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FILOSOFIA – IC – PS IV: Os Signos da Arte e a Essência.

1. Superioridade ante aos outros signos.


- A superioridade dos signos da arte sobre outros se dá por conta de que, os
outros signos são signos materiais.
- Os signos mundanos, amorosos e sensíveis são materiais porque:
1. Por conta de sua emissão. Surgem parcialmente encoberto no objeto em que
os porta.
2. Por conta de seu desenvolvimento ou “explicação”. A explicação destes signos
comporta alguma coisa de material.
- A arte é o único signo imaterial, e tem um sentido inteiramente espiritual,
constituindo com estas características o que Deleuze chama de “Verdadeira
Unidade”, a ESSÊNCIA.
- A ESSÊNCIA É A VERDADEIRA UNIDADE DO SIGNO E DO SENTIDO, TAL
QUAL É REVELADA NA OBRA DE ARTE.
- A essência, revelada na obra de arte é uma diferença, última e absoluta.
Essa constitui o ser, e nos faz capaz de concebê-lo.
- A diferença última e absoluta não é uma diferença empírica entre duas
coisas diferentes, mas sim uma qualidade última no âmago do sujeito,
diferença qualitativa. Como Leibniz, essências são como as mônadas, cada
uma se definindo pelo seu ponto de vista, que se remete a uma qualidade
última no fundo da mônada.
- A arte nos permite exteriorizar tais essências. Somente com a arte podemos
contemplar um universo inteiramente novo a nós, saber o que o outro enxerga.
- Cada sujeito tem sua qualidade última, a sua essência, o seu ponto de vista
pelo qual expressa o mundo, e cada expressão é absolutamente diferente umas
das outras. Esta expressão, não existe fora do sujeito que a exprime. O que
chamamos de mundo exterior é apenas a projeção ilusória, o limite uniformizante
de todos esses mundos expressos.
- Contudo, o mundo expresso não se confunde com o sujeito. Eles se diferenciam
assim como essência se difere da existência, e inclusive de sua própria
existência. O mundo não existe fora do sujeito que o exprime, mas é expresso
como a essência, não do próprio sujeito, mas do Ser, ou da região do ser que se
revela ao sujeito.
- Não é o sujeito que explica a essência, antes é a essência que se implica,
envolve e enrola no sujeito. Mais ainda, enrolando sobre si mesma, constitui a
subjetividade. Não são os indivíduos que constituem o mundo, antes são as
essências e os mundos envolvidos que constituem os indivíduos, e que jamais
conheceríamos sem a arte.

2. Arte e tempo.
- Um mundo envolvido da essência é sempre o começo do mundo em geral, um
começo do universo, um começo radical absoluto.
- Mas definir desta forma a essência é também definir o nascimento do tempo.
Mas não o tempo desdobrado, com suas dimensões desenvolvidas, nem mesmo
as séries separadas que se distribuem segundo ritmos diferentes.
- Deleuze utiliza um termo neoplatônico para descrever o estado do tempo antes
de seu desenvolvimento: a complicação, que envolve o múltiplo no uno, e afirma
o uno no múltiplo. A eternidade não parecia ausência de mudança, tampouco o
prolongamento de uma existência sem limites, mas o estado complicado do
próprio tempo.
- Da mesma forma, o artista tem a revelação de um tempo original, enrolado,
complicado em sua própria essência, abarcando de uma só vez todas suas
séries e dimensões. Aí jaz o sentido da expressão “tempo redescoberto”.
- Existem dois tempos redescobertos, um puro e revelador, que é o da arte, e
outro que através dos recursos da memória involuntária nos dá uma simples
imagem da eternidade, que é o da sensibilidade.
- A arte está para além das memórias e recorre ao pensamento puro como
faculdade das essências. O que a arte nos faz é redescobrir o tempo, tal como
se encontra enrolado na essência. Por isso a arte é o único signo que nos faz
redescobrir o tempo perdido, pois ela porta os signos mais importantes, cujo
sentido está contido numa complicação primordial, verdadeira eternidade, tempo
original absoluto.
3. Diferença e repetição

- A essência se encarna na obra de arte, e desta forma o artista consegue


comunica-la a outrem. Mas como isso é possível?
- A essência se encarna em matérias, mas podemos dizer que tais matérias são
inteiramente espirituais. Sendo estas: cor, som e palavras. São matérias livres,
que se exprimem através da arte.
- Na arte a matéria se espiritualiza, os meios físicos se desmaterializam e
refratam a essência, a qualidade de um mundo original.
- Uma essência, como qualidade, jamais se confunde com um objeto. Ao
contrário, ela aproxima dois objetos inteiramente diferentes, que deixam
perceber a qualidade no meio revelador. Ao mesmo tempo que a essência se
encarna em determinada matéria, a qualidade última que a constitui, se expressa
como qualidade comum a dois objetos diferentes, misturados na matéria. Nisto
consiste o estilo.
- Uma essência é sempre o nascimento do mundo, o estilo é este nascimento
continuado, refratado, redescoberto nas matérias adequadas a essência, esse
nascimento como metamorfose de objetos.
- A essência é em si mesma diferença, e não tem o poder de diversificar e de
diversificar-se, sem a capacidade de se repetir, idêntica a si mesma. O que
poderíamos fazer essência, que é diferença última, se não repeti-la, nada
podendo-lhe ocupar o lugar? Por isso uma música deve ser repetida várias
vezes, um poema, aprendido de cor e recitado.
- A diferença, como qualidade de um mundo, só se afirma através de uma
espécie de auto repetição, que percorre os mais variados meios e reúne objetos
diversos; a repetição constitui os graus de diferença original, como por sua vez
a diversidade constitui os níveis de uma repetição não menos fundamental.