não era, no seu tempo, uma coisa puramente "livresca", um portanto, "não sabe"? A classe revolucionária da época, o
monopólio de pensadores isolados, nm livro secreto que circu a "povo" e a "nação" italiana, a democracia urbana que se ex
entre iniciados O estilo de Maquiavel nao e o de um tratadista prime através dos Savonarola e dos Pier Soderini e não dos
Strmático como os tinha a Idade Média e o Humanismo, abso Castruccio e dos Valentino. Pode-se deduzir que Maquiavel
lutamente; é estUo de homem de açao de quem q-r 'mpulsio- pretende persuadir estas forças da necessidade de ter um chefe
nor íi nrão- é estilo de "manifesto de partido. Certamente, a que saiba aquilo que quer e como obtê-lo, e de aceitá-lo com
"nterprSo
inierpreLdçáu "moralística"
iii*-» ^ dadaaicnima
por Foscolo
coisa, ee errada; todavia,
nao so teorizou entusiasmo, mesmo se as suas ações possam estar ou parecer
é verdade q"\Maqu.avel revela algum^^ em contradição com a ideologia difundida na época: a religião.
sobre o real. Mas, q rostuma-se dizer que as normas Esta posição poKtica de Maquiavel repete-se na filosofia da
tivo moralistico ou político? Costuma ^ mas nãn praxis. Repete-se a necessidade de ser "antimaquiavélico", de
de Maquiavel para a atividade política sao senvolvendo uma teoria e uma técnica políticas que possam ser
são ditas"' os grandes políticos ■— diz-se Ç vir às duas partes em luta, embora creia-se que elas termina
declamndo-se antimaquiavehcos, exa amen e
rão por servir especialmente à parte que "não sabia", porque
para poderem aplicar as suas normas santamente ■ nela é que se considera existir a força progressista da História.
sido Maquiavel pouco maquiavélico, um daqueles que Efetivamente, obtém-se de imediato um resultado: romper a
cem o jogo" e estultamente o ensinam enquanto ? ^ unidade baseada na ideologia tradicional, sem cuja ruptura a
lismo vulgar ensina a fazer o contrário? A afirmaçao força nova não poderia adquirir consciência da própria per
de que, sendo o maquiavelismo uma ciência, serve _ sonalidade independente. O maquiavelismo serviu para me
reacionários como aos democratas, como a arte da esgrim
ve aos nobres e aos bandoleiros, para defender-se e as^ssi y lhorar a técnica política tradicional dos grupos dirigentes con
e que neste sentido é que se deve entender o juízo de Fosco o, servadores, assim como a política da filosofia da praxis; isto

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e não "metafisicamente"? Crítica da posição de Croce, para o
não deve mascarar o seu caráter essencialmente revolucionário,
qual, no final da polêmica, a estrutura torna-se um "deus as-
que inclusive hoje é sentido e explica todo o antimaquiavelismo,
daquele dos jesuítas àquele pietisía de Paquale Villari. coso", um "número" em contraposição às "aparências" da su
perestrutura. "Aparências" em sentido metafórico e positivo.
Por que, "historicamente", e como linguagem, falou-se de
A política como ciência autônoma. A questão inicial que "aparências"?
deve ser colocada e resolvida num trabalho sobre Maquiavel é É interessante registrar como Croce, partindo desta con
a questão da política como ciência autônoma, isto é, do lugar cepção geral, extraiu a sua doutrina particular do erro e da
que a ciência política ocupa, ou deve ocupar, numa concepção origem prática do erro. Para Croce o erro tem origem numa
sistemática (coerente e conseqüente) do mundo, numa filosofia "paixão" imediata, de caráter individual ou de grupo; mas o
da praxis. que produzirá a "paixão" de alcance histórico mais amplo, a
O progresso proporcionado por Croce, a este propósito, aos paixão como "categoria"? A paixão-interesse imediato, que é
estudos sobre Maquiavel e sobre a ciência política, consiste pre- origem do "erro", é o momento denominado schmutzig-jüdisch
cipuamente (como em outros campos da atividade crítica cro- em Glosse al Feiierbach: mas como a paixão-interesse schmutzig-
ciana) na dissolução de uma série de problemas falsos, inexis jüdisch determina o erro imediato, assim a paixão do grupo
tentes ou mal formulados. Croce baseou-se na sua distinção dos social mais vasto determina o "erro" filosófico (intermédio o
momentos do espírito e na afirmação de um momento da prá erro-ideologia, que Croce trata em separado). O importante
tica, de um espírito prático, autônomo e independente, embora nesta série "egoísmo (erro imediato) — ideologia-filosofia" é o
ligado circularmente a toda a realidade pela dialética dos con termo comum "erro", ligado aos diversos graus de paixão, e
trários. Numa filosofia da praxis, a distinção certamente não que deve ser entendido não no significado moralístico ou dou
será entre os momentos do Espírito absoluto, mas entre os trinário, mas no sentido puramente "histórico" e dialético "da
graus da superestrutura, tratando-se, portanto, de estabelecer a quilo que é historicamente caduco e digno de cair", no sentido
posição dialética da atividade política (e da ciência correspon da "não-definitividade" de cada filosofia, da "moríe-vida , ser-
dente) como determinado grau superestrutural. Poder-se-á não-ser", isto é, do termo dialético a superar no desenvolvi
dizer, como primeiro aceno e aproximação, que a atividade po mento.
lítica é efetivamente o primeiro momento ou primeiro grau, o O termo "aparente", "aparência", significa exatamente isto,
momento em que a superestrutura está ainda na fase imediata e nada mais que isto, e se justifica contra o dogmatismo: é a
de mera afirmação voluntária, indistinta e elementar. afirmação da caducidade dc todo sistema ideológico, paralela
Em que sentido pode-se identificar a política e a História mente à afirmação de uma validez histórica de todo sistema, e
e, portanto, toda a vida e a política? Como, em vista disso, todo da necessidade dele. ("No terreno ideológico o hornem adquire
o sistema das superestruturas pode ser concebido como distinções consciência das relações sociais": dizer isto não é afirmar a
da política e, portanto, justifique a introdução do conceito de necessidade e a validez das "aparências"?)^
distinção numa filosofia da praxis? Mas, pode-se falar de dia A concepção de Croce da política-paixão exclui os partidos,
lética dos contrários? Como se pode entender o conceito de cír já que não se pode pensar numa "paixão" organizada e perma
culo entre os graus da superestrutura? Conceito de "bloco his nente: a paixão permanente é uma condição de ^rgasmo e de
tórico", isto é, unidade entre a natureza e o espírito (estrutura espasmo, que determina incapacidade de execução. Exclui os
e superestrutura), unidade dos contrários e dos distintos. partidos e exclui todo "plano" de ação concertado preventiva
Pode-se introduzir o critério de distinção também na es mente. Todavia, os partidos existem, e planos de ação são ela
trutura? Como se deverá entender a estrutura? Como no siste borados, aplicados e muitas vezes realizados em medida notá
ma das relações sociais será possível distinguir os elementos vel: há, portanto, um "vício" na concepção de Croce. Nem e
"técnica", "trabalho", "classe", etc., entendidos historicamente, preciso dizer que, se os partidos existem, isto não tem grande
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12
1
importância "teórica", já que no momento da ação o "partido" Ao lado dos méritos do moderno "maquiavelismo", deri
que atua não é o mesmo "partido" que existia antes. Em parte, vado de Croce, deve-se assinalar também os "exageros" e os
isto pode ser verdadeiro, todavia entre os dois "partidos" as desvios a que deu lugar. Criou-se o hábito de considerar muito
coincidências são tantas que, na realidade, pode-se dizer que Maquiavel como o "político em geral", como o "cientista da
se trata do mesmo organismo. política", atual em todos os tempos.
Mas a concepção, para ser válida, deveria aplicar-se tam É necessário considerar mais Maquiavel como expressão
bém à "guerra" e, portanto, explicar a existência dos exércitos necessária do seu tempo c estreitamente ligado às condições c
permanentes, das academias militares, dos corpos de oficiais. às exigências da sua época, que resultam: 1) das lutas internas
Também o ato da guerra é "paixão", a mais intensa e febril, é da república florentina e da estrutura particular do Estado que
um momento da vida política, é a continuação, sob outras for não sabia libertar-se dos resíduos comunais-municipais, isto é,
mas, de uma determinada política; é necessário, pois, explicar de uma forma estorvante de feudalismo; 2) das lutas entre os
como a "paixão" pode-se tornar "dever" moral, e não dever Estados italianos por um equilíbrio no âmbito italiano, que era
de moral política, mas de ética.
dificultado pela existência do Papado e dos outros resíduos
Sobre os "planos políticos" ligados aos partidos como for feudais, municipalistas, da forma estatal urbana e não territo
mações permanentes, lembrar aquilo que Moltke dizia dos pla rial; 3) das lutas dos Estados italianos mais ou menos solidá
nos militares: que eles não podem ser elaborados e fixados rios por um equilíbrio europeu, ou seja, das contradições entre
precedentemente em todos os seus detalhes, mas só no seu nú as necessidades de um equilíbrio interno italiano e as exigên
cleo e rasgo central, porque as particularidades da ação depen cias dos Estados europeus em luta pela hegemonia.
dem, em certa medida, dos movimentos do adversário. A paixão Atua sobre Maquiavel o exemplo da França e da Espanha,
manifesta-se exatamente nos particulares, mas não parece que que alcançaram uma poderosa unidade estatal territorial; Ma
o princípio de Moltke seja tal que justifique a concepção de quiavel faz uma "comparação elítica" (para usar a expressão
Croce. Em qualquer caso, restaria por explicar o gênero de crociana) e deduz as regras para um Estado forte em geral e
"paixão" do Estado-Maior que elaborou o plano fria e "de- italiano em particular. Maquiavel é inteiramente um homem
sapaixonadamente". da sua época; e a sua ciência política representa a filosofia do
Se o conceito crociano da paixão como momento da polí seu tempo, que tende à organização das monarquias nacidnais
tica choca-se com a dificuldade de explicar e justificar as for
mações políticas permanentes, como os partidos e mais ainda
absolutistas, a forma política que permite e facilita um desen
volvimento das, forças produtivas burguesas. Pode-se descobrir
os exércitos nacionais e os Estados-Maiores, uma vez que não in nuce em Maquiavel a separação dos poderes e o parlamen
se pode conceber uma paixão organizada permanentemente sem tarismo (o regime representativo): a sua ferocidade dirige-se
que ela se torne racionalidade e reflexão ponderada, isto é, não contra os resíduos do mundo feudal, não contra as classes pro
mais paixão, a solução só pode ser encontrada na identidade gressistas. O Príncipe deve acabar com a anarquia feudal; e isto
entre política e economia. A política é ação permanente e dá é o que faz Valentino na Romanha, apoiando-se nas classes
origem a organizações permanentes, na medida em que efetiva produtoras, mercadores e camponeses. Em virtude do caráter
mente se identifica com a economia. Mas esta também tem sua militar-ditatorial do chefe do Estado, como se requer num pe
distinção, e por isso pode-se falar'separadamente de, economia ríodo de luta para a fundação e a consolidação de um novo
e de política e pode-se falar da "paixão política" como um poder, a indicação de classe contida na Arte. delia guerra deve
impulso imediato à ação, que nasce no terreno "permanente e ser entendida também para a estrutura do Estado em geral: se
orgânico" da vida econômica, mas supera-o, fazendo entrar em as classes urbanas pretendem terminar com a desordem interna
jogo sentimentos e aspirações em cuja atmosfera incandescente e a anarquia externa devem apoiar-se nos camponeses como
o próprio cálculo da vida humana individual obedece a leis massa, constituindo uma força armada segura e fiel de tipo
diversas daquelas do proveito individual, etc. inteiramente diferente daquelas de ocasião. Pode-se dizer que a
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ponto de vista do interesse nacional, de um equilíbrio interno
concepção essencialmente política é de tal forma dominante em das classes, de modo que a hegemonia pertença ao Terceiro
Maquiavel que o leva a cometer erros de caráter militar: ele Estado através do monarca. Parece-me evidente que classificar
pensa especialmente na infantaria, cujas massas podem ser ar Bodin entre os "antimaquiavélicos" seja questão absolutamente
roladas com uma ação política e por isso desconhece o signifi cxtrínseca e superficial. Bodin funda a ciência política na
cado da artilharia.
Russo (em Prolegomeni a Mcichiavelli) observa justamen
França num terreno muito mais avançado e complexo do que
aquele oferecido pela Itália a Maquiavel. Para Bodin, não sc
te que a Arte delia guerra integra o Príncipe, mas não extrai trata de fundar o Estado unitário-territorial (nacional), isto é,
todas as conclusões da sua observação. Também na Arte delia
guerra Maquiavel deve ser considerado como um político que retornar à época de Luís XI, mas de equilibrar as forças
precisa ocupar-se da arte militar; o seu unilateralismo (com sociais cm luta dentro desse Estado já forte e enraizado; não
outras "curiosidades", como a teoria da falange, que dão lugar
é o momento da força que interessa a Bodin, mas o do consen
so. A monarquia absolutista tende a se desenvolver com Bodin:
a fáceis chalaças como aquela mais difundida extraída de Ban- o Terceiro Estado tem tal consciência da sua força e da sua
dello) depende do fato de que a questão técnico-militar não
constitui o centro do seu interesse e do seu pensamento. Ele dignidade, sabe tão bem que a sorte da monarquia absoluta
trata dela apenas na medida em que é necessária para a sua
está ligada à sua própria sorte e ao seu próprio desenvolvimen
to, que impõe condições para o seu consentimento, apresenta
construção política. Mas não só a Arte delia guerra deve ser
ligada ao Príncipe; também Jstorie iiorentine, que deve efetiva exigências, tende a limitar o absolutismo. Na França, Maquia
mente servir para uma análise das condições reais italianas e vel já servia à reação, pois podia ser utilizado para justihcar
européias das quais derivam as exigências imediatas contidas que se mantivesse o mundo no "berço" (segundo a expressão
no Príncipe.
de Bertrando Spavcnta); portanto, era necessário ser "polemi
camente" antimaquiavélico.
De uma concepção de Maquiavel mais aderente aos tem
pos deriva, subordinadamente, uma avaliação mais historicista Deve-se notar que na Itália estudada por Maquiavel não
dos chamados "antimaquiavélicos", ou, pelo menos, dos mais
existiam instituições representativas já desenvolvidas e signifi
cativas para a vida nacional como as dos Estados Gerais na
"ingênuos" entre eles. Na realidade, não se trata de antima França. Quando, modernamente, se observa, de modo tenden
quiavélicos, mas de políticos que exprimem exigências da sua cioso, que as instituições parlamentares na Itália foram impor
época ou dè condições diversas daquelas que influíam sobre tadas do exterior, não se leva cm conta que isto reflete apenas
Maquiavel; a forma polêmica é puro acidente literário. O exem uma condição de atraso e estagnação da histeria política e social
plo típico destes "antimaquiavélicos" parece-me Jean Bodin italiana de 1 500 a 1 700; condição que se devia em grande
(1530-1596), que foi deputado dos Estados Gerais de Blois, parte à predominância das relações internacionais sobre as re
em 1576, e levou o Terceiro Estado a recusar os subsídios so lações internas, paralisadas e entorpecidas. O fato de que a
licitados para a guerra civil.^
estrutura estatal italiana, em virtude da predominância estran
Durante as guerras civis na França, Bodin é o expoente do geira, tenha permanecido na fase scmifeudal de um objeto de
terceiro partido, denominado dos "políticos", que defende o suzeraineté estrangeira, seria talvez "originalidade" nacional
destruída pela importação das formas parlamentares que, ao
1 Obras de Bodin: Meihodus ad facilem historiarum cognitionem
(1566), onde assinala a influência do clima sobre a forma dos Estados, contrário dão uma forma ao processo de libertação nacional?
acena para uma idéia de progresso, etc.; Republique (1576), onde E à passagem ao Estado territorial moderno (independente c
exprime as opiniões do Terceiro Estado sobre a monarquia absoluta e nacional)? No mais, especialmente no Sul e na Sicília, existiram
as su;ís relações com o povo; Heptaplomeres (inédito até a época mo instituições representativas, mas com caráter muito mais restrito
derna), em que examina todas as religiões e justifica-as como expres do que na França, em virtude do pequeno desenvolvimento do
sões diversas das religiões naturais, as únicas razoáveis, e todas igual
mente dignas de respeito e de tolerância. Terceiro Estado nestas regiões. Isto levava a que os Parlamen-
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tlcas baseiam-sc neste fato primordial, irreduzível (em certas
tos fossem utilizados como instrumentos para manter a anar
condições gerais). As origens deste falo constituem um pro
quia dos barões contra as tentativas inovadoras da monarquia, blema cm si, que deverá ser estudado em si (pelo menos podcr-
a qual devia apoiar-se nos "maltrapilhos", na ausência de uma sc-á c devcr-sc-á estudar como atenuar c eliminar o fato, modi
burguesia.^ É compreensível que o programa e a tendência a
ligar a cidade ao campo pudessem ter apenas uma expressão ficando certas condições identificáveis como atuantes neste sen
militar, sabendo-se que o jacobinismo francês seria inexplicável tido), mas permanece o fato de que existem dirigentes c dirigi
sem ò pressuposto da cultura fisiocrática, com a sua demons dos, governantes o governados. Em virtude disto, resta ver a
tração da importância econômica e cultural do agricultor. As possibilidade de como dirigir do modo mais eficaz (dados cer
teorias econômicas de Maquiavel foram estudadas por Gino tos fins), de como preparar da melhor maneira os dirigentes
Árias (em Annali d'Economia da Universidade Bocconi), mas (o nisto precisamente consiste a primeira seção da ciência e
é preciso verificar se Maquiavel teve teorias econômicas. Tra arte políticas), e como, de outro lado, identificar as linhas de
ta-^ de ver se a linguagem essencialmente política de Maquia menor resistência ou racionais para alcançar a obediência dos
vel pode ser traduzida em termos econômicos, e a qual sistema dirigidos ou governados. Ao formar-se o dirigente, é funda
econômico pode ser reduzida. Ver se Maquiavel, que viveu no mental a premissa: pretende-se que existam sempre governados
neríodo mercantilista, politicamente precedeu os tempos e an c governantes, ou pretende-se criar as condições em que a
tecipou algumas exigências que posteriormente encontraram sua necessidade dessa divisão desapareça? Isto é, parte-se da pre
exoressão nos fisiocratas.^ . . missa da divisão perpétua do gênero humano, ou crê-se que^ela
Elementos de poUlica. Deve-se dizer que os primeiros ele é apenas um fato histórico, correspondente a certas condições?
mentos a serem esquecidos foram exatamente os primeiros ele Entretanto, deve-se ver claramente que a divisão entre gover
mento as coisas mais elementares; estas, por outro lado re- nados e governantes, embora, em última análise, refira-se a uma
petMo-se infinitas_ vezes, transformam-se nos pilares da política divisão de grupos sociais, todavia existe, em virtude da forma
como as coisas são, também no seio do mesmo grupo, inclusive
' eSntffa'existência real de governados e socialmente homogêneo; pode-se dizer, em certo sentido, que
esta divisão é uma criação da divisão do trabalho, é um fato
governantes, dirigentes e dirigidos. Toda a ciência e arte poli- técnico. Especulam sobre esta coexistência de motivos tpuos
X Recordar o estudo de — os que vêem em tudo apenas "técnica", necessidade tecmca ,
etc., para não propor-se o problema fundamental.
"ar"co™~Ua'julga Bodin em Dado que no mesmo grupo existe a divisão entre gover
como o problema do /"«"''Scídr em W26 os outros ^em'1927!
primeiros tres artigos foram pubncaaos nantes e governados, é necessário fixar alguns priiicípiospnder-
rogáveis. Exatamente neste terreno ocorrem os ^ erros mais
7 Roufseau teria sido possível sem a cultura fisiocrática? Não me pa- graves, isto é, manifestam-se as incapacidades mais criminosas,
íece justo afímar que os fisiocratas tenham representado ineros m e- mais difíceis de endireitar. Crê-se que, estabelecido o principio
resses agrícolas e que só com a economia classica afinnem-se os inte- do mesmo grupo, a obediência deva ser automática, deva ocor
rSsfs
resses dT
uu Spítalismo urbano.rpcríme
Os fisiocratas representam
das coroorações a ruptura
e constituem uma
rer sem necessidade não só de uma demonstração de necessi
com o mercantilismo e com o regime aas cuipu
fase para se chegar à economia classica. Mas, patamente por isso, pa dade" e racionalidade, mas seja indiscutível (alguns pensam, e
rece-me que eles representam uma sociedade isto é o pior, que a obediência "virá" sem ser solicitada, sem
plexa do que aquela contra a qual combatem o- itrpm pcf' l? que seja indicado o caminho a seguir). Assim, é difícil extirpar
resulta imediatamente das suas afirmações. A sua linguagem esta bas o cadornismo dos dirigentes, isto é, a convicção de que uma
tante ligada à época e exprime a contradição imediata entre cidade e coisa será feita porque o dirigente considera justo e racional
campo, mas faz prever um alargamento do capitalismo na direção da
agricultura. A fórmula do "deixar fazer, deixar passar , isto e, da li que ela seja feita. Se não é feita, "a culpa" e lançada sobre
berdade industrial e de iniciativa, não está certamente ligada a inte quem "deveria fazê-la", etc. Desse modo, torna-se difícil extir-
resses agrários.
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par o hábito criminoso do desleixo em evitar os sacrifícios inú pressupõe cada ato como o momento de um processo complexo,
teis. Entretanto, o senso comum mostra que a maior parte
já iniciado e que continuará. A responsabilidade deste processo,
dos desastres coletivos (políticos) ocorrem por não ter-se pro de ser ator deste processo, a solidariedade para com forças
curado evitar o sacrifício inútil, ou porque se mostrou não materialmente "ignotas", mas que apesar disso revelam-se ope-
levar em conta o sacrifício dos outros, jogando-se com as-suas
rantcs e ativas e que são levadas em conta como se fossem
vidas. Todos já ouviram oficiais que estiveram nas trincheiras
contar como realmente os soldados arriscavam a vida quando
"materiais" e presentes corporalmente, é o que se denomina
exatamente, em certos casos, "espírito estatal". É evidente que
era mais necessário. Mas como, ao contrário, se rebelavam tal consciência do "tempo" deve ser concreta, e não abstrata,
quando se sentiam abandonados. Por exemplo: uma companhia em certo sentido, não deve ultrapassar determinados limites.
era capaz de jejuar muitos dias quando sabia que os vívcrcs
não podiam chegar por motivo de força maior; mas amotinava-
Admitamos que os limites mais estreitos sejam uma geração
precedente e uma geração futura, o que não é pouco, pois as
se se não recebesse apenas uma refeição por desleixo, buro-
gerações serão avaliadas, não a contar de trinta anos antes e
cratismo, etc.
trinta anos depois de hoje, mas orgânicamente, em sentido his
E5íe princípio estende-se a todas as ações que exigem tórico, o que em relação ao passado, pelo menos, é fácil de
sacrifícios. Eis por que antes de tudo é sempre necessário, compreender. Sentimo-nos solidários com os homens que hoje
depois de qualquer revés, examinar as responsabilidades dos são velhíssimos e que para nós representam o "passado" que
dirigentes, e isto num sentido restrito (por exemplo: uma frente ainda vive entre nós, que deve ser conhecido e examinado, pois
é constituída de muitas seções, e cada seção tem os seus diri é ele um dos elementos do presente e das premissas do futuro.;
gentes. É possível que os responsáveis por uma derrota sejam e com as crianças, com as gerações que estão nascendo e cres
os dirigentes de uma seção, mas trata-se de mais e de menos, cendo, pelas quais somos responsáveis. (Ê outro o "culto" da
porém jamais de exclusão de responsabilidades para qualquer "tradição", que tem um valor tendencioso, implica uma opção
um). e um objetivo determinado, baseia-se numa ideologia.) Mas,
Estabelecido o princípio de que existem dirigidos e diri se se pode afirmar que um "espírito estatal" assim compreen
gentes, governantes e governados, verifica-se que os "partidos" dido está em tudo, é necessário lutar permanentemente contra
são até agora o modo mais adequado para aperfeiçoar os diri deformações ou desvios que nele se manifestam.
gentes e a capacidade de direção (os partidos podem-se apre O "gesto pelo gesto", a luta pela luta, etc., e especialmente
sentar sob os nomes mais diversos, mesmo sob o nome de o individualismo estreito e mesquinho, que não passa de uma
antipartido e de "negação dos partidos"; na realidade, até os satisfação caprichosa de impulsos momentâneos, etc. (Na rea
chamados "individualistas" são homens de partido, só que pre lidade, o ponto é sempre aquele do "apoliticismo" italiano, que
tenderiam ser "chefes de partido" pela graça de Deus ou pela
imbecilidade dos que os seguem).
assume estas várias formas pitorescas e bizarras.) O individua
lismo é apenas apoliticismo animalesco, o sectarismo é "apoli
Desenvolvimento do conceito geral contido na expressão ticismo". Efetivamente, se se observar bem, o sectarismo é uma
"espírito estatal". Esta expressão tem um significado bastante forma de "clientela" pessoal na medida em que está ausente o
preciso, historicamente determinado. Mas, surge o problema:
existe algo semelhante ao que se denomina "espírito estatal"
espírito de partido, elemento fundamental do "espírito estatal".
num movimento sério, que não seja n expressão arbitrária de
Demonstrar que o espírito de partido é o elemento fundamental
individualismos mais ou menos justificados? Contudo, o "espírito do espírito estatal é um dos argumentos mais elevados a serem
estatal" pressupõe a continuidade, tanto no que se refere ao sustentados, e da maior importância; vice-versa, o "individua
passado, à tradição, como no que se refere ao futuro. Isto é: lismo" é um elemento animalesco, "apreciado pelos forasteiros ,
como os atos dos habitantes de um jardim zoologico.
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o partido político. Afirmou-se que o protagonista do novo a nenhuma das frações, mas opera como se fosse uma força
Príncipe não poderia ser, na época moderna, um herói pessoal, dirigente superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal
mas o partido político. Isto é: sempre e nas diferentes relações pelo público. Esta função pode ser estudada com maior pre
internas das diversas nações, aquele determinado partido que cisão se se parte do ponto de vista de que um jornal (ou um
pretende (e está racional e historicamente destinado a este fim) grupo de jornais), uma revista (ou um grupo de revistas), são
fundar um novo tipo de Estado. também eles "partidos", "frações de partido" ou "funções de
B necessário observar como nos regimes totalitários a fun um determinado partido". Veja-se a função do Times na In
ção tradicional do instituto da Coroa é, na realidade, absorvida glaterra, a que teve o Corriere delia Sera na Itália, e também
por um determinado partido, que é totalitário exatamente por a função da chamada "imprensa de informação", supostamente
que assume tal função. Embora cada partido seja a expressão "apolítica", e até a função da imprensa esportiva e da imprensa
de um grupo social e de um só grupo social, ocorre que, em técnica. De resto, o fenômeno apresenta aspectos interes
determinadas condições, determinados partidos representam um santes nos países onde existe um partido único e totali
grupo social na medida em que exercem uma função de equilí tário de governo; pois tal partido não desempenha mais
brio e de arbitragem entre os interesses do seu grupo e os outros funções simplesmente políticas, mas só técnicas, de propaganda,
grupos, e na medida em que buscam fazer com que o desenvol de polícia, de influência moral e cultural. A função política é
vimento do grupo representado se processe com o consentimen indireta, pois se não existem outros partidos legais, existem
to e com a ajuda dos grupos aliados, e muitas vezes dos grupos sempre outros partidos de fato e tendências legalmente incoer-
decididamente inimigos. A fórmula constitucional do rei ou do cíveis, contra os quais a polêmica e a luta é travada como se
presidente da república que "reina mas não governa" é a fór num jogo de cabra-cega. De qualquer modo, é certo que em
mula jurídica que exprime esta função de arbitragem e a preo tais partidos as funções culturais predominam, dando lugar a
cupação dos partidos constitucionais de não "descobrir" a coroa uma linguagem política de jargão: isto é, as questões políticas
ou presidente; as fórmulas sobre a não-responsabilidade para os revestem-se de formas culturais e como tal se tornam insolúveis.
atos governamentais do chefe de Estado, mas sobre a respon Mas um partido tradicional tem um caráter essencial "indi
sabilidade ministerial, são a casuística do princípio geral de reto": apresenta-se explicitamente como puramente "educativo"
tutela da concepção da unidade estatal e do consentimento dos (lucus, etc.), moralista, de cultura (sic). B o movimento li
governados à ação estatal, qualquer que seja o pessoal imediato bertário. Inclusive a chamada ação direta (terrorista) é con
do governo e o seu partido. cebida como "propaganda" através do exemplo. A partir daí
No caso do partido totalitário, estas fórmulas perdem o é possível ainda reforçar a opinião de que o movimento liber
seu significado, levando à rainimização do papel das instituições tário não é autônomo, mas vive à margem dos outros partidos,
que funcionavam segundo as referidas fórmulas; mas a própria "para educá-los". Pode-se falar de um "libcrtarismo" inerente
função é incorporada pelo partido, que exaltará o conceito a cada partido orgânico. (O que são os "libertários intelectuais
abstrato de "Estado" e procurará de várias maneiras dar a im ou cerebrais" se não um aspecto desse "marginalismo" em rela
pressão de que a função de "força imparcial" continua ativa e ção aos grandes partidos dos grupos sociais dominantes?) A
eficaz. própria "seita dos economistas" era um aspecto histórico deste
Será necessária a ação política (no sentido estrito) para fenômeno.
que se possa falar de "partido político"? Observa-se que no Portanto, apresentam-se duas formas de "partido" que,
mimdo moderno, em muitos países, os partidos orgânicos e como tal, ao que parece, fazem abstração da ação política ime
fundamentais se dividiram, por necessidade de luta ou por qual diata: o partido constituído por uma elite de homens de cultura,
quer outra razão, em frações que assumiram o nome de "parti que têm a função de dirigir do ponto de vista da cultura, da
do" e, inclusive, de partido independente. Por isso, muitas ve ideologia geral, um grande movimento de partidos afins (na rea
zes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico não pertence lidade, frações de um mesmo partido orgânico); c, no período

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mais recente, o partido de não-êlite, mas de massas, que como partido terá maior ou menor significado e peso na medida em
massas não têm outra função política que a de uma fidelidade que a sua atividade particular pese mais ou menos na determi
genérica, de tipo militar, a um centro político visível ou invisí nação da história de um país.
vel (freqüentemente o centro visível é o mecanismo de coman Dessa forma, chegamos à conclusão de que do modo de
do de forças que não desejam mostrar-se a plena luz, mas ape escrever a história de um partido resulta o conceito que se tem
nas operar indiretamente por interposta pessoa e por "inter daquilo que é e deva ser um partido. O sectário exaltará os
posta ideologia"). A massa é simplesmente de "manobra" e é pequenos fatos internos, que terão para ele um significado eso
"conquistada" com pregações morais, estímulos sentimentais, térico, impregnando-o de um entusiasmo místico; o historiador,
mitos messiânicos de expectativa de idades fabulosas, nas quais mesmo • dando a cada coisa a importância que tem no quadro
todas as contradições e misérias do presente serão automatica geral, acentuará sobretudo a eficiência real do partido, a sua
mente resolvidas e sanadas. força determinante, positiva e negativa, a sua contribuição para
Para se escrever a história de um partido político, é neces criar um acontecimento e também para impedir que outros
sário enfrentar toda uma série de problemas muito menos sim acontecimentos se verifiquem.
ples do que pensa, por exemplo, Roberto Michels, considerado
um especialista no assunto. O que é a história de um partido? O desejo de saber exatamente quando um partido se for
<5prá a mera narração da vida interna de uma organização polí mou, isto é, quando assumiu uma missão precisa e permanente,
tica^ Como Lce, os primeiros grupos que a constituem, as dá lugar a muitas discussões e freqüentemente gera também uma
forma de bazófia que não é menos ridícula e perigosa do que a
polêmicas ideológicas através das quais se elabora o seu pro "bazófia das nações", à qual Vico se refere. Na verdade, pode-
grama e a sua concepção do mundo e da vida. Tratar-se-ia, se dizer que um partido jamais se completa e se forma, no sen
Sste caso, da história de grupos intelectuais restritos, e algumas tido de que cada desenvolvimento cria novas missões e encargos
vezes da biografia política de um indivíduo. Logo, a moldura e no sentido de que, para determinados partidos, é verdadeiro
do quadro deverá ser mais vasta e compreensiva. o paradoxo de que eles só se completam e se formam quando
Dever-se-á escrever a história de uma determinada massa
deixam de existir, isto é, quando a sua existência se tornou
de homens que seguiu os promotores, amparou-os com a sua historicamente inútil. Assim, como cada partido não é mais
confiança, com a sua lealdade, com a sua disciplina, ou que os que uma nomenclatura de classe, é evidente que, para o partido
criticou "realisticamente", dispersando-se ou permanecendo
passiva diante de algumas iniciativas. Mas, sera esta massa cons- que se propõe anular a divisão em classes, a sua perfeição e
tuída apenas pelos adeptos do partido? Sera suficiente acompa acabamento consiste em não existir mais, porque já não existem
nhar os congressos, as votações, etc., isto e, todo o conjunto classes e, portanto, a sua expressão. Mas, no caso presente, re-
de atividades e de modos de existir através dos quais uma massa ferimo-nos a um momento particular deste processo de desen
de partido manifesta a sua vontade? Evidentemente, sera neces volvimento: ao momento posterior àquele em que um fato pode
sário levar em conta o grupo social do qual o partido e expressão existir e pode não existir, no sentido de que a necessidade da
e setor mais avançado. Logo, a historia de um partido não po sua existência ainda não se tornou "peremptória", mas depende
derá deixar de ser a história de um determinado grupo social. em "grande parte" da existência de pessoas de extraordinário
Mas este grupo não é isolado; tem amigos, afins, adversários, poder volitivo e de extraordinária vontade.
inimigos. Só do quadro complexo de todo o.conjunto social e Em que momento um partido torna-se historicamente "ne
estatal (e freqüentemente com interferências internacionais) re cessário"? No momento em que as condições do seu "triunfo",
sultará a história de um determinado partido. Assim, pode-sò da sua infalível transformação em Estado estão, pelo menos,
dizer que escrever a história de um partido significa exatamente em vias de formação e levam a prever nórmalmente o seu de
escrever a história geral de um pais, de um ponto ^ de vista senvolvimento ulterior. Mas quando é'possível dizer, cm tais
monográfico, destacando um seu aspecto característico. Um condições, que um partido não pode ser destruído por meios

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normais? Para responder a isto é necessário desenvolver um segundo elemento não existe, todo raciocínio é vazio), mesmo
raciocínio. Para que um partido exista é obrigatória a confluên dispersas, os outros dois inevitavelmente devem-se formar; o
cia de três elementos fundamentais (três grupos de elementos): primeiro, que obrigatoriamente forma o terceiro como continua
1. Um elemento difuso, de homens comuns, médios, cuja ção dele e seu meio de expressão.
participação é oferecida pela disciplina e pela fidelidade, não Para que isto ocorra ê preciso que se tenha criado a con
pelo espírito criador e altamente organ zativo. Sem eles o par vicção férrea de que uma determinada solução dos problemas
tido não existiria, é verdade; mas também é verdade que o par vitais torna-se necessária. Sem esta convicção não se formará
tido também não existiria "somente" com eles. Eles constituem o segundo elemento, cuja destruição é mais fácil em virtude do
uma força na medida em que existe algo que os centraliza, or seu número escasso; mas é necessário que este segundo elemen
ganiza e disciplina; mas na ausência dessa força eles se disper to, se destruído, deixe como herança um fermento a partir do
sariam e anulariam numa poeira impotente. Não se nega que qual volte a se formar. B este fermento subsistirá melhor, e
cada um desses elementos pode-se transformar numa das forças ainda melhor se formará, no primeiro e no terceiro elementos,
de coesão; mas falamos deles exatamente no momento em que que se homogenizam mais com o segundo. Em virtude disso,
não o são e não estão em condições de sê-lo, e se o são é só a atividade do segundo elemento para constituir este elemento
num círculo restrito, politicamente ineficiente e inconseqüente. é fundamental. O critério para se julgar este segundo elemento
O elemento de coesão principal, que centraliza no deve ser procurado: 1) naquilo que realmente faz; 2) naquilo
campo nacional, que torna eficiente e poderoso um conjunto de que prepara na hipótese da sua destruição. É difícil dizer qual
forças que, abandonadas a si mesmas, representariam zero ou entre os dois fatos é o mais importante. Já que na luta deve-se
pouco mais; este elemento é dotado de uma força altamente sempre prever a derrota, a preparação dos próprios sucessores
coesiva, centralizadora e disciplinadora e, também, talvez por é um elemento tão importante quanto tudo o que se faz para
isto, inventiva (se se entende "inventiva" em certo sentido, se vencer.
gundo determinadas linhas de força, determinadas perspectivas, A propósito da "bazófia" do partido, pode-se dizer que
e também determinadas premissas). É verdade que, só, este ela é pior do que a "bazófia das nações", à qual Vico se refere.
elemento não formaria o partido, embora servisse para formá-lo Por quê? Porque uma nação não pode não existir, e no fato
mais do que o primeiro elemento considerado. Fala-se de ca de que ela existe é sempre possível, mesmo recorrendo à boa
pitães sem exército, mas, na realidade, é mais fácil formar um vontade e solicitando os textos, achar que a existência e plena
exército do que capitães. Tanto isto é verdade que um exército de destino e de significação. Um partido, ao contrario, não
já existente é destruído se faltam os capitães, enquanto a exis pode existir por força própria. Jamais devemos ignorar que, na
tência de um grupo de capitães, unidos, de acordo entre eles, luta entre as nações, cada uma delas tem interesse em que a
com objetivos comuns, não demora a formar um exército, inclu outra se enfraqueça através das lutas internas e que os partidos
sive onde ele não existe.
são exatamente os elementos das lutas internas. Portanto, no que
3. Um elemento médio, que articule o primeiro com o se refere aos partidos é sempre possível perguntar se eles exis
segundo elemento, colocando-os em contato não só "físico", tem por força própria, como necessidade intrínseca, ou se exis
mas moral é intelectual. Na realidade, para cada partido exis tem apenas em virtude de interesses outros (efetivamente, nas
tem "proporções definidas" entre estes elementos, e o máximo polêmicas, este ponto jamais é esquecido; ao contrario, e rnoti-
de eficiência é alcançado quando tais "proporções definidas" vo de insistência, especialmente quando a resposta não e dúbia,
são realizadas. o que significa que é levado em conta e suscita duvidas). £
Dadas estas considerações, pode-se dizer que um partido claro que quem se deixasse torturar por essa dúvida seria um
não pode ser destruído por meios normais quando, existindo tolo. Politicamente, a questão só tem um relevo momentâneo.
necessariamente o segundo elemento, cujo nascimento está liga Na história do chamado princípio de nacionalidade, as inter
do à existência das condições materiais objetivas (e, se este venções estrangeiras a favor dos partidos nacionais que pertur-
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bavam a ordem interna dos Estados antagonistas são numero cionária: progressista quando tende a manter na órbita da lega
sas, tanto que quando se fala, por exemplo, da políticá "orien lidade as forças reacionárias alijadas do poder e a elevar ao
tal" de Cavour, pergunta-se se se tratava de uma "política", nível da nova legalidade as massas atrasadas. É reacionária
isto é, de uma linha de ação permanente, ou de um estratage quando tende a comprimir as forças vivas da História e a man
ma momentâneo para enfraquecer a Áustria, tendo em vista ter uma legalidade ultrapassada, anti-histórica, tornada extrín
1859 e 1866. Assim, nos movimentos mazinianos de 1870 seca. De resto, o funcionamento de um determinado partido
(exemplo, o fato Barsanti) vê-se. a intervenção de Bismarck fornece critérios discriminantes: quando o partido é progressista
que, em virtude da guerra com a França e do perigo de uma funciona "democraticamente" (no sentido de um centralismo
aliança ítalo-francesa, pensava enfraquecer a Itália com con democrático); quando o partido é reacionário funciona "buro-
flitos internos. Também nos acontecimentos de 1914, alguns craticamente" (no sentido de um centralismo burocrático). No
vêem a intervenção do Estado-Maior austríaco, preocupado com segundo caso, o partido é puro executor, não deliberante: então
a guerra que estava para vir. Como se vê, os casos são nu é tecnicamente um órgão de polícia, e o seu nome de "partido
merosos, e é necessário ter idéias claras a respeito. Admitindo- político" é uma pura metáfora de caráter mitológico.
se que, quando se faz qualquer coisa, sempre se faz o jogo de
alguém, o importante é procurar de todos os modos fazer bem
o próprio jogo, isto é, vencer completamente. De qualquer for Industriais e agricultores. Têm os grandes industriais um
ma, é necessário desprezar a "bazófia" do partido e substituí-la partido político permanente próprio? Na minha opinião, a res
por fatos concretos. Quem substitui os fatos concretos pela posta deve ser negativa. Os grandes industriais utilizam alter-
bazófia, ou faz a política da bazófia, deve ser indubitavelmente nadamente todos os partidos existentes, mas não têm um par
suspeito de pouca seriedade. Não é necessário acrescentar que, tido próprio. Por isso eles não são absolutamente "agnósticos"
no que se refere aos partidos, é preciso evitar também a aparên ou "apolíticos": o seu interesse é um equilíbrio determinado,
cia "justificada" de que se esteja fazendo o jogo de alguém, que obtêm exatamente reforçando com os seus meios, altema-
especialmente se este alguém é um Estado estrangeiro, se de damente, este ou aquele partido do tabuleiro político (à exce
pois ainda se especular sobre isso, ninguém pode evitá-lo. ção, entenda-se, do único partido antagonista, cujo reforçamento
É difícil afirmar que üm partido político (dos grupos do não pode ser ajudado nem mesmo por manobra tática). En
minantes, e também de grupos subalternos) não exerce funções tretanto, se é verdade que isto ocorre na vida "normal", nos
de polícia, isto é, de tutela de uma determinada ordem j^litica casos extremos, que afinal são aqueles que contam (como a
e legal. Se isto fosse demonstrado taxativamente, a questão de guerra na vida nacional), o partido dos industriais é o mesmo
veria ser colocada em outros termos i sobre os modos e as dire dos agricultores, os quais, ao contrário, têm um partido perma
ções através dos quais se exerce essa função. O sentido é re nente. Pode-se exemplificar esta nota com a Inglaterra, onde
pressivo ou difusivo, isto é, reacionário ou progressista? Um o Partido Conservador absorveu o Partido Liberal, tradicional
determinado partido exerce a sua função de policia para con mente considerado como o partido dos industriais.
servar uma ordem externa, extrínseca, cadeia das forças vivas
da História, ou a exerce num sentido que tende a levar o povo A situação inglesa, com as suas grandes Trade Unions,
a um novo nível de civilização, da qual a ordem política e legal explica esíe fato. Na Inglaterra não existe formalmente um
é uma expressão programática? Efetivamente, urna lei en partido adversário dos industriais em grande estilo, e certo; mas
contra quem a infringe; 1) entre os elementos sociais reacio existem as organizações operárias de massas, e viu-se como elas,
nários que a lei destronou; 2) entre os elementos progressistas nos momentos decisivos, transformaram-se constitucionalmente
que a lei comprime; 3) entre os elementos que não alcançaram de baixo para cima, rompendo o invólucro burocrático (exem
o nível de civilização que a lei pode representar. Portanto, a plos, em 1919 e 1926). Além do mais, existem estreitos inte
função de polícia de um partido pode ser progressista ou rea- resses permanentes entre agricultores e industriais (especialmen-
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te agora que o protecionismo se tornou gerai, agrícola e indus
trial); e é inegável que os agricultores são "politicamente" determinados movimentos concebem a si mesmos apenas como
muito melhor organizados do que os industriais, atraem mais os marginais: pressupõem um movimento principal no qual se in
intelectuais, são mais "permanentes" nas suas diretrizes, etc. A serem para reformar determinados males, pretensos ou verda
sorte dos partidos "industriais" tradicionais, como o "liberal- deiros; isto é, são movimentos puramente reformistas.
radical" inglês e o radical francês (que sempre se diferenciou Este princípio tem importância política porque a verdade
muito do primeiro), é interessante (da mesma forma que o teórica de que cada classe possui apenas um partido é demons
"radical ifaliano", de boa memória). O que representavam eles? trada, nos momentos decisivos, pela união em bloco de agrupa
Um conjunto de classes, grandes e pequenas, e não apenas uma mentos diversos que se apresentavam como partidos "indepen
classe. Daí surgirem e desaparecerem freqüentemente, A dentes". A multiplicidade existente antes era apenas de caráter
massa de "manobra" era fornecida pela classe menor, que sem "reformista", referia-se a questões parciais. Em certo sentido,
pre se manteve em condições diversas no conjunto, até trans era uma divisão do trabalho político (útil nos seus limites),
formar-se completamente. Hoje ela fornece a massa aos "par mas uma parte pressupunha a outra, tanto que nos momentos
tidos demagógicos", o que se compreende. decisivos, quando as questões principais foram colocadas em
Em geral, pode-se dizer que, nesta história dos partidos, a jõgo, formou-se a unidade, criou-se o bloco. Daí a conclusão
comparação entre os vários países é das mais instrutivas e de de que, na construção do partido, é necessário se basear num
cisivas para se localizar a origem das causas de transformação. caráter "monolítico", e não em questões secundárias: daí a ne
O que vale também para as polêmicas entre os partidos dos cessidade de se prestar atenção à existência de homogeneidade
países "tradicionais", onde estão representados "retalhos" de entre dirigentes e dirigidos, entre chefes e massa. Se, nos mo
todo o "catálogo" histórico. mentos decisivos, os chefes passam ao seu "verdadeiro partido",
Eis um critério primordial de julgamento tanto para as as massas ficam desamparadas, inertes e sem eficácia. Pode-se
concepções do mundo, como, e especialmente, para as atitudes dizer que nenhum movimento real adquire consciência da sua
práticas* a concepção do mundo ou o ato prático pode ser totalidade de um golpe, mas só por experiência sucessiva; isto
concebido "isolado", "independente" e assumindo toda a res é, quando percebe através dos fatos que nada do que lhe é
ponsabilidade da vida coletiva; ou isto é impossível, e a con próprio é natural (no sentido extravagante da palavra), mas
cepção do mundo ou o ato prático pode ser concebido como existe porque surgem determinadas condições cujo desapareci
"integração", aperfeiçoamento, contrapeso, etc., de outra con mento não permanece sem conseqüências. Assim, o movimento
cepção do mundo ou atitude pratica. Refletindo-se, percebe-se se aperfeiçoa, perde os elementos de arbitrariedade, de "sim
que este critério é decisivo para um julgamento ideal sobre os biose" e torna-se verdadeiramente independente na medida em
impulsos ideais e os impulsps práticos; percebe-se também que que, para obter determinadas conseqüências, cria as premissas
seu alcance prático não é pequeno. necessárias. Mais ainda, empenha todas as suas forças na cria
Uma das criações mais comuns é aquela que acredita ser ção dessas premissas.
"natural" que tudo o que existe deve existir, não pode deixar
de existir, e que as próprias tentativas de reforma, por pior que
andem, não interromperão a vida; as forças tradicionais pros Alguns aspectos teóricos e práticos do "economismo".
seguirão atuando, e a vida continuará. É claro que neste modo Economismo — movimento teórico pela livre troca — sindica
de pensar há algo de justo; e ai se não fosse' assim! Entretanto, lismo teórico. Deve-se ver em que medida o sindicalismo teó
a partir de um determinado limite, este mOdo de pensar torna- rico se originou da teoria da praxis e em que medida derivou
se perigoso (certos casos da política do pior) e, de qualquer das doutrinas econômicas da livre troca, do liberalismo. Por
modo, como se disse, subsiste o critério de julgamento filosó isso é necessário ver se o economismo, na sua forma mais acaba
fico, político e histórico. Na realidade, se se observa a fundo. da, não passa de uma filiação direta do liberalismo, tendo man
tido, inclusive na sua origem, bem poucas relações com a filo-
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sofia da praxis; relações de qualquer modo apenas extrínsecas mico-corporativa para alcançar a fase de hegemonia ético-polí-
e puramente verbais. tica na sociedade civil e dominante no Estado. No que se refere
A partir deste ponto de vista é que se deve encarar a po ao liberalismo, há o caso de uma fração do grupo dirigente que
lêmica Einaudi-Croce,^ sugerida pelo novo prefácio (1917) ao pretende modificar não a estrutura do Estado, mas apenas a
livro sobre o Materialismo Síorico. A exigência, projetada por orientação governamental; que pretende reformar a legislação
Einaudi, de levar em conta a literatura de história econômica comercial e só indiretamente a industrial (pois é inegável que o
suscitada pela economia clássica inglesa, pode ser satisfeita neste protecionismo, especialmente nos países de mercado pobre e
sentido: tal literatura, através de uma contaminação superfi restrito, limita a liberdade de iniciativa industrial e favorece o
cial com a filosofia da praxis, originou o economismo; por isso, surgimento de monopólios): trata-se de rotação dos partidos
quando Einaudi critica (na verdade, de modo impreciso) algu dirigentes no governo, não de fundação e organização de uma
mas degenerações economistas, não faz mais do que atirar pe nova sociedade civil. A questão apresenta-se com maior com
dras num pombal. O nexo entre ideologias da livre troca e sin
dicalismo teórico é especialmente evidente na Itália, onde é co
plexidade no movimento do sindicalismo teórico; é inegável que
nhecida a admiração devotada a Pareto por sindicalistas como
nele a independência e a autonomia do grupo subalterno que
Lanzillo e C. Entretanto, o significado destas duas tendências
diz exprimir são sacrificadas à hegemonia intelectual do grupo
é bastante diverso: o primeiro é próprio de um grupo social dominante, pois o sindicalismo teórico não passa de um aspecto
dominante e dirigente; o segundo, de um grupo ainda subal
do liberalismo, justificado com algumas afirmações mutiladas,
e por isso banalizadas da filosofia da praxis. Por que e como se
terno, que não adquiriu consciência da sua força e das suas verifica este "sacrifício"? Exclui-se a transformação do grupo
possibilidades e modos de se desenvolver e por isso não sabe
superar a fase de primitivismo. subordinado em dominante, seja porque o problema nem ao
A formulação do movimento da livre troca baseia-se num
menos é formulado (fabianismo. De Man, parte notável do
erro teórico do qual não é difícil identificar a origem práftca: laborismo), ou porque é apresentado sob formas incoerentes e
a distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de ineficazes (tendências social-democratas em geral) ou porque
distinção métodica se transforma e é apresentada como distin defende-se o salto imediato do regime dos grupos ao regime da
ção orgânica. Assim, afirma-se que a atividade econômica é perfeita igualdade e da economia sindical.
própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir na É pelo menos estranha a atitude do economismo em^ re
sua regulamentação. Mas, como na realidade fatual sociedade lação às expressões de vontade, de ação e de iniciativa pohtica
civil e Estado se identificam, deve-se considerar que também e intelectual, como se estas não fossem uma emanação orgamca
0 liberalismo é uma "regulamentação" de caráter estatal, intro de necessidades econômicas e, mais, a única expressão eficiente
duzida e mantida por caminhos legislativos e coercitivos: é um da economia; assim, é incoerente que a formulação concreta da
fato de vontade consciente dos próprios fins, e não a expressão questão hegemônica seja interpretada como um fato que subor
espontânea, automática, do fato econômico. Portanto, o libe dina o grupo hegemônico. O fato da hegemonia pressupõe indu
ralismo é um programa político, destinado a modificar, quando bitavelmente que se deve levar em conta os interesses e as
triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida;
próprio Estado; isto é, a modificar a distribuição da renda na que se forme certo equilíbrio de compromisso, isto é, que o
cional. grupo dirigente faça sacrifícios de ordem economico-corpora-
É diferente o caso do sindicalismo teórico, quando se re tiva. Mas também é indubitável que os sacrifícios e o compro
fere a um grupo subalterno. Através desta teoria ele é impedido misso não se relacionam com o essencial, pois se a hegemonia
de se tornar dominante, de se desenvolver além da fase econô- é ético-política também é econômica; não pode deixar de se
fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce
1 Cf. a Riforma Sociale, julho-agosto 1918, pág. 415. (N.e.I.) no núcleo decisivo da atividade econômica.

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o economismo apresenta-se sob muitas outras formas, além Em várias ocasiões afirmou-se nestas notas' que a filosofia
do liberalismo e do sindicalismo teórico. Pertencem a ele todas da praxis está muito mais difundida do que se pensa. A afir
as formas de abstencionismo eleitoral (exemplo típico é o abs- mação é exata desde que se entenda como difundido o econo
tencionismo dos clericais italianos depois de 1870, que foi mismo histórico, que é como o Prof. Loria denomina agora as
atenuando-se a partir de 1900, até 1919 e à formação do Parti suas concepções mais ou menos desconjuntadas, e que, portanto,
do Popular. A distinção orgânica que os clericais faziam entre o ambiente cultural modificou-se completamente desde o tempo
Itália real e Itália legal era uma reprodução da distinção em que a filosofia da praxis iniciou a sua luta; poder-se-ia dizer,
entre mundo econômico e mundo político-legal), que são com terminologia crociana, que á maior heresia surgida no seio
muitas desde que se admita o semi-abstencionismo, um quarto, da "religião da liberdade" sofreu, também ela, como a religião
etc. Ao abstencionismo está ligada a fórmula do "quanto pior, ortodoxa, uma degeneração. Difundiu-se como "superstição",
melhor" e também a fórmula da chamada "intransigência" par isto é, entrou em combinação com o liberalismo e produziu o
lamentar de algumas frações de deputados. Nem sempre o economismo. Embora a religião ortodoxa tenha se estiolado de
economismo é contrário à ação política e ao partido político, finitivamente, é preciso ver se a superstição herética não manteve
considerado porém um mero organismo educador de tipo sindi sempre um fermento que a fará renascer como religião superior,
cal. Ponto de referência para o estudo do economismo e para se as escórias de superstição não serão facilmente liquidadas.
compreender as relações entre estrutura e superestruturas é o
trecho da Miséria da Filosofia onde se afirma que uma fase Alguns pontos característicos do economismo histórico: 1)
na busca dos nexos históricos não se distingue aquilo que é
importante no desenvolvimento de um grupo social é aquela em "relativamente permanente" daquilo que é flutuação ocasional;
que os membros de um sindicato nao lutam so pelos seus inte entende-se como fato econômico o interesse pessoal ou de um
resses econômicos, mas na defesa e pelo desenvolvimento da
própria organização.^ Deve-se recordar também a afirmação de pequeno grupo, num sentido imediato e "sordidamente judaico".
Não se leva em conta as formações de classe econômica, com
Engels de que a economia só em "última análise" é a mola da todas as relações inerentes a elas, mas assume-se o interesse mes
História (nas duas cartas sobre a filosofia da praxis, publicadas quinho e usurário, especialmente quando coincide com formas
também em italiano), a qual se liga diretamente ao trecho do delituosas contempladas nos códigos criminais; 2) a doutrina
prefácio à Crítica da Economia Política, onde se diz que os segundo a qual o desenvolvimento econômico é reduzido à su
homens adquirem consciência dos conflitos que se verificam no cessão de modificações técnicas nos instrumentos de trabalho.
mundo econômico no terreno das ideologias. O Prof. Loria fez uma exposição brilhantíssima desta doutrina
aplicada no artigo sobre a influência social do aeroplano, pu
1 Ver a afirmação exata; a Miséria da Filosofia é um momento blicado na Rassegna Contemporânea de 1912; 3) a .doutrina
essencial da formação da filosofia da praxis; pode ser considera segundo a qual o desenvolvimento econômico e histórico depen
da como o desenvolvimento das Teses sobre Feuerbach, enquanto a de imediatamente das mudanças num determinado elemento
Sagrada Família é uma fase intermediária indistinta e de origem oca importante da produção, da descoberta de uma nova matéria-
sional, como dão a entender os trechos dedicados a Proudhon e espe prima, de um novo combustível, etc., que trazem consigo a
cialmente ao materialismo francês. O trecho sobre o materíalismo fran
cês é mais um capítulo de história da cultura que yma^ elaboração teó aplicação de novos métodos na construção e no acionamento das
rica, como é geralmente interpretado; e como historia da cultura é máquinas. Ultimamente apareceu toda uma literatura sobre o
admirável. Recordar a observação que a critica contida na Miséria da petróleo: pode-se considerar como típico um artigo de Antonio
Filosofia contra Proudhon e a sua interpretação da dialética hegeliana
pode ser válida para Gioberti e para o hegelianismo dos liberais mo
derados italianos em geral. - O paralelo Proudhon-Gioberti, não obstante 1 Veja-se Gramsci, 11 materialismo storico e Ia filosofia di B. Croce
eles representarem fase histórico-políticas não homogêneas, mas exata (ed. brasileira, A Concepção Dialética da História, trad. de Carlos
mente por isto, pode ser interessante e fecundo. Nelson Coutínho, Ed. Civilização Brasileira, 1966. N. do T.)
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Laviosa publicado na Nuova Antologia de 16 de maio dc 1929. em poucas linhas, uma grande parte dos elementos mais banais
A descoberta de novos combustíveis e de novas energias mo de polêmica contra a filosofia da praxis, mas, na realidade, a
trizes, assim como de novas matérias-primas, tem certamente polêmica é contra o economismo desconjuntado de tipo loriano.
grande importância porque pode modificar a posição dos Es Além do mais, o escritor não é muito entendido na matéria,
tados, mas não determina o movimento histórico, etc. inclusive por outros aspectos: ele não compreende que as "pai
Muitas vezes acontece que se combate o economismo his xões" podem ser simplesmente um sinônimo dos interesses eco
tórico pensando combater o materialismo histórico. Por exem nômicos e que é difícil sustentar que a atividade política possa
plo, é este o caso de um artigo do Avenír de Paris, de 10 de ser um estado permanente de exasperação e de espasmo; exata
outubro de 1930 (transcrito na Rassegna Settimanale delia mente a política francesa é apresentada como de uma "racio
Stampa Estera, de 21 de outubro de 1930, págs. 2303-2304), nalidade" sistemática e coerente, isto é, depurada de todos os
que transcrevemos como típico: "Dizemos há muito tempo, mas elementos passionais, etc.
sobretudo depois da guerra, que as questões de interesse domi
nam os povos e fazem o mundo avançar. Foram os marxistas Na sua forma mais difundida de superstição economista,
que inventaram esta tese, sob o apelativo um pouco doutrinário a filosofia da praxis perde uma grande parte da sua expansivi-
de "materialismo histórico". No marxismo puro, os homens dade cultural na esfera superior do grupo intelectual, tanto
tomados em conjunto não obedecem as paixões, mas às neces quanto adquire entre as massas populares e entre os intelectuais
sidades econômicas. A política é uma paixão. A pátria é uma medianos, que não pretendem cansar o cérebro, mas pretendem
paixão. Estas duas idéias exigentes só desempenham na Histó parecer sabidíssimos, etc. Como disse Engels, é cômodo para
ria uma função de aparência, porque na realidade a vida dos muitos acreditar que podem ter a baixo preço e sem nenhum
povos, no curso dos séculos, é explicada através de um jogo esforço, ao alcance da mão, toda a História e todo o saber
cambiante e sempre renovado de causas de ordem material. político e filosófico concentrados em algumas formulazinhas. A
A economia é tudo. Muitos filósofos e economistas "burgueses" ignorância de que a tese segundo a qual os homens adquirem
retomaram este estribilho. Eles assumem certo ar para explicar- consciência dos conflitos fundamentais no terreno das ideólogas
nos através do curso do trigo, do petróleo ou da borracha, a não é de caráter psicológico ou moralista, mas tem um caráter
grande política internacional. Esmeram-se em demonstrar-nos orgânico gnosiológico, criou a forma mentis de considerar a po
que toda a diplomacia é comandada por questões de tarifas lítica e, portanto, a História, como um contínuo marché de
alfandegárias e de preços de custo. Estas explicações estão dupes, um jogo de ilusionismos e de prestidigitação. A ativi
muito na moda. Têm uma pequena aparência científica e pro dade "crítica" reduziu-se a revelar truques, a suscitar escânda
cedem de uma espécie de ceticismo superior com pretensões a los, a tratar das miudezas dos homens representativos.
passar por uma elegância suprema. A paixão em política ex Olvidou-se assim que, sendo ou presumindo ser, também
terna? O sentimento em questões nacionais? Qual o quê? Esta o "economismo" um cânone objetivo de interpretação (objetivo-
mercadoria é boa para a gente comum. Os grandes espíritos, científico), a pesquisa no sentido dos interesses imediatos de
os iniciados sabem que tudo é dominado pelo dar e pelo receber. veria ser válida para todos os aspectos da História, tanto para
Ora, esta é uma pseudoverdade absoluta. É completamente falso os homens que representam a "tese" como para aqueles que
que os povos só se deixam guiar por considerações de interesse representam a "antítese". Ignorou-se ainda outra proposição da
e é completamente verdadeiro que eles obedecem sobretudo a filosofia da praxis: aquela segundo a qual as "crenças popula
considerações ditadas por um desejo e por uma fé ardente de res" ou as crenças do tipo das crenças populares têm a validade
prestígio. Quem não compreende isto não compreende nada." das forças materiais. Os erros de interpretação no sentido das
A continuação do artigo (intitulado La mania dei prestigio) pesquisas dos interesses "sordidamente judaicos" foram algumas
exemplifica com a política alemã e italiana, que seria de "pres vezes grosseiros e cômicos, de modo a reagir negativamente sobre
tígio", e não ditada por interesses materiais. O artigo engloba, o prestígio da doutrina original. Por isso é necessário combater
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o economismo não só na teoria da historiografia, mas também 3) qual o significado político e social das reivindicações que os
e especialmente na teoria e na prática políticas. Neste campo, dirigentes apresentam e que logo encontram apoio? a que exi
a luta pode e deve ser conduzida desenvolvendo o conceito de gências efetivas correspondem? 4) exame da conformidade dos
hegemonia, da mesma forma como foi conduzida praticamente meios ao fim proposto; 5) só em última análise, e apresentada
no desenvolvimento da teoria do partido político e no desen sob forma política e não moralista, desenha-se a hipótese de
volvimento prático da vida de determinados partidos políticos que tal movimento necessariamente será desnaturado e servirá
(a luta contra a teoria da chamada revolução permanente, à a outros fins que não aqueles que as multidões de seguidores
qual se contrapunha o conceito de ditadura democrático-revolu- esperam. Ao contrário, esta hipótese é afirmada preventiva
cionária, a importância que teve o apoio dado às ideologias cons mente, quando nenhum elemento concreto (que se apresente
tituintes, etc.). Poder-se-ia realizar uma pesquisa sobre as como tal através da evidência do senso comum, e não graças
opiniões emitidas à medida que se desenvolviam determinados a uma análise "científica" esotérica) existe ainda para sufragá-
movimentos políticos, tomando como tipo o movimento boulan- la, de modo que ela se manifesta como uma acusação moralista
gista (de 1886 a 1890), o processo Dreyfus, ou então, o golpe de dubiedade e má-fé, ou de falta de sagacidade, de estupidez
de Estado de 2 de dezembro (uma análise do livro clássico (para os seguidores). A luta política transforma-se, assim,
sobre o 2 de dezembro,^ para estudar a importância relativa do numa série de choques pessoais entre os espertalhões, que guar
fator econômico imediato e o lugar que ocupa o estudo con dam o diabo na ampola, e os que não são levados a sério pelos
creto das "ideologias"). Diante destes acontecimentos, o eco próprios dirigentes e recusam-se a se convencer em virtude da
nomismo se pergunta: a quem interessa imediatamente a inicia sua tolice. Além do mais, enquanto estes movimentos não
tiva em questão?, e responde com um raciocínio tão simplista alçançarem o poder, pode-se sempre pensar que falirão, e alguns
quanto paralogístico. Favorece de imediato a uma determinada efetivamente faliram (o próprio boulangismo, que faliu como
fração do grupo dominante, e, para não errar, esta escolha recai tal e posteriormente foi esmagado pelo movimento dreyjusard;
sobre aquela fração que evidentemente tem uma função pro o movimento de George Valois e o movimento do general
gressista e de controle sobre o conjunto das forças econômicas. Gayda); logo, a pesquisa orienta-se no sentido da identificação
Pode-se estar seguro de não errar, porque necessariamente, se dos elementos de força, mas também dos elementos de fraqueza
o movimento analisado chegar ao poder, cedo ou tarde a fração que eles contêm no seu interior: a hipótese "economista" afirma
progressista do grupo dominante acabará controlando o novo um elemento imediato de força, isto é, a disponibilidade de uma
governo e o transformará num instrumento para utilizar o apa determinada quota financeira direta ou indireta (um grande
relho estatal em seu benefício. jornal que apoie o movimento, é também ele uma contribuição
Trata-se, portanto, de uma infalibilidade muito grosseira financeira indireta), e basta. Muito pouco. Também neste caso
que não só não tem significado teórico, mas possui escassíssimo a análise dos diversos graus de relação de forças só pode culmi
alcance político e eficácia prática. No geral, só produz prega nar na esfera da hegemonia e das relações ético-políticas.
ções moralistas e contendas pessoais intermináveis. Quando se ^ Um elemento que deve ser acrescentado como exemplifi-
verifica um movimento boulangista, a análise deveria ser con cação das teorias chamadas de intransigência é aquele referente
duzida reahsticamente segundo esta linha: 1) conteúdo social rígida aversão de princípio aos chamados compromissos, que
da massa que adere ao movimento; 2) que papel desempenhava têm como manifestação subordinada aquela que pode ser inti
esta massa no equilíbrio de forças, que vai-se transformando tulada o "medo dos perigos". É evidente que a aversão de
como o novo movimento demonstra através do seu nascimento? princípio aos compromissos está estreitamente vinculada ao eco
nomismo. Quanto à concepção sobre a qual se baseia esta
' O Dezoito Brumário de Luis Bonaparle, de Marx (edição brasileira aversão, ela reside indubitavelmente na convicção férrea de que
Editorial Vitória, 1961 — Mar.v e Engel.s, Ohras Escolhidos 1 o volume' existem leis objetivas para o desenvolvimento histórico, com o
(N. do T.) mesmo caráter das leis naturais, acrescentada da persuasão de
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um finalismo fatalista semelhante ao fatalismo religioso. Já Previsão e perspectiva. Outro ponto a ser fixado e desen
que as condições favoráveis fatalmente surgirão e. determinarão, volvido é o da "dupla perspectiva" na ação política e na vida
de modo um tanto misterioso, acontecimentos revigorantes, não estatal. Vários são os graus através dos quais pode-se apresen
só se revelará inútil, mas danosa, qualquer iniciativa voluntária tar a dupla perspectiva, dos mais elementares aos mais com
tendente a predispor estas situações segundo um plano. Ao plexos. Mas eles podem-se reduzir teoricamente a dois graus
lado destas convicções fatalistas manifesta-se a tendência a con fundamentais, correspondentes à natureza dúplice do Centauro
fiar "em seguida", cegamente e sem qualquer critério, na vir maquiavélico, ferina e humana: da força e do consentimento, da
tude reguladora das armas, o que não deixa de ter certa lógica autoridade e da hegemonia, da violência e da civilidade, do
e coerência, pois acredita-se que a intervenção da vontade é momento individual e do momento universal (da "Igreja" e do
útil para a destruição, não para a reconstrução (já em processo "Estado"), da agitação e da propaganda, da tática e da estra
no exato momento da destruição). A destruição é concebida tégia, etc. Alguns reduziram a teoria da "dupla perspectiva" a
mecanicamente, não como destruição-reconstrução. uma coisa mesquinha e banal, a nada mais que duas formas de
Nestas maneiras de pensar não se leva em conta o fator "imediatismo" a se sucederem mecaiücamente no tempo com
"tempo" e, em última análise, a própria "economia" no sentido maior ou menor "proximidade". Ao contrário, pode ocorrer
de não se compreender que os movimentos ideológicos de mas que quanto mais a primeira "perspectiva" é "imediatíssima",
sa estão sempre atrasados em relação aos fenômenos econômi elementaríssima, tanto mais a segunda deve ser "distante" (não
cos de massa e de que, portanto, em determinados momentos, no tempo, mas como relação dialética), complexa, elevada.
o impulso automático devido ao fator econômico é afrouxado, Assim como na vida humana, em que quanto mais um indivíduo
travado ou até destruído momentaneamente por elementos ideo é obrigado a defender a própria existência física imediata, tanto
lógicos tradicionais; e que por isso deve haver luta consciente mais se coloca ao lado e defende o ponto de vista de todos os
complexos e mais elevados valores da civilização e da humani
e determinada a fim de que se "compreenda" as exigências da dade.
posição econômica de massa que pode estar em contradição com
as diretivas dos chefes tradicionais. Uma iniciativa política apro É verdade que prever significa apenas ver bem o presente
priada é sempre necessária para libertar o impulso econômico e o passado como movimento: ver bem, isto é, identificar com
dos entraves da política tradicional, para modificar a direção exatidão os elementos fundamentais e permanentes do processo.
política de determinadas forças que devem ser absorvidas para Mas é absurdo pensar numa previsão puramente "objetiva".
criar um bloco histórico econômico-político novo, homogêneo, Quem preve, na realidade tem um "programa** que quer ver
sem contradições internas. Já que duas forças "semelhantes" só triunfar, e a previsão é exatamente um elemento de tal tríimfo.
podem fundir-se num organismo novo através de uma série de Isto não significa que a previsão deve ser sempre arbitrária e
compromissos ou pela força das armas, unindo-se num plano gratuita ou puramente tendenciosa. Ao contrário, pode-se dizer
de aliança, ou subordinando uma a outra pela coerção, a ques que só na medida em que o aspecto objetivo da previsão está
tão é saber se existe esta força e se é "proveitoso" empregá-la. ligado a um programa, esse aspecto adquire objetividade: 1)
Se a união de duas forças é necessária para derrotar uma ter
porque só a paixão aguça o intelecto e colabora para a intuição
mais clara; 2) porque sendo a realidade o resultado de uma
ceira, o recurso às armas e à coerção (desde que haja disponi aplicação da vontade humana à sociedade das coisas (do maqui-
bilidade) é uma pura hipótese de método, e a única possibili nista à máquina), prescindir de todo elemento voluntário, ou
dade concreta é o compromisso, já que a força pode ser em calcular apenas a intervenção de vontades outras como ele
pregada contra os inimigos, não contra uma parte de si mesmos mento objetivo do jogo geral mutila a própria realidade. Só
que se quer assimilar rapidamente e do qual se requer o entu quem deseja fortemente identifica os elementos necessários à
siasmo e a "boa vontade". realização da sua vontade.

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Assim, constitui um erro de fatuidade grosseira e de su- ser entendido em sentido moralista. Assim, a questão não deve
perficialidade considerar que uma determinada concepção do ser colocada nestes termos, é mais complexa: trata-se de con
mundo e da vida guarda em si mesma uma superior capacidade siderar se o "dever ser" é um ato arbitrário ou necessário, é
de previsão. É claro que uma concepção do mundo está implí vontade concreta, ou veleidade, desejo, sonho. O político em
cita em qualquer previsão; portanto, o fato de que ela seja uma ação é um criador, um suscitador; mas não cria do nada, nem
desconexão de atos arbitrários do pensamento ou uma rigorosa se move no vazio túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se
e coerente visão não é sem importância. Mas, por isso mesmo, na realidade fatual. Mas, o que é esta realidade fatual? É
ela só adquire essa importância no cérebro vivo de quem faz talvez algo de estático e imóvel, ou não é antes uma relação de
a previsão, vivificando-a com a sua vontade forte. Isto pode forças em continuo movunento e mudança de equilíbrio? Apli
ser percebido através das previsões feitas pelos "desapaixona car a vontade à criação de um novo equilíbrio das forças real
dos": elas estão plenas de "ociosidade", de minúcias sutis, de mente existentes e atuantes, baseando-se numa determinada
elegâncias conjeturais. Só a existência no "previsor" de um força que se^ considera progressista, fortalecendo-a para levá-la
programa a ser realizado faz com que ele atenha-se ao essencial, ao triunfo, é sempre mover-se no terreno da realidade fatual,
aos elementos que, sendo "organizáveis", suscetíveis de serem mas para dominá-la e superá-la (ou contribuir para isso).
dirigidos ou desviados, são os únicos que, na realidade, podem Portanto, o **deyer ser" é concreção; mais ainda, é a única in
ser previstos. Geralmente se acredita que cada ato de previsão terpretação realista e historícista da realidade, é história em ação
pressupõe a determinação de leis de regularidade do tipo das e filosofia em ação, é unicamente política.
leis que regulam as ciências naturais. Mas como estas leis não A oposição Savonarola-Maquiavel não é a oposição entre
existem no sentido absoluto ou mecâmco que se supõe, não se ser e dever ser (todo o parágrafo de Russo sobre este ponto
levam em conta as vontades outras e não se "prevê" a sua aplica é puro beletrismo), mas entre dois "dever ser": o abstrato e
ção. Logo, edifica-se sobre uma hipótese arbitraria, e nao sobre obscuro de Savonarola e o realista de Maquiavel, realismo, mes
a realidade. mo não tendo se tomado realidade imediata, pois não se pode
O "excessivo" (e portanto superficial e mecânico) realismo pretender que um indivíduo ou um livro modifiquem a reali
político leva muitas vezes à afirmação de que o homem de dade; eles só a interpretam e indicam a linha possível da ação.
Estado só deve atuar no âmbito da "realidade fatual", não se O limite e a estreiteza de Maquiavel consistem apenas no fato
Interessar com o "dever ser", mas apenas com o "ser". Isto de ter sido ele uma "pessoa privada", um escritor, e não o
significaria que as •'perspectivas de um estadista não podem ir chefe de um Estado ou de um exército, que também é apenas
além do tamanho do seu nariz. Este erro levou Paolo Treves uma pessoa, mas tendo à sua disposição as forças de.um Esta-
a considerar Guicciardini, e não Maquiavel, o "verdadeiro po- ^ ou de um exército, e não somente exércitos de palavras.
lítico". Nem por isso se pode dizer que Maquiavel tenha sido um
Mais do que entre "diplomata" e "político", é necessário profeta desarmado": seria um gracejo multo barato. Maquia
distinguir entre cientista da política e político prático. O diplo vel jamais diz que pensa ou se propõe ele mesmo a mudar a
mata não pode deixar de se mover só na realidade fatual, pois realidade; o que faz é mostrar concretamente como deveriam
a sua atividade específica não é a de criar novos equilíbrios, atuar as forças históricas para se tornarem eficientes.
mas a de conservar dentro de determinados quadros jurídicos
um equilíbrio existente. Assim, também o cientista deve mo
ver-se apenas na realidade fatual como mero cientista. Mas
Maquiavel não é um mero cientista; ele é um homem de parti
cipação, de paixões poderosas, um político prático, que pre
tende criax novas relações de ^orça e que por isso mesmo não Análises das situações. Relações de força. O estudo sobre
pode deixar de se ocupar com o "dever ser", que não deve como se deve analisar as "situações", isto é, de como se devem
42 .43
estabelecer os diversos graus de relação de forças, pode-se pres a revolução italiana tecnicamente impossível!). A partir desta
tar a uma exposição elementar sobre ciência e arte políticas, série de fatos, pode-se chegar à conclusão de que, freqüente
entendidas como um conjunto de cânones práticos de pesquisa mente, o chamado "partido estrangeiro" não é propriamente
e de observações particulares úteis para despertar o interesse aquele que vulgarmente é apontado como tal, mas exatamente
pela realidade fatual e suscitar intuições políticas mais rigorosas o partido nacionalista, que, na realidade, mais do que repre
e vigorosas. Ao mesmo tempo, é preciso expor o que se deve sentar as forças vitais do seu país, representa a sua subordina
entender em política por estratégia e tática, por "plano" estra ção e a servidão econômica às nações ou a um grupo de nações
tégico, por propaganda e agitação, por organização, ou ciência hegemônicas.^
da organização e da administração em política.
Os elementos de observação empírica que comumente são É o problema das relações entre estrutura e supefestrutura
apresentados desordenadamente nos tratados de ciência política que deve ser situado com exatidão e resolvido para assim se
(pode-se tomar como exemplar a obra de G. Mosca, Elementi chegar a uma justa análise das forças que atuam na história
di scienza política) deveriam, na medida em que não são ques de um determinado período e à definição da relação entre elas.
tões abstratas ou apanhadas ao acaso, situar-se nos vários graus É necessário movimentar-se no âmbito de dois princípios: 1)
da relação de forças, a começar pela relação das forças interna o de que nenhuma sociedade assume encargos para cuja solu
cionais (em que se localizariam as notas escritas sobre o que ção ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou
é uma grande potência, sobre os agrupamentos de Estados em que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvol
sistemas hegemônicos e, por conseguinte, sobre o conceito de ver; 2) o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser
independência e soberania no que se refere as pequenas e mé substituída antes de desenvolver e completar todas as formas
dias potências'), passando em seguida as relações sociais obje de vida implícitas nas suas relações.^ Da reflexão sobre estes
tivas ao grau de desenvolvimento das forças produtivas, as re dois cânones pode-se chegar ao desenvolvimento de toda uma
lações de força política e de partido (sistemas hegemônicos série de outros princípios de metodologia histórica. Todavia,
dentro do Estado) e às relações políticas imediatas (ou seja, deve-se distinguir no estudo de uma estrutura os movimentos
potencialmente militares). orgânicos (relativamente permanentes) dos elementos que po
As relações internacionais precedem ou seguem (logica dem ser denominados "de conjuntura" (que se apresentam como
mente) as relações sociais fundamentais? Seguem, e indubitável. ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenôme
Toda inovação orgânica na estrutura modifica organicamente as nos de conjuntura dependem, é claro, de movimentos orgânicos,
relações absolutas e relativas no campo internacional, ^através nias seu significado não tem um amplo alcance histórico: eles
das suas expressões técnico-militares. Inclusive a posição geo dão lugar a uma crítica política miúda, do dia-a-dia, que investe
gráfica de um Estado não precede, mas segue (logicamente) as
inovações estruturais, mesmo reagindo sobre elas numa certa ^ Uma referência a este elemento internacional "repressivo" das ener
medida (exatamente na medida em que as superestruturas rea gias internas pode ser encontrada nos artigos publicados por G. Volpe
gem sobre a estrutura, a política sobre a economia, etc.). Alem no Coniere delia Sera de 22 e 23 de março de 1932.
2 "Uma formação social não perece antes de se terem desenvolvido
do mais, as relações internacionais reagem positiva e ativamente todas as forças produtivas em relação às quais ela ainda é suficiente
sobre as relações políticas (de hegemonia dos partidos). Quan e novas e mais altas relações de produção não tenham tomado o seu
to mais a vida econômica imediata de uma nação se subordina lugar, antes de as condições materiais de existência destas ótimas não
às relações internacionais, mais um partido determinado repre terem sido incubadas no próprio seio da velha sociedade. Por isto, a
senta esta situação e explora-a para impedir o predomínio dos humanidade assume sempre aqueles encargos que ela pode resolver;
se se observa com mais agudeza, chegar-se-á sempre à conclusão de
partidos adversários (veja-se o famoso discurso de Nitti sobre que o próprio encargo só surge onde as condições materiais para a
sua solução já existem, ou pelo menos estão em processo de surgimento".
1 Ver págs. 138, 162 e seguintes. (Mabx, lntrodu0o à Critica da Economia Política.)

44 45
os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediata
àquelas em que se verifica uma estagnação das forças produti
mente responsáveis pelo poder. Os fenômenos orgânicos dão
vas. O nexo dialético entre as duas ordens de movimento e,
margem à crítica histórico-social, que investe os grandes agru portanto, de pesquisa, dificilmente pode ser estabelecido exa
pamentos, acima das pessoas imediatamente responsáveis e aci tamente; e, se o erro é grave no que se refere à historiografia,
ma do pessoal dirigente. A importância dessa grande diferen mais grave ainda se torna na arte política, quando se trata não
ciação surge quando se estuda um período histórico. Verifica- de reconstruir a história passada, mas de construir a história
se uma crise que, às vezes, prolonga-se por dezenas de anos. presente e futura.^ Os próprios desejos e paixões deteriorantes
Esta duração excepcional quer dizer que se revelaram (amadu e imediatos constituem a causa do erro na medida em que
receram) contradições insanáveis na estrutura e que as forças substituem a análise objetiva e imparcial. E isto se verifica não
políticas que atuam positivamente para conservar e defender a como meio" consciente para estimular à ação, mas como auto-
própria estrutura esforçam-se para saná-las dentro de certos engano. Também neste caso a cobra morde o charlatão: o de
limites e superá-las. Estes esforços incessantes e perseverantes magogo ,é a primeira vítima da sua demagogia.
(pois nenhuma forma social jamais confessará que foi supera Estes critérios metodológicos podem adquirir visível e di
da) formam o terreno "ocasional" sobre o qual se organizam as daticamente todo o seu significado quando aplicados ao exame
forças antagonistas, que tendem a demonstrar (demonstração de fatos históricos concretos. O que se poderia fazer com utili
que em última análise, só se realiza e é "verdadeira" quando dade em relaçao aos acontecimentos que se verificaram na
^ torna nova realidade, quando as forças antagonistas triunf-am; França de 1789 a 1870. Parece-me que para maior clareza da
mas imediatamente desenvolve-se uma série de polêmicas ideo- exposição seja necessário abranger todo este período. Efetiva
lóeícas religiosas, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., cuja con- mente, só em 1870-1871, com a tentativa da Comuna, esgotam-
creção'pode ser avaliada pela medida em que conseguem con se historicamente todos os germes nascidos em 1789. Não só
vencer e deslocam o preexistente dispositivo de forças sociais) a nova classe que luta pelo poder derrota os representantes da
que já existem as condições necessárias e suficientes para que velha sociédade que não quer confessar-se definitivamente su
determinados encargos possam e, por conseguinte devam ser perada, mas derrota também os grupos novíssimos que acredi
resolvidos historicamente, (e devem, porque qualquer vacila- tam já ultrapassada a nova estrutura surgida da transformação
ção em cumprir o dever histórico aumenta a desordem necessá iniciada em 1789. Assim, ela demonstra a sua vitalidade tanto
em relação ao velho como em relação ao novíssimo. Além do
ria e prepara catástrofes mais graves).
Nas análises histórico-políticas, freqüentemente incorre-se
no erro de não saber encontrar a justa relaçao entre o que é ^ O fato de não se ter considerado o momento imediato das "relações
de força" estcá lifiado a resíduos da concepção liberal vulgar, da qual
orgânico e o que é ocasional. Assim, ou se apresentam como o sindicalismo é uma manifestação que acreditava ser mais avançada
imediatamente atuantes causas que, ao contrario, ajuam media- quando, na realidade, representava um passo atrás. .Efetivamente, a
tamente, ou se afirma que as causas imediatas são as únicas concepção liberal vulgar, dando importância à relação das forças polí-
causas eficientes. Num caso, manifesta-se o exagero de eco- ticas organizadas nas diversas formas de partido (leitores de jornais,
eleições parlamentares e locais, organizações de massa dos partidos e
nomismo" oú de doutrinarismo pedantesco; no outro, o excesso dos sindicatos num sentido estrito), era mais avançada do que o sin-
de "ideologismo". Num caso, superestimam-se as causas mecâ dicabsmo, que dava importância primordial à relação fundamental eco-
nicas; no outro, exalta-se o elemento voluntarista e individual. nômico-social, e só a ela. A concepção liberal vulgar também levava
em conta implicitamente esta relação (como transparece através de
A distinção entre "movimentos" e fatos orgânicos e movimentos muitos sinais), mas insistia prioritariamente sobre a relação das forças
e fatos de "conjuntura" ou ocasionais deve ser aplicada a todos políticas, que era uma expressão da outra e, na realidade, englobava-a.
os tipos de situação: não só àquelas em que se verifica um Estes resíduos da concepção liberal vulgar podem ser encontrados em
processo regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se toda uma série de trabalhos que se dizem ligados à filosofia da praxís
e deram lugar a formas infantis de otimismo e a asneiras.
verifica um desenvolvimento progressista ou de prosperidade e
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mais, em virtude dos acontecimentos de 1870-1871, perde efi Um aspecto do mesmo problema é a chamada questão das
cácia o conjunto de princípios de estratégia e tática política nas relações de força. Lê-se com freqüência nas narrações histó
cidos praticamente em 1789 e desenvolvidos ideologicamente ricas a expressão: "relações de forças favoráveis, desfavoráveis
em tomo de 1848 (aqueles que se sintetizam na fórmula da a esta ou aquela tendência." Assim, abstratamente, esta formu
"revolução permanente".^ Seria interessante estudar os elemen lação não explica nada ou quase nada, pois o que se faz é
tos desta fórmula que se manifestaram na estratégia maziniana repetir o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez
pQj. gxemplo, a insurreição de 1853 em Náilao e se isto como fato e outra como lei abstrata e como explicação. Por
ocorreu conscientemente). Um elemento que demonstra a jus tanto, o erro teórico consiste em apresentar um elemento de
teza deste ponto de vista é o fato de que os historiadores de pesquisa e de interpretação como "causa histórica"..
modo nenhum concordam (e é impossível que concordem) ao Na "relação de força" é necessário distinguir diversos mo
fixar os limites daquela série de acontecimentos que constitui a mentos 011 graus, que no fundamental são estes:
Revolução Francesa. Para alguns (Salvemini, por exemplo), a 1) Uma relação de forças sociais estreitamente ligada à
Revolução se completa em Valmy: a França criou o novo estrutura, objetiva, independente da vontade dos homens, que
Estado e soube organizar a força político-militar que o sustenta pode ser medida com os sistemas das ciências exatas ou físicas.
e defende a sua soberania territorial. Para outros, a Revolução A base do grau de desenvolvimento das forças materiais de
continua até Termidor; mais ainda, eles falam de muitas révo- produção estruturam-se os agrupamentos sociais, cada um dos
lucões (o 10 de agosto seria uma revolução em si, etc.).2 A quais representa uma função e ocupa uma posição determinada
mLeira de interpretar Termidor e a obra de Napoleao apre- na produção. Esta relação é a que é, uma realidade rebelde:
^nta as mais agudas contradições: trata-se de revolução ou ninguém pode modificar o número das fazendas e dos seus
de contra-revolução? Para outros, a Revolução continua até agregados, o número das cidades com as suas populações de
iR-íO 1848 1870 e inclusive até a guerra mundial de 1914. terminadas, etc. Este dispositivo fundamental permite verificar
Fm todL estas maneiras de ver há uma parte de verdade. se na sociedade existem as condições necessárias e suficientes
Realmente as contradições internas da estrutura francesa, que para a sua transformação; permite controlar o grau de realismo
S »iv..depois ™ e de viabilidade das diversas ideologias que ela gerou durante
o seu curso.
anos de T
vida iiSrSiiSfs pof doSSís
política equiiiordod ucpu 2) O momento seguinte é a relação das forças políticas:
a avaliação do grau de homogeneidade, de autoconsciência e
formações em ondas cada vez maiores. 1789, 1794, 1 /99, 1804, de organização alcançado pelos vários grupos sociais. Por^ sua
í glT ísSO 1848, 1870. Ê exatamente o estudo dessas ondas" vez, este momento pode ser analisado e diferenciado em vários
dfdiferentes oscilações que permite reconstruir as relações en graus, que correspondem aos diversos momentos da consciência
tre estrutura e superstruturas, de um lado, e, de outro, as relações política coletiva, da forma como se manifestaram na História
entre o curso do movimento orgânico e o curso do movimento até agora. O primeiro e mais elementar é o econômico-corpo-
de conjuntura da estrutura. Assini, pode-se d'zer que a medi rativo: um comerciante sente que deve ser solidário^ com outro
ção dialética entre os dois princípios metodolcigicos enunciados comerciante, etc., mas o comerciante não se sente aindá^ solidá
no Início desta nota locallza-se na fórmula politico-histonca da rio com o fabricante. Assim, sente-se a unidade homogênea do
revolução permanente. grupo profissional e o dever de organizá-la, mas não ainda a
unidade do grupo social mais amplo. Um segundo momento e
1 Gramsci usa o termo revolução permariente para indicar a interpre aquele em que se adquire a consciência dá solidariedade de in
tação errada de Trotskl (uma transformação política levada a cabo por teresses entre todos os membros do grupo social, mas ainda no
uma minoria sem o apoio das grandes massas) a formula d arl Marx. campo meramente econômico. Neste momento já se coloca a
Por isso o autor a coloca entre aspas, (y* ® •' , „ . „
2 Cf. La Révoluíion française de A. Mathiez, na coleção A. Colm. questão do Estado, mas apenas visando a alcançar uma igual-
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dade político-jurídica com os grupos dominantes: reivindica-se cretas. Uma ideologia nascida num país desenvolvido difunde-
o direito de participar da le^slação e da administração e, talvez, se em países menos desenvolvidos, incindindo no jogo local das
de modificá-las, reformá-las, mas nos quadros fundamentais já combinações.^
existentes. Um terceiro momento é aquele em que se adquire Esta relação entre forças internacionais e forças nacionais
a consciência de que os próprios interesses corporativos, no seu ainda é complicada pela existência, no interior de cada Estado,
desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de diversas seções territoriais com estruturas diferentes e dife
de grupo meramente econômico, e podem e devem tornar-se os rentes relações de força em todos os graus (a Vandéia era alia
interesses de outros grupos subordinados. Esta é a fase mais da das forças reacionárias internacionais e representava-as no
abertamente política, que assinala a passagem nítida da estru seio da unidade territorial francesa; Lião, na Revolução Fran
tura para a esfera das superestruturas complexas; é a fase em cesa, representava um nó particular de relações, etc.).
que as ideologias germinadas anteriormente se transformam em 3) O terceiro momento é o da relação das forças militares,
"partido", entram em choque e lutam até que uma delas, ou imediatamente decisiva em determinados instantes. (O desen
pelo menos uma combinação delas, tende a prevalecer, a se volvimento histórico oscila contmuamente entre o primeiro e o
impor, a se irradiar em toda a áreà social, determinando, além terceiro momento, com a mediação do segundo). Mas esse
da unicidade dos fins econômicos e políticos, também a uni momento não é algo indistinto e que possa ser identificado ime
dade intelectual e moral. Coloca todas as questões em torno das
diatamente de forma esquemática. Também nele podem-se
quais se acende a luta não num plano corporativo, mas num distinguir dois graus: o militar, num sentido estrito ou
plano "universal", criando, assim, a hegemonia de um grupo técnico-militar, e o grau que pode ser denominado de político-
social fundamental sobre uma série de grupos subordinados. O
militar. No curso da História estes dois graus se apresen
Estado é concebido como organismo próprio de um grupo, des
tinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima des taram com uma grande variedade de combinações. Um exem
plo típico, que pode servir como demonstração-limite, é o da
se grupo. Mas este desenvolvimento e esta expansão são con relação de opressão militar de um Estado sobre uma nação que
cebidos e apresentados como a força motriz de uma expansão procura alcançar a sua independência estatal. A relação não
universal, de um desenvolvimento de todas as energias "nacio é puramente militar, mas político-militar. Efetivamente, tal tipo
nais" O grupo dominante coordena-se concretamente com os de opressão seria inexplicável se não existisse o estado de de
interesses gerais dos grupos subordinados, e a vida estatal é sagregação social do povo oprimido e a passividade da sua
concebida como uma contínua formação e superação de equiU- maioria. Portanto, a independência não poderá ser alcançada
brios instáveis (no âmbito da lei) entre os míeresses do grupo apenas com forças puramente militares, mas com forças inilita-
fundamental e os interesses dos grupos subordinados; equilibnos res e político-militares. Se a nação oprimida, para iniciar a
em que os interesses do grupo dominante prevalecem até um luta da independência, tivesse de esperar a permissão do Esta-
determinado ponto, excluindo o interesse economico-corpora-
tivo estreito. , , 1 A religião, por exemplo, sempre foi uma fonte dessas combinações
Na história real estes momentos se contundem reciproca ideológíco-políticas nacionais e internacionais; e, com a religião, as ou
mente, por assim dizer horizontal e verticalmente, segundo as tras formações internacionais: a inaçonaria, o Rotary Clube, os judeus,
a diplomacia de carreira, que sugerem expedientes políticos de origem
atividades econômicas sociais (horizontais) e segundo os terri histórica diferente e levam-nas a triunfar em determinados países, fun
tórios (verticais), combinando-se e dividindo-se alternadamen- cionando como partido político internacional que atua em cada nação
te. Cada uma destas combinações pode ser repre^ntada por com todas as suas forças internacionais concentradas.^ Uma religião, a
uma expressão orgânica própria, econômica e política. Tam maçonaria, os judeus, Rotary, etc., podem ser incluídos na categoria
social dos "intelectuais", cuja função, em escala internacional, e a de
bém é necessário levar em conta que, com estas relações inter mediar os extremos, "socializar" as inovações técnicas que permitem o
nas de um Estado-Nação, entrelaçam-se as relações internacio funcionamento de toda atividade de direção, de excogitar compromissos
nais, criando novas combinações originais e historicamente con- 6 saídas entre soluções extremas.

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Á
do dominante para organizar o seu exército no sentido estrito rupturas do equilíbrio social, afirma que, por volta de 1789, a
e técnico da palavra, deveria aguardar bastante tempo (pode situação econômica era mais do que boa, pelo que não se pode
ocorrer que a reivindicação seja concedida pela nação dominan dizer que a catástrofe do Estado absoluto tenha sido motivada
te, mas isto significa que uma grande parte da luta já foi tra por uma crise de empobrecimento. Deve-se observar que o
vada e vencida no terreno político-militar). Logo, a nação Estado estava às voltas com uma crise financeira mortal e devia
oprimida oporá inicialmente à força militar hegemônica uma optar sobre qual das três ordens sociais privilegiadas deveriam
força que é apenas "político-militar"; isto é, oporá uma forma recair os sacrifícios e o peso destinados a reordenar as finanças
de ação política com a virtude de determinar reflexos de cará estatais e reais. Além do mais, se a posição econômica da bur
ter militar no sentido de que: 1) seja capaz de desagregar inti guesia era próspera, certamente não era boa a situação das clas
mamente a eficiência bélica da nação dominante; 2) obrigue a
força militar dominante a diluir-se e dispersar-se num grande
ses populares das cidades e do campo, especialmente estas, ator
território, anulando grande parte da sua eficiência bélica. No mentadas pela miséria endêmica. De qualquer modo, a ruptura
Risorgimento italiano pode-se notar a ausência desastrosa de
do equilíbrio entre as forças não se verificou em virtude de
uma direção político-militar, especialmente no Partido da Ação causas mecânicas imediatas de empobrecimento do grupo social
(por incapacidade congênita), mas também no partido piemon- interessado em romper o equilíbrio, e que de fato rompeuj mas
tês-moderado, tanto antes como depois de 1848. Isto ocorreu verificou-se no quadro de conflitos acima do mundo economico
não por incapacidade, mas por "malthusianismo econômico- imediato, ligados ao "prestígio" de classe (interesses econômicos
político", porque não se pretendeu nem ao menos acenar com futuros), a uma exasperação do sentimento de independência,
a possibilidade de uma reforma agrária e porque não se queria de autonomia e de poder. A questão particular do mal-estar ou
a convocação de uma assembléia nacional constituinte. Só se do bem-estar econômico como causa de novas realidades his
queria que a monarquia piemontesa, sem condições ou limitações tóricas é um aspecto parcial da questão das relações de força
de origem popular, se estendesse a toda a Itália com a simples nos seus vários graus. Podem-se verificar novidades, tanto por
sanção de plebiscitos regionais. que uma situação de bem-estar é ameaçada pelo egoísmo mes
Outra questão ligada às precedentes é a de se ver se as quinho de um grupo adversário, como porque^ o mal-estar se
crises históricas fundamentais são determinadas imediatamente tornou intolerável e não se percebe na velha sociedade nenhuma
pelas crises econômicas. A resposta à questão está implicita força que seja capaz de minorá-lo e de restabelecer a normali
mente contida nos parági*afos anteriores, onde as questões tra dade através de medidas legais. Portanto, pode-se dizer que
tadas constituem outro modo de apresentar o problema ao qual todos estes elementos são a manifestação concreta das flutua
nos referimos agora. Todavia é sempre necessário, por motivos ções de conjuntura do conjunto das relações sociais de força,
didáticos devidos ao público particular, examinar cada modo sobre cujo terreno verifica-se a passagem destas^relações
sob o qual se apresenta uma mesma questão, como se fosse relações políticas de força, culminando na relação militar de
um problema independente e novo. Inicialmente, pode-se excluir cisiva.
que, de per si, as crises econômicas imediatas produzam acon Interrompendo-se este processo de desenvolvimento de um
tecimentos fundamentais; apenas podem criar um terreno favo momento para outro, e ele é essencialmente um processo que
rável à difusão de determinadas maneiras de pensar, de formu tem como atores os homens e a vontade e a capacidade nos
lar e resolver as questões que envolvem todo o curso ulterior homens, a situação mantém-se inerte, podendo dar lugar a con
da vida estatal. De resto, todas as afirmações referentes a perío clusões contraditórias: a velha sociedade resiste e assegura um
dos de crise ou de prosperidade podem dar margem a juízos período de "alívio", exterminando fisicamente a élíte ^ adversa
unilaterais. No seu compêndio de História da Revolução Fran ria e aterrorizando as massas de reserva; ou então verifica-se a
cesa, Mathiez, opondo-se à história vulgar tradicional, que aprio- destruição recíproca das forças em luta com a instauração da
risticamente "acha" uma crise para coincidr com as grandes paz dos cemitérios, talvez sob a vigilância de um sentinela es
trangeiro.
52 53

_.jéL
Mas a observação mais importante a ser feita a propósito parlamentar, organização jornalística)' refletem-se em todo o
de qualquer análise concreta das relações de torça, é esta: tais organismo estatal, reforçando a posição relativa do poder da
análises não se encerram em si mesmas (a menos que não se burocracia (civil e militar), da alta finança, da Igreja e em
escreva um capítulo da história do passado), mas só adquirem geral de todos os organismos relativamente independentes das
um significado se servem para justificar uma atividade prática, flutuações da opinião pública? O processo é diferente em cada
uma iniciativa de vontade. Elas indicam quais são os pontos país, embora o conteúdo seja o mesmo. E o conteúdo é a
débeis de resistência onde a força da vontade pode ser aplicada crise de hegemonia da classe dirigente, que ocorre ou porque a
mais frutiferamente, sugerem as operações táticas imediatas
indicam a melhor maneira de empreender uma campanha de classe dirigente faliu em determinado grande empreendimento
agitação política, a linguagem que será melhor compreendida político pelo qual pediu ou impôs pela força o consentimento
pelas multidões, etc. O elemento decisivo de cada situação é a das grandes massas (como a guerra), ou porque amplas mas
força permanente organizada e antecipadamente predisposta, sas (especialmente de camponeses e de pequenos burgueses in
que se pode fazer avançar quando se manifestar uma- situação telectuais) passaram de repente da passividade política a cer
favorável (e só é favorável na medida em que esta força exista ta atividade e apresentaram reivindicações que, no seu com
e esteja carregada de ardor combativo). Por isso, a tarefa essen plexo desorganizado, constituem uma revolução. Fala-se de "cri
cial consiste em cuidar sistemática e pacientemente da forma se de autoridade", mas, na realidade, o que se verifica é a
ção, do desenvolvimento, da unidade compacta e consciente de crise de hegemonia, ou crise do Estado no seu conjunto.
si mesma, desta força. Comprova-se isto na história militar e A crise cria situações imediatas perigosas, pois as diver
no cuidado com que, sempre, os exércitos mostraram-se predis sas camadas da população não possuem a mesma capacidade
postos a iniciar uma guerra em qualquer momento. Os grandes de orientar-se rapidamente e de se reorganizar com o mesmo
Estados eram grandes Estados exatamente porque sempre esta ritmo. A classe dirigente tradicional, que tem um numeroso
vam preparados para se inserir eficazmente nas conjunturas in pessoal preparado, muda homens e programas e retoma o
ternacionais favoráveis, e o eram porque havia a possibilidade controle que lhe fugia, com uma rapidez maior do que a que
concreta de inserirem-se eficazmente nelas. se verifica entre as classes subalternas. Talvez faça sacrifícios,
exponha-se a um futuro sombrio com promessas demagógicas,
Observações sobre alguns aspectos da estrutura dos par mas mantém o poder, reforça-o momentaneamente e serve-se
dele para esmagar o adversário e desbaratar os seus dirigentes,
tidos políticos nos períodos de crise orgânica. Num determi que não podem ser muitos e adequadamente preparados. A
nado momento da sua vidá histórica, os grupos sociais se afas unificação das tropas de muitos partidos sob a bandeira de um
tam dos seus partidos tradicionais, isto é, os partidos tradi partido único, que representa melhor e encarna as necessidades
cionais com uma determinada forma de organização, com de de toda a classe, é um fenômeno orgânico e normal, mesmo se
terminados homens que os constituem, representam e dirigem, o seu ritmo for muito rápido e fulminante em relação aos tem
não são mais reconhecidos como expressão própria da sua pos tranqüilos: representa a fusão de todo um grupo social sob
classe ou fração de classe. Quando se verificam estas crises, uma só direção, considerada á única capaz de resolver um pro
a situação imediata torna-se delicada e perigosa, pois abre-se o blema existencial dominante e afastar um perigo mortal. Quan
campo às soluções de força, à atividade de podêres ocultos, re do a crise não encontra esta solução orgânica, mas a solução
presentados pelos homens providenciais ou carismáticos. do chefe carismático, isto significa que existe um equilíbrio
Como se formam estas situações de contraste entre "re estático (cujos fatores podem ser despropositados, mas nos
quais prevalece a imaturidade das forças progressistas); signi
presentados e representantes", que do terreno dos partidos (or fica que nenhum grupo, nem o conservador nem o progressis-
ganizações de partido num sentido estrito, campo eleitoral-
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ta, dispõe da força para vencer e que também o grupo conser cito, de não fazê-lo sair da constitucionalidade, de não levar
vador tem necessidade de um patrão^. a política aos quartéis, como se diz, para manter a homoge
Esta ordem de fenômenos está ligada a uma das ques neidade entre oficiais e soldados num terreno de aparente neu
tões mais importantes, concernentes ao partido político; isto tralidade e superioridade sobre as facções; porém, é o exérci
é, à capacidade de reação do partido contra o espírito consue- to, isto é, o Estado-Maior e a oficialidade, quem determina a
tudinário, contra as tendências mumificadoras e anacronísticas. nova situação e a domina. Por outro lado, não é verdade que
Os partidos nascem e se constituem em organizações para di- o exército, segundo as Constituições, jamais deve fazer políti
ri^r a situação em momentos historicamente vitais para as suas ca; o exército deveria exatamente defender a Constituição, a
classes; mas nem sempre eles sabem adaptar-se às novas tare forma legal do Estado e as instituições conexas; por isso, a
fas e às novas épocas, nem sempre sabem desenvolver-se de chamada neutralidade significa apenas apoio à parte retrógra
acordo com o desenvolvimento do conjunto das relações de da. Em tais situações, torna-se necessário colocar a questão
força (portanto, a posição relativa das classes que represen dessa maneira para impedir que se reproduza no exército a
tam) no país a que pertencem ou no campo internacional. Ao divisão do país, e que desapareça, através da desagregação do
analisar-se o desenvolvimento dos partidos é necessário dis
tinguir: o grupo social, a massa partidária, a burocracia e o
instrumento militar, o poder determinante do Estado-Maior. Na
Estado-Maior do partido. A burocracia é a força consuetudi-
verdade, todos estes elementos de observação não são abso
lutos; o seu peso é muito diferente nos diversos momentos his
nária e conservadora mais perigosa; se ela chega a constituir tóricos e nos vários países.
um corpo solidário, voltado para si e independente da massa
o partido acaba se tornando anacrônico, e nos momentos de A primeira indagação que se deve fazer é esta: existe num
crise aguda é esvaziado do seu conteúdo social e permanece determinado país uma camada social ampla para a qual a car
como que solto no ar. Veja-se o que está ocorrendo com uma reira burocrática, civil e militar, constitui um elemento muito
série de partidos alemães, em virtude da expansão do hitleris- importante de vida econômica e afirmação política (participa
mo. Os partidos franceses constituem um terreno rico para tais ção efetiva no poder, mesmo indiretamente, pela "chantagem")?
investigações: estão todos mumificados e são anacrônicos; não Na Europa moderna esta camada pode ser localizada na pe
passam de documentos históricos-políticos das diversas fases da quena e média burguesia rural, que é mais ou menos nume
história passada francesa, da qual repetem a terniinologia en rosa nos diversos países de acordo com o desenvolvimento das
velhecida; a sua crise pode-se tornar mais catastrófica do que forças industriais, de um lado, e da reforma agrária, de outro)
a dos partidos alemães. É claro que a carreira burocrática (civil e militar) não é um
Ao examinar-se esta ordem de acontecimentos, é comum monopólio desta camada social: todavia, ela lhe é particular
deixar de colocar no seu devido lugar o elemento burocrático, mente apta em virtude da função social que esta camada rea
civil e militar; e também não se leva em conta que em tais liza e das tendências psicológicas que a função determina pu
análises não devem entrar apenas os elementos militares e bu favorece. Estes dois elementos dão ao conjunto do grupo so
rocráticos existentes, mas as camadas sociais entre as quais, cial certa homogeneidade e energia para dirigir, e, portanto,
nos diferentes complexos estatais, a burocracia e tradicional um valor político e uma função muitas vezes decisiva no âm
mente recrutada. Um movimento político pode ser de caráter bito do organismo social. Os elementos deste grupo estão ha
abertamente militar, mesmo se o exército como tal não parti bituados a comandar diretamente núcleos de homens, mesmo
cipa abertamente dele; um governo pode ser de caráter militar, exíguos, e a comandar "politicamente", não "economicamente";
na sua arte de comando não existe a disposição de ordenar
mesmo se o exército não participa dele.^ Em determinadas si as "coisas", de "ordenar homens e coisas" num todo orgânico,
tuações pode-se dar a conveniência de não "descobrir" o exér- como ocorre na produção industrial, pois este grupo não tem
1 Cf. O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte. funções econômicas no sentido moderno da palavra. Ele tem

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uma renda porque juridicamente é proprietário de uma parte deve ser entendida neste sentido, e não em sentido absoluto; o
do solo nacional, e a sua função consiste em impedir "politi que não é pouco^. Deve-se notar como este caráter "militar"
camente" o camponês cultivador de melhorar a sua existência, do grupo social em questão, que era tradicionalmente um re
pois qualquer melhoria da posição relativa do camponês seria flexo espontâneo de determinadas condições de existência, é
catastrófica para a sua posição social. A miséria crônica e o agora conscientemente educado e predisposto organicamente.
trabalho prolongado do camponês, com o conseqüente embru-
tecimento, representam para ele uma necessidade primordial. Enquadram-se neste movimento consciente os esforços siste
Por isso emprega a máxima energia na resistência e no contra-
máticos para criar e manter permanentemente diversas asso
ataque à mínima tentativa de organização autônoma do tra ciações de militares reformados e de ex-combatentes dos vários
balho camponês e a qualquer movimento cultural camponês corpos e armas, ligadas aos Estados-Maiores e capazes de se
que ultrapasse os limites da religião oficial. Os limites deste rem mobilizadas quando necessário. Isto evitaria a necessidade
grupo social e as razões da sua fraqueza íntima situam-se na de mobilizar o exército regular, que manteria, assim, o seu
sua dispersão territorial e na "não-homogeneidade" intimamen caráter de reserva em estado de úlerta, reforçada e imune à
te ligada a esta dispersão. Isto também explica outras caracte decomposição política destas forças "privadas" que não pode
rísticas: a volubilidade, a multiplicidade dos sistemas ideoló riam deixar de influir sobre o seu "moral", sustentando-o e
gicos a que aderem, o próprio exotismo das ideologias algumas fortalecendo-o. Pode-se dizer que ocorre um movimento do
vezes encampadas. A vontade está decididamente orientada pa tipo "cossaco", não em formações escalonadas dentro dos li
ra um fim, mas é vagarosa e freqüentemente necessita de um mites da nacionalidade, como se verificava com os cossacos
longo processo para centralizar-se orgânica e politicamente. O czaristas mas dentro dos "limites" de grupo social. Portanto,
processo se acelera quando a "vontade" específica desse grupo em toda uma série de países, a influência do elemento militar
coincide com a vontade e os interesses imediatos da classe alta* na vida estatal não significa apenas influência e peso do ele
não só o processo se acelera, como manifesta-se repentinamen mento técnico militar, mas influência e peso da camada social
te á "força militar" dessa camada, que algumas vêzes, depois fundamental de origem do elemento técnico-militar (especial
de se organizar, dita leis à classe alta, se não pelo conteúdo mente os oficiais subalternos). Esta série de observações é
pelo menos no que se refere à "forma" da solução. Observa-se indispensável para a análise do aspecto mais íntimo daquela
neste caso o funcionamento das mesmas leis que se configu determinada forma política que se convencionou chamar de
raram nas relações cidade-campo no tocante às classes subal cesarismo ou bonapartismo; para distingui-la de outras formas
ternas: a força da cidade automaticamente se transforma em em que o elemento técnico-militar como tal predomina sob
força do campo. Mas, em virtude de que no campo os confli formas talvez ainda mais destacadas e exclusivas.
tos logo assumem uma forma aguda e "pessoal", dada a ausên A Espanha e a Grécia oferecem dois exemplos típicos,
cia de margens econômicas e a normalmente mais pesada pres com aspectos semelhantes e diversos. Na Espanha é preciso le
são de cima para baixo, assim, no campo, os contra-ataques var em conta algumas particularidades: tamanho do território
devem ser mais rápidos e decisivos. Este grupo compreende e e baixa densidade da população rural. Não existe, entre o lati
vê que a origem das suas preocupações esta nas cidades, na fundiário nobre e o camponês, uma numerosa burguesia rural;
força das cidades, e por isso entende de "dever" ditar a solução 1 Pode-se ver um reflexo deste grupo na atividade ideológica dos in
às classes altas urbanas, a fim de que o foco seja apagado, telectuais conservadores de direita. O livro de Gaetano Mosca, Teó
mesmo se isto não for da conveniência imediata das classes ali rica dei govemi e governo parlameníare (segunda edição de 1925, pri
meira edição de 1883) é exemplar a este respeito; já em 1883 Mosca
tas urbanas, seja porque muito dispendioso, ou porque perigoso se aterrorizava com um possível contato entre cidade e campo. Mosca,
a longo prazo (estas classes vêem ciclos mais amplos de desen pela sua posição defensiva (de contra-ataque), compreendia melhor em
volvimento nos quais é possível manobrar, e não apenas o in 1883 a técnica da política das classes subalternas do que a compreen
teresse "físico" imediato). A função dirigente desta camada deram, mesmo alguns decênios depois, os representantes destas forças
subalternas, inclusive urbanas.

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portanto, era escassa a importância da oficialidade subalterna
como força em si (ao contrário, tinha certa importância de
se desagregue horizontalmente (permanecerá neutro até certo
antagonista a oficialidade das armas especializadas, artilharia e ponto, entenda-se). Em lugar dele, entra em ação a classe mi
engenharia, de origem burguesa urbana, que se opunha aos litar burocrática, que, utilizando meios militares, sufoca o mo
generais e procurava ter uma política própria). Assim, os go vimento no campo (de iiíiediato o mais perigoso). Nesta luta,
vernos militares são governos de "grandes" generais. Passivi o movimento no campo registra certa unificação política e
dade das massas camponesas como população e qomo tropa. ideológica, encontra aliados nas classes médias urbanas (médias
Se no exército verifica-se desagregação política, é em sentido no sentido italiano) reforçadas pelos estudantes de origem ru
vertical, não horizontal, fruto da competição entre as cama ral que vivem nas cidades, impõe os seus métodos políticos às
rilhas dirigentes: a tropa se divide para seguir os chefes em classes altas, as quais devem fazer muitas concessões e permi
luta entre si. O governo militar é um parêntese entre dois go tir uma determinada legislação favorável. Enfim, consegue, até
vernos constitucionais; o elemento militar é a reserva perma um determinado ponto, permear o Estado de acordo com os
nente da ordem e do conservadorismo, é uma força política seus interesses e substituir uma parte dos quadros dirigentes;
que atua "publicamente" quando a "legalidade" está em peri continuando a se manter armado no desarmamento geral, de
go, O mesmo ocorre na Grécia, com a diferença de que o ter senha a possibilidade de uma guerra civil entre os seus adep
ritório grego se espalha num sistema de ilhas e de que uma tos armados e o exército regular, no caso de a classe alta mos
parte da população mais enérgica e ativa está sempre no mar trar muita disposição de resistência. Estas observações não de
o que torna mais fácil a intriga e a conspiração militar. C) vem ser concebidas como esquemas rígidos, mas apenas como
camponês grego é passivo como o espanhol; mas, no quadro critérios práticos de interpretação histórica e política. Nas aná
da população total, quando, por ser marinheiro, o grego mais lises concretas de fatos reais, as formas históricas são caracte
enérgico e ativo está quase sempre longe do seu centro de vida rísticas e quase "únicas". César representa uma combinação
política, a passividade geral deve ser analisada diversamente de circunstâncias reais bastante diversa da combinação repre
e a solução do problema não pode ser a mesma (o fuzilamen sentada por Napoleão I, da mesma forma que Primo de Rivera,
to dos membros de um governo derrubado, há alguns anos' Zivkovich, etc.
provavelmente deve ser explicado como uma explosão de có
lera deste elemento enérgico e ativo, que pretendeu dar umã Na análise do terceiro grau ou momento do sistema das
sangrenta lição). O que se deve observar especialmente é que relações de força existentes numa determinada situação, pode-
na Grécia e na Espanha, a experiência do governo militar não se recorrer proveitosamente ao conceito que na ciência militar
criou uma ideologia política c social permanente e formalmente é conhecido por "conjuntura estratégica", ou seja, mais preci
orgânica, como sucede nos países potencialmente bonapartis- samente, ao grau de preparação estratégica do teatro da luta,
tas, para usar a expressão. Mas as condições históricas gerais do qual um dos elementos principais é fornecido pelas condi
dos dois tipos são as mesmas: equilíbrio dos grupos urbanos ções qualitativas do pessoal dirigente das forças ativas que po
em luta, o que impede o jogo da democracia "normal", o par dem ser chamadas de primeira linha (incluídas nestas as forças
lamentarismo; a influência do campo neste equilíbrio, entre de assalto). O grau de preparação estratégica pode dar a vitó
tanto, é diferente. Nos países como a Espanha, o campo, com ria a forças "aparentemente" (isto é, quantitativamente) in
pletamente passivo, permite aos generais da nobreza latifun feriores às do adversário. Pode-se dizer que a preparação es
diária servirem-se politicamente do exército para restabelecer tratégica tende a reduzir a zero os chamados "fatores impon
o equilíbrio em perigo, isto é, o triunfo dos grupos altos. Em deráveis", as reações instântaneas de surpresa, num determi
outros países o campo não é passivo, mas o seu movimento nado momento, adotadas por forças tradicionalmente inertes
não está politicamente coordenado com o urbano: o exército
e passivas. Devem ser computados entre os elementos da pre
deve permanecer neutro, pois é possível que de outro modo ele
paração de uma conjuntura estratégica favorável aqueles con
siderados nas observações sobre a existência e a organização
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de uma camada militar ao lado do organismo técnico do exér
cito nacional^.
recebida com disciplina intelectual e como meio para promo
ver formas de juízo não discordantes e uniformidade de lin
Outros elementos podem ser elaborados a partir deste tre guagem, de modo a permitir a todos que compreendam e se
cho do discurso pronunciado no Senado, em 19 de maio de façam compreender. Se, às vezes, a unidade doutrinária amea
1932, pelo Ministro da Guerra, General Gazzera (cf. Corrie- çou degenerar em esquematismo, a reação foi imediata, im
re delia Sera de 20 de maio): "O regime disciplinar do nosso
primindo à tática, inclusive através dos progressos da técnica,
exército constitui hoje, graças ao fascismo, uma diretiva para uma rápida renovação. Portanto, esta regulamentação não é
toda a nação. Outros exércitos tiveram e ainda têm uma dis
ciplina formal e rígida. Nós temos sempre presente o princí estática, não é tradicional, como alguns crêem. A tradição é
pio de que o exército é feito para a guerra e que para ela considerada apenas como força, e os regulamentos estão sem
deve-se preparar; portanto, a disciplina de paz deve ser a mes pre em curso de revisão, não por desejo de mudança, mas
ma disciplina do tempo de guerra, que no tempo de paz deve para podê-los adequar à realidade". (Um exemplo de "prepa
encontrar o seu fundamento espiritual. A nossa disciplina ba ração da conjuntura estratégica" pode ser encontrado nas Me
seia-se no espírito de coesão entre chefes e gregários, coesão que mórias de Churchill, no trecho em que fala da batalha da Ju-
é fruto espontâneo do sistema seguido. Este sistema resistiu tlândia,)
magnificamente, durante uma longa e duríssima guerra, até à
vitória; é mérito do re^me fascista ter levado a todo o povo
italiano uma tradição disciplinar tão insigne. Da disciplina de O cesarísmo. César, Napoleão I, Napoleão III, Cromwell,
cada um depende o êxito da concepção estratégica e das ope e outros. Compilar um catálogo dos eventos históricos que
rações táticas. A guerra ensinou muitas coisas, inclusive que culminaram numa grande personalidade "heróica".
há uma separação profunda entre a preparação de paz e a Pode-se afirmar que o cesarismo exprime uma situação
realidade da guerra. É claro que, qualquer que seja a prepa em que as forças em luta se equilibram de modo catastrófico,
ração, as operações iniciais da campanha colocam os belige isto é, equilibram-se de tal forma que a continuação da luta só
rantes diante de problemas novos que dão lugar a surpresas pode levar à destruição recíproca. Quando a força progres
de uma parte e de outra. Por isso, não se deve chegar à con sista A luta contra a força reacionária B, não só pode ocorrer
clusão de que não é útil formular uma concepção a priori e que A vença B ou B vença A, mas também pode suceder que
que nenhum ensinamento pode ser extraído da guerra passada. nem A nem B vençam, porém se aniquilem mutuamente, e
Pode-se extrair dela uma doutrina de guerra, que deve ser uma terceira força, C, intervenha de fora submetendo o^ que
resta de ^4 e de B. Na Itália, depois da morte do Magnífico,
1 A propósito da "camada militar", é interessante o que escreve T. sucedeu exatamente isto.
Tittoni, em Ricofdi personoli di política iníema, Ntiova AxitoloníQ Mas o cesarismo, se exprime sempre a solução "arbitrai",
1-16 de abril de 1929. Confessa Tittoni ter meditado sobre o fato de
3ue, para reunir a força pública necessária a enfrentar os tumultos eclo-
idos numa localidade, era necessário desguarnecer outras regiões. Du
confiada a uma grande personalidade, de uma situação histó-
rico-política caracterizada por um equilíbrio de forças de pers
rante a Semana Vermelha de funho de 1914, foi necessário desguarnecer pectiva catastrófica, não tem sempre o mesmo significado his
Ravenna para reprimir os motins de Ancona. Em seguida, privado da tórico. Pode haver um cesarismo progressista e um cesarismo
força pública, o prefeito de Ravenna teve de se trancar na prefeitura, reacionário; mas em última análise, o significado exato de cada
abandonando a cidade aos revoltosos. "Muitas vezes perguntei a mim
mesmo o que poderia fazer o governo se um movimento de revolta ti forma de cesarismo só pode ser reconstruído pela historia con
vesse eclodido simultaneamente em toda a península . Tittoni propôs ao creta, e não por um esquema sociológico. O cesarismo é pro
governo a criação dos "voluntários da ordem", ex-combatentes dirigidos gressista quando a sua intervenção ajuda a força progressista
por oficiais reformados. O projeto de Tittoni parece que obteve alguma a triunfar, mesmo com certos compromissos e medidas que
consideração, mas não teve seqüência.
limitam a vitória; é reacionário quando a sua intervenção aju-
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da a força reacionária a triunfar, também neste caso com de campo a mesma situação examinada a propósito da fórmula
terminados compromissos e limitações que têm um valor, um jacobino-revolucionária da chamada "revolução permanente"^.
alcance e um significado diversos, opostos aos do caso prece A técnica política moderna mudou completamente depois de
dente. César e Napoleão I são exemplos de cesarismo progres 1848, depois da expansão do parlamentarismo, do regime as
sista. Napoleão III e Bismarck de cesarismo reacionário.
sociativo sindical e partidário, da formação de amplas buro
Trata-se de ver se na dialética "revolução-restauração" é cracias estatais e "privadas" (político-privadas, partidárias ú
o elemento revolução ou o elemento restauração que prevalece, sindicais) e das transformações que se verificaram na política
já que é certo que no movimento histórico jamais se volta atrás, num sentido mais largo, isto é, não só do serviço estatal des
e não existem restaurações in toto. De resto, o cesarismo é uma tinado à repressão da delinqüência, mas do conjunto das for
fórmula polêmico-ideológica, e não um cânone de interpre ças organizadas pelo Estado e pelos particulares para tutelar
tação histórica. É possível haver uma solução cesarista mesmo o domínio político e econômico das classes dirigentes. Neste
sem um César, sem uma personalidade "heróica" e represen sentido, inteiros partidos "políticos" e outras organizações eco
tativa. Também o sistema parlamentar criou um mecanismo nômicas ou de outro gênero devem ser considerados organis
para tais soluções de compromisso. Os governos "trabalhistas" mos de polícia política, e de caráter investigativo e preventivo.
de MacDonald eram, num determinado grau, soluções dessa O esquema genérico das forças A e B em luta com uma pers
natureza; o grau de cesarismo elevou-se quando foi formado o pectiva catastrófica, isto é, com a perspectiva de que nem A
governo com MacDonald na presidência e uma maioria con nem B vençam na luta para constituir (ou reconstituir) um
servadora. Da mesma forma na Itália, em outubro de 1922 equilíbrio orgânico, da qual nasce (pode nascer) o cesarismo,
até o afastamento dos "populares", e depois, gradualmente, até é precisamente uma hipótese genérica, um esquema socioló
3 de janeiro de 1925, e ainda até 8 de novembro de 1926 gico (conveniente para a arte política). A hipótese pode-se
verificou-se um movimento histórico-político em que diversas tornar sempre mais concreta, pode ser levada a um grau sem
gradações de cesarismo se sucederam até uma forma mais pura pre maior de aproximação da realidade histórica concreta, o
e permanente, embora também esta não imóvel e estática. Ca que pode ser obtido determinando alguns elementos funda
da governo de coalizão é um grau inicial de cesarismo, que mentais.
pode ou não se desenvolver até graus mais significativos (ao Assim, falando de e de J5 só se disse que elas são uma
contrário, a opinião vulgar é a de que os governos de coalizão força genericamente progressista e uma força genericamente
constituem o mais "sólido baluarte" contra o cesarismo). No reacionária. Pode-se precisar de que tipo de forças pro^es-
mundo moderno, com as suas grandes coalizões de caráter sistas e reacionárias se trata e, desse modo, alcançar maiores
econômico-sindical e político partidário, o mecanismo do fe aproximações. Nos casos de César e Napoleão pode-se dizei
nômeno cesarista é muito diferente do que foi até Napoleão que A e B, mesmo sendo distintas e contrastantes, não eram
III. No período que culminou com Napoleão III, as forças forças tais que não pudessem "absolutamente" chegar' a uma
militares regulares ou de fileira constituíam um elemento de fusão e assimilação recíproca depois de um processo molecular;
cisivo para o advento do cesarismo, que se verificava através o que de fato ocorreu, pelo menos em certa medida (todavia
de golpes de Estado precisos, de ações militares, etc. No mun suficiente para os objetivos histórico-políticos da cessação da
do moderno, as forças sindicais e políticas, com os meios fi luta orgânica fundamental e, portanto, para a superação da
nanceiros incalculáveis de que podem dispor pequenos grupos fase catastrófica). Este é um elemento de maior aproximação.
de cidadãos, complicam o problema. Os funcionários dos par Outro elemento é o seguinte: a fase catastrófica pode emergir
tidos e dos sindicatos econômicos podem ser corrompidos ou em virtude de uma deficiência política "momentânea" da força
aterrorizados sem que haja necessidade de ações militares em dominante tradicional, e não agora em virtude de uma defi-
grande estilo, tipo César ou 18 Brumário. Reproduz-se neste
^ Ver nota na pág. 42. (N. do T.)
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ciência orgânica necessariamente insuperável. Foi o que se ve to progressistas como reacionários ou de caráter intermediá
rificou no caso de Napoleão III. A força dominante na Fran rio episódico, qualquer novo fenômeno histórico derive do equi
ça de 1815 a 1848 dividira-se politicamente (sediciosamente) líbrio entre as forças "fundamentais"; também é necessário
em quatro frações: a legitimista, a orleanista, a bonapartista examinar as relações supervenientes entre os grupos principais
e a jacobino-republicana. As lutas internas entre as facções (de gênero diferente, social-econômico e técnico-econômico)
eram de tal ordem que tornavam possível o avanço da força das classes fundamentais e as forças auxiliares guiadas ou sub
antagonista B {progressista) de forma "precoce"; mas a for metidas à influência hegemônica. Desse modo não se compre
ma social existente ainda não exaurira as suas possibilidades enderia o golpe de Estado de 2 de dezembro sem se estudar a
de desenvolvimento, como a História em seguida provou abun função dos grupos militares e dos camponeses franceses.
dantemente. Napoleão III representou (à sua maneira, de acor Um episódio histórico muito importante desse ponto de
do com a estatura do homem, que era grande) estas possibili vista é o- chamado movimento provocado pelo caso Dreyfus
dades latentes e imanentes: o seu cesarismo, assim, tem um na França; também ele deve ser considerado nesta série de
colorido particular. O cesarismo de César e de Napoleão I observações, não porque tenha levado ao "cesarismo", mas
foi, por assim dizer, de caráter quantitativo-qualitativo, repre exatamente pelo contrário: porque impediu a ocorrência de
sentou a fase histórica de passagem de um tipo de Estado um cesarismo de caráter nitidamente reacionário, que estava
para outro, uma passagem em que as inovações foram tantas em gestação. O movimento Dreyfus é característico, porque
e de tal ordem que representaram uma transformação com são elementos do mesmo bloco social dominante que frustram
pleta. O cesarismo de Napoleão III foi só e limitadamente o cesarismo da sua parte mais reacionária, apoiando-se não
quantitativo, não se verificou a passagem de um tipo de Estado nos camponeses, no campo, mas nos elementos subordinados
para outro, mas só "evolução" do mesmo tipo, segundo uma da cidade, guiados pelo reformismo socialista (e também na
linha ininterrupta. parte mais avançada das massas camponesas). Encontramos
No mundo moderno, os fenômenos de cesarismo são in outros movimentos histórico-políticos modernos do tipo Drey
teiramente diversos, tanto daqueles do tipo progressista César- fus que não são, certamente, revoluções, mas também não são
Napoleão I, como também daqueles do tipo Napoleão III inteiramente reacionários, tendo em vista que rompem crista
embora se aproximem deste último. No mundo moderno o lizações sufocantes no campo dominante e inserem na vida do
equilíbrio com perspectivas catastróficas não se verifica entre Estado e nas atividades sociais um pbssoal diferente e mais
forças que, em última análise, poderiam fundir-se e unificar-se numeroso do que o precedente. Inclusive estes movimentos po
mesmo depois de um processo fatigante e sangrento, mas en dem ter um conteúdo relativamente "progressista" na medida
tre forças cujo contraste é insanável historicamente, e que se em que assinalam a existência, na velha sociedade, de forças
aprofunda com o advento de formas de cesarismo. Todavia atuantes latentes não desfrutadas pelos velhos dirigentes; mes
o cesarismo no mundo moderno ainda encontra uma margem' mo sendo "forças marginais", não são absolutamente progres
maior ou menor, de acordo com os países e o seu peso rela sistas, pois não podem "marcar época". Tornam-se historica
tivo na estrutura mundial, já que uma forma social "sempre" mente eficientes em virtude da debilidade construtiva.do anta
tem possibilidades marginais de desenvolvimento ulterior e de gonista, não de uma força própria interior, fato que as liga a
sistematização organizativa. Ela pode contar especialmente com uma situação determinada de equilíbrio das forças em lutá,
a fraqueza relativa da força progressista antagonista, devida ambas incapazes de exprimir uma vontade construtiva peculiar
à sua natureza e ao seu modo de vida particular, fraqueza que no seu próprio campo.
deve ser mantida: por isso afirmou-se que o cesarismo moder
no mais do que militar é policial.
Seria um erro de método (um aspecto do mecanicismo Luta política e guerra militar. Na guerra militar, alcan
sociológico) considerar que, nos fenômenos de cesarismo, tan- çado o objetivo estratégico — destruição do exército inimigo
66 67
e ocupação do seu território — chega-se à paz. Além do mais, Tratamento à parte deve ser dado à questão dos comitagi bal
deve-se observar que, para que a guerra termine, é bastante cânicos, que estão ligados a condições particulares do ambiente
que o objetivo estratégico seja alcançado apenas potencialmen físico-geográfico regional, à formação das classes rurais e tam
te: é suficiente não haver mais dúvidas de que um exército bém à eficiência real dos governos. O mesmo se deve fazer em
não pode mais lutar e de que o exército vitorioso "pode" relação aos grupos irlandeses, cuja forma de guerra e de or
ocupar o território inimigo. A luta política é muitíssimo mais ganização se vinculava à estrutura social irlandesa. Os comi
complexa: em certo sentido pode ser comparada às guerras tagi, os irlandeses e as outras formas de guerra de guerrilhas
coloniais ou às velhas guerras de conquista, quando o exér devem ser separadas da questão do arditismo, embora pareçam
cito vitorioso ocupa ou se propõe ocupar permanentemente to ter pontos de contato com ele. Estas formas de luta são pró
do ou uma parte do território conquistado. Então, o exército prias de minorias débeis, mas exasperadas, contra maiorias
vencido é desarmado e dissolvido, mas a luta continua no bem organizadas; enquanto que o arditismo moderno pres
terreno político e da "preparação" militar. supõe uma grande reserva, imobilizada por várias razões, mas
Assim a luta política da índia contra os ingleses (e, em potencialmente eficiente, que o sustenta e alimenta com con
certa medida, a luta da Alemanha contra a França ou da Hun tribuições individuais.
gria contra a Pequena Entente) conhece três formas de guer A relação existente em 1917-18 entre as" formações de
ra: de movimento, de posição e subterrânea. A resistência pas assalto e o exército no seu complexo pode levar e já levou os
siva de Gandhi é uma guerra de posição, que em determinados dirigentes políticos a errôneas formulações de planos de luta.
momentos se transforma em guerra de movimento e, em outros, Esquece-se: 1) que os grupos de assalto (arditi) são simples
em guerra subterrânea: o boicote é guerra de posição, as gre formações táticas e pressupõem um exército pouco eficiente,
ves são guerras de movimento, a preparação clandestina de mas não completamente inerte: pois se a disciplina e o espíri
armas e elementos combativos de assalto é guerra subterrânea. to militar relaxaram até ao ponto de aconselhar uma nova dis
Há uma forma de arditismo; mas ela é empregada com muita posição tática, em certa m^ida não deixaram de existir, pois
ponderação. Se os ingleses estivessem convencidos da prepa a nova disposição tática corresponde exatamente à disciplina e
ração de um grande movimento insurrecional destinado a es ao espírito militar; de outro modo, seria a derrota total e a
magar a sua atual superioridade estratégica (que consiste, em .fuga; 2) que não é necessário considerar o arditismo como
certo sentido, na sua possibilidade de manobrar através de li um sinal da combatividade geral da massa militar, mas vice-
nhas internas e de concentrar as suas forças no ponto "espo versa, como um sinal da sua passividade e da sua relativa des
radicamente" mais perigoso) com um levante em massa — moralização. Isto deve ser compreendido através do critério
isto é, obrigando-os a dispersar forças num teatro bélico tor geral de que as comparações entre a arte militar e a política de
nado simultaneamente geral — a eles conviria provocar a inicia vem ser sempre estabelecidas cum grano salis, isto é, apenas
tiva prematura das forças indianas para identificá-las e des como estímulos ao pensamento e como termos simplificativos
truir o movimento geral. Da mesma forma conviria à França ad absurdum. Efetivamente, na militância política não existe
que a direita nacionalista alemã se envolvesse num golpe de a sanção penal implacável para quem erra ou não obedece
Estado aventureiro que levasse a organização militar ilegal pontualmente, falta o julgamento marcial, além de que o dis
presumida a se manifestar prematuramente, permitindo uma in positivo político não se compara nem de longe ao dispositivo
tervenção tempestiva do ponto de vista francês. Assim, nestas militar.
formas de luta mistas, de caráter militar fundamental e de ca
ráter político preponderante (mas cada luta política tem sempre Na luta política, além das guerras de movimento, de
um substrato militar), o emprego dos grupos de assalto exige cerco ou de posição, existem outras formas. O verdadeiro ardi
uma formulação tática original, para cuja concepção a expe tismo, o arditismo moderno, é próprio da guerra de posição,
riência da guerra só pode dar um estímulo, não um modelo. como se viu em 1914-18. Também a guerra de movimento e

68 69
a guerra de cerco dos períodos anteriores tinham os seus ardi- função político-militar: como função de arma especial^ o ardi
ti, em certo sentido; a cavalaria ligeira e pesada, os bersaglieri, tismo foi aplicado por todos os exércitos na guerra mundial;
etc., as armas ligeiras em geral desempenhavam em parte uma como função político-militar verificou-se nos países política-
função de grupos de assalto. Na arte de organizar as patru memte não-homògêneos e enfraquecidos, cuja expressão era
lhas manifestava-se o ejnbrião do arditismo moderno. Embrião um exército nacional pouco combativo e um Estado-Maior bu-
que surgia com mais vigor na guerra de cerco do que na rocratizado e fossilizado na carreira.
guerra de movimento: serviço de patrulhas mais amplo e es A propósito das comparações entre os conceitos de guer
pecialmente arte de organizar sortidas imprevistas e imprevis ra de movimento e de guerra de posição na arte militar e os
tos assaltos com elementos escolhidos. conceitos relativos na arte política, deve-se recordar o opús-
Outro elemento a se levar em conta é o seguinte: na luta culo de Rosa^, traduzido para o itaÚano em 1919 por C. Ales-
política não é necessário imitar os métodos de luta das classes sandri (traduzido do francês).
dominantes, sem cair em emboscadas fáceis. Nas lutas atuais No opúsculo teoriza-se um pouco apressadamente e tam
muitas vezes verifica-se este fenômeno: uma organização es bém superficialmente sobre as experiências históricas de 1905:
tatal debilitada é como um exército enfraquecido; entram em efetivamente. Rosa desprezou os elementos "voluntários" e or-
ação os grupos de assalto, isto é, as organizações armadas pri ganizativos, muito mais difundidos e eficientes naqueles acon
vadas, que têm duas missões: usar a ilegalidade, enquanto o tecimentos do que ela pudesse crer em virtude de certo pre
Estado parece permanecer na legalidade, como meio para reor conceito "economista" e espontaneísta. Todavia, este opús
ganizar o próprio Estado. Acreditar que se possa opor à ati culo (e outros ensaios do mesmo autor) é um dos documentos
vidade privada ilegal outra atividade semelhante, isto é, com m^s significativos da teorização da guerra de movimento apli
bater o arditismo com o arditismo, é uma tolice; significa acre cada à arte política. O elemento econômico imediato (crises,
ditar que o Estado permaneça eternamente inerte, o que ja etc.)^é considerado como a artilharia de campo que na guer
mais ocorre, além das outras condições diversas. O caráter de ra abre a brecha na defesa inimiga, brecha suficiente para que
classe leva a uma diferença fundamental: uma classe que deve as tremas irrompam e obtenham um sucesso definitivo (estra
trabalhar diariamente num horário determinado não pode ter tégico), ou pelo menos um sucesso importante no sentido da
organizações de assalto permanentes e especializadas, como linha estratégica. Naturalmente, na ciência histórica a eficá
uma classe que desfruta de amplas possibilidades financeiras cia do elemento econômico imediato era considerada muito
e não está ligada, por todos os seus membros, a um trabalho mais complexa do que a da artilharia pesada na guerra de mo
fixo. Em qualquer hora do dia e da noite estas organizações, vimento, pois este elemento era concebido como tendo um
tomadas profissionais, podem vibrar golpes decisivos e atacar duplo efeito: 1) abrir a brecha na defesa inimiga, depois de
de imprevisto. Portanto, a tática dos grupos de assalto não po ter desbaratado e levado as suas fileiras a perder a fé em si,
de ter, para determinadas classes, a mesma importância que nas suas forças e no seu futuro; 2) organizar rapidamente as
para outras; para determinadas classes é necessária, porque suas tropas, criar os quadros, ou, pelo menos, colocar os qua
própria, a guerra de movimento e de manobra, que, no caso dros existentes (criados até então pelo processo histórico ge
da luta política, pode-se combinar com um útil e talvez indis ral) com rapidez no posto que lhes cabia no enquadramento
pensável uso da tática dos grupos de assalto. Mas fixar-se no das tropas disseminadas; 3) criar imediatamente a concentra
modelo militar é tolice: a política deve, também neste caso, ção ideológica da identidade do fim a ser alcançado. Era uma
ser superior à parte militar, e só a política cria a possibilidade forma de férreo determinismo economista, com a agravante
da manobra e do movimento. de que os efeitos eram concebidos como rapidíssimos no tem-
De tudo o que se disse, resulta que no fenômeno do ardi 1 Rosa de Luxeaíburgo, Lo sciopero generale — il partito e i sinda-
tismo militar é necessário distinguir entre função técnica e cati, S. E. "Avanti!", Milão, 1919. (N. e I.)

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po e no espãço; por isso constituía um verdadeiro misticismo ser riscado da ciência; mas que, nas guerras entre os Estados
histórico, a expectativa de uma espécie de fulguração milagrosa. mais avançados civil e industrialmente, ele deve-se reduzir a
A observação do General Krasnov (no seu romance)^ funções taticas mais do que estratégicas, deve ser considerado
de que a Entente (que não queria uma vitória da Rússia im na mesma posição que a guerra de cerco em relação à guerra
perial, para que não se resolvesse definitivamente a favor do de manobra.
czarismo a questão oriental) impôs ao Estado-Maior russo a A mesma redução deve-se verificar na arte e na ciência
guerra de trincheira (absurda, em virtude da extensão da fren política, pelo menos no que se refere aos Estados mais avança
te — do Báltico ao Mar Negro e com grandes zonas pantano- dos, onde a "sociedade civil" transformou-se numa estrutura
sas e boscosas), enquanto que a única possível era a guerra muito complexa e resistente às "irrupções" catastróficas do
de movimento, é uma tolice. Na realidade, o exército russo ten elemento econômico imediato (crises, depressões, etc.): as su-
tou a guerra de movimento e de penetração, especialmente no perestruturas da sociedade civil são como o sistema de trin
setor austríaco (mas também na Prússia Oriental)^ e alcan cheiras na guerra moderna. Da mesma forma que ocorria na
çou êxitos brilhantes, embora efêmeros. A verdade é que não guerra, quando um nutrido fogo de artilharia parecia ter des
se pode escolher a forma de guerra que se quer, a menos que truído todo o sistema defensivo do adversário, mas, na reali
se tenha uma superioridade esmagadora sobre o inimigo, e^ e dade, só o atingira na sua superfície externa, e no momento
sabido quantas perdas custou a obstinação dos Estados-Maio- do ataque os assaltantes defrontavam-se com uma linha de
res em não quererem reconhecer que a guerra de posição era fensiva ainda eficiente, assim ocorre na política durante as
"imposta" pela relação geral das forças em choque. Efetiva grandes crises econômicas; nem as tropas atacantes, em vir
mente, a guerra de posição não é determinada apenas pela luta tude da crise, organizam-se rapidamente no tempo e no espaço,
de trincheira, mas por todo o dispositivo organizativo e indus nem muito menos adquirem um espírito agressivo; reciproca
trial que suporta o exército combatente; e é imposta especial mente, os atacados não se desmoralizam, nem abandonam as
mente pelo tiro rápido dos canhões, das metralhadoras, dos defesas, mesmo entre ruínas, nem perdem a confiança na sua
mosquetões, pela concentração das armas num determinado força e no seu futuro. É claro que as coisas não permanecem
ponto, além de que pela abundância do fornecimento, que per tais como eram, mas também é certo que o elemento da rapi
mite a substituição rápida do material perdido depois de uma dez, do tempo acelerado, da marcha progressista definitiva não
penetração e de um recuo. Outro elemento é a grande massa aparecerão de acordo com o que esperavam os estrategistas do
de homens que participam do dispositivo, de valor muito de cadornismo político.
sigual e que só podem operar como massa. Ve-se ^o^io na O último fato desta natureza na história política foram os
frente oriental uma coisa era irromper no setor alemão, e ou
tra no setor austríaco, e como num setor austríaco reforçado, acontecimentos de 1917. Eles assinalaram uma reviravolta de
por tropas escolhidas alemãs e comandado por alemães a tá cisiva na história da arte e da ciência políticas. Portanto, é
tica do irrompimento acabava em desastre. Verificou-se a mes necessário estudar com "profundidade" quais são os elementos
ma coisa na guerra polonesa de 1920, quando o avanço que da sociedade civil que correspondem aos sistemas de defesa
parecia irresistível foi detido às portas de Varsovia pelo Ge na guerra de posição. Digo com "profundidade" intencional-
neral Weygand na linha comandada por oficiais franceses. Os niente, pois eles foram estudados, mas a partir de pontos de
próprios técnicos militares que se fixaram definitivamente na vista superficiais e banais, como certos estudiosos do vestuário
guerra de posição, como antes se fixavam na guerra de ma estudam as curiosidades da moda feminina, isto é, com a per
nobra, de modo algum sustentam que o tipo precedente deva suasão de que certos fenômenos são destruídos depois de ex
plicados "realisticamente", como se fossem superstições popu
1 PiOTR Krasnov, DalVaquila imperiale ãlla bandiera rossa, Florença lares (que, de resto, também não se destroem ao serem ex
Salani, 1928. (N. e I.) plicadas).

72 73
Deve-se examinar se a famosa teoria de Bronstein sobre mentos de sociedade civil, etc. No Oriente, o Estado era tudo,
a permanência^ do movimento não é reflexo político da teoria a sociedade civil era primordial e gelatinosa; no Ocidente, ha
da guerra manobrada (recordar a observação do general dos via entre o Estado e a socidade civil uma justa relação e em
cossacos Krasnov), em última análise o reflexo das condições qualquer abalo do Estado imediatamente descobria-se uma po
gerais econômicas-culturais-sociais de um país em que os qua derosa estrutura da sociedade civil. O Estado era apenas uma
dros da vida nacional são embrionários e relaxados e não se trincheira avançada, por trás da qual se situava uma robusta
podem tomar "trincheira ou fortaleza". Neste caso poder-se-ia cadeia de fortalezas e casamatas; em medida diversa de Estado
dizer que Bronstein, que aparece como um "ocidentalista", para Estado, é claro, mas exatamente isto exigia um acurado
era, ao contrário, um cosmopolita, isto é, superficialmente na reconhecimento do caráter nacional.
cional e superficialmente ocidentalista ou europeu. Ilich,^ ao A teoria de Bronstein pode ser comparada à teoria de
contrário, era profundamente nacional e profundamente euro certos sindicalistas franceses sobre a greve geral e à teoria de
peu. Rosa no opúsculo traduzido por Alessandri: os opúsculos de
Bronstein recorda nas suas memórias terem-lhe dito que Rosa e a teoria de Bronstein, além do mais, influenciaram os
a sua teoria se revelara boa quinze anos... depois, e respon sindicalistas franceses, como se depreende de determinados ar-
de ao epigrama com outro epigrama. Na realidade, a sua teo tigos de Rosmer sobre a Alemanha em Vie Ouvrière (primeira
ria, como tal, não era boa nem quinze anos antes, nem quin série em fascículos). Eles, em parte, também dependem da
teoria da espontaneidade.
ze anos depois: como sucede co.m os obstinados, dos quais
fola Gulcciardini, eJe adivinhou em grosso, teve razão na pre
visão prática mais geral; da mesma forma que se prevê que ^ O co^eito de revolução passiva. O conceito de "revo
uma menina de quatro anos se tomará mãe, e quando isto
ocorre, vinte anos depois, se diz "adivinhei", esquecendo po lução passiva" deduz-se rigorosamente dos dois princípios fun
rém que quando a menina tinha quatro anos se tentara estu damentais de ciência política: 1) nenhuma formação social de
prá-la, certo de que se tomaria mãe. Parece-me que Hich com saparece enquanto as forças produtivas que nela se desenvol
preendeu que se verificara uma modificação da guerra mano veram encontrarem lugar para um ulterior movimento progres
brada, aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917,3 para a sista; 2) a sociedade não assume compromissos para cuja so
guerra de posição, que era a única possível no Ocidente, onde, lução ainda não tenham surgido as condições necessárias, etc.
como observa Krasnov, num espaço estreito podiam acumu Assim, devem ser reportados à descrição dos três momentos
lar quantidades indiscriminadas de munição, onde os quadros fundamentais que podem distinguir uma "situação" ou um equi
sociais eram de per si ainda capazes de se tomarem trinchei líbrio de forças com o máximo de valorização do segundo mo
ras municiadíssimas. Parece-me que esta seja a fórmula da mento ou equilíbrio das forças políticas e, especialmente, do
"frente única", que corresponde à concepção de uma única terceiro momento ou equilíbrio político-militar.
frente da Entente sob o comando único de Foch. Observa-se que Pisacane, nos seus Saggi, preocupa-se com
Só que Hich não teve tempo de aprofundar a sua fórmula» este terceiro momento: ele compreende, diferentemente de Maz-
mesmo levando em conta que ele podia aprofundá-la teorica zini, toda a importância da presença na Itália de um aguer
mente apenas, desde que a missão fundamental era nacional, rido exército austríaco, sempre pronto a intervir em qualquer
exigia um reconhecimento do terreno e uma fixação dos ele ponto da península, e que, além do mais, tem atrás de si toda
mentos de trincheira e de fortaleza representados pelos ele- a potência militar do império dos Absburgo, uma matriz sem
pre pronta a formar novos exércitos de reforço. Outro ele
mento histórico a ser citado é o desenvolvimento do cristia
1 A teoria da "revolução permanente" de Trotski. (N. e I.) nismo no seio do Império Romano, assim como o fenômeno
1 Lênin. (N. e 1.)
2 Na Rússia. (N. e l.J atual do gandhismo na índia e a teoria da não-resistência ao

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políticas. Pode-se aplicar ao conceito de revolução passiva (do-
mal, de Tolstoi, que tanto se aproximam da primeira fase do cumentando-se no Risorgimento italiano) o critério interpre-
cristianismo (antes do édito de Milão). O gandhismo e o tols-
tativo das modificações moleculares que, na realidade, modi
toísmo são teorizações ingênuas e com tintura religiosa da
ficam progressivamente a composição precedente das forças e,
"revolução passiva". Também devem ser citados alguns movi
portanto, transformam-se em matriz de novas modificações.
mentos chamados "liquidacionistas" e as reações que susci-
Assim, no Risorgimento italiano viu-se como a passagem ao
taraâi', em relação com os tempos e as formas de determinadas cavourismo (depois de 1848) de novos elementos do Partido
situações (especialmente do terceiro momento). O ponto de de Ação modificou progressivamente a composição das forças
partida para o estudo é o trabalho de Vincenzo Cuoco; mas moderadas, liquidando o neoguelfismo, de um lado, e, de outro,
é evidente que a expressão de Cuoco a respeito da revolução empobrecendo o movimento mazziniano (a este processo per
napolitana de 1799 não passa de uma alusão, pois o conceito
tencem também as oscilações de Garibaldi, etc.). Logo, este ele
está completamente modificado e enriquecido.
mento é a fase originária daquele fenômeno que se chamou mais
O conceito de "revolução passiva", atribuído por Vin tarde "transformismo", cuja importância, parece, não foi até
cenzo Cuoco ao primeiro período do Risorgimento italiano, agora dimensionada devidamente como forma de desenvolvi
pode ser relacionado com o conceito de "guerra de posição", mento hitórico.
em confronto com a guerra manobrada? Isto é, estes conceitos Insistir no aprofundamento do conceito de que, enquanto
surgiram depois da Revolução Francesa, e o binômio Prou- Cavour tinha consciência da sua missão e consciência crítica da
dhon-Gioberti pode ser justificado com o pânico criado pelo missão de Mazzini, este, em virtude de não ter quase ou ne
terror de 1793, como o sorelianismo com o pânico que se nhuma consciência da missão de Cavour, estava, na realidade,
seguiu aos massacres de Paris em 1871? Existe uma identida pouco consciente da sua própria missão. Daí derivaram as suas
de absoluta entre guerra de posição e revolução passiva? Exis vacilações (em Milão, no período posterior às Cinco Jornadas
te, pelo menos, ou pode ser concebido todo um período his e em outras ocasiões) e as suas iniciativas fora de tempo, que
tórico em que os dois conceitos devem-se identificar até que a por isso configuravam-se apenas como elementos úteis à polí
guerra de posição se transforme em guerra manobrada? tica piemontesa. Eis um exemplo teórico sobre como devia ser
É necessário formular um juízo "dinâmico" sobre as "res compreendida a dialética apresentada em a Miséria da Filosofia:
taurações", que constituiriam uma "astúcia da providência" em que cada membro da oposição deve procurar ser integralmente
sentido vichiano. Um problema existe: na luta Cavour-Mazzi- ele mesmo e lançar na luta todas as suas "reservas" políticas e
ni, em que Cavour é o expoente da revolução passiva-guerra de morais, e que só assim se consegue uma superação real, nada
posição e Mazzini da iniciativa popular-guerra manobrada, não disso era compreèndido nem por Proudhon, nem por Mazzini.
serão ambos indispensáveis na mesma medida? Todavia, é ne Dir-se-á que nem Gioberti e nem os teóricos da revolução pas
cessário levar em conta que, enquanto Cavour tinha consciência siva ou "revolução-restauração"^ compreenderam o fenômeno,
da sua missão (pelo menos em certa medida), enquanto com mas a questão neste caso se modifica: neles, a "incompreensão"
preendia a missão de Mazzini, este parece que não tinha cons teórica era a expressão prática das necessidades da "tese" de
ciência da sua e da missão de Cavour; se, ao contrário, Mazziiii
desenvolver-se integralmente, até o ponto de conseguir incor
tivesse adquirido esta consciência, isto é, se fosse um político porar uma parte da própria antítese, para não se deixar "su
realista, e não um apóstolo iluminado (se não tivesse sido Mazzi perar". Isto é, na oposição dialética só a tese desenvolve, na
ni) o equilíbrio resultante da confluência das duas atividades se
ria diferente, mais favorável ao mazzinianismo: o Estado italiano
ter-se-ia constituído sobre bases menos atrasadas e mais mo í Consultar a literatura política sobre 1848, de autoria de estudiosos
dernas. E já que em cada acontecimento histórico verificam-se da filosofia da praxis. Mas não me parece que se possa esperar muito
neste sentido. Os acontecimentos italianos, por exemplo, só foram exa
quase sempre siutações semelhantes, deve-se ver se não é pos minados sob o ângulo dos livros de Bolton King, etc.
sível extrair daí alguns princípios gerais de ciência e de arte
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ram a plataforma de uma nova política orgânica, não obstante
realidade, todas as suas possibilidades de luta, até atrair para
o próprio Mazzini ter reconhecido que Pisacane formulara uma
si os chamados representantes da antítese: exatamente nessa
formulação consiste a revolução passiva ou revolução-restau-
"concepção estratégica" da revolução nacional italiana.
ração. Neste ponto deve-se considerar a questão da passagem A relação "revolução passiva-guerra de posição" no Ki-
da luta política de "guerra manobrada" para "guerra de po sorgimento italiano também pode ser estudada sob outros as
sição", o que na Europa ocorreu depois de 1848, e que não pectos. Dois são importantíssimos: o que pode denominar-se
do "pessoal" e o da "reunião revolucionária". O do "pessoal"
foi compreendido por Mazzini e pelos mazzinianos como o pode ser comparado com o que se verificou na guerra mundial,
foi por outros. A mesma passagem verificou-se depois de 1871, na relação entre oficiais de carreira e oficiais da reserva, de
etc. Homens como Mazzini tinham dificuldades de compre
um lado, e entre soldados das fileiras e voluntários-urí?/í/, de
ender, então, a questão, dado que as guerras militares não ha
outro. Os oficiais de carreira corresponderam, no Risorgimento,
viam fornecido o modelo; ao contrário, as doutrinas militares
desenvolviam-se no sentido da guerra de movimento. É preci açs partidos políticos regulares, organizados, tradicionais, etc.,
que no momento da ação (1848) revelaram-se inaptos ou qua
so ver se Pisacane, teórico militar do mazzinianismo, refere-se
se, e foram, em 1848-49, suplantados pela onda popular maz-
à questão.
Pisacane deve ser estudado porque foi o único que ten
ziniano-democrática, onda caótica, desordenada^ "extemporâ
nea" por assim dizer, mas que, todavia, liderada por chefes
tou dar ao Partido de Ação um conteúdo não só formal, mas improvisados ou quase (de qualquer modo não pertencentes a
substancial: de antítese superadora das posições tradicionais. formações constituídas como era o partido moderado) obteve
Não se pode dizer que para obter estes resultados hitóricos sucessos indubitavelmente maiores do que os obtidos pelos mo
fosse necessária a insurreição popular armada, como acredi derados: a República romana e Veneza revelaram uma força
tava Mazzini obsessivamente, isto é, não realisticamente, mas de resistência notável. No período posterior a 1848, a relação
como missionário religioso. A intervenção popular, que não foi entre as duas forças, a regular e a "carismática", organizou-se
possível na forma concentrada e simultânea da insurreição, não em tomo de Cavour e de Garibãldi, e deu o máximo resultado,
se verificou nem mesmo na forma "difusa" e capilar da pres
são indireta, o que era possível e talvez fosse a premissa in
embora posteriormente fosse aproveitada por Cavour.
dispensável para a primeira forma. A forma concentrada ou Este aspecto está ligado ao outro, da "reunião". Deve-se
simultânea tornara-se impossível em virtude da técnica militar
observar que a dificuldade técnica contra a qual sempre se
chocavam as iniciativas mazzinianas foi exatamente aquela da
da época, mas só em parte. Isto é, a impossibilidade existiu "reunião revolucionária". Seria interessante, a partir deste pon
na medida em que a forma concentrada e simultânea não foi to de vista, estudar a tentativa de invasão da Savóia efetua
precedida de uma preparação política e ideológica de longo da pelo General Ramorino, pelos irmãos Bandiera, por Pisa
fôlego, organicamente predisposta a despertar as paixões po cane, etc., comparando-a com as situações que se ofereceram a
pulares e tomar possível a concentração e a eclosão simul Mazzini em 1848, em Milão, e em 1849, em Roma, e que
tânea do movimento.
ele não teve capacidade de organizar. Essas tentativas de al
Depois de 1848, só os moderados fizeram a crítica dos guns poucos não podiam deixar de ser esmagadas no nas
métodos que precederam ao fracasso. Efetivamente, todo o cedouro, pois seria maravilhoso que as forças reacionárias, que
movimento moderado se renovou, o neoguelfismo foi liquida estavam concentradas e podiam operar livremente (isto é, não
do, homens novos ascenderam aos principais cargos de direção. encontravam, nenhuma oposição em amplos movimentos da po
No mazzinianismo, ao contrário, nenhuma autocrítica, ou en pulação), não pudessem esmagar as iniciativas do tipo Ramo
tão autocrítica liquidacionista no sentido de que muitos ele rino, Pisacane, Bandiera, mesmo que elas tivessem sido pre
mentos abandonaram Mazzini e organizaram a ala esquerda paradas melhor do que o foram na realidade. No segundo pe
do partido piemontês; única tentativa "ortodoxa", interna, fo ríodo (1859-1860), a "reunião revolucionária", como aquela
ram os ensaios de Pisacane, que, entretanto, jamais se torna-
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"clareza" intelectual dos termos da luta deve ser indispensável.
dos Mil de Garibaldi, tornou-se possível graças ao fato de
que: primeiro, Garibaldi apoiava-se nas forças estatais pie- Mas esta clareza é um valor político quando se torna paixão
montesas, e, depois, que a frota inglesa protegeu de fato o generalizada e constitui a premissa de uma vontade forte. Nos
desembarque em Marsala, a tomada de Palermo e esterilizou últimos tempos, em muitas publicações sobre o Risorgimento,
a frota bourbônica. Em Milão, depois das Cinco Jornadas e na "revelou-se" que existiam personalidades que viam claro, etc.
Roma republicana, Mazzini teria podido constituir praças de (veja-se a valorização de Ornato feita por Piero Gobetti); mas
armas para reuniões organizadas; mas não se propôs fazê-lo, estas "revelações" destroem-se por si mesmas, exatamente por
daí o seu conflito com Garibaldi em Roma e a sua inutilização serem revelações; elas demonstram que se tratava de elucubra-
em Milão, diante de Cattaneo e do grupo democrático milanês. ções individuais, que hoje representam uma forma do "senso
De qualquer forma, o curso do processo do Risorgimento, a posteriori". Efetivamente, jamais se fundiram com a reali
se trouxe à luz a importância enorme do movimento "dema dade fatual, jamais se tornaram consciência popular-nacional
gógico" de massa, com chefes surgidos ao acaso, improvisados, geral e atuante. Qual dos dois, o Partido de Ação ou o Partido
etc., na realidade foi absorvido pelas forças organizadas tra Moderado, representou as "forças subjetivas" efetivas do Ri
dicionais, pelos partidos formados ao longo do tempo, com sorgimento? B claro que o Partido Moderado, e exataihente
elaboração racional dos chefes, etc. Em todos os acontecimen porque teve consciência inclusive da missão do Partido de
tos políticos do mesmo tipo o resultado sempre foi igual (as Ação. Em virtude dessa consciência, a sua "subjetividade" era
sim em 1830, na França, a predominância dos orleanistas so de uma qualidade superior e mais decisiva. Na expressão de Vi
bre as forças populares radicais democráticas, e assim, no fun torio Emanuel II: "O Partido de Ação nós o temos no bôlso",
do na Revolução Francesa de 1789, em que Napoleão repre há mais sentido histórico-político do que em tôda a obra de
senta, em última análise, o triunfo das forças burguesas orga Mazzini.
nizadas contra as forças pequeno-burguesas jacobinas). Da
mesma forma na guerra mundial, o predomínio dos velhos ofi Sobre a burocracia. 1) O fato de que no desenvolvimento
ciais de carreira sobre os oficiais da reserva, etc. Em qualquer histórico das formas políticas e econômicas viesse se formando
caso, a ausência entre as forças radicais-populares de uma o tipo de funcionário "de carreira", tecnicamente preparado
consciência da missão da outra parte, impediu-as de ter plena para o trabalho burocrático (civil e militar), tem um.signi
consciência da sua própria missão e, portanto, de pesar no ficado primordial na ciência política e na história das formas
equilíbrio final das forças em relação ao seu efetivo poder de estatais. Tratou-se de uma necessidade ou de uma degeneração,
intervenção e, finalmente, de determinar um resultado mais em relação ao ãutogoverno (selfgovernment), como preten
avançado, num sentido de maior progresso e mais moderno. dem os livre-cambistas "puros"? B verdade que cada forma so
Sempre a propósito do conceito de "revolução passiva" cial e estatal teve um seu problema dos funcionários, um mo
ou de "revolução-restauração" no Risorgimento italiano, é ne do seu de apresentá-lo e resolvê-lo, um sistema particular de
cessário colocar com exatidão o problema que, em algumas seleção, um tipo próprio de funcionário a educar. Reveste-se
tendências historiográficas, é denominado das relações entre de capital importância reconstruir o desenvolvimento de todos
condições objetivas e condições subjetivas do evento histórico. estes elementos. O problema dos funcionários coincide, em
Parece que as condições subjetivas existem sempre que exis parte, com o problema dos intelectuais. Mas, se é verdade que
tirem condições objetivas, isto na medida em que se ^ata de cada nova forma social teve necessidade de um novo tipo de
simples distinção de caráter didático: logo, a discussão pode funcionário, também é verdade que os novos grupos dirigentes
versar sobre o grau e a intensidade das forças subjetivas, so jamais puderam prescindir, pelo menos durante certo tempo,
bre a relação dialética entre as forças subjetivas contrastantes. da tradição e dos interesses constituídos, isto é, das forma
B preciso evitar que a questão seja colocada em termos ções de funcionários já existentes e pré-constituídas quando do
"intelectualísticos", e não histórico-políticos. B pacífico que a
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seu advento (especialmente nas esferas eclesiástica e militar). ram precisamente uma crítica unilateral e de intelectuais à
A unidade do trabalho manual e intelectual e uma ligação mais desordem e à dispersão de forças.
estreita entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo (pela Entretanto, é preciso distinguir nas teorias do centralis
qual os funcionários eleitos, além de controlar, se interessam mo orgânico entre aquelas que ocultam um programa preciso
pelos negócios de Estado) podem ser motivos inspiradores tan de predomínio real de uma parte sobre o todo (seja a parte
to para uma orientação nova na solução do problema dos in constituída por uma camada como a dos intelectuais, seja a
telectuais, como para o problema dos funcionários. parte constituída por um grupo territorial "privile^ado) e aque
las que representam uma pura posição unilateral de sectários e
2) Vinculada à questão da burocracia e da sua organi fanáticos, e que mesmo podendo esconder um programa de
zação "ótima", está a discussão sobre os chamados "centra- predomínio (em geral de uma individualidade, como a do Pa
lismo orgânico" e "centralismo democrático" (que, além do pa infalível que levou o catolicismo a se transformar numa
mais, não tem nada que ver com a democracia abstrata, tanto espécie de culto do pontífice), imediatamente não parece ocul
que a Revolução francesa e a Terceira República desenvol tar tal programa como fato político consciente. O nome mais
veram formas de centralismo orgânico não conhecidas nem pe exato seria o de centralismo burocrático. A "organicidade" só
la monarquia absoluta e nem por Napoleão I). Devem ser pode ser do centralismo democrático, que é um centralismo
procuradas e examinadas as relações econômicas e políticas em movimento, isto é, uma contínua adequação da organi
reais que encontram a sua forma de organização, a sua arti zação ao movimento real, um modo de temperar os impulsos
culação e a sua funcionalidade nas diversas manifestações de da base com o comando da cúpula, um inserimento contínuo
centralismo orgânico e democrático em todos os campos: na dos elementos que brotam do mais fundo da massa na comija
vida estatal (unitarismo, federação, união de Estados federados, sólida do aparelho de direção que assegura a continuidade e
federação de Estados ou Estado federal, etc.); na vida interes- a acumulação regular das experiências. Ele é "orgânico" por
tatal (alianças, formas várias de "constelação" política inter que leva em conta o movimento, que é o modo orgânico de re
nacional); na vida das associações políticas e culturais (ma- velar-se da realidade histórica, e não se enrijece mecanicamen
çonaria, Rotary Qube, Igreja católica); sindicais, econômicas te na burocracia e, ao mesmo tempo, leva em conta o que é
(cartéis, trustes); num mesmo país, em diversos países, etc. estável e permanente, ou que, pelo menos, move-se numa di
Polêmicas surgiram no passado (antes de 1914) a pro reção fácil de prever, etc. Este elemento de estabilidade no
pósito do predomínio alemão na vida da alta cultura e de algu Estado encarna-se no desenvolvimento orgânico do núcleo cen
mas forças políticas internacionais: era, de fato, real este pre tral do grupo dirigente, da mesma forma que sucede em escala
domínio, ou em que consistia ele? Pode-se dizer: a) nenhum mais restrita na vida dos partidos. A predominância do centra
vínculo orgânico e disciplinar estabelecia essa supremacia, que, lismo burocrático no Estado indica que o grupo dirigente está
portanto, era um mero fenômeno de influência cultural abs saturado, transformando-se num corrilho estreito que tende a
trata e de prestígio bastante instável; b) esta influência cultural perpetuar os seus mesquinhos privilégios controlando, ou in-í
não atingia em nada a atividade fatual, que, vice-versa, era clusive sufocando, o surgimento de forças contrastantes, mes
desagregada, localista, sem orientação de conjunto. Não se po mo se estas forças se confundem com os interesses dominan
de falar, por isso, de nenhum centralismo, nem orgânico nem tes fundamentais (por exemplo, nos sistemas rigidamente pro
democrático e nem de outro gênero ou misto. A influência tecionistas em luta com o liberalismo econômico). Nos parti
era sentida de imediato por escassos grupos intelectuais sem dos que representam grupos socialmente subalternos, o ele
ligação com as massas populares; e exatamente esta ausência mento de estabilidade é necessário para assegurar a hegemo
de ligação caracterizava a situação. Todavia, tal estado de coi nia não a grupos privilegiados, mas aos elementos progressistas,
sas é digno de exame porque facilita explicar o^ processo que organicamente progressistas em relação a outras forças afins e
levou a formular as teorias do centralismo orgânico, que fo- aliadas, mas conciliadoras e oscilantes.
83
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De qualquer modo, deve-se destacar que as manifestações valor esquemático e metafórico, isto é, não pode ser aplicado
deformantes de centralismo burocrático ocorreram em virtude mecanicamente, porque nos agregados humanos o elemento qua
de defíciêncía de iniciativa e de responsabilidade na base, isto litativo (ou de capacidade técnica e intelectual de cada um dos
é, do primitivismo político das forças periféricas, inclusive seus componentes) tem uma função predominante, enqusmto
quando elas são da mesma natureza do grupo territorial hege não pode ser medido matematicamente. Por isso, pode-se dizer
mônico (fenômeno do piemontesismo nos primeiros decênios da que cada aglomerado humano tem um princípio ótimo particular
unidade italiana). A existência de tais situações nos organismos de proporções definidas.
internacionais (Sociedade das Nações) pode ser prejudicial e Especialmente a ciência da organização pode recorrer com
perigosa. utilidade a este teorema, e isto manifesta-se coni clareza no
O centralismo democrático oferece uma fórmula elástica, exército. Mas cada forma de sociedade tem um tipo de exér
que se presta a muitas encamações; ela vive enquanto é inter cito, e cada tipo de exército tem um princípio de proporções
pretada e- adaptada contmuamente às necessidades. Ela consiste definidas particular, que, de resto, também muda de acordo com
na pesquisa crítica de tudo que é igual na aparente disformidade, as diversas armas ou especialidades. Há uma determinada rela
e diferente e inclusive oposto na aparente uniformidade para ção entre homens de tropa, graduados, suboficiais, oficiais su
organizar e ligar estreitamente tudo o que é semelhante, mas balternos, oficiais superiores, Estados-Maiores, Estado-Maior
de modo que a organização e a conexão pareçam uma necessi Geral, etc. Há uma relação entre as várias armas e especialidades,
dade prática e "indutiva", experimental, e não o resultado de etc. Cada modificação numa parte determina a necessidade de
um processo racionalista, dedutivo, abstrato, isto é, próprio dos um equilíbrio com o todo, etc.
intelectuais puros (ou puros asnos). Este trabalho contínuo para Pohticamente, o teorema pode ser aplicado nos partidos,
selecionar o elemento "internacional" e "unitário" na realidade nos sindicatos, nas fábricas, para se ver como cada gnipo social
nacional e local é, na realidade, a ação política concreta, a tem uma lei de proporções definidas própria, que varia de acor
única atividade criadora de progresso histórico. Este trabalho do com o nível de cultura, de independência inental, de espírito
requer uma unidade orgânica entre teoria e prática, entre ca de iniciativa e de senso de responsabilidade e de disciplina dos
madas intelectuais e massas populares, entre governantes e go seus membros mais atrasados e periféricos.
vernados. As fórmulas de unidade e federação perdem grande A lei das proporções é sintetizada da seguinte forma por
parte do seu significado deste ponto de vista, enquanto conser Pantaleone, em Principi di economia pura: "... Os corpos
vam o seu veneno na concepção burocrática, pela qual a uni se combinam quimicamente apenas em proporções definidas, e
dade deixa de existir e se transforma como que num pântano cada quantidade de um elemento, que supere a quantidade exi
de águas estagnadas, superficialmente calmo e "mudo", e a fe gida para uma combinação com outros elementos presentes em
deração num "saco de batatas", isto é, na justaposição mecânica quantidades definidas, fica livre; se a quantidade de um elemen
de "unidades" individuais sem nexo entre elas. to é deficiente em relação à quantidade de outros elementos
presentes, a combinação só se verifica na medida em que é
suficiente a quantidade do elemento que está presente em quan
O teorema das proporções definidas. Este teorema pode tidade menor do que os outros".^ Seria possível servir-se metafo
ser empregado com utilidade para tornar mais claros e de um ricamente desta lei para compreender como um "movimento"
esquematismo mais evidente muitos raciocínios relacionados com ou tendência de opiniões se toma partido, isto é, força política
a ciência da organização (o estudo do aparelho administrativo, eficiente, do ponto de vista do exercício do poder governamental:
da composição demográfica, etc.) e também com a política exatamente na medida em que possui (elaborou no seu interior)
geral (na análise das situações, das relações de forças, no pro
blema dos intelectuais, etc.). Deve-se recordar sempre, é claro, 1 Maffeo Pantaleone, Principi di economia pura, Milão, 1931, parág.
que o recurso ao teorema das proporções definidas tem um 5, pág. 112. (N. e I.)
84 85
dirigentes de vários graus e na medida em que esses dirigentes do uma época de "evolução" "natural", que a sociedade tivesse
adquiriram determinadas capacidades. encontrado os seus fundamentos definitivos, porque racionais,
O "automatismo" histórico de determinadas premissas (a ^ sociedade pode ser estudada pelos métodos das
existência de determinadas condições objetivas) é potenciado ciências^naturais. Empobrecimento do conceito de Estado, em
politicamente pelos partidos e pelos homens capazes: a sua
conseqüência de tal visão. Se ciência política significa ciência
ausência ou deficiência (quantitativa e qualitativa) torna estéril
do Estado, e Estado é todo o complexo de atividades práticas e
o próprio "automatismo" (que, portanto, não é automatismo).
teóricas com as quais a classe dirigente justifica e mantém não
so o seu domínio, mas consegue obter o consentimento ativo
As premissas existem abstratamente, mas as conseqüências não dos governados, é evidente que todas as questões essenciais da
se verificam porque falta o fator humano. Por isso pode-se socioIo^a não passam de questões da ciência política. Se há
dizer que os partidos têm a missão de criar dirigentes capazes, um resíduo, esse só pode ser de falsos problemas, isto é, de
são a função de massa que seleciona, desenvolve, multiplica os problemas ociosos. Portanto, a questão que se impunha ao au-
dirigentes necessários para que um grupo social definido (que
é uma quantidade "fixa", na medida em que se pode estabelecer popolare^ era a de determinar em que relações
quantos são os componentes de cada grupo social) se articule
podia ser colocada a ciência política com a filosofia da praxis;
se entre as duas existe identidade (coisa não sustentável, ou
e, de caos tumultuado, transforme-se em exército político orgcx- sustentável apenas do ponto de vista do mais grosseiro positi
nicamente predisposto. Quando em eleições sucessivas do mes vismo), ou se a ciência política é o conjunto de princípios em
mo grau ou de grau diferente (por exemplo, na Alemanha antes píricos ou práticos que se deduzem de uma concepção mais
de Hitler: eleições para a presidência da República, para o vasta do mundo ou filosofia propriamente dita, ou se esta fUo-
Reichstag, para as dietas dos Lanâer, para os conselhos comu- sofia é só a ciência dos conceitos ou categorias gerais que nas
nais, e assim até os comitês de fazenda) um partido oscila na cem da ciência política, etc.
sua massa de sufrágios de máximos a mínimos que parecem Se é verdade que o homem só pode ser concebido como
estranhos e arbitrários, pode-se deduzir que os seus quadros homem historicamente determinado, isto é, que se desenvolveu
são deficientes em quantidade e qualidade, ou em quantidade e e vive em deterinmadas condições, num determinado complexo
não em qualidade (relativamente), ou em qualidade e não em social ou conjunto de relações sociais, pode-se conceber a so
quantidade. Um partido que obtém muitos votos nas eleições ciologia apenas como estudo destas condições e das leis oue
locais e menos naquelas de maior importância política, certa regulam o seu desenvolvimento? Já que não se node ore cin^r
mente é deficiente qualitativamente na sua direção central:
possui muitos subalternos ou, pelo menos, em número suficien SO poae ser íalso. Saber o que é a Drónria "ciência" pí^ nm
te, mas não possui um Estado-Maior adequado ao país e à sua
posição no mundo, etc.
^ue
que tr^fírm»
transforma os 'í'' ® torna-os diferentes
homens, político, nadomedida em
que eram
Sociologia e ciência política. A fortuna da sociologia rela
ciona-Se com a decadência do conceito de ciência política e ^ enfadonho, distinguir com conceitos novos
de arte política que se verificou no século XIX (com mais exa CP àquela ciência que tradicionalmente
tidão na segunda metade, com o êxito das doutrinas evolucio- c poütica, ciência política num sentido
nistas e positivistas). Tudo o que há de importante na socio nSrt ^^ ® "descoberta" de realidade ignorada antes,
certo sentido, concebida como trans-
logia não passa de ciência política. "Política" toma-se sinônimo ene/ Nao se pode pensar que ainda existe algo de "Ígno-
de política parlamentar ou de corrilhos pessoais. Convencimen
to de que com as constituições e os parlamentos tivesse começa- ^ Bukhanin. (N. I.)
86 87
to" e, portanto, de transcendente? Além do mais, o conceito de "nacionais" que não podem deixar de prevalecer quando se tra
ciência como "criação" não tem o mesmo significado de "polí ta de induzir a vontade nacional num sentido mais do que nou
tica"? Tudo consiste em ver se se trata de criação "arbitrária" tro. "Desgraçadamente", o indivíduo é levado a confundir o seu
ou racional, isto é, "útil" aos homens para ampliar o seu con "particular" com o interesse nacional, e, portanto, achar "hor
ceito da vida, para tornar superior (desenvolver) a própria vida.^ rível", etc., que a decisão caiba à "lei do número"; na verdade,
O número e a qualidade nos regimes representativos. Um é melhor se tornar élite por decreto. Logo, não se trata de quem
dos lugares-comuns mais banais' que se repetem contra o siste "tem muito" intelectualmente sentir-se reduzido ao nível do últi
ma eleitoral de formação dos órgãos estatais é o de que "nele mo analfabeto, mas de quem presume ter muito e pretende
o número é lei suprema" e que as "opinões de um imbecil qual arrebatar ao homem "qualquer", inclusive aquela fração infini-
quer que saiba escrever (e inclusive de um analfabeto, em de tesimal de poder que ele possui para decidir sobre o curso da
terminados países) vale, para efeito de determinar o curso po vida estatal.
lítico do Estado, tanto quanto as opiniões de quem dedica à Da crítica (de origem oligárquica. e não de élite) ao regime
nação as suas melhores forças", etc.^ Mas a verdade é que, de parlamentarista (é estranho que ele não seja criticado pelo fato
modo nenhum, o número constitui a "lei suprema", nem o peso de que a racionalidade historicista do consentimento numérico
da opinião de cada eleitor é exatamente igual. Os números, é sistematicamente falsificada pela influência da riqueza), estas
mesmo neste caso, são um simples valor instrumental, que dão afirmações banais se estenderam a qualquer sistema represen
uma medida e uma relação, e nada mais. E depois, o que e tativo, mesmo não parlamentarista e não forjado segundo os
que se mede? Mede-se exatamente a eficácia e a capacidade ae cânones da democracia formal. O que as torna menos exatas.
expansão e de persuasão das opiniões de alguns, das minorias Nestes outros regimes o consentimento não tem no momento
ativas, das élites, das vanguardas, etc. Isto é, a sua racionali do voto uma fase final, ao contrário.^ Supõe-se o consentimento
dade ou historicidade ou funcionalidade concreta. O que nao permanentemente ativo, até o ponto em que aqueles que con
quer dizer que o peso das opiniões de cada um seja "exatamen sentem poderiam ser considerados como "funcionários" do Es
te" igual. As idéias e as opiniões não "nascem" espontaneamente tado e as eleições um modo de recrutamento voluntário de fun
no cerébro de cada indivíduo: tiveram um centro de formação, cionários estatais de um determinado tipo, que em certo sentido
de irradiação, de difusão, de persuasão, um grupo de homens poderia assemelhar-se (em diversos planos) ao selfgovernment.
ou inclusive uma individualidade que as elaborou e apresentou Baseando-se as eleições não em programas genéricos e vagos,
mas em programas de trabalho concreto imediato, quem con
sob a forma política de atualidade. A numeração dos votos sente empenha-se em fazer algo mais do que o cidadão legal
é a manifestação final de um longo processo em que a maior comum para realizá-los, isto é, em ser uma vanguarda de tra
influência pertence exatamente àqueles que dedicam ao Estado balho ativo e responsável. O elemento "voluntariedade" na
e à nação as suas melhores forças" (quando sao tais). Se este iniciativa não poderia ser estimulado de outro modo pelas mais
pretenso grupo de grandes, apesar das forças matenais extra amplas multidões, e quando estas não são formadas de cidadãos
ordinárias que possui, não obtém o consentimento da maiona, amorfos, mas de elementos produtivos qualificados, pode-se
deve ser julgado ou inepto ou não-representante dos interesses compreender a importância que pode ter a manifestação do
voto.2
1 A propósito do Saggio Popolare e do seu apêndice Teorio e pratica,
veia se^T-Nuova Antologia" de 16 de março de 1933 a Resenha filo
sófica de Armando Carlini, da qual resulta que a equaçao: Teon^ 1 Alusão ao sistema soviético do controle permanente dos eleitores sobre
prática = matemática pura: matemática aplicada foi enunciada por um os eleitos. (N. e I.)
2 Estas observações poderiam ser desenvolvidas mais ampla e organica-
fomXções^lão Stíalgumas inclusive mais felizes do que a mente, destacando também outras diferenças entre os diversos tipos de
eleição, de acordo com as modificações nas relações gerais sociais e po
citada, que é de Mario de Silva, na Cníica Fascista de 15 de agosto líticas: relação entre funcionários eletivos e funcionários de carreira, etc.
de 1932, mas o conteúdo é sempre igual.
88 89
A proposição de que "a sociedade não coloca diante de si e de modificação no peso relativo qüe os elementos das velhas
problemas para cuja solução ainda não existam as premissas ideologias possuíam: tudo o que érá secundário e subordinado,
materiais". É o problema da forniv>ção de uma vontade cole ou inclusive incidental, é considerado principal, torna-se o nú
tiva que depende imediatamente desta proposição. Analisar cleo de um novo complexo ideoló^co e doutrinário. A velha
criticamente o significado da proposição, implica indagar como vontade coletiva desagrega-se nos seus elementos contraditó
se formam as vontades coletivas permanentes, e como tais von rios, já que os elementos subordinados contidos nestes elementos
tades se propõem objetivos imediatos e mediatos concretos, isto se desenvolvem socialmente, etc.
é, uma linha de ação coletiva. Trata-se de processos de desen Depois da formação do regime dos partidos, fase histórica
volvimento mais ou menos longos, e raramente de explosões ligada à estandardização de grandes massas da população (co
"sintéticas" imprevistas. Também as "explosões" sintéticas se municações, jornais, grandes cidades, etc.), os processos mo
verificam, mas, observando de perto, vê-se que nestes casos leculares se manifestam com mais rapidez do que no passado,
trata-se de destruir mais do que reconstruir, de rcmover obstá etc.

culos mecânicos externos ao desenvolvimento original e espon


tâneo: as Vésperas sicilianas podem ser consideradas um exem Questão do "homem coletivo" ou do "conformismo social".
plo típico dessas explosões. Missão educativa e formativa do Estado, cujo fim é sempre
Seria possível estudar concretamente a formação de um criar novos e mais elevados tipos de civilização, adequar a "ci
movimento histórico coletivo, analisando-o em todas as suas vilização" e a moralidade das mais amplas massas populares às
fases moleculares, o que habitualmente não se faz porque tor necessidades do desenvolvimento continuado do aparelho eco
naria pesado qualquer trabalho: em vez disso, utilizam-se as nômico de produção, portanto elaborar também fisicamente
correntes de opinião já constituídas em torno de um grupo ou tipos novos de humanidade. Mas, como cada indivíduo conse
de uma personalidade dominante. É o problema que moderna guirá incorporar-se no homem coletivo e como se verificará a
mente se expressa em termos de partido ou de coalizão de pressão educativa sobre cada um com o seu consentimento e
partidos afins: como se inicia a organização de um partido, colaboração, transformando em "liberdade" a necessidade e a
como se desenvolve a sua força organizada e influência social, coerção? Questão do "direito", cujo conceito deverá ser amplia
etc. Trata-se de um processo molecular, miudíssimo, de aná do, incluindo nele aquelas atividades que hoje são compreendi
lise extrema, capilar, cuja documentação é constituída por uma das na fórmula "indiferente jurídico" e que são de domínio da
quantidade incrível de livros, opúsculos, artigos de revistas e de sociedade civil que atua sem "sanções" e sem "obrigações" ta
jornais, de conversações e debates verbais que se repetem mn- xativas, mas que nem por isso exerce uma pressão coletiva e
nitas vezes e que no seu conjunto gigantesco representam este obtém resultados objetivos de elaboração nos costumes, nos
trabalho do qual nasce uma vontade coletiva com um determi modos de pensar e de atuar, na moralidade, etc.
nado grau de homogeneidade, grau que é necessário e suficiente Conceito político da chamada "revolução permanente",
para determinar uma ação coordenada e simultânea no tempo surgido antes de 1848, como expressão cientificamente elabora
e no espaço geográfico em que o fato histórico se verifica. ^ da das experiências jacobinas de 1789 em Termidor. A fórmula
Importância das utopias e das ideologias confusas e^racio- é própria de um período histórico em que não existiam ainda
nalistas na fase inicial dos processos históricos de formação das os grandes partidos políticos de massa e os grandes sindicatos
vontades coletivas: as utopias, o racionalismo abstrato, tem a
mesma importância das velhas concepções do mundo historica econômicos, e a sociedade ainda estava, por assim dizer, no
mente elaboradas por acumulação de experiências sucessivas. estado de fluidez sob muitos aspectos: maior atraso do campo
e monopólio quase completo da eficiência político-estatal em
O que importa é a crítica à qual este complexo ideologico e poucas cidades ou numa só (Paris para a França); aparelho
submetido pelos primeiros representantes da nova fase histó estatal relativamente pouco desenvolvido e maior autonomia da
rica. Através desta crítica obtém-se um processo de distinção
90 91

.P

jdL..
sociedade civil em relação à atividade estatal; determinado siste "natureza humana" nos dois é diferente. Na "natureza humana"
ma das forças militares e do armamento nacional; maior auto de Maquiavel está incluído o "homem europeu", e este homem,
nomia das economias nacionais no quadro das relações econô na França e na Espanha, superou fatualmente a fase feudal de
micas do mercado mundial, etc. No período posterior a 1870, sagregada na monarquia absoluta: logo, não é a "natureza hu
em virtude da expansão colonial européia, todos estes elementos mana" que se opÕe ao surgjmento, na Itália, de uma monarquia
se modificam, as relações de organização internas e interna absoluta unitária, mas condições transitórias que a vontade pode
cionais do Estado tornam-se mais complexas e maciças, e a superar. Maquiavel é "pessimista" (ou melhor, "realista")
fórmula jacobino-revolucionária da "revolução permanente" é quando considera os homens e as direções de sua atividade;
elaborada e superada na ciência política pela fórmula de "hege Guicciardini não é pessimista, mas cético e estreito. Paolo Tre-
monia civil". Verifica-se na arte política aquilo que ocorre nã ves^ comete muitos erros ao analisar Guicciardini e Maquiavel;
arte militar: a guerra de movimento transforma-se cada vez não distingue bem "política" de "diplomacia", mas exatamente
mais em guerra de posição, podendo-se dizer que um Estado nesta não-distinção reside a causa das suas apreciações erradas.
vence uma guerra quando a prepara minuciosa e tecnicamente Efetivamente, na política o elemento volitivo tem uma impor
no tempo de paz. Na estrutura de massa das democracias mo tância muito maior do que na diplomacia. A diplomacia san
dernas, tanto as organizações estatais como o complexo de as ciona e tende a conservar as situações criadas pelo choque das
sociações na vida. civil constituem para a arte política o mesmo políticas estatais; é criadora apenas por metáfora ou por con
que as "trincheiras" e as fortifícações permanentes da frente venção filosófica (toda a atividade humana é criadora). As
na guerra de posição: elas fazem com que seja apenas "parcial" relações internacionais estabelecem um equilíbrio de forças sobre
o elemento do movimento que antes constituía "toda" a guerra, 0 qual cada elemento estatal pode influir muito debilmente:
etc. Florença podia influir reforçando a si mesma, por exemplo, mas
A questão relaciona-se com o Estado moderno, não com este reforçamento, mesmo que tivesse melhorado a sua posição
os países atrasados e as colônias, onde ainda vigoram formas no equilíbrio italiano e europeu, não poderia ser visto como
que nos outros já foram superadas e se tomaram anacrônicas. decisivo para subverter o conjunto do próprio equilíbrio. Por
Também a questão do valor das ideologias (como se depreende isso o diplomata, por causa do hábito profissional, é levado ao
da polêmica Malagodi-Croce)^ — com as observações de Cróce ceticismo e à estreiteza conservadora.
sobre o "mito" soreliano, que podem ser contrapostas à "pai Nas relações internas de um Estado, a situação é incom
xão" — deve ser estudada num tratado de ciência política.
paravelmente mais favorável à iniciativa central, a uma vontade
de comando, da forma como a compreendia Maquiavel. A
opinião de De Sanctis sobre Guicciardini é muito mais realista
Fase econômica corporativa do Estado. Guicciardini as do que Treves julga. Daí a pergunta: por que De Sanctis estava
sinala um passo atrás na ciência política diante de Maquiavel. melhor preparado do que Treves para dar esta opinião histórica
0 maior "pessimismo" de Guicciardini só tem um significado. e cientificamente mais exata? De Sanctis participou de um mo
Guicciardini retorna a um pensamento político puramente ita
mento criador da história política italiana, de um momento em
liano, enquanto Maquiavel alcançaia um pensamento europeu.
que a eficiência da vontade política, empenhada em suscitai
Não se compreende Maquiavel se não se leva em conta que forças novas e originais e não só em estribar-se naquelas tra
ele supera a experiência italiana na experiência européia (inter dicionais, concebidas como impossíveis de se desenvolverem e
nacional, naquela época): a sua "vontade" seria utópica sem a
experiência européia. Em virtude disso, a mesma concepção da reorganizarem (ceticismo político guicciardiniano), mostrara

1 Ver Croce, Conversazione critiche, série IV, Bari, 1'932, págs. 143-146. 1 Cf. II realismo político di Francesco Guicciardini, in Nuova Rivista
(N. e I.) Siorica, novembro-dezembro de 1930.

92 93
toda a sua potencialidade não só na arte de fundar um Estado Os escritos de Guicciardini são mais um sinal dos tempos
a partir de uma ação interna, mas também de dominar as rela do que ciência política, e este é o juízo de De Sanctis; sinal dos
ções internacionais, reformulando os métodos profissionais c tempos, e não ensaio de história da ciência política é o trabalho
costumeiros da diplomacia (com Cavour). A atmosfera cul de Paolo Treves.
tural era propícia a uma concepção mais compreensivamente
realista da ciência e da arte políticas. Mas, mesmo sem esta
atmosfera, teria sido impossível a De Sanctis compreender Ma- Hegemonia {sociedade civil) e divisão dos poderes. A
quiavel? A atmosfera do momento histórico enriquece os en divisão dos poderes, toda a discussão havida para a sua efeti
saios de De Sanctis de um pathos sentimental que torna mais vação e o dogmatismo jurídico derivado do seu advento, cons
simpático e apaixonante o assunto, mais artisticamente expres tituem o resultado da luta entre a sociedade civil e a sociedade
siva e cativante a exposição científica, mas o conteúdo lógico política de um determinado período histórico, com certo equi
da ciência política poderia ser formulado inclusive nos períodos líbrio instável entre as classes, determinado pelo fato de que
de pior reação. Não é talvez a reação, também ela, um ato algumas categorias de intelectuais (a serviço direto do Estado,
construtivo de vontade? E não é ato voluntário a conservação? especialmente burocracia civil e militar) ainda estão muito liga
Por que então seria "utópica" a vontade de Maquiavel, por das às velhas classes dominantes. Verifica-se, assim, no interior
que revolucionária e não utópica a vontade de quem pretende da sociedade, aquilo que Croce define como o "conflito perpé
conservar o existente e impedir o surgimento e a organização tuo entre Igreja e Estado", no qual a Igreja é tomada como
de forças novas que perturbariam e subverteriam o equilíbrio representante da sociedade civil no seu conjunto (enquanto, na
tradicional? A ciência política abstrai o elemento "vontade" e realidade, não passa de um elemento gradualmente menos im
não leva em conta o fim ao qual uma vontade determinada e portante) e o Estado como autor de todas as tentativas destina
aplicada. O atributo de "utópico" não é próprio da vontade das a cristalizar permanentemente um determinado está^o de
política em geral, mas das vontades particulares que não sabem desenvolvimento, uma determinada situação. Neste sentido a
ligar o meio ao fim e, portanto, não são nem mesmo vontade, própria Igreja pode-se tornar Estado, e o conflito pode mani
mas veleidades, sonhos, desejos, etc. festar-se entre sociedade civil laica e laicizante e Estado-Igreja
(quando a Igreja se tornou uma parte integrante do Estado, da
O ceticismo de Guicciardini (não pessimismo da inteligên sociedade política monopolizada por um determinado grupo pri
cia, que pode ser unido a um otirmsmo da vontade nos polí vilegiado que se agrega à Igreja para melhor defender o seu
ticos realistas ativos) tem diversas origens: 1) o hábito diplo monopólio com o apoio daquela zona da "sociedade civil" que
mático, isto é, de uma atividade subalterna subordinada, exe- ela representa).
cutivo-burocrática, que deve aceitar uma vontade estranha Importância essencial da divisão dos poderes para o libe
(aquela política do próprio governo ou príncipe) as convicções ralismo político e econômico. Toda a ideologa liberal, com as
particulares do diplomata (que pode, é verdade, sentir aquela suas forças e as suas fraquezas, pode ser enfeixada no princípio
vontade como sua, na medida em que corresponde às suas con da divisão dos poderes, o que revela a fonte da debilidade do
vicções, mas também pode não senti-la. O fato de a diploma liberalismo: a burocracia, a cristalização do pessoal dirigente,
cia ter-se tomado necessariamente uma profissão especializada, que exerce o poder coercitivo e que, num determinado ponto,
levou a esta conseqüência: pode afastar o diplomata da política, se transforma em casta. Daí a reivindicação popular da elegibi-
dos governos mutáveis, etc.), portanto, ceticismo, e, na elabo lidade para todos os cargos, reivindicação que é, simultanea
ração científica, preconceitos extracientificos; 2) as convicções mente, o liberalismo extremo e a sua dissolução (princípio da
de Guicciardini, que era conservador, no quadro geral da polí Constituinte permanente, etc.; nas repúblicas, a eleição tempo
tica italiana, e por isto teoriza sobre as suas opiniões, a sua rária do chefe do Estado dá uma satisfação ilusória a esta rei
posição política, etc. vindicação popular elementar).
94 95
Unidade do Estado na distinção dos poderes: o Parlamen-» nitiva, de alcance moral, e não apenas um juízo de periculosi
to mais ligado à sociedade civil, o Poder Judiciário entre gover dade genérica. O direito é o aspecto repressivo e negativo de
no c Parlamento, representa a continuidade da lei escrita (in toda a atividade positiva de civilização desenvolvida pelo Estado.
clusive contra o governo). Naturalmente os três poderes são Deveriam ser incorporadas na concepção do direito inclusive
também órgão da hegemonia política, mas em diversa medida: as atividades "premiadoras" de indivíduos, de grupos, etc.;
1) Parlamento; 2) magistratura; 3) governo. Deve-se notar premia-se a atividade louvável e meritória como se pune a ati
como impressiona mal ao público as incorreções da administra vidade criminosa (e pune-se de modo original, permitindo a
ção da justiça: o aparelho hegemônico é mais sensível neste intervenção da "opinião pública" como sancionadora).
setor, ao qual podem-se reduzir também os arbítrios da polícia
e da administração pública.
Política e direito constitucional. A Nuova Antologia, de
16 de dezembro de 1929, publica uma resenha de um certo
Concepção do direito. Uma concepção do direito essencial M. Azzalini, La politica, scienza ed arte di Stato, que pode ser
mente renovadora não pode ser encontrada, integralmente, em interessante como apresentação dos elementos em que se de
nenhuirta doutrina preexistente (nem mesmo na doutrina da bate o esquematismo científico.
chamada escola positiva, e particularmente na doutrina de Ferri). Azzalini começa afirmando que foi glória "fulgidíssima" de
Se cada Estado tende a criar e a manter certo tipo de civiliza Maquiavel "ter ele circunscrito ao Estado o âmbito da política".
ção e de cidadão (e, portanto, de convivência e de relações Não é fácil compreender o que o Sr. Azzalini quis dizer. Ele
individuais), tende a fazer desaparecer certos costumes e há transcreve o seguinte período do cap. III do Príncipe: "Dizen-
bitos e a difundir outros, o direito será o instrumento para do-me o cardeal de Roano que os italianos não entendiam da
este fim (ao lado da escola e de outras instituições e atividades) guerra, respondi que os franceses não entendiam do Estado",
e deve ser elaborado de modo que esteja conforme ao fim e seja e sobre esta única citação baseia a afirmação de que, "portanto",
eficaz ao máximo e criador de resultados positivos. para Maquiavel, "a política devia ser entendida como ciência,
A concepção do direito devera ser libertada de todo resí e como ciência de Estado, e que foi sua glória, etc. (o termo
duo de transcendência e de absoluto; embora a mim pareça "ciência de Estado" para "política" teria sido adotado, no seu
que não se pode partir do ponto de vista de que o Estado não correto significado moderno, antes de Maquiavel, só por Marsi-
*'pune" (reduzindo-se este termo ao seu significado huniano), lio da Padova). Azzalini é bastante leviano e superficial. A
mas luta apenas contra a "periculosidade social. Na realidade, anedota do Cardeal de Roano, isolada no texto, não significa
o Estado deve ser concebido como "educadc^r , desde que ten nada. No contexto, assume um significado que não se presta
de a criar um novo tipo ou nível de civilização. Em virtude do a deduções científicas: trata-se, evidentemente, de uma frase
fato de que se atua essencialmente sobre as forças econômicas, de espírito, de uma réplica imediata. O Cardeal de Roano
reorganiza-se e desenvolve-se o aparelho de produção econômica, afirmara que os italianos não entendem de guerra; replicando,
inova-se a estrutura, não se deve concluir que os elementos de Maquiavel responde que os franceses não entendem do Estado,
superestrutura devam ser abandonados a si mesmos, ao seu de outro modo não teriam permitido ao Papa ampliar o seu
desenvolvimento espontâneo, a uma germinação casual e espo poder na Itália, o que era contra os interesses do Estado fran
rádica. O Estado, inclusive neste campo, é um instrumento de cês. Maquiavel, de modo algum, pensava que os franceses não
"racionalização", de aceleração e de taylorização, atua segundo entendessem do Estado, inclusive ele admirava o modo pelo
um plano, pressiona, incita, solicita e'pune ,^ pois, ^criadas as qual a monarquia (Luís XI) realizara a unidade estatal da
condições em que um determinado modo de vida é possível , França e fazia das ações da França, no- terreno do Estado, um
a "ação ou omissão criminosa" devem receber uma sanção pu- exemplo para a Itália. Naquele seu diálogo com o Cardeal de
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Roano, ele fez "política" prática, e não "ciência política"; pois, mação de Estados fortes na Itália, intervindo na vida interna
segundo ele, se o rcforçamcnto do Papa era prejudicial à polí dos povos por ele não dominados temporalmente, em defesa de
tica francesa, era mais prejudicial ainda cm relação à política interesses que não eram os dos Estados e que por isso eram
interna italiana. perturbadores e desagregadores).
O curioso é que, partindo de tão infeliz citação, Azzalini Pode-se encontrar em Maquiavel a confirmação de tudo o
afirme que "mesmo enunciando-se que aquela ciência estuda o que notei cm outras partes: que a burguesia italiana medieval
Estado, dá-se uma definição (!?) inteiramente imprecisa (!) não soube sair da fase corporativa para ingressar na fase polí
porque não se indica com que critério se deve observar o obje tica por não ler sabido libertar-se completamente da concepção
to da pesquisa. E a imprecisão é absoluta, dado que todas as medieval cosmopolita representada pelo Papa, o clero e, inclu
ciências jurídicas em geral, e o direito público em particular, sive, os intelectuais leigos (humanistas), isto é, não soube criar
referem-se indiretamente e diretamente àquele elemento". um Estado autônomo, permanecendo na moldura medieval,
O que quer dizer tudo isto, em relação a'Maquiavel? Nada feudal e cosmopolita.
de nada: confusão mental. Maquiavel escreveu livros de "ação Azzalini acentua que "basta" apenas a definição de Ulpia-
política imediata", não escreveu uma utopia em que um Estado no e, melhor ainda, os seus exemplos, publicados no Digesío,
já constituído, com todas as suas funções e os seus elementos para ressaltar a identidade extrínseca (e então?) do objeto das
constitutivos, fosse almejado. No seu trabalho, na sua critica duas ciências. "lus publicum ad statutum rei (publicae) romci-
do presente, ele exprimiu conceitos gerais, que, portanto, se nae spectat. — Publicum ius, in sacris, in sacerdotibus, in ma-
apresentam sob forma aforística, e não sistemática, e exprimiu gistratibus consistit." "Verifica-se, portanto, uma identidade de
uma concepção do mundo original que também poderia ser de objeto no direito público e na ciência política, mas não substan
finida como "filosofia da praxis" ou "neo-humanismo" na me cial, porque os critérios com os quais uma e outra ciência rela
dida em que não reconhece elementos transcendentes ou ima- cionam a mesma matéria são inteiramente diversos. Efetiva
nentes (em sentido metafísico), mas baseia-se inteiramente na mente, diversas são as esferas da ordem jurídica e da ordem
ação concreta do homem que, pelas suas necessidades históricas, política. Na realidade, enquanto a primeira observa o organis
atua e transforma a realidade. Não é verdade, como parece mo público, de um ponto de vista estático, como o produto
acreditar Azzalini, que Maquiavel não tenha levado em conta natural de uma determinada evolução histórica, a segunda obser
o "direito constitucional". Em toda a obra de Maquiavel en va o mesmo organismo, de um ponto de vista dinâmico, como
contram-se esparsos princípios gerais de direito constitucional, um produto que pode ser avaliado nas suas qualidades e nos
e ele afirma, com bastante clareza, a necessidade de que no seus defeitos e que, conseqüentemente, deve ser modifieado de
Estado domine a lei, princípios fixos segundo os quais os cida acordo com as novas exigências e as ulteriores evoluções". Logo,
dãos virtuosos possam atuar seguros de que não cairão sob os pode-se-ia dizer que "a ordem jurídica é ontológica e analítica,
golpes do arbítrio. Mas, justamente, Maquiavel reconduz tudo pois estuda e analisa os diversos institutos públicos no seu ser
à política, isto é, à arte de governar os homens, de procurar o real", enquanto a "ordem política é deontológica e crítica, por
seu consentimento permanente, de fundar, portanto, os "gran que estuda os vários institutos não como são, mas como deve
des Estados" (deve-se recordar que Maquiavel sentja que Esta riam ser, isto é, com critérios de avaliação e julgamentos de
do não era a Comuna ou a República e a Possessão Comunal, oportunidades que não são nem podem ser jurídicos".
porque lhes faltava, além de um vasto território, uma popula E tal sabichão pensa que é um admirador de Maquiavel,
ção capaz de ser a base de uma força militar que permitisse um seu discípulo e, o que é mais, um aperfeiçoador!
uma política internacional autônoma: ele sentia que na Italia, "Daí se deduz que à identidade formal acima descrita opõe-
com o Papado, perdurava uma situação de não-Estado e que se uma substancial diversidade tão profunda e notável de rnodo
ela perduraria'enquanto a religião não se tornasse "política" do a não permitir, talvez, a opinião expressa de um dos maiores
Estado e deixasse de ser política do Papa para impedir a fof-
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publicistas contemporâneos, que considerava difícil, se não im no qual predomina a atividade teórica cognoscitiva, existe o
possível, criar uma ciência pob'tica completamente diferente do artista, no qual predomina a atividade teórica intuitiva. Isto não
direito constitucional. Parece-nos que este raciocínio só é ver exaure inteiramente a esfera de ação da arte política que, além
dadeiro se a análise do aspecto jurídico e do aspecto político se de ser observada através do estadista que, na prática das fun
detém neste ponto; não o será se for além, especificando aquê- ções do governo, exterioriza a representação interna do intuito,
le campo ulterior que é de competência exclusiva da ciência pode ser avaliada através do escritor, que realiza no mundo
política. Esta, efetivamente, não se limita a estudar a organi externo (!) a verdade intuída não praticando atos de poder,
zação do Estado com um critério deontológico e crítico, e por mas criando obras e escritos que traduzem o intuito do autor.
isso diferente daquele usado para o mesmo objeto pelo direito É o caso do indiano Kamandaki (século III D.C.), de Petrar-
público, mas amplia a sua esfera a um campo que lhe é próprio, ca no Trattatello pei Carraresi, de Botero na Ragion dí Stato
definindo as leis que regulam o surgimento, a consolidação e o e, sob certos aspectos, de Maquiavel e de Mazzini." Azzalini
declínio dos Estados. Nem é válido afirmar que este é um não sabe orientar-se nem na filosofia, nem na ciência da polí
estudo da História (entendida no seu significado geral (!), por tica. Mas procurei utilizar-me de todas estas notas para tentar
que mesmo admitindo que a pesquisa das causas, dos efeitos, desembaraçar o novelo e ver se chego a conceitos claros por
dos vínculos mútuos de independência das leis naturais que go minha conta. Deve-se esclarecer, por exemplo, o que pode sig
vernam o ser e o existir dos Estados seja investigação histórica, nificar "intuição" na política e a expressão "arte" política, etc.
permanecerá sempre no âmbito exclusivamente político, portan Recordar, ao mesmo tempo, alguns pontos de Bergson: "A
to nem histórico nem jurídico, a pesquisa dos meios idôneos inteligência só nos oferece uma tradução da vida (a realidade
capazes de presidir, na prática, à orientação geral política. A em movimento) em termos da inércia. Ela gira em torno de
função que Maquiavel se propunha realizar e sintetizava dizen tudo, apanhando de fora o maior número possível de visões do
do: Provarei como estes principados podem ser governados e objeto que aproxima de si, em vez de penetrar nele. Mas é a
mantidos {Príncipe, cap. II), é de tal ordem pela sua impor intuição que nos levará ao interior da vida: pretendo dizer o
tância intrínseca e como argumento, que não só legitima a au instinto que se tornou desinteressado." "O nosso olho percebe
tonomia da política, mas permite, pelo menos sob o aspecto os traços do ser vivo, mas aproximados um do outro, não or
anteriormente delineado, uma distinção inclusive formal entre a ganizados entre si. A intenção da vida, o movimento simples
política e o direito público." , que corre através das linhas, que liga uma a outra e dá-lhes um
Eis o que Azzalini entende por autonomia da política! significado, escapa a ele, e é esta intenção que o artista tende
Mas afirma o autor — além de uma ciência, existe uma a apanhar, colocando-se no interior do objeto com uma espécie
arte política. "Existem homens que apreendem ou apreende de simpatia, superando através de um esforço de intuição a
ram da intuição pessoal a visão das necessidades e dos^ interesses barreira que o espaço coloca entre ele e o modelo. Mas, na
do país governado, que na sua obra de governo aplicaram no verdade, a intuição estética só abrange o individual." "A inteli
mundo externo a visão, a intuição pessoal. Não queremos dizer gência é caracterizada por uma incompreensão natural da vida,
com isto, é claro, que a atividade intuitiva, e por isso artística, já que ela representa claramente apenas o descontínuo e a imo-
é a única e predominante no estadista; queremos apenas dizer bilidade."^
que nele, ao lado das atividades praticas, econômicas e morais, Portanto, separação da intuição política da intuição esté
deve subsistir também aquela atividade teórica acima indicada, tica ou lírica, ou artística: só por metáfora fala-se de arte po
tanto sob o aspecto subjetivo da intuição como sob o aspecto lítica. A intuição política não se exprime no artista, mas no
objetivo (!) da expressão, e que, na ausência desses requisitos, "chefe", e por "intuição" deve-se entender não o "conhecimento
não pode existir o governante e muito menos (!) o estadista, dos individuais", mas a rapidez em ligar fatos aparentemente
cujo fastígio se caracteriza exatamente por aquela faculdade
inata (?). Logo, também no campo político, além do cientista, 1 Bergson, L'évolution créatrice, Paris, 1907, passim. (N. e. I.)

100 lOI
estranhos entre si e em conceber os meios adequados ao fim
para situar os interesses em jogo, suscitar as paixões dos ho
mens e orientá-los para uma determinada ação. A "expressão"
do "chefe" é a "ação" (em sentido positivo ou negativo, desen
cadear uma ação, ou impedir que se verifique uma determinada
ação, conveniente ou inconveniente ao fim que se quer alcan
çar). Além do mais, em política o "chefe" pode ser um indi
víduo, mas também um corpo político mais ou menos nume
roso: neste último caso a unidade de intenções será sintetizada
num indivíduo ou num pequeno grupo interno, e no pequeno
grupo num indivíduo que pode mudar, permanecendo o grupo
unido e coerente no prosseguimento da sua obra.
Para se traduzir em linguagem política moderna a noção
de "príncipe", da forma como ela se apresenta no livro de
Maquiavel, seria necessário fazer uma série de distinções: "Prín Roberto Michels e os
cipe" poderia ser um chefe de Estado, um chefe de governo,
mas também um h'der político que pretende conquistar um Es Partidos Políticos
tado ou fundar um novo tipo de Estado; neste sentido, em lin
guagem moderna, a tradução de "Príncipe poderia ser parti
do político". Na realidade de todos os Estados, o "chefe do
Estado", isto é, o elemento equUibrador dos diversos interesses
em luta contra o interesse predominante, mas não exclusivo num
sentido absoluto, é exatamente o "partido político"; ele, porém,
ao contrário do que se verifica no direito constitucional tradi
cional, nem reina nem governa juridicamente: tem o poder
de fato", exerce a função hegemônica e, portanto, equi-
libradora de interesses diversos, na "sociedade civil ; mas de
tal modo esta se entrelaça de fato corn a sociedade política, que Le parti poliíique — escreve Michels — ne saurait être
todos os cidadãos sentem que ele reina e governa. Sobre esta etymologiquement et logiquement qu'une partie de Vensemble des
realidade, que se movimenta continuamente, não se pode criar citoyens, organisée sur le terrain de Ia poliíique. Le parti n'est
um direito constitucional do tipo tradicional, mas só um sistema donc qu'une fraction, pars 'pro Segundo Max Weber,^
de princípios que afirma como objetivo do Estado o seu próprio ele se origina de duas espécies de causas: seria especialmente uma
fim, o seu desaparecimento, a reabsorção da sociedade política associação espontânea de propaganda e de agitação, que tende
pela sociedade civil. ao poder para permitir, assim, aos seus adeptos ativos (militantes)
possibilidades morais e materiais para alcançar metas objetivas
ou vantagens .pessoais ou, ainda, as duas coisas juntas. A orien-

1 R. Michels, Les partis politiques et Ia contrainte sociale, Mercure


de France, 1.° de maio de 1928, págs. 513-535.
2 Wiríschaft und Gesellschaft. Grundriss der Sozialôkonomik, III, 2.^
ed., Tubingen, 1925, págs. 167, 169.

102 103
r

pela graça de Deus.] Entretanto, algumas vezes esta espécie de


tação geral dos partidos políticos consistiria portanto no Machts- partido apresenta-se sob formas mais gerais. O próprio Lassalle,
treben, pessoal ou impessoal. No primeiro caso, os partidos pessoais chefe dos lassalianos, oficialmente só era presidente perpétuo do
se baseariam na proteção oferecida aos inferiores por um homem Allgemeiner Deutscher Arbeiterverein. Ele se comprazia em alar
poderoso. Na história (?) dos partidos políticos os casos desse dear perante os seus fautores a idolatria que lhe dedicavam as
gênero são freqüentes. Na velha dieta prussiana de 1855, que massas delirantes e as virgens vestidas de branco que lhe canta
englobava muitos grupos políticos, todos levavam o nome dos seus vam coros e ofertavam-lhe flores. Esta fé carismática não era
chefes- o único grupo que adotou o seu verdadeiro nome foi um apenas fruto de uma psicologia exuberante e um pouco megalôma-
grupo "nacional, o polonês.^ A história do movimento operário na, mas correspondia também a uma concepção teórica. Nós deve
demonstra que os socialistas não desprezaram esta tradição bur mos — disse aos operários renanos, expondo as suas idéias sobre a
guesa. Muitas vezes os partidos socialistas adotaram o nome dos organização do partido — forjar um martelo com todas as nossas
seus líderes {"comme pour faire Vaveu public de leur assujettisse- vontades dispersas e colocá-lo nas mãos de um homem cuja inteli
ment complet à ces chefs"). Na Alemanha, entre 1863 e 1875, gência, caráter e devoção (dévouement) representem para nós uma
as frações socialistas rivais eram os marxistas e ps lassalianos. garantia de que ele golpeará energicamente.^ Era o martelo do dita
Na França numa época mais recente, as grandes correntes socia dor. Mais tarde as massas exigiram pelo menos um simulacro de
listas estavam divididas em broussistas, alemanistas, blanquistas, democracia e de poder coletivo, formaram-se grupos sempre mais
guesdistas e jauresistas. É verdade que os homens que assim davam numerosos de líderes que não admitiam a ditadura de um só chefe.
os seus nomes aos diversos movimentos personificavam o mais Jaurès e Bebei são dois tipos de líderes carismáticos. Bebei,
completamente possível as idéias e as tendências que inspiravam órfão de um suboficial da Pomerânia, falava altanelramente (?)
e guiavam o partido durante toda a sua evolução.- Talvez exista e era imperativo.^ Jaurès, orador extraordinário, inigualável, in
analogia entre os partidos políticos e as seitas religiosas ou as or flamado, romântico e ao mesmo tempo realista, procura superar
dens monásticas; Yves Guyot notou que o indivíduo pertencente as dificuldades "seriando" os problemas, para eliminá-los à medi
ao partido moderno age como os frades da Idade Media, que de da que se apresentavam.^ Os dois grandes chefes, amigos e ini
ram às suas ordens os nomes de São Domingos, São Benedito, San migos, tinham em comum uma fé indômita tanto na eficácia das
to Agostinho, São Francisco.^ Eis os partidos-tipos, que poderiam suas ações, como nos destinos das legiões das quais eram os porta-
ser chamados de partis de patronage. Quando o chefe exerce uma bandeiras. Ambos foram deificados: Bebei ainda vivo, Janrès
influência si>bre os seus adeptos, em virtude de qualidades tão depois de morto.
elevadas que parecem sobrenaturais a estes, pode ser chama Mussolini é outro exemplo de chefe-partido que tem o pro
do chefe carismático dom de Deus. recompensa: cf. feta e o crente. Além do mais, éle não é apenas chefe único de
M. Weber, op. cit., pág. 140). [Esta nota está assinalada 4 bis, um grande partido, mas é também o chefe único de um grande
isto é, foi inserida nos esboços; não certamente por causa da tra Estado. Com éle, inclusive a noção do axioma "o partido sou eu"
dução «xáptffpa», mas talvez por causa da citação de Weber. teve, no sentido da responsabilidade e do trabalho assíduo, o má
Michels fez muita onda na Itália a respeito do seu achado do ximo desenvolvimento.
"chefe carismático", que, provavelmente (seria bom confrontar), [Historicamente inexato. Nesse tempo é proibida a formação
já estava em Weber (também seria necessário ver o livro de Mi de grupos e toda a discussão de assembléia, pois elas se revelaram
chels sobre a Sociologia política, de 1927): nem ao menos faz desastrosas. Mussolini serve-se do Estado para dominar o partido,
referência à existência antes, e como!, de uma concepção do chefe 1 Cf. Michels, Les partis politiques, 1914, pág. 130; não se reposta à
edição italiana ampliada, de 1924.
1 Cf. Fbiedrich Naumann, Die Politischen Parteien, Berlim, 1910, 2 Hervó chamou-o Kaiser Bebei; cf. Michels, Bedeutende Mânner,
Leipzig, 1927, pág. 29.
?'^MAScE^CH^NAy. Les Allemanistes, Paris, Rivière, 1912, pág. 25. 3 Cf. Rappoport, Jean Jaurès, rhomme, le penseur, te socialiste, 2.^
3 Yves Guyot, La comédie socialiste. Paris, 1897, Charpentier, pág. 111. ed.. Paris, 1916, pág. 366.
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e do partido, só em parte, nos momentos difíceis, para dominar vimcntos" antiautoritários, anarquistas, anarco-socialistas, tornam-
o Estado. Além do mais, o chamado "carisma", no sentido de se "partido" porque o agrupamento se dá em torno de personali
Michels, coincide sempre no mundo moderno com uma fase pri dades "irresponsáveis" do ponto de vista orgânico, em certo sen
mitiva dos partidos de massa, com a fase em que a doutrina se tido "carismáticas".)
apresenta às massas como algo de nebuloso e incoerente, que ne A classificação que Michels faz dos partidos é muito super
cessita de um papa infalível para ser interpretada e adaptada às ficial e sumária, por caracteres externos e genéricos: 1) partidos
circunstâncias; quanto mais se verifica esse fenômeno, mais o "carismáticos", isto é, agrupados em torno de certas personalida
partido nasce e se forma não sobre a base de uma concepção do des, com programas rudimentares; a base desses partidos é a fó
mundo unitária e rica de impulsos, porque expressão de uma classe e a autoridade de um indivíduo (tais partidos jamais foram vistos;
historicamente essencial e progressista, mas sobre a base de ideolo determinados interesses se expressam em certos momentos através
gias incoerentes e demagógicas, que se nutrem de sentimentos e de certas personalidades mais ou menos excepcionais; cm certos
emoções que ainda não alcançaram o ponto máximo de dissolu momentos de "anarquia permanente", devida ao equilíbrio está
ção, pois as classes (ou a classe) das quais ela é expressão, em tico das forças em luta, um homem representa a "ordem", a rup
bora se dissolvendo, historicamente, ainda têm certa base e se tura por meios excepcionais do equilíbrio normal, e em tórno dele
apegam às glórias do passado para utilizá-las como escudo contra agrupam-se os "amedrontados", as "ovelhas hidrófobas" da peque
o futuro.] O exemplo que Michels dá como prova da ressonância na burguesia. Mas há sempre um programa, mesmo que genérico,
dessa concepção entre as massas e infantil para quem conhece a e genérico exatamente porque tende apenas a readaptar a cober
facilidade das multidões italianas para o exagero sentimental e o tura política exterior a um conteúdo social que não atravessa uma
entusiasmo "emotivo". Uma voz em dez mil presentes diante do verdadeira crise constitucional, mas só uma crise provocada pelo
Palácio Chigi teria gritado: "Não, tú és a Itália", num momento número elevado de descontentes, difícil de ser controlada em vir
de comoção objetiva real da multidão fascista. Mussolini, poste tude apenas da quantidade de descontentes e da simultânea, mas
riormente, manifestaria a essência carismática do seu caráter no mecanicamente simultânea, manifestação de descoritentamento em
telegrama enviado a Bolonha, no qual afirmava estar seguro, abso toda a área da nação); 2) partidos que têm por base interesses de
lutamente seguro (e certamente estava, por cause) de que nada classe, econômicos e sociais, partidos de operários, camponeses ou
de grave ocorreria com ele antes de ter completado a sua missão. de petites gens, já que os burgueses, isoladamente, não podem
"Naus ríavorxs pas ici à indiquer les dangers que Ia conception ca- formar um partido; 3) partidos políticos gerados (!) por idéias
rismatique peut en traíner." (?) A direção carismática traz con políticas ou morais, gerais e abstratas: quando esta concepção está
sigo um dinamismo vigorosíssimo. Saint-Simon, no seu leito de mor baseada num dogma mais desenvolvido e elaborado até nos mí
te, disse aos seus discípulos que se recordassem de que, para fazer nimos detalhes, poder-se-ia falar de partidos doutrinários, cujas
grandes coisas, é necessário apaixonar-se. E apaixonar-se signi doutrinas seriam privilégio dos chefes; partidos liberais ou prote
fica ter o dom de apaixonar os outros. É um estimulante formi cionistas, ou partidos que proclamam direitos de liberdade e de
dável. Esta é a vantagem dos partidos carismáticos sobre os ou justiça como: "A cada um o produto do seu trabalho! A cada um
tros, baseados num programa bem definido e no interesse de clas de acordo com o seu esforço! A cada um segundo as suas neces
se. Entretanto, é verdade que a vida dos partidos carismáticos sidades."
freqüentemente é regulada pela vida do seu impulso e do seu en Michels, até que enfim, acha que esta distinção não pode ser
tusiasmo, que muitas vezes têm uma base bastante frágil. Por isso nítida nem completa, pois os partidos "concretos" representam,
vemos os partidos carismáticos obrigados a apoiar os seus valores em geral, matizes intermediários ou combinações de todos os três.
psicológicos (!) em organizações mais duradouras dos interesses A estes três tipos ele acrescenta outros dois: os partidos confes
humanos. O chefe carismático pode pertencer a qualquer parti sionais e os partidos nacionais (seria necessário ainda acrescentar
do, autoritário ou antiautoritário. (Desde que existam partidos os partidos republicanos num regime monarquista e os partidos
antiautoritários, como partidos; além do mais, ocorre que os "mo- monarquistas num regime republicano). Segundo Michels, os par-

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tidos confessionais, mais do que uma Weltanschauung, professam chefes e seguidores. A questão passa a ser política, adquire um
uma Ueberweltanschauung (o que é a mesma coisa). Os partidos valor real, e não mais apenas de esquematismo sociológico, quan
nacionais professam o princípio geral do direito de cada povo e de do na organização existe divisão de classe: o que ocorreu nos sin
cada fração de povo à soberania completa e incondicional (teo dicatos e nos partidos social-democratas. Se não existe diferença
rias de P. S. Mancini). Mas, depois de 1848, estes partidos de de classe, a questão torna-se puramente técnica (a orquestra não
sapareceram e surgiram os partidos nacionalistas sem princípios ge crê que o regente seja um patrão oligárquico), de divisão do tra
rais porque negam aos outros, etc. (embora os partidos nacionalis balho e de educação, isto é, a centralização deve presumir que
tas nem sempre neguem "teoricamente" aos outros povos tudo o que nos partidos populares a educação e o "aprendizado" político ma
defendem para si: confiam a solução do conflito às armas, quando nifestam-se em grande parte através da participação ativa dos se
não partem de concepções vagas de missões nacionais, como Mi- guidores na vida intelectual (discussões) e organizativa do par
chels acaba dizendo). tido. A solução do problema, que se complica exatamente pelo
O artigo está cheio de palavras vazias e imprecisas: "A ne fato de que nos partidos avançados os intelectuais têm uma gran
cessidade da organização e as tendências inelutáveis (!) da psico de função, pode ser encontrada através da formação de uma ca
logia humana, individual e coletiva, apagam a longo prazo a mada média mais numerosa possível entre os chefes e as massas,
maior parte das distinções originais." (O que quer dizer tudo isto: capaz de servir de equilíbrio para impedir os chefes de se desvia
o tipo "sociológico" não corresponde ao fato concreto.) "O par rem nos momentos de crises radicais e de elevar sempre mais a
tido político como tal tem a sua própria alma (!), independente massa.)
dos seus programas e regulamentos e dos princípios internos de
que está impregnado." Tendência à oligarquia. "Criando os che As idéias de Michels sobre os partidos políticos são bastante
fes, os próprios operários criam, com as próprias mãos, novos confusas e esquemáticas, mas são interessantes como colheita de
patrões, cuja principal arma de domínio reside na superioridade material bruto e de observações empíricas e disparatadas. Os erros
técnica e intelectual, e na impossibilidade de seus mandantes exer de fato também não são poucos (o Partido bolchevique teria nas
cerem um controle eficaz." Os intelectuais têm uma função (nesta cido das idéias minoritárias de Blanc e das concepções mais se
manifestação). Os partidos socialistas, graças aos numerosos pos veras e mais diversificadas do movimento sindicalista francês, ins
tos retribuídos e honoríficos de que dispõem, oferecem aos ope piradas por G. Sorel). A bibliografia dos trabalhos de Michels
rários (a certo número de operários, naturalmente) uma possibi pode ser reconstruída a partir dos seus próprios textos, pois ele
lidade de fazer carreira, o que exerce sobre eles uma força con freqüentemente cita a si mesmo. Uma observação interessante sobre o
siderável (porém, esta força se exerce mais sobre os intelectuais). modo de trabalhar e de pensar de Michels: os seus escritos estão
Complexidade progressiva da atividade política, em virtude da qual cheios de citações bibliográficas, em boa parte ociosas e confusas.
os chefes dos partidos tornam-se cada vez mais profissionais que Êle, inclusive, apóia os mais banais "truísmos" na autoridade dos
devem ter noções sempre mais amplas, tato, prática burocrática escritores mais disparatados. Freqüentemente tem-se a impressão
e, freqüentemente, uma argúcia sempre mais vasta. Assim, os di de que não é o curso do pensamento que determina as citações,
rigentes afastam-se cada vez mais da massa, dando margem à fla mas a quantidade de citações já recolhidas que determina o curso
grante contradição que se manifesta nos partidos avançados entre do pensamento, dando-lhe um quê de tumultuado e improvisado.
as declarações e as intenções democráticas e a realidade oligárqui- Michels deve ter organizado um imenso fichário, mas como ama
ca. (Entretanto, é necessário observar que uma é a democracia dor autodidata. Pode ter certa importância sabermos quem fez
de partido, e outra a democracia no Estado: para conquistar a pela primeira vez uma determinada observação, tanto mais se esta
democracia no Estado pode ser necessário (ou melhor, é quase observação estimulou uma pesquisa ou fez progredir de algum
sempre necessário) um partido fortemente centralizado^ e mais modo uma ciência. Mas anotar que este ou aquele disse que dois
ainda: as questões relacionadas com democracia e oligarquia tem
um significado preciso que é dado pela diferença de classe entre e dois são quatro, é, pelo menos, inédito.

108 109
Outras vezes as citações são multo domesticadas: o juízo sec Em Nuovi Studi di Diritto, Economia e Politica de setembro-
tário, ou, no melhor caso, epigramático, de um polemista, é apre outubro de 1929, Michels publica cinco bilhetes que lhe foram
sentado como fato histórico ou como documento de fato histórico. enviados por Sorel (o primeiro em 1905, o segundo em 1912,
Quando, na página 514 déste artigo, publicado no Mercure de e os três últimos em 1917), sem nenhum caráter confidencial, mas
France, èle diz que na França a corrente socialista estava dividi sim de correta e fria conveniência, e numa nota (pág. 291) es
da em broussistas, alemanistas, blanquistas, guesdistas e jauresis- creve a respeito da opinião referida mais acima: "Sorel, eviden
tas para chegar à conclusão de que nos partidos modernos as temente, não compreendera (!) o sentido mais direto do artigo in
coisas são como nas ordens monásticas medievais (beneditinos, criminado, no qual eu acusara (!) o marxismo de ter deixado
franciscanos, etc.), com a citação da Comêdie socialiste de Ives escapar (!) o lado ético do socialismo mazziniano, e mais, de ter,
Guiot, da qual deve ter extraído a frase, ele não diz que aquelas exagerando o lado puramente econômico, levado o socialismo à
não eram denominações oficiais dos partidos, mas denominações ruma. Por outro lado, como se depreende das cartas já publica
de "conveniência", surgidas das polêmicas internas e que, quase das (que cartas? as publicadas por Michels? estes cinco bilhetes?
sempre, continham implicitamente uma crítica e uma reprovação eies não dizem nada) o impulso (grifado por Michels, mas trata-se
a desvios personalistas, críticas e reprovações mútuas que depois de algo muito diferente de um impulso; ao que parece, em relação a
demonstraram-se estéreis com o uso efetivo da denominação per Sorel, trata-se da confirmação de um juízo já formulado há muito
sonalista (pela mesma razão "corporativa" e "sectária" que levou tempo) de Sorel não impediu em nada as boas relações (!) com o
os Gueux a adotar essa denominação). Por estas razões, todas as autor destas linhas." Parece-me que nestas notas publicadas em
considerações epigramáticas de Michels caem no superficialismo Nuovi Studi, Michels tenha em mente alguns objetivos discretamente
reacionário de salão. interessados e ambíguos: lançar certo descrédito sobre Sorel como
homem e como amigo da Itália e mostrar-se um patriota italiano
A pura descritividade e a classificação externa da velha so de longa data. Reaparece este motivo bastante equívoco em Mi
ciologia positivista são outro caráter essencial destes textos de Mi chels (creio que assinalei em outro lugar a sua situação quando
chels. Ele não tem nenhuma metodologia intrínseca aos fatos, ne do desencadeamento da guerra) É interessante o bilhete de Sorel
nhum ponto de vista crítico que não seja um amável ceticismo de a Michels, de 10 de julho de 1912: "Je lis le numéro, de Ia 'Vallêe
salão ou de café reacionário, que substituiu a gaiatice igualmente d Aoste* que vous avez bien voulu m'envoyer. J'y ai remarqué que
superficial do sindicalismo revolucionário e do sorelianismo. vous affirmez un droit au sêparatisme, qui est bien de nature à
Relações entre Michels e Sorel: carta de Sorel a Croce com rendre suspect aux Ttaliens le maintien de langue françcdse dans
um aceno à superficialidade de Michels e tentativa mesquinha de Ia Vallee d'Aoste." Michels assinala que se trata de um número
Michels de se livrar do juízo de Sorel. Na carta a Croce, de 30 único, La Vallé d'Aoste pur sa langue françcdse, publicado em
de maio de 1916,i Sorel escreve: "Je viens de recevoir une bro- maio de 1912 em Aosta pela tipografia Margherittaz, sob os aus
chue de R. Michels, tirée de "Scíentia", mal 1916: La débâcle de pícios de um comitê local valdostano para a proteção da língua
Vlnternaíionále ouvrière et Vavenir. Je vous prie d'y jeter les yeux; francesa (colaboradores, Michels, Croce, Prezzolini, Graf, etc.).
elle me semble prouver que Vauteur n'a jamais rien compris à ce Inútil dizer que nenhum destes autores assumira, como afirmou
qui est importam dans le marxisme. II nous presente Garibaldi, L. Sorel com excessiva licença poética, qualquer tese "separatista".
Blanc, Benoit Malon (!) comme les vrais maítres de Ia pensée so
Sorel apenas se refere a Michels, e eu sou levado a crer que ele,
cialiste..." A impressão de Sorel deve ser exata — eu não li
na verdade, referiu-se pelo menos ao direito ao separatismo (con
trolar, no caso de uma apresentação de Michels, que um dia será
este escrito de Michels — pois ela aparece de modo mais evidente necessária).
no livro de Michels II movimento socialista italiano (Edição
"Voce").
Veja-se a pág. 219 deste volume.
1 Critica, 20 de setembro de 1929, pág, 357.

110 111
3

Notas Sobre a Vida


Nacional Francesa

O PARTIDO monarquista num regime republicano, assim


como o partido republicano num re^me monarquista, ou o par
tido nacional num regime de sujeição do país a um Estado
estrangeiro, não podem não ser partidos sui generis; se preten
dem obter sucessos relativamente rápidos, devem ser as cen
trais de federações de partidos, mais do que partidos caracte
rizados em todos os pontos particulares dos seus programas de
governo: partidos de um sistema geral de governo, e não de
governos particulares (um lugar à parte nesta série deve ser
conferido aos partidos confessionais, como o Centro alemão
ou os diversos partidos cristãos-sociais ou populares).
O partido monarquista na França apóia-se nos resíduos
ainda fortes da aristocracia latifundiária e numa parte da pe-
113
sociedade está cm contínuo processo de formação e de dissolu
quena burguesia e dos intelectuais. O que esperam os monar-
ção, seguido de formações mais complexas e ricas de possibili
quistas para se tornarem capazes de assumir o poder e restaurar dades. Em linhas gerais, isto dura até a época do imperialismo
a monarquia? Esperam o colapso do regime parlamentar-bur- e culmina na guerra mundial.
guês e confiam na incapacidade de qualquer outra força orga
nizada existente de ser o núcleo político de uma ditadura mili Alternam-se neste processo tentativas de insurreições e re
tar previsível ou por eles mesmos preordenada; de nenhuma pressões impiedosas, alargamentos e restrições do sufrágio polí
outra maneira as suas forças sociais estariam em condições de tico, liberdade de associação e restrição ou anulação desta li
conquistar o poder. Na expectativa, o centro dirigente da Action berdade, liberdade no campo sindical, mas não no campo polí
Française desenvolve sistematicamente uma série de atividades: tico, formas diversas de sufrágio, escrutínio de listas ou circuns-
uma ação organizativa político-militar (militar no sentido de crições uninominais, sistema proporcional ou individual, com as
partido e no sentido de criar células ativas entre os oficiais várias combinações que podem resultar: sistema das duas Câ
do exército) para agrupar do modo mais eficiente a estreita maras ou de uma só Câmara eletiva, com vários modos de
base social sobre a qual historicamente o movimento se apoia. eleição para cada uma (.Câmara vitalícia e hereditária, Senado
Sendo esta base constituída por elementos em geral mais sele com mandato a prazo determinado, mas com eleição dos sena
cionados pela inteligência, cultura, riqueza, prática de adminis dores diferente da eleição de deputados, etc.); equilíbrio varia
tração, etc., dó que qualquer outro movimento, é possível cons do dos poderes, pelo qual a magistratura pode ser um poder
tituir um partido notável, até imponente, mas que se esgota em independente ou apenas uma ordem, controlada e dirigida atra
si mesmo, isto é, que não dispõe de reservas para lançar na vés de circulares ministeriais; atribuições diversas do chefe do
luta numa crise decisiva. Portanto, o partido só é notável nos governo e do chefe do Estado; equilíbrio interno diferente dos
tempos normais, quando os elementos ativos na luta política organismos territoriais (centralismo ou descentralização, maio
se contam às dezenas de milhares, mas se tornará insignificante res ou menores poderes dos prefeitos, dos Conselhos Provin
(numericamente) nos períodos de crise, quando os elementos ciais, das Comunas, etc.); equilíbrio diverso entre as forças
ativos se contarão às centenas de milhares, e talvez milhões. armadas recrutadas e as profissionais (polícia, gendarmeria),
O desenvolvimento do jacobinismo (de conteúdo) e da dependendo estes corpos profissionais de um determinado órgão
fórmula da revolução permanente, aplicada na fase ativa da estatal (da magistratura, do Ministério do Interior ou do Estado-
Revolução Francesa, encontrou o seu "aperfeiçoamento" jurí- Maior); a maior ou menor parte concedida aos usos ou às leis
dico-constitucional no regime parlamentar, que realiza, no perío escritas, em virtude do que se desenvolvem formas consuetu-
do mais rico de energias "privadas" na sociedade, a hegemonia dinárias que podem, num determinado momento, ser abolidas
permanente da classe urbana sobre toda a população, na forma pelas leis escritas (em alguns países "parecia" terem-se consti
hegeliana de governo do consenso permanentemente organiza tuído regimes democráticos, mas estes se constituíram apenas
do (mas a organização do consenso é deixada à iniciativa pri formalmente, sem luta, sem sanção constitucional, e foi fácil
vada; é, portanto, de caráter moral ou ético, já que o consenso, desagregá-los sem luta, ou quase, reconstituindo a lei escrita
de um modo ou de outro, é dado "voluntariamente"). O "li ou interpretando a lei escrita de modo reacionário, pois eles
mite" encontrado pelos jacobinos na lei Le Chapelier e na lei careciam de subsídios jurídico-morais e militares); a separação
do maximum é superado e levado adiante progressivamente mais ou menos grande entre as leis fundamentais e as normas
através de um processo completo, no qual se alternam a ativi de execução que anulam ou interpretam-nas de um ponto de
dade propagandista e a atividade prática (econômica, político- vista restritivo; o emprego mais ou menos amplo dos decretos-
jurídica): a base econômica, em virtude do desenvolvimento leis que tendem a substituir a legislação ordinária e modificam-
industrial e comercial, é continuamente alargada e aprofundada, na em determinadas ocasiões, "forçando a paciência do Parla
os elementos sociais mais ricos de energia e de espírito criador mento" até alcançar uma situação de verdadeira "ameaça de
elevam-se das classes inferiores até as classes dirigentes, toda a
115
114

J
guerra civil". Contribuem para este processo os teórícos-filóso- direção). As formas deste fenômeno são também, em certa
fos, os publicistas, os partidos políticos, etc., no que se refere medida, de corrupção e dissolução moral: cada fração de
ao desenvolvimento da parte formal, e os movimentos e as partido acredita possuir a receita infalível para contornar o
pressões de massa, no que se refere à parte substancial, com enfraquecimento do partido no seu conjunto, e recorre a todos
ações e reações recíprocas, com iniciativas "preventivas" antes os meios para assumir a sua direção ou, pelo menos, para par
que um fenômeno se manifeste perigosamente, e com repressões ticipai da direção, da mesma forma que no Parlamento o par
quando as prevenções falharam ou foram tardias e ineficazes. tido pensa que deve ser o único a formar o governo para sal
var o país ou, pelo menos, pretende, para apoiar o governo,
O exercício "normal" da hegemonia, no terreno clássico participar dele o mais amplamente possível; logo, negociações
do regime parlamentar, caracteriza-se pela combinação da for
cavilosas e minuciosas, que não podem deixar de ser perso
ça e do consenso, que se equilibram variadamente, sem que nalistas de modo a parecerem escandalosas, e que, freqüente
a força suplante muito o consenso, ou melhor, procurando mente, são desleais e pérfidas. Talvez, na realidade, a corrup
obter que a força pareça apoiada no consenso da maioria,
expresso pelos chamados órgãos da opinião pública jornais ção pessoal é menor do que parece, pois todo o organismo po
e associações — os quais, por isso, em determinadas situa lítico está corrompido pelo esfacelamento da função hegemô
ções, são artificialmente multiplicados. Entre o consenso e a nica. Poder-se-ia, inclusive, justificar que os interessados em
força situa-se a corrupção-fraude (característica de certas si que a crise se resolva de um ponto de vista seu, finjam acre
tuações de exercício difícil da função hegemônica, apresentando ditar e proclamem em voz alta que se trata da "corrupção"
o emprego da força muitos perigos), isto é, a desarticulação e e da "dissolução" de uma série de "princípios" (imortais ou
a paralisação do antagonista ou dos antagonistas através da não): cada um é o melhor juiz na escolha das armas ideoló
absorção dos seus dirigentes, seja disfarçadamente, seja, em gicas mais apropriadas ao fim que pretende alcançar, e a dema
caso de perigo emergente, abertamente, para lançar a confu gogia pode ser considerada uma arma excelente. Mas a coisa
são e a desordem nas fileiras adversárias. torna-se cômica quando o demagogo não sabe que o é, e atua
No período^ do após-guerra o aparelho hegemônico sq na prática como se fosse verdade que na realidade dos fatos o
divide o exercício da hegemonia torna-se difícil e aleatório; hábito faz o monge, e o chapéu o cérebro. Assim, Maquiavel
•transforma-se num StenterelloK
O fenômeno é apresentado e tratado sob vários nomes e em
aspectos secundários e derivados. Os mais triviais são: "crise
do princípio de autoridade" e "dissolução do regime parla A crise na França. A sua grande lentidão de movimentos.
mentar". Naturalmente, do fenômeno só se descrevem as ma
nifestações "teatrais" no terreno parlamentar e do governo po Os partidos políticos franceses: eles eram numerosos, inclu
sive antes de 1914. A sua multiplicidade formal depende da ri
lítico, manifestações explicadas exatamente através da falên queza de eventos revolucionários e políticos na França, de
cia 4e alguns "princípios" (parlamentar, democrático, etc.) 1789 até o "caso Dreyfus": cada um destes acontecimentos
e da "crise" do princípio de autoridade (da falência deste deixou sedimentos e traços que se consolidaram em partidos,
princípio falarão outros não menos superficiais e supersticio mas sendo as diferenças muito menos importantes que as coin
sos), A. crise manifesta-se, na pratica, na sempre crescente cidências; na realidade, sempre reinou no Parlamento o regime
dificuldade de formar os governos e na sempre crescente ins dos dois partidos liberais-democráticos (variadas gamas do ra
tabilidade dos próprios governos; ela tem a sua origem ime dicalismo) e conservadores. Pode-se, inclusive, dizer que a
diata na multiplicação dos partidos parlamentares e nas crises multiplicidade dos partidos, dadas as circunstâncias particula-
internas permanentes de cada um destes partidos (isto é, veri
fica-se no interior de cada partido tudo o que se verifica em 1 Stentchello, máscara florentina criada em 1790 pelo cômico Dei
todo o Parlamento: dificuldades de governo e instabilidade de Buono. Figura de homem ridículo. (N. do T.)

116 117
res da formação político-nacional francesa, foi bastante útil no colas é mínimo, o camponês sem terra é servo da fazenda, is
passado: permitiu uma vasta obra de seleções individuais e to é, vive a mesma vida dos patrões e não conhece a inédia da
criou o grande número de hábeis homens de governo que ca desocuparão nqm mesmo sazonal; o verdadeiro assalariado
racteriza a França. Através deste mecanismo desatado e arti confunde-se com o marginalismo rural e é formado por ele
culado, cada movimento da opinião pública encontrava um re mentos irrequietos que viajam de um ponto a outro do país
flexo imediato e uma composição. A hegemonia burguesa é para realizar pequenos trabalhos marginais. O rancho na trin
bastante forte e dispõe de muitas reservas. Os intelectuais estão cheira era melhor do que em outros países, e o passado demo
muito concentrados (Instituto da França, Universidade, grandes crático, rico de lutas e de ensinamentos recíprocos, criara o
jornais e revistas de Paris) e, embora numerosíssimos, são, no tipo comum do cidadão moderno, inclusive nas classes subal
fundo, muito ligados aos centros nacionais de cultura. A bu ternas; cidadão nos dois sentidos: de que não só o homem
rocracia militar e civil tem uma grande tradição e alcançou um do povo se considerava alguma coisa, mas era considerado al
alto grau de homogeneidade ativa. guma coisa, inclusive pelos superiores, pelas classes dirigentes,
A debilidade interna mais perigosa para o aparelho do o que quer dizer que não era perturbado nem maltratado por
Estado (militar e civil) consistia na aliança do clericalismo ninharias. Assim, não se formaram, durante a guerra, aqueles
com os monarquistas. Mas a massa popular, apesar de católica sedimentos de raiva envenenada e taciturna que se verificaram
não era clerical. No "caso Dreyfus" culminou a luta para pa em outros países. Por isso, as lutas internas do após-guerra
ralisar a influência clerical-monarquista no aparelho de Estado não tiveram grande aspereza e, especialmente, não se verificou
e para dar ao elemento leigo uma proeminência nítida. A a inaudita oscilação das massas rurais registrada nos outros
guerra não enfraqueceu, mas reforçou a hegemonia; não houve países.
tempo para pensar: o Estado entrou em guerra e imediata A crise endemica do parlamentarismo francês indica que
mente o território nacional foi invadido. A passagem da dis ha um mal-estar difuso no país; mas este mal-estar não adqui
ciplina de paz à disciplina de guerra não exigiu uma crise mui riu ate agora um carater radical, não colocou em jogo ques*
to grande: os velhos quadros militares eram bastante amplos tões intangíveis. Houve um alargamento da base industrial e,
e elásticos; os'oficiais subalternos e os suboficiais eram talvez portanto, uma urbanização crescente. Massas rurais se trans
os mais selecionados do mundo e os mais bem preparados para feriram para as cidades, não porque houvesse no campo desem
as funções de comando imediato das tropas. Comparação com prego ou fome insatisfeita de terra, mas porque na cidade vive-
outros países. A questão dos arditi e do yoluntarismo; a crise se melhor, há mais conforto, etc. (o preço da terra é baixíssi
dos quadros, determinada por uma maioria de oficiais da re mo, e muitas terras^ são deixadas aos italianos). A crise par
serva, que nos outros países tinham uma mentalidade antietica lamentar reflete (até agora) mais um deslocamento normal de
em relação aos oficiais de carreira. Os arditi,^ em outros países, massas (não devido a uma crise econômica aguda), com uma
representaram um novo exército de voluntários, uma seleção procura laboriosa de novos equilíbrios de representação e de
militar, que teve uma função tática primordial. O contato com partidos e um vago mal-estar que é apenas advertência prévia
o inimigo só foi procurado através dos arditi, que formavam de uma possível grande crise política. A própria sensibilidade
como que um véu entre o inimigo e o exercito regular (função do organismo político leva a exagerar formalmente os sinto-
das barbatanas no espartilho). A infantaria francesa era for mas do mal-estar. Até agora tratou-se de uma série de lutas
mada, na sua grande maioria, por lavradores, homens dotados pela divisão dos cargos e dos benefícios estatais, mais que outra
de uma reserva muscular e nervosa muito rica, que tornou mais coisa. Por isso, crises de partidos médios e do partido radical
difícil o colapso físico provocado pela longa vida de trincheira em primeiro lugar, que representa as cidades médias e peque
(o consumo anual médio de um cidadão francês é de, apro nas e os camponeses mais avançados. As forças políticas pre
ximadamente, 1.500.000 calorias, enquanto que o italiano não param-se para as grandes lutas futuras e procuram uma me
atinge 1.000.000); na França o número de assalariados agrí- lhor disposição: as forças extra-estatais fazem sentir mais sen-
118
119
sivelmente o seu peso e impõem os seus homens de modo trução pública francesa é uma retificação implícita do mito
mais brutal. monarquista, que, assim, toma-se um "mito" defensivo mais
que criador de paixões. Uma das fórmulas fundamentais de
O ponto culminante da crise parlamentar francesa foi al
cançado em 1925, e deve-se partir da atitude em relação àque Maurras é a "politique d'abord", mas ele é o primeiro a não
les acontecimentos, considerados decisivos, para fazer um juí
segui-la.^ Para ele, antes da política há sempre a "abstração
zo sobre a consistência política e ideoló^ca da Action Fran-
política , a aceitação integral de uma concepção do mundo,
çaise. Maurras proclamou o esfacelamento do re^me republi que preve todos os particulares, como sucede com as utopias
cano, e seu grupo preparou-se para a tomada do poder. Maur dos literatos, que exige uma determinada concepção da histó
ras é freqüentemente exaltado como um grande estadista e ria, mas da história concreta da França e da Europa, isto é,
como um formidável Realpolitiker: na realidade, ele é apenas uma determinada e fossilizada hermenêutica.
um jacobino ao contrário. Os jacobinos empregavam uma de Leon Uaudet escreveu que a grande força da Action Fran-
terminada linguagem, eram fautores convictos de uma deter çaise residiu na homogeneidade e unidade indestrutíveis do seu
minada ideologia; em determinado tempo e circunstâncias, aque grupo dirigente; sempre de acordo, sempre solidário política
la linguagem e aquela ideologia eram ultra-realistas, pois pre e ideologicamente. Decerto, a unidade e a homogeneidade do
tendiam dinamizar as energias políticas necessárias aos objeti grupo dirigente é uma grande força, mas de caráter sectário
vos da revolução e a consolidar permanentemente a conquista
e maçônico, não de um grande partido de governo. A lingua
gem pohtica transformou-se num jargão, criou-se uma atmos
do poder pela classe revolucionária; acabaram sendo isolados, fera de conventículo: à força de repetir sempre as mesmas
como sempre sucede, pelas condições de lugar e de tempo, e fórmulas, de manejar os mesmos esquemas mentais enrijeci
se reduziram a fórmulas, transformando-se numa coisa dife- dos, termina-se, na realidade, por pensar do mesmo modo, o
rente, numa larva, em palavras vazias e inertes. O cômico que quer dizer que se acaba não pensando mais. Maurras em
rfe tiído está em que Maurras subverteu banalmente aquelas Paris e Daudet em Bruxelas pronunciam a mesma frase, sem
fórmulas, substituindo-as por outras que organizou numa or acordo, sobre o mesmo fato, porque o acordo já se fizera an
dem lójca nterária impecável, as qums tamtem so represen- tes, porque se trata de duas máquinas de dizer frases, monta
o reflexo do mais puro e tnyial ilumm^mo. Na reali das há vinte anos para dizer as mesmas frases no mesmo mo
dade, Maurras é exatamente o mais repre^ntativo defensor mento. O grupo dirigente da Action Française formou-se por
do "estúpido século XIX", a concentração de todos os luga- cooptação: no princípio havia Maurras com o seu verbo, de
res-comuns maçônicos mecanicamente subvertidos. pois veio Vaugeois, depois Daudet, depois Pujo, etc. Cada vez
O seu êxito relativo depende justamente de como o seu que alguém se afastava do grupo, verificava-se uma verdadei
método agrade, pois é aquele da razão r^oável que deu on- ra catástrofe de polêmicas e de acusações intermináveis e pér
gem ao enciclopedismo e a toda a tradiçao cultural maçonica fidas, o que se compreende: Maurras é como um papa infa
francesa. O Iluminismo criou uma série de initos populares que lível, e o fato de que um dos seus próximos se afaste dêle ad
representavam a projeção no futuro das mais profundas e im- quire uma significação catastrófica.
lenares aspirações das grandes massas, aspirações ligadas ao Do ponto de vista da organização, a Action Française é
cristianismo e à filosofia do senso comum, mitos simplistas muito interessante e mereceria um estudo aprofundado. A sua
como se queira, mas que tinham uma origem realmente enrai força relativa deve-se especialmente ao fato de que os seus
zada nos sentimentos e que, de qualquer modo, não podiam elementos de base são tipos sociais intelectualmente seleciona
ser controlados experimentalmente (historicamente). Maurras dos, cuja "organização" militar é extremamente fácU, como
criou o mito **simplista" de um fantástico passado nionarquis- seria aquela de um exército constituído apenas de oficiais. A
ta francês, mas este mito foi "historia", e as suas deformações seleção intelectual é relativa, compreende-se, pois é espanto
intelectualísticas podem ser facilmente corrigidas: toda a ins- so como os adeptos da Action Française repetem com tanta

120 121
facilidade, à maneira de papagaios, as fórmulas do líder (mes milagre. Nas outras eleições a Action Française apoiou aque
mo não se tratando de uma necessidade de guerra, sentida co les candidatos de direita que aceitavam alguns dos seus prin
mo tal) e, inclusive, procurem tirar delas um proveito "esno- cípios marginais (parece que esta atividade foi imposta a Maur
bista". Numa república, ser monarquista pode parecer sinal ras pelos seus colaboradores mais entendidos em política real,
de distinção; numa democracia, ser reacionário conseqüente. o que demonstra que a unidade não é tão monolítica). Para
O grupo, pela sua composição, possui (além das subvenções de sair do isolamento, foi projetada a publicação de um grande
determinados grupos industriais) muitos fundos, tantos que per jornal informativo, mas até agora não se fez nada (só existe
mitem iniciativas múltiplas que dão a aparência de certa vita a Revue Universelle e o Charivari, que realizam um trabalho
lidade e atividade. A posição social de muitos adeptos osten de informação indireta entre o grande público). A acesa po
sivos e cultos possibilita ao jornal e ao centro dirigente dis- lêmica com o Vaticano e a reorganização do clero e das as
porem de uma massa de informações e documentos reserva sociações católicas em conseqüência dela, romperam o único
dos que permitem uma série de polêmicas pessoais. No pas laço que a Action Française mantinha com as grandes massas
sado, porém mais limitadamente ainda hoje, o Vaticano devia nacionais, laço que era, também ele, aleatório. O sufrágio uni
ser uma fonte de informações de primeira ordem (a secretaria versal, introduzido na França há muito tempo, já determinou
de Estado e o alto clero francês). Muitas campanhas perso a adesão política das massas formalmente católicas aos parti
nalistas são feitas aberta ou veladamente: publica-se uma parte dos republicanos de centro, embora estes sejam anticlericais
da verdade para dar a entender que se sabe tudo, ou fazem- e leigos: o sentimento nacional, organizado em torno do con
se alusões maliciosas que sejam compreendidas pelos adver ceito de pátria, é bastante forte, e em determinados casos é,
sários. Estas violentas campanhas pessoais têm vários • signi
ficados para a Action Française: galvanizam os adeptos, pois indubitavelmente, mais forte que o sentimento religioso, que,
alardear o conhecimento das coisas mais secretas dá a impres de resto, tem características próprias. A fórmula de que a
"religião é uma questão privada" radicou-se como forma po
são de uma grande capacidade de penetrar no campo adver pular do conceito de separação da Igreja do Estado. Além do
sário e de uma poderosa organização à qual nada escapa; mos mais, o complexo de associações que constituem a Ação Ca
tram o regime republicano como uma associação de deliqüen- tólica é controlado pela aristocracia latifundiária (é o seu chefe,
tes- paralisam uma série de adversários através da ameaça de ou era, o General Castelnau), sem que o baixo clero exerça
desonrá-los, transformando alguns em fautores secretos. aquela função de guia espiritual-social que exercia na Itália
A concepção empírica que se pode extrair de toda a ati (na parte setentrional). Na sua quase totalidade, o camponês
vidade da Action Française é esta: o regjme parlamentar re &ancês se parece com o nosso camponês meridional, que diz
publicano se dissolverá inelutavelmente, pois é um mot^irum com satisfação: "O padre é o padre no altar, mas fora é um
histórico-racional que nao corresponde as leis naturais da homem como todos os outros" (na Sicília: "Frades e padres,
sociedade francesa rigidamente estabelecidas por Maurras. Os dizem-nos a missa e cutucam-nos os rins"). A Action Fran
nacionalistas integrais devem portanto: 1) afastar-se da vida çaise, através da camada dirigente católica, pensava poder do
real da política francesa, não reconhecendo nela a "legalidade" minar, no momento decisivo, todo o aparelho de massa do ca
histórico-racional (abstencionismo, etc.) e combatendo-a em blo tolicismo francês. Havia neste cálculo um pouco de verdade
co; 2) criar um antigoverno, sempre proirto a inserir-se nos e muito de ilusão: em períodos de grandes crises político-mo-
"palácios tradicionais" com um golpe de mão: este governo já rais, o sentimento religioso, relaxado em tempos normais, po
se apresenta hoje com todas as secretarias embrionárias, que de-se tornar vigoroso e absorvente: mas se o futuro parece
correspondem às grandes atividades nacionais. Na realidade, abri pleno de nuvens tempestuosas, também a solidariedade nacio
ram-se algumas brechas em todo esse rigor. Em 1919, foram nal, expressa no conceito de pátria, torna-se absorvente na
apresentadas algumas candidaturas, e Daudet foi eleito por França, onde a crise não pode deixar de assumir o caráter de
122 123
crise internacional, e então a Marselhesa é mais forte que os minação apocalíptica, e do seu grupo, que se sentiu isolado
salmos penitenciais. e teve de apelar para Caillaux e Cia.
Na concepção de Maurras existem muitos traços seme
Em qualquer caso, também a esperança nesta reserva pos
lhantes aos de determinadas teorias formalmente catastróficas
sível desvaneceu-se para Maurras. O Vaticano não pretende
mais abster-se nas questões internas francesas e considera que
de certo economismo e sindicalismo. Freqüentemente verificou-
se esta transposição no campo político e parlamentar de con
a ameaça de uma possível restauração da monarquia tornou-se
cepções nascidas no terreno econômico e sindical. Todo abs
inoperante; o Vaticano é mais realista que Maurras, e concebe
melhor a fórmula politique d'abord. Enquanto o camponês ti tencionismo em geral, e não só aquele parlamentar, baseia-se
ver de escolher entre Herriot e um hobereau, escolherá Her-
numa igual concepção mecanicamente catastrófica: a força do
riot: por isso é necessário criar o tipo do "radical católico", adversário ruirá matematicamente se, com método rigoro
isto é, do "popular", é necessário aceitar sem reservas a repú samente intransigente, ele fór boicotado no campo governa
blica e a democracia e neste terreno organizar as massas cam mental (à greve econômica alia-se a greve e o boicote polí
ponesas, superando o dissídio entre religião e poUtica, fazen ticos). O exemplo clássico é dos clericais na Itália depois de
do do padre não só o guia espiritual (no campo individual- 1870: eles imitaram e generalizaram alguns episódios da luta
dos patriotas contra o domínio austríaco, especialmente em
privado), mas também o guia social no campo econômico-po-
Milão.
lítico. A derrota de Maurras é certa (como a de Hugenberg
na Alemanha). a concepção de Maurras que é falsa pela A afirmação, amiúde repetida por Jacques Bainville nos
sua muita perfeição lógica; esta derrota, alias, foi sentida pelo seus ensaios históricos, de que o sufrá^o universal e os plebis
próprio Maurras exatamente no início da polêmica com o Va citos podiam (teriam podido) e poderão, inclusive, servir ao
ticano, que coincidiu com a crise parlamentar francesa de 1925 legitimismo como serviram a outras correntes (especialmente
(não certamente por acaso). Quando os ministérios se suce aos Bonaparte), é muito ingênua, pois está ligada a um ingê
diam em rotação, a Action Française proclamou estar pronta nuo e abstratamente tolo sociologismo: o sufrágio universal
para assumir o poder; e apareceu um artigo no qual se che e o plebiscito são concebidos como esquemas abstratos, desli
gou a convidar Caillaux a colaborar — Caillaux, para o qual gados das condições de tempo e de lugar. É preciso notar: 1)
anunciavam continuamente o pelotão de fuzilamento. O epi que toda sanção oferecida pelo sufrágio universal e pelo ple
biscito ocorreu depois que a classe fundamental se concentrara
sódio é clássico: a política rígida e racionalista de Maurras, poderosamente ou no campo político ou, mais ainda, no cam
do abstencionismo apriorístico, das leis naturais "siderais" que po político-militar, em tomo de uma personalidade "cesarista",
regem a sociedade francesa, estava condenada ao marasmo, ou depois de uma guerra que havia criado uma situação de
à ruína, à abdicação no momento decisivo. No momento de
emergência nacional; 2) que, na realidade da história francesa,
cisivo vê-se que as grandes massas de energias em movimento
existiram diversos tipos de "sufrágio universal", à medida que
em virtude da crise não se lançam de fato nos reservatórios se modificavam historicamente as relações econômico-políticas.
criados artificialmente, mas seguem os caminhos realmente tra As crises do sufrá^o universal foram determinadas pelas rela
çados pela política real precedente, deslocam-se segundo os ções entre Paris e a província, ou seja, entre a cidade e o
partidos que sempre estiveram em atividade, ou que, inclusi campo, entre as forças urbanas e as forças do campesinato.
ve, nasceram como cogumelos no próprio terreno da crise. Durante a Revolução, o bloco urbano parisiense guia de modo
Deixando de lado a estultícia de acreditar que em 1925 o re quase absoluto a província, criando-se, assim, o mito do su
gime republicano pudesse cair, em virtude de uma crise par frágio universal que deveria sempre dar razão à democracia
lamentar (o intelectualismo antiparlamentarista leva a tais alu- radical parisiense. Por isso Paris quer o sufrágio universal em
cinações monomaníacas), se derrocada houve foi a de Maur 1848; mas ele exprime um parlamento reacionário-clerical que
ras, que talvez não tenha se despojado do seu estado de ilu- permite a Napoleão III a sua carreira. Em 1871, Paris dá um
124 125
grande passo à frente ao rebelar-se contra a Assembléia Nacio
nal e Versalhes, eleita pelo sufrá^o universal; implicitamente. (A respeito deste paganismo é preciso distinguir e deixar
Paris "compreende" que pode haver conflito entre "progres claro, entre a roupagem literária plena de referências e metáfo
so" e sufrágio. Mas esta experiência histórica, de valor ines ras pagãs e o nó essencial que afinal é o positivismo naturalista,
timável, perde-se imediatamente, em virtude do esmagamento tomado por Comte e, mediatamente, do san-simonismo, tudo o
dos seus defensores. Por outro lado, depois de 1871, Paris que se refere ao paganismo apenas em virtude do jargão e da no
perde em grande parte a sua hegemonia político-democrática menclatura eclesiástica.) O Estado é o fim último do homem:
sobre o resto da França por diversas razões: 1) porque se di ele realiza a ordem humana apenas com as forças da natureza
funde por toda a França o capitalismo urbano e nasce o mo ("humanas", em contraposição a "sobrenaturais"). Maurras é de-
vimento radical socialista em todo o seu território; 2) porque finível pelos seus ódios, mais que pelos seus amores. Odeia o
Paris perde definitivamente a sua unidade revolucionária, e a cristianismo primitivo (a concepção do mundo contida nos Evan
sua democracia fraciona-se em grupos sociais e partidos anta gelhos, nos primeiros apologistas, etc., o cristianismo até o édito
gônicos. O desenvolvimento do su&ágio universal e da demo de Milão, cuja crença fundamental era a de que a vinda de Jesus
cracia coincide cada vez mais coin o fortalecimento em toda a teria anunciado o fim do mundo e que, por isso, determinava a
França do partido radical e da luta anticlerical, fortalecimen dissolução da ordem pública romana numa anarquia moral que
to facilitado e, inclusive, favorecido pelo desenvolvimento do corroía todos os valores civis e estatais), que para ele é uma con
chamado .sindicalismo revolucionário. Na realidade, o absten- cepção judaica. Neste sentido, Maurras pretende descristianizar
cionismo eleitoral e o economismo dos sindicalistas constituem a sociedade moderna. Para Maurras a Igreja católica foi e será
a aparência "intransigente" da abdicação de Paris ao seu pa cada vez mais o instrumento dessa descristianização. Ele distin
gue entre cristianismo e catolicismo, e exalta este último como a
pel de cabeça revolucionária da França, constituem a expres reação da ordem romana à anarquia judaica. O culto católico, as
são de um oportunismo mesquinho em seguida ao massacre suas devoções supersticiosas, as suas festas, as suas pompas, as
de 1871 Assim o radicalismo unifica num plano mtermediá- suas solenidades, a sua liturgia, a sua imagem, as suas fórmulas, os
rio da mediocridade pequeno-burguesa, a aristocrada operá seus ritos sacramentais, a sua hierarquia imponente são como um
ria'da cidade e o camponês abastado do interior Depois da encantamento salutar para domar a anarquia cristã, para imuni
guerra verifica-se uma retomada do desenvolvimento historico, zar o veneno judaico do cristianismo autêntico. Segundo Viala
sufocado a ferro e fogo em 1871, mas ele revela-se mcerto, in. toux, o nacionalismo da Action Française não passa de um episó
forme, oscilante e especialmente privado de cabeças pensantes. dio da história religiosa áo nosso tempo. (Neste sentido, todo mo
vimento político não controlado pelo Vaticano é um episódio da
A Rivista d'Itália de 15 de janeiro de 1927 resume um arti história religiosa, ou seja, toda a História é história religiosa. De
go de J. Vialatoux, publicado em Chronique Sociale algumas se qualquer modo, deve-se acrescentar que o ódio de Maurras contra
manas antes; Vialatoux rechaça a tese sustentada por Jacques Ma- tudo o que cheira a protestante e é de origem anglo-germânica —
ritain em Une opinion sur Charles Maurras et le devoir des catho- romantismo, revolução francesa, capitalismo, etc. — não passa
ligues (Paris, Plon, 1926), segundo a qual entre a filosofia e a de um aspecto deste ódio contra o cristianismo primitivo. Seria
moral pagãs de Maurras e a sua política so existiria uma relação de procurar em Augusto Comte as origens desta atitude geral em
contingente, de modo que se se toma a doutrina política, abstrain relação ao catolicismo, que não é independente do renascimento
livresco do tomismo e do aristotelismo.)
do a filosofia, é possível defrontar-se com dgum perigo, como em
cada movimento humano, mas nisto não há nada de condenável.
Para Vialatoux, a doutrina política nasce justamente (ou, pelo
menos, está indivisivelmente ligada) da concepção pagã do O chamado "centralismo orgânico" baseia-se no princípio
mundo.
de que um gnipo político é selecionado por "cooptação" em
tomo de um "porta-voz infalível da verdade", de um "ilumi-
126
127
nado pela razão", que encontrou as leis naturais infalíveis da
evolução histórica, infalíveis, inclusive, se a longo prazo e se
os acontecimentos imediatos parecem "negar-lhe razão". A
aplicação das leis da mecânica e da matemática aos fatos so
ciais, transforma-se no único e alucinante motor intelectual (a
vácuo). O nexo entre centralismo orgânico e as doutrinas de
Maurras é evidente.

Notas Esparsas

Internacionalismo e política nacional. Texto (em forma


de perguntas e respostas) de Giuseppe Bessarioné^, de setem
bro de 1927, sobre alguns pontos essenciais de ciência e arte
políticas. O ponto que, na minha opinião, deve ser desenvolvi
do é o seguinte: como, segundo a filosofia da praxis (na sua
manifestação política), seja na formulação do seu fundador,
mas especialmente na definição do seu mais recente grande
teórico, a situação internacional deve ser considerada no seu
aspecto nacional. Realmente, a relação "nacional" é o resulta
do de uma combinação "original" única (em certo sentido),
e para dominá-la e dirigi-la é preciso compreender e conce-

^ Giuseppe Bessarione: Josip Vissarionovich, isto é, Stálin. (N. ei.)

128 129
ber esta originalidade e unicidade. É certo que o desenvolvi dos; eles levaram à passividade e à inércia em duas fases bas
mento verifica-se no sentido do internacionalismo, mas o pon tante diversas: 1) na primeira fase ninguém acreditava que
to de partida é "nacional", e é deste ponto de partida que se devia começar, pois considerava que começando jBcaria iso
devem adotar as diretivas. Mas a perspectiva é internacional lado; na expectativa de que todos se movimentassem simulta
e não pode deixar de sê-lo. É preciso, portanto, estudar exa neamente, ninguém se movia e organizava o movimento; 2)
tamente a combinação de forças nacionais que a classe inter a segunda fase é talvez a pior, pois espera-se uma forma de
nacional deverá dirigir e impulsionar segundo a perspectiva e "napoleonismo" anacrônica e antinatural (já que nem todas
as diretivas internacionais. A classe dirigente só desempenhará as fases históricas se repetem da mesma maneira). As debi-
o seu papel se interpretar exatamente esta combinação, da lidades teóricas desta forma moderna do velho mecanismo são
qual .ela própria é componente e na medida em que, como mascaradas pela teoria geral da revolução permanente, que
tal, pode dar ao movimento uma determinada orientação em não passa de uma previsão genérica apresentada como dogma
determinadas perspectivas. Parece-me que é neste ponto que se e que se destrói a si mesma pelo fato de que não se manifesta
localiza a divergência fundamental entre Leon Davidovich^ e fatualmente.
Bessarione como intérprete do movimento majoritário.^ As acusa
ções de nacionalismo não são validas, se se referem ao núcleo
da questão. Se se estuda a ação dos majoritários^ de 1902 a Interpretações do "Príncipe". Se, como se escreveu em
-1917, vê-se que a sua originalidade consiste em depurar o outras notas, a interpretação do Príncipe deve (ou pode) ser
intemacionalismo de todo elemento vago e puramente ideo feita colocando como centro do livro a invocação final, deve-
lógico (em sentido pejorativo) para dar-lhe um conteúdo de se rever o que de "real" existe na interpretação conhecida co
política realista. O conceito de hegemonia e aquele no qual mo "satírica e revolucionária" da obra (como diz Enrico Gar
se alinham as exigências de caráter nacional e por jsso com rara na nota ao trecho respectivo de Sepolcri na sua obra esco-
preendemos porque .determinadas tendências ou não falam, lástica^). No que se refere a Foscolo, não me parece que se
ou apenas se referem de passagem a este conceito.^ Uma clas deva falar de uma interpretação particular do Príncipe, de se
se. de caráter internacional que guia camadas sociais estrita atribuir a Maquiavel intenções veladamente democráticas e re
mente nacionais (intelectuais), e muitas vezes menos ainda volucionárias; parece-me mais justa a observação de Croce (no
que nacionais, particularistas e municipalistas (os campone- livro Storia dei Barocco), que responde à carta do Sepolcri:
ses3f deve-se ^'nacionalizar" em certo sentido, e este sentido "Maquiavel, pelo próprio fato de temperar o cetro, etc., de
não é, aliás, muito estreito, pois antes de se formarem as con tornar o poder dos príncipes mais coerente e consciente, desfo-
dições de uma economia segundo um plano mundial^ e neces Iha os seus louros, destrói os mitos, mostra o que é realmente
sário atravessar fases múltiplas em que as combinações regio este poder; quer dizer, a ciência políticá como ciência é útil
nais (de grupos de nações) podem ser diversas. Por outro' la tanto aos governantes como aos governados para entenderem-
do, não se deve jamais ignorar que o desenvolvimento histó se reciprocamente".
rico seguo as leis da necessidade ate quando a imciativa nao Ao contrário, em Ragguagli di Parnaso, de Boccalini, a
tenha passado nitidamente às forças que tendem a construção questão do Príncipe é apresentada d.e modo inteiramente di
segundo um plano de divisão do trabalho solidária^ e pacifica. verso do Sepolcri. Mas, deve-se perguntar: a quem Boccali
Pode-se provar por absurdo que os conceitos não-nacionais ni quer satirizar? Maquiavel ou os seus adversários? Boccalini
(isto é, não relacionados a cada país isoladamente) são erra- apresenta a questão assim: "Os inimigos de Maquiavel consi
deram-no homem digno de punição porque mostrou como os
1 Leon Davidovich: Lev Davidovich, isto é, Trotski. (N. e I.)
2 O bolchevismo. (N. e I.) 1 Storía ed esempi delia letteratura italiana, VII, UOttocento, Signo-
3 Os bolchevíques. (N. e I.) relli, Milão, pág. 57.

130 131
príncipes governam e, assim fazendo, instruiu o povo; colocou procura os meios idôneos para alcançá-lo. Em tal sentido, a
"dentes de cães nas ovelhas"," destruiu os mitos do poder, o posição de Maquiavel estaria próxima daquela dos teóricos e
prestígio da autoridade, tomou mais difícil governar, pois os dos políticos da filosofia da praxis, já que também eles pro
governados podem saber tanto quanto os governantes, as ilu curaram construir e difundir um "realismo" popular, de massa,
sões se tornaram impossíveis, etc. "Deve-se ver todo o enfo- e tiveram de lutar contra uma forma de "jesuitismo" adapta
camento político de Boccalini, que neste "cotejo" parece que da aos novos tempos. A "democracia" de Maquiavel é de um
satiriza os antimaquiavelistas, os quais não são tais porque tipo adaptado aos tempos em que ele viveu, é, assim, o con
não fazem, na realidade, o que Maquiavel escreveu, não são senso ativo das massas à monarquia absoluta como lünitado-
antimaquiavelistas porque Maquiavel esteja errado, mas por ra e destruidora da anarquia feudal e senhorial e do poder dos
que tudo o que Maquiavel escreveu "se faz e não se diz", ou Papas, como fundadora de grandes Estados territoriais nacio
melhor, é factível exatamente porque não é explicado e sis nais, função que a monarquia absoluta não podia reahzar sem
tematizado criticamente. Maquiavel é odiado porque "revelou o apoio da burguesia e de um exército permanente, nacional,
os segredos" da arte de governar, etc. centralizado, etc.
Também hoje o problema existe, e a experiência da vida
dos partidos modernos é instrutiva; quantas vezes ouviram-se
recriminações por se terem mostrado criticamente os erros dos "Dubiedade" e "ingenuidade" de Maquiavel. Ver o artigo
governantes: "mostrando aos governantes os erros que eles de Adolfo Oxilia, Machiavelli nel teatro^. Interpretação ro-
praticam, estás ensinando-os a não cometer erros", isto é, "fa mântico-liberal de Maquiavel (Rousseau, no Contrato Social,
zes o jogo deles". Esta concepção está ligada à teoria infan ni, 6; Foscolo, em Sepolcri; Mazzini, no breve ensaio intitu
til do "quanto pior, melhor". O medo de "fazer o jogo" dos lado Machiavelli).
adversários é dos mais cômicos e liga-se ao conceito estúpido Mazzini escreve: "Eis que os vossos príncipes débeis e
de considerar sempre os adversários uns tolos; liga-se também vis quanto são, terminarão por dominar-Vos: Agora pensai
à incompreensão das "necessidades" histórico-políticas, segun nisto!" Rousseau vê Maquiavel como um "grande republica
do a qual "certos erros devem ser cometidos" e criticá-los é no" que foi obrigado pelos tempos — sem que disso derive ne
útil para educar o próprio lado. nhuma diminuição da sua dignidade moral — a "déguiser son
Parece que as intenções de Maquiavel ao escrever o amour pour Ia liberte" e fingir dar lições aos reis para dá-las
cipe tenham sido mais complexas e, inclusive, "mais democrá "des grandes aux peuples'*. Filippo Burzio notou que tal mter-
ticas" do que teriam sido segundo a interpretação "democrá pretação, em vez de justificar moralmente o maquiavelismo,
tica". Maquiavel considera que a necessidade do Estado uni na realidade prospecta um "maquiavelismo ao quadrado": o
tário nacional é tão grande que todos concordarão em que, autor do Príncipe não só daria conselhos sobre fraudes, mas
para atingir este elevadíssimo fim, sejam empregados os úni também com fraudes, para ruína daqueles aos quais eles são
cos meios idôneos. Pode-se, portanto, dizer que Maquiavel dirigidos.
propôs-se a educar o povo, mas não no sentido que habitual Esta interpretação "democrática" de Maquiavel remon
mente se dá a esta expressão ou, pelo menos, lhe deram deter taria ao Cardeal Polo e a Alberico Gentili (é preciso examinar
o livro de Villari e o livro de Tommasini na parte referente ao
minadas correntes democráticas. Para Maquiavel, *'educar o êxito de Maquiavel). Parece-me que a citação de Traiano Boc
povo" pode ter significado apenas torná-lo convencido e cons calini em Ragguagli di Parnaso é muito mais significativa que
ciente de que pode existir apenas uma política, a realista, pa todas as formulações dos "grandes estudiosos de política"; nela
ra alcançar o objetivo desejado e que, portanto, é preciso unir- tudo se reduz a uma aplicação do provérbio vulgar: "Quem sabe
se em torno e obedecer àquele príncipe que emprega tais mé
todos para alcançar o objetivo, pois só quem almeja um fim * Cultura, outubro-dezembro de 1933.

132 133
o jogo, que não o ensine**. A corrente "antimaquiavelista** é crueldades notórias dos príncipes, do que certamente para en
simplesmente a manifestação teórica deste princípio de arte sinar aos príncipes a praticá-las: pois eles, mais ou menos,
política elementar: certas coisas se fazem, mas não se dizem. sempre as utilizam, utilizaram ou utilizarão, segundo a sua ne
Parece-me que exatamente daí nasce o problema mais cessidade, engenho e destreza**.
interessante: por que Maquiavel escreveu o Príncipe não como
uma "memória** secreta ou reservada, como "instruções** de Excluindo-se a interpretação democrática, a nota é justa:
um conselheiro a um príncipe, mas como um livro que deve mas certamente Maquiavel não pretendia "apenas** ensinar aos
ria estar ao alcance de todos? Para escrever uma obra "cientí- príncipes as "máximas** que eles conheciam e utilizavam. Ao
jBca** desinteressada, como se poderia deduzir das observações contrário, pretendia ensinar a "coerência** na arte de gover
de Croce? Isto parece ser contra o espírito dos tempos, uma nar e a coerência empregada para certo fim: a criação de um
concepção anacrônica. Por "ingenuidade**, dado que Maquia Estado unitário italiano. Isto é, o Príncipe não é um livro de
vel é visto como um teórico, e não como um homem de ação? "ciência**, no sentido acadêmico, mas de "paixão política ime
Não parece aceitável a hipótese da "ingenuidade** presunçosa diata**, um "manifesto** de partido, que se baseia numa con
e "parlapatona**. Ê preciso reconstruir os tempos e as exigên cepção "científica** da arte política. Maquiavel ensina, na ver
cias que Maquiavel via neles. dade, a "coerência** dos meios "bestiais**, e isto é contra a te
Na realidade, parece ser possível dizer que, não obstante se de Alderisio (do qual se deve ver o escrito Intorno álVarte
o Príncipe ter uma destinação precisa, o livro não foi escrito dello Stato dei Machiavelli; discussão posterior da sua inter
para ninguém e para todos; foi escrito para um hipotético pretação como "pura política**, em "Nuovi Studi** de junho-
"homem providencial** que poderia manifestar-se da mesma outubro de 1932); contudo, esta "coerência** não é uma coisa
forma como tinha-se manifestado Valentino ou outros condot- meramente formal, mas a forma necessária de uma determi
tieri, do nada, sem tradição dinástica, pelas suas qualidades nada linha política atual. Que seja possível extrair da exposi
militares excepcionais. A conclusão do Príncipe justifica todo ção de Maquiavel elementos de uma "política pura" é outra
o livro, inclusive no que se refere às massas populares que questão; ela relaciona-se com o lugar que Maquiavel ocupa no
realmente ignoram os meios empregados para alcançar um fim, processo de formação da ciência política "moderna", que não
se este fim é historicamente progressista; ele resolve os pro é pequeno. Alderisio enfoca mal todo o problema, e as poucas
blemas essenciais da época e estabelece uma ordem na qual boas razões que pode ter perdem-se na desconexão do qua
seja possível avançar, atuar, trabalhar tranqüilamente. Ao in dro geral errado.
terpretar-se Maquiavel ignora-se que a monarquia absoluta
era, naqueles tempos, uma forma de regime popular e que ela A questão do por que Maquiavel escreveu o Príncipe e
se apoiava nos burgueses contra os nobres e também contra as outras obras não é uma simples questão de cultura ou^de
o clero (Oxilia refere-se à hipótese de que a interpretação de psicologia do autor; ela serve para explicar em parte o fascínio
mocrática de Maquiavel no período 1700-1800 tenha sido re destes escritos, a sua vivacidade e originalidade. Não se trata
forçada e se tornado mais óbvia pelo Giorno de Parini, "sa certamente de "tratados" do tipo medieval; nem se trata tam
tírico educador do giovin signore como Maquiavel — em outros bém de obras de um advogado curial que pretende justificar
tempos, noutra situação e com homens de outra tempera — as operações ou o modo de atuar dos seus "patronos" ou mes
teria sido o trágico educador do príncipe**). mo do seu príncipe. As obras de Maquiavel são de caráter
Ver o que Alfieri escreve sobre Maquiavel no livro Dei "individualista"; expressões de uma personalidade que quer
príncipe e delle lettere. Falando das "máximas imorais e ti intervir na política e na história do seu país, e neste sentido
rânicas** que poderiam ser extraídas "aqui e ali*' do Príncipe, são de origem "democrática". Há em Maquiavel a "paixão"
Alfieri nota: "E estas são reveladas (a quem reflete bem) pe do "jacobino**, e por isso ele devia agradar tanto aos jacobi-
lo autor muito mais para desvendar aos povos as ambições e nos e aos iluministas: é este um elemento "nacional" no seu
134 135
verdadeiro sentido e deveria ser estudado preliminarmente em preparou a resistência durante o assédio). Mas Guicciardini
qualquer pesquisa sobre Maquiavel. não considerava possível fazer a tentativa na Romanha, em
virtude das dissensões encarniçadas entre grupos que ali domi
navam (interessantes as opiniões de Guicciardini sobre a Ro
Artigo de Luigi Cavina em Nuova Antologia de 16 de manha): os gibelinos, depois da vitória de Pavia, estão pron
agosto de 1927: II sogno nazionale di Niccoló Machíavelli in tos para qualquer surpresa; mesmo se não se derem as armas,
Romagna e il governo di Francesco Guicciardíni. O argumen surgirá algum barulho; não se pode dar as armas para enfren
to do ensaio é interessante, mas Cavina não sabe tirar dele tar os imperiais exatamente aos fautores dos imperiais. Além
todas as conseqüências necessárias, em virtude do caráter su disso, a dificuldade é acrescida pelo fato de que o Estado é
perficialmente descritivo e retórico do texto. Depois da bata eclesiástico, isto é, sem diretivas a longo prazo, e graças e
lha de Pavia e da derrota definitiva dos franceses, que asse impunidades fáceis, no máximo a cada nova eleição de Papa.
gurava a hegemonia espanhola na península, os senhores ita Em outro Estado seria possível controlar as facções, não no
lianos são tomados de pânico. Maquiavel, que se dirigira a Ro Estado da Igreja. Depois de Clemente VII ter dito que para
ma para entregar pessoalmente a Clemente VII as Istorie Fio- o bom resultado da empresa eram necessários não só ordem e
rentine apenas terminadas, propõe ao Papa a criação de uma diligência, mas também "o empenho e o amor do povo", Guic
milícia nacional (significado preciso do termo) e convence-o ciardini responde que isto não é possível porque "a Igreja,
a fazer uma experiência. O Papa envia Maquiavel à Romanha na verdade, não tem amigos aqui, nem aqueles que desejariam
para falar com Francesco Guicciardini, então presidente da viver bem, nem por diversas razões, os facciosos e os tristes".
quela província, com um breve datado de 6 de junho de 1525. Mas a iniciativa não teve outro seguimento porque o Papa
Maquiavel devia expor a Guicciardini o seu projeto, e este de abandonou o projeto. Todavia, o episódio é do maior interes
via dar o seu parecer. O breve de Clemente VII deve ser todo se para mostrar como era grande a vontade e o poder de per
interessante. Ele mostra os transtornos por que passa a Itália, suasão de Maquiav/el, pelas opiniões práSticas imediatas de
tão grandes que, inclusive, induzem a procurar remédios no Guicciardini e, inclusive, pela atitude do Papa, que evidente
vos e.inconsuetos, e conclui: **Res magna est, ut iudicamus, mente permaneceu durante algum tempo sob a influência de
et salus est in ea cum status ecclesiastici, tum totius Itaíiae
ac prope universae christianitatis repositct', onde se vê como
Maquiavel; o breve pode ser considerado como mn compên
a Itália era para o Papa o termo médio entre o Estado ecle
dio da concepção de Maquiavel adaptada à mentalidade pon
siástico e o cristianismo. Por que a experiência na Romanha?
tifícia. Não são conhecidas as razões que Maquiavel deve ter
Porque além da confiança que o Papa depositava na prudência
oposto às observações de Guicciardini, porque este não se re
política de Guicciardini, ocorre talvez pensar em outros ele
fere a elas nas suas cartas, e as cartas de Maquiavel à Roma
mentos: os habitantes da Romanha eram bons soldados; ha
não são conhecidas. Pode-se observar que as inovações mili
viam combatido com valor e fidelidade pelos venezianos em
tares defendidas por Maquiavel não podiam ser improvisadas
Agnadello, embora como mercenários. Além do mais, verifi com a invasão espanhola em pleno desenvolvimento e que as
cara-se na Romanha o precedente de Valentino, que recrutara suas propostas ao Papa naquele momento não podiam ter re
bons soldados entre o povo, etc. Até 1512 Guicciardini escre sultados concretos.
vera que dar armas aos cidadãos "não é coisa estranha aos Guicciardini afirma que para a vida de um Fstado duas
hábitos de uma república, e popular, porque quando se dá a coisas são absolutamente necessárias: as armas e a religião.
eles *uma justiça boa e leis ordenadas' aquelas armas não se A fórmula de Guicciardini pode ser traduzida em várias
rão utilizadas para o mal, mas para o bem da pátria", e lou outras fórmulas menos drásticas: força e consenso; coerção
vara também a criação da ordenança idealizada por Maqui- e persuasão; Estado e Igreja; sociedade política e sociedade
vel (tentativa de criar em Florença uma milícia urbana, que civil; política e moral (história ético-política de Croce); direi-
136 137
to e liberdade; ordem e disciplina; ou, com uma opinião im Entretanto, é -verdade que este conceito de duplicidade
plícita de sabor libertário, violência e fraude. Em qualquer não se refere aos "diplomatas", mas aos "diplomas" que os
caso, na concepção política do Renascimento a religião era diplomatas conservavam e tinham um significado material, de
o consenso, e a Igreja era a sociedade civil, o aparelho de he folha dobrada.
gemonia do grupo dirigente, que não tinha um aparelho pró
prio, isto é, não tinha uma organização cultural e intelectual
própria, mas sentia como tal a organização eclesiástica uni Teoria c prática. Relida a famosa dedicatória de Bandello
versal. Não se está fora da Idade Média, a não ser pelo fato a Giovanni dclle Bande Nere, onde se fala de Maquiavel e das
de se conceber e analisar abertamente a religião como insíru^ suas tentativas inúteis de organizar, segundo as suas teorias
mentum regni. da arte da guerra, uma multidão de soldados no campo de
Deve-se estudar, a partir deste ponto de vista, a inicia batalha, enquanto Giovanni delle Bande Nere "num piscar de
tiva jacobina da instituição do culto do "Ente Supremo", que olhos com o auxílio dos tamboris" organizou "aquela gente de
surge como uma tentativa de criar identidade entre Estado e vários modos e formas com enorme admiração de todos que
sociedade civil, de unificar ditatorialmente os elementos com ali se achavam".
ponentes do Estado em sentido orgânico e mais amplo (Esta
do propriamente dito e sociedade civil), num desesperado es Fica claro que nem Bandello e nem Giovanni tiveram
forço de manietar toda a vida popular e nacional; mas que qualquer propósito de "irritar" Maquiavel pela sua incapaci
surge também como a primeira raiz do Estado moderno leigo, dade, e que o próprio Maquiavel não levou a mal. A utiliza
independente da Igreja, que procura e encontra em si mesmo, ção desta anedota como elemento para provar a abstração de
na sua vida complexa, todos os elementos da sua personalidade Maquiavel é um não-senso e demonstra que o seu alcance exa
histórica. to não é compreendido. Maquiavel não era um militar de pro
fissão, eis tudo. Ele não conhecia a "linguagem" das ordens
e dos sinais militares (cometas, tambores, etc.). Por outro
No livro de Clemenceau, Grandeurs et misères d'une vic- lado, é preciso muito tempo para um grupamento de soldados,
toire (Paris, Plon, 1930), no capítulo "Les critiques de l'es- graduados, suboficiais, oficiais adquirir o hábito de evoluir em
calier" Qstão contidas algumas das observações que fiz na nota certa direção. Uma organização teórica das milícias pode ser
sobre o artigo de Paolo Treves, II realismo político di Guie- ótima em todos os sentidos, mas para ser aplicada deve-se
ciardini^: por exemplo, a distinção entre políticos e diploma tornar "regulamento", disposições de exercício, etc., "lingua
tas. Os diplomatas formaram-se através da execução, não da gem" compreendida imediatamente e aplicada quase que auto
iniciativa — diz Clemenceau — etc. O capítulo é todo de polê maticamente.
mica com Poincaré, que reprovara o não-emprego dos diplo
matas na preparação do tratado de Versalhes. Clemenceau, Sabe-se que muitos legisladores de primeira ordem não
como puro homem de ação, como puro político, é extrema sabem compilar os "regulamentos" burocráticos e organizar os
mente sarcástico em relação a Poincaré, ao seu espírito cavi- escritórios e selecionar o pessoal apto a aplicar as leis, etc.
loso, às suas ilusões de que é possível criar a História com so- Portanto, pode-se dizer apenas isto de Maquiavel: que foi mui
fismas, com subterfúgios, com as habilidades formais, etc. "La to apressado em improvisar-se "tamboril". Todavia, a questão
'diplomatie' est instituée plus pour le maintien des inconcilia- é importante: não se pode separar o administrador-funcioná-
bles que pour Vinnovation des imprévus. Dans le mot 'diplo- rio do legislador, o organizador do dirigente, etc. Mas isto não
mate' il y a Ia racine 'double', au sens de 'plier'." se faz inclusive hoje, e a "divisão do trabalho" supre não só
a incapacidade relativa, mas integra "economicamente" a ati
r Ver pág. 8. (N. e I.) vidade principal do grande estrategista, do legislador, do che-

J38 139
fe político, que recorrem à ajuda de especialistas em compi des representantes: a grande guerra de movimento por obje
lar "regulamentos", "instruções", "ordenações práticas", etc.
tivos capitais e decisivos. Em Cateau-Cambrésis ele consegue
recuperar, com a ajuda da Espanha, o seu Estado; mas no tra
Maquiavel e Emanuele Filiberío. Um artigo de Civiltà tado fica estabelecida a "neutralidade" do Piemonte, isto é,
Cattolica de 15 de dezembro de 1928 (Emanuele Filiberío di
a independência em relação à França e à Espanha (Egidi sus
Savoia nel quarto centenário delia nasciía) começa assim: "A tenta ter sido Emanuele Filiberto quem sugeriu aos franceses so
coincidência da morte de Maquiavel com o nascimento de Ema licitassem essa neutralidade para estar em condições de esca
nuele Filiberío, não deve deixar de proporcionar ensinamen
par à sujeição espanhola, mas isto é pura hipótese: neste caso
os interesses da França coincidiam inteiramente com os do
tos. Tem um alto significado a antítese representada pelos dois
personagens, um dos quais desaparece da cena do mundo, Piemonte); assim tem início a política externa moderna dos
amargurado e desiludido, enquanto o outro está para ingres Savoia, de equilíbrio entre as duas potências principais da Eu
sar na vida, ainda circundada de mistério, exatamente naqueles
ropa. Mas a partir dessa paz o Piemonte perde irreparavel
mente algumas terras: Genebra e as terras em tomo do lago
anos que podemos considerar como a linha de separação entre de. Genebra.
a idade do Renascimento e a Reforma católica. Maquiavel e
Emanuele Filiberío: quem pode melhor personificar as duas Numa história seria necessário pelo menos assinalar as
faces diversas, as duas correntes opostas que disputam o do várias fases territoriais por que passou o Piemonte, de predo
mínio do século XVI? Poderia imaginar o Secretário íloren- minantemente francesa a franco-piemontesa e a italiana. (Ema
tino que exatamente aquele século, para o qual preconizara nuele Filiberto foi, no fundamental, um general da contra-re-
um Príncipe substancialmente pagão no pensamento e na obra, forma).
veria o monarca que mais se aproximou do ideal do perfeito Egidi também delineia com bastante perspicácia a política
príncipe cristão? externa de Emanuele Filiberto, mas faz referências insuficien
As coisas se passaram de modo muito diferente do que tes à política interna e especialmente militar, e estas poucas re
pensa o escritor da Civiltà Cattolica, e Emanuele Filiberío con ferências estão ligadas aos fatos de política interna, que de
tinua e realiza Maquiavel mais do que parece: por exemplo, pendiam estritamente do exterior: isto é, a unificação territo
na organização das milícias nacionais. rial do Estado através da retrocessão das terras ainda ocupa
Além do mais, Emanuele Filiberío evoca Maquiavel em das por franceses e espanhóis depois de Cateau-Cambrésis, ou
muitas outras coisas; ele não vacilava nem mesmo em supri dos acordos com os cantões suíços para readquirir determi
mir os seus inimigos utilizando a violência e a fraude. nadas faixas das terras perdidas. (Para o estudo sobre Maquia
Este artigo da Civiltà Cattolica interessa pelas relações vel, examinar especialmente as organizações militares de Ema
entre Emanuele Filiberío e os jesuítas, e pela posição que es nuele Filiberto e a sua política interna relacionada com o equi
tes adotaram na luta contra os Valdenses, líbrio de classes sobre a qual se fundou o principado absoluto
dos Savoia).

Sobre Emanuele Filiberío é interessante e escrito com se


riedade (não agiográfico) o artigo de Pietro Egidi publicado
em Nuova Antologia de 16 de abril de 1928: Emanuele Fili-
O Estado. O Professor Júlio Miskolczy, diretor da Aca
berto di Savoia. A capacidade militar de Emanuele Filiberío demia Húngara de Roma, escreve em Magyar Szemle^ que na
é delineada com perspicuidade: Emanuele Filiberío marca a
Itália "o Parlamento, que antes se situava, por assim dizer,
passagem da estratégia dos exércitos de ocasião à nova estraté
gia, que depois terá em Frederico II e Napoleão os seus gran- 1 Artigo publicado na Rassegna delia Stampa Estera de 3-10 de ja
neiro de 1933.

240 141
fora do Estado, constituía-se num colaborador valioso; mas
dei Umiti ali atíività dcllo Stato^. A afirmação dc Biggini de
foi inserido no Estado e sofreu uma modificação essencial na
que só há tirania sc se quer reinar fora "das regras constitu
sua composição, etc.".
tivas da estrutura social", pode ter aprofundamentos mais di
versos do que aqueles que Biggini supõe, desde que por "re
Afirmar que o Parlamento pode ser "inserido" no Estado gras constitutivas" não se entendam os artigos das Constitui
constitui uma descoberta no domínio da ciência e da técnica ções, como parece também não entender Biggini (tomei a ci
digna dos Cristóvão Colombo do conservadorismo moderno. tação de uma resenha de "Italia che scrive" de outubro de
Todavia, a afirmação é interessante porque mostra como mui 1929, escrita por Alfredo Poggi).
tos homens políticos concebem o Estado na prática, Na rea
lidade, su^re uma pergunta cabível: os Parlamentos fazem Enquanto o Estado é a própria sociedade organizada, é
parte da estrutura do Estado, mesmo nos países onde parece soberano. Não pode ter limite jurídico: não pode ser limitado
que os Parlamentos são eficientes ao máximo, ou então quais pelos direitos públicos subjetivos, nem se pode dizer que ele
são as suas funções reais? E de que modo, se a resposta for se autolimite. O direito positivo não pode constituir limite
positiva, eles fazem parte do Estado e como explicam a sua ao Estado porque pode ser modificado pelo Estado, em qual
função particular? A existência dos Parlamentos, mesmo se quer momento, em nome de novas exigências sociais, etc. Pog
eles organicamente não fazem parte do Estado, carece de sig gi considera justa esta observação e diz que tudo já está implí
nificado estatal? que fundamento tem as acusações ao parla cito na doutrina do limite jurídico: enquanto existir uma orga
mentarismo e ao regime dos partidos, que é inseparável do nização jurídica, o Estado se submete a ela; se quiser modi
parlamentarismo? (é claro que fundamento objetivo, ligado ao ficá-la, o fará substituindo-a por outra organização, isto é, o
fato de que'a existência dos Parlamentos, de per si, obstaculiza Estado só pode agir no sentido jurídico (mas como tudo que
e retarda a ação técnica do governo). o Estado faz é jurídico, pode-se continuar até ao infinito).
Compreende-se que o regime representativo pode "abor Ver como muitas das concepções de Biggini são marxismo
recer" politicamente a burocracia; mas não é esta a questão. camuflado e tornado abstrato.
A questão é se o regime representativo e dos partidos, em vez Para o aprofundamento histórico destas duas concepções
de ser um mecanismo idôneo para escolher funcionários eleitos do Estado, parece ser interessante o opúsculo de Widar Cesa-
que integrem e equilibrem os burocratas nomeados para im rini-Sforza^. Os romanos criaram a palavra ius para exprimir
pedir a petrificação, transformou-se num estorvo e num me o direito como poder da vontade, e definiram a ordem jurí
canismo às avessas, e por qual razão. De resto, também uma dica como um sistema de poderes não contidos na sua esfera
resposta afirmativa a estas perguntas não esgota a questão: recíproca por normas objetivas e racionais: todas as expressões
mesmo admitindo (o que se deve admitir) que o parlamen por eles utilizadas como aequitas, iusiitia, recta bu naturalis
tarismo tornou-se ineficiente e, inclusive, prejudicial, não se ratio devem ser compreendidas nos limites deste significado
deve concluir que o regime burocrático deva ser reabilitado e fundamental. O cristianismo, mais que o conceito de ius, ela
exaltado. Ê preciso ver se parlamentarismo e regime represen borou o conceito de directum na sua tendência a subordinar a
tativo se identificam e se não é possível uma solução diferente, vontade à norma, a transformar o poder em dever. O concei
tanto do parlamentarismo como do regime burocrático, com to de direito como potência só é referido em relação a Deus,
um novo tipo de regime representativo. cuja vontade se torna norma de conduta inspirada no princípio
Ver a discussão realizada nestes anos a propósito dos li da igualdade. A iustiíia já não se distingue da aequitas, e am-
mites da atividade do Estado: é a discussão mais importante
no plano da doutrina política e serve para assinalar os limites
entre liberais e não-liberais. Pode servir como ponto de refe ^ di C^ello, casa edit. 11 Solco, pág. 150.
^ "Ias" et "directum". N" ote suWorigine storica delVidea di diritto,
rência o opúsculo de Cario Alberto Biggini, II iondamento in-8.o Bolonha, Tip. fítuntít, 1930.

143
142
bas implicam a rectitudo, que é a qualidade subjetiva do que A confusão entre Estado-classe e sociedade regulada é pró
rer de conformar-se a tudo o que é reto e justo. Registro estas
citações de uma resenha (em Leonardo de agosto de 1930) pria das classes médias e dos intelectuais menores, que se sen
de Gioele Solari, que faz rápidas objeções a Cesarini-Sforza. tiriam felizes com uma regularização qualquer que impedisse
as lutas agudas e as catástrofes: é concepção tipicamente rea
cionária c retrógrada.
Parece-me que o que de mais sensato e concreto se pode
Nas novas tendências "jurídicas" representadas especial dizer a propósito do Estado ético e de cultura é o seguinte:
mente por Nuovi Studi de Volpicelli e por Spirito, deve-se no cada Estado é ético quando uma das suas funções mais impor
tar, como momento crítico inicial, a confusão entre o concei tantes é a de elevar a grande massa da população a um deter
to de Estado-classe e o conceito de sociedade regulada. Esta minado nível cultural e moral, nível (ou tipo) que correspon
confusão é especialmente notada na memória La libertà eco de às necessidades de desenvolvimento das forças produtivas
nômica, apresentada por Spirito na XIX reunião da Sociedade e, portanto, aos interesses das classes dominantes. Neste sen
pelo Progresso das Ciências, realizada em Bolzano em setem tido, a escola como função educativa positiva e os tribunais
bro de 1930 e publicada em Nuovi Studi de setembro-outu- como função educativa repressiva e negativa são as atividades
bro de 1930.
estatais mais importantes: mas, na realidade, no fim predomi
Enquanto existir o Estado-classe não pode existir a socie nam uma multiplicidade de outras iniciativas e atividades cha
dade regulada, a não ser por metáfora, isto é, apenas no sen madas privadas, que formam o aparelho da hegemonia políti
tido de que também o Estado-classe é uma sociedade regulada. ca e cultural das classes dominantes. A concepção de Hegel
Os utópicos, quando exprimiam uma crítica da sociedade exis é própria de um período em que o desenvolvimento horizontal
tente no seu tempo, compreendiam muito bem que o Estado- da burguesia parecia ilimitado, e, portanto, a sua moral ou
classe não podia ser a sociedade regulada, tanto é verdade que universalidade oodia ser afirmativa: todo o gênero humano
nos tipos apresentados pelas diversas utopias introduz-se a será burguês. Mas, na realidade, só o grupo social que coloca
igualdade econômica como base necessária da reforma proje o fim do Estado e de si mesmo como fim a ser alcançado, pode
tada: nisto os utópicos não eram utópicos, mas cientistas con criar um Estado ético, tendente a eliminar as divisões internas
cretos da pohtica e críticos coerentes. O caráter utópico de al de dominados, etc., e a criar um organismo social unitário téc-
guns deles era determinado pelo fato de que consideravam ser nico-moral.
possível introduzir a igualdade econômica através de leis arbi A doutrina de Hegel sobre os partidos e as associações
trárias, de um ato de vontade, etc. Permanece, porém, exato o como trama "privada" do Estado. Ela derivou, historicamen
conceito, registrado também em outros autores de obras polí te, das experiências políticas da Revolução Francesa e devia
ticas (inclusive de direita, isto é, nos críticos da democracia, servir para dar maior concreção ao constitucionalismo. Gover
na medida em que ela se serve dos modelos suíço ou dinamar no com o consentimento dos governados, mas com o consen
quês para considerar o sistema razoável em todos os demms timento organizado, não genérico e vago, tal qual se afirma
países), de que não pode existir igualdade política completa e no instante das eleições: o Estado tem e pede o consenso, mas
perfeita sem igualdade econômica; em relação aos escritores também "educa" este consenso utilizando as associações polí
do século XVII, este conceito pode ser encontrado, por exem ticas e sindicais, que, porém, são organismos privados, deixa
plo, em Ludovico Zuccolo e no seu livro II Belluzzi, e creio dos à iniciativa particular da classe dirigente, Hegel, em certo
que também em Maquiavel. Maurras considera que na Suíça sentido, já supera, assim, o constitucionalismo puro e teoriza
é possível aquela determinada forma de democracia, exata sobre o Estado parlamentar com o seu regime dos partidos. A
mente porque há certa forma de mediocridade das fortunas sua concepção da associação só pode ser vaga e primitiva,^ en
econômicas, etc. tre o político e o econômico, segundo a experiência histórica
do tempo, que era muito restrita e dava apenas um exemplo
144 J4S

j
acabado de organização, o "corporativo" (política enxertada essencialmente conservadoras, no sentido de que não tendiam
na economia). a elaborar uma passagem orgânica das outras classes às suas,
A Revolução Francesa oferece dois tipos predominantes: a ampliar a sua esfera de classe "tecnicamente" e ideolo^ca-
os clubes, que são organizações não rígidas, tipo "comício po mente: a concepção de casta fechada. A classe burguesa si
pular", centralizadas por individualidades políticas isoladas, ca tua-se como um organismo em contínuo movimento, capaz de
da uma das quais tem o seu jornal, com os quais mantém des absorver toda a sociedade, assimilando-a ao seu nível cultural
pertos a atenção e o interesse de uma determinada clientela. e econômico; toda a função do Estado se transforma: o Estado
É claro que entre os freqüentadores dos clubes deviam existir torna-se "educador", etc.
grupos restritos e selecionados de pessoas que se conheciam De que modo se verifica uma paralisação e a volta à con
reciprocamente, reuniam-se em separado e preparavam a atmos cepção do Estado como pura força, etc. A classe burguesa es
fera das reuniões para sustentar uma determinada corrente, de tá "saturada": não só não se amplia, mas se desagrega; não
acordo com o momento e também de acordo com os interesses, só não assimila novos elementos, mas desassimila uma parte
concretos em jogo. de si mesma (ou, pelo menos, as desassimilações são muitíssi
As conspirações secretas, que foram tão difundidas na mo mais numerosas do que as assimilações). Uma classe que
Itália antes de 1848, desenvolveram-se na França depois de se considere capaz de assimilar toda a sociedade, e ac mesmo
Termidor entre os seguidores de segundo plano do jacobinis- tempo seja realmente capaz de exprimir este processo, leva
mo, com muitas dificuldades no período napoleônico, em vir à perfeição esta concepção do Estado e do direito, de tal modo
tude da vigilância da polícia, com mais facilidade de 1815 a a conceber o fim do Estado e do direito, cm virtude de te
1830, sob a Restauração, que foi mais liberal na base e não rem eles completado a sua missão e de terem sido absorvidos
tinha certas preocupações. No período de 1815 a 1830 verifi pela Sociedade Civil.
cou-se também a diferenciação do campo político popular, que
parece já notável durante as "gloriosas jornadas" de 1830, em
que afloram as formações que vinham se constituindo nos úl Pode-se demonstrar que o conceito comum de Estado é
timos quinze anos. Depois de 1830 e até 1848, este processo unilateral e conduz a erros colossais falando do recente livro
de diferenciação se aperfeiçoa e gera tipos bastante definidos de Daniele Halévy, Décadence de Ia liberté, do qual li uma re
como Blanc e Füippo Buonarroti. senha em Nouvelles Litteraires. Para Halévy, "Estado" é o
Ê difícil que Hegel pudesse ter conhecido de perto estas aparelho representativo; ele descobre que os fatos mais impor
experiências históricas, que, ao contrário, eram mais vivas em tantes da história francesa de 1870 até hoje não se devem a ini
Marx^. ciativas de organismos políticos derivados do sufrágio univer
sal, mas, ou de organismos privados (sociedades capitalistas,
Estados-Maiores, etc.), ou de grandes funcionários desconhe
A revolução que a classe burguesa provocou na concep
cidos do país, etc. Isto significa que por "Estado" deve-se en
ção do direito e, portanto, na função do Estado, consiste es
tender, além do aparelho governamental, também o aparelho
pecialmente na vontade de conformismo (logo, moralidade do "privado" de "hegemonia" ou sociedade civil. Deve-se notar
como desta crítica do "Estado" que não intervém, que esta a
direito e do Estado). As classes dominantes precedentes eram reboque dos acontecimentos, etc., nasce a corrente ideológica
ditatorial de direita, com a teoria do reforçamento do executi
1 Ver como material primordial sobre esta série de fatos as publica vo, etc. Entretanto, seria necessário ler o livro de Halévy para
ções de Paul Louis e o Dizionario Político de Maurice Block; no que ver se também ele enveredou por este caminho: não é difícil,
se refere à Revolução Francesa, especialmente Aluard; ver também as
notas de Andler ao Manifesto. No que se refere à Itália, o livro de tendo em vista os precedentes (simpatias por Sorel, por Maur-
Luzio Lfl Massoneria e il Risorgimento, muito tendencioso. ras, etc.).

147
146
Curzio Malaparte, na introdução ao seu livro Técnica dei civil c às diversas forças que nela pululam, ficando o "Estado"
colpo di Stato, parece que afirma a equivalência da fórmula: como guardião da "lealdade do jogo" e das suas leis; os inte
"Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Esta lectuais fazem distinções muito importantes quando são libe
do", com a proposição: "onde há liberdade o Estado desapa rais e também quando são intervencionistas (podem ser libe
rece". Nesta proposição o termo "liberdade" não é entendido rais no campo econômico e intervencionistas no campo cultu
no significado comum de "liberdade política, ou de imprensa, ral, etc.). Os católicos desejariam o Estado intervencionista in
etc.", mas como contraposto a "necessidade" e se relaciona teiramente do lado deles; e à falta disso, quando estão em mi
com a proposição de Engels sobre a passagem do reino da noria, exigem o Estado "indiferente", para que não apóie os
necessidade ao reino da liberdade. Malaparte nem ao menos
seus adversários.
adivinhou o significado da proposição.
Na polêmica (de resto superficial) sobre as funções do
Estado (o Estado entendido como organização político-jurí- Eis um argumento sobre o qual meditar: a concepção do
dica num sentido estrito), a expressão "Estado-veí/íewr de nuií" Estado gendarme-guarda noturno (deixando de lado a especi
corresponde à italiana "Stato-carobinlere", que significaria um ficação de caráter polêmico: gendarme, guarda noturno, etc.)
Estado cujas funções limitam-se à tutela da ordem pública e não é em si a concepção do Estado que supera as fases extre
do respeito às leis. Não se insiste sobre o fato de que nesta mas "corporativo-'econômicas"?
forma de regime (que alem do mais so existiu, como hipotese-
limife, no papel) a direção do desenvolvimento histórico per Permanecemos sempre no terreno da identificação de Esta
tence 'às forças privadas, à sociedade civil, que é também "Es do e de governo, identificação que não passa de uma reapre-
tado", aliás o próprio Estado. sentação da forma corporativo-econômica, isto é, da confusão
Parece que a expressão veiíkur de nuii, que deveria ter entre sociedade civil e sociedade política, pois deve-se notar
um valor mais sarcástico que "Stato-carabiniere" ou Estado- que na noção geral de Estado entram elementos que também
policial" seja de Lassalle. O seu oposto deveria ser "Estado são comuns à noção de sociedade civil (neste sentido, poder-
ético" ou "Estado intervencionista" em geral, mas existem dife se-ia dizer que Estado = sociedade política -h sociedade civil,
renças entre as duas expressões: o conceito de Estado ético isto é, hegemonia revestida de coerção). Numa doutrina ^que
é de origem filosófica e intelectual (própria dos intelectuais; conceba o Estado como tendencialmente passível de extinção e
Hegel) e, na verdade, poderia ligar-se ao conceito de Estado- de dissolução na sociedade regulada, o argumento é fundamen
veílleur de nuit, pois refere-se mais à atividade autônoma, edu tal. O elemento Estado-coerção pode ser imaginado em pro
cativa e moral do Estado leigo, em oposição ao cosmopolitis- cesso de desaparecimento, à medida que se afirmam elementos
mo e à ingerência da organização religioso-eclesiástica como cada vez mais conspícuos de sociedade regulada (ou Estado
resíduo medieval. O conceito de Estado intervencionista é de ético ou sociedade civil).
origem econômica e liga-se, de um lado, às correntes prote As expressões "Estado ético" ou "sociedade civil" signi
cionistas ou de nacionalismo econômico e, de outro, à tentativa
ficariam que a "imagem" de Estado sem Estado estava presente
de entregar a um grupo estatal determindo, de origem latifun nos maiores cientistas da política e do direito quando se colo
diária e feudal, a "proteção" das classes trabalhadoras contra
os excessos do capitalismo (política de Bismarck e de Disraeli).
cavam no terreno da ciência pura (pura utopia, desde que ba
seada no pressuposto de que todos os homens são realmente
Estas tendências diversas podem-se combinar de vários iguais e, portanto, igualmente razoáveis e morais, isto é,^ passí
modos e, de fato, se combinaram. Naturalmente os liberais veis de aceitar a lei espontaneamente, livremente, e não por
("economistas") são a favor do "Estado-vez7/cMr de nuit" e de
sejariam que a iniciativa histórica fosse entregue à sociedade
coerção, imposta por outra classe, como coisa externa à cons
ciência).

148 149
Deve-se recordar que a expressão "guarda noturno" para política interna que determina a política externa, ou vice-versa?
definir o Estado liberal é de Lassalle, isto é, de um estadista Também neste caso é preciso distinguir entre grandes potên
dogmático e não dialético (examinar bem a doutrina de Lassalle cias com relativa autonomia internacional e outras potências,
sobre este ponto e sobre o Estado em geral, em contraste com
•^í.í o marxismo). Na doutrina do Estado-sociedade regulada,' de
e ainda entre diversas formas de governo (um governo como
o de Napoleão III tinha duas políticas, aparentemente: reacio
uma fase em que "Estado" será igual a "governo" e "Estado" nária no plano interno e liberal no plano externo).
se identificará com "sociedade civil", dever-se-á passar a uma Condições de um Estado antes e depois de uma guerra.
fase de Estado-guarda noturno, isto é, de uma organização É evidente que importam, numa aliança, as condições em que
coercitiva que tutelará o desenvolvimento dos elementos da so um Estado se encontra no momento da paz. Por isso pode
ciedade regulada em contínuo crescimento, e, portanto, redu ocorrer que aquele que teve a hegemonia durante a guerra íer-
zindo gradativamente as suas intervenções autoritárias e coer niine por perdê-la pelo enfraquecimento sofrido na luta e ôeva
citivas . De modo nenhum isto pode levar a pensar num novo ver um "subalterno" que foi mais hábil ou mais ' afortunado^^
" ' j ,ft ^ "liberalismo", embora esteja para surgir uma era de liberdade assumir a hegemonia. Isto se verifica nas "guerras mundi^s
r [.("fK''"''-''V orgânica. quando a situação geográfica obriga um Estado a lançar todas
as suas reservas no fogo: vence graças às alianças, mas a vito
ria encontra-o prostrado, etc. Eis por que no conceito de gran
Se é verdade que nenhum Estado não pode deixar de atra de potência" deve-se levar em conta muitos elementos,^ espe
vessar uma fase de primitivismo econômico-corporativo, disso cialmente aqueles "permanentes", isto é, especialmente poten
": ■ríí.fi ,'■ ;■ . ''*",4 se deduz que o conteúdo da hegemonia política do novo grupo
social que fundou o novo tipo de Estado deve ser predominante
cialidade econômica e financeira", e população.

J|í,,í,;' ;V'."' :m •:: . %,


, rO^,;y , ®
mente de ordem econômica: trata-se de reorganizar a estrutura
e as relações reais entre os homens e o mundo econômico ou Organização das sociedades nacionais. Assinalei anterior
da produção. Os elementos de superestrutura só podem ser mente que numa determinada sociedade ninguém _e desorgam-
^ ' nV h l/á í escassos e o seu caráter será de previsão e de luta, mas com zado e sem partido, desde que se entendam organização e pw
Ji 5^" M> >»,' ^)f«' ifv, 'í^ elementos "de plano" ainda escassos: o plano cultural será prin tido num sentido amplo, e não formal. Nesta multiphcidade de
cipalmente negativo, de crítica do passado, tenderá a fazer es sociedades particulares, de caráter dúplice — natural e co^tr "
/'d quecer e a destruir. As linhas da construção serão ainda "gran tual ou voluntário —■ uma ou mais prevalecem relativamen
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des linhas", esboços, que poderiam (e deveriam) ser modifica absolutamente, constituindo o aparelho hegemônico de um ^-
kíi.^ ^
ÃA-ít l '1^ dos a cada momento, para que sejam coerentes com a nova po social sobre o resto da população (ou sociedade ...
' l I
;;,'.Ti«#-^(t..'^.. estrutura em formação. Isto não se verifica no período das do Estado compreendido como aparelho "
r' t Comunas; a cultura, que permanece função da Igreja, é exata Ocorre sempre que as pessoas individualmente p .
mente de^ caráter antieconômico (da economia capitalista nas a mais de uma sociedade particular e, ^ tnfali-
cente), não está orientada para dar a hegemonia à nova classe, dades que objetivamente se contradizem. Uma po
mas, ao contrário, para impedir que esta classe a conquiste: pot taria tende justamente: 1) a obter que os membros de um^-
J I r"^ Í í/ ^ (' -^ ^1 terminado partido encontrem neste partido todas^as s ç
a ° são reacionários, pois que antes encontravam em múltiplas °^Sauizaçoes, i >
Sco que lhe e proprio, etc.
nomico ^ °^gação do mundo eco- romper todos os fios que ligam cstes membros a S „
culturais estranhos; 2) a destruir todas as outras organizações,
ou a incorporá-las num sistema do qual o Partido seja
'''' regulador. Isto ocorre: 1) quando um dêtermmado Partido c
,'# '%M M tre a°pXca VaTnlá" ® ° orgâni c
^ P^ílítiça externa de um Estado. ê
as en- o portador de uma nova cultura e se verifica uma tase pro
^íjjíyiiKM 151
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150
Deve-se recordar que a expressão "guarda noturno" para política interna que determina a política externa, ou vice-versa?
definir o Estado liberal é de Lassalle, isto é, de um estadista Também neste caso é preciso distinguir entre grandes potên
dogmático e não dialético (examinar bem a doutrina de Lassalle cias com relativa autonomia internacional e outras potências,
sobre este ponto e sobre o Estado em geral, em contraste com e ainda entre diversas formas de governo (um governo como
o marxismo). Na doutrina do Estado-sociedade regulada, de o ó® Napoleão III tinha duas políticas, aparentemente: reacio
uma fase em que "Estado" será igual a "governo" e "Estado" nária no plano interno e liberal no plano externo).
se identificará com "sociedade civil", dever-se-á passar a uma Condições de um Estado antes e depois de uma guerra.
fase de Estado-guarda noturno, isto é, de uma organização É evidente que importam, numa aliança, as condições em que
coercitiva que tutelará o desenvolvimento dos elementos da so um Estado se encontra no momento da paz. Por isso pode
ciedade regulada em contínuo crescimento, e, portanto, redu ocorrer que aquele que teve a hegemonia durante a guerra ter
zindo gradativamente as suas intervenções autoritárias e coer mine por perdê-la pelo enfraquecimento sofrido na luta e deva
citivas. De modo nenhum isto pode levar a pensar num novo ver um "subalterno" que foi mais hábil ou mais "afortunado"
"liberalismo", embora esteja para surgir uma era de liberdade
orgânica.
assumir a hegemonia. Isto se verifica nas "guerras mundiais"
quando a situação geográfica obriga um Estado a lançar todas
as suas reservas no fogo: vence graças às alianças, mas a vitó
Se é verdade que nenhum Estado não pode deixar de atra ria encontra-o prostrado, etc. Eis por que no conceito de "gran
vessar uma fase de primitivismo econômico-corporativo, disso de potência" deve-se levar em conta muitos elementos, espe
se deduz que o conteúdo da hegemonia política do novo grupo cialmente aqueles "permanentes", isto é, especialmente "poten
social que fundou o novo tipo de Estado deve ser predominante cialidade econômica e financeira", e população.
mente de ordem econômica: trata-se de reorganizar a estrutura
e as relações reais entre os homens e o mundo econômico ou
da produção. Os elementos de superestrutura só podem ser Organização das sociedades nacionais. Assinalei anterior
escassos e o seu caráter será de previsão e de luta, mas com mente que numa determinada sociedade ninguém é desorgani
elementos "de plano" ainda escassos: o plano cultural será prin zado e sem partido, desde que se entendam organização e par
cipalmente negativo, de crítica do passado, tenderá a fazer es tido num sentido amplo, e não formal. Nesta multiplicidade de
quecer e a destruir. As linhas da construção serão ainda "gran sociedades particulares, de caráter dúplice — natural e contra
des linhas", esboços, que poderiam (e deveriam) ser modifica tual ou voluntário — uma ou mais prevalecem relativamente ou
dos a cada momento, para que sejam coerentes com a nova absolutamente, constituindo o aparelho hegemônico de um gru
estrutura em formação. Isto não se verifica no período das po social sobre o resto da população (ou sociedade civil), base
Comunas; a cultura, que permanece função da Igreja, é exata do Estado compreendido como aparelho governante-coercitivo.
mente de caráter antieconômico (da economia capitalista nas Ocorre sempre que as pessoas individualmente pertencem
cente), não está orientada para dar a hegemonia à nova classe, a mais de uma sociedade particular e, freqüentemente, a socie
mas, ao contrário, para impedir que esta classe a conquiste: por dades que objetivamente se contradizem. Uma política totali
isso, o Humanismo e o Renascimento são reacionários, pois tária tende justamente: 1) a obter que os membros de um de
assinalam a derrota da nova classe, a negação do mundo eco terminado partido encontrem neste partido todas as satisfações
nômico que lhe é próprio, etc. que antes encontravam em múltiplas organizações, isto é, a
romper todos os fíos que ligam estes membros a organismos
culturais estranhos; 2) a destruir todas as outras organizações,
Outro elemento a examinar é o das relações orgânicas en ou a incorporá-las num sistema do qual o partido seja o único
tre a política interna e a política externa de um Estado. Ê a regulador. Isto ocorre: 1) quando um determinado partido é
o portador de uma nova cultura e se verifica uma fase pro-
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151
gressista; 2) quando um determinado partido quer impedir que moderno, portanto, está implícita a utopia democrática do sé
outra força, portadora de uma nova cultura, se tome "totalitá culo XVIII.
ria"; então verifica-se uma fase objetivamente regressiva e rea Entretanto, existe algo de verdade na opinião segundo a
cionária, mesmo que a reação não se confesse como tal (como qual o costume deve preceder o direito: efetivamente, nas revo
sempre sucede) e procure aparecer como portadora de uma luções contra os Estados absolutos já existia como costume e
nova cultura. como aspiração uma grande parte de tudo o que posteriormente
Luigi Einaudi, na Riforma Sociale de maio-junho de 1931, tornou-se direito obrigatório. Foi com o nascimento e o de
comenta um livro francês: Les sociétés de Ia nation. Êíudes sur senvolvimento das desigualdades que o caráter obrigatório do
les élêments constituíifs de Ia nation jrançaise, de Etienne Mar- direito aumentou, da mesma forma que cresceu a zona da inter
tin Saint-Léon,i onde uma parte destas organizações são estu venção estatal e do obrigacionarismo jurídico. Mas, nesta se
dadas, mas apenas aquelas que existem formalmente. (Por gunda fase, mesmo afirmando que o conformismo deve ser livre
exemplo, os leitores de um jornal formam ou não uma organiza e espontâneo, trata-se de coisa bastante diversa: trata-se de
ção?, etc.) De qualquer modo, se o assunto fòr tratado, ver o reprimir e sufocar um direito nascente, e não de conformar.
livro e também a resenha de Einaudi.
O argumento se enquadra naquele mais geral da posição
diferente que as classes subalternas tiveram antes de se torna
rem dominantes. Determinadas classes subalternas devem atra
Os costumes e as leis. É opinião muito difundida e, inclu vessar um longo período de intervenção jurídica rigorosa, que
sive, é opinião considerada realista e inteligente, que as leis depois se atenua, diferentemente de outras; há diferença inclu
devem ser precedidas do costume, que a lei só é eficaz quando sive nos modos: em determinadas classes o crescimento nunca
sanciona os costumes. Esta opinião está contra a história real cessa, indo até à absorção completa da sociedade; em outras,
do desenvolvimento do direito, que sempre exigiu uma luta ao primeiro período de expansão sucede um período de repres
para afirmar-se, luta que, na realidade, é pela criação de um são. Este caráter educativo, criador, formativo do direito foi
novo costume. mal esclarecido por determinadas correntes intelectuais: trata-
Nesta opinião existe um resíduo muito evidente de mora- se de um resíduo do espontaneísmo, do racionalismo abstrato,
lismo introduzido na política. Supõe-se que o direito seja a baseado num conceito da "natureza humana" abstratamente
expressão integral de toda a sociedade, o que é falso: ao con otimista e vulgar. Outro problema se apresenta a estas correntes:
trário, constituem expressão mais aderente da sociedade aque qual deve ser o órgão legislativo "em sentido lato", isto é, a
las regras práticas de conduta que os juristas chamam "juri necessidade de levar as discussões legislativas a todos os orga
dicamente indiferentes" e cuja zona se modifica com os tempos nismos de massa. Uma transformação orgânica do conceito de
e com a extensão da intervenção estatal na vida dos cidadãos. referendam, mesmo deixando ao governo a função de última
0 direito não exprime toda a sociedade (pelo que os violadores instância legislativa.
do direito seriam seres anti-sociais por natureza, ou débeis men
tais), mas a classe dirigente, que "impõe" a toda a sociedade
aquelas normas de conduta que estão mais ligadas à sua razão Quem é legislador? O conceito de "legislador" identifica-
de ser e ao seu desenvolvimento. A função máxima do direito se necessariamente com o conceito de "político". Já que todos
é a de pressupor que todos os cidadãos devem aceitar livremen são "homens políticos", são também "legisladores". Mas será
te o conformismo assinalado pelo direito, segundo o qual todos necessário fazer distinções. "Legislador" tem um significado
podem-se tornar elementos da classe dirigente — no direito jurídico-estatal preciso, isto é, significa aquelas pessoas que estão
habilitadas pelas leis a legislar. Mas pode ter também outros
1 Volume de 415 páginas, ed. Spes, Paris, 1930. significados.

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Cada homem, desde que ativo, isto é, vivo, contribui para tico, chamado legislador". A expressão cautelosa tem dois sig
modificar o ambiente social em que se desenvolve (para modi nificados, rcfcrc-se a duas ordens bens distintas de observações
ficar determinados caracteres ou para conservar outros) tende críticas. De um lado, refere-se ao fato de que as conseqüências
a estabelecer "normas", regras de vida e de conduta. O círculo de uma lei podem ser diversas daquelas "previstas", isto é, de
de atividades será maior ou menor, a consciência da própria sejadas conscientemente pelo legislador individual, pelo que,
ação e dos objetivos também, além do mais, o poder represen "objetivamente", à voluntas legislatoris, aos efeitos previstos
tativo terá um determinado grau, e será mais ou menos pratica pelo legislador individual, substitui-se a voluntas legis, o
do pelos "representantes" na sua expressão sistemática norma conjunto de conseqüências atuais que o legislador individual não
tiva. Um pai é um legislador para os filhos, mas a autoridade previra, mas que, de fato, derivam de uma determinada lei. (Na
paterna será mais ou menos consciente e mais ou menos obe turalmente, seria necessário ver se os efeitos que o legislador
decida, e assim por diante. individual prevê em palavras são por ele previstos bona fide, ou
Em geral, pode-se dizer que a distinção entre o comum apenas para criar o ambiente favorável à aprovação da lei, se
dos homens e outros homens mais especificamente legisladores
é dada pelo fato de que este segundo grupo não só elabora os "fins" que o legislador individual diz querer alcançar não
diretivas que deveriam tornar-se norma de conduta para os ou são um simples meio de propaganda ideológica ou demagógica.)
tros, mas, ao mesmo tempo, elabora os instrumentos através Mas a expressão cautelosa também tem outro significado
dos quais as próprias diretivas serão "impostas" e executadas. que precisa e define o primeiro: a palavra "legislador" pode
0 poder legislador máximo deste segundo grupo é exercido pelo ser efetivamente interpretada num sentido muito amplo, "até a
pessoal estatal (funcionários eleitos e de carreira), que têm à indicar o conjunto de crenças, sentimentos, interesses e argu
sua disposição as forças coercitivas legais do Estado. Mas não mentos difundidos numa coletividade num determinado período
se diz que também os dirigentes de organismos e organizações
"privados" não dispõem de sanções coercitivas, inclusive até a histórico". O que, na realidade, significa: 1) que o legislador
pena de morte. O máximo de capacidade do legislador pode individual (deve-se entender legislador individual não só no
ser deduzido do fato de que à perfeita elaboração das diretivas caso restrito da atividade parlamentar estatal, mas também em
corresponde uma perfeita predisposição dos organismos de qualquer outra "atividade individual" que pretenda, em escalas
execução e de controle e uma perfeita preparação do consenso mais ou menos amplas de vida social, modificar a realidade se
"esDontâneo" das massas que devem "viver" aquelas diretivas, gundo certas diretivas) jamais pode desenvolver ações "arbi
modificando os seus hábitos, a sua vontade e as suas convicções trárias", anti-históricas, pois a sua iniciativa, uma vez praticada,
de acordo com estas diretivas e com os objetivos que elas se atua como uma força em si no círculo social determinado, pro
propõem atingir. Se cada um é legislador no sentido mais am vocando ações e reações que são intrínsecas a este circulo, além
plo do termo, continua a ser legislador mesmo aceitando dire de que ao ato em si; 2) que cada ato legislativo, ou de von
tivas de outros. Seguindo-as, faz com que também os outros tade diretiva ou normativa, deve também e especialmente ser
as sigam; compreendendo o seu espírito, diyulga-as, quase que avaliado objetivamente, em virtude das conseqüências fatuais
transformando-as em regulamentos de aplicaçao particular a
zonas de vida restrita e individualizada. que poderá acarretar; 3) que cada legislador não pode ser, sal
vo abstratamente e por comodidade de linguagem, considerado
como indivíduo, pois, na realidade, exprime uma determinada
Num estudo de Mauro Fasiani^ sobre a teoria financeira vontade coletiva disposta a tomar fatual a sua "vontade que
dos impostos, fala-se de "vontade suposta daquele ser algo mí- é "vontade" só porque a coletividade esta disposta a dar-lhe
1 Schemi teorici ed "exponibilia" finanziari, em Biforma SocíaZe, se- fatualidade; 4). que, portanto, qualquer indivíduo que prescin
tembro-outubro de 1932. dir de uma vontade coletiva e não procure criá-la, ampliá-la,
154 755
reforçá-la, organizá-la, é simplesmente um desorientado, um to ele deveria explicar as causas que provocaram a separação e
"profeta desarmado", um fogo-fátuo.'^ a luta entre Parlamento e Governo, de modo tal que a unidade
destas duas instituições não permite mais estruturar uma dire
triz permanente de governo, Mas isto não pode ser explicado
Arte política e arte militar. O escritor militar italiano. Ge com esquemas lógicos, mas só através das müdanças havidas
neral De Cristoforis, no seu livro Che cosa sia Ia guerra, diz na estrutura política do país, ou seja, realisticamente, através de
que, por "destruição do exército inimigo" (objetivo estratégico) uma análise histórico-política, Trata-se, na reaüdade, de difi
não se entende "a morte dos soldados, mas a dissolução dos culdades em elaborar uma diretriz política permanente e de
seus laços como massa orgânica", A fórmula é feliz e também longo alcance, não apenas de dificuldades, A análise não pode
pode ser empregada na terminolo^a política. Trata-se de iden prescindir do exame: 1) do por quê os partidos políticos se
tificar qual é, na vida política, o laço orgânico essencial, que multiplicaram; 2) do por quê se tornou difícil formar uma
não pode consistir apenas nas relações jurídicas (liberdade de maioria permanente entre estes partidos parlamentares; 3) por
associação e reunião, etc,, com a seqüela dos partidos e dos
sindicatos, etc,), mas sé enraíza nas mais profundas relações tanto, do por quê os grandes partidos tradicionais perdem o
econômicas, isto é, na função social no mundo da produção poder de dirigir, o prestígio, etc. É este fato puramente par
(forma de propriedade e de direção, etc,), lamentar, ou é o reflexo parlamentar de mudanças radicais ha
vidas na própria sociedade, na função que os grupos sociais
desempenham na vida produtiva, etc,? Parece que o único ca
"Função de governo". Artigo de Sérgio Panunzio em Ge- minho para encontrar a origem da decadência dos regimes par
rarchia de abril de 1933 {La fine dei parlamentarismo e Vaccen- lamentares seja procurá-la na sociedade civU, e, certamente,
tramento delie responsabilità), Superficial, Ponto curioso é neste caminho, não se pode deixar de estudar o fenômeno sin
aquele em que Panunzio escreve que as funções do Estado não dical; mas não o fenômeno sindical entendido no seu sentido
são só três, a "legislativa", a "administrativa" e a "judiciária"; elementar de associativismo de todos os grupos sociais e para
mas "que a elas é necessário acrescentar outra que, ademais, qualquer fim, e sim aquele típico por excelência, isto e, dos
inclusive no regime parlamentar, é a principal, primígena, e a elementos sociais de formação nova, que precedentemente não
fundamental, a função de governo, ou seja, a determinação da tinham "voz ativa" e que apenas pelo fato de unirem-se modi
diretriz política. Diretriz política em relação à qual a própria ficam a estrutura política da sociedade.
legislação se comporta como executivo (!), na medida em que Seria bom ver também por que os velhos sindicalistas so-
é o programa político de governo que se traduz, como em tan relianos (ou quase) transformaram-se num determinado mo
tos capítulos sucessivos, nas leis e é o pressuposto delas". mento em simples partidários do associativismo e do unionismo
Pressuposto ou contido, logo nexo inscindível? Panunzio, em geral. Talvez o germe desta decadência tenha sua origem
na realidade, raciocina por modelos, isto é, formalisticamente, no próprio Sorel, isto é, num determinado fetichismo sindical
pior que os velhos constitucionalistas, Em relação a este assun- ou economista.

1 A propósito deste tema, ver o que diz Pareto sobre as ações lógicas
e não lógicas na sua Sociologia. Segundo Fasiani, para Pareto são "ações
lógicas aquelas que unem logicamente o meio ao fim, não só segundo A questão da existência de um "quarto" poder estatal,^ o
o juízo do sujeito agente (fim subjetivo), mas também segundo o juízo de "determinação da diretriz política", colocada por Panunzio,
do observador (fim objetivo). As ações não lógicas não têm este ca parece que deve ser ligada aos problemas suscitados pelo de
ráter, O seü fim objetivo difere do fim subjetivo", Fasiani não se sa saparecimento dos partidos políticos e, portanto, pelo esvazia
tisfaz com esta terminologia paretiana, mas a sua crítica também per mento do Parlamento. É um modo "burocrático" de situar um
manece no terreno puramente formal e esquemático de Pareto.
problema que antes era resolvido pelo funcionamento normal
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157
da vida política nacional, mas não se advinha qual possa ser a o que se compreende, dado o caráter dos livros de Mosca e
sua solução "burocrática". especialmente dos Elementi di scienza politica: o interesse de
Os partidos eram de fato os organismos que, na sociedade Mosca, na verdade, varia entre uma posição "objetiva" e desin
civil, elaboravam não só as diretrizes políticas, mas educavam teressada de cientista e uma posição apaixonada de homem de
e apresentavam os homens supostamente em condições de apli partido, imediatista, que vê se desenrolarem acontecimentos que
cá-las. No terreno parlamentar, as "diretrizes" elaboradas, totais o angustiam e contra os quais desejaria reagir. Ademais, incons
ou parciais, de longo alcance ou de caráter imediato, eram con cientemente, Mosca reflete as discussões suscitadas pelo mate-
frontadas, despidas dos caracteres particularistas, etc., e uma rialismo histórico, mas reflete-as como o provinciano que "sente
delas tomava-se "estatal", ao mesmo tempo que o grupo par no ar" as discussões que se verificam na capital e não dispõe
lamentar do partido mais forte se tornava o "governo" e dirigia dos meios de obter para si os documentos e os textos funda^
o governo. O fato de a desagregação parlamentar ter tornado mentais. No caso de Mosca, "não dispor dos meios" para obter
os partidos incapazes de realizar esta tarefa, não anulou a tare os textos e os documentos sobre o problema de que trata, sig
fa em si e nem apresentou um caminho novo de solução; o nifica que ele pertence àquela parte de universitários que, en
mesmo ocorre em relação à educação e à valorização da per quanto consideram seu dever alardear todas as cautelas do mé
sonalidade. A solução "burocrática" de fato encobre um regime todo histórico quando estudam as ideiazinhas de um publicista
de partidos da pior espécie, que atuam ocultamente, sem con medieval de terceira categoria, não consideram ou não consi
trole; os partidos são substituídos por camarilhas c influências deravam dignas "do método" as doutrinas do materialismo his
pessoais inconfessáveis: sem contar que restringe as possibili tórico, não consideravam necessário ir às fontes e se contenta
dades de opção e embota a sensibilidade política c a elastici vam com uma simples "espiada" em pequenos artigos de jornais
dade tática. Max Weber,^ por exemplo, é de opinião que uma e em opúsculos populares.
grande parte das dificuldades atravessadas pelo Estado alemão
no após-guerra foram motivadas pela ausência de uma tradição
político-parlamentar e de vida partidária antes de 1914. Grande política e política menor. Grande política (alta
política), política menor (política do dia-a-dia, política parla
mentar, de corredores, de intrigas). A grande política compre
A classe política. O problema da classe política, como é ende as questões ligadas à fundação de novos Estados, com a
apresentado nas obras de Caetano Mosca, tornou-se um puzzle. luta pela destruição, a defesa, á conservação de determinadas
Não se compreende com clareza o que Mosca entende precisa estruturas orgânicas econômico-sociais. A política menor com
mente por "classe política", de tal modo a noção é elástica e preende as questões parciais e quotidianas que se apresentam no
ondulante. Algumas vezes parece que por classe política deve- interior de uma estrutura já estabelecida, em virtude de l.utas
se entender a classe média, outras, o conjunto das classes pos pela predominância entre as diversas frações de uma mesma
suidoras, outras mais, o que se denomina a "parte culta" da classe política. Portanto, é grande política tentar excluir a
sociedade, ou o "pessoal político" (setor parlamentar) do Es grande política do âmbito interno da vida estatal e reduzir tudo
tado. Algumas vezes parece que a burocracia, inclusive no seu a pequena política (Giolitti, baixando o nível das lutas internas,
estrato superior, está excluída da classe política na medida exa fazia grande política; mas os seus súcubos eram objeto de gran
ta em que deve ser controlada e guiada pela classe política. de política, embora fizessem política menor. Ao contrário, é
A deficiência do trabalho de Mosca está em que ele não puro diletantismo colocar a questão de modo tal que cada ele
enfrenta, no seu conjunto, o problema do "partido político"; mento de pequena política deva necessariamente tornar-se ques
tão de grande política, de reorganização radical do Estado.
1 Monarchia e Parlamento in Germania, trad. it Bari 1919 ÍN Os mesmos termos se apresentam na política internacional:
e I.) . . v . 1) a grande política nas questões relacionadas com a dimensão
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relativa de cada Estado nos confrontos recíprocos; 2) a peque Chega-se à conclusão que uma das partes não tem razão, que as
na política nas questões diplomáticas que surgem no interior suas pretensões não são retas, ou então que elas são despidas
de um equilíbrio já constituído e que não procuram superar de senso comum. Estas conclusões são o resultado de modos
aquele equilíbrio para criar novas relações. de pensar gerais, populares, partilhados, inclusive, pela parte
Maquiavel examina especialmente as questões de grande censurada em virtude delas. Apesar disso, esta parte continua
política: conservação e defesa de estruturas orgânicas no com a dizer que "tem razão", que a "justiça" está com ela, e o que
plexo; questões de ditadura e de hegemonia em vasta escala, mais conta, continua a lutar, sacrificando-se. Tudo isto significa
isto é, em toda a área estatal. Russo, em Prolegomeni, conside que as suas convicções não são superficiais, simples palavras,
ra o Príncipe o tratado da ditadura (momento da autoridade e não são razões polêmicas para salvar a cara, mas são realmente
do indivíduo) e os Díscorsí o tratado da hegemonia (momento profundas e arraigadas nas consciências.
do universal e da liberdade). A observação de Russo é exata, Significará que o problema está mal colocado e mal resol
embora também no Príncipe existam referências ao momento vido. Que os conceitos de eqüidade e de justiça são puramente
da hegemonia ou do consenso, ao lado daquele da autoridade
ou da força. Assim, é justa a observação de que não há oposi
formais. Efetivamente, pode ocorrer que de duas partes em
ção de princípio entre principado e república, tratando-se, isto
conflito, ambas tenham razão, "as coisas ficando como estão",
sim, da hipótese dos dois momentos de autoridade e de univer
ou que uma pareça ter mais razão que a outra "as coisas fican
do como estão", mas não tenha razão "se as coisas tivessem de
salidade.
mudar". Ora, num conflito o que se deve avaliar não são as
A propósito do Renascimento, de Lorenzo dos Mediei: coisas da forma como estão, e sim os fins que as partes em
questão de "grande política e de pequena política", política conflito se propõem com o próprio conflito. Mas, como este
criadora e política de equilíbrio, de conservação, mesmo em se fim, que não existe ainda como realidade fatual e capaz de sei
tratando de conservar uma situação miserável. Acusação aos
franceses (e aos gálios desde Júüo César) de serem volúveis,
avaliada, pode ser julgado? Não se tomará o próprio julgamen
to um elemento do conflito, isto é, não será ele nada mais que
etc. E neste sentido os italianos do Renascimento jamais foram
"volúveis", ao contrário, talvez deva-se distinguir entre a gran
uma força do jogo a favor ou em prejuízo de uma das partes?
de política que os italianos praticavam no "exterior", como for
De qualquer modo, pode-se dizer: 1) que, num conflito, cada
ça cosmopolita (enquanto a força cosmopolita durou) e a pe juízo de moralidade é absurdo, pois ele só pode basear-se nos
quena política no interior, a pequena diplomacia, a angústia dos dados de fato existentes e que o conflito tende a modificar; 2)
programas, etc. ... portanto a debilidade da consciência na que o único juízo possível é o "político", da conformidade do
cional que exigiria uma atividade audaciosa e de confiança nas meio ao fim (logo, implica uma identificação do fim ou dos
forças populares-nacionais. Terminado o período da função fins graduados numa escala de aproximação). Um conflito é
cosmopolita, surgiu o período da "pequena política", no inte "imoral" quando afasta do fim, ou não cria condições que apro
rior, o esforço imenso para impedir qualquer mudança radical.
ximem do fim (ou seja, não cria meios mais conformes com a
Na realidade, o piede di casa, as mãos limpas, etc., a respeito
conquista do fim), mas não é "imorál" de outros pontos de
vista "moralistas". Desse modo, não se pode julgar o homem
dos quais tanto se reprova as gerações do 800, não são mais político pela sua maior ou menor honestidade, mas por manter
que a consciência do fim de uma função cosmopolita na forma ou não os seus compromissos (e nesta decisão pode estar com
tradicional e a incapacidade de criar uma nova, apoiando-se no
binômio povo-nação.
preendido o "ser honesto", isto é, o ser honesto pode ser um
fator político necessário, e em geral o é, mas o juízo e político,
e não moral). Ele é julgado não por atuar com eqüidade, mas
Moral e política. Verifica-se uma luta. Julga-se da "eqüi por obter ou não resultados positivos, ou evitar um resultado
dade" e da "justiça" das pretensões das partes em conflito. negativo, e em relação a isto pode ser necessário o "atuar com
eqüidade", mas como meio político, e não como juízo moral*
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Separação entre dirigentes e dirigidos. Assume aspectos escolhidos os "ricos" ou os "nobres", etc.); 2) se não tem
diversos de acordo com as circunstâncias e as condições gerais. possibilidades de escolha (um novo Estado, como a Itália em
Desconfiança recíproca: o dirigente pensa que o "dirigido" o 1861-70) e não cria as condições gerais para sanar a deficiên
engana, exagerando os dados positivos e favoráveis à ação e cia e criar as possibilidades de escolha.
por isso nos seus cálculos deve levar em conta esta incógnita
que complica a equação. O "dirigido" duvida da energia e do
espírito de decisão do dirigente, e por isso é levado, inclusive Cidade e campo. Giuseppe De Michelis, Premesse e con
inconscientemente, a exagerar os dados positivos e a esconder tributo alio síudio deliesodo rurale, Nuova Antologia, 16 de
ou minimizar os dados negativos. Há um engano recíproco, ori janeiro de 1930. Artigo interessante, de muitos pontos de vista.
gem de novas hesitações, de desconfianças, de questões pessoais, De Michelis apresenta o problema com bastante realismo. No
etc. entanto, o que é o êxodo rural? Há duzentos anos fala-se dele,
Quando isto ocorre significa que: 1) há crise de comando; e a questão jamais foi colocada em têrmos econômicos precisos.
2) a organização, o bloco social do grupo em causa ainda não De Michelis também ignora dois elementos fundamentais
teve tempo de se consolidar, criando a harmonia recíproca, a da questão: 1) uma das razões das recriminações pelo êxodo
lealdade recíproca; 3) mas há um terceiro elemento; a incapaci rural são os interesses dos proprietários, que vêem elevarem-se
dade do "dirigido" de cumprir a sua missão, que no fim de os salários em virtude da concorrência das indústrias urbanas
contas significa a incapacidade do "dirigente" de escolher, con e a vida tornar-se mais "legal", menos exposta aos arbítrios^ e
trolar e dirigir o seu pessoal. abusos que constituem a trama quotidiana da vida rural; 2) não
Exemplos práticos: um embaixador pode enganar o seu assinala, em relação à Itália, a emigração dos camponeses, que
governo: 1) porque quer enganá-lo por interesse pessoal; caso é a forma internacional do êxodo rural para países industriais
de deslealdade por traição de caráter nacional ou estatal: o e, ao mesmo tempo, uma crítica real do regime agrárm italiano
embaixador é ou passa a ser agente de um governo que não é na medida em que o camponês sair para ser camponês em ou
aquele que representa; 2) porque quer enganá-lo, sendo adver tro país, melhorando o seu nível de vida. Ê justa a observação
sário da política do governo e favorável à política de outro de De Michelis de que a agricultura não sofreu com o êxodo:
partido governamental do seu país; portanto, porque deseja que 1) porque a produção não diminuiu; ao contrário, há super
o seu país seja governado por um determinado partido: caso produção, como demonstra a crise dos preços dos produtos
de deslealdade que, em última análise, pode-se tornar tão grave agrícolas (nas crises anteriores, quando elas correspondiam a
quanto o precedente, embora possa ser acompanhado de cir fases de prosperidade industrial, isto era verdadeiro; hoje, po
cunstâncias atenuantes — o caso em que o governo não realize rém, não se pode falar de superprodução, mas de subconsumo).
uma política nacional, e o embaixador tenha provas evidentes. São referidas no artigo estatísticas que demonstram a pro^es-
Seria então deslealdade para com homens transitórios e leal
siva extensão da superfície cultivada com cereais, e mais ainda
dade para com o Estado imanente. Problema terrível, pois esta
da superfície cultivada com produtos para a indústria (cânha-
justificativa serviu a homens moralmente indignos (Fouché, Tal-
mo, algodão, etc.) e o aumento da produção. O problema é
leyrand e, em menor escala, os marechais de Napoleão); 3) examinado de um ponto de vista internacional (para um grupo
porque não sabe que o engana, por incapacidade ou incompe
de vinte e um países), de divisão internacional do trabalho.
tência ou incorreção (desleixo no cargo), etc. Neste caso, a
(Do ponto de vista de cada nação, o problema pode-se^ modifi
car, e nisto consiste a crise atual; ela é uma resistência às novas
responsabilidade do governo deve ser graduada: 1) se tem pos
relações mundiais, ao crescimento da importância do mercad<
sibilidades de escolha adequada, escolheu mal por razões extrín- mundial).
secas ao serviço (nepotismo, corrupção, limitação de despesas O artigo cita algumas fontes bibliográficas: é preciso reve
num setor importante para o qual, em vez dos capazes, são lo. Termina com um erro colossal: segundo De Michelis, "a
162 263
formação das cidades nos tempos remotos apenas representou outra. Na Alemanha, a continuidade ininterrupta (não inter
a lenta e progressiva separação do ofício da atividade agrícola, rompida por invasões estrangeiras permanentes) entre o período
com a qual antes se confundia, passando a desempenhar aquele medieval do Sagrado Império Romano (Primeiro Reich) e o
atividades distintas. O progresso dos decênios vindouros con período moderno (de Frederico, o Grande, a 1914) torna ime
sistirá, graças sobretudo à expansão da eletricidade, em fazer diatamente compreensível o conceito de Terceiro Reich. Na
retomar o ofício ao campo para integrá-lo, sob novas formas Itália, o conceito da "Terceira Itália" do Risorgimento não po
e através de processos aperfeiçoados, ao trabalho propriamente dia ser facilmente compreendido pelo povo, em virtude da não-
agrícola. A-Itália prepara-se mais uma vez para ser precursora continuidade histórica e da não-homogeneidade entre Roma
e mestra nesta obra redentora do artesanato rural". De Miche- antiga e Roma papal (na verdade, não havia homogeneidade
lis faz muitas confusões: 1) a integração da cidade com o cam perfeita, inclusive entre Roma republicana e Roma imperial).
po não pode ocorrer à base do artesanato, mas só à base da Daí o êxito relativo da expressão mazziniana "Itália do povo",
grande indústria racionalizada e estandardizada. A utopia "ar- que tendia a indicar uma renovação completa, em sentido demo
tesenal" baseou-se na indústria têxtil: acreditava-se que com crático, de iniciativa popular, da nova história italiana, em opo
a possibilidade comprovada de distribuir energia elétrica a dis sição ao "primado" giobertiano, que tendia a apresentar o pas
tância, ter-se-ia tornado possível fornecer à família camponesa sado como continuidade ideal possível com o futuro, isto é,
o tear mecânico moderno acionado a eletricidade; mas, hoje, com um determinado programa político apresentado em termos
um só operário aciona (parece) até vinte e quatro teares, o de longo alcance. Mas Mazzini não conseguiu enraizar a sua
que coloca novos problemas de concorrência e de capital ingen fórmula mítica, e os seus sucessores diluíram-na, amesquinha-
te, além de que de organização geral, impossíveis de serem ram-na na retórica livresca. Poderiam constituir um precedeme
resolvidos pela família camponesa; 2) a utilização industrial do para Mazzini as Comunas medievais, que foram uma renovação
tempo em que o camponês permanece desocupado (este é o histórica efetiva e radical; mas elas foram aproveitadas melhor
problema fundamental da agricultura moderna, que coloca o pelos federalistas como Cattaneo.
camponês em condições de inferioridade econômica diante da
cidade, que "pode" trabalhar o ano todo) só pode verificar-se
numa economia planificada, muito desenvolvida, que esteja em Centro. Seria bastante educativo um estudo minucioso dos
condições de ser independente das flutuações temporárias de partidos de centro num sentido amplo. Termo exato, extensão
venda que já se verificam e levam à ruína temporária, inclusive do termo, mudança histórica do termo e da acepção. Por exem
na indústria; 3) a grande concentração da indústria e a pro plo, os jacobinos foram um partido extremista: hoje são tipica
dução em série de peças intercambiáveis permite o desloca mente de centro; assim os católicos (na sua massa); assim
mento de setores de fábricas para o campo, descongestionando também os socialistas, etc. Creio que uma análise da função
a grande cidade e tornando mais higiênica a vida industrial. dos partidos de centro constitua uma parte importante da his
Não é o artesão que voltará ao campo, mas, ao contrário, o tória contemporânea.
operário mais moderno e estandardizado. E não devemos iludir-nos pelas palavras ou pelo passado;
é certo, por exemplo, que os "niilistas" russos devem ser^ con
siderados um partido de centro, e assim até os **anarquistas"
Mitos históricos. Estudo das palavras de ordem como a modernos. O problema é se, por simbiose, um partido de cen
de "Terceiro Reich" das correntes de direita alemãs, destes mi tro não serve a um partido "histórico".
tos históricos que não passam de uma forma concreta e eficaz Partido de centro e partidos "demagógicos" ou burgueses-
de apresentar o mito da "missão histórica" de um povo. demagógicos. O estudo da política alemã e francesa no inverno
A questão a estudar é exatamente esta: porque uma fórmu de 1932-33 fornece uma massa material para esta pesquisa;
la dessa natureza é "concreta e eficaz" ou mais eficaz do que assim a contraposição da política externa à política interna (é
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sempre a política interna que dita as decisões de um país de num Estado (integral, e não num governo tecnicamente com
terminado, mas é claro que a iniciativa, devido a razões inter preendido) e numa concepção do mundo. A transformação do
nas de um país, torna-se "externa" para o país que a suporta). partido em Estado reage sobre o partido, exigindo dele um
aperfeiçoamento e uma reorganização contínuos, assim como a
transformação do partido e do Estado em concepção do mundo,
A força dos partidos agrários. Um dos fenômenos carac em transformação total e molecular (individual) dos modos de
terísticos da época moderna é este: — nos Parlamentos, ou pensar e de atuar, reage sobre o Estado e sobre o partido, obri-
pelo menos numa série deles, os partidos agrários têm uma gando-os a reorganizar-se continuamente e colocando-os diante
força relativa que não corresponde à sua função histórica, social de problemas novos e originais para serem resolvidos. É evi
e econômica. Isto se deve ao fato de que no campo estruturou- dente que tal concepção é dificultada no desenvolvimento prá
se um bloco de todos os elementos da produção agrária, bloco tico pelo fanatismo cego e unilateral de "partido" (neste caso
muitas vezes dirigido pela parte mais retrógrada desses elemen de seita, de fração de um partido mais amplo, em cujo interior
tos, enquanto que nas cidades e entre as populações de tipo se luta), pela ausência tanto de uma concepção estatal como de
urbano, há já algumas gerações, os blocos dessa natureza se uma concepção do mundo capazes de se desenvolverem na me
dissolveram, se é que alguma vez tenham existido (pois não dida em que são historicamente necessárias.
podiam existir enquanto não se ampliasse o sufrágio eleitoral). ^ A vida política atual fornece um amplo testemunho destas
Assim, sucede que em países eminentemente industriais, em angústias e^ estreitezas mentais, que, por outro lado, provocam
virtude da desagregação dos partidos médios, os agrários man lutas dramáticas, pois elas próprias são o modo através do qual
têm o predomínio "parlamentar" e impõem diretrizes políticas o desenvolvimento histórico verifica-se na prática. Mas o pas
"anti-históricas". É preciso determinar as causas de tal situa sado italiano cm particular, a partir de Maquiavel, não é menos
ção, e se os responsáveis não são os partidos urbanos com o rico de experiência; pois toda a História é testemunha do
seu corporativismo ou economismo mesquinho. presente.

Religião, Estado, partido. Em Mein Kampf, Hitier escreve: Classe média. O significado da expressão "classe média"
"A fundação ou a destruição de uma religião é gesto incalcula- muda de um país para outro (como muda o significado de
velmente mais relevante que a fundação ou a destruição de um povo" e de "vulgo", em relação à jactância de certas camadas
Estado: não digo de um partido..." Superficial e acrítico. Os sociais) e por isso dá lugar muitas vezes a equívocos bastante
três elementos: religião (ou concepção do mundo "ativa"), curiosos (recordar como o Prefeito Frola, de Turim, assinou
Estado, partido são indissolúveis, e no processo real do desen um manifesto em inglês com o título de Lord Mayor).
volvimento histórico-político passa-se de um para outro necessa O termo tem origem na literatura política inglesa e expri
riamente. me a forma particular do desenvolvimento social inglês. Parece
Observa-se em Maquiavel, nos modos e na linguagem do que na Inglaterra a burguesia jamais foi concebida como uma
seu tempo, a compreensão dessa homogeneidade necessária e parte integrante do povo, mas sempre como uma, entidade dêle
da interferência dos três elementos. Perder a alma para salvai separada: além do mais, sucedeu que na história inglêsa não
a pátria ou o Estado é um elemento de laicismo absoluto, de foi a burguesia a guiar o povo e a solicitar o seu auxílio para
concepção do mundo positiva e negativa (contra a religião ou destruir os privilégios feudais, mas a nobreza (ou uma fração
concepção dominante). No mundo moderno, um partido é tal dela) que formou o bloco nacional-popular contra a Coroa
— integralmente e não, como sucede, fração de um partido antes e, depois, contra a burguesia industrial. Tradição inglesa
maior — quando é concebido, organizado e dirigido através de um "torismo" popular (Disraeli, etc.). Após as grandes
de modos e formas capazes de se desenvolverem integralmente reformas liberais, que adequaram o Estado aos interesses e às
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necessidades da classe média, os dois partidos fundamentais da dos indivíduos. Por isso, pode-se dizer que nestas multidões o
vida política inglesa dividiram-se em tomo de questões internas individualismo não só não é superado, mas é exasperado pela
relacionadas com a mesma classe; a nobreza adquiriu cada vez certeza da impunidade e da irresponsabilidadê.
mais um caráter particular de "aristocracia burguesa" ligada a
determinadas funções da sociedade civil e da sociedade política Mas também é observação comum o fato de que uma
(Estado) relacionadas com a tradição, a educação da camada assembléia "bém organizada" de elementos desordeiros e indis
dirigente, a conservação de uma determinada mentalidade que ciplinados une-se em tomo de decisões coletivas superiores à
garante contra bruscas transformações, etc, a consolidação da media individual: a quantidade transforma-se em qualidade. Se
estrutura imperial, etc. tião fosse assim, não seria possível o exército, por exemplo;
Na França, o termo "classe média" dá margem a equí não sèiiam possíveis os sacrifícios inauditos que grupos huma
vocos, não obstante tenha a aristocracia, de fato, conservado nos bem disciplinados fazem em determinadas ocasiões, quando
grande importância como casta fechada: o termo é adotado o seu senso de responsabilidade social é despertado vigorosa
tanto no sentido inglês, como no sentido italiano de pequena e mente pelo sendo imediato do perigo comum, e o futuro se
média burguesia. delineia mais importante que o presente.
Na Itália, onde a aristocracia feudal foi destruída pelas Pode-se exemplificar com um comício numa praça públi
Comunas (fisicamente destruída nas guerras civis, exceto na ca que é diferente de um comício em recinto fechado e é dife
Itália meridional e na Sicília), em virtude de não existir a rente de um comício sindical de categoria profissional, e as
classe "alta" tradicional, o termo "média" baixou um degrau. sim por diante. Uma reunião de oficiais de Bstado-Maior será
Classe média significa negativamente não-povo, isto é, "não- bastante diferente de uma assembléia de soldados de um pelo
operários e não-camponeses"; significa, positivamente, as ca tão, etc.
madas intelectuais, os profissionais, os empregados.
Deve-se notar como o termo "senhor" está difundido na Tendência ao conformismo no mundo contemporâneo, mais
Itália, há muito tempo, para indicar também os não-nobres; o estendida e profunda do que no passado: a estandardização
don meridional, galantuomini, "civis" "burgueses", etc.; na úo roodo de pensar e de atuar assume dimensões nacionais ou
Sardenha, o "senhor" jamais é o proprietário rural, mesmo rico, definitivamente continentais.
etc. A base econômica do homem-coletivo: grandes fábricas,
taylorização, racionalização, etc. Mas, existia ou não no passa
do o homem-coletivo? Existia sob a forma da direção carismá
O homem indivíduo e o homem massa. O provérbio lati tica, para dizê-lo como Michels: isto é, obtinha-se uma vonta
no Senatores boni viri senatus mala bestia virou lugar-comum. de coletiva sob o impulso e a sugestão imediata de um "herói",
O que significa este provérbio e que significado adquiriu? Que de um homem representativo; mas esta vontade coletiva era
uma multidão de pessoas dominadas pelos interesses imediatos, devida a fatores extrínsecos, compondo-se e descompondo-sé
ou tomadas de uma paixão suscitada pelas impressões momen contmuamente. O homem coletivo atual, ao contrário, forma-se
tâneas, transmitidas acríticamente de boca em boca, unifica-se essencialmente de baixo para cima, à base da posição ocupada
na decisão coletiva pior, que corresponde aos mais baixos instin pela coletividade no mundo da produção: também hoje o ho
tos bestiais. A observação é justa e realista, na medida em que se mem representativo tem uma função na formação do homem-
refere às multidões ocasionais, reunidas como "uma multidão coletivo, mas muito inferior àquela do passado, tanto que ele
durante um aguaceiro sob um telheiro", compostas de homens pode desaparecer sem que o alicerce coletivo se desfaça e a
que não estão ligados por vínculos de responsabilidade em rela construção caia.
ção aos outros homens ou grupos de homens, ou em relação a Diz-se que "os cientistas ocidentais consideram que a psi
uma realidade econômica concreta, cuja destruição leve à perda que da massa não ^passa do ressurgimento dos antigos instintos
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da horda primitiva e, portanto, de um recuo a estágios cultu "psicologia"? É uma pudica fôlha de figo para indicar a "po
rais superados há longo tempo"; isto se refere à chamada "psi lítica", uma determinada situação política.
cologia das multidões", isto é, das multidões casuais, e a afir Desde que comumente por "política" se entende a ação
mação é pseudocientífica, está hgada à sociologia positivista. das frações parlamentares, dos partidos, dos jornais e, em ge
Deve-se notar, a respeito do "conformismo" social, que ral, toda ação que se explica segundo uma diretiva evidente e
a questão não é nova e que o brado de alarma lançado por predeterminada, dá-se o nome de "psicologia" aos fenômenos
alguns intelectuais é cômico. O conformismo sempre existiu: elementares de massa, não predeterminados, não organizados,
trata-se hoje de luta entre "dois conformismos", de uma luta não dirigidos efetivamente, os quais assinalam uma divisão da
pela hegemonia, de uma crise da sociedade civil. Os velhos di unidade social entre governados e governantes. Através destas
rigentes intelectuais e morais da sociedade sentem que o terre "pressões psicológicas" os governados exprimem a sua descon
no desaparece sob os seus pés, percebem que as suas "prega fiança nos dirigentes e exigem que sejam modificadas as pes
ções" tornaram-se de fato "pregações", isto é, coisas estranhas soas e as diretivas da atividade financeira, e, portanto, eco
à reahdade, pura forma sem conteúdo, larva sem espírito; por nômica. Os capitalizadores não investem poupanças e desin-
tanto, o seu desespero e as suas tendências reacionárias e con vestem em determinadas atividades que se mostram particular
servadoras. Porque a forma particular de civihzação, de cul mente arriscadas, etc.: contentam-se com interesses mínimos
tura, de moralidade que eles representaram se decompõe, eles e até com interesse zero; algumas vezes preferem até perder
sentenciam a morte de toda civilização, de toda cultura, de uma parte do capital para garantir o resto.
toda moralidade, exigem medidas repressivas do Estado e se Será suficiente a "educação" para evitar estas crises de
constituem em grupo de resistência separado do processo his desconfiança geral? Elas são sintomáticas exatamente porque
tórico real, aumentando, dessa forma, a duranção da crise, já "gerais", e contra a "genericidade" é difícil educar uma nova
que o ocaso de um modo de viver e de pensar não pode se confiança. A sucessão freqüente de tais crises psicoló^cas in
verificar sem crise. Os representantes da nova ordem em ges dica que um organismo está doente, isto é, que o contexto so
tação, por outro lado, por ódio "racionalista" à velha, difun cial não está mais em condições de fornecer dirigentes capazes.
dem utopias e planos mirabolantes. Qual o ponto de referên Trata-se, portanto, de crises políticas, ou melhor, de crises po
cia para o novo mundo em gestação? O mundo da produção, o lítico-sociais do grupo dirigente.
trabalho. O máximo utilitarismo deve ser a base de qualquer
análise das instituições morais e intelectuais a serem criadas e
dos princípios a serem difundidos: a vida coletiva e individual História política e história militar. Na revista Marzocco de
deve ser organizada tendo em vista o máximo rendimento do 10 de março de 1929 está resumido um artigo de Ezio Levi,
aparelho produtivo. O desenvolvimento das forças econômicas da Glossa perenne, sobre os almógavares interessante sob dois
sobre novas bases e a instauração progressiva da nova estru aspectos. De um lado, os almógavares — tropas ligeiras cata-
tura sanarão as contradições que não podem deixar de existir lãs, adestradas nas ásperas lutas da "reconquista" em combater
e que tendo criado um novo "conformismo a partir da base, contra os árabes à maneira dos árabes, em ordem dispersa, sem
permitirão novas possibilidades de autodisciplina, inclusive de disciplina de guerra, mas com ímpetos, armadilhas, aventuras
liberdade individual. individuais — assinalam a introdução na Europa de uma nova
tática, que pode ser comparada à tática dos arditi, embora em
condições diversas. Por outro lado, eles, segundo alguns eru
Psicologia e política,. Especialmente nos períodos de crise ditos, assinalam o início das companhias de fortuna. Um grupo
financeira, ouve-se muito falar de "psicologia" como de cau •de almógavares foi enviado à Sicília pelos aragoneses para par
sa eficiente de determinados fenômenos marginais. Psicologia ticipar da guerra das Vésperas: terminada a guerra, uma parte
(desconfiança), pânico, etc. Mas, neste caso, o que significa dos almógavares transfere-se para o Oriente, a serviço do ba~

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:á.
sileus do Império bizantino, Andrônico, A outra parte foi ar quela transformação da arte política que levou à passagem, in
rolada por Roberto d'Angiò para a guerra contra os gibelinos clusive em política, da guerra de movimento à guerra de posi
toscanos. Segundo Gino Masi, porque os almógavares vestiam ção e de assédio.
capotes negros e os florentinos, em desfile a pé ou, em "caval
gada", vestiam malhas brancas com a cruz ou o lírio, desse fa
to teria nascido a denominação de Brancos e Negros. Na reali Uma máxima do Marechal Caviglia: "A experiência de
dade, o certo é que, quando os angiolinos deixaram Florença, mecânica aplicada, de que a fòrça se exaure afastando-se do
muitos almógavares permaneceram a serviço da Comuna, re centro de produção, é encontrada de modo dominante na arte
novando anualmente o seu "contrato". da guerra. O ataque se esgota avançando; por isso a vitória
deve ser procurada, na maior medida possível, nas proximida
des do ponto de partida."^ Clausewitz tem uma máxima se
A "companhia de fortuna" nasce, assim, como um meio melhante. Mas o próprio Caviglia observa que as tropas de
para determinar um desequilíbrio da relação das forças polí ruptura devem ser ajudadas por tropas de manobra: as tro
ticas a favor da parte mais rica da burguesia, em prejuízo dos pas de ruptura tendem a se deter depois de obtida a "vitória"
gibelinos e do povo nóiúdo. imediata, o rompimento da frente adversária. Uma ação estra
tégica com objetivos não territoriais, mas decisivos e orgâni
cos, pode ser desenvolvida em dois momentos: com a ruptura
Sóbre o desenvolvimento da técnica militar. O traço mais da frente adversária e com uma manobra sucessiva, operações
característico e significativo do estádio atual da técnica mili assinaladas a tropas diferentes.
tar, e, portanto, também da orientação das pesquisas científicas Esta máxima, aplicada à arte política, deve ser adaptada
ligadas ao desenvolvimento da técnica militar (ou que ten às diversas condições; mas permanece o fato de que entre o
dem a èste fim), parece que pode ser localizado no seguinte: ponto de partida e o objetivo é necessária uma graduação or
a técnica militar, em alguns dos seus aspectos, tende a tomar- gânica, isto é, uma série de objetivos parciais.
se independente do complexo da técnica geral e a se transfor Sentenças tradicionais que correspondem ao senso comum
mar numa atividade separada, autônoma. das massas de homens: "Os generais — diz Xenofonte — de
Até à guerra mundial, a técnica militar era uma simples vem superar os outros não na suntuosidade da mesa e nos pra
aplicação especializada da técnica geral e, portanto, a potência zeres, mas na capacidade e no esforço." "Dificilmente pode-se
militar de um Estado ou de um grupo de Estados (aliados pa induzir soldados a sofrer a penúria e as dificuldades que de
ra integrarem-se alternadamente) podia ser calculada com exa rivam da ignorância ou da culpa do seu comandante; mas quan
tidão quase matemática à base da potência econômica (indus do são acarretadas pela necessidade, cada um está pronto a
trial, agrícola, financeira, técnico-cultural). A partir da guer suportá-las." "Jogar com o próprio perigo é valor, com o de
ra mundial, este cálculo não é mais possível, pelo menos com outros é arrogância." (Pietro CoUeta)
exatidão igual ou aproximação, e isto constitui a mais formi Diferença entre audácia ou intrepidez e coragem: a pri
dável incógnita da atual situação pohtico-militar. Como ponto meira é instintiva e impulsiva; a coragem, ao contrário, se con
de referência, basta acenar para alguns elementos: o subma quista com a educação e através dos costumes. Para perma
rino, o avião de bombardeio, os gases e os elementos quími necer durante longo tempo na trincheira é preciso "coragem",
cos e bacteriológicos aplicados à guerra. Colocando a questão perseverança na intrepidez, que pode ser dada ou pelo terror
nos seus limites mais extremos, por absurdo, pode-se dizer que (certeza de morrer se não se permanece nela) ou pela convic
Andorra pode produzir meios bélicos, gases e bactérias, capa ção de estar fazendo algo necessário (coragem).
zes de exterminar toda a França. Esta situação da técnica mi
litar é um dos elementos mais "silenciosamente" atuantes da- Le ire battaglie dei Piave, pág. 244.

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"Contradições" do historicismo e suas expressões literá ve conhecê-las e compreendê-las, mesmo que com "grande sim
rias {ironia, sarcasmo). Ver as publicações de Adriano Tilgher patia" (e então a paixão assume uma forma superior, que é
contra o historicismo. Foram extraídos de um artigo de Bona- preciso analisar, no sentido das observações de Burzio).
ventura Tecchi (// demiurgo di Burzio, "Italia Letteraria", 20 Pelo escrito de Tecchi, parece que Burzio freqüentemen
de outubro de 1929) alguns pensamentos de Filippo Burzio te acena com o elemento da "ironia" como característica (ou
que parecem revelar certa profundidade (se se abstrai a lingua uma das características) da posição referida e condensada na
gem forçada e as construções de tendência paradoxal-literária) afirmação 'estar acima das paixões e dos sentimentos, mesmo
no estudo das contradições "psicológicas", que nascem no ter provando-os". Parece evidente que o comportamento "irônico"
reno do historicismo idealista, mas também no terreno do his não pode ser aquele do chefe político ou militar em relação às
toricismo integral. paixões e sentimentos dos seguidores e comandados. "Ironia"
Eis uma afirmação que deve levar a reflexões: "estar aci pode ser justa referindo-se à atitude de intelectuais isolada
ma das paixões e dos sentimentos, mesmo provando-os." Ela mente, individualmente, isto é, sem responsabilidade imediata,
pode ser rica de conseqüências. Efetivamente, o nó das ques mesmo na construção de um mundo cultural, ou para indicar a
tões que surgem a propósito do historicismo, e que Tilgher não separação do artista do- conteúdo sentimental da sua criação
consegue desvendar, está exatamente na constatação de que (que pode "sentir", mas não "compartilhar", ou pode com
"é possível ser críticos e homens de ação ao mesmo tempo, de partilhar, mas de forma intelectualmente mais refinada); po
modo que não só um aspecto não enfraqueça o outro, mas, ao rém, no caso da ação histórica, o elemento "ironia" seria ape
contrário, o confirme". Tilgher, muito superficialmente e me nas^ literário ou intelectualista e indicaria uma forma de sepa
canicamente, separa os dois limites da personaüdade humana ração mais ligada ao ceticismo mais ou menos amadorista de
(dado que não existe e jamais existiu o homem integralmente vido à desilusão, ao cansaço, à "superioridade".
crítico e integralmente passional), mas o que se deve fazei Ao contrário, no caso da ação histórico-política, o ele
é procurar determinar como, em diversos períodos históricos, mento estilístico adequado, a atitude característica da sepa-
os dois limites se combinam, seja nos indivíduos, seja nos es ração-compreensão, é o "sarcasmo" e, numa forma determina
tratos sociais (aspecto da questão da função social dos inte da, o sarcasmo apaixonado". A expressão mais alta, ética e
lectuais), fazendo prevalecer (aparentemente) um ou outro esteticamente, do sarcasmo apaixonado é encontrada nos fun
aspecto (fala-se de épocas de crítica, de épocas de ação, dadores da^ filosofia da praxis. Outras formas. Diante das cren
etc.). Parece que nem mesmo Croce analisou a fundo o ças e ilusões populares (crença na justiça, na igualdade, na
problema nos escritos em que pretende determinar o con fraternidade, isto é, nos elementos ideológicos difundidos pelas
ceito "política-paixão": se o ato concreto político, como tendências democráticas herdadas da Revolução Francesa), ma
diz Croce, manifesta-se na pessoa do chefe político, de nifesta-se um sarcasmo apaixonadamente "positivo", criador,
ve-se observar que a característica do chefe como tal não é progressista. Ê claro que não se pretende burlar o sentimento
certamente a passionalidade, mas o cálculo frio, preciso, obje mais íntimo daquelas ilusões e crenças, mas da sua forma ime
tivamente quase impessoal, das forças em luta e das suas re diata, ligada a um determinado mundo "morredouro", o fedor
de cadáver que penetra através da máscara humanitária dos
lações (isto é ainda mais válido se se trata de política na profissionais dos "princípios imortais". Porque existe também
sua forma mais decisiva e determinante, a guerra ou qualquer um sarcasmo de "direita", que raramente é apaixonado, mas
outra forma de luta armada). O chefe suscita e dirige as pai é sempre "negativo", cético e destruidor não só da "forma"
xões, mas ele próprio é "imune" a elas ou domina-as para nie- contingente, mas do conteúdo "humano" daqueles sentimentos
Ihor desencadeá-las, detê-las no momento determinado, dis e crenças. (A propósito do atributo "humano", pode-se ver em
cipliná-las, etc.; deve mais conhecê-las, como elemento obje alguns livros, mas especialmente na Sagr^ada Família, qual é o
tivo de fato, como força, do que "senti-las" imediatamente, de- significado que se deve dar a ele). Procura-se dar ao núcleo
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vivo das aspirações contidas naquelas crenças uma nova for tcrialismo^ Sforico, que falam da "feiticeira Alcina", c algumas
ma (portanto, inovar, determinar mais precisamente aquelas observações sobre o estilo de Loria. Da mesma forma deve-se
aspirações), não destruí-las. O sarcasmo de direita, ao contrá examinar o ensaio de Mehring sObre a "alegoria" no texto
rio, procura destruir exatamente o contetído das aspirações alemão\ etc.
(não, é claro, nas massas populares, pois assim se destruiria
também o cristianismo popular, mas nos intelectuais), e por
isso o ataque à "forma" não passa de um expediente "didático". Fetichismo. Como é possível descrever o fetichismo. Um
Como sucede sempre, as primeiras manifestações origi organismo coletivo é constituído de indivíduos singulares, os
nais do sarcasmo tiveram imitadores e papagaios; o estilo tor quais formam o organismo na medida em que se entregam e
nou-se uma "estilística", uma espécie de mecanismo, uma ci aceitam ativamente uma hierarquia e uma direção determi
fra, um jargão que poderia dar lugar a observações picantes nadas. Se cada um dos membros individuais pensa o organis
(por exemplo, quando a palavra "civilização" é sempre acom mo coletivo como uma entidade estranha a si mesmo, é evi
panhada do adjetivo "pretendida", é lícito pensar que se acre dente que este organismo não existe mais de fato, transforma-
dita na existência de uma "civilização" exemplar abstrata, ou, se num fantasma do intelecto, num fetiche. É preciso ver se
pelo menos, que nos comportamos como se acreditássemos nis este modo de pensp muito difundido não é um resíduo da
so; isto é, da mentalidade crítica e historicista passamos à men transcendência católica e dos velhos regimes paternalistas. Ele
talidade utópica). Na sua forma original, o sarcasmo deve ser e comum a uma série de organismos, ao Estado, à Nação, aos
considerado como uma expressão que acentua as contradições partidos políticos, etc. Ê natural que se manifeste na Igreja,
de um período de transição; procura-se manter o contato com pois, pelo menos na Italia, a atividade secular do Centro Va
as expressões subalternas humanas das velhas concepções e ao ticano. para esmagar os mínimos traços de democracia interna
mesmo tempo acentua-se a separação daquelas dominantes e e de intervenção dos fiéis na atividade religiosa foi plenamen
dirigentes, à espera de que as novas concepções, com a solidez te vitc^iosa, tornando-se uma segunda natureza do fiel, embo
adquirida através do desenvolvimento histórico, avancem até
adquirir a fòrça das "crenças populares". Estas novas concep ra tenha determinado aquela forma especial de catolicismo que
ções já estão solidamente arraigadas em quem adota o sarcas e própria do povo italiano.
mo, mas devem ser exprimidas e divulgadas em nível "polê que espanta, e é característico, é que o fetichismo dcs-
mico", de outro modo seriam uma "utopia" porque pareceriam ta especie reproduz-se em organismos "voluntários", de tipo
"arbítrio" individual ou de conventículo: aliás, em virtude da nao publico ou estatal, como os partidos e os sindicatos.
sua própria naureza, o "historicismo" não pode conceber a Somos levados a imaginar as relações entre o indivíduo e o
si mesmo como exprimível de forma apodítica ou predicató- organismo como um dualismo e a pensar numa atitude crítica
ria, e deve criar um gosto estilístico novo, até uma linguagem exterior do indivíduo ao organimo (se a atitude não é de uma
nova como meios de luta intelectual. O "sarcasmo" (como, no admiração entusiástica acrítica). Nos dois casos uma relação
pdano literário restrito da educação de pequenos grupos, a fetichista^ O indivíduo espera que o organismo realize, embo
"ironia") surge, portanto, como a componente literária de uma ra ele não atue e não compreenda que por ser a sua atitude
série de exigências teóricas e práticas que superficialmente po muita difusa o organismo é necessariamente inoperante. Além
dem aparecer como insanávelmente contraditórias: o seu ele do mais, deve-se reconhecer que, sendo muito difusa uma con
mento essencial é a "passionalidade" que se torna critério da cepção determinista e mecânica da História (concepção que
potência estilística individual (da sinceridade, da convicção pro
funda em oposição à papagaíce e ao mecanicismo). 1 F^nz Mehring, Karl Marx ais Denker Mensch und Revolutionãr.
Ê preciso examinar, deste ponto de vista, as últimas ano fcjin Sammelbuch herausgegeben von D. Rjazanov, Viena, 1928. (N.
tações de Croce no prefácio de 1917 ao volume sobre o Ma- B L.)

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lismo; há um maquiavelismo que é de Maquiavel e um ma
é do senso comum e está ligada à passividade das grandes quiavelismo que algumas vezes é dos seus discípulos, e, m^
massas populares), cada indivíduo, vendo que, não obstante a freqüentemente, dos inimigos de Maquiavel; já existem dois,
sua não-intervenção, ainda sucede alguma coisa, c levado a
pensar que acima dos indivíduos existe uma entidade fantásti ou melhor, três maquiavelismos: o de Maquiavel, o dos ma-
ca, a abstração do organismo coletivo, uma espécie de divin
quiavelistas e o dos antimaquiavelistas; mas, eis um quarto: o
dade autônoma que não pensa com nenhuma cabeça concreta, daqueles que jamais leram uma linha de Maquiavel e mesmo
mas todavia pensa, que não caminha com determinadas per assim utilizam despropositadamente os verbos (!), os substanti
nas de homem, mas mesmo assim caminha, etc. vos e os adjetivos derivados do seu nome. Por isso Maquiavel
Pode parecer que algumas ideologias, como a ideologia não deveria ser considerado responsável por aquilo que o pri
do idealismo atual (de Ugo Spirito), com as quais se identi meiro e o último que vieram depois dele se preocuparam em
fica o indivíduo e o Estado, deveriam reeducar as consciên fazê-lo dizer". Um pouco biruta, é o Sr. Charles Benoist.
cias individuais; mas não parece que isto ocorra de fato, pois
esta identificação é meramente verbal e verbalista. Pode-se di
zer o mesmo de tòda forma do chamado "centralismo orgâni
co", o qual baseia-se no pressuposto, que é verdadeiro cm mo
mentos excepcionais, do acaloramento das paixões populares,
que a relação entre governantes e governados é determinada
pelo fato de que os governantes defendem os interesses dos
governados e, portanto, "devem" ter o seu consentimento, is
to é, deve-se verificar a identificação do individual com o to
tal, sendo o total (qualquer que seja o organismo) representa
do pelos dirigentes. Deve-se pensar que, em casos como o
da Igreja católica, tal conceito não só é útil,_ mas necessário e
indispensável: qualquer forma de intervençã^o da base desa
gregaria efetivamente a Igreja (é o que se vê nas igrejas pro
testantes); mas no caso de outros organismos é questão de
vida, não o consentimento passivo e indireto, nias o consen
timento ativo e direto, a participação dos indivíduos, mesmo
que isto provoque uma aparência de desorganização e de tu
multo. Uma consciência coletiva, um organismo vivo, só se
forma depois que a multiplicidade unificou-se através do atri
to dos indivíduos; não se pode dizer que o "silêncio" não é
multiplicidade. Uma orquestra que ensaia, cada instrumento
por sua conta, dá a impressão da mais horrível cacofonia; po
rém estes ensaios são a condição para que a orquestra viva co
mo um "instrumento" só.

Maquiavelismo e antimaquiavelismo. Charles Benoist es


creve no prefácio a Le machiavélisme — 7.^ partie: Avant Ma-
chiavel (Paris, Plon, 1907): "Há maquiavelismo e maquiave-
179
278

jg
5

Miscelânea

Direito natural. Uma das tolices dos teóricos de origem na


cionalista (exemplo, M. Maraviglia) é a de contrapor a História
ao direito natural. Mas qual o significado de tal contraposição?
Nada, ou só a confusão na cabeça do escritor. O "direito natu
ral" é um elemento da História; indica um "senso comum político"
e "social" e como tal é um fermento de operosidade. A questão
poderia ser esta: que um teórico explique os fatos através do "di
reito natural"; mas este é um problema de caráter individual, de
crítica a obras individuais, etc., que no fundo não passa de crí
tica ao "moralismo" como cânone de interpretação histórica. Coisa
velha. Mas, na realidade, sob este despropósito esconde-se um in-
terêsse concreto: o de pretender substituir um "direito natural"

181
por outro. E, de fato, não se baseia toda a história nacionalista "universais" de prudência política contidas nos escritos de Ma
em "direitos naturais"? Pretende-se substituir o modo de pensai quiavel e organizá-las com um comentário oportuno (talvez já
"popular" por um modo de pensar não popular, tão desprovido de exista uma coletânea dessa natureza).
crítica quanto o primeiro. Schopenhauer compara a lição de ciência política de Maquia
vel à lição do mestre de esgrima que ensina a arte de matar (mas
também de nao se deixar matar), mas nem por isso ensina a se
Eleições. Num jornal polonês (a Gazeta Pohka dos últimos tornar sicário e assassino.
dias de janeiro ou dos primeiros dias de fevereiro de 1933) apa Bacon chamou de "Rei Magos" os três reis que atuam mais
rece o seguinte enunciado: "Conquista-se o poder sempre com um
grande plebiscito. Vota-se ou com as cédulas eleitorais ou com
energicamente para a fundação das monarquias absolutas: Luís
os fuzis. O primeiro método é quantitativo, o segundo qualitati
XI da França, Ferdinando, o Católico, da Espanha, Henrique VII
vo. No primeiro, é necessário contar com a maioria dos peque da Inglaterra. Filipe de Commynes (1447-1511), a serviço dé
nos; no segundo, com a minoria dos grandes caracteres."
Carlos, o Temerário, até 1472; em 1472 passa ao serviço de Luís
Algumas verdades afogadas em vasos de despropósitos. Por XI e é o instrumento da política desse rei. Escreve Chronique de
que o "fuzil" deve coincidir sempre com o grande caráter? Por Louis XI, publicada pela primeira vez em 1524. (Uma merca-
que quem dispara deve sempre ser um grande caráter? Freqüen doi-a de Tours que moveu uma causa contra de Commynes quan
temente estes grandes caracteres são mobilizados a poucas liras do êste caiu em desgraça, sustentando ter sido explorada num
por dia, isto é, geralmente o "fuzil" é mais econômico que a elei contrato estipulado durante o reinado de Luís XI, escreveu na sua
ção, eis tudo. Depois do sufrágio universal, corromper o eleitor memória jurídica: "le sieur tTArgentou qui pour lors était roy").
tornou-se moda; com vinte liras e um fuzU dispersam-se vinte Estudar as possíveis relações de Maquiavel com de Commynes:
eleitores. A lei da vantagem funciona também para os "grandes como Maquiavel avaliava a atividade e a função de de Commy
caracteres" de que fala a Gazeta Polska. nes sob Luís XV e depois?

Êxito "prático" de Maquiavel. Carlos V estudava-o. Henri O poder indireto. Uma série de manifestações em que a teo-
que IV. Sisto V resumiu-o. Catarina de Médicis, levou-o à Fran ria e a pratica do poder indireto, da esfera da organização ecle
ça e talvez tenha-se inspirado nele para a luta contra os huguenotes siástica e das suas relações com o Estado, são aplicadas a rela
e o massacre da noite de São Bartolomeu. Richelieu, etc. Isto é ções entre partidos, entre grupos intelectuais e econômicos e par
Maquiavel serviu realmente aos Estados absolutos na sua forma tidos, etc. Caso clássico aquele da tentativa da Action Française
ção, porque foi a expressão da "filosofia da época", européia e dos seus chefes ateus e incrédulos, que procuraram valer-se das
mais do que italiana. massas católicas organizadas pela Ação Católica como massa de
Maquiavel como figura de transição entre o Estado corpo manobra a favor da monarquia.
rativo republicano e o Estado monarquista absoluto. Não sabe
desvincular-se da república, mas compreende que só um monarca
absoluto pode resolver os problemas da época. Seria de exami Hegemonia e democracia. Entre os muitos significados de
nar esta dissenção trágica da personalidade humana maquiavélica democracia, parece-me que o mais realista e concreto é aquêle
(do homem Maquiavel).
que se pode deduzir em conexão com o conceito de "hegemonia".
Partindo da afirmação de Foscolo, em Sepolcri, de que Ma
No sistema hegemônico, existe democracia entre o grupo dirigen
te e os grupos dirigidos na medida em que o desenvolvimento da
quiavel, "temperando os cetros aos que reinam — as suas glórias economia, e por conseguinte da legislação, que exprime éste de
desfia, e à gente desvenda — de que lágrimas gotejam e de que senvolvimento, favorece a passagem (molecular) dos grupos di
sangue", poder-se-ia fazer uma coletânea de todas as máximas rigidos ao grupo dirigente. Existia no Império Romano uma de-
182
183
raocracia imperial-territorial na concessão da cidadania aos povos que adere ao seu programa; de outro modo, confunde-se o Es
conquistados, etc. Não podia existir democracia no feudalismo tado com a burocracia estatal. Cada cidadão é "funcionário" se
em virtude da constituição dos grupos fechados, etc. e ativo na vida social na direção traçada pelo Estado-governo e
torna-se muito mais "funcionário" na medida em que mais adere
ao programa estatal e elabora-o inteligentemente.
Algumas causas de erro. Um governo, ou um homem polí
tico, ou um grupo social, aplica uma disposição política ou eco
nômica. Dela se extraem muito facilmente conclusões gerais de Sociedade civil e sociedade política. Distanciamento da so
interpretação da realidade presente e de previsão sobre o desen ciedade civil da sociedade política. Colocou-se um novo proble
volvimento desta realidade. Não se leva muito em conta o fato ma de hegemonia, isto é, a base histórica do Estado se deslocou.
de que a disposição aplicada, a iniciativa promovida, etc., pode Manifesta-se uma forma extrema de sociedade política: ou para
ser devida a um érro de cálculo, e, portanto, pode não represen lutar contra o novo e conservar o que cambaleia, fortalecendo-o
tar nenhuma "atividade histórica concreta". Na vida histórica, coercitivamente, ou como expressão do novo para esmagar as re
como na vida biológica, ao lado dos que nasceram vivos, existem sistências que encontra ao desenvolver-se, etc.
os abortos. História e política estão estreitamente unidas, ou me
lhor, são a mesma coisa; entretanto, devem-se fazer distinções ao
apredarem-se os fatos históricos e os fatos e atos políticos. Na Sorel e os jacobinos. Um juízo de Proudhon sobre os jaco-
História, devido à sua larga perspectiva em relação ao passado binos: "O jacobinismo é 'a aplicação do absolutismo de direito
e devido a que os resultados próprios das iniciativas constituem divino a soberania popular'. — 'O jacobinismo preocupa-se pouco
um documento da vitalidade histórica, cometem-se menos erros com^ o direito; procede satisfeito por meios violentos, execuções
do que na apreciação dos fatos e atos políticos em curso. Por isso, sumárias. A revolução, para ele, são os golpes de canhão, as ra-
o srande político só pode ser "cultíssimo", isto é, deve "conhecer" zias, as requisições, o empréstimo forçado, a depuração, o terror.
o máximo de elementos da vida atual; conhece-los não "livresca- Desconfiado, hostil às idéias, refugia-se na hipocrisia e no maquia-
mente", como "erudição", mas de modo "vivo". como substância velismo: os jacobinos são os jesuítas da Revolução'." Estas defi
concreta de "intuição" políüca (entretanto, para que nele se tor nições são tomadas do livro La justice dans Ia Rêvolution. A
nem substância viva de "intuição", sera necessário aprende-los atitude de Sorel contra os jacobinos baseia-se em Proudhon.
também "livrescamente").

Maquiavel e Manzoni. Algumas referências de Manzoni sò-


Luta de gerações. O fato de que a geração mais veUia não bre Maquiavel podem ser encontradas em Colloqui col Manzoni,
consegue guiar a geração mais jovem e em parte também a ex de N. Tommaseo, publicados pela primeira vez e anotados por
pressão da crise da instituição familiar e da nova situação do ele Terese Lodi, Florença, G. C. Sansoni, 1929. Transcreve o se
mento feminino na sociedade. A educação dos filhos é confiada guinte trecho de um artigo de G. S. Cargano, publicado em
cada vez mais ao Estado ou a iniciativas educacionais privadas, e Marzocco de 3 de fevereiro de 1929 {Manzoni in Tommaseo):
isto determina um empobrecimento "sentimental" no que se refere "Airibui-se também a Manzoni a opinião sòbre Maquiavel, cuja
ao passado, e uma mecanização da vida. O mais grave e que a autoridade encheu de preconceitos as cabeças italianas, e cujas má
geração anciã renuncia à sua missão educativa em determinadas ximas alguns repetiam sem ousar adotá-las, e alguns adotavam
situações, à base de teorias mal compreendidas ou aplicadas em sem ousar dizê-las; 'são os liberais que as dizem, e os reis que as
situações diversas daquelas das quais eram a expressão. Cai-se, praticam'; este comentário talvez seja ao transcritor, que acrescen
inclusive, em formas de estatolatria: na realidade, cada elemento ta que Manzoni tinha pouca fé nas garantias das leis e no poder
social homogêneo é "Estado", representa o Estado na medida era dos Parlamentos e que o seu único desejo era, então, fazer a na-

184 185
ção unida e poderosa mesmo às custas da liberdade, 'apesar de^ a mento tendente a destruir os Estados unitários seja anti-histórico
idéia da liberdade estar em tòdas as cabeças, e todos os corações e reacionário; se a classe dominada não pode alcançar a sua histo-
ansiarem por ela'." torícidade a não ser despedaçando estè invólucro, isto significa
que èle é constituído de "unidades" administrativas-militares-
fiscais, não de "unidades" modernas; pode-se dar que a criação
A "fórmula de Léon Blum: Le pouvoir est tentant. Mais seule de tal unidade moderna imponha a destruição da unidade "formal"
Vopposition est confortable precedente etc. Onde existe mais unidade moderna: na Alema
O pragmatismo americano. Poder-se-ia dizer do pragmatismo nha "federal" ou na Espanha "unitária" de Afonso e dos proprie
americano (James) aquilo que Engels disse do agnosticismo in tários gerais jesuítas, etc.? Esta observação pode-se estender a mui
glês? (Parece-me que no prefácio da edição inglêsa de Passagio tas outras manifestações históricas; por exemplo, ao grau de "cos-
dali'Utopia alia Scienzà). mopolitismo" 'alcançado nos diversos períodos do desenvolvimento
Distinções. No estudo dos diversos "graus" ou "momentos"
cultural internacional. No século XVIII, o cosmopolitismo dos in
das situações militares ou políticas, não se fazem habitualmente telectuais foi "máximo", mas que fração do complexo social ele
as necessárias distinções entre a "causa eficiente", que prepara o comovia? Não se tratava, em grande parte, de uma manifestação
acontecimento histórico ou político de grau ou significado (ou
hegemônica da cultura e dos grandes intelectuais franceses? To
extensão) diversos, e a "causa determinante", que produz ime davia, é certo que cada classe dominante nacional está mais pró
diatamente o acontecimento e é a resultante geral e concreta da
xima das outras classes dominantes, como cultura e costumes, do
causa eficiente, a "precipitação" concreta dos elementos realmen que as classes subalternas entre si, mesmo se estas são "cosmopo
te ativos e necessários da causa eficiente para produzir a deter litas" por programa e destino.histórico. Um grupo social pode ser
minação.
Causa eficiente e causa suficiente, "totalmente' eficiente: ou "cosmopolita" pela sua política e pela sua economia, mas pode não
ser pelos costumes e, inclusive, pela cultural (real).
pelo menos suficiente na direção necessária para produzir o acon
tecimento.
Naturalmente, estas distinções podem ter diversos momentos
ou graus: isto é, deve-se estudar se cada momento é eficiente (su Princípios de método. Antes de julgar (e para a história viva
ficiente) e determinante para a passagem de um desenvolvimento ou política o julgamento é a ação) é preciso conhecer, e para co
nhecer é preciso saber tudo o que é possível saber. Mas o que se
a outro, ou se pode ser destruído pelo antagonista antes de se efatende por "conhecer"? Conhecimento livresco, estatístico, "eru
"produzir".
dição" mecânica — conhecimento histórico — intuição, contato
real com a realidade viva e em movimento, capacidade de "sim
História e "progresso". A História alcançou um determina
patizar" psicologicamente até" com O homem indivíduo. "Limites"
do conhecimento (não coisas inúteis), isto é, conhecimento critico,
do estádio: por isso, parece ser anti-histórico todo movimento que OU" do "necessário": portanto, uma "concepção geral" crítica.
surge em contraste com aquele determinado estádio, na medida
em que "reproduz" um estádio precedente; nestes casos chega-se
a falar de reação, etc. A questão deriva do fato de não se con
ceber a História como história de classes. Uma classe atingiu um
determinado estádio, construiu uma determinada forma de vida
estatal; será a classe dominada, que se insurge, reacionária por
que rompe esta realidade conquistada? Estados unitários, movi
mentos autonomistas; o Estado unitário foi um progresso histó
rico, necessário, mas nem por isso pode-se dizer que todo movi-

186 187
PARTE n
Notas de Política Internacional

O conceito de grande potência. Elementos para calcular a


hierarquia de poder entre os Estados: 1) extensão do território;
2) força econômica; 3) força militar.
O modo através do qual se exprime o ser grande potência é
dado pela possibilidade de imprimir à atividade estatal uma di
reção autônoma, que influa e repercuta sobre outros Estados: a
grande potência é potência hegemônica, chefe e guia de um sis
tema de alianças © de acordos com maior ou menor extensão.
A força militar sintetiza o valor da extensão territorial (cora po
pulação adequada, naturalmente) e do potencial econômico.
Deve-se considerar concretamente no elemento territorial a
posição geográfica. Deve-se distinguir na força econômica a ca
pacidade industrial e agrícola (forças produtivas) da capacidade

191
financeira. Elemento "imponderável" é a posição "ideológica" aquele Estado que — tendo ingressado num sistema de alianças
que um país ocupa no mundo em cada momento determinado, en para uma guerra (e hoje cada guerra pressupõe sistemas de fórças
quanto considerado representante das fórças progressistas da His antagônicas) — no momento da paz consegue consçrvar tal re
tória (exemplo da França durante a Revolução de 1789 e o pe lação de forças com os aliados que lhe permite estar em condi
ríodo napoleônico). ções de assegurar a manutenção dos pactos e as promessas feitas
Estes elementos são calculados na perspectiva de uma guerra. no início da campanha. Mas um Estado que, para entrar em
Dispor de todos os elementos que, nos limites do previsível, dão guerra, necessita de grandes empréstimos, necessita continuamen
segurança de vitória, significa dispor de um potencial de pressão te de armas e munições para os seus soldados, de abastecimentos
diplomática de grande potência, isto é, significa obter uma parte para o exército e a população civil, de navios para os transportes,
dos resultados de uma guerra vitoriosa sem necessidade de com isto é, que não pode guerrear sem a ajuda contínua dos seus alia
bater.
dos e que durante algum tempo, mesmo depois da paz, ainda ne
cessita de ajuda, especialmente de abastecimentos, de empréstimos
ou outras formas de subsídios financeiros, como pode ser igual
Deve-se considerar também na noção de grande potência o
elemento "tranqüilidade interna'?, isto é, o grau e a intensidade aos seus aliados e impor a manutenção dos pactos? Um Estado
da função hegemônica do grupo social dirigente; èste elemento nestas condições só é considerado grande potência nas cartas di
deve ser situado na avaliação da potência de cada Estado, mas plomáticas, pois, na realidade, é considerado como um provável
adquire maior importância na consideração d^ grandes potências. fornecedor de homens para a coalizão que dispõe dos meios não
Vale a pena recordar a história de Roma antiga e das lutas inter só para sustentar as próprias forças militares, mas para financiar
nas que não impediram a sua expansão vitoriosa, etc. Além dos aquelas dos outros aliados.
outros elementos diferenciais, basta considerar este: Roma era a
única grande potência da época e não tinha por que temer a con
corrência de rivais poderosos, depois da destruição de Cartago. "Assim, a política externa italiana, tendo em mira sempre a
Por isso, pode-se dizer que quanto mais forte e o aparelho poli mesma meta, foi sempre retilínea, e as suas pretensas oscilações fo
cial tanto mais fraco é o exército, e quanto mais fraca (isto é, ram, na realidade, determinadas sòmente pelas incertezas e pelas con
relativamente inútil) a pohcia, tanto mais forte e o exercito (dian tribuições alheias, como é inevitável no campo internacional, onde
te da perspectiva de uma luta internacional). infinitos são os elementos em contraste."^ É verdade que são in
Será ainda possível, no mundo moderno, a hegemonia cul finitos Os elementos de equilíbrio de um sistema político interna
tural de uma nação sobre as outras? Ou então o mundo ja está cional, mas exatamente por isto o sistema deve ser estabelecido
de tal modo unificado na sua estrutura econômico-social que um de modo que, não obstante as flutuações externas, a própria linha
país, mesmo podendo ter "cronologicamente a iniciativa ^de uma não oscile. Além do mais, é difícil definir o que se entende nestes
inovação, não pode, porém, conservar o "monopolio político e, casos por oscilação: que não pode ser entendida mecànicamente,
portanto, servir-se dele como base de hegemonia? .Logo, que sig à moda dos farmacêuticos de aldeia, e como mera coerência for
nificado pode ter hoje o nacionalismo? Não sera ele possível ape mal. A linha de um Estado hegemônico (de uma grande potên
nas como "imperialismo" econômico-financeiro, e não mais como cia) não "oscila", pois ele me»no determina a vontade dos outros
"primado" civil ou hegemonia político-intelectual? e não é determinado por ela, porque a linha política baseia-se em
tudo o que há de permanente, e não de casual e imediato e nos
interesses particulares e de outras forças que concorrem de modo
A medida decisiva para estabelecer o que se deve entender decisivo para formar um sistema e um equilíbrio.
por grande potência é dada pela guerra. O conceito de grande
potência está estreitamente ligado às guerras. É grande potência ^ Aldo Valom, Corriere delia Sera, 12 de maio de 1932.

192 193
Segundo o chefe do Governo italiano, "são as marinhas de nota, é a segurança do Chanceler de poder ter do seu lado a so-
guerra que classificam as grandes potências". Deve-se notar que cial-democracia contra o czarismo russo. O Chanceler explorava
as marinhas de guerra podem ser medidas em qualquer momento habilmente a tradição de 1848, etc., do "gendarme da Europa".
pelo sistema matemático absoluto, o que não pode ocorrer em re
lação aos exércitos terrestres. Recordar o epigrama de Anatole
France; "Todos os exércitos são os primeiros do mundo, mas no Examinar a carta ao Conde Vimercati di Cavour (de 4 de
que se refere à Marinha são os navios que contam." janeiro de 1861), publicada por A. Luzio na Nuova Antologia
de 16 de janeiro de 1930 (/ carteggi cavourriani). CavouV, de
pois de expor os seus acordos com a emigação húngara para a
Sobre a origem das guerras. Como é possível dizer que as preparação de uma insurreição na Hungria e nos países eslavos do
guerras entre os Estados podem-se originar na luta interna entre Império austríaco, à qual se seguiria um ataque italiano para a li
os grupos em cada país? É certo que em cada nação deve existir bertação das Venezas, continua: "Depuis lors deux événements
certa (e específica para cada nação) expressão da lei das propor ont profondément modifié Ia situation. Les conférences de Varso-
ções definidas na composição social; os vários grupos devem-se vie et les concessions successives de VEmpereur d'Autriche. ,5í,
manter em determinadas relações de equilíbrio, cuja perturbação comme il est à craindre, VEmpereur de Russie s'est montré disposé
radical poderia levar a uma catástrofe social. Estas relações variam à Varsovie à intervenir en Hongrie dans le cas oii une insurrection
de acordo com a predominância agrícola ou cultural num país e de éclaterait dans ce pays, il est évident qu'un mouvemeite ne pourrait
acordo com os diversos graus de desenvolvimento das forças pro avoir lieii avec chance de succès qiVautant que Ia France serait
dutivas materiais e do nível de vida. O grupo dirigente tenderá disposée à sfopposer par Ia force à Viníervention russe", etc.
a manter o equilíbrio melhor não só para a sua permanência, mas Este artigo de Luzio também é interessante porque refere as
para a sua permanência em condições determinadas de prosperi mutilações sofridas pelos documentos do Risorgimento nas publi
dade e de incremento destas condições. Mas, como a area social cações de história e nas coletâneas de materiais. Luzio já devia
de cada país é limitada, será levado a éstende-la as zonas colo estar no Arquivo de Estado de Turim (ou no Arquivo Real) quan
niais e de influência, entrando em conflito com outros grupos do foi varejada a residência do Prof. Bollea, em virtude da pu-i
dirigentes que aspiram ao mesmo fim, ou em cujo prejuízo a sua blicação das cartas de d'Azeglio, que não importavam questões
expansão deveria necessariamente se verificar, ja que também o diplomáticas; estava-se exatamente em guerra contra a Áustria e
globo terrestre é limitado. Cada grupo dirigente tende em abstra- a Alemanha. Seria interessante saber se na ocasião Luzio protes
to a ampliar a base da sociedade trabalhadora da qual extrai a mais- tou contra o varejamento e os seqüestres, ou se não foi ele a acon
valia, mas a tendência de abstrata torna-se concreta e imediata selhar a medida à polícia de Turim.
quando a extração da mais-valia na sua base histórica ficou difícil
ou perigosa, além de certos limites que, todavia, são insuficientes.
Política e comando itiUitar. Ver na Nuova Antologia,^ de 16
de outubro e 19 de novembro de 1930, o artigo de Savério Na-
A função européia do czarismo no século XIX. O Príncipe salIi-Rocca, La política tedesca delVímpotenza nella guerra mon-
de Bülow narra nas suas Memórias ter-se encontrado com Beth- diale.
mann-Hollweg imediatamente depois da declaração de guerra da À base da experiência alemã (vencer as batalhas, perder a
Alemanha à Rússia, em agosto de 1914. Bethrnann, interrogado guerra), o artigo recolhe material para corroborar a tese segundo
sobre as razões que o levaram a declarar guerra à Rússia, respon a qual, inclusive na guerra, é o comando político que proporciona
deu: "Para ter logo do meu lado os social-democratas. A este a vitória; comando político que deve integrar-se no comando mi
respeito, Bülow faz algumas observações sobre a psicologia de litar, criando um novo tipo de comando próprio no tempo de
Bethmann-Hollweg, mas o que importa, do ponto de vista desta guerra. Nasalli-Rocca serve-se especialmente das memórias e dos

194 195
No que se refere aos documentos ingleses, depois de ter re
outros escritos de Vem Tirpitz. (O título do artigo é, inclusive, o cordado a boa fé do governo inglês, do qual não se tem motivo
título de um livro de Tirpitz traduzido em italiano.) para duvidar, diz que constituem uma prova bastante segura de
Escreve Nasalli-Rocca: "...As relações entre o comando mi autenticidade e de inteireza as numerosas inserções de documen
litar e o governo representam uma dás maiores dificuldades da
tos que, por motivos políticos bastante, plausíveis, tinham sido
guerra. Velho militar, não hesito em reconhecer que as relações
mutilados nos "Livros Azuis" (mas parece que os livros ingleses
■ entre governo e forças armadas correspondem, respectivamente, são brancos!) anteriormente publicados.
às relações existentes entre a estratégia e a tática. Ao governo,
a estratégia da guerra, às forças armadas, a tática; mas como o Na realidade, outros "motivos políticos bastante plausíveis"
tático para alcançar os objetivos fixados tem plena liberdade de podem ter levado à não publicação de outros documentos e à
não publicação integral de alguns: por exemplo, os documentos
manobra nos amplos limites determinados pelo estrategista, da
mesma forma o estrategista não tem a faculdade de invadir o cam
devidos à espionagem serão publicados algum dia? De Bosdari faz
po do tático. O absenteísmo e a intromissão são os dois grandes uma boa observação: nota a escassez, tanto nos documentos in
obstáculos do comando, qualquer que seja o seu nome: e o sen gleses como nos alemães, daqueles documentos relacionados com
tido da medida é aquele que fixa os limites da intromissão." as deliberações de governo, as discussões e as decisões dos conse
A fórmula não me parece muito exata: existe certamente lhos de ministros (que não são "diplomáticos" em sentido técni
uma "estratégia militar" que não compete tecnicamente ao gover co, mas que são evidentemente decisivos). Nota, ao contrário, a
no, porém ela está compreendida numa mais ampla estratégia po grande abundância de telegramas e relatórios de funcionários di
lítica, que enquadra a estratégia militar. A questão pode ser am plomáticos e consulares, cuja importância é relativa, pois estes
pliada: os conflitos entre militares e governantes não são confli funcionários, nos momentos de crise, telegrafam imediatamente
tos entre técnicos e políticos, mas entre políticos e políticos, são (para não serem acusados de negligência e distração) sem terem
os conflitos entre "duas direções políticas" que entram em con tempo de controlar as próprias notícias e as próprjas impressões.
corrência no inicio de cada guerra. As dificuldades do comando Esta observação deriva da experiência pessoal de De Bosdari e
único interaliado durante a guerra não efam de caráter técnico, pode ser uma prova de como trabalham os funcionários diplo
mas político: conflito de hegemonias nacionais. máticos italianos: talvez em relação aos ingleses a coisa seja
diferente.
Documentos diplomáticos. Um artigo de A. De Bosdari na
Nuova Antologia de 1.® de julho de 1927: / documenti ufficiali
britannici sulVorigine delia guerra (1898-1914). Uma política de paz européia, de Argus, Nuova Antologia,
De Bosdari pergunta se os documentos, tanto alemães quan 1.° de junho de 1927. Fala das visitas freqüentes de homens po
to ingleses, estão efetivamente reproduzidos na íntegra e sem omi líticos e literários alemães à Inglaterra. Estes intelectuais alemães,
tir nada que tenha importância real para a compreensão histórica interrogados, declaram que toda vez que conseguem entrar em
dos fatos: No que se refere as publicações alemãs, posso, com contato com influentes personalidades anglo-saxãs, é-lhes formula
minha lembrança pessoal, afirmar que, tendo um dia lamentado da a seguinte questão: "Qual é a atitude da Alemanha diante
junto ao Ministério do Exterior alemao a divulgação de alguns da Rússia?"; e acrescentam com desespero (I): "Mas nós não
documentos e^tupidamente injuriosos à Itália, especialmente os podemos tomar partido nas controvérsias entre Londres e Moscou!"
relatórios do Embaixador Monts, responderam-me que era uma No fundo da concepção britânica de política externa está a
circunstância bastante dolorosa, mas que aqueles documentos não convicção de que o conflito com a Rússia não só é inevitável,
poderiam ser suprimidos sem tirar da publicação o caráter de mas já se iniciou, embora sob formas estranhas e insólitas que o
documentação histórica imparcial." Depois desta sua lembrança tornam invisível aos olhos da grande massa nacional. Artigo ultra-
pessoal. De Bosdari estava pronto a jurar sobre a integridade da -anglófilo (no mesmo período recordo um artigo de Manfredi
documentação alemã. Gravina, no Corriere delia Sera, de uma anglofilia tão escandalo-

196 197
1
sa de modo a causar espanto: ele pregava a subordinação de Velhas perturbações nos novos Bálcãs. Artigo de Frank Si-
clarada da Itália à Inglaterra): os ingleses querem a paz, mas monds na American Review of Reviews. Siraonds traça um para
demonstraram que sabem guerrear. São sentimentais e altruístas, lelo entre Mussolini e Stresemann, como os homens políticos mais
pensam nos interesses europeus; se Chamberlain não rompeu com ativos da Europa. Ambos se sacrificam ao espírito de oportunismo
a Rússia é porque isto poderia prejudicar a outros Estados em (talvez queira dizer "do momento", mas talvez refira-se também
condições menos favoráveis que a Inglaterra, etc. à falta de perspectivas amplas e a longo prazo, de princípios).
A política inglesa de entendimento com a França é a base, Os tratados de Mussolini, assim como os de Stresemann, não re
mas o governo inglês também pode favorecer outros Estados: presentam uma política permanente. São coisas improvisadas, em
a Inglaterra quer ser amiga de todos. Portanto, aproximação da
virtude das condições momentâneas. E já que podem surgir fatos
Itália e da Polônia. Certo número de pessoas na Inglaterra não capazes de apressar o conflito, ambos mostram-se igualmente an
siosos de evitar as hostilidades adquirindo para os respectivos paí
é favorável ao regime italiano. Mas a política inglesa é realmen
ses e para si mesmos, através de vitórias diplomáticas incidentais,
te amiga e será tal, mesmo mudando o regime, inclusive porque o necessário prestígio.
a política italiana é corajosa, etc., etc.

Constituição do império inglês. Artigo de "Junius", na


No que se refere às relações entre o Centro Alemão e o Nuova Antologia de 16 de setembro de 1927. Le prospettive
Vaticano e, por conseguinte, para estudar concretamente a po delVimpero britannico dopo Vultima conferenza imperiale.
lítica tradicional do Vaticano nos vários países e as formas que Procura de equilíbrio entre exigências de autonomia dc^
ela adquire, é interessantíssimo um artigo de André Lavedan na Dominions e exigências de unidade imperial.
Revue Hebdomadaire, transcrito na Revista d'ItaUa de 15 de mar A Inglaterra leva ao Commonwealth o peso político do seu
ço de 1927. Leão XIXI solicitava ao Centro que votasse a favor poderio industrial e financeiro, da sua frota, das suas colônias ou
da lei sobre o setenato de Bismarck, tendo sido assegurado de domínios da Coroa ou estabelecimentos com outro nome (índia,
que isto levaria a uma satisfatória modificação das leis político- Gibraltar, Suez, Malta, Singapura, Hong-Kong, etc.), da sua m-
-eclesiásticas. Franckestein e Windthorst não se conformaram ao periência política, etc. Constituíram elementos de desagregação
convite do Vaticano. Do Centro, só sete votaram a lei: oitenta e no após-guerra: o poderio dos Estados Unidos, também eles
três se abstiveram. anglo-saxões e que exercem uma influência sobre determinados
Dominions, e os movimentos nacionais e nacionalistas, que em
parte constituem uma reação ao movimento operário (nos países
Sobre o Anschluss. Ter presente: 1) a posição da social-de- de capitalismo desenvolvido) e em parte um movimento contra
mocracia, como foi definida por Otto Bauer: favorável ao o capitalismo estimulado pelo movimento operário (Índia, ne
Anschluss, mas esperar, para realizá-lo, que a social-democracia gros, chineses, etc.). Os ingleses têm uma solução para o pro
alemã assuma o controle do Estado alemão; em síntese, Anschluss blema nacional dos Dominions de capitalismo desenvolvido, ©
social-democrático; 2) a posição da França não coincide com este aspecto é muito interessante; recordar que Ilitch sustentava
a da Itália: a França é contra a união da Áustria à Alemanha,
exatamente que não é impossível solucionar pacificamente as
mas impulsiona a Áustria a entrar numa Confederação danubia-
questões nacionais no regime burguês (exemplo clássico: a
na; a Itália é contra o Anschluss e contra a Confederação. Se o
paração pacífica da Noruega da Suécia). Mas os inglei^es são
especialmente atingidos pelos movimentos nacionais nos países
problema se apresentasse sob a forma de uma opção entre as coloniais e semicoloniais (índia, negros da África, etc.).
duas soluções, provavelmente a Itália preferiria o Anschluss à A maior dificuldade para o equilíbrio entre autonomia ©
Confederação. unidade manifesta-se naturalmente na política exterior. A partir
m 199
do momento em que os Dominions deixaram de reconhecer o go mecanismo pesado e complicado, nem sempre aplicável na práti
verno de Londres como representante da sua vontade no campo ca; no pacto de segurança de Genebra, de 1925, a Inglaterra re
da política internacional, discutiu-se a criação de uma nova en servou-se o direito de assiná-lo depois de consultar os Dominions
tidade jurídico-política destinada a indicar e levar à prática a e obter a aprovação prévia.)
unidade do império; falou-se em constituir um órgão de políti
ca externa do Império. Mas existe uma real unidade "internacio A Conferência imperial (de novembro de 1926) pretendeu
nal"? Os Dominions participam, através do Império, da política dar uma definição precisa dos membros do Império: eles consti
mundial, são potências mundiais; mas a política externa européia tuem "comunidades autônomas, iguais em direitos, de nenhum
e mundial da Inglaterra é de tal modo complicada que os Domi modo subordinadas umas às outras no que se refere aos seus
nions relutam em ser envolvidos em questões que não são do negócios internos e externos, embora unidas por um dever comum
seu interesse direto; além 'do mais, através da política externa a de obediência à Coroa e livremente associadas como membros
Inglaterra poderia tolher ou limitar aos Dominions alguns daque do Império britânico". Igualdade de status não significa igual
les direitos de independência que conquistaram. Para a própria dade de funções, e é expressamente declarado que a função da
Inglaterra este órgão de política internacional poderia ser razão política externa e da defesa militar e naval compete principal
de dificuldades, especialmente em matéria de política externa, para mente à Grã-Bretanha. O que não exclui que determinadas mis
a qual se exige rapidez e unidade de vontade, difíceis de serem sões destes dois ramos da atividade estatal sejam assumidas, em
alcançadas num organismo coletivo representando países espalha parte, por um dos Dominions (frotas australiana e indiana — a
dos em todo o mundo. índia, porém, não é um Dominion —, representações em
Incidente com o Canadá a propósito do tratado de Lausana: Washington da Irlanda e do Canadá, etc.). Estabeleceu-se final
o Canadá recusou-se a ratificá-lo porque não fora assinado pelos mente o princípio de que nenhuma obrigação internacional recai
seus representahtes. Baldwin engavetou a questão do "órgão Im sobre qualquer dos sócios do Império se a obrigação não foi
perial" e contemporizou. O governo conservador reconheceu ao voluntariamente reconhecida e aceita.
Canada e à Irlanda o d i r e it o de ter seus representantes em
Washington (primeiro passo no sentido do direito ativo e passivo Fixou-se a relação dos Dominions com a Coroa, que se tor
de Legação aos Dominions). À Austrália o direito de ter em nou o verdadeiro órgão superior imperial. Os governadores gerais
Londres, alem de um Alto Comissário (com poderes especial nos Dominions, sendo representantes do rei, só podem ter, em
mente econômicos), um funcionário encarregado da ligação po relação aos Dominions, a mesma posição que tem o rei na Ingla
lítica direta; favoreceu e encorajou a formação de frotas autôno terra: eles não são agentes do governo inglês, cujas comunica
mas (frota australiana, canadense, indiana); base naval de Singa ções com os governos dos Dominions serão feitas em outro nível.
pura para a defesa do Pacífico; exposição de Wembley para va A política externa inglesa não pode deixar de ser influencia
lorizar a economia dos Dominions na Huropa; comitê econômico da pelos Dominions.
imperial para associar os Dominions à Inglaterra diante das di
ficuldades comerciais e industriais, e aplicação parcial do prin
cípio preferencial.
Em política externa: o Pacto de Locarno foi assinado pela Funções do rei da Inglaterra como nexo político imperial:
isto é, do Conselho Privado da Coroa, e especialmente do Comitê
Inglaterra com a declaração de assumir apenas ela os compromis Jurídico do Conselho Privado, que não somente acolhe as reclama
sos que nele figuravam. (Antes, os métodos mais diversos: a ções contra as decisões das Altas Cortes dos Dominions, mas
Inglaterra assinou o tratado de Lausana em nome de todo o Im
também julga as controvérsias entre os membros do próprio Im
pério, dai o incidente com o Canadá; na Conferência de Londres pério. Este Comitê constitui o mais forte vínculo organizativo
para as reparações de guerra alemãs, em julho de 1924, os Domi do Império. O Estado livre da Irlanda e a África do Sul aspiram
nions participaram com delegações próprias, o que exigiu um a escapar aos compromissos do Comitê Jurídico. Os homens po-
200
201
líticos responsáveis não sabem como substituí-lo. Augur^ é favo verno sacrificou os interesses dos industriais aos interesses dos
rável à máxima liberdade interna do Império; quem quiser pode círculos financeiros, fornecedores de créditos ao exterior e or
sair, mas isto, segundo ele, deveria também querer dizer que ganizadores do mercado financeiro mundial londrino? O restabe
quem quiser pode pedir para entrar. Ele prevê que o lecimento do valor da libra pode ter antecipado a crisç, não de
Commonwealth pode-se tornar um organismo mundial, mas só terminado, pois todos os países, mesmo aqueles que permanece
depois que se esclareçam as relações da Inglaterra com os outros ram durante algum tempo com a moeda flutuante e que só a con
países, e especialmente com os Estados Uridos (Augur sustenta solidaram num nível de valor mais baixo, sofreram e sofrem a
a hegemonia inglesa no Império — da Inglaterra propriamente crise: poder-se-ia dizer que a antecipação da crise na Inglaterra
dita — determinada, inclusive, em regime de igualdade, pelo peso deveria induzir os industriais a se protegerem antes e, portanto,
econômico e cultural). a se refazerem antes dos outros países, retomando, assim, a
hegemonia mundial. Além do mais, o retorno imediato à pari
dade com o ouro evitou na Inglaterra as crises sociais determi
Transformou-se, de Reino Unido da Inglaterra e Irlanda, em nadas pelas transferências de propriedades e pela decadência ful
"União Britânica de Nações" {British Commonwealth of Na- minante das classes médias pequeno-burguesas: num país tradi
tions). Tendências particularistas. Canadá, Austrália e Nova 2^- cionalista, conservador, ossificado na sua estrutura social como
lândia numa posição intermediária entre a Inglaterra e os Esta a Inglaterra, quais n^o seriam os resultados provocados pelos
dos Unidos. Relações cada vez mais íntimas entre Estados Uni fenômenos da inflação, de oscilações, de estabilização com perda
dos e Canadá. Ministro plenipotenciário especial do Canadá em da moeda? Na verdade, muito mais graves que nos outros países.
Washington. Se se verificasse um choque sério entre os Estados
De qualquer modo, seria necessário fixar com exatidão a
Unidos e a Inglaterra, o Império inglês seria destruído.
relação entre a exportação de mercadorias e as exportações invi
síveis, entre o fato industrial e o fato financeiro: o que serviria
para explicar a importância política relativamente escassa dos
Cinqüenta anos antes da guerra a balança comercial inglesa operários e o caráter ambíguo do Partido Trabalhista e a escassez
estava modificando a sua estrutura interna. A parte constituída de estímulos para a sua diferenciação e o seu desenvolvimento.
pelas exportações de mercadorias caía relativamente,-e o equilí
brio baseava-se cada vez mais nas chamadas "exportações invisí
veis", isto é, os interesses dos capitais colocados no exterior, os Hegemonia política da Europa antes da guerra mundial.
arrrendamentos da marinha mercante e os lucros realizados por Segundo Tommasini^, a política mundial foi dirigida pela Europa
Londres como centro financeiro internacional. Depois da guerra, desde a batalha de Maratona (490 a.C.) até a guerra mundial.
em virtude da concorrência dos outros países, a importância das (Mas até há pouco tempo não existia o "mundo" e não existia
exportações invisíveis aumentou ainda mais Daí o cuidado dos uma política mundial; ademais, as civilizações chinesa e indiana
Ministros da Fazenda e do Banco da Inglaterra em manter a representaram alguma coisa.)
paridade da libra ao ouro e de remtegra-la na sua posição de No começo do século existiam três potências mundiais
moeda internacional. Este objetivo foi alcançado, mas determi européias, mundiais pela extensão dos seus territórios, pela sua
nou o aumento do preço de custo da produção industrial, que potência econômica e financeira, pela possibilidade de imprimir
perdeu terreno nos mercados estrangeiros. à sua atividade uma direção absolutamente autônoma, da qual
Mas terá sido esta a causa (ou pelo menos o elemento mais todas as outras potências, grandes e menores, deviam sofrer a
importante) da crise industrial inglesa? Em que medida o go- influência: Inglaterra, Rússia e Alemanha. (Tommasini não con-

1 No artigo Britannia, quo vadis?, na Nuova Antologia de 16 de ja ^ Francesco Tommasini, Politica mondiále e política europeia, N" uova
neiro de 1930. (N. e I.) Antologia, 1-16 de maio de 1927. (N. e I.)

202 203
sidera a França potência mundial). Inglaterra: derrotara três e moral nos povos, e nas gerações seguintes, um lento mas fatal
grandes potências coloniais (Espanha, Países Baixos e França) retorno ao tipo dos diversos progenitores.
e sujeitara a quarta (Portugal), vencera as guerras napoleônicas Alguns povos europeus servem-se da questão das "raças" e
e fora durante um século o árbitro do mundo inteiro. Two
powers standard. Pontos estratégicos mundiais nas suas mãos
das "estirpes" e da sua superioridade de acordo com as suas pró
(Gibraltar, Malta, Suez, Aden, ilhas Bahrein, Singapura, prias pretensões. Se fosse verdade que existem raças biolôgica-
Hong-Kong). Indústrias, comércio, finanças. Rússia: ameaçava a
mente superiores, o raciocínio de Madison Grant seria bastante
Índia, visava a Constantinopla. Grande exército. Alemanha: ati verossímil. Historicamente, devido à separação de classe-casta,
vidade intelectual, concorrência industrial à Inglaterra, grande quantos romanos-arianos sobreviveram às guerras e às invasões?
exército, frota ameaçadora para o two powers standard. Recordar a carta de Sorel a Michels {Nuovi Studi di Diritto,
Economia e Política, setembro-outubro de 19^9): "Recebi o seu
artigo sobre a "esfera histórica de Roma", cujas teses são qua
Política mundial e política européia. Não são a mesma coisa. se todas contrárias ao que longos estudos revelaram-me ser a ver
Um duelo entre Berlim e Paris e entre Paris e Roma não dá ao dade mais provável. Não há país menos romano do que a ItaUa;
vencedor o controle do mundo. A Europa perdeu a sua impor a Itália foi conquistada pelos romanos, porque era tão anárqmca
tância, e a política mundial depende de Londres, Washington, quanto os países bárbaros; ela permaneceu anárquica durante toda
Moscou e Tóquio, mais do que do continente. a Idade Média, e a sua própria civilização morreu quando os
espanhóis impuseram^e o seu regime administrativo; os piemon-
teses completaram a obra nefasta dos espanhóis. O único p^ de
América e Europa. Madison Grant (cientista e escritor de língua latina que pode reivindicar a herança romaná é a França,
grande fama), presidente da sociedade biológica de Nova Iorque, onde a monarquia esforçou-se para manter o poder imperial.
escreveu um livro, Uma Grande Estirpe em Perigo, em que "de Quanto à faculdade d© assimilação dos romanos, trata-se de uma
nuncia" o perigo de uma invasão "física e moral" da América brincadeira. Os romanos destruíram as nacionalidades suprimin
pelos europeus, mas restringe este perigo à invasão dos "medi do as aristocracias".
terrâneos", isto é, dos povos que habitam nos países mediter
râneos. Madisón Grant sustenta que, desde os tempos de Ate Todas estas questões são absurdas, se se pretende transfor
nas e de Roma, a aristocracia grega e romana era composta de
má-las em elementos de uma ciência e de uma sociologia^políti
homens vindos do Norte, e que somente as classes plebéias eram
cas. Permanece apenas o material para algumas observações de
compostas de mediterrâneos. Portanto, o progresso moral e in caráter secundário que explicam alguns fenômenos de segundo
plano.
telectual da humanidade deveu-se aos "nórdicos". Para Grant
os mediterrâneos são uma raça inferior, e a sua imigração cons
titui um perigo; ela é pior que uma conquista armada e está Inglaterra e Estados Unidos depois da guerra. A Inglaterra
transformando Nova Iorque e grande parte dos Estados Unidos
saiu da guerra como vencedora. A Alemanha, privada da frota
numa cloaca gentium. e das colônias; a Rússia, que podia tornar-se rival, reduzida^^a
Este modo de pensar não é individual: espelha uma notável fator secundário pelo menos durante alguns decenios (esta opinião
e predominante corrente de opinião pública nos Estados Unidos, é muito discutível: talvez os ingleses preferissem como ^
a qual pensa que a influência exercida pelo novo ambiente sobre Rússia Czarista, mesmo vitoriosa, à atual Rússia, que não so in
as massas dos emigrantes é sempre menos importante que a in flui sóbre a política imperial, mas também sobre a política jn-
fluência que as massas dos emigrantes exercem sobre o novo terna inglesa). Conquistou, aproximadamente, mais 10 milhões
ambiente e que o caráter essencial da "mistura de raças" é, nas de quilômetros quadrados de possessões, com cerca de 35 milhões
primeiras gerações, uma carência de harmonia (unidade) física de habitantes. Entretanto, a Inglaterra teve de reconhecer tàcita-
204 205
mente a supremacia dos Estados Unidos, tanto por motivos eco oeste com a Louisiana, colônia francesa que foi comprada em
nômicos como devido à transformação do Império. 1803 por 15 milhões de dólares (território de 1.750.000 km^),
A riqueza dos Estados Unidos, calculada em 925 bilhões dc de forma a que toda a bacia do Mississipi ficasse sob seu con
francos-ouro em 1912, subira, em 1922, para 1.600 bilhões. A trole, e o limite passou a ser o rio Sabine, separando-b da colônia
marinha mercante: 7.928.688 tons. em 1914, 12.500.000 em espanhola do México, Ao sul, com a Flórida espanhola, adquiri
1919. As exportações: 1913, 15 bilhões de francos-ouro; em da em 1819.
1919, 37,5 bilhões, baixando para cerca de 24 bilhões em 1924-25. O México, que então era o dobro do atual, insurgiu-se em
Importações: cerca de 10 bilhões em 1913; 16 bilhões em 1915; 1810 contra a Espanha e em 1821, com o Tratado de Córdoba,
19 bilhões em 1924-25. a sua independência foi reconhecida. A partir desse momento,
A riqueza da Grã-Bretanha no decênio 1912-22 subiu só de os Estados Unidos iniciaram uma política destinada a anexar o
387 para 445 bilhões de francos-ouro. Marinha Mercante: 1912, México: a Inglaterra sustentava o Imperador Iturbides, os Es
13.850.000 tons.; 1922, 11.800.000. Exportações: cerca de 15 tados Unidos apoiavam um movimento republicano que triunfou
bilhões de francos-ouro; 1919, 17 bilhões; 1924, 20 bilhões. Im em 1823. Intervenção francesa na Espanha. Oposição da Ingla
portações: 1913, 19 bilhões; 1919, cerca de 28,5 bilhões; 1924, terra e dos Estados Unidos à política da Santa Aliança de ajudar
27,5 bilhões. Dívida pública: 31 de março de 1915, 1.162 mi a Espanha a reconquistar as colônias americanas. Daí deriva a
lhões de esterlinos; 1919, 7.481 milhões; 1924, 8.482 milhões; Mensagem do Presidente Monroe ao Congresso (2 de dezembro
o ativo registrava, depois da guerra, créditos provenientes de em de 1823), na qual é enunciada a famosa teoria. Exige-se a não-
préstimos a países aliados, colônias e domínios, novos Estados da -intervenção nas colônias que proclamaram a sua independência,
Europa oriental, etc., que em 1919 ascendiam a 2.541 milhões mantiveram-na e foram reconhecidas pelos Estados Unidos, os
de esterlinos e em 1924 a 2.162. Empréstimos cujo resgate inte quais não poderiam permanecer como espectadores indiferentes
gral não era garantido. Por exemplo, o débito italiano ascendia, a tal intervenção, qualquer que fosse a forma que ela assumisse.
em 1924, a 553 milhões, e em 1925 a 589 milhões de esterlinos, Em 1835, o Texas (690 mil km^) separou-se do México e
mas em virtude do acordo de 27 de janeiro de 1926, a Itália pa dez anos depois uniu-se aos Estados Unidos. Guerra entre Esta
gará em 62 anos apenas 276.500 mil esterlinos, juros incluídos. dos Unidos e México. Com o tratado de Guadalupe-Hidalgo
Ao contrário, em 1922 a Inglaterra consolidou o seu débito de (1848) o México teve de ceder o território que hoje engloba
4.600 milhões de dólares aos Estados Unidos, pagáveis em 62 os Estados da Califórnia, Arizona, Nevada, Utah e Novo México
anos com juros de 3% até 1932 e de 3,5% nos anos seguintes. (cerca de 1.700.000 km^). Os Estados Unidos chegaram, assim,
à costa do Pacífico, que em seguida foi ocupada até a fronteira
com o Canadá, alcançando as dimensões atuais.
Formação do poderio dos Estados Unidos. Independência De 1860 a 1865, Guerra de Secessão: França e Inglaterra
em 1783, reconhecida pela Inglaterra no Tratado de Versalhes: encorajaram o movimento separatista do Sul, e Napoleão III pro
era formado então de 13 Estados, dos quais 10 de colonização curou aproveitar a ctise para reforçar o México com Maximilia-
britânica original e 3 (New York, New Jersey e Delaware) ce no. Terminada a guerra, os Estados Unidos lembraram a. Paris
didos pelos Países Baixos à Inglaterra em 1667, com cerca de 2 a Doutrina Monroe, exigindo a retirada das tropas francesas do
milhões de quilômetros quadrados; mas a parte efetivamente México. Em 1867 comprou o Alasca.
povoada era apenas a da costa oriental do Atlântico. Segundo o A expansão dos Estados Unidos como grande potência co
censo de 1790, a população não atingia 4 milhões de habitantes, meça no fim do século XIX.
inclusive 700 mil escravos. Em 1920, no mesmo território, exis Principais problemas americanos: 1) regulamento da emi
tiam 24 Estados com 71 milhões de habitantes. Então os Esta gração para assegurar maior homogeneidade da população (na
dos Unidos limitavam ao norte com o Canadá, que a França ce verdade este problema surgiu depois da guerra e está ligado, além
dera à Inglaterra em 1763, depois da guerra dos sete anos; a da questão nacional, também e especialmente à revolução indus-

206 207

.M
trial); 2) hegemonia no mar das Caraíbas e nas Antilhas; 3) do Ludovico Lucioli, La política doganale degli Stati Uniti
mínio da América Central, especialmente das regiões do Canal; d'América, Nuova Antologia de 16 de agosto de 1929. Artigo
4) expansão no" Extremo Oriente. Guerra mundial. Impérios cen muito interessante e de útil consulta, pois resume a história tari
trais Üoqueadòs: a Entente senhora dos mares. Os Estados Uni faria dos Estados Unidos e a função particular que as tarifas
dos abasteceram a Ententé, aproveitando todas as oportuni alfandegárias sempre tiveram na política dos Estados Unidos.
dades que se ofereciam. O custo colossal da guerra, as profundas Sera interessante uma resenha histórica das várias formas
perturbações da produção européia (a revolução russa), fizeram que assumiu e está assumindo a política alfandegária dos vários
dos Estados Unidos os árbitros das finanças mundiais. Portan países, notadamente dos mais importantes econômica e politica
to, a sua afirmação política. mente. O que, no fundo, significa tentativas várias de organizar
o mercado mundial, ou inserir-se nele da forma mais favorável,
do ponto de vista da economia nacional ou das indústrias es
Wilson. Política mundial de Wilson. Seu contraste com as senciais à atividade econômica nacional.
forças políticas preponderantes nos Estados Unidos. Falência da Uma nova tendência do nacionalismo econômico contem
sua política mundial. porâneo a ser observada é a seguinte: alguns Estados procuram
fazer com que as suas importações de um determinado país se
Warren. C. Harding torna-se presidente em 4 de março de jam "negociadas" em bloco, com um correspondente de "expor
1921. Na sua üota de 4 de abril de 1921, a propósito da questão tações" igualmente negociado. É claro que tal medida interessa
da ilha de Yap, Harding assinala que os Estados Unidos não pre às nações cuja balança comercial (visível) esteja em déficit. Mas
tendem intervir nas ;relações entre os Aliados e a Alemanha, nem como explicar que tal princípio comece a ser aceito pela França,
exigir a revisão do Tratado de "Versalhes, mas manter todos os que exporta mais mercadorias do que importa? Trata-se, inicial
direitos que derivam da sua intervenção na guerra. Estes prin mente, de uma política comercial destinada a boicotar as impor
cípios foram formulados na Mensagem de 12 de abril e levaram tações de um determinado país, mas a partir disso pode-se desen
à Conferência de Washington, que durou de 12 de novembro de volver uma política geral a ser enquadrada numa moldura mais
1921 a 6 de fevereiro de 1922 e tratou da questão da China, do ampla e de caráter positivo, política que pode desenvolver-se na
equilíbrio nos mares do Extremo Oriente e da limitação dos arma Europa em virtude da política alfandegária norte-ameriçana e no
mentos navais. sentido de estabilizar determinadas economias nacionais. Isto é:
População dos. Estados Unidos. Sua composição nacional de cada nação importante pode tender a dar um substrato econômi
terminada pela imigração. Política governamental. Em 1882 é co organizado a própria hegemonia política sobre as nações que
proibido o acesso aos operários chineses. No que se refere ao Jã^ lhe estão subordinadas. Os acordos políticos regionais poderiam
pão, inicialmente foram mantidas algumas considerações; mas em tornar-se acordos econômicos regionais, em virtude dos quais a
1907, com o chamado gentlemen's agreement Root-Takahira, a
importação e a exportação "negociadas" não se verificariam mais
apenas entre dois Estados, mas entre um grupo de Estados, eli
imigração japonesa, sem ser recusada como tal, foi ehormemente minando muitos inconvenientes não pequenos, evidentíssimos.
obstaculizada através de cláusulas a respeito da cultura, das con
Poder-se-ia situar nesta tendência a política da livre troca
dições higiênicas e da fortuna dos imigrantes. Mas a grande mo interimperial e de protecionismo em relação ao não-Império, do
dificação na política de imigração verificou-se no após-guerra: grupo novamente organizado na Inglaterra em tomo de Lorde
a lei de 19 de maio de 1921, em vigor até julho de 1924, esta Beaverbrok (ou nome semelhante), assim como o acordo de Si-
beleceu que a quota anual de imigração para cada nação seria naia, posteriormente ampliado em Varsóvia. Esta tendência po
limitada a 3% dos cidadãos americanos da respectiva nação, de lítica poderia ser a forma moderna de Zollverein, que levou ao
acordo com o censo de 1910 (sucessivas modificações). Ê defini Império germânico federal, ou das tentativas de liga alfandegária
tivamente excluída a imigração amarela. entre os Estados italianos antes de 1848, e, avançando mais, do

208 209
mercantilismo do século XVII. E poderia tornar-se a etapa in o controle financeiro americano em 1907 e durante a guerra tro
termediária da "Pan-Europa" de Briand, na medida em que ela pas foram desembarcadas no seu território, de onde saíram em
corresponde a uma exigência das economias nacionais de se liber 1924. Em 1917, os Estados Unidos compraram as ilhas Virgens
tarem dos quadros nacionais sem perderem o caráter nacional. à Dinamarca. Assim, os Estados Unidos dominam o golfo do
O mercado mundial, segundo esta tendência, seria constituí México e o mar das Caraíbas.
do de uma série de mercados não mais nacionais, mas interna
cionais (interestatais), que organizariam no seu interior certa es
tabilidade das atividades econômicas essenciais e que poderiam Os Estados Unidos e a América Central. Canal do Panamá
relacionar-se entre si à base do mesmo sistema. Este sistema le e outros possíveis canais. A República do Panamá comprome
varia mais em conta a política que a economia, no sentido de teu-se, pelo Tratado de Washington de 15 de dezembro de 1926,
que no campo econômico daria mais importância à indústria de a partilhar da sorte dos Estados Unidos em caso de guerra. O
manufaturados que à indústria pesada. Isto no primeiro estádio Tratado ainda não foi ratificado porque é incompatível com o
da organização. Efetivamente: as tentativas de cartéis internacio estatuto da Sociedade das Nações, da qual o Panamá é membro.
nais baseados nas matérias-primas (ferro, carvão, potassa, etc.) Mas a ratificação não é jiecessária. Questão da Nicarágua.
colocaram frente a frente Estados hegemônicos, como a França
e a Alemanha, que não podem ceder um palmo da sua posição
e da sua função mundial. Muito difícil e muitos obstáculos. Mais Extremo Oriente. Possessões dos Estados Unidos: as Filipi
simples, ao contrário, um acordo da França com os seus Estados nas e a ilha de Guam (Marianas); a ilha de Tutuíla no grupo das
vassalos para a organização de um mercado econômico do tipo Samoas.
do Império inglês, que poderia levar à derrocada da posição ale Antes do Tratado de Washington, a situação no Extremo
mã e obrigá-la a entrar no sistema, mas sob a hegemonia da Oriente era dominada pela aliança anglo-japonesa, estipulada no
França. São todas hipóteses ainda muito vagas, mas que devem Tratado Defensivo de Londres, de 30 de janeiro de 1902, basea
ser levadas em conta ao estudar-se o desenvolvimento das ten do na independência da China e da Coréia, com predominância
dências acima referidas. de interesses ingleses na China e japoneses na Coréia; depois àa
derrota russa, foi substituído pelo tratado de 12 de agosto de
1905: a integridade da China confirmada e a igualdade econômi
Os Estados Unidos no mar das Caraíbas. Guerra hispano- ca e comercial de todos os estrangeiros. Os contratantes garantiam
-americana. Pelo tratado de Paris (10 de dezembro de 1898) a reciprocamente os seus direitos territoriais e os seus interesses
Espanha renunciou a todos os seus direitos sobre Cuba e cedeu especiais na Ásia Oriental e na índia: supremacia japonesa na
Porto Rico e outras ilhas menores aos Estados Unidos. A ilha de Coréia e direito da Inglaterra de defender a índia nas regiões
Cuba, que domina a entrada do golfo do México, devia-se tornar chinesas próximas, isto é, no Tibete. Esta aliança foi vista com
independente, e uma Constituição foi promulgada no dia 12 de desagrado pelos Estados Unidos. Atritos durante a guerra. Na
fevereiro de 1901; mas os Estados Unidos, para reconhecer a in reunião de 10 de dezembro de 1921 da Conferência de
dependência e retirar as tropas, exigiram e obtiveram o direito Washington, Lorde Balfour anunciou o fim da aliança, substituí
de intervenção. Pelo tratado de reciprocidade de 8 de julho de da pelo tratado de 13 de dezembro de 1921, com o qual a Fran
1903, os Estados Unidos obtiveram vantagens comerciais e o ça, a Inglaterra, os Estados Unidos e o Japão se comprometem
aluguel da baía de Guantánamo para instalar uma base naval. por dez anos: 1) a respeitar as suas possessões e domínios insula
Intervieram em 1914 no Haiti; em 16 de setembro de 1915, um res no Pacífico e a entregar a uma conferência dos próprios Es
acordo concedeu aos Estados Unidos o direito de manter em tados as controvérsias que pudessem surgir entre alguns deles so
Port-au-Prince um alto comissário que controlaria a administra bre o Pacífico e as possessões e domínios -em questão; 2) a uni-
ção alfandegária. A República de São Domingos foi colocada sob rem-se no caso de atitude agressiva de outra potência. O tratado
211
2J0
se limita às possessões insulares, c no que se refere ao Japão se
aplica a Karafuto (Sakalinas meridionais). Formosa e arquipélago Estados Unidos renunciaram às indenizações que lhe cabiam de
dos Pescadores, mas não à Coréia e a Porto Arthur. Uma de pois da revolta dos boxers e destinaram as somas relativas a
claração em separado especifica que o tratado se aplica também objetivos culturais na China. Em 1917, a China suspendeu os
às ilhas sob mandato no Pacífico, mas que isto não implica o pagamentos. Acordos: Japão e Inglaterra renunciaram como os
consenso aos mandatos por parte dos Estados Unidos. A garan Estados Unidos; a França utilizou os fundos para reembolsar os
tia reciproca do statu quo é de importância especial para as Fili prejudicados com a falência do Banco Industrial da China; Itália
pinas, pois impede ao Japão fomentar o descontentamento dos e Bélgica consentiram em destinar 4/5 das somas- ainda devidas
indígenas. a objetivos culturais.
No tratado que limita os armamentos navais há um disposi
tivo importantíssimo (art. 19) pelo qual França, Inglaterra, Es
tados Unidos e Japão se empenham em manter, até 31 dê de Atlântico-Pacifico. Função do Atlântico na civilização e na
zembro de 1936, o statu quo relacionado com as fortificações e economia moderna. Deslocar-se-á este eixo para o Pacífico? As
as bases navais nas possessões e domínios situados a leste do maiores populações do mundo estão no Pacífico: se a China e a
naeridiano 110 G, que passa pela ilha de Hainã. O Japão é sacri Índia se tornassem nações modernas com uma grande produção
ficado, pois tem as mãos atadas inclusive no que se refere às industrial, seu desligamento da dependência européia romperia
ilhas mais próximas do arquipélago metropolitano. A Inglaterra exatamente o equilíbrio atual: transformação do continente ame
pode fortificar Singapura, e os Estados Unidos o Havaí, domi ricano, deslocamento da vida americana da margem atlântica para
nando, assim, os dois países os acessos ao Pacífico. Limitação a margem do Pacífico, etc. Ver todas estas questões nos termos
dos navios de linha. Paridade naval entre Estados Unidos e Ingla econômicos e políticos (comércio, etc.).
terra. Hegemonia dos Estados Unidos. Tommasini prevê aliança
entre Estados Unidos e Inglaterra e que da Ásia partirá a res
posta a ela sob a forma de uma coalizão que pode compreender Armamentos da Alemanha no momento do armistício. No
a China, o Japão e a Rússia, apoiada no concurso técnico-indus- momento do armistício foram entregues pelo exército em opera
trial da Alemanha. Ele ainda se baseia na primeira fase do movi ções: canhões, 5.000; metralhadoras, 25.000; morteiros, 3.000;
mento nacionalista chinês. aeroplanos, 1.700; caminhões, 5.000; locomotivas, 5.000; va
gões, 150.000. A Comissão de Desarmamento destruiu no ter
ritório alemão: canhões, 39.600; carretas prontas, 23.061; fuzis
A China. Em 1899 os Estados Unidos proclamaram a po e pistolas, 4.574.000; metralhadoras, 88.000; projéteis de arti
lítica da integridade territorial chinesa e das portas abertas. Em lharia, 39.254.000; projéteis para morteiros, 4.028.000; cartu
1908, com a troca de notas Rot-Takahira, Estados Unidos e Ja chos, 500.294.000; granadas de mão, 11.530.000; explosivos,
pão renovaram declarações solenes sobre a integridade territorial 2.131.646 toneladas (e muitas armas não foram consignadas).
e a independência política da China. Depois da aceitação pela
China das chamadas "vinte e uma perguntas" do Japão (ultimato
de 1915), os Estados Unidos declararam (notas de 13 de maio de
1915 a Pequim e a Tóquio) que não reconheciam os acordos con
cluídos. Na Conferência de Washington os Estados Unidos con
seguiram que as potências européias e o Japão renunciassem a
boa parte das vantagens e dos privilégios especiais que haviam
assegurado. O Japão comprometeu-se a abandonar Kian-Cheín.
Só na Manchúria o Japão manteve a sua posição. Desde 1908 os
212
213
PARTE III
Notas Sobre o Aparelhamento
Nacional e Sobre a Política
Italiana

Economia nacional. Só se pode julgar -a atividade econômica


de um país em relação ao mercado internacional, ela "existe" e
é avaliada quando inserida numa unidade internacional. Daí a
importância do princípio dos custos comparados e a solidez que
mantêm os teoremas fundamentais da economia clássica contra as
críticas verbalistas dos teóricos de toda nova forma de mercanti
lismo (protecionismo, economia direta, corporativismo, etc.). Não
existe um "balanço" puramente nacional da economia, nem para
o seu complexo, e nem ao menos para uma atividade particular.
Todo o conjunto econômico nacional projeta-se no excedente ex
portado em troca de uma correspondente importância; e se no
complexo econômico nacional uma determinada mercadoria ou
serviço custa muito, é produzido de modo antieconômico, esta
perda se reflete no excedente exportado, transforma-se num "pre
sente" do país ao exterior, ou pelo menos (já que nem sempre

217
se pode falar de "presente") numa perda nítida do país em rela mas deve-se verificar se tais sacrifícios foram equanimemente
ção ao exterior, na avaliação da sua estatura relativa e absoluta distribuídos e em que medida podiam ser evitados e se foram
no mundo econômico internacional. aplicados numa direção justa. Também é absolutamente certo
Se o trigo é produzido num país a alto preço, os produtos que a introdução e o desenvolvimento do capitalismo na Itália
industriais exportados e produzidos por trabalhadores alimenta não se verificaram de um ponto de vista nacional, mas de pon
dos com aquele trigo, a preço igual ao do produto externo, con tos de vista augustos e de - grupos restritos, que faliram na sua
têm congelada uma maior quantidade de trabalho nacional, uma missão, determinando uma emigração malsã, jamais absorvida,
maior quantidade de sacrifícios do que contêm o mesmo produto e cuja necessidade jamais cessou, arruinando economicamente
externo. Trabalha-se para o "exterior" com sacrifício; fazem-se
regiões inteiras. Efetivamente, a emigração deve ser considéra-
os sacrifícios para o exterior, não para o próprio país. As classes da como um fenômeno de desocupação absoluta, de um lado,
que no interior aproveitam-se desses sacrifícios não constituem
e, de outro, como manifestação de que o regime econômico in
a "nação", mas representam uma exploração exercida por "es terno não assegurava um standard de vida que se aproximasse
trangeiros" sobre as forças realmente nacionais, etc.
do internacional, que não levasse trabalhadores já ocupados a
Sobre a estrutura econômica nacional. A Riforma Sociale
preferirem os riscos e os sacrifícios resultantes do abandono do
de maio-junho de 1932 publica uma resenha do livro de Rodolfo
Morandi {Storia delia grande industria in Italia, Bari, Laterza, próprio país.
1931), resenha que contém algumas observações de método de Morandi não consegue avaliar o significado do protecionis
relativo interesse (a resenha é anônima, mas deve ser atribuída mo no desenvolvimento da grande indústria italiana. Assim, recri
ao Prof. De Viti De Marco). mina absurdamente à burguesia "o propósito deliberado e fu-
Objeta-se antes de tudo a Morandi o fato de não levar em nestíssimo de não ter tentado a aventura salutar no Sul, onde
conta o quanto custou a indústria italiana: "Ao economista não muito mal a produção agrícola consegue pagar os grandes es
basta mostrarem-lhe fábricas que dão trabalho a milhares de forços que exige do homem". Morandi não averigua se a misé
operários, saneamentos que criam terras cultiváveis, e outros fa ria do Sul não teria sido determinada pela legislação protecionis
tos semelhantes com os quais o público geralmente se contenta ta que permitiu o desenvolvimento industrial do Norte e como
nos seus juízos sobre um país, sobre uma época. O economista poderia existir um mercado interno a ser explorado através dos
sabe bem que o mesmo resultado pode representar uma melhoria impostos e outros privilégios, se o sistema protecionista se es
ou uma deterioração de uma determinada situação econômica, tendesse a toda a península, transformando a economia rural do
segundo os sacrifícios para obtê-lo sejam maiores ou menores". Sul numa economia industrial. Todavia, pode-se pensar em tal
Ê justo o critério geral de que se deve examinar o custo da regime protecionista pan-italiano, como um sistema para assegurar
introdução de uma determinada indústria no país, quem fez as determinadas rendas a determinados grupos sociais, isto é, com
despesas, quem usufruiu vantagens, e se os sacrifícios acarretados um "regime salarial", e é possível ver como alguma coisa desse
não poderiam ser feitos noutra direção, mais útil; entretanto, este gênero a proteção cerealícola, ligada à proteção industrial, que
exame deve ser feito com uma perspectiva não imediata, mas só funciona a favor dos grandes proprietários e da indústria moa-
geira, etc.
de longo alcance. Além do mais, apenas o critério da utilidade
econômica não é suficiente para examinar a passagem de uma Reprova-se em Morandi a excessiva severidade com que jul
forma de organização econômica a outra; é preciso levar em ga e condena homens e coisas do passado, pois basta examinar
conta também o critério político, isto é, se a passagem foi obje as condições antes e depois da independência para ver que algo
se fez. Parece ser difícil fazer uma história da grande indústria
tivamente necessária e correspondeu a um interesse geral certo,
mesmo a longo prazo. É admissível que a unificação da península abstraindo os principais fatores (crescimento populacional, po
devesse acarretar sacrifícios a uma parte da população, devido lítica financeira e alfandegária, ferrovias, etc.) que contribuíram
para determinar as características econômicas do período consi
às necessidades inderrogáveis de um grande Estado moderno; derado. Crítica muito justa; uma grande parte da atividade da
218 219
Direita histórica, de Cavour a 1876, dedicou-se, na verdade, u serem alcançadas e as estradas a serem percorridas se deslocam
criar as condições técnicas gerais que tornassem possível uma freqüente e subitamente, de modo que povos e indivíduos que
grande indústria e a difusão e a prosperidade de um grande estavam mais atrasados, ou quase não avançavam, podem-se
capitalismo; só com o advento da Esquerda, e especialmente com avantajar. Se isto não fosse verdade, seria difícil explicar como
Crispi, surge a "fabricação dos fabricantes" através do protecio podem surgir e prosperar continuamente novas indústrias ao la
nismo e dos privilégios de Ioda sorte. A política da Direita, no do das mais velhas, no mesmo país, e como pôde materializar-se
sentido do equilíbrio financeiro, torna possível a política "pro- o enorme desenvolvimento industrial do Japão no fim do século
dutivista" posterior. passado." A este propósito seria de ver se muitas indústrias ita
"Assim, por exemplo, não se consegue compreender como lianas, em vez de surgirem sobre a base da técnica mais avançada
pudesse existir tanta mão-de-obra na Lombardia nos primeiros no país mais avançado — como seria racional — não surgiram
decênios depois da unificação, e que, portanto, os salários tives assentadas em maquinaria obsoleta de outros países, adquiridas
sem um nível tão baixo, se o capitalismo é representado como a bom preço, é verdade, mas definitivamente superadas; e se
um polvo que estende os seus tentáculos ao campo para recolher este fato não se revelou "mais útil" para os industriais, que
sempre novas vítimas, em vez de levar em conta a transforma especulavam com o baixo preço da mão-de-obra e com os privi
ção que, simultaneamente, se verifica nos contratos agrários e, légios governamentais mais do que numa produção técnica
em geral, na economia rural. É fácil concluir simplistamente so aperfeiçoada.
bre a obstinação e a estreiteza mental das classes patronais, obser Ao analisar o relatório do Banco Comercial Italiano à
vando a resistência que elas opõem a toda solicitação de melho assembléia social, para o exercício de 1931, Attilio Cabiati (na
ria das condições de vida das classes trabalhadoras, se não se Riforma Sociale de julho-agosto de 1932, pág. 464) escreve:
leva em conta também o crescimento da população em relação "Ressalta destas considerações o vício fundamental que sempre
à formação de novos capitais". Mas, a questão não é assim tão afligiu a vida econômica italiana: a criação e a manutenção de
simples. O pèso da poupança ou da capitalização era baixo por um edifício industrial muito superior tanto à rapidez da forma
que os capitalistas quiseram manter toda a herança de parasitis- ção de poupança no país, como à capacidade de absorção dos
mo do período precedente a fim de não diminuir a fórça política consumidores internos: que vive, portanto, em grande parte, gra
da sua classe e dos seus aliados. ças à fórça do protecionismo e aos auxílios estatais das mais
Crítica da definição de "grande indústria", formulada poi variadas formas. Mas o protecionismo pátrio, que em muitos ca
Morandi, o qual, não se sabe porque, excluiu do seu estudo mui sos atinge e supera o índice de cem por cento do valor interna
tas das mais importantes atividades industriais (transporte, in cional do produto, encarecendo a vida, por sua vez diminuía a
dústria alimentícia, etc.). Excessiva simpatia de Morandi pelos formação da poupança, que além do mais era disputada à indús
colossais organismos industriais, considerados freqüentemente, tria pelo próprio Estado, freqüentemente obrigado pelas suas ne
sem restrições, como formas superiores de atividade econômica, cessidades, desproporcionais à nossa estrutura. A guerra, amplian
malgrado devam-se recordar as ruínas desastrosas da Uva, do An- do enormemente esta estrutura, obrigou os nossos bancos, como
saldo, do Banco de Desconto, da Snia Viscosa, da Italgas. "Ou afirma o relatório citado acima, "a uma política de tesouraria
tro ponto de divergência que merece relevo, pois nasce de um corajosa e pertinaz", a qual consiste em tomar empréstimos "ro
êrro muito difundido, é aquele em que o Autor considera que tativos" no exterior, para emprestar a prazo mais longo no inte
um país deve, necessariamente, permanecer sufocado pela con rior. "Tal política de tesouraria tinha, porém — diz o relatório
corrência dos outros países, se inicia depois deles a sua organi — o seu limite natural na necessidade dos bancos de conservar
zação industrial. Esta inferioridade econômica, à qual estaria a qualquer custo suficientes reservas de investimentos líquidos
também condenada a Itália, não parece efetivamente demonstra ou de fácil realização". Quando eclodiu a crise mundial, os "in
da, pois as condições dos mercados, da técnica, das instituições vestimentos líquidos" só podiam realizar-se com um desconto for
políticas movimentam-se continuamente e, portanto, as metas a midável; a poupança externa deteve o seu fluxo; as indústrias

220 221
nacionais não podiam compensar. Assim, exceptis excipiendis, o
sistema bancário italiano encontrou-se numa situação em mui interesses que durante muito tempo foram resgatados com ou
tos aspectos idêntica à situação do mercado financeiro inglês em tro débito; 7) um endividamento aos Estados Unidos da América
meados de 1931... (O erro) antigo consistia em ter pretendido (débitos políticos e comerciais) que se tivesse de dar lugar a
dar vida a um organismo industrial desproporcional às nossas transferências reais, colocaria em perigo qualquer estabilidade
forças, criado com o objetivo de tornar-nos "independentes do monetária.
exterior"; sem refletir que, à medida que deixávamos de "de
pender" do exterior, no que se refere aos produtos, tornáva- No que se refere à Itália, Paratore nota estes elementos da
mo-nos cada vez mais dependentes, no que se refere ao "capital". sua situação pós-bélica: 1) considerável diminuição do seu capital
humano; 2) dívida de cerca de 100 bilhões de liras; 3) preo
É preciso ver se noutra situação será possível alargar a base
cupante volume de débito flutuante; 4) balanço estatal arruinado;
industrial do país sem recorrer a capitais externos. O exemplo de
outros países (o Japão) mostra que isto é possível: toda forma 5) instituição monetária subvertida, o que se expressa numa pro
de sociedade tem uma sua lei de acumulação da poupança, o funda redução e numa perigosa instabilidade do valor interno e
que leva a deduzir que também na Itália será possível obter uma externo da unidade monetária; 6) balança comercial singularmen
acumulaçao mais rapida. A Italia e o país que, nas condições te passiva, agravada devido a uma completa desorientação das
criadas pelo Risorgimento e pelo seu modo de desenvolvimento, suas relações comerciais com o exterior; 7) muitas instituições
tem o maior pèso de população parasitária, que vive sem intervir financeiras relacionadas com a economia pública e privada des
em nada na vida produtiva; é o pais onde são mais numerosas gastadas.
a pequena e a média burguesia rural e urbana, que consomem
uma grande fração da renda nacional para economizar dela uma
fração insuficiente às necessidades nacionais. Sobre os balanços do Estado. Ver os discursos no Senado do
deputado Federal Ricci, e.\-prefeito de Gênova. Estes discursos
devem ser lidos antes de qualquer trabalho sòbre a história des
"A economia, a finança, o dinheiro da Itália em fins de tes anos.
1928"!. Artigo interessante, mas muito rápido e conformista. De No discurso de 16 de dezembro de 1929, sòbre a prestação
ve ser levado em conta para reconstruir as situações de 1926 até de contas do exercício financeiro de 1927-28, Ricci observou:
as leis excepcionais. Paratore enumera as principais contradições
do após-guerra: 1) as divisões territoriais multiplicaram as bar
reiras alfandegárias; 2) a uma redução geral da capacidade de 1) a propósito da Caixa de Amortização da Dívida Exter
consumo correspondeu em toda parte um aumento de instala na, instituída por decreto-lei de 3 de março de 1926, depois dos
ções industriais; 3) a uma depressão econômica tendencial, um acordos de Washington (14 de novembro de 1925) e de Lon
acentuado espírito de nacionalismo econômico (cada nação quer dres (27 de janeiro de 1926), em que os adiantamentos realiza
produzir tudo e quer vender sem comprar); 4) a um empobreci dos sobre a diferença entre a quota paga pela Alemanha e a
mento geral, uma tendência ao aumento real das despesas esta quota paga pela Itália aos Estados Unidos e à Inglaterra são em
tais; 5) a uma maior desocupação, uma menor emigração (antes prestados à Tesouraria, que num determinado ponto deverá res-
da guerra deixavam anualmente a Europa 1.300.000 trabalhado tituí-los (serão bilhões), quando a Itália deverá pagar mais do
res, hoje apenas emigram 600-700 mil homens); 6) a riqueza que recebe. Perigo de que a Tesouraria não possa pagar. A Itália
destruída pela guerra foi em parte capitalizada e dá margem a recebeu da Alemanha pagamentos em espécie e em dinheiro. Não
são mais publicadas as prestações de contas detalhadas das ven
1 Artigo de Giuseppe Paratore, na Nuova Antologia de 1.° de marco das realizadas pelo Estado das mercadorias recebidas da Alema
de 1929. nha, e das somas auferidas; não se sabe se estas são maiores ou
menores do que aquelas creditadas;
222
223
2) a propósito da Caixa de Amoitização das Dívidas Inter Uma observação de Ricci: "A Caixa de Amortização da Dí
nas, instituída por decreto-lei de 5 de agosto de 1927, para pro vida Interna contraiu uma "dívida enorme" de 80 milhões para
ver à extinção do Consolidado e das outras dívidas do Estado. amortizar o débito público!!!" A Tesouraria, não sabendo o que
Devia ser dotada com os adiantamentos de balanço, com os pro fazer, pediu dinheiro emprestado ao Alto Comissariado da Cidade
ventos dos interesses dos capitais, com as recuperações, por de Nápoles, ao Consórcio do porto de Gênova, etc. Pediu em
capital e interesse, dos empréstimos realizados pelo Estado a de prestado às Caixas de Amortização a dívida externa e a dívida
terminadas indústrias, etc. Depois do primeiro ano, todas as re interna, tratando-as curiosamente, isto é, não pagando os juros.
servas principais falharam, especialmente os adiantamentos do ba
lanço. A Caixa simplesmente tem a seu crédito tais somas, se
bem que nos resíduos passivos o seu crédito monte a 1.728 mi A propósito dos orçamentos, é preciso confrontar sempre o
lhões de liras. As ofertas de particulares na última prestação de orçamento preventivo normal com os adendos, correções e varia
contas até dezembro de 1928, atingem a soma de 4.800.000 li ções; que comumente são feitos depois de alguns meses; freqüen
ras, muito inferior à publicada nos jornais; temente, neste suplemento de orçamento são acrescentadas as
3) apólices de seguros para os combatentes, criadas pelo rubricas interessantes (por exemplo, no preventivo, as despesas
decreto-lei de 10 de dezembro de 1917, à razão de 500 liras secretas do Ministério do Exterior montavam a 1.500.000 liras;
para os soldados, 1.000 liras para os suboficiais e 5.000 liras no suplemento, houve um aumento de 10.000.000). O certo é
para os oficiais (é exato? Ou não se falava de 1.000 liras para que o suplemento desperta menos interesse que o preventivo or
os soldados?) "Elas caducarão em 1947 ou 1948, representando dinário, e por isso suscita menos curiosidade e menos perguntas;
ura grande encargo para o orçamento (naturalmente os interes parece coisa de administração rotineira.
sados não obtiveram quase nada, e os agiotas é que se aproveita
rão: eis um argumento interessante). O governo, pelo decreto de
10 de maio de 1923, previra a criação de uma reserva junto à A marinha mercante italiana. Extratos do artigo La nostra
Caixa dos Depósitos e Empréstimos, dando uma primeira dota marina transatlântica, de L. Fontana Russo, na Nuova Antologia
ção de 600 milhões e mais de 50 milhões anuais. Entretanto, os de 16 de abril de 1927. As perdas totais da marinha mercante
600 milhões jamais foram fornecidos: estão escriturados entre os italiana, navios torpedeados e confiscados durante a guerra, fo
resíduos do ativo como empréstimo a ser contraído a 3,50% (le ram da ordem de 827.341 toneladas brutas (238 vapores num
vado posteriormente a 4,75%, pelo decreto de 10 de maio de total de 769.450 toneladas, e 395 veleiros perfazendo 10.891
1925, n.o 852) e no passivo como crédito da C.D.P. Quanto toneladas), isto é, 49% de toda a frota, enquanto as perdas in
aos 50 milhões, foram escriturados no balanço durante alguns glesas foram de 41%, e as francesas de 46% (e isto não obstan
anos e, posteriormente, através de um decreto ministerial, foram te termos entrado na guerra depois e retardado a declaração de
cancelados para o ano em curso (1927) e para os seguintes (De guerra à Alemanha. Como explicar, então, esta percentagem tão
creto ministerial de 6 de outubro de 1927, n.® 116.635). alta?). Além do mais, outros 9 vapores, perfazendo 57.440 tone
ladas, afundaram devido a acidentes provocados pelo regime es
("É curioso (!!?) que se possa mudar radicalmente a fisio pecial imposto à navegação (encalhes para escapar a ataques de
nomia do orçamento solenemente (!) aprovado pelas Câmaras, submarinos, colisões durante a navegação em comboios, etc.).
através de simples decretos ministeriais, que não são publicados Qual foi a percentagem destes casos nas outras marinhas? A res
na Gazzetta Uffíciale, dos quais o próprio Chefe do governo po posta interessa para julgar a nossa organização e a capacidade
deria não saber nada; e o próprio ministro competente poderia dos comandos; além do mais, interessa saber a idade desses va
tê-los assinado inadvertidamente": estas palavras de Ricci são pores para ter uma idéia de como foi exposta a vida dos nossos
negras). marinheiros.

224 225
Os prejuízos financeiros (navios e cargas) foram da ordem negociações com a Inglaterra, a França e a Iugoslávia no Con
de L. 2.202.733.047, assim distribuídos: barcos de pesca, gresso da Paz.
L. 4.391.706; veleiros, L. 59.792.591; vapores nacionais, As perdas da marinha de linha (navios de passageiros) fo
L. 1.595.467.786; navios arrendados (216 afundados, 2 danifica ram menos graves que as da frota de carga e por isso aquela não
dos), L. 543.080.964. (Evidentemente, estes navios estrangeiros foi prontamente recuperada. Assim, no após-guerra tinha-se um
não são calculados na tonelagem acima citada e mesmo neste excessivo número de navios de carga, enquanto faltavam navios
caso seria interessante saber se eles foram afundados com tripula de linha. Desarme e queda dos afretamentos para aqueles, solici
ção italiana; ademais, se as outras nações sofreram perdas do tação e elevação dos fretes para estes. Chegou-se, assim, à espe
mesmo gênero). cialização das companhias: algumas se dedicaram à carga, outras
O total de cargas perdidas atingiu a 1.271.252 toneladas. Os ao transporte de passageiros, alienando a própria frota de carga
abastecimentos italianos durante a guerra foram: 49 milhões de e especializando-se (teoricamente a especialização é um progresso,
toneladas de Gibraltar e 2 milhões do Mediterrâneo e de Suez. pois leva à diminuição dos custos; mas no caso de crise de um
As perdas sofridas durante a guerra foram imediatamente determinado ramo, a especialização leva à falência, pois desapare
recuperadas. As perdas marítimas mundiais durante a guerra fo ce a compensação recíproca).
ram de 12.804.902 toneladas (vapores e veleiros), isto é, 27% A frota de linha defrontou-se com um problema fundamen
da tonelagena total. Em 1913 a marinha mundial totalizava tal: navios para emigrantes ou navios para passageiros de classe?
43.079.000 toneladas; em 1919, 48 milhões; em 1921, 58.846.000, As maiores companhias optaram pela predominância dos navios
e em 1926, 62.671.000. De 1913 a 1919 os estaleiros, depois de de luxo. Crise de emigração em virtude de restrições legislativas.
repor a tonelagem perdida na guerra, acusaram um aumento de Dessa forma, desenvolveram-se os navios de.luxo, para os. quais
produção de 4 milhões de toneladas. Os navios de construção ini não há limitações de espaço e de conforto em virtude das altas
ciada foram completados depois do armístico: dèsse modo com tarifas.
preende-se que, em 1919, a tonelagem de barcos lançados ao mar
alcançasse a cifra de 7 milhões (o que explica a crise de afreta-
mentos no após-guerra, coincidindo para ela um número elevado Tendência no sentido da grande tonelagem. Devido à lei eco
de barcos e uma queda do comércio). nômica do rendimento crescente, o aumento do comprimento, da
Em 31 de dezembro de 1914 a nossa frota (vapores superio altura e da largura leva a uma elevação mais do que proporcio
res a 250 toneladas brutas) era de 644 navios, deslocando nal do espaço útil, isto é, do espaço dedicado a carga. Inclusive
1.958.838 ton. DWC; as perdas em 31 de dezembro de 1921 cresce, mais do que desproporcionalmente à despesa de constru
registravam 354 navios com 1.270.342 toneladas. ção e de utilização, o rendimento financeiro do armador. A velo
cidade, ao contrário, deve ser moderada para ser econômica
Da velha frota restavam 290 navios com 688.496 toneladas.
(atualmente não pode ultrapassar 24 nós). Em relação à niari-
Até 31 de dezembro de 1921 foram construídos 112 navios com nha de guerra o problema é outro, pois os seus objetivos são bé
698.979 toneladas DWC e comprados no exterior 143 com licos, não de caráter econômico.
845.049 toneladas. A Real Marinha recuperou 60, com 131.725
toneladas e foram incorporados pela Veneza Júlia 210, com
As máquinas marítimas capazes de imprimir grandes velo
cidades são insaciáveis devoradoras de combustível. A velocidade
763.945 toneladas. Assim, o aumento global foi de 535 navios, segue a lei dos rendimentos decrescentes, ao contrário da lei que
com 2.437.698 toneladas, dando à frota um total de 856 barcos
regula o tamanho do navio. Há vinte anos: velocidade de 11 nós,
com 3.297.987 toneladas. Até fins de 1926 a Itália construiu
custo-horário de 295 liras; 13 nós, 370 liras; 21 nós, 1.800 li
mais 33 navios, com um total de 239.776 toneladas brutas. ras. Ao critério das viagens curtas, opôs-se o critério das viagens
As motonaves tendem a aumentar em relação aos vapores. cômodas (hoje o rádio, e especialmente o avião, para quem tem
As 763.945 toneladas provenientes da Veneza Júlia resultaram de necessariamente pressa, compensam a pequena velocidade relati-

226 227
va dos navios de luxo; através do rádio pode-se sempre manter mou-o sobre algumas sondagens que o negus Menelik fizera jun
contatos e não interromper os negócios; o avião proporciona dois to ao czar. O negus informara ao czar estar disposto a aceitar
efeitos: 1) percorrer em poucas horas espaços relativamente a mediação da Rússia para a conclusão da paz com a Itália, etc.
curtos (Paris-Londres, etc.) com segurança; 2) os transatlânticos Nigra conclui: "Para mim uma coisa é evidente, depois da ques
transportam inclusive aviões e, aproximando-se de uma distancia tão do Tratado de Uccialli, o negus desconfia de nós, suspeitando
segura do fim da linha, permitem aos mais apressados abreviar a sempre que o nosso plenipotenciário confunda as cláusulas acor
viagem). dadas. Esta desconfiança, que é invencível, aconselhou o negus a
Chegou-se à velocidade de 23 nós, seja modificando as má solicitar negociações através da Rússia com o objetivo de ter uma
quinas motrizes, seja adotando novo combustível. A turbina subs testemunha idônea e poderosa. A coisa é dura para o nosso amor-
tituiu as máquinas a motor alternado; o motor diesel tende a -próprio, mas, inevitavelmente, o nosso país deve-se persuadir de
substituir a turbina. O combustível líquido substitui o carvão. No que quando se utilizam diplomatas como Antonelli, generais como
tável economia que permitiu uma nova velocidade econômica Baratieri, e ministros como Mocenni, não se podem abrigar dema
(23 nós). siadas pretensões". ("Mãos vazias, mas sujas", maquiavelismo de
regatão, etc.)
Novas e velhas construções. Um navio novo, que represen
te um grande progresso, desvaloriza de imediato, automaticamen A diplomacia italiana antes de 1914. Documento muito in
te, todos os precedentes. O velho navio deve ser encostado, trans
teressante e curioso sobre o assunto é o livro de Alessandro De
formado se possível, ou destinado a outros transportes. Os velhos Bosdari, Delle guerre balcanichc, delia grande guerra e di alcuni
navios rendem pouco ou nada (mesmo se amortizados parcial fatti precedenti ad esse (ed. Mondadori). A Nuova Antologia de
mente), quando não são muitas vezes passivos. Por isso, devido 1.° de setembro de 1927 reproduz um capítulo do livro: A Eclo
aos contínuos progressos técnicos, os atuais transatlânticos devem são da Guerra Balcânica Vista de Sófia, onde se lêem amenidades
amortizar o capital em pouco menos de um decênio. (É em vir
tude disso que, ao avaliar a eficiência real das várias frotas na
deste gênero: "Não posso negar que a profunda convicção que
adquiri desde os últimos meses de 1911 sobre a orientação austria-»
cionais, além do número das unidades e da soma total da tonela-
gem, é necessário levar em conta a idade dos barcos; o que expli ca, segura e permanente guia do czar dos búlgaros em toda a
ca também como o rendimento das frotas inferiores em tonela-
sua política externa, impediu que visse claramente as pretensões
da Liga Balcânica e a iminência da guerra contra a Turquia. Mui
gem é superior ao de frotas que, estatisticamente, são maiores;
além do problema de maiores riscos (seguros e perigos para as
tos anos depois não sei bem (!) como recriminar a mim mesmo,
vidas humanas representados pelos velhos navios).
pois se não vi a aproximação de ura fato acessório (?!) e por
assim dizer (!) episódico (!) da política búlgara, isto só ocorreu
porque via com bastante clareza (e o diz seriamente) a linha
principal. Foi, como se costuma dizer, um fenômeno de presbitis-
A diplomacia italiana — Costantino Nigra e o tratado de mo político; e em política o presbitismo é melhor que a miopia,
Uccialli. A Nuova Antologia de 16 de novembro dé 1928 publica
como esta é indubitavelmente melhor que a cegueira absoluta, da
um artigo de Carlos Richelmy, Lettere inedite di Costantino Ni qual, devo dizê-lo para aliviar-me (!), deram provas naquela e
gra, com uma carta (ou extratos de uma carta) escrita em 28 de em muitas outras ocasiões muitos colegas meus."
agosto de 1896 por Nigra a um "caro amigo", que Richelmy
O trecho é interessante sob muitos aspectos, além daquele
acredita poder identificar como o Marquês Visconti-Venosta, pois
particular de juízo sobre a diplomacia italiana. O candor ameno
com ele, naqueles dias, Nigra trocou alguns telegramas sobre o leva De Bosdari a dizer abertamente aquilo que outros pensam
mesmo assunto. Nigra informa que o Príncipe Lobanov (talvez
para justificar os próprios erros e não dizem abertamente, desta
embaixador russo em Viena, onde Nigra era embaixador) infor-
forma. Existe uma linha não formada por "fatos acessórios" e
228 229
por "episódios", como diz De Bosdari? E compreender uma li tamente divulgado pelos alemães no Bund, Jornal suíço) e as ra
nha não significa compreender e, portanto, prever e organizar es zões do retardamento na declaração de guerra à Alemanha (o que
ta cadeia de fatos acessórios? Quem fala de linha neste sentido, provocou a desconfiança da Entente em relação à Itália, do que
na realidade pretende dizer uma "categoria de sociólogos", uma se aproveitou Sisto de Bourbon).
"abstração". Adivinha algumas vezes? Adivinha, mas a este respei
to poder-se-ia citar o pensamento de Guicciardini sobre a
obstinação. Tittoni. A partir de 1923 a opinião de Tittoni adquiriu mui
A propósito do incidente de Carthage e de Manouba, entre ta importância na elaboração da política externa do govêrno. Se
a Itália e a França, é preciso confrontar a versão dos fatos dada guir a atividade prática e literária de Tittoni nestes anos. Sua cole
por Alberto Lumbroso no segundo volume do seu calhamaço tânea de artigos sôbre política externa, de 1928, Quistioni dei
Origini economiche e diplomatiche delia guerra mondiale (Cole giorno, foi precedida de um interessante prefácio político do Che
ção Gatti, ed. Mondadori) com o parágrafo de Tittoni {Vera- fe do governo. — Passado de Tittoni — Sua atividade — Juízos
cissimus!) dedicado ao incidente, no artigo / documenti díploma- de diplomatas estrangeiros sobre Tittoni (ver os Carnets de Geor-
tici francesi (1911-1912), publicado na Nuova Antologia de 16 ges Louis, etc.) — Suas relações com Isvolskij (Livro Negro de
de agosto de 1929 e talvez republicado em livro (nas edições Tre- Marchand) — Tittoni como literato e a sua fixação pedantesca,
ves dos livros de Tittoni). A exposição de Tittoni evidentemen curiosa, porque a Nuova Antologia publica coisas horrorosas do
te nao e clara, mas reticente: ora, éle era exatamente o embaixa ponto de vista da língua, especialmente traduções, etc. Ver o arti
dor italiano em Paris e, segundo Lumbroso, foi a ele que Poin- go Per Ia verità stórica, assinado por Veracissimus, na Nuova An
caré se dirigiu assegurando que o Carthage e o Mamouba não tologia de 16 de março a 1.° de abril; nele, o autor (Tittoui) fa
continham contrabando de guerra e solicitando que telegrafasse la das suas relações com Isvolskij, das suas relações com a im
a Roma para que não detivessem os dois barcos. Ê estranho como prensa francesa (num relatório publicado pelo Livro Negro,
Tittoni, que é tão sensível no que se refere à sua carreira, não se Isvolskij alude às grandes somas que Tittoni distribuiu à impren
refira a Lumbroso, seja para desmenti-lo, ou para diminuir o sa no período da guerra* líbica, etc.) e faz referencias interes
efeito da sua versão. Entretanto, é preciso lembrar que Tittoni santes à reunião de Racconigi, de 1909. Recordar o livro de
parece desprezar as grosserias de Lumbroso, e este reprova-o por Alberto Lumbroso sobre as causas econômicas da guerra e as
não levar em conta os documentos alemães sobre a guerra e de suas alusões a Tittoni (no episódio do Carthage e do Manouba,
ser, por isso, germanófobo (naquilo que se refere às responsabili ao qual se refere Lumbroso, que responsabilidade cabe a Tit
dades pelo desencadeamento do conflito). toni?). No artigo há também uma alusão grosseira (de mercador
do campo, diria Georges Louis) à atual ■ Embaixada Russa em
Paris e aos seus possíveis contatos com o Conde Manzoni. (Por
Na resenha do livro de Salandra, La neutralità italiana, de que este animus particularmente agressivo de Tittoni? Recordar
Giuseppe A. Andriulli, publicada em Italia che scrive de maio de o escândalo provocado em 1925 — parece — por Tittoni como
1928, há uma referência a que antes de Sonnino assumir o Mi Presidente do Senado, em virtude do qual o governo teve de pe
nistério do Exterior, o Ministro San Giuliano iniciara tratativas dir escusas). O episódio mais interessante da vida de Tittoni é
com a Entente e que os colaboradores de San Giuliano afirma a sua presença em Nápoles como prefeito num período de gran
vam que estas negociações haviam sido encaminhadas de modo des escândalos: pode-se encontrar o material na imprensa da épo
bastante diverso daquele de Sonnino, especialmente em relação ca (talvez em Propaganda, etc.)
à parte colonial. Por que estas negociações foram suspensas por
Sonnino e, ao contrário, se iniciaram negociações com a Áustria?
Salandra também não explica as razões do acordo com a Alema Deve ter havido durante longo período uma censura preven
nha sobre as propriedades, de maio de 1915 (acordo imedia- tiva ou um compromisso dos diplomatas e homens de Estado ita-

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lianos em geral de não escrever as suas memórias, tão escassa é bém pode-se perguntar se a política italiana não contribuiu e con
a literatura do gênero. A partir de 1919, temos certa abundância tribui ainda hoje para endurecer estas relações. Segundo parece,
relativa, mas a qualidade deixa muito a desejar. (As memórias a indagação principal deve ser no seguinte sentido: o baixo nível
de Saiandra são "inconcebíveis" naquela forma rústica.) O livro individual da renda nacional deve-se à pobreza "natural" do país
de Alessandro De Bosdari, Delle guerre balcaniche, delia grande ou a condições histórico-sociais criadas e mantidas por uma de
guerra e di alcuni fatti precedenti ad esse (Milão, Mondadori, terminada diretriz política, que transforma a economia nacional
1927, 225 págs.), segundo uma nota de P. Silva na Italia che numa espécie de tonei das Danaides? O Estado não custa muito
scrive de abril de 1928, é destituído de importância pelo fato de caro, entendendo por Estado, como é necessário, não só a admi
o autor insistir especialmente em relatar pequenos fatos pessoais nistração dos serviços estatais, mas também o conjunto das classes
e não saber, retratar orgânicamente a sua atividade através de que o compõem em sentido estrito e o dominam? Logo, será pos
uma exposição dos acontecimentos que lance sobre eles uma luz sível pensar que sem uma mudança destas relações internas a si
útil qualquer. tuação poderá mudar para melhor, mesmo se internacionalmente
as relaçqes melhorassem? Pode-se também observar que a projeção
do problema no campo internacional pode funcionar como um
A questão italiana. Devem-se examinar os discursos pronun- álibi político diante das massas do país.
■ ciados pelo Ministro do Exterior Dino Grandi no Parlamento, Mesmo partindo de que a renda nacional seja baixa, mesmo
em 1932, e as discussões que eles suscitaram na imprensa italia assim ela não será depois destruída (devorada) pelo excesso de
na e internacional. O deputado Grandi situou a questão italiana população passiva, tornando impossível toda capitalização pro
como questão mundial, a ser necessariamente resolvida juntamen gressiva, inclusive num ritmo mais lento? Portanto, a questão
te com as outras que constituem a expressão política da crise geral também deve ser examinada, e será necessário estabelecer se a com
do após-guerra, intensificada em 1929 de modo quase catastró posição demográfica é "sadia", mesmo em relação a um regime
fico, e que são: o problema da segurança francesa, o problema capitalista e de propriedade. A pobreza relativa "natural" dos
alemão' da paridade de direitos, o problema de uma nova dis países na civilização moderna (e também em tempos normais ela
posição dos Estados danubianos e balcânicos. A formulação do tem uma importância relativa) impedirá, na maioria dos casos,
deputado Grandi é uma tentativa hábil de obrigar todo possívèl determinadas vantagens marginais de "posição" geográfica. A ri
congresso mundial convocado para resolver estes problemas (e queza nacional é condicionada pela divisão internacional do tra
cada tentativa da atividade diplomática normal) a tratar da balho e por se ter sabido escolher, entre as possibilidades que esta
"questão italiana" como elemento fundamental da reconstrução e divisão oferece, a mais racional e rentável para cada pais. Trata-
pacificação européia e mundial. se, assim, essencialmente, de "capacidade dirigente" da classe ew-
Em que consiste a questão italiana, de acordo com esta for nômica dominante, do seu espírito de iniciativa e de organização.
mulação? Consiste no seguinte: que o incremento demográfico Se não existem estas qualidades, e a administração econômica ba
está em contradição com a pobreza.relativa do país, isto é, na seia-se fundamentalmente na exploração brutal das classes traba
existência de uma superpopulação. Seria necessário, portanto, dar- lhadoras e produtoras, nenhum acordo internacional pode sanar
se à Itália a possibilidade de se expandir, seja economicamente, a situação. Na História moderna não há exemplo de colônias de
seja demograficamente, etc. Mas não parece que a questão for "povoamento"; elas jamais existiram. A emigração e a coloniM-
mulada dessa maneira seja de fácil solução e não possa dar lugar ção seguem o fluxo dos capitais investidos nos vários países, e não
a objeções fundamentais. Se é verdade que as relações internacio o contrário. A crise atual, que se manifesta especialmente na que
nais, da forma como se vêm enrijecendo a partir de 1929, são da dos preços das matérias-primas e dos cereais, mostra que o
muito desfavoráveis à Itália (especialmente o nacionalismo eco problema não é de modo algum de riqueza "natural" para os vá
nômico e o "racismo" que impedem a livre circulação não só de rios países do mundo, mas de organização social e de utilização das
mercadorias e capitais, mas sobretudo de trabalho humano), tam- matérias-primas para determinados fins. Que a crise é de orga-
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nização e de orientação político-econômica, demonstra-o, inclusi ção, Abha, Muhail e Sani Shahr, isto é, o extremo do Asir seten
ve, o fato de que todo país moderno teve "emigração" em deter- trional, assegurando-lhe uma saída para o Mar Vermelho. Os
nadas fases do seu desenvolvimento econômico, mas esta emigração wahabitas ocuparam aquelas terras, servindo-se delas para melhor
cessou e em muitos casos foi reabsorvida. lutar contra o Heggias (Hussein). Em 1926 (8 de janeiro) os
Prova de que não se pretende (ou não se podem) modificar wahabitas vitoriosos proclamaram Ibn Saud rei de Heggias. Os
as relações internas (e nem mesmo retificá-las racionalmente) é wahabitas revelaram-se os mais capazes de unificar a Arábia:
a política da dívida pública, que aumenta continuamente o peso Yahyà, através de uma proclamação de 18 de junho de 1923, co
da passividade "demográfica", exatamente quando a parte ativa da
população é pressionada pelo desemprego e a crise. Diminui a locara a sua candidatura a califa e a líder da nação árabe. Reali
renda nacional, aumentam os parasitas, a poupança se restringe zando campanhas vitoriosas, conseguiu assegurar o controle efetivo
e é desinvestida do processo produtivo para ser lançada na dívida dos numerosos sultanatos e tribos do chamado Hadramaut e res
pública, fator-causa de novo parasitismo absoluto e relativo. tringir sensivelmente o hinterland de Aden, sem esconder as suas
pretensões sobre a cidade. Em seguida, lançou-se contra o emir
do Asir (que considerava um usurpador) e conquistou toda a
Itália e lêmen na nova política árabe. Artigo de "Três Es parte meridional até Loheyyah, inclusive Hodeidah, entrando em
trelas" na Rivista dltalia de 15 de julho de 1927. Tratado contato com os wahabitas que haviam ampliado, a pedido do emir,
de Sana, de 2 de setembro de 1926, entre Itália e lêmen. a sua ocupação do Asir. O emir de Asir deixou-se levar pelo ex-
O lêmen é a parte mais fértil da Arábia (Arábia feliz). Foi Senussi a atos de hostilidade contra a Itália. O ex-Senussi era hós
sempre autônomo de fato, sob uma dinastia de imames que des pede de Ibn Saud em Meca, depois da sua expulsão de Damasco
cendem de el-Usein, segundo filho do Califa Ali e de Fátima, filha (dezembro de 1924).
de Maome. So em 1872 os turcos estabeleceram o seu domínio
no lêmen. Em 1903, insurreição, que só em 1904 teve no novo Em virtude do tratado ítalo-iemenita, Yahyà tem reconheci
imame Yahyà ibn-Mohammed Hamid, de 28 anos, o seu chefe. do o seu título régio e a plena e absoluta independência. O lemen
Vencido em 1905, Yahyà recomeçou a luta em 1911, ajudado pela importará as mercadorias que lhe são necessárias da Italia, etc.
Italia que estava em guerra contra a Turquia, e consolidou a sua (Ibn Saud assinou, em 26 de dezembro de 1915, um tratado com
independência. Na guerra européia Yahyà colocou-se ao lado da a Inglaterra, assegurando a posse não só do Neguid, mas também
Turquia por opor-se a política inglesa de fortalecimento do xeque de el Hasa, el-Catif e Giubeil, em troca do seu desinteresse pelo
Hussein (que se proclamou rei da Arábia em 6 de novembro de
Kuwait, el-Bahrein e Omâ que, como se sabe, estão sob proteto-
1916) e de independência do Asir. Depois da paz, superado o rado inglês. Numa discussão na Câmara dos Comuns, em 28 de
programa unitário de Hussein, que abdicou em 1924 e em 1925
foi confinado em Chipre, permaneceu a questão do Asir. O Asir novembro de 1922, informou-se oficialmente que Ibn Saud re
era um emirato durante a guerra ítalo-turca. Ali estabelecera-se o cebia do governo inglês um estipêndio regular. Pelos tratados de
famoso profeta marroquino Ahmed ibn-Idris el-Hasani el Idrisi, 1 e 2 de novembro de 1925, depois da conquista de Hegiaz, Ibn
CUJO descendente, hfohammed Ali, conhecido por xeque Idris du Saud aceitou limites bastante desvantajosos com o Iraque e a
rante a guerra líbica, apoiado pela Itália, levantou as tribos do Transjordânia, que Hussein não quisera aceitar, o que demonstrou
Asir. Reconhecido emir independente em 1914 pelos ingleses, o seu entendimento sólido com a Inglaterra). O tratado italo-ieme-
Mohammed colaborou com Hussein e obteve dos ingleses o Tiha- nita provocou muitos rumores: falou-se de uma aliança política e
mah com Hodeidah; entregou a uma companhia inglesa a conces militar secreta; de qualquer modo, os wahabitas não atacaram o
são das jazidas petrolíferas das ilhas Farsan. Pressionado por Hus lêmen. (Falou-se de atritos ítalo-ingleses, etc.).
sein ao Norte e por Yahyà ao Sul, o emir ligou-se em 1920 ao Rivalidade entre Ibn-Saud e Yahyà: ambos aspiram a pro
sultão do Neguid (Ibn Saud), cedendo-lhe, para ter a sua prote- mover e dominar a unidade árabe.

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Wahabitas: seita muçulmana fundada por Abd el-Wabab, que na, cujo porto transforma no centro da sua influência no Levan
procurou crescer pela força, obteve muitas vitórias, mas foi repe te. Os artigos 8 e 9 do Pacto de Londres dizem: "A Itália ficará
lida para o deserto pelo famoso Mehemet Ali e por seu filho com a soberania total do Dodecaneso. Em ■ caso de divisão total
Ibrahim paxá. O Sultão Abdala, capturado, foi justiçado em Cons- ou parcial da Turquia, ela obterá a região mediterrânea próxima
tantinopla (dezembro de 1918), e seu filho Turki conseguiu a da província de Adália, para o que já tem (!) uma convenção
duras penas manter um pequeno Estado no Neguid. Os wahabi com a Inglaterra." Em San Giovanni di Moriana, a Itália apre
tas pretendem voltar à terra pura do Alcorão, libertando-se de to senta de novo as suas exigências (21 de abril de 1917). Venize-
das as superestruturas tradicionais (culto dos santos, ricas deco los, aproveitando-se da partida de Orlando e Sonnino de Paris, leva
rações das mesquitas, pompas religiosas). Conquistada Meca, der os aliados a entregar Smirna à Grécia.
rubaram cúpulas e minaretes, destruíram os mausoléus de profe janeiro de 1926, no discurso de Milão, Mussolini
tas célebres, entre os quais o de Khadigia, a primeira mulher de diz: "É necessário confiar na revolução, que em 1926 terá o seu
Maomé, etc. Ibn Saud expediu ordens contra o vinho e o fumo, ano napoleonico." Em 19^6 não se produziu nada de verdadeira
proibiu o beijo da "pedra negra" e a invocação a Maomé segundo mente notável, mas por duas vezes esteve-se à beira de aconteci
a fórmula da profissão de fé e das preces. mentos sérios.
As iniciativas puritanas dos wahabitas provocaram protestos Cessão de Mossul ao Iraque (isto é, aos ingleses). A Tur
no mundo muçulmano; os governos de Pérsia e do Egito protes quia cedeu diante da iminência de uma intervenção italiana, de
taram. Ibn Saud adotou uma atitude mais moderada. Yahyà pro pois de ter em vão solicitado a ajuda militar de Moscou em caso
cura especular à base desta reação religiosa. Yahyà e a maioria de conflito no Meandro e no Tigre. Os jornais londrinos confes
dos iemenitas seguem o rito zeidita, isto é, são heréticos para a sam ingenuamente que o sucesso de Mossul deve-se à pressão ita
maioria sunita dos árabes. A religião está contra ele, que por isso liana; mas o governo inglês não se preocupa muito com a Itália,
procura apoiar-se na nacionalidade e no fato de descender do pro que no jogo anatólio perdeu em 1926 as suas duas melhores car
feta para reivindicar a dignidade de califa. (Na moeda que tas: o Acordo de Mossul e a queda de Pangalos.^
cunhou, está escrito: "cunhada na sede do califado, em Sana.")
A sua região, sendo das mais férteis da Arábia, e a sua posição
geográfica oferecem-lhe determinadas possibilidades econômicas. Itália e Egito. Artigo de Romolo Tritoni na Nuova Antolo
Parece que o lêmen tem 170.000 km^ de superfície, com uma gia de 26 de novembro de 1828: Le Capitolazioni e VEgitto (que
população entre 1 e 2 milhões de habitantes. No planalto a po seria um capítulo de um Manuale di quistioni politiche delVOriente
pulação é árabe pura, branca; na costa, é predominantemente ne rriusulmano, a ser publicado proximamente, mas que não vi anun
gra. Existem elementos de aparelho administrativo, escolas primá ciado ou comentado. Tritoni é também autor de um volume: Ê
rias, exército com recrutamento obrigatório. Yahyà é empreen giunto il momento di abolire le Capitolazioni in Turchial, publi
dedor e de tendências modernas, mas cioso da sua independência. cado em Roma em 1916, e é colaborador assíduo da Nuova Anto-
Para a Italia, o lemen e o trampolim para o mundo árabe.
^orrespondant de 25 de julho de 1927 (ver Rivista d'Italia de
Itália e Ãsia menor. Artigo de Roger Labonne no Corres-
j. não tenha
d Italia úe 1927: talvezmuito
circulado haja erro na da
depois data,
dataa assinalada,
menos que publica
a Rivistao
pondant de 10 de janeiro de 1927, sobre o tema Italia e Asia mi artigo La pression italienne, que diz: "O Duce, sabemo-lo de fonte
nore. A Itália interessa-se pela primeira vez em 1900 pela Ásia segura, duas vezes teria tentado ir à guerra depois de assumir o poder:
v®zes o Marechal Badoglio teria se recusado a assumir as respon
Menor; envia uma série de missões que estudam a Anatólia meri sabilidades, solicitando e obtendo que se esperasse até 1935 para se
dional, estabelece em Adália um vice-consulado, escolas, um hos ®®Rurança." O discurso sobre o ano crucial é de junho de
pital, subvenciona as linhas de navegação cujos navios levam a
sua bandeira ao longo do litoral. Interessa-se sobretudo por Smir- esta !i ^orrespondant
aetenninação futura. procuraria, assim, édar
O Correspondant umauma explicação
revista sobre
conservadora-
católica bastante conceituada.

236 237
se procura desnacionalizá-la. Abolição das Convenções significa
logia e da Política de Coppola. Quem é? Ê um dos velhos nacio
nalistas? Não me lembro. Parece-me sério e informado: é espe
desnacionalização da emigração (outra questão, devido ao fato
de que a Itália é potência exclusivamente mediterrânea, e tôda
cialista em questões do Oriente Próximo. Ver).
mudança neste mar interessa a ela mais do que a qualquer outra
É favorável às Convenções, especialmente no Egito, de um potência).
ponto de vista europeu e italiano: sustenta a necessidade da uni
dade entre os Estados europeus em torno da questão, mas prevê Naturalmente, Triton] desejaria, com estas opiniões, manter
que a unidade de ação não será mantida, em virtude da divergên os egípcios amigos, e reconhece que "é de capital importância para
cia da Inglaterra. Com os quatro pontos sobre o Egito, a Ingla nós sermos amigos do país deles".
terra já tentou afastar-se da Europa afirmando que se reservaria A Etiópia de hoje. UEtiopia d'oggi (artigo da Rivista dita-
a "proteção dos interesses estrangeiros", cláusula não clara, pois lio,^ assinado por "Três Estrelas"). A Etiópia é o único Estado
parecia que a Inglaterra arrogava a si a proteção, excluindo as indígena independente numa África definitivamente européia (além
outras potências; mas foi explicado que na próxima conferência da Libéria). Menelik foi o fundador da moderna unidade etíope:
sobre as Convenções a Inglaterra participaria em pé de igualdade os nacionalistas abissínios inspiram-se em Menelik, o "grande e
com os outros Estados convencionais.
bom imperador". Dois dos elementos que contribuíram para as
A Inglaterra tem no Egito uma colônia muito pequena segurar a independência da Etiópia são evidentes: a estrutura geo
(abstraindo-se os funcionários britânicos da administração egípcia gráfica do país e a competição entre as potências. A estrutura geo
e os militares) e aceitando a abolição das Convenções venderia a gráfica faz da Etiópia um imenso campo entrincheirado natural,
pele dos outros. Para conquistar as graças dos nacionalistas, co capaz de ser expugnado só com o emprego de forças incomensu-
locaria em má situação os outros europeus (este é o ponto deli raveis e de sacrifícios desproporcionais às escassas reservas eco
cado que pressiona sobre os italianos: eles desejariam ter os nacio nômicas que o país pode oferecer ao eventual conquistador. A
nalistas como amigos, mas fazer a política da colônia italiana no região de Choa, berço da unidade abissínia, é por sua vez uma
Egito deixando a odiosidade da situação criada sobre as costas da fortaleza no campo trincheirado, dominando e controlando tudo.
Inglaterra. Ver nas revistas as opiniões sobre os acontecimentos No último trintênio foi criado um exército imperial, diferente dos
egípcios de 1929-30: são contraditórios, confusos; a Itália é fa pequenos exércitos do ras e tecnicamente superior a êles; deve-se
vorável às nacionalidades mas..., etc.; a mesma situação, no que a Menelik a criação do exército nacional.
se refere à índia, mas no Egito os interesses são muito fortes, e Antes da morte de Menelik (1913) a Corte, devido à deca
as repercussões das opiniões mais imediatas). dência intelectual do velho imperador, proclamou (14 de abril
A colonia italiana no Egito é muito selecionada; é daquele de 1910) imperador Lig Jasu, filho de uma filha de Menelik e do
tipo cujos elementos chegaram ja à terceira ou quarta geração, ras Mikael. Com a morte de Menelik (11 de dezembro de 1913),
passando do emigrado proletário ao industrial, comerciante, pro as lutas se desencadearam; Zeoditu, outra filha de Menelik, e ras
fissional; mantendo o caráter nacional, aumentando a clientela co Tafari, filho do rasf Makonnen, uniram-se.e conseguiram agrupar
mercial da Italia, etc. (seria interessante ver a composição social um grande número de partidários. Tafari tinha os jovens ao seu
da colônia italiana; entretanto, é bastante provável que um consi lado. Ras Mikael, tutor de Lig Jasu, ainda menor, foi incapaz de
derável número de emigrados, depois de três ;ou quatro gerações, impor-se às facções, de assegurar a ordem pública, como ficou
tenha subido na escala social; de qualquer modo, as Convenções demonstrado durante o assalto de 17 de maio de 1916 à Legação
dão unidade à colônia e permitem aos funcionários italianos e aos italiana. A guerra européia livrou a Abissínia de uma intervenção
burgueses controlar toda a massa dos emigrados). estrangeira e possibilitou ao país superar a crise sozinho. Zeoditu
e Tafari uniram-se para destronar Lig Jasu e dividir o poder entre
Nos países do Mediterrâneo onde* foram abolidas as Conven
ções, a emigração italiana ou cessou, ou foi gradualmente elimi
nada (Turquia), ou se encontra nas condições da Tunísia, onde 1 Rivista d'ItaUa, março de 1927, págs. 343-352. (N. e I.)

239
238
eles; Zeoditu como imperador nominal, o outro herdeiro do tro do Nilo e a regularização das águas desse rio e dos seus afluentes;
no e regente (27 de setembro de 1916). para a Itália, o interior das suas colônias da Eritréia e da Somália
Tafari, apoiado pelos chefes militares, soube com energia e c a ligação territorial entre elas e Adis Abeba; para a França, o
habilidade reduzir o país à obediência. Mas o condomínio com interior de Djibuti e a zona necessária à construção e ao tráfego
Zeoditu oferecéu permanentes motivos para intrigas palacianas da ferrovia Djibuti-Adis Abeba. As três potências comprome
nem sempre inócuas. tiam-se a ajudar-se mutuamente na proteção dos seus respectivos
No fim de 1926 ou princípio de 1927, desapareceram quase interesses.
simultaneamente o Ministro da Guerra, fitaurari Hapte Cheorghes, ^ O acordo foi concebido em "três tempos" entre a Itália e as
e o chefe da Igreja, abuna Mattheos. A morte do abuna trouxe potências ocidentais, isto e, quando se desenvolvia plenamente
à tona o problema da Igreja nacional. A Igreja etíope reconhecia aquele vasto programa de alianças mediterrâneas (o acordo de
a autoridade do patriarca copta de Alexandria,' que nomeara para Londres foi concluído no máximo em 6 de julho, três meses de
o alto cargo de abuna um egípcio (Mattheos era egípcio). O na pois de Algesiras), programa suspenso alguns anos depois em vir
cionalismo abissínio pretendeu um abuna abissínio. O abuna tem tude da pressão (!) do Estado-Maior austríaco. Assim, à polí
na Abissínia uma importância enorme (maior do que o arcebispo- tica de colaboração sucedeu uma luta mesquinha: a única a ga
primaz da Gália, na França), e o fato de que seja estrangeiro nhar foi a França, que pode prolongar a ferrovia até Adis Abe
representa perigos, não obstante a sua autoridade ser coadjuvada, ba. A diplomacia sustenta que o acordo de Londres foi submeti
e em certo sentido controlada, pelo echegheh indígena, do qual do antecipadamente a Menelik e só foi assinado depois de ele
dependem diretamente as numerosas ordens monásticas. A par dar a sua aprovação aos ministros das três potências junto ao seu
ticipação de Mattheos no golpe de Estado de 27 de setembro de governo. Desse modo, os pontos do acordo seriam também con
1926, a favor de Tafari, mostrou o que poderia ocorrer. (Quan cessões implícitas (!) da Abissínia: algo como a situação do fa
do o artigo foi publicado o patriarca de Alexandria ainda resistia moso Tratado de Uccialli, ainda piorado.
à pretensão abissínia. Ver o encaminhamento da questão.) A Depois da guerra européia, durante as negociações sobre as
Abissínia tem uma capital religiosa: Axum. compensações coloniais fixadas pelo Pacto de Londres, a Itália
Tafari procurou imprimir um ritmo novo à política externa propôs o revigoramento do acordo de 1906, pretendendo com isto
abissínia. Menelik tentara limitar a escravidão e introduzir o en resolver o problema da ligação ferroviária da Eritréia com a So
sino obrigatório, orientando o Estado para formas modernas, mas mália. Mas Londres e Paris se recusaram. A França não tinha
mantinha uma atitude de isolamento desconfiado. Tafari, ao con mais nada a exigir da Abissínia depois da ferrovia Djibuti-Adis
trario, procurou participar da vida européia e conseguiu admitir Abeba, a Inglaterra acreditava poder obter tudo sem unir-se à Itá
o seu pais na Liga das Nações, comprometendo-se formalmente lia. Mas, depois, a Inglaterra fez o acordo de 1925 (duas notas
a extirpar no mais breve prazo possível a escravidão. Na realida trocadas entre Mussolini e o embaixador inglês em Roma, nos dias
de, baixou um decreto que impunha a gradual libertação dos es 14 e 20 de dezembro de 1925). Pelos seus termos: a Itália com
cravos, mas até agora sem resultados. Os escravistas são muito prometia-se a apoiar a Inglaterra nas suas tentativas para, obter
fortes. Além do mais, a Etiópia é ainda feudal. da Etiópia a concessão de trabalhos de barragem no Lago de
Convenção de Londres, de 13 de dezembro de 1906, entre Tana, na zona que em 1906 estava reservada à concessão italiana,
Itália, França e^hglaterra, pela qual os três países limítrofes com o a concessão para construir uma auto-estrada entre o Sudão e o
prometeram-se a respeitar o status quo político e territorial da Etió Lago de Tana; a Inglaterra, a apoiar a Itália na sua solicitação de
pia, a manter, em caso de disputas ou mudanças internas, a mais construir e explorar uma ferrovia entre a Eritréia e a Somália ita
estrita neutralidade, abstendo-se de qualquer intervenção nos ne liana, a oeste de Adis Abeba. A Inglaterra reconhece como da
gócios internos do pais. No caso do status quo ser perturbado Itália a influência exclusiva (!) sobre a zona ocidental da Etió
procurar manter a integridade territorial da Etiópia, tutelando em pia e em todo o território destinado a ser atravessado pela ferro
qualquer caso os respectivos interesses: para a Inglaterra, a bacia via, com o compromisso italiano de não realizar naquela zona, nas

240 241
nascentes do Nilo Azul, do Nilo Branco e dos seus afluentes, ne saída marítima natural das regiões da Abissínia setentrional e por
nhuma obra que possa modificar sensivelmente a sua afluência no to de trânsito natural das zonas centrais e meridionais da penín
rio principal. sula arábica, depois que Port Sudan passou a ser a saída de todo
A França reagiu vigorosamente a este acordo, apresentado o oeste sudanês e entrepôt da Arábia Setentrional.
como uma ameaça à independência abissínia. A campanha fran Dados de Cantalupo hoje ultrapassados. Problemas da Etió
cesa provocou graves repercussões entre os nacionalistas etíopes. pia: além do choque de influências entre Inglaterra, Itália e Fran
Ras Tafari montou duas gráficas para a imprensa em língua aramai- ça, potências limítrofes, que influências exercem ou podem exercer,
ca: desenvolvimento da literatura nacionalista incentivado por sobre Adis Abeba os Estados Unidos e a Rússia? Como único Es
Tafari; xenofobia. O Japão é o modelo do nacionalismo abissínio. tado indígena livre da África, a Etiópia pode-se tornar a chave
O artigo da Rivista d'ItaUa transcreve trechos de artigos e de toda a política mundial africana, isto é, o ponto de colisão das
opúsculos. Um estudante educado na América escreve: "Estude três potências mundiais (Inglaterra, Estados Unidos, Rússia). A
mos com vontade, estudemos muito para que não venham os es Etiópia poderia colocar-se à frente de um movimento pela África
trangeiros a governar-nos... Devemos estudar mais do que pu para os Africanos.^
dermos, porque se não estudarmos a nossa pátria será extermina
da." A França desperta menos suspeitas em Adis Abeba, porque,
depois de Fachoda, Djibuti para ela só tem importância como es O nacionalismo italiano. Primeiro congresso do Partido Na
cala no caminho da Indochina. Ademais, a ferrovia Djibuti-Adis cionalista (Associação Nacional) em Florença, em dezembro de
Abeba, que é utilizada para todo o comércio exterior da Etiópia, 1910, sob a presidência de Scipio Sighele, Gualtiero Castellini, Fe-
dá à França um monopólio que ela pretende conservar: a França derzoni, Corradini, Paolo Arcari, Bevione, Bodrero, Gray, Rocco,
pode, portanto, fazer uma política de aparente desinteresse. Dei Vecchio. Grupo ainda indistinto, que procurava cristalizar
Mas ras Tafari deseja que a Etiópia progrida e, assim, é fa em torno dos probleihas da política externa e da emigração as
vorável a outras ferrovias, obras hidráulicas, etc. Existe ainda en correntes menos grosseiras do patriotismo tradicional. É uma
tre a Etiópia e a Itália uma pequena questão a propósito dos li observação que se faz pouco, a de que na Itália, ao lado do cos-
mites com a Somália. Quando, depois da convenção de Adis Abeba mopolitismo e do patriotismo mais superficiais, sempre existiu um
de 16 de maio de 1908, a fronteira foi definida, a missão Citerni chauvinismo frenético, ligado às glórias romanas e das repúblicas
traçou os limites no próprio terreno apenas na parte referente ao marítimas e aos gênios individuais de artistas, literatos e cientis
Benadir. Deixou-se de lado a fronteira do sultanato de Óbia, que tas de fama mundial. O chauvinismo italiano é característico e
não apresentava urgência em virtude da situação especial daquele tem tipos absolutamente seus: era acompanhado de uma xenofobia
protetorado. Mas, hoje, óbia está sob ocupação italiana e é ne popularesca, também ela característica.
cessário fixar a linha fronteiriça com a Etiópia.
O primeiro nacionalismo compreendia muitos democratas e
liberais, e também maçons. Posteriormente, o movimento foi-se
Roberto Cantalupo, La Nuova Eritrea, Nuova Antologia distinguindo e adquirindo forma, graças a um reduzido grupo de
d© 1° de outubro de 1927. Funções da Eritréia: 1) econômica: intelectuais que saquearam as ideologias e os modos de pensar se
intensificar a sua capacidade produtiva e comercial de exportação cos, imperiosos, impregnados de desfaçatez e de suffisance de
e importação, procurando transformá-la num complemento da mãe Charles Maurras: Coppola-Forges Davansati-Federzoni. (Impor
pátria e torná-la ativa financeiramente; 2) política: dar à Eritréia tação sindicalista no nacionalismo.) Na realidade, os nacionalis-
uma posição e uma função de tal modo a tornar possível um maior 1 Sobre a situação social da Etiópia, em que a Igreja tem uma grande
contato com os Estados árabes da margem asiática do Mar Ver importância, determinada pela estrutura feudal, cr. Alberto Polleba,
melho; restaurar as relações econômicas entre Asmara e a região Lo Stato etiopico e Ia sua Chiesa, publicado sob os auspícios da R.
limítrofe do oeste abissínio, de modo que a Eritréia venha a ser a Società Geográfica (Pollera é um funcionário colonial italiano.)

242 243
tas eram antiirredentistas: a sua posição fundamental era anti- 2) A oposição entre combatentes e dispensados e embosca
francesa. Aceitaram o irredentismo porque não queriam que ele dos transformou-se, de fato privado, em fato de direito público;
fosse um monopólio dos republicanos e dos radicais maçons, isto e este é o aspecto mais grave da questão, pois permitiu que se for
é, uma arma da influência francesa na Itália. Teoricamente, a masse a opinião de que os dispensados eram verdadeiros "embos
política externa dos nacionalistas não tinha objetivos precisos: cados", não elementos indispensáveis para a atividade bélica, mes
aparecia como uma reivindicação imperial abstrata contra todos; mo se não combatentes com sanção oficial. Por lei, deve-se pre
na realidade, pretendia suprimir a francofilia democrática e tornar ferir um ex-combatente nas oficinas, etc. (Se houve emboscados
popular a aliança alemã. de verdade nas oficinas, estes devem ser procurados especialmen
Direção político-militar da guerra 1914-1918. Ver o artigo te entre os técnicos de segundo grau: a redução ao mínimo das
de Mário Caracciolo (coronel), II comando único e il comando operações de trabalho, determinada pelo limitado número de obje
italiano nel 1918, na Nuova Antologia de 16 de julho de 1929. tos fabricados e pela sua estrutura elementar, e o trabalho em sé
Muito interessante e indispensável para compilar definitivamente rie, restringiram a função de mestre de serviço a uma função de
esta rubrica. Caracciolo é escritor militar muito sério e que difi pura vigilância disciplinar: isto, unido à ampliação das instala
cilmente se deixa levar pela retórica. Escreveu um volume para ções, criou para muita gente que jamais tivera algo que ver com
a coleção Gatti, de Mondadori: Le truppe itáliane in Francia. a indústria a possibilidade de emboscar-se. Estes são verdadeiros
Por ora interessa-me um particular, ligado a repetida afirma emboscados, pois o posto podia ser confiado a empregados velhos
ção de Caracciolo sobre a insuficiência do parque industrial ita da própria fábrica. Assim, não se pode falar de emboscados quan
liano, por volta de janeiro-fevereiro de 1918 (cf. o volume de do se trata dos camponeses que então entraram em quantidades
Caracciolo citado para estabelecer exatamente o fato). A Itália notáveis nas fábricas, diretamente dos campos ou enviados pelas
enviou à França 60.000 homens, trabalhadores auxiliares, "que autoridades militares. Em Turim, os serventes das oficinas eram,
tínhamos disponíveis porque a nossa indústria ainda não pudera em grande parte, soldados auxiliares de origem camponesa.) Nes
dar-nos todas as armas necessárias para equipá-los". Este elemen tes regulamentos sobre a admissão de desocupados nem ao menos
to pode acarretar algumas conseqüências: se faz menção ao caso especial dos reformados, para os quais o
fato de não terem sido combatentes é ainda mais involuntário.
1) Como é politicamente erroneo chamar "emboscados" os
Na Itália, com o restrito parque industrial comparado com as ne
cidadãos ligados à indústria de guerra. Eram eles necessários e cessidades de tempo de guerra, o problema é espinhoso: neces
indispensáveis à atividade bélica? Eram tão necessários que resulta sariamente, a indústria metalúrgica e mecânica, mas parcialmente
terem sido tão poucos entre nós os "emboscados", de tal modo a também outras indústrias (química, madeireira, têxtil) devem ser
tornar inutilizáveis na Itália 60.000 homens. Esta propaganda mobilizadas e, como a produção, devem ser teoricamente ilimita
contra os pseudo-emboscados teve conseqüências deploráveis; já das, inclusive ampliadas: portanto, não só devem permanecer nas
antes do armistício foram enviados a Turim grupos de assalto que oficinas as velhas mestranças, mas novas admissões devem ser fei
começaram imediatamente a caça ao "emboscado"; na saída das tas. Em virtude disso, a composição do exército será predomi
oficinas, os homens que usavam as braçadeiras dos dispensados nantemente camponesa, enquanto a maior parte dos operários, ou
e, depois, nas ruas centrais, eram agredidos, porreteados e golpea pelo menos uma boa parte, deverá trabalhar para prover o equi
dos em pleno rosto; os episódios foram crescendo e culminaram pamento e o municiamento. A transformação desta necessidade
na noite do Ano Novo de 1919, com as ocorrências do palácio num elemento de agitação demagógica e a sua legalização num
SiccardF. A censura não permitiu que se fizesse nenhuma referên plano de inferioridade para os trabalhadores da indústria pode
cia a estes acontecimentos. rão acarretar a seguinte conseqüência (na ausência de uma solu
ção orgânica que é difícil: rotação entre fábrica e frente, etc.):
1 A sede da Câmara do Trabalho. (N. e I.) só desejarão ficar nas oficinas os boas-vidas, e a produção sofrerá

244 245
uma crise, em outras palavras, a guerra poderá ser perdida nas
fábricas, por falta de rendimento.
surja uma reação que, ademais, é mais difícil do que a crítica ao
lugar-comum precedente, como se depreende da crítica de Omo-
deo ao livro de Volpe. "Absolvidos" os soldados, a massa militar
A Nuova Antologia de 16 de junho de 1929 publica uma pe executiva e instrumental {"Voutil tactique êlêmentairé'*, definição
quena nota assinada por G.S. (ou talvez fosse C.S., isto é, Ce-
de soldados atribuída por Anatole France a um general), sente-se
que o processo não terminou: a polêmica entre Volpe e Omodeo
sare Spelanzon? Seria grossa!) Benes Vimmemore, bastante curiosa,
pois ela afirma que a "política das nacionalidades" foi desejada sobre os "oficiais convocados" é interessante como indício. Pa
pelos nossos mais lúcidos homens políticos, favorecida imediata rece, de acordo com Omodeo, que Volpe desconhece a contribui
mente pelos maiores jornais do intervencionismo, adotada espon ção bélica dos oficiais convocados, em outras palavras, da pequena
taneamente pelo governo italiano. Ê verdade que G.S. escreve burguesia intelectual, e, portanto, indiretamente, aponta-a como.
que esta política estava definida desde então "nos seus verdadei responsável pelo "infortúnio", para salvar a classe superior já pre
ros termos", isto é, especialmente favorável à Itália; mas nem isto servada pela palavra "infortúnio". A responsabilidade histórica
é verdadeiro neste sentido restrito, pois a política das nacionali deve ser localizada nas relações gerais de classe em que soldados,
dades só se "impôs" depois de outubro de 1917. Agora G.S. la oficiais convocados e Estados-Maiores ocupam uma posição de
menta que Benes, no seu Souvenirs de guerre et de révolution (Er- terminada, portanto, na estrutura nacional, pela qual a única res
nest Lerpux, Paris), atenue as lembranças da amizade "bélica" ponsável é a classe dirigente (também neste caso é válido o "ubi
e chegue à conclusão de que todos os males da Itália durante e maior, minor cessaV^). Mas esta crítica, que inclusive seria ver
depois da guerra devem ser atribuídos à falta de clareza e de de dadeiramente fecunda do ponto de vista nacional, queima os
cisão da política de guerra do país. dedos.

Em alguns países a formação das tropas escolhidas de assalto Confrontar o livro do General Alberto Bardini sobre o Ge
foi catastrófica, ao que parece: enviou-se à destruição a parte neral Diaz.^ O General Baldini parece que critica implicitamente
mais combativa do exército, em vez de mantê-la como elemento Cadorna e procura demonstrar que Diaz teve uma importância
"estrutural" do moral da massa dos soldados. Segundo o General muito maior do que se reconhece nele.
Krasnov (no seu famigerado romance), exatamente isto já suce Nesta polêmica sobre Caporetto seria necessário fixar dguns
dera na Rússia em 1915. Esta observação pode valer como corre pontos claros e precisos:
tivo crítico das recentes manifestações oferecidas pelo General ale
mão von Seekt sobre os corpos armados especializados, que seriam Foi Caporetto um episódio puramente militar? Esta ex
úteis especialmente na ofensiva. plicação parece definitivamente incorporada pelos historiadores da
guerra, mas ela baseia-se num equívoco. Cada episódio militar é
também um fato político e social. Imediatamente depois da der
Caporetto. Sobre o livro de Volpe, Ottobre 1917. DaWIson- rota procurou-se difundir a convicção de que as responsabilidades
zo al Piave, confrontar a resenha de Antônio Panella, em Pégaso políticas de Caporetto se localizariam na massa militar, isto é,
de outubro de 1930. A resenha é benévola mas superficial. no povo e nos partidos que eram a sua expressão política. Esta
Caporetto foi essencialmente um "infortúnio militar". O fato tese é hoje universalmente rechaçada, mesmo oficialmente. O que
de Volpe ter dado, com toda sua autoridade de historiador e ho não quer dizer que só por isso Caporetto seja um fato puramente
mem político, a esta formula o valor de um lugar-comum, satis militar, conforme se pretende fazer crer, como se fator político
faz a muita gente que sentia toda a insuficiência histórica e moral fosse apenas o povo, em outras palavras: os governados, como se
(a abjeção moral) da polêmica sobre Caporetto como "crime" também os governantes, e sobretudo eles, os responsáveis pela ges
dos derrotistas ou como "greve militar". Mas é demasiada a con tão político-militjar, não o fossem. Mesmo que se tivesse demons-
descendência pela validez deste novo lugar-comum, para que não
1 Diaz, Florença, Barbara, 1929.
246
247
trado (o que está totalmente excluído) que Caporetto foi uma 3) A importância de Caporetto no decurso da guerra. A
"greve militar", isto não quer dizer que a responsabilidade polí tendência atual é para diminuir o significado de Caporetto e trans
tica deve ser imputada ao povo, etc. (pode-se explicar do ponto formá-lo num simples episódio do quadro geral. Esta tendência
de vista judiciário, mas o ponto de vista judiciário é um ato de tem um significado político e terá repercussões, políticas nacionais
vontade unilateral tendente a completar com o terrorismo a insu e internacionais: demonstra que não se pretendem eliminar os fa
ficiência governamental): historicamente, do ponto de vista polí tores gerais que determinaram a derrota, o que pesará no regime
tico mais elevado, a responsabilidade seria sempre dos governan das alianças e nas condições que serão propostas ao país no caso
tes e da sua incapacidade de prever que determinados fatos pode de um novo acordo bélico, pois as críticas de nós mesmos, que
riam levar à greve militar e, portanto, de providenciar a tempo, não desejamos fazer no campo nacional para evitar determinadas
através de medidas adequadas (sacrifícios de classe), no sentido conseqüências inevitáveis na orientação político-social, serão in
de impedir tal emergência. É compreensível que para fins imedia dubitavelmente feitas pelos organismos responsáveis dos outros
tos de psicologia da resistência, em caso de força maior, procla países com os quais a Itália poderá participar de alianças bélicas.
me-se a necessidade de "cortar as redes de arame farpado com os Os outros países, nos cálculos relacionados com as alianças, deve
dentes", mas é criminosa a convicção de que em qualquer caso rão levar em conta novos Caporetto e solicitarão garantias maio
os soldados devem cortar as redes de arame farpado com os den res, isto é, imporão a hegemonia, inclusive além de certos limites.
tes, porque assim o quer o abstrato dever militar, deixando-se por
isso de fornecer-lhes alicates. É compreensível a convicção de que 4) A importância de Caporetto no quadro da guerra mun
a guerra não se faz sem vítimas humanas, mas e criminoso não se dial. Ela é determinada também pelos meios fornecidos ao inimi
levar em conta que as vidas humanas não devem ser sacrificadas go (todos os depósitos de víveres e de munições, etc.), que per
inutilmente, etc. Este princípio estende-se da relação militar à mitiram uma resistência mais longa, e a necessidade imposta aos
relação social. É compreensível a convicção ilimitada de que a aliados de reconstituir estes depósitos com perturbação de todos
massa militar deve participar da guerra e suportar todos os seus os serviços e planos gerais.
sacrifícios, mas é coisa de simplório, de políticos incapazes, pensar Ê verdade que em todas as guerras, e também na guerra
que isto se verificará sempre, sem se levar em conta o caráter so mundial, verificaram-se outros fatos semelhantes aos que ocorre
cial da massa militar è sem se atender às exigências deste caráter. ram em Caporetto. Mas deve-se ser (deixando o caso da Rússia
de lado) se tiveram a mesma importância absoluta e relativa, se
2) Assim, a responsabilidade, se se exclui a da massa mili tiveram causas semelhantes ou comparáveis, se tiveram conseqüên
tar, não pode nem mesmo ser do chefe supremo, de Cadorna, além cias semelhantes ou comparáveis para a posição política do país
de certos limites, isto é, dos limites assinalados pelas possibilidades cujo exército foi derrotado. Depois de Caporetto, a Itália mate
de um chefe supremo, pela técnica militar e pelas atribuições po rialmente (armamentos, abastecimentos, etc.) ficou dependendo
líticas de um chefe supremo em cada caso. Cadorna teve grandes dos aliados, cuja organização econômica era incomparável em ma
responsabilidades, é certo, tanto técnicas como políticas, mas estas téria de eficiência. A ausência de autocrítica significa falta de
últimas não podem ter sido decisivas. Se Cadorna nãa compreen vontade de eliminar as causas do mal e é, portanto, um sintoma
deu a necessidade de um "governo político determinado" pelas de grave debilidade política.
massas comandadas e não apresentou-a ao governo, é certamente
responsável, mas não na mesma medida em que o governo e a
classe dirigente, dos quais, em última análise, expressou men Os oficiais licenciados. Tiro as notícias do discurso proferido
talidade e a compreensão política. O fato de não existir uma aná pelo Senador Libertini no Senado, em 10 de junho de 1929. A
lise objetiva dos fatores que influenciaram Caporetto, e uma ação União Nacional dos Oficiais Licenciados (UNUCI) surgiu em de
concreta para eliminá-los, demonstra "historicamente" a amplitu corrência do R.D.L. de 9 de dezembro de 1926, n? 2352, con
de desta responsabilidade. vertido em lei em 12 de fevereiro de 1928, n9 261. Deu frutos

248 249
muito escassos, porque — diz Libertini — "faltava nela o espirito luntariamente durante o período de exercícios de verão teve o
necessário a dar-lhe vida". seguinte resultado: em 1926 apresentaram-se 1.007 oficims, em
Esta afirmação é interessante na medida em que se entende 1927, 206, e, em 1928, 165!
por "espírito" precisamente a concessão de benefícios materiais, os O Estado deve tratar bem os oficiais licenciados, por duas
quais, neste caso, são velados eufemisticamente na expressão "jus razoes fundamentais: a primeira, de caráter técnico, para que es
tas aspirações da benemérita classe dos oficiais licenciados, os quais tes oficiais, que serão convocados como tais em caso de mobili
sentiam ter bem merecido da pátria, pelos serviços que prestaram zação, não percam a qualificação profissional adquirida e, mais
na guerra de redenção, e pretendem por isso serem levados na de ainda, desenvolvam-se com o aprendizado teórico-prático das ino
vida consideração, moral e materialmente". Se se tratasse de vações que são introduzidas nos sistemas táticos e estratégicos; a
classes populares, o caso não seria de "espírito", mas de avidez segunda, de caráter ideológico facilmente compreensível.
materialista mesquinha suscitada pela demagogia, etc. Este modo A propósito do "espírito" e da "matéria", as observações não
de pretender gratuitamente das massas populares aquilo que, ao se referem naturalmente aos oficiais, mas aos dirigentes. As ci
contrário, é "pago" às outras classes, é característico dos dirigen fras de Gazzera são muito interessantes, mais ainda se se consi
tes italianos: se as massas permanecem passivas, a culpa não é da dera que muitos são os oficiais pertencentes às organizações ofi
insipiência dos dirigentes e do seu egoísmo mesquinho, mas dos ciais políticas: estas cifras devem ser juntadas àquelas sóbre a
demagogos. Além do mais, é notável o modo de raciocinar segun participação nas associações de propaganda colonial, citadas por
do o qual é "materialista" quem quer melhorar as próprias condi Cario Curcio na Crítica Fascista de julho de 1930.
ções econômicas, mas não o é quem não quer piorar, mesmo
pouco, as suas: pede-se "materialmente", recusa-se "idealistica- Ler atentamente as discussões, especialmente no Senado, so
mente"; quem não tem é mesquinho, quem tem é altruísta porque bre os orçamentos militares. Podem-se encontrar muitas observa
não dá, etc. ções interessantes sobre a eficiência real das forças armadas e
para uma comparação entre o veího e o novo regime.
Nova lei, de 24 de dezembro de 1928, n? 3242, que concede
benefícios. Neste ponto Libertini examina a situação dos oficiais
licenciados na Iugoslávia e na França. Na França, os oficiais da
reserva, se viajam para participar de conferências e exercícios nas Por uma política anonária racional e nacional, de Guido Bor-
escolas fora do seu local de residência, recebem diárias de 12 a 32 ghesi, na Nuova Antologia de 1.® de julho de 1927. Ê um artigo
francos, de acordo com o tempo de duração dos cursos; insençÕes medíocre, com dados pouco seguros e elaborados primariamente.
por quilômetros (de primeira classe) nas viagens de ida e volta, Sustenta a tese geral segundo a qual na Itália consome-se muito
etc., etc. A partir de 1.® de janeiro de 1925 o oficial de reserva trigo e que, por isso, além da luta para obter uma melhor colheita
francês estará recebendo 700 francos a título de indenização pelo do trigo onde o plantio deste cereal é tecnicamente mais produti
primeiro fardamento; aos que não receberam a indenização, for vo, dever-se-ia caminhar para substituir o trigo por outros ali
nece-se gratuitamente um fardamento completo. mentos. A questão, entretanto, é outra: é que a França, por exem
Na Iugoslávia, estão inscritos na Associação dos Oficiais Li
plo, cujos hábitos alimentares são muito semelhantes aos da Itália,
cenciados e Ex-Combatentes, organizada em 1922, 18 mil oficiais
não só consome tanto trigo por habitante quanto a Itália, mas
de reserva e 35 mil ex-combatentes, isto é, a quase totalidade dos
consome^ uma ^quantidade muito maior de outros alimentos fun
oficiais licenciados. No caso de "serviço", instrução, etc., são
damentais (açúcar: França, 24,5 quilos; Itália, 8 quilos; queijo
abastecidos, alojados e reembolsados das despesas de viagem.
e manteiga, calculados em leite: França, 2 hh; Itália, 0,8 hl.). O
problema do trigo na Itália é de miséria, não de consumo exagera
Ainda a propósito do "espírito" no discurso perante a Câma do, embora a tese geral possa ser justa no sentido do grande
ra, o General Gazzera, subsecretário da Guerra, admitiu que a desequilíbrio:^ na Itália, o maior consumo de trigo em relação ao
decisão de convidar os oficiais licenciados a prestar serviço vo- milho, etc., e o único índice de certa melhoria dietética.

250 251
1919. Artigos da Stampa contra os técnicos e clamorosas
publicações dos salários mais altos. Seria útil ver se em Gênova
á imprensa dos armadores fez a mesma campanha contra os Es-
tados-Maiores^ quando estes iniciaram a agitação e foram auxilia
dos pelas tripulações.

PARTE IV

1 O autor, neste caso, utiliza a expressão para definir a oficialidade


de comando de navios da marinha mercante. (N. do T.)

252
Resenhas e Notas
Bibliográficas

Estudos particulares sobre Maquiavel como "economista". Os


Anais de Economia da Universidade Bocconi publicam, sob os
auspícios de Gino Árias, um estudo onde se encontram algumas
indicações (estudo de Vincenzo Tangorra). Parece que Chabod,
num trabalho sobre Maquiavel, considera como uma deficiência
do florentino em relação, por exemplo, a Botero^, a quase ausên
cia de referências econômicas nos seus escritos. Devem-se fazer
algumas observações gerais sobre o pensamento político de Ma
quiavel e o seu caráter "atual", ao contrário de Botero, que tem
caráter mais sistemático e orgânico, embora menos vivo e origi-

1 Sobre a importância de Botero para o estudo da história do pensa


mento econômico, cf. Mario de Bernardi e resenha de Luigi Einaudi
na Riforma Sociále de março-abril de 1932.

255
nal. Deve-se também recordar o caráter do pensamento econômi conjunto dos personagens que estão em função da aventura de
co daquele tempo (alusões no citado artigo de Einaudi) e a dis Messer Nícia. Este não esperava um filho da união de sua mulher
cussão sobre a natureza do mercantilismo (ciência econômica ou
política econômica?). Se é verdade que o mercantilismo é mera com Calímaco travestido; ao contrário, esperava que a mulher se
política econômica, na medida em que não pode pressupor um tornasse fecunda em virtude da erva mandrágora e se libertasse,
"mercado determinado" e a existência de um preformado "auto- pela união com um estranho, das supostas conseqüências mortífe
matismo econômico", cujos elementos se formam historicamente» ras da poção, que de outro modo atingiriam a ele. O gênero de
só num determinado grau de desenvolvimento do mercado mun tolice de Messer Nícia é bem circunscrito e representado: ele crê
dial, é evidente que o pensamento econômico não pode fundir-se que a esterilidade do seu casamento não depende dele, velho, mas
no pensamento político geral, em outras palavras, no conceito de da mulher, jovem, mas fria; e pretende corrigir esta pretensa in-
Estado e das fôrças que, acredita-se, devam participar da sua fecundidade da mulher, não fazendo-a ser fecundada por outro,
composição. Provando-se que Maquiavel tendia a suscitar laços mas conseguindo que de infecunda ela se transforme em fecunda.
entre cidade e campo, e a ampliar a função das classes urbanas O fato de Messer Nicia ser convencido a deixar a mulher se unir
até exigir delas que se despojassem de determinados privilégios a um tipo condenado a morrer, para libertá-la de um pretenso
feudais-corporativos em relação ao campo, para incorporar as malefício que, de outro modo, causaria a sua separação da mu
classes rurais no Estado, demonstrar-se-á também que Maquiavel
superou implicitamente em idéia a fase mercantilista e já revela
lher ou a sua morte, e um elemento cômico encontrado em ou
momentos de caráter "fisiocrático": ele pensa num ambiente po tras formas da novelística popular: através delas pinta-se o des
lítico-social que é aquele pressuposto pela economia clássica. O caramento das mulheres que, para dar segurança aos amantes, dei
Professor Srafa chama a atenção para uma possível aproximação xam-se • possuir na presença ou com o consentimento do marido
entre Maquiavel e um economista inglês de 1600, William Petty, (este motivo aparece sob outra forma também em Boccaccio).
que Marx considera o "fundador da economia clássica" e cujas Mas na Mandrágora está representada a parvoíce do marido, e
obras completas foram traduzidas também para o francês. (Marx não o descaramento da mulher, cuja resistência só é domada com
falará deles nos volumes do Mehrwert — História das doutrinas a intervenção da autoridade materna e do confessor. O artigo, de
econômicas). Vittorio Cian é, inclusive, inferior ao de Mazzoni: a retórica es-
topenta de Cian acha meio até de penetrar no bronze. É eviden
te que Maquiavel reage à tradição de Petrarca e procura elimi
A Rivista d'Italia de 15 de junho de 1927 é inteiramente ná-la, ao invés de continuá-la; mas Cian vê, aplicando infantil
dedicadai a Maquiavel, comemorativa do quarto centenário da
sua morte. Eis o índice: 1) Charles Benoist, Le machiavélisme
mente critérios ja conhecidos, precursores em tudo e deificações
perpétuel; 2) Filippo Meda, II machiavellisma-, 3) Guido Maz- miraculosas em cada frase banal e ocasional. Escreve dez pági
zoni, II Machiavelli drammaturgo; 4) Michele Scherillo, Le prime nas para não dizer nada além dos conhecidos lugares-comuns am
esperienze politiche dei Machiavelli; 5) Vittorio Cian, Machiavelli pliados dos manuais para as escolas médias e elementares).
e Petrarca; 6) Alfredo Galletti, Niccolò Machiavelli umanista; Uma edição das Lettere di Niccolò Machiavelli foi apresen
7) Francesco Ercole, II Principe; 8) Antonio Panella, Machiavelli tada pela Sociedade Editora Rinascimento dei Libro, Florença,
storico; 9) Plinio Carli, Niccolò Machiavelli scritore; 10) Romolo na Raccolta nazionale dei classici, organizada e prefaciada por
Caggese, Ciò che è vivo nel pensiero politico di Machiavelli. Giuseppe Lesca (o prefácio foi publicado na Nuova Antologia
O artigo de Mazzoni é medíocre e prolixo: erudito-histórico- de 1.° de novembro de 1929). As cartas já haviam sido publica
-divagador. Como freqüentemente sucede com esse tipo de críti das em 1883 por Alvisi, numa edição Sansoni, de Florença, in
cos, Mazzoni não compreendeu bem o conteúdo literal da Man- cluindo cartas de outras pessoas a Maquiavel (foi lançada uma
drágora. Falsifica o caráter de Messer Nícia e, portanto, todo o nova edição do livro de Alvisi, com prefácio de Giovanni Papini).
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1

Pasquale Villari, Niccoiò Machiavelli e i suoi tempi, 1929, 262 págs., foi comentado favoravelmente por Guido de
organizada por Michele Scherillo, Ed. Ulrico Hoepli, Milão, 1927, Ruggiero na Critica de janeiro de 1930 e, ao contrário, com mui
em dois volumes. É a reimpressão da conhecida obra de Villari, tas cautelas e, no fundo, desfavoravelmente, por Mario Bernardi
à exceção dos documentos, que na edição Le Monnier constituíam na Riforma SocialeK Um capítulo do livro de Ciccotti (talvez a
todo o terceiro volume e uma parte do segundo. Nesta edição de introdução geral) foi publicado pela Rivista d'Italia de 15 de ju
Scherillo os documentos foram apenas relacionados, com referên lho a 15 de agosto de 1927; "Elementos de "verdade" e de "certe
cias sumárias sobre o seu conteúdo, de maneira a que se possa za" na tradição histórica romana", ao qual nos referimos aqui.
localizá-los facilmente na edição Le Monnier. Ciccotti examina e combate uma série de deformações profis
Numa resenha de Giuseppe Tarozzi do 1.° volume da CoS' sionais da historiografia romana, e muitas das suas observações
tiíuzione russa de Mário Sertoli (Florença, Le Monnier, 1928, são justas negativamente. As dúvidas existem em relação às afir
pág. 435), publicada na Italia che scríve, é citado um livro de mações positivas, que devem ser vistas com cautela. A resenha
Vorlãnder: Vom Machiavelli bis Lenin, sem qualquer indicação. de Ruggiero é muito superficial; ele justifica o método "analógi
É preciso ver a resenha mais recente sobre a literatura a propósi co" de Ciccotti como um reconhecimento da identidade funda
to de Maquiavel, publicada em 1929 por Nuovi Studi. mental do espírito humano, mas desse modo vai-se muito adian
te, até à justificação do evolucionismo vulgar e das leis sociológi
cas abstratas, as quais, por seu lado e da sua maneira, também
Gioviano Pontano. a sua atividade política como se baseiam, como uma linguagem particular, na hipótese da iden
afim à de Maquiavel (cf. M. Scherillo, DelVorigine e delia svolgi- tidade fundamental do espírito humano. Um dos erros teóricos
mento delia letteratura italiana, II, onde estão transcritos dois
mais graves de Ciccotti consiste na interprètação equivocada do
memoriais de Pontaro sobre a situação italiana no período da princípio vichiano segundo o qual "o certo se converte no ver
queda de Carlos V!II; e Gothein, II Rinascimento neWItalia me-
dadeiro". A História só pode ser certeza (com a aproximação
ridionale, tradução publicada pela Biblioteca storica dei Rinasci
da procura da "certeza"). A conversão do "certo" no "verdadei
mento, Florença, 1915). Pontano era úmbrio napolitanizado. (A
ro" pode dar lugar a construções filosóficas (da chamada histó
religião como instrumento de Governo — Contra o poder tempo
ria eterna) que têm muito pouco em comum com a história "fa-
ral do Papa, os Estados seculares deveriam ser governados por
tual". Mas a História deve ser "fatual", e não romanceada: a
reis e príncipes seculares).
sua certeza deve ser antes de tudo certeza dos documentos históri
cos (embora a História não se esgote toda nos documentos histó
Gino Árias, II pensiero economico de Niccoiò Machia ricos, cuja noção, além do mais, é de tal modo complexa e am
velli, em Annali di Economia deWUniversità Bocconi, de 1928 pla que pode dar lugar a conceitos sempre novos, tanto de cer
(ou 1927?)!. teza como de verdade). A parte sofistica da metodologia de Ciccot
Machiavelli ed Emanuele Filiberto. No volume sobre Ema- ti desponta claramente quando ele afirma que a História é dra
nuele Filiberto, publicado em 1928 por Lattes, Turim (477 págs.), ma, pois isto não quer dizer que cada representação dramática
a atividade militar de Emanuele Filibeto como estrategista e de um determinado período histórico seja aquela "fatual", mesmo
como organizador do exército piemontês é estudada pelos Gene viva, artisticamente perfeita, etc. O sofisma de Ciccotti leva a uma
rais Maravigna e Brancaccio. valorização excessiva do beletrismo histórico como reação à eru
dição pedante e petulante: passa-se das pequenas "conjeturas" filo
sóficas às "grandiosas" conjeturas sociológicas, com pouco provei
Ettore Ciccotti. O seu livro Confronti storici, Biblioteca da to para a historiografia. Ao examinar-se a atividade histórica de
Nuova Rivista Storica, n.® 10, Sociedade Editora Dante Alighieri, Ciccotti deve-se levar em conta este livro. A "filosofia da praxis"

1 Em 1928, vol. IV, págs. 1-31. (N. e I.) 1 De novembro-dezembro de 1929, págs. 589-591. (N. e I.)

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.íM
de Ciccotti é muito superficial: é a concepção de Guglielmo Fer- Norte levaram consigo a experiência técnico-econômica da Ingla
rero e de C. Barbagallò, isto é, um aspecto da sociologia positi terra; como então poderia ter-se perdido a experiência do capita
vista, temperada com algumas considerações vichianas. A meto lismo antigo, se ele realmente existiu na medida em que Barbagallò
dologia de Ciccotti proporcionou exatamente .histórias do tipo faz supor ou quer que se suponha?
Ferrero e as curiosas elucubrações de Barbagallò, que terminam
por eliminar o conceito de distinção e de concreção "individual"
de cada momento do desenvolvimento histórico, descobrindo duas Giuseppe Gallavresi, Ippolito Taine storico delia ri-
definições originais: que "todo o mundo é país" e que "quanto voluzione francese, Nuova Antologia, 1.° de novembro de 1928
mais as coisas se modificam mais se assemelham". — Cabanis (Giorgio), 1757-1808, as teorias materialistas expos
tas no livro dedicado ao estudo das relações entre le physique et
le moral. Manzoni admirava profundamente Vangélique Cabanis,
CoRRADo Barbagallò. O seu livro L'oro e il fuoco deve e mesmo quando se converteu continuou a admirar o livro. Taine
ser examinado a partir da posição do autor, que encontra na discípulo de Cabanis. O método indutivo e as normas da observa
antigüidade tudo o que é essencialmente moderno, como o capita ção tomadas por empréstimo das ciências naturais deviam levar
lismo, a grande indústria, e as manifestações a ele ligadas. De Taine — de acordo com Gallavresi — à conclusão de que a re
vem-se examinar especialmente as suas conclusões a respeito das volução francesa foi uma monstruosidade, uma doença. "A de
corporações profissionais e das suas funções, confrontando-as com mocracia igualitária é uma monstruosidade à luz das leis da na
as pesquisas dos estudiosos do mundo clássico e da Idade Média. tureza; mas o fato de ela ter sido concebida pelo homem e, in
Confrontar as conclusões de Mommsen e de Marquardt a propósi clusive, de ter-se efetivado paulatinamente na história de alguns
to dos collegia opificum et artificum; para Marquardt eles eram povos deve levar à reflexão os espíritos mais relutantes em acei
instituições de caráter financeiro e serviam à economia e às fi tar um regime de tal modo convencional."
nanças do Estado em sentido estrito, e pouco ou nada institui Interessantes estes conceitos de "convencional", "artificial",
ções sociais (confrontar o mir russo). Destaque-se a observação etc., aplicados a certas manifestações históricas: "convencional"
de que em qualquer caso o sindicalismo moderno deveria cor e "artificial" são expressões implicitamente contrapostas a "na
responder a instituições próprias dos escravos do mundo clássico. tural", isto é, a um esquema "conservador" verdadeiramente con
O que caracteriza o mundo moderno, deste ponto de vista, é que vencional e artificial porque a realidade destruiu-o. Na verdade,
abaixo dos proletários não existe uma classe que esteja proibida os piores "cientificistas" são os reacionários que preconizam uma
de se organizar, como ocorria na Idade Média e também no "evolução" a seu gosto e só admitem a importância e a eficácia
mundo clássico, com toda probabilidade; o artesão romano po da intervenção da vontade humana poderosamente organizada e
dia utilizar os escravos como trabalhadores, sendo certo que estes concentrada quando é reacionária, quando tende a restaurar o
não pertenciam aos collegia. Também não se exclui que algumas que passou, como se o que passou e foi destruído não fosse tão
categorias da própria plebe estivessem excluídas da organização. "ideológico", "abstrato", "convencional", etc. quanto o que até
A história de Barbagallò sobre o capitalismo antigo é uma agora não se efetivou.
história hipotética, conjetural, possível, um esboço histórico, um Esta questão de Taine e da Revolução Francesa deve ser es
esquema sociológico, mas não uma história certa e determinada. tudada porque teve certa importância na história da cultura do
Penso que os historiadores como Barbagallò incorrem num erro filo- século passado: comparar os livros de Aulard contra Taine e as
lógico-crítico muito curioso: o de que a história antiga deve ser publicações de Augustin Cochin sobre ambos. O artigo de Gal
escrita à base dos documentos da época, sobre os quais se esta lavresi é muito superficial. Examina o motivo pelo qual a litera
belecem hipóteses, etc., sem levar em conta que todo o desenvolvi tura panfletária que precedeu e acompanhou a Revolução Fran
mento histórico subseqüente é um "documento" para a história cesa parece enjoada aos espíritos mais refinados; mas a literatura
precedente, etc. Os ingleses que emigraram para a América do jesuíta contra a Revolução foi melhor ou pior? A classe revolu-

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instrumento que se tem nas mãos, e tirar dele o som que pode "filósofos" elaboraram a teoria de uma prática já feita, não a
dar, e não outro; e antes de tudo saber manejá-lo." Do mesmo fizeram.
Tommaseo: "Eu não me imiscuo nas coisas privadas do homem, Giuseppe Ferrari, Corso su gli scritori politicí italiani,
a não ser quando ajudam a explicar as públicas". A proposição nova edição completa, com prefácio de A. O. Olivetti, Milão,
é justa, embora Tommaseo jamais a tenha respeitado. Monanni, 1928, 700 páginas.

Sobre o sentimento nacional. O editor Grasset publicou um Centralismo orgânico. Schneider cita as seguintes palavras de
grupo de Lettres de jeunesse do então capitão LYAUTEY. As car Foch: "Commander n'est rien. Ce qu'il faut, c'est bien compren-
tas são de 1883, e na época Lyautey era monarquista, dedicado dre ceux avec qui on a à faire et bien sc faire comprendre íteux.
ao Conde de Chambord. Lyautey pertencia à grande burguesia, Le bien comprendre, c'est tout le secret de Ia v/e..." Tendência
que era firme aliada da aristocracia. Mais tarde, morto o Conde a separar o "comando" de qualquer outro elemento e a transfor
de Chambord, e depois da ação de Leão XIII pelo ralliement, má-lo num "remédio infalível" de novo tipo. Deve-se ainda dis
Lyautey uniu-se ao movimento de Albert de Mun, que seguiu as tinguir entre o "comando" expressão de diversos grupos sociais:
diretivas de Leão XIII, e assim chegou a ser um alto funcionário para cada grupo, a arte do comando e a sua maneira de ser mu
da República, conquistou o Marrocos, etc. Lyautey foi e perma dam muito, etc. O centralismo orgânico, com o comando ferrenho
neceu um nacionalista integral, e em 1883 concebia da seguinte e abstratamente concebido, está ligado a uma concepção mecâni
maneira a solidariedade nacional: em Roma conhecera o alemão ca da História e do movimento, etc.
Conde von Dillen, capitão dos Ulanos, sobre o qual escreveu ao
seu amigo Antoine de Margerie: "Un "gentleman", d'une éduca-
tion parfaite, de façons charmantes, ayant em toutes choses, reli- Ítalo Chittaro, La capacità di comando. Casa Editora
gion, politique, toutes nos idées. Nous parlons Ia même language De Alberti, Roma. Segundo uma resenha de V. Varanini, na Fiera
et nous nous etendons à merveille. Que veux-tu? J'ai au coeur, une Letteraria, de 4 de novembro de 1928, parece que o livro de
haine féroce, celle du dêsordre, de Ia rêvolution. Je me sens, cer- Chittaro contém afirmações muito interessantes, inclusive para a
tes, plus près de tous ceux qui Ia combattent, de quelque nationa- ciência política. Necessidade de estudos históricos para a prepara
lité qu'ils soient, que de tels de nos compatriotes avec qui je n'ai ção profissional de oficiais. Para comandar não basta o simples
pas une idée commune et que je regarde c omme des ennemis bom senso: este, se for o caso, é o fruto de um profundo conhe
publics." cimento e de longo exercício. A capacidade de comando é espe
cialmente importante na infantaria; se nas outras armas for
mam-se especialistas em misteres particulares, na infantaria for
Os filosofas e a Revolução Francesa, Bonghi escreve^ sobre mam-se especialistas em comando, isto é, capazes de assumir todas
um artigo de Cario Louandre que leu na Revue des deux Mondes. as funções. Portanto, é necessário que todos os oficiais destina
0 artigo refere-se a um jornal (diário) de Barbier, publicado na dos a graus elevados tenham exercido comando na infantaria (an
época, que trata de sociedade francesa de 1718 a 1762. Bonghi tes de serem capazes de organizar as "coisas", eles devem ser ca
chega através dele à conclusão de que a sociedade francesa de pazes de organizar e guiar os homens). Finalmente, considera a
Luís XV era pior em tudo do que a que se seguiu à Revolução. necessidade da formação de um Estado-Maior numeroso, válido,
Superstição religiosa expressa em formas mórbidas, enquanto a popular entre as tropas.
incredulidade crescia na sombra. Louandre demonstra que os Trabalho do General Luici Bongiovanni, na Nuova
Antologia de 16 de janeiro de 1934 {La Marna; giudizi in con
1 1 fatti miei e i miei pensieri, Nuova Antologia, 1-16 de abril de trasto) •. "A guerra, no seu duro realismo, só progride através de
1927. (N. e I.) fatos. O que importa é vencer. A vitória não se mede com sacri-

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fícios, com resultados. Mais ainda, a vitória é sempre o efei
Stefano, Quintino Sella (2827.1884): Bruno MinoIIetti, Quintino
Sella storico, archeologo e paleografo.
to de uma superioridade, a inegável constatação dessa superiorida
de. Quando custa pouco sangue, quer dizer que a superioridade História do após-guerra. Ver o artigo de Giovanni Marietti,
era inèrenle a um dos dois contendores em virtude de fatos an II trattato di Versailles e Ia sua esecuzione, nos números de 16
teriores." de setembro e 1.° de outubro da Nuova Antologia. É um resumo
diligente dos principais acontecimentos ligados à execução do Tra
tado de Versalhes, uma descrição esquemática que pode ser útil
Carlo Flumani, 1 gruppi sociali — Fondamenti di scien- como início de uma reconstrução analítica, ou para fixar os re
za política, Milão, Instituto Editorial Científico, 1928, 126 págs. flexos internacionais dos acontecimentos internos nos vários
(Verificar o catálogo desta editora, que publicou outros livros de países.
ciência política).
Roberto Michels. No artigo II pangermanismo coloniale tra
Relações entre cidade e campo. Para se obterem dados so le cause dei conflitío mondiale, de Alberto Giaccardí, Nuova An
bre as relações entre as nações industriais e as nações agrícolas, tologia de 16 de maio de 1930, lê-se na página 238: "O "lugar
e, portanto, elementos para o problema da situação de semicolônia ao sor reclainado pela Alemanha começou muito cedo a adqui
em que vivem os países agrícolas (e das colônias internas nos rir tal dimensão, de modo que ofuscaria todos os outros. Até ao
países capitalistas), deve-se ver o livro de Mihail Manoilesco, La povo italiano, cuja situação era análoga à do povo alemão, um
teoria dei protezionismo e delia scambio internazionale, Milão, douto germânico, Roberto Michels, negava o direito de exigir co
Treves, 1931. Manoilesco assinala que "o produto do trabalho lônias, pois a Itália, mesmo sendo demograficamente rica, é po
de um operário industrial é em geral sempre trocado pelo pro bre de capitais . Giaccardi não cita a fonte de onde retirou a
duto do trabalho de muitos operários agrícolas, em média um expressão de Michels. No número de 1.° de julho, da mesma re-
para cinco". Por isso ele fala de uma "exploração invisível" dos vism, Giaccardi escreve uma "retificação" da sua afirmativa an-
países industriais sobre os países agrícolas. Manoilesco é o atual terior, evidentemente por pressão de Michels. Refere-se a Vimpe-
governador do Banco Nacional Romeno, e o seu livro exprime rialismo italiano dei Michels (Milão, 1914, Sociedade editora li
as tendências ultraprotecionistas da burguesia romena. vraria) e Elemente zur Entstehungsgeschicbte des Imperialismus
in Italien em Archiv für Soziahvissenschaft, janeiro-fevereiro de
1912, págs. 91-92, e conclui: "O que corresponde perfeitamente
ViTTORio Giglio, Milizie ed eserciti d'Italia, 404 págs., aos sentimentos de italianidade constantemente (!) demonstrados
ilustrado. Casa Editora Ceschina (Da época romana às milícias ^lo ilustre professor do Ateneu perusino, que, embora renano
comunais, ao exército piemontês, à M.V.S.N.). Ver por que, e origem, escolheu a Itália como sua pátria de adoção, desenvol
em 1848, no Piemonte, não existia nenhum chefe militar, a pon vendo em todas as ocasiões uma intensa e eficaz atividade em
to de se ter de recorrer a um general polonês. Em 1400-1500, e nosso favor".
mesmo depois, existiam excelentes capitães (condottieri, etc.), um
desenvolvimento notável da tática e da estratégia, mas não era
possível criar um exército nacional, em virtude da separação en Cultura italiana. Ver a atividade cultural das Edizioni Doxa,
tre povo e classes elevadas. de Roma: parece-me que é de tendência protestante. Da mesma
forma a atividade de Bilychnis. Será necessário ter uma noção
exata da atividade intelectual dos hebreus italianos, na medida
Sobre Quintino Sella. Cf. a Nuova Antologia de 16 de se em que é organizada e centralizada. Periódicos como o Vessillo
tembro de 1927; P. BoselH, Roma e Quintino Sella; Alberto de Israelitico e Israel, publicações de casas editoras especializadas,
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Nacionalizações e estatizações. Cf. M. Saitzen, Die ôffentliche
etc., e centros de cultura mais importantes. Em que direção o Unternehmung der Gegenwart, Tübingen, Mohr, 1930. Smtzen é
novo movimento sionista, nascido depois da declaíação de professor da Universidade de Zurique. Segundo Saitzen a área de
Baldwin, influiu sobre os hebreus italianos? ação das empresas públicas, especialmente em certos ramos, é
muito maior do que se crê: na Alemanha, o capital das empre
sas públicas seria um quinto de toda a riqueza nacional (durante
França. André Siegfried, Tableau des partis en France, Paris,