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Analista: "Você se lembra do dia em que segurou a cabeça de uma Paciente: "É um avanço importante reconhecer a necessidade de con-
criança? E daquela dor de cabeça fora da sua cabeça que eu tato físico. De início, tratava-se apenas de uma abstração inte-
interpretei como sendo a necessidade de que alguém lhe segu- lectual, uma questão de saber se o contato era atraente ou não
rasse a cabeça?"18 enquanto idéia."
Paciente: "Há um paradoxo que se enquadra aqui, que eu já discuti Analista: "Agora, porém, você está falando sobre necessidades reais."
com os meus colegas. Trata-se dos pacientes que vão procurar Paciente: "Isto pode parecer um tanto quanto óbvio, mas em alguns
o ambulatório. Eu não quero continuar vendo pessoas pelas casos, o contato que eu necessito pode ser verbal, isto é, se vier
quais eu não posso fazer muita coisa. Mas muitos gostam de na hora certa. De uns tempos para cá, eu às vezes chego em
vir ao hospital e até da longa espera. Agora eu trabalho mais casa, e a minha esposa não demonstra o menor interesse por
com pacientes de ambulatório e sempre tenho de tomar deci- mim. Às vezes ela nem mesmo me cumprimenta. Fico preocu-
sões quanto a atendimentos futuros. Percebi que eles querem pado, mas não faço absolutamente nada porque sei que não
é que alguém segure as suas mãos, isto é, eles não ficam satis- adianta. Mas penso que se alguma coisa partisse dela no mo-
feitos com o contato verbal; eles necessitam de contato físico." mento certo, bastaria ser uma simples palavra."
Analista: "Eles sentem falta do exame físico, não sentem?" Analista: "Eu diria que uma interpretação certa no momento certo equi-
Paciente: "Quando nós só conversamos, eles acham que a consulta foi vale a um contato físico."
um desperdício de tempo. Um exame, por mais breve que seja, Paciente: "Algo me ocorreu agora. Nas últimas semanas, notei uma gran-
faz muita diferença." de modificação. Há um ano, eu gostava de ir ao cinema porque
Analista: "Creio que o tema seja a solidão, que é mais ou menos uni-
lá eu podia esquecer os meus problemas durante algum tempo.
versal e que é a situação que temos aqui. Você está aqui, mas Eu me identificava com os personagens do filme e ficava ressen-
tido com os intervalos, quando as luzes se acendiam. Hoje em
isolado, sem contato comigo." (Sonolência?)
dia, se eu vou ao cinema, o que é bastante raro, quando volto
Paciente: "Estou tentando ter uma visão geral de tudo isso. A idéia
para casa sinto-me pior, mais isolado e mal-humorado. Eu não
do contato físico. A sonolência que eu sinto hoje é algo novo,
quero mais me confundir com os personagens de um filme. Não
isto é, ela está ocorrendo numa situação diferente. A sonolên-
há problema se eu for ao cinema com alguém; ao sair, sei que
cia de hoje tem origem num conflito; querer o contato físico tivemos uma experiência em comum. Hoje eu percebo que ia ao
e ficar horrorizado diante da possibilidade de que ele se realize." cinema para me isolar mais ainda. A minha esposa não gosta
Analista: "No incidente da dor de cabeça fora da sua cabeça, você dis- de discutir filmes e isso me irrita. Ou ela ainda não foi ver o fil-
se que se eu realmente a segurasse, você consideraria essa atitu- me e, portanto, não quer conhecer a história, ou então ela já
de uma aplicação mecânica de técnica. Lembra-se disso? O im- foi e não quer discuti-Io porque acha tedioso."
portante era que eu compreendesse e sentisse a sua necessidade." (Por causa das crianças, os dois raramente podem ir juntos
Paciente: "No nível do sentimento, eu necessito de contato físico, mas ao cinema.)
sinto-me horrorizado diante da perspectiva de obtê-lo aqui. Mas
acho que eu devo desejar esse contato em algum outro lugar."
Analista: "A namorada proporcionou-lhe um contato físico que foi
importante para você. Esse contato era parte da nossa relação, Terça-Feira, 28 de Junho
mas foi obtido fora daqui. Agora você enfrenta um conflito;
você sente a necessidade e fica horrorizado diante da perspecti- Paciente: "Não tenho nada a dizer, e isso parece ter alguma qualidade
va de satisfazê-Ia. Durante a infância, a necessidade era bas- positiva. "
tante definida e simples. A questão é em que medida você é uma Analista: " Já é algo."
criança aqui e agora, e até que ponto é legítimo dizer que esta- Paciente: "Sim. Desde que falamos sobre esquizofrenia, tenho estado
mos falando sobre uma criança." mais atento aos sentimentos alterados. Tenho estado alerta. Te-
nho sido mais crítico ao reconhecer a normalidade. Antes eu
18. Ver "Retraimento e Regressão" no Apêndice deste volume. podia acreditar que a análise poderia me capacitar a voltar a
ser o que eu era há alguns anos. Mas isso seria um retorno à
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irrealidade, pois agora reconheço que sempre fui anormal. Eu Paciente: "As idéias desaparecem como antes, mas agora, para poder
não tenho, portanto, um padrão de normalidade para fazer pensar, eu tenho de me distanciar. Eu não consigo tagarelar,
comparações. Seguir em frente, pura e simplesmente, não é sa- só com muito esforço. O que eu digo, portanto, não tem a es-
tisfatório, e isso, mais uma vez, contribui para o meu desespe- pontaneidade da tagarelice. O meu sentimento de irrealidade
ro. Se devo chegar a algum lugar, mas não tenho a experiência, vem do esforço para ser espontâneo. O esforço em si já é artifi-
a perspectiva da chegada é menos tangível. Nós podemos re- cial. "
mover obstáculos aqui, mas e quanto aos passos positivos? Analista: "Estar distante é real, só que leva ao isolamento."
Quando vim aqui pela primeira vez eu não tinha consciência Paciente: "A mesma solidão ocorre lá fora por causa da falta de con-
de nenhum problema. Meu único objetivo era chegar a algum tato. As pessoas se distanciam e não fazem amigos. Minha es-
lugar diferente, tornar o progresso possível. Minha mãe posa acha que sou assim. Ela reclama que eu não reparo nas
ofereceu-me o tratamento sem nenhuma justificativa. Ela disse coisas. Por exemplo, quando alguém fala comigo, a minha pri-
que eu poderia me beneficiar, mas não tinha consciência algu- meira reação é não dizer nada. Não há nada a ser dito. Mas
ma da minha necessidade. Talvez ela soubesse que havia algo eu quero ter amigos e então eu converso, num esforço para ser
errado. No momento, eu pareço uma fraude pedindo que a amável. Mas o tempo todo, eu sei que é inútil." Pausa prolon-
transformem em algo diferente. Trata-se de algo sem paralelo gada. "Quando eu acordei, sentia-me sufocado, todo coberto
na medicina comum." de cabelos."
Analista: "Na medicina comum a saúde é tida como pressuposto es- Analista: "Trata-se, possivelmente, de algo relacionado a sua mãe e
sencial, e o esforço é no sentido de alterar a doença." a você."
Paciente: "Antes de começar, eu tinha a idéia de saúde positiva, mas Paciente: "Sim, parece que é isso, mas e daí? Sinto que existe uma re-
lação entre maternagem e sufocamento*."
desde que me tornei médico, isso se acabou, pois a saúde não
Analista: "Uma mãe pode ser capaz de manter o contato mesmo quan-
tem significado. Seria uma idéia intelectual, tendo perdido al-
do você se distancia."
guma coisa convenci-me de que ela podia ser alterada."
Paciente: "Se é assim, então a dificuldade é considerável. Não existe
Analista: "A única coisa satisfatória seria se isto acontecesse."
ninguém lá fora que saiba do que eu necessito. Aqui dentro,
Paciente: "Minha filha fez um ano e eu esqueci, embora tenha falado quando eu dou a entender que quero que você diga alguma coi-
sobre isso uma noite antes. Minha filha mais velha mencionou sa, você nunca a diz. Parece que você faz questão de não fazê-
o aniversário assim que acordou, e eu fiquei chocado com a mi- 10. É desesperador saber que você decidiu não fazer aquilo que
nha falta de entusiasmo. Como posso aprender a sentir entu- é necessário."
siasmo? Não é possível instilar um processo subjetivo funda- Analista: "Como eu posso saber o que é necessário? Você está bus-
mental, e, no entanto, foi exatamente para isso que vim aqui." . cando a experiência de não ser encontrado por não haver nin-
Pausa. (O paciente dormiu?) "No momento, eu me defronto guém para entrar em contato com você."
com a dificuldade de não saber para onde ir ou o que fazer. Paciente: "Aonde isso tudo vai levar?"
Eu poderia ficar em silêncio por um bom tempo, não por pia- Analista: "Creio que você está quase sentindo raiva. Se você estiver
da, mas porque não tenho nada a dizer." próximo de momentos onde houve fracasso, a raiva deve estar
Analista: "Você parece não se dar conta de que, ao estar aqui e não presente." (O paciente adormeceu.) "Você sentia necessidade
ter nenhum contato comigo, você está vivenciando algo." de que alguém o segurasse, de que alguém cuidasse de você du-
Paciente: "Estou ciente da natureza geral do problema, mas não dos rante o sono."
aspectos específicos do momento. Talvez não exista nenhuma Paciente: "Eu tenho dificuldades porque o mecanismo usado aqui é
boa razão para justificar a referência a problemas específicos essencialmente verbal. É difícil visualizar o progresso num ní-
durante o tratamento. Neste exato momento, não faz o menor vel verbal. Para mim, esperar algum proveito disso é quase co-
sentido dizer o que me vem à mente. Eu esqueci que era a res- mo acreditar em mágica. É possível, porém, que não seja tão
posta esperada (associação livre). É inútil lembrar de coisas. O ilógico."
tempo todo eu tento evitar o uso desnecessário de palavras."
Analista: "Neste caso, a associação livre é não falar e estar isolado." * No original, mothering e smothering. (N.T.)
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Analista: "O divã sou eu, muito mais do que se eu o segurasse real- com tanta freqüência. Eu não tenho nada mais do que um sen-
mente. A inadequação de toda esta situação poderia muito bem timento subjetivo."
fazê-lo lembrar que não é a criança que sente ser." Analista: "Muitas vezes você se aproxima da idéia de luta entre dois
Paciente: "Na casa da minha mãe ou na da minha sogra, eu não só homens e depois recua. Parece que você se aproximou nova-
não tenho nada a dizer, como também sinto muito sono. Tal- mente."
vez eu esteja pedindo apoio e tenha um desejo de sentar ou dei- Paciente: "Lembro-me que falamos uma ou duas vezes sobre o meu
tar. Parece que eu não posso me preocupar em ficar acorda- desejo de ser maternado ou acariciado. Ontem, quando fui em-
do." Pausa. "Mais uma vez eu me pergunto se o sono repre- bora, imaginei que talvez fosse isso o que eu queria das mulhe-
senta o reconhecimento de um desejo frustrado de ser sido aca- res. Só que a minha esposa não quer saber disso; ela quer os
riciado enquanto bebê. A dificuldade é o medo da raiva. Nós cuidados de um pai. No ônibus, eu pensei: Eu tenho medo de
já falamos antes sobre a raiva escondida. Isto me faz lembrar ser maternado. Lembra-se da professora de música na primei-
que certa vez senti-me irritado comigo mesmo por ser tão cui- ra análise que fiz com você? A maternagem seria aceitável se
dadoso, por não deixar a raiva escapar. Eu poderia suportar fosse feita pela pessoa certa. Minha sogra é a pessoa errada.
uma liberação bem maior de raiva, e fico irritado por manter Em parte, eu desprezo as minhas atitudes infantilizadas ou afe-
essa barreira tão grande para o progresso. Para melhorar eu minadas. Infelizmente, eu escolhi minha esposa, que não gosta
só precisaria deixar as coisas acontecerem." de maternar. Se aparece alguém disposto a me dispensar afei-
Analista: "Você acha necessário sentir-se suficientemente integrado para ção e a ser maternal, eu brinco com a idéia e fico totalmente
poder suportar os efeitos da raiva." alarmado. "
Paciente: "Agora, eu sinto que posso suportar mais rupturas." Analista: "Comigo, você consegue alguns exemplos limitados de ma-
Analista: "Se o que eu disse estiver certo, você está com raiva de mim ternagem, mas eles o levam a perceber que a maternagem não
por eu não segurá-lo. É o fracasso original manifestando-se no foi feita pela pessoa certa na hora certa."
presente. " Paciente: "Não sei se compreendo bem o processo. Na análise, a pes-
Paciente: "Eu também sinto que quando não tenho nada a dizer, há soa vivencia simbolicamente aquilo que não teve? Isso eu pos-
um mecanismo em mim dizendo: 'Você está bem. Vale a pena so compreender. Parece razoável.'
correr o risco de uma perturbação? Pode seguir em frente sem
Analista: "Existe uma relação entre o que você sente pelas mulheres
problemas.' Mas não adianta recorrer a essa voz. Estou prepa-
e o que sente pela análise. Quando eu trabalho bem, você se
rado para o risco, mas a outra parte de mim é muito cautelosa."
sente fortalecido para enfrentar os fracassos que o distorceram
e o fizeram ter raiva. A raiva não se manifestou simplesmente
porque você não estava organizado numa posição suficiente-
Quarta-Feira, 29 de Junho
mente forte."
Paciente: "Tive um sonho na noite passada. Está meio nebuloso ago- Paciente: "Então, eu só consigo ver duas alternativas. Uma delas é pas-
ra. Tratava-se de algo semelhante a um episódio real entre mi- sar por um processo de maternagem, e a outra é sentir raiva
nha esposa e um certo homem. Foi quase um pesadelo. Talvez pela ausência de uma boa maternagem no momento certo."
eu estivesse lutando com ele. Nas duas ou três últimas noites, Analista: "É o que veremos no decorrer do tratamento." (O paciente
eu sinto que deveria ter sido menos fraco e lutado com esse ho- dormiu.) "Parece que ao se aproximar da idéia de um confronto
mem com mais vigor logo no início. O sonho é uma dramatiza- com o seu pai, você se viu novamente diante da questão de sa-
ção daquilo que eu desejava que houvesse acontecido." ber se esse confronto valia ou não a pena. Como o seu relacio-
Analista: "Parece que há algo se fortalecendo em você, tornando-o namento com a sua mãe não era forte o suficiente nem sufi-
capaz de alcançar a luta que sempre esteve implícita." cientemente fundamentado, a fraqueza da relação fez-se sentir
Paciente: "Sim. Às vezes sinto que o relacionamento com a minha es- novamente." (O paciente estava sonolento.)
posa poderia mudar. Sinto que se me aproximasse dela e fosse Paciente: "Eu não estava realmente dormindo. Fiz uma pausa porque
mais afetuoso, ela talvez pudesse me achar aceitável. Ela não você estava indo depressa demais. Como não estava conseguindo
tem falado muito sobre o homem. Talvez não o esteja vendo acompanhá-Io, eu parei. Foi uma reação à sua rapidez."