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Ana Taís Martins Portanova Barros (org.

Anais do II Congresso Internacional


do Centre de Recherches Internationales
sur l'Imaginaire

A teoria geral do imaginário


50 anos depois:
conceitos, noções, metáforas

Porto Alegre
Imaginalis
2015
Baixado em www.imaginalis.pro.br por Jorge Miklos em 3 de novembro de 2015
CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE BIBLIOTECONOMIA E COMUNICAÇÃO
BIBLIOTECA

C749a Congresso Internacional do Centre de Recherches Internationales sur


l’Imaginaire (2. : 2015 : Porto Alegre, RS)
[Anais...] / Ana Taís Martins Portanova Barros (Organizadora). –
Porto Alegre: Imaginalis, 2015.

ISBN: 978-85-69699-00-278

1. Imaginário.
2. Comunicação I. Barros, Ana Taís Martins Portanova. (Org.). II. Titulo.

CDU: 159.954

Baixado em www.imaginalis.pro.br por Jorge Miklos em 3 de novembro de 2015


Ficha Técnica

II Congresso Internacional da rede CRI2i (Centre de Recherches Internationales


sur l'Imaginaire): a Teoria Geral do Imaginário 50 anos depois: conceitos, noções,
metáforas
Evento científico: 29 e 30 de outubro de 2015
Assembleia geral do CRI2i: 31 de outubro de 2015
Local: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

Coordenação geral
Ana Taís Martins Portanova Barros (PPGCOM/UFRGS/Brasil)

Organizadores
Ana Taís Martins Portanova Barros (PPGCOM/UFRGS/Brasil)
Jean-Jacques Wunenburger (Université de Lyon 3/ Lyon, França)

Comissão científica
Ana Taís Martins Portanova Barros (UFRGS, Brasil)
Artur Simões Rozestraten (USP, Brasil)
Eduardo Portanova Barros (UNISINOS, Brasil)
Jean-Jacques Wunenburger (Université de Lyon III, França)
Lucia Maria Vaz Peres (UFPel, Brasil)
Maria Cecília Sanchez Teixeira (USP, Brasil)
Philippe Walter (Université de Grenoble III, França)

Comissão organizadora
Andriolli de Brites da Costa
Anelise Angeli de Carli
Annelena Silva da Luz
Carlos André Echenique Dominguez
Danilo Fantinel
Francisco dos Santos
Renata Lohmann

Comitê diretor do CRI2i


Jean-Jacques Wunenburger (Université Jean Moulin, Lyon, França)
Philippe Walter (Université Stendhal, Grenoble, França)
Corin Braga (Université Babes-Bolyai, Cluj, Romênia)
Danielle Perin Rocha Pitta (UFPE Recife, Brasil)
Fanfan Chen (National Dong Hwa University, Hualien, Taiwan)

Apoio
CNPq, processo 466118/2014-7
CAPES, processo PAEP 3825/2015-49

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Apresentação

A Teoria Geral do Imaginário 50 anos depois:


conceitos, noções, metáforas

Ao longo do século XX, o imaginário deixou de ser sinônimo de fantasia ou


de ser associado à loucura para ocupar um elugar epistemológico e ontológico
específico na produção de representações e de sabers, ao ponto de constituir sua
própria heurística. Deve-se isso ao trabalho de numerosos pensadores oriundos dos
campos mais diversos das Ciências Humanas e Sociais, da filosofia à psicanálise, da
antropologia à literatura, que desembocou na Teoria Geral do Imaginário, lançada há
quase 50 anos em Chambéry (França) sob forma do primeiro CRI (Centro de
Pesquisas sobre Imaginário).
Desde então, os estudos sobre o imaginário se tornaram mais diversificados e
complexos através do mundo e através das disciplinas. Diversos movimentos
epistemológicos reivindicaram conceitos mais flexíveis, que se tornaram noções e se
dispersaram em metáforas. Se, por um lado, as noções e as metáforas apresentam a
vantagem de admitir mais de uma ideia por vez, como as ideias contraditórias, por
outro lado elas podem levar à imprecisão ou à equivalência generalizada dos termos,
tornando vão o trabalho do pensamento.
O II Congresso Internacional da rede CRI2i (Centro de pesquisas
internacionais sobre o imaginário) se propõe assim proceder a um estado da arte, a um
balanço epistemológico e a uma perspectivação científica em torno do imaginário,
suas acepções, seus recursos, suas aplicações. Durante estes 50 anos de Teoria Geral
do Imaginário, quais foram os conceitos mais frutíferos para as pesquisas? Em quais
metáforas eles foram transformados? Que oscilações epistemológicas a teoria
conheceu? Que novas perspectivas podem se abrir hoje em contato com os novos
campos de saber, sempre inspiradas pelo legado dos fundadores?
A presente reunião de comunicações feitas quando do II Congresso
Internacional do CRI2i, que ocorreu de 29 a 31 de outubro de 2015, em Porto Alegre,
se organiza em torno de conferências plenárias, mesas-redondas e grupos de trabalho.
O conjunto reúne contribuiçòes intelectuais fecundas a partir de cerca de cem artigos
inéditos que nos revelam o panorama atual da pesquisa sobre imaginário. Boa leitura!

Ana Taís Martins Portanova Barros (UFRGS, Porto Alegre, RS, Brasil)
Jean-Jacques Wunenburger (Université Jean Moulin, Lyon 3, France)
Organizadores do II Congresso Internacional da rede CRI2i

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Avant-propos

La théorie générale de l'imaginaire 50 ans après :


concepts, notions, métaphores

Au fil du XXe siècle, l’imaginaire a cessé d’être synonyme de fantaisie ou


d'être associé à la folie, pour occuper une place épistémologique et ontologique
spécifique dans la production des représentations et des savoirs, jusqu'à constituer sa
propre heuristique. On le doit au travail de nombreux penseurs, issus des champs les
plus divers des Sciences humaines et sociales, de la philosophie à la psychanalyse, de
l’anthropologie à la littérature, qui a abouti à la Théorie Générale de l’Imaginaire,
lancée il y a presque 50 ans à Chambéry (France) sous forme du premier CRI (Centre
de recherche sur l'imaginaire).
Depuis lors, les études sur l’imaginaire se sont toujours plus diversifiées et
complexifiées à travers le monde et à travers les disciplines. Plusieurs mouvements
épistémologiques ont revendiqué des concepts plus flexibles qui sont devenus des
notions et se sont dispersés en métaphores. Si, d’un côté, les notions et les métaphores
présentent l’avantage d’admettre plus d’une idée à la fois, voire des idées
contradictoires, de l’autre, elles peuvent conduire à l’imprécision voire à l'équivalence
généralisée des termes, rendant vain tout travail de la pensée.
Le II Congrès International du réseau CRI2i s'est donc proposé de procéder
à présent à un état des lieux, à un bilan épistémique et à une prospective scientifique
autour de l'imaginaire, ses acceptions, ses ressources, ses applications. Pendant ces 50
ans de Théorie Générale de l’Imaginaire, quels ont été les concepts les plus fructueux
pour les recherches ? En quelles métaphores se sont-ils transformés ? Quelles
oscillations épistémologiques la théorie a-t-elle connu ? Quelles nouvelles
perspectives peuvent-elles s'ouvrir aujourd'hui au contact des nouveaux champs de
savoir tout en restant inspirées par l'héritage des fondateurs ?
Le présent recueil des communications faites lors du II Congrès
International du CRI2i, les 29-30 octobre 2015, à Porto Alegre, s'organise autour de
séances plénières, tables-rondes et ateliers de recherche. L’ensemble rassemble des
ressources intellectuelles fécondes de près d’une centaine d'articles inédits qui nous
révèlent le panorama actuel de la recherche sur l'imaginaire. Bonne lecture !

Ana Taís Martins Portanova Barros (UFRGS, Porto Alegre, RS, Brésil)
Jean-Jacques Wunenburger (Université Jean Moulin, Lyon 3, France)
Comité d'organisation du II Congrès du réseau CRI2i

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Sumário
Conferências plenárias ......................................................... 14

Jean-Jacques WUNENBURGER.......................................................................... 15
L’anthropologie de l‘imaginaire selon Gilbert Durand : Contextes, options, enjeux

Danielle Perin Rocha PITTA ................................................................................ 29


Diversidade cultural brasileira e a teoria sobre o imaginário de
Gilbert Durand : correspondências e derivações

Corin BRAGA ...................................................................................................... 45


Archétypocritique, mythocritique, psychocritique

Malena CONTRERA ............................................................................................ 62


A imagem simbólica na contemporaneidade

Francimar ARRUDA ............................................................................................ 74


Imagem contemporânea e imaginário: como aproximá-los?

Mesa redonda 1:
Subversões imagéticas e filosofia de vida .................................. 81

Florence DRAVET ............................................................................................... 82


Communication et Nonsens – Étude du tournoiement de la pombagira
pour une communication féminine

Hildo Honório do COUTO


Elza Kioko Nakayama Nenoki do COUTO .......................................................... 99
Une possibilité de dialogue entre l’anthropologie de l'imaginaire
et l'écolinguistique

María Noel LAPOUJADE .................................................................................... 110


La philosophie de la vie chez Gaston Bachelard aujourd’hui

Alina Ioana BAKO ............................................................................................... 122


La subversion de l’imaginaire : le cas de la littérature roumaine

Vanessa Costa e Silva SCHMITT......................................................................... 134


L'idéologie du progrès dans l'imaginaire scientifique du XIXe siècle :
le credo du docteur Pascal dans le roman éponyme d'Émile Zola (1893)

Mesa redonda 2:
Imaginação simbólica: mídia, culto e religiosidade ...................... 153

Marco Antônio DIB .............................................................................................. 154


Mitodologia durandiana – a mitocrítica

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Gustavo de CASTRO ............................................................................................ 182
Imaginário, literatura e mídia

Artur ROZESTRATEN ........................................................................................ 191


Constelações de imagens fotográficas de arquitetura:
desafios do projeto ARQUIGRAFIA

Jorge MIKLOS...................................................................................................... 209


A tecnologia como religião: imaginário tecnológico e religioso
na cibercultura - o culto à Apple

Jorge Augusto MAXIMINO ................................................................................. 222


Discurso metafórico, imaginário e alteridade em Primeiras estórias
de João Guimarães Rosa

Mesa redonda 3:
Da representação tecnológica à fenomenologia do corpo .............. 235

Paolo BELLINI ..................................................................................................... 236


Le langage de l'imaginaire entre mythe et utopie

Stanislas DE COURVILLE .................................................................................. 262


L'image manquante: le cinéma à l'épreuve du travail de mémoire

Marie-Agnès CATHIARD .................................................................................... 278


Et il fallut attendre le début de ce XXIe siècle pour que deux intuitions
fondamentales, de Jung et Bachelard, inspirateurs du CRI naissant,
se conjuguent en corps neural

Juliana Michelli OLIVEIRA ................................................................................. 307


As máquinas de Morin: o vivo como modelo do artificial

Mireille COURRÉNT ........................................................................................... 322


Le mode ternaire, concept dynamique d’organisation dans le monde
grec antique.Gilbert Durand et le modèle homérique

Mesa redonda 4:
O paradigma da complexidade e a Teoria Geral do Imaginário ........ 333

Alberto Filipe ARAÚJO ....................................................................................... 334


Da necessidade de falar-se de mitanálise em educação.
Uma contribuição à hermenêutica do mito

Monique SILVA
Vanessa VASCONCELLOS
Valeska Fortes de OLIVEIRA .............................................................................. 354
As contribuições do imaginário para a educação: um estado da arte

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Maria Thereza de Queiroz Guimarães STRÔNGOLI .......................................... 370
Um novo olhar sobre as estruturas de Gilbert Durand

Alberto Filipe ARAÚJO


Lúcia Maria Vaz PERES
Iduina Mont’Alverne Braun CHAVES ................................................................. 380
O imaginário educacional como contributo às linguagens da educação

Thácio FERREIRA DOS SANTOS...................................................................... 395


Durandismo no Brasil: ou florescimento de novas propostas
teórico-metodológicas?

Grupo de Trabalho 1: Imaginário, ciência e tecnologia ................. 415

Carlos ORELLANA.............................................................................................. 416


A imaginação radical

Cláudio CORDOVIL ............................................................................................ 434


A religião dos fatos: a persistência do mito do genesis
nas representações da Nova Genética

Luis Flávio Almeida LUZ .................................................................................... 454


Construção de uma paisagem gráfica para a visualização do imaginário,
elaborada a partir da tentativa de compreensão do funcionamento da noosfera

Alexandre Vergínio ASSUNÇÃO ........................................................................ 468


Imaginário e tecnologia: pequeno ensaio sobre suas aproximações

Andriolli COSTA e Francisco SANTOS .............................................................. 482


Reportagem algorítmica: imagens de um jornalismo sem jornalistas

Denise Ayres GOMES e Roberto José RAMOS .................................................. 497


Tecnologias do imaginário: o jornalismo como promotor das doenças mentais

Cláudia Mariza Mattos BRANDÃO e Gustavo REGINATO .............................. 513


Imagens, tecnologias do imaginário e formação docente

Mágda CUNHA e Paula VISONÁ ....................................................................... 522


O inacabado: a estética no cruzamento tecnológico

Heloisa Juncklaus MORAES e Edla LUZ ............................................................ 538


O lugar místico da intimidade no imaginário contemporâneo:
o parto como espetáculo

Grupo de Trabalho 2: Imaginário e cotidiano ............................. 551

Gustavo de CASTRO e Victor STOIMENOFF.................................................... 552


Imaginário pós-romântico entre travestis

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Alex DAMASCENO ............................................................................................ 566
A imaginação técnica e dialógica na sociabilidade dos videochats randômicos

Jonara Raquiel ECKHARDT e Leonardo CHARRÉU ......................................... 584


Ambientes, dissensos e fricções docentes nas artes visuais:
Vivendo e experimentando na casa de Bachelard

Valéria Cristina Pereira da SILVA ....................................................................... 590


Paisagens sensíveis e flutuantes: o imaginário da cidade na era da imaginação

Adilson MARQUES ............................................................................................. 614


Saúde integral e imaginário: uma proposta de tecnologia social e comunitária

Lisandro Lucas MOURA ...................................................................................... 619


O imaginário nas narrativas visuais do cotidiano: contribuições
para a retomada de uma educação reencantada

Angelita HENTGES.............................................................................................. 634


Imaginários da cultura brasileira: A educação e a ancestralidade
nas rodas de capoeira Angola

José CELORIO e Lúcia PERES ........................................................................... 646


As faces de Saturno: Imaginário, melancolia e mal-estar na escola

Fabio José Cardias GOMES ................................................................................. 656


Pescadores em busca do seu Touro: regência, sabência e sofrência
no imaginário da Ilha dos Lençóis – MA

Lúcia Maria Vaz PERES e Valeska Maria Fortes de OLIVEIRA........................ 671


Transitando entre a antropologia do imaginário e o imaginário social:
trajetos de dois grupos e de duas pesquisadoras que buscam o sentido existencial
para seus ofícios

Grupo de Trabalho 3: Imaginário e mídia .................................. 684

Elza Nakayama Nenoki do COUTO, Heloanny de Freitas BRANDÃO


e Lais Carolina Machado e SILVA ....................................................................... 685
O regime crepuscular e a construção do imaginário
sustentável na publicidade Colgate

Frederico de OLIVEIRA....................................................................................... 704


Mitosfera do Consumo: um olhar mitodológico
sobre a temporalidade dos slogans que passam na TV

Rafiza VARÃO e Rosana PAVARINO ................................................................ 724


O monstro e a virgem: o legado da propaganda “Destroy this mad brute”

Annelena LUZ e Paula CORUJA ......................................................................... 744


Um olhar oximorônico da publicidade da “Real Beleza”

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Paula Francinete Barros BEZERRA e João de Deus Vieira BARROS ................ 758
Estado da arte da área de cultura visual, mediação educativa
e imaginário no contexto da arte contemporânea em periódicos brasileiros

Lutiana CASAROLI ............................................................................................. 775


Autorreferencialidade midiática: Imagem e Imaginário

Anelise Angeli DE CARLI e Renata LOHMANN ............................................... 796


Minha câmera para mim: Sentidos do gesto da selfie

Ada SILVEIRA e Isabel GUIMARÃES............................................................... 808


A mediação do imaginário na representação da periferia

Leidiane Coelho JORGE....................................................................................... 819


Pregnância simbólica ou esteriótipo: as narrativas tecidas pelos
descendentes dos colonizadores acerca dos Xokleng no município
de Pouso Redondo/SC

Wilson NOGUEIRA ............................................................................................ 832


Boi-bumbá de Parintins: uma abordagem comunicacional
ecossistêmica do imaginário amazônico no espetáculo midiático

Eunice Simões Lins GOMES................................................................................ 853


Batismo em águas e discurso jornalístico:
Das imagens que se mostram às imagens que se ocultam

Flávia Gabriela da Costa ROSA ........................................................................... 873


Imaginários corrompidos: Audiência da fé a serviço da mediosfera

Grupo de Trabalho 4: Imaginário e linguagens ............................ 890

Elza Kioko Nakayama Nenoki do COUTO e Samuel de Sousa SILVA ............. 891
O olhar que distorce o tempo e o espaço: mitocrítica do discurso científico

Naiara Gomes de OLIVEIRA e Ana Beatriz Simon FACTUM ........................... 901


Contribuições da teoria do imaginário através do diálogo
entre arte, design e a obra do profeta Gentileza

Fernanda NORONHA .......................................................................................... 920


Animês e mangás: o mito vivo e vivido no imaginário infantil

Ana Laudelina Ferreira GOMES .......................................................................... 942


A religação dos saberes no rio do imaginário e da imaginação simbólica

Eduardo Romero Lopes BARBOSA .................................................................... 953


Mitos do corpo na performance

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Franciele Machado de AGUIAR .......................................................................... 974
A presença na imagem: intensidades mitopoéticas em cena

Márcio Soares dos SANTOS e Adriana Pierre COCA ......................................... 985


Vinheta de abertura de “Roque Santeiro”: a esfera simbólica
do início do período redemocrático do país configurada diariamente na TV

Danilo FANTINEL ............................................................................................... 995


Família centro do mundo, descida ao inferno, renascimento e queda:
O imaginário movido pelo rockumentary Cobain: Montage of Heck

Maria Zilda da CUNHA e Maria Auxiliadora Fontana BASEIO ........................ 1021


Imaginário e Literatura em perspectiva interdisciplinar

Heloisa Juncklaus Preis MORAES, Willian Corrêa MAXIMO


e Luiza Liene BRESSAN ..................................................................................... 1038
Entre os fios que tecem a peneira d’água: uma leitura do imaginário
por meio do Regime Diurno da imagem

Luara Pinto MINUZZI .......................................................................................... 1052


Mia Couto e a simbologia de barcos:
navegar, mais do que preciso, é sonhável

Renata LISBÔA .................................................................................................... 1069


A constituição do si-mesmo e os valores do ser: os devaneios
da intimidade em Bachelard, a invenção poética em Manoel de Barros
e a psicanálise em Winnicott

Grupo de Trabalho Temas Transversais A .................................. 1087

Alberto Filipe Ribeiro de Abreu ARAÚJO


e Iduína Mont’Alverne Braun CHAVES .............................................................. 1088
Da “boa vida” a um “bem viver” num quotidiano à deriva:
um olhar mitanalítico

Carlos André Echenique DOMINGUEZ .............................................................. 1106


A natureza e a emoção no ethos jornalístico

Sueli SCHIAVO.................................................................................................... 1127


Mídia, imaginário e a relação com a responsabilidade social

Ivan Vasconcelos FIGUEIREDO ......................................................................... 1138


Imaginários sociodiscursivos transgressivos de Black Blocs

Paula Cristina VISONÁ e Paula CORUJA ........................................................... 1158


Memórias do futuro: novas práticas para moda e comunicação

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Cristiane WEBER e Ernani César FREITAS ....................................................... 1170
A figura do Sumo Pontífice e a quebra de um tabu: o discurso
do Papa Francisco e o imaginário da comunidade católica
a respeito do tema homossexualismo

Alecrides Jahne Raquel Castelo Branco de SENNA ............................................ 1192


Um número no Lager: um estudo sobre o nome e alma no judaísmo,
a partir da literatura da Shoah

Ivana Soares PAIM ............................................................................................... 1201


Um Orixá evangélico: a transição de Exu para o culto
da Igreja Universal do Reino de Deus

Vânia NORONHA ................................................................................................ 1215


Imagens míticas na celebração do reinado de Nossa Senhora do Rosário

Givaldo Ferreira CORCINIO Jr ............................................................................ 1233


A arte da fé: os ex-votos no imaginário religioso de Trindade-Goiás

Grupo de Trabalho Temas Transversais B .................................. 1248

Ana Iara Silva de Deus e Roseléia SCHNEIDER ................................................ 1249


Imaginário, cinema e formação: a linguagem
cinematográfica na ação educativa

Andressa Lima TALMA e Waldeir Reis PEREIRA............................................. 1258


A construção da identidade étnico-racial: trajetórias de professoras negras

Genis Frederico Schmaltz NETO ......................................................................... 1277


O imaginário sob a perspectiva ecológica da linguagem

Silvia Sueli Santos da SILVA e Cainã de Paula MELLO .................................... 1287


Recortes Poéticos da Amazônia Ribeirinha:
narrativas de quintais em Paquetá

Luciana Martins LINDNER .................................................................................. 1297


A técnica de pesquisa da autoscopia: primeiras aproximações
com a abordagem teórico-mitodológica do imaginário

Aline Fatima da Silva Costa MAGNO ................................................................. 1313


Sistema IDA: Uma Metodologia de criação artística em Diálogo
com as Ciências do Imaginário

Marília G. G. GODOY e Alzira L. A. CAMPOS ................................................. 1321


Renovação da Casa de Reza (opy) em aldeias Guarani Mbya:
imaginário e xamanismo

Cláudio Baptista CARLE...................................................................................... 1338


O Quilombo do Paredão pela atmosfera do Imaginário

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Zilda Dourado PINHEIRO ................................................................................... 1350
O estudo do corpo pelo viés da antropologia do imaginário

Andrisa Kemel ZANELLA e Lúcia Maria Vaz PERES ....................................... 1362


Escrituras do corpo biográfico: um olhar a partir do imaginário e da memória

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A tecnologia como religião: imaginário tecnológico e religioso na cibercultura - o culto à


Apple

The technology as réligion: imaginary technological and réligieux in the cyberculture -


the cult of Apple

La technologie comme réligion : l’imaginaire technologique et religieux dans la


cyberculture – le culte à Apple

Jorge MIKLOS 1
Universidade Paulista, São Paulo, Brasil

Resumo: O objetivo deste trabalho é examinar o fenômeno do imaginário tecnológico


contemporâneo que denominamos de tecnorreligiosidade, que abrem uma possibilidade de
reencantamento num mundo na órbita de uma racionalidade esgarçada. Nesse quadro
temático, o objeto de estudo coincide com o recorte específico que denominamos de Culto à
Apple na medida em que apresenta uma forma contemporânea de religiosidade que funda o
laço entre as pessoas e que possui um significado propriamente espiritual. O estudo, de caráter
bibliográfico, está amparado nas reflexões alastradas por Benjamin (2013), Heidegger (2007),
Trivinho (2002), Noble (1997), Davis (1998), Kolakowski (1977). Conclui-se que a
cibercultura está permeada por uma motivação mística que aponta para uma afinidade entre
tecnologia e religiosidade.

Palavras-chave: Imaginário tecnológico; reencantamento do mundo; cibercultura;


tecnorreligiosidade; culto à Apple

Abstract: The aim of this study is to exam the phenomenon of the contemporaneous
technologic imaginary which we name as techno-religiosity, that opens a possibility of re-
enchanting in a world around a tore apart rationality. In this thematic picture, the object of
study encounters with the specific patch named "Apple Worshipping", on the measure that
presents a contemporaneous form of religiosity that funds the bond between people and that
has a meaning properly spiritual. The study, one of bibliographic kind, is aided on the
reflexions made by Kolakowski (1977), Feenber (1999), Maffesoli (1997), Davis (1998), and
others. It is concluded that the cyberculture is fulfilled by a mystic motivation that points out
to an affinity between technology and religiosity.

Keywords: Technologic imaginarium; reenchantment of the world; Cyberculture; techno-


religiosity; Apple worshipping

Tecnorreligiosidade: alcances e limites de um processo


1
jorgemiklos@gmail.com.

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Mais de 1700 pessoas fizeram fila para a abertura da primeira loja da Apple no Brasil,
na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, na manhã de um sábado 15 de fevereiro de 2014. Desses,
163 viraram a madrugada nas dependências do shopping para serem os primeiros a entrar.
Segundo matéria do jornal Folha de São Paulo, houve momentos de jogo de futebol, com
consumidores gritando “Apple, Apple, Apple!'' e até volta olímpica de vendedores 2. Um
ritual profano?
No Reino Unido, cientistas descobrem que produtos da empresa de Steve Jobs
provocam nos seus fãs reações no cérebro semelhantes às das experiências religiosas. A
surpreendente descoberta foi mostrada no programa da BBC Secrets of the Superbrands. A
produção do programa pediu a cientistas para analisarem o que acontece ao cérebro de um
fanático da Apple enquanto observa os gadgets produzidos pela empresa.
Alex Brooks, usuário fiel da Apple, se ofereceu para participar da pesquisa. Os
especialistas colocaram Alex Brooks numa máquina de ressonância magnética e estudaram,
em real, as alterações fisiológicas do seu cérebro cada vez que lhe era mostrada uma
fotografia de um produto Apple. Quando comparadas estas medições com outras semelhantes
realizadas em pessoas muito religiosas - e expostas a imagens ligadas à sua fé - os
neurologistas encontraram efeitos semelhantes. Ou seja, o cérebro de Alex Brooks reagiu
perante um iPhone ou um iPad de uma forma parecida com a reação de um cristão
fundamentalista perante um crucifixo, por exemplo. Os especialistas colocaram Alex Brooks
que além de manter uma página na net dedicada aos aparelhos da maçã ainda invoca o recorde
de ter estado presente na inauguração de 30 lojas da marca em todo o mundo, numa máquina
de ressonância magnética e estudaram, em tempo real, as alterações fisiológicas do seu
cérebro cada vez que lhe era mostrada uma fotografia de um produto Apple. 3
Em matéria publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 13 de junho de 2010 Uma
religião chamada Apple:

A empresa acumula seguidores fanáticos que estão dispostos a pagar caro


para ter um de seus produtos, como o recém-lançado iPhone 4. Eles
demonstram uma fidelidade rara em relação a outros setores da economia e
gastam o quanto for necessário para ter o último lançamento da empresa que,

2
Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/152468-primeira-
loja-da-apple-no-pais-abre-com-fila-de-1700-pessoas.shtml Acesso em 30.ago.2015.
3
Disponível em: <http://www.cnet.com/news/apple-stimulates-brains-religious-responses-claims-bbc Acesso em
30.ago.2015.

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há algumas semanas, se transformou na companhia com maior valor de


mercado na área de informática, superando a gigante Microsoft.Nesta
semana, da mesma forma que ocorreu quando foi lançado o iPad alguns
meses atrás, os seguidores da Mac invadiram as lojas para comprar o novo
iPhone 4. Quando um modelo desse aparelho foi encontrado em um bar de
San Francisco, passou a ser estudado como um "graal" pelos especialistas
em informática. Imediatamente, os religiosos da Apple já sonhavam em
comprar esse novo produto. Um verdadeiro seguidor possui um iPhone,
iTouch, Apple TV, Mac Book Air e, claro, o iPad. Como seitas religiosas, a
Apple tem o seu símbolo na maçã, segundo estudiosos do marketing da
empresa, que pode ser o equivalente à cruz ou à estrela de David. Os
fanáticos pela companhia se identificam ao ver esta marca nos seus
aparelhos e alguns chegam a tatuá-las. "Nós somos usuários de Mac, e isso
significa que temos valores comuns", disse o psicólogo especializado em
marcas David Levine em artigo da revista Wired. A Apple também tem o
seu guru na figura de seu fundador e líder Steve Jobs. Nos anos em que ele
esteve fora da empresa, a companhia perdeu importância. Seu retorno, há
pouco mais de uma década, fez a Apple alterar a forma como o mundo ouve
música, fala ao telefone, navega na internet e, com o iPad, como lemos livros
e jornais. Seu perfil também se difere do de outros magnatas da internet,
como Bill Gates ou os donos do Google, com imagem de nerds da
informática. Jobs é visto como descolado pelos jovens, com sua blusa de
gola rolê preta e calça jeans. Nem mesmo o fundador do Facebook, Mark
Zuckerberg, de apenas 26 anos, consegue atrair a juventude como Jobs. A
sua apresentação no lançamento do iPad, em janeiro deste ano, conseguiu o
mesmo espaço nos jornais que o discurso do Estado para a União, de Barack
Obama, no mesmo dia. "O fundador da Apple, Steve Jobs, é visto como
uma figura religiosa, uma espécie de Krishna, do Hinduísmo. Ele lutaria
contra o "Império do Mal", da Microsoft, e seu líder, o "Anti-Cristo"
Bill Gates", escreveu o acadêmico Russell Belk no seu estudo "O Culto
da Macintosh", como são chamados os computadores da Apple,
geralmente apelidados de Mac. Templos. Não faltam nem mesmo templos
para a Apple, onde as pessoas podem ver os produtos da empresa como se
fossem imagens religiosas, ainda que não os comprem. Seus vendedores
seguem sempre o mesmo padrão e uniforme que lembra as vestimentas de
Jobs. Seriam como padres e freiras recebendo fiéis. Em Nova York, será
mais fácil um turista ou mesmo um morador indicar a loja da Apple mais
próxima, do que uma igreja ou sinagoga. Sempre de vidro, elas se localizam
em pontos estratégicos da cidade. A mais antiga, considerada a catedral da
Apple, aberta 24 horas e lotada mesmo às 4h da manhã, fica na nobre
esquina da Quinta Avenida com a Central Park South, diante do tradicional
Hotel Plaza. Duas outras estão em bairros da moda, como o Soho e o
MeatPacking. 4

Em 1994 Umberto Eco postulou que o mundo estava dividido por "uma nova guerra
religiosa subterrânea" opondo os usuários de Macintosh contra os da Microsoft. Além disso,
Eco afirmou: "Minha profunda persuasão é de o Macintosh é católico e o DOS [sistema
operacional da Microsoft] é protestante". E continuou:
4
Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-religiao-chamada-apple,565741,0.htm>.
Acesso em 30.ago.2015.

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Na verdade, o Macintosh é católico contrarreformista e revela a influência da


ratio studiorum dos jesuítas. É festivo, amigável, conciliador, diz ao fiel
como deve proceder passo a passo para alcançar – se não o reino dos céus –
o momento da impressão final do documento. É catequético, a essência da
revelação é resolvida em fórmulas compreensíveis e em ícones suntuosos.
Todos têm direito à salvação. O DOS é protestante, ou até calvinista. Prevê
uma livre interpretação das escrituras, pede decisões pessoais e sofridas,
impõe uma hermenêutica sutil, dá por descontado que a salvação não está ao
alcance de todos. Para fazer com que o sistema funcione, exigem-se atos
pessoais de interpretação dos programas: longe da comunidade barroca dos
foliões, o usuário está encerrado na solidão do seu próprio tormento
interior. 5

Eco não foi nem o primeiro nem o último a destacar as dimensões religiosas ou
espirituais das nossas afeições tecnológicas. De fato, uma verdadeira indústria artesanal de
estudiosos surgiu para rastrear a religiosidade dos usuários da Apple em particular, grande
parte deles se focando em Steve Jobs como a pedra rejeitada que se tornou a pedra angular,
não apenas do tremendo sucesso da Apple, mas também de uma nova cultura tecnológica que
colocou as pessoas, suas necessidades e desejos no centro, em vez dos geeks [pessoas
obcecadas por tecnologia] e suas ideias por demais “legais” e tecnológicas.
Esses cenários podem sugerir muitas coisas se pensarmos em termos de secularização
e tecnorreligiosidade.
Sugeri esse pequeno passeio para ressaltar que imagens, símbolos e mitos que
conjugam o tecnológico e o espiritual podem parecer contraditórios, mas os episódios revelam
que as conexões entre a ciência e a religião no imaginário são reiteradas.
Walter Benjamin em um ensaio escrito em 1921 afirmava que tanto em sua gênese
histórica como em sua estrutura epistêmica, o capitalismo e seu vetor tecnológico esteve
sempre próximo do religioso:

Há uma religião a divisar no capitalismo, isto é, o capitalismo serve


essencialmente à satisfação das mesmas preocupações, tormentos e
inquietudes aos quais outrora davam resposta as chamadas religiões. Não
obstante, três traços desta estrutura religiosa do capitalismo já são
reconhecíveis no presente. Primeiro, o capitalismo é uma religião puramente
cultual, talvez a mais extrema que jamais tenha existido. Nada há nele senão
uma relação imediata com o significado do culto; ele não conhece nenhum
dogma especial nem teologia. O utilitarismo ganha, sob esse ponto de vista,
sua coloração religiosa. Um segundo traço do capitalismo interliga-se com
esta concreção do culto: a duração permanente do culto. O capitalismo é a
celebração de um culto sans rêve et sans merci [sem sonho e sem piedade].
5
PAULOPES. 7 de outubro de 20111. Disponível em: <http://www.paulopes.com.br/2011/10/teologa-comenta-
morte-do-deus-tecno.html> Acesso em 30.ago.2015.

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Não há nele nenhum "dia de semana", nenhum dia que não seja de festa no
sentido terrível do desdobramento de toda pompa sagrada, da tensão extrema
do adorador. Em terceiro, este culto é culpabilizador [verschuldend]. O
capitalismo é provavelmente o primeiro caso de um culto não expiatório,
mas sim culpabilizador [verschuldenden]. Nisto, este sistema religioso está
sob a queda de um movimento monstruoso. (BENJAMIN, 2013, P. 21-22.).

Daí ser possível inclusive falar em uma religião da tecnologia, com seus próprios
sacerdotes rituais e artigos da fé. Lucien Sfez utiliza um vocabulário oriundo do campo
religioso para abordar o tema das tecnologias das informações. Como ele esclarece em Crítica
da Comunicação: “os impulsos tecnológicos contemporâneos, as crenças na onipotência da
ciência instauram práticas bem próximas de uma cultura espiritual”. (1994, p. 245).
Na mesma medida em que as religiões assimilam estratégias midiáticas em busca da
manutenção de seu status quo, meios de comunicação eletrônicos interativos (mais
precisamente, os computadores e outras tecnologias capazes de rede), também abarcam
valores religiosos apresentando a tecnologia como religião, conforme considera Eugênio
Trivinho:

Desde os apontamentos de Heidegger acerca da técnica como metafísica


realizada no século XX, constata-se, na fase atual da sociedade tecnológica,
em função da dependência da máquina, uma intensificação da característica
da tecnologia como religião. O processo de reversão apontado por
Feuerbach, pressuposto em todo impulso de transformação de algo em
religião, também se aprofundou. Em relação ao presente, ele pode ser
resumido em três momentos, a grandes traços: A partir do hipostasiamento
materializador das habilidades técnicas humanas em forma de objetos
tecnológicos num momento inicial, projetam-se, na sequência, os atributos e
as aspirações propriamente humanos para o ente criado, ao ponto, num
terceiro momento – obliterada a razão crítica capaz de abranger todo o
processo-, haver o culto sub-reptício da máquina e a consequente
subordinação do ente humano a ela. Esse processo de reversão é notável
tanto em relação aos sistemas automatizados de produção, quanto aos
eletrodomésticos, automóveis e, principalmente, computadores, que,
tomados como “segundo eu” em algumas áreas, condiciona a formação de
um público cativo que não o larga nem mesmo nas horas das refeições. Vê-
se, não só a ciência e a técnica são uma nova religião, a máquina também a
enseja. O objeto tecnológico, de extensão do ente humano, passou a ser vetor
de processos, ocupando por isso o centro da cena, enquanto o ente humano,
em mais uma de suas frustrações antropológicas, acabou por figurar na
história como um de seus anexos. Se o processo ocidental de racionalização,
operado pelo desenvolvimento das técnicas no capitalismo, havia promovido
o desencantamento iluminista do mundo, os objetos tecnológicos, e mais
ainda os informáticos em tamanho míni, reencantam-no. Novos fetiches,
vigoram como coisas dignas de consideração mítica cotidiana e articulam
uma devoção em geral verbalmente silenciosa, mas emocionalmente intensa.
Diante delas, a consciência comum acostumou-se a se deslumbrar e sorrir.

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Recebe-as pelo crivo do imaginário, da obsessão pelo uso imediato e do


desejo de conforto e distinção social. (2001, p. 83-84).

Desencantamento e Reencantamento
O progresso tecnológico poder ser caracterizado unicamente pela necessidade
instrumental de busca de soluções econômicas para um mundo dos negócios. Porém, paralelo
a esse discurso encontramos outro de natureza diversa, isto e, de motivação mística ou
espiritualista: onisciência, ubiquidade, superação de limites pessoais, utopias e toda uma serie
de nominações transcêndentalistas que, apontam para uma afinidade entre tecnologia e
religiosidade. Uma multidão de fiéis seguidores concede o ciberespaço não apenas no restrito
aspecto da racionalidade instrumental, mas como um espaço sagrado que traria imortalidade
numa fusão entre o divino e o reino da informação.
A afinidade entre a tecnologia e a religiosidade presente nas ciberutopias atuais aponta
para aquilo que Heidegger já havia considerado: “a essência da tecnologia não é técnica, mas
metafísica” (2006, p. 53).
Não apenas o crescimento quantitativo do fenômeno do culto à tecnologia justifica a
necessidade de um olhar para o panorama geral, mas, sobretudo trata-se de um problema
cientifico da relação entre a cultura digital e a religião. Cenários que suscitam um melhor
entendimento da atualização do debate acerca da relação intrínseca entre religião e tecnologia,
ou mais nomeadamente, entender como a representação do sagrado no imaginário social se
transforma com a introdução das mídias digitais.
As tecnologias passam a ter sua própria agenda, desenvolvem a autorreprodução
(autopoiesis). As tecnologias de comunicação tornam-se fetiches e os meios para a realização
dos sonhos humanos é confundida com sua atualização. Em lugar de ser um meio as mídias
digitais convertem-se em um fim em si mesmo. Suas imagens idolatradas e cultuadas são
desejos fetichizados quem anunciam mercadorias.

Imaginário Tecnológico e Tecnorreligiosidade


David Noble (1999) e Erik Davis (1998) reconheceram a volta da temática religiosa,
mágica e mística sob o olhar tecnológico coincidente com o pensamento contemporâneo.
Ambos concordam que há um movimento de remitificação que vivificam os antigos ideais de
transcendência por meio da retomada do discurso mágico.

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O imaginário tecnológico está envolto com temas de origem religiosa. São dois
aspectos do mesmo fenômeno. No imaginário tecnológico, observamos temas de origem
religiosa cristã. O discurso é híbrido oferece, tanto na tecnologia quanto na religião,
elementos semelhantes e Noble investiga as origens históricas dos fenômenos e experiências
que culminaram em descobertas e empreendimentos tecnológicos.
O que o autor denomina ciência da tecnologia são lados diferentes de um mesmo
movimento. Os programas espaciais estão para a tecnologia assim como a metafísica e
experiências extra mundo para a religião. Desde o início, as descobertas e experiências
científicas passaram por um processo de busca da perfeição divina, a idealização do homem
original, sem pecado, adâmico.
Se a perfeição, imortalidade e a vivência imaterial são algumas das vantagens da
religião, a tecnologia desenvolve “poderes” com a Inteligência Artificial, a descoberta da cura
para inúmeras doenças e tem na longevidade a resposta para algumas questões relativas à
eterna busca da imortalidade.
O decorrer da história do mundo fornece uma série de dados que corroboram as ideias
de Noble. Se os cristãos do século I consideravam as atividades técnicas mundanas e eram
avessos à tecnologia como via de transcendência, foram o pensamento religioso e suas
condutas que estimularam o desenvolvimento tecnológico. Neste momento histórico, foram
difundidas ideias de milenarismo que se perpetrou por intermédio de ideias do Apocalipse de
São João, onde o mundo como era conhecido acabaria e haveria o reino de Cristo que duraria
mil anos. A ideia de mudanças radicais a cada mil anos, ainda está presente atualmente.
Na Idade Média, a ideia central era que o homem e a natureza são distintos, e o
homem é o seu mestre. Essa ideia se concretizou nos monastérios. Os monges beneditinos
tinham a vida monástica e o trabalho (labor sagrado) como meio de salvação, buscando
técnicas inovadoras de artesanato e mecanização do trabalho e impulsionando o
desenvolvimento tecnológico. A transcendência espiritual por intermédio do
antropocentrismo, da superioridade humana diante do mundo natural, semelhante a Deus.
Por volta dos séculos XV e XVI, houve uma ênfase significativa no mundo espiritual,
com a prática técnica como meio de salvação. Coincidentemente ou não, é o momento de
ocorrência das inquisições, principalmente a Inquisição Espanhola, que começa em 1478 e
dura aproximadamente 350 anos. Nesta época ocorreram as grandes navegações e a
descoberta do Novo Mundo, que estimulou ideias da descoberta do “Jardim do Édem”. Não

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menos coincidentemente, houve uma grande migração de poder e o acúmulo de riquezas por
parte de diversos países e instituições, incluindo a Santa Madre Igreja.
Mas as ideias deveriam seguir determinada ordem. Dois dos maiores cientistas
renascentistas dos séculos XVI e XVII podem ser citados como exemplo. Giordano Bruno
(1548-1600), frade dominicano, filósofo e teólogo do Renascimento italiano, que foi
condenado à fogueira pela Inquisição como herege por defender teorias científicas,
principalmente astronômicas, contrárias às da Igreja Católica. Suas ideias, bem como as
de Galileu Galileu (1564-1642), que entre outras coisas descrevia a natureza como um grande
livro escrito por Deus, que o escreveu na linguagem universal da matemática, foram banidas
da Igreja. Bruno morreu queimado, e Galileu foi preso e finalmente excomungado.
A ciência, contudo, permaneceu hegemônica até o século XIX, com a ideia da ciência
como tecnologia e desta como meio de transcendência, reforçada com o apoio de cientistas
ligados à Maçonaria. O homem (engenheiro) aparece como ideal do homem dedicado ao
saber. Neste caso, quando Deus aparece, segue-se a expressão de “Grande Arquiteto”. O
pensamento positivista como projeto de transcendência foi precursora e reforçadora de ideias
como o socialismo de Karl Marx (1818-1883), que defina a religião como “ópio do povo” e
preconizava uma “mística sem deus”. Novamente, aparece a sensação de fim dos tempos, a
única esperança de salvação seria a libertação pela técnica e a crença da ciência como solução
final.

(...) aqueles dados a tais fantasias estão na vanguarda do desenvolvimento


tecnológico, amplamente dotados e em todos os sentidos estimulados a
realizar suas fantasias escapistas. Muitas vezes, mostrando uma insatisfação
patológica, e uma depreciação, da condição humana, eles nos falam de fora
do mundo, apontando-nos para longe da terra, da carne, do que é familiar
(...) ao mesmo tempo em que fazem o mundo se conformar com sua visão de
perfeição. (NOBLE, 1997, p.207)

Com o avanço técnico do século XX, a religião da tecnologia busca cada vez mais os
predicados divinos da onisciência, onipotência e imortalidade, por meio de um discurso cada
vez mais ambicioso e transcendental.

O Culto à Apple
Na contramão do discurso que atestava o enfraquecimento e até mesmo o fim da
religião, a religião ganha força nas dinâmicas socioculturais. Não houve exclusão, houve
interação. A secularização corroeu o poder da autoridade religiosa e, ao mesmo tempo, abriu

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espaços para a elaboração de novas formas religiosas baseadas na experiência pessoal. A


religião pode ser encontrada em espaços e formas que não possuem uma aparência religiosa
Um exemplo emblemático desse fenômeno que promeve o encontro entre tecnologia
com religião é o culto à Apple. Como seria uma religião na era da tecnologia contemporânea?
Para configurar uma religião, é necessário um símbolo. No caso, falaremos sobre a
maçã. Ela está presente nas tradições desde o início da humanidade até a fase contemporânea.
Seu formato esférico representa o mundo e suas sementes a fertilidade e a espiritualidade. A
maçã simboliza a vida, a fecundidade, a imortalidade, a juventude, o amor, a sedução, a
liberdade, a magia, a paz, o conhecimento, o desejo.
O símbolo da maçã está presente na tradição de algumas das religiões mais antigas e
disseminadas no mundo. Adão e Eva, enganados por uma serpente, comeram o pomo da
árvore do “bem” e do “mal” e foram expulsos do paraíso. Ao morderem o fruto sagrado da
sabedoria, tomaram ciência de si e do mundo, decidiram pela experiência, pela aquisição do
conhecimento, começaram a ser responsáveis por seus atos e a se responsabilizarem por suas
consequências.
A maçã parece estar presente em todos os lugares. Inclusive como símbolo da Apple.
E o nome MacIntosh vem de um tipo de maçã descoberta no Canadá no século XVII e que se
espalhou nos séculos seguintes por toda a América do Norte. O fato da maçã já aparecer
mordida parece uma alusão à aceitação do conhecimento presente no imaginário religioso.
Pode representar tanto a sabedoria, a rebeldia, a transformação e a transcendência, quanto
todos os valores citados anteriormente. E a da Apple é uma maçã que ainda atiça seus
consumidores e seguidores: “Pense diferente”.

O Herói Profeta
Um mito fundamental na figura ou do profeta, definido como aquele representa e que
prediz o futuro por inspiração divina, ou do xamã, o sacerdote tradicional do xamanismo que
possui contato com o mundo dos espíritos e que detém a capacidade de profecia ou cura, ou
ainda, o mito do herói. No caso da Apple, esse elemento está presente em Steve Jobs.
É o próprio Jobs que narra sua saga de três partes, em um discurso de 8 minutos de
duração realizado para formandos da Universidade de Stanford em 2005.
Jobs cresce e vai para a Universidade. Comparado a Moisés, que abandona o palácio
do faraó e sai em busca de si mesmo, do sentido da vida e da verdadeira fé, nosso herói

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“recusa o chamado” e desiste após seis meses de curso. Com ajuda sobrenatural continua na
universidade fazendo uma série de cursos como ouvinte. Sem alojamento, a busca pelo
conhecimento o leva a seu primeiro sacrifício, pois descreve ter até passado fome nesse
período. Então um dia, tudo isso fez sentido.

Se nunca tivesse me tornado um desistente, não teria me tornado um ouvinte


naquela aula de caligrafia e, talvez, os computadores não tivessem os
maravilhosos recursos tipográficos que têm hoje. É claro que, na época da
faculdade, era impossível ligar esses pontos. Mas, dez anos mais tarde, a
relação entre eles estava claríssima 6.

Jobs descreve a segunda história do discurso como sendo sobre o amor e a perda. O
herói passa por testes, descobre aliados e inimigos. Aproxima-se da caverna oculta, trabalha
duro. É a fase da criação e desenvolvimento da empresa. Nessa etapa, a provação suprema é o
fato dele ter sido despedido da Apple, mesmo sendo sócio fundador. Lembramos que outro
profeta, Moisés, também foi banido para o deserto após ter matado um feitor de escravos
egípcio, passando por provações até encontrar abrigo com uma tribo. Ali ele acabou
conhecendo uma moça e se casando com ela. Algum tempo depois, recebe um sinal do divino
que o envia para libertar o povo hebreu da escravidão. Mais uma vez tal qual Moisés retorna
ao palácio do faraó falando em nome de seu povo, realiza várias coisas extraordinárias até
atravessar o Mar Morto. Jobs não foge para o deserto, mas está fora da Apple. Após essa
provação suprema, tem sua recompensa. Em sua jornada encontra uma garota, se apaixona e
se casa com ela, monta duas empresas, a NeXT e a Pixar. É o caminho de volta. E a
recompensa? Finalmente aparece a oportunidade de retorno à Apple. “As infelizes situações
vividas na Apple não tinham mudado isso em nada. Eu tinha sido rejeitado, mas continuava
apaixonado. ” Seu retorno pode ser visto como a ressurreição, o retorno do herói com o elixir.
Ou memos a travessia do “mar da ignorância”, onde ele salva não apenas a empresa, mas
também a humanidade, que, sem ele, viveria uma era sem a tecnologia que temos hoje.
Lembrando que Moisés partiu com seu povo para o deserto e lá peregrinou por
quarenta anos, a saga do xamã da Apple continua. E então ele refere à experiência de estar
vivo e conclama discípulos â peregrinação:

Não percam a fé. (...) se ainda não descobriram o que é que amam fazer,
sigam procurando. E, como ocorre em todos os grandes relacionamentos, as

6
http://blogs.estadao.com.br/link/continuem-bobos/. Acesso em 30.ago. 2015.

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coisas só melhoram com o passar dos anos. Assim, continuem procurando


até encontrar aquilo que amam. Não se contentem com menos do que isso 7.

A terceira e última parte desse discurso de apenas 8 minutos faz referência à morte.
“Lembrar que vamos morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar
que temos algo a perder. Já estamos nus. Não há motivo para não seguir o coração.” Continua,
confirmando algo que a maioria de nós humanos já percebeu, que a morte é inevitável.

Ainda assim, a morte é o destino final do qual todos nós partilhamos.


Ninguém jamais escapou dela. E é assim que as coisas deveriam ser, porque
a morte é provavelmente a melhor invenção de toda a vida. Ela é o grande
agente transformador da vida. Ela tira do caminho o que é velho e abre
espaço para o que é novo 8.

E, mais para frente, volta a ideia do “Pense diferente!”

Nosso tempo é limitado e, por isso, não devemos desperdiçá-lo vivendo uma
vida que não seja a nossa. Não se deixem aprisionar pelo dogma – que
equivale a viver de acordo com os resultados do pensamento de outra pessoa.
Não deixem o ruído da opinião alheia afogar a voz que vem do interior de
cada um de vocês. E, mais importante, tenham a coragem de seguir seu
coração e sua intuição. De alguma maneira, eles já sabem aquilo que vocês
realmente desejam se tornar. Tudo o mais é secundário 9.

O discurso acaba com a citação de uma publicação dos anos 70: “Continuem
esfomeados. Continuem bobos. Sempre desejei isso para mim mesmo. E agora que vocês
estão se formando para dar início a um novo começo, é isso que desejo a vocês. Continuem
esfomeados. Continuem bobos.” Ou... “Pense diferente!”
Em 5 de outubro de 2005 morre Steve Jobs. Sua saga é noticiada no mundo todo com
informações e detalhes que acabam por reforçar o mito.

Morreu nesta quarta-feira (5) aos 56 anos o empresário Steven Paul Jobs,
criador da Apple, maior empresa de capital aberto do mundo, do estúdio de
animação Pixar e pai de produtos como o Macintosh, o iPod, o iPhone e o
iPad. Idolatrado pelos consumidores de seus produtos e por boa parte dos
funcionários da empresa que fundou em uma garagem no Vale do Silício, na
Califórnia, e ajudou a transformar na maior companhia de capital aberto do
mundo em valor de mercado, Jobs foi um dos maiores defensores da
popularização da tecnologia. Acreditava que computadores e gadgets
deveriam ser fáceis o suficiente para ser operados por qualquer pessoa, como
gostava de repetir em um de seus bordões prediletos, que era "simplesmente

7
Idem
8
Idem
9
Idem

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funciona" (em inglês, "it just works"). O impacto desta visão foi além de sua
companhia e ajudou a puxar a evolução de produtos como o Windows, da
Microsoft 10.

A morte de Steve Jobs foi anunciada como “martírio”, “sacrifício”. Porém, sua vida é
testemunhada pelos “seguidores” como aquela cuja aventura trouxe benefícios aos seus
semelhantes.

Considerações final
O Culto à Apple assenta muitas questões que ultrapassam os limites dessa
comunicação. Entre elas, um questionamento acerca dos discursos que afirmam o avanço da
secularização em relação aos núcleos sociais de sentido. Parece-nos que isso não ocorreu de
fato e que estamos assistindo uma emergência do sagrado. Trata-se da "revanche do sagrado
sobre a cultura profana” como afirmou Leszek Kolakowski em 1974 (1997) 11
Na cultura contemporânea, a religião pode ser encontrada em espaços e formas que
não possuem uma aparência religiosa.
Assistimos no imaginário social midiatizado, uma técnica sacralizada, ou seja, é
percebida como um ente autônomo. No imaginário a tecnologia digital é percebida com uma
força sobrenatural capaz de interferir no destino humano. Trata-se do Reencantamento do
mundo por meio da sacralização da tecnologia
No centro das narrativas atuais que sustentam a supremacia da ciência e do poder
ilimitado da tecnologia encontra-se um discurso paralelo promovendo o mistério e o
misticismo. Os novos meios de comunicação criam uma sociabilidade densa, elaborando um
ambiente que pode qualificar-se de espiritual pela união que transcende o tempo e o espaço
A tecnologia flerta com a magia, com o místico, com o mítico. Só um imaginário
autônomo poderá proporcionar ao ser humano uma vida mais plena.

REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Walter. O Capitalismo como Religião. São Paulo: Boitempo, 2013.

10
Disponível em <http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2011/10/morre-steve-jobs-fundador-da-apple.html>
Acesso em 30.ago.2015.
11
O texto foi publicado em francês com o título “La Revanche du sacré dans la culture profane”, na Le besoin
religieux em 1974, e foi traduzido e publicado na revista Religião e Sociedade em 1997.

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Disponível em http://www.cnet.com/news/apple-stimulates-brains-religious-responses-
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_____. Continuem bobos. 9 de outubro de 2011. Disponível em:
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FOLHA DE SÃO PAULO, 16 de fevereiro de 2014. Disponível em:


http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/1
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30.ago.2015.

G1. Tecnologia e Games. 5 de outubro de 2011. Disponível em:


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Baixado em www.imaginalis.pro.br por Jorge Miklos em 3 de novembro de 2015

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