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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Luciano dos Santos Diniz

(Re)estruturação urbana e o processo de gentrificação em Venda Nova – Belo


Horizonte/MG

DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

São Paulo
2015
Luciano dos Santos Diniz

(Re)estruturação urbana e o processo de gentrificação em Venda Nova – Belo


Horizonte/MG

DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

Tese apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título
de Doutor em Ciências Sociais, na linha de
pesquisa Dinâmicas Urbano-Regionais,
Planejamento e Políticas Públicas, sob a
orientação da Profa. Dra. Maura Pardini Bicudo
Véras.

São Paulo
2015
Banca Examinadora

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__________________________________________
Ao meu companheiro Paulo, com todo o meu amor.
AGRADECIMENTOS

À Nossa Senhora Desatadora de Nós, que tem me guiado durante toda essa
jornada, sempre dando mostras de sua poderosa intercessão.

Ao Paulo, meu parceiro e maior incentivador, por me mostrar, a cada dia, que
a vida, os sonhos e as alegrias são muito melhores se compartilhados.

À minha mãe, Tânia; aos meus irmãos. Eduardo e Rafael; às minhas cunhadas,
Jaqueline e Gabriela; e aos meus sobrinhos, Maria Eliza, João Pedro, Lara, Esther e
Lívia, meu amor e eterna gratidão.

Aos meus familiares, em especial à Tia Sônia, à Tia Elizabeth, à Tia Margareth,
à Tia Nilza, à Tia Dulce, ao Arthur, à Bárbara e a todos os integrantes do “Pisquila”,
pelo carinho e apoio permanentes.

Aos queridos Agustín Gant, Amon Barros, Ana Diniz, Ana Estevens, Bu Couto,
Carla Lima, Carolina Rocha, Cristiane Almeida, Felipe Paiva, Isabella Monteiro,
Katielle Susane, Letícia Junger, Ludmila Guimarães, Luís Mendes, Marina Carreiras,
Natália Bittencourt, Paulo Madeira, Roberta Abalen, Sancha Resende, Simone Silva,
Tarsila Filgueiras, pela amizade, consideração e despretensioso auxílio.

À Profa. Maura Véras, que aceitou o encargo de me conduzir nesse tortuoso e


longo caminho, descortinando um “mundo novo”, para além do Direito e das leis. Com
orientações sempre precisas, estimulantes e respeitosas. E, principalmente, com um
sorriso largo e cativante no rosto, apesar das agruras da vida. Muito obrigado pelo
carinho e atenção de sempre. “Segue o jogo...” mas, agora, de um jeito diferente.

Ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET/MG,


nas pessoas de seu Diretor Geral, Prof. Flávio dos Santos, da Profa. Ana Lúcia Faria
e do Prof. Milney Chasin, pela oportunidade, apoio e confiança.

Aos estimados colegas do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas –


DCSA, pelo estímulo e cooperação.

Aos professores do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais


da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, que me introduziram nas
Ciências Sociais e, com maestria, proporcionaram os ensinamentos necessários à
realização desse trabalho. Em especial, agradeço às professoras Marisa Borin e
Mônica de Carvalho, pelas enriquecedoras contribuições da banca de qualificação.
Todas de fundamental importância para a conclusão da tese. À Profa. Vera Chaia,
pelo auxílio no decorrer do curso e empenho para a concessão da bolsa de doutorado
sanduíche. À Kátia e ao Rafael, sempre disponíveis e atenciosos.

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES,


pela oportunidade do estágio no exterior.

Ao Prof. Jorge Malheiros, por ter gentilmente me recebido como acadêmico


visitante no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território – IGOT da
Universidade de Lisboa. Seus ensinamentos, sua postura e sua disponibilidade me
servirão sempre de exemplo.

À Fundação João Pinheiro – FJP, nas pessoas de Maria Luiza Marques e


Priscilla Costa Pereira, pela atenção e estimado auxílio.

À Fundação IPEAD, na pessoa de Thaize Vieira Martins Moreira, pelas


colaborações à pesquisa.

Ao Diários Associados – Estado de Minas, na pessoa de Karla Luz, por


franquear a consulta ao arquivo do jornal.

À Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, nas pessoas de Ana Luiza Nabuco,


Sérgio Moraleida, Cláudia Pereira, Ervio de Almeida, pela acolhida e inestimáveis
contribuições para a pesquisa.
RESUMO

(Re)estruturação urbana e o processo de gentrificação em Venda Nova – Belo


Horizonte/MG
Luciano dos Santos Diniz

As ações modificadoras procedidas pelo Poder Público, em articulação com o capital


privado, a fim de consolidar o papel das cidades no cenário econômico nacional e
garantir sua inserção no mercado global, nem sempre caminham no sentido de
ampliar o direito dos cidadãos à cidade. Por vezes, tais ações acarretam, ainda que
involuntariamente, a intensificação da desigualdade, da exclusão e da segregação
socioespacial das parcelas mais pobres da população. O objetivo da pesquisa foi
identificar se as intervenções realizadas pelo Poder Público no Vetor Norte da Região
Metropolitana de Belo Horizonte, a partir de 2005, deram início ao processo de
gentrificação da Área de Estudo Venda Nova – AEVN. De forma específica, buscou-
se identificar os elementos que caracterizam o processo de gentrificação, entendido
como enobrecimento/elitização de determinadas áreas, à luz de bibliografia nacional
e internacional. Assim, foram pesquisadas a ocorrência de alteração da ordem
fundiária; as alterações na infraestrutura urbana, na tipologia dos imóveis e nos
indicadores censitários. Para tanto, no presente estudo, foram utilizadas pesquisa
bibliográfica, documental e de levantamento com moradores antigos, moradores
recentes e ex-moradores, que permitissem conhecer e avaliar, na sua temporalidade,
o fenômeno da gentrificação. A pesquisa concluiu que, de fato, as intervenções
procedidas pelo Poder Público no Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo
Horizonte principiaram o processo de gentrificação da área de estudo, o qual é
caracterizado pela ativa atuação do Poder Público; pelo reinvestimento de capital
público e privado no ambiente circundante; pela alteração da ordem fundiária; pela
transformação do ambiente construído; pela reorganização da cartografia social da
área, com a chegada de moradores com níveis socioeconômicos mais elevados; e,
finalmente, pelo deslocamento indireto dos moradores de baixa renda.

Palavras chave: Cidade. Gentrificação. Reestruturação urbana. Alteração


socioespacial.
ABSTRACT

Urban (re)structuring and gentrification process in Venda Nova – Belo Horizonte/MG

Luciano dos Santos Diniz

In order to strengthen the role of cities in the domestic economic environment national
and ensure their integration into the global market, the modifying actions proceeded
by the Government, in conjunction with private capital, not always broaden the citizens'
right to the city. Sometimes such actions lead, albeit unintentionally, to the
intensification of inequality, exclusion, and socio-spatial segregation of the poorest
segments of the population. The objective of the research was to identify whether the
interventions made by the Government in the North Section of the metropolitan region
of Belo Horizonte, since 2005, have initiated the gentrification process of the study
area Venda Nova. Specifically, it sought to identify the elements that characterize the
gentrification process, understood as ennoblement/elitization of certain areas, with
conceptual basis of national and international literature. Therefore, were researched
the occurrence of land order changes; the changes in urban infrastructure, in the
typology of buildings and in census indicators. For this purpose, in the present study,
it was used a bibliographical, documental and survey research with older residents,
recent residents and former residents that allowed knowing and evaluating the
gentrification phenomenon in its temporality. The research has concluded that, in fact,
the interventions proceeded by the government in the North Sector of the metropolitan
region of Belo Horizonte have initiated the gentrification process of the study area,
which is characterized by an active role of the Government; the reinvestment of public
and private capital in the surrounding environment; changes in the order land; the
transformation of the built environment; the reorganization of the social cartography of
the area with the arrival of higher-socioeconomic-level residents; and finally, the
indirect displacement of low-income residents.

Keywords: City. Gentrification. Urban restructuring. Socio-spatial change


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Área de Estudo Venda Nova no ano de 2015 .......................................... 28


Figura 2 – Teorias de Desenvolvimento Urbano ....................................................... 44
Figura 3 – Modelo de Zonas Concêntricas de Burgess ............................................. 46
Figura 4 – Modelo Setorial de Hoyt ........................................................................... 48
Figura 5 – Modelo de Múltiplos Núcleos de Harris e Ullman ..................................... 49
Figura 6 – Modelo de Desenvolvimento Estrutural da Cidade Latino-americana ...... 64
Figura 7 – Região Histórica de Venda Nova (RHVN) .............................................. 165
Figura 8 – Planta Básica de Belo Horizonte – Projeto de Aarão Reis ..................... 169
Figura 9 – Vista parcial do centro de Belo Horizonte (MG), em 1950 ..................... 183
Figura 10 – Metrópole Dispersa e Monocêntrica X Metrópole Compacta e
Policêntrica .............................................................................................................. 197
Figura 11 – Maquete do BH-TEC ............................................................................ 203
Figura 12 – Eixos de Desenvolvimento de Belo Horizonte ...................................... 208
Figura 13 – Centro Administrativa do Estado de Minas Gerais (CAMG) ................. 212
Figura 14 – “Linha Verde” na Região Metropolitana de Belo Horizonte .................. 217
Figura 15 – Anel Viário de Contorno Norte – Rodoanel Norte................................. 218
Figura 16 – Catedral Metropolitana Cristo Rei ........................................................ 219
Figura 17 – Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH ........................... 220
Figura 18 – Shopping Estação BH .......................................................................... 230
Figura 19 – Vista do CAMG e de parte da AEVN no ano de 2015 .......................... 246
Figura 20 – Empreendimentos Imobiliários Recentes das Principais
Incorporadoras/Construtoras ................................................................................... 247
Figura 21 – Vista do bairro Cenáculo no ano de 2006 ............................................ 251
Figura 22 – Vista do bairro Cenáculo no ano de 2015 ............................................ 251
Figura 23 – AEVN (Bairro Cenáculo) ...................................................................... 252
Figura 24– AEVN (Bairro Minas Caixa) ................................................................... 253
Figura 25 – Vista do bairro Minas Caixa no ano de 2006 ........................................ 254
Figura 26 – Vista do bairro Minas Caixa no ano de 2015 ........................................ 255
Figura 27 – AEVN (Bairro Parque São Pedro) ........................................................ 264
Figura 28 – AEVN (Bairro Venda Nova) .................................................................. 267
Figura 29 – AEVN (Bairro Parque São Pedro) ........................................................ 268
Figura 30 – AEVN (Bairro Europa) .......................................................................... 270
LISTA DE MAPAS

Mapa 1 – Regiões Administrativas de Belo Horizonte ............................................... 23


Mapa 2 – AEVN e Regiões Administrativas de Belo Horizonte ................................. 27
Mapa 3 – Município de Belo Horizonte (1923) ........................................................ 175
Mapa 4 – Evolução da Ocupação de Belo Horizonte (1918-2007).......................... 187
Mapa 5 – Regiões Administrativas da cidade de Belo Horizonte ............................ 188
Mapa 6 – Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) ................................... 194
Mapa 7 – AEVN e Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte ........... 200
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Relação de Bairros da Região Administrativa Venda Nova por Territórios


de Gestão Compartilhada.......................................................................................... 24
Quadro 2 – Aspectos positivos e negativos do processo de gentrificação .............. 146
Quadro 3 – Cronologia da RHVN ............................................................................ 166
Quadro 4 – Crescimento populacional de Belo Horizonte (1900-2010) .................. 181
Quadro 5 – Composição da RMBH 1973-2002 ....................................................... 195
Quadro 6 – Cronologia dos Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH .. 221
Quadro 7 – Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH ........................... 236
Quadro 8 – Variação do preço do m² dos imóveis localizados na AEVN e em bairros
de Luxo de Belo Horizonte (Classificação IPEAD) .................................................. 238
Quadro 9 – Estoque imobiliário da AEVN e respectiva tipologia construtiva ........... 249
Quadro 10– Estoque imobiliário da AEVN e respectivo padrão construtivo ............ 250
Quadro 11 – Índice de Desenvolvimento Humano da AEVN, das Regiões
Administrativas de Belo Horizonte, de Belo Horizonte e da RMBH (2000-2010) .... 257
Quadro 12 – População total e densidade domiciliar da AEVN, da RAVN, de Belo
Horizonte e da RMBH (2000-2010) ......................................................................... 259
Quadro 13 – Analfabetismo na AEVN, RAVN e Belo Horizonte (2000-2010) ......... 259
Quadro 14 – Frequência/formação no ensino superior da AEVN, da RAVN e de Belo
Horizonte (2000-2010)............................................................................................. 260
Quadro 15 – Nível de renda per capita e por estrato da população da AEVN, da
RAVN e de Belo Horizonte (2000-2010).................................................................. 261
Quadro 16 – Percentagem da renda domiciliar apropriada por faixas da população
de AEVN, da RAVN e de Belo Horizonte (2000-2010) ............................................ 262
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Evolução dos valores dos imóveis residenciais colocados à venda na


AEVN....................................................................................................................... 236
Gráfico 2 – Evolução dos valores dos imóveis residenciais destinados à locação na
AEVN....................................................................................................................... 241
Gráfico 3 – Índices Oficiais X Aumentos nos Preços de Compra/Venda e Aluguel dos
Imóveis .................................................................................................................... 243
LISTA DE SIGLAS

AEVN – Área de Estudo Venda Nova


AGB – Associação dos Geógrafos Brasileiros
AITN – Aeroporto Internacional Tancredo Neves
AMBEL – Assembleia Metropolitana de Belo Horizonte
ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres
APCBH – Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte
APHuG – AP Human Geography Wiki
BDMG – Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais
BH – Belo Horizonte
BHBUS – Plano de Reestruturação do Sistema de Transporte Coletivo de Belo
Horizonte
BH-TEC – Parque Tecnológico de Belo Horizonte
BHTRANS – Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte
BNH – Banco Nacional da Habitação
BRT – Bus Rapid Transit
CA – Coeficiente de Aproveitamento
CAMG – Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais
CBD – Central Business District
CBS – Companhia Brasileira de Semicondutores
CBTU – Companhia Brasileira de Trens Urbanos
CCVN – Centro Cultural Venda Nova
CDI – Companhia de Distritos Industriais
CDU – Conselho de Desenvolvimento Urbano
CEASA – Centrais de Abastecimento de Minas Gerais
CEDEPLAR – Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional
CEFET/MG – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
CEMG/89 – Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989
CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais
CETEC/MG – Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais
COMPUR – Conselho Municipal de Políticas Urbanas
CR/88 – Constituição da República de 1988
CTCA – Centro de Tecnologia e Capacitação Aeroespacial
DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
EAD – Ensino a Distância
EIA – Estudo de Impacto Ambiental
EIV –Estudo de Impacto de Vizinhança
EMBRAER – Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A.
FACE – Faculdade de Ciências Econômicas
FACEMG – Faculdade de Ensino de Minas Gerais
FAPEMIG – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais
FGV – Fundação Getúlio Vargas
FIEMG – Federação das Indústrias de Minas Gerais
FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
FJP – Fundação João Pinheiro
FMI – Fundo Monetário Internacional
FNHIS – Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social
FPM – Fundo de Participação dos Municípios
GaWC – Globalization and World Cities Study Group and Network
HRTN – Hospital Risoleta Tolentino Neves
IAPI – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBHES – Instituto Belo Horizonte de Ensino Superior
IBRE – Instituto Brasileiro de Economia
IDH – Índice de Desenvolvimento Humano
IDHM – Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
IGP-M – Índice Geral de Preços de Mercado
INDI – Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais
IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo
IPCA-E – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IPEAD – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis
de Minas Gerais
IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
IPPUR/UFRJ – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
IPTU – Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana
ITBI – Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis
LC – Lei Complementar
METROBEL – Companhia de Transportes Urbanos da Região Metropolitana de Belo
Horizonte
NEPHU/UFF – Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos da
Universidade Federal Fluminense
OUC – Operação Urbana Consorciada
P&D – Pesquisa e Desenvolvimento
PBH – Prefeitura Municipal de Belo Horizonte
PDDI-RMBH – Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana
de Belo Horizonte
PDIES-RMBH – Plano de Desenvolvimento Integrado Econômico e Social
PE – Pernambuco
PEBH – Plano Estratégico de Belo Horizonte 2030
PIB – Produto Interno Bruto
PL – Projeto de Lei
PLAMBEL – Planejamento da Região Metropolitana de Belo Horizonte
PlanMob-BH – Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Belo Horizonte
PMCMV – Programa Minha Casa Minha Vida
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PPP – Parceria Público-Privada
PPVA – Plano Popular da Vila Autódromo
ProUni – Programa Universidade para Todos
PT – Partido dos Trabalhadores
RAVN – Região Administrativa Venda Nova
REGAP – Refinaria Gabriel Passos
RHVN – Região Histórica de Venda Nova
RIMA - Relatório de Impacto Ambiental
RMBH – Região Metropolitana de Belo Horizonte
RRMBH – Resto da Região Metropolitana de Belo Horizonte
SAGMACS – Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos
Complexos Sociais
SEBRAE-MG – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de
Minas Gerais
SEDRU – Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional e Política Urbana
SENAI – Serviço de Aprendizagem Industrial
SMAAR – Secretaria Municipal Adjunta de Arrecadação
SUDECAP – Superintendência de Desenvolvimento da Capital
TGC – Territórios de Gestação Compartilhada
UDH – Unidade de Desenvolvimento Humano
UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais
UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais
UMG – Universidade de Minas Gerais
UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
UPA – Unidade de Pronto Atendimento
UPPs – Unidades de Polícia Pacificadora
YUP – Young Urban Professional
ZAP – Zona de Adensamento Preferencial
ZEIS – Zonas Especiais de Interesse Social
ZNCV – Zona Central de Venda Nova
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 19
Objetivo.................................................................................................................. 30
Objetivos específicos ............................................................................................. 30
Informações metodológicas ................................................................................... 30
1 PRODUÇÃO SOCIAL E CAPITALISTA DO ESPAÇO ....................................... 39
1.1 Formação espacial: do rural ao urbano....................................................... 39
1.2 Formações econômicas pré-capitalistas e a renda fundiária. ..................... 52
1.3 A renda da terra (urbana) e a configuração do espaço citadino.................. 55
1.4 Estruturação do espaço urbano nas cidades latino-americanas ................. 60
1.5 A urbanização das cidades brasileiras ........................................................ 68
2 processos contemporâneos nA (RE)PRODUÇÃO Da cidade CAPITALISTA .... 78
2.1 Cidades pós-modernas e a globalização do espaço ................................... 78
2.2 Estruturação urbana e os agentes produtores do espaço........................... 88
2.3 A cidade como locus do processo de acumulação de capital ................... 100
2.4 Cenários urbanos: práticas de valorização do espaço .............................. 107
3 GENTRIFICAÇÃO E A (RE)ESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO URBANO ......... 119
3.1 Origem, características e efeitos da gentrificação: uns perdem, outros
ganham ................................................................................................................ 119
3.2 A dicotomia “produção x consumo” da gentrificação................................. 126
3.2.1 Teoria econômica: a gentrificação como uma nova fronteira urbana de
rentabilidade ........................................................................................................ 127
3.2.2 Teoria cultural: novos estilos de vida e demandas de consumo como
causas da gentrificação ....................................................................................... 132
3.2.3 “Produção + consumo”: a convergência das perspectivas teóricas sobre a
gentrificação ........................................................................................................ 137
3.3 Globalização e as formas contemporâneas de gentrificação .................... 139
3.4 Processos de gentrificação urbana no Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro,
Salvador e Recife................................................................................................. 149
4 CENÁRIOS URBANOS: VENDA NOVA, BELO HORIZONTE E O ESPAÇO
METROPOLITANO ................................................................................................. 162
4.1 Instituição e estruturação de Venda Nova ................................................ 162
4.2 Venda Nova no contexto de Belo Horizonte ............................................. 167
4.3 A produção do espaço metropolitano de Belo Horizonte .......................... 189
4.4 Reestruturação produtiva do Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo
Horizonte ............................................................................................................. 195
5 REESTRUTURAÇÃO DA METRÓPOLE E O PROCESSO GENTRIFICATIVO
NA ÁREA DE ESTUDO VENDA NOVA (AEVN) ..................................................... 210
5.1 A macro estruturação do espaço no Vetor Norte da Região Metropolitana
de Belo Horizonte ................................................................................................ 211
5.2 Novos cenários para Venda Nova: a transformação do ambiente construído
e a oferta de novos serviços na AEVN ................................................................ 227
5.3 A alteração da ordem fundiária e a transformação da AEVN .................... 234
5.4 A alteração da cartografia social da AEVN ............................................... 255
5.5 Deslocamentos da população autóctone: alguns relatos .......................... 263
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 278
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 288
APÊNDICE A – Convite para entrevista .................................................................. 325
APÊNDICE B – Roteiro de entrevista (morador da AEVN) ..................................... 326
APÊNDICE C – Roteiro de entrevista (ex-morador da AEVN) ................................ 327
APÊNDICE D – Quadro de moradores e ex-moradores entrevistados ................... 328
19

INTRODUÇÃO

A presente tese analisa uma área da cidade de Belo Horizonte – Venda Nova,
que vem sofrendo impactos de ações públicas na direção de sua elitização. Esse tema
deve ser contextualizado com uma reflexão sobre o espaço urbano nos dias de hoje.
A cidade “condensa diferentes facetas ligadas ao mundo econômico, à vida
social, à cultura, atingindo os modos de vida, as subjetividades, a comunicação, a
questão do território e da alteridade” (VÉRAS, 2000, p. 9). Nessa condição, o espaço
urbano não pode ser visto como mero receptáculo da vida social, nem como resultado
ou coisa derivada da ação humana, na medida em que, por interação ou retroação, o
espaço intervém nas relações sociais de produção e reprodução. Constituindo-se, por
isso, como produto, condição e meio da reprodução social (SALGUEIRO, 1999a;
CARLOS, 2012).

Se o espaço (social) intervém no modo de produção, ao mesmo tempo efeito,


causa e razão, ele muda com esse modo de produção! Fácil de compreender:
ele muda com “as sociedades”, se se quiser exprimir assim. Portanto, há uma
história do espaço. [...]. História ainda por escrever. [...]. [E] longe de ser
esgotada (LEFEBVRE, 2006, p. 6-7).

Ao longo dos anos, a cidade capitalista tem sofrido transformações profundas


na sua organização, motivadas por mecanismos econômicos e financeiros,
associados a processos mais complexos que provocam situações de exclusão e
segregação socioespacial das populações com menos recursos econômicos e, por
isso, mais vulneráveis. Para alguns autores, como David Harvey, por exemplo, tais
questões estão relacionadas a um projeto neoliberal que começou a adensar-se nas
últimas décadas, cujos princípios têm orientado a condução dos novos processos de
planejamento e gestão estratégicos adotados nas cidades, num cenário de
competição interubana.
Como resultado, o tecido urbano é moldado pelo interesse do capital, que utiliza
o solo urbano com o fim precípuo de garantir o funcionamento da economia global e
a circulação, em diferentes escalas, de pessoas e bens (HARVEY, 2011b). Ou seja, o
urbano compreendido não apenas como “locus, mas como forma da expansão
capitalista” (OLIVEIRA, 1979 p. 16), em que as iniciativas de (re)produção do
ambiente construído têm o fim deliberado de privilegiar a reprodução e a acumulação
do capital (HARVEY, 2011b, 2013a).
20

Na cidade capitalista atual, o espaço passa a assumir, também, a condição de


produto imobiliário, consumido individualmente sob a forma de propriedade privada. A
(re)estruturação urbana se torna um negócio rentável, favorecendo que o capital,
ramificado em suas distintas frações, se aproprie do espaço-mercadoria como locus
de realização de investimento produtivo. Logo, o arranjo espacial da cidade capitalista
é moldado com o propósito de aumentar as forças produtivas e torná-la competitiva
no cenário global.
Nesse processo, o Estado tem papel determinante como agente indutor de
novos arranjos espaciais, influindo diretamente na transformação do espaço urbano,
no provimento de infraestruturas e equipamentos, enfim, na organização de fixos e de
fluxos (SANTOS, 1993). Assim o fazendo, por vezes, em benefício das classes
dominantes (CASTELLS, 1983; LIPIETZ, 1988).
A (re)produção do espaço urbano, subsidiada com recursos públicos e
mediante a intervenção do Estado, volta-se fundamentalmente para a atração de
investimentos financeiros (city marketing), seja através da construção de centros
comerciais, de negócios ou de tecnologia, seja pela implementação de
empreendimentos destinados ao turismo e ao lazer (centros culturais, arenas
esportivas, shopping centers), tudo sob a ótica da globalização das cidades e inserção
na competitiva “rede” da economia internacional (GOTTDIENER; FEAGIN, 1989).
A disseminação das técnicas de empreendedorismo urbano e desenvolvimento
local implica no enobrecimento de determinadas regiões da cidade que passam por
intervenções urbanísticas e ambientais, favorecendo a (re)conquista das áreas pelo
capital corporativo e especulativo (ARANTES, 2002; HARVEY, 2005a, 2013a). Por
outro lado, tais intervenções promovem perversos processos de “limpeza social”, com
expulsão da população vulnerável. Porquanto, o acesso às regiões melhor servidas
de infraestruturas e serviços se restringe às camadas mais abastadas da população,
devido ao “enobrecimento” do solo (SINGER, 1979).
Inaugurada em 12 de dezembro de 1897, a cidade de Belo Horizonte foi
constituída para ser a capital do Estado de Minas Gerais. Concebida como a primeira
cidade inteiramente planejada do país, o plano da nova capital – elaborado por uma
equipe de arquitetos e engenheiros –, previa uma cidade dividida em três áreas: (i) a
área central, denominada urbana, a qual era circundada pela Avenida do Contorno;
(ii) a área suburbana; e, em torno desta, (iii) a área rural.
No local em que a cidade foi construída, existia um pequeno arraial, o Curral
D’El Rei, cujo povoado era contemporâneo do vilarejo de ocupação mais antiga,
21

denominado como Venda Nova (doravante nominado como Região Histórica Venda
Nova – RHVN), o qual, tempos depois, foi integrado ao território da capital. A princípio,
enquanto subúrbio da cidade, em 1919, passando posteriormente à condição de
distrito, em 1923. A incorporação definitiva da RHVN a Belo Horizonte, contudo,
ocorreu somente em 1948, em atendimento às reivindicações da população venda-
novense (APCBH, 2008).
Desde o início, o desenvolvimento da cidade de Belo Horizonte foi marcado
pela observância das diretrizes traçadas na sua planta básica apenas na área
delimitada como urbana – concentradora da infraestrutura, dos serviços e do comércio
da cidade. Fora da zona urbana, o crescimento ocorreu de forma mais espontânea e
desorganizado, tornando-se determinante na ocupação das áreas mais afastadas do
centro da cidade, bem como em sua conurbação com os Municípios circunvizinhos.
Sobretudo a partir das décadas de 1940 e 1950, quando a expansão de Belo Horizonte
passou a ser impulsionada pelo processo de industrialização e pelo incremento da
ocupação periférica, com uma crescente relação de interdependência (econômica,
social) entre a capital e os Municípios adjacentes1.
Até então, a RHVN tinha um lento ritmo de crescimento, passando a apresentar
um cenário mais dinâmico em razão do avanço da metrópole. As obras de construção
do Complexo da Pampulha, em 1940, atraíram para esta região as pessoas com maior
poder aquisitivo, enquanto as pessoas de baixa renda e os migrantes do interior do
Estado foram ocupando as áreas próximas, localizadas no eixo norte da cidade. Na
RHVN, as pessoas eram atraídas pelo baixo preço dos terrenos, apesar dos novos
loteamentos não possuírem autorização da Poder Público municipal e quaisquer
infraestruturas (água, luz, saneamento, sistema viário e iluminação pública
adequados), deixando muitos moradores em condições precárias de vida. Sendo que
muitas vilas surgiram desses loteamentos irregulares.
Conforme Villaça (1998, p. 114), Belo Horizonte é assim caracterizada:
(i) uma metrópole interiorana, “que dispõe de área para expansão em todas
as direções: 360 graus”;
(ii) uma cidade que, no início de sua expansão, é dividida ao meio pelo rio
Arrudas e pela ferrovia que se aloja junto a ele. “A barreira divide o
espaço urbano em duas partes” – o “lado de cá” (onde se localiza a área
central) e o “lado de lá” (oposto à área central) –, cuja diferença nos

1
O que, mais tarde, desencadeou o processo de metropolização da região e ensejou, em meados de
1973, a instituição da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH).
22

custos e tempo de deslocamentos à área central torna um espaço mais


vantajoso que o outro;
(iii) em função dessa vantagem, o lado que compreende a área central
tende, a princípio, a abrigar a maior parcela do crescimento urbano.
Embora, no caso de Belo Horizonte, isso não tenha ocorrido como
planejado;
(iv) as classes mais abastadas tendem a se concentrar no “lado de cá”, mais
vantajoso (região centro-sul). Contudo, não exclusivamente, posto
haver, também, camadas de baixa renda nesse lado. O “lado de lá” (a
grande região norte, onde se inclui a RHVN) “passa a ficar ‘fora de mão’
e os bairros de alta renda tendem a não vingar ali, como a região de (sic)
Pampulha”.
A partir de 1956, são identificados 6 eixos de expansão em Belo Horizonte: Sul,
Sudoeste, Oeste, Leste, Norte-Central e Norte, evidenciando-se a configuração
polarizada “norte x sul”, devido à concentração das camadas mais ricas da população
na região sul e, no extremo oposto, a ocupação pela população de baixa renda, em
áreas de limitada infraestrutura e qualidade na prestação de serviços.
Atualmente, Belo Horizonte compreende um território de 331,0 km², o qual é
subdividido em 9 Regiões Administrativas: Barreiro; Centro-Sul; Leste; Nordeste;
Noroeste; Norte; Oeste; Pampulha e Venda Nova (Mapa 1). A divisão estabelecida,
em 1983, tinha como propósito facilitar o planejamento e a gestão da cidade, mediante
adoção de políticas e ações que levassem em conta as demandas da população
residente e as especificidades de cada regional.
Com a subdivisão regional, a Região Histórica de Venda Nova (RHVN) é
reconfigurada, assumindo o arranjo espacial da atual Região Administrativa Venda
Nova (RAVN). Este correspondendo a menos da metade da superfície da RHVN, cuja
área fora desmembrada entre as outras 2 regionais que compõem o eixo norte da
capital: Região Administrativa Norte e Região Administrativa Pampulha.
A criação da Região Administrativa Venda Nova (RAVN) promoveu a
descentralização de inúmeros serviços prestados pelo Poder Público municipal,
permitindo a melhoria da infraestrutura e a alocação de equipamentos urbanos até
então inexistentes na região. A RAVN faz limite com os municípios de Ribeirão das
Neves, Vespasiano e Santa Luzia e com as Regiões Administrativas Norte e
Pampulha de Belo Horizonte, apresentando áreas conurbadas com todos eles.
23

De acordo com os dados do Censo Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro


de Geografia e Estatística (IBGE, 2014), a extensão territorial da Região
Administrativa Venda Nova é de 28,316 km², integralmente localizada no perímetro
urbano da cidade. A RAVN possui uma população de 265.388 habitantes, sendo
138.945 mulheres e 126.438 homens, caracterizando uma densidade demográfica de
9.259,1 hab./km². A população está distribuída pelos 42 bairros que compõem a
região, os quais estão agrupados em 4 Territórios de Gestão Compartilhada (TGC)2 –
Quadro 1.

Mapa 1 – Regiões Administrativas de Belo Horizonte

Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2015

2
Os 40 Territórios de Gestão Compartilhada em Belo Horizonte foram estabelecidos por meio do
Decreto nº 14.724/2011 (BELO HORIZONTE, 2011).
24

Assim como na descentralização administrativa regional, a instituição dos TGC,


mediante agrupamento dos bairros internos a cada uma das 9 Regiões
Administrativas, está relacionada à proposta de planejamento de médio e longo prazo
das políticas e projetos previstos para a cidade. Com a subdivisão administrativa,
intenta-se, não só a democratização das decisões relacionadas às demandas
imediatas, como a resolução de questões ambientais, sociais e econômicas locais,
mas, também, das políticas e ações que definem a trajetória do investimento para a
cidade (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2013a).

Quadro 1 - Relação de Bairros da Região Administrativa Venda Nova por


Territórios de Gestão Compartilhada
TERRITÓRIO DE GESTÃO
COMPARTILHADA DA BAIRROS
RAVN
Canaã, Cenáculo, Conjunto Minascaixa, Conjunto Serra Verde,
VN1 Europa, Laranjeiras; Minascaixa, Parque São Pedro, São
Damião, Serra Verde e Vila Satélite
Jardim dos Comerciários, Mantiqueira, Maria Helena, Nova
VN2
América, Vila Mantiqueira e Vila Sesc
Candelária, Letícia, Nossa Senhora Aparecida, Rio Branco,
VN3 Santa Mônica, São João Batista, Venda Nova, Vila Canto do
Sabiá e Vila São João Batista
Apolônia, Céu Azul, Copacabana, Flamengo, Jardim Leblon,
Lagoa, Lagoinha Leblon, Piratininga, Universo, Várzea da
VN4 Palma, Vila Copacabana, Vila dos Anjos, Vila Jardim Leblon,
Vila Piratininga Venda Nova, Vila Santa Mônica Primeira Seção
e Vila Santa Mônica Segunda Seção
Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2013a.

Entre os bairros que integram a RAVN, faz-se especial menção ao bairro Venda
Nova, importante centralidade da região, devido não só ao caráter histórico de sua
ocupação – já que nesta localidade se iniciou a ocupação do antigo arraial Venda
Nova –, mas, também, ao protagonismo que o mesmo exerceu ao longo do tempo,
como centro comercial e de serviços regional. A ampla oferta de serviços na região,
sobretudo nos seus principais eixos viários (Rua Padre Pedro Pinto e Avenida
Vilarinho), confere maior conforto aos moradores, garantindo-lhes certa
independência em relação aos serviços prestados no centro de Belo Horizonte
(PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2004). De maneira que, a região
é referência tanto para os munícipes residentes no eixo norte de Belo Horizonte,
quanto para os moradores dos Munícipios vizinhos, localizados no Vetor Norte da
Região Metropolitana de Belo Horizonte. Não à toa a palavra “venda” faz parte do seu
nome.
25

A ocupação do eixo norte do Município caracterizou-se pelo pouco


desenvolvimento e pela população de baixa renda em assentamentos populares,
sobretudo nas Regiões Administrativas Norte e Venda Nova. Do mesmo modo, no
decorrer do processo de metropolização, verificou-se uma intensa concentração dos
segmentos mais pobres da população em alguns dos Municípios localizados no Vetor
Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte – RMBH. Sendo que, na
estruturação desse Vetor, contrastam regiões com assentamentos voltados para as
camadas mais abastadas da população e outros voltados para os estratos mais baixos
de renda, em que o planejado e o não planejado, o legal e o ilegal, alternam-se na
estruturação do seu espaço (KAMEL, 2007).
Em vista disso, desde 2005, o Poder Público, em articulação com o capital
privado, tem implementado ações destinadas à reestruturação econômico-espacial do
Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Essas ações visam
potencializar o desenvolvimento dos Municípios e consolidar o papel da cidade de
Belo Horizonte no cenário econômico nacional, garantindo sua maior competitividade
no mercado global. Com base no Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da
Região Metropolitana de Belo Horizonte (PDDI-RMBH), a reestruturação produtiva
objetiva a diversificação de sua base industrial, a partir da atração de investimentos e
da criação de polos de alta tecnologia (aeronáutica, biotecnologia, semicondutores,
informação, microeletrônica, softwares), sendo acompanhada de grandes obras
públicas de infraestrutura e de suporte a serviços de caráter metropolitano.
As ações modificadoras procedidas pelo Poder Público têm influenciado a
valorização da terra urbana e a apropriação do espaço pelo mercado
fundiário/imobiliário, provocando alterações no tecido socioespacial de todos os
Municípios do Vetor Norte metropolitano. E, no caso de Belo Horizonte, causando
impactos significativos na RAVN, cujas transformações nem sempre caminham no
sentido de ampliar o direito dos cidadãos à cidade. Diante disso, a pergunta que se
pretende responder nesta tese é: As intervenções realizadas pelo Poder Público no
Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a partir de 2005, deram início
ao processo de gentrificação da Área de Estudo Venda Nova – AEVN?
Por conta das intervenções procedidas, pretendeu-se, a princípio, adotar a
RAVN, em sua subdivisão em Territórios de Gestão Compartilhada, como área de
análise. Mas, tal opção apresentou alguns inconvenientes. Primeiro, a grande
extensão territorial, o número de habitantes e a dessemelhança existente entre os 4
Territórios de Gestão Compartilhada, no tocante às características socioeconômicas,
26

de infraestrutura, de ocupação (sobretudo quanto à informalidade) e do espaço.


Segundo, pela incompatibilidade entre os dados do Censo Demográfico de 2010 e
aqueles disponibilizados, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,
2014), nos anos de 1991 e 2000, para a região em comento. Porquanto, nesse
período, por força da a Lei nº 10.231/11, promoveu-se a reconfiguração das
circunscrições administrativas do Município de Belo Horizonte, impossibilitando a
comparação temporal e espacial entre os 4 Territórios de Gestão Compartilhada da
RAVN3.
Diante disso, optou-se por uma divisão espacial menor, dentro da mesma
Regional, que permitisse uma melhor análise dos benefícios/malefícios advindos do
processo de reestruturação socioespacial do Vetor Norte da Região Metropolitana.
Para tanto, adotou-se, como área de estudo, uma Unidade de Desenvolvimento
Humano (UDH)4 do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Brasileiro – aqui
denominada como Área de Estudo Venda Nova (AEVN). A AEVN é composta pelos
bairros Candelária, Cenáculo, Europa, Minas Caixa, Parque São Pedro e Venda Nova,
possui uma população de 28.084, distribuídas num território de 3, 4093 km², com
densidade demográfica de 8.237,59 hab/Km², segundo os dados do Censo
Demográfico 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2014). A
Área de Estudo Venda Nova (AEVN), demonstrada no Mapa 2 e na Figura 1, é assim
denominada para diferenciá-la das demais subdivisões espaciais homônimas, a
saber: a região Venda Nova (RHVN e RAVN) e o bairro Venda Nova.
A investigação da AEVN, justifica-se, dentre outros fatores:
(i) pelo fato da AEVN corresponder à região originariamente ocupada na
RHVN e, ao longo do tempo, ter abrigado parte dos excluídos do
processo de urbanização/metropolização da cidade de Belo Horizonte,
desde a sua instituição como capital do Estado, com assentamentos
predominantemente marcados por uma urbanização incompleta.
Permitindo, assim, melhor análise dos efeitos da reestruturação
metropolitana do Vetor Norte em relação à composição socioespacial da
área de estudo – se garantidora da ocupação e uso democráticos do

3
O território da Região Administrativa Venda Nova possuía 258 setores censitários, em 2000. No Censo
Demográfico de 2010, verificou-se um acentuado processo de subdivisão, de modo que, atualmente, a
área é composta por 411 setores censitários.
4
Trata-se das unidades espaciais utilizadas no Atlas de Desenvolvimento, delineadas a partir da
agregação diferenciada de setores censitários do IBGE, que as diferenciam das áreas de ponderação
adotas nos Censos Demográficos.
27

solo urbano, estimulando a diversidade social, com a justa distribuição


dos benefícios e a equidade no uso do espaço público, com especial
atenção à função social da habitação e sua inter-relação com as demais
funções da cidade, ou se limitadora de direitos que assistem à população
ali residente, principiando um processo de gentrificação da área e de
expulsão das classes mais pobres da população;

Mapa 2 – AEVN e Regiões Administrativas de Belo Horizonte

Fonte: Fundação João Pinheiro, 2015


28

(ii) pelo fato da AEVN estar localizada na RAVN, região esta que se
diferencia consideravelmente das Regiões Administrativas Pampulha e
Norte, também situadas no eixo norte da capital, eis que: 1) o processo
de ordenação do solo da Região Administrativa Pampulha, a partir da
década de 1940, favoreceu a ocupação e o uso do território por camadas
mais abastadas da população; 2) suas especificidades e vantagens
localizacionais a distingue da Região Administrativa Norte. Apesar de
ambas serem caracterizadas pela ocupação por população de baixa
renda e apresentem demasiados déficits no tocante ao desenvolvimento
socioespacial;

Figura 1 – Área de Estudo Venda Nova no ano de 2015

Fonte: Google, 2015


Nota: Abaixo, à esquerda, detalhe de parte da Lagoa da Pampulha e, à direita, do Aeroporto da
Pampulha. Ao fundo, à direita, detalhe do Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais (CAMG)
e vista parcial da “Linha Verde”.

(iii) pela significativa transformação do ambiente construído e da paisagem


urbana, com a oferta de novos equipamentos/serviços urbanos
(instalados ou em via de implantação), decorrentes dos investimentos,
públicos e privados, realizados diretamente na AEVN ou no seu entorno,
tais como: o Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais (CAMG)5;

5
Também denominado como Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves e Cidade
Administrativa Minas Gerais.
29

a “Linha Verde”, que conecta o centro da capital ao Aeroporto


Internacional Tancredo Neves (AITN), no Município de Confins; a
ampliação das funções do AITN, de forma a abrigar um aeroporto
indústria; a futura implantação do Anel Viário de Contorno Norte, que
envolverá 16 Municípios da RMBH; a implantação do Parque
Tecnológico de Belo Horizonte (BHTEC), que abriga laboratórios de
pesquisa e desenvolvimento, incubadoras de empresas, centros de
transferência de tecnologia e escritórios de patentes; a implementação
de sistemas de BRT (Bus Rapid Transit); a Catedral Metropolitana,
projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer; a Estação Vilarinho (terminal
intermodal de transporte coletivo, construído para ser o maior terminal
de integração da RMBH); um shopping center – Shopping Estação BH
(sendo este integrado à Estação Vilarinho); o lançamento de
empreendimentos imobiliários de grandes incorporadoras/construtoras;
a instalação de instituições de ensino superior; entre outros, que
influenciam diretamente no direito de habitar com dignidade, permitindo
a análise das externalidades (positivas e negativas) do processo de
reestruturação urbana na AEVN e a eventual melhoria da qualidade de
vida da população local.
Este trabalho foi estruturado em 6 capítulos, conforme descrito a seguir. No
primeiro capítulo, aborda-se o processo de formação social do espaço e algumas
perspectivas teórico-metodológicas de apreensão do espaço urbano que favorecem a
construção e análise das complexidades imanentes ao objeto de estudo aqui
proposto.
No segundo capítulo, discute-se questões relacionadas à reprodução do
espaço urbano capitalista, a ocupação e uso do solo e os mecanismos de fomento e
apropriação da renda da terra (urbana) nas cidades capitalistas hodiernas.
O terceiro capítulo dedica-se a análise da gentrificação, suas especificidades,
vicissitudes e efeitos na configuração socioespacial das áreas citadinas em que ela
se manifesta.
O quarto capítulo refere-se à instituição de Venda Nova e da cidade de Belo
Horizonte, sua organização, transformações e as implicações para a formação do
espaço da Área de Estudo Venda Nova, ressaltando os planos e ações estratégicas
adotados na reestruturação econômico-espacial do Vetor Norte da Região
Metropolitana.
30

No quinto capítulo, apresentam-se os resultados da aplicação do procedimento


metodológico. Nesse capítulo nos debruçamos sobre os impactos da reestruturação
do Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte no tecido socioespacial da
área de estudo.
No sexto capítulo são sistematizadas as principais conclusões da tese.

Objetivo

Identificar se as intervenções realizadas pelo Poder Público no Vetor Norte da


Região Metropolitana de Belo Horizonte, a partir de 2005, deram início ao processo
de gentrificação da Área de Estudo Venda Nova – AEVN.

Objetivos específicos

1. Identificar os elementos que caracterizam o processo de gentrificação, como a


expulsão dos moradores mais pobres e sua substituição por estratos da
população com renda e condição profissional superiores;
2. Verificar a ocorrência de alteração da ordem fundiária na Área de Estudo Venda
Nova (elevação do valor da terra) frente à recente reestruturação urbana no
Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte;
3. Apontar as alterações ocorridas na infraestrutura urbana da Área de Estudo
Venda Nova, na tipologia dos imóveis (residenciais e comerciais) e nos
indicadores censitários relativos à alfabetização, à renda e ao desenvolvimento
da população residente;
4. Indicar os fatores intervenientes na manutenção dos moradores originais na
Área de Estudo Venda Nova.

Informações metodológicas

Inicialmente, é preciso reconhecer as particularidades das ciências humanas e


sociais frente às ciências da natureza (físicas e biológicas), em razão dos seus objetos
de estudo – o homem e a sociedade. E, nesse sentido, as implicações decorrentes da
relação sujeito-objeto ao princípio da objetividade elencado pela doutrina positivista
31

(GOLDMANN, 1967): “os fatos sociais devem ser tratados como coisas”6
(DURKHEIM, 1974, p. XX).
Segundo Goldmann (1967), as ciências históricas e humanas, ao contrário das
ciências físico-químicas7, analisam a ação humana, sua estrutura, as aspirações que
a norteiam e as alterações que sofre. O estudo histórico não se restringe às ações
conscientes da atividade humana (aspecto parcial), vinculando as intenções
conscientes dos agentes à significação objetiva de seu comportamento e de suas
ações; derivando, pois, duas consequências: (i) o processo de conhecimento constitui
um fato humano, histórico e social, de modo que, ao estudar a vida humana, há
identidade parcial entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Razão pela qual, o
problema da objetividade se coloca diferentemente nas ciências humanas do que na
físico-química; (ii) o investigador deve esforçar-se para integrar o estudo dos fatos
sociais a história das teorias a respeito desses fatos, assim como por ligar o estudo
dos fatos da consciência à sua localização histórica e à sua infraestrutura econômica
e social. Em outras palavras, os fatos sociais estão relacionados aos aspectos
temporais/espaciais em uma dada sociedade.
Uma vez que, na investigação de fatos sociais “não há como conceber uma
investigação que estabeleça uma separação rígida entre o sujeito e o objeto. Os
resultados obtidos nas pesquisas não são indiferentes nem à forma de sua obtenção
nem à maneira como o pesquisador vê o objeto” (GIL, 2008, p. 5). Nesse aspecto,
Cardoso (1976, p. 64) assinala que o sujeito incorpora a forma de pensar e de se
comunicar da sociedade em que se encontra. Para ela, o relacionamento
pensamento-objeto “está baseado na explicação parcial concretamente aceita pela
sociedade ou pelo grupo social, conforme ela é assimilada pelo sujeito, tendo
importância a sua posição dentro dela ou dele”. Tal situação, contudo, não invalida a
pesquisa em ciências sociais, mas “justifica a existência de diferentes quadros de
referência para análise e interpretação dos dados” (GIL, 2008, p. 5). Por tal razão,
“parece muito mais correto falar de objetivação, e não de objetividade” (CARDOSO,
1976, p. 64).
O propósito fundamental da atividade científica é a obtenção da verdade, “por
intermédio da comprovação de hipóteses, que, por sua vez, são pontes entre a

6
“Mas os fatos sociais dificilmente podem ser tratados como coisas, pois são produzidos por seres que
sentem, pensam, agem e reagem, sendo capazes, portanto, de orientar a situação de diferentes
maneiras. Da mesma forma o pesquisador, pois ele é também um ator que sente, age e exerce sua
influência sobre o que pesquisa.” (GIL, 2008, p. 5).
7
Estudam fatos exteriores ao homem, analisam o mundo sobre o qual recai sua ação.
32

observação da realidade e a teoria científica, que explica a realidade” (LAKATOS;


MARCONI, 2006, p. 46). Para tanto, torna-se necessário valer-se do método cientifico
apropriado à explicação do fenômeno (objeto) em análise. Sob esse aspecto, o
método é entendido como parte de um corpo teórico integrado, que envolve as
técnicas mais adequadas ao estudo do objeto, dando-lhes sua razão, suas
possibilidades e, inclusive, as eventuais limitações que trazem às teorias a que
servem (CARDOSO, 1976). O método, nesse sentido, “é o conjunto das atividades
sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o
objetivo, traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões
do cientista” (LAKATOS; MARCONI, 2006, p. 46).
Desde a primeira referência ao termo “gentrificação”, pela socióloga britânica
Ruth Glass, em 1964, o fenômeno tornou-se objeto de profícuos debates sobre suas
características, causas, efeitos e vicissitudes. A análise da gentrificação, contudo,
relaciona-se majoritariamente a cidades do pós-guerra do mundo capitalista
avançado. De maneira que, poucos são os estudos que abordam as especificidades
dos processos de gentrificação em cidades brasileiras e sua adequação às
características socioespaciais, sobretudo em se tratando de áreas periféricas. Sendo
relevante mencionar que, de acordo com a pesquisa bibliográfica realizada, até o
momento, não há trabalhos investigativos enfocando a ocorrência de gentrificação na
AEVN ou mesmo na RAVN. Assim, por se tratar de um tema ainda não explorado em
relação à área de estudo, fez-se necessário o esclarecimento e a delimitação da
gentrificação, através da revisão da literatura.
A partir dos debates teóricos e estudos sobre fenômenos gentrificativos
diversos, tornou-se possível analisar os elementos que caracterizam o processo de
gentrificação, quais sejam:
(i) reinvestimento de capital (público e/ou privado) no ambiente circundante
e alteração da ordem fundiária, com a substancial elevação dos valores
da terra;
(ii) transformação do ambiente construído, com a oferta de novos serviços
e a requalificação residencial;
(iii) reorganização da cartografia social da área, com a chegada de um grupo
social de nível socioeconômico mais elevado; e
(iv) deslocamento direto ou indireto do grupo social de baixa renda.
A pesquisa sobre processos de gentrificação demandariam procedimentos
longitudinais. O presente estudo, entretanto, buscou acompanhar a temporalidade por
33

diversas fontes que permitissem conhecer e avaliar os diferentes tempos


transcorridos, por meio dos seguintes procedimentos: pesquisa bibliográfica, pesquisa
documental e pesquisa de levantamento. A utilização dos diferentes métodos de
pesquisa, quantitativos e qualitativos, propiciou a obtenção de dados complementares
sobre o tema, favorecendo a análise do problema de pesquisa sob diferentes
perspectivas.
Para identificar os elementos que caracterizam o processo de gentrificação,
assim como pesquisar sobre a renda urbana da terra, a produção e o consumo do
espaço urbano, os instrumentos de gestão e política urbana, foi utilizada a pesquisa
bibliográfica, elaborada a partir de materiais impressos ou em formato eletrônico,
principalmente livros, artigos e periódicos científicos, obras de referência, teses,
dissertações e anais de eventos científicos.
Para verificar a ocorrência de alteração da ordem fundiária na AEVN (elevação
do valor da terra), frente à recente reestruturação econômico-espacial do Vetor Norte
da RMBH, realizou-se uma pesquisa documental na seção de classificados de imóveis
do “Jornal Estado de Minas”, visando mensurar a quantidade de imóveis residenciais
colocados à venda e aqueles destinados à locação, nos meses de janeiro e julho, no
período de 2001 a 2013. A delimitação do período analisado guarda estreita relação
com a temporalidade das intervenções procedidas pelo Poder Público e visam
demonstrar as inflexões ocorridas no mercado imobiliário ao longo do processo de
(re)produção do espaço metropolitano. A pesquisa englobou bens de características
diversas – residenciais (casa, casa geminada, apartamento tipo e cobertura, barração
e quitinete) e comerciais (galpão, loja, sobreloja, andar comercial), localizados na
AEVN, a fim de permitir a análise da evolução dos preços de venda e de locação dos
imóveis situados na área de estudo.
Apesar da utilização dos anúncios de imóveis como fonte de informação do
mercado imobiliário da AEVN apresentar a desvantagem de não retratar o preço do
imóvel de fato transacionado, dada à eventual diferença entre o valor anunciado e o
valor de venda ou locação, parte-se da hipótese de que a evolução dos dois valores
(anunciado e transacionado) tenha tendências semelhantes no médio e longo prazo8.
Considerando que as informações divulgadas nos classificados de imóveis do
“Jornal Estado de Minas” não são homogêneas quanto às características construtivas

8
Tal metodologia é adotada em países como Áustria, Espanha, EUA, Hungria e Inglaterra e,
recentemente, passou a ser utilizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – FIPE, a partir
de 2010 (FIPE, 2014).
34

do bem (estrutura, acabamento) e aos equipamentos disponíveis (vaga de garagem,


elevador, área de lazer), e, por vezes, omitem a metragem dos imóveis, a pesquisa
não permitiu a análise da evolução dos preços do metro quadrado (m²) dos imóveis
localizados na AEVN. Para obter tal informação, utilizou-se de pesquisa bibliográfica
compreendendo dados secundários disponibilizados pelos indicadores do índice
FIPEZAP (FIPE, 2014) – que acompanha os preços de venda de imóveis anunciados
no sítio eletrônico do ZAP Imóveis –, e a série histórica de aluguéis da Fundação
IPEAD9 (2011).
As ferramentas estatísticas disponibilizadas pelo portal ZAP Imóveis
possibilitaram a avaliação da evolução do preço do m² de apartamentos localizados
no bairro Venda Nova, no período compreendido entre abril de 2009 e janeiro de 2015,
em consonância com os anúncios de venda de apartamentos publicados no site. A
menção aos anos mais recentes tencionou demonstrar a elevação contínua dos
preços praticados no mercado fundiário/imobiliário, ratificando a tese de que a
gentrificação segue um curso contínuo nas áreas em processo de reestruturação. Os
indicadores do índice FIPEZAP permitiram, também, a comparação com os preços
praticados em outros bairros do Município de Belo Horizonte, classificados como de
luxo pela Fundação IPEAD (2011), situados na Região Administrativa Centro-Sul, a
qual, tradicionalmente, é ocupada pela população mais abastada da cidade.
A verificação da dinâmica imobiliária da AEVN foi complementada, finalmente,
com a análise da série histórica de aluguéis da Fundação IPEAD, que possibilitou a
comparação entre os preços médios dos aluguéis residenciais praticados na área de
estudo e, a título exemplificativo, em outros bairros de Belo Horizonte.
A análise da progressão do valor da terra, no período 2001-2013, por
intermédio dos índices de arrecadação do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU)
e do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) da Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, constituiu um limitante a esta pesquisa. A “Planta de Valores
Genéricos”, elaborada no ano de 2003 e atualmente utilizada como base para a
tributação dos impostos imobiliários, apresenta uma grande defasagem em relação
ao valor de mercado dos imóveis. O que impede a avaliação da real variação dos
valores dos bens imóveis situados na área de estudo (GOMES, 2008; ALMEIDA,
2009).

9
A pesquisa do mercado imobiliário em Belo Horizonte, realizada pela Fundação IPEAD/UFMG,
abrange construtoras e incorporadoras no mercado de construção e comercialização de imóveis novos
e imobiliárias no mercado de aluguéis.
35

Para identificar as alterações ocorridas na infraestrutura urbana da AEVN e na


tipologia dos imóveis (residenciais e comerciais) situados na região de estudo,
realizou-se uma pesquisa documental, baseando-se nos documentos oficiais da
Prefeitura Municipal da cidade de Belo Horizonte. Para a análise da dinâmica de
ocupação e uso do solo na AEVN, bem como a evolução das tipologias habitacionais
e respectivos padrões construtivos, utilizou-se os dados cadastrais do IPTU,
disponibilizados pela Secretaria Municipal Adjunta de Arrecadação (SMAAR). Os
dados cadastrais do IPTU permitiram avaliar as características construtivas e tipos de
equipamentos dos imóveis residenciais e comerciais edificados na AEVN até 2005 e,
a título comparativo, os edificados entre os anos de 2005 e 2013. Finalmente, utilizou-
se o software Google Earth, para identificar o processo de expansão da urbanização
a partir das imagens aéreas da região.
Por sua vez, para a identificação das alterações ocorridas nos indicadores
censitários relativos à alfabetização, à renda e ao desenvolvimento da população
residente na AEVN, utilizou-se de dados secundários dos Censos de 2000 e 2010,
realizados pelo IBGE (2014), bem como daqueles disponibilizados pelo “Atlas do
Desenvolvimento Humano” – indicadores de 2000 e 2010, cuja delimitação das
unidades espaciais de análise (UDH), como dito, diferem daquela utilizada pelo IBGE
(“área de ponderação”)10.
Para contribuir com o objetivo proposto, verificou-se também, junto aos
moradores e ex-moradores da AEVN (inquilinos e proprietários de imóveis), a intenção
de permanência ou êxodo da região, foram feitas entrevistas semiestruturadas, com
amostra não probabilística por conveniência.
Como ressaltam Newman e Wyly,

medir como a gentrificação afeta os moradores de baixa renda é


metodologicamente desafiador. As estimativas quanto ao âmbito e à escala
dos deslocamentos, bem como as investigações destinadas a desvendar o
que aconteceu com as pessoas que foram deslocadas, têm-se revelado um
tanto quanto vagas. Em síntese, é difícil encontrar pessoas que foram
deslocadas, especialmente se essas pessoas são pobres. Por definição, os
moradores deslocados desapareceram dos lugares onde os pesquisadores
ou recenseadores procuram por eles. (NEWMAN; WYLY, 2010, p. 545,
tradução nossa)11.

10
As “unidades de desenvolvimento humano” foram delineadas buscando gerar áreas mais
homogêneas, do ponto de vista das condições de desenvolvimento humano, do que as “áreas de
ponderação” utilizadas pelo IBGE (MARQUES, 2013).
11
“Measuring how gentrification affects low-income residents is methodologically challenging and
estimating the scope and scale of displacement and exploring what happens to people who are
displaced have proved somewhat elusive. In short, it is difficult to find people who have been displaced,
particularly if those people are poor. Atkinson (…) likens it to ‘measuring the invisible’. By definition,
36

Pelo mesmo motivo, Atkinson (2000) compara a medição do deslocamento


decorrente da gentrificação à medição do invisível (measuring the invisible)12.
Porquanto, é difícil rastrear as pessoas que foram deslocadas de suas antigas
moradias. Deste modo, as pessoas entrevistadas na presente pesquisa foram
selecionadas, aleatoriamente, mediante a utilização da técnica “bola de neve”
(snowball sampling), em que os primeiros entrevistados indicaram outros potenciais
informantes, que, por sua vez, indicaram novos moradores e/ou ex-moradores e assim
sucessivamente. As entrevistas foram realizadas até que os argumentos dos
entrevistados passaram a se repetir, indicando o ponto de saturação. Ou seja, quando
novas informações deixaram de ser acrescidas ao presente estudo (THIRY-
CHERQUES, 2009).
As 20 pessoas entrevistadas foram divididas em três grupos:
(i) moradores antigos – grupo composto por 9 moradores da AEVN, cujos
períodos de residência antecedem o ano de 2001;
(ii) moradores recentes – grupo composto por 6 novos moradores da AEVN,
que passaram a residir na área após o ano de 2005; e,
(iii) ex-moradores – grupo composto por 5 ex-moradores da AEVN, que
residiam na AEVN, mas, em razão da reestruturação econômico-
espacial do Vetor Norte da RMBH, deixaram a antiga habitação – devido
ao encarecimento do custo de vida local –, deslocando-se para outras
áreas, menos desejáveis, onde o custo de vida para morar é menor.
Assim, a reunião de moradores recentes, antigos e ex-moradores, com tempos
de moradia diversos, permitiu a obtenção de informações acerca da reestruturação da
Região Administrativa Venda Nova, as alterações socioespaciais na área e os
impactos, positivos e/ou negativos, resultantes para os habitantes e ex-habitantes da
AEVN. A realização das entrevistas teve como propósito a obtenção de informações
dos respondentes sobre: o nível de renda; o nível de escolaridade; a ocupação
profissional; o tempo de moradia na área de estudo; o número de ocupantes, a
tipologia do imóvel residencial; a intenção de permanência ou de mudança do imóvel

displaced residents have disappeared from the very places where researchers or census-takers go to
look for them.”
12
Esta mesma dificuldade é verificada nos dados demográficos concernentes à cartografia social. O
conjunto de dados censitários não permite identificar o tempo de residência dos novos moradores na
AEVN e, de igual modo, não indicam o local de destino daqueles que se deslocaram. Em regra, o tempo
de permanência no domicílio está relacionado ao tempo de moradia na circunscrição municipal, no
caso, no Município de Belo Horizonte.
37

e da área de estudo ou a data e os motivos ensejadores da mudança do domicílio,


com deslocamento para localidade diversa (se ex-moradores), conforme se infere dos
roteiros de entrevista (Apêndices B e C).
Ressalta-se que todos os entrevistados foram informados sobre o objeto da
pesquisa, dos fins a que ela se destina e de que seus nomes não seriam revelados
(Apêndice A). Razão pela qual os entrevistados foram identificados pela sigla do grupo
de moradores que integra, em ordem numérica. Por exemplo: Morador Antigo 1 (MA-
1); Morador Antigo 2 (MA-2); e assim por diante. Dentre os entrevistados, 8 são
homens e 9 são mulheres, com idades, profissões, nível educacional, estado civil,
naturalidade, nível de renda e tempo de moradia na AEVN diversos. Tais informações
estão elencadas no quadro de moradores (antigos e recentes) e ex-moradores
entrevistados (Apêndice D).
Importante mencionar que, tratando-se de circunscrições territoriais
homônimas, é comum haver certa confusão entre os próprios moradores da Região
Administrativa Venda Nova (RAVN) ao referenciarem a regional e/ou o bairro. Por
vezes, as menções à Venda Nova dizem respeito à região como um todo, em outras,
aludem à zona central, ou seja, ao bairro – o qual, como dito, está inserido na AEVN.
Sendo necessário, então, avaliar o contexto da narrativa para identificar a região
especificamente citada. Como relatam dois moradores da região,

Isso acontece, eu acho que mais, principalmente na região do Barreiro, né,


que tem o bairro barreiro e Venda Nova, que são as 2 maiores regiões de
Belo Horizonte. E quando fala Venda Nova, as pessoas denominam mais a
região. E poucas pessoas sabem que existe o bairro Venda Nova, até porque
o bairro é um ovo. O centro da [Igreja] Matriz ali em volta. Então, pouca gente
sabe que existe o bairro Venda Nova. E a região de Venda Nova era
composta de “n” bairros, mais de 50 bairros, [...], que faz divisa com várias
cidades, é, Vespasiano, Ribeirão das Neves e aquela região ali [Pampulha e
Norte]. [...]. Então, assim, quem é de fora não sabe e até gente de dentro lá,
gente do bairro próximo diz: ah eu vou em Venda Nova! No centro ali (MA-
3)13.

É porque, na verdade, é, tipo assim, como é que eu vou te explicar. O bairro


Venda Nova, ele seria aquela região central, né. Mas só que Venda Nova foi
se expandindo, né. Então, por exemplo, hoje, se você for perguntar aonde
que a minha esposa vai trabalhar [...], eu vou falar: ah, Gisele tá lá em Venda
Nova! Então, lá do bairro Europa, eu falo Gisele tá lá em Venda Nova. Então:
ah, onde você vai? Ah, eu vou lá em Venda Nova resolver um negócio. Então,
assim, as pessoas elas saem dos bairros, mesmo que seja colado, mesmo
que seja dentro de Venda Nova mesmo. Fala que vai em Venda Nova.
Porque, hoje, Venda Nova, se você perguntar assim, Venda Nova, o bairro
Venda Nova mesmo é esse centro comercial. [Se eu disser:] eu tô em Venda
Nova! Você sabe que eu fui pra lá. [...]. Mas, é, até, por exemplo, quando
você vai falar de um endereço, a gente tem o costume de colocar o nome da

13
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 17 jun. 2015.
38

rua, o número, o CEP, distrito de Venda Nova, cidade de Belo Horizonte,


Estado Minas Gerais. Ou coloca, por exemplo: onde você mora? Rua
Carmelita Marques da Silva, [bairro] Europa, Venda Nova, Belo Horizonte,
Minas Gerais (MA-2)14.

Num esforço de facilitar a identificação das áreas homônimas, optou-se, nesse


trabalho, por denominar como Região Histórica Venda Nova (RHVN), a área de
ocupação inicial da regional, desde a instituição do povoado, no início do século XVIII,
até o ano de 1973, quando se passa a denominá-la como Região Administrativa
Venda Nova (RAVN), em virtude da normatização de sua configuração territorial pelo
Poder Público Municipal. Por outro lado, o bairro homônimo será tratado simplesmente
como “bairro Venda Nova”. Esta distinção far-se-á necessária, sobretudo, quando os
relatos dos moradores de Venda Nova forem referenciados no presente trabalho.
Nesse caso, optou-se por manter as falas dos entrevistados em sua integralidade,
respeitando-se a espontaneidade e o uso do vernáculo. Incluindo-se, todavia, uma
observação, “[em colchetes]”, quando a circunscrição territorial mencionada não for a
região Venda Nova.
A despeito, porém, das informações obtidas com a presente pesquisa, o
método utilizado apresenta limitações, na medida em que a conjuntura
socioeconômica influencia as decisões da população, tais como, estabilidade
econômica do Plano Real, Programas Governamentais destinados ao financiamento
e ao consumo da “Classe C” (concessão de “bolsas”, reduções de impostos, etc.),
crescimento da renda média das famílias, etc.. Tais fatores, contudo, não constituíram
objeto de análise no presente trabalho, de forma que os resultados da pesquisa
compreendem-se em uma indução enumerativa e não amplificadora, nos termos de
Fernandes (1973).

Como acontece com os conceitos, as leis econômicas não são “leis eternas”,
mas “leis históricas; pois se têm o caráter de leis, é sòmente (sic) graças a
um desenvolvimento histórico particular, a um desenvolvimento concreto das
fôrças (sic) produtivas” (FERNANDES, 1973, p. 123).

14
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Betim em 01 jul. 2015.
39

1 PRODUÇÃO SOCIAL E CAPITALISTA DO ESPAÇO

1.1 Formação espacial: do rural ao urbano

Na acepção de Lefebvre (2006), cada sociedade concebe o espaço apropriado


ao seu modo de produção, com seu tempo específico (o ritmo da vida cotidiana) e a
miríade de relações que ele engendra. A estrutura territorial, desse modo, está
articulada a outras não territoriais (política, social, econômica e ideológica),
exprimindo a atividade humana, enquanto síntese das ações produtivas, das relações
sociais de produção, do habitat, dos recursos naturais, das identidades, bem como
dos agentes, individuais e coletivos, que influenciam no seu contínuo processo de
formação (SANTOS, 1976; FERREIRA, 2005;).
Ao definir o conceito de território, Santos expõe que:

O território não é apenas o conjunto de sistemas naturais e de sistemas de


coisas superpostas; o território tem que ser entendido como o território usado,
não o território em si. O território usado é o chão mais a identidade. A
identidade é o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território
é o fundamento do trabalho; o lugar da residência, das trocas materiais e
espirituais e do exercício da vida. (SANTOS, 2011, p. 14).

Por sua vez, Beaujeu-Garnier (1997) expõe que o espaço (a cidade) é


simultaneamente sujeito e objeto. Enquanto objeto, existe materialmente, é ocupada
por seus habitantes, supre-lhes as necessidades (serviços, comércio, trabalho,
informação, moradia, alimentação, etc.) e favorece-lhes contatos de toda natureza.
Em contrapartida, na função sujeito, a cidade (o urbano) exerce forte influência nos
hábitos e modos de vida dos seus habitantes, moldando-os pouco a pouco,
favorecendo, difundindo ou bloqueando impulsos provenientes do exterior. De modo
que se as pessoas utilizam e moldam o espaço citadino, a recíproca é igualmente
verdadeira.
Há certa confusão na utilização das expressões território e espaço na
linguagem cotidiana. De acordo com Santos e Silveira (2008, p. 19), “por território
entende-se geralmente a extensão apropriada e usada”, que, nesse caso, se
conformaria em sinônimo para espaço geográfico. Em sentido restrito, o território se
configuraria como o nome político do espaço de um país, daí a noção de espaço
territorial. Por conseguinte, “o território, visto como unidade e diversidade, é uma
questão central da história humana e de cada país e constitui o pano de fundo do
estudo das suas diversas etapas e do momento atual.”
40

Então, como produto da sociedade, o espaço geográfico irá refletir tanto a sua
estrutura como a sua dinâmica. E a sua total compreensão só será possível se estiver
acoplada à compreensão da sociedade, a qual, por não ser imutável, enseja uma
compreensão historicamente determinada do espaço, “sempre relacionada ao grau
de desenvolvimento a que chegaram, nessa sociedade, as forças produtivas, as
relações de produção e a cultura”. Ou seja, a cada momento, estão nele incorporados
“as relações de classe15 então vigentes na sociedade, os conflitos de interesses e de
objetivos daqueles que a constituem, e os diversos valores que estruturam a sua
cultura” (ABREU, 1994, p. 58).
Nessa mesma vertente, Harvey (2011b, p. 201) expõe que “a história da
mudança social é em parte apreendida pela história das concepções de espaço
[ambiente construído] e de tempo, bem como dos usos ideológicos que podem ser
dados a essas concepções.” Não bastasse, segundo ele, “todo processo de
transformação da sociedade deve apreender a complexa estrutura da transformação
das concepções e práticas espaciais e temporais”. Tais práticas são reveladas pela
triplicidade percebido-concebido-vivido de Lefebvre (2006), em que o percebido
corresponde à prática espacial que emana da vida cotidiana, englobando produção e
reprodução social, lugares e conjuntos espaciais próprios a cada formação social.
Como no neocapitalismo, em que a prática espacial associa a realidade cotidiana
(emprego do tempo) e a realidade urbana (percursos que ligam os lugares do trabalho,
do lazer e da vida privada). O concebido consiste nas representações do espaço
produzidas racionalmente por cientistas, tecnocratas, urbanistas, planejadores (como
Haussmann, Lúcio Costa, Aarão Reis e tantos outros), que impõem a concepção do
espaço apropriado às relações de produção dominante. O que, na ordem capitalista,
redundaria numa organização do espaço, hegemonicamente realizada pelo Estado,
para atendimento dos interesses do capital. E, por fim, o vivido que, compreendendo
os espaços de representação, revela o espaço oriundo da apropriação e vivência dos
habitantes (seus usuários), com suas respectivas histórias, lembranças, imagens e
simbolismos. Ou seja, o espaço enquanto resultado das ações humanas, como

15
“As classes se constituem, fundamentalmente, com base nas posições ocupadas por grupos de
homens e mulheres nas relações de produção, ou seja, nas relações de propriedade e não propriedade
dos meios de produção. Isso significa que as relações entre as classes sociais são, simultaneamente,
relações de exploração econômica e opressão política. Portanto, a cada modo de produção,
determinado fundamentalmente pelas relações entre forças produtivas e relações de produção,
corresponde uma classe dominante e exploradora e, em contrapartida, uma classe dominada e
explorada.” (ALMEIDA, 2011, p. 54).
41

produto cultural e da memória, ou o “lugar”16 – segundo terminologia de Augé (2005).


De maneira que, se há produção (contínua) do espaço, há história.
De início, no período pré-capitalista, o espaço social compreendia as relações
sociais de produção – decorrentes da divisão hierárquica do trabalho e sua
organização –, bem como as relações de reprodução biológica e da organização
familiar. Após o capitalismo (e, sobretudo, com o neocapitalismo), o espaço social
passa a ser resultado da imbricação de três níveis de relações sociais: reprodução
biológica; reprodução da força de trabalho; e reprodução das relações sociais de
produção (LEFEBVRE, 2006).
Ao examinar a produção continuada do espaço (social) e sua íntima relação
com os modos de produção, Lefebvre (2006, p. 58) descreve a gênese, as rupturas e
as continuidades do processo de transformação da cidade rural (agrária) em cidade
pós-industrial (sociedade urbana em potência17), ressaltando, em alusão a Marx, que
“um modo de produção não desaparece antes de ter liberado as forças produtivas e
realizado todas as virtualidades que ele contém”. Convém ressaltar, então, que a
historiografia do espaço não se confunde com a historiografia tradicional (datada),
porquanto a cadeia de eventos que marcam a produção social do espaço não possui
início e fim regularmente demarcados. De maneira que, “cada período histórico
carrega em sua forma espacial os períodos precedentes e as sementes do período
subsequente” (LIMONAD, 2011, p. 163).
Partindo da primeira cidade do Ocidente, Lefebvre (2006, 2008) expõe que a
Pólis grega, centralizada na Ágora18, foi sucedida pelo centro interdito da Roma Antiga
– o Fórum Romano. Este, por sua vez, cedeu lugar à disputa travada entre a igreja e
o mercado pela centralidade das cidades medievais, cujo desdobramento garantiu a
hegemonia da classe comerciante e a superação da cidade política pela cidade
comercial. Com a intensificação das forças produtivas e da produção, o espaço que
emerge é o da acumulação e do consumo (da mercadoria, do lugar), deslocando o
centro para a praça do mercado. A riqueza, inicialmente imobiliária e fundiária, no

16
Para Augé (2005), um “lugar” se define por, pelo menos, três caracteres comuns: identitários,
relacionais e históricos. Em oposição, um espaço que não os possua, definirá um “não-lugar” –
representado pelos espaços públicos de rápida circulação de pessoas e bens, como aeroportos,
estações de metrô, rodovias, grandes centros comerciais, quartos de hotéis, etc..
17
Para a lógica formal a urbanização se configura como um produto da industrialização; embora,
dialeticamente, o fenômeno urbano supere o período industrial, por fomentar transformações
qualitativas na sociedade (ARAÚJO, 2012).
18
Praças das antigas cidades gregas em que se instalavam mercados e feiras livres e que eram,
também, utilizadas para a realização das assembleias dos cidadãos (homens livres), enquanto máxima
expressão da esfera pública e participação da vida política da pólis (LEFEBVRE, 2006; ARENDT,
2010).
42

período agrário, passa a ser também mobiliária (face ao acúmulo de dinheiro) na


cidade mercantil. O uso da moeda se intensifica, desenvolvem-se os transportes e
aumentam as operações comerciais. Em decorrência, a nova estrutura do espaço
urbano denota as formas arquiteturais/urbanísticas destinadas ao encontro das coisas
e das pessoas, da troca mercantil enquanto função urbana.
A cidade comercial, implantada na cidade política, segue sua marcha
ascendente e é sucedida pela cidade industrial, cuja industrialização provoca
profundas transformações nas práticas sociais e na morfologia do espaço. Nesse
período, de ampliação das trocas, da expansão do comércio interno e internacional,
de interdependência crescente entre as sociedades e de maior produção de bens,
tudo tende à mercantilização, tornando mais complexo o uso do dinheiro e
imprescindível sua regulação. Desse momento em diante, o dinheiro passa a reger o
território e o valor de troca (da mercadoria, do espaço) passa a ter primazia frente ao
valor de uso19 (LEFEBVRE, 1972; SANTOS, 2011).
Inicialmente, as indústrias negam o espaço central, por interessar-lhes as
matérias primas (metais, têxteis, etc.) e fontes de energia (água, carvão) localizadas
no entorno da cidade. E depois, progressivamente, aproximam-se das áreas centrais,
dos capitais e dos capitalistas, da abundante mão de obra barata e do próprio
mercado. Esse movimento, denominado por Lefebvre (2006, 2008) como “implosão-
explosão”, opera-se com a negativa da centralidade política e comercial da cidade
(implosão) e a projeção da malha urbana para vastas regiões periféricas (subúrbios,
residências secundárias, etc.), fragmentando-a, amplificando seu espaço (explosão).
Assim, em lugar do modelo compacto da cidade outrora prevalecente, há uma
expansão das fronteiras de dispersão da população, que passa a distribuir-se em
áreas regionais “amorfas na forma, maciças no escopo e hierárquicas em sua escala
de organização social” (GOTTDIENER, 1997, p. 14).
Aqui, nessa cidade-indústria, verifica-se o esvaziamento dos costumes, a
modificação das relações tempo-espaço (do trabalho, da produção), a redução de
algumas áreas da metrópole à função de dormitório, a intensificação da oposição

19
O valor de uso, na concepção de Marx (2013), decorreria da utilidade que uma mercadoria ou um
bem, sob diversos aspectos, possuiria para a satisfação dos diferentes tipos de carências, desejos e
necessidades humanas. A título exemplificativo, os alimentos saciam a fome, a habitação satisfaz a
necessidade de abrigo, as roupas mitigam o frio, etc., num contexto progressivamente ampliado de
consumo, segundo a criação de novos desejos e necessidades. Diferentemente, o valor de troca refere-
se ao tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de determinada mercadoria. O valor
de troca reflete as condições sociais e físicas específicas do processo de trabalho sob o qual ela é
produzida, tendo o dinheiro como medida de valor. Pode-se dizer, então, que o valor de uso tem uma
relação qualitativa, enquanto o valor de troca tem relação quantitativa (HARVEY, 2013a, 2013b).
43

“valor de uso x valor de troca” e a funcionalização da existência. De maneira que o


processo de inversão agrária em direção ao urbano, desvela um espaço, desde
sempre, político, lugar e objeto de estratégias (LEFEBVRE, 2006; 2008). Conforme
Pechman,

as cidades são a grande novidade do século XIX. O espetáculo da multidão


nas ruas, a concentração da população num mesmo espaço, a moradia
precária e super-habitada, a faina obsessiva das fábricas e o movimento
alucinante de pessoas e mercadorias preparam a civilização que está por vir.
E é no rastro do fenômeno urbano que ela surgirá. (PECHMAN, 1994, p. 3).

Rodrigues (2010) salienta que, embora não haja um padrão uniforme de


desenvolvimento urbano, é possível encontrar certas similaridades no percurso de
desenvolvimento das cidades modernas (cidades industriais). Primeiro, o crescimento
populacional (êxodo rural) e urbanístico fomentado pelas instalações industriais nas
cidades, transformando-as em um vantajoso espaço de aglomeração de mão de obra,
de atividades e de fatores produtivos. Segundo, pela forte influência do modelo
fordista no crescimento econômico, sobretudo após os anos 40 do século XX, com
consequências no espraiamento urbano e na configuração social das sociedades
modernas, mesmo naquelas em que os moldes deste regime de acumulação estavam
menos presentes, dado o domínio que o mesmo imprimiu à geoeconomia e geopolítica
a nível global.
A transformação desigual da cidade capitalista enseja o espaço
“homogeneizado-fragmentado-hierarquizado” da modernidade. Segundo Lefebvre
(2006), a homogeneização decorre da disseminação das relações de produção; da
lógica de produção de mercadorias (métodos de controle, gestão, vigilância e
comunicação) destinada ao crescimento econômico. Por sua vez, a fragmentação do
espaço advém da contraditória divisão desse espaço homogêneo em lotes, guetos,
“conjuntos” (de fato, isolados), que mal se ligam aos arredores e aos centros.
Enquanto a hierarquização procede da rigorosa planificação do espaço, de princípio
funcionalista, que assinala uma função a cada lugar (espaços residenciais, de
trabalho, de lazer, etc.). Sendo que a indissociabilidade desse espaço
homogeneizado-fragmentado-hierarquizado acaba por instaurar uma segregação
socioespacial bastante acentuada.

O resultado desses processos, favorecido aliás pelo papel de árbitro e


regulador do Estado, principalmente atuante no domínio do planejamento do
território, é uma cidade "arrumada" com os grupos sociais e as atividades
44

econômicas em seu determinado lugar, na qual se desenvolvem trocas entre


espaços desiguais, se tecem interdependências, e se multiplicam
solidariedades. Assim, o centro prestigiado, diversificado, rico e poderoso
opõe-se a periferias mal-equipadas e monótonas. A cidade opõe-se ao
mundo rural com o qual estabelece, no entanto, profundas relações - o
hinterland contribui decisivamente para a especialização funcional das
cidades - e com o qual funciona em simbiose interdependente. (SALGUEIRO,
1998, p. 40).

A análise da estrutura territorial urbana permite, então, revelar as regras que


regeram a configuração do espaço das cidades atuais, bem como da vida da
população citadina. Veja-se que, ao longo do tempo, os estudos sobre a estruturação
urbana originaram modelos teóricos (enquanto formulações sociológicas abstratas)
direcionados à compreensão da geografia das cidades e aos problemas sociais por
elas enfrentados.
Conforme Gottdiener (1997) – autor em quem nos apoiaremos nessa parte –,
as perspectivas teóricas que buscam entender os padrões de desenvolvimento e
organização socioespacial das cidades são organizadas, segundo seus pressupostos,
em torno de dois modelos, tal como se verifica na Figura 2. Na presente pesquisa,
embora se reconheça a relevância da Teoria Convencional, não se tenciona promover
uma análise exaustiva acerca de suas asserções e eventuais controvérsias, em que
pese a vasta produção teórica nesse sentido. Os modelos teóricos descritivos criados
para explicar o arranjo de cidades norte-americanas, todavia, serão considerados de
forma subjacente na análise.

Figura 2 – Teorias de Desenvolvimento Urbano

Escola de Chicago

Teoria Convencional
(Não Marxistas)
Teorias de
Geografia e
Desenvolvimento
Economia Urbanas
Urbano

Teoria Marxista

Fonte: Criado pelo autor com dados extraídos de Gottdiener, 1997

No início do século XX, a Escola de Chicago, também conhecida como Escola


da Ecologia Humana, analisou os padrões de urbanização das cidades norte-
45

americanas e sua estruturação social mediante analogia a processos biológicos ou


behavioristas. Entre seus pensadores, destacam-se Ernest Watson Burgess, Robert
Ezra Park e Roderick Duncan McKenzie, cujos trabalhos, embora originados da
mesma base teórica, enfatizaram diferentes aspectos de aplicação da ecologia
humana (EUFRÁSIO, 1995; 2008; GOTTDIENER, 1997).
Para Mckenzie (1984), as relações socioespaciais do indivíduo, e os padrões
de uso da terra, estavam diretamente relacionados à sua posição geográfica, cuja
localização era definida por forças econômicas, culturais e ambientais. Assim, num
ciclo ecológico de luta por melhores localizações no espaço e maior qualidade de vida
– composto de invasão, competição, sucessão e acomodação –, a medida em que se
alterava a posição espacial do indivíduo dentro da cidade, alteravam-se suas relações
sociais. Nesse aspecto, ele afirma que as formações espaciais podem ser definidas
em razão do valor da terra, em que o centro (não necessariamente o centro
geográfico, mas o econômico ou cultural) apresenta o mais alto valor e, por sua vez,
a periferia (ou a linha fronteiriça entre duas formações adjacentes) o valor mais baixo.
A diferença entre os processos de invasão-competição-sucessão-acomodação e as
formas naturais de competição (válidas para plantas e animais) estaria na capacidade
humana de transformar as condições do ambiente.
Ao estudar o acelerado crescimento urbano da cidade de Chicago, Burgess
(2005) notabilizou-se pelo clássico modelo das zonas concêntricas (Figura 3), em que
o distrito comercial (central business district – CBD) ocupa a área mais nobre e central
da cidade (zona nuclear), cujo solo alcança os mais elevados patamares de preço. Tal
área é sucedida pela zona de transição, que envolve o centro e constitui um círculo
de degradação, local de instalação de indústrias e de residência dos desafortunados
(pobres, negros, migrantes recém-chegados). Na terceira zona habitavam as classes
trabalhadoras, desejosas de manterem o fácil acesso ao trabalho sem, contudo, se
submeterem às agruras da área deteriorada. A quarta zona, por sua vez, concentrava
a residência das classes mais abastadas, com habitações unifamiliares e edifícios de
apartamentos de alto luxo. Finalmente, a quinta zona (commuters zone), situada além
dos limites da cidade, em áreas suburbanas e cidades satélites. Essa zona era
constituída por residências de alto padrão localizadas nas proximidades de vias de
trânsito rápido que convergiam para o centro da cidade, de modo a facilitar as diárias
movimentações pendulares casa-trabalho.
46

Figura 3 – Modelo de Zonas Concêntricas de Burgess

Fonte: Pearson Prentice Hall apud APHuG, 2015, tradução nossa

Assim, à medida em que se distancia do centro em direção às quatro zonas


externas (industrial e de transição; de habitação operária; residencial; exterior ou
subúrbio), há um gradativo aumento cultural e da renda dos habitantes, com a
respectiva progressão na escala social (VALLADARES, 2010). Pois, tal como no
darwinismo, os mais aptos (as classes mais abastadas) ocupariam as melhores
posições sociais e espaciais da cidade (VÉRAS, 2000). Soma-se a isso gostos e
conveniências pessoais, interesses vocacionais e econômicos, etc., os quais, sob o
nosso sistema de apropriação individual da terra, tendem a influenciar a organização
e distribuição da população, determinando a planta urbana da cidade, seus limites e
seus respectivos usos (PARK, 1987). Esse dinâmico modelo de expansão e ocupação
da área citadina, mediante processos de invasão-sucessão, resultou em uma
marcante segregação socioespacial da população (BURGESS, 2005).
Gottdiener (1997) salienta que as áreas pouco desenvolvidas da zona de
transição, com ocupação predominante de indústrias e habitações de população
carente, criaram um slum negligenciado, cuja análise teórica de formação foi ignorada
pelos analistas convencionais. O crescimento desigual de tais áreas exemplifica,
contudo, o fenômeno de “desvalorização do ambiente construído” citado por Harvey
(2005a, 2005c, 2011a, 2011b, 2012), constituindo parte necessária do processo
capitalista de crescimento urbano.
Partindo das premissas do modelo de zonas concêntricas de Burgess, dois
outros modelos foram propostos posteriormente – o modelo setorial de Hoyt e o
modelo de múltiplos núcleos de Harris e Ullman –, cujas perspectivas, entretanto, se
47

opunham ao modelo inicial de Burgess, dada à rigidez irrealista dos limites de zonas,
sua arbitrária homogeneidade e a não correspondência com a realidade das cidades
pré-industriais e modernas (BEAUJEU-GARNIER, 1997).
Embora concordasse com a existência de um distrito central (zona nuclear) nas
cidades, em consonância com o modelo das zonas concêntricas de Burgess, Hoyt
(1939) entendia que a expansão centro-periferia ocorria ao longo de rodovias,
ferrovias e hidrovias, porventura existentes nas cidades. Pelo modelo setorial de
Hoyt20 (Figura 4), toda a dimensão da cidade perfaz um círculo, o qual é integrado por
diferentes setores que emanam da área central para a periferia a partir das principais
rotas de transporte. O autor ressalva, contudo, que as “zonas ou seções são
determinadas pela predominância de um uso, não pela sua presença exclusiva”
(HOYT, 1939, p. 5, tradução nossa)21. Assim, padrões similares de uso da terra –
zonas industriais, residenciais (de classes altas, médias e baixas) –, originam-se das
bordas da zona nucelar (distrito comercial) e se irradiam para as bordas periféricas da
cidade. Nesse contexto, quanto maior era a acessibilidade, maiores eram os valores
dos imóveis, de maneira que as classes altas se auto segregaram em regiões
afastadas da zona central, cujas áreas eram mais aprazíveis, enquanto as classes
mais baixas se aglutinavam nas proximidades das zonas de trabalho, como forma de
reduzirem os custos com o deslocamento. O modelo setorial de Hoyt, embora mais
realista, não abarca toda a complexidade inerente à ocupação territorial das cidades
americanas, sobretudo em relação àquelas que apresentam maior dimensão
(BEAUJEU-GARNIER, 1997).
Não obstante a singularidade das cidades, Harris e Ullman (2005) afirmam que
o padrão de uso da terra, a estrutura e as funções que desempenham, por se
assemelharem, permitem que os resultados de investigações socioespaciais de uma
cidade possam ser generalizados e, por conseguinte, aplicados a localidades
distintas. Para eles, como grande parte das cidades norte-americanas eram
organizadas a partir dos setores de negócios, industriais e residenciais, a estruturação
interna das cidades decorreria da junção entre elementos dos modelos anteriores –
das zonas concêntricas (segundo a teoria de Burgess) e dos setores (conforme a
proposta de Hoyt) – no quadro de um modelo de múltiplos núcleos.

20
O modelo de Hoyt baseou-se num estudo empírico de 64 pequenas e médias cidades americanas,
além das cidades de Chicago, Detroit, Filadélfia, Nova York e Washington.
21
“Zones or sections are determined by the predominance of one use, not by its exclusive presence”.
48

Figura 4 – Modelo Setorial de Hoyt

Fonte: Pearson Prentice Hall apud APHuG, 2015, tradução nossa

De acordo com o modelo de múltiplos núcleos (Figura 5), o crescimento das


cidades não necessariamente ocorreria a partir da região central, podendo haver o
desenvolvimento de centralidades (núcleos menores) nos arredores da cidade, em
função de sua localização privilegiada – nas proximidades de certas atividades
(industriais, financeiras, varejistas, universitárias, residenciais) e facilidades
(comércio, serviços, transporte, vias de acesso, etc.) –, bem como pela maior
mobilidade advinda com o uso de veículos automotores. O desenvolvimento de
múltiplos núcleos estaria relacionado ainda: (i) à incompatibilidade de certas
atividades em uma mesma região, como aeroportos e zonas residenciais; fábricas e
parques; (ii) às necessidades específicas de certas atividades industriais, como
transportes (portos, estações ferroviárias, etc.) e recursos naturais (água); (iii) à
aglutinação de certas atividades, como universidades, livrarias, restaurantes, etc..
Apesar do esforço de Harris e Ullman para desenvolver uma teoria que elucidasse os
padrões de produção do espaço de assentamento, sua abordagem também não levou
em conta os múltiplos fatores que constituem a base da organização social (elementos
naturais, culturais, políticos, econômicos, etc.) (GOTTDIENER, 1997).
A segunda corrente da Teoria Convencional – Geografia e Economia Urbanas,
que emergiu após a Segunda Guerra Mundial, enfatiza aspectos da estrutura urbana,
como o tamanho da cidade, função e organização espacial, a partir de certas
regularidades estatísticas que exprimem a característica distribucional da população.
Conforme esse modelo teórico, a forma urbana e a distribuição espacial da população
decorreriam da atuação dos agentes econômicos, em um mercado de concorrência
perfeita. Ou seja, as forças impessoais do mercado classificariam a localização dos
49

indivíduos de acordo com as suas preferências individuais e com a capacidade


econômica que cada um teria para adquirir e fruir a propriedade privada da terra, em
regra mais caras nas regiões centrais, e de suas considerações sobre o custo do
transporte22 (GOTTDIENER, 1997).

Figura 5 – Modelo de Múltiplos Núcleos de Harris e Ullman

Fonte: Pearson Prentice Hall apud APHuG, 2015, tradução nossa

O padrão de explicação dos modelos econômicos da forma intra-urbana


padece, contudo, das seguintes limitações: (i) partem do princípio de que “o papel
primordial da organização do espaço urbano cabe ao centro histórico da cidade”,
quando, na verdade, inúmeros fatores influenciam a decisão sobre a localização
(necessidades industriais, ofertas de fatores de produção, considerações de mercado
e exigências administrativas e organizacionais); (ii) “o pensamento econômico

22
Dentre os modelos de estruturação urbana do tratamento convencional da economia e geografia
urbanas, inclui-se a teoria do lugar central formulada por Walter Christaller, em 1933, a partir do estudo
de pequenas cidades do sul da Alemanha. De acordo com esse modelo, a supremacia das cidades é
condicionada pela centralidade que possuem na prestação de serviços e de atendimento das
necessidades do conjunto de uma população. Ou seja, enquanto os modelos teóricos da Escola de
Chicago abordam a estrutura interna das cidades, a teoria de Christaller debruça-se sobre “sistemas
de cidades” (GOTTDIENER, 1997; BEAUJEU-GARNIER, 1997; ULLMAN, 2005).
50

convencional depende essencialmente da importância da tecnologia, em especial dos


custos de transporte e de comunicação, em determinar mudanças no valor da terra”.
Num cenário em que a organização espacial é utilizada como força de produção,
eventuais inovações tecnológicas nos transportes e nas comunicações constituem
apenas alguns dos aspectos de um complexo de forças sócio-estruturais que
influenciaram a transformação das relações tempo-espaço da atualidade; (iii) “as
abordagens convencionais ignoram o aspecto fundamental do valor da terra – sua
natureza social”, deixando de explicar questões atinentes aos problemas sociais e ao
crescimento desigual das áreas citadinas, ou a relação entre ambos (GOTTDIENER,
1997, p. 51).
A partir do desenvolvimento do espaço norte-americano, Gottdiener (1997)
expõe que, no passado, predominou a forma compacta de cidade enfatizada nos
modelos de zona concêntrica – visão monocêntrica de Burgess e as recentes
abordagens policêntricas (“sistema de cidades”), que defendem a preponderância da
cidade central num contexto socioespacial regional. Atualmente, diante da alteração
dos padrões de organização espacial provocada por processos globais –
caracterizados pela flexibilização e desconcentração espacial da produção; pela
internacionalização do capital financeiro e pela nova divisão do trabalho –, vigora a
forma polinucleada do espaço urbano. Para ele, a “região metropolitana polinucleada”
decorre do processo de desconcentração de pessoas, comércio, indústria e
administração pública para áreas cada vez maiores, fora da região central da cidade.
Assim, ao contrário do modelo pretérito, essa nova geografia de cidades permite que
áreas periféricas, detentoras de atributos como espaço físico atrativo, vigor
econômico, rede de transportes, etc., sejam inseridas num cenário competitivo próprio
das cidades centrais.
O desenvolvimento polinucleado motivou a realização de uma pesquisa sobre
a morfologia da diferenciação funcional dentro das regiões metropolitanas norte-
americanas. De acordo com as análises empreendidas, constatou-se que os
suburbanitas eram, em sua maioria, brancos, de classe média, com emprego
profissional, conservadores, politicamente ativos, etc.. Em contrapartida, a cidade
central constituía-se por pessoas de baixa renda, liberais, integrantes da classe
operária, pertencentes a grupos étnicos e de minorias. Assim, na década de 1960, a
constituição espacial da região metropolitana apresentava um desenvolvimento
irregular e manifestamente segregado, por renda, raça e estilo de vida
(GOTTDIENER, 1997).
51

Apesar do caráter meramente descritivo da pesquisa e de sua pouca serventia


para a proposição de políticas governamentais tendentes a mitigar os efeitos adversos
da segregação, a expansão das regiões metropolitanas revela, sob a ótica dos
economistas políticos marxistas, uma transformação socioespacial regulada pela
lógica da acumulação de capital, cujos resultados são o desenvolvimento desigual e
as injustiças sociais. Nessa vertente, Gottdiener (1997, p. 29) ressalta que “o ambiente
construído tornou-se o cenário de altos e baixos cíclicos no mercado imobiliário, com
a existência paralela de deterioração e de superconstrução”, ambos produzidos
simultaneamente no processo de (re)estruturação da cidade, a partir da articulação
entre o Estado (programas de governo e de planejamento urbano) e os interesses
monopolistas (capital bancário, fundiário, imobiliário, etc.). Assim, os agentes
produtores do espaço agem no sentido de garantir um processo perene de
reorganização espacial, revelando uma estratégia mundial de regeneração urbana,
promotora de processos gentrificativos generalizados, cuja conceituação e
características serão examinadas no capítulo 323.
É nesse panorama que a teoria neomarxista, surgida na França, na década de
1970, correlaciona a estrutura urbana às especificações do regime de acumulação
capitalista, encarando o espaço sob a perspectiva da reprodução da força de trabalho
e do consumo coletivo. Para o modelo marxista, as questões urbanas, as políticas
públicas, os movimentos sociais e a segregação socioespacial, são vistos como
processos inerentes às contradições capitalistas que se manifestam no espaço
citadino, tendo, na propriedade privada da terra urbana, a raiz dos problemas sociais
(VÉRAS, 2000). Nesse aspecto, para se entender a produção da cidade capitalista, e,
em especial, a cidade de Belo Horizonte, faz-se necessário um mínimo de
entendimento de como se estrutura hoje, ou de como se estruturou no passado, esse
modo de produção.

23
Por ora, a gentrificação pode ser entendida como um processo de “aburguesamento” (para evidenciar
a luta de classes) de bairros pobres e da classe trabalhadora, mediante um influxo de capital e de
pessoas de classe média (compradores e inquilinos), promovendo a reestruturação e a recuperação
do estoque imobiliário e, por conseguinte, substituindo os moradores de nível socioeconômico mais
baixo que aí moravam (SMITH, 1988, 1996, 2010a).
52

1.2 Formações econômicas pré-capitalistas e a renda fundiária.

As reflexões de Marx e Engels são indispensáveis à compreensão da categoria


econômica da renda da terra (urbana) e suas implicações na configuração do espaço
das cidades.
Ao analisar a evolução histórico-conceitual da propriedade privada da terra,
Marx remete às formações econômicas pré-capitalistas, caracterizadas pela relação
simbiótica entre o indivíduo (produtor imediato) e a terra (recurso fundamental da
produção). Nestas, a situação de posse da terra – ou propriedade (condição mais
vantajosa) –, se configura como condição prévia do trabalho e, logo, da produção
(MARX, 1973).
Para Marx, o sistema capitalista desapropria o trabalhador agrícola das
condições objetivas de produção, isto é, o meio e a matéria do trabalho, subtraindo-
lhe a propriedade da terra. Ao separar o trabalhador livre da pequena propriedade livre
ou comum, o capitalismo subordina-o a um capitalista que explora a atividade agrícola
para auferir lucro (MARX, 1973, 2008). É a superação da relação propriedade-trabalho
centrada na terra que favorece o surgimento da relação trabalho-capital, dissolvendo
as diversas formas nas quais o trabalhador era proprietário da terra (do solo) e,
enquanto tal, trabalhava para garantir sua conservação (de sua família e da
comunidade no seu conjunto), sem o objetivo de criar valores (MARX, 1973).
Segundo Marx (2008, p. 827), a sobreposição do binômio propriedade-trabalho
pela relação trabalho-capital permite que o regime de produção capitalista adeque a
propriedade territorial aos seus desígnios, desligando-a das relações de senhorio
(dominação) e servidão do sistema feudal, e, ao mesmo tempo, separando a terra,
enquanto condição de trabalho, da situação de propriedade e do indivíduo proprietário
verificada na pequena economia camponesa de subsistência. Nessa condição, para
o indivíduo proprietário, a terra passa a representar a possibilidade de receber um
determinado “tributo24 em dinheiro que o monopólio lhe permite arrecadar do
capitalista industrial, o arrendatário”, que em seu lugar irá trabalhar a terra, pagando-
lhe, para isso, certa renda.
Isto posto, ao submeter a agricultura ao império do modo capitalista de
produção, o capitalismo libera a propriedade da terra de suas vinculações políticas e

24
Conforme Lipietz (1988, p. 124), “o espaço é um bem que pode ter um preço: preço do solo, renda
fundiária, em resumo, o que se pode chamar de tributo fundiário – ‘tributo’ para designar o fato de que
este preço tem mais a ver com uma taxa do que com o valor de uma mercadoria.”
53

sociais pretéritas, garantindo-lhe caráter estritamente econômico – condição essencial


à acumulação de capital. Nas palavras de Marx (2008, p. 824-825), a propriedade da
terra “supõe que certas pessoas têm o monopólio de dispor de determinadas porções
do globo terrestre como esferas privativas de sua vontade particular, com exclusão de
todas as demais vontades.” Ou seja, o proprietário do solo tem a faculdade de
proceder com a terra como qualquer possuidor de mercadorias pode proceder com
elas, “de usar e abusar de porções deste planeta”. Ainda que, conforme Marx (2008),
a atuação deste restrinja à simples especulação, porquanto, embora a mera
propriedade jurídica da terra não proporcione renda ao seu proprietário, confere-lhe o
poder de obstar a exploração de sua terra até que as condições econômicas propiciem
a valorização que lhe permita retirar o excedente, seja destinando a terra à agricultura,
seja em ramos diversos da produção, como a construção.
Nessas condições, promove-se uma separação de classes – típica ao regime
capitalista, entre agricultores (trabalhadores assalariados), capitalista industrial
(arrendatário agrícola) e proprietários da terra (beneficiários da renda fundiária). De
forma análoga, a propriedade dos meios de trabalho, das matérias-primas e dos meios
de subsistência é apartada do trabalho. Tal separação implica no monopólio dos
meios de produção pela classe capitalista, permitindo-lhe a apropriação do trabalho
excedente da classe trabalhadora, agora impossibilitada de tornar seu o produto de
seu próprio trabalho (MARX, 1973).
A valorização da terra, mediante incorporação de capital, em caráter transitório
(melhorias de natureza química, adubação, etc.) ou permanente (canais de drenagem,
obras de irrigação, terraplanagem, etc.), torna-a capital fixo (capital-terra) e as
melhorias eventualmente realizadas pelo arrendatário, por força contratual, acrescem
ao solo. Findo o contrato de arrendamento, as melhorias incorporadas ao solo passam
à propriedade do arrendador. De maneira que, ao fazer novo arrendamento, o
arrendador acrescenta à renda fundiária propriamente dita o juro incorporado ao solo
e que nada lhe custou, favorecendo-lhe uma renda futura superior. “Assim, embolsam
o resultado produzido pelo progresso social sem qualquer interferência de sua parte,
pois nasceram para consumir os frutos” (MARX, 2008, p. 829).
Segundo a tipologia de Marx (2008), a renda em geral oriunda do arrendamento
da propriedade fundiária se divide, todavia, em renda diferencial e renda absoluta. A
primeira, resultante da captação do lucro suplementar (superlucro) pelo proprietário
da terra; a segunda, procedente da simples propriedade do solo, independentemente
das vantagens comparativas que eventualmente este possa oferecer. Para Marx, o
54

lucro suplementar decorreria das características singulares da propriedade da terra


(fertilidade, localização, incidência diferenciada de imposto sobre a propriedade do
solo, desenvolvimento desigual da agricultura em diferentes regiões do país,
desigualdade na repartição do capital entre os arrendatários), porquanto esse lucro
suplementar

sempre se revela [da] diferença entre produtos de duas quantidades iguais


de capital e trabalho, e esse lucro suplementar se converte em renda
fundiária, quando duas quantidades iguais de capital e trabalho se aplicam
em extensões de terras iguais, com resultados desiguais. (MARX, 2008, p.
867).

Nessas condições, a renda diferencial se subdivide em: (i) renda diferencial I,


quando o lucro suplementar provém de causas alheias ao capital, como a fertilidade
natural do solo e a localização da terra, por exemplo; (ii) renda diferencial II, quando
o lucro suplementar advém da aplicação de capital no solo, pelo arrendatário, no
intuito de aumentar a produtividade e, por consequência majorar seus lucros.
De acordo com Marx (2008), em todos os lugares onde se verifica renda, a
renda diferencial aparece e observa as mesmas regras da renda diferencial agrícola,
independentemente da destinação que é dada ao solo (construção, extração mineral,
etc.). Ainda, onde quer que determinados sítios (terrenos bem localizados), recursos
naturais (como nascentes, jazidas) ou uma condição indispensável à determinada
atividade (quedas d’água), possam ser objeto de monopólio, assegura-se àqueles que
os exploram um lucro suplementar, na forma de renda (preço de monopólio25),
subtraindo-o do capital ativo aquele que detém o título de propriedade da terra. Como
assinala Gottdiener (1997, p. 177), a renda de monopólio “é a mais útil para a análise
urbana, pois expressa a origem social do valor da localização”, conferido pela
instituição da propriedade privada.
Daí que, embora as três rendas extraídas da terra (diferencial, absoluta e de
monopólio) possam ser confundidas, pela forma como aparecem, como uma renda
fundiária total, elas se distinguem pelos seus respectivos processos de formação
(TOPALOV, 1979). Assim, conforme Topalov,

25
As patentes e os denominados "direitos de propriedade intelectual" configuram exemplos
paradigmáticos dos poderes de monopólio (HARVEY, 2013c). No caso das áreas urbanas, são
exemplos: estabelecimentos comerciais localizados dentro ou nas proximidades de escolas, estádios
de esportes, aeroportos, shopping centers, dispondo da exclusividade da venda de determinadas
mercadorias. O que lhes confere a possibilidade de cobrar preços mais elevados pela venda dos
produtos. No caso das habitações, a renda de monopólio decorreria da localização em áreas mais
aprazíveis e únicas, possibilitando a obtenção de rendas superiores às auferidas por proprietários de
imóveis situados em áreas sem as mesmas características (BÓGUS, 1987).
55

o solo é às vezes elemento da produção (na agricultura), condição da


produção (na construção civil) ou reservatório de valores de uso (minas,
pedreiras), sendo ao mesmo tempo não reproduzível e monopolizado pela
propriedade fundiária: ele “engendra” então rendas fundiárias para esta.
(TOPALOV, 1979, p. 66).

1.3 A renda da terra (urbana) e a configuração do espaço citadino

No contexto das cidades, a enorme concentração de pessoas e a utilização da


terra para os mais diversos fins favorecem uma disputa pelo uso do solo. Para alguns,
lugares constituem local de residência ou de produção; para outros, lugares
representam uma mercadoria para comprar, vender ou alugar para outra pessoa
(LOGAN; MOLOTCH, 1987). O espaço produzido, sob o viés da industrialização, se
torna mercadoria, assim como os demais produtos criados pela produção capitalista,
facultando a realização da propriedade privada do solo urbano no conjunto da riqueza
social.
O sistema capitalista, atraído pelas vantagens da aglomeração e pela
socialização das condições gerais da produção26, apropria-se do espaço citadino –
lugar privilegiado da acumulação do capital e da reprodução da força de trabalho –,
como condição e meio para a realização concreta do ciclo produtivo, em seus
momentos de produção, distribuição, circulação, troca, consumo de mercadorias e,
por conseguinte, realização do lucro (LOJKINE, 1979, 1997; TOPALOV, 1979). As
cidades são vistas, então, como growth machines27, organizadas como empresas
dedicadas ao aumento dos níveis de renda, mediante a intensificação do uso da terra
(LOGAN; MOLOTCH, 1987).
Nesse aspecto, Engels (1975, p. 52-53) aponta a dupla tendência do
capitalismo: a concentração demográfica simultaneamente à concentração do capital,
mesmo porque, “na indústria, o homem, o trabalhador, não é considerado senão como
uma fração do capital a qual o industrial entrega um juro – que se chama salário –
para que este se lhe entregue para ser utilizado”. A partir dos apontamentos de
Engels, Véras expõe que,

quanto maior é a cidade (a sua fábrica) maiores são as vantagens da


aglomeração: trabalhadores, meios de comunicação (sistema viário,

26
Definidas por Lojkine (1997) como a totalidade das estruturas físicas contidas na cidade, como casas,
ruas, fábricas, escritórios, sistema de esgoto, equipamentos culturais e educacionais, que servem à
produção e ao consumo das sociedades capitalistas.
27
Máquinas de crescimento.
56

estradas, serviços urbanos, transportes de matérias-primas, máquinas e


técnicas, bolsa, mercado, bancos, etc.). Enquanto a concentração do capital
se acelera, para o proletariado os costumes são destruídos e também as
“condições de vida dos velhos tempos”. (VÉRAS, 2000, p. 55-56).

A produção do espaço urbano ocorre, então, pela incorporação à cidade de


glebas anteriormente destinadas ao uso agrícola. O custo de produção dos terrenos
urbanos é, conforme anotação de Marx, equivalente à renda agrícola da terra que se
deixa de auferir. Tal correspondência, contudo, não ocorre de forma linear no mercado
imobiliário, posto que diferentes fatores influem na definição do preço e usos do solo
urbano, dependendo, em última análise, da demanda provocada pela dinâmica de
ocupação do espaço. O que, devido às suas reiteradas oscilações, impõe ao mercado
imobiliário um caráter essencialmente especulativo, tanto em relação aos preços de
venda, quanto em relação aos valores de locação dos imóveis (SINGER, 1979;
BÓGUS, 1987).

O uso do solo na economia capitalista é regulado pelo mecanismo de


mercado, no qual se forma o preço desta mercadoria sui-generis que é o
acesso à utilização do espaço. [...]. A “valorização” da gleba é antecipada em
função de mudanças na estrutura urbana que ainda estão por acontecer e
por isso o especulador se dispõe a esperar um certo período, que pode ser
bastante longo, até que as condições propícias tenham se realizado.
(SINGER, 1979, p. 23-24).

Para Santos (2009, p. 107), a especulação imobiliária se alimenta dessa


dinâmica (que inclui expectativas) e é resultado da conjugação de dois movimentos
convergentes: (i) a superposição de um sítio social ao sítio natural, “uma vez que o
funcionamento da sociedade urbana transforma seletivamente os lugares,
afeiçoando-os às suas exigências funcionais”, daí certas localizações se tornarem
mais atrativas e também mais valorizadas; (ii) a disputa entre atividades ou pessoas
por dada localização. Tal lógica se aplica igualmente aos lugares de residência, com
as pessoas mais abastadas buscando alojar-se onde, segundo os cânones de cada
época (incluindo a moda), lhes pareça mais conveniente. Sendo essa a razão pela
qual diversas parcelas da cidade ganham ou perdem valor ao longo do tempo.
Desse modo, a valorização da terra está intrinsecamente relacionada às
vantagens e oportunidades que a localização do bem pode propiciar ao comprador
(investidor), enquanto meio de produção (consumo produtivo) ou enquanto condição
de produção (consumo improdutivo) (SILVA, 2013). Não por acaso, imóveis com
características similares e detentores das mesmas benfeitorias apresentam valores
distintos, em função da região em que estão localizados (SINGER, 1979).
57

No primeiro caso, se a extração de renda diferencial da terra é analisada em


Marx (2008), a partir da comparação entre as produções agrícolas obtidas em solos
mais férteis e menos férteis, Singer (1979) avalia os benefícios que a localização
privilegiada no espaço proporciona às empresas – no tocante à produção, circulação
e comercialização dos bens produzidos. Para ele, cada ponto do espaço urbano é
único e pode proporcionar determinado elenco de vantagens que influenciam seus
custos e lucros, tais como: infraestrutura (energia, transporte, água); fácil acesso ao
comércio, à distribuição de bens e ao consumidor; etc..
Assim, de acordo com a sua localização, a empresa tem custos distintos, “mas
é de se supor que o preço em cada mercado tem que cobrir a médio prazo os custos
mais margem ‘adequada’ de lucros das empresas pior localizadas” (SINGER, 1979,
p. 24). Decorrendo, daí, um superlucro para as empresas melhor localizadas, na
medida em que seus custos são menores em relação àquelas pior localizadas.
Contudo, acaso haja concorrência entre empresas pelas localizações (e suas
vantagens específicas), provavelmente o valor dos aluguéis ou o preço dos imóveis
serão fixados em nível bastante próximo ao lucro adicional que pode ser auferido em
cada um deles (SINGER, 1979).
No segundo caso, a demanda de solo urbano para fins de habitação (entendido
como consumo “improdutivo”, do ponto de vista da acumulação), também distingue
vantagens localizacionais, determinadas pela condição de acesso a serviços urbanos,
tais como: transporte público; serviços de água e esgotamento sanitário; coleta de
resíduos; escolas; centros de saúde; comércio; etc.. Além do prestígio social da
vizinhança, mormente quando considerada a tendência de segregação espacial das
classes mais abastadas e a aspiração de ascendência social (e demonstração pública
dessa ascendência) dos membros da classe média (SINGER, 1979).
Numa época de ostentação, em que a distinção social é consequência das
posses e da aparência, os projetos de arquitetos e planejadores urbanos enfatizam os
gostos e preferências das classes mais abastadas, estimulando a produção e
consumo do “capital simbólico”, conforme denominação de Bordieu (1983, 2004), pelo
qual o acúmulo de bens luxuosos legitima o gosto e a distinção (econômica, cultural)
daqueles que os possui. O que tem muito a dizer sobre o fenômeno da gentrificação.
Logo, o acesso às (poucas) regiões privilegiadas com infraestrutura e prestação de
serviços fica restrito aos grupos de maior renda, devido à excessiva valorização
(elitização) do solo, relegando a população mais pobre às zonas pior servidas, nas
quais o preço a ser pago pelo direito de morar é menor (SINGER, 1979).
58

Como resultado, a definição do local de moradia é ainda mais tormentosa para


a população de baixa renda, face às inúmeras variáveis que influenciam sua decisão.
De acordo com Davis,

os pobres urbanos se veem diante de uma complexa equação, em que


precisam otimizar os custos da habitação, a segurança da posse, a qualidade
de moradia, o deslocamento para o trabalho e, por vezes, a segurança
pessoal. Para algumas pessoas, incluindo muitos moradores de rua, a
localização próxima ao trabalho – por exemplo, em uma estação de trem ou
em um mercado – é ainda mais importante do que um teto. Para outros, a
terra livre, passível de habitação, implica em épicos trajetos entre a periferia
e o centro da cidade. E, para todos, a pior situação é uma má e onerosa
localização, sem qualquer prestação de serviços municipais ou segurança da
posse do bem. (DAVIS, 2006a, p. 27, tradução nossa)28.

Ou seja, as características básicas dos imóveis (edificados ou não) influem


sobremaneira nas relações de oferta e demanda de parcelas do espaço urbano – tais
como: (i) suas características internas: físicas e funcionais; (ii) sua acessibilidade:
face aos demais equipamentos e serviços urbanos e às conexões regionais; (iii) suas
condições de vizinhança; e (iv) a infraestrutura urbana disponível: redes de serviços
e equipamentos coletivos –, cujos efeitos de vizinhança vão se diluindo conforme
aumentam as distâncias (COSTA, 1978). Soma-se a isso gostos e conveniências
pessoais, interesses vocacionais e econômicos, etc., os quais, sob o nosso sistema
de apropriação individual da terra, tendem a influenciar a organização e distribuição
da população, determinando a planta urbana da cidade, seus limites e seus
respectivos usos. Fatores já destacados desde a Escola de Chicago (PARK, 1987).
Diante da influência que todos esses fatores exercem na espacialização da
população, Wirth, em seus estudos na Escola de Chicago, concluía que

elementos populacionais diversos, habitando localidade compacta, tendem


portanto a se separar uns dos outros na medida em que suas necessidades
e modos de vida são incompatíveis uns com os outros e na medida em que
sejam antagônicos. Do mesmo modo, pessoas de status e necessidades
homogêneos, consciente ou inconscientemente, se dirigem ou são forçadas
para a mesma área. (WIRTH, 1987, p. 103).

28
“The urban poor have to solve a complex equation as they try to optimize housing cost, tenure security,
quality of shelter, journey to work, and sometimes, personal safety. For some people, including many
pavement-dwellers, a location near a job — say, in a produce market or train station — is even more
important than a roof. For others, free or nearly free land is worth epic commutes from the edge to the
center. And for everyone the worst situation is a bad, expensive location without municipal services or
security of tenure.”
59

De acordo com Singer (1979), a renda da terra paga por aqueles que utilizam
o espaço urbano para fins de consumo improdutivo tem caráter diferencial diverso da
renda paga pelos que utilizam o espaço objetivando a obtenção de lucro. A renda
paga pelos primeiros, como parte do consumo individual ou familiar, está condicionada
aos rendimentos e às preferências individuais no tocante à localização habitacional,
enquanto os segundos ponderam o lucro adicional proporcionado por determinada
localização.
Para Carlos (2012), a ocupação do espaço citadino ocorre de forma desigual,
cujas diferenças apontam o confronto entre as estratégias que orientam os interesses
privados dos setores econômicos da sociedade (capital industrial, financeiro,
comercial, fundiário, imobiliário) – que veem no espaço-mercadoria a condição de
realização da reprodução econômica –, e aqueles que o consomem de forma
improdutiva (embora imprescindível à reprodução da força de trabalho). Nesse
aspecto, a relação entre renda e preço do metro quadrado do solo urbano denota a
repartição assimétrica da propriedade privada do solo, bem como a inacessibilidade
aos equipamentos públicos, serviços e habitação pelas camadas populacionais
menos abastadas.
Em contrapartida, o espaço se configura como elemento ideológico, político e
econômico, verificando-se a confluência de múltiplos interesses e as ações de
distintos agentes (sociais e econômicos), que se articulam dialeticamente nas
deliberações que envolvem o planejamento e o uso do solo urbano. De maneira que
a questão urbana constitui campo fértil para o embate entre as ações derivadas de
processos dominantes (hegemônicos) associados às lógicas de reprodução do capital
e aquelas advindas de processos de permanência (resistência) de movimentos
sociais, culturais, etc., potencializando as transformações na vida cotidiana das
pessoas e dos lugares. De acordo com Costa,

em ambos os casos, superpõem-se tanto elementos que se manifestam há


décadas, ainda que eventualmente transformados, que expressam formas
distintas de apropriação do espaço, a segregação socioespacial, bem como
concepções arraigadas de planejamentos de matriz funcionalista (e elitista)
que em grande parte ainda povoam o repertório técnico e político mobilizado
pelo planejamento urbano (grandes conjuntos habitacionais distantes,
distritos industriais, áreas centrais deterioradas, extensão e adensamento
dos espaços periféricos precários, entre outras); como novos elementos e
situações típicos da urbanização contemporânea – conglomerados de
(pseudo)condomínios dispersos pelo território, parques tecnológicos, museus
e equipamentos culturais e de serviços indutores de novas centralidades,
vilas e favelas urbanizadas, experimentos de agricultura urbana e periurbana,
ocupações planejadas de terrenos ociosos, nichos de verticalização seletiva
60

espraiados pelo território, entre outras manifestações que tendem a alterar a


tradicional lógica centro-periferia. (COSTA, 2012, p. 75-76).

A contradição capital-trabalho se perfaz no enfretamento entre as classes


sociais pelo acesso aos meios de consumo coletivo e pelo ambiente construído. A
cidade, enquanto mercadoria a ser consumida, é expressão da contradição “valor de
uso x valor de troca”, sendo fortemente marcada pela desigualdade na apropriação
da renda da terra e do ambiente necessário à reprodução da vida (LEFEBVRE, 2011).
Para Lefebvre (1972, p. 152), há a “subordinação do solo ao mercado, que faz da terra
um ‘bem’ comercializável, dependente do valor de troca e da especulação e não do
uso e do valor de uso”.
Assim, as transformações socioespaciais resultantes da distribuição das
atividades produtivas e da população no espaço citadino decorreriam tanto da atuação
do Estado, de distintos capitais empresariais, quanto das estratégias de localização e
distribuição da força de trabalho (variantes de classes sociais da população),
conforme a conjuntura e as especificidades de cada lugar (LIMONAD, 2011). Tais
atores contribuem, ainda, para a configuração fragmentada do tecido urbano das
cidades brasileiras, dada à unificação do mercado imobiliário provocada pela disputa
dos usos mistos do espaço – “produtivos” e “improdutivos”.
A configuração das cidades capitalistas é, então, resultado da justaposição de
agentes, interesses (divergentes ou não) e fatores socioeconômicos produzidos pela
aglomeração urbana. E, nessa vertente, o ambiente construído compreende um
palimpsesto de paisagens moldadas segundo os ditames do modo de produção
capitalista no seu atual estágio de desenvolvimento histórico – período monopolista,
da denominada acumulação flexível (HARVEY, 2011b, 2013a).

1.4 Estruturação do espaço urbano nas cidades latino-americanas

Desde a publicação dos primeiros trabalhos da Escola de Chicago, no início do


século XX, os esforços continuados dos estudiosos para compreender a dinâmica do
desenvolvimento urbano resultaram na elaboração de modelos teóricos destinados à
representação do espaço citadino em diferentes contextos espaciais, temporais,
políticos, econômicos e sociais.
No caso das cidades latino-americanas, Bär, Borsdorf e Janoschka (apud
BORSDORF, 2003) delimitaram quatro modelos de estrutura intraurbana (Figura 6),
com base em trabalhos anteriores e nas pesquisas de autores alemães e norte-
61

americanos publicadas a partir de 1976. Os modelos expressam a evolução da


morfologia urbana das cidades – especialmente as latino-americanas –, e, diante da
similaridade com a formação do espaço urbano belo-horizontino, serão aqui
referenciados.
De acordo com o primeiro modelo – Cidade Compacta (1500-1820) – no
período colonial, as cidades possuíam uma morfologia compacta, dada às dificuldades
de mobilidade e necessidade de proteção. As capitais se localizavam no centro de
suas regiões administrativas, bem como em vales ou bacias com melhores qualidades
ambientais. As atividades eram centralizadas em uma praça principal que, atuando
como núcleo da vida social, determinava a estruturação socioespacial da cidade. De
maneira que, a posição social de cada cidadão era determinada pela distância de sua
casa em relação à praça central (BÄR; BORSDORF; JANOSCHKA apud
BORSDORF, 2003). A inclinação social e funcional do centro para a periferia resultou
na estruturação circular das áreas vizinhas, de forma que o primeiro círculo era
habitado pela aristocracia, formada pelas famílias mais influentes e abastadas. O
segundo círculo era ocupado por integrantes da classe média, à época composta por
comerciantes e artesãos. E, por fim, na área mais periférica alocavam-se os brancos
pobres, índios e mestiços. Salienta-se, entretanto, que o modelo circular centro-
periferia é aplicável apenas às cidades brasileiras não litorâneas (BÄR; BORSDORF;
JANOSCHKA apud BORSDORF, 2003).
Para o segundo modelo – Cidade Setorial (1820-1890) – a primeira fase da
urbanização foi marcada pela chegada de imigrantes da Europa (comerciantes,
artesãos, agricultores, etc.), pela industrialização restrita – vez que a economia estava
baseada na exportação de produtos agrícolas e recursos minerais –, e pela aplicação
de modelos europeus de reforma urbana – como os boulevards parisienses do barão
Georges von Haussmann (BÄR; BORSDORF; JANOSCHKA apud BORSDORF,
2003). Nessa época, a expansão da cidade foi orientada pelo princípio da
diferenciação setorial (bairros das classes altas, bairros operários, setores industriais,
etc.) de estruturação linear, rompendo, pois, com a estrutura circular das cidades
coloniais. As classes abastadas passam a residir ao longo de bulevares e a população
obreira passa a ocupar os espaços deixados pelas classes abastadas, surgindo os
primeiros cortiços e favelas. Verifica-se, ainda, a instalação das primeiras indústrias
nas proximidades de linhas férreas (que conectavam a cidade ao restante do país); a
sucessão do centro administrativo de outrora pelo centro comercial e transferência da
62

gestão de setores-chave da economia nacional para empresas estrangeiras (BÄR;


BORSDORF; JANOSCHKA apud BORSDORF, 2003).
O terceiro modelo – Cidade Polarizada (1920-1970) – caracterizou-se pela
rápida urbanização das cidades. Com o objetivo de reduzir as importações de
mercadorias e potencializar o desenvolvimento interno, o processo de industrialização
das cidades foi intensificado pelas políticas econômicas implementadas pelo Estado,
aumentando a instalação de unidades fabris nas margens de ferrovias e rodovias.
Consequentemente, houve o fortalecimento de alguns setores da economia e o
incremento do êxodo rural (BÄR; BORSDORF; JANOSCHKA apud BORSDORF,
2003). A partir de um modelo de cidade polarizada, em que as populações de alta e
baixa renda concentravam-se em extremos opostos, verificou-se o afastamento da
população abastada das áreas centrais, passando a residir em bairros de luxo,
exclusivos e mais arborizados e, no extremo oposto, o surgimento de bairros
marginais periféricos. Simultaneamente, ocorreu a ocupação de áreas centrais não
edificadas pela população carente. Nesse período, houve a exacerbação do contraste
“cidade rica x cidade pobre”, com forte adensamento de regiões localizadas fora do
perímetro urbano (segundo o princípio de crescimento em células) e o aparecimento
dos primeiros condomínios residenciais fechados (BÄR; BORSDORF; JANOSCHKA
apud BORSDORF, 2003).
Por fim, no quarto modelo – Cidade Fragmentada (1970 até os dias atuais) –
os princípios de crescimento setorial-linear e celular permanecem vigentes, embora
com marcantes diferenças em relação às fases anteriores de desenvolvimento
urbano. O avanço das tecnologias de transporte e de comunicação tornam as
periferias mais atrativas para os extratos de altas e médias rendas da população. Há,
pois, uma acentuação das estruturas lineares, concomitantemente à formação de
novas células (representadas pelos condomínios residenciais de luxo, pelos
loteamentos de interesse social e pelos bairros marginais), configurando uma nova
estruturação urbana fortemente marcada pela fragmentação do espaço29. As cidades
deixam de ter grandes áreas ricas e pobres, grandes zonas residenciais e industriais,
dada à dispersão, em múltiplos fragmentos, das atividades econômicas e das áreas
residenciais por todo o território citadino. Nessa dinâmica de ocupação fragmentada
do solo, elementos econômicos, inclusive shoppings e espaços de entretenimento

29
De acordo com Salgueiro (1998, p. 39), a fragmentação espacial identificada na cidade pós-moderna
(pós-industrial) pode ser entendida como “uma organização territorial marcada pela existência de
enclaves territoriais distintos e sem continuidade com a estrutura socioespacial que os cerca”.
63

(antes localizados apenas em bairros nobres), estão espalhados por toda a cidade e
se misturam às áreas de habitação. A distribuição de zonas industriais é orientada
pela disposição das vias interurbanas e pela localização dos aeroportos. Imóveis de
luxo se situam em áreas pobres e, ao mesmo tempo, áreas de favelas estão
localizadas em bairros de estratos superiores, as quais, apesar de articuladas, se
separam por muros e cercas, a fim de garantir a segurança das ilhas de riqueza frente
à massiva pobreza (BÄR; BORSDORF; JANOSCHKA apud BORSDORF, 2003).
A esse respeito, há a intensificação da instalação de condomínios residenciais
e comerciais fechados no perímetro urbano (urban gated communities), bem como
nas áreas periféricas da cidade (suburban gated communities). Tais empreendimentos
imobiliários são, em regra, mas não exclusivamente, ocupados pelas classes mais
abastadas e se diferenciam segundo a tipologia dos imóveis (apartamentos, casas), o
padrão construtivo (baixo, médio, luxo) e a infraestrutura disponibilizada aos
moradores (equipamentos de lazer, instalações desportivas, áreas verdes, etc.) (BÄR;
BORSDORF; JANOSCHKA apud BORSDORF, 2003; JANOSCHKA; GLASZE, 2003;
BORSDORF; HIDALGO, 2010).
Nesse sentido, entre os megaprojetos de habitação que veem sendo
disseminados nas cidades latino-americanas, Borsdorf (2003), Janoschka e Glasze
(2003), Borsdorf e Hidalgo (2010) citam os grandes condomínios fechados Alphaville,
nas imediações da cidade de São Paulo, cujas sofisticadas áreas residenciais
possuem forte aparato de segurança e oferecem aos seus habitantes centros
comerciais, de emprego, de lazer e de entretenimento, entre outras comodidades30.
Por outro lado, há um processo de consolidação de antigas áreas de vilas e favelas,
cujas intervenções englobam a construção de unidades habitacionais, a instalação de
infraestrutura urbana (saneamento básico, eletricidade, reestruturação do sistema
viário, etc.), a implantação de escolas, comércio, equipamentos destinados ao lazer,
parques e áreas verdes. E, finalmente, verificam-se políticas públicas orientadas à
renovação/requalificação de áreas degradadas (bairros, favelas, cortiços), localizadas
normalmente nas regiões centrais da cidade, para atendimento dos interesses do
mercado imobiliário31. Borsdorf (2003) ressalva que este modelo de estruturação

30
Convém ressaltar que os “condomínios horizontais” ou “loteamentos fechados” que se multiplicam
nos arredores das cidades brasileiras são ilegais, porquanto o parcelamento do solo urbano é regido
pelo disposto na Lei Federal nº 6.766, de 19 de dezembro de 1979, e não pela Lei Federal que rege os
condomínios edilícios – Lei nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964. Ou seja, não há previsão normativa,
em Lei Federal, para os denominados “condomínio horizontal” ou “condomínio de lotes”.
31
No Brasil, como convém a uma sociedade patrimonialista, dispensa-se mais cuidados ao patrimônio
privado que ao patrimônio público. Ocupações ilegais, como as favelas, são largamente toleradas
64

urbana está em consonância com o atual crescimento do espaço urbano, o qual não
mais está associado às pressões migratórias de outrora. De maneira que a demanda
e o consumo do espaço constituem mais uma característica do desenvolvimento pós-
moderno das cidades latino-americanas, influindo determinantemente na ocorrência
de processos gentrificativos, ou seja, elitizantes, na região (FORD, 1996).

Figura 6 – Modelo de Desenvolvimento Estrutural da Cidade Latino-americana

Fonte: Borsdorf, 2003, tradução nossa

Vê-se, então, que se até meados de 1960 as cidades latino-americanas


apresentavam estrutura relativamente compacta, com áreas homogêneas,
funcionalmente especializadas (áreas residenciais, de comércio, de serviços, de lazer,
etc.) e reprodutoras da hierarquia social, as quais estavam ligadas por relações de
complementaridade e de interdependência, e cujo centro polarizava as principais
funções urbanas. A partir do fenômeno de reestruturação global (da produção, da

quando não interferem nos circuitos centrais da realização do lucro imobiliário privado. Assim, “quando
a localização de uma terra ocupada por favelas é valorizada pelo mercado imobiliário, a lei se impõe.
Lei de mercado, e não norma jurídica, determina o cumprimento da lei” (MARICATO, 2003, p. 159). Em
síntese, a noção de patrimonialismo remonta à teoria weberiana concernente a uma das três formas,
ou “tipos ideais”, de exercício legítimo do poder político: dominação tradicional; dominação carismática
e dominação legal (BENDIX, 1986; WEBER, 2003). E, afeta à dominação tradicional-patrimonial, se
configura no trato da res publica, pela autoridade, como se privada fosse. Ou seja, o Estado age visando
os interesses particulares do grupo que o controla (CAMPANTE, 2003).
65

economia, dos transportes e da informação), a estrutura intra-urbana das cidades


passa a ser mais dispersa, descontínua e fragmentada, tendendo para uma estrutura
policêntrica, de usos mistos (habitação, comércio, lazer, serviços) e em formato de
rede, que contrariam os princípios do zoneamento funcionalista (SALGUEIRO, 1998).
A principal característica desse novo tecido urbano são os enclaves, compostos
por condomínios residenciais exclusivos e por grandes estruturas destinadas ao
consumo e ao lazer, cuja implantação pontual e aleatória introduz “uma diferença
brusca em relação ao tecido que as cerca, seja um centro comercial numa periferia
rural ou um condomínio de luxo no meio de um bairro popular” (SALGUEIRO, 1998,
p. 42). Estas rupturas entre tecidos justapostos, em que grupos sociais distintos
partilham o mesmo espaço, constituem exemplos da atuação dos agentes privados
nos processos de produção e apropriação desigual do espaço.
Nesse aspecto, Caldeira (2000) esclarece que os enclaves fortificados são
espaços privatizados, fechados e monitorados, destinados a moradia, trabalho, lazer
e consumo (condomínios residenciais fechados, conjuntos de escritórios, prédios de
apartamentos, empreendimentos de usos mistos, shopping centers, etc.). Tais
espaços produzem a segregação espacial – frisa-se: espontânea e consciente das
classes mais abastadas –, tornando explícitas as desigualdades sociais. Como
ressalta Davis (2006b, p. 224, tradução nossa)32, “vivemos em 'cidades fortalezas’,
brutalmente divididas entre ‘células fortificadas’ da sociedade afluente e ‘lugares de
terror', onde a batalha policial criminaliza os pobres”.
Nesse tipo moderno de espaço urbano, os encontros públicos são marcados
pela seletividade e separação, de maneira que as interações cotidianas entre
habitantes de diferentes extratos sociais diminuem substancialmente e os encontros
públicos ocorrem principalmente em espaços protegidos e entre grupos relativamente
homogêneos (DAVIS, 2006b; CALDEIRA, 2000). Assim, a contiguidade geográfica de
espaços socialmente muito distintos proporcionada pelo processo de fragmentação
antes descrito é acompanhada de uma redução dos níveis de interação social entre
os residentes nesses espaços. “Na cidade de enclaves, ‘diferentes’ significa
‘estranhos’” (SALGUEIRO, 1998, p. 43) e o “próximo” deixa de ser o “mesmo”
(MENDES, 2011b, p. 10). A divisão da comunidade entre insiders e outsiders33

32
“We live in ‘fortress cities’ brutally divided between ‘fortified cells’ of affluent society and ‘places of
terror’ where the police battle the criminalized poor.”
33
Embora a obra de Elias e Scotson (2000) retrate questão distinta da ora discutida, o ensaio teórico
sobre as relações entre estabelecidos (insiders) e outsiders permite uma aplicação extensiva a
quaisquer tipos de relação de exclusão, de hierarquia de poder e desigualdade.
66

(ELIAS; SCOTSON, 2000) impossibilita a construção de relações sociais e


comunidades integradas, posto que “o novo padrão de segregação espacial serve de
base a um novo tipo de esfera pública, que acentua as diferenças de classe e as
estratégias de separação” (CALDEIRA, 2000, p. 212).
No Brasil, a utilização de modelos espaciais para a descrição dos cenários
urbanos iniciou-se tardiamente através de estudos da geografia urbana, conforme
minucioso relato formulado por Abreu (1994). Entre as décadas de 1930 e 1950, os
estudos urbanos implementados com a chegada de uma missão francesa à
Universidade de São Paulo (USP), objetivavam a compreensão das particularidades
da configuração da cidade (sítio, posição, evolução histórica, fisionomia e estrutura,
funções urbanas e raio de ação da cidade), possuindo um caráter meramente
descritivo, de síntese – a denominada monografia urbana.
Nesse período, inúmeras cidades brasileiras constituíram objeto de estudos
empíricos produzidos, em grande parte, durante os congressos da Associação dos
Geógrafos Brasileiros (AGB), segundo as diretrizes da monografia urbana, as quais
se opunham aos estudos intra-urbanos de caráter teórico da Escola da Ecologia
Humana e, por conseguinte, à formalização de modelos espaciais. Data desse
período, o estudo comparativo realizado por Preston E. James, em 1932, sobre as
cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto, quando da ruptura com a ordem império
colonial e a transferência do centro político de Minas Gerais para a nova capital – Belo
Horizonte – de regime republicano (JAMES, 1947).
Somente na década de 1960, os modelos espaciais foram incorporados aos
estudos urbanos no Brasil, como se verifica em Santos (1959) na análise da
centralidade de cidades do Recôncavo e da Zona Cacaueira baiana. Em primeiro
lugar, isto ocorre em função, do redirecionamento das análises espaciais provocada
pela transformação da base econômica do Estado brasileiro, cujas forças da
acumulação capitalista

redesenhavam toda a estrutura espacial de fixos e de fluxos, seja através da


aceleração do processo de formação de áreas metropolitanas, seja via a
reformulação do padrão de relações interurbanas, seja ainda mediante o
redesenho de toda a organização interna das cidades, não eram (sic) mais
possível e nem relevante concentrar esforços no estudo monográfico
tradicional. (ABREU, 1994, p. 39).

Em segundo lugar, pela adoção das análises quantitativas do neopositivismo


americano nos estudos geográficos empreendidos sob a influência política e
67

tecnocrática do regime militar, favorecendo o início da utilização de modelos espaciais


na descrição da estruturação interna dos espaços metropolitanos. Porquanto, pela
superestimação amiúde do planejamento (urbano, regional, econômico, familiar,
ambiental, etc.), entendia-se que “se a nível setorial era possível intervir na economia
e colher ‘milagres econômicos’, o mesmo poderia ser feito a nível territorial”, com a
sobreposição da prática política pela técnica (ABREU, 1994, p. 44). A geografia
brasileira passou a tematizar, então, questões relacionadas à centralidade urbana, à
metropolização e à estruturação interna das cidades, estabelecendo correlações
temporais e espaciais, mediante a realização de análises estatísticas. E, devido à
ausência de bases teóricas próprias, foi recorrendo a teorias desenvolvidas por outras
ciências, como a Economia e a Sociologia, inclusive a Ecologia Humana. Desta
maneira, processos como os de centralização, descentralização, invasão-sucessão,
entre outros, passaram a integrar as análises dos geógrafos brasileiros. Sendo
relevante mencionar que, apesar da apropriação do discurso neopositivista, “nem o
seu objetivo (teorizar), nem o seu método característico (o dedutivo) foram adotados
plenamente” por aqueles “resultando daí um movimento de transformação incompleto,
mistura de novo e antigo” (ABREU, 1994, p. 50).
A orientação em direção a estudos mais dinâmicos acabou por se refletir em
outras temáticas de estudo geográfico, destacando-se a preocupação de Milton
Santos em definir o que seria a cidade nos países subdesenvolvidos, os fatores em
comum34 e aqueles que as diferenciam interna e externamente35 (SANTOS, 1965).
Finalmente, em meados da década de 1980, a análise do processo de produção do
espaço brasileiro passou a sofrer influências da geografia crítica de influência
marxista, sem, contudo, haver a produção de modelos de estruturação especializados.
Ao coincidir com a fase de esgotamento do regime militar e, por conseguinte, com o
renascimento dos movimentos reivindicatórios da população (por água, luz, meios de
transporte, educação, saneamento básico, moradia, participação popular nos
processos de tomada de decisões), as análises da estruturação urbana passam a
enfatizar o caos urbano advindo da lógica da acumulação capitalista (ABREU, 1994).

34
“Dentre os quais a natureza das funções, a concentração de recursos sem proporção com o seu
papel produtivo, o tipo de relações que mantêm com a sua região, a desproporção entre a população
total e a população ativa, o desequilíbrio social dos níveis de vida e as formas gerais de organização
do espaço interno.” (SANTOS, 1965, p. 3).
35
“Entre esses fatôres (sic), alinhamos o tipo de colonização que deu origem à cidade, a sua função
inicial, a atividade atual a que a cidade presidente e o grau, maior ou menor, de consciência dos seus
problemas, em que encontra o país.” (SANTOS, 1965, p. 15).
68

Isto posto, a compreensão do espaço urbano de Belo Horizonte e, nesse


aspecto, sua configuração como cidade capitalista hodierna, demanda a
reconstituição da dinâmica de ocupação espacial da sociedade brasileira, desvelando
a relação dialética entre a (re)produção do espaço urbano e os processos
socioeconômicos atuantes no planejamento das cidades.

1.5 A urbanização das cidades brasileiras

Como bem apontam Santos e Silveira (2008), a história da organização do


território brasileiro poderia ser representada em três grandes períodos, a saber: o
natural; o técnico e o técnico-científico-informacional, cujas técnicas diversas, no
tempo e nos lugares, permitiram que a sociedade fosse construindo uma história dos
usos do território nacional. O primeiro período é marcado pelos “tempos lentos da
natureza comandando as ações humanas”, das diversas tribos indígenas e dos
europeus recém-chegados (SANTOS; SILVEIRA, 2008, p. 27). Nesse período pré-
técnico, a adaptação dos indivíduos aos sistemas naturais era dificultada pela
escassez dos instrumentos artificiais necessários à transformação do ambiente e à
sobreposição das leis da natureza.
A fundação das primeiras cidades coloniais (Salvador, Rio de Janeiro e Belém)
representou uma emanação do poder longínquo destinada a garantir a proteção do
litoral e das vias de penetração para o interior do país, cujo povoamento decorreu,
mais tarde, das atividades de mineração e criação de gado nas fazendas. O avanço
para o interior do continente foi responsável pela instalação de núcleos urbanos junto
a uma sede de engenho de açúcar, a uma pousada de tropas de burros (como é o
caso da Região Histórica de Venda Nova – RHVN), de um seringal, de uma mina ou
garimpo, no entroncamento de rotas de comércio (fluviais ou terrestres), etc.
(CORRÊA, 1994; SANTOS; SILVEIRA, 2008).
A segunda fase advém da mecanização “em ilhas” do território brasileiro. “As
técnicas pré-máquina e, depois, as técnicas da máquina – mas apenas na produção
– definem o Brasil como um arquipélago da mecanização incompleta” (SANTOS;
SILVEIRA, 2008, p. 27). Com a incorporação das máquinas ao território (portos,
estradas de ferro e telégrafo), principia-se o processo de industrialização e circulação
mecanizada, propiciando a integração do território e a infraestrutura necessária à
constituição de um mercado nacional, à substituição das importações e à expansão
do consumo. Os primórdios da urbanização do interior são marcados pelas drásticas
69

transformações na estrutura socioespacial da rede urbana brasileira, primeiro, pelo


forte crescimento demográfico – resultado de uma natalidade elevada e de uma
mortalidade em descenso, face ao progresso sanitário e à relativa melhoria do padrão
de vida –, segundo, pela intensificação do próprio processo de urbanização – cuja
taxa passa de 31,24%, em 1940, para 67,59%, em 1980 (119.011,052 habitantes)36
(SANTOS; SILVEIRA, 2008; SANTOS, 2009).
O golpe de Estado de 1964, pelo movimento militar, consolida as condições de
desenvolvimento e integração do país, promovendo, simultaneamente, sua
internacionalização. Para permitir a mundialização das trocas, o Estado cria a maior
parte das infraestruturas que servirão à produção moderna. O país se torna um grande
exportador, tanto de produtos agrícolas tradicionais (café, cacau, algodão, trigo, etc.)
e não tradicionais, parcialmente beneficiados (soja e cítricos), quanto de produtos
industrializados. De igual modo, há o atendimento da demanda de um profícuo
mercado interno, beneficiado pela expansão da classe média e pelo consumo popular
intermitente, auxiliado pela concessão de créditos (SANTOS; SILVEIRA, 2008).
Nessa condição, Santos (1985, 2009) ressalta os seguintes traços distintivos
do período:
(i) grande desenvolvimento da configuração territorial, em virtude da
melhora qualitativa dos sistemas de transportes, de telecomunicações e
da produção de energia;
(ii) enorme desenvolvimento da produção material brasileira, agrícola e
industrial, com alteração das estruturas de produção, circulação e
consumo; e
(iii) grande expansão das formas de produção não-material (saúde,
educação, lazer, informação) e sua disseminação pelo território. Com
isso, o espaço se torna fluído e permite maior mobilidade dos fatores de
produção, do trabalho, dos produtos, das mercadorias, do capital. De
modo que, há uma rápida transformação dos valores de uso em valores
de troca, em função da espacialização territorial da produção, do novo
patamar de urbanização e da valorização da terra.
A fluidez torna irresistível o movimento de descentralização e de ocupação
periférica do território, ambos fortalecidos pelo estímulo governamental à
industrialização de distintas regiões do país e, também, pela campanha em favor da

36
Ao passo que, em 2010, a população total brasileira era de 190.755,799 e a taxa de urbanização de
84,36% (IBGE, 2014).
70

colonização da Amazônia. Uma massa de migrantes dos campos desloca-se em


direção às cidades, juntando-se aos numerosos desempregados e subempregados
nelas já existentes. E, nessa conjuntura, as Regiões Metropolitanas37 acabam por
atrair parte considerável do forte fluxo migratório de pessoas, sobretudo aquelas
integrantes da “região concentrada” – formada pelos Estados das regiões sudeste e
sul do país, em função das diferenças regionais (BÓGUS; VÉRAS, 2000; SANTOS;
SILVEIRA, 2008; SANTOS, 2009).
A terceira fase é marcada pela difusão do meio técnico-científico-informacional,
consolidada, todavia, em duas etapas. A primeira, de meados de 1970, é
caracterizada pela revolução das telecomunicações (período técnico-científico), em
que o espaço geográfico configurado a partir das técnicas do meio técnico-científico-
informacional resta circunscrito a algumas áreas, revelando, como dito, a
heterogeneidade do espaço brasileiro. A segunda, principiada com a globalização,
distingue-se pela influência das finanças e da informação na estruturação do espaço,
cuja presença ou a escassez dessas variáveis é determinante para a modernização
da produção e para o agravamento das disparidades regionais. Há, pois, o aumento
da importância da “região concentrada” e o despontar da hegemonia paulista no
cenário nacional, não só pela importância de suas indústrias, mas devido à
capacidade de produzir, coletar, classificar informações, próprias e de outros, e
administrá-las em conformidade com os seus próprios interesses. O papel de
comando de São Paulo decorre, então, dessas formas superiores de produção não-
material (capital informacional), assegurando-lhe papel diretor na dinâmica espacial
brasileira e sua crescente integração às novas condições do cenário econômico
internacional. Por outro lado, há um crescimento populacional de cidades de porte
médio, contribuindo para a ocorrência, em paralelo, dos fenômenos de
metropolização, que caracterizou a urbanização até a década de 1980, e
desmetropolização, quando o incremento demográfico passa a ser semelhante em
cidades grandes e médias (SANTOS, 1990; SANTOS; SILVEIRA, 2008).

37
A Lei Complementar nº 14/1973 instituiu oito Regiões Metropolitanas, a saber: São Paulo, Salvador,
Curitiba, Porto Alegre, Recife, Fortaleza, Belém e Belo Horizonte, e seus sistemas de gestão,
constituídos pelos Conselhos Consultivo e Deliberativo. Ressalta-se que a instituição da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro, pela Lei Complementar nº 20/1974, ocorreu após a fusão dos antigos
Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara e da transformação deste em Município daquele. As
Regiões Metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais constituem, desde a sua criação,
as três principais regiões metropolitanas brasileiras, seja pela concentração da capacidade produtiva
em relação ao resto do país, seja pelo contingente populacional residente nas mesmas.
71

A produção socioespacial das cidades brasileiras, desde os primórdios de seu


desenvolvimento, caracterizou-se por flagrantes processos de elitização, segregação
e pobreza, evidenciados pela concentração de renda em poucas parcelas da
população e pela instalação das classes ricas e pobres em zonas diferenciadas da
cidade (VÉRAS, 2000; BÓGUS; VÉRAS, 2000). A cada alteração do processo
produtivo e da organização social são produzidas mudanças na dinâmica social e na
configuração físico-espacial da cidade, influindo diretamente nos processos de
valorização do solo urbano e no acesso à terra, com reflexos diretos sobre à
localização da habitação de considerável parcela da população urbana (BÓGUS,
1987). Conforme Maricato (2011, p. 11), “parte-se de uma herança marcada pela
condição capitalista periférica de tradição escravista, portanto, de forte desigualdade
social no território e falta de controle sobre o uso e ocupação do solo”, características
que são intensificadas pelas políticas neoliberais.
Independentemente do tamanho, a organização interna das cidades acaba
exibindo problemáticas parecidas, relacionadas a demandas por emprego, transporte,
habitação, lazer, água, esgotamento sanitário, educação, saúde, etc., as quais,
todavia, se diferenciam em grau e intensidade. Este cenário é agravado pela
urbanização corporativa empreendida sob o comando dos interesses do capital, ávido
pela aplicação dos recursos públicos em investimentos econômicos – por vezes,
orientados à renovação e à revitalização urbana –, em detrimento dos gastos sociais
(MARICATO, 1979a, 2002; SANTOS, 1990, 2009).

As cidades, e sobretudo as grandes, ocupam, de modo geral, vastas


superfícies entremeadas de vazios. Nessas cidades espraiadas,
características de uma urbanização corporativa, há interdependência do que
podemos chamar de categorias espaciais relevantes desta época: tamanho
urbano, modelo rodoviário, carência de infra-estruturas (sic), especulação
fundiária e imobiliária, problemas de transporte, extroversão e periferização
da população, gerando, graças às dimensões da pobreza e seu componente
geográfico, um modelo específico de centro-periferia. Cada qual dessas
realidades sustenta e alimenta as demais, e o crescimento sistêmico dessas
características. As cidades são grandes porque há especulação e vice-versa,
há especulação porque há vazios e vice-versa; porque há vazios as cidades
são grandes. O modelo rodoviário urbano é fator de crescimento disperso e
de espraiamento da cidade. Havendo especulação, há criação mercantil de
escassez e acentua-se o problema do acesso à terra e à habitação. Mas o
déficit de residências também leva à especulação, e os dois juntos conduzem
à periferização da população mais pobre e, de novo, ao aumento do tamanho
urbano. As carências em serviços alimentam a especulação, pela valorização
diferencial das diversas frações do território urbano. A organização dos
transportes obedece essa lógica e torna ainda mais pobres os que devem
viver longe dos centros, não apenas porque devem pagar caro seus
deslocamentos como porque os serviços e bens são mais dispendiosos nas
periferias. E isso fortalece os centros em detrimento das periferias, um
verdadeiro círculo vicioso. (SANTOS, 2009, p. 106).
72

Não bastasse, a interferência do Estado, por intermédio do Banco Nacional da


Habitação (BNH) - criado pela Lei Federal nº 4.380/196438 -, e dos demais sistemas
de crédito correspondentes, contribui para exacerbar o processo especulativo e a
incorporação de extensas áreas ao perímetro urbano, influindo na morfologia e na
funcionalidade de cidades dos mais diversos tamanhos. É esse padrão de
crescimento descontínuo e periférico que acaba contribuindo para a deterioração
física, social e econômica das cidades brasileiras (BOLLAFFI, 1979).
Note que a criação do BNH39 foi alardeada como instrumento de melhoria das
condições de moradia da população urbana de baixa renda; contudo, acabou
agravando os problemas ao invés de resolvê-los. Os conjuntos residenciais
destinados às classes médias baixas e aos pobres situavam-se, em sua grande
maioria, nas regiões periféricas da cidade, a pretexto dos preços mais acessíveis dos
terrenos, resultando na necessidade de dotação de infraestrutura pelo Estado (luz,
água, saneamento, pavimentação, transporte, etc.). Isto, invariavelmente, valorizava
os terrenos ao redor, mantidos ociosos e ineficientemente ocupados em razão de uma
espera especulativa dos seus proprietários. E, no final, vê-se que a ação do BNH se
desloca de sua pretensa intencionalidade em mitigar o déficit de moradia popular, para
se transformar num poderoso instrumento de acumulação, em que as mercadorias
produzidas eram consumidas por classes mais abastadas (OLIVEIRA, 1979; VILLAÇA,
1986; VÉRAS; BONDUKI, 1986; SANTOS, 1990, 2009).
Na década de 1980, em contraposição ao crescimento ocorrido no período
anterior, verificou-se uma intensa crise econômica no país, em decorrência da dívida
externa, da crise fiscal do Estado, do descontrole inflacionário, da redução dos gastos
públicos e do forte desemprego, havendo a substituição do Estado industrial
desenvolvimentista por políticas econômicas e sociais de cunho recessivo. Nesse
contexto, agravaram-se as condições de vida urbana, com a periferização de
parcelamentos irregulares e a constituição de favelas. Por outro lado, apesar da
repressão e autoritarismo do Estado, houve a reorganização e o fortalecimento dos
movimentos sindicais e sociais urbanos em prol de melhores condições de vida e

38
Institui a correção monetária nos contratos imobiliários de interesse social, o sistema financeiro para
aquisição da casa própria, cria o Banco Nacional da Habitação (BNH), e Sociedades de Crédito
Imobiliário, as Letras Imobiliárias, o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo e dá outras
providências.
39
A criação do BNH ocorreu cinco meses após o golpe de 1964, constituindo-se como um típico produto
da ditadura, face às características econômicas, políticas e ideológicas de sua atuação (VILLAÇA,
1986).
73

acesso aos serviços urbanos básicos nas cidades brasileiras. A mobilização,


genericamente denominada como movimento nacional de Reforma Urbana, ocorreu
concomitantemente à luta contra a ditadura e pela democratização do país
(MARICATO, 2002, 2011). Tudo isto acarretou uma reformulação das políticas
públicas implementadas em âmbito nacional, a partir do Projeto de Lei do
Desenvolvimento Urbano (PL nº 775/83), do capítulo da Política Urbana na
Constituição da República de 1988 (CR/88) e, finalmente, em 2001, do Estatuto da
Cidade.
Nessa vertente de raciocínio, os artigos 18240 e 18341 da CR/88, frutos de uma
emenda de iniciativa popular, representam o reconhecimento pelo Poder Público do
direito à cidade, que propicie a qualidade de vida e o bem-estar de seus habitantes,
como um direito fundamental (art. 5º, CR/8842). Nesse aspecto, o direito à cidade
manifesta-se no uso socialmente justo do espaço urbano, possibilitando que os
cidadãos se apropriem do território citadino, democratizando seus espaços de poder,
de reprodução e de cultura a partir de parâmetros de justiça social e do
desenvolvimento ambientalmente sustentável (DINIZ, 2008).
Pela primeira vez na história brasileira são fixados princípios constitucionais de
política urbana, da função social da cidade e da propriedade, e a democratização da

40
“Art. 182. A política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme
diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais
da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.
§1º - O plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de vinte mil
habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana.
§2º - A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de
ordenação da cidade expressas no plano diretor.
§3º - As desapropriações de imóveis urbanos serão feitas com prévia e justa indenização em dinheiro.
§4º - É facultado ao Poder Público municipal, mediante lei específica para área incluída no plano diretor,
exigir, nos termos da lei federal, do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não
utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente, de:
I - parcelamento ou edificação compulsórios;
II - imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo;
III - desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente
aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e
sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais” (BRASIL, 1988).
41
“Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinqüenta (sic) metros
quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua
família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural.
§1º - O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos,
independentemente do estado civil.
§2º - Esse direito não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez.
§3º - Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião.” (BRASIL, 1988).
42
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade” (BRASIL, 1988).
74

gestão urbana43. O disposto nos artigos 182 e 183 da CR/88 fundamenta a doutrina
segundo a qual a propriedade urbana é condicionada pelo "direito urbanístico" (art.
24, inciso I44) com o fito de realizar as chamadas funções urbanísticas, propiciando
moradia, condições adequadas de trabalho, recreação e de circulação humana
(SILVA, 1999).
Nesse sentido, o art. 182 da CR/88 atribui ao Município, como o ente federativo
responsável pela promoção da política urbana, o encargo de "ordenar o pleno
desenvolvimento das funções sociais da cidade, e garantir bem-estar de seus
habitantes". Estabelece, ainda, que o Plano Diretor "é o instrumento básico da política
de desenvolvimento urbano e de expansão urbana" (§1º) e que a propriedade urbana
deve cumprir sua função social, em consonância com as exigências fundamentais de
ordenação expressa no Plano Diretor (§2º).
Assim, ao instituir seu planejamento estratégico, o Município não pode ignorar
as diretrizes gerais traçadas no art. 21, inciso XX45, da CR/88, para o desenvolvimento
urbano nas áreas de habitação, saneamento básico e transportes urbanos. O Plano
Diretor irá, portanto, definir a melhor função social de cada espaço da cidade,
considerando as necessidades e especificidades econômicas, culturais, ambientais e
sociais (BRASIL, 2005).
Na mesma vertente, o Estatuto da Cidade – Lei Federal nº 10.257, de 10 de
julho de 200146 -, que regulamenta os artigos 182 e 183 da CR/88 –, estabelece como
diretriz geral a ser seguida pelo Poder Público a garantia do direito a cidades
sustentáveis, “entendido como o direito à terra urbana, à infra-estrutura (sic) urbana,
ao transporte e aos serviços públicos, dentre outros, para as presentes e futuras
gerações” (art. 2º, inciso I). De igual forma, prevê a gestão democrática das cidades,
facultando à participação da população e de associações representativas dos vários

43
Segundo Fernandes (2010), no decorrer do processo de urbanização do Brasil diversas Constituições
foram promulgadas e/ou outorgadas (1934, 1937, 1946, 1967 e a Emenda nº 1 de 1969); contudo, até
a CR/88, não havia dispositivos constitucionais específicos para regular a gestão urbana.
44
“Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre:
I - direito tributário, financeiro, penitenciário, econômico e urbanístico”. (BRASIL, 1988).
45
“Art. 21. Compete à União:
(...)
XX - instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e
transportes urbanos” (BRASIL, 1988).
46
Após a elaboração do Estatuto da Cidade, o Brasil foi inscrito no “Rol de Honra” da UN-HABITAT,
em 2006, em parte por ter aprovado essa lei-marco, que consolidou uma ampla proposta de reforma
jurídica formulada e defendida, ao longo de décadas, em um processo histórico de disputas sociais,
políticas e jurídicas. E, por outro lado, por ter encampado, de maneira exemplar, a proposta de
integração entre o Direito Urbanístico e o Direito Ambiental no contexto da ação municipal,
compatibilizando as denominadas agendas “verde” e “marrom” das cidades (FERNANDES, 2010).
75

segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos,


programas e projetos de desenvolvimento urbano (art. 2º, inciso II), a fim de garantir
o interesse social (art. 2º, inciso III) e promover a justa distribuição dos benefícios e
ônus decorrentes do processo de urbanização (art. 2º, inciso IX).
Outrossim, buscando evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e
seus efeitos negativos sobre o meio ambiente, o Estatuto da Cidade estabelece a
necessidade de planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição
espacial da população e das atividades econômicas do Município (Art. 2º, IV),
devendo-se garantir a oferta de equipamentos urbanos47 e comunitários, transporte e
serviços públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às
características locais (Art. 2º, V).
Contudo, embora o direito à cidade seja expressamente reconhecido na CR/88,
bem como no Estatuto da Cidade, há uma grande distância entre a previsão normativa
e sua aplicação à realidade, porquanto a eficácia do direito está condicionada ao nível
de compromisso entre o Poder Público e a sociedade civil para sua materialização no
planejamento e gerenciamento das cidades. Não por acaso, grande parte dos
Municípios brasileiros “ou não implementaram seu Plano Diretor ou possuem
‘arremedos’ de Plano, contribuindo para a desorganização dos centros urbanos e
intensificação dos impactos ao meio ambiente” (DINIZ, 2008, p. 3).
Após a aprovação do Estatuto da Cidade, o Ministério das Cidades promoveu
pesquisas para averiguar o andamento da elaboração dos Planos Diretores, sendo
que os dados obtidos na última pesquisa realizada em todos os estados do Brasil,
entre outubro de 2006 e março de 2007, demonstraram que, em um universo de 1.522
Municípios: (i) 5,7% (89 Municípios) não estão fazendo o Plano Diretor; (ii) 1,2% (18
Municípios) estão sem revisá-lo desde outubro de 1996; (iii) 7,1% (110 Municípios)
não concederam quaisquer informações a esse respeito; (iv) 27,5% (427 Municípios)
ainda estão com o projeto do respectivo Plano Diretor em desenvolvimento; (v) 22,3%
(346 Municípios) estão com o projeto do respectivo Plano Diretor em fase de
aprovação; e, por fim, (vi) tão somente 36,2% (562 Municípios) têm o principal
instrumento de política urbana devidamente aprovado48; apesar do art. 49, parágrafo

47
Constituem exemplos de equipamentos urbanos, entre outros: as redes elétricas; as instalações de
água, esgotamento sanitário e gás canalizado; as placas de sinalização; o sistema viário; os
logradouros públicos; os prédios públicos; as caixas de coleta de lixo; as Universidade; os centros de
pesquisa; os centros de lazer. Tais bens aparelham a cidade com o fim de oferecer aos moradores e
usuários maior comodidade no dia-a-dia (CARVALHO FILHO, 2005).
48
Ressalta-se que os dados gerados a partir da pesquisa são todos autodeclarados pelos entrevistados
nos Municípios, de modo que os resultados não podem ser considerados absolutos nem conclusivos,
76

único, do Estatuto da Cidade prever o prazo de até 5 anos, contados da publicação


da norma em comento, para que os Municípios enquadrados na lei o aprovassem49
(BRASIL, 2008).
No tocante às políticas habitacionais, a mesma verve planejadora, reguladora
e promotora do Estado que orientou a criação do BNH foi constatada, posteriormente,
quando da instituição do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS),
pela Lei Federal nº 11.124, de 16 de junho de 2005, e do Programa Minha Casa Minha
Vida (PMCMV), por intermédio da Lei Federal nº 11.977, de 07 de julho de 200950. O
primeiro, destina-se a implementar políticas habitacionais direcionadas à população
de menor renda. O segundo, com a finalidade de “criar mecanismos de incentivo à
produção e aquisição de novas unidades habitacionais ou requalificação de imóveis
urbanos e produção ou reforma de habitações rurais, para famílias com renda mensal
de até R$ 4.650,00” (art. 1º, caput, do referido instrumento normativo).
O FNHIS buscava atender às reivindicações dos movimentos sociais, enquanto
o PMCMV, tendo como referência a política habitacional do Regime Militar (período
de maior construção de moradias no país), objetivava o atendimento do empresariado
e do mercado imobiliário, como forma de reagir à anunciada crise internacional que
eclodiu em outubro de 2008. Note-se que o FNHIS, gerido por um conselho integrado
por representantes da sociedade, maneja recursos bem menos significativos do que
o segundo.
Como resultado, verifica-se um “impacto negativo sobre as cidades devido à
localização inadequada de grandes conjuntos habitacionais e ao aumento do preço
da terra e dos imóveis”, fomentando, pois, a desigualdade social e urbana
(MARICATO, 2011, p. 68). De maneira que as propriedades fundiária e imobiliária

uma vez que são um retrato conjuntural do processo de elaboração dos Planos Diretores Participativos.
(BRASIL, 2005). Decorre daqui, ainda, que não se pode precisar a qualidade política e técnica desses
planos municipais.
49
O Estatuto da Cidade, em seu art. 41, prevê a obrigatoriedade de instituição do Plano Diretor para
os seguintes Municípios: (i) com mais de vinte mil habitantes; (ii) integrantes de regiões metropolitanas
e aglomerações urbanas; (iii) onde o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos
previstos no §4º do art. 182 da CR/88; (iv) integrantes de áreas de especial interesse turístico; (v)
inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental
de âmbito regional ou nacional; (vi) incluídas no cadastro nacional de Municípios com áreas suscetíveis
à ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou
hidrológicos correlatos.” (BRASIL, 2001).
50
Ao atender as demandas dos empresários do setor, incluindo população com faixas de renda
superiores (entre 7 e 10 salários mínimos), e excluindo a população com renda entre 0 e 3 salários
mínimos, “o PMCMV pode repetir aspectos negativos do BNH, que privilegiou a classe média em
detrimento das rendas mais baixas. Antes excluída do mercado, a classe média foi incluída no pacote
graças aos juros subsidiados do seguro e à disponibilidade de recursos para financiamento.”
(MARICATO, 2011, p. 72).
77

continuam orientando o crescimento urbano e a falta de controle sobre o uso e a


ocupação do solo no Brasil. No limite, assim como o BNH, o PMCMV constitui-se como
mais um artifício político destinado ao enfrentamento de um problema econômico
conjuntural.
Pensar a cidade como viabilizadora dos direitos dos cidadãos e fazer com que
estes direitos sejam efetivamente assegurados é o objetivo de quem busca a
realização de uma política que proporcione pleno desenvolvimento urbano e ordene
as funções sociais da cidade, com a finalidade de proporcionar o bem-estar de seus
habitantes. Esta é a essência da política urbana: viabilizar os direitos fundamentais
dos cidadãos (BERNARDI, 2006). “Mas, nunca é demais repetir, não é por falta de
planos e leis que as cidades no Brasil estão como estão” (MARICATO, 2011, p. 44).
Por outro lado, a análise das cidades brasileiras não pode se restringir
unicamente ao contexto local-nacional, porquanto os processos globais da economia
influem sobremaneira na formação dos espaços citadinos. Assim, a globalização da
economia, bem como as alterações sociais, políticas e econômicas dela decorrentes,
constituirão objeto de análise do próximo capítulo, cuja compreensão será útil para o
entendimento da inserção da cidade de Belo Horizonte nos processos globais.
78

2 PROCESSOS CONTEMPORÂNEOS NA (RE)PRODUÇÃO DA CIDADE


CAPITALISTA

2.1 Cidades pós-modernas e a globalização do espaço

Nas últimas décadas do século XX, a profunda recessão de 1973, agravada


pelo choque do petróleo, provocou substanciais alterações no capitalismo de regime
fordista, principiando um conturbado período de reestruturação econômica e de
reajustamento social e político. As mudanças representavam os primeiros indícios de
passagem a um novo regime de acumulação – denominado como “acumulação
flexível” –, apoiado “na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de
trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo” (HARVEY, 2011b, p. 140). Como
consequência, um novo espaço se constitui à escala mundial (neocapitalismo),
apoiando-se nas redes financeiras, da informação e da circulação, que integram e
desintegram o local, o regional, o nacional, o mundial (LEFEBVRE, 2006).
Trata-se da cidade capitalista no atual período monopolista, da denominada
acumulação flexível, enquanto produto direto das relações sociais de produção, da
reestruturação produtiva, do avanço tecnológico e informacional, da globalização, dos
fluxos planetários de pessoas, informações, mercadorias e dinheiro (SANTOS, 1985;
HARVEY, 2011b; BORJA; CASTELLS, 1997; VÉRAS, 2010). Cidades, então,
designadas como “pós-modernas”, “pós-industriais” ou “pós-fordistas”, caracterizadas
pela internacionalização; pela busca constante de flexibilidade, polivalência,
celeridade e inovação produtiva; pelas novas formas de organização econômica; pelo
desenvolvimento dos transportes e das telecomunicações (MENDES, 2011a).
Segundo Santos, as principais características dos espaços globalizados são,
além da tendência à formação de um ambiente técnico-científico-informacional:

- a transformação dos territórios nacionais em espaços nacionais da


economia internacional,
- exacerbação da especialização produtiva no espaço,
- a concentração da produção em unidades menores, com o aumento da
relação entre produto e superfície, por exemplo, na agricultura,
- aceleração de todas as formas de circulação e seu crescente papel na
regulação das atividades localizadas com o fortalecimento da divisão
territorial e da divisão social do trabalho, e a dependência desta última vis-
à-vis às formas espaciais e às normas sociais (jurídicas ou não) em todos
os níveis,
- produtividade espacial em função de todas as possibilidades de
localização,
- divisão horizontal e vertical dos territórios,
- o papel da ordenação na formação de regiões e nos processos de
regulação,
79

- a crescente tensão entre o local e o global à medida que avança o


processo de globalização. (SANTOS, 1993, p. 165)51.

Tais transformações estariam associadas à profunda reestruturação política do


Estado provocada pela crise fiscal e previdenciária do Estado de bem estar (Welfare
State) – gradativamente substituído pelo modelo neoliberal –, e à mudança de modelo
produtivo, como consequência das modificações implementadas pela Terceira
Revolução Industrial. Notadamente a revolução informacional; a emergência de novas
formas de gerenciamento e organização das atividades produtivas e, por fim, a
diversificação da base industrial, a partir do desenvolvimento da biotecnologia –
engenharia genética, bioengenharia, robótica, etc.. Tem-se, por corolário, a
constituição de novas redes socioespaciais em todas as esferas da vida social, as
quais perpassam, igualmente, todas as escalas do espaço – do local ao global
(CASTELLS; HALL, 1994; LIMONAD, 2011).
Nessa complexa rede de fluxos, em que se verifica a compressão tempo-
espaço (HARVEY, 2005a, 2011b), o tecido urbano é moldado para permitir o
funcionamento da economia global e a circulação, em diferentes escalas, de objetos
(dinheiro, maquinário, matérias-primas, mercadorias, bens de consumo) e de sujeitos
(na qualidade de trabalhadores e, também, como migrantes, turistas, viajantes,
consumidores), enquanto representantes da dimensão físico-material, bem como de
dinheiro, dados, imagens, informação, ou os fluxos de identidades e culturas
transportadas pelas pessoas, de caráter simbólico-imaterial (RODRIGUES, 2010).
Por sua vez, o tempo se transforma, se compacta, como consequência do
substancial desenvolvimento da ciência e da tecnologia aplicados ao processo
produtivo. Embora as distâncias entre pontos geográficos distintos sejam exatamente
as mesmas, há uma considerável redução da duração dos percursos de pessoas,
mercadorias, fluxos de capitais e de informação – seja por vias terrestres, aéreas ou

51
“ - la transformation des territoires nationaux en espaces nationaux de l'économie internationale,
- l'exacerbation des spécialisations productives au niveau de l'espace,
- la concentration de la production dans des unités plus petites avec l'augmentation du rapport entre
produit et superficie, par exemple, dans l'agriculture,
- l'accélération de toutes les formes de circulation et son rôle croissant dans la régulation des activités
localisées avec le renforcement de la division territoriale et de la division sociale du travail, et la
dépendance de celui-ci vis-à-vis des formes spatiales et des normes sociales (juridiques et autres) à
tous les échelons,
- la productivité spatiale comme donnée dans le choix des localisations,
- le découpage horizontal et vertical des territoires,
- le rôle de l'organisation dans la constitution des régions et celui des processus de régulation,
- la tension grandissante entre localité et globalité au fur et à mesure qu'avance le processus de
globalisation.”
80

hidroviárias, seja por cabos de fibra ótica ou satélites (CARLOS, 1996). Assim, nesse
fluxo contínuo de bens materiais e imateriais, o desenvolvimento científico-tecnológico
amplia o espaço e, simultaneamente, encurta o tempo para atingi-lo.
Segundo Harvey (2011b, p. 77), o progresso implica a conquista do espaço, a
derrubada de todas as “fronteiras usuais do espaço e do tempo, produzindo tanto um
novo internacionalismo como fortes diferenciações internas em cidades e sociedades
baseadas no lugar, na função e no interesse social”. O processo de globalização tende
a desterritorializar pessoas, capital, bens e serviços (IANNI, 1999), promovendo, na
mesma medida, a unificação do espaço mundial, cuja organização decorre de uma
hierarquização dos Estados (que vão do centro à periferia), a partir das relações de
dominação-subordinação que se fundamentam no mercado mundial (CARLOS, 1996;
SASSEN, 1998).
Sassen (1998) expõe que, ao lado da dispersão das atividades econômicas,
surgiram novas formas de centralização espacial, concernentes à gestão no nível dos
altos escalões e ao controle das operações. Os mercados nacionais/globais e as
operações globalmente integradas demandam lugares centrais, com infraestrutura
física, mão de obra qualificada, serviços especializados52, telecomunicações, etc.,
requisitos fundamentais à realização dos novos processos produtivos e ao
gerenciamento de uma rede global de fábricas, escritórios e mercados financeiros.

Esboça-se assim uma nova divisão espacial do trabalho hierarquizada


através da produção de espaços capazes de incorporar a nova tecnologia
baseada num sistema educacional, laboratórios, centros de pesquisa, redes
eficientes de comunicação e capacidade de absorver novas formas de
produção, além de recursos humanos. Portanto, no espaço, há o fenômeno
de concentração que envolve redes articuladas a partir de estratégias
definidas pelo Estado através de políticas de subvenção e de investimentos
aliado à criação da infra-estrutura (sic). (CARLOS, 1996, p. 43).

Sassen (1998) destaca o papel estratégico desempenhado pelas denominadas


“cidades globais” (Londres, Nova York, Paris, Tóquio, Frankfurt, Zurique, Amsterdã,
Sydney, Hong kong, São Paulo, Cidade do México, entre outras), as quais, grosso
modo, se caracterizam por serem: (i) centros do comércio e da atividade bancária
mundial; (ii) polos de comando na organização da economia mundial; (iii) locais e
mercados essenciais para as indústrias do atual período (finanças e serviços

52
Prestação de serviços esta que engloba, segundo Sassen (1998, p. 78), “questões financeiras, legais
e de gerenciamento geral; inovação; desenvolvimento; projetos arquitetônicos; administração; pessoal;
tecnologia da produção; manutenção; transporte; comunicações; distribuições das vendas por atacado;
publicidade; serviços de limpeza para as empresas; segurança; armazenamento.”
81

especializados destinados às empresas); (iii) lugares fundamentais de produção para


tais indústrias, incluindo a produção de inovações. Ao lado dessas cidades
hierarquicamente superiores no plano global, inúmeras outras cidades também
exercem funções equivalentes em escalas geográficas menores, de âmbito
transnacional, nacional ou mesmo subnacional, cuja hierarquia varia segundo os
poderes político e econômico (GOTTDIENER; FEAGIN, 1989; SAVAGE et al., 2003).
A esse propósito, o Globalization and World Cities Study Group and Network
(GaWC), sediado na Loughborough University (Reino Unido), vem empreendendo
estudos para avaliar os impactos sociais, econômicos e geográficos dos processos de
globalização nos centros urbanos chaves pelo mundo e o posicionamento destes na
hierarquia global de cidades. O modelo de hierarquização do GaWC (2012) propõe
uma categorização das cidades globais de acordo com sua conectividade
internacional à rede de “nós” urbanos, cujos níveis de integração e as distintas funções
que desempenham as qualificam em: (i) alfa (α++, α+, α, α-); (ii) beta (β+, β, β-); (iii)
gama (γ+, γ, γ-); (iv) alta suficiência de serviços e (v) suficiência de serviços.
Em linhas gerais, apenas duas cidades brasileiras são mencionadas no ranking
das cidades globais e estão assim categorizadas: (i) São Paulo, classificada como
cidade “α”, tem o importante papel de interligar as principais regiões econômicas e o
Estado à economia mundial; (ii) Rio de Janeiro, classificada como cidade “β”, promove
a ligação entre a sua região ou Estado à economia mundial. Veja-se que as cidades
com “alta suficiência” (caso de Belo Horizonte53, Curitiba e Porto Alegre) ou
“suficiência” (como Brasília, Salvador e Recife) de serviços não se qualificam como
cidades globais, segundo os requisitos de classificação adotados pelo estudo do
GaWC; todavia, possuem serviços suficientes que lhes garantem articulação e certa
“independência” das cidades globais.
A “esquizofrenia do espaço” globalizado, na acepção de Santos (2006), revela
espaços singulares, produzidos localmente, mas que, ao mesmo tempo, são também
globais, manifestando a totalidade-mundo da qual são parte integrante. O local
confunde-se com o global, na medida em que os lugares reproduzem o mundo de
formas singulares e específicas.

De tanto crescer pelo mundo afora, a cidade global adquire características de


muitos lugares. As marcas de outros povos, diferentes culturas, distintos

53
Belo Horizonte, inicialmente inserida na categoria das cidades com “suficiência de serviços” nos
estudos de 2000 e 2004, passou à condição de cidade com “alta suficiência de serviços”, nos rankings
de 2010 e 2012 (GaWC, 2012).
82

modos de ser, podem concentrar-se e conviver no mesmo lugar, como


síntese de todo o mundo. A cidade pode ser um caleidoscópio de padrões e
valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, modos de vestir,
alimentar, etnias e raças, problemas e dilemas, ideologias e utopias. Algumas
sintetizam todo o mundo, diferentes características da sociedade global,
tornando-se principalmente cosmópoles, antes do que cidades nacionais. E
há as que adquirem as marcas do outro mundo, mesmo pertencendo ao
Primeiro Mundo assimilam traços do Terceiro Mundo. (IANNI, 1994, p. 28).

No dizer de Carlos (1996, p. 15), “o mundial que existe no local, redefine seu
conteúdo, sem todavia anularem-se as particularidades”. O mundo se torna fluido e,
graças às técnicas de informação e ao dinheiro, controlado pelo mercado.
Por outro lado, nessa nova geografia das transações internacionais, inúmeras
cidades outrora importantes perderam funções e poder econômico, devido a sua
tecnologia manufatureira atrasada, tornando-se cada vez mais periféricas e excluídas
dos processos econômicos que alimentam a nova economia mundial. Se antes da
década de 1980, a geografia das transações era determinada, em parte, pela
localização dos recursos naturais (matérias-primas, produtos agrícolas ou minérios),
do início de 1980 em diante, as finanças e os serviços especializados (jurídicos,
contábeis, administrativos, publicitários, etc.) passam a ter papel dominante na
economia global (GOTTDIENER; FEAGIN, 1989; BORJA; CASTELLS, 1997;
SASSEN, 1998). Fato corroborado por Harvey ao ressaltar que

o acesso à informação, bem como o seu controle, aliados a uma forte


velocidade de análise instantânea de dados, tornaram-se essenciais à
coordenação centralizada de interesses corporativos descentralizados. A
capacidade de resposta instantânea a variações das taxas de câmbio,
mudanças das modas e dos gostos e iniciativas dos competidores tem hoje um
caráter mais crucial para a sobrevivência corporativa do que teve sobre o
fordismo. (HARVEY, 2011b, p. 151).

Assim, a velocidade da informação sobre os mercados internacionais e de


resiliência das cidades frente aos mesmos, associados à flexibilidade das estruturas
produtivas e comerciais e à capacidade de inserir-se em redes, são determinantes
para a atratividade da cidade e o seu sucesso (ou fracasso) na economia global,
“muito mais do que as posições adquiridas no passado, o capital acumulado, as
riquezas naturais ou a situação geográfica” (CASTELLS; BORJA, 1996, p. 153).
Ao tratarem dos centros tecnológicos mundiais mais importantes surgidos na
era da informação e da renovação das cidades, com base na indústria de alta
83

tecnologia (as denominadas “tecnópolis”54), Castells e Hall (1994), inspirados no


exemplo norte-americano de Silicon Valley, afirmam que a estrutura de tais cidades é
influenciada pela ação simultânea de três processos inter-relacionados: (i) a revolução
tecnológica baseada na tecnologia da informação (incluindo a engenharia genética);
(ii) a formação de uma economia global – englobando o capital, a gestão, o trabalho,
a tecnologia, a informação e os mercados –, cuja produtividade e competitividade
decorre da geração de novos conhecimentos e no acesso e processamento adequado
da informação; (iii) o surgimento da produção e gestão informacional, caracterizada
pela geração de novos conhecimentos e pelo acesso ao processamento adequado da
informação.
Castells e Hall (1994) salientam, contudo, que o êxito de tais polos da economia
global está condicionado à existência de apoio das autoridades locais, regionais e
nacionais; à presença de instituições dedicadas à investigação e à informação; à
concessão de incentivos fiscais e financeiros; à disponibilidade de terrenos industriais;
à disponibilidade de mão de obra qualificada (profissionais e técnicos de qualidade);
à existência de sistemas de transporte (autoestradas, porto, aeroporto internacional,
etc.) e de comunicação adequados; à imagem e à qualidade urbana do local
(atividades de entretenimento, lazer, cultura, consumo e sociabilidades); à flexibilidade
burocrática. Todos esses fatores constituem importantes atrativos para os investidores
e, por conseguinte, para o êxito do parque tecnológico (a ser) implantado na cidade
(BORJA, 1994; CASTELLS; BORJA, 1996; BORJA; CASTELLS, 1997; SAVAGE et
al., 2003).
Ou seja, mais do que razões morfológicas, são razões de funcionalidade que
definem a maior ou menor presença das cidades nos circuitos da economia global e
do conhecimento (RODRIGUES, 2010). De modo que, na nova economia de escala
mundial, intensifica-se a competição entre cidades, centrais e periféricas, por recursos
e atividades que englobam investimentos estrangeiros, matrizes e instituições
internacionais ou turismo, entre outros, como forma de garantir o acesso a mercados
cada vez mais globais (SASSEN, 1998). A cidade que não consegue articular-se

54
Centros planejados para a promoção da indústria de alta tecnologia, resultantes de diferentes tipos
de cooperação ou associação entre os setores público e privado, que são promovidos pelo governo
(nacional, regional ou local), frequentemente em associação com universidades, entes privados,
instituições sem fins lucrativos, etc., com o fim de gerar novas tecnologias e fomentar a economia da
informação (hardware, software, engenharia genética, energia renovável, produtos químicos,
biotecnologia, etc.), dentro de um espaço urbano de alta qualidade (CASTELLS; HALL, 1994).
84

nessa complexa rede de fluxos fica automaticamente marginalizada dos processos de


desenvolvimento (FERREIRA, 2005).
A redução das barreiras espaciais não significa, entretanto, um decréscimo na
importância e significação do espaço, na medida em que o aumento da competição
ressalta as vantagens localizacionais, possibilitando a exploração das diferenciações
espaciais, em termos de oferta de trabalho (qualidade e quantidade da força de
trabalho), recursos ou infraestruturas, além das condições atinentes à qualidade de
vida, à qualidade ambiental e urbanística, que se tornam um importante trunfo na
competição espacial entre cidades, regiões e nações (HARVEY, 2011b).
A perspectiva deste novo espaço tecno-informacional, globalmente
independente, constitui um paradoxo para Castells e Hall (1994). Segundo eles, ao
contrário dos governos nacionais (que não detêm poder suficiente para atuar sobre os
processos da economia globalizada), as cidades têm mais flexibilidade e poder de
adaptação às alterações do mercado, da tecnologia e da cultura. De tal forma que,
“em uma economia global, cuja infraestrutura produtiva consiste em fluxos de
informação, cidades e regiões estão se tornando, cada vez mais, importantes agentes
de desenvolvimento econômico” (CASTELLS; HALL, 1994, p. 27, tradução nossa)55.
Embora mantida a capacidade regulatória do Estado nacional, que permanece na
função de “garantidor último” dos direitos do capital globalizado, da execução das
obrigações contratuais e dos direitos de propriedade (COMPANS, 1999).
Sob condições de acumulação mais flexíveis, a mobilidade geográfica e a
descentralização favorecem que a fuga de capitais; a desindustrialização de certas
regiões56, concomitantemente a industrialização de outras; e a destruição de
comunidades operárias tradicionais, como bases de poder na luta de classes, se
tornem o pivô na transformação espacial (HARVEY, 2011b). As grandes alterações
na lógica da produção global facultam que as empresas multinacionais (ou
transnacionais, segundo alguns autores57), dos ramos industrial, comercial ou de
prestação de serviços, não só atinjam um mercado consumidor global, como o fazem

55
“en una economía mundial cuya infraestructura productiva está compuesta de flujos de información,
las ciudades y las regiones se están convirtiendo de forma creciente en agentes decisivos del desarrollo
económico”.
56
O processo de esvaziamento das zonas industriais se acentuou no Hemisfério Norte a partir dos anos
1970, tendo cidades industriais como Detroit, Lille, Bilbao, Pittsburgh, o vale do Reno, as Midlands
inglesas, etc., como os casos mais emblemáticos (SOMEKH; CAMPOS NETO, 2005).
57
Nesse aspecto, Borin (2004, p. 52), salienta que, ao contrário das corporações multinacionais (típicas
dos anos 1960 e 1970), “que tendiam a reproduzir as relações de trabalho observadas em suas
matrizes, as transnacionais, além de fabricarem diferentes partes do produto em diferentes países,
fazem-no sob contratos variados de trabalho.”
85

utilizando mão-de-obra (familiar, convencional, temporária, terceirizada, etc.),


tecnologia e matérias-primas existentes em todo o mundo de modo mais eficiente
possível (BORIN, 2004).
Nesse aspecto, Sennett (2001) ressalta os subterfúgios utilizados pelas
empresas multinacionais (transnacionais) para obter vantagens dos entes
governamentais, na medida em que, ameaçando se expatriar para lugar diverso, tais
corporações obtêm isenções fiscais como incentivo para permanecer. Tal ameaça
implica numa diminuição (quiçá, ausência) de responsabilidades relativas à sua
presença na cidade, apesar dos enormes privilégios de que desfrutam (CASTELLS;
HALL, 1994; SENETT, 2001). Ou seja, ao incorporarem a lógica econômica
dominante, as vantagens operacionais e os lucros obtidos, pelas empresas, nos fluxos
financeiros internacionais, não revertem necessariamente em benefício da esfera
local. Sem a arrecadação necessária, o governo citadino acaba por arcar com as
externalidades da atividade econômica e da reprodução capitalista do espaço
(SOMEKH; CAMPOS NETO, 2005).
À luz dessa contradição, o neocapitalismo engendra o seu espaço abstrato,
tendo como contraponto o espaço diferencial. O primeiro, “contém o ‘mundo da
mercadoria’, sua ‘lógica’ e suas estratégias à escala mundial, ao mesmo tempo que a
potência do dinheiro e a do Estado político” (LEFEBVRE, 2006, p.51). Esse espaço
abstrato sustenta-se em instituições financeiras, grandes grupos econômicos e de
produção, demandando redes de circulação (autoestradas, portos, aeroportos, etc.) e
de informação que favoreçam a acumulação, a circulação do capital e a otimização
dos benefícios. De outro lado, o espaço diferencial decorre da acentuação das
diferenças e das particularidades locais pelas práticas homogeneizadoras
(LEFEBVRE, 2008; COSTA, 2013). O período atual, então, é marcado pelo fomento
das condições materiais necessárias ao regime de acumulação flexível, pela produção
de novas relações sociais e pela construção de novos valores e estilos de vida
(COMPANS, 1999; TABB, 1990; FERREIRA, 2005).
A emergência da sociedade pós-industrial (o que ainda é controverso em certas
regiões) e as contínuas mudanças dela advindas resultam numa redefinição de
costumes, de comportamentos, que acabam por estabelecer novos paradigmas às
relações humanas – marcadas pela instantaneidade e descartabilidade – de modas,
produtos, técnicas de produção, processos de trabalho, técnicas, ideologias, valores,
etc. –, e pela individualização, influindo decisivamente nas maneiras pós-modernas
de pensar, de sentir e de agir (HARVEY, 2011b; CASTELLS, 1983; BORJA;
86

CASTELLS, 1997; IANNI, 1999). Conforme Simmel (1987, p.13), no complexo espaço
da vida moderna, “a economia do mercado e o domínio do intelecto estão
intrinsicamente vinculados. Eles partilham uma atitude que vê como prosaico o lidar
com homens e coisas”, da qual deriva uma justiça formal frequentemente combinada
à dureza desprovida de consideração.

Do mesmo modo que no século XIX a cidade esvaziou o campo de sua


substância social e cultural com a expansão capitalista, no limiar do século
XXI é a vez do espaço urbano perder sua expressão geopolítica e social; o
face a face humano, comum das aglomerações citadinas, é substituído pela
interface homem/máquina. (VÉRAS, 2000, p. 13).

A cidade, o lugar do encontro, põe o indivíduo em intensivo contato com as


diferenças, permitindo-lhe relativizá-la, tolerá-la. Há, em consequência, uma
banalização do diferente, de maneira que o indivíduo – em meio a tantos estímulos e
pela velocidade da cidade, a transforma em indiferença. Para esse indivíduo blasé,
conforme Simmel (1987), a própria diferença se torna banal, se torna “lugar comum”.
Indiferentes ao que nos rodeia, somos incapazes de notar o diferente, por estarmos
habituados à impessoal desatenção civil. Tudo isso tende a complicar as relações
sociais, dando-lhes um caráter transitório e superficial (CASTELLS, 1983). Nas
palavras de Park (1987, p. 62), “os processos de segregação estabelecem distâncias
morais que fazem da cidade um mosaico de pequenos mundos que se tocam, mas
não se interpenetram”.
A modernidade líquida, na concepção de Bauman (2001), e a efemeridade das
relações influi na maneira como interagimos socialmente e com o espaço da cidade.
Não é de se admirar, nesse contexto, que “os meios de comunicação que parecem
unir as pessoas — rua e imprensa — apenas dramatizam a enormidade do abismo
entre elas” (BERMAN, 1986, p. 200).

Tudo isso tem impacto sobre a sociedade civil urbana, que se baseia em um
compromisso fundado na mútua dissociação. Ou seja, um acordo que visa a
não se ocupar de assuntos de terceiros, a paz da indiferença mútua. Essa é
a razão pela qual, do ponto de vista positivo, a cidade moderna é como um
acordeão capaz de se abrir facilmente para acomodar novas ondas de
migrantes; os espaços de diferenciação são cerrados. Do ponto de vista
negativo, o compromisso mútuo de separação significa o fim das práticas de
cidadania – que exigem a consideração de interesses divergentes –, assim
como a perda da simples curiosidade humana em relação ao outro.
(SENNET, 2001, tradução nossa)58.

58
“All this has an impact on urban civil society which rests on a compromise based on mutual
dissociation. That means the truce of leaving one another alone, the peace of mutual indifference. This
is one reason why, on the positive side, the modern city is like an accordion easily able to expand to
87

Por outro lado, a transição do modelo fordista-Keynesiano para o modelo pós-


fordista implicou em novos modos de articulação das relações indivíduo-sociedade, a
partir de significativas alterações nas estruturas familiares (novas configurações
conjugais e de parentalidade), nos padrões demográficos (envelhecimento
populacional, queda das taxas de natalidade) e nos estilos de vida (novos quadros de
valores e referenciação identitária), rompendo com o modelo de societalização
preconizado pelo “ideal-tipo”59 fordista, em que o homem era o responsável pela
manutenção familiar (sistema produtivo) e a mulher pelas tarefas domésticas (sistema
reprodutivo). Movimentos feministas, ecologistas, pacifistas, estudantis e de
reinvindicação de direitos civis também constituem exemplos dessas mudanças
socioculturais (RODRIGUES, 2010).
Tais alterações, por certo, concorrem para a intensificação das complexidades
inerentes às questões econômicas, sociais e, sobretudo, da vida urbana das
sociedades contemporâneas. Embora, no caso brasileiro, seja preciso considerar as
especificidades históricas e a realidade político-econômica do país quando da
transição pós-fordista, tendo em vista que as circunstâncias do surgimento e
desenvolvimento do Estado de bem-estar (Welfare State) no Brasil são diferentes das
observadas nos países europeus e norte-americanos60 (MEDEIROS, 2001)
Nesse contexto de desmaterialização e desterritorialização dos aspectos
econômicos, sociais e culturais, Véras (2000) salienta que os problemas das cidades
se avolumam, na medida em que a nova divisão internacional do trabalho, a
fragmentação do processo produtivo e o nomadismo do capital financeiro provocam
processos contraditórios, de inclusão e exclusão, de homogeneização e diferenciação,
refletidos no desemprego (ou auto-emprego), nas migrações, nos conflitos étnicos e,
também, na redefinição do papel e das políticas do Estado frente a esse novo regime
de acumulação.

accommodate new waves of migrants - the pockets of difference are sealed. On the negative side,
mutual accommodation through dissociation spells the end of citizenship practices - which mean
understanding divergent interests - as well as a loss of simple human curiosity about other people.”
59
“Conforme lembra Weber, o tipo ideal é uma construção lógica que nasce de uma determinada
realidade histórica, mas que com ela não se confunde. É um meio auxiliar, um instrumento de
investigação, sem o qual seria impossível apreender os múltiplos sentidos da realidade. Uma vez
construído, o tipo ideal pode servir de meio em relação ao qual outras realidades, em que não se
originaram, podem ser comparadas, não com o objetivo da adequação mas, exatamente ao contrário,
para apontar as suas especificidades.” (CARVALHO, 2000, p. 72).
60
No Brasil, o processo de modernização caracterizou-se pela segmentação, dada à coexistência de
setores industriais modernos, setores tradicionais e a economia agrário-exportadora (MEDEIROS,
2001).
88

2.2 Estruturação urbana e os agentes produtores do espaço

Na cidade capitalista do atual período monopolista, a supremacia do capital


financeiro frente ao industrial redefine o sentido de espaço, que passa a assumir,
também, a condição de produto imobiliário. De acordo com Carlos (2012), num
momento de crise do setor industrial, o processo de (re)produção do espaço surge
como estratégia de realização do capital financeiro na medida em que este passa a
investir na produção imobiliária como forma de aplicação de capital, especialmente na
edificação de modernos prédios comerciais destinados à realização da “nova
economia” globalizada. A aliança entre as frações de capital (industrial e financeiro) e
o Estado permite que o capital financeiro também se realize através da produção do
espaço. Assim, mesmo em tempos difíceis, em que os períodos de recessão ou
depressão provocam a desvalorização do capital, o bem imóvel (o ambiente
construído) tende a atrair investimentos em detrimento das atividades de produção
primária (GOTTDIENER, 1997).
Por outro lado, ao abordar a conexão entre a produção do ambiente construído
e o processo de acumulação de capital, Harvey (1978, 2005c, 2010) salienta que a
superacumulação de capital advinda da competição entre capitalistas promove uma
mudança dos fluxos de capital. De modo que o excedente de capital do setor produtivo
(circuito primário) passa a ser investido na formação do ambiente construído (circuito
secundário), como forma de evitar uma crise de acumulação61. Segundo ele,

a produção da paisagem física e social do capitalismo é o resultado da busca


por soluções para o problema da superacumulação62, que se dá por
intermédio da absorção dos excedentes de capital e de trabalho, mediante o
deslocamento geográfico e temporal dos excedentes de capital para a
produção de infraestruturas físicas e sociais. (HARVEY, 2010, p. 28, tradução
nossa)63.

61
A tríade de fluxos de capital é complementada pelo circuito terciário, em que o capital é investido nos
custos sociais das forças produtivas – desenvolvimento científico e tecnológico –, e na reprodução da
força de trabalho – melhora qualitativa da mão de obra do trabalhador, mediante formação técnica e
educacional –, com o fim de potencializar o sistema de produção e a obtenção de lucros (HARVEY,
1978).
62
Como exemplo, veja-se os megaprojetos de urbanização instalados em cidades como Dubai e Abu
Dhabi, no Oriente Médio, a fim de resolver a superacumulação proveniente da produção do petróleo
(HARVEY, 2012).
63
“The production of the physical and social landscape of capitalism we thereafter increasingly caught
up in the search for solutions to the over accumulation problem through the absorption of capital and
labor surplus by some mix of temporal and geographical displacement of surplus capital into the
production of physical and social infrastructures.”
89

A dinâmica dos ciclos de investimento do capital requer a atuação de agentes


financeiros e sociais, bem como a intervenção do Estado (como regulador das
atividades de investimento e como agente de planejamento), para que os excedentes
de capital possam circular facilmente entre os diversos circuitos do capital.
Nessa condição, a urbanização se torna um negócio rentável, favorecendo que
o capital financeiro se aproprie do espaço-mercadoria como locus de realização de
investimento produtivo, tendo o capital imobiliário (aliado à indústria da construção
civil) como reprodutor do espaço enquanto mercadoria consumível individualmente,
sob a forma de propriedade privada. Mesmo porque, segundo Harvey,

a acumulação do capital sempre foi uma questão profundamente geográfica.


Sem as possibilidades inerentes à expansão geográfica, à reorganização
espacial e ao desenvolvimento geográfico desigual, o capitalismo há muito
teria cessado de funcionar como sistema econômico político. (HARVEY,
2006, p. 40).

Com a divisão da sociedade em classes, o Estado surge como meio de controle


político, agindo de acordo com as relações de força entre os diferentes grupos sociais,
geralmente em favor da fração hegemônica das classes dominantes64 (CASTELLS,
1983; LIPIETZ, 1988). Assim o fazendo através de suas armas militares, jurídicas,
ideológicas e econômicas (SMITH, 1988), corroborando a máxima de que “o poder
estatal moderno é apenas uma comissão que administra os negócios comuns do
conjunto da classe burguesa” (MARX; ENGELS, 1998, p. 9). Segundo Lojkine, o
Estado aparece, então, como:

I – forma desenvolvida na socialização do processo de produção, resposta


contraditória do modo de produção dominante à contradição entre forças
produtivas e relações de produção;
II – instrumentos de dominação e hegemonia a serviço da classe dominante;
III – Espaço de enfrentamento, de equilíbrio “instável” (Engels) entre forças
políticas antagônicas, o que o leva a fazer concessões às classes dominadas
para salvaguardar os interesses de longo prazo da classe dominante;
IV – Espaço de ruptura ou de transição entre uma classe dominante
declinante e uma classe dominada “ascendente” (Gramsci). Ruptura ou
transição que se traduzirá por uma decomposição do aparelho ou dos
aparelhos hegemônicos do Estado, minados em seu interior por esta forma
de luta de classes. (LOJKINE, 1981, p. 56).

64
A hegemonia aqui, diferentemente do conceito originário de Gramsci para prever a atuação da classe
operária na construção de uma outra sociedade, permite analisar o papel da burguesia na estruturação
do espaço, designando a influência que esta exerce sobre a sociedade, práticas, costume, moral,
cultura e saber incluídos, desde a sexualidade até os modos de trabalho, por intermédio de pessoas
(políticos, personalidades, intelectuais, cientistas), instituições e representações (partidos, associações
de classe) (HARVEY, 2011b; LOJKINE, 1997; LEFEBVRE, 2006).
90

Nessa vertente, Harvey (2005a, p. 78) assinala a contradição originada da


utilização do Estado como instrumento de dominação de classe, porquanto “a classe
dirigente tem que exercer seu poder em seu próprio interesse de classe, enquanto
afirma que suas ações são para o bem de todos”. Assim o fazendo por intermédio de
duas estratégias. A primeira orientada a expressar a independência do Estado em sua
manifestação de vontade. Em consequência, os representantes do Estado
(servidores, funcionários públicos, etc.), devem apresentar-se enquanto órgãos
imbuídos de autoridade e autonomia frente à sociedade e à classe dominante. A
segunda direcionada à transformação da ideologia da classe dominante em “interesse
geral”, mediante universalização da ideia e dos ideais dominantes. Ou seja,
transformando o interesse de classe em interesse comum de todos os membros da
sociedade65. Sob tais condições, pode-se entender as políticas públicas concernentes
à posse de casa própria pela classe trabalhadora como, simultaneamente, ideológica
e econômica. Haja vista que, conforme assinala Harvey (2005a), o princípio do direito
de propriedade privada é socialmente aceito (caráter ideológico) e, além de
proporcionar padrões mínimos de abrigo para a força de trabalho, constitui-se como
um mercado para a produção capitalista (caráter econômico).
O Estado e, especialmente, a ordem jurídica desempenham um papel
primordial na sustentação e manutenção da estabilidade desses aspectos, porquanto,

a garantia do direito da propriedade privada dos meios de produção e da força


de trabalho, o cumprimento dos contratos, a proteção dos mecanismos de
acumulação, a eliminação de barreiras para a mobilidade do capital e do
trabalho e a estabilização do sistema monetário (via Banco Central, por
exemplo) estão todos dentro do campo de ação do Estado. [...] O Estado
também deve desempenhar um papel importante no provimento de “bens
públicos” e infra-estruturas (sic) sociais e físicas; pré-requisitos necessários
para a produção e troca capitalista, mas os quais nenhum capitalista acharia
possível prover com lucro. (HARVEY, 2005a, p. 82-83).

Admitindo-se que a demanda e o consumo do espaço influem sobremaneira


nos valores de uso e de troca do solo urbano (SINGER, 1979), concentrar-se-á a
atenção sobre aqueles que, atuando no mercado imobiliário, produzem e usufruem o
ambiente construído. Por razões de conveniência analítica, os agentes produtores do

65
Nessa vertente, as relações sociais de valor de troca, imanentes ao modo capitalista de produção,
pressupõem: (i) o conceito de “pessoa jurídica” e “pessoa física”, ambas “pessoas” despidas de
qualquer laço de dependência e suscetíveis a envolverem-se em relações de troca ou conflito dentro
dessa liberdade; (ii) um sistema de direito de propriedade, que assegura aos indivíduos o domínio
sobre os valores de uso mediante a propriedade e a troca; (iii) um padrão comum do valor em troca (o
dinheiro); (iv) a liberdade e igualdade na condição de troca, segundo as condições socialmente aceitas
(HARVEY, 2005a).
91

espaço serão divididos entre os seguintes segmentos: (i) agentes econômicos:


ramificados em suas distintas frações (industriais, financeiros, proprietários fundiários,
empreiteiros, incorporadores66, etc.)67, os quais, por vezes, atuam em mais de uma
categoria; (ii) Poder Público (ou Estado lato sensu): entes federados (União, Estado,
Municípios e Distrito Federal) e as instituições da administração pública indireta
destinadas à produção de habitações; (iii) agentes intermediários: corretores
imobiliários; (iv) força de trabalho: usuários(as), consumidores(as) dos espaços
públicos e privados.
Para Harvey (1982), a distinção entre os agentes produtores do espaço
decorreria das formas como os mesmos se relacionam com o ambiente construído
para a realização da mais-valia fundiária, mediante a apropriação, conjunta ou não,
de distintas formas de rendimento, juros e lucro, quais sejam: (i) a fração do capital
que busca a apropriação da renda, quer diretamente (proprietários fundiários), quer
indiretamente (empresas imobiliárias); (ii) a fração do capital que intenta a obtenção
de lucro através da construção (construtores, empreiteiros e incorporadores), ou de
juros, pelo financiamento da obra alheia (instituições financeiras); (iii) a fração do
capital que atua no interesse da classe capitalista como um todo, ou nas palavras de
Harvey (1982, p. 7), “o capital ‘em geral’ que encara o ambiente construído como um
dreno para o capital excedente e como um pacote de valores de uso e com vistas ao
estímulo da produção e acumulação de capital”, lançando mão, inclusive, da ação do
Estado; e, por fim, (iv) a força de trabalho, que usufrui do ambiente construído
enquanto bem de consumo e meio de sua própria reprodução.
No tocante aos agentes econômicos, Logan e Molotch (1987) apontam que, há
três tipos contemporâneos de agentes econômicos agindo na produção do espaço
com o fito de extrair renda: (i) o fortuito, um rentista marginal que por circunstâncias
alheias (herança imobiliária, por exemplo) tornou-se beneficiário de terra(s) e, nessa
condição, a(s) mercantiliza; (ii) o ativo, “aquele que é capaz de antecipar as alterações
de valor de uso da terra e especula sobre o valor de determinadas localidades, com o

66
De acordo com o art. 29 da Lei nº 4.591/1964, “considera-se incorporador a pessoa física ou jurídica,
comerciante ou não, que embora não efetuando a construção, compromisse ou efetive a venda de
frações ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades autônomas, em
edificações a serem construídas ou em construção sob regime condominial, ou que meramente aceite
propostas para efetivação de tais transações, coordenando e levando a termo a incorporação e
responsabilizando-se, conforme o caso, pela entrega, a certo prazo, preço e determinadas condições,
das obras concluídas.” (BRASIL, 1964).
67
Ou seja, “agentes econômicos que se dedicam a uma ou a várias funções: incorporação,
desenvolvimento imobiliário, financiamento, gestão da obra, construção, consultoria, arquitetura,
comercialização, marketing imobiliário e administração predial, entre outras.” (FIX, 2009, p. 56).
92

objetivo de extrair renda de áreas que se tornarão mais lucrativas com o passar do
tempo” (LOGAN; MOLOTCH, 1987, p. 30, tradução nossa)68; e, finalmente, (iii) o
estrutural, que se difere do segundo por não depender exclusivamente de sua
capacidade de estimar as tendências de valorização da terra, agindo diretamente nas
condições futuras do mercado. “Sua estratégia é criar rendas diferenciais,
influenciando a tomada de decisões daqueles que têm como prerrogativa determinar
a implantação de vantagens localizacionais em uma região em detrimento de outra”
(LOGAN; MOLOTCH, 1987, p. 30, tradução nossa)69. Para tanto, age a favor (ou
contra) políticas de zoneamento da cidade, realização de obras públicas, etc., visando
apropriar-se não só da renda diferencial, mas também da monopolista.
Os agentes econômicos, em concorrência e em conflito entre si70, atuam na
produção de empreendimentos imobiliários que, pelo valor de uso que possuem para
terceiros (consumidores), proporcionam-lhes a obtenção de lucros (valor de troca).
Caracteristicamente, para a realização de tais empreendimentos, envolve-se desde a
aquisição de terrenos até a contratação de consultores, planejadores, edificadores,
agentes financeiros, etc., para a execução das diversas fases do projeto, culminando
na comercialização final dos imóveis edificados pelos agentes intermediários
(corretores imobiliários). Embora, na prática, muitas dessas atividades possam ser
fundidas numa mesma unidade de capital, que as articula para criar e capturar rendas
fundiárias (SMOLKA, 1979).
Daí que, a construção de imóveis (em especial os habitacionais) em regiões
periféricas das cidades, onde normalmente os preços dos terrenos são menores,
permite maior obtenção de lucros. Não bastasse, faculta a especulação em torno dos
terrenos localizados entre as áreas centrais e externas da cidade, favorecendo, ainda,
a agregação de valor aos terrenos particulares, em razão das melhorias de
infraestrutura e serviços proporcionados pela Administração Pública, num cenário de
privatização dos lucros e socialização dos custos da urbanização (VÉRAS, 2003a).

68
“Some individuals seek out right place to be in the future. These entrepreneurs, who anticipate
changing use values from place, speculate on the future of particular spots. Such active entrepreneurs
seek rent by gaining control over locations likely to become more strategic over time.”
69
“Their strategy is to create differential rents by influencing the larger arena of decision making that will
determine locational advantages.”
70
Harvey (1978, p. 6, tradução nossa) ressalta a contradição existente na própria classe capitalista, na
medida em que todo capitalista age, espontânea e criativamente, num mundo de individualismo,
liberdade e igualdade. Enquanto na competição pela obtenção de lucros, as leis inerentes ao processo
de produção capitalista agem diretamente sobre todo indivíduo capitalista. Segundo o autor, “um mundo
de individualidade e liberdade na superfície esconde um mundo de conformidade e coerção por baixo”
(“a world of individuality and freedom on the surface conceals a world of conformity and coercion
underneath”).
93

Esse crescimento urbano extensivo, de deslocamento contínuo das margens do


perímetro urbano, produziu um desenho territorial semelhante a uma mancha de
óleo71, com inúmeros vazios e áreas subocupadas. Ou seja, áreas deixadas como
reserva de valor, aguardando a elevação do preço da terra para serem ofertadas no
mercado imobiliário (LACERDA; ZANCHETI; DINIZ, 2000; VÉRAS, 2001).
Vê-se, então, que a expansão descontínua do tecido urbano aumenta as
distâncias, torna os transportes ineficientes, eleva os investimentos para a prestação
de serviços públicos, aumenta os custos de operação e manutenção e reduz o
aproveitamento per capita dos equipamentos de uso coletivo existentes. “Enquanto
porções do solo urbano parcial ou totalmente atendidas permanecem ociosas,
contingentes cada vez maiores se instalam em áreas não servidas”, condenando o
Poder Público à incapacidade permanente de resolver o problema (BOLLAFFI, 1979,
p. 58).
Com base nessa perspectiva, o Estado72 tem papel determinante (senão o
principal) como agente indutor (seja por ação direta, por ação indireta, ou por simples
omissão) da (re)produção da cidade, tanto como regulador do solo urbano (alterando
as leis de zoneamento, parcelamento, uso e ocupação do solo; instalando
equipamentos públicos e infraestrutura urbana; direcionando a alocação de
investimentos orçamentários; atuando diretamente na realização das operações
urbanas73; etc.), quanto como proprietário fundiário e promotor imobiliário, influindo
diretamente na transformação do espaço urbano e, por conseguinte, nas iniquidades
dele advindas: distribuição profundamente desigual do espaço em termos de moradia,

71
Isto é, uma área central e uma periferia de forma tentacular em contínua expansão, cujos tentáculos,
em geral, se estendiam ao longo dos eixos viários, onde existia a oferta de infraestruturas básicas e
serviços urbanos (LACERDA; ZANCHETI; DINIZ, 2000).
72
Para Lipietz (1988, p. 127-128), o Estado exerce um duplo papel na estruturação do espaço: (i) “ele
tem que atenuar as insuficiências da lei do valor na alocação do espaço entre agentes privados da
reprodução social capitalista: planificação, acordo, produção dos equipamentos coletivos”; (ii) “ele
intervém na jurisdição fundiária para afastar, em favor do desenvolvimento capitalista, o ‘poder sobre o
espaço’ que a história legou aos ‘herdeiros’ de uma idade pré ou paleocapitalista.”
73
De acordo com o art. 32, §1º, da Lei Federal nº 10.257/2001, “considera-se operação urbana
consorciada o conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo Poder Público municipal, com a
participação dos proprietários, moradores, usuários permanentes e investidores privados, com o
objetivo de alcançar em uma área transformações urbanísticas estruturais, melhorias sociais e a
valorização ambiental.” Por sua vez, o §2º prevê que, para a realização da operação urbana
consorciada poderá haver, entre outras medidas, “I – a modificação de índices e características de
parcelamento, uso e ocupação do solo e subsolo, bem como alterações das normas edilícias,
considerado o impacto ambiental delas decorrente; II – a regularização de construções, reformas ou
ampliações executadas em desacordo com a legislação vigente; III - a concessão de incentivos a
operações urbanas que utilizam tecnologias visando a redução de impactos ambientais, e que
comprovem a utilização, nas construções e uso de edificações urbanas, de tecnologias que reduzam
os impactos ambientais e economizem recursos naturais, especificadas as modalidades de design e
de obras a serem contempladas.”
94

renda, oferta de serviços e de infraestrutura urbana, sustentabilidade ambiental e


acesso a equipamentos de consumo coletivo e cultural.
E isto se deve, sobretudo, ao efeito que as políticas públicas têm sobre a planta
de valores do solo urbano. Por se tratar de mercadoria que gera rendas àqueles que
a possuem e em razão de sua fixidez no espaço, a terra urbana é extremamente
sensível a qualquer variação que ocorra no seu entorno (HARVEY, 1982, 2005c).
Partindo dessa consideração, Smolka (1979) salienta que: (i) o preço dos imóveis é
fixado externamente a ele, seja pelas atividades realizadas noutros terrenos, seja
pelas características das atividades que competem por seu uso; (ii) a cada utilização
de um terreno, alteram-se as características dos terrenos do entorno, cujas
externalidades influem no preço do próprio imóvel em questão.
Em vista disso, sempre que o capital privado implementa vantagens
localizacionais através de empreendimentos imobiliários como shoppings centers e
similares, ou o Poder Público dota determinada região de infraestrutura e de serviços
públicos, ele atrai para esta área demandas de empresas e moradores que
anteriormente, pela ausência da infraestrutura ou dos serviços em questão, davam
preferência a outras zonas da cidade. Tais demandas, por certo, estão preparadas a
pagar pelo uso do solo, mediante compra ou aluguel, preços superiores aqueles pagos
pelas demandas que se dirigiam à mesma região quando ainda não estava provida
da infraestrutura ou dos serviços públicos. Decorre daí a valorização dos imóveis
nesta área em relação às demais e, talvez, a consequente gentrificação.
Por favorecer a atração de indivíduos de maior renda dispostos a pagar mais
pelo uso do solo, em comparação aos moradores mais antigos, de renda inferior, a
elevação dos preços dos imóveis pode provocar a expulsão dos moradores mais
antigos e pobres. Estes acabam vendendo seus imóveis, quando proprietários, ou
rescindindo o vínculo locatício, quando inquilinos, e se deslocam de uma periferia para
outra mais carente, no sentido declinante da renda diferencial. De modo que a nova
infraestrutura e disponibilidade de serviços irá beneficiar os novos moradores em
detrimento daqueles que supostamente deveria servir (BONDUKI; BONDUKI, 1979;
SINGER, 1979).
Como dito anteriormente, a renda diferencial que o proprietário do solo aufere
varia em função das vantagens localizacionais. Sendo essa a razão pela qual os
proprietários tentarão, pelos mais diversos meios, influenciar as ações do Estado, a
fim de atrair para as áreas onde possuem terras benefícios que aumentem a sua
capacidade de obter renda territorial, e afastando delas as eventuais políticas que
95

possam lhes resultar em perdas (HARVEY, 1982; ABREU, 1994). Isto não quer dizer,
todavia, que o Estado seja injusto na aplicação dos recursos públicos, “mas que ao
aplicar ele confirma a lógica da acumulação” (MARICATO, 1979b, p. 79).
É importante chamar a atenção para o fato de que o mecanismo especulativo
surge e se desenvolve pela ineficiente atuação do Poder Público, quando deixa de
cobrar, por meio dos tributos adequados: (i) os investimentos que realiza no espaço
citadino, responsáveis pela valorização imobiliária dos bens particulares (contribuição
de melhoria74); (ii) o valor de mercado dos bens imóveis (imposto sobre a propriedade
predial e territorial urbana – IPTU75) e de sua respectiva transmissão (imposto sobre
a transmissão de bens imóveis - ITBI76); (iii) a não utilização, subutilização ou não
edificação dos bens imóveis77, pela eventual retenção especulativa do proprietário

74
“Art. 81. A contribuição de melhoria cobrada pela União, pelos Estados, pelo Distrito Federal ou pelos
Municípios, no âmbito de suas respectivas atribuições, é instituída para fazer face ao custo de obras
públicas de que decorra valorização imobiliária, tendo como limite total a despesa realizada e como
limite individual o acréscimo de valor que da obra resultar para cada imóvel beneficiado.” (BRASIL,
1966).
75
“Art. 32. O imposto, de competência dos Municípios, sobre a propriedade predial e territorial urbana
tem como fato gerador a propriedade, o domínio útil ou a posse de bem imóvel por natureza ou por
acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona urbana do Município.
§1º Para os efeitos deste imposto, entende-se como zona urbana a definida em lei municipal; observado
o requisito mínimo da existência de melhoramentos indicados em pelo menos 2 (dois) dos incisos
seguintes, construídos ou mantidos pelo Poder Público:
I - meio-fio ou calçamento, com canalização de águas pluviais;
II - abastecimento de água;
III - sistema de esgotos sanitários;
IV - rede de iluminação pública, com ou sem posteamento para distribuição domiciliar;
V - escola primária ou posto de saúde a uma distância máxima de 3 (três) quilômetros do imóvel
considerado.
§2º A lei municipal pode considerar urbanas as áreas urbanizáveis, ou de expansão urbana, constantes
de loteamentos aprovados pelos órgãos competentes, destinados à habitação, à indústria ou ao
comércio, mesmo que localizados fora das zonas definidas nos termos do parágrafo anterior.
Art. 33. A base do cálculo do imposto é o valor venal do imóvel.
Parágrafo único. Na determinação da base de cálculo, não se considera o valor dos bens móveis
mantidos, em caráter permanente ou temporário, no imóvel, para efeito de sua utilização, exploração,
aformoseamento ou comodidade.
Art. 34. Contribuinte do imposto é o proprietário do imóvel, o titular do seu domínio útil, ou o seu
possuidor a qualquer título.” (BRASIL, 1966).
76
“Art. 35. O imposto, de competência dos Estados, sobre a transmissão de bens imóveis e de direitos
a eles relativos tem como fato gerador:
I - a transmissão, a qualquer título, da propriedade ou do domínio útil de bens imóveis por natureza ou
por acessão física, como definidos na lei civil;
II - a transmissão, a qualquer título, de direitos reais sobre imóveis, exceto os direitos reais de garantia;
III - a cessão de direitos relativos às transmissões referidas nos incisos I e II.
Parágrafo único. Nas transmissões causa mortis, ocorrem tantos fatos geradores distintos quantos
sejam os herdeiros ou legatários.” (BRASIL, 1966).
77
“Art. 5º Lei municipal específica para área incluída no plano diretor poderá determinar o parcelamento,
a edificação ou a utilização compulsórios do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado,
devendo fixar as condições e os prazos para implementação da referida obrigação.
§1º Considera-se subutilizado o imóvel:
I – cujo aproveitamento seja inferior ao mínimo definido no plano diretor ou em legislação dele
decorrente” (BRASIL, 2001).
96

(IPTU progressivo no tempo78), entre outros instrumentos urbanísticos previstos na


CR/88 e no Estatuto da Cidade79, transformando a propriedade imobiliária “no
santuário da especulação parasitária que persegue o lucro sem risco” (BOLLAFFI,
1979, p. 66).
Forçoso ressaltar que os tributos imobiliários de competência dos Municípios,
além de contribuírem para ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da
cidade e da propriedade urbana (contribuição de melhoria, IPTU progressivo no
tempo), constituem inestimáveis fontes de receitas para as administrações públicas
municipais (IPTU e ITBI), demandando maior atenção na sua aplicação e no
atingimento dos fins a que se destinam. Principalmente se considerado que a maior
parte dos Municípios criados após a promulgação da CR/88 (passaram de 4.189, em
1988, para 5.565, em 2011), sobrevive apenas devido ao Fundo de Participação dos
Municípios (FPM) e possui baixíssima capacidade institucional, com dificuldades de
ordem técnica, gerencial e financeira. Diante da escassa receita financeira, os
Municípios tendem a destinar poucos recursos correntes para as funções urbanas
(habitação, urbanismo, saneamento e transporte), sendo que, muitas vezes, o
montante obtido pelos repasses dos demais entes federados, cobre apenas o custeio
da máquina municipal e a prestação de alguns serviços básicos previstos
constitucionalmente (MACDOWEL, 2007).
Contudo, na pesquisa realizada pelo Ministério das Cidades, entre outubro de
2006 e março de 2007, para monitorar os Planos Diretores municipais, verificou-se
que, em um universo de 1.343 Municípios80: (i) 62,4% (838 Municípios) preveem o
parcelamento, a edificação ou a utilização compulsórios; (ii) 68,4% (919 Municípios)
indicam a possibilidade de aplicação do IPTU progressivo no tempo; e apenas (iii)
54,7% (734 Municípios) instituem a contribuição de melhoria – instrumento
imprescindível à recuperação da valorização de imóveis urbanos gerada por
investimentos do Poder Público. No tocante à Região Metropolitana de Belo Horizonte

78
“Art. 7º Em caso de descumprimento das condições e dos prazos previstos na forma do caput do art.
5º desta Lei, ou não sendo cumpridas as etapas previstas no §5º do art. 5º desta Lei, o Município
procederá à aplicação do imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana (IPTU) progressivo
no tempo, mediante a majoração da alíquota pelo prazo de cinco anos consecutivos.” (BRASIL, 2001).
79
O Estatuto da Cidade, seguindo o disposto no art. 182 da CR/88, prevê, em seu artigo 8º, caput, que
“decorridos cinco anos de cobrança do IPTU progressivo sem que o proprietário tenha cumprido a
obrigação de parcelamento, edificação ou utilização, o Município poderá proceder à desapropriação do
imóvel, com pagamento em títulos da dívida pública.”
80
O universo de pesquisa corresponde a 1.343 municípios, porquanto o questionário aplicado nos
Municípios de São Paulo não continha esta questão. A avaliação de previsão normativa dos
instrumentos de política urbana compreendeu os Planos Diretores e as leis municipais específicas
pertinentes à matéria (BRASIL, 2008).
97

(RMBH), foram avaliados 33 (dos 34) Municípios que a compõem, cujos percentuais
foram de: (i) 81,8% (27 Municípios) para o parcelamento, a edificação ou a utilização
compulsórios; os mesmos (ii) 81,8% (27 Municípios) em relação à aplicação do IPTU
progressivo no tempo; e, em similaridade com o índice nacional, tão somente (iii)
57,6% (19 Municípios) estabelecem a contribuição de melhoria (BRASIL, 2008). Vale
dizer que a previsão normativa dos instrumentos urbanísticos não implica
necessariamente na sua aplicabilidade, eis que a regular execução de tais
instrumentos está condicionada à delimitação da forma e das áreas de aplicação,
quiçá da elaboração/revisão da norma legal específica.
No caso de Belo Horizonte, embora os instrumentos urbanísticos mencionados
acima estejam inseridos no Plano Diretor (Lei nº 7.165, de 27 de agosto de 1996), e
na Lei de parcelamento, ocupação e uso do solo (Lei n° 7.166, de 27 de agosto de
1996), ambas alteradas segundo as diretrizes do Estatuto da Cidade pela Lei nº
9.959/201081 e atualmente em vigor no Município82, não há a plena aplicação dos
mesmos no território municipal. Salienta-se, inclusive, que após a realização da 4ª
Conferência Municipal de Política Urbana, entre os meses de fevereiro e agosto de
2014, reunindo mais de oito mil pessoas para pensar o futuro da cidade, a proposta
de regulamentação da contribuição de melhoria e do IPTU progressivo no tempo no
âmbito municipal obteve parecer favorável, sendo incluída no Projeto de Lei (PL) que
propõe alterações no Plano Diretor e na Lei de parcelamento, ocupação e uso do solo
(BELO HORIZONTE, 2014).
Ocorre, porém, que, além da aplicabilidade dos instrumentos estar
condicionada à aprovação do PL pelo Poder Legislativo municipal, sua
operacionalização está atrelada à estruturação do Poder Executivo para sua
aplicação, não sendo possível vincular um prazo específico para tanto (BELO
HORIZONTE, 2014). Ainda, em relação à cobrança de IPTU e ITBI, verifica-se que a
“Planta de Valores Genéricos”83 atualmente utilizada como base para a tributação dos

81
No Plano Diretor, o art. 46 estabelece que a contribuição de melhoria, o IPTU e o ITBI devem ser
utilizados como instrumentos complementares do desenvolvimento urbano e do ordenamento territorial
(BELO HORIZONTE, 1996a). Por sua vez, os artigos 74-B a 74-F do Plano Diretor preveem a aplicação
do parcelamento, da edificação e da utilização compulsórios, do IPTU progressivo no tempo e da
desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública, os quais também estão elencados nos
artigos 14-C e 14-D da Lei de parcelamento, ocupação e uso do solo (BELO HORIZONTE, 1996b).
82
Ressalta-se que a primeira revisão do Plano Diretor de Belo Horizonte ocorreu em 2000, por
intermédio da Lei Municipal nº 8.137, de 27 de dezembro de 2000.
83
Nela estão presentes os dados genéricos necessários ao estabelecimento do valor de base de
cálculo dos impostos imobiliários, tais como: valor do metro quadrado do terreno em uma determinada
região; valor do metro quadrado de construção associado a um dado tipo construtivo; condições de
aplicação dos fatores de correção, etc. (ALMEIDA, 2009).
98

impostos imobiliários apresenta uma grande defasagem em relação ao valor de


mercado dos imóveis, porquanto, desde a sua elaboração no ano de 2003, é
reajustada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial – IPCA-E84
e não pela real variação dos valores dos bens85 (GOMES, 2008; ALMEIDA, 2009).
Ressalta-se que a atualização da “Planta de Valores Genéricos” do Município para
fins de incidência do IPTU está condicionada à aprovação de Lei específica pelo Poder
Legislativo, o mesmo não ocorrendo para a incidência do ITBI, permitindo-se, então,
a atualização dos valores dos imóveis transacionados pelo Poder Executivo municipal.
Retomando o tema central deste tópico, as instituições governamentais
destinadas à produção de moradias também se qualificam como agentes
(re)produtores do espaço. Historicamente criadas pelo Estado, tais instituições agem
no setor imobiliário de duas formas: (i) como promotoras imobiliárias, intervindo
diretamente na construção de habitações, com recursos do próprio Estado, para
serem vendidas ou alugadas para a população diretamente interessada; (ii) como
financiadoras imobiliárias, atuando indiretamente, mediante o fornecimento de
recursos ou subsídios (isenção de tributos, etc.) às instituições financeiras, aos
incorporadores ou à indústria da construção civil, com o fim de aumentarem o estoque
habitacional, sobretudo para a população de baixa renda (BÓGUS, 1987).
O antigo BNH e o atual PMCMV, a despeito das inúmeras críticas a eles
direcionadas (BOLLAFFI, 1979; OLIVEIRA, 1979; VILLAÇA, 1986; VÉRAS;
BONDUKI, 1986; SANTOS, 1990, 2009; SMOLKA, 1991; MARICATO, 2011),
constituem exemplos de programas implementados pelo Poder Público voltados ao
financiamento e à produção de empreendimentos habitacionais; ou seja, ao local de
consumo e reprodução da força de trabalho. Embora, nesse caso, das classes menos
abastadas.
A necessidade de reprodução da força de trabalho das classes em geral é
“traduzida num conjunto específico de atividades de produção e consumo dentro da
unidade familiar, numa economia doméstica que, se quiser funcionar bem, requer,
valores de uso sob a forma de ambiente construído” (HARVEY, 1982, p. 7). O espaço,

84
Produzido pelo IBGE, desde 1991, o IPCA-E realiza um balanço trimestral da inflação e é
correntemente utilizado como índice de reajuste do IPTU (IBGE, 2014).
85
Forçoso mencionar que, especificamente em relação à cobrança do ITBI, o Órgão arrecadador
municipal adota o maior valor venal do bem para servir como base de cálculo do imposto. Ou seja, caso
o valor previsto na “Planta de Valores Genéricos” seja inferior àquele autodeclarado quando da
transferência – transmissão ou cessão – da propriedade do bem imóvel, aplica-se o valor declarado na
transação e promove-se a atualização da “Planta de Valores Genéricos”. Entretanto, via de regra, as
informações autodeclaradas quanto ao valor do imóvel são subestimadas, prática que se manifesta
sobretudo quando o imóvel não é novo ou financiado (AGUIAR; SIMÕES, 2012).
99

enquanto mercadoria, representa uma condição básica de vida para a força de


trabalho e, nesse sentido, engloba um conjunto de recursos que influenciam
diretamente no direito de habitar com dignidade – sejam elementos de uso comum
(saúde, transporte, educação, lazer, recreação, desporto, etc.), sejam aqueles que
podem ser privativamente apropriados (habitação).
Dada à necessidade de controle e administração coletiva do ambiente
construído, ele acaba se tornando um importante campo de disputa entre o capital e
a força de trabalho, em torno do que é bom para a acumulação e do que é bom para
as pessoas. Luta travada sobre as condições de existência no local de morada e
convivência. Admitindo-se que as terras mais disputadas estão localizadas em áreas
com vantagens localizacionais, é possível prever que as pessoas se distribuirão pelo
espaço de acordo com a distribuição das oportunidades de emprego e as propensões
para consumir serviços de transporte e utilidades para se viver, dentro de suas
limitações orçamentárias. Em tais condições, a disputa competitiva gerará uma
superfície diferencial de renda e o ambiente construído refletirá, em grande parte, a
estratificação social e salarial entre seus usuários (HARVEY, 1982).
O regulador da ocupação do espaço é, portanto, o valor do solo urbano, o qual,
na qualidade de mercadoria, está sujeito às regras do sistema produtivo e de consumo
(BLAY, 1979). Para realizar seu intento, a cidade cresce atendendo aos interesses
econômicos e muito precariamente aos interesses dos habitantes. Como resultado,
verificam-se as zonas segregadas, a multiplicação de favelas, a expulsão da massa
de trabalhadores para áreas periféricas, os subúrbios mal equipados, as cidades
dormitórios, entre outros tantos aspectos patológicos de um desenvolvimento urbano
marginal, que alija grande parte da população dos diversos serviços urbanos (MEYER,
1979).
Verifica-se então que, apesar da produção do tecido urbano ser uma obra
coletiva, os interesses dos diferentes agentes produtores do espaço nem sempre
convergem para ações comuns, posto que o valor de uso para um, num determinado
momento, pode representar o valor de troca para outro, podendo ocorrer situações de
conflito no tocante ao uso do solo (HARVEY, 1982; BÓGUS, 1987; LOGAN;
MOLOTCH, 1987). De tal modo que, “sob a problemática de crise urbana, se esconde,
na verdade, uma crise de reprodução do capital” (BLAY, 1979, p. 17), ou a manifesta
diferença entre os insiders e os outsiders (ELIAS; SCOTSON, 2000).
100

2.3 A cidade como locus do processo de acumulação de capital

No sistema capitalista, o espaço citadino está sujeito a uma contínua


redefinição de formas e conteúdos, ensejando, pois, a também contínua
transformação da estrutura interna da cidade. Conforme Lacerda (2012), a
reorganização econômica advinda da passagem da sociedade industrial para a
sociedade da acumulação flexível intensificou os processos de reestruturação das
cidades, em particular nas metrópoles latino-americanas, como forma de ajustar suas
configurações espaciais, suas formas, às novas necessidades da economia
globalizada.
A medida em que a cidade cresce, centros secundários de habitação e serviços
vão surgindo em áreas não tradicionais (fora da região central), formando novos focos
de valorização do espaço urbano. O espaço se fragmenta em função de interesses
privados, em que o valor de troca tende a se sobrepor ao valor de uso, num cenário
de especulação imobiliária e contradições – diferentes classes de renda, várias formas
de ocupação do solo, exclusão e segregação –, colocando em xeque antigas relações
socioespaciais para atender a essa nova ordem. Tal perspectiva, além de corroborar
o modelo de cidade fragmentada de Bär; Borsdorf; Janoschka (apud BORSDORF,
2003), expressa os variados padrões de uso e ocupação do solo, assim como os
diferentes níveis de infraestrutura e prestação de serviços, impostos pela
segmentação econômica do espaço citadino.
Esse movimento, além de revelar a essência da urbanização contemporânea,
em que o espaço figura como condição à reprodução do capital, pressiona a
implementação de políticas urbanas, por parte do Estado, orientadas à reestruturação
de grandes áreas, a fim de viabilizar a produção de um “novo espaço” na cidade e a
valorização do solo.
Se, num primeiro momento, a urbanização das cidades latino-americanas, e
especialmente das brasileiras, caracterizou-se pela concentração das principais
atividades econômicas e de decisão, além das infraestruturas e serviços urbanos, na
área central. A segunda fase ficou marcada pelo paulatino abandono do centro por
quase todas as atividades de prestígio do setor comercial e de serviços.
Concomitantemente, a região central também deixou de ser o local privilegiado de
ocupação residencial das classes mais abastadas, que se deslocaram para os
condomínios de luxo localizados nas margens urbanas, próximas a eixos rodoviários,
101

diretamente conectados com as áreas centrais da cidade – as denominadas “periferias


dos ricos” (LACERDA; ZANCHETI; DINIZ, 2000). Emergindo, daí, um capital
construído ocioso, caracterizado pela baixa rentabilidade, significando, portanto, uma
desvalorização da riqueza construída, pública e privada.
A constituição dos territórios paulistano e belo-horizontino, em linhas gerais,
espelha essa dinâmica de espacialização centro-periferia, denotando um processo
“randômico” de apropriação da renda do solo urbano, que reforça a desigualdade e a
exclusão. No caso da cidade de São Paulo, verifica-se uma desvalorização da área
central provocada pela transferência das atividades econômicas, financeiras e de
serviços para a região da Avenida Paulista – que passa a ser apresentada como “novo
centro de São Paulo”86 –, concomitantemente à alocação de condomínios de luxo em
regiões periféricas da cidade (cujo exemplo mais paradigmático é Alphaville87).
A valorização simultânea de áreas distintas da cidade, com atração do capital
e maior extração de rendas fundiárias, segue seu curso ao promover a “regeneração”
de áreas degradadas por intermédio das Operações Urbanas Faria Lima e Água
Espraiada, por exemplo, transformando uma antiga área alagadiça (as várzeas do rio
Pinheiros) – que ainda dispunha de terrenos extensos e baratos, com um valor
fundiário bastante promissor –, em uma das regiões mais valorizadas de São Paulo
e, atualmente, sua fachada globalizada, cuja transformação restou marcada por um
processo gentrificativo de mutação social (FIX, 2009; CARVALHO, 2013).
Dentro deste contexto, Véras aponta que:

Os deslocamentos se submetem ao marketing imobiliário, uma verdadeira


autofagia urbana, em que se abandonam patrimônios edificados (valores de
uso) sob o argumento de deterioração do estoque imobiliário, da degradação
dos espaços públicos pela poluição, presença de camelôs, mendigos,

86
“Na década de 1960, a região da Avenida Paulista – antiga sede dos casarões da elite cafeeira –
começa a ser apresentada como ‘novo centro’ de São Paulo, ao mesmo tempo em que o centro da
cidade propriamente dito passa a ser considerado ‘decadente’ pelas elites, na medida em que crescem
o comércio e os serviços orientados para as camadas populares. (...). No final da década de 1970, o
capital imobiliário avança no sentido sudoeste, na direção da Avenida Faria Lima e, posteriormente,
das avenidas Luis Carlos Berrini e da marginal Pinheiros. (...). Em pouco tempo, com apenas parte do
projeto executado, a Faria Lima passou a ser considerada uma espécie de sucessora da Avenida
Paulista, até então identificada como endereço de maior prestígio na metrópole” (FIX, 2009, p. 46-47).
87
A implantação dos condomínios fechados Alphaville na periferia de São Paulo iniciou-se na década
de 1970 e, atualmente, conta com vários residenciais fechados e fortemente vigiados, além de um
diversificado e dinâmico centro comercial e de serviços (incluindo escolas, shopping centers,
supermercados, edifícios comerciais, etc.) que garantem a conveniência dos moradores. Esse modelo
de empreendimento residencial horizontal, que emergiu em 1973, em Barueri (SP), rompeu o espaço
territorial paulistano em 1997 e, atualmente, se faz presente em 21 estados brasileiros. Em Minas
Gerais, faz-se especial menção ao empreendimento denominado “Alphaville Minas Gerais”, ocupando
uma área equivalente a 873.283 m², localizada no Vetor Norte da RMBH, mais precisamente no
município de Vespasiano, próximo ao Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais (CAMG) e ao
aeroporto internacional de Confins.
102

assaltantes. Emblemático parece ser o caso da Avenida Paulista, outrora


símbolo e vitrine da cidade e que hoje vê diminuir seu prestígio para as Avs.
Luiz Carlos Berrini e nova Faria Lima. (VÉRAS, 1999, p. 76).

O circuito de valorização-desvalorização do solo urbano retorna ao ponto de


partida ao promover a reabilitação da região da Luz – centro histórico de São Paulo,
assinalando um processo marcado por práticas e discursos de “requalificação” e
“revitalização”, contraposto a outros “sub-centros” de considerável expressão
(FRÚGOLI JR.; SKLAIR, 2009; ALVES, 2011). Desse modo,

os ocupantes da cidade, seus usuários e habitantes, muitos migrantes,


(dês)territorializados e (re)territorializados, perdem novamente suas novas
raízes, cada vez mais expulsos pelos mesmos processos; por segregação e
gentrification que são mais numerosas na história social e urbana do que os
capítulos voltados à garantia dos direitos à moradia e ao espaço urbano.
(VÉRAS, 1999, p. 76).

Tal perspectiva aplica-se igualmente à Belo Horizonte, cujas atividades


econômicas inicialmente alocadas em sua região central deslocam-se, com o tempo,
para a região da Savassi e, posteriormente, para o extremo sul da cidade (bairro
Belvedere), conformando novas polarizações de atividades comerciais e de serviços
de consumo dos setores privilegiados88. É a região sul da cidade que concentra
grande parte das residências das classes altas, além de fazer divisa com o Município
de Nova Lima, no qual se localizam os inúmeros condomínios residenciais que
abrigam a parcela mais rica da população belo-horizontina. Recentemente, a região
central da cidade passou a ser objeto de políticas de “reestruturação” urbana, a fim de
promover a “renovação” da área, o adensamento residencial e a alteração dos usos.
Há, inclusive, a proposta de realização de uma Operação Urbana Consorciada (OUC),
denominada “Nova BH”89, objetivando promover o renascimento urbano em áreas
importantes da cidade, especialmente a Lagoinha e o Centro Histórico. Dentre os

88
Há, nesse sentido, o surgimento de um “novo centro” na cidade, cujo espaço é ocupado pela classe
dominante, com a concentração de importantes elementos da estrutura urbana. Simultaneamente,
verifica-se o abandono do “centro velho” (outrora “principal”) pelas classes de alta renda e sua
substituição pelas camadas mais baixas da população. Processo que, aos olhos da minoria dominante,
é chamado de decadência. “O centro da cidade mudou”. E é essa ideia que a ideologia dominante
procura difundir: “de que o centro da cidade é o seu centro, mesmo que seja centro de uma minoria”
(VILLAÇA, 1997, p. 1.383).
89
A OUC “Nova BH” suscitou inúmeras controvérsias e, diante da forte oposição da sociedade civil,
sobretudo pela ausência de discussão das políticas públicas a serem implementadas com a população,
a Prefeitura de Belo Horizonte paralisou o andamento do projeto, abandonou sua antiga denominação
(passando a adotar o termo OUC Antônio Carlos/Pedro I e Leste Oeste) e, mediante e deliberação
conjunta com a sociedade, irá formular uma nova proposta. Em virtude de tais modificações, o projeto
terá que ser novamente submetido à votação no Conselho Municipal de Políticas Urbanas (Compur)
antes de ser finalizado e encaminhado à Câmara Municipal da capital.
103

objetivos econômicos da proposta destacam-se: (i) promover uma renovação


imobiliária em áreas hoje degradadas ou desprovidas de infraestrutura urbana; (ii)
criar novos centros de serviços e comércio na cidade, aumentando a oferta de trabalho
mais próximo da residência e desafogando o trânsito da cidade; (ii) oferecer novas
oportunidades de crescimento para o setor imobiliário local, aquecendo a economia e
gerando empregos (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2013b).
Assim, a reestruturação de regiões já ocupadas favorece que áreas tidas como
obsoletas, decadentes ou em processo de degradação social sejam reinseridas no
mercado imobiliário, mediante nova configuração e atribuição de vantagens
locacionais. “A anulação do espaço anterior pode, com efeito, ser total: expropriação
jurídica, expulsão ou deportação dos usuários anteriores, arrasamento do quadro
construído, etc.” (LIPIETZ, 1988, p. 142). A consequência, conforme Fix (2009, p. 45),
é a consolidação de “uma ‘nova cidade’ para poucos – que concentra investimentos
públicos e privados, cresce em metros quadrados construídos, mas perde população”
–, cujos novos parâmetros de adensamento verticalizado promove uma “limpeza
social”, expulsando para a periferia os “rejeitos populacionais” da cidade.
Nesse aspecto, Préteceille (1994, p. 66) chama atenção para o vínculo
existente entre a transformação econômica característica da globalização das cidades
e a intensificação de sua dualização social e urbana, na medida em que o eventual
êxito econômico – “longe de ajudá-las a melhor solucionar seus problemas sociais e
urbanos” – acaba, em regra, agravando os contrastes sociais urbanos. Em
continuidade, o autor ressalta que:

A reestruturação econômica característica da cidade global também


contribuiria para a dualização – desta vez espacial – pelos mecanismos do
mercado fundiário e imobiliário, já que a concorrência entre os diferentes usos
possíveis do espaço leva à apropriação cada vez mais exclusiva dos espaços
mais valorizados-procurados-bem atendidos-etc. pelas funções que
fornecem o maior lucro (funções financeiras e serviços anexos) ou que
correspondem ao consumo de luxo (moradia das classes abastadas, hotéis e
restaurantes de luxo, galerias e lojas de modas...). (PRÉTECEILLE, 1994, p.
79).

As transformações socioespaciais na cidade são reguladas, então, pela lógica


da acumulação do capital, ocasionando, como resultado, o desenvolvimento desigual
e injustiças sociais que se distribuem tanto espacialmente quanto demograficamente.
Por conseguinte, o ambiente construído tornou-se cenário de altos e baixos cíclicos
no mercado imobiliário, com a existência paralela de deterioração e superconstrução,
produzidos simultaneamente pelo processo de construção espacial da cidade; ou seja,
104

o crescimento desigual é intrínseco à natureza capitalista do desenvolvimento. De


modo que a revitalização de áreas degradadas constitui-se como um produto da
articulação entre os programas de governo e o planejamento urbano implementados
pelo Estado e os interesses do capital monopolista dentro da cidade, que se juntam
para desvalorizar a infraestrutura representada pelo ambiente construído do passado,
para remover sua presença física, que constituía entrave à alocação de novos
investimentos, e para desobstruir áreas estratégicas para novas construções,
resgatando, pois, o valor da terra (GOTTDIENER, 1997).
Diante da mudança dos tipos de uso do solo, abrem-se novos caminhos de
desenvolvimento para a absorção do excedente de capital, em que as ondas de
inovação tecnológica e organizacional promovem drásticas transformações na
paisagem geográfica, implicando em episódios de destruição criativa90, nos quais um
conjunto de formas dominantes (desvalorizado) é sucedido por outro (valorizado),
originando novas geografias. Ao promoverem a reconstrução de regiões urbanas
degradadas, com a implementação de obras de infraestrutura e alocação de
equipamentos urbanos (por exemplo), as políticas de destruição criativa favorecem a
sobrevivência do capitalismo (HARVEY, 2005a, 2005c, 2011b, 2012, 2013c). A
cidade, então, cresce, “mas cresce consumindo-se num movimento perene de
demolições e de autodestruição”, de modo a permitir futuros investimentos de capital
em um novo espaço para a acumulação (BOLLAFFI, 1979, p. 60).
Verifica-se, pois, a contínua luta travada pelo capitalismo na (re)produção do
espaço, expressa na construção de uma paisagem física apropriada à sua condição
em um determinado momento, apenas para poder destruí-la, geralmente em épocas
de crise, em um momento subsequente, como forma de adaptá-la às novas
necessidades da acumulação (HARVEY, 2005a). Como assinala Gottdiener,

o efeito total dessas contradições produz uma paisagem urbana que é o


resultado de um processo contingente, não-funcional de desenvolvimento
desigual. Fenômenos como deterioração, especulação, altos e baixos na
propriedade, poluição, os padrões espaciais diferenciais de áreas
residenciais etc., são produzidos pelo próprio processo de desenvolvimento
capitalista da terra, pois esse processo é descoordenado e anárquico.
(GOTTDIENER, 1997, p. 107).

90
Harvey (2013a) alude à política popularizada por Joseph Schumpeter, denominada como “destruição
criativa”, pela qual promove-se inovações na economia de mercado através da destruição de antigos
modelos de negócio.
105

Esse desenvolvimento objetiva, sobretudo, a absorção de capital excedente,


sustentando os níveis de lucro e maximizando o retorno dos valores de troca,
independentemente das demandas de valor de uso e da satisfação das necessidades
das pessoas. Onda após onda de destruição criativa, verificam-se desapropriações e
massivos deslocamentos populacionais, resultando na ruptura dos laços sociais e no
acirramento da segregação espacial, tanto física quanto simbólica, no espaço citadino
(HARVEY, 2014).
Ancorando-se na “necessidade” de tornar-se uma cidade mais competitiva no
cenário global, as diferentes abordagens utilizadas para referenciar as diversas
formas de reestruturação urbana91 (reconstrução, renovação, reabilitação,
revitalização, regeneração, requalificação, etc.)92, intentam, deliberadamente,
neutralizar a imagem negativa da gentrificação e garantir a legitimidade das políticas
neoliberais, ocultando a crescente mercantilização do espaço, o agravamento das
desigualdades sociais e da exclusão socioespacial decorrentes da lógica do
“aburguesamento” (SMITH, 2006; ARANTES, 2002; CLARK, 2010; LEES, 2008; LEES
et al., 2007; CASGRAIN; JANOSCHKA, 2013).
Nesse contexto, alterações de zoneamento; flexibilização das normas relativas
ao parcelamento, ocupação e uso do solo e dos códigos de edificação (elevando o
potencial construtivo de diversas áreas e o gabarito de outras especialmente
cobiçadas pelos construtores, por exemplo); edificação de rodovias e outros
melhoramentos de infraestrutura; subsídios públicos de todas as espécies; etc., são

91
Segundo Villaça (1998, p. 13), “o simples registro de transformações espaciais não é suficiente para
caracterizar a estruturação ou a reestruturação. É preciso mostrar como mudanças em um elemento
da estrutura provocam mudanças em outros elementos”. Para ele, pode haver a renovação de um
bairro, por exemplo, sem necessariamente haver a sua reestruturação, caso tal bairro não perca sua
importância, natureza, classe social e localização.
92
A utilização desses termos, na literatura urbana, visa expressar diferentes formas de intervenção no
tecido urbano, em que pode ou não haver alteração de usos. O primeiro, reestruturação urbana, tem
por objetivo a introdução de novos elementos estruturantes do aglomerado urbano ou de uma área
urbana. A renovação urbana corresponde ao processo de substituição do patrimônio urbanístico ou
imobiliário (edificações, malha viária, etc.), no seu todo ou em parte substancial, por modelos
contemporâneos, seja pela atuação da iniciativa privada, seja pela ação planificadora do Estado. A
reabilitação, por sua vez, constitui um processo integrado de recuperação, manutenção e conservação
do patrimônio urbanístico e imobiliário existente, com a realização de obras de modernização que o
torne mais atrativo e dinâmico, melhorando suas condições de uso socioeconômico. A revitalização
implica na recuperação de edifícios em áreas urbanas degradadas, com apoio às estruturas sociais,
econômicas e culturais locais. Embora o termo sugira espaço sem vida, não significa dizer que não
haja vida no espaço negligenciado. A requalificação expressa processos de renovação e/ou reabilitação
que procuram conferir nova(s) função(ões) a determinadas áreas, diferentes daquelas pré-existentes.
E, por fim, a regeneração envolve intervenções proativas de substituição de antigos usos por outros
mais adaptados à sociedade de consumo, com forte incidência nas áreas industriais e portuárias
(MERLIN; CHOAY, 1996; DGOTDU, 2000; 2013).
106

apenas algumas das formas pelas quais se manifesta a articulação Estado-setor da


propriedade (GOTTDIENER, 1997; CARVALHO, 2013)
No atual estágio do capitalismo, a (re)produção dos espaços urbanos volta-se
fundamentalmente para a atração de investimentos financeiros, seja através da
construção de centros comerciais, de negócios ou de tecnologia, seja pela
implementação de empreendimentos destinados ao turismo e ao lazer (como salões
de convenção, arenas esportivas, shopping centers, centros culturais, etc.), tudo sob
a ótica da globalização das cidades e, ao mesmo tempo, em contradição com os
princípios constitucionais de política urbana previstos no art. 182 da CR/88.
De acordo com Gottdiener e Feagin (1989), as cidades vêm implementando
esquemas ambiciosos de reestruturação, subsidiados com recursos públicos e
mediante a intervenção do Estado. No ensaio, os autores enfatizam que a
reestruturação tem sido mais benéfica às Instituições Financeiras e resultam na
edificação de altas torres de escritórios no centro das cidades, propiciando a mudança
para a especialização funcional em sistemas globais de atividades administrativas e
financeiras.
Como consequência, alteram-se as necessidades de mão de obra, para
atender à demanda das novas funções do centro, ocasionando a renovação
arquitetônica e o enobrecimento de algumas residências. Para eles, o financiamento
e o estímulo à reestruturação de áreas corporativas e residenciais têm sido
constantemente subsidiados pelas condições de produção. Não surpreende que a
essência da renovação urbana seja a produção de enclaves fortificados (CALDEIRA,
2000) ou, segundo a designação de Davis (1989), de “grandes viveiros” para a classe
média alta, incorporando espaços pseudonaturais e pseudopúblicos, com estruturas
protegidas por sistemas de segurança surpreendentemente complexos.
Assim, os agentes econômicos produtores do espaço agem no sentido de
garantir um processo perene de reorganização espacial, intensificando o uso do solo;
provocando a deterioração de certos espaços para, no período seguinte, promoverem
sua revitalização urbana; influenciando na alocação diferenciada de infraestrutura e
equipamentos urbanos; promovendo a incorporação de novas áreas ao mercado
imobiliário, etc.. Tudo com a finalidade precípua de “fazer dinheiro, acumular capital,
armazenar excedentes; todos os seus empreendimentos são apenas meios para
atingir esse fim, não têm em si senão um interesse transitório e intermediário”
(BERMAN, 1986, p. 92).
107

Destaque-se o caráter crônico dessa situação dentro do modelo vigente de


crescimento urbano, na medida em que a melhora nas condições de acessibilidade e
infraestrutura e, por conseguinte, o correspondente aumento do preço da terra,
implicam na impossibilidade da população majoritária vir a se beneficiar dos novos
investimentos (COSTA, 1978).

Embora não se possa generalizar os programas de renovação urbana, que


variam no tempo e no espaço, é indubitável que eles têm por resultado mais
comum a recuperação das áreas em deterioração para o uso das camadas
média ou rica e das empresas que lhes prestam serviços. Os antigos
moradores destas áreas nada ganham com a renovação. Não tendo poder
aquisitivo para continuar na zona renovada, são obrigados a se mudar, o que
significa o mais das vezes maior distanciamento do trabalho, quando não
perda do mesmo, pagamento de aluguel mais elevado (porque a renovação
urbana reduz a oferta de alojamentos baratos) e a perda das relações de
vizinhança, o que, para pessoas pobres e desamparadas, pode ser o prejuízo
mais trágico. (SINGER, 1979, p. 33).

Em última análise, “a propriedade privada do solo urbano faz com que a posse
de uma renda monetária seja requisito indispensável à ocupação do espaço urbano”
(SINGER, 1979, p. 33). Mesmo quando as políticas públicas lidam com programas de
habitação popular, financiamentos imobiliários, etc., como no BNH e no atual PMCMV,
não chegam a eliminar as contradições existentes, porquanto têm como finalidade
precípua organizar o espaço para assegurar o desenvolvimento das forças produtivas,
da acumulação do capital e da reprodução da força de trabalho (MEYER, 1979;
VÉRAS; BONDUKI, 1986). Assim, parte significativa da população que não tem
condições financeiras para pagar pelo direito de ocupar uma parcela do solo urbano
acaba ocupando áreas em que os direitos de propriedade não vigoram, dando ensejo
a invasões, formações de favelas, etc. (SINGER, 1979, p. 33). O que, em última
análise, contribui para a (re)distribuição desigual dos serviços públicos e o
consequente aumento dos custos sociais.

2.4 Cenários urbanos: práticas de valorização do espaço

As cidades capitalistas de hoje, em seu estágio globalizado, informacional e


tecnológico, assumem um protagonismo inegável na vida cotidiana dos cidadãos –
fomentando transformações urbanísticas, criação de empregos, prestação de serviços
básicos, proteção do patrimônio, etc. –, e, ao mesmo tempo, a partir de ambiciosos
108

projetos estratégicos93, atuam no sentido de flexibilizar suas estruturas produtivas e


comerciais, atrair investimentos, promover o turismo e a realização de grandes
eventos, etc., capacitando-as à inserção nas redes da economia global e
competitividade nacional e internacional94 (CASTELLS; BORJA, 1996). Ao que
parece, as cidades se vendem freneticamente, mediante a afirmação de sua
competitividade e respectivas vantagens localizacionais (WARD, 2004).
Aspectos que, segundo Harvey (1989), constituem o denominado
“empreendedorismo urbano”, em que as cidades, na condição de mercadorias, são
adequadas à ordem econômica mundial. Denotando, de igual modo, um projeto de
cidade em que se articulam, paradoxalmente, três analogias que o constituem: a
cidade é uma mercadoria, a cidade é uma empresa, a cidade é uma pátria” (VAINER,
2002, p. 77).
Os planos de gestão estratégica e o city marketing (ou marketing de cidade)
surgem como importantes instrumentos do planejamento urbano atual, destinados a
fomentar o crescimento econômico e o desenvolvimento da cidade. A adoção de
práticas de city marketing busca promover uma imagem de cidade que propicie a
projeção dos seus principais “produtos” no exterior (como turismo, cultura, qualidade
de vida, serviços avançados, entre outros), incrementando sua “venda” no competitivo
mercado internacional (captando investimentos, atraindo turistas, criando empregos,
etc.) (BORJA; CASTELLS, 1997; SALGUEIRO, 1999b; MENDES, 2008b).
Nessa nova dinâmica, as políticas urbanas do city marketing são orientadas à
criação ou ao atendimento das necessidades do público consumidor – empresas,
turistas e os próprios moradores (KOTLER et al., 1993). De tal forma que, ficam
evidentes as “conexões entre sociedade de consumo e uma nova concepção de
cidadania, o cidadão é confundido com consumidor e, por sua vez, a cidade com o
mercado” (SÁNCHEZ, 1999, p. 124). Por outro lado, os planos estratégicos propõem
políticas integradas de longo prazo, destinadas à execução de grandes projetos que
conciliam medidas de crescimento econômico e desenvolvimento urbano, com

93
Segundo Ferreira (2005), o planejamento estratégico deriva das estratégias militares traçadas para
dirigir e planificar os movimentos e as operações de guerra, a partir da gestão dos recursos disponíveis
e dos meios operacionais. Os princípios e metodologias utilizados nas operações militares aplicaram-
se, inicialmente, na moderna gestão de empresas e grandes organizações. Para além da gestão
empresarial, o planejamento estratégico passou a ser utilizado na gestão de cidades e regiões, num
processo dinâmico, contínuo e de constante realimentação de situações, propostas, resultados e
soluções, que subsidiam as tomadas de decisões (econômicas, sociais, culturais, urbanísticas e
ambientais).
94
Para tanto, as cidades “devem responder a cinco tipos de objetivos: nova base econômica, infra-
estrutura (sic) urbana, qualidade de vida, integração social e governabilidade” (CASTELLS; BORJA,
1996, p.155).
109

tomadas de decisões de riscos, formulação de indicadores de seguimento e


envolvimento de agentes públicos e privados ao longo do processo (SÁNCHEZ,
1999).
Subjacente às mudanças regenerativas da paisagem urbana verificam-se as
forças sociais, políticas e econômicas responsáveis pela reformulação das sociedades
capitalistas avançadas: reestruturação da base industrial; o fortalecimento do setor de
serviços e a consequente transformação da classe trabalhadora, e também da
estrutura de classe em geral; e as formas de manifestação da intervenção estatal e
da ideologia política, visando a privatização do consumo e do fornecimento de
serviços (SMITH; WILLIAMS, 2010). Assim, a competitividade revela “a sua
verdadeira face: competitividade combinada com conectividade, inovação,
flexibilidade institucional, em suma, identidades locais ‘interagindo’ com as redes
globais” (ARANTES, 2002, p. 69).
A condução dos novos processos de planejamento e gestão estratégicos das
cidades tende à superação do paradigma racionalista e do zoneamento funcionalista
– cujas raízes remontam ao período inicial da industrialização95 –, caracterizados pela
forte intervenção normativa e providencialista da administração pública, no sentido de
ordenar e controlar o crescimento urbano (ARANTES, 2002). De acordo com esse
modelo, os planos urbanísticos se arrogam a capacidade de encaixar o devir
econômico e social num quadro espacial previamente definido. Ou seja, “neste
paradigma de planeamento (sic), é a realidade – econômica, social e cultural – que
tem que se adaptar aos planos e não os planos à evolução dessa realidade”
(FERREIRA, 2005, p. 65).
Nessa vertente, o plano urbanístico de Haussmann para a reorganização e
expansão da cidade de Paris (1853-1870), com a abertura das grandes avenidas
(boulevards), que convergem na Place de l’Étoile, foi o pioneiro desse movimento de
inspiração funcionalista. O plano de modernização de Paris conjugou a exaltação do
II Império com a necessidade de sanear os bairros insalubres96 – principal foco das

95
O modelo racional-funcionalista influenciou a cidade moderna, planejada, com as funções da cidade
– trabalho, habitação, lazer e circulação (segundo os princípios urbanísticos da Carta de Atenas, 1933)
–, delimitadas em seu espaço físico-territorial, e teve como marco histórico, no Brasil, a implantação do
projeto de Lucio Costa em Brasília (1956-1960).
96
O mesmo discurso higienizador foi adotado nos Código de Posturas Municipais de São Paulo (1886)
e do Rio de Janeiro (1889). “A necessidade de demolição dos cortiços insalubres era sistematicamente
invocada para a proteção da saúde pública, porém, eles somente eram demolidos nas áreas mais
centrais da cidade, especialmente para dar lugar as grandes avenidas que viriam para “embelezar e
modernizar” nossas cidades (como se alegava na época), ou seja, abrir espaços para a frutificação do
capital imobiliário” (VILLAÇA, 1986, p. 15).
110

revoltas populares de 1848 (BRESCIANI, 2004; FERREIRA, 2005) –, cujo êxito prático
angariou seguidores em diversas cidades da Europa e do mundo, influindo inclusive
nos trabalhos da Comissão Construtora que concebeu o traçado da cidade de Belo
Horizonte, em 1987.
A contínua formação de centros urbanos, trazendo consigo graves problemas
relacionados à ocupação desordenada do espaço, passou a exigir a edição de normas
técnicas de planejamento e construção de cidades (HARADA, 2005), visando à
melhoria das condições de vida dos cidadãos, à vitalidade econômica e cultural e ao
desenvolvimento. Conforme Ferreira (2005), o planejamento estratégico aplicado à
gestão das cidades ocorreu, de forma pioneira, na cidade de São Francisco
(Califórnia), em 1981, pela iniciativa de grandes empresários, preocupados com a
crise fiscal e financeira que se instalara na cidade. Em articulação com o Município,
os grandes empresários recorreram às técnicas do planejamento estratégico
empresarial para promoverem a gestão das transformações urbanas, espaciais e
funcionais, assim como a instalação das infraestruturas e equipamentos necessários
ao fomento do desenvolvimento econômico da cidade. Ferreira salienta, ainda, que:

Enquanto o planeamento (sic) territorial convencional se ocupa


fundamentalmente dos elementos físicos – usos do solo, infra-estruturas (sic)
e equipamentos –, o planeamento (sic) estratégico visa definir e realizar um
projeto de cidade, reforçar a competividade e melhorar a qualidade de vida97.
“Projeto de cidade” esse que unifica diagnósticos, coordena actuações (sic)
públicas e privadas e estabelece um quadro (processo) coerente de
mobilização e cooperação dos actores (sic) sociais urbanos. Não é um
sistema normativo, nem um programa. É um projecto (sic) de futuro para uma
cidade ou região e, sobretudo, um “contrato” de gestão entre actores políticos,
económicos (sic) e sociais para o progresso desse território. (FERREIRA,
2005, p. 124).

Atualmente, segundo Harvey (1989, 2005a), há um consenso geral em todo o


mundo capitalista avançado – difundido nas fronteiras nacionais, nos partidos políticos
e mesmo nas ideologias –, de que os benefícios positivos são obtidos pelas cidades
que adotam um comportamento empreendedor em relação ao desenvolvimento
econômico. Para o autor, o empreendedorismo urbano, poderia ser entendido como o
padrão de conduta na governança urbana que combina Poder Público (local, regional,

97
Importa aclarar que, embora de naturezas distintas, o planejamento estratégico e o planejamento
territorial são complementares entre si, na medida em que o primeiro – compreendendo o objetivo, as
ações e os meios para atingi-lo –, carece do segundo (definição da localização das atividades humanas)
para a concretização das ações de natureza espacial, as quais, segundo Ferreira (2005), têm
predominância na qualificação e no reforço da competitividade das cidades.
111

nacional ou supranacional), diversas formas organizacionais da sociedade civil98


(sindicatos, câmaras de comércio, instituições de ensino e pesquisa, grupos
comunitários, instituições religiosas, organizações não-governamentais, etc.) e
interesses privados (empresariais e individuais), formando alianças destinadas ao
fomento ou à administração do desenvolvimento urbano/regional.
De acordo com Harvey (1989, 2005a), o urbanismo empreendedor direcionado
à organização capitalista do espaço se revestiria dos seguintes elementos: (i) a
utilização da “parceria público-privada” (PPP) na governança urbana, promovendo a
integração entre a iniciativa tradicional local (capital privado) e os Poderes Púbicos
(local, regional, nacional), com o propósito de atrair fontes externas de financiamento
e novos investimentos, numa tentativa de recuperação/desenvolvimento de suas
economias; (ii) a essência empreendedora da PPP, face ao caráter especulativo do
seu projeto e execução, sujeitando-a a todos os obstáculos e eventuais riscos
associados ao desenvolvimento especulativo. O que, em muitos casos, ao contrário
do desenvolvimento racionalmente planejado e coordenado, implica na assunção dos
riscos pelo Poder Público e dos benefícios pelo capital privado. Embora ressalve haver
casos em que isso não se aplica, tornando a generalização absoluta um tanto quanto
perigosa; (iii) o enfoque mais direcionado à economia política do lugar do que o
território. Ou seja, o fomento de novas atividades (um novo parque industrial ou um
centro cívico, por exemplo) ou a melhoria das condições de um lugar (programas de
requalificação da mão de obra) beneficia, a princípio, somente a população da
jurisdição específica. Embora possa resultar em benefícios indiretos para áreas mais
abrangentes, sobretudo quando tais projetos têm escala metropolitana, superando as
disputas travadas entre as cidades. Diferentemente de projetos idealizados para o
território, como políticas de moradia ou educacionais, cujos benefícios compreendem
toda a jurisdição territorial, melhorando as condições de vida da população do território
como um todo.
Nessa vertente, Ferreira (2005) expõe que o planejamento estratégico
territorial, enquanto processo de ação e decisão, compreende, fundamentalmente: (i)
a construção de uma visão de futuro, prospectiva, definindo-se os objetivos e as metas

98
“Por sociedade civil entende-se o conjunto dos cidadãos, nas suas diversidades profissionais e
sociais, que constituem a sociedade e que exprimem a sua iniciativa e a sua vontade de participação
através das organizações, associações e estruturas muito diversificadas tendo por finalidade alcançar
objetivos de caráter económico (sic), social, cultural, educativo, desportivo, humanitário, cívico ou outro,
que não pertencem directamente (sic) à esfera política ou estatal”. (DATAR apud FERREIRA, 2005, p.
43).
112

desejáveis e possíveis, bem como as linhas estratégicas para o desenvolvimento, a


qualificação e a competitividade da cidade; (ii) a efetiva participação e empenho dos
atores urbanos na elaboração e execução dos eventuais projetos de desenvolvimento.
Constituindo-se como um fator legitimador das ações empreendidas, a partir da
identificação dos indivíduos e das organizações com o seu território (orgulho e
patriotismo relacionado com a cidade); (ii) a seleção dos projetos e ações-chave que
propiciem a evolução da cidade da situação de partida para o estágio ambicionado. O
autor destaca, contudo, que o êxito da ação estratégica da cidade condiciona-se à
liderança empenhada e afirmativa do representante do Poder Público competente
para conduzir as ações do plano estratégico99, concomitantemente à profícua
cooperação público-privada, na condução dos projetos e das ações nucleares da
estratégia definida.
Para tanto, Kotler et al. (1993), Salgueiro (1999b) e Ferreira (2005) sublinham
que a elaboração do plano estratégico deve começar pela realização de um
diagnóstico estratégico – baseado na matriz SWOT, da Harvard School (conhecido
como FOFA – forças, fraquezas, oportunidades e ameaças) –, que evidencie os
aspectos internos e externos da cidade. Pelo primeiro, analisa-se as características e
especificidades da cidade (“o que é”) e os principais fatores e atividades de
desenvolvimento (“o que faz”), determinando-se, a partir daí, seus aspectos positivos
(potencialidades/forças) e negativos (debilidades/fraquezas). A análise externa, por
sua vez, tende a avaliar as influências dos sistemas regionais, nacionais e
internacionais sobre o território da cidade, a fim de determinar as oportunidades e as
ameaças que a envolvem. Em ambos os casos – envolvente interna e externa –,
dever-se-á avaliar as “tendências de evolução” do território em estudo, distinguindo-
se entre tendências “pesadas” e tendências “emergentes”, conforme a visão
estratégica formulada: projeção internacional, nacional e/ou regional; inserção
competitiva nas redes de cidades; melhoria da qualidade de vida; vivência comunitária
e maior coesão social; sustentabilidade ambiental; competividade econômica; etc.. De
maneira que, no projeto estratégico da cidade, sejam realçados, em particular,

99
No Brasil, cabe ao prefeito, como chefe do Poder Executivo, a competência para conceber e executar
o plano estratégico da cidade, inclusive viabilizando meios para que haja uma articulação com as outras
esferas do Poder Público, seja em âmbito estadual, regional e/ou federal, no sentido de garantir a
promoção interna e externa da cidade. Deve-se ter em vista que, à câmara de vereadores, enquanto
Poder Legislativo, cabe exercer a fiscalização sobre as políticas públicas então adotadas no Município.
Em Belo Horizonte, a dinâmica da governança municipal é complementada pelo COMPUR – instância
de discussão e deliberação de políticas de planejamento urbano e gestão do território –, garantindo, ao
menos em tese, que a planificação da cidade seja democrática e participativa.
113

aqueles que poderão ser os atributos e recursos distintivos que garantam uma
vantagem competitiva à mesma.
As estratégias de desenvolvimento urbano variam de cidade para cidade,
baseados na realidade, nos recursos específicos (naturais, humanos, localizacionais),
no objetivo e no público a atingir. Segundo Harvey (1989, 2005a), há quatro
estratégias relativas ao empreendedorismo urbano, as quais, todavia, não se excluem
entre si. A primeira, enfoca o fomento de vantagens específicas destinadas à
produção de bens e serviços, mediante a exploração de recursos naturais ou da
localização estratégica; a criação, através de PPP, de infraestruturas físicas (como
transportes e comunicações, instalações portuárias ou aeroportuárias, saneamento
básico, etc.) e sociais (como educação, ciência e tecnologia, cultura, etc.) que
fortaleçam a base econômica da região; o estímulo à criação de novos produtos e
tecnologias; a redução dos custos locais (pela concessão de subsídios, renúncias
fiscais, crédito barato, aquisição de terrenos, etc.); a qualidade, quantidade e custos
da oferta local de mão-de-obra.
A segunda estratégia diz respeito à divisão espacial de consumo, em que a
região urbana buscar melhorar sua posição competitiva enfocando à qualidade de
vida100, o turismo, a cultura e o lazer, como forma de atrair maior público consumidor
(turistas). Nesse sentido,

a valorização de regiões urbanas degradadas, a inovação cultural e a


melhoria física do ambiente urbano (incluindo a mudança para estilos pós-
modernistas de arquitetura e design urbano), atrações para consumo
(estádios esportivos, centros de convenção, shoppings centers, marinas,
praças de alimentação exóticas) e entretenimento (a organização de
espetáculos urbanos em base temporária ou permanente) se tornaram
facetas proeminentes das estratégias para regeneração urbana. Acima de
tudo, a cidade tem de parecer um lugar inovador, estimulante, criativo e
seguro para se viver ou visitar, para divertir-se e consumir. (HARVEY, 2005a,
p. 174).

Apesar de, nesse caso, a concorrência interurbana e o empreendedorismo


tenham levado inúmeras cidades a adotarem práticas similares, promovendo
investimentos e inovações que as tornassem mais atraentes como centros de cultura

100
A qualidade de vida urbana, nesse aspecto, compreende um conjunto de atributos, bens e serviços,
de natureza material ou imaterial, que a cidade disponibiliza aos cidadãos e à comunidade,
possibilitando as condições de realização pessoal, profissional e familiar dos indivíduos, tais como:
acesso à habitação digna (ou seja, dotada de condições de conforto, segurança e funcionalidade);
prestação de serviços qualificados de educação, saúde, cultura, lazer e desporto; condições adequadas
de mobilidade; padrões urbanísticos, arquitetônicos e ambientais de qualidade estética, funcional e
saudável; segurança pública e assistência social (FERREIRA, 2005).
114

e consumo. Mesmo quando o resultado líquido tenha sido a reprodução em série de


museus 101 (como o Guggenheim, com instalações em Nova York, Bilbao, Veneza e
Abu Dhabi – este, ainda em desenvolvimento102), zonas portuárias renovadas (por
exemplo, Docklands – em Londres, Fisherman’s Wharf – em São Francisco, Puerto
Madero – em Buenos Aires), Disney Worlds (sediadas na Flórida, Califórnia, Paris e
Tóquio) e outros equipamentos espetaculares destinados à feiras e eventos
internacionais103 (como a Baltimore City Fair, a Exposição Internacional de Lisboa de
1998 – Expo’98, os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo, etc.). O risco, no entanto, é
a banalização da experiência cultural ou arquitetônica de cidades concorrentes frente
à massiva homogeneização dos espaços (HARVEY, 1982, 2011b).

A uniformização e as imagens repetitivas das cidades produzidas por essa


“nova” fórmula do planejamento estratégico leva à outra consequência, a
homogeneização das identidades. Uma das principais características do
espaço é a possibilidade da existência de multiplicidade e narrativas, onde há
a coexistência entre o encontro e as trajetórias e onde acontece ou não o
conflito. A partir do momento em que há a homogeneização do espaço,
muitas vezes promovidas e reforçadas pela mídia, as múltiplas identidades e
diferentes formas de vida social são simplificadas. As imagens produzidas
para a cidade constituem-se na negação da possibilidade de existência de
outras imagens e, consequentemente, de outras leituras, retirando da cidade
a multiplicidade e o conflito. Dessa forma, a cidade perde uma de suas
expressões sociais: a sua diversidade de leituras. (TEOBALDO, 2010, p.
145).

A terceira opção compreende as atividades de controle e comando referentes


às altas finanças, ao governo, à produção de conhecimento, à coleta e ao
processamento de informações. Tais atividades demandam a disponibilidade de
espaço adequado de trabalho, de mão-de-obra especializada e de infraestruturas
específicas de transportes e comunicação destinadas a minimizar os tempos e os
custos das transações.
Por fim, a quarta estratégia relaciona-se aos mecanismos redistributivos de
superávits pelos governos centrais, como forma de sobrevivência urbana, em um
cenário de barreiras espaciais reduzidas e de acirramento da concorrência interurbana

101
Geralmente encomendados a festejados arquitetos internacionais, “para que, através de projetos
envolvendo alta tecnologia ou citações pós-modernas construam uma verdadeira ficção de lugares
coletivos” (LIMA, 2004, p. 2), como chamariz para a espetacularização da obra e da cidade, em que o
valor de uso fica reduzido frente sua essência econômica.
102
Relevante mencionar que, no processo de expansão dos museus Guggenheim pelo mundo, alguns
projetos, por distintas razões, foram descartados pela da Fundação Solomon R. Guggenheim, dentre
eles: Ilha Formosa-Taiwan (China), Rio de Janeiro (Brasil) e Guadalajara (México).
103
Conforme Ferreira (2005), a realização de grandes eventos constitui, quando estrategicamente
articulada, uma oportunidade ímpar para desencadear profundas transformações nas cidades e nos
sistemas territoriais.
115

em função da globalização. Para Harvey (1989), as quatro estratégias não se excluem


mutuamente e os destinos desiguais das localidades resultam das coalizões
formadas, do mix de estratégias empresariais, dos recursos (naturais, humanos e
locacionais), com os quais a cidade pode contar e da força de competição resultante
de alianças entre cidades de regiões metropolitanas.
No entanto, Harvey (2005a) salienta que, devido ao caráter especulativo dos
investimentos estratégicos, o êxito das ações destinadas à “venda” de uma cidade
como local propício à realização de uma determinada atividade depende, em primeiro
lugar, da criação de uma imagem urbana atraente. Seguindo a mesma lógica do
marketing empresarial, a construção de uma “marca” para a cidade consiste, então,
no diagnóstico das potencialidades econômicas e sociais da localidade, face às
demandas das empresas e setores alvos, seguido da avaliação dos aspectos positivos
e negativos que deverão ser destacados ou modificados na divulgação da imagem da
cidade (COMPANS, 1999).
A produção orquestrada de uma imagem de cidade dinâmica, empreendedora,
socialmente integrada, apta a receber capital externo e estimular a circulação do
capital e das pessoas “adequadas”, se bem-sucedida, atrai investimentos econômicos
e outras formas de progresso (KOTLER et al., 1993; COMPANS, 1999; HARVEY,
2005a). Além disso, a imagem de sucesso pode ensejar consequências políticas –
consolidando o poder da influência da PPP local que materializou o projeto –, e sociais
– ao possibilitar a criação da identidade local, da solidariedade social, do orgulho
cívico e da lealdade ao lugar. Aspectos que se contrapõe “ao sentido de alienação e
anomia, que Simmel, há muito tempo, identificou como característica problemática da
vida na sociedade moderna”, e que acabam por reforçar o poder dos marcos especiais
de distinção vinculado ao lugar, isto é, o capital simbólico coletivo inerente a nomes e
lugares como Londres, Nova York e Paris, por exemplo (HARVEY, 2005a, p. 183).
No mesmo sentido, Gant afirma que

a necessidade de contar com uma marca identitária distintiva é uma condição


básica para, de um lado, projetar a cidade no plano exterior e diferenciá-la no
sistema urbano global e, de outro lado, do ponto de vista da governança
interna, garantir a identificação dos cidadãos com a cidade e o seu
engajamento no projeto, permitindo, deste modo, a necessária coesão social.
(GANT, 2009, p. 99, tradução nossa)104.

104
“La necesidad de contar con un signo de identidad propio es una condición básica para, por un lado,
proyectarla al exterior y diferenciarse en el sistema urbano mundial y, por otro, desde un punto de vista
de gobernabilidad interna, para que los ciudadanos se identifiquen con ella y crean ser partícipes del
proyecto, posibilitando, de esta manera, la exigida cohesión social.”
116

Dentre os inúmeros exemplos de experiências bem-sucedidas de cidades que


conseguiram inscrever-se na rede de fluxos econômicos globais, destaca-se a
ascensão da cidade de Barcelona. A prospecção de sua história e a afirmação de sua
tradição caracteristicamente catalã, aliados ao marketing sobre seu patrimônio
arquitetônico e cultural, constituíram marcos de distinção e do capital simbólico da
cidade no cenário internacional. A estratégia de dinamização econômica sustentou-se
ainda nas transformações urbanas destinadas ao embelezamento da cidade e à
adequação das áreas degradadas para a realização dos Jogos Olímpico de 1992, em
atendimento aos desígnios do capital empreendedor. Tais transformações
urbanísticas, segundo Ferreira (2005), constituíram a oportunidade para a
modernização das estruturas, dos equipamentos e dos valores urbanos, cujo projeto
consistiu na primeira experiência de planejamento estratégico territorial, aprofundada
e de sucesso, na Europa. E cujo “modelo Barcelona” de regeneração urbana foi
posteriormente exportado para outras cidades, especialmente as da América Latina,
como é o caso do Rio de Janeiro, por ocasião dos Jogos Olímpicos de 2016
(ARANTES, 2002; VAINER, 2002; CAPEL, 2010).
Mas, de acordo com tal perspectiva, deve-se reconhecer que a versão
contemporânea do empreendedorismo urbano pode ocultar os contrastes
eventualmente existentes entre o aparente vigor dos projetos de regeneração de
economias urbanas e os problemas sociais e econômicos subjacentes, sobretudo nas
cidades brasileiras. Tal paradoxo, em muitas cidades, acaba favorecendo um caráter
geográfico dual, exteriorizado pela regeneração de uma área decadente e um mar
circundante de crescente pobreza (HARVEY, 2005a), em que as políticas públicas
mostram-se pouco sensíveis às necessidades básicas dos cidadãos (provisão de
moradia, saúde, educação, emprego, melhores condições de trabalho, espaços de
convivência social, etc.).
A isso se soma o fato de que, na cidade de Barcelona e em outras cidades
igualmente saudadas pelos entusiastas do planejamento estratégico (como Frankfurt
e Baltimore), as principais demandas coletivas já se encontravam atendidas,
porquanto a população gozava de um padrão de vida satisfatório e as novas
orientações articulavam-se a um planejamento urbano mais abrangente. O que, como
ressalvado por Carvalho (2013), não ocorre nas grandes cidades brasileiras e da
América Latina, nas quais a modernização se dá sem desenvolvimento. Ou seja, sem
homogeneização social (ARANTES, 2002).
117

A disseminação das estratégias de desenvolvimento local, para garantir uma


maior atratividade das cidades, implica no enobrecimento das regiões que passam
por intervenções urbanísticas e ambientais (ARANTES, 2002; HARVEY, 2005a,
2013a). Em seu objetivo de produzir um espaço urbano homogêneo e atrativo para o
capital internacional, as intervenções urbanísticas, muitas vezes, acabam por
promover uma impiedosa limpeza social – via expropriação imobiliária,
reassentamentos forçados e expulsão da população autóctone.
Nessa medida, embora os espaços (públicos) sejam concebidos para serem
desfrutados por todos, têm sua fruição integral limitada aos grupos dominantes
(espaço semi-público). Ou seja, aqueles que conseguem pagar pelos serviços que
usufruem (LIMA, 2004; SOMEKH; CAMPOS NETO, 2005). Aos poucos, ou de repente,
os preços dos bens e serviços (e dos lugares para se viver) aumentam, transformando
a área num enclave para as classes de maior renda (LEES et al., 2010).
Diante da maior valorização do lugar, os antigos moradores, de rendas mais
baixas, não resistem ao encarecimento do custo de vida local (taxas, aluguéis, bens
de consumo), tendo que buscar outros bairros, menos desejáveis, onde o custo de
vida para morar seja menor, “num nomadismo sem direito às raízes” (VÉRAS, 2003a,
p. 99). A remoção das pessoas de baixa renda – em situação de insegurança e com
frequentes dificuldades financeiras –, é favorecida ainda pela facilidade de persuasão
de comercialização da terra a incorporadores, por um pagamento relativamente baixo.
Ao reproduzirem a lógica econômica, os projetos de desenvolvimento local das
cidades desencadeiam um equivocado processo gentrificativo, sem levar em conta a
qualidade de vida, a sustentabilidade e a coesão social dos antigos habitantes. Sendo
certo que processos de gentrificação como este ocorrem por toda a cidade, tanto nas
áreas centrais como nas periféricas, simbolizando o processo do “novo colonialismo
urbano”, na escala de bairros (ATKINSON; BRIDGE, 2005, CLARK, 2010).

Os aspectos coloniais da gentrificação são também evidenciados pela


universalização de certas formas de (des)regulação. Há uma óbvia expansão
das regras de mercado, como a privatização dos mercados imobiliários em
países ex-comunistas, por exemplo. As transições de bairro decorrentes são
acompanhadas, ou mesmo, por vezes, conduzidas, por um neoliberalismo
expansionista nas políticas públicas que muitas vezes acentua as divisões
sociais entre os agentes gentrificadores e a população deslocada [...] tais
políticas resultaram numa espécie de neocolonialismo. (ATKINSON;
BRIDGE, 2005, p. 2, tradução nossa)105.

105
“The colonial aspects of gentrification are also evident through the universalising of certain forms of
(de)regulation. There is the obvious spread of market discipline, such as the privatisation of housing
markets in ex-communist countries for example. The neighbourhood transitions that result are
accompanied, or indeed sometimes led by, an expansionist neo-liberalism in public policy that often
118

Nesse cenário de uso predatório do espaço urbano, que molda o ambiente


construído para a competitividade internacional, a cidade mercadoria é marcada pela
“separação do que se convencionou chamar de ‘cidade legal’, a que obedece às
exigências da lei no uso e acesso aos benefícios urbanos, e ‘cidade real’, que existe
ao arrepio das posturas legais, na precariedade”; denunciando, então, a dupla face da
cidade: a dos vencedores e a dos vencidos (VÉRAS, 2010, p. 35).

accentuates the social divisions between gentrifiers and the displaced (...) this policies have resulted in
a kind of neo-colonialism.”
119

3 GENTRIFICAÇÃO E A (RE)ESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO URBANO

3.1 Origem, características e efeitos da gentrificação: uns perdem, outros


ganham

A primeira referência ao termo gentrificação (gentrification)106 foi feita pela


socióloga britânica Ruth Glass, na obra “London: aspects of change”, publicada em
1964, na qual analisa as transformações imobiliárias ocorridas em bairros operários
londrinos, tidos como decadentes. Neles, verificou-se a substituição da população
operária local por uma de melhor poder aquisitivo, promovendo um enobrecimento
urbano de tais áreas (SMITH, 1996). O movimento de regresso ao centro pelas
famílias de classe média reverteu o processo, até então dominante, de
suburbanização – principiado em inúmeras cidades anglo-saxãs após a Segunda
Guerra Mundial. Os distintos processos de regeneração urbana que afetaram alguns
bairros de Londres quando do “retorno ao centro” são, atualmente, caracterizadores
da “gentrificação clássica” (LEES et al., 2007).

Um por um, numerosos bairros operários de Londres foram invadidos pelas


classes média-alta e baixa. Moradas pobres, modestos locais de
confinamento e chalés – de dois quartos em cima e dois em baixo – foram
retomados, após a finalização dos contratos de arrendamento, convertendo-
se em residências elegantes e caras. Grandes casas vitorianas, outrora
rebaixadas à condição de casas de alojamento ou de múltipla ocupação,
foram novamente requalificadas. Hoje em dia, muitas dessas casas são
subdivididas em caros apartamentos ou “houselets” (de acordo com o novo e
esnobe jargão imobiliário). O atual status social e o valor de tais habitações
estão, muitas vezes, em relação inversa à sua dimensão, e, em qualquer
caso, extremamente inflacionados em comparação com os níveis anteriores
praticados nos bairros. Uma vez que este processo de "gentrificação"
principia em um distrito, ele prossegue rapidamente até que a totalidade ou a
maioria dos membros da classe trabalhadora – originalmente ocupantes da
área –, são deslocados e todo o caráter social do distrito é alterado. (GLASS
apud LEES et al., 2007, p. 4, tradução nossa)107.

106
Os estudos que abordam o fenômeno empregam termos distintos para designá-lo. O vocábulo
gentrification, utilizado pelas ciências sociais anglo-saxônicas (SMITH, 1996; LEY, 2010a, entre outros),
é correntemente adotado no Brasil, mediante adaptação da palavra à estrutura fonética e gráfica da
língua portuguesa: gentrificação (ARANTES, 2002; LEITE; SOMEKH, 2009; por exemplo). Em Portugal,
faz-se uso de “nobilitação urbana” (SALGUEIRO, 2006; MENDES, 2008c; RODRIGUES, 2010),
ressaltando a sinonímia entre os termos gentry (raiz da palavra gentrification) e nobreza.
107
“One by one, many of the working class quarters of London have been invaded by the middle classes-
upper and lower. Shabby, modest mews and cottages-two rooms up and two down-have been taken
over, when their leases have expired, and have become elegant, expensive residences. Larger Victorian
houses, downgraded in an earlier or recent period-which were used as lodging houses or were otherwise
in multiple occupation-have been upgraded once again. Nowadays, many of these houses are being
sub-divided into costly flats or 'houselets' (in terms of the new real estate snob jargon). The current
social status and value of such dwellings are frequently in inverse relation to their size, and in any case
enormously inflated by comparison with previous levels in their neighbourhoods. Once this process of
'gentrification' starts in a district, it goes on rapidly until all or most of the original working class occupiers
are displaced, and the whole social character of the district is changed.”
120

A menção inicial ao termo gentrification (originado da palavra gentry) foi


deliberadamente irônica, uma vez que a expressão gentry era utilizada para designar
pessoa de classe social elevada (nobre, aristocrata, “bem-nascido”) na tradicional
estrutura de classes inglesa dos séculos XVIII-XIX. Segundo Hamnett (2003), o termo
apontava o surgimento de uma nova “aristocracia urbana” (urban gentry), em analogia
à aristocracia rural (rural gentry – termo familiar aos leitores dos romances de Jane
Austen). Este grupo compunha uma classe social que estava abaixo da aristocracia
fundiária (landed gentry), detentora de títulos nobiliárquicos e proprietária de terras, e
acima dos pequenos fazendeiros e camponeses (yeoman). De maneira que
getrification, ou “gentry-fication”, refere-se, originalmente, à sucessão residencial e
expulsão da população vulnerável da região central da cidade pelos novos
“aristocratas” (de renda superior, integrantes da nova classe média).
Apesar de porem-se de acordo com Hamnett (2003) quanto à autoria da
expressão “gentrification”, Smith (1996) e Clark (2010) ressaltam que o fenômeno em
si antecede, em muito, as mudanças ocorridas nos distritos londrinos. Para Clark
(2010), esse “processo de conquista” de renda da terra retroage, pelo menos, a
meados da década de 1800, quando Friederich Engels observou o deslocamento de
trabalhadores de determinadas áreas, abrindo espaço para novos investimentos em
capital fixo108 e, por conseguinte, para a obtenção de lucros e rendas da terra. Ele
indaga, inclusive, se as reformas urbanísticas realizadas em Paris, por Haussmann,
também não implicaram em mudanças que estão associadas à gentrificação?
De igual modo, Smith (1996) salienta que, embora o surgimento da
gentrificação esteja relacionado às cidades do pós-guerra do mundo capitalista
avançado, existem importantes precursores. Nesse sentido, o poema intitulado “Os
olhos dos pobres”, de Charles Baudaleire, é profícuo ao retratar as ironias e
contradições advindas da reconstrução (ou embourgeoisement) de Paris, por
Haussmann, entre as décadas de 1850 e 1860, expondo a coexistência de progresso
e pobreza no mesmo espaço, a partir da perspectiva dos esfarrapados e de
representantes das classes mais abastadas. A monumental remodelação de Paris,
além do propósito estratégico de impedir levantes populares com a utilização de
barricadas, promoveu a implantação do novo sistema de planejamento urbano, que

108
De acordo com Harvey (1978, 2005b, 2005c), cada novo ciclo de acumulação tem um determinado
spatial fix, caracterizado pela fixação geográfica de capital (investimento no ambiente construído) e a
criação de uma paisagem física inteiramente nova (aeroportos, portos, ferrovias, etc.), para fins de
produção, circulação, troca e consumo.
121

incluía os novos bulevares, luxuosos prédios, mercados centrais, pontes, esgotos,


fornecimento de água, parques públicos e outros monumentos culturais. As
intervenções embelezadoras da cidade criaram novas bases econômicas, sociais e
estéticas, mediante a reestruturação de velhos bairros centrais, a demolição de mais
de 50.000 edifícios (cobrindo uma área de 600 hectares) e o deslocamento de
milhares de pobres trabalhadores que, até então, neles residiam (BERMAN, 1986;
MERLIN; CHOAY, 1996; HARVEY, 2013c).
Avançadas cinco décadas desde que o termo foi cunhado, as definições mais
recentes de gentrificação permanecem alinhadas à descrição clássica de Ruth Glass
– a transformação residencial de unidades imobiliárias implementada pelos novos
habitantes, cujo padrão econômico é mais elevado. Nesse sentido, Smith (1996)
expõe que a gentrificação representa um processo de enobrecimento urbano, pelo
qual bairros pobres, de ocupação da classe trabalhadora, localizados nas áreas
centrais da cidade, são renovados mediante um influxo de capital de compradores e
inquilinos integrantes da classe média. Bairros que haviam experimentado
desinvestimento e o êxodo de classe média no passado, em razão do processo de
suburbanização, sofrem uma dramática reversão e voltam a ser ocupados por
moradores de classe elevada, em substituição aos moradores de nível econômico
mais baixo que aí moravam.
De forma idêntica, Smith e Williams (2010) afirmam que a gentrificação denota
um processo que atua no mercado imobiliário residencial, mediante a reabilitação das
habitações, e bairros, até então ocupados pela classe trabalhadora, transformando-
os, consequentemente, em uma região de habitação da classe média. A alteração da
morfologia social da área força o deslocamento dos grupos de menor potencial
econômico para áreas menos desejadas, em que os custos de vida permitem-lhe a
manutenção e sobrevivência.
A percepção contemporânea do fenômeno, contudo, é mais abrangente,
incluindo os novos elementos – usos (residenciais e comerciais), agentes (sociais,
econômicos e estatais) e as diversas formas de intervenção espacial – que se
manifestam nos processos gentrificativos desencadeados no contexto globalizado da
pós-modernidade. Nesse aspecto, conforme Clark (2010), a gentrificação é entendida
como um processo que envolve a alteração da população residente de uma
determinada área, em que os novos moradores-usuários possuem um status
socioeconômico mais elevado que os usuários anteriores. Concomitantemente,
verifica-se uma mudança no ambiente construído advinda do reinvestimento em
122

capital fixo. Quanto maior a diferença do status socioeconômico entre os antigos e os


novos usuários, mais perceptível se torna o processo, porquanto a alteração do
ambiente construído se faz mais marcante. Segundo ele, o lugar e a época em que o
fenômeno ocorre são indiferentes, bastando que o processo de mudança
socioespacial se enquadre nessa descrição.
No mesmo sentido, Bourne (2010) afirma que a gentrificação é um processo de
mudança socioespacial – qualitativo e quantitativo –, o qual, diferentemente de outros
processos que afetam a área central da cidade, deve incluir, ao menos, os seguintes
aspectos: (i) alteração dos ocupantes e da demografia da área; (ii) concentração de
renda e riqueza acumulada nos bairros de elite (polarização); (iii) marginalização de
determinados grupos minoritários desfavorecidos; (iv) mudança na prestação de
serviços públicos e nas políticas de assistência social locais; (v) impactos no mercado
imobiliário, nas políticas fiscais e nos fluxos de imigração.
Conforme Beauregard (2010), o processo gentrificativo compreende: (i) a
aquisição de imóveis por estratos mais abastados ou por agentes econômicos e
intermediários que, atraídos por novas oportunidades de investimentos e acumulação
de capital, buscam beneficiar-se da especulação e do aumento da renda diferencial
do solo, em razão da modernização do estoque imobiliário; (ii) o investimento
governamental no ambiente circundante; (iii) a concomitante mudança nas
instalações comerciais e nos serviços ofertados; (iv) a atração de novos moradores
(com maior renda e estilos de vida similares); e, por fim, (v) a saída da população
vulnerável – agora incapaz de suportar a majoração dos custos de vida.
Por fim, Hamnett expõe que:

Simultaneamente, um fenômeno físico, econômico, social e cultural.


Gentrificação comumente envolve a invasão, pela classe média ou por grupos
de renda mais elevados, de bairros anteriormente ocupados por operários ou
de zonas decadentes de múltipla ocupação e a substituição ou deslocamento
de muitos dos ocupantes originais. Ela envolve a renovação física ou a
reabilitação do deteriorado estoque habitacional e sua consequente
modernização para atender às exigências dos seus novos proprietários. No
processo, os imóveis residenciais, localizados nas áreas afetadas, renovados
ou não, sofrem uma significativa valorização dos preços. O processo de
transição do bairro envolve, geralmente, a substituição das relações locatícias
por relações de propriedade do bem. (HAMNETT, 2010, p. 235, tradução
nossa)109.

109
“Simultaneously a physical, economic, social and cultural phenomenon. Gentrification commonly
involves the invasion by middle-class or higher-income groups of previously working-class
neighbourhoods or multi-occupied ‘twilight areas’ and the replacement or displacement of many of the
original occupants. It involves the physical renovation or rehabilitation of what was frequently a highly
deteriorated housing stock and its upgrading to meet the requirements of its new owners. In the process,
housing in the areas affected, both renovated and unrenovated, undergoes a significant price
123

Há quem argumente, contudo, que a trivialização do termo e a abrangência dos


elementos caracterizadores da gentrificação, como forma de adequá-la às novas
configurações, tornou seu conceito caótico e incompatível com a diversidade dos
processos de produção e ocupação do espaço (ROSE, 2010; BEAUREGARD, 2010).
E, portanto, termos alternativos, como reurbanização, deveriam ser utilizados em seu
lugar. Entretanto, Lees et al. (2007), Clark (2010), entre outros, defendem a ideia de
uma definição elástica, mas objetiva, de gentrificação. Para Lees et al. (2007),
gentrificação é um dos termos mais políticos nos estudos urbanos (explicitando, por
definição, sua clara conotação de classe social), e perder o termo seria perder seu
caráter político – relacionado à produção do espaço e à exclusão socioespacial
(SIQUEIRA, 2014) – e, também, sua capacidade explicativa.
Para demonstrar como a definição de gentrificação foi sendo gradativamente
alterada ao longo do tempo, passando a incluir aspectos não indicados em suas
primeiras versões, Lees et al. (2010) propõem a comparação das acepções do termo
em diferentes edições do The Dictionary of Human Geography. De acordo com a
terceira edição, publicada no ano de 1994, a gentrificação é conceituada como:

Um processo de regeneração da VIZINHANÇA provocado pela chegada de


moradores mais afluentes, que deslocam os grupos de renda mais baixa e
investem substancialmente na melhoria das casas, cuja estrutura havia se
deteriorado (cf. FILTRAGEM). Tais áreas costumam ser acessíveis ao centro
da cidade e compreendem habitações substancialmente mais antigas – como
em partes de Islington, em Londres, e Society Hill, na Filadélfia.
O processo de gentrificação é, por vezes, semelhante ao processo de
INVASÃO-SUCESSÃO [termos que remontam à Escola de Chicago]. Alguns
agentes gentrificadores obtêm propriedades de pouca área, numa condição
de relativa deterioração e as deixam em melhores condições, aumentando,
assim, a capacidade de atração da área para pessoas que preferem tal
localização, de modo que, eventualmente, toda a área (muitas vezes apenas
algumas ruas) sofre mudanças em seu status socioeconômico e os valores
da propriedade são consideravelmente majorados. Agentes e promotores
imobiliários podem participar do processo, à medida que procuram melhorar
o valor de troca de uma área e colher os lucros decorrentes da promoção do
DESENVOLVIMENTO DESIGUAL na escala intra-urbana. (JOHNSTON et
al., 1994, p. 216-217, tradução nossa)110.

appreciation. Such a process of neighbourhood transition commonly involves a degree of tenure


transformation from renting to owning.”
110
“A process of NEIGHBOURHOOD regeneration by relatively affluent incomers, who displace lower-
income groups and invest substantially in improvements to homes, the quality of which has deteriorated
(cf. FILTERING). Such neighbourhoods are usually accessible to the city centre and comprise
substantial older dwellings – as in parts of Islington in London and Society Hill in Philadelphia.
The process of gentrification is often similar to that of INVASION AND SUCCESSION. A few gentrifiers
obtain properties in a relatively run-down condition within a small area and improve them, thereby
increasing the attractiveness of the area to others who would prefer such a location, so that eventually
the entire area (often only a few streets) changes its socio-economic status, and property values are
substantially enhanced. Real state agents and property developers may participate in the process, as
124

Na quarta edição do The Dictionary of Human Geography, publicada em 2000,


a gentrificação é definida como:

O reinvestimento de CAPITAL no centro urbano, o qual é projetado para


produzir espaço para uma classe mais abastada de pessoas em detrimento
daquelas que atualmente ocupam esse espaço. O termo, cunhado por Ruth
Glass, em 1964, foi mais utilizado para descrever os aspectos residenciais
deste processo, mas isso está mudando, assim como a própria gentrificação.
Gentrificação envolve essencialmente reinvestimento urbano. Além da
reabilitação residencial e remodelação, a gentrificação passa a abarcar a
requalificação comercial e a conversão de lofts (para residência ou escritório),
como parte de uma reestruturação mais ampla do espaço geográfico urbano.
A gentrificação associa o reinvestimento econômico com a mudança social,
na medida em que pessoas mais abastadas – o “nobre” urbano – passam a
habitar áreas anteriormente desvalorizadas. A gentrificação, frequentemente,
resulta na expulsão, direta ou indireta, das pessoas menos abastadas.
(JOHNSTON et al., 2000, p. 294, tradução nossa)111.

Finalmente, na quinta edição, publicada em 2009, The Dictionary of Human


Geography conceitua a gentrificação como:

Assentamento de classe média em propriedades renovadas ou reconstruídas


em distritos centrais antigos, anteriormente ocupadas por uma população de
baixa renda. A primeira menção ao processo foi realizada por Ruth Glass, ao
observar a chegada do “nobre” e a simultânea transição social de inúmeros
distritos no centro de Londres, no início da década de 1960. Uma década
mais tarde, verificou-se a ocorrência da gentrificação em grandes cidades
como Londres, São Francisco, Nova York, Boston, Toronto e Sydney, no
decorrer da transição da economia industrial para a PÓS-INDUSTRIAL.
Entretanto, mais recentemente, a gentrificação tem sido identificada, de forma
mais abrangente, em centros urbanos menores localizados na Europa
meridional e oriental, bem como em alguns dos principais centros da Ásia e
da América Latina. (JOHNSTON et al., 2009, p. 273-274, tradução nossa)112.

they seek to enhance the exchange value of an area and to reap substantial profits from promoting
UNEVEN DEVELOPMENT at the intra-urban scale.”
111
“The reinvestment of CAPITAL at the urban centre, which is designed to produce space for a more
affluent class of people than currently occupies that space. The term, coined by Ruth Glass in 1964,
has mostly been used to describe the residential aspects of this process but this is changing, as
gentrification itself envolves.
Gentrification is quintessentially about urban reinvestment. In addition to residential rehabilitation and
redevelopment, it now embraces commercial redevelopment and loft conversions (for residence or
office) as part of a wider restructuring of urban geographical space. Gentrification proper combines this
economic reinvestment with social change insofar as more affluent people – the urban ‘gentry’ – move
into previously devalued neighbourhoods. Gentrification often involves direct or indirect displacement of
poor people.”
112
“Middle-class settlement in renovated or redeveloped properties in older, inner-city districts formerly
occupied by a lower-income population. The process was first named by Ruth Glass, as she observed
the arrival of the ‘gentry’ and the accompanying social transition of several districts in central London in
the early 1960s. A decade later, broader recognition of gentrification followed in large cities such as
London, San Francisco, New York, Boston, Toronto and Sydney undergoing occupational transition
from an industrial to a post-industrial economy. But more recently gentrification has been identified more
widely, in smaller urban centres, in Southern and Eastern Europe and also in some major centres in
Asia and Latin America.”
125

Ao longo do tempo, verifica-se a flexibilização do conceito de gentrificação,


passando a compreender as novas nuances dos processos gentrificativos ocorridos
após a conceituação clássica do fenômeno (ou primeira onda de gentrificação), em
meados da década de 1960. De acordo com a definição mais recente, os processos
de gentrificação ultrapassam as áreas centrais e históricas das cidades, passando a
envolver a reestruturação residencial e comercial de áreas rurais, periféricas e
suburbanas, não só de cidades anglo-saxãs, mas de cidades em todo o mundo,
inclusive aquelas situadas em países menos desenvolvidos. A gentrificação, hoje, é
vista como um fenômeno verdadeiramente global, cujos efeitos afetam,
indistintamente, cidades grandes e pequenas em todo o mundo (ATKINSON;
BRIDGE, 2005; LEES et al., 2010; SMITH, 1996, 2010c; CLARK, 2010; BOURNE,
2010; DAVIDSON; LEES, 2010; LEES, 2012).
Isto posto, “qualquer explicação do fenômeno que o relacione
predominantemente às áreas centrais das cidades necessariamente estará baseada
em análise de caso com contexto historicamente definido” (CLARK, 2010, p. 25,
tradução nossa)113. Assim, por não estar ligado a uma paisagem ou contexto
particular, o processo gentrificativo contemporâneo é definido, no seu sentido mais
amplo, pelas seguintes características:

(1) reinvestimento de capital;


(2) melhoria social da localidade face à entrada de grupos de maior renda;
(3) mudança da paisagem; e
(4) deslocamento, direto ou indireto, de grupos de baixa renda. (DAVIDSON;
LEES, 2005, p. 1170, tradução nossa)114.

Sendo certo que, “gentrificação é um processo e não um estado final. E, como


tal, ela está sempre incompleta” (LEES et al., 2010, p. 36, tradução nossa)115. Todos
os bairros e regiões da cidade estão sempre a ser feitos e refeitos, em ondas
contínuas de revitalização urbana. Com efeito, o fato da gentrificação estar
condicionada a contextos históricos, geográficos, econômicos, políticos e sociais
específicos é que a torna singular em sua trajetória.

113
“Any explanation for it taking place predominantly in inner cities must be based on scrutiny of
contingent relations of historically specific contexts.”
114
“(1) reinvestment of capital; (2) social upgrading of locale by incoming high-income groups (3)
landscape change; and (4) direct or indirect displacement of low-income groups”
115
“Gentrification is a process and not a final state. It is always incomplete”.
126

Nesse passo, a análise atenta dos processos gentrificativos, ocorridos ou em


curso, permite perceber que as mudanças socioespaciais deles decorrentes estão
muito além da mera reabilitação residencial. Em verdade, “a essência da gentrificação
está oculta aos olhos” (BEAUREGARD, 2010, p. 11), de maneira que a reabilitação
de prédios residenciais e comerciais representa apenas a face mais visível do
processo de reestruturação urbana (SMITH, 2007).

Subjacente a todas essas mudanças na paisagem urbana encontram-se


forças econômicas, sociais e políticas específicas, responsáveis pela grande
reorganização das sociedades capitalistas avançadas: verifica-se uma base
industrial reestruturada, uma mudança para o emprego de serviços e uma
consequente transformação da classe trabalhadora, e também da estrutura
de classes em geral; e ocorrem mudanças na forma de intervenção estatal,
assim como na ideologia política, visando à privatização do fornecimento de
consumo e de serviços. A gentrificação é um componente espacial visível
dessa transformação social. Contudo, por se tratar de um processo altamente
dinâmico, não é passível de definições demasiado restritivas; ao invés de
arriscar restringindo nossa compreensão deste processo de
desenvolvimento, impondo ordem de definição, devemos nos esforçar para
considerar a ampla gama de processos que contribuem para esta
reestruturação, bem como para entender as relações entre processos
aparentemente isolados. (SMITH; WILLIAMS, 2010, p. 10, tradução
nossa)116.

De todo modo, o ponto crucial sobre a gentrificação é justamente esta


combinação de alterações físicas (do estoque de habitações na escala de bairro, do
lugar), econômicas (nos mercados fundiário e imobiliário), sociais e culturais que a
distingue como um processo ou um conjunto de processos específicos e interligados
(LEES et al., 2007; SMITH, 2010b).

3.2 A dicotomia “produção x consumo” da gentrificação

Desde que os processos gentrificativos passaram a alterar a estrutura


socioespacial de antigas áreas deterioradas de cidades anglo-saxãs, em meados da
década de 1960, os primeiros estudos acerca do fenômeno concentraram-se,
primordialmente, na descrição dos seus efeitos (deslocamento da população

116
“Underlying all of these changes in the urban landscape are specific economic, social and political
forces that are responsible for a major reshaping of advanced capitalist societies: there is a restructured
industrial base, a shift to service employment and a consequent transformation of the working class,
and indeed of the class structure in general; and there are shifts in state intervention and political
ideology aimed at the privatization of consumption and service provision. Gentrification is a visible
spatial component of this social transformation. A highly dynamic process, it is not amenable to overly
restrictive definitions; rather than risk constraining our understanding of this developing process by
imposing definitional order, we should strive to consider the broad range of processes that contribute to
this restructuring, and to understand links between seemingly separate processes.”
127

autóctone, características socioeconômica e cultural dos novos imigrantes, papel do


Poder Público na reestruturação local, benefícios para a cidade e criação ou
destruição de laços comunitários, etc.), em detrimento da análise das causas que o
desencadeiam.
Aqueles que, posteriormente, se debruçaram sobre os fatores ensejadores da
gentrificação centraram atenção nos aspectos da produção e do consumo, cujas
teorias – respectivamente, (i) teoria econômica e (ii) teoria cultural –, procuravam
demonstrar a preponderância de uma esfera em relação a outra (SMITH, 1996, 2010a;
MENDES, 2011a).

3.2.1 Teoria econômica: a gentrificação como uma nova fronteira urbana de


rentabilidade

A teoria econômica, baseada nos ciclos de rent gap de Smith (1988, 1996,
2007, 2010a, 2010b), tornou-se uma das mais influentes, e ao mesmo tempo
controversa, entre os estudiosos da gentrificação, ao enfatizar o aspecto econômico
(produção, oferta) como causa determinante para a sua ocorrência. Segundo Smith
(1988, 1996, 2010a, 2010b) e Savage et al. (2003), as transformações socioespaciais
e tensões decorrentes do processo gentrificativo estão diretamente associadas ao
desenvolvimento urbano desigual, enquanto expressão geográfica das desigualdades
do capitalismo. Em última análise, da contradição mais fundamental entre o valor de
uso e o valor de troca.
Conforme salientam Lees et al. (2007), em meados da década de 1970, o futuro
das cidades industriais parecia incerto e precário. Os centros urbanos, sobretudo das
cidades norte-americanas, enfrentavam os efeitos do rigoroso processo de
desindustrialização e de suburbanização da classe média iniciado em meados da
década de 1950.
De acordo com o modelo de filtragem (filtering), a deterioração das áreas
centrais da cidade foi favorecida pela mudança das famílias mais abastadas para os
espaços residenciais da periferia urbana, cuja qualidade era superior. Os imóveis
deixados para trás – menores, de qualidade inferior e menos desejados –, foram,
então, “filtrados” e passaram a ser ocupados pelas famílias de rendas mais baixas
(filtering down), enquanto os piores imóveis foram abandonados ou, eventualmente,
demolidos (SMITH, 1982; 1996; EUFRÁSIO, 2008).
128

A deterioração física, quando ocorre, é consequência do desinteresse pela


preservação de equipamentos que perderam sua utilidade, porque as funções
urbanas para as quais foram concebidos se transferiram para outros pontos do
espaço. (BOLLAFI, 1979, p. 62).

No final da década de 1970, contudo, algumas áreas centrais da cidade passam


a apresentar pequenos focos de revitalização, em virtude da espontânea reabilitação
residencial promovida por famílias de classe média (em grande parte compostas por
pessoas jovens, brancas e bem-educadas), sinalizando uma inversão do processo de
deterioração do período anterior. Tal movimento se opôs aos modelos teóricos de
localização residencial urbana sustentados por expoentes da Escola de Chicago,
como Bugess, Mckenzie e Hoyt. Até então, acreditava-se que as famílias mais
abastadas deslocar-se-iam, sempre, para áreas mais afastadas dos centros urbanos,
com suas casas antigas sendo reocupadas por habitantes de baixa renda, em razão
da diminuição dos preços (LEES et al., 2007). A gentrificação, portanto, contradiz os
modelos teóricos tradicionais, na medida em que o modelo de “filtragem social”
inverso promoveu a reocupação das áreas centrais pelas classes de maior renda
(filtering up), substituindo as classes de menor condição socioeconômica (SMITH,
1982; 1996), em um novo processo de invasão-sucessão.
Smith (1982, 2010a), Salgueiro (2006) e Mendes (2008c), ressaltam, todavia,
que essa recentralização (parcial e seletiva) não substitui os processos de
suburbanização decorrentes da contínua desconcentração de residências e
atividades. Indica, na verdade, novos processos de recomposição da textura
socioespacial da cidade, indissociavelmente ligado ao novo modelo de acumulação
flexível capitalista, à cultura do consumo e à estetização da vida social.
O retorno às áreas centrais da cidade (processo denominado como back to the
city moviment – SMITH, 1982, 2010a) foi favorecido pelo excessivo aumento do preço
da gasolina, em meados de 1973, que, associado aos efeitos da recessão econômica,
aumento da inflação e das taxas de juros, majorou os custos das “sonhadas”
habitações suburbanas americanas e dos diários movimentos pendulares entre a casa
e o local de trabalho. Verificando-se, também, o aumento do tempo gasto nos trajetos
entre as regiões centrais e periféricas das cidades. Tais aspectos, segundo Lees et
al. (2007, 2010) e Beauregard (2010), contribuíram para uma mudança nas
preferências locacionais e no estilo de vida de parte da população de classe média,
integrada, em sua maioria, por jovens, bem-educados profissionais, solteiros, casais
sem filhos e divorciados (denominada como geração baby boom). Este grupo passou
a privilegiar às áreas centrais da cidade e a conveniência de residir, trabalhar e se
129

divertir no mesmo espaço, com fácil acesso a bares, restaurantes, teatros, shoppings
centers e demais centros culturais, de lazer e de consumo.
“A crescente onda de “retorno à cidade” pelos pioneiros urbanos estimulou a
requalificação, renovação, revitalização e, talvez, o completo renascimento urbano da
região” (LEES et al., 2007, p. 44, tradução nossa)117. Por outro lado, e
simultaneamente, deixou às claras a dura realidade da pobreza, do deslocamento de
inúmeros moradores de baixa renda, da crônica escassez de habitação a preços
acessíveis e da exclusão socioespacial.
Mas, o quê, de fato, influenciou a transformação da preferência locacional dos
consumidores (gentrifiers ou agentes gentrificadores individuais) e favoreceu a
ocorrência da gentrificação nas áreas centrais das cidades? Para Smith (2010a), os
fatores econômicos, e não as forças culturais, foram (são) determinantes para o
“renascimento urbano”. Segundo ele, na decisão de reabilitar as áreas centrais da
cidade, uma preferência do consumidor tende a se destacar frente as demais, qual
seja: a preferência pelo lucro, ou, mais precisamente, pelo rentável investimento
financeiro.
Influenciado pela perspectiva marxista, Smith (1996, 2010a, 2010b) avalia
como o desinvestimento, a obsolescência tecnológica e a gradual deterioração do
ambiente construído (estabelecimentos comerciais, fábricas, casas e demais
infraestruturas) ao longo do tempo, podem criar uma diferença entre a renda da terra
capitalizada (capitalized ground rent) – ou seja, o retorno econômico que o proprietário
obtém a partir da utilização atual do imóvel), e a renda potencial (potential ground rent)
de um determinado lugar – ou seja, o retorno máximo que poderia ser obtido se a terra
fosse utilizada em sua condição ideal (melhor uso e em nível mais elevado). E, é
justamente essa diferença entre a renda da terra atualmente capitalizada e a renda
da terra potencial que configura aquilo que Neil Smith denomina como rent gap.
Numa economia de mercado, quando um bairro é estruturado pela primeira vez,
em regra, não há discrepância entre as rendas capitalizada e potencial da terra, na
medida em que a produção do lugar destina-se à maximização das rendas –
observadas, contudo, as limitações localizacionais e tecnológicas. Entretanto, o
capital investido para o desenvolvimento do lugar está, agora, fixado no espaço
(spatial fix) e, portanto, vulnerável a quaisquer circunstâncias que possam alterar a

117
“A growing wave of young, well-educated professionals were choosing to come back to the city-and
the choices of these 'urban pioneers' were helping to spur renewal, renovation, revitalization, and
perhaps a full-fledged urban renaissance.”
130

situação urbano-econômica do lugar. Com o passar do tempo, o investimento em um


determinado uso da terra enfrentará a inevitável desvalorização, seja em decorrência
do envelhecimento da edificação (que passa a requerer um contínuo e dispendioso
trabalho de manutenção e reparo), seja pela obsolescência das tecnologias de
construção e design então adotadas, tornando-as menos competitivas e rentáveis. De
modo que, a cada ano, verifica-se maior propensão à divergência entre as rendas
capitalizada e potencial da terra (LEES et al., 2007, 2010; SMITH, 1982, 2010a).
Nesse sentido, ao tratar do ciclo de valorização-desvalorização do solo (rent
gap) das cidades norte americanas, entre as décadas de 1940 e 1960, Smith expõe
que:

A descentralização geográfica do capital na construção dos subúrbios levou


ao subdesenvolvimento do centro da cidade. O capital foi atraído pelo rápido
crescimento da renda do solo que acompanhava o desenvolvimento
suburbano e o centro da cidade, com níveis de renda do solo já elevados e
com baixas taxas de retorno, deixava sistematicamente de receber capital.
Isto levou a contínua desvalorização de áreas inteiras do centro da cidade e
ao porte obsoleto do seu uso comercial ou residencial. Num certo momento,
a desvalorização do capital faz baixar o nível de renda do solo
suficientemente para que a diferença entre a renda do solo real e a renda do
solo potencial (dado um uso “mais elevado”) torne-se suficientemente grande
para que o re-desenvolvimento e a volta da população de nível social mais
elevado se torne possível. O centro da cidade, que estava subdesenvolvido
com a suburbanização da capital, agora se torna um novo lugar de
desenvolvimento (ou melhor de re-desenvolvimento). (SMITH, 1988, p. 214-
215).

Do ângulo da análise marxista, o desenvolvimento desigual do espaço urbano,


sob a égide da acumulação flexível e da globalização, coloca em evidência os
“estratégicos” processos de reestruturação urbana engendrados para promover a
alteração da paisagem urbana e a consequente valorização da terra (SMITH, 1982,
1988, 2007). Para Smith (1988, p. 217), o capital poderia ser comparado a uma praga
de gafanhotos, que “se estabelecem em um lugar, devoram-no e então se deslocam
para praguejar outro lugar. E, melhor dizendo, no processo de sua recuperação após
uma praga, a região fica pronta para outra.” O desenvolvimento desigual seria, assim,
a expressão geográfica das contradições do capital.
Conforme ressaltado por Bourdieu (2008, p. 160), há uma retradução do
espaço social no espaço físico, ou seja, o poder proporcionado pela posse do capital
“se manifesta no espaço físico apropriado sob a forma de uma certa relação entre a
estrutura espacial da distribuição dos agentes e a estrutura espacial da distribuição
dos bens ou dos serviços, privados ou públicos.” Para ele, o valor das diferentes
131

regiões do espaço social reificado (isto é, espaço fisicamente objetivado) é definido


pela relação entre a distribuição dos agentes, dos bens e dos serviços no espaço. Em
outras palavras, “o valor do homem, assim como o do Capital em todas as suas
formas, depende de sua localização no espaço”, daí a diferente ocupação do espaço
urbano, segundo as classes em que se divide a sociedade urbana (SANTOS, 2007).
Nessa vertente, Villaça (1998, 2015) afirma que o capitalismo transformou a
“terra localização”118 em mercadoria; ou seja, produto do trabalho social humano, e o
mecanismo do mercado passou a determinar a sua distribuição. De maneira que, a
luta pela distribuição da “terra localização” se manifesta claramente no mercado
imobiliário, nos preços da terra e na disputa que há entre os bons e maus "pontos",
seja para estabelecimentos comerciais, de serviços, condomínios edilícios ou casas
unifamiliares.
A atratividade da terra, nesse sentido, decorre principalmente de sua
localização; acessibilidade; mão de obra, tecnologias e investimentos dispensados,
ao longo do tempo, para garantir a sua valorização. Isso significa que o valor da terra
urbana é, essencialmente, uma criação histórica e socialmente coletiva (LEES et al.,
2007). Assim, a gentrificação

se torna rentável quando a diferença [de renda da terra] é grande o suficiente


para garantir um bom retorno financeiro [ao proprietário], após os custos de
conversão ao novo uso da terra – reabilitação de antigas casas degradadas,
ou demolições e novas construções. (LEES et al., 2010, p. 82, tradução
nossa)119.

Em suma, a gentrificação é um produto estrutural dos mercados imobiliários de


terra e habitação. Os fluxos de capital são direcionados para as regiões em que a taxa
de retorno é maior. Assim, movimentos de capital para distintas áreas da cidade –
valorizando-as, associado à depreciação causada pela fuga de capital de outras áreas
que, até então, eram dominantes na cidade, favorecem a criação de novos espaços
de acumulação de renda da terra – segundo a concepção de “destruição criativa” de
Harvey (2005c, 2011a, 2011b, 2012, 2013c) –, e, eventualmente, a produção do rent
gap. O processo tem natureza cíclica e, devido ao longo período de “maturação” dos
imóveis e à fixidez do investimento, novos ciclos de investimento estão associados a
crises e alterações do local de acumulação (SMITH, 2010a).

118
Terminologia utilizada por Villaça (1998, 2015) para designar os diversos pontos do território urbano,
cuja acessibilidade é o valor de uso mais importante.
119
“Wide enough to yield a good return after all of the costs of conversion to new land uses -
rehabilitation of old run-down houses, or demolition and new construction.”
132

Beauregard (2010) salienta, contudo, que a teoria econômica de Neil Smith –


sustentada na tese do “rent gap”, possui sérias limitações, por explicar apenas um dos
fatores que contribuem para a ocorrência dos processos gentrificativos. Haja vista que
inúmeras áreas citadinas decadentes, de diferentes cidades do mundo, possuem um
grande potencial de extração de renda da terra, com vantagens localizacionais e
facilidades de acesso, mas não sofrem quaisquer intervenções gentrificativas. Para
ele, uma das debilidades do argumento de Neil Smith decorre da sua omissão em lidar
com o papel do consumo (motivações e decisões de atores individuais, incluindo os
gentrifiers) na diversificada natureza da gentrificação, já que a teoria estruturalista de
Neil Smith começa e termina na base econômica, a esfera da produção.
Não obstante, Smith (1982) ressalta a estreita relação entre a gentrificação, os
processos de reestruturação urbana e o desenvolvimento desigual. Para Lees et al.
(2007), a teoria do rent gap é útil na compreensão da gentrificação, não por garantir
uma previsão precisa de sua ocorrência, mas por fornecer uma ligação teórica entre
a gentrificação e esses dois processos maiores. Mesmo porque, implícito em tudo
isso, está o fato de que os processos de rent gap expressam-se de diferentes formas
na paisagem urbana, dependendo dos tipos de regras que regem um mercado
imobiliário específico – zoneamento, tributação sobre a propriedade imobiliária,
incentivos fiscais destinados a estimular o (re)desenvolvimento, alterações nos
circuitos de capital (HARVEY, 2005c, 2010), entre outros fatores que ajudam a moldar
os ciclos de valorização-desvalorização da terra em um contexto particular. Os autores
ressaltam, por fim, que as dinâmicas locais de rent gap expandiram-se para a escala
global, na medida em que a produção do espaço está fortemente entrelaçada aos
circuitos globais de desenvolvimento desigual e de acumulação de capital.

3.2.2 Teoria cultural: novos estilos de vida e demandas de consumo como


causas da gentrificação

A segunda teoria, veementemente defendida por Ley (2010a, 2010b), atribui ao


aspecto cultural (consumo, demanda) o fator determinante para a gentrificação. Para
ele, o estilo de vida e as preferências de consumo dos integrantes da nova classe
média, no contexto das cidades pós-industriais, influenciaram a introdução de novos
modos de consumo e a mudança dos potenciais agentes gentrificadores
(universitários, profissionais de alto escalão, casais sem filhos, etc.) para as áreas
centrais da cidade, substituindo a população operária. De maneira que, pela teoria
133

cultural, os novos valores e padrões de consumo120 passam a determinar os


processos de produção e, consequentemente, de uso do solo, com fortes reflexos na
economia e paisagem urbanas.
Nas últimas décadas do século XX, transição da sociedade produtora de bens
(sociedade industrial) para uma sociedade produtora de serviços (sociedade pós-
industrial), fomentou o declínio da mão de obra do trabalhador desqualificado (blue-
collar productive occupations) no processo de produção e, simultaneamente, a
emergência de novos profissionais (white-collar workers) habilitados ao exercício das
atividades inerentes aos novos processos produtivos – gestão, finanças, informática,
etc. (WALKER; GREENBERG, 1982; LEES et al., 2007). Tais profissionais,
comumente denominados como yuppies121 (jovens profissionais urbanos) e buppies
(profissionais urbanos negros), foram responsáveis pela ascensão de um novo estilo
de vida, focado no indivíduo e na satisfação de suas necessidades de consumo. O
que levou a uma rejeição dos subúrbios associada à expansão da quantidade de
integrantes da classe média propensos a residir nas áreas centrais da cidade,
mediante a reabilitação de moradias antigas (ZUKIN, 1998; LEES et al., 2007;
BEAUREGARD, 2010).
De acordo com Savage et al. (2003), Lees et al. (2007) e Harvey (2008), a
mudança cultural (cultural turn) advinda da consolidação do neoliberalismo, no âmbito
das cidades pós-industriais, foi determinantemente potencializada pela reestruturação
política do Estado e a queda das políticas de bem-estar social (Welfare State). A
ascensão das políticas neoliberais promovidas, sobretudo, por Ronald Reagan (EUA)
e Margaret Thatcher (Inglaterra) impulsionaram a transformação das relações entre
indivíduos, sociedade e Estado. A sistemática diminuição dos gastos do Poder
Público, associada à diminuição da carga tributária e à progressiva transferência das
funções do Estado à iniciativa privada promoveu uma significativa mudança nas
sociedades ocidentais e na mentalidade de seus cidadãos.
Os governos nacionais passaram a implementar políticas urbanas neoliberais
(desregulamentação do mercado, privatização de serviços, coalizões público-

120
Formas de consumo que abrangem escolhas particulares e identitárias bastante diversificadas, em
âmbitos sobejamente diferentes – como a habitação, a alimentação, o vestuário, os usos do corpo, os
hábitos de trabalho e de lazer, a religião, a arte, a organização do espaço e do tempo, etc. –,
diretamente relacionadas à emergência de uma condição social e urbana pós-moderna (MENDES,
2008a, 2008c, 2011a; HARVEY, 2013c).
121
O termo deriva da sigla "YUP", expressão inglesa que significa young urban professional, e é
comumente utilizado para referir-se a jovens profissionais, entre 20 e 40 anos de idade, com formação
universitária, boa situação financeira, que valorizam o sucesso profissional e o consumo de bens
materiais.
134

privadas, etc.) que privilegiavam os anseios individuais dos governados enquanto


consumidores (soberania do consumidor), em detrimento daquelas que buscavam
garantir-lhes direitos e interesses enquanto cidadãos (regulação do mercado, políticas
redistributivas, provisão de serviços públicos, etc.). Se até a década de 1980, as
intervenções locais eram norteadas pela lógica da produção/construção da cidade,
após a superação do Welfare State e a ascensão do neoliberalismo a atenção volta-
se para as condições em que a cidade é consumida (MENDES, 2010a). É possível
vislumbrar, aqui, a noção de “cidade revanchista” de Smith (1996), como uma resposta
punitiva e excludente às classes baixas e aos grupos sociais indesejáveis (pobres,
vendedores ambulantes, indigentes, prostitutas, homossexuais, imigrantes, etc.); ou
seja, àqueles que não consomem, que têm mau comportamento e demandam a
assistência do Estado.

Em todo o Norte Global, muitos governos nacionais passam a implementar


políticas que restringem os direitos dos indivíduos enquanto cidadãos – em
vez disso, os direitos são redefinidos e os cidadãos passam a ser tratados
em termos de consumidores/investidores. As cidades, então, buscam atrair
residentes e turistas com maior potencial econômico e poder de compra. No
Sul Global, tais políticas são impostas por ditames de "ajustamento estrutural"
emanados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras instituições
financeiras transnacionais. A soberania do consumidor se torna política –
melhor evidenciada, talvez, pela noção de "sociedade de proprietários" de
George W. Bush – de tal forma que os indivíduos enfrentam crescentes
sanções se eles não se comportam como Homo economics ao planejar a
aquisição da casa própria, as condições de sua aposentadoria e, até mesmo,
os custos advindos com a manutenção de sua saúde122. (LEES et al., 2007,
p. 76, tradução nossa)123.

A gentrificação, segundo Ley (2010a, 2010b) e os demais defensores da teoria


do consumo (HAMNETT, 2010), seria uma consequência da alteração cultural
provocada pelas mudanças na estrutura industrial e ocupacional das cidades pós-
modernas, cujos fatores implicaram na reocupação das áreas centrais por estratos de
padrão socioeconômico superior. Ao enfatizar os novos gostos e estilos de vida da

122
Segundo Santos (2007, p. 155), “quando se confundem cidadão e consumidor, a educação, a
moradia, a saúde, o lazer aparecem como conquistas pessoais e não como direitos sociais. Até mesmo
a política passa a ser uma função do consumo. Essa segunda natureza vai tomando lugar sempre
maior em cada indivíduo, o lugar do cidadão vai ficando menor, e até mesmo a vontade de se tornar
um cidadão por inteiro se reduz.”
123
“Throughout the Global North, many national governments are pursuing policies that restrict the rights
of Individuals as citizens – redefining rights instead in terms of consumers and investors as cities seek
to attract wealthy home owners and free-spending tourists. In the Global South many of these principles
are imposed by the 'structural adjustment' dictates of the International Monetary Fund and other
transnational financial institutions. Consumer sovereignty is becoming policy – summarized best
perhaps by George W. Bush's notion of the 'ownership society' – such that individuals face increased
penalties if they do not behave as Homo economics in planning their home purchase, their retirement,
and even the expenses of their own health care.”
135

classe média, a tese de Ley (2010a, 2010b) confere um papel secundário à indústria
imobiliária na produção do ambiente construído. Assim, embora ele não descarte o
poder do mercado de moradia, são os gentrifiers (homens e mulheres124) e a
intensificação de suas demandas culturais e de consumo que propiciam a alteração
da lógica de alocação do uso da terra e, consequentemente, a ocorrência da
gentrificação.
Conforme Beauregard (2010), o estilo de vida, gostos e práticas de consumo
dessa nova classe média estariam associados a uma necessidade de exibição pública
de si e das mercadorias adquiridas, como forma de demonstrar sua capacidade de
consumo e favorecer o estabelecimento de relações sociais entre “iguais”. O que seria
facilitado pela centralidade urbana remodelada. Para Bourdieu (2004, 2008), a
proximidade no espaço físico faculta que a proximidade social produza todos os seus
efeitos, favorecendo a acumulação de capital social e, ao mesmo tempo, facilitando
encontros casuais e previsíveis que intensificam a frequência a lugares bem
frequentados.
A perspectiva teórica de Bourdieu (1983, 2004), assente na noção de habitus,
revela como as práticas, os valores e o comportamento individual dos agentes
gentrificadores se ajustam às suas condições de existência, notadamente, às suas
posições e trajetórias sociais. Nesse aspecto, determinadas práticas de consumo –
especialmente o consumo cultural – têm por função assinalar a posição do indivíduo
em sua respectiva classe social e, simultaneamente, diferenciá-lo das demais. Ou
seja, em decorrência dos condicionamentos sociais,

os agentes se autoclassificam (sic), eles mesmos se expõem à classificação


ao escolherem, em conformidade com seus gostos, diferentes atributos,
roupas, alimentos, bebidas, esportes, amigos, que combinam entre si e
combinam com eles, ou, mais exatamente, que convêm à sua posição. Mais
exatamente: ao escolherem, no espaço dos bens e serviços disponíveis, bens
que ocupam nesse espaço uma posição homóloga à posição que eles
ocupam no espaço social. Isso faz com que nada classifique mais uma
pessoa do que suas classificações. (BOURDIEU, 2004, p. 159).

124
Rose (2010) foi a primeira a enfatizar o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho
e a relação existente entre as qualificadas profissionais solteiras e os processos gentrificativos. Para
as mulheres solteiras, famílias monoparentais e casais sem filhos, as áreas centrais da cidade
apresentavam-se mais propícias que os subúrbios, permitindo a conciliação do trabalho profissional
(um ou mais empregos) com as atividades domésticas. Haja vista à minimização dos custos e tempo
de deslocamento casa-trabalho, a proximidade com os estabelecimentos comerciais (lojas,
restaurantes, lavanderia, creche, etc.) e centros de prestação de serviços que, a princípio, não estariam
disponíveis nos subúrbios (BEAUREGARD, 2010).
136

Por outro lado, aqueles que não possuem capital, sob suas diferentes espécies
– econômico, social, cultural ou mesmo simbólico –, são mantidos à distância (física
ou simbólica), dos bens considerados socialmente mais raros e condenados a estar
ao lado das pessoas ou dos bens menos desejáveis e comuns. Nessa vertente, “não
há espaço, em uma sociedade hierarquizada, que não seja hierarquizado e que não
exprima as hierarquias e as distâncias sociais” (BOURDIEU, 2008, p. 160). A
contiguidade geográfica entre grupos sociais distintos não se traduz, portanto, em
interações sociais efetivas (MAQUIAVELI, 2012).
Ao refutar a teoria cultural, Smith (2010a) expõe que, se a preferência do
consumidor, segundo a teoria cultural de Ley, for realmente a causa determinante para
a ocorrência da gentrificação, isso significaria, por hipótese, que as preferências
individuais alteram em uníssono, não só nacionalmente, mas internacionalmente, ou
então que os constrangimentos sociais mais importantes são determinantes para
suprimir a individualidade implícita ao ato de consumo.

Se este for o caso, a noção de preferência do consumidor é, na melhor das


hipóteses, contraditória, posto que um processo inicialmente concebido em
termos de preferência individual de consumo terá que ser, agora, explicado
como resultante da unidimensionalidade cultural. Assim, o conceito terá
aplicabilidade apenas se utilizado para se referir a preferência social coletiva,
não a preferência individual. (SMITH, 2010a, p. 87, tradução nossa)125.

Para Smith (2010a), o consumidor, como agente gentrificador, é apenas um


dos atores que participam do processo. Faz-se necessário atentar, também, para
“construtores, promotores, proprietários de imóveis, instituições financeiras, agências
governamentais, agentes imobiliários, e os inquilinos; tudo devidamente considerado”
(SMITH, 2010a, p. 87, tradução nossa)126. Ou seja, todos aqueles que integram o
processo de reestruturação socioespacial da área, seja na qualidade de consumidor
ou na de produtor. Mas, desafiando a noção de sobrenaia do consumidor, “as
necessidades de produção – em especial, a necessidade de obter lucro – são
iniciativas determinantes para o processo de gentrificação” (SMITH, 2010a, p. 87,

125
“If the latter is the case, the concept of consumer preference is at best contradictory: a process first
conceived in terms of individual consumption preference has now to be explained as resulting from
cultural uni-dimensionality. The concept can be rescued as theoretically visible only if it's used to refer
to collective social preference, not individual preference.”
126
“Builders, developers, landlords, mortgage lenders, government agencies, real estate agents, and
tenants; all things considered”.
137

tradução nossa)127. De forma que, “a gentrificação é, sim, um movimento de retorno à


cidade, mas do capital e não de pessoas” (SMITH, 2010a, p. 94, tradução nossa)128.

3.2.3 “Produção + consumo”: a convergência das perspectivas teóricas sobre


a gentrificação

Em que pesem as diferentes abordagens concernentes às potenciais causas


da gentrificação, Hamnett (2010), através da fábula indiana “Os cegos e o elefante”129,
intenta demonstrar que as duas perspectivas teóricas sobre a gentrificação
representam explicações parciais sobre o fenômeno. Ao enfocarem um determinado
aspecto do processo, acabam negligenciando outros igualmente influentes. Logo,
existem múltiplos caminhos para a gentrificação de um bairro, com a atuação de
diferentes atores, em diferentes contextos (ROSE, 2010).
Nesse aspecto, Lees et al. (2007) e Slater (2010) ressaltam que o enfoque
adotado por Neil Smith decorreu dos estudos por ele empreendidos na cidade de Nova
York (Estados Unidos), enquanto a análise de Ley baseou-se em seus estudos sobre
a cidade de Vancouver, no Canadá. Ou seja, cidades distintas, com estruturas política,
social e econômica diferenciadas e uma trajetória de gentrificação singular.
Assim, diante da dicotomia “produção x consumo” forjada nas discussões
acadêmicas sobre a prevalência dos fatores econômicos (defendidos pelos teóricos
marxistas) ou das preferências de consumo dos agentes gentrificadores (com base
nas análises da teoria cultural), enquanto fatores geradores dos processos
gentrificativos, Hamnett (2010), Savage et al. (2003), Clark (2010), Lees et al. (2007,
2010), entre outros, sustentam a transcendência das contradições existentes entre as
duas teorias e a complementação dialética de ambas para o melhor entendimento
sobre o fenômeno (onde, por que e como se desenvolve).
Corroborando tal assertiva, Lees et al. (2007) sustentam o demasiado embate
teórico entre os defensores das teorias de produção e de consumo. E expõem que,
atualmente, os estudiosos da gentrificação aceitam que as reflexões concernentes à
dualidade produção/consumo (ou oferta/demanda, econômico/cultural) são partes

127
“The needs of production – in particular the need to earn profit – are more decisive initiative behind
gentrification than consumer preference”.
128
“Gentrification is a back to the city movement all right, but of capital rather than people.”
129
Na fábula “Blind men and the elephant”, um grupo de homens cegos tocam um elefante para saber
o que é. Cada um toca uma parte diferente do animal, como a sua perna ou a sua presa. Após, eles
comparam as impressões sobre o que sentiram e percebem o total desacordo entre suas
manifestações. A história é, então, utilizada para indicar que os eventuais pontos de vista sobre
determinado fato estão condicionados às diferentes perspectivas que se tem dele (LEES et al., 2010).
138

igualmente integrantes do “elefante da gentrificação” (HAMNETT, 2010). Como afirma


Clark (2010, p. 27, tradução nossa)130, “nenhuma das teorias é compreensível sem a
outra, e todas as atuais teorias sobre a gentrificação ressaltam a essencialidade de
tais elementos para a existência do fenômeno".
Nesse sentido, a gentrificação não se restringe apenas aos fluxos de capitais,
de desinvestimento (desvalorização) e reinvestimento (revalorização) de áreas,
bairros, cidades ou regiões. Ela também envolve agentes-chave indispensáveis à
ocorrência do fenômeno (agentes econômicos, Poder Público, agentes intermediários,
consumidores – gentrifiers individuais, etc.), assim como seus gostos e necessidades.
Devendo-se considerar, pois, suas múltiplas causas e impactos, desde a escala do
bairro (da vizinhança) até à dimensão global (dos fluxos de capital e de pessoas).
Os próprios Smith (2010a, 2010b) e Ley (2010a) enfatizam a importância e a
mútua interação entre os fatores econômicos e culturais para a ocorrência da
gentrificação, embora ambos realcem a dominância das forças econômicas ou
culturais que respectivamente defendem e como elas influenciam a outra.

Isso não quer dizer, de certa forma ingênua, que o consumo é uma
consequência automática da produção, ou que a preferência do consumidor
é um efeito totalmente passivo causado pela produção. Isso equivaleria a
uma teoria da soberania do produtor, quase tão unilateral quanto a sua
contrapartida neoclássica. Pelo contrário, a relação entre a produção e o
consumo é simbiótica, mas é uma simbiose em que a produção prepondera.
Afinal de contas, preferência do consumidor e demanda por habitação
requalificada podem ser produzidas. (SMITH, 2010a, p. 87, tradução
nossa)131.

Há, então, um crescente reconhecimento de que a gentrificação não pode ser


entendida a partir do viés simplista da dicotomia “produção x consumo”. Os mais
recentes estudos sobre o fenômeno ultrapassaram essa limitação binária para
enfocar, a partir de abordagens multicausais, os novos processos gentrificativos que
fomentam a acumulação de capital e o desenvolvimento desigual em diferentes
cidades ao redor do mundo (LEES et al., 2007).

130
“Neither side is comprehensible without the other, and all present theories of gentrification touch
bottom in these basic conditions for the existence of the phenomenon.”
131
“This is not to say in some naive way that consumption is the automatic consequence of production,
or that consumer preference is a totally passive effect caused by production. Such would be a producer
sovereignty theory, almost as one-sided as its neoclassical counterpart. Rather, the relationship
between production and consumption is symbiotic, but it is a symbiosis in which production dominates.
Consumer preference and demand for gentrified housing can be created after all.”
139

3.3 Globalização e as formas contemporâneas de gentrificação

Após as primeiras ocorrências de gentrificação, mais discretas e de reabilitação


local da década de 1960, verificou-se a generalização do fenômeno, geralmente
integrado a processos urbanos e globais mais amplos – de reestruturação econômica,
política e espacial –, tornando-a uma característica da emergente “cidade global” na
fase pós-fordista de desenvolvimento (SMITH, 1996). Período em que a paisagem
física e social da urbanização é moldada a partir de critérios capitalistas, pela lógica
da circulação e acumulação do capital, em um quadro de competição interurbana por
recursos, empregos e capital (HARVEY, 1982).

Tais mudanças econômicas foram frequentemente acompanhadas de


mudanças políticas, a medida em que as cidades passaram a competir no
mercado global, despojada de grande parte da proteção tradicional das
instituições e regulamentos do Estado: desregulamentação, privatização da
habitação e dos serviços urbanos, o desmantelamento da assistência social,
em suma, a (re)mercantilização das funções públicas. (SMITH, 1996, p. 36-
37, tradução nossa)132.

No início da década de 1980, a gentrificação emergiu como um componente


espacial visível dessa transformação, evidenciando-se através da disseminação de
diferentes empreendimentos em diversas partes da cidade, tais como: requalificação
de orlas e zonas portuárias; edificação de complexos hoteleiros e centros de
convenção em cidades centrais; desenvolvimento de luxuosos empreendimentos
residenciais, comerciais e de escritórios; shoppings e distritos de consumo refinados
e de alto custo.
Para Smith (2007), as diferentes facetas da reestruturação urbana e,
notadamente da gentrificação, podem ser explicadas por intermédio das seguintes
transformações e processos: (i) a suburbanização e o surgimento de um diferencial
de renda (rent gap); (ii) a desindustrialização das economias capitalistas avançadas
e o crescimento do emprego no setor de serviços; (iii) a centralização espacial e a
simultânea descentralização do capital; (iv) a queda na taxa de lucro e os movimentos
cíclicos do capital; (v) as mudanças demográficas e alterações nos padrões de
consumo.

132
“These economic shifts were often accompanied by political shifts as cities found themselves
competing in the global market, shorn of much of the traditional protection of national state institutions
and regulations: deregulation, privatization of housing and urban services, the dismantling of welfare
services—in short, the remarketization of public functions.”
140

Há um consenso generalizado entre os estudiosos do fenômeno no tocante à


expansão geográfica da gentrificação e sua concomitante mutação em tipos diversos,
dada a sua intrínseca relação com os circuitos globais de capital e circulação cultural
(SMITH, 2010c). Os diferentes tipos de gentrificação compartilham algo em comum:
“a transformação socioeconômica e, também, cultural decorrente da colonização, ou
da recolonização, empreendida pela classe média” (LEES et al., 2007, p. 135,
tradução nossa)133.
Esta gentrificação global, denominada por Atkinson e Bridge (2005) como “novo
colonialismo urbano”, agora na escala do bairro (CLARK, 2010), representa a
vanguarda do urbanismo neoliberal, legitimando a retórica da cidade competitiva,
criativa e atraente. Aliás, a capacidade de atrair e reter membros da denominada
“classe criativa” (criative class)134, em razão da valorização da imagem da cidade
(como tolerante, aberta e plural), tem se revelado um importante fator de impulsão do
desenvolvimento econômico, num cenário estratégico de competitividade interurbana
global (PECK, 2005; SLATER, 2010; MENDES, 2012). Enquanto mercadoria, os
múltiplos significados sociais e culturais da cidade são seletivamente apropriados e
“empacotados” para criar uma imagem atrativa de lugar, encorajando o turismo e os
investimentos financeiros (WARD, 2004).

Como, no contexto mais amplo de mudanças das geografias sociais,


podemos adequadamente distinguir entre a reabilitação de casas do século
XIX; a construção de novos edifícios condominiais; a abertura de feiras e
eventos destinados à atração de turistas locais e não locais; a proliferação de
pubs e boutiques; e a construção de prédios de escritórios modernos e pós-
modernos, que empregam milhares de profissionais, todos à procura de um
lugar para viver [...]? [...]. A gentrificação não mais se restringe a um pequeno
e excêntrico mercado imobiliário, de reconstrução de áreas antigas, tornou-
se a parte visível de um esforço muito maior: a reestruturação da paisagem
urbana pelas classes endinheiradas. (SMITH, 1996, p. 37, tradução nossa)135.

Desse modo, as novas categorias de gentrificação constituem diferentes


facetas do fenômeno. Note-se que, por diferirem da gentrificação clássica, nem os

133
“A socioeconomic and indeed cultural transformation due to middle-class colonization or
recolonization.”
134
Evidenciada pelas profissões intelectuais, científicas, de gestão, artísticas e correspondentes
qualificações universitárias, cuja atuação implica na produção de novas ideias, tecnologias, conteúdos
criativos e inovadores (RODRIGUES, 2010).
135
“How, in the larger context of changing social geographies, are we to distinguish adequately between
the rehabilitation of nineteenth-century housing, the construction of new condominium towers, the
opening of festival markets to attract local and not so local tourists, the proliferation of wine bars — and
boutiques for everything — and the construction of modern and postmodern office buildings employing
thousands of professionals, all looking for a place to live (…)? (…). Gentrification is no longer about a
narrow and quixotic oddity in the housing market but has become the leading residential edge of a much
larger endeavor: the class remake of the central urban landscape.”
141

aspectos geográficos, nem os atores envolvidos nos novos processos são,


necessariamente, sempre os mesmos (FURTADO, 2014).
Nesse sentido, a análise desenvolvida por LEES et al. (2007) elenca seis novas
tipologias da gentrificação. A primeira, relacionada às novas construções em áreas
não edificadas (new-build gentrification), como condomínios residenciais multi e
unifamiliares – “enclaves fortificados” de luxo ou (sub)urban gated communities. Por
se tratar de construções em áreas não ocupadas originalmente, não há a
requalificação ou a renovação de antigas moradias, assim como não se verifica o
deslocamento direto de população residente. Contudo, ainda que não haja
deslocamento direto, é provável que ocorram deslocamentos indiretos (imediatos ou
não) nas comunidades vizinhas – na forma de “deslocamento de exclusão”. Primeiro,
pelo sombreamento dos preços praticados nos novos empreendimentos imobiliários
sobre as áreas adjacentes (“efeito em cascata”), cuja majoração da “renda da terra”
(aluguéis e preços de venda) impede o acesso à propriedade imobiliária pelos grupos
de baixa renda. Segundo, pela exclusão sociocultural, uma vez que os novos estilos
de vida e consumo implicariam no aumento do custo de vida e no enfraquecimento
das relações interpessoais e identitárias (quebra das relações de vizinhança, do
sentido de coletividade, da vivência do espaço público, etc.) (DAVIDSON; LEES,
2005, 2010; LEES et al., 2007; ÁLVAREZ-RIVADULLA, 2007; ATKINSON, 2010). Por
fim, os efeitos do deslocamento atingem não só aqueles que foram expulsos, mas,
também, as famílias daqueles que, com muito sacrifício, permanecem na área
gentrificada.

Quando uma família vê sua vizinhança mudando drasticamente, quando


todos os seus amigos estão indo embora, quando as lojas fecham e novos
estabelecimentos comerciais, para outros tipos de clientes, tomam os seus
lugares (ou sequer são substituídas), quando as mudanças nas instalações
públicas, nos padrões de transporte, nos serviços de apoio, estão claramente
tornando a área menos habitável, então a pressão do deslocamento já é
severa, e sua concretização apenas uma questão de tempo. Famílias sob tais
circunstâncias não aguardam o inevitável e deslocam-se tão logo seja
possível. (MARCUSE, 2010, p. 335, tradução nossa)136.

136
“When a family sees its neighborhood changing dramatically, when all their friends are leaving, when
stores are going out of business and new stores for other clientele are taking their places (or none at all
are replacing them), when changes in public facilities, transportation patterns, support services, are all
clearly making the area less livable, then the pressure of displacement is already severe, and its actually
only a matter of time. Family under such circumstances may even more as soon as they can, rather
than wait for the inevitable; they are displaced nonetheless.”
142

Relevante ressaltar que a contiguidade espacial entre empreendimentos de


luxo e a “vizinhança pobre” não se traduz, necessariamente, em continuidade social e
funcional, pelo que predomina a ausência de relações sociais entre os novos e antigos
moradores (SALGUEIRO, 1998; CALDEIRA, 2000; MENDES, 2008a). Assim, num
contexto ampliado de mudanças socioespaciais, grande parte dos autores entende
que o desenvolvimento de novas construções caracterizaria um processo
gentrificativo.
A segunda tipologia relaciona-se às alterações na estrutura de classe das áreas
rurais (rural gentrification ou greentrification), motivadas pela mudança da classe
média suburbana para tais áreas em busca do idílio rural e do consumo da natureza,
o que aponta certa “estetização da paisagem” e afirmação de um novo estilo de vida
a ela associado (cultura da estética, práticas de consumo, apropriação do habitat),
mas agora no contexto mercantil (BOURDIEU, 1983; LEES et al., 2007; MENDES,
2008c).
A terceira tipologia está ligada às transformações espaciais destinadas a
favorecer o incremento de atividades turísticas (tourism-gentrification) e uma maior
competitividade interurbana. A (re)produção do espaço como valor de troca – um lugar
de consumo e entretenimento para turistas e estratos de padrão socioeconômico
superior (demanda solvável) –, dá-se mediante a exploração de vantagens
localizacionais, a elevação da qualidade de vida (desenvolvimento do ambiente
urbano, cultural, lúdico, etc.) e a melhoria da imagem da cidade no cenário
internacional – city marketing (BORJA; CASTELLS, 1997; GANT, 2014; LEES et al.,
2007; MENDES, 2008b; HARVEY, 2011b). Há, então, a disseminação de espaços de
consumo, de atrações culturais e arquitetônicas (centros históricos; atividades
culturais; feiras e eventos internacionais; edifícios e equipamentos espetaculares;
zonas portuárias revitalizadas; shoppings centers, etc.), que, ao promoverem a
“disneyficação” do espaço (IANNI, 1999), acabam por expulsar os residentes pobres.
A quarta tipologia correlaciona-se ao movimento significativo de população
estudantil (normalmente, jovens solteiros, com limitado capital econômico e não
participante do mercado de trabalho) para bairros tradicionalmente não estudantis
(studentification), em cidades que abrigam prestigiadas e populares universidades,
causando: a conversão de residências domiciliares comuns em residências estudantis
(geralmente de múltipla ocupação); a conversão de estabelecimentos comerciais para
atendimento dos hábitos de consumo, estilos de vida e práticas culturais estudantis; o
143

aumento da ocupação locatícia de imóveis (temporária), em detrimento da ocupação


pelos proprietários imobiliários (permanente); etc. (SMITH, 2005; LEES et al., 2007).
A quinta tipologia corresponde ao ultra enobrecimento de áreas outrora
gentrificadas (super-gentrification ou financification), envolvendo investimentos
econômicos e financeiros mais elevados. Este tipo de gentrificação é impulsionado
por trabalhadores de alto escalão do mercado financeiro e do setor de serviços
corporativos (administração, finanças, tecnologia de informação, etc.), globalmente
conectados, com atuação nas cidades de Londres e de Nova York (Wall Street) (LEES
et al., 2007).
Por fim, a sexta tipologia tem relação com o enobrecimento de
estabelecimentos, ruas ou áreas comerciais (commercial gentrification, retail
gentrification ou boutiqueification), articulado à apropriação do mercado por novos e
mais abastados consumidores (moradores ou não) atraídos para a região, cujos
gostos, estilos de vida e demandas de consumo (bens e serviços) se diferenciam dos
antigos frequentadores (LEES et al., 2007). De maneira que, as atividades comerciais
e de serviços que não se adequam ao novo mercado são gradualmente substituídas,
em função das dificuldades que enfrentam para se manterem na região.
No artigo intitulado The Changing state of gentrification, Hackworth e Smith
(2010) apresentam um histórico do processo de gentrificação, a partir da análise de
três regiões da cidade de Nova York: Clinton, Long Island e Dumbo (Down under the
Manhattan Bridge Overpass). O esquema histórico da gentrificação é, então, dividido
em três períodos ou ondas (waves) – separadas por dois períodos de transição –, que
se estendem da década de 1950 até os dias atuais. A primeira onda de gentrificação
(1950-1973), denominada como “esporádica”, foi facilitada pelas políticas de
reinvestimento implementadas pelo Estado, como forma de atenuar o declínio urbano
verificado nas áreas residenciais centrais das principais cidades dos Estados Unidos,
da Europa Ocidental e da Austrália. Conforme ressaltado pelos autores, a perspectiva
de investimento privado nos centros urbanos, sem algum tipo de auxílio do setor
público, era bastante arriscada. De maneira que a requalificação de esparsas
residências operárias, advinda da atuação dos gentrifiers pioneiros, foi uma onda
incipiente e casual, em grande parte, financiada pelo setor público.
A segunda onda de gentrificação, denominada como “ancoragem da
gentrificação", ocorreu entre o final das décadas de 1970 e de 1980. Esse período foi
marcado pela expansão da gentrificação a áreas centrais desinvestidas da cidade,
cuja reestruturação era favorecida pelas estratégias dos governos locais para atrair
144

investimentos privados no mercado imobiliário. Em contraste com a fase anterior, os


processos gentrificativos tornaram-se comuns, também, em pequenas cidades
(cidades “não-globais”), em virtude da "integração da gentrificação a uma ampla gama
de processos econômicos e culturais, de escalas global e nacional” que
caracterizaram o período (HACKWORTH; SMITH, 2010, p. 68, tradução nossa)137.
Há, então, a disseminação de políticas de regeneração urbana em diversas
cidades do mundo, que, baseadas em “cidades-modelo” (como Barcelona, Bilbao,
etc.), promovem a homogeneização de paisagens comerciais e residenciais ao redor
do mundo, a partir das seguintes práticas: (i) perspectiva pós-industrial para a cidade;
(ii) alteração da imagem da cidade; (iii) transformação do seu ambiente físico, com
foco em símbolos do renascimento (centros de exposições, salas de concerto, etc.);
(iv) regeneração do centro da cidade e de suas áreas degradadas, potencializada
pelos mercados financeiros e imobiliários globais; (v) relevância econômica do lazer
urbano (efeito Guggenheim); (vii) implementação de um novo sistema de governança
urbana, com base em parcerias público-privadas (LEES et al., 2007). O que
explicitaria a passagem do “gerenciamento urbano” para o “empreendedorismo
urbano” a que alude Harvey (1989).
A terceira onda, intitulada como “gentrificação generalizada", que começou em
meados da década de 1990 e que se estende até os dias atuais, se distingue das
anteriores pela adoção da gentrificação como uma estratégia generalizada de
acumulação de capital – como uma nova “fronteira urbana”138 em que fortunas são
criadas (SMITH, 1996, 2007). A gentrificação passa a ser utilizada, então, como um
modelo de planejamento urbano estratégico mundializado, transformando a paisagem
das habitações, do trabalho, do lazer e do consumo, de inúmeras cidades, de acordo
com as particularidades (econômicas, sociais, políticas, culturais, etc.) de diferentes
contextos geográficos. Assim, as estratégias de gentrificação dos espaços da cidade
– residenciais ou comerciais, de zonas centrais ou periféricas –, são ampliadas e

137
“integration of gentrification into a wider range of economic and cultural processes at the global and
national scales”.
138
Aqui, a utilização do termo se faz em consonância com a concepção de Smith (1996) ao tratar dos
ciclos de valorização-desvalorização do solo (rent gap), como forma de estimular a valorização da terra
e a reprodução do capital. Ressalta-se que, assim como Smith, outros autores se apropriaram da
categoria “fronteira” para a compreensão de processos diversos daquele originalmente tratado por
Turner (1894), conforme alude Carvalho (2004). Apesar da propriedade e acerto dessas abordagens,
em especial aquelas desenvolvidas por Martins (1997) e Carvalho (2004) – que se referem,
respectivamente, aos processos de expansão: (i) do território brasileiro em direção à Amazônia (frente
pioneira, com presença do capital na produção, e frente de expansão, com a ocupação do espaço sem
a mediação do capital) e (ii) periférica do Município de São Paulo (fronteira campo/cidade, rural/urbano)
–, no presente trabalho não se aplicam, dadas às diferenças na situação fundiária e socioeconômica
do objeto de estudo.
145

intensificadas. A terceira onda consolida o protagonismo do Estado nas intervenções


de reestruturação urbana (característica das duas últimas ondas do processo), ao
contrário das primeiras aparições do fenômeno, principiadas pela iniciativa privada.
Face à globalização neoliberal, ciclos de desinvestimento-reinvestimento e dinâmicas
de rent gap ocorrem de formas mais complexas no espaço geográfico, assinalando as
desigualdades de classe e renda imanentes ao desenvolvimento desigual (LEES et
al., 2007; HACKWORTH; SMITH, 2010).
Como afirma Clark (2010), processos de gentrificação como estes podem
ocorrer em todo o espaço da cidade, inclusive nas zonas periféricas, suburbanas e
rurais que a circundam, mediante a transformação residencial e comercial de áreas
degradadas ou estigmatizadas, a substituição dos antigos habitantes e a mudança do
status socioeconômico local. De maneira que a atual forma do fenômeno se distingue
dos primeiros episódios pontuais que o restringiam aos centros históricos de cidades
europeias e norte americanas, segundo o conceito clássico de gentrificação (LEES,
2010).
Essa tendência revela a estratégia mundial de reestruturação urbana, cujas
intervenções “regeneradoras” estimulam a desconcentração do capital produtivo e
estão na base da formação do rent gap, como meio de reforçar e reproduzir a riqueza
e o poder da classe dominante. O planejamento estratégico, desse modo, nada mais
é do que um eufemismo para “gentrification”, importando determinar aqui, “quem sai
e quem entra” (ARANTES, 2002, p. 31).
O Poder Público local possui, então, um papel ativo e direto nos processos
gentrificativos, geralmente buscando aumentar a circulação de capital e a arrecadação
de impostos em determinadas áreas, por intermédio de políticas de reestruturação
urbanas, em que o modus operandi se dá pela lógica do mercado e não mais pela
lógica de prestação de serviços sociais. Para o alcance desse intento, é comum a
instituição de políticas destinadas a conceder a isenção ou a redução temporária de
impostos àqueles que, na condição de proprietários de imóveis degradados,
promovam a sua reabilitação; a destinação de recursos financeiros para a promoção
do desenvolvimento e melhoria da infraestrutura e prestação de serviços públicos na
área; a implementação de normas e instrumentos urbanísticos que constranjam à
reabilitação dos imóveis deteriorados ou, em caso de impossibilidade, à venda a
terceiros que a faça; ou, até mesmo, pela redução da provisão de investimentos, em
infraestrutura e serviços, em determinadas localidades, como forma de forçar o seu
declínio e facilitar o posterior reinvestimento (BEAUREGARD, 2010).
146

Assim, a tese regenerativa da gentrificação propalada por políticas urbanas de


valorização da imagem da cidade, ainda que orientada à fixação da população já
existente, à modernização econômica e ao crescimento da oferta de emprego, se
configura como mecanismo de legitimação do poder instituído e da privatização de
investimentos públicos que, em última análise, subsidiam ações dos mais ricos
(instituições financeiras, grandes grupos econômicos e de construção civil,
empreendedores, etc.), em detrimento do auxílio às classes menos favorecidas ou dos
interesses de toda a sociedade (MENDES, 2010a, 2010b, 2011a).
Embora os pontos negativos da gentrificação sejam mais marcantes e
referenciados – fruto de um urbanismo excludente, que expulsa as camadas mais
pobres da população dos espaços da cidade (“higienização social”) –, há, é claro,
inegáveis aspectos positivos na sua ocorrência. A polarização “benefícios x
malefícios” dos processos gentrificativos para a cidade e seus respectivos moradores,
enquanto cidadãos (e não usuários), é ressaltada nas teses de “cidade emancipatória”
(emancipatory city thesis) e de “cidade revanchista” (revanchist city thesis), que
revelam, respectivamente, os aspectos positivos e negativos do fenômeno (SMITH,
1996; LEES, 2008, 2010). Tais aspectos são ponderados por Atkinson e Bridge (2005)
e encontram-se sintetizados no Quadro 2.

Quadro 2 – Aspectos positivos e negativos do processo de gentrificação

POSITIVOS NEGATIVOS
Deslocamentos provocados pela majoração dos
aluguéis e dos preços de venda dos imóveis
Danos psicológicos secundários devido ao
deslocamento
Estabilização das áreas em deterioração Indignação e conflitos comunitários
Diminuição da oferta de habitações a preços
Aumento dos valores de propriedade
acessíveis
Especulação imobiliária e aumento insustentável dos
preços dos imóveis
Redução da taxa de vacância dos imóveis Desabrigados
Apropriação privada de recursos públicos, por meio
Aumento das receitas fiscais locais
de lobby e articulações políticas
Aumento de políticas de desenvolvimento e
Deslocamento comercial e industrial
melhoria de serviços públicos
Aumento dos custos de vida e mudança nos
serviços locais
Redução do espraiamento da cidade para Aumento da demanda por habitações em bairros
áreas suburbanas ocupados por população de baixa renda
Perda da diversidade social e segregação entre ricos
Aumento da diversidade social
e pobres
Reabilitação imobiliária, com ou sem Subocupação e perda de população em áreas
subsídios públicos gentrificadas
Fonte: Atkinson; Bridge, 2005, p. 5, tradução nossa
147

Apesar das discussões acadêmicas enfocarem, especialmente, os efeitos


negativos da gentrificação (deslocamento da população de baixa renda, segregação
e polarização social), é cada vez mais frequente, nos círculos políticos europeus e
norte-americanos (de viés neoliberal), a hipótese de que o fenômeno contribui para a
criação de uma cidade mais diversa e tolerante – “cidade emancipatória” (ou
libertadora). Em tese, a mescla social (social mix) decorrente do processo
gentrificativo tornaria as comunidades menos segregadas, mais inclusivas e
sustentáveis; capazes, pois, de harmonizar uma mistura de rendas, culturas, etnias,
faixas etárias e estilos de vida (LEES, 2008; MENDES, 2012). A “cidade
emancipatória” possibilitaria que outsiders – imigrantes, minorias raciais e étnicas,
homossexuais, classes menos abastadas (ZUKIN, 1998) –, se transformassem em
insiders (PECK, 2005).
Há, contudo, poucas evidências na literatura que sustentam a ideologia
“emancipatória” das cidades – mediante a coabitação de diferentes grupos
socioeconômicos (socioeconomic mix) e raciais (racial mix) numa mesma área
gentrificada. Além das marcantes diferenças sociais, econômicas e culturais
provocarem tensões entre os novos e antigos residentes, os grupos sociais mais
abastados tendem a se auto segregarem (nos espaços de residência, trabalho, lazer
e consumo), implicando em escassa (e superficial) interação social com a população
autóctone menos afortunada. De maneira que a gentrificação, longe de ser tolerante,
emerge como um agressivo processo de ocupação “revanchista” da cidade, que afeta,
sobretudo, as minorias e os grupos de baixa renda (LEES, 2008; MALHEIROS et al.,
2012).
Em regra, a valorização da área gentrificada apoia-se na aceitação do discurso
da deterioração da área, da violência, do perigo, do medo, ou mesmo da
(re)adequação do uso do solo via novas regras de zoneamento, e é seguida de um
substancial aumento dos custos de bens e serviços, dificultando a permanência dos
antigos moradores de menor poder aquisitivo no local cuja realidade restou alterada
(ALVES, 2011). O solo urbano, enquanto mercadoria, valorizado pela conjunção de
todos estes fatores, está fora do alcance (consumo) da população de baixa renda, que
se vê forçada a sair para morar, empurrada sempre para mais longe, a fim de transferir
o “problema” para outro lugar. O que, em última análise, acentua os traços de
segregação socioespacial nas áreas onde o fenômeno tem lugar.
148

A superficial compreensão de grande parte da população sobre a gentrificação


decorre da veiculação de “notícias” (pouco informativas) por órgãos de comunicação
e jornalistas, cujas análises e descrições propagandeadas apresentam uma imagem
deturpada do fenômeno tal como ele ocorre, a fim de fomentar uma ideologia favorável
à sua contínua realização. Como salientado por Beauregard (2010), agentes de
reestruturação urbana, mídias locais, prefeituras, organizações estatais, instituições
financeiras, proprietários imobiliários, organizações de bairro composta por pessoas
mais abastadas, etc., possuem interesses na reestruturação urbana, na
transformação de uma área deteriorada, indesejável e “inabitada” em um lugar
“civilizado” e bom para se viver. Haja vista aos benefícios que a mesma acarreta,
notadamente o aumento da atividade econômica em decorrência da introdução de um
novo estilo de vida no local, por intermédio daqueles que atuam como gentrificadores
(gentrifiers).
O reforço dos efeitos benéficos da gentrificação para toda a cidade é facilitado
pela utilização dos termos de caráter não pejorativo (reestruturação urbana,
reconstrução, renovação, reabilitação, revitalização, regeneração, etc.) em
documentos oficiais do Estado, como forma de, por um lado, legitimar as intervenções
urbanas no seio social e atrair capital investidor, e, por outro lado, enfraquecer as
conotações classistas e raciais intrínsecas ao fenômeno, dificultando sobremaneira
as práticas oposicionistas (SMITH, 1996, 2010c; Lees et al., 2007; BEAUREGARD,
2010; CLARK, 2010).

A literatura urbana utiliza, muitas vezes, sem definição, termos como


regeneração urbana, revitalização urbana, gentrificação, redesenvolvimento
de bairro, reabilitação e renovação. Uma pesquisa superficial da literatura
revela que as formas de alterações socioespaciais que estamos estudando
também têm sido chamadas de "movimento de retorno à cidade" [...] e "re-
invasão urbana" [...]. A infinidade de termos para descrever o mesmo
fenômeno não decorre simplesmente de um empreendedorismo
terminológico sem sentido. Uma das lições da sociologia do conhecimento é
que as palavras não são passivas; na verdade, elas ajudam a moldar e criar
nossas percepções sobre o mundo que nos rodeia. Os termos que
escolhemos para rotular ou descrever eventos, devem, portanto, transmitir
conotações ou imagens adequadas do fenômeno sob análise, a fim de evitar
mal-entendidos graves. (PALEN; LONDON, 1984, p. 6, tradução nossa)139.

139
“Urban literature uses, often, without definition, terms such as urban regeneration, urban
revitalization, gentrification, neighborhood renewal, rehabilitation, and renovation. A cursory search of
the literature reveals that the form of neighborhood change we are studying has also been called a
“back-to-the-city movement“ (…) and “urban reinvasion” (…). The existence of such a welter of terms to
describe the very same phenomenon is not simply meaningless terminological entrepreneurship. One
of the lessons of the sociology of knowledge is that words are not passive; indeed, they help to shape
and create our perceptions of the world around us. The terms we choose to label or describe events,
must, therefore, convey appropriate connotations or images of the phenomenon under consideration in
order to avoid serious misunderstandings.”
149

Assim, como ressaltam Lees et al. (2007, p. xix, tradução nossa)140, “é difícil
ser favorável à ‘gentrificação’, mas quem se oporia a ‘renascimento urbano’,
‘reabilitação urbana’ e ‘sustentabilidade urbana’ [...]?” Tais fatores revelam as faces
tirânicas do dinheiro e da manipulação da informação, constituindo os pilares da
produção da história atual do capitalismo globalizado (SANTOS, 2006), que emergem
no urbanismo neoliberal.

3.4 Processos de gentrificação urbana no Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro,


Salvador e Recife.

Os debates contemporâneos sobre o tema atestam a globalização da


gentrificação, em função do urbanismo neoliberal, expandindo sua área de ocorrência
das cidades anglo-americanas para as cidades de todo o mundo, incluídas aquelas
localizadas nos países menos desenvolvidos (SMITH, 2010c; CLARK, 2010;
ÁLVAREZ-RIVADULLA, 2007; HARRIS, 2008; LEES et al., 2007, 2010; LEES, 2012;
INZULZA-CONTARDO, 2012; CASGRAIN; JANOSCHKA, 2013; BETANCUR, 2014).
Verifica-se, ainda, uma adaptação dos elementos que a caracterizam, devendo-se ter
em conta as especificidades sociais, políticas e econômicas que regeram a
configuração do espaço das cidades localizadas fora do eixo norte americano-europeu
(MARCUSE, 2010; ÁLVAREZ-RIVADULLA, 2007; HARRIS, 2008; LEES, 2012;
CASGRAIN; JANOSCHKA, 2013; BETANCUR, 2014).
Nesse sentido, Lees et al. ressaltam que:

No Sul Global, a gentrificação, enquanto estratégia urbana, ocorre de


maneiras ainda mais diversas. Embora o pensamento urbano europeu e
norte-americano esteja focado nos contornos da sociedade pós industrial, a
urbanização no Sul é dirigida pela expansão simultânea de "velhas" e "novas"
mudanças econômicas espaciais; cidades são remodeladas pela expansão
das atividades fabris e da indústria pesada [metalurgia e química industrial],
bem como o crescimento da alocação de empresas estrangeiras de alta
tecnologia em território nacional, da terceirização de atividades e, em menor
proporção, do setor de inovações. Cada vez mais, as transformações do
espaço urbano em cidades do Sul Global envolvem a sistemática
reconstrução de grandes partes do tecido urbano - sustentadas pelo apoio
financeiro de investidores transnacionais e pelo suporte político dos governos
nacionais. (LEES et al., 2007, p. 166, tradução nossa)141.

140
“It's hard to be for 'gentrification', but who would oppose 'urban renaissance', 'urban regeneration',
and 'urban sustainability' (…)?”
141
“But in the Global South, gentrification as an urban strategy is playing out in even more diverse ways.
Although urban thinking in much of Europe and North America is obsessed with the contours of
postindustrial society, urbanization in the Global South is driven by the simultaneous expansion of 'old'
and 'new' spatial economic shifts; cities are being reshaped by the expansion of manufacturing and
150

Conforme ressalta Santos (1980), o espaço subdesenvolvido tem um caráter


específico, de modo que as forças capitalistas que operam no centro do sistema não
alcançam a periferia ao mesmo tempo e nem produzem efeitos com a mesma
intensidade e características. Ainda que se possa encontrar isomorfismo, o valor do
fenômeno é diferente, porque o espaço é diferente, assim como suas combinações e
resultados. Isto posto, é possível asseverar que os processos gentrificativos
manifestam-se de formas distintas e em diferentes intensidades, de acordo com os
fatores conjunturais do local e a época em que ocorrem142 (LEES et al., 2007; PARRA,
2014).
Nas cidades do capitalismo periférico, a gentrificação não se apresenta de
forma bem definida como sua vertente anglo-saxã, variando no tocante às suas
características elementares e à população invasora (gentrifiers). Nessas cidades,
segundo Rose (2010), haveria uma gentrificação marginal143, cujos agentes
gentrificadores difeririam dos afortunados yuppies americanos, correspondendo,
então, a um mix de pessoas em situação transitória – “franjas menos privilegiadas das
novas classes médias” (MALHEIROS et al., 2012, p. 102) –, composta por uma
população jovem, casais sem filhos, estudantes universitários, profissionais liberais,
normalmente com um capital cultural mais elevado e um nível mais baixo de capital
econômico (CRIEKINGEN, 2006).
Betancur (2014) é categórico ao afirmar que a gentrificação nas cidades latino-
americanas dista, em forma e intensidade, daquela verificada nas cidades do Norte,
pelo fato de que: (i) suas áreas centrais (central business district – CBD) não foram
transformadas em centros de comando e controle da economia global, mantendo suas
funções, usos e usuários; (ii) suas áreas centrais não têm o mesmo potencial de renda
e capacidade de atração das pessoas como os verificados nas cidades do Norte,
sobretudo se considerada a menor oferta de empregos administrativos e financeiros
de alto escalão (white-collar workers); (iii) a classe média é integrada por um número

heavy industrial activities, as well as the growth of high-tech offshoring and outsourcing activities and
smaller pockets of service-sector innovation. Increasingly, though, the class transformation of urban
space in cities of the Global South involves systematic, large-scale reconstruction of large chunks of the
urban fabric - backed by the financial support of transnational investors and the political support of state-
led”.
142
Diferindo do modelo anglo-saxão, Parra (2014) retrata as especificidades da gentrificação ocorrida
em Sevilha, na Espanha, cuja reestruturação é caracterizada pela intervenção estratégica da
Administração Pública, como catalizadora do processo, e pelo relevante papel dos servidores públicos
como consumidores (gentrifiers) do espaço gentrificado.
143
Marginal gentrifier, no caso de Rose (2010), famílias monoparentais femininas mais pobres.
151

consideravelmente menor de pessoas em relação àquela verificada nas cidades do


Norte; e, por fim, (iv) há um potencial inferior de eventuais gentrificadores, uma vez
que as classes mais abastadas optam por residir nos novos condomínios fechados
exclusivos, horizontais e/ou verticais, localizados nas áreas periféricas das cidades,
influenciadas sobremaneira pelo caráter simbólico de status social e prestígio que
esse tipo de moradia lhes confere (SALGUEIRO, 1998; CALDEIRA, 2000).
Inzulza-Contardo (2012) e Janoschka et al. (2014) reforçam a ideia de que os
processos gentrificativos observados nas cidades latino americanas variam
substancialmente daqueles verificados no mundo anglo-saxão, em função, sobretudo,
da dessemelhante estrutura física (cidades menos compactas e com maior
espraiamento suburbano) e da desigualdade social. Para eles, a gentrificação
promove uma rápida mudança da paisagem urbana, transformando-a em uma cidade
fragmentada, caracterizada pela intensa privatização e verticalização do espaço e
pela coexistência de zonas de alta renda (condomínios fechados) e de setores
informais, em diferentes "ilhas" de consumo e produção. Em adição a isso, Álvarez-
Rivadulla (2007), baseando-se em seus estudos sobre a proliferação de condomínios
fechados na cidade de Montevidéu (Uruguai), aponta a suburbanização como uma
nova forma de gentrificação nas cidades do Sul Global.
Conforme Savage et al. (2003), a gentrificação no espaço urbano decorre de
quatro processos simultâneos: (i) a reorganização da cartografia social da cidade, com
substituição de um grupo social por outro de nível mais elevado nas áreas
gentrificadas da cidade; (ii) a transformação do ambiente construído e da paisagem
local, com a oferta de novos serviços e a requalificação residencial; (iii) o agrupamento
espacial de pessoas com nível cultural e estilo de vida similares ou, ao menos,
preferências de consumo partilhadas; e, por fim, (iv) a alteração da ordem fundiária,
com a substancial elevação dos valores da terra.
As mesmas quatro condições para a ocorrência da gentrificação são sustentas
por Casgrain e Janoschka (2013) ao abordarem o tema em relação às cidades latino-
americanas. Contudo, consideradas as especificidades dessas cidades, os autores
ressalvam que o processo gentrificativo não está adstrito apenas às suas áreas
centrais, destacando ainda que: (i) os processos de urbanização suburbana nas
cidades latino-americanas expõem um conflito de classes não observado nas cidades
norte americanas e europeias, decorrente das múltiplas formas de invasão de terras
e autoconstrução irregulares (ilegais) em áreas periféricas, que, uma vez integradas
ao tecido urbano (com maior acesso a serviços públicos e infraestrutura), revelam as
152

investidas de políticas gentrificativas tendentes a expulsar os moradores ilegais, direta


ou indiretamente144; (ii) as políticas gentificativas incluem privatizações, abertura ao
capital estrangeiro, a liberalização monetária e a desregulamentação do solo, com o
fito de favorecer a máxima acumulação de renda pelos investidores imobiliários.
Verificando-se, então, a fragmentação do espaço via instalação de condomínios
fechados exclusivos (residenciais/comerciais) e de novas economias. O que explicita
novos processos de “invasão-sucessão” – em analogia ao modelo teórico de Burgess
(2005) –, face à saída de pessoas de uma classe social e a entrada de outras, de uma
classe mais elevada (BOURNE, 2010).
De acordo com Delgadillo (2014), o “cardápio” (urbanismo a la carta) das
intervenções procedidas no espaço citadino, por vezes implementadas por parcerias
público-privadas, inclui em seu repertório: (i) ações específicas, de baixo custo e
grande visibilidade na mídia – programação de eventos culturais em espaços públicos,
políticas de segurança pública, promoção do turismo urbano, instalação de ciclovias,
etc.; (ii) ações de baixo custo que não necessariamente envolvem a realização de
obras públicas – formulação de planos estratégicos, auxílio financeiro à população
vulnerável, implementação de orçamentos participativos, realocação do comércio
informal, entre outros; (iii) realização de megaprojetos – regeneração de frentes
fluviais e zonas fabris, construção de projetos emblemáticos, reabilitação de centros
e bairros históricos, introdução de sistemas de transporte público integrado,
programas de financiamento de habitação popular, etc.; (iv) campanhas de city
marketing – promoção de uma imagem atrativa e positiva da cidade (“cidade verde”,
“cidade global”, “cidade criativa”, “cidade compacta”, “cidade sustentável”, “cidade
equitativa”, “cidade para todos”, etc.), realização e participação em conferências
internacionais para promover a cidade e os êxitos da gestão e, por fim, negociação
para sediar eventos internacionais.
Erigida como política urbana, numerosas municipalidades utilizam a
gentrificação – ocultada sob a linguagem eufemista da “reestruturação urbana” ou de
suas variantes (regeneração, etc.) –, como estratégia urbana, de cunho neoliberal,
destinada a valorizar zonas degradadas, a tornar suas cidades mais atrativas, a
favorecer seu desenvolvimento e a promover sua inserção (ou consolidação) nos
mercados regionais, nacionais e globais (BIDOU-ZACHARIANSEN, 2006; SMITH,

144
A expulsão direta ou o deslocamento indireto dos antigos moradores podem decorrer da alteração
dos usos do solo, da degradação do ambiente citadino, da considerável elevação dos impostos ou dos
preços do comércio local (CASGRAIN; JANOSCHKA, 2013).
153

2006; CASGRAIN; JANOSCHKA, 2013; JANOSCHKA et al., 2014; BETANCUR,


2014).
No cenário brasileiro, o debate teórico sobre os processos gentrificativos
representa desafio ainda maior à luz das disparidades socioespaciais, da diversidade
social, da dimensão territorial, das especificidades históricas, do modelo de
desenvolvimento, dos processos de inserção na economia mundial, das estratégias
de sobrevivência dos pobres, etc., exigindo um esforço intelectual para contextualizar
as características do fenômeno ao contexto das cidades brasileiras.
No início, as intervenções procedidas nos centros urbanos nacionais eram
voltadas principalmente para a revitalização do patrimônio histórico, como o bairro
Pelourinho, situado no centro histórico da cidade de Salvador. As propostas atuais
são mais complexas e articulam projetos de transformações das funções, do uso e do
valor do solo de novas e velhas centralidades, como a regeneração do centro histórico
de São Paulo, a reestruturação da zona portuária, do parque olímpico e das
pacificadas “favelas” do Rio de Janeiro, e a requalificação do Cais José Estelita, na
cidade de Recife (SILVA, 2006; ALVES, 2011).
Em meados de 1950, o centro histórico do Pelourinho passou a enfrentar um
intenso processo de degradação, causado pela transferência das atividades
econômicas para outras regiões de Salvador, transformando-o em uma região
marginalizada, de prostituição e de ocupação de população de baixa renda. Em 1985,
o conjunto arquitetônico do Pelourinho foi reconhecido como Patrimônio da
Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a
Cultura (UNESCO145). Após a declaração, a área foi objeto de um profundo processo
de revitalização capitaneado pelo então governo do Estado – Antônio Carlos
Magalhães, a fim de torná-la um polo comercial, de práticas culturais e, sobretudo, de
atração turística da cidade. Apesar da relevância da recuperação de diversas
edificações que se encontravam em estado de ruína, a intervenção no centro histórico
foi procedida sem a prévia consulta ou participação popular. E, ao contrário do plano
incialmente previsto pela UNESCO, para estímulo ao social mix e ao uso misto do solo
(permitindo a coexistência de usos residenciais, comerciais e de serviços), provocou
a expulsão dos moradores de baixa renda (“limpeza social”), em benefício do capital
e interesses privados (RUBINO, 2005; RIBEIRO, 2014).

145
United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization
154

Com relação às mudanças sociais e urbanas em curso na área central da


cidade de São Paulo, Frúgoli Jr. e Sklair (2009) retratam o forte papel desempenhado
pelo Estado na regeneração do bairro da Luz, apontando um tipo de gentrificação
associado à frequência, ao consumo, ao turismo e ao lazer das classes mais
abastadas, mas (ainda) não propriamente de cunho residencial. Trata-se de região
com forte densidade urbanística e social, constituída por inúmeros prédios e
instituições culturais tombadas pelo patrimônio estadual, como a Estação da Luz (o
atual edifício data de 1901), que passou por uma recente reforma coordenada pelo
Estado para abrigar, em suas dependências, o Museu da Língua Portuguesa. No seu
entorno, outras instituições culturais foram reabilitadas, como o prédio da Pinacoteca
do Estado, ou parcialmente reutilizadas, como a estação ferroviária Júlio Prestes,
atual sede da Orquestra Sinfônica do Estado (Sala São Paulo), a fim de transformar a
região da Luz num bairro cultural. Tais instituições fomentaram um novo afluxo de
pessoas ligadas às classes médias e altas à região central da cidade, a qual, há muito,
era caracterizada pela ocupação popular, pela significativa concentração de cortiços,
bem como pelas reiteradas práticas de comércio informal, prostituição, tráfico e
consumo de crack (FRÚGOLI JR.; SKLAIR, 2009).
A tentativa de transformar a região da Luz num centro cultural envolve uma
política mais ampla de requalificação, a fim atrair novos negócios, serviços e
comércios para a área. E, por outro lado, um histórico de ações de repressão,
fiscalização e controle da Administração Pública sobre a população marginalizada do
bairro (usuários de crack, prostitutas, travestis e traficantes), com base em um
discurso de combate à degradação e à criminalidade. A série de referências negativas
e estigmatizantes veiculadas pela mídia também contribuem para atuações
características de um modelo revanchista de cidade, tendentes a aniquilar a
diversidade racial, étnica e social da região. Segundo Frúgoli Jr. e Sklair,

a “cracolândia” tem sido fortemente acionada nos discursos dos responsáveis


pelas intervenções urbanas locais e vem também sendo alvo de ações
recorrentes de repressão, como a “Operação Limpa” [...], realizada pelo poder
público envolvendo a polícia, vigilância sanitária e setores ligados ao
assistencialismo, saúde, limpeza pública etc. (FRÚGOLI JR.; SKLAIR, 2009,
p. 124).

No bojo do processo de intervenções urbanas, se incluem antigas propostas de


renovação ou revitalização da zona portuária da cidade do Rio de Janeiro, que,
somente agora, com a execução do projeto “Porto Maravilha” e a organização dos
155

Jogos Olímpicos de 2016, saem do papel (COMPANS, 2004). A realização da Copa


do Mundo de 2014 e das Olímpiadas dá continuidade às estratégias de marketing e
empreendedorismo urbano adotados pela governança (neoliberal) do Estado,
acelerando os fluxos de bens, capital e turistas para a cidade, principados com a
recepção de uma série de megaeventos pela cidade, dentre eles a realização dos
Jogos Pan-americanos de 2007 (GAFFNEY, 2013; VASCONCELLOS et al., 2013;
OLIVEIRA, 2013). Sendo certo que, “a substancial carga simbólica associada aos
megaeventos viabilizou o patriotismo cívico necessário à sua sustentação”
(OLIVEIRA, 2013, p. 13), apesar da projeção de impactos negativos para diferentes
recortes geográficos, setores econômicos e frações da população146, sobretudo se
considerada a crônica desigualdade social existente na cidade (OLIVEIRA, 2011).

Capazes de mobilizar elementos cuja legitimidade parece inquestionável ao


senso comum, como a “paixão”, a “união entre os povos” e outros ideais
igualmente universalistas ligados à “celebração esportiva”, os megaeventos
esportivos conseguem promover o discurso consensualista de maneira tão
plena e radical que a simples ideia de uma ação ou omissão passível de criar
eventual obstáculo à sua realização é posta como inaceitável. Viabiliza-se,
assim, a completa transformação da cidade em arena de oportunidades de
negócios para grandes investidores esteada em um consenso político no qual
críticas, conflitos ou reivindicação de direitos sociais são classificados como
atitudes “conservadoras” e “antipatrióticas”. (OLIVEIRA, 2013, p. 13).

Desde a instituição de Brasília como a capital do Brasil, em meados de 1960, a


zona portuária do Rio de Janeiro passou por um processo de degradação, acentuado
pela diminuição da população residente e de investimentos para a sua manutenção.
O abandono da região, combinado à sua localização estratégica, à presença de uma
população de baixa renda e à participação do Estado (encabeçando o projeto e
assumindo os riscos dele decorrentes) foram determinantes para a atração de agentes
econômicos e intermediários, interessados na regeneração do espaço, nos moldes
das exitosas intervenções realizadas nas áreas portuárias de Londres, Nova York,
Buenos Aires e Barcelona (GAFFNEY, 2013; VASCONCELLOS et al., 2013; DINIZ,
2013).
O projeto “Porto Maravilha”, estruturado a partir de uma PPP, compreende uma
área de 5 milhões de metros quadrados (englobando as regiões centrais dos bairros
Saúde, Gamboa, Santo Cristo e das comunidades dos morros da Conceição e
Providência) e prevê projetos culturais financiados pelo Estado (como a construção

146
Segundo Vasconcellos (2015), pelo menos 1.000 famílias de 24 comunidades cariocas foram
removidas nos últimos anos em razão das obras de preparação da capital fluminense para receber tais
eventos.
156

de 2 museus); a reestruturação das redes de transporte; a recuperação dos espaços


públicos; a instalação de 2 teleféricos; o aumento da disponibilidade de imóveis
residenciais e comerciais (incluindo o complexo das Torres Trump). Tudo viabilizado
por meio de medidas que visam atrair investimentos para o financiamento da obra,
como o aumento do potencial construtivo da região e a concessão de isenções fiscais
para os empreendedores, objetivando reposicionar a região portuária na competitiva
economia mundializada (GAFFNEY, 2013; DINIZ, 2013).

Além de iniciar o maior projeto de privatização urbana das Américas, o projeto


Porto Maravilha está gentrificando a região. [...]. O processo contínuo de
reformulação da Zona Portuária, de enorme importância histórica e
arquitetônica, segue a tendência global na direção de promover uma
transfiguração de áreas de classe trabalhadora em espaços de consumo
global [...]. Os discursos arquitetônicos e espaciais por trás do projeto estão
direcionados aos turistas internacionais, interesses coorporativos e estilos de
vida da classe média alta. A contratação de arquitetos europeus para projetar
esses espaços e lugares se encaixa em um contexto social mais amplo, que
olha para a Europa e para os Estados Unidos como modelos de
desenvolvimento social e urbano. (GAFFNEY, 2013, p. 11).

Assim como outras cidades brasileiras, a paisagem da capital fluminense é


fortemente marcada pela ocupação informal de favelas, cuja incidência se alastra para
as áreas mais privilegiadas e valorizadas do território, localizadas na zona sul. Desde
2008, o governo do Estado do Rio de Janeiro tem implementado um programa de
ocupação estratégica das favelas com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)147.
A “pacificação” das favelas tem por objetivo controlar a criminalidade existente na
cidade e garantir a segurança necessária para sediar os megaeventos – Copa do
Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016. As UPPS atraíram um novo fluxo de
pessoas, nacionais e estrangeiras, nas favelas do Vidigal, Rocinha e Cantagalo, todas
situadas na zona sul da cidade, com a abertura de hostels para mochileiros, tours de
aventura, restaurantes, casas noturnas e, inclusive, um hotel com quartos de luxo (no
topo do Vidigal, de onde se tem uma bela vista da praia de Ipanema). Além disso,
provocaram um aumento nos aluguéis de casas e apartamentos em tais regiões, em
virtude da especulação imobiliária e da exploração da diferença entre os preços dos
mercados residenciais formais e informais da cidade. Há, com isso, a introdução de
diferentes estilos de vida e padrões culturais em áreas onde, não necessariamente,

147
As UPPs foram baseadas no programa instalado em Medellín, na Colômbia, em 2002, bem como
na ocupação do Haiti pelas Nações Unidas, sob a liderança do Brasil. O projeto é coordenado pela
Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) e financiado pelo governo do Estado (GAFFNEY, 2013).
157

elas são bem-vindas e cujos resultados, a longo prazo, são incertos (GAFFNEY, 2013;
VASCONCELLOS et al., 2013; CUMMINGS, 2013a, 2013b, 2015).
Ribeiro (2013), ressalta um processo inevitável de substituição da população
típica da favela do Vidigal148 por outra, mais rica, de novos residentes nacionais e
estrangeiros. Para ele, o processo equivaleria à renovação urbana e social verificada
em áreas centrais de cidades europeias outrora abandonadas pelas camadas mais
abastadas da população e que, por isso, enfrentavam um processo de degradação. A
diferença residiria no fato de que, no Vidigal, ocorre uma “gentrificação à brasileira”,
na medida em que a área é carente de infraestrutura, de serviços básicos e não se
encontra desocupada.
Segundo Cummings (2013b, 2013c), a “fronteira da asfaltização” (asphalt
frontier), decorreria de três fenômenos que, integrados, criam as condições para a
gentrificação das áreas informais das pacificadas favelas do Rio de Janeiro (favela
gentrification):

Existem geralmente três fenômenos que, juntos, criam as condições para a


gentrificação em um bairro de baixa renda particular. A primeira é o interesse
do consumidor: um segmento mais rico da sociedade torna-se interessado
em viver naquele bairro. A segunda são as condições econômicas: em uma
economia forte, o crescimento da renda pessoal e a migração interna que
supera a oferta de habitação na cidade. Isso leva o mercado imobiliário a
exercer pressão sobre a habitação. Assim, famílias com maior poder
aquisitivo começam a comprar e alugar imóveis em bairros de baixa renda.
Os moradores dessas áreas, por sua vez, mesmo que se beneficiem do
crescimento econômico, geralmente acabam sobrecarregados pelo aumento
dos aluguéis. A terceira é a acessibilidade. Parte do valor de um imóvel é
determinada por sua localização, ou seja, pelo nível de acessibilidade a uma
variedade de destinos urbanos. [...]. Especialistas discutem sobre qual destas
três forças é mais importante, mas, recentemente, o Rio vem experimentando
todos os três fenômenos. No caso das favelas, há um interesse de longa data,
especialmente a nível internacional, com o surgimento do fenômeno da
"favela chique149". [...] Além disso, a gentrificação é culturalmente
homogenização. Favelas são a essência da identidade cultural do Rio de
Janeiro. E cada favela é única. Na medida em que as favelas são
transformadas em abrigos para a classe média ou retiros turísticos, este bem
cultural estará perdido. (CUMMINGS, 2013a).

148
“Todos os caminhos da gentrificação levam ao Vidigal porque, além de ser dono de uma das mais
belas paisagens da Zona Sul, é, por si só, um cartão-postal. Está na direção para a qual os
espectadores do Arpoador olham ao aplaudir o pôr do sol. ‘Mora’ ao lado do morro Dois Irmãos. Tem
uma praia quase particular. Seu passado tem certo charme: fez história na luta contra as remoções na
cidade e, desde os anos 70, é a preferida dos artistas. Espremida entre Leblon e São Conrado,
alimenta-se da riqueza dos bairros vizinhos” (GARÇONI, 2013).
149
A glamorização da favela é favorecida pela difusão internacional da cultura, do carnaval, e de estilos
musicais (como o funk e o samba), provenientes dos “morros” do Rio de Janeiro, entre jovens artistas,
turistas e aventureiros transnacionais. Aclamado pela crítica internacional, o filme “Cidade de Deus”,
também propiciou que a favela chic ganhasse a atenção da mídia nos últimos anos (CUMMINGS,
2013c).
158

Na Barra da Tijuca (zona oeste da cidade), a reestruturação capitaneada pelo


Estado para sediar as Olimpíadas, com a execução dos projetos de infraestrutura e a
implantação de novos equipamentos urbanos, favorece o rápido crescimento da
região e a especulação imobiliária sobre as terras disponíveis. No histórico das
intervenções promovidas pelo Estado, com a utilização de recursos públicos,
verificam-se processos de remoção forçada de moradores das 119 favelas localizadas
no entorno, abrindo amplos espaços para o capital e para as novas construções (new-
build gentrification). Significativa, nesse sentido, é a luta travada entre a Prefeitura do
Rio de Janeiro e os moradores da Vila Autódromo – assentamento ribeirinho fundado
por pescadores na década de 1960, que está situado nas proximidades da área onde
se localiza o Parque Olímpico. Como grande parte dos moradores têm o título de
propriedade do imóvel, a Prefeitura tem encontrado grande resistência para removê-
los e, assim, promover o “desenvolvimento asséptico” do local150. Relevante
mencionar que, “ainda que a Vila Autódromo tecnicamente esteja fora dos limites
geográficos do escopo do projeto, a proposta vencedora da AECOM a incluiu como
parte de seu projeto urbano” (GAFFNEY, 2013, p. 15). Como alternativa à remoção
da população residente, a Associação de Moradores da Vila Autódromo elaborou o
Plano Popular da Vila Autódromo (PPVA) – com o auxílio do Instituto de Pesquisa e
Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(Ippur/UFRJ) e do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos da
Universidade Federal Fluminense (Nephu/UFF) –, propondo a urbanização da
comunidade e sua integração aos demais espaços da cidade. O Poder Executivo
municipal, contudo, ignorou o plano alternativo proposto, evidenciando o
beneficiamento do capital privado (VASCONCELLOS, 2015).
Por sua vez, o terreno do Cais José Estelita, com uma área de,
aproximadamente, 101,7 mil metros quadrados, compreendendo um pátio ferroviário
e antigos armazéns de açúcar (ambos datados do século XIX), foi leiloado pela União
em meados de 2008. A área encontrava-se abandonada pelo Poder Público, com
avançado estágio de deterioração. Contudo, possuía forte apelo comercial, dada a
sua localização em ponto estratégico da cidade – entre Boa Viagem, bairro de classe
média alta com uma avenida beira-mar dominada por luxuosos edifícios, e o “Recife
Antigo”, denominação do centro histórico de Recife (SERAFIM, 2012; TRUFFI, 2014;
NÓBREGA et al., 2014).

150
Não obstante, das 600 famílias que residiam na área, restam apenas 100. As demais, foram
realocadas no “Parque Carioca”, do PMCMV (VASCONCELLOS, 2015).
159

A área foi, então, adquirida pelo consórcio imobiliário integrado pelas


construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL
Empreendimentos, pelo valor de 55 milhões de reais, objetivando a instalação de um
complexo imobiliário de luxo, constituído por 12 edifícios, de até 40 andares, sendo
sete residenciais, dois comerciais, dois flats e um hotel. O projeto, intitulado como
“Novo Recife”, foi orçado em 800 milhões de reais e o custo previsto do metro
quadrado é de, pelo menos, 4 mil reais. De maneira que, o preço inicial dos
apartamentos pode variar de 400 mil a 1 milhão de reais (SERAFIM, 2012; TRUFFI,
2014).
A instalação do complexo edilício causou forte indignação popular e
mobilização social contrária, resultando no ajuizamento de cinco ações judiciais
(sendo duas ações civis públicas – ajuizadas pelo Ministério Público Federal e pelo
Ministério Público Estadual, e três ações populares), que discutem as irregularidades
do projeto: (i) ilegalidade do leilão, por ausência de consulta prévia a Órgãos Públicos
que eventualmente teriam interesse em se responsabilizar pela área e pela
inobservância da manifestação de interesse emanada pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), à época, posto tratar-se de um sítio de natureza
histórica; (ii) ausência do plano urbanístico da área (de acordo com o art. 2º da Lei
Municipal nº 16.550/2000) e de parcelamento do solo (conforme Lei Federal nº
6.766/76 e art. 8º da Lei Municipal nº 16.286/1997); (iii) não realização do estudo de
impacto de vizinhança – EIV (art. 188 do Estatuto das Cidades), do estudo de impacto
ambiental – EIA e do relatório de impacto ambiental – RIMA (com base no art. 225,
§1º, inciso IV da CR/88, e art. 10 da Lei Municipal nº 16.243/1996); (iv) não aprovação
do projeto junto aos Órgãos competentes, como o próprio IPHAN, o Departamento
Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Agência Nacional de Transportes
Terrestres (ANTT).
Apesar da inobservância de tais procedimentos e descumprimento das Leis
municipal, estadual e federal pertinentes – sobretudo o Estatuto da Cidade, o projeto
imobiliário foi aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da
Prefeitura de Recife, no dia 28 de dezembro de 2012, a poucos dias, portanto, do fim
da gestão do ex-prefeito João da Costa (PT-PE), revelando indícios de escusas
ligações entre a administração pública municipal e o capital privado (TRUFFI, 2014;
WANDERLEI, 2015).
160

Em meados de maio de 2014, um movimento inspirado no “Ocupe Wall


Street”151 promoveu a ocupação popular do Cais José Estelita (“#ocupeestelita”),
visando obstar a demolição dos armazéns de açúcar que integram a paisagem
histórica e cultural da cidade. Apesar da mobilização social contra o projeto “Novo
Recife”, a imprensa Pernambucana, convenientemente, silenciou quanto à veiculação
de informações precisas sobre o caso, impedindo visibilidade ao movimento e a
transparência pública sobre os fatos. Até então, as informações eram basicamente
noticiadas pelas redes sociais (como facebook, twitter, youtube e whatsaap) e pelos
meios de mídia alternativa. Somente após um truculento processo de reintegração de
posse realizado em meados de junho de 2014, o movimento passou a ter visibilidade
nacional, e internacional, com a cobertura da impressa convencional (SERAFIM,
2012; MARTINS; MOREIRA, 2014; NÓBREGA et al., 2014; WANDERLEI, 2015).
Os casos ora mencionados representam uma visão geral de emblemáticas
reestruturações urbanas e, por óbvio, não compreendem a série de processos
gentrificativos ocorridos, ou em curso, em distintas áreas das cidades brasileiras
(regiões portuárias, centros históricos, antigas zonas industriais, áreas periféricas,
etc.), marcados por uma lógica neoliberal e, por vezes, orientados pelos princípios do
planejamento estratégico e da competição interurbana (LEITE; SOMEKH, 2009). O
elemento em comum que deve ser ressaltado diz respeito ao papel do Poder Público
como condutor dos processos de reestruturação. Ressalta-se, contudo, que,
inobstante a existência de similaridades entre os casos ora abordados, cada lugar
experimentou, ou ainda experimenta, diferenças peculiares. O que demonstra a
diversidade dos processos gentrificativos.
Em geral, os diversos projetos de intervenção no espaço, sejam eles públicos
ou privados152, foram impulsionados pela injeção de recursos na economia urbana,
em virtude da recente realização de eventos internacionais no país – nomeadamente
a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. O que favoreceu a
(re)conquista de áreas pelo capital corporativo e especulativo, fomentando o intenso
processo de valorização da terra, a chegada de novos residentes, a expulsão de

151
Occupy Wall Street – força contra-hegemônica inspirada nos levantes da Primavera Árabe, o
movimento surgiu em meados de setembro de 2011, no distrito financeiro de Manhattan, na cidade de
Nova York, como forma de protesto contra a desigualdade socioeconômica, a corrupção e a influência
das empresas (principalmente do setor financeiro) no governo norte-americano (HARVEY, 2013c).
152
Leite e Somekh (2009) ressaltam, contudo, que “mesmo nos Estados Unidos, onde o setor privado
predomina, os grandes investimentos Públicos principalmente em infra-estrutura (sic) transportes e
criação de Espaços Públicos e equipamentos culturais é que efetivamente viabilizam os grandes
Projetos Urbanos”. O Estado, nesse aspecto, tem função determinante na produção capitalista, cujo
papel não se restringe a um mero regulador do mercado e agente da reprodução social.
161

grande número de residentes pobres e, por conseguinte, múltiplas formas de


gentrificação, em diferentes níveis e regiões das cidades.
Tais fatos corroboram a manifestação de Harvey (2013d) de que “o capital está
indo bem, mas as pessoas estão indo mal. E essa diferença é vista de forma mais
clara na [ausência de] qualidade da vida urbana”. É importante salientar, contudo, que
a exacerbação das diferenças socioespaciais tem fomentado ações de resistência da
sociedade civil contra as forças verticalizadas e singularizadas do mercado, numa
perspectiva de reinvindicação de um direito homogêneo ao espaço, à cidade
(LEFEBVRE, 2008; COSTA, 2013).
162

4 CENÁRIOS URBANOS: VENDA NOVA, BELO HORIZONTE E O ESPAÇO


METROPOLITANO

4.1 Instituição e estruturação de Venda Nova

A história de Venda Nova remonta ao início do século XVIII, época em que seus
moradores mais antigos eram administrativamente subordinados à Comarca de
Sabará – uma das primeiras regiões ocupadas na Capitania de Minas Gerais153 –, e
eclesiasticamente ligados à Freguesia de Curral D’El Rei154 (SILVA, 2000). Segundo
Paiva (1992), a Comarca de Sabará, também conhecida como Comarca Rio das
Velhas155, foi uma importante cidade do ciclo do ouro156, constituindo, desde cedo,
uma região de intensa atividade econômica (comércio, agropecuária e prestação de
serviços).

Até 1720, [Comarca de Sabará] já havia sediado enorme exploração mineral;


rebeliões como as dos Emboabas em 1708 [em razão de disputa por riquezas
auríferas] e as de Pitangui em 1711 e 1720; formado uma significativa rede
urbana que incluía algumas vilas e arraiais importantes, tais como Sabará,
Pitangui, Caeté, Santa Bárbara e Curral D’El Rei e desenvolvido uma
economia diversificada, composta por setores ligados à mineração, à
agropecuária e ao comércio. Já nesse período ela havia se constituído numa
das principais regiões da Capitania. (PAIVA, 1992, p. 22-23).

Naquela época, a oferta de mercadorias provenientes de outras Capitanias e


mesmo da Metrópole, trazidas por mercadores ambulantes, assim como a grande
quantidade de lojas e vendas de secos e molhados (farinha de mandioca, milho, carne
seca, toicinho, cachaça, rapadura, frutas e cerais) existentes nas vilas, nas áreas
rurais e nos caminhos da Capitania, favoreciam dinamização das atividades
comerciais. Por sua vez, o abastecimento das regiões mineradoras eram realizados

153
Em 1720, a Capitania de Minas Gerais, ou Província de Minas Gerais, era integrada por 5 Comarcas:
Ouro Preto, Rio das Mortes, Serro do Frio, Paracatu e Rio das Velhas. A Capitania possuía uma
complexa demarcação administrativa, mesclando: (i) divisões civis – vilas (correspondente ao
Munícipio atual) e distritos (também chamados de freguesias ou arraiais); (ii) divisões eclesiásticas –
paróquias e freguesias. De maneira que a divisão dos distritos paroquiais não é a mesma dos distritos
municipais (MATOS, 1979; PAIVA, 1992).
154
Segundo Matos (1979), recebeu esse nome em função da alocação, em seu território, de um grande
curral de gado pertencente à Fazenda Real. No final do século XIX sua povoação foi inteiramente
removida para a instalação da cidade de Belo Horizonte como nova capital do Estado de Minas Gerais
(GOMES, 2009).
155
A Comarca compreendia as Vilas de Sabará, Pitangui e Caeté e o julgado de Curvelo (MATOS,
1979).
156
A crise no mercado de açúcar brasileiro, no final do século XVII, e a descoberta e exploração de
riquezas minerais (ouro e diamante) na região de cidades históricas mineiras, deu início ao ciclo do
ouro no Brasil. No período de sua vigência, a extração e exportação do ouro ocupou um lugar de
destaque na história colonial brasileira, dominando a dinâmica econômica local até o final do século
XVIII (LACERDA et al., 2010).
163

por tropeiros que, ao transportarem toda sorte de mercadorias, abriam novas trilhas e
caminhos, ampliando a rede de estradas que interligavam as áreas da Capitania às
Capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Bahia. Ao longo dos percursos,
foram surgindo pequenos povoados e arraiais que facilitavam a ligação entre as
diferentes localidades e a própria comercialização dos gêneros (PAIVA, 1992,
APCBH, 2008).
Não é possível determinar a data precisa de fundação de Venda Nova, dada à
inexistência de estudos sistematizados sobre a região e às poucas referências à sua
memória histórica. Contudo, a pesquisa realizada por Paiva (1992) e um conjunto de
pesquisadores da “Inscriptum Pesquisas Históricas”, em documentação manuscrita
de órgãos da Comarca de Sabará e de outros órgãos administrativos coloniais e
provinciais, datados dos séculos XVIII e XIX, indica o seu surgimento na segunda
metade do século XVIII. Provavelmente, “em função das atividades agropecuárias e
do comércio que se praticava na região, bem como devido ao caminho da ‘Bahia a
Minas’ que parece ter cortado o arraial ou se ramificado até ele” (PAIVA, 1992, p. 26).
Época em que Venda Nova servia de pouso para os tropeiros que, trilhando o
“caminho dos currais da Bahia”, por lá passavam com gados e mercadorias para
abastecer as regiões mineradoras (APCBH, 2008).
Apesar dos inconvenientes da tradição oral, por vezes destituída de
comprovação histórica, os relatos empreendidos pelos moradores da Área de Estudo
Venda Nova – AEVN indicam um percurso semelhante sobre a origem do povoado e
de sua denominação. É o que se observa do depoimento prestado pela entrevistada
MA-5:

Porque o nome? [...]. A explicação mais aceita, você sabe como eram as
cafuas, né. E o quê que eles faziam nas cafuas? Eles faziam um cercado com
qualquer coisa, onde o gado podia dormir [...], isso tudo correndo à margem
do Vilarinho [...]. Então, o quê que se supõe? O que é que eles faziam? Eles
faziam essas cafuas, onde morava a família daqueles que vieram lá dos
currais da Bahia, vieram do Paraná, vieram das regiões com boi. O boi anda
tantos quilômetros, depois não anda mais. Então, naquelas pousadas ali,
foram surgindo cidades [...]. Então, qual é a presunção? Que Venda Nova
tenha aumentado assim a população. E, em vez deles terem as vendas, só
aquelas cafuas com o morador. Tinha uma coberta, onde as pessoas
dormiam do lado de fora da casa. Porque ele não poria um tropeiro dentro da
casa dele, né. As pessoas dormiam ali. Faziam as refeições ali. Essas coisas.
Descansavam, compravam, vendiam. Então, alguém construiu uma venda de
melhor aspecto. Talvez ligada mesmo a alguma casa. [...]. Porque essas
cafuas elas eram meio de mato, meio de capim, meio de folha de coqueiro,
essas coisas assim. Mas uma coisa daquele tijolo de barro, [...] adobe. Fez
uma coisa de adobe, rebocou e depois caiou. A gente pensa numa coisa
assim. E, também, tinha mais o que vender. Porque, era o mínimo o que eles
tinham pra vender. Por causa da dificuldade de transporte [...]. Então, o que
164

eles tinham pra vender era muito pouco. O que eles trocavam ali com os
tropeiros, essas coisas assim. E, esta venda, eles presumem, que ela ficava
na beira do córrego do nado. O córrego do nado é a Avenida 12 de outubro
agora, que não chama mais 12 de outubro, chama Avenida Dr. Álvaro
Camargo. [...]. Então, o boi passava ali a nado. Por isso o córrego do nado.
E, 200 metros e tanto pra frente, ele cai no Vilarinho. Então, aquela região ali,
a gente presume... presume, que essa loja era por ali. E que como ela tava
na beira do córrego do nado, para depois atravessar o boi pra levar até o
Curral D’El Rei, as pessoas falavam assim: não! Vamos parar naquela venda
nova! Vamos parar naquela venda nova! Porque era melhor, mais confortável.
Presume-se. Saber ninguém sabe. Foi muito pesquisado. Foi 1 ano de
pesquisa por 6 pesquisadores da Inscriptum Pesquisas Históricas e eles não
conseguiram descobrir com 100% de certeza (MA-5)157.

De igual modo, a versão do entrevistado MR-4 ressalta a passagem dos


tropeiros e a existência de uma venda nova na região:

Inclusive, eu criei a cavalgada para resgatar a memória de Venda Nova.


Porque aqui foi o caminho dos tropeiros, que eles vinham de Esmeralda,
passavam em Ribeirão das Neves, passavam aqui em Venda Nova, iam para
Santa Luzia. Inclusive, eles pernoitavam na venda nova. [...], foi daí que
surgiu o nome Venda Nova (MR-4)158.

As primeiras referências à Venda Nova, ou Venda Nova do Vilarinho, datam da


década de 1780, em documentos relacionados ao quadro socioeconômico das
localidades atreladas à Vila de Sabará (sede da Comarca de Sabará), sobretudo em
listagens de licenças para a abertura de estabelecimentos comerciais e outros
documentos que revelam a estrutura ocupacional (negociantes, agricultores,
pedreiros, carpinteiros, celeiros, etc.) e a organização administrativa (nomeação para
cargos militares e ofícios administrativos) da região (PAIVA, 1992).

A partir da segunda metade do setecentos outras localidades aparecem


citadas de forma mais intensa. As referências são feitas em vários tipos de
documentos, onde encontram-se dispersas e, por vezes, fragmentadas.
Contudo, é possível destacar as informações relativas ao Curral D’El Rei;
Contagem das Abóboras; Capela Nova do Betim; Santa Quitéria; Sete
Lagoas; Riacho da Areia e Venda Nova nas listas de licença para
funcionamento de estabelecimentos comerciais ou simplesmente “licenças
para negócios”. (PAIVA, 1992, p. 36).

Entre os documentos mais antigos, incluiu-se uma carta enviada à Dona Maria
(rainha de Portugal), datada de 1787, por meio da qual os moradores do arraial de
Venda Nova solicitavam a autorização para a construção de uma capela de invocação
a Santo Antônio na região. Foi ao redor dessa capela, cuja construção restou

157
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 02 jul. 2015.
158
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 06 jul. 2015.
165

autorizada em meados de 1809, que se formou o núcleo central de povoação da


Região Histórica de Venda Nova – RHVN (SILVA, 2000), cuja região foi
paulatinamente ampliada ao longo do tempo até a sua configuração atual; ou seja: a
Região Administrativa Venda Nova – RAVN. A parte de ocupação mais antiga de
Venda Nova compreende, em nossos dias, a área do bairro que tem o mesmo nome
da região, onde se localizam o centro histórico e comercial (Figura 7). A atual Rua
Padre Pedro Pinto (antiga Rua Direita; hoje, o maior centro comercial da região),
conserva o traçado original do caminho dos currais da Bahia, por onde passavam os
tropeiros à época (LIMA, 1996; APCBH, 2008).

Figura 7 – Região Histórica de Venda Nova (RHVN)

Fonte: Acervo Administração Regional Venda Nova


Nota: Vista da RHVN em 1948. Ao fundo, detalhe do antigo cemitério da região. No centro,
a matriz da Igreja de Santo Antônio, nas margens da Rua Santo Antônio. Abaixo, a Rua
Padre Pedro Pinto (antiga Rua Direita).

Na década de 1830, houve um aumento do número de cargos e ofícios


(escrivães, juízes, tabelião, delegado, alferes da Cia. Ordenanças, capitão da Cia.
Ordenanças, entre outros) da RHVN, em função do adensamento e do alargamento
de suas dimensões. A distribuição das novas funções militares e administrativas entre
membros das tradicionais famílias venda-novenses contribuiu para a formação de
166

oligarquias locais e a ampliação da importância da região nos cenários político,


econômico e administrativo da época (PAIVA, 1992).
A nova conformação político-administrativa da RHVN favoreceu a mobilização
dos moradores da região interessados em elevá-la à categoria de Freguesia, já que,
até então, estava ligada à Freguesia de Curral D’El Rei. O requerimento enviado à
Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais, no dia 15 de maio de 1868, pelo
então juiz de paz e subdelegado da RHVN – Padre José Maria de Andrade, foi
acompanhado de um “abaixo-assinado” com 120 assinaturas de moradores locais.
Como resultado, o distrito de Venda Nova foi elevado, incialmente, à categoria de
Paróquia (Projeto nº 1.592, de 24 de julho de 1868159) e, somente mais tarde,
declarado Freguesia (Lei Provincial nº 2.034, de 1º de dezembro de 1873160) (PAIVA,
1992; SILVA, 2000).
Quadro 3 – Cronologia da RHVN

ANO FATO HISTÓRICO


1781 Venda Nova encontrava-se ligada administrativamente à Freguesia do Curral D'El Rei
1795 Primeira referência à Venda Nova como distrito de Curral D'El Rei
1837 O arraial de Venda Nova é distrito da Freguesia de Curral D'El Rei, subordinado ao termo161
da Vila de Sabará, Comarca do Rio das Velhas
1846 Por resolução da Câmara Municipal de Sabará, cria-se o distrito de Venda Nova,
desvinculando-o de Curral D'EL Rei
Lei Provincial nº 291, de 26 de março de 1846 - estabelece as novas divisas do distrito de
Venda Nova e sua anexação à Santa Luzia
1850 Lei Provincial nº 472, de 31 de maio de 1850 - o distrito de Venda Nova é restituído à Paróquia
de Curral D'El Rei
1857 Lei Provincial nº 818, de 04 de julho de 1857 - o distrito de Venda Nova é incorporado à
Sabará, deixando de pertencer à Santa Luzia
1858 Lei Provincial nº 855, de 14 de maio de 1858 - é revogada a Lei Provincial nº 818, de 04 de
julho de 1857
1864 O distrito de Venda Nova pertence, civilmente, à Santa Luzia e, eclesiasticamente, ao Curral
D'El Rei
1868 Projeto nº 1.592, de 24 de julho de 1868 - o distrito de Venda Nova é elevado à categoria de
Paróquia
1870 Lei Provincial nº 1.672, de 19 de setembro de 1870 - supressão da Paróquia do distrito de
Venda Nova e restituição à Freguesia do Curral D'El Rei
1873 Lei Provincial nº 2.034, de 1º de dezembro de 1873 - é criada a Freguesia de Venda Nova,
que passa a pertencer ao termo de Santa Luzia
1874 Lei Provincial nº 2.086, de 24 de dezembro de 1874 - a Freguesia de Venda Nova passa a
pertencer ao Município de Sabará
Fonte: Paiva, 1992

159
“Art. 1º - Fica elevado à categoria de Paróquia o distrito de Venda Nova, atualmente pertencente à
Freguesia do Curral D’El Rei.”
160
“Art. 2º - Fica igualmente criada a Freguesia de Venda Nova no termo de Santa Luzia que terá por
divisas as do distrito do mesmo nome.”
161
Designação para território municipal (GOMES, 2009).
167

Em que pese à elevação da RHVN à categoria de Freguesia, o distrito


permaneceu administrativamente subordinado, em diferentes momentos, às
Freguesias e cidades mais importantes da região – Sabará, Curral D’El Rey, Santa
Luzia e a Campanhã (atual Ribeirão das Neves). De acordo com Paiva (1992), a
ausência de informações precisas quanto às subordinações e alterações na estrutura
administrativa da RHVN dificulta, sobremaneira, a reconstituição histórica da
conjuntura político-administrativa da região. Algumas das dificuldades decorrem da
sobreposição dos limites eclesiásticos, administrativos e judiciários no território da
Comarca de Sabará. Por essa razão, as informações administrativas concernentes à
RHVN encontram-se sintetizadas no Quadro 3, observando-se a compilação
cronológica efetuada pelo referido autor.

4.2 Venda Nova no contexto de Belo Horizonte

Instituída com o propósito de tornar-se a nova capital do Estado de Minas


Gerais, a criação da cidade de Belo Horizonte162 – pós Proclamação da República em
1889 –, representou a ruptura com a ordem império colonial ligada à mineração,
sinalizando os novos ideais que o regime republicano buscava implementar: de
progresso material e cultural, de cidadania e bem-estar coletivos (MONTE-MÓR et al.,
2007). De acordo com as disposições transitórias da Constituição Política do Estado
de Minas Gerais de 1891, a mudança de Ouro Preto163, já decadente e inoperante
enquanto capital, visava um local que, oferecendo as necessárias condições
higiênicas, se prestasse à construção de uma cidade que articulasse e reorganizasse
a economia mineira164 (JAMES, 1947; PLAMBEL, 1984).

162
Inicialmente denominada como Freguesia do Curral d’El-Rey, a capital do Estado de Minas Gerais
passou a chamar-se Belo Horizonte, por força do Decreto nº 36, de 12 de abril de 1890. Em 12 de
dezembro de 1897, com a inauguração oficial da nova capital, altera-se seu nome para Cidade de
Minas. Contudo, após a publicação da Lei nº 302, de 1º de julho de 1901, a cidade passa novamente
a designar-se Belo Horizonte.
163
A antiga capital, além de não oferecer as condições necessárias ao crescimento econômico (o relevo
acidentado da cidade dificultava a mobilidade nos transportes e nas comunicações e o sistema de
saneamento não comportava grande aumento populacional), possuía uma arquitetura cuja
irracionalidade e desordem “marcavam o modelo colonial de ocupação, com suas ruas estreitas e
tortuosas desembocando em largos irregulares onde se situavam os monumentos e as edificações
públicas e de expressão cultural” (MONTE-MÓR, 1997, p. 474).
164
Conforme Salgueiro (2001, p. 151), “a historiografia em geral, sugere que os parlamentares de Ouro
Preto impuseram a escolha de Belo Horizonte como uma última tentativa de levar ao fracasso a idéia
(sic) da construção de uma nova capital, já que, a princípio, parecia difícil, com tantos pontos
desfavoráveis, transformar esse arraial em ‘cidade moderna’, no espaço de tempo de quatro anos,
impostos pela lei. Além disso, sua proximidade com Ouro Preto a manteria em sua zona de influência”.
Ressalta-se que, quando das discussões entre "mudancistas" e "não mudancistas" acerca da
transferência da capital do Estado para a então Freguesia de Curral D’El Rei, a Região Histórica de
Venda Nova – RHVN, há muito, se encontrava vinculada ao Município de Sabará.
168

Nessa época, os planejadores da cidade acreditavam que a simples instituição


da capital em região central do Estado induziria a transformação do espaço territorial
mineiro, mediante uma reconfiguração espacial das atividades econômicas, dos
movimentos migratórios, da infraestrutura viária, de transportes e comunicações, etc.,
tornando-o mais coeso e integrado regionalmente (SALGUEIRO, 2001; MONTE-MÓR
et al., 2007). “Criada primeiro na prancheta, teve, depois, seu plano imposto ao relevo
natural à custa de enormes esforços e grande movimento de terras [...], [causando]
imenso impacto na contida gente da montanha” (GOMES; CESARINO, 2011, p. 19).
De maneira que, ao privilegiar a organização racional do espaço da nova capital –
“espaço concebido”, segundo terminologia de Lefebvre (2006) –, negou-se tanto os
processos sociais gerais quanto à vida cotidiana dos seus moradores originais.
Em 1894, com base no Decreto nº 680, de 14 de fevereiro de 1894 – e sob a
direção do engenheiro Aarão Reis, que já havia auxiliado na escolha da área –,
iniciam-se os trabalhos da Comissão Construtora da nova capital, cujo arrojado plano
de construção, seguindo o modelo racionalista de inspiração franco-americana165 da
época, propunha a divisão da cidade em três grandes áreas, assim constituídas e
denominadas (Figura 8): (i) zona urbana: delimitada pela Avenida do Contorno (então
Avenida 17 de Dezembro), tendo como eixo fundamental a Avenida Afonso Pena,
privilegiava aspectos de higiene e circulação, abrigando em seu núcleo, a elite
econômica e política. Seu traçado ortogonal, sobreposto pelas avenidas em diagonal
– ao invés do clássico xadrez das grandes cidades como Washington e Paris -,
produziu quarteirões quadrados e idênticos, com lotes de pouca frente e maior
profundidade, que, além de serem mais compatíveis com a especulação de terrenos
urbanos e seu máximo aproveitamento, favoreceu a atuação do Estado na distribuição
espacial e social da população; (ii) zona suburbana: um anel pericentral para além da
Avenida do Contorno, com ruas e quadras de traçados irregulares, sem qualquer
medida padrão, destinado à expansão da cidade, abrigando apenas sítios e chácaras;
e (iii) zona rural: destinava-se ao estabelecimento de colônias agrícolas, constituindo
um cinturão verde, cuja função precípua seria a de manter o abastecimento da cidade,
fornecendo alimentos e materiais necessários a sua construção e manutenção.

165
O plano elaborado por Aarão Reis, para a primeira cidade planejada do País, reflete a ideia de ordem
e funcionalidade ao espaço sob a influência do modelo de Pierre Charles L’Enfant para Washington
D.C, em 1791; do barão Georges von Haussmann, durante o reinado de Luís Napoleão (Segundo
Império), na reestruturação de Paris (PLAMBEL, 1979); além do modelo de La Plata, privilegiado, em
parte, na planta da nova capital (SILVA, 1991; SALGUEIRO, 2001).
169

Diante da organização intra-urbana de algumas metrópoles brasileiras, Villaça


(1998) afirma que a estrutura interna da cidade de Belo Horizonte, é um misto de
círculos concêntricos e de setores de círculo, analogamente aos modelos
empregados, respectivamente, por Burgess (2005) e Hoyt (1939). “O plano revela,
portanto, a semente de um modelo de círculos concêntricos. A zona urbana era
claramente a zona ‘nobre’ da cidade e a suburbana, a popular” (p. 119). Apesar de,
segundo ele, a organização por setores predominar na estruturação do espaço intra-
urbano166.

Figura 8 – Planta Básica de Belo Horizonte – Projeto de Aarão Reis

Fonte: Acervo Museu Histórico Abílio Barreto

Com o intuito de induzir o assentamento da população e das atividades na área


central da cidade, a Comissão Construtora estabeleceu quatro Vetores de ocupação
inicial: o bairro dos Funcionários (ocupado pelos funcionários públicos vindos de Ouro
Preto e cujo nome, hoje, permanece o mesmo), a área próxima à Estação Ferroviária,
a Avenida Afonso Pena e a Avenida do Comércio (atual Avenida Santos Dumont).

166
Para Villaça (1998, p. 114), “a metodologia científica não pode prescindir de boas observações,
descrições e classificações dos processos. (...). Para isso, os chamados modelos simplificados de
estrutura urbana são úteis, desde que não se pretenda tirar deles mais do que podem oferecer.”
170

Note-se a ausência de previsão de área destinada à ocupação daqueles que


auxiliariam na construção da cidade. Os operários, e respectivos familiares, acabam
por residir em áreas reservadas à instalação de colônias agrícolas ou ocupar
clandestinamente áreas da cidade, inclusive da zona urbana, fomentando o
surgimento de favelas167. A Planta Básica de Aarão Reis, justamente por ter sido
planejada para abrigar os integrantes da burguesia e seus negócios, contém, desde o
início, uma controversa e segregada ocupação que marcariam de forma indelével a
estruturação do seu espaço (PLAMBEL, 1984; VILLAÇA, 1998).
Em 11 de janeiro de 1895, há a publicação do Decreto nº 803, pelo governo do
Estado, estabelecendo as bases para o levantamento do plano geral da nova capital
– desmembrando-a para esse fim do Município de Sabará, bem como para as
concessões, vendas e distribuições168 de lotes urbanos e suburbanos para
construções. Conforme o Decreto, a Planta Básica da cidade teria seu perímetro
dividido em seções, quarteirões e lotes, com logradouros públicos (praças, avenidas,
ruas, passeios, jardins) dispostos de maneira a permitir a rápida e fácil circulação dos
seus habitantes. De igual modo, há a designação dos lugares destinados a edifícios,
prédios públicos, templos, hospitais, cemitérios, parques, pontes, matadouros,
mercados etc.. O esquema geral de racionalidade urbanística impõe a retirada dos
antigos habitantes do Curral D’El Rei e a remoção de construções que interferiam na
execução das obras de urbanização (BARRETO, 1996). A cidade tem, então, essa
característica especial: foi concebida para existir de uma determinada maneira,
segundo um modelo de planejamento que inviabilizava quaisquer formas de ocupação
espontânea do espaço pela população. Segundo Monte-Mór et al.,

Belo horizonte foi, sob vários aspectos, uma espécie de cartão de visitas do
novo regime. Seu traçado, sua fisionomia eram mais que uma metáfora da
nova ordem que se buscava implantar, eram materializações de uma filosofia,
de uma política, de uma pedagogia, de uma nova forma de sociabilidade. [...]
a cidade nascida da ação política, a cidade balizada pela intervenção do
estado, a cidade moderna e modernista, republicana e contraditória em sua
tensão entre a forma moderna de sua estrutura arquitetônica e urbanística e
certo conservadorismo. (MONTE-MÓR et al., 2007, p. 11-17).

167
Relevante mencionar que, em 1895 – ou seja, dois anos antes de sua inauguração oficial, a cidade
de Belo Horizonte já contava com duas áreas de invasão no perímetro urbano, ocupadas por,
aproximadamente, três mil pessoas, as quais foram removidas pelo governo, em 1902, e instaladas em
local reservado à morada da classe operária (PLAMBEL, 1984).
168
O Decreto nº 803/1895 previa a doação de terrenos situados nas zonas urbana e suburbana, pelo
Poder Público, para os segmentos da população diretamente ligados ao aparato estatal e aos
proprietários de terra em Ouro Preto, como forma de incentivar sua transferência para a nova Capital.
171

Inaugurada oficialmente em 12 de dezembro de 1897, a cidade fora projetada


para tornar-se centro político e administrativo do Estado de Minas Gerais, abrigando
tanto as sedes administrativas dos governos municipal e estadual, com uma
população de, no máximo, 200.000 habitantes, segundo o art. 3º do Decreto nº
680/1894. Não havia, por parte dos planejadores, qualquer pretensão em converter a
nova capital em polo econômico regional ou nacional169, de maneira que os
construtores restringiram sua atuação à criação do espaço do poder e da classe média
urbana – em especial, os funcionários públicos, mas pouco se preocuparam com a
articulação da capital com sua região imediata (a periferia excluída, que se estende
de forma descontínua e desordenada) ou com rede de cidades que deveria comandar
(MONTE-MÓR, 1997).
Desde a fundação de Belo Horizonte, o Estado exerceu papel determinante no
controle da ocupação e uso do solo urbano, configurando-se como o principal indutor
de sua expansão, não só por planejar o espaço da cidade (demarcando a área de
valorização dos imóveis), mas por constituir-se no maior detentor de terras e o
responsável por sua distribuição no Município. Veja-se que a doação de terrenos para
funcionários públicos, pessoas ligadas ao Estado e proprietários de terra em Ouro
Preto, bem como a adoção de leilão público para a venda de terrenos localizados na
área central da cidade, ratificam o critério da renda para seleção dos futuros
moradores. Como resultado, pelo fato da maior parte dos imóveis urbanos, e inúmeras
glebas rurais, concentrar-se nas mãos de pessoas que não tinham imediato interesse
em sua ocupação, há a subutilização da infraestrutura alocada na área central, bem
como a retenção de lotes e o favorecimento da especulação imobiliária. Por outro lado,
o alto preço da terra urbanizada associado à legislação restritiva impôs aos
despossuídos a ocupação informal e desordenada das áreas periféricas, mediante a
abertura de loteamentos sem qualquer tipo de planejamento (PLAMBEL, 1984). O que
exemplifica a discrepância existente entre a representação do espaço preconizada
pelos fundadores e as práticas de ocupação da cidade (SALGUEIRO, 2001).

As avenidas barrocas, os prédios públicos valorizados em localização e


monumentalidade neo-clássica, a racionalidade do traçado e do sistema
referencial urbano, as normas rígidas de urbanismo e higiene, tudo foi
ordenado para garantir uma vida urbana sadia e agradável àqueles que

169
Nesse caso, as atividades econômicas, produtivas, de comércio e serviços se restringiriam ao
atendimento das demandas por bens e serviços dos habitantes da cidade. Contudo, na prática, o
crescimento da cidade acabou contrariando alguns dos aspectos previstos no projeto original, seja pelo
rápido crescimento demográfico, seja pela expansão das atividades econômicas, que a transformaram
num importante polo econômico do estado (MONTE-MÓR et al., 2007).
172

participassem da polis, aos cidadãos. A cidade criada seria também comercial


e de serviços, voltada não para as necessidades básicas da população, para
a reprodução familiar, mas sim para um consumo urbano sofisticado de uma
burguesia e classe média urbanas ainda infantes. Os trabalhadores foram
excluídos da cidadela e assentados em áreas suburbanas (e agrícolas)
destituídas da infraestrutura e serviços modernos previstos para a cidade,
assim como das normas e controles exigidos nas áreas centrais para garantir
a qualidade da vida urbana. (MONTE-MÓR, 1997, p. 477).

A formação socioespacial de Belo Horizonte inicia-se, então, com um processo


de remoção, pela desapropriação dos antigos moradores e destruição de todo o arraial
de Curral D’El Rei170, demonstrando o caráter hierarquizado, elitista e excludente do
modelo de planejamento adotado na Planta Básica da cidade. Nessa época, muitos
dos antigos moradores de Curral D’El Rei que tiveram seus terrenos desapropriados
acabaram se deslocando para a RHVN, porquanto o valor pago pelo Estado, a título
de indenização, não era suficiente para aquisição de um novo imóvel na capital. A
ocupação da RHVN, contudo, permanecia lenta, havendo poucos investimentos para
a melhoria das condições de vida da população. Até meados do século XX, haviam
poucas casas e o acesso à capital era bastante difícil, em virtude das deficiências das
vias (SILVA, 1991; SILVA, 2000; APCBH, 2008).
Ou seja, embora a configuração de Belo Horizonte – com ruas largas e
avenidas arborizadas, numerosas praças e o parque central –, denotasse uma
proposta de vida comunitária em que os espaços públicos convidavam ao convívio, à
sociabilidade, o ideal republicano não foi inteiramente democrático, carregando traços
de segregação e autoritarismo, num contexto em que preponderavam os aspectos
políticos, econômicos, estéticos e funcionais sobre os aspectos sociais (MONTE-MÓR
et al., 2007). A estruturação racional e higienista da cidade privilegiava os interesses
do capital imobiliário e das classes dirigentes, não coadunando com a presença da
população pobre, inculta e sem higiene na parte central e nobre da cidade, levando-
os a ocupar áreas periféricas e desvalorizadas, para as quais não havia qualquer
planejamento e infraestrutura (PEREIRA; CAMPOS, 2009a).

É justamente a partir dessa lógica imperativa de sempre “acomodar” os


indesejados, os cidadãos de segunda classe fora do perímetro urbano (área
central), que um movimento quase espontâneo de ocupação e de
crescimento da periferia ocorre. O ato de “acomodar” ou, mais claramente,
expulsar os cidadãos com menos direitos das áreas mais urbanizadas de
Belo Horizonte tem que ser entendido como o início de uma prática social do
poder público [que, invariavelmente, vem se repetindo ao longo da história da
cidade, assim como em outras capitais do país]. (LOPES, 2010).

170
Em consonância com o disposto no art. 5º do Decreto nº 680/1894.
173

Em 1909, objetivando regularizar o assentamento da população operária, em


sua maioria imigrantes, e acelerar a ocupação da cidade, a seção urbana
correspondente ao atual bairro Barro Preto é convertida em zona suburbana, a fim de
diminuir os custos dos terrenos e as exigências quanto aos padrões construtivos. Na
época, buscando organizar a ocupação da área, aproximadamente 1.000 operários
foram transferidos para o lugar, os quais viviam em cafuas localizadas nos lugares
denominados “Leitão” e “Favela”. Ainda assim, ao contrário do planejado por Aarão
Reis, a cidade cresceu de fora para dentro, da periferia para a zona central e não o
inverso, como previsto inicialmente. De maneira que, em 1912, Belo Horizonte
contava com 38.800 habitantes e 70% destes viviam nas zonas suburbana e rural,
seja por força do mercado – já que a diferença entre os preços da terra urbana,
suburbana e rural acabou estimulando o crescimento das áreas externas à Avenida
do Contorno –, seja por força da população, que, reinventando o tecido urbano,
reapropriou-se socialmente do espaço, gerando a cidade a partir do cotidiano em
contrariedade à ordem racional e segregadora prevista na Planta Básica (MONTE-
MÓR, 1997; VILLAÇA, 1998).
Ressalta-se que o rápido adensamento da zona suburbana se fez
desacompanhado de um plano geral que orientasse o processo de ocupação do
território (subdivisão dos lotes, alinhamento e nivelamento das edificações,
regularização das vias públicas) e a prestação de serviços públicos (rede de esgoto,
abastecimento de água, energia elétrica, iluminação pública, transporte, saúde e
educação), tornando clara a dicotomia existente entre a cidade oficial (zona urbana) e
a cidade real (zona suburbana). A primeira, dotada de infraestrutura e esvaziada de
população, a segunda, sem qualquer infraestrutura e amplo crescimento populacional,
apesar dos movimentos sociais que reivindicavam a implantação de serviços e
equipamentos urbanos (PLAMBEL, 1984).
No âmbito ocupacional – segundo o recenseamento realizado em 1912 –,
12,1% da população ativa da cidade encontrava-se no setor primário; 40,2% no setor
secundário e 47,7% no setor terciário – neste caso, desempenhando serviços
domésticos (29,64%); no comércio (16,47%) e na qualidade de funcionários públicos
(13,75%). Tal recenseamento revelava que Belo Horizonte, na década de 1910,
contava com um razoável parque industrial (23 empresas), sendo uma com mais de
500 empregados. Dentre as indústrias existentes, a maior parte (21) estava localizada
na zona urbana; 57% delas era de médio porte (comportando de 20 a 50 empregados);
174

e as de grande porte atuavam no setor têxtil, na produção de materiais não metálicos


e madeira (BH 100 ANOS, 1996).
Segundo Plambel (1982), a distribuição social da população na cidade pode ser
resumida da seguinte forma: nos bairros Funcionários, Serra e Floresta os estratos de
maior renda e os integrantes da administração pública; em Santa Efigênia e Santa
Tereza, os militares; nos bairros Barro Preto, Prado e Calafate, os operários. Destaca-
se a presença dos imigrantes, especialmente os italianos, nos bairros da Lagoinha,
Serra, Calafate, Carlos Prates e Barro Preto, e o papel por eles desempenhado na
formação da identidade destes locais, bem como no desencadeamento de
movimentos reivindicatórios nos primeiros anos da Capital.
A eclosão da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) e a interrupção das importações
causou aguda recessão na cidade, paralisando obras e empreendimentos
econômicos, públicos e privados, provocando desemprego e a evasão de
trabalhadores, principalmente da mão de obra imigrante. Em 1916, muitos domicílios
e estabelecimentos comerciais encontravam-se fechados e, somente em 1920, a
cidade retoma seu crescimento, mediante significativa contribuição do governo federal
na alocação de recursos para a continuidade de obras públicas que haviam sido
interrompidas, bem como em incentivos à implantação de siderúrgicas em Municípios
vizinhos (Barão de Cocais, Caeté, Sabará e Rio Acima), ampliando as relações entre
eles e a Capital171. Em 1922, há a adoção de políticas de adensamento das áreas
centrais da cidade, estimulando-se, inclusive, a verticalização da zona central172, com
maior aproveitamento dos terrenos. Por sua vez, em 1924, ocorre a expansão das
ferrovias e a implantação de um sistema de estradas radiais, tendo a capital por
centro, como forma de minorar a precariedade das vias que constituíam entrave ao
desenvolvimento comercial da cidade e sua interligação com os demais Municípios do
Estado e do País. Nesse período, promove-se a expansão da rede de ensino público
e privado, bem como a criação da Universidade de Minas Gerais173, o que contribui

171
Especificamente no contexto da Região Metropolitana de Belo Horizonte, Plambel (1984) ressalta
que, nessa época, a atividade econômica dos demais Municípios era essencialmente agropecuária,
ressalvando-se os Municípios de Pedro Leopoldo (com atividades industriais têxteis) e Nova Lima (com
as atividades na Mina de Morro Velho em expansão).
172
Promove-se, inclusive, nesta época, a alteração do zoneamento original da cidade, que passa a ser
dividida em quatro áreas, a saber: zona central, zona urbana, zona suburbana e zona rural (LIMA,
2009).
173
Criada em 1927, como instituição privada subsidiada pelo Estado, a Universidade de Minas Gerais
(UMG) foi federalizada em 1949, passando a denominar-se Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) somente em 1965.
175

para a consolidação de Belo Horizonte como importante centro cultural do Estado


(PLAMBEL, 1984).
Segundo Lima (2009), no final da década de 1920, em razão da crise do café,
o capital financeiro migra para o setor imobiliário assumindo caráter nitidamente
especulativo, há o lançamento de diversos loteamentos e a cidade se expande em
todas as regiões, com preponderância de crescimento para Oeste (Calafate,
Gameleira, Nova Suíça, Barreiro). Data do mesmo período, a remoção de grande
número de trabalhadores provisoriamente instalados em terrenos da zona urbana de
Belo Horizonte (Barro Preto) para as Vilas proletárias instituídas, pela Prefeitura, para
o segmento de baixa renda nas zonas suburbana e rural. Nessa época, por força da
Lei nº 176, de 06 de outubro de 1919, a RHVN se enquadrava na categoria de subúrbio
da cidade, passando, posteriormente, à condição de distrito de Belo Horizonte (Lei
Estadual nº 843, de 07 de setembro de 1923) – Mapa 3.

Mapa 3 – Município de Belo Horizonte (1923)

Fonte: Acervo Museu Histórico Abílio Barreto

Relevante mencionar que, no período compreendido entre 1924 e 1930, foram


aprovados 53 bairros e vilas. Contudo, apesar das políticas de adensamento
adotadas, apenas 30% do potencial de ocupação da zona urbana era utilizado em
1931. Em contrapartida, permanecia a periferização da cidade, com alto índice de
176

ocupação na zona suburbana da capital. De maneira que a cidade contava com os


recursos fornecidos pelos seus 140.000 habitantes, embora fosse obrigada a prover
os serviços públicos de uma cidade com extensão territorial compatível com uma
população de 500.000 pessoas (KAMEL, 2007).
Com o tempo, o crescimento urbano desordenado174, as expansões do
comércio e das atividades industriais fomentaram a edição do Decreto nº 165, de 1º
de setembro de 1933, estabelecendo a função comercial da zona central da cidade e
a função residencial da zona urbana, ratificando, ainda, as proibições instituídas pela
Lei nº 363, de 04 de setembro de 1930, no tocante à construção de edifícios de um só
pavimento em algumas vias da área central, além da obrigatoriedade de três
pavimentos mínimos para os novos edifícios construídos naquele local. Buscava-se,
com isso, estimular o adensamento das manchas ociosas da região central da cidade
e aumentar a arrecadação de impostos municipais. O desenvolvimento das atividades
comerciais e industriais, associado ao crescimento demográfico, passa a demandar
políticas e instrumentos de planejamento urbano para atender aos anseios sociais,
que aumentavam consideravelmente, em razão da vertiginosa expansão da capital
(LIMA, 2009).
Embora as dificuldades financeiras da Prefeitura não permitissem a execução
dos planos da cidade, há um esforço de sistematização de um plano urbanístico para
Belo Horizonte, a ser executado pela Comissão Técnica Consultiva, criada em 1934.
Tal Comissão, então coordenada pelo engenheiro e urbanista Lincoln Continentino,
visava controlar o processo de crescimento urbano, por meio de uma atuação
sistemática e harmônica, que considerasse as funções municipais em seu conjunto e
a articulação existente entre elas. Nesse sentido, apesar de não ter executado a
totalidade do plano, a Comissão tratou de questões importantes como: a
implementação de grandes corredores viários fazendo a ligação entre as zonas
urbanas e suburbanas; a adequação de alguns arruamentos à topografia da cidade; a
definição do zoneamento da cidade, dividindo-a em zonas residencial, comercial e
industrial; além da elaboração do código de obras (KAMEL, 2007).

174
O crescimento desordenado expressa um processo intencional de reprodução das desigualdades
sociais. Segundo Villaça (1997, p. 1375), a segregação espacial das classes sociais se configura como
um elemento indispensável ao “exercício da dominação política e desigual apropriação dos recursos
do espaço enquanto produto do trabalho e como a força determinante da estruturação intra-urbana
(sic)”. Nesse aspecto, o espaço urbano tende a (re)produzir a estrutura gerada pelos interesses das
classes de altas rendas, pois elas, para esse fim, controlam a esfera econômica (destacando-se o
controle do mercado imobiliário), o Estado (no tocante à localização da infraestrutura, dos aparelhos
do Estado e da legislação de ocupação e uso do solo) e a ideologia (visando auxiliar a dominação e
torná-la aceitável pelos dominados).
177

Em 1936, institui-se a zona industrial de Belo Horizonte na região do Barro


Preto, a qual, todavia, não comportava a instalação de indústria pesada, por se situar
no interior da área urbana. De acordo com o Departamento Geral de Estatística do
Estado, no ano de 1937, a cidade de Belo Horizonte detinha 603 estabelecimentos
industriais, predominando as pequenas empresas (85%), com menos de 20
empregados (BH 100 ANOS, 1996). Nessa época, uma nova política econômica
desponta no Brasil marcando o fim da hegemonia agrário exportadora e o início da
reestruturação produtiva em bases urbano-industriais. Em Minas Gerais, a nova
vertente industrialista significava a possibilidade de expansão da siderurgia diante da
disponibilidade de recursos minerais. Contudo, a expectativa em potencializar a
industrialização do Estado é frustrada quando o governo federal, após ampla
negociação, decide implantar a Usina Siderúrgica na cidade de Volta Redonda/RJ,
posto que, além dos aspectos políticos, o Estado era carente em energia elétrica e
possuía um precário sistema viário. Tais limitações e o interesse em potencializar a
atração de benefícios da indústria extrativa para o Estado de Minas Gerais irão
influenciar a instituição da Cidade Industrial no Município de Contagem em meados
de 1941 (PLAMBEL, 1984).
Na administração do prefeito Juscelino Kubitschek, partindo do princípio de que
novas fontes de progresso representavam sempre novas fontes de arrecadação
tributária, buscou-se modernizar e embelezar a cidade por meio da criação de
avenidas radiais, que reforçaram a configuração radioconcêntrica da cidade, e da
capitalização do potencial paisagístico da região da Pampulha, como um novo cartão
de visitas para a cidade175. Com tal empreendimento, buscava-se resgatar o caráter
simbólico de Belo Horizonte como cidade moderna e progressista (PLAMBEL, 1982).
Nesse sentido, em 1940, solicitou-se ao urbanista Agache a elaboração de um
plano urbanístico que permitisse a integração da Pampulha ao conjunto urbano de
Belo Horizonte. Agache propôs, inicialmente, a destinação da área à implantação de
moradias para a população de baixa renda, mas, a sugestão foi rechaçada pelo então
prefeito, por interessar-lhe a requalificação da imagem urbana da cidade, com um
novo cartão de visitas, mediante a construção de um conjunto de edifícios projetados
por Oscar Niemeyer – Cassino, Igreja, Iate Clube e Casa do Baile, que ficariam
dispersos no entorno do lago artificial, conforme a concepção inglesa de “cidade

175
Apesar de estar localizada próxima à Pampulha, a RHVN não foi beneficiada com investimentos ou
políticas públicas decorrentes do plano urbanístico concebido para aquela região (MINAS GERAIS,
2006b).
178

jardim” (LIMA, 2009). Tal instalação destinava-se preponderantemente ao lazer da


classe mais abastada, havendo, inclusive, uma legislação especial176 para garantir o
alto padrão de ocupação da área, marcando-a simbolicamente como lugar de “status”,
ainda que sem as condições necessárias de infraestrutura. Devido à localização e
instalação dos equipamentos de uso coletivo na região central da Pampulha,
executou-se importante obra viária em direção à região Norte, com a abertura da
Avenida Antônio Carlos, integrando a cidade à região da Pampulha (PLAMBEL, 1982).
O que, numa perspectiva atual, conotaria uma planificação estratégica (ARANTES,
2002), em que a criação artificial do espaço, seu embelezamento, objetiva torná-lo
elitizado e mais atrativo economicamente. Ou seja, a utilização proposital da forma
espacial para acelerar a modernização capitalista e ajudar na transformação da
estrutura socioeconômica (SANTOS, 1977a, 1977b), criando novas oportunidades
para a acumulação (HARVEY, 2005a).
No mesmo período, para contrabalancear a elitização do bairro residencial da
Pampulha e mitigar os problemas da habitação barata na capital, o então prefeito de
Belo Horizonte – Juscelino Kubitschek, promulgou o Decreto nº 75, de 24 de outubro
de 1940, objetivando a consecução de um “bairro popular” mediante a edificação de
grandes prédios de apartamentos, que, pela sua construção e sistema de exploração,
possibilitasse um aluguel módico, ao alcance de qualquer citadino. Haja vista que, à
época, a construção das chamadas "vilas operárias" ou populares, não constituíam a
melhor forma de resolver o problema da habitação,

em primeiro lugar, porque, dada a falta de espaço no centro urbano, tais vilas
só podem ser construídas em bairros distantes, onde se consome no
transporte o que se economiza no aluguel; segundo, porque, mesmo se
tratando de ‘casa própria’, tem mostrado experiências que as classes menos
favorecidas raramente atingem a estabilidade econômica necessária para
possuí-la, donde o geral fracasso de tais tentativas. (BELO HORIZONTE,
1940, Preâmbulo).

Assim, em 1942, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e o Instituto de


Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) firmam um acordo para construir um
“bairro popular” no bairro São Cristóvão (região noroeste), às margens da Avenida
Antônio Carlos, constituído por um conjunto de edifícios de apartamentos destinados
a servidores da Prefeitura e contribuintes do IAPI, tornando-se o primeiro conjunto

176
Com delimitação das dimensões mínimas dos lotes (1.000m²) e impedimento à instalação de
qualquer atividade econômica em seu espaço. A mesma legislação foi utilizada para forçar uma
ocupação de alto padrão construtivo no Bairro Cidade Jardim criado a época (PLAMBEL, 1984).
179

habitacional destinado aos operários da cidade. Para tanto, a Prefeitura promoveu a


readequação da área em que se localizava o aglomerado conhecido como Favela da
Pedreira Prado Lopes, então ocupada por população de baixíssima renda, com a
realocação dos antigos moradores em área distante dali (LIMA, 2009).
A implantação do primeiro Distrito Industrial planejado do país no Município de
Contagem, em 1941, representou um passo decisivo na industrialização da capital e
do Estado, sendo que a implantação da Manesmann nas suas proximidades, em
1956, consolidou este espaço como área industrial, promovendo uma alteração na
fisionomia urbana, bem como uma maior integração da cidade de Belo Horizonte às
demais regiões de Minas Gerais177. Nesse período, o Poder Público passa a atuar,
deliberadamente, como agente planejador e executor de uma nova configuração
espaço urbano (provisão da infraestrutura, incentivos fiscais, reestruturação
tecnológica e industrial), moldando a paisagem física e social pela lógica da circulação
e acumulação do capital (HARVEY, 1989). O prolongamento da Avenida Amazonas
até o novo parque industrial, a Oeste da capital, transpondo áreas urbanas ainda não
habitadas, induziu o desenvolvimento de toda a zona por ela atravessada. Há, nessa
época, um significativo aumento migratório em direção à capital, com acréscimo de
demanda por habitações para a população operária, favorecendo um incremento na
atuação do mercado de terras nas áreas periféricas da cidade, em loteamentos
regulares, ainda que sem infraestrutura urbana, e naqueles considerados irregulares,
mantendo-se o caráter segregador das políticas públicas de reordenamento urbano
de Belo Horizonte (PLAMBEL, 1984).
A implantação da Pampulha e do Distrito Industrial em Contagem, bem como a
abertura dos eixos Amazonas (Oeste) e Antônio Carlos (Norte) darão nova feição ao
processo de crescimento da cidade, marcando o espaço com processos diferentes,
mas análogos, tornando-se referencias para a estruturação da futura aglomeração
metropolitana. Sendo que os outros eixos, em continuidade ao crescimento do centro,
permanecem em processo de ocupação, com a instituição de loteamentos e
construções gradativas (PLAMBEL, 1983).

177
Relevante mencionar que, apesar das iniciativas do Poder Público, a princípio, poucas indústrias se
instalaram no local, uma vez que persistiam os problemas concernentes ao fornecimento de energia
elétrica (apesar da construção da usina de Gafanhoto) e à precariedade do sistema viário, que
dificultava a distribuição da produção para os grandes centros do país. Sendo que, somente após o
governo resolver o problema de fornecimento de energia elétrica, com a criação da CEMIG –
Companhia Energética de Minas Gerais, em 1952, grandes empresas se instalaram no Distrito
Industrial de Contagem: Belgo Mineira, Mafersa, etc. (PLAMBEL, 1982).
180

Silva (2000) salienta que, até então, os investimentos para a melhoria da


qualidade de vida da população residente no distrito de Venda Nova eram incipientes.
Havia, pois, a intenção de que a RHVN voltasse a ser incorporada ao Município de
Belo Horizonte178, condição para um desenvolvimento mais acelerado da região. Em
contrapartida, as lideranças políticas da capital expressavam interesse pela extensa
área da RHVN, em razão do acelerado crescimento populacional e da “explosão”
(LEFEBVRE, 2006, 2008) sobre vastas regiões periféricas da cidade. De modo que a
cidade, já em 1940, tinha ultrapassado a população máxima prevista no plano original.
A anexação definitiva da RHVN ao Município de Belo Horizonte ocorreu somente em
1948, com a publicação da Lei nº 336, de 27 de dezembro de 1948.
A dinâmica da integração/segregação marca a expansão dispersa e
desordenada da cidade representando um agravante aos problemas enfrentados pelo
Poder Público municipal no tocante à prestação de serviços públicos (abastecimento
de água, energia elétrica, saneamento básico, transporte) nas regiões periféricas,
cujas demandas cresciam aceleradamente em decorrência do seu grande contingente
populacional (Quadro 4). Fato ressaltado por Otacílio Negrão de Lima, primeiro
prefeito eleito de Belo Horizonte179, em 1948:

Belo Horizonte não tem possibilidade de oferecer os serviços de infra-


estrutura (sic) demandados pela população crescente. Esta é a razão
principal por que entendemos necessário criarmos as cidades satélites ao
redor da cidade. O Barreiro está destinado a ser a cidade satélite agrícola. A
Cidade Industrial, a meio caminho do Barreiro e de Belo Horizonte, será o
centro fabril; temos como cidade de turismo e diversão a Pampulha. Venda
Nova constituirá um belo centro residencial, uma verdadeira cidade popular.
Como centro de atração desse conjunto harmônico ficará Belo Horizonte.
Conseguido esse objetivo, a Capital de Minas poderá comportar um milhão
de habitantes, confortavelmente instalados, bem servidos de utilidades e
vivendo felizes. (LIMA apud PLAMBEL, 1979, p. 262-263).

Tal hierarquização do espaço, de matriz funcionalista, além de assinalar a


especialização funcional do território (SALGUEIRO, 1998; LEFEBVRE, 2006; COSTA,
2012), expressa o cunho elitista no planejamento do território e sua utilização
enquanto “mercadoria”. Do que se pode apreender, o Poder Público desconhece que

178
Após a publicação do Decreto-Lei nº 148, de 17 de dezembro de 1938, que fixou a divisão territorial
do Estado, o distrito de Venda Nova foi anexado ao Município de Santa Luzia.
179
Em 1947, no contexto da redemocratização nacional, Belo Horizonte conquistou sua verdadeira
autonomia política. Com o fim da subordinação da prefeitura ao Estado, a cidade elegeu, pela primeira
vez, seu prefeito. Até então, todos os seus 30 prefeitos haviam sido nomeados. Naquele ano, Otacílio
Negrão de Lima (1947-1951) iniciou seu segundo mandato como representante do Poder Executivo
municipal, desta vez eleito pela população belo-horizontina. Por sua vez, a Câmara Municipal foi
organizada por meio do Decreto-Lei nº 213, de 22 de novembro de 1947 (KAMEL, 2007; GOMES;
CESARINO, 2011).
181

a cidade, antes de mais nada, é, também, a projeção no espaço físico da ação dos
diversos grupos sociais que a compõem (PLAMBEL, 1979). De todo modo, ainda que
o plano proposto não tenha se concretizado na prática, não se pode negar que, com
o tempo, a RHVN assume a condição de “cidade dormitório”, acolhendo a grande
massa da população operária que para lá se deslocava, atraída pelos preços dos
terrenos e condições mais acessíveis de compra e financiamento. Com o aumento
populacional, avolumam-se os problemas decorrentes do crescimento desordenado,
da falta de infraestrutura e de serviços urbanos essenciais, tais como: redes elétricas,
instalações de água, esgotamento sanitário, sistema viário, coleta de lixo, instituições
de ensino, prestação de serviços de saúde, centros de lazer, etc..

Quadro 4 – Crescimento populacional de Belo Horizonte (1900-2010)

ANO POPULAÇÃO ANO POPULAÇÃO


1900 13.472 1970 1.235.030
1912 38.822 1980 1.780.855
1920 55.563 1991 2.020.161
1940 211.377 1996 2.091.371
1950 352.724 2000 2.238.526
1960 683.908 2010 2.375.151
Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2015

Há, então, um processo paralelo de integração-segregação da população de


baixa renda da RHVN. O primeiro, na medida em que integra o morador à cidade,
agora proprietário de sua moradia (ou compromissado com o pagamento da dívida do
imóvel – lote e construção, não se pode dar ao luxo de perder o emprego). O segundo,
pela distância do imóvel da região central, a ausência de infraestrutura urbana e a
carência de serviços, que o segrega da fruição dos benefícios urbanos, da apropriação
coletiva dos espaços da cidade e das funções urbanas – num conflito perene entre o
morar, o trabalhar, o lazer e a circulação (PLAMBEL, 1983).
Na década de 1940, o período de industrialização brasileira, visando à
substituição de importações de bens de consumo duráveis estimulou a economia
mineira de bens intermediários – siderurgia e indústria cimenteira (PLAMBEL, 1983).
Belo Horizonte se consolida como principal polo industrial do Estado, incluindo-se
também dentre os mais importantes do país. Em 1948, o valor global da produção
(Cr$516 milhões) era seis vezes maior que no ano de 1939. Nesse período, o volume
da mão de obra passou de 10.589 para 19.309; o número de industrias passou de 748
182

para 1.418, tendo como principais ramos de atividade: madeira, couro e pele, têxtil,
vestuário e calçados, alimentos, bebidas, editorial e gráfica; a demanda pelo consumo
de energia quase triplicou; a arrecadação de impostos aumentou mais de 700% (BH
100 ANOS, 1996).
A capital continuava sendo o principal centro de atração dos fluxos migratórios
da região metropolitana e do Estado, sendo considerada uma das seis primeiras
aglomerações urbanas do país, já anunciando sua forma posterior de aglomerado
metropolitano. Como consequência direta, houve o crescimento do mercado
imobiliário e uma maior atração de investidores, acarretando em substancial
valorização dos imóveis urbanos180, de modo que, a partir de 1947, os prefeitos da
capital, doravante eleitos pelo voto direto, passaram a dispensar maior atenção ao
replanejamento da cidade (KAMEL, 2007).
Em 1951, por força da Lei nº 232, a administração do prefeito Américo René
Gianetti cria o serviço do Plano Diretor181, objetivando a elaboração do Plano Diretor
da cidade e, igualmente, do Plano Diretor da RHVN. Para a execução dos trabalhos,
buscou-se a colaboração de técnicos eminentes, como o urbanista Francisco Prestes
Maia, que seria, a princípio, o consultor da Comissão Executiva do Serviço do Plano
Diretor, o arquiteto Oscar Niemeyer e o paisagista Burle Marx. Contudo, embora não
tenha havido a sua efetiva execução, os estudos empreendidos pelos consultores
resultaram em importantes recomendações, como: a construção de avenidas radiais
com a finalidade de interligar os diversos pontos da cidade, independentemente da
travessia no centro urbano da capital, garantindo a fluidez do tráfego no Município e
um crescimento urbano compatível com as normas de urbanização; a implantação da
lei de zoneamento; a elaboração dos planos diretores do Município; e a integração da
sociedade civil na obra do governo municipal, já que o povo não poderia ser alijado
das políticas de planejamento urbano (KAMEL, 2007).
Outro estudo que serviu de insumo de dados e informações e instrumento
básico para a elaboração dos Planos Diretores de Belo Horizonte foi a análise
metódica e multidisciplinar da estrutura urbana, elaborada pela Sociedade para

180
“Para se ter uma idéia (sic) da valorização de terrenos em BH, em dez anos, um lote, adquirido à
avenida Afonso Pena por 200 contos, passou a valer 4 milhões de cruzeiros” (BH 100 ANOS, 1996, p.
63).
181
Dentre as atribuições do Serviço do Plano Diretor foi prevista a realização de estudos e
planejamentos que compreendiam os aspectos relacionados ao cadastro imobiliário; à supervisão da
Planta Cadastral; ao zoneamento de áreas residenciais, comerciais, industriais, agrícolas,
universitárias, hospitalares e centros administrativos; às construções particulares e gabaritos de
prédios; aos núcleos residenciais e cidades jardins; e ao traçado de grandes avenidas e demais
logradouros públicos (art. 2º da Lei nº 232, de 08 de setembro de 1951).
183

Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais (SAGMACS),


durante a gestão do prefeito Celso Melo Azevedo. Dentre os principais problemas
apontados pelo diagnóstico, destacaram-se os relativos ao crescimento urbano rápido
e desordenado; à concentração extrema de bens e serviços no centro da cidade
(Figura 9); à subutilização dos sistemas de transportes coletivos sem aproveitamento
como instrumento da estruturação da cidade; à falta de hierarquização das vias de
tráfego na área interna à Avenida do Contorno e o alto grau de especulação
imobiliária. Embora o Plano não tenha sido implementado à época, os dados
permitiram a introdução de algumas questões e conceitos nas leis urbanísticas
posteriormente editadas pelo Município, como a hierarquização viária, os instrumentos
urbanísticos de controle do uso do solo e a descentralização da cidade (KAMEL,
2007).

Figura 9 – Vista parcial do centro de Belo Horizonte (MG), em 1950

Fonte: Kamel, 2007


Nota: Praça Raul Soares traçada sobre os cruzamentos das Avenidas Bias Fortes, Olegário Maciel,
Amazonas e Augusto de Lima. Ao fundo, a Praça Sete de Setembro e o Parque Municipal. Fotógrafo:
Câncio de Oliveira. Museu Histórico Abílio Barreto. Coleção Belo Horizonte.
184

A partir da alteração da legislação urbanística, em 1956, o mercado empresarial


de provisão de moradias é ampliado pelo alargamento da zona urbana e pela
supressão das restrições legais que impediam a verticalização da cidade fora dos
limites da Avenida do Contorno, tornando-se objeto de grande interesse e proveito
dos proprietários de terrenos que se empenhavam pela disputa do solo urbano. Em
princípio, verifica-se um adensamento nas regiões contiguas à Avenida do Contorno,
mas, em razão do intenso processo de especulação imobiliária, aqueles que possuíam
recursos reduzidos acabaram deslocando-se para regiões mais distantes, nas quais,
ainda que sem infraestrutura urbana, fosse possível fixar sua residência. De modo
que, com o passar do tempo, seis Vetores de expansão foram identificados em Belo
Horizonte: Oeste, Sudoeste, Sul, Leste, Norte-Central e Norte (PLAMBEL, 1984).
O Vetor Oeste, influenciado pela instalação da Cidade Industrial, ampliação da
Avenida Amazonas e abertura de inúmeros loteamentos, constituiu a primeira frente
de conurbação182 da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), onde se formou
um espaço de ocupação populacional continua e desordenada com a multiplicação
das atividades econômicas, proporcionando a conurbação da capital com os
Municípios de Contagem, Ibirité e Betim (PLAMBEL, 1984).
Capitaneada pelo Vetor Oeste, a expansão do Vetor Sudoeste deu-se a partir
de 1980, promovendo maior integração de Belo Horizonte com os municípios
circunvizinhos: Mateus Leme, Igarapé, Esmeraldas e Juatuba (BRITO; SOUZA, 2005).
A expansão do Vetor Sul ocorreu sobre as encostas da Serra do Curral, após
a instalação do BH Shopping nas proximidades do Município de Nova Lima, na década
de 1970, associada às melhorias promovidas na Avenida Nossa Senhora do Carmo e
na BR-040. Estas mudanças constituíram um marco de adensamento populacional e
desenvolvimento da infraestrutura urbana dos bairros que integram a região, gerando
a ocupação predominantemente de parcelas mais ricas da população em loteamentos
de luxo que se estenderam aos Municípios de Nova Lima e Rio Acima (PEREIRA;
CAMPOS, 2009a, 2009b), nos moldes dos “enclaves fortificados”, ou “cidades
fortalezas”, a que aludem Caldeira (2000) e Davis (2006b), respectivamente.
A expansão do Vetor Leste foi influenciada pela abertura da Avenida Cristiano
Machado e pelo crescimento do bairro Cidade Nova, promovendo a ampliação do

182
Fenômeno urbano decorrente do processo de fusão de áreas urbanas, mais ou menos contíguas,
pertencentes a cidades distintas, estreitamente ligadas de um ponto de vista funcional (PLAMBEL,
1989).
185

Município em áreas fronteiriças aos Municípios de Caeté e Sabará, que também se


integram ao espaço urbano metropolitano pela implementação de loteamentos
destinados à população de baixa renda (BRITO; SOUZA, 2005).
A expansão do Vetor Norte Central deu-se marcadamente pela ocupação de
população de baixa renda em assentamentos populares, inobstante a tentativa do
governo do Estado em potencializar o crescimento da região e dos Municípios
limítrofes (Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Vespasiano) mediante a criação de
Distritos Industriais, que intensificaram a exploração das matérias primas disponíveis
na região (BRITO; SOUZA, 2005). A instituição de loteamentos sem a mínima
infraestrutura urbana nesses Municípios foi facilitada pela articulação das políticas
públicas e do mercado imobiliário. No Município de Ribeirão das Neves, por exemplo,
os agentes imobiliários se aproveitaram da fragilidade da legislação para a abertura
de loteamentos precários, formando um “polo de atração da pobreza” (BRITO;
SOUZA,1998, p. 501).
Por fim, no Vetor Norte de Belo Horizonte, o complexo arquitetônico da
Pampulha, além de influir na implantação de diversos equipamentos de nível
metropolitano (Aeroporto da Pampulha e Campus da UFMG), continuou a induzir
parcelamentos, embora em ritmo menos intenso, cuja ocupação era dispersa e
diferenciada. Verifica-se, então, o início da formação de uma frente descontínua de
expansão periférica, observando-se o processo de conurbação de Belo Horizonte aos
Municípios circunvizinhos de Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Pedro Leopoldo,
Lagoa Santa e Confins. A expansão dos loteamentos para a população de renda
média e alta em Lagoa Santa e a inauguração do aeroporto de Confins, em 1985,
também contribuíram para a expansão dessa região (BRITO; SOUZA, 2005). De
modo que, na estruturação desse vetor, contrastam áreas destinadas à ocupação da
elite com assentamentos voltados para os estratos de baixa renda.
Apesar das mudanças, a área central de Belo Horizonte permaneceu como
principal centralidade da metrópole em constituição, concentrando grande parte dos
estabelecimentos comerciais da cidade, os prédios públicos da administração
estadual e municipal, a oferta de emprego, os equipamentos de educação e lazer e,
ainda por algum tempo, os estabelecimentos industriais. Ainda, por constituir-se como
ponto de referência, todas as linhas de transporte coletivo convergiam para o centro
da cidade (PLAMBEL, 1984).
A Região Histórica de Venda Nova, por sua vez, continuou crescendo
desordenadamente, com parcelamentos irregulares de terra e loteamentos sem
186

quaisquer infraestruturas, deixando muitos moradores em condições precárias de


vida. Os empreendedores imobiliários loteavam as terras, abriam ruas e deixavam a
cargo dos futuros moradores – em regra, pessoas de baixa renda e migrantes do
interior do Estado –, a demanda por serviços de transporte, água, luz e saneamento
junto ao Poder Público municipal, sob o jogo das pressões políticas183. Sendo que
muitas vilas surgiram desses loteamentos irregulares. É válido admitir que a distância
do centro da cidade de Belo Horizonte e a carência de serviços urbanos contribuiu
para o fortalecimento do bairro Venda Nova (área de ocupação mais antiga e núcleo
da região) como referência para os demais bairros nascidos ao seu redor. O bairro
Venda Nova torna-se, assim, um verdadeiro centro regional de comércio, serviços e
espaços de convivência para a população de baixa renda do entorno (APCBH, 2008).
Polo de atração não só dos moradores da região, mas, também, dos moradores dos
Municípios vizinhos. Note-se que essa importância de subcentro popular é mantida
até os dias de hoje, face à consolidação de uma rede de serviços e comércio
diversificados no bairro Venda Nova.
O movimento de disputa entre as classes sociais pelas melhores localizações
foi acompanhado pelo crescente processo de favelização e ocupação ilegal dos
espaços, ao longo da década de 1960, tanto no núcleo central da cidade quanto na
periferia, não havendo, neste período, políticas públicas para a concessão de
habitações de interesse social, embora o Município de Belo Horizonte adotasse
agressivas políticas de desfavelamento (COSTA, 1994). Segundo, Plambel,

a nova periferia que se forma neste contexto urbano-industrial apresenta um


padrão extremamente precário que traz as marcas do improviso, do
inacabado e da carência absoluta e reflete o ritmo acelerado de construção
exigido pela dinâmica de crescimento da cidade, caracterizando-se como
espaço da simples reprodução da força de trabalho, totalmente excluído da
fruição da cidade. (PLAMBEL, 1984, p.53).

Observa-se, assim, o início do processo de metropolização de Belo Horizonte,


cuja mancha de ocupação atingia quase a totalidade do seu território. Sendo possível
perceber o paulatino povoamento da atual Região Administrativa de Venda Nova, cuja
ocupação espacial, como dito, principiou pela Região Histórica de Venda Nova,
conforme se infere do Mapa 4.

183
A ausência de investimentos, por parte do Poder Púbico, para a melhoria da qualidade de vida na
região, associada ao descontentamento da população residente, resultou, em 1962, numa tentativa de
emancipação da RHVN. Contudo, o movimento foi veementemente rechaçado pela Assembleia
Legislativa do Estado de Minas Gerais (SILVA, 2000).
187

Com o tempo, a ocupação de Belo Horizonte se estendeu aos Municípios


vizinhos, fomentando sua conurbação e uma crescente relação de interdependência
entre os fluxos econômicos, as cadeias produtivas, as relações sociais, os vínculos
culturais e os movimentos migratórios e pendulares da população nos vetores de
crescimento da cidade. Tais intercâmbios pressionavam a capital no tocante à
prestação de serviços públicos – como transporte, saúde, educação e saneamento,
os quais a iniciativa privada ou o Poder Público municipal isoladamente não conseguia
atender, demandando a tomada de medidas em âmbito regional (PLAMBEL, 1983).

Mapa 4 – Evolução da Ocupação de Belo Horizonte (1918-2007)

Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2015

Em 1973, há a consolidação das duas primeiras Regiões Administrativas184 no


Município de Belo Horizonte: Região Administrativa Barreiro e Região Administrativa

184
As duas primeiras Regiões Administrativas foram instituídas no mesmo ano de criação da RMBH.
188

Venda Nova (RAVN). Ou seja, subdivisões gerenciais instituídas com o fim de


promover a descentralização administrativa e a melhor coordenação dos programas
e ações a serem implementados em cada região, observadas as suas particularidades
e demandas mais urgentes.
Desde 1983, o Município de Belo Horizonte é subdividido em nove Regiões
Administrativas (também conhecidas como Regionais). Nessa época, a Região
Histórica de Venda Nova (RHVN) assumiu a configuração territorial da atual Região
Administrativa Venda Nova (RAVN), correspondendo a menos da metade da
superfície da RHVN. Além das Regiões Administrativas Venda Nova e Barreiro,
incluem-se as Regiões Administrativas Leste, Nordeste, Oeste, Pampulha, Centro-
Sul, Noroeste e Norte, conforme se infere do Mapa 5. Todas instituídas pela Lei
Municipal nº 4.158, de 17 de julho de 1985185 (APCBH, 2008).

Mapa 5 – Regiões Administrativas da cidade de Belo Horizonte

Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2015

185
Na reforma administrativa implantada em 2000, o Município alterou o status institucional dessas
divisões territoriais para Secretarias Municipais da Coordenação de Gestão Regional. Atualmente, as
circunscrições administrativas definidas territorialmente são geridas pelas Secretarias Municipais
Adjuntas de Administração Regional – SMAARs, com limites territoriais atualizados pela Lei nº 10.231,
de 20 de julho de 2011 (APCBH, 2008).
189

4.3 A produção do espaço metropolitano de Belo Horizonte

A continuidade do tecido urbano, a intensificação dos fluxos migratórios


campo–cidade e do processo de urbanização se fizeram sentir nas principais capitais
do País, a partir da década de 1950. Consolidam-se regiões que, embora submetidas
a jurisdições municipais distintas, se comportavam como uma única cidade, face às
intensas relações existentes entre elas. A questão metropolitana suscitava crescente
preocupação e era objeto de embrionárias experiências de gestão intermunicipal em
vários Estados da Federação186 (AZEVEDO; MARES GUIA, 2000).
Paralelamente, como forma de solucionar os problemas enfrentados pelos
grandes centros urbanos, decorrentes do desordenado processo de ocupação, da
acelerada expansão urbana e do déficit habitacional, o governo federal instituiu as
Leis nº 4.591/1964187, 4.380/1964188 e 4.864/1965189. Ainda, houve a criação do I
Plano Nacional de Desenvolvimento, reforçando a tendência das políticas
centralizadoras do regime militar à época e a consequente perda de autonomia dos
Municípios.
Embora a questão metropolitana tenha sido incluída na Constituição da
República de 1967, e mantida na Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de
1969, somente com a promulgação da Lei Complementar nº 14/1973190, as regiões
metropolitanas são regularmente institucionalizadas, impondo aos Municípios sua
participação compulsória. Não se considerou, contudo, as peculiaridades regionais na
definição dos serviços que deveriam ser alvo da gestão comum, conforme disposto
em seu art. 5º, quais sejam: o planejamento integrado do desenvolvimento econômico
e social; o saneamento básico (água, esgoto, limpeza pública); o uso do solo; os
transportes e o sistema viário; a produção e distribuição de gás combustível

186
Em Minas Gerais, o processo de metropolização advindo da urbanização da capital e de sua
influência sobre os Municípios vizinhos, desde o fim da década de 1950, fomentou a delimitação da
RMBH em 1970, como resultado de estudos promovidos pelo governo do Estado. Em 1971, houve a
celebração de um convênio entre o Estado e os 14 Municípios da RMBH, a fim de propiciar o
planejamento metropolitano (PLAMBEL, 1986).
187
Lei nº 4.591, de 16 de dezembro de 1964 – dispõe sobre o condomínio em edificações e as
incorporações imobiliárias.
188
Lei nº 4.380, de 21 de agosto de 1964 – institui a correção monetária nos contratos imobiliários de
interesse social, o sistema financeiro para aquisição da casa própria, cria o Banco Nacional da
Habitação (BNH), e Sociedades de Crédito Imobiliário, as Letras Imobiliárias, o Serviço Federal de
Habitação e Urbanismo e dá outras providências.
189
Lei nº 4.864, de 29 de novembro de 1965 – cria Medidas de estímulo à Indústria de Construção Civil.
190
A RMBH, conforme art. 1º, §2º, da Lei Complementar nº 14, de 8 de junho de 1973, constituía-se
dos Municípios de Belo Horizonte, Betim, Caeté, Contagem, Ibirité, Lagoa Santa, Nova Lima, Pedro
Leopoldo, Raposos, Ribeirão das Neves, Rio Acima, Sabará, Santa Luzia e Vespasiano.
190

canalizado; o aproveitamento dos recursos hídricos e o controle da poluição ambiental


(PLAMBEL, 1992).
Em Minas Gerais, a Lei Estadual nº 6.303, de 30 de abril de 1974, regulamentou
a RMBH, instituiu os Conselhos Deliberativo e Consultivo da RMBH e criou a autarquia
Planejamento da Região Metropolitana de Belo Horizonte (PLAMBEL) como entidade
de planejamento e apoio técnico191. Sendo que, em 1975, houve a aprovação do Plano
de Desenvolvimento Integrado Econômico e Social – PDIES da RMBH, que,
posteriormente reformulado pela PLAMBEL, passou a servir de referência para as
ações adotadas no território regional (PLAMBEL, 1986).
Nessa época, há um aporte do capital estrangeiro industrial, a partir de
mecanismos de crédito e isenção fiscal ofertados pelo Poder Público, propiciando o
início da fase denominada como “milagre econômico”. Por intermédio de órgãos do
Estado, como o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), o Instituto de
Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (INDI) e a Companhia de Distritos
Industriais (CDI), o governo incentivou o processo de industrialização na RMBH,
mediante assunção do custo de implantação das fábricas, atribuindo-se ao capital
estrangeiro, por sua vez, a incumbência de investir em maquinário, material elétrico e
transportes. Em decorrência das políticas de estímulo, ocorreram: (i) em Betim, a
instalação da FIAT Automóveis, do Distrito Industrial Paulo Camilo e da Refinaria
Gabriel Passos (REGAP); (ii) em Santa Luzia, a implantação de dois Distritos
Industriais, mudando as características socioeconômicas do Município; (iii) em Nova
Lima, Caeté, Sabará e Ibirité, a intensificação da mineração; (iv) em Vespasiano,
Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, a exploração de calcário.
A fábrica da FIAT contribuiu significativamente para o avanço da produção de
bens de consumo duráveis na RMBH, mobilizando uma extensa cadeia de
fornecedores, de serviços e de comercialização, bem como auxiliando a consolidação
da industrialização metropolitana na tríade mínero-metal-mecânico. No bojo do
desenvolvimento, o setor terciário da RMBH modernizou-se, através da ampliação e
complexificação dos serviços, favorecendo a instalação de estabelecimentos
atacadistas – Makro e do entreposto das Centrais de Abastecimento de Minas Gerais

191
Ainda na década de 1970, foi criada a Companhia de Transportes Urbanos da Região Metropolitana
de Belo Horizonte – METROBEL, órgão técnico da instância estadual, com objetivo específico de
planejar os sistemas de transporte e trânsito da RMBH (ANDRADE, 2009).
191

(CEASA)192, às margens dos eixos viários de articulação regional, respectivamente


nas regiões Oeste e Noroeste da capital (PLAMBEL, 1982).
Belo Horizonte, por sua vez, teve expressiva expansão nas atividades terciárias
(administração pública, ensino, serviços culturais e atividades bancárias, comerciais
e financeiras), potencializando sua capacidade de polarização sobre o território
mineiro, a ponto de ser reconhecida como uma das mais influentes metrópoles
nacionais. Por fim, o setor primário, inobstante a perda de trabalhadores e solos
cultiváveis, observou aumento na produção, principalmente nos Municípios de Betim,
Contagem, Ibirité e Pedro Leopoldo. Diante da aceleração econômica do país, o
desempenho do Estado de Minas Gerais mostrou-se superior ao nacional como um
todo, enquanto o da RMBH superou o desempenho estadual, constituindo-se o
fenômeno da nova industrialização mineira (PLAMBEL, 1982).
A instalação de Distritos Industriais na RMBH alterou significativamente o perfil
econômico de vários Municípios, implicando uma nova conformação da estrutura
urbana em termos de concentração/dispersão e na criação de novas centralidades,
que empurraram ainda mais as fronteiras de novos usos.

A cidade como parte desse conjunto não fica imune a essa lógica e sua
organização visa basicamente o "formal produtivo" não oferecendo, contudo,
urbanidade ao seu usuário, a população: - os serviços públicos não atendem
satisfatoriamente a maior parte dos seus moradores, as condições de
habitação são precárias, as áreas de lazer segregadas, os locais de
encontros quase inexistentes. Enfim a cidade se organiza por funções e
portanto falta-lhe o "urbano". (PLAMBEL, 1982, p.131).

Releva notar que o espraiamento da industrialização verificada na RMBH


reflete a intensificação da globalização no período, fazendo com que as empresas
direcionassem suas plantas produtivas para locais que oferecessem vantagens
competitivas e custos de produção mais baixos, a fim de aproveitarem-se das
vantagens comparativas entre as regiões, tais como: incentivos fiscais; baixo
desempenho sindical nas cidades pequenas e médias; oferta de mão de obra mais
barata e o surgimento de deseconomias de aglomeração nos grandes centros, como
a violência urbana e o aumento dos custos de transporte (PREFEITURA MUNICIPAL
DE BELO HORIZONTE, 2009b).
Simultaneamente, houve a redistribuição da valorização imobiliária,
sacramentada pela legislação de ocupação e uso do solo que, por sua vez, ditou os

192
O entreposto do CEASA é o mais diversificado do país e ocupa o segundo lugar nacional em vendas
de hortigranjeiros (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2012a).
192

locais de maior dinamismo deste processo, fazendo com que os loteamentos


populares193 se estabelecessem predominantemente em Municípios onde esse
controle inexistia: Ribeirão das Neves, Ibirité, Igarapé, Esmeraldas e Mateus Leme,
transformando-os em “cidades dormitório” (PLAMBEL, 1983). Em Belo Horizonte, a
frente descontinua de expansão periférica, advinda do intenso processo de
parcelamento do solo, consolidou a conurbação da Região Administrativa Venda Nova
com os Municípios de Ribeirão das Neves e Santa Luzia (PLAMBEL, 1989). A
fragilidade ou ineficiência na aplicação dos instrumentos urbanísticos resultou em
áreas urbanas precárias quanto à habitação, infraestrutura e aos serviços urbanos
básicos. De modo que se atendeu, essencialmente, às necessidades da acumulação
e reprodução do capital em detrimento do espaço da reprodução social (COSTA,
2009).
Em consequência, o crescimento demográfico da RMBH passa a ser maior do
que aquele apresentado por seu núcleo urbano, demonstrando um novo tipo de
migração entre os habitantes dos municípios metropolitanos – o tipo urbano-urbano.
Nesse processo, consolida-se a concentração de população rica na região Centro-Sul
de Belo Horizonte (concentradora dos benefícios urbanos, iniciava o processo de
renovação urbana via verticalização) e no Vetor Sul da RMBH. E, de outro lado,
intensifica-se a concentração do segmento de renda média baixa nas regiões Norte,
Noroeste e Oeste da capital e dos Municípios circunvizinhos (PLAMBEL, 1983). Nesse
período, Souza (2008) ressalta que a RMBH crescia a uma taxa média anual de
4,52%, enquanto o resto da RMBH (RRMBH)194 crescia a uma taxa de 6,34% ao ano,
mantendo-se o processo de metropolização e periferização da região.
Concomitantemente, há a desaceleração das taxas de crescimento populacional da
capital, se considerado que, na década de 1960, Belo Horizonte foi responsável por
75% do crescimento demográfico da RMBH e, entre 1991 e 2000, por apenas 25%.
Assim como as demais regiões do país, na década de 1980, a RMBH foi afetada
pelo desemprego, pela ampliação da informalidade do emprego no setor terciário e
pelo arrefecimento das atividades industriais, mantendo-se, todavia, a expansão e o
fortalecimento das atividades de mineração, em função do cunho exportador
empreendido pelo governo federal. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, a

193
Além do lançamento desses loteamentos, houve uma intensificação na oferta habitacional para a
população de baixa renda a partir da atuação da Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais
– COHAB Minas, bem como das cooperativas habitacionais, na constituição e entrega de grandes
conjuntos habitacionais à população.
194
Todos os municípios da RMBH, com exceção de Belo Horizonte.
193

estruturação socioespacial da RMBH é marcada pelo aprofundamento das


desigualdades socioespaciais verificadas no binômio centro/periferia, refletindo a
segregação socioeconômica da população no espaço regional. Verificando-se, então:
a elitização dos espaços centrais e pericentrais; o aumento de participação da classe
média nos espaços elitizados; o adensamento condominial de luxo pelas classes mais
abastadas ao longo do Vetor Sul, sobretudo no Município de Nova Lima; a
manutenção do movimento de expulsão dos segmentos populares para a periferia; o
crescimento de favelas; e a consolidação da ocupação de baixa renda na região Norte
da capital. Veja-se que, no período de 1970-1980, o crescimento populacional da
capital mineira representava, aproximadamente, 57% do crescimento populacional da
RMBH, sendo que, no interstício de 1991-2000, sua participação nesse incremento foi
de apenas 26,12% (ANDRADE, 2009).
Nesse contexto, a prática de planejamento regional e urbano centrada no
governo federal foi paulatinamente abandonada, acarretando perdas significativas
para as regiões metropolitanas, que não mais se beneficiavam do repasse de verbas
da União ou do auxílio dos órgãos estatais criados para esse fim, porquanto extintos.
De modo que, após a promulgação da CR/88, a responsabilidade pela
institucionalização e planejamento dos espaços metropolitanos restou atribuída aos
Estados federados. Além de regiões metropolitanas195, o texto constitucional admitiu
outras categorias de organização regional, como as aglomerações urbanas196 e as
microrregiões197. A CR/88 conferiu ao Município a responsabilidade pelo planejamento
e definição das políticas urbanas a serem adotados no seu espaço territorial,
consagrando, também, a participação popular na gestão da coisa pública,
notadamente em questões relacionadas à educação, saúde, habitação, assistência
social, entre outros (ANDRADE, 2009).

195
De acordo com o art. 45 da Constituição do Estado de Minas Gerais de 1989 (com redação dada
pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº 65/2004), “considera-se região metropolitana o conjunto de
Municípios limítrofes que apresentam a ocorrência ou a tendência de continuidade do tecido urbano e
de complementaridade de funções urbanas, que tenha como núcleo a capital do Estado ou metrópole
regional e que exija planejamento integrado e gestão conjunta permanente por parte dos entes públicos
nela atuantes” (MINAS GERAIS, 1989).
196
De acordo com o art. 48 da CEMG/89 (com redação dada pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº
65/2004), “considera-se aglomeração urbana o agrupamento de Municípios limítrofes que apresentam
tendência à complementaridade das funções urbanas que exija planejamento integrado e recomende
ação coordenada dos entes públicos” (MINAS GERAIS, 1989).
197
De acordo com o art. 49 da CEMG/89 (com redação dada pelo art. 1º da Emenda à Constituição nº
65/2004), “considera-se microrregião o agrupamento de Municípios limítrofes resultante de elementos
comuns físico-territoriais e socioeconômicos que exija planejamento integrado com vistas a criar
condições adequadas para o desenvolvimento e a integração regional” (MINAS GERAIS, 1989).
194

Em Minas Gerais, a Constituição Estadual de 1989 (CEMG/89) dispôs sobre as


regras de criação de regiões metropolitanas, definindo sua estrutura institucional e
administrativa. A criação da Assembleia Metropolitana (AMBEL)198 e a assunção do
planejamento regional pelo governo do Estado provocou a redução dos encargos
anteriormente atribuídos ao PLAMBEL e a sua consequente extinção em 1996. A
partir de então, novos Municípios foram acrescentados à RMBH, com base em
sucessivas leis estaduais, perfazendo a sua composição atual com 34 Municípios,
conforme Mapa 6 Quadro 5.

Mapa 6 – Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH)

Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2009b

198
A partir de então, a gestão política na RMBH esteve a cargo da Assembleia Metropolitana (AMBEL),
composta pelos prefeitos dos Municípios que a integram, por vereadores destes Municípios, escolhidos
em quantidade proporcional ao seu número de habitantes, um representante da Assembleia Legislativa
do Estado de Minas Gerais e um representante do governo do Estado de Minas Gerais, todos indicados
pelos órgãos de origem, como disposto no art. 45, §§ 1º e 2º, da CEMG/89, e na Lei Complementar nº
26/1993, que estabelece as normas gerais relativas ao planejamento e à execução de funções públicas
de interesse comum, a cargo da região metropolitana, e dispõe sobre as atribuições, a organização e
o funcionamento da Assembleia Metropolitana da RMBH. Entretanto, a AMBEL sempre foi controlada
pelo governo do Estado e pelos Municípios mais populosos da RMBH (ANDRADE, 2009).
195

Quadro 5 – Composição da RMBH 1973-2002


ANO NORMA MUNICÍPIOS TOTAL

1973 LC nº 14/1973 Belo Horizonte, Betim, Caeté, Contagem, Ibirité, Lagoa Santa, 14
Nova Lima, Pedro Leopoldo, Raposos, Ribeirão das Neves,
Rio Acima, Sabará, Santa Luzia e Vespasiano
1989 CEMG/89 Brumadinho, Esmeraldas, Igarapé e Mateus Leme 18
1993 LC nº 26/1993 Confins (emancipado de Lagoa Santa), Juatuba (emancipado 24
de Mateus Leme), Mário Campos, São Joaquim de Bicas
(emancipado de Igarapé), São José da Lapa (emancipado de
Vespasiano) e Sarzedo (emancipados de Ibirité)
1997 LC nº 48/1997 Florestal e Rio Manso 26
1999 LC nº 53/1999 Baldim, Capim Branco, Itabirito, Itaguara, Matozinhos e Nova 32
União
2000 LC nº 56/2000 Jaboticatubas e Taquaraçu de Minas (exclusão do Município 33
de Itabirito)
2002 LC nº 63/2002 Itatiaiuçu 34
Fonte: Elaborado pelo autor

O processo de inclusão de novas municipalidades, na maior parte das vezes,


observou critérios muito mais políticos do que técnicos, que justificassem, segundo
critérios demográficos, urbanísticos e socioeconômicos, o pertencimento de parte
significativa destes novos Municípios à RMBH. Além da inclusão de novos Municípios
à RMBH, em 1995, houve a institucionalização da figura do Colar Metropolitano,
constituído, hoje, por 16 Municípios199: Barão de Cocais, Belo Vale, Bom Jesus do
Amparo, Bonfim, Fortuna de Minas, Funilândia, Inhaúma, Itabirito, Itaúna, Moeda,
Pará de Minas, Prudente de Morais, Santa Bárbara, São Gonçalo do Rio Abaixo, São
José da Varginha e Sete Lagoas, que possuem menor integração à dinâmica
metropolitana.

4.4 Reestruturação produtiva do Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo


Horizonte

Na década de 2000, em contraposição à redução de investimentos públicos e


privados das décadas anteriores, processou-se uma série de intervenções na
estruturação do espaço da RMBH, a partir da constituição de um novo arranjo
institucional de gestão metropolitana200. Nesse sentido, cria-se, em 2003, a Secretaria

199
De acordo com a Lei Complementar Estadual nº 124, de 17 de outubro de 2012.
200
A título de informação, entre 2001 e 2015, o cargo de Governador do Estado de Minas Gerais foi
ocupado por Itamar Franco (PMDB), de 1999 a 2003; Aécio Neves (PSDB), de 2003 a 2010; Antônio
Anastasia (PSDB), de 2010 a 2014; Alberto Pinto Coelho Júnior (PP), de 2014 a 2015; e, finamente,
Fernando Pimentel (PT), governador em exercício, eleito em 2015. Por sua vez, a autoridade máxima
do Poder Executivo Municipal de Belo Horizonte ficou a cargo de Célio de Castro (PSB), de 1997 a
196

de Estado de Desenvolvimento Regional e Política Urbana (SEDRU), que possui


como uma de suas competências o controle e a avaliação da articulação
intergovernamental e de integração regional dos Municípios, incluindo a RMBH. Ainda,
objetivando a reformulação do modelo de gestão da RMBH, define-se a elaboração
do Plano Diretor Metropolitano, pela AMBEL em cooperação com a SEDRU.
De igual modo, mediante aprovação da Emenda Constitucional nº 65, de 25 de
novembro de 2004, altera-se a redação dos artigos 42 a 50 da CEMG/89,
reformulando a estrutura organizacional da RMBH, de modo a atribuir a gestão da
RMBH à AMBEL201, conjuntamente ao Conselho Deliberativo de Desenvolvimento
Metropolitano – com representação da sociedade civil, e à Agência de
Desenvolvimento Metropolitano202, tendo por base um Plano Diretor de
Desenvolvimento Integrado e a utilização dos recursos provenientes do Fundo de
Desenvolvimento Metropolitano203, que havia sido criado em 1989 (ANDRADE, 2009).
Por sua vez, em 2006, a aprovação das Leis Complementares nº 88 e 89, ambas de
12 de janeiro de 2006, estabeleceu o arranjo institucional para gestão e planejamento
da RMBH (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b).
O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de
Belo Horizonte (PDDI-RMBH)204 constitui o instrumento referencial de ordenação da
reestruturação territorial prevista para a RMBH, tendo como horizonte temporal de
médio prazo o ano de 2023, e de longo prazo o ano de 2050. O Plano enfatiza a

2002; Fernando Pimentel (PT), de 2002 a 2008; e, por fim, Márcio Lacerda (PSB), prefeito em exercício,
eleito em 2009 e, depois, reeleito em 2013.
201
Na Primeira Conferência Metropolitana, realizada em 2007, foram instalados o Conselho
Deliberativo e a Assembleia Metropolitana, e regulamentado o Fundo de Desenvolvimento
Metropolitano. De igual modo, informalmente foi criado o Colegiado Metropolitano, como apoio aos
membros da sociedade civil eleitos para o Conselho, com representações de 20 entidades dos diversos
segmentos, cuja atuação tem lhe concedido forte legitimidade, consolidando-o como um importante
agente de ampliação do processo participativo (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b).
202
A Agência de Desenvolvimento Metropolitano, instituída pela Lei Complementar nº 107, de 12 de
janeiro de 2009, é uma autarquia territorial e especial, de caráter técnico e executivo, para fins de
planejamento, assessoramento, regulação urbana e apoio à execução das funções públicas de
interesse comum dos Municípios na região metropolitana (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b).
203
O Fundo de Desenvolvimento Metropolitano é constituído de recursos provenientes do Estado (50%)
e do conjunto dos 34 Municípios da RMBH (50%) – cuja contribuição é proporcional as suas receitas
líquidas –, além de dotações orçamentárias, transferências do governo federal, operações de crédito
internas ou externas, doações, entre outros (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b).
204
O PDDI-RMBH, concluído em dezembro 2010, foi contratado pela SEDRU, com recursos do Fundo
de Desenvolvimento Metropolitano, junto à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas,
Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação IPEAD), e elaborado por uma equipe
coordenada pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR), da Faculdade
de Ciências Econômicas (FACE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com a
participação de pesquisadores de outras unidades de ensino superior e centros de pesquisa no Estado,
além de consultores nas áreas de planejamento urbano e ambiental, transportes, políticas públicas e
outros estudos setoriais (MINAS GERAIS, 2011a).
197

redução das desigualdades socioespaciais metropolitanas, a criação de novas


centralidades205, a estruturação policêntrica e mais compacta da metrópole (com
reforço das ligações viárias), em oposição à estrutura monocêntrica prevalecente até
hoje (Figura 10), de crescimento extensivo da mancha urbana do tipo centro/periferia
(MINAS GERAIS, 2011a; 2011b).
O processo de planejamento metropolitano prevê a colaboração e integração
permanente dos Municípios (inclusive os que compõem o Colar Metropolitano) e da
sociedade civil. Esta, não só na condição de objeto, mas também como sujeito do
planejamento, compatibilizando o saber técnico-científico e o saber popular que
emana da vida cotidiana (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b). Numa perspectiva, ao
menos em tese, de harmonização da triplicidade percebido-concebido-vivido
(LEFEBVRE, 2006) na reestruturação territorial da RMBH, a partir da implementação
desse novo modelo de gestão metropolitana.

Figura 10 – Metrópole Dispersa e Monocêntrica X Metrópole Compacta e


Policêntrica

Fonte: Minas Gerais, 2011a

O processo de planejamento metropolitano prevê a colaboração e integração


permanente dos Municípios (inclusive os que compõem o Colar Metropolitano) e da
sociedade civil. Esta, não só na condição de objeto, mas também como sujeito do
planejamento, compatibilizando o saber técnico-científico e o saber popular que

205
Nesse caso, entendidas como um espaço de referência para os cidadãos metropolitanos. As áreas
urbanas enquadradas nessa categoria possuem “alta densidade econômica, forte heterogeneidade de
usos, grande complexidade funcional e adensamento residencial”, e são caracterizadas pela
“concentração diversificada de emprego, comércio e serviços públicos e privados, assim como pela
acessibilidade privilegiada” (MINAS GERAIS, 2011a, p. 20). Em função da instalação do Centro
Administrativo do Estado de Minas Gerais e dos impactos oriundos dos investimentos realizados e
previstos para a região, o centro tradicional da Região Administrativa Venda Nova (RAVN) se consolida
como uma nova centralidade regional, “conurbado com Justinópolis em Ribeirão das Neves a oeste,
com a região da Pampulha ao sul e com [o] centro do São Benedito em Santa Luzia, incorporando
progressivamente áreas dos municípios de Vespasiano, Confins e Lagoa Santa” (MINAS GERAIS,
2011b, p. 58).
198

emana da vida cotidiana (MINAS GERAIS, 2011a; 2011b). Numa perspectiva, ao


menos em tese, de harmonização da triplicidade percebido-concebido-vivido
(LEFEBVRE, 2006) na reestruturação territorial da RMBH, a partir da implementação
desse novo modelo de gestão metropolitana.
Conforme o Sumário Executivo do PDDI-RMBH,

as macro-diretrizes (sic) para o planejamento, formuladas no PDDI, foram


definidas em função do seu caráter transversal (promoção do
desenvolvimento sustentável, reorganização territorial, inserção nacional e
internacional, gestão metropolitana integrada e controle social), metodológico
(consistência técnica, inter-setorialidade (sic) e participação social) e
relacionadas às funções públicas de interesse comum metropolitano
(transporte intermunicipal e sistema viário; defesa contra sinistro e defesa
civil; saneamento básico; uso do solo metropolitano; gás canalizado;
cartografia e informações básicas; preservação ambiental; habitação; rede de
saúde; desenvolvimento socioeconômico). Foram incorporadas diretrizes
definidas nos planos diretores municipais e nas políticas e programas
existentes nos vários órgãos setoriais da administração estadual e federal
(MINAS GERAIS, 2011a, p. 5).

Nesse sentido, a execução das políticas previstas no plano metropolitano


depende fundamentalmente da capacidade dos Municípios se assumirem como
sujeitos da metrópole, fortalecendo a gestão colegiada e a colaboração no
planejamento e execução dos serviços comuns e complementares, superando os
limites municipais como o recorte territorial padrão para a elaboração e
implementação das políticas públicas (MINAS GERAIS, 2011b).
A RMBH, há algum tempo, vem sendo alvo de grandes projetos urbanos
regionais, capitaneados pelo governo do Estado e em parceria com a iniciativa
privada. Investimentos expressivos em setores tradicionais como a mineração, a
siderurgia, o mercado imobiliário e a indústria da construção civil, os serviços
produtivos e de transporte, associados a uma reestruturação produtiva em setores de
alta tecnologia – objetivando, inclusive, a inserção e/ou consolidação metropolitana
no cenário nacional e internacional –, são acompanhados de grandes obras públicas
de infraestrutura e de suporte a serviços de caráter metropolitano. “A construção de
um ambiente econômico competitivo, estável, seguro ao investidor e atrativo ao
desenvolvimento de negócios faz parte da agenda estratégica” desse “Estado
articulador e facilitador” (MINAS GERAIS, 2007, p. 11-12).
A (re)produção do espaço – aqui, concebido como terra nua –, se dá com o
objetivo de garantir a reprodução ampliada do capital, sem a menor consideração com
a história, a memória, as pessoas e as relações sociais nele produzidas ao longo do
tempo (CARVALHO, 2004). Como aponta Santos (2007, p. 63-64), “a lei é a do
199

processo produtivo, cujos resultados ofendem, expulsam e desenraizam as pessoas,


e não a lei que assegure o direito à cidade ou, ao menos, o direito ao entrono.”
Dentre as políticas e ações implementadas pelo governo do Estado na RMBH,
interessa-nos especialmente a série de projetos e investimentos públicos orientados
para atrair o interesse/investimento privado e estimular o desenvolvimento do Vetor
Norte da RMBH206, face às potenciais implicações à configuração socioespacial da
RAVN, notadamente em relação à AEVN, tanto no provimento de infraestrutura
(habitação, mobilidade, serviços, etc.), quanto nos impactos à ocupação e uso do solo
(Mapa 7). Sobretudo se considerado que os investimentos públicos em infraestrutura
urbana, por vezes, criam as condições favoráveis à especulação fundiária/imobiliária
e à expulsão das classes de baixa renda, em detrimento da democratização do acesso
à terra e às funções da cidade (CARVALHO, 2004).
A reestruturação produtiva do Vetor Norte da RMBH objetiva a diversificação
de sua base industrial e a criação de polos de alta tecnologia, a partir da atração de
indústrias de ponta, nacionais e internacionais, em aeronáutica, biotecnologia,
semicondutores, informação, microeletrônica, softwares, farmacoquímica, etc., que
utilizarão a infraestrutura proporcionada pelo Aeroporto Internacional Tancredo Neves
(AITN) para a circulação aérea dos produtos. A produção de mercadorias de maior
valor agregado em setores de tecnologia de ponta, visa intensificar sua capacidade
de polarização regional, favorecendo, também, sua internacionalização competitiva no
mercado global (MINAS GERAIS, 2007; 2011b; 2011f).
Segundo o estudo elaborado pelo Instituto Horizontes207, o desenvolvimento do
setor de alta tecnologia na região está atrelado a um conjunto de fatores que
condicionam o êxito do plano estratégico, tais como: infraestrutura urbana (transporte,
comunicação, energia), serviços especializados, presença de instituições de
pesquisa, concessão de incentivos fiscais e financeiros, qualidade de vida urbana e
ambiental, atividades de entretenimento, lazer, cultura e consumo (MINAS GERAIS,
2008). Ou seja, requisitos fundamentais para a atração de investimentos e de uma
classe trabalhadora altamente qualificada de tecnólogos, mestres e doutores. Sendo
necessário, portanto, a implantação de uma organização espacial que dê sustentação

206
Abrangendo as Regiões Administrativas Pampulha, Norte e Venda Nova de Belo Horizonte e os
Municípios de Ribeirão das Neves, Santa Luzia, Pedro Leopoldo, Vespasiano, São José da Lapa;
Lagoa Santa e Confins.
207
Consiste no “Plano de Ações Imediatas” para o Vetor Norte que prevê as ações e projetos já
implantados ou em fase de execução, visando promover a ampliação da acessibilidade local e regional,
o desenvolvimento de empreendimentos de inovação tecnológica, a preservação de ativos ambientais,
culturais e científicos e a gestão compartilhada entre os atores envolvidos (MINAS GERAIS, 2008).
200

à nova ordem econômica e que seja compatível com o sofisticado padrão de consumo
daqueles que se pretende atrair para a região (CASTELLS; HALL, 1994; HARVEY,
2011b).

Mapa 7 – AEVN e Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte

Fonte: Fundação João Pinheiro, 2015

Torna-se, pois, indispensável que a melhoria do ambiente econômico do Vetor


Norte da RMBH seja harmonizada com a busca e manutenção do bem estar social,
sobretudo se considerado que as decisões de investimento não estão associadas
apenas a fatores institucionais e à competitividade da economia, sendo, também,
influenciadas pela capacidade de atrair e reter talentos e tomadores de decisão
201

através da oferta de um ambiente propício à convivência social e com qualidade de


vida (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2009a).
Todos esses fatores constituem importantes atrativos para os residentes e
potenciais investidores, sendo determinantes para o êxito da reestruturação produtiva
do Vetor Norte da RMBH e sua competividade no mercado global (BORJA, 1994;
CASTELLS; BORJA, 1996; BORJA; CASTELLS, 1997; SAVAGE et al., 2003), não só
por investimentos estrangeiros, mas também por capital humano (MINAS GERAIS,
2010). Nesse processo, o Poder Público tem atuado como fomentador e articulador
da expansão urbana, assumindo a implantação das obras estruturantes previstas no
PDDI-RMBH e no “Plano de Ações Imediatas”, que induzem a constituição de novos
empreendimentos e o desenvolvimento de economias de localização e aglomeração.
Ou seja, a (re)estruturação do espaço metropolitano orientada pela lógica da
mercadoria, do capital.
Atualmente, “cidades globais” como Londres, Nova York e Tóquio (SASSEN,
1998), se caracterizam, grosso modo, pelo comando na organização da economia
mundial, pelo avanço tecnológico e informacional e pelos fluxos planetários de
pessoas, bens e informações (GOTTDIENER; FEAGIN, 1989; HARVEY, 2011b;
BORJA; CASTELLS, 1997). Para estruturarem as redes de circulação e a logística de
transporte, contam com uma rede aeroviária que as conectam com o restante do
mundo. Nessas cidades, os aeroportos caracterizados como Hubs208, destinados
tanto ao transporte de passageiros como de carga, são utilizados como meio de
estruturação do espaço citadino e das atividades produtivas locais (MINAS GERAIS,
2011f). Primeiro, por favorecerem a rápida circulação e conexão com outras regiões
do país e do mundo. Segundo, pelo fato do transporte aéreo ser compatível com as
indústrias de base tecnológica e de inovação, cujas mercadorias produzidas têm
diminutos peso e tamanho, em comparação com o alto valor agregado que possuem.
O que torna o custo do transporte aéreo mais acessível (FUNDAÇÃO JOÃO
PINHEIRO, 2012a).
Os estudos e diagnósticos realizados para a elaboração do PDDI-RMBH e do
Plano Macro-Estrutural e Estratégico da RMBH (Hub do corredor multimodal) apontam
a transformação do AITN em Hub internacional de transporte de passageiros e cargas
como condição sine qua non para o posicionamento competitivo da RMBH no contexto

208
Designação dada a aeroportos que se constituem como os principais centros de operações de voos
comerciais (centro logístico e de serviço expresso), servindo de ponto de transferência do tráfego aéreo
para outros modais de transporte (MINAS GERAIS, 2010).
202

nacional e internacional, a partir da reestruturação produtiva proposta para o Vetor


Norte. Ainda, a transformação do AITN no primeiro aeroporto industrial do país, com
a previsão de duplicar sua atual capacidade operativa, criará as condições
necessárias à reestruturação produtiva da metrópole em direção às atividades
intensivas em tecnologia, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e conhecimentos,
dotando-a de um equipamento de transporte ágil e capaz de influenciar sua
competitividade na economia global (MINAS GERAIS, 2010; 2011a; 2011b). O AITN,
junto com o seu entorno imediato, é contemplado para ser o principal componente de
uma rede econômica maior: a aerotrópolis209, no horizonte temporal de 2030.
Inaugurado em 1984, no Município de Confins, o AITN permaneceu
subutilizado por um longo período, em razão de sua distância da capital mineira
(aproximadamente 38 km) e da existência de outro aeroporto na cidade (Aeroporto
Regional da Pampulha), de capacidade operacional restrita, mas com localização
estratégica. Somente a partir de 2004, o AITN passou a ser utilizado de maneira mais
efetiva, favorecido pela transferência de voos de alcance nacional, até então,
destinados ao Aeroporto da Pampulha e, mais tarde, pela instalação do Centro de
Manutenção da empresa de aviação GOL em suas dependências (MINAS GERAIS,
2010; 2011f).
A transformação do AITN em aeroporto indústria permite que as empresas de
alta tecnologia que, eventualmente, venham a se instalar na sua área de influência,
por priorizarem o modal aéreo para o transporte de matérias-primas e produtos finais,
sejam beneficiadas com a isenção de impostos federais e estaduais, tanto para a
importação de componentes como para a exportação de produtos finais de alto valor
agregado. O que, por certo, as tornam mais competitivas no mercado global.
O PDDI e o Plano Macro-Estrutural apontam o Anel Viário de Contorno Norte
(Rodoanel Norte210), já licitado pelo governo do Estado, como eixo estruturador de
desenvolvimento de serviços de alta tecnologia, interligando o aeroporto a sua área
de influência e aos “Portos Secos” localizados no entorno. Além disso, o AITN
conecta-se diretamente à capital, via “Linha Verde”211 – em cujas margens, inclusive,

209
Forma urbana que compreende negócios intensivos em aviação e empresas relacionadas a partir
do núcleo. Conhecido como “cidade-aeroporto” ou “cidade da aviação”, é composto por instalações
logísticas, de distribuição, escritórios, hotéis, áreas residenciais, de serviços e recreação (MINAS
GERAIS, 2010).
210
O Rodoanel Norte, além de integrar Municípios de Leste a Oeste da RMBH, fará uma conexão entre
a BR-381, saída Vitória, com a mesma rodovia na saída para São Paulo, cruzando a BR-040, saída
Brasília, além de outras rodovias estaduais, como a MG-010 (MINAS GERAIS, 2011c).
211
Trata-se do complexo viário composto pela Rodovia Prefeito Américo Gianetti, comumente
conhecida por MG-010, e sua extensão urbana no Município de Belo Horizonte (Avenida Cristiano
203

foi instalado o Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais (CAMG), que


atualmente abriga os órgãos da administração direta e parte da administração indireta
do Governo do Estado. Ao favoreceram a (re)produção do espaço metropolitano,
esses quatro grandes projetos urbanos, como se verá, contribuem para a criação de
externalidades positivas e novas frentes de valorização do capital (MINAS GERAIS,
2010; 2011a; 2011b).
Nesse sentido, ressalta-se a implantação do Parque Tecnológico de Belo
Horizonte (BH-TEC)212. O empreendimento promove a articulação entre
universidades, órgãos governamentais e empresas de base tecnológica, visando à
realização de atividades de P&D, para a produção de bens e serviços inovadores e
de alta tecnologia (DINIZ; LEMOS, 2001).
Inaugurado em 2012, com 16 empresas instaladas, prevê-se que, nos próximos
anos, quando toda o empreendimento estiver instalado (Figura 11), a área abrigue
200 companhias (UFMG, 2012). Ao induzir a concentração de empresas de base
tecnológica num mesmo espaço, o BH-TEC tem a capacidade de garantir uma
vantagem competitiva à região metropolitana no mercado global (CASTELLS; HALL,
1994). Nesta perspectiva, constitui um ambiente favorável ao fomento de inovações
tecnológicas, à formação de novos centros públicos e privados de P&D, à geração de
negócios e ao desenvolvimento socioeconômico do Estado (MINAS GERAIS, 2008).

Figura 11 – Maquete do BH-TEC

Fonte: UFMG, 2012

Machado e Boulevard Arrudas), que se constitui como o principal eixo articulador viário do Vetor Norte
da RMBH, permitindo o acesso a diversos municípios que o compõem. As recentes obras de melhorias
e ampliação de sua capacidade integram um conjunto de medidas urbanístico-viárias adotadas pelo
Governo do Estado denominado como “Linha Verde”.
212
Associação civil de direito privado, de caráter científico, tecnológico, educacional e cultural, sem fins
lucrativos, fruto da parceria entre a UFMG, o governo do Estado de Minas Gerais, o Município de Belo
Horizonte, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Minas Gerais (SEBRAE-
MG) e a Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG).
204

Nos próximos anos, há a previsão de instalação de novos empreendimentos de


inovação, públicos e privados, na região, como: (i) o Polo Industrial Tecnológico no
Município de Vespasiano; (ii) o Polo Industrial de Microeletrônica e (iii) o Centro de
Tecnologia e Capacitação Aeroespacial, ambos no Município de Lagoa Santa. Assim
como o BH-TEC, estes projetos visam à modificação da matriz industrial do Vetor
Norte da RMBH, direcionando-a para a fabricação de produtos de alto valor agregado.
O Polo Industrial Tecnológico de Vespasiano visa o setor de alta tecnologia e
será o primeiro em nanotecnologia da América do Sul. Há a expectativa de se instalar
uma ou duas empresas âncoras, que trazem credibilidade para o empreendimento –
dentre as quais, a Companhia Brasileira de Semicondutores (CBS) –, e outras de
menor porte. Segundo o INDI, o Distrito Industrial também poderá receber empresas
de outros setores (energia solar, biotecnologia, etc.) (FRANCIA, 2010).
Por sua vez, o Polo Industrial de Microeletrônica de Lagoa Santa será instalado
em um terreno de 1,4 milhão de m², à margem da MG-010, a 10 km do AITN, a partir
de uma atividade âncora (uma fábrica de semicondutores). A perspectiva é de que, a
exemplo de experiências similares em Taiwan e nos Estados Unidos, essa fábrica
consiga atrair “mais de 200 empresas para seu entorno, gerando cerca de 37 mil
empregos diretos e indiretos de uma mão de obra altamente qualificada de
engenheiros, cientistas, mestres e Phds em eletrônica, química e física entre outras”
(MINAS GERAIS, 2008, p. 41).
O Centro de Tecnologia e Capacitação Aeroespacial (CTCA) de Lagoa Santa,
será empreendido pelo Estado de Minas Gerais, mediante parceria público-privada, e
compor-se-á de um condomínio industrial e de serviços. O condomínio aeroespacial
visará a formação de mão de obra altamente qualificada e o desenvolvimento de
tecnologias. O CTCA abrigará empresas, instituições de pesquisa e de treinamento
do ramo aeroespacial, como a Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (EMBRAER),
o centro de treinamento para mecânicos do Serviço de Aprendizagem Industrial
(SENAI) e a Escola Estadual em Aeronáutica. Ainda, terá um helicentro, constituído
por um núcleo de manutenção de helicópteros, destinado principalmente às
aeronaves do pré-sal, escola de pilotos e mecânicos e um centro logístico de peças
(FRANCO, 2014b).
Todos estes projetos, já implantados ou em fase de execução, integram, como
dito, o plano estratégico de diversificação da economia da RMBH e são
complementados pela modernização viária da região. Nessa dinâmica, o Estado
205

desempenha um duplo papel: de planejador e de regulador, de maneira que, enquanto


um planejamento, de cunho “estratégico”, é feito na escala do espaço abstrato –
portanto, sob a lógica da mercadoria (LEFEBVRE, 2006) –, e quase sempre levando
em consideração a macroeconomia e a conjuntura política, outro planejamento, de
cunho regulatório, é realizado no quotidiano das administrações municipais, órgãos
de planejamento (urbano e metropolitano) e órgãos ambientais, estruturando o amplo
arcabouço legal criado pelo Estado para lidar com o processo de expansão urbana
(GOMES, 2011).
De forma análoga às grandes metrópoles globais e brasileiras, Belo Horizonte
vive um processo de desenvolvimento em simbiose com os Municípios do seu entorno
e, por ter uma capacidade polarizadora sobre eles, influencia e é influenciado pelo
adensamento populacional da RMBH, sofrendo pressões de demandas de toda
ordem, sobretudo em relação aos serviços públicos prestados na capital. Assim, as
metas e indicadores gerais previstos no PDDI-RMBH e no Plano Mineiro de
Desenvolvimento Integrado (PMDI) do governo do Estado de Minas Gerais213, além
de repercutirem no espaço territorial de Belo Horizonte, constituem fator relevante na
definição do planejamento estratégico da cidade, com vistas a garantir maior eficácia
nas ações, políticas urbanas e sociais e em todos os serviços prestados pelo
Município (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2009a).
Em outras palavras, diante de suas condições naturais e limitações de território,
Belo Horizonte necessitou e necessitará sempre articular-se com os Municípios da
RMBH para o atendimento de suas demandas por insumos, produtos, energia, água,
alimentos, etc.214. Por outro lado, a histórica e intrínseca relação que Belo Horizonte
desenvolveu com os demais Municípios no tocante ao sistema de transportes, dos
fluxos de trabalhadores e usuários de serviços públicos (saúde, educação,
saneamento, lazer, cultura, mobilidade, etc.), que, concentrados em Belo Horizonte,
atendem, em verdade, a um enorme contingente de não belo-horizontinos, faz com

213
O PMDI corresponde a uma inovação da CEMG/89 no tocante à previsão de um novo instrumento
de planejamento integrado para o Estado. Elaborado em 2003, o PMDI estabelece estratégias do
governo para o desenvolvimento sustentável de Minas Gerais em longo prazo, a partir da definição de
metas para a construção do futuro, numa perspectiva de 20 anos. Em 2007, o PMDI passou por uma
revisão com o objetivo de consolidar os avanços já alcançados e garantir maior eficácia às ações
previstas até 2023, como forma de “tornar Minas o melhor Estado para se viver” (MINAS GERAIS,
2007, p. 9).
214
De acordo com o relatório de avaliação situacional de Belo Horizonte e de sua inserção no contexto
metropolitano, embora a cidade possua 95% de seu espaço físico já ocupado, o seu entorno
metropolitano ainda oferece ampla disponibilidade de espaços para a expansão sustentável, o que se
constitui em importante ativo estratégico para a atração de investimentos produtivos (PREFEITURA
MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2009b).
206

que a formulação de um plano estratégico de longo prazo para a capital – visando


promover um maior dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida dos
munícipes –, parta do pressuposto de que para se planejar o futuro de Belo Horizonte,
a cidade não deve ser vista separadamente do seu entorno metropolitano
(FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2012a, 2012b).
Ainda, pelo fato de Belo Horizonte não ter sido concebida para abrigar
indústrias de grande porte, as estratégias de desenvolvimento estão em consonância
com o planejamento inicial da cidade, a partir do reconhecimento de suas
potencialidades como importante núcleo de atividades políticas, culturais, científicas,
tecnológicas e comerciais, as quais, inclusive, estão em sintonia com as grandes
linhas do desenvolvimento contemporâneo – que têm valorizado as atividades
intensivas em conhecimento, e isto deve ser considerado o seu melhor patrimônio215
(CEDEPLAR, 2004c).
Nesse sentido, o Plano Estratégico de Belo Horizonte 2030 – A cidade que
queremos (PEBH), de 2009, está alinhado com os planos estratégicos, programas e
projetos de desenvolvimento socioeconômico elaborados pelo Estado, nos contextos
estadual (PMDI) e metropolitano (PDDI-RMBH). O PEBH visa estabelecer as
diretrizes para o desenvolvimento econômico, garantir maior atratividade para
investimentos, promover a melhoria da qualidade de vida e, finalmente, criar uma
imagem positiva da cidade216 (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE,
2009a), capacitando-a, nos termos de Castells e Borja (1996), para uma maior
inserção e visibilidade no cenário mundial. As propostas de desenvolvimento para

215
Nesse aspecto, relevante mencionar que o Estado de Minas Gerais vem ampliando sua participação
nas exportações brasileiras dos produtos intensivos em tecnologia e no grupo de setores com alto
potencial tecnológico, destacando-se no campo das biociências – por concentrar 28% das empresas
existentes no Brasil, e na capacidade inovativa – por possuir uma taxa de inovação mais elevada do
que a média nacional, segundo dados da última Pintec/IBGE de 2008. Belo Horizonte, por sua vez, é
considerada a principal aglomeração de empresas de biotecnologia da América Latina, além de incluir
as atividades de tecnologia de informação entre o leque de suas especialidades no setor de serviços.
Ainda, a cidade conta com uma rede de instituições científicas e de ensino (UFMG, UEMG, CEFET/MG,
CETEC/MG e universidades privadas); de incubadoras de base tecnológica consolidadas (Biominas,
Insoft, Inova – UFMG e Nascente – CEFET/MG) e de instituições de apoio e fomento à pesquisa
(FAPEMIG). Além disso, a UFMG é referência nacional na obtenção de patentes, sendo a única
universidade brasileira a entrar no ranking internacional da Organização Mundial de Propriedade
Intelectual (2009) de instituições com o maior número de patentes depositadas (FUNDAÇÃO JOÃO
PINHEIRO, 2012a).
216
Assim como as campanhas de city marketing ressaltadas por Delgadillo (2014), o PEBH estabelece
uma correspondência entre a imagem atrativa e positiva que se pretende para a cidade e os atributos
que deverão caracterizá-la como uma cidade do futuro, quais sejam: “cidade de oportunidades”; “cidade
saudável”; “cidade com mobilidade”; “cidade segura”; “cidade com todas as vilas vivas”; “cidade
compartilhada”; ”cidade sustentável”; “cidade de todos” (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2009a, p. 34).
207

Belo Horizonte estão em consonância com os objetivos estratégicos e as diretrizes da


política de desenvolvimento urbano previstas no Plano Diretor (artigos 7º217 e 9º218).
De acordo com o PEBH, a reconfiguração de Belo Horizonte, com o
desenvolvimento de novos polos de dinamismo econômico, está estruturada em cinco
grandes eixos: Sul, Norte, Leste, Grande BH e Barreiro (Figura 12).
A emergência do eixo Norte como um importante polo de dinamismo do
Município está ancorada “na capacidade estruturante de três grandes aparelhos
urbanos (Aeroporto de Confins, Linha Verde e o Novo Centro Administrativo)”, os
quais impulsionarão “o desenvolvimento urbano da região, com a atração de
indústrias, a expansão do setor de serviços e a instalação de novos residentes”
(PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2009c, p. 34).

Sendo assim, a emergência desse eixo irá trazer significativas implicações


para a estrutura urbana da Capital, influenciando diretamente na
redistribuição das atividades econômicas e sociais do espaço metropolitano.
Os impactos dessa reconfiguração para o município e, principalmente, para
o Eixo Norte, por sua vez, ainda são incertos. Eles dependerão da forma
como o Eixo emergirá: de forma ordenada e com planejamento e
infraestrutura que dê suporte ao crescimento; ou de forma desordenada,
resultando na favelização e degradação das condições sociais da população.
(PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2009c, p. 34-35).

217
“Art. 7º - São objetivos estratégicos para promoção do desenvolvimento urbano:
I - a consolidação do Município como pólo (sic) regional de aglomeração de serviços, mediante o
estabelecimento de condições para o estreitamento das relações entre:
a) as fontes de conhecimento científico, as de informação e as de capacitação tecnológica;
b) as empresas de serviços especializados e os clientes e os fornecedores destas;
c) as empresas de serviços especializados e os segmentos do mercado de mão-de-obra qualificada;
II - a criação de condições para a instalação de indústrias leves de alta tecnologia, para a especialização
industrial dos setores tradicionais e para a integração do setor industrial com as áreas industriais dos
municípios vizinhos;
III - a expansão do sistema viário e sua integração com o da região metropolitana, de modo a viabilizar
a sua participação na estruturação do desenvolvimento econômico, da ordenação da ocupação e do
uso do solo;
IV - a melhoria das ligações viárias com os municípios vizinhos;
V - a melhoria do sistema de transporte coletivo, mediante a criação de condições para a implantação
de rede multimodal, integrando os sistemas de capacidade baixa, média e alta;
(...)
XV - a criação de condições para a formação e a consolidação de centralidades;
(...)
XX - a promoção da integração metropolitana e da complementaridade dos investimentos, tanto na
prestação de serviços quanto na execução de obras de interesse comum;” (BELO HORIZONTE,
1996a).
218
“Art. 9º - São diretrizes da política de desenvolvimento econômico:
(...)
VIII - a delimitação de áreas com características ou potencialidades para a aglomeração de atividades
econômicas que visem à exportação;
IX - a priorização, na instalação de incubadoras de alta tecnologia, da localização próxima às
universidades e aos centros de pesquisa;
(...)
XVIII - o incentivo à pesquisa e produção de tecnologia de ponta, associadas à instalação e ao
desenvolvimento de indústrias, serviços e atividades comerciais que dela fazem uso;” (BELO
HORIZONTE, 1996a).
208

Figura 12 – Eixos de Desenvolvimento de Belo Horizonte

Fonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, 2009c

Os planos de desenvolvimento econômico adotados pelos Poderes Públicos do


Estado e do Município de Belo Horizonte partem das mesmas premissas: (i) onde
estamos e aonde poderemos chegar?, (ii) aonde queremos chegar?, (iii) como
chegaremos lá? e, (iv) por onde começar?, e evidenciam as práticas de
“empreendedorismo urbano” (HARVEY, 1989) na condução dos novos processos de
planejamento e gestão estratégicos das regiões. O “planejar”, aqui, envolve a criação
de uma “imagem”; horizontes de longo prazo e sob condições de incerteza;
oportunidades e ameaças; forças e fraquezas; estratégias para diferentes cenários
(“melhor futuro” ou de “superação de adversidades”); metas e resultados; PPPs;
governança urbana; stakeholders; inserção como metrópole/cidade global; a transição
do modo de produção na direção de segmentos que privilegiem a geração de produtos
ou serviços intensivos em conhecimento e inovação; diminuição de custos e aumento
de lucros; etc. (MINAS GERAIS, 2007; PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2009a; FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2012a, 2012b).
Nessa perspectiva, a adequação desses espaços (a “cidade mercadoria”) aos
interesses do capital privado, do público consumidor e da ordem econômica mundial,
conforme sustentado nos estudos de city marketing (KOTLER et al., 1993; BORJA;
209

CASTELLS, 1997; WARD, 2004; FERREIRA, 2005, entre outros), visam garantir
competitividade, conectividade, inovação, flexibilidade institucional e fiscal, etc.
(ARANTES, 2002), para um Estado (PMDI) e uma cidade (PEBH) que, no horizonte
temporal de 2030, se pretendem melhores para se viver.
A ação deliberada do Poder Público, na reestruturação econômica do Vetor
Norte da RMBH, tem redesenhado as estruturas internas da Região Administrativa
Venda Nova, corroborando a tese da cidade como growth machine (LOGAN;
MOLOTCH, 1987). Forçoso verificar, então, se a reconfiguração socioespacial ocorre
de forma ordenada, mediante justa distribuição dos benefícios/ônus e equidade no
uso do espaço (art. 2º, inciso IX, do Estatuto da Cidade), ou de forma desordenada,
resultando em ameaça à permanência da população de baixa renda e/ou na piora de
suas condições de vida.
210

5 REESTRUTURAÇÃO DA METRÓPOLE E O PROCESSO GENTRIFICATIVO


NA ÁREA DE ESTUDO VENDA NOVA (AEVN)

A partir dos debates teóricos e estudos sobre a gentrificação, verificou-se que


o fenômeno se manifesta de formas distintas e em diferentes intensidades, de acordo
com os fatores conjunturais do local e a época em que ocorrem (LEES et al., 2007;
PARRA, 2014). No contexto das cidades do capitalismo periférico, o processo
gentrificativo não se apresenta de forma bem definida como sua vertente anglo-saxã,
diferindo, como dito, em função do espaço físico, dos agentes gentrificadores e da
desigualdade social (INZULZA-CONTARDO, 2012; BETANCUR, 2014; CASGRAIN;
JANOSCHKA, 2013; JANOSCHKA et al. 2014). Havendo, nessa vertente, a
configuração daquilo que Rose (2010) denominou como “gentrificação marginal”.
De todo modo, ainda que consideradas as especificidades do contexto
brasileiro, a gentrificação compreende características elementares que a distinguem
de outras formas de intervenção – públicas ou privadas, que afetam o espaço
geográfico das cidades em geral.
Assim, com base em considerável bibliografia de referência219, é possível
asseverar que o processo gentrificativo envolve essencialmente:
(i) reinvestimento de capital (público e/ou privado) no ambiente circundante
e alteração da ordem fundiária, com a substancial elevação dos valores
da terra;
(ii) transformação do ambiente construído, com a oferta de novos serviços
e a requalificação residencial;
(iii) reorganização da cartografia social da área, com a chegada de um grupo
social de nível socioeconômico mais elevado; e
(iv) deslocamento direto ou indireto do grupo social de baixa renda.
A partir de tal perspectiva e do recente processo de reestruturação do Vetor
Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, impõem-se a identificação dos
elementos que caracterizam o processo de gentrificação da Área de Estudo Venda
Nova (AEVN).

219
Nos autores Smith (1996); Criekingen (2006); Clark (2010); Bourne (2010); Rose (2010); Hamnett
(2010); Beauregard (2010); Marcuse (2010); Lees (2012); Betancur (2014); Savage et al. (2003);
Atkinson e Bridge (2005); Lees et al. (2007); Smith e Williams (2010); Davidson e Lees (2010); Casgrain
e Janoschka (2013).
211

5.1 A macro estruturação do espaço no Vetor Norte da Região Metropolitana


de Belo Horizonte

O plano estratégico de desenvolvimento da RMBH desencadeou uma série de


projetos destinados a criar vantagens competitivas para a região metropolitana. A
reestruturação produtiva do Vetor Norte, a partir da retomada e ampliação das
atividades do Aeroporto Internacional Tancredo Neves (AITN), em 2004, estimulou
vultosos aportes de recursos públicos/privados e a dispersão de novos
empreendimentos, com impacto significativo sobre a estruturação socioespacial da
região. As iniciativas “modernizantes” do Poder Público para atrair projetos imobiliários
e econômicos evidenciam a (re)produção do ambiente construído com o fim
deliberado de privilegiar a reprodução e a acumulação do capital (HARVEY, 2011b;
2013a).
Nesse aspecto, o Centro Administrativa do Estado de Minas Gerais (CAMG)
(Figura 13) cumpre papel importante na potencialização do desenvolvimento do Vetor
Norte da RMBH, face às modificações de padrões de uso, ocupação, sociais e
econômicos que impulsiona nas áreas do entorno, contribuindo para a melhoria da
infraestrutura urbana e da qualidade de vida da população local. O projeto elaborado
pelo arquiteto Oscar Niemeyer e as edificações monumentais construídas220, além de
abrigar a sede do poder do Estado, têm a função de compor a imagem simbólica da
metrópole (MINAS GERAIS, 2006a; 2006b).
Veja que, no processo de definição locacional do empreendimento, privilegiou-
se áreas localizadas em regiões periféricas, com carência de infraestrutura urbana e
serviços, de forma a integrá-las aos vetores de desenvolvimento socioeconômicos
regionais. Dentre as alternativas de localização221, elegeu-se a área do antigo Jockey
Club Serra Verde, localizada ao longo da “Linha Verde”, na zona fronteiriça de Belo
Horizonte com os Municípios de Vespasiano, Santa Luzia e Ribeirão das Neves. O

220
O empreendimento é composto por 6 edificações principais, que se dividem em Palácio do Governo;
2 grandes edifícios que abrigam os órgãos da administração do Estado; Centro de Convivência e Apoio;
Auditório e prédio de Serviços, com capacidade para receber um contingente de 16 mil funcionários
por dia, provenientes das diversas secretarias e autarquias estaduais, antes localizadas em diversos
edifícios da área central da capital. Ainda, estima-se a frequência de um público flutuante médio de 10
mil pessoas, que são atraídas pelos serviços dispostos no local (MINAS GERAIS, 2006a).
221
No processo de elaboração do projeto, iniciado em 2003, o Governo do Estado avaliou as seguintes
opções locacionais da capital: (i) área da Polícia Militar, no bairro Prado; (ii) área do Exército, no bairro
Barro Preto; (iii) hipercentro da cidade; (iv) fazendas Capitão Eduardo e São José, na Região
Administrativa Nordeste; (v) Granja Werneck, na Região Administrativa Norte; (vi) área do Aeroporto
Carlos Prates, na Região Administrativa Noroeste; e, por fim, (vii) a área do Hipódromo Serra Verde,
na Região Administrativa Venda Nova (MINAS GERAIS, 2006a).
212

anúncio da escolha ocorreu no final do ano de 2005 e logo após, em fevereiro de 2006,
foi assinado o decreto de desapropriação da área.

Figura 13 – Centro Administrativa do Estado de Minas Gerais (CAMG)

Fonte: Maciel, 2013


Nota: Ao fundo, à direita, vislumbra-se parte do bairro Serra Verde, seguido dos bairros Minas
Caixa e Europa.

A implantação do CAMG, associada aos demais investimentos viários e


produtivos, confirma o caráter indutor do desenvolvimento pretendido para o Vetor
Norte da RMBH, com valorização do entorno e revitalização urbana, revertendo o
histórico processo de periferização da região. Conforme ressaltado no estudo de
impacto ambiental elaborado para a implantação do CAMG,

ao relocalizar a centralidade do poder do Estado em uma área urbana


periférica e particularmente concentradora da pobreza metropolitana, o
governo estadual está recriando a “cidade” sobre os escombros do “urbano”.
Com isto, pode-se dizer que o tecido urbano empobrecido que marca aquela
região, esvaziado da tríade que caracteriza a cidade – o excedente coletivo,
o poder e a cultura (a “festa” coletiva) – recebe agora os elementos
constitutivos da cidade(la), que sai em direção à sua periferia para se
reinventar. É apenas nesse sentido que cabe pensar a implantação do CAMG
no Vetor Norte, num processo civilizatório de restaurar à periferia
metropolitana o “direito à cidade”. (MINAS GERAIS, 2006a, p. 746).

“Processo civilizatório” este que, para ser justo, deve considerar a história, a
memória e as relações sociais das pessoas que residem na localidade, buscando a
equidade na apropriação e no uso do solo urbano. De forma que essa reconfiguração
espacial não seja acompanhada de práticas que expulsam e desenraizam a
213

população vulnerável. Mas, sim, com a melhoria das condições de vida dos
moradores, com estímulo à diversidade social e respeito à função social da
propriedade e da cidade (artigo 182 da CR/88).
Forçoso ressaltar que a realocação da sede do poder do Estado não
representa, tão somente, uma alteração localizacional, mas, acima de tudo, uma
mudança no significado das relações simbólicas e no locus tradicional da centralidade
urbana “– a Praça da Liberdade – símbolo político e espacial da modernidade e do
republicanismo, que marcaram fortemente a cidade e seus percursos” (MINAS
GERAIS, 2006a, p. 746). A implantação do CAMG na Região Administrativa Venda
Nova marca, nesse sentido, um novo momento da capital, cujo desenvolvimento se
dá, agora, em direção ao norte metropolitano.
O caráter simbólico ímpar dessa nova centralidade é realçado em alguns
relatos de moradores e ex-moradores da AEVN, cujas falas sugerem certo
enaltecimento da população local, que se sentia negligenciada pelo Poder Público,
excluída das políticas de desenvolvimento econômico, social e cultural efetivadas em
outras regiões da cidade. A partir dos depoimentos dos entrevistados, é possível
perceber uma mudança no tratamento anteriormente dispensado aos venda-
novenses pelos demais moradores da cidade – em regra, desdenhoso e depreciativo.
A título exemplificativo, citam-se:

Eu vou usar um pouco uma parábola entre esse papel exatamente. Nós agora
estamos no centro do Centro Administrativo, né. Então, agora os olhos estão
voltados pra cá. Então, a tendência é crescer e tornar-se até mais bonito em
função do Centro Administrativo, que é um grande ganho até para emprego
das pessoas aqui também, né. E outros agregados que ganham em função
disto, né, do transporte. Aí teve que melhorar a [Avenida] Cristiano Machado,
a [Avenida] Antônio Carlos. Então, trouxe o quê? O desenvolvimento também,
né. E é muito bonita a Cidade Administrativa. Ela é um marco pra Venda
Nova, que estava esquecida, né. Única parte esquecida. Ela era esquecida.
No meu ponto de vista, eu como uma construtora daqui, de projetos de médio
porte. Mas é um desenvolvimento muito [grande]. Quem te viu, quem te vê.
[...]. Vai ser a longo prazo esse reflexo. Porque tudo em volta está sendo feito
ainda, né. E, também, vamos supor que esse marco de uma grande
construção, de uma edificação que nós não tínhamos nenhuma desse porte.
Ela agrega a você a fazer mais coisas aqui. Quem veio? Quem é o funcionário
[público] que tá ali. Porque aquilo ali não vai sair mais dali. Então, você vai
querer morar por aqui perto. E vai melhorar também, né. Então, você vai atrair
mais condomínios, que vão ter ali. Que é interessante. Que já está tendo.
Então, qual a visão? Quem tá vendo? Qual é o expurgo que tá sendo
214

incomodado? Porque foi expurgado. O Morro Alto222 foi expurgado tudo que
era ruim, que era decadente, né (MA-7)223.

O relato da moradora MA-7 evidencia ainda que, apesar do discurso emanado


pelo Poder Público, de integração da área no processo de desenvolvimento
socioeconômico e reversão do quadro de periferização marginal da região – “num
processo civilizatório de restaurar à periferia [...] o ‘direito à cidade’” –, na prática, a
forte pressão do mercado imobiliário combinada com a ausência de políticas públicas
destinadas à manutenção dos moradores de baixa renda acabam por expulsá-los do
local.

"[A Cidade Administrativa], eu acho que foi algo positivo para a região. Eu
acho que deu um status, sabe. Eu percebo isso, que as pessoas sentem um
certo orgulho. Eu moro numa região que tem a Cidade Administrativa, sabe.
Pelo menos as pessoas do bairro têm essa questão, assim. Eu acho que
melhorou sim, nesse sentido. [...]. Simbolicamente é um poder político, né. A
Cidade Administrativa representa. Então, você morar perto disso é a mesma
coisa que você morar, igual, antigamente, que era a Praça da Liberdade, né.
Morar próximo da Praça da Liberdade era um luxo, né. Então, hoje, fazer
parte desse meio, eu percebo que as pessoas sentem um certo orgulho de
estar próximo desse grande símbolo do Estado. Então, eu percebo isso. [...].
Venda Nova é a periferia, né. É a periferia. Então, sempre tem esse olhar
realmente, principalmente dos outros setores pra essa região. Por exemplo,
eu tenho uma amiga que, ela mora na região centro-sul e ela trabalha no
[banco] Itaú próximo à Cidade Administrativa. E ela achava um absurdo a
valorização dos imóveis lá, pelo fato da Cidade Administrativa. E ela falava:
nossa, mas nessa região. Isso não vale! Porque tem toda aquela ideia da
periferia mesmo. De tudo que era antes. E ainda tem, claro, todos os
problemas. Mas eu percebo que tinha sim, essa imagem [ruim]. [Com a
Cidade Administrativa, essa imagem está mudando]. Tá mudando pela
estrutura, por tudo que a região tá oferecendo (MR-2)224.

As falas das entrevistadas evidenciam a influência do lugar na construção da


identidade do cidadão, no seu status. Localização esta que gera efeito na organização
de suas relações interpessoais, franqueando acesso a determinados grupos sociais e
marginalizando-o em outros. E, de igual modo, determinando suas potencialidades
(pessoais, profissionais, etc.), na medida em que favorece, ou não, o acesso a
determinadas atividades, bens e serviços, distribuídos segundo a hierarquia urbana.

Eu moro do lado da Cidade Administrativa. Eu acho que tende a mudar [a


perspectiva], sim. Eu acho que sim. Porque, tem que gente que fala: agora

222
Trata-se do bairro Morro Alto do Município de Vespasiano, localizado em área limítrofe ao CAMG,
cuja implantação resultou na remoção de famílias pobres que residiam na região.
223
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
224
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 30 jun. 2015.
215

eu moro no centro do Estado, né. Venda Nova é a região mais importante do


Estado agora, né. Todo o governo do Estado tá aqui, dentro de Venda Nova.
Não é nem Belo Horizonte, é Venda Nova. Porque lá eles falavam, lá não é
Belo Horizonte. Outro dia uma menina falou assim comigo: olha, eu fui lá em
Venda Nova e estou voltando para Belo Horizonte! Ela mandou o whatsapp
para mim. Eu falei assim: Venda Nova é Belo Horizonte! [...]. Eles falam
assim: você mora muito longe. Longe é relativo. Longe de onde? Da
SUDECAP225? Mas, eu moro perto da Regional Venda Nova, eu moro perto
da Cidade Administrativa. Então existe esse preconceito. Eu até comento
isso, de vez em quando, que existe esse preconceito que quem mora em
Venda Nova são só as faxineiras, os porteiros de prédio e os pedreiros. Então,
quando eles precisam de uma faxineira ou de um pedreiro, [eles falam]: você
não conhece um lá perto da sua casa? Que acham que essa região é só
desses serviços que exigem menos escolaridade. E, aí, até em função da
minha. Que eu sou engenheira também. Existe um preconceito. Eu acho.
Parece que o cara que é engenheiro e que mora lá no centro [de Belo
Horizonte], ele, tipo, tem mais condições de ser engenheiro do que eu, que
moro em Venda Nova. Sendo que a gente tem a mesma formação. [...]. Eu
tento mudar [essa imagem]. Faço a minha parte. Eu procuro trabalhar da
melhor forma possível, né. [...]. Até além do que eu teria necessidade de
saber. Porque, não sei, parece que a gente que mora na periferia, você tem
que provar todo dia que você é capaz, né (MA-8)226.

O estigma do lugar pode ser observado, então, nos atores sociais quando
declaram sua localização no espaço belo-horizontino, onde a periferia é vista como
distante e a sua população como pobre e desqualificada (MARCUSSO, 2014). Assim,
“o direito a ter direito é expresso ou negado, abnegado ou reivindicado a partir de
lugares concretos: o morar, o estudar, o trabalhar, o divertir-se, o viver saudavelmente,
o transitar, o opinar, o participar” (KOGA, 2011, p. 33).
Esta articulação espaço-indivíduo é corroborada por Santos ao afirmar que:

cada homem vale pelo lugar onde está; o seu valor como produtor,
consumidor, cidadão depende de sua localização no território. Seu valor vai
mudando incessantemente, para melhor ou para pior, em função das
diferenças de acessibilidade (tempo, freqüência (sic), preço) independentes
de sua própria condição. Pessoas com as mesmas virtualidades, a mesma
formação, até mesmo o mesmo salário, têm valor diferente segundo o lugar
em que vivem: as oportunidades não são as mesmas. Por isso, a
possibilidade de ser mais ou menos cidadão depende, em larga proporção,
do ponto do território onde se está. (SANTOS, 2007, p. 107).

O conjunto de projetos estruturantes elaborados pelo Poder Público para


promover o desenvolvimento do Vetor Norte da RMBH é integrado pela implantação

225
Trata-se da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (SUDECAP), autarquia municipal
responsável pela execução das obras de infraestrutura urbana e dos bens imóveis públicos do
Município de Belo Horizonte.
226
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
216

da “Linha Verde”227 (Figura 14). Nesse caso, destinando-se à melhoria do sistema


viário e à ampliação da acessibilidade da região. Requisitos indispensáveis à
competividade metropolitana na economia de fluxos (de capitais, de mercadorias e de
informações) em escala global (PEREIRA; CAMPOS, 2009a, 2009b). O
empreendimento, lançado pelo governo do Estado em maio de 2005, consistiu na
ampliação e modernização da MG-010 e sua extensão urbana no Município de Belo
Horizonte (Avenida Cristiano Machado e Boulevard Arrudas228), conectando o centro
da capital diretamente ao AITN, no Município de Confins (MINAS GERAIS, 2008).
As iniciativas do Poder Público estadual difundem, à época, a imagem de uma
metrópole moderna, com obras faraônicas e imponentes, cuja (re)produção espacial
está orientada para o progresso, para a transformação da vida urbana, reorientando
os usos, as estruturas e as funções dos lugares metropolitanos (PREFEITURA
MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2005; PEREIRA; CAMPOS, 2009a, 2009b). O
papel da “Linha Verde”, como indutora do desenvolvimento da RMBH, foi ressaltado
pelo governador do Estado229 na solenidade de inauguração do complexo viário:

A Linha Verde é indutora do crescimento econômico, da geração de renda e


empregos em toda a Região Metropolitana. Ela vem acompanhada de
inúmeros outros investimentos na área da segurança pública, na área de
educação, na área da saúde. Belo Horizonte se prepara para um grande
salto, para criar a infra-estrutura (sic) necessária à atração de novos
investimentos e mais empregos. Minas tem a expectativa e se planeja para
isso, para vir a ser o estado brasileiro que na próxima década mais vai crescer
e mais empregos vai gerar. [...]. Essa obra consolida a nossa capital como o
destino extremamente propício a importantes novos investimentos.
(AGÊNCIA MINAS, 2013).

227
A implantação do projeto envolveu a remoção de residências (883) e de comércios (74) situados
nos aglomerados subnormais (IBGE, 2014) que ficavam às margens das vias que sofreram intervenção
(PEREIRA; CAMPOS, 2009a). “Sob essa condição, a idéia (sic) de remoção/varredura dos indesejáveis
(...) parece permear a formatação do projeto” (PEREIRA; CAMPOS, 2009b, p. 6).
228
Em síntese, trata-se de obra de requalificação urbana destinada ao capeamento do ribeirão Arrudas
nas Avenidas Andradas e do Contorno, com intervenção paisagística em todo o boulevard (MINAS
GERAIS, 2008).
229
Cargo, no período, ocupado por Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB),
o qual foi eleito governador do Estado de Minas Gerais em 2002 e, depois, reeleito em 2006.
217

Figura 14 – “Linha Verde” na Região Metropolitana de Belo Horizonte

Fonte: Pereira; Campos, 2009a

Ainda, dentre as intervenções viárias230 estrategicamente concebidas para a


reestruturação produtiva e socioespacial da RMBH inclui-se o projeto do Anel Viário
de Contorno Norte – Rodoanel Norte (Figura 15). Conjuntamente à “Linha Verde”,
forma a principal estrutura sobre a qual o design de toda a rede de transporte
metropolitana é baseado (MINAS GERAIS, 2010).
O Rodoanel interligará os Municípios de Betim a Sabará, conectando as duas
saídas da BR-381 (saída para Vitória e saída para São Paulo). Ainda, seu traçado
cruzará a BR-040 (saída para Brasília), além de outras rodovias do Estado, como a

230
Propõem-se a estruturação do sistema viário metropolitano em rede, em detrimento da distribuição
viária radial então existente, como forma de fortalecer as diversas centralidades (novas e antigas) e
promover a integração das mesmas à metrópole, criando uma articulação entre elas, além de reduzir a
necessidade de acessar o núcleo central da capital (MINAS GERAIS, 2011a, 2011b).
218

MG-010. Além dos Municípios de Betim e Sabará, a rodovia passará por Contagem,
Ribeirão das Neves, Pedro Leopoldo, Vespasiano e Santa Luzia, permitindo que o
tráfego de veículos de carga e de passeio nas rodovias federais BR-262 e BR-381
(tráfego de passagem231) ocorra sem adentrar Belo Horizonte (PREFEITURA
MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2008a, 2008b).
Deste modo, a implantação do Rodoanel Norte favorecerá as atividades da
plataforma logística de desenvolvimento industrial voltada para exportação, ao
melhorar a acessibilidade do AITN e sua ligação com as principais áreas industriais
da RMBH, permitindo a criação de novas demandas e sinergias entre as regiões
metropolitanas localizadas sob a sua área de influência (PREFEITURA MUNICIPAL
DE BELO HORIZONTE, 2008b).

Figura 15 – Anel Viário de Contorno Norte – Rodoanel Norte

Fonte: Jornal Estado de Minas, 2014

Os investimentos realizados e previstos para o Vetor Norte da RMBH


repercutem em toda a região e têm efeitos multiplicadores consideráveis, na medida
em que atraem novos empreendimentos e, devido ao aumento das demandas sociais
e urbanísticas, promovem a requalificação da infraestrutura existente.

231
Estima-se que o Rodoanel Norte desviará do atual Anel Rodoviário, aproximadamente, 90% do
tráfego de veículos de carga e 30% dos veículos de passeio (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2008b).
219

Nesse aspecto, a construção da Catedral Metropolitana Cristo Rei (Figura 16),


nas proximidades da CAMG232, além de fortalecer a dinâmica de reestruturação
socioespacial da região, amplia o rol das obras arquitetônicas de relevo concebidas
pelo arquiteto Oscar Niemeyer para a capital.
A Catedral Metropolitana “ficará na periferia da Capital, lugar que é, ao mesmo
tempo, epicentro de toda a Região Metropolitana. Será presença estratégica [e]
promoverá o desenvolvimento humano das comunidades mais pobres” (CATEDRAL
CRISTO REI, 2015).

Figura 16 – Catedral Metropolitana Cristo Rei

Fonte: Catedral Cristo Rei, 2015


Nota: Detalhe da construção do Shopping Estação BH à esquerda. Ao fundo, à direita, avista-se o
Hospital Risoleta Neves Tolentino.

Desse modo, a Catedral Metropolitana amplia o quadro de grandes


empreendimentos, públicos e privados, alocados no Vetor Norte da RMBH (Figura 17)
nos últimos 15 anos (Quadro 6).

232
Com as obras já iniciadas, o empreendimento será edificado na Região Administrativa Norte (divisa
com a Região Administrativa Venda Nova), em uma área margeada pela Avenida Cristiano Machado
(“Linha Verde”), em frente à estação do metrô Vilarinho.
220

Figura 17 – Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH

Área de Estudo Venda Nova – AEVN


Linha Verde
A. Aeroporto Internacional Tancredo Neves
B. Centro de Tecnologia e Capacitação Aeroespacial
C. Centro Administrativo de Minas Gerais
D. Estação de Integração Vilarinho / Shopping Estação BH
E. Catedral Cristo Rei
F. Estação Venda Nova – MOVE
G. BH-TEC

Fonte: Google, 2015


Quadro 6 – Cronologia dos Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH

EMPREENDIMENTO ANÚNCIO INÍCIO DA EXECUÇÃO INAUGURAÇÃO LOCAL

Centro Administrativo do Estado de


2005 2007 2010 Região Administrativa Venda Nova
Minas Gerais
Belo Horizonte, Vespasiano e
“Linha Verde” 2005 2006 2007
Lagoa Santa
Ampliação do AITN 2003 2004 2020 (previsão) Confins
BH-TEC 2002 2006 2012 Região Administrativa Pampulha
Sabará, Santa Luzia, Vespasiano,
São José da Lapa, Pedro Leopoldo,
Rodoanel Norte 2001 2014 (já licitado) (ainda sem data prevista)
Ribeirão das Neves, Contagem e
Betim
Catedral Cristo Rei 2005 2013 2020 (previsão) Região Administrativa Norte
Centro de Tecnologia e Capacitação
2011 2014 (em andamento) (ainda sem data prevista) Lagoa Santa
Aeroespacial
Estação Venda Nova - MOVE 2010 2010 2014 Região Administrativa Venda Nova
Shopping Estação BH 2005 2005 2012 Região Administrativa Venda Nova
Estação de Integração Vilarinho 2005 2005 2008 Região Administrativa Venda Nova
Fonte: Elaborado pelo autor

221
222
Na esteira do AITN, do CAMG, da “Linha Verde” e do Rodoanel Norte, ocorre
uma significativa valorização fundiária na região, estimulando a atuação dos agentes
econômicos e intermediários que veem no novo arranjo territorial uma forma de
ampliar as possibilidades de investimento do capital (inclusive de caráter especulativo)
e a extração de renda adicional. Além disso, a diminuta extensão territorial de Belo
Horizonte e a escassez de terras para novos empreendimentos nas demais Regionais
do Município233 contribuem para intensificar a atuação dos agentes econômicos no
Vetor Norte, dinamizando o mercado imobiliário do entorno.
O próprio PDDI-RMBH aponta o forte aquecimento no mercado imobiliário da
região, a verticalização nas áreas melhor servidas de infraestrutura e mais próximas
do CAMG, “cuja implantação tem gerado grande valorização no entorno”, a
especulação em relação ao preço dos imóveis e a intensificação do número de
condomínios residenciais fechados voltados para as classes mais abastadas (2011b,
p. 50). Nesse sentido, parcelas consideráveis da população com maior poder
aquisitivo veem se estabelecendo em condomínios fechados exclusivos,
estrategicamente localizados nos Municípios que compõem a área de influência
desses empreendimentos.
Dentre os novos “enclaves fortificados” (CALDEIRA, 2000) previstos para o
Vetor Norte, citam-se: (ii) o “Alphaville Minas Gerais”; (ii) o “Precon Park”; (iii) o
“Reserva Real – Condomínio Resort”; (iv) o “Porto do Rio Golfe Village Resort”
(MINAS GERAIS, 2008).
O condomínio residencial “Alphaville Minas Gerais”, em Vespasiano, está
localizado às margens da “Linha Verde”, próximo ao CAMG. O empreendimento
possui 542 lotes residenciais (todos vendidos no lançamento), com áreas de 450 a
790 metros quadrados, completa infraestrutura e abrigará áreas comerciais e um
clube de 14.751 m², com estruturas destinadas ao descanso à recreação e à prática
de esportes pelos moradores (ALPHAVILLE URBANISMO, 2015). As obras, iniciadas
em 2014, estão em fase adiantada de execução (com toda a terraplanagem, redes de
drenagem e esgoto concluídos) e têm entrega prevista para 2015 (FRANCO, 2014a).
O “Precon Park” (“Terras Fidalgo”) ocupará uma área aproximada de 11
milhões de m², localizada entre os Municípios de Pedro Leopoldo, Lagoa Santa e
Confins. O empreendimento será composto por quatro parques de usos mistos:

233
Aproximadamente 95% do espaço físico de Belo Horizonte está ocupado, restando poucas áreas
‘desocupadas’ e com restrições variadas” (MINAS GERAIS, 2006b; PREFEITURA MUNICIPAL DE
BELO HORIZONTE, 2009b).
223
negócios; ciência e tecnologia (no qual já se encontra em funcionamento uma
faculdade: a Fundação Pedro Leopoldo); residencial e esportivo, divididos entre os
setores Norte e Sul. Por privilegiar a miscigenação de usos, o projeto engloba, no
mesmo espaço: (i) empresas; (ii) centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D); (iii)
condomínios residenciais uni e multifamiliares, de padrões médio e de luxo; (iv)
instituições de ensino; (v) centros comerciais, incluindo um shopping center; (vi)
centro de convenções; (vii) hotéis; (viii) áreas de entretenimento, de esporte
(incluindo um estádio de múltiplo uso para 35 mil expectadores), de lazer (com um
parque de diversões/temático) e de saúde. As obras foram iniciadas no primeiro
semestre de 2015 (MINAS GERAIS, 2008; PRECON, 2008)
Além disso, prevê-se a instalação do “Fashion City Brasil”, considerado o maior
centro de distribuição da moda nacional em um shopping de atacado composto por
550 lojas. As obras desse empreendimento foram iniciadas em setembro de 2013,
com previsão de entrega para 2015 (MINAS GERAIS, 2008; PRECON, 2008;
FASHION CITY BRASIL, 2015).
De acordo com Bruno Dias, presidente da Precon,

o projeto vem de encontro (sic) ao desenvolvimento do Vetor Norte, puxado


pela revitalização do aeroporto, Linha Verde e a construção do Centro
Administrativo. A iniciativa do governo trouxe uma nova perspectiva de
crescimento para a região norte de BH. (PRECON, 2008, p. 3).

Ao conjugar, num mesmo ambiente, empreendimentos destinados à promoção


da indústria de alta tecnologia com a disponibilização de espaços de trabalho; de
moradia; de instituições de ensino/pesquisa; de lazer e de consumo, com potencial
para gerar uma sinergia científica e uma produtividade econômica, o modelo do
projeto constitui uma autêntica tecnópolis, segundo a concepção de Castells e Hall
(1994).
O empreendimento “Reserva Real – Condomínio Resort”, localizado no
Município de Jaboticatubas, em uma área de mais de 10 milhões de m². Intitulado
como “a primeira Prime Community do Brasil”, será constituído por quatro
condomínios residenciais: (i) Fly–in Community, com 192 residências, uma pista de
pouso de 1.600 metros, hangares privativos e um heliporto; (ii) Golf Resort, com 517
lotes de 1.000 m², um campo de golfe e completa infraestrutura para a prática do
esporte, além de um hotel-boutique; (iii) Biovillas, com alamedas de casas clássicas
e contemporâneas; e o (iv) Resort Hípico, com 165 residências. Além disso, os
moradores terão livre acesso ao centro de convenções, ao centro hípico, ao centro de
224
treinamento de tênis, ao campo de golfe profissional e ao centro comercial, de lazer e
de serviços (DESIGN RESORTS, 2009; MINAS GERAIS, 2014).
Na divulgação do “Reserva Real – Condomínio Resort”, o projeto expressa
claros preceitos de predileção/segregação ao indicar como público alvo o “mais
exigente e sofisticado”, composto por altos funcionários do Estado, trabalhadores
qualificados do polo tecnológico e executivos das empresas instaladas na região.
Havendo, assim, uma clara articulação com os empreendimentos de reestruturação
do Vetor Norte da RMBH. Por fim, o projeto exalta a ideia de que o condomínio “será
o local mais ‘in’ para se morar em Belo Horizonte”, um local de encontro dos iguais
(DESIGN RESORTS, 2009).
O “Porto do Rio Golfe Village Resort”, empreendimento de alto luxo situado
entre os Municípios de Jaboticatubas e Lagoa Santa, será constituído por um hotel,
um resort de grande porte, voltado para esportes de elite, com campo de golfe, spa,
centro hípico e centro de convenções, e um loteamento residencial. “O projeto, voltado
para o público de nível AA, nacional e internacional, é comprometido com a
preservação dos patrimônios ambiental, histórico e cultural existentes na região”
(MINAS GERAIS, 2008, p. 45).
De acordo com o PDDI-RMBH,

a implantação de projetos estruturantes, assim denominados pelo potencial


que possuem de influenciar o uso e a ocupação no entorno, via de regra
produz valorização dos terrenos e propriedades, que resultam em novos
arranjos, quase sempre com a expulsão dos antigos usuários. (MINAS
GERAIS, 2011b, p. 52).

De igual modo, ao ressaltar o aumento do custo da terra em razão dos impactos


da implantação da “Linha Verde”, do CAMG e da ampliação do AITN, o “Plano de
Ações Imediatas para o Vetor Norte” elaborado, a pedido do Governo do Estado, para
ordenar o desenvolvimento da região, prevê que:

a valorização afetará ainda, de modo especial, as áreas ocupadas por


populações de baixa renda que, não conseguindo resistir às pressões do
mercado imobiliário, tendem a vender suas residências e transferirem para
uma nova periferia. Sem considerar o fato de que valorização irá promover o
adensamento e mudanças de usos nas áreas urbanas das sedes de
municípios e distritos. (MINAS GERAIS, 2008, p. 62).

Os estudos referentes à avaliação das tendências recentes da dinâmica


territorial da RMBH, realizados com base no PDDI-RMBH para compor o
225
macrozoneamento metropolitano, apontam a potencialidade de conflitos na Região
Administrativa Venda Nova e derredor. Diante dos investimentos
realizados/programados para o Vetor Norte, verifica-se uma forte pressão do mercado
imobiliário (especulação, aumento do preço da terra, etc.), com ameaça à
permanência das populações de baixa renda na região. O relatório acautela a
necessidade de adoção de medida “para evitar a gentrificação, principalmente no
entorno da Cidade Administrativa que tem gerado valorização da área”, assim como
o fracionamento dos antigos loteamentos em pequenos lotes (MINAS GERAIS, 2014,
p. 174).
Nesse aspecto, tanto o PDDI-RMBH, quanto o “Plano de Ações Imediatas para
o Vetor Norte”, ressaltam que os efeitos danosos do processo de reestruturação
metropolitana podem ser mitigados mediante a utilização de instrumentos urbanísticos
previstos no Estatuto da Cidade (direito de preempção, outorga onerosa do direito de
construir, contribuição de melhoria, IPTU progressivo no tempo, operações urbanas,
ZEIS, etc.), como forma de compatibilizar a reestruturação urbana com a permanência
dos antigos moradores na região, em especial a população de baixa renda234. Ambos
os documentos conferem aos Municípios a incumbência de avaliar a pertinência de
utilização dos parâmetros e instrumentos urbanísticos previstos no Estatuto (art. 182
da CR/88). Isto, quando tais instrumentos se encontram previstos na legislação
urbanística municipal pertinente (MINAS GERAIS, 2008, 2011b).
Na prática, contudo, percebe-se a intensificação dos loteamentos concebidos
como condomínios residenciais de média e alta renda em Municípios como
Jaboticatubas, Lagoa Santa, Vespasiano, Matozinhos e Santa Luzia, favorecidos pela
melhora na acessibilidade proporcionada pela “Linha Verde” e pelas expectativas de
crescimento econômico da região. Apesar de não haver previsão normativa, em Lei
Federal, para os denominados “condomínios horizontais”, os planos diretores
municipais e as Leis de ocupação e uso do solo estabelecem parâmetros urbanísticos
que tendem a determinar zoneamentos municipais permissivos a tais
empreendimentos. O incentivo decorre, muitas vezes, da possibilidade de aumentar a
arrecadação municipal do IPTU, bem como de atrair população com maior poder
aquisitivo, com potencial para transformar a dinâmica demográfica da localidade e

234
No mesmo sentido, o estudo de impacto ambiental elaborado para a implementação do CAMG
ressalta a necessidade de adoção de políticas públicas que promovam a ocupação regional por um
público diversificado – o social mix ressaltado por Lees (2008) e Mendes (2012) –, a fim de evitar a
expulsão da população original e a consequente elitização da região (MINAS GERAIS, 2006a).
226
favorecer o seu desenvolvimento – novos fluxos de pessoas, de mercadorias, de
serviços e de capital (MINAS GERAIS, 2014).
Como ressaltado por Rolnik,

a chave de eficácia em demarcar um território social preciso reside


evidentemente no preço. Lotes grandes, grandes recuos, nenhuma
coabitação é fórmula para quem pode pagar. A lei, ao definir que num
determinado espaço pode ocorrer somente um certo padrão, opera o milagre
de desenhar uma muralha invisível e, ao mesmo tempo, criar uma mercadoria
exclusiva no mercado de terras e imóveis. [...]. Ao mesmo tempo em que a lei
alinhavou os territórios da riqueza, delimitou também aqueles onde deveria
se instalar a pobreza. (ROLNIK, 1997, p. 47).

Apesar de alguns planos diretores municipais contemplarem a delimitação de


zonas especiais de interesse social (ZEIS), para a implementação de programas de
habitação popular e regularização fundiária, verifica-se a intenção velada de inibir a
imigração da população de baixa renda, mediante a definição de altos valores de
áreas mínimas de lotes. O Município de Santa Luzia, por exemplo, proíbe a
constituição de parcelamentos com lotes de área inferior a 200 m², exceto nas zonas
caracterizados como ZEIS. Em contrapartida, incentiva à implantação de
parcelamentos com lotes de áreas superiores a 1.000 m², para possibilitar a
destinação de terrenos a condomínios e vilas residenciais de alta renda. O mesmo
expediente é adotado pelos Municípios Pedro Leopoldo e Sabará ao definirem altos
valores para o tamanho mínimo de lotes, como forma de evitar que seus territórios
permaneçam como locus de urbanização de baixa qualidade e ocupação das
camadas populares de baixa renda (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2008c).
As estratégias adotadas pelas administrações municipais para reordenação da
ocupação e uso do solo denotam, nesse sentido, “uma competição intermunicipal pela
população de maior renda”. A migração da população de maior renda para áreas
anteriormente ocupadas pela população de baixa renda adiciona um elemento novo à
tradicional expansão horizontal da pobreza: “a periferização da riqueza”, gerando
novos movimentos de expulsão dos mais pobres e, consequentemente, a
gentrificação dos espaços (MINAS GERAIS, 2011c, p. 359).
A reestruturação metropolitana procedida pelo Poder Público repercute em todo
o Vetor Norte, cujos Municípios têm sofrido, em diferentes níveis, as pressões para
ocupação do solo urbano nas áreas de influência dos novos empreendimentos, quer
por moradias, quer por atividades econômicas, agravando os problemas de
regularização fundiária historicamente existentes e aumentando as necessidades de
227
readequação da infraestrutura urbana, entre outras demandas sociais e urbanísticas
(BRASIL, 2010).

5.2 Novos cenários para Venda Nova: a transformação do ambiente


construído e a oferta de novos serviços na AEVN

A implantação do CAMG, em conjunto com os demais projetos implementados


na região, funciona como um catalizador para a reestruturação socioespacial da
AEVN, produzindo substanciais transformações no ambiente construído, na oferta de
serviços e no seu perfil populacional. Influenciadas não só pela alteração no mercado
imobiliário provocada pelas expectativas de dinamização econômica do Vetor Norte,
mas também pelas melhorias das condições urbanas locais.
Nesse aspecto, a instalação da Estação de Integração e Centro Comercial
Vilarinho235 na Região Administrativa Venda Nova, sob a responsabilidade da
Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU236, está em consonância com a
política de desenvolvimento do Vetor Norte, sendo um importante fator de integração
da região ao Município de Belo Horizonte, melhorando a acessibilidade urbana e a
qualidade de vida da população. O empreendimento foi idealizado com base no Plano
de Reestruturação do Sistema de Transporte Coletivo de Belo Horizonte – BHBUS,
sendo parte integrante do Plano Metropolitano de Transporte (CBTU, 2005a).
A Estação está situada num entroncamento rodoviário para o qual convergem
a Avenida Cristiano Machado (“Linha Verde”), a Avenida Pedro I e a Avenida Vilarinho.
Atuando como elemento estruturador do transporte coletivo metropolitano, articula o
metrô da capital às linhas de ônibus procedentes de sua área de influência,
notadamente as Regiões Administrativas Venda Nova e Norte de Belo Horizonte e os
Municípios adjacentes (Ribeirão das Neves, Santa Luzia, São José da Lapa,
Vespasiano, Lagoa Santa, Jaboticatubas, Confins e Pedro Leopoldo). Além dessa
função estruturadora, a construção associada do Centro Comercial (Shopping
Estação BH) atendeu à demanda da região, até então carente dos serviços nele
contemplados (CBTU, 2005a).

235
Cabe ressaltar que parte do empreendimento (Estação Vilarinho) estava em operação desde 2002,
época em que o serviço de metrô entrou em atividade na região. Ao projeto original, foram acrescidos
uma estação de ônibus (integrando ônibus e metrô) e um centro comercial (CBTU, 2005b).
236
Empresa responsável pela implantação, gestão e operação do metrô de Município de Belo Horizonte
(CBTU, 2005a).
228
A modernização do sistema de transporte público inclui, ainda, a implantação
da Estação de Integração Venda Nova237, localizada na Rua Padre Pedro Pinto, com
operação intramodal, integrando ônibus-ônibus do MOVE238 municipal. A implantação
do MOVE segue a lógica de integração tronco-alimentada, com linhas de ônibus
alimentadoras partindo dos bairros em direção às estações de integração e vice-versa,
e linhas troncais partindo dessas estações em direção ao hipercentro e demais polos
urbanos (BHTRANS, 2008, 2012). Para receber o MOVE, houve a
ampliação/adequação da capacidade das Avenidas Cristiano Machado, Antônio
Carlos, D. Pedro I e Vilarinho (principais vias de acesso à AEVN e região),
consolidando, assim, as intervenções procedidas no sistema de mobilidade urbana no
período 2005-2014 (BHTRANS, 2014).
A instituição do MOVE no PlanMob-BH239 levou em conta a estimativa da matriz
de viagens (no horizonte de 2020), com base nas tendências de crescimento
populacional do Município, no número de postos de trabalho criados com a instalação
do CAMG e dos deslocamentos diários dos seus respectivos usuários, dentre outras
informações. O MOVE constituiu, assim, uma alternativa ao atraso na ampliação do
sistema de metrô do Município, visando tornar a mobilidade urbana um fator positivo
para o ambiente de negócios metropolitano e, também, garantir maior mobilidade à
população, principalmente no período de realização dos jogos da Copa do Mundo de
2014, em que Belo Horizonte figurou como uma das cidades–sede (BHTRANS, 2012).
Evento, inclusive, que fortaleceu os projetos de intervenção urbana e a governança
empreendedorista neoliberal que já vinham sendo adotados em Belo Horizonte e no
Vetor Norte da RMBH240 (SANTOS JUNIOR, 2014).

237
A Estação, que operava desde 2000, foi reformulada e passou a integrar o MOVE em 2014.
238
Denominação do sistema de transporte coletivo por ônibus do Município de Belo Horizonte – BRT
(Bus Rapid Transit). É composto por: (i) uma rede de vias preferenciais ou exclusivas em importantes
corredores municipais e (ii) estações de integração e de transferência ao longo das Avenidas Vilarinho,
Antônio Carlos, Cristiano Machado, Paraná, Pedro I, Santos Dumont. Integrante do Plano Diretor de
Mobilidade Urbana de Belo Horizonte (PlanMob-BH), o MOVE realiza a conexão entre o hipercentro e
o Vetor Norte de Belo Horizonte, atendendo, também, os Municípios circunvizinhos, em sua versão
intermunicipal – MOVE Metropolitano (BHTRANS, 2012).
239
Elaborado em conformidade com o art. 41, §2º, do Estatuto da Cidade: “No caso de cidades com
mais de quinhentos mil habitantes, deverá ser elaborado um plano de transporte urbano integrado,
compatível com o plano diretor ou nele inserido” (BRASIL, 2001).
240
O Planejamento Estratégico para a Copa de 2014 divulgado, em abril de 2010, pelo Governo do
Estado previa, dentre outras obras: a ampliação da capacidade do sistema de transporte do BRT
Cristiano Machado e do BRT Antônio Carlos (corredor rápido de ônibus com a função de ligar o AITN
à região hoteleira e ao centro, com estação próxima ao Estádio Mineirão). No tocante ao marketing
urbano, objetivava divulgar a imagem de Belo Horizonte e de Minas Gerais nacional e
internacionalmente, para consolidar a cidade como destino turístico do Brasil (AGÊNCIA MINAS, 2010,
2011; PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2010).
229
Quando comparada a acessibilidade e a qualidade dos serviços de transporte
público de outrora com a atual rede de mobilidade da região, os entrevistados apontam
uma significativa melhoria. A título exemplificativo, a entrevistada MA-9 ressalta que:

Hoje tem metrô. Tem o MOVE que melhorou. O pessoal reclama muito: ah,
porque você não pega todo dia! Mas para quem já passou o que eu passei.
[...]. Quando eu vou ao centro [de Belo Horizonte], eu não vou de carro, eu
vou de ônibus. Então, assim, eu acho o MOVE um luxo. Quando eu
trabalhava, [...], eu levantava cedo. Eu tinha que levantar 5:30hs da manhã,
pra chegar na cidade às 8hs., porque era um trânsito infernal. Não tinha
metrô. Do trabalho eu ia pro Santa Tereza, no [Colégio] Tiradentes. [...] Saía
de lá às 23hs., chegava em casa 1h. da manhã. Quando chovia, [...], tinha
uma ponte na entrada de Venda Nova, você não sabia se a ponte estava lá
ou não. [...]. Então, você que ir pro centro, você quer andar mais rápido, vai
de MOVE ou vai de metrô. Lógico que não estou falando da hora que o
pessoal, o trabalhador vai apertado, né. Isso aí, eu acho que é coisa que tem
que resolver mesmo. Então, assim, quando eu vou de MOVE, é ar
condicionado, é rápido, né. Mesmo que for em pé. Porque na época eu ia em
pé, pendurada na porta, entendeu? E chegava toda amassada lá no trabalho.
[...]. Tem ônibus que circula só em Venda Nova. [...]. Eu acho Venda Nova
uma cidade. [...] o movimento que tem na rua. Às vezes eu saio, assim, e fico
olhando como tem movimento. É como se tivesse no centro da cidade de Belo
Horizonte. [...]. Então, assim, é uma mobilidade super fácil e antigamente não
[era]. (MA-9)241.

Considerada como um subcentro metropolitano, a AEVN caracterizou-se,


sempre, pelo comércio dinâmico e adensado em suas principais vias – incialmente
espraiado ao longo da Rua Padre Pedro Pinto e posteriormente expandido para a
Avenida Vilarinho –, com várias lojas de comerciantes locais. Nos últimos anos,
influenciada pela reestruturação produtiva do Vetor Norte, verificou-se a expansão de
empreendimentos voltados ao comércio e, também, à prestação de serviços, tendo se
tornado uma região de referência não só para a porção norte do Município de Belo
Horizonte, como também para os Municípios metropolitanos vizinhos (PREFEITURA
DE BELO HORIZONTE, 2012a).
Atraídas pelo cenário de desenvolvimento e pela melhoria dos patamares de
renda e poder de compra da população venda-novense, grandes lojas de
departamento – como: Ricardo Eletro, Casas Bahia, Ponto Frio, Dadalto, Lojas
Americanas, C&A, Riachuelo, Marisa, Pernambucanas, Magazine Luíza e Leader –,
de alcance nacional/regional e forte potencial de atração do público consumidor,
passaram a atuar na região, diversificando o tradicional comércio de rua da AEVN.
A inauguração do Shopping Estação BH (Figura 18), junto à Estação de
Integração Vilarinho, acompanhou o movimento de investimentos no Vetor Norte da

241
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 02 jul. 2015.
230
RMBH, constituindo-se no primeiro shopping de grande porte da região. Entre as 207
lojas do centro comercial incluem-se lojas âncoras como: C&A, Fastshop, Marisa,
Casas Bahia, Polishop, Renner, Centauro, Riachuelo, RiHappy, Dadalto, Ricardo
Eletro, Ponto Frio, Leitura, Lojas Americanas, Leader, Boticário, Le Postiche, Hering,
By Tennis, TNG, Chilli Beans, Adidas, etc., algumas inéditas na localidade. Além da
ampliação da oferta de comércio e de serviços, o estabelecimento dispõe de salas de
cinema e teatro, disponibilizando novas alternativas de lazer para a população.

Figura 18 – Shopping Estação BH

Fonte: Maciel, 2013

Ainda, nos últimos anos, em consequência da reestruturação socioeconômica


do Vetor Norte, do aumento populacional e da melhoria dos níveis de renda da
população, houve um incremento na infraestrutura urbana, nos equipamentos
culturais242, de lazer e desporto da AEVN, bem como na oferta de: (i) instituições
financeiras; (ii) estabelecimentos privados de ensino superior243 (Faculdades

242
Em 2007, houve a inauguração do Centro Cultural Venda Nova (CCVN), construído com recursos
do Orçamento Participativo. O CCVN possui biblioteca, sala de exposições, auditório, anfiteatro,
administração e uma grande área externa ajardinada. A programação mensal inclui cursos, oficinas e
encontros de grupos culturais da região (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2012a).
243
Relevante mencionar que a ampliação dos estabelecimentos privados de ensino superior na Região
Administrativa Venda Nova acompanhou o incremento da oferta de vagas dessa modalidade de ensino
no país, em decorrência das estratégias e programas adotados pelo Governo para facilitar o acesso ao
ensino superior, como o Programa Universidade para Todos (ProUni), criado em 2005.
231
Kennedy244, Faculdade Faminas245, Faculdade Pitágoras-INED246, Instituto Metodista
Izabela Hendrix247, FACEMG – Faculdade de Ensino de Minas Gerais/Instituto Belo
Horizonte de Ensino Superior – IBHES248, FGV – Fundação Getúlio Vargas/IBS
Business School de Minas Gerais249, Centro Universitário Una250, Centro Universitário
Estácio BH251); (iii) centros de saúde públicos (Hospital Risoleta Tolentino Neves –
HRTN252, Unidades de Pronto Atendimento – UPAs) e privados (Hospital da
Unimed253, Centro de Nefrologia do Hospital Evangélico – Unidade Venda Nova254),
redes de supermercados e farmácias; concessionária de veículos, entre outras
atividades comerciais que, até então, eram inexistentes ou limitadas na região.
Quando comparada a disponibilidade de estabelecimentos comerciais e de
serviços de antigamente com a atual rede comercial e de serviços existente, os
entrevistados apontam uma significativa transformação da região. Relatam, inclusive,
que muito raramente precisam ir até o centro de Belo Horizonte para fazer compras
ou obter a prestação de serviços diversos, porquanto são bem atendidos em relação
a estas necessidades na própria região. Para ilustrar, reproduz-se abaixo trechos de
algumas das entrevistas realizadas com os moradores e ex-moradores da AEVN:

Eu já tinha morado em Venda Nova [AEVN], logo quando eu casei. Foi em


1977. Eu morei 3 meses de aluguel em Venda Nova [AEVN]. No centro de
Venda Nova mesmo. [...]. Nossa! Venda Nova era, bem dizer, uma fazenda
em 1977. Era mata pura, né. A [Avenida] Vilarinho não era canalizada. O

244
Até então, a antiga Escola de Engenharia Civil Kennedy, inaugurada em 1964, era a única instituição
de ensino superior localizada na Região Administrativa Venda Nova. Em 2005, as atividades de ensino
da instituição foram ampliadas, passando a oferecer novos cursos de graduação e de pós-graduação
lato sensu.
245
Inaugurada em 2003, ao lado da Estação Vilarinho, oferece cursos de graduação e de pós-
graduação lato sensu.
246
Inaugurada em 2007, na Rua Padre Pedro Pinto, na AEVN, também ofertando cursos de graduação.
247
O “Campus Vetor Norte”, localizado na Região Administrativa Venda Nova, foi inaugurado em 2009
e oferece cursos de graduação e um polo de EAD – Ensino a Distância.
248
Localizada na AEVN, a primeira unidade entrou em atividade em 2009 e a terceira em 2015. Todos
os Campi estão situados na Avenida Vilarinho, na AEVN, e oferecem cursos superiores e tecnológicos.
249
A unidade “Vetor Norte – BH”, inaugurada em 2012, está instalada na Avenida Vilarinho, na AEVN,
e oferece cursos de graduação e de pós-graduação lato sensu.
250
O “Campus Linha Verde” foi inaugurado em 2012 e está localizado na Av. Cristiano Machado, na
Região Administrativa Venda Nova, com a oferta de cursos técnicos, superiores e de pós-graduação
lato sensu.
251
Unidade inaugurada em 2015, na Rua Padre Pedro Pinto, na AEVN, com oferta de cursos de
graduação.
252
Inaugurado em 2006, o HRTN é responsável pela assistência aos pacientes de urgência clínica e
cirúrgica, traumatológica e não traumatológica da população residente no eixo Norte da RMBH,
englobando, além de Belo Horizonte, os Municípios de Ribeirão das Neves, Vespasiano, Santa Luzia,
Pedro Leopoldo, Matozinhos, Confins, Esmeraldas, Jaboticatubas, Contagem e São José da Lapa.
253
Inaugurado em 2013, o Centro de Promoção da Saúde Unimed, localizado na Avenida Pedro I,
surge como uma opção de atendimento mais próxima para os clientes que residem no Vetor Norte da
RMBH, minimizando a lacuna da rede assistencial na região.
254
Inaugurado em 2014, na Rua Padre Pedro Pinto, na AEVN, o Centro está direcionado ao
atendimento de pacientes portadores de doença renal crônica, advindos da RMBH.
232
comércio era muito pouco. Era restrito à [Rua] Padre Pedro Pinto. Agora, não.
Agora a [Avenida] Vilarinho já é uma rua mais comercial. E a [Rua] Padre
Pedro Pinto é totalmente comercial. Mudou tudo (MR-1)255.

Veio muitas lojas, né. Vamos pensar, da minha adolescência mesmo, é, não
tinha Ponto Frio. Porque eu lembro uma vez que meu pai foi comprar uma
máquina de escrever pra mim, a gente tinha que ir pro centro [de Belo
Horizonte]. Não tinha Ricardo Eletro, Ponto Frio, C&A, não tinha essas lojas
assim. Era mesmo na região central. Lojas Americanas. [...]. Bancos. E, hoje,
Venda Nova [AEVN] tem quase todos os bancos aqui. Os grandes bancos,
em Venda Nova [AEVN] você tem. Você não precisa ir para o centro de Belo
Horizonte pra fazer nada. [...]. Então, eu não vou no centro. Então, eu faço
tudo em Venda Nova [AEVN]. Então, assim, se eu precisar de banco, se eu
precisar de comprar, qualquer lugar eu vou aqui em Venda Nova [AEVN].
Então, assim, eu não vou na área central pra nada (EXM-5)256.

Coisas, assim, de grande impacto, tem o campus das faculdades que estão
lá [...]. Aquele centro comercial, ele é muito grande. Inclusive, no final de
semana eu evito tirar meu carro da garagem pra poder ir pra lá, porque é um
horror. É um caos. É pior do que você descer pro centro da cidade na hora
do rush. [...]. Ali você tem muito comércio, você tem shopping popular, você
tem as farmácias, você tem aquelas lojas bem típicas de lojas de bairro
mesmo, né. É, lanchonetes e os bancos, né. Então, aquilo ali que faz
movimentar aquela região toda e desde que eu me entendo, sempre foi
daquele jeito. [...]. Por exemplo, há 15 anos atrás, vamos voltar lá pra 2001,
não existia Ponto Frio, Ricardo Eletro, Casas Bahia, não existia. É, o Ponto
Frio tem um pouco mais de tempo que ele tá lá. Eu casei em 2002 e nessa
época eu comprei minha televisão no Ponto Frio de Venda Nova [AEVN].
Então, o Ponto Frio de Venda Nova [AEVN] tem, mais ou menos, esse tempo
aí. Mas, por exemplo, o Ricardo Eletro chegou um pouco depois. O Magazine
Luiza e Pernambucanas chegaram tem 5-6 anos. [...]. [Lojas] Americanas,
chegou [Lojas] Americanas na [avenida] Vilarinho, quase em frente ao
Shopping Norte. Ela, dessas lojas conhecidas, ela é a mais nova. [...]. Acho
que, hoje, a única coisa que, assim, eu seria obrigado a sair de Venda Nova
[AEVN], pra fazer na região central, seria questões relacionadas à carteira de
motorista, Detran. [...]. Tudo o que você for precisar, de ir ao médico, eu posso
ir lá. Eu tinha um plano de saúde da Unimed. A Unimed fez um hospital bem
grande ali na [avenida] Pedro I, né. Então, muito mais cômodo pra mim. Antes
[do Hospital] da Pedro I, também, eu fazia consulta nas clínicas de lá, que
tinham convênio. Até carro eu comprei ali na região. [...]. Agora tem. No
Shopping Norte, abriu uma concessionária grande lá. A Sinal da Fiat. Bem
grande. Relativamente grande. Boa concessionária. De carro usado é o que
mais tem. [A concessionária Sinal] é recente. Ela tem uns 3 anos. É bem
nova. [...]. Hoje, você só vai ao centro [de Belo Horizonte] se quiser. Porque,
o que tem no centro, hoje, tem lá na região (MA-2)257.

Hoje em dia, você consegue ver lojas que, talvez, pela renda da região, não
teria. E hoje em dia já tem. Tem uma loja de móveis [...], que até que minha
mãe gosta bastante, que ela tem no Ponteio [Lar Shopping]258. E ela é uma
loja, assim, que, eu acho que pelo preço, é tipo uma tok stok [...]. Pelo preço,
assim, eu acho que não viria pra cá. Talvez veio pelo fato de, né, construir
novas habitações, pessoas que trabalham na Cidade Administrativa, pessoas
de renda melhor vai poder, agora, mobiliar a casa por lá. Pensei por esse
nicho porque minha mãe gosta muito de comprar coisas pra casa e eu lembro

255
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 01 jul. 2015.
256
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
257
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Betim em 01 jul. 2015.
258
Trata-se de um shopping center localizado em uma região nobre de Belo Horizonte, na Região
Administrativa Centro-Sul, que abriga diversas lojas especializadas em arquitetura, design e decoração,
voltadas para a venda de mobiliário e eletrodomésticos para classes com elevado nível de renda.
233
muito dela falando: nossa nunca imaginei que essa loja viria pra cá! Tipo
assim, não tem nada a ver. Pelo fato de só ter no Ponteio essas lojas mais
requintadas e com um preço superior. [Em relação ao Shopping Estação BH],
eu acho que trouxe benefício sim. Por exemplo, cinema, eu acho um cinema
bom. Que a região não tinha. A gente tinha um cinema, [...] ainda tem, né, um
cinema do Shopping Norte259 que é irrisório, assim. Chega a ser até
vergonhoso. Mas, assim, é um cinema legal. Eu vou mais, por causa do
cinema. Mas eu sinto, assim, que o shopping fica completamente lotado e
você percebe que é, eu acho particularmente, que é região de Venda Nova
todinha ali dentro. Ele fica muito cheio. É um shopping que veio, que a galera,
sei lá, a galera abraçou. Porque tava precisando daquilo. Ou porque ia pro
[Shopping] Del Rey ou porque ia pro Minas [Shopping]260, que é um pouco
mais longe. Querendo ou não é longe, né. E ali é muito próximo. Então, ele
fica bastante cheio. Tanto das pessoas que vai só pra comer ou gente que
vai pra comprar, divertir. Tá sempre cheio (MA-6)261.

Após 2001, há a instalação de Faculdades em Venda Nova, como UNA,


FAMINAS, Pitágoras, na Padre Pedro Pinto, IBHES, FGV, tem o campus da
Estácio também, na Vilarinho. E colocando muito essa coisa do Vetor Norte,
o Campus Vetor Norte, o Campus Linha Verde, a UNA mesmo tem esse
nome, puxando exatamente pra isso. Venda Nova é um lugar em que, por
exemplo, o pessoal de Santa Luzia, Ribeirão das Neves e outras cidades da
Região Metropolitana, tem a sua referência, inclusive de centro comercial e
polo de trabalho também (MA-3)262.

Os investimentos públicos e privados realizados (ou em vias de efetivação) no


Vetor Norte da RMBH, a partir da atuação do Estado, demonstram a (re)inserção da
região nos circuitos de valorização do capital, cuja estrutura espacial é paulatinamente
reconfigurada segundo a lógica produtivista, do crescimento econômico e do mercado.
Como resultado, o ambiente construído e a paisagem urbana da AEVN são
ajustados aos interesses produtivos, mediante a alteração: (i) de suas características
internas; (ii) de sua acessibilidade; (iii) da oferta e qualidade da infraestrutura urbana,
dos equipamentos e dos serviços disponibilizados à população, tornando-a mais
atrativa e, por consequência, mais valorizada. Daí que, as vantagens localizacionais
implementadas na AEVN influem diretamente no direito de habitar, na medida em que
“a qualidade habitacional extrapola o ‘teto, parede e piso’, para abranger a localização,
a acessibilidade, o transporte, os equipamentos de saúde, educação, lazer, religião e
cultura” (VÉRAS, 2003a, p. 86).

259
Inaugurado em 1997, foi o primeiro shopping a ser instalado na AEVN, cujas características se
assemelham aos chamados “mini-shoppings de bairro”, face ao mix de lojas limitado. Atualmente, o
Shopping Norte abriga um supermercado (EPA Plus) e uma concessionária de veículos zero da marca
Fiat, além de outros estabelecimentos comerciais e de serviço.
260
O Shopping Del Rey encontra-se situado na Avenida Presidente Carlos Luz (Região Administrativa
Pampulha), enquanto o Minas Shopping está localizado na Avenida Cristiano Machado (Região
Administrativa Nordeste). Ambos foram inaugurados em 1991 e, devido à localização, são referência
de consumo e entretenimento para a população da Região Administrativa Venda Nova.
261
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 06 jul. 2015.
262
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 17 jun. 2015.
234
Contudo, ainda que se admitam as externalidades positivas do processo de
reestruturação urbana da AEVN e a melhoria da qualidade de vida da população local,
é preciso reconhecer que as benesses não necessariamente atingem o grupo social
que originalmente ocupava a região. Diante da valorização da AEVN, os antigos
moradores, de rendas mais baixas, acabam não resistindo ao encarecimento da terra
e do custo de vida, tornando-a inacessível para esse segmento da população. Por
falta de alternativas, a população pobre acaba sendo “expulsa” para mais longe,
evidenciando o processo de gentrificação da área.

5.3 A alteração da ordem fundiária e a transformação da AEVN

Em 2012, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (2012a) realizou uma série


de estudos para avaliar a situação da estrutura urbana da Região Administrativa
Venda Nova (RAVN) e as tendências da dinâmica urbana do seu território, como forma
de subsidiar a implementação do Plano Diretor Regional263 e os instrumentos de
política urbana adequados à evolução socioeconômica e físico-territorial da região. De
acordo com o diagnóstico, a (re)produção urbana da RAVN, nos termos em que esta
tem se desenvolvido nos últimos anos, está fortemente caracterizada pela alteração
nas formas tradicionais de ocupação e uso do solo. Reflexo da mobilização do Poder
Público no sentido de produzir as condições de infraestrutura e equipamentos
necessários ao desenvolvimento econômico-espacial do Vetor Norte da RMBH –
notadamente as obras/equipamentos estruturantes –, e da atuação da iniciativa
privada, atraída pela lucratividade do mercado imobiliário e pela oportunidade de
novos investimentos.
Com o fito de obter um retrato dos patamares de valorização dos imóveis
residenciais na AEVN e identificar a ocorrência de especulação imobiliária (renda da
terra), realizou-se uma pesquisa na seção de classificados de imóveis do jornal Estado
de Minas, um dos mais importantes jornais impressos do Estado. Na pesquisa,
buscou-se mensurar a quantidade de imóveis residenciais colocados à venda e

263
Em 2000, procedeu-se à primeira revisão do Plano Diretor de Belo Horizonte (Lei nº 8.137/2000).
Nesse mesmo ano, foi instituído o Plano Diretor Regional de Venda Nova pelo Decreto nº 10.251/2000,
a fim de promover a descentralização administrativa e ordenar o desenvolvimento socioeconômico do
principal vetor de crescimento do Município. Em 2010, o Plano Diretor Municipal foi novamente revisto
(Lei nº 9.959/2010), adequando-se às diretrizes do Estatuto da Cidade. Atualmente, após a conclusão
da IV Conferência Municipal de Política Urbana, realizada entre os meses de fevereiro e agosto de
2014, promove-se a revisão das normas que regem a política urbana do Município e da RAVN, bem
como a elaboração do Projeto de Lei relativo à revisão/regulamentação das respectivas legislações
urbanísticas (PAZ, 2000; PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2012b).
235
aqueles destinados à locação, nos meses de janeiro e julho, no período de 2001 a
2013. A menção aos anos mais recentes objetiva demonstrar a elevação contínua do
valor da terra, corroborando a tese de que o processo de gentrificação segue um curso
constante.
Forçoso ressaltar que a utilização dos anúncios de imóveis como fonte de
informação do mercado imobiliário da AEVN apresenta a desvantagem de não retratar
o preço do imóvel ou do aluguel de fato transacionado, dada à eventual diferença
entre o valor anunciado e o valor de venda ou locação. Contudo, parte-se da hipótese
de que a evolução dos respectivos valores tenha tendências semelhantes no médio e
longo prazo. Tal metodologia é utilizada em países como Áustria, Espanha, EUA,
Hungria e Inglaterra, sendo também adotada pela Fundação Instituto de Pesquisas
Econômicas – FIPE, a partir de 2010, para a elaboração de um índice nacional de
preços do setor imobiliário264 (FIPE, 2014).
O Gráfico 1 demonstra, assim, o número de ocorrências ao longo do período e
a respectiva evolução dos preços dos imóveis residenciais colocados à venda na
AEVN, englobando bens de tipologias (casa, casa geminada, apartamento tipo e
cobertura, barracão e quitinete) e características diversas (número de dormitórios,
número de banheiros, número de vagas na garagem, etc.). De acordo com os dados
obtidos, a média de valor dos imóveis residenciais colocados à venda, em janeiro de
2001, era de R$34.046,88, sendo que, em julho de 2013, a média de valor dos imóveis
passou a ser de R$248.294,12, representado um aumento significativo de,
aproximadamente, 629,3% no preço dos imóveis anunciados no período.
Interessante observar, no Gráfico 1, a existência de três momentos de inflexão
no mercado imobiliário da AEVN, cuja elevação dos preços dos imóveis se mostrou
mais significativa: (i) no biênio 2005-2006, em que o valor dos imóveis saltou de
R$56.170,59 para R$107.770,83, representando um aumento de 91,8%; (ii) no biênio
2008-2009, em que o valor passou de R$104.061,54 para R$144.353,85, com um
aumento de 38,7%; e, por fim, (iii) no biênio 2012-2013, em que o valor dos imóveis
saltou de R$199.523,81 para R$248.294,12, apresentando um aumento de 24,4%.
A alta no valor dos imóveis no biênio 2005-2006, coincide com o ano de anúncio
da implantação do CAMG, da Catedral Cristo Rei, do Shopping Estação BH no Vetor
Norte da RMBH, bem como da execução das obras da “Linha Verde”. Por sua vez, a

264
A construção do índice decorreu da parceria firmada entre a FIPE e o ZAP, um portal de classificados
na internet que concentra uma grande massa de anúncios imobiliários, de venda ou locação, de
diversas cidades brasileiras (FIPE, 2014)
236
elevação dos preços no biênio 2008-2009 ocorreu imediatamente após o início das
obras do CAMG e a inauguração da “Linha Verde”. Já o aumento ocorrido no biênio
2012-2013 coincide com a inauguração do Shopping Estação BH (Quadro 7).

Gráfico 1 – Evolução dos valores dos imóveis residenciais colocados à venda


na AEVN

Fonte: Dados da pesquisa.

Quadro 7 – Grandes Empreendimentos – Vetor Norte da RMBH


INÍCIO DE
EMPREENDIMENTO ANÚNCIO INAUGURAÇÃO
EXECUÇÃO
Centro Administrativo do
2005 2007 2010
Estado de Minas Gerais
“Linha Verde” 2005 2006 2007
Catedral Cristo Rei 2005 2013 2020 (previsão)
Shopping Estação BH 2005 2005 2012
Fonte: Elaborado pelo autor

Ainda, com base no Gráfico 1, é possível perceber uma mudança no


comportamento do mercado imobiliário da região quando, a partir de julho de 2009,
passam a ser ofertados imóveis cujos valores de venda ultrapassam a importância de
R$400.000,00. E, a partir de julho de 2011, com preços superiores a R$500.000,00.
Período, portanto, subsequente à inauguração de grande parte das obras de
reestruturação do Vetor Norte da RMBH, notadamente do CAMG. Em suma, a
237
significativa alta dos valores representa indícios de renovação qualitativa dos imóveis
residenciais edificados na AEVN.
A pesquisa de classificados do jornal Estado de Minas não permite a análise
da evolução dos preços do m² dos imóveis situados na AEVN, uma vez que as
informações divulgadas nos anúncios imobiliários não são homogêneas quanto às
características do bem e, por vezes, omitem a metragem dos mesmos.
Tal informação, contudo, pode ser obtida pelos índices FIPEZAP (FIPE, 2015),
que acompanham a variação dos preços de venda dos imóveis anunciados no seu
sítio eletrônico. As ferramentas estatísticas disponibilizadas pelo portal permitem
avaliar a evolução do preço do metro quadrado (m²) de apartamentos localizados em
grande parte dos bairros de Belo Horizonte, facultando a constatação da valorização
dos imóveis localizados na AEVN.
Para demonstrar a influência da reestruturação econômico-espacial do Vetor
Norte da RMBH no valor venal dos imóveis localizados na AEVN e, por conseguinte,
o expressivo aumento do “valor de uso”/“valor de troca” da terra, verificou-se a
evolução do preço do m² dos apartamentos anunciados no portal ZAP imóveis.
Ainda, a título exemplificativo, comparou-se à evolução do preço do m² de
apartamentos localizados em bairros tipificados como de luxo pela Fundação IPEAD
(2011), a saber: Lourdes, Belvedere, Mangabeiras, Sion e Cruzeiro, todos situados na
Região Administrativa Centro-Sul, conforme Mapa 1. Região esta que,
tradicionalmente, é ocupada pelas elites belo-horizontinas, possuindo um forte apelo
comercial no mercado imobiliário (Quadro 8).
Na pesquisa sobre o comportamento do mercado imobiliário de Belo Horizonte,
realizada pela Fundação IPEAD (2011), os bairros do Município são classificados em
quatro diferentes categorias, com base na distribuição de renda em cada Região
Administrativa. Assim, considerada a renda média mensal do chefe do domicílio (em
salários mínimos) 265, os bairros são definidos como: (i) popular (até 5 salários
mínimos); (ii) médio (entre 5 e 8,5 salários mínimos); (iii) alto (entre 8,5 e 14,5 salários
mínimos); e (iv) luxo (superior a 14,5 salários mínimos).
De acordo com o perfil traçado pela Fundação IPEAD (2011), a quase
totalidade dos bairros da Região Administrativa Venda Nova é tipificada como popular,
excetuado apenas o bairro Venda Nova, considerado como de nível médio.

265
A última atualização, em 2005, baseou-se nos dados do censo demográfico do IBGE de 2000.
Quadro 8 – Variação do preço do m² dos imóveis localizados na AEVN e em bairros de Luxo de Belo Horizonte (Classificação
IPEAD)
AEVN BAIRROS DE LUXO (CLASSIFICAÇÃO IPEAD)
BAIRRO PERÍODO M² (R$) AUMENTO (%) BAIRRO PERÍODO M² (R$) AUMENTO (%)
abr/09 1.420,00 abr/09 4.159,00
Candelária 155,49% Lourdes 101,68%
jan/15 3.628,00 jan/15 8.388,00
jul/13 1.875,00 abr/09 4.901,00
Cenáculo 78,29% Belvedere 85,29%
jan/15 3.343,00 jan/15 9.081,00
nov/11 1.898,00 abr/09 4.355,00
Europa 65,7% Mangabeiras 54,81%
jan/15 3.145,00 jan/15 6.742,00
jul/13 1.964,00 abr/09 3.410,00
Minas Caixa 113,85% Sion 95,81%
jan/15 4.200,00 jan/15 6.677,00
ago/09 1.436,00 abr/09 3.238,00
Venda Nova 140,32% Cruzeiro 85,29%
jan/15 3.451,00 jan/15 6.490,00
Fonte: FIPE, 2015.
Nota: Os períodos (início/fim) de análise estão em consonância com os anúncios de venda de apartamentos publicados no site do ZAP imóveis. No período avaliado
não houve a disponibilização de dados concernentes ao bairro Parque São Pedro. Como anteriormente mencionado, os bairros de luxo referenciados no presente
quadro estão identificados no Mapa 1.

238
239

Embora os anúncios imobiliários do ZAP imóveis estejam restritos a curtos


períodos, situados entre abril de 2009 e janeiro de 2015, os dados obtidos ratificam
as informações extraídas da seção de classificados de imóveis do jornal Estado de
Minas, demonstrando a significativa e constante majoração do valor dos imóveis Da
AEVN ao longo do tempo. De acordo com a pesquisa, o aumento percentual no valor
do m² na AEVN foi sensivelmente superior ao aumento verificado nos bairros de luxo
da Região Administrativa Centro-Sul, cujas dotações locacionais em termos de
infraestrutura, acesso a equipamentos e serviços urbanos de uso coletivo, além das
demais amenidades urbanas, são consideravelmente superiores àquelas verificadas
na Região Administrativa Venda Nova e, por conseguinte, na AEVN.
Veja que a média percentual de aumento do valor do m² foi de 87,60%, para os
imóveis localizados nos bairros de luxo da Região Administrativa Centro-Sul,
enquanto a majoração percentual dos preços do m² nos bairros populares da AEVN
foi de 103,33%, quando excetuado o bairro Venda Nova – considerado de nível médio,
e de 110,73%, quando incluído o bairro Venda Nova no cálculo final. Sendo que a
variação da inflação, no período compreendido entre 2009 e 2015, foi de somente
30,8%, conforme o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M)266. Ou seja,
coeficiente substancialmente inferior ao aumento verificado no valor do m² dos imóveis
localizados na AEVN – em que o menor aumento percentual se deu no bairro Europa
(65,7%) –, e aqueles categorizados como de luxo pela Fundação IPEAD, em que o
menor aumento ocorreu no bairro Mangabeiras (54,81%).
Os relatos dos moradores entrevistados ilustram a alta no valor do m² na AEVN
e a alteração na tipologia de ocupação predominante, inclusive com residências
antigas sendo demolidas para construções de prédios ou casas geminadas – que se
tornaram uma peculiaridade da região (ALMEIDA, 2009) –, com o objetivo de ter o
máximo de aproveitamento de terrenos:

A gente não conseguiu comprar. Na época em que a gente começou a olhar


essa questão valorizou demais Venda Nova [AEVN]. Há uns 3, 4 anos atrás.
Tem 3 anos que eu casei. Eu acredito que uns 4, 5 anos atrás [em meados
de 2010], a gente começou a olhar e começou uma valorização muito grande
dos imóveis. [...]. Uma comparação que eu fiz, no caso da minha prima, ela

266
Calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o IGP-M considera as variações de preços do
Índice de Preços por Atacado (IPA), que tem peso de 60% do índice, o Índice de Preços ao Consumidor
(IPC), que tem peso de 30% e o Índice Nacional de Custo de Construção (INCC), representando 10%
do IGP-M. O índice é usado como referência para a correção de contratos de aluguel e de fornecimento
de energia (IBRE, 2014).
240

tem um apartamento ali atrás do shopping Norte. Ela comprou aquele


apartamento por R$70 mil, ou R$75 mil. Hoje, ele vale R$200 mil. Coisa de
cinco anos, assim. Foi muito rápido. Não foi aquela coisa que a gente
acompanhou, esse ano, esse ano, não. De repente. Foi aquela história,
Cidade Administrativa, MG-10, aquela construção toda de uma vez só. Isso
foi muito rápido. Não foi uma coisa que, foi assim, muito anos não. Foi bem
rápido. Depois de cinco anos já estavam hiper, super, valorizadas as coisas
aqui (EXM-2)267.

Então, assim, a pretensão era ficar em Venda Nova [AEVN]. Como a gente
começou a fazer pesquisas, na época que a gente resolveu casar, na região,
por valor de imóveis, a diferença foi muito grande. Então, nós desistimos e
procuramos as regiões mais próximas. [...]. Dava uma diferença de, mais ou
menos, 175%. Nós compramos o nosso apartamento no valor de R$80 mil e
na região de Venda Nova [AEVN] a gente encontrava apartamentos de R$220
mil, R$200 mil. Isso apartamento, sem contar a casa, né. Porque casa
pequena, o barracão, o pessoal tava vendendo mais pra construtoras e elas
estavam demolindo as casas antigas, pra poder fazer casas geminadas ou
até mesmo apartamentos. [Isso] foi em 2008, mais ou menos nessa época
mesmo (EXM-3)268.

Absurdamente [aumentou] o valor. [...]. De 2005 pra cá, o imóvel assim. Pra
você ter uma ideia, o imóvel que custava R$60 mil, hoje ele custa R$180 mil,
R$200 mil. E a gente não consegue enxergar onde que está essa diferença
tão grande, né. E aí, né, fica difícil entender, sendo que você não está vendo.
Você tem mudanças, e gente segurando, gente mudando, gente permutando.
Porque, aí, se não dá pra adquirir, você faz permuta. Você continua lá, faz
um prédio de 6 unidades e continua morando. Permuta com o construtor. Aí
você mora lá, mas outros mais 5 moradores estão com você naquele mesmo
espaço. Isso tem acontecido. [...]. Você espera, você não tem dinheiro pra
comprar aquilo com essa especulação, por aquele valor, né (MA-7)269.

O Gráfico 2, por sua vez, demonstra as ocorrências e a respectiva evolução


dos preços dos imóveis residenciais destinados à locação ao longo do período.
Também englobando bens de tipologias (casa, casa geminada, apartamento tipo e
cobertura, barracão e quitinete) e características diversas (número de dormitórios,
número de banheiros, número de vagas na garagem, etc.).
Acompanhando a dinâmica dos preços de venda imobiliária, a média de valor
dos aluguéis dos imóveis residenciais, em janeiro de 2001, foi de R$221,36, sendo
que, em julho de 2013, a média dos aluguéis passou a ser de R$856,00, representado
um substancial aumento de 286,7% no valor da locação.

267
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
268
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 16 jul. 2015.
269
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
241

Gráfico 2 – Evolução dos valores dos imóveis residenciais destinados à


locação na AEVN

Fonte: Dados da pesquisa

Ressalta-se que a majoração dos aluguéis, em função das obras estruturantes


do eixo Norte, não ocorre na mesma medida dos aumentos especulativos verificados
nos anúncios de venda imobiliária. Primeiro, pela vigência de contratos locatícios
firmados em momento anterior, que tendem à manutenção dos valores por períodos
mais longos. Retardando, assim, o efeito especulativo na oferta dos imóveis.
Segundo, pela ampliação construtiva gerar efeitos tardios, em razão do lapso de
tempo existente entre o anúncio dos grandes empreendimentos e a oferta de novas
edificações no mercado imobiliário. Daí a não ocorrência de bruscos aumentos nos
preços dos aluguéis como os verificados nos biênios 2005-2006, 2008-2009 e 2012-
2013, para a venda de imóveis.
De todo modo, desde janeiro de 2005 – ano em que os grandes
empreendimentos do Vetor Norte foram anunciados –, os valores dos aluguéis veem
aumentando paulatinamente, sendo que, após janeiro de 2011, verifica-se uma maior
incidência de ofertas de imóveis com patamares de aluguéis superiores a R$1.200,00,
importância superior ao preço médio dos aluguéis de apartamentos em bairros
tipificados como de nível médio e equivalente ao valor daqueles considerados de nível
alto, conforme estratificação de bairros da Fundação IPEAD.
242

Nesse aspecto, conforme a série histórica de aluguéis da Fundação IPEAD


(2011), os preços médios dos aluguéis residenciais em Belo Horizonte, para
apartamentos de 3 quartos e 2 ou mais banhos, em janeiro de 2011, apresentaram as
seguintes variações: (i) classe Médio – R$1.079,76; (ii) classe Alto – R$1.249,45; e
(iii) classe luxo – R$2.009,05. Em julho de 2011, seguindo a estratificação de classes
de bairros, os valores médios dos apartamentos com tais características foram de: (i)
classe Médio – R$1.111,43; (ii) classe Alto – R$1.337,70; e (iii) classe luxo –
R$2.160,46.
O gradativo aumento dos aluguéis na AEVN foi ressaltado pelos moradores
entrevistados na presente pesquisa. Como forma de ilustrar os impactos desse
avanço, reproduzem-se abaixo trechos de algumas das entrevistas realizadas:

Todo ano aumentava [o aluguel]. De ano em ano aumentava. Tipo assim, na


época em que eu morei em Venda Nova [AEVN], com a minha esposa mesmo
eu morei dois anos de aluguel. Mas, antes, eu morava com o meu primo,
entendeu. Aí a gente dividia. Aí, de certa forma, a gente apertava, porque a
gente não tinha um salário bom também. Mas para dois ficava mais acessível,
né. Mas, quando tava eu e minha esposa só, durante os dois anos, aí que
nós dois trabalhava. Mas, mesmo assim também, o aluguel era bem puxado.
Hoje em dia o que eu pago da prestação da minha casa é o preço do aluguel
que eu estaria pagando hoje, se eu tivesse lá ainda. R$500 reais. Que ia
mudar para R$550 (EXM-1)270.

Em 2000, um lote do meu tio, ele valia cerca de R$30 mil, R$25 mil, hoje, ele
não vende, o lote vazio, por menos de R$80-R$90 mil. Então, assim, você
tem uma hipervalorização que acontece em toda região. Na medida em que
anunciou a Cidade Administrativa já começou a valorizar o imóvel. E Linha
Verde, não sei o que. Na medida em que anuncia o shopping vai valorizando
cada vez mais o imóvel. E, assim, você tem vários imóveis lá, dos últimos que
eu sei que vendeu casa já construída, próxima da minha casa, valendo [...]
R$260 mil, R$300 mil, R$450m mil, dependendo da qualidade do imóvel. Em
relação a aluguel, tem uma variação muito grande. Tenho tios que alugam
cômodos assim né, barracõezinhos, de 2 ou 3 quartos, pequenos, já teve
época deles cobrarem, sei lá, há uns 15 anos também, R$150, R$200, e hoje
cobram, tipo, R$800 (M-10)271.

No Gráfico 3, apresenta-se um comparativo entre os índices oficiais de preços


e o aumento nos valores de venda e aluguel dos imóveis localizados na AEVN, como
forma de demonstrar que a valorização imobiliária, no período compreendido entre
2001-2013, foi substancialmente superior aos índices utilizados como referência. No
período em análise, a majoração da média de valor dos imóveis residenciais

270
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 09 jul. 2015.
271
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 30 jun. 2015.
243

colocados à venda foi de 629,3%, enquanto o aumento da média de valor dos aluguéis
foi, como dito, de 286,7%. Em contrapartida, a inflação medida pelo Índice Nacional
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)272 foi de apenas 127%. Enquanto a inflação
acumulada indicada pelo (IGP-M) foi de 175%. Nesse mesmo período, o aumento
acumulado do salário mínimo no país foi de 277%. Índices, portanto, nitidamente
inferiores ao percentual de aumento do preço dos imóveis ofertados à venda/locação
na AEVN.

Gráfico 3 – Índices Oficiais X Aumentos nos Preços de Compra/Venda e


Aluguel dos Imóveis

Fonte: Elaborado pelo autor com dados extraídos do IBRE (2014) e (BRASIL, 2015)

Por certo, a valorização imobiliária percebida na AEVN não decorre


exclusivamente da presença dos novos empreendimentos na região. Sendo
influenciada, também, por fatores conjunturais ligados à própria dinâmica do mercado,
ao crescimento do PIB e da renda média das famílias, à intensificação da demanda
por terrenos por parte das atividades econômicas, à disponibilidade de crédito e à
queda dos rendimentos no mercado financeiro que levou capitais de diversas fontes

272
Produzido pelo IBGE, o IPCA mede a inflação de um conjunto de produtos e serviços
comercializados no varejo, referentes ao consumo pessoal das famílias, cujo rendimento é de 1 a 40
salários mínimos. Desde junho de 1999, o IPCA é o índice utilizado pelo Banco Central do Brasil para
o acompanhamento dos objetivos estabelecidos no sistema de metas de inflação, razão pela qual é
considerado o índice oficial de inflação do país (BRASIL, 2015).
244

a buscar o mercado imobiliário para sua reprodução. Não bastasse, verifica-se um


ambiente político favorável para o aquecimento do mercado imobiliário no país, com
destaque para a Nova Política Nacional de Habitação (2004), a criação do Fundo
Nacional de Habitação (2006) e do Programa de Aceleração do Crescimento (2007)273
(SATHLER et al, 2011).
De todo modo, os dados obtidos com a pesquisa na seção de classificados de
imóveis do jornal Estado de Minas, associados às informações obtidas por intermédio
do índice FIPEZAP de Preços de Imóveis e da Fundação IPEAD, permitem inferir a
dinâmica imobiliária da AEVN. Tais informações fornecem um retrato da evolução de
preços dos imóveis ofertados (venda/locação), bem como do preço do m² de
apartamentos, no interstício temporal em que a reestruturação espacial do Vetor Norte
da RMBH foi iniciada até os dias atuais.
O considerável aumento dos valores dos imóveis, tanto para fins de venda
quanto para locação, associado a uma tendência recente de localização de
condomínios residenciais verticalizados na AEVN – região até recentemente
caracterizada pela predominância das tipologias unifamiliares, prédios econômicos e
de pequeno porte (GOMES, 2008; PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2012a) –, favorece a percepção da ocorrência de mais uma das
características dos processos de gentrificação: a mudança da ordem fundiária.
Ressalta-se que, além das melhorias advindas da reestruturação do Vetor
Norte da RMBH, a modificação do ambiente construído e da paisagem urbana da
AEVN foi facilitada pelo zoneamento estabelecido na legislação urbanística municipal
vigente274, posto trataram-se de áreas cujos coeficientes de aproveitamento do solo
(CA)275 eram favoráveis ao crescimento e ocupação. Os parâmetros mais permissivos

273
“Recentemente, a revista Exame (n°12, p. 29-41, 2010) encomendou ao instituto Ibope Inteligência
uma abrangente pesquisa sobre o mercado imobiliário brasileiro, que constatou que o país teve a
terceira maior alta do mundo no valor dos imóveis no último ano (de junho de 2009 a junho de 2010),
atrás apenas de Hong Kong e Singapura (Exame, 2010). Aspectos demográficos favoráveis, como o
aumento percentual da população em idade ativa (PIA) e a existência de novos arranjos familiares, o
crescimento econômico do país e a maior oferta de crédito explicam o aumento acelerado da demanda
por imóveis no Brasil” (Sathler et al, 2011, p. 15).
274
Com as alterações procedidas pela Lei Municipal nº 8.137/2000 no Plano Diretor (Lei nº 7.165/1996)
e na Lei de parcelamento, ocupação e uso do solo (Lei n° 7.166/1996), o zoneamento da AEVN,
composto predominantemente por Zona de Adensamento Preferencial (ZAP), teve seu coeficiente de
aproveitamento aumentado de 1,0 para 1,7, excetuando a área central da AEVN, denominada como
Zona Central de Venda Nova (ZNCV), cujo coeficiente passou a ser igual a 2,0.
275
“Art. 45 - O potencial construtivo é calculado mediante a multiplicação da área total do terreno pelo
Coeficiente de Aproveitamento Básico do zoneamento em que se situa” (BELO HORIZONTE, 1996b).
245

dos potenciais construtivos da zona central da AEVN e dos bairros adjacentes,


constituindo, assim, um importante atrativo para investimentos imobiliários na região.
A (re)produção do espaço da região é catalisada pela crescente verticalização
das edificações, cuja emergência se configura como resultado da multiplicação do
solo urbano e de sua valorização estratégica pelas múltiplas frações do capital –
fundiário, imobiliário, produtivo e financeiro –, “de acordo com o seu melhor e mais
alto uso” (SOMEKH, 1997, p. 113). Nessa vertente, os lançamentos mais recentes
correspondem a condomínios verticais de grande porte, com conjuntos de blocos de
até 15 pavimentos e áreas de uso coletivo, edificados por incorporadoras/construtoras
de renome nacional/regional (MRV, Tenda, Rossi, Direcional, etc.)276 que, até então,
eram pouco ou nada atuantes na AEVN (PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO
HORIZONTE, 2012a).
Tais empreendimentos contam com infraestrutura de lazer completa (salão de
festas, espaço gourmet, churrasqueiras, playground, quadras esportivas, salão de
jogos, redário, etc.), portaria 24 horas, guarita, elevador, áreas verdes, gazebo, entre
outras amenidades, que destoam dos antigos conjuntos edilícios da região. Tais
elementos, em última análise, denotam a intenção de atrair um público consumidor de
maior renda, como forma de colher um superlucro nas áreas em transformação.
Estas novas tendências incluem a utilização de estratégias de divulgação que
associam os empreendimentos residenciais ao desenvolvimento do Vetor Norte da
RMBH e à proximidade com o CAMG, a “Linha Verde”, o Shopping Estação, etc.
(Figura 19), criando uma imagem coletiva e um senso comum acerca das localizações
metropolitanas. De maneira que esta nova imagem progressivamente se transforma
“em novos desejos de consumo, gerando uma demanda ditada pela lógica do
mercado” (COSTA; MENDONÇA, 2010, p. 9).
São, portanto, vários os fatores que influenciam a verticalização da AEVN:
escassez de terrenos para novas edificações nas demais Regiões Administrativas do
Município; a reestruturação produtiva do Vetor Norte da RMBH, que desperta o
interesse dos mercados imobiliário e consumidor; os preços mais baratos da terra e
os potenciais construtivos mais elevados.
Assim, a expansão do mercado imobiliário na AEVN, com a provisão de
moradias de maior padrão construtivo em conjuntos verticais segregados, acaba por

276
Construtoras e incorporadoras que se especializaram na produção de unidades residenciais para
as faixas de renda média da população.
246

acirrar históricas desigualdades socioespaciais ao tornar mais difícil o acesso a um


imóvel pelas camadas de baixa renda (ALMEIDA, 2009; COSTA; MENDONÇA, 2010).

Figura 19 – Vista do CAMG e de parte da AEVN no ano de 2015

Fonte: Google, 2015


Nota: Ao fundo, detalhe do CAMG, às margens da “Linha Verde” e do traçado, em amarelo, delimitando
a AEVN. Abaixo, à direita, dos novos condomínios verticalizados, nas proximidades do Shopping Norte.
Abaixo, à esquerda, visualizasse parte da Avenida Vilarinho.

Nessas condições, a análise da dinâmica de ocupação e uso do solo na AEVN,


bem como a evolução das tipologias habitacionais e respectivos padrões construtivos,
merece maior atenção, dada à recente alteração das características tradicionais de
moradia da população local, como ilustram as imagens da Figura 20.
247

Figura 20 – Empreendimentos Imobiliários Recentes das Principais


Incorporadoras/Construtoras

Fonte: Elaborado pelo autor com ilustrações de publicidade de empreendimentos extraídos de Rossi,
(2015) e Tenda (2015)
Nota: As quatro primeiras ilustrações referem-se a condomínios edilícios da construtora e incorporadora
Rossi e as 2 últimas a empreendimentos residenciais da Tenda. Todos localizados na AEVN e
entregues no ano de 2013.
248

De acordo com os dados cadastrais do Imposto Predial e Territorial Urbano


(IPTU) da Secretaria Municipal Adjunta de Arrecadação (SMAAR), até o ano de 2005,
a AEVN apresentava o registro de 7.914 imóveis edificados, dos quais 6.984 (88,25%)
eram residenciais. Dentre estas 6.984 residências: (i) 4.584 (65,64%) eram
constituídas por casas; (ii) 1.495 (21,41%) por apartamentos e (iii) 905 (12,96%) eram
integradas por barracões. Salienta-se que grande parte desses apartamentos foram
edificados a partir de 1987 e que a construção de mais de 50% das casas data de
período anterior ao ano de 1981 (GOMES, 2008).
Nota-se, então, que, a partir de 2005, o padrão da tipologia construtiva dos
imóveis residenciais localizados na AEVN sofre expressiva alteração, passando a
haver uma predominância de construção de condomínios edilícios na região. Entre os
anos de 2005 e 2013, houve o acréscimo de 1.329 imóveis na AEVN, dos quais 1.185
(89,16%) destinavam-se à habitação.
Diferentemente do período anterior (até 2005), os novos 1.185 imóveis
residenciais construídos na região eram constituídos por: (i) 153 (12,91%) casas; (ii)
1.019 (85,99%) apartamentos e (iii) apenas 13 (1,1%) barracões. Tais números
revelam o significativo aumento de unidades condominiais verticalizadas, em
detrimento do padrão horizontalizado e unifamiliar das residências adotado
majoritariamente até então. Pode-se notar, ainda, uma redução percentual na
construção de barracões, quando considerada a totalidade das unidades imobiliárias
edificadas no período.
Nesse sentido, a dinâmica do mercado formal de produção habitacional da
AEVN demonstra uma alteração da tipologia de ocupação da área. Antes,
predominantemente horizontalizada, com residências unifamiliares. E agora, em
função das melhorias urbanas advindas da reestruturação econômico-espacial do
Vetor Norte da RMBH, constata-se uma alteração na configuração imobiliária da
região. Em última análise, o gradativo processo de verticalização da AEVN evidencia
a atuação do capital imobiliário na produção de mais-valias fundiárias.
No Quadro 9, estabelece-se uma comparação entre a composição imobiliária
da AEVN até o ano de 2005 e as unidades acrescidas ao quadro imobiliário da região
no período compreendido entre 2005 e 2013.
249

Quadro 9 – Estoque imobiliário da AEVN e respectiva tipologia construtiva

ESTOQUE IMOBILIÁRIA DA AEVN ESTOQUE IMOBILIÁRIO DA AEVN


ATÉ 2005 2005-2013
TIPOLOGIA UNIDADES TIPOLOGIA UNIDADES
Apartamento 1.495 Apartamento 1.019
Barracão 905 Barracão 13
Casa 4.584 Casa 153
Loja 627 Loja 65
Sala 78 Sala 54
Galpão 201 Galpão 18
Vagas Comerciais 21 Vagas Comerciais 6
Vagas Residenciais 3 Vagas Residenciais 1
Total de imóveis edificados 7.914 Total de imóveis edificados 1.329
TOTAL DE IMÓVEIS NA AEVN: 9.929
TOTAL DE IMÓVEIS EDIFICADOS: 9.243
TOTAL DE LOTES VAGOS: 686
Fonte: Elaborado pelo autor a partir do banco de dados do IPTU – SMAAR, Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, 2014

Além da significativa alteração na tipologia dos imóveis edificados na AEVN,


houve um aumento qualitativo nos padrões construtivos das edificações residenciais
e comerciais. A inflexão no mercado imobiliário da região, tanto em relação à tipologia
das novas construções, quanto em relação à qualidade dos empreendimentos, torna-
se mais evidente após o ano de 2005. Justamente depois dos anúncios de instalação
de grandes equipamentos na região.
Os dados cadastrais do IPTU permitem avaliar as características construtivas
(tamanho, tipos de estrutura, revestimento e acabamento, etc.) e tipos de
equipamentos dos imóveis residenciais (estacionamento, vagas de garagem, guarita,
hall privativo, interfone, play ground, piscina, elevador, portão eletrônico, gás
canalizado, etc.), bem como dos imóveis comerciais (ar condicionado central,
auditório, escada rolante, estacionamento rotativo para clientes, garagem, entre
outros).
De acordo com a metodologia cadastral da Secretaria Municipal Adjunta de
Arrecadação (SMAAR), da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), os imóveis
são enquadrados, segundo suas características, nos padrões de acabamento: P1, P2,
P3, P4 e P5, em que P1 representa a padronização qualitativamente mais baixa e P5,
por conseguinte, a mais alta (com melhores condições construtivas e de acabamento).
Atualmente, a classificação da edificação, para fins de lançamento do IPTU, é feita
250

em conformidade com a escala de pontos prevista na Lei Municipal nº 9.795/2009 –


que alterou a política tributária do imposto.
Observa-se que até o ano de 2005, os imóveis edificados possuíam padrões
construtivos majoritariamente tipificadas como de classe P1 (22,14%) e P2 (55,89%),
representando, juntos, 78,03% do total de imóveis residenciais e comerciais
edificados. Após o ano de 2005, nota-se uma relevante melhora qualitativa dos
imóveis construídos na região, com a predominância de edificações padrão P3
(85,93%) e um sensível acréscimo de imóveis com alto padrão construtivo, cujas
características são classificadas como P4 (7,07%) e P5 (0,08%). O processo de
renovação do parque imobiliário resulta, então, numa considerável diminuição dos
imóveis com padrões construtivos inferiores, de classe P1 (2,48%) e P2 (4,44%), como
demonstra o Quadro 10.

Quadro 10– Estoque imobiliário da AEVN e respectivo padrão construtivo


ESTOQUE IMOBILIÁRIO DA AEVN ESTOQUE IMOBILIÁRIO DA AEVN
ATÉ 2005 2005-2013
PADRÃO PADRÃO
UNIDADES (%) UNIDADES (%)
CONSTRUTIVO CONSTRUTIVO
P1 1.752 22,14% P1 33 2,48%
P2 4.423 55,89% P2 59 4,44%
P3 1.644 20,77% P3 1.142 85,93%
P4 93 1,18% P4 94 7,07%
P5 2 0,03% P5 1 0,08%
Total 7.914 Total 1.329
TOTAL DE IMÓVEIS NA AEVN: 9.929
TOTAL DE IMÓVEIS EDIFICADOS: 9.243
TOTAL DE LOTES VAGOS: 686
Fonte: Elaborado pelo autor a partir do banco de dados do IPTU – SMAAR, Prefeitura Municipal de
Belo Horizonte, 2014

Segundo a percepção dos moradores entrevistados nesta pesquisa, por toda a


AEVN verifica-se uma melhoria generalizada do padrão construtivo dos imóveis, tanto
pela demolição de casas antigas e sua substituição por novas habitações, quanto pela
utilização dos terrenos ainda disponíveis na região. A consolidação de uma nova
morfologia em AEVN (Figuras 21 e 22), desenhada pelos negócios imobiliários
(grandes torres residenciais, instalação de novos comércios e serviços), é geralmente
relacionada aos grandes equipamentos da reestruturação produtiva do Vetor Norte:
251

Figura 21 – Vista do bairro Cenáculo no ano de 2006

Fonte: Google, 2015

Figura 22 – Vista do bairro Cenáculo no ano de 2015

Fonte: Google, 2015

Muita gente, um pessoal que tinha um poder aquisitivo menor tinha um lote,
aí valorizou. Então: vamos vender! Aí vem uma construtora, por exemplo, e
oferece uma grana boa. Aí ele vende, aí constrói um prédio. Igual, aqui é
cheio de prédio. Antigamente só tinha casinha. Foi antes da Cidade
Administrativa [que passou a ter prédios]. Mas depois da Cidade
Administrativa aumentou muito. Tem aqui na [Avenida] Vilarinho, aqui perto.
Tem um condomínio grande no terreno que era do Cenáculo. [...]. Perto do
252

Shopping Norte também. Então, sempre você está vendo propagandas:


compre seu apartamento a tantos quilômetros da Cidade Administrativa.
Então, tudo eles usam a Cidade Administrativa pra atrair o público. [...]. Hoje
tem a Tenda, tem a MRV. [...]. Um pouco antes da Cidade Administrativa já
começaram a construir [prédios]. [...]. O Cenáculo era casa de oração, onde
mora as irmãs. Casa de retiro. Só tinha o Cenáculo num terreno enorme. Com
esse desenvolvimento, as irmãs venderam. [...]. Chega a construtora e
oferece [dinheiro para a compra]. Aí fizeram vários blocos. [...]. Acho que são
5 andares cada um. E aqui, na Vilarinho aqui, próximo. Que também faz parte
do terreno das irmãs, construíram um prédio até com elevador. Vários blocos
também, com sacada, cobertura, área de lazer. Esses prédios são para
pessoas com uma renda maior [Figura 23]. Não alta, né. Mas, é, classe média
boa. Essa região aqui não tem [Condomínios do Programa] Minha Casa,
Minha Vida. O pessoal que adquire não é pessoal de baixa renda. Outra coisa
que mudou, né. O pessoal que adquire imóvel por aqui é um pessoal que tem
uma condição melhor financeiramente. [...]. O pessoal que tá morando aqui,
o nível econômico, melhorou muito (MA-9)277.

Figura 23 – AEVN (Bairro Cenáculo)

Fonte: Foto do autor


Nota: Vista do Bairro Cenáculo. Detalhe da mata do Cenáculo ao fundo. Abaixo, a Estação Venda Nova
- MOVE.

Você vê nos bairros, nas regiões residenciais, é, os empreendimentos que


têm tido lá, maiores, são relacionados à construção de prédios, seja prédios
simples ou condomínios, e as casas geminadas. [...]. Faço diferenciação em
relação à condomínio, que tem áreas de lazer e mais de um prédio. Tem as
áreas que têm vários prédios. Tem regiões que tem 1 prédio só. Mas você
pode observar que os imóveis que têm um terreno maior, uma metragem
maior, a tendência é que joguem as casas no chão e levante os condomínios,
os prédios ou as casas geminadas. [...]. Inclusive, o campo que eu jogava
bola é uma prova disso, né. [...] eles acabaram com o campo e fizeram
prédios. [...]. A questão imobiliária cresceu muito. Tem muitos prédios, hoje,
né. Muitos condomínios residenciais. Eu fui olhar um condomínio daquela
construtora Rossi, que é um dos mais novos que tem na região. Que fica ali
na [Avenida] Vilarinho, no bairro Cenáculo, ali. E quando nós fomos olhar,
quando eles estavam em construção. Isso deve ter uns 5 anos, mais ou

277
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 02 jul. 2015.
253

menos. 5-6 anos mais ou menos. Estava em construção, é, na planta, ele


tava custando R$150 mil, já. Hoje, ele custa mais de R$250 mil. Um
apartamento você não consegue comprar por menos que esse valor, um
apartamento no meio do prédio. Então, tá bem caro, se você for comparar.
Eu acredito que isso tudo foi em função dos empreendimentos que chegaram
lá. [...]. A Cidade Administrativa, eu acho que foi que fez com que a região
crescesse mais, valorizasse mais (MA-2)278.

Minha casa, hoje, está em torno de R$500 mil. Já tive oferta [para vende-la],
mas recusei. [...]. Eu não sei se [a intenção] era para morar ou construir
prédio. [...]. Porque, no fundo da minha casa, fica o Retiro das Irmãs que é o
Cenáculo. É uma mata. [...]. E, essa mata do Cenáculo, uma parte dela, as
irmãs venderam para a Construtora Rossi. Ela fez vários condomínios lá.
Inclusive, um apartamentozinho lá, no lançamento, eles estavam vendendo
por R$160 mil, o mais simples. Aí, eles construíram lá, depois compraram
mais uma parte. E a mata delas continuou preservada. Mas lá, imóvel
valorizou demais nos últimos 3 anos. [...]. Tá tendo muito empreendimento
imobiliário. Muita construção. [Antigamente] era mais casa. Agora tá sendo,
você vê, vende uma casa e onde era uma casa estão construindo um prédio.
Quando você vê uma construção, é prédio. Ou então casa geminada.
Inclusive, há 1 quarteirão lá de casa, tinha 1 casa lá que eles venderam o lote
e construíram 6 casas geminadas lá. [O empreendimento da Rossi] é com
área de lazer. Um condomínio muito bem montado, com área de lazer, com
portaria 24 horas. Os outros prédios são mais ou menos nesse estilo.
Inclusive, atrás do Shopping Norte tem 3 torres [Figura 24], lá, tudo nesse
mesmo estilo. Com portaria, bom acabamento. Eu acho que é pra uma
pessoa mais de classe média. Tá tendo essa mudança na região (MR-1)279.

Figura 24– AEVN (Bairro Minas Caixa)

Fonte: Foto do autor


Nota: Vista do Bairro Parque São Pedro. Detalhe do Shopping Norte e da Concessionária Sinal da
marca Fiat.

278
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Betim em 01 jul. 2015.
279
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 01 jul. 2015.
254

Tenho percebido, sim, [a verticalização]. Tem muitos apartamentos agora.


Tem muito mais do que tinha antes. Talvez não tão arranha-céus, assim. Mas
bastante. já olhei preço uma época que eu queria mudar. E, assim,
caríssimos, eu acho. [...]. Então, eu olhei em 2012. 2012-2013, eu tava
olhando porque eu queria mudar. Eu acho, também, por causa da Cidade
Administrativa, o lugar se tornou um pouquinho mais caro, começou a vir
muita gente pra cá. Então, assim, tinha apartamento que era valor de
apartamento de bairro nobre da zona sul. Eu acho que ainda tem, né, claro.
Na época eu fiz essa comparação. [...]. Era apartamento de 2 quartos, que
eu tava olhando. Era para morar sozinha mesmo. Então, eu queria uma coisa
bem simples mesmo. E por isso que eu achei muito, muito caro, assim. Por
ser um apartamento pequeno. Na época, tinha um, que, assim, que eu mais
gostei. Que era um milhão mesmo. É, tava novecentos e tanto. Não [era] no
centrinho [da AEVN]. [...]. Ele não era na Vilarinho, não. Mas, assim, você
atravessa a Vilarinho, aí tem até o Shopping Norte ali [Figuras 25 e 26]. Eles
fizeram uns bem mais bonitinhos ali atrás. Eu esqueci o nome da rua, mas é
atravessando ali pro Shopping Norte. [...]. Atrás ali. Ele custava R$900 mil. O
que eu olhei era um apartamento de 2 quartos, tinha porteiro, área de lazer,
aí tinha piscina. Era um pouco mais chique mesmo. Mas, pelo tamanho,
assim, pela estrutura, eu não achei que merecia os R$900 mil (MA-6)280.

Figura 25 – Vista do bairro Minas Caixa no ano de 2006

Fonte: Google, 2015

280
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 06 jul. 2015.
255

Figura 26 – Vista do bairro Minas Caixa no ano de 2015

Fonte: Google, 2015

A alteração da ordem fundiária da AEVN aliada à evolução das percepções do


mercado imobiliário expressas no mass media e por agentes imobiliários, assim como
a proximidade com os desenvolvimentos mais caros – centro comercial e outras
amenidades, contribui para uma ocupação por classes de rendas comparativamente
mais elevadas (BEAUREGARD, 2010). Como consequência, verifica-se a substituição
de grupos sociais economicamente inferiores, em razão das dificuldades de acesso
advinda da incompatibilidade com seus níveis de renda. Incapazes de arcar com a
pressão imobiliária e com o encarecimento do custo de vida local, a população de
baixa renda acaba se deslocando para periferias mais distantes, seja no próprio
Município, seja na RMBH.

5.4 A alteração da cartografia social da AEVN

Seguindo as transformações de ordem fundiária e espacial do Vetor Norte,


observa-se uma alteração nas características sociodemográficas da AEVN, aferida a
partir dos indicadores do Atlas do Desenvolvimento Humano, do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD. O retrato fornecido pela série
256

histórica do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)281, em sua vertente Municipal


(IDHM), permite a análise comparativa da conjuntura social da AEVN em 2000 –
período, portanto, anterior às intervenções públicas e privadas procedidas na região
–, e a realidade vivenciada em 2010 – como resultado das iniciativas (re)estruturantes
do Poder Púbico.
Inicialmente, para fins de contextualização, apresentam-se os indicadores
correspondentes à RMBH, ao Município de Belo Horizonte e às suas respectivas
Regiões Administrativas, de modo a permitir a comparação da evolução da AEVN
frente às demais localidades no tocante aos índices de desenvolvimento humano e
aos subíndices que o compõem (relativos às dimensões renda282, educação283 e
longevidade284). O panorama do desenvolvimento humano e da desigualdade
existente entre tais localidades refletem as informações disponibilizadas nos dois
últimos Censos Demográficos do IBGE – 2000 e 2010.
Como se observa no Quadro 11, em 2000, a RAVN, juntamente com a Região
Barreiro, apresentou o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)285
dentre as Regiões Administrativas. Índice não só inferior à média geral do IDH
municipal, como abaixo da média alcançada pela RMBH. Nesse período, o índice
apresentado pela AEVN foi de 0,684, superando não só o índice da RAVN, como à
média obtida pela RMBH.
Por sua vez, em 2010, a RAVN apresentou uma evolução no IDHM (0,755),
superando, aqui, os índices apresentados pelas Regiões Norte e Barreiro. Relevante
ressaltar que o IDHM da RAVN foi o que mais apresentou crescimento, no período
2000-2010, dentre todas as localidades mencionadas no Quadro 11. Havendo,

281
Desenvolvimento verificado com enforque nas pessoas, introduzindo valores humanistas e
humanizadores na análise dos territórios, como contraponto ao desenvolvimento centrado apenas no
crescimento econômico – PIB (Produto Interno Bruto) –, ou na capacidade de renda e consumo. Os
indicadores do IDH foram construídos a partir dos Censos Demográficos do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) de 2000 e 2010 (KOGA, 2011; PNUD; Ipea; FJP, 2013, 2015).
282
O IDHM-Renda é obtido a partir do indicador Renda per capita, mediante a seguinte fórmula: [ln
(valor observado do indicador) - ln (valor mínimo)] / [ln (valor máximo) - ln (valor mínimo)], onde os
valores mínimo e máximo são, respectivamente, R$8,00 e R$4.033,00 (a preços de agosto de 2010)
(PNUD; Ipea; FJP, 2015).
283
O IDHM-Educação é obtido através da média geométrica do subíndice de frequência de crianças e
jovens à escola (peso de 2/3), e do subíndice de escolaridade da população adulta (peso de 1/3)
(PNUD; Ipea; FJP, 2015).
284
O IDHM-Longevidade é obtido a partir do indicador esperança de vida ao nascer, através da fórmula:
[(valor observado do indicador) - (valor mínimo)] / [(valor máximo) - (valor mínimo)], onde os valores
mínimo e máximo são 25 e 85 anos, respectivamente (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
285
“O IDHM é um número que varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento
humano de um município” (PNUD; Ipea; FJP, 2013, p. 27).
257

inclusive, a redução da diferença entre o seu IDHM e o IDHM da Região Centro Sul.
A dinâmica evolutiva da RAVN aplica-se igualmente à AEVN, cujo IDHM, em 2010, foi
de 0,765286. Índice, portanto, superior à média global da RAVN.

Quadro 11 – Índice de Desenvolvimento Humano da AEVN, das Regiões


Administrativas de Belo Horizonte, de Belo Horizonte e da RMBH (2000-2010)
IDHM IDHM
IDHM IDHM RENDA
LOCAL LONGEVIDADE EDUCAÇÃO
2000 2010 2000 2010 2000 2010 2000 2010
AEVN 0,684 0,765 0,685 0,735 0,809 0,860 0,577 0,709
Barreiro 0,660 0,744 0,665 0,720 0,795 0,852 0,544 0,672
Centro-Sul 0,849 0,914 0,952 0,995 0,868 0,933 0,741 0,823
Regiões Administrativas

Leste 0,739 0,827 0,772 0,830 0,839 0,910 0,623 0,748


Nordeste 0,722 0,801 0,747 0,800 0,834 0,895 0,605 0,719
Noroeste 0,749 0,818 0,773 0,811 0,841 0,907 0,646 0,744
Norte 0,664 0,754 0,677 0,733 0,807 0,862 0,535 0,679
Oeste 0,757 0,839 0,807 0,857 0,852 0,910 0,632 0,757
Pampulha 0,766 0,853 0,801 0,859 0,847 0,911 0,663 0,793
RAVN 0,660 0,755 0,676 0,732 0,806 0,860 0,528 0,683
Belo Horizonte 0,726 0,810 0,792 0,841 0,784 0,856 0,617 0,737
RMBH 0,682 0,774 0,737 0,788 0,784 0,849 0,549 0,694
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

Em 2000, a AEVN apresentou ainda: (i) o IDHM-Renda (0,685); (ii) o IDHM-


Longevidade (0,809) e (iii) o IDHM-Educação (0,577). Tais indicadores refletiam a
disparidade da AEVN frente à média dos índices verificados na Região Administrativa
Centro Sul, onde historicamente se verifica a melhor infraestrutura urbana e a maior
concentração de classes mais abastadas.
Em 2010, percebe-se uma evolução nos índices da AEVN, que passaram a ser
de: (i) IDHM-Renda (0,735); (ii) IDHM-Longevidade (0,860) e (iii) IDHM-Educação
(0,709). No tocante à dimensão renda, destaca-se a redução da disparidade entre o
subíndice da AEVN e o da Região Centro Sul. Em relação à dimensão educação,
ressalta-se a melhora do IDHM-Educação da AEVN no período 2000-2010. Havendo,
nesse aspecto, uma significativa redução da diferença existente entre o seu IDHM-
Educação e aquele correspondente à média da Região Centro Sul.

286
Esse valor situa a AEVN na faixa de Desenvolvimento Humano Alto (IDHM entre 0,700 e 0,799).
258

Em geral, verifica-se uma melhora em todos os indicadores da AEVN,


especialmente em relação aos índices de desenvolvimento e educação da população.
Resultados que refletem algumas das mudanças socioespaciais recentes ocorridas
na região.
Conforme os dados do Atlas do Desenvolvimento Humano de 2000 e 2010, o
Quadro 12 apresenta os dados do crescimento populacional da RAVN, do Município
de Belo Horizonte e da RMBH, como forma de compará-los ao crescimento
populacional da AEVN. Destaca-se que, ao contrário do crescimento verificado nas
outras localidades, em particular na RAVN, a AEVN apresentou um declínio
populacional, passando de 30.001 residentes, em 2000, para 28.084, no ano de 2010.
Em termos percentuais, crescimento correspondente a uma taxa média anual de -
0,66%.
Deve-se notar que acompanhando a redução populacional no período em
análise, houve uma significativa redução no indicador de densidade do domicílio287,
concernente à população que vive em domicílios particulares permanentes288. De
acordo com a Quadro 12, a AEVN apresentava um índice de densidade equivalente a
30,34%, em 2000, com significativa queda em 2010, passando a ser de 16,03%.
Tais fatos são relevantes para o objeto em estudo, na medida em que o
processo de gentrificação, em regra, está associado a uma mudança no perfil
populacional da região – com a chegada de novos moradores cujos níveis de renda e
educacional são mais elevados, concomitantemente à redução populacional da área
(MENDES, 2008c).
Por sua vez, o número de moradores e a densidade domiciliar da AEVN
informam o grau de conforto dos moradores e servem como indicadores da alteração
da morfologia das unidades familiares, cujos novos perfis estão relacionados,
geralmente, a jovens casais profissionais sem filhos ou com reduzidos números de
dependentes, normalmente com um capital cultural mais elevado e um nível mais
baixo de capital econômico (CRIEKINGEN, 2006). A diversificação da população
residente na AEVN, misturando grupos desfavorecidos que habitam a região há mais
tempo e os moradores recém-chegados – com perfil distinto, mas que não integram

287
A densidade do domicílio decorre da razão entre o total de moradores do domicílio e o número total
de cômodos usados como dormitório (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
288
Segundo o IBGE (2011, p. 5), o domicílio particular permanente é definido como aquele que “foi
construído a fim de servir exclusivamente para habitação e, na data de referência, tinha a finalidade de
servir de moradia a uma ou mais pessoas”.
259

as parcelas mais ricas da população citadina –, denotaria um quadro de gentrificação


marginal (ROSE, 2010; CRIEKINGEN, 2006; MALHEIROS et al., 2012).

Quadro 12 – População total e densidade domiciliar da AEVN, da RAVN, de


Belo Horizonte e da RMBH (2000-2010)
% DA POPULAÇÃO EM
POPULAÇÃO TOTAL
UGAR DOMICÍLIOS COM DENSIDADE > 2
2000 2010 2000 2010
AEVN 30.001 28.084 30,34 16,03
RAVN 248.122 265.383 34,76 20,93
Belo Horizonte 2.238.514 2.375.151 28,4 17,01
RMBH 4.357.942 4.883.970 33,34 20,45
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

No que se refere à educação da população da AEVN, a análise dos dados


disponibilizados pelo Atlas do Desenvolvimento Humano de 2000 e 2010 resultam
algumas constatações. Em primeiro lugar, as taxas de analfabetismo289 apresentaram
um relevante processo de redução, conforme Quadro 13. De 2000 para 2010, a taxa
de analfabetismo das pessoas de 11 a 14 anos de idade declinou de 0,99% para
0,98%. No grupo etário de 15 a 17 anos este indicador diminuiu de 0,79% para 0,38%.
Na faixa de 18 a 24 anos, o indicador diminuiu de 0,99% para 0,51%. No contingente
de 25 anos ou mais de idade, a taxa de analfabetismo baixou de 5,49% para 3,04%.
Cabe notar a redução mais expressiva dos indicadores relacionados ao grau de
analfabetismo dos grupos etários de 25 a 29 anos e de 25 anos ou mais de idade.

Quadro 13 – Analfabetismo na AEVN, RAVN e Belo Horizonte (2000-2010)

TAXA DE ANALFABETISMO
11 A 14 15 A 17 18 A 24 25 A 29 25 ANOS OU
LUGAR
ANOS ANOS ANOS ANOS MAIS
2000 2010 2000 2010 2000 2010 2000 2010 2000 2010
AEVN 0,99 0,98 0,79 0,38 0,99 0,55 1,10 0,35 5,49 3,04
RAVN 1,74 1,22 1,22 0,83 1,48 0,70 1,71 0,71 7,55 4,47
Belo Horizonte 1,61 1,12 1,31 0,85 1,39 0,62 1,73 0,68 5,82 3,45
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

289
Refere-se à razão entre a população de determinada faixa etária (11 a 14 anos de idade, por
exemplo) que não sabe ler nem escrever um bilhete simples e o total de pessoas nesta faixa etária,
multiplicada por 100 (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
260

Quando considerado o número de total de pessoas de qualquer idade


frequentando o ensino superior (graduação, especialização, mestrado ou doutorado),
em relação à população da AEVN na faixa etária de 18 e 24 anos, o indicador
correspondente à taxa de frequência bruta ao ensino superior aumentou de 9,8%, em
2000, para 32,04%, em 2010, conforme Quadro 14. Em relação à taxa de frequência
líquida290 ao ensino superior, o indicador aumentou de 4,06%, em 2000, para 8,67%,
em 2010. No que concerne ao percentual da população de 25 anos ou mais de idade
que concluiu pelo menos a graduação do ensino superior, o indicador da AEVN
aumentou de 3,96% (2000) para 9,06% (2010), de acordo com o Quadro 14.
A comparação entre os resultados de 2000 e de 2010, além de indicar a queda
da taxa de analfabetismo, reflete, principalmente, a maior possibilidade de acesso à
informação escrita e o aumento do número de residentes na AEVN com níveis de
educação mais elevados. Sendo certo que pessoas com um nível educacional mais
alto têm maior probabilidade de auferir mais renda (CANGUSSU et al., 2010).

Quadro 14 – Frequência/formação no ensino superior da AEVN, da RAVN e de


Belo Horizonte (2000-2010)
TAXA DE TAXA DE % DE 25 ANOS OU
FREQUÊNCIA FREQUÊNCIA MAIS COM
LUGAR BRUTA AO LÍQUIDA AO SUPERIOR
SUPERIOR SUPERIOR COMPLETO
2000 2010 2000 2010 2000 2010
AEVN 9,8 32,04 4,06 8,67 3,96 9,06
RAVN 8,13 34,08 4,13 13,11 3,65 8,48
Belo Horizonte 24,97 56,19 14,96 25,93 15,42 22,93
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

Os resultados referentes ao rendimento mensal da população residente na


AEVN apresentaram sensíveis melhoras (Quadro 15). Quando considerada a razão
entre o somatório da renda de todos os indivíduos residentes em domicílios
particulares permanentes e o número total desses indivíduos, a renda per capita
média aumentou de R$569,00, no ano de 2000, para R$774,82, no ano de 2010291.
Comparativamente, verifica-se que o rendimento dos indivíduos residentes na AEVN

290
Nesse caso, a razão entre o número de pessoas no grupo etário de 18 a 24 anos frequentando o
ensino superior (graduação, especialização, mestrado ou doutorado) e a população total dessa mesma
faixa etária, multiplicada por 100 (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
291
Valores em reais de 01 de agosto de 2010 (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
261

é, ainda, significativamente inferior à média regional de Belo Horizonte, apesar de


permanecer ligeiramente superior à média da renda per capita da RAVN.
Em relação ao 1º quintil mais pobre, a média da renda domiciliar per capita
auferida em 2000 era de R$120,85, já em 2010, o valor passou a ser de R$186,25. A
análise dos rendimentos indicou, ainda, o aumento da média da renda domiciliar per
capita dos indivíduos pertencentes ao quinto mais rico da distribuição dos residentes,
segundo a renda domiciliar per capita. Nesse caso, a importância recebida passou de
R$1.440,67, em 2000, para R$1.984,88, em 2010.
Observados os valores da renda per capita domiciliar média para os estratos
selecionados, nota-se a enorme distância entre as rendas médias do quinto mais
pobre292 e do quinto mais rico dos residentes na AEVN, evidenciando a desigualdade
social existente na área de estudo e nas demais localidades referenciadas. Contudo,
quando considerado o quociente entre a renda média do quinto mais pobre e do quinto
mais rico da AEVN, o valor obtido decresce no período, minimizando a discrepância
na distribuição da renda pessoal. Ainda assim, a renda média dos 20% mais ricos era
11,9 vezes à dos 20% mais pobres, em 2000, passando a ser de 10,6 vezes, em 2010.
Relação de desigualdade pouco superior àquela verificada na RAVN, que era de 12,6
em 2000, passando para 10,3, em 2010.

Quadro 15 – Nível de renda per capita e por estrato da população da AEVN, da


RAVN e de Belo Horizonte (2000-2010)
RENDA PER CAPITA RENDA PER CAPITA
RENDA PER CAPITA MÉDIA DO 1º QUINTO MÉDIA DO QUINTO
LUGAR MAIS POBRE MAIS RICO
2000 2010 2000 2010 2000 2010
AEVN 569,00 774,82 120,85 186,25 1.440,67 1.984,88
RAVN 536,03 759,31 113,03 188,52 1.424,70 1.952,98
Belo Horizonte 1.101,96 1.497,29 130,17 213,50 3621,16 4.865,00
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

A análise da evolução da desigualdade de renda na AEVN revela outros


aspectos quando se observa a parcela da renda domiciliar total apropriada por certos
estratos da população residente, como indicado no Quadro 16. A evolução favorável

292
Renda per capita inferior ao nível mínimo necessário para a satisfação de suas necessidades
básicas e, por conseguinte, à reprodução da força de trabalho, que inclui os custos advindos da
alimentação, da habitação, do vestuário e do transporte (VÉRAS, 2003b).
262

dos rendimentos dos 20% mais pobres (Quadro 15) é corroborada pelo percentual da
renda por eles apropriada, passando de 4,25%, em 2000, para 4,81%, em 2010. O
aumento na apropriação da renda é, também, verificado no percentual apropriado
pelos 40% mais pobres, que passa de 12,75%, em 2000, para 14,32%, em 2010.
O destaque a ser feito refere-se aos 20% mais ricos da AEVN, que passam a
se apropriar, em 2010, de parcela ainda maior da renda domiciliar (51,23%),
comparativamente a 2000 (50,64%). O que, todavia, não ocorre em relação à
população da RAVN e do Município de Belo Horizonte. No caso da RAVN, a parcela
do quinto mais rico passa de 53,16% da renda total para 51,44%, enquanto a parcela
do quinto mais rico de Belo Horizonte reduz de 65,72% para 65%.

Quadro 16 – Percentagem da renda domiciliar apropriada por faixas da


população de AEVN, da RAVN e de Belo Horizonte (2000-2010)
PERCENTUAL DA PERCENTUAL PERCENTUAL
RENDA DA RENDA DA RENDA
ÍNDICE DE
APROPRIADA APROPRIADA APROPRIADA
LUGAR GINI
PELOS 20% MAIS PELOS 40% PELOS 20% MAIS
POBRES MAIS POBRES RICOS
2000 2010 2000 2010 2000 2010 2000 2010
AEVN 4,25 4,81 12,75 14,32 50,64 51,23 0,46 0,46
RAVN 4,22 4,97 12,75 14,41 53,16 51,44 0,48 0,46
Belo Horizonte 2,36 2,85 7,47 8,64 65,72 65,00 0,61 0,60
Fonte: PNUD, Ipea e FJP, 2015

Além da distribuição dos rendimentos, o Índice de Gini293 é um outro indicador


utilizado para o entendimento do grau de concentração dos rendimentos na região em
análise. Embora o Índice de Gini seja comumente utilizado pelo PNUD para cálculo
da desigualdade, a medida descarta os indivíduos que declaram não possuir renda.
Como ressalta Koga,

seu cálculo considera a população com 10 anos de idade ou mais com


rendimento, excluindo os que declaram não possuir renda. Dessa forma,
apresenta-se como um índice excludente, em que o peso daqueles que
potencialmente poderiam ter renda, mas não a têm, não são considerados no
cálculo. Ou seja, a medida da desigualdade não inclui uma faixa significativa
da população que não possui renda e, portanto, não é considerada desigual.
(KOGA, 2011, p. 104).

293
Seu valor é 0 quando não há desigualdade (a renda domiciliar per capita de todos os indivíduos tem
o mesmo valor) e tende a 1 à medida que a desigualdade aumenta (PNUD; Ipea; FJP, 2015).
263

Nesse aspecto, apesar da situação de desigualdade na AEVN não apresentar


mudanças na série histórica – mantendo-se, pois, o mesmo coeficiente de Gini do
período anterior: 0,46 –, o cálculo desconsidera os mais desiguais na medida da
desigualdade (KOGA, 2011). De todo modo, o Índice de Gini correspondente à AEVN,
em 2010, equivale àquele apresentado pela RAVN e é sensivelmente mais baixo em
relação ao apresentado por Belo Horizonte.

5.5 Deslocamentos da população autóctone: alguns relatos

O processo de transformação socioespacial da AEVN está diretamente


associado à implementação dos grandes projetos urbanos vinculados à
reestruturação produtiva do Vetor Norte de Belo Horizonte, sustentada na aliança
firmada entre o Governo do Estado e a Prefeitura Municipal, com o fim de promover o
desenvolvimento urbano regional. E isso se traduz nos investimentos já realizados e
naqueles ainda previstos para a região, consubstanciados na governança urbana
empreendedorista de cunho neoliberal adotada pelo Poder Público (HARVEY, 1989;
2005a).
O urbanismo empreendedor direcionado à organização capitalista do espaço
metropolitano de Belo Horizonte cria ambientes favoráveis a novas condições de
produção, circulação e consumo, abrindo novas frentes para a acumulação urbana
(HARVEY, 1989). Tudo294 em favor dos setores econômicos tradicionais (mineração,
siderurgia, mercado imobiliário, indústria da construção civil, serviços produtivos,
financeiros e de transporte) e de alta tecnologia.
Nesse contexto, a gentrificação passa a ser utilizada como um modelo de
planejamento urbano estratégico, que transforma a paisagem das habitações, do
trabalho, do lazer e do consumo, com o fim precípuo de produzir riqueza (SMITH,
1996; 2007; ARANTES, 2002; LEES et al., 2007; HACKWORTH; SMITH, 2010). Como
numa tabula rasa, a (re)produção do espaço concebido ignora os processos sociais,
a vida cotidiana, os anseios e as demandas dos moradores de baixa renda que ainda
ocupam e utilizam as terras valorizadas (LEFEBVRE, 2006).

294
Isenção de impostos, melhores condições e taxas de financiamento, efetivação de parcerias público-
privadas – PPPs, etc.
264

Nesse aspecto, as classes populares, por vezes, constituem obstáculo à


apropriação do espaço pelos circuitos de valorização do capital. E, nessa condição,
acabam envolvidos em processos de desapropriação, remoção ou despejo
capitaneados pelo Estado, que os expulsam para mais longe (SANTOS JUNIOR,
2014; SANTOS JUNIOR; GAFFNEY, 2015). Num ciclo perene de desenvolvimento
desigual e destruição criativa (HARVEY, 2005a, 2005c, 2011b, 2012, 2013c).
O que se pode observar é que a valorização do espaço resultante das grandes
intervenções urbanísticas e infraestruturais influi diretamente na melhoria do
comércio, dos serviços e na dinâmica imobiliária recente da AEVN. Esta,
caracterizada pela maior verticalização (em detrimento da ocupação horizontal
tradicional – Figura 27); pela melhora dos padrões construtivos e pelo substancial
aumento dos preços praticados no mercado imobiliário – tanto em relação à venda
quanto ao aluguel. Inclusive com a atração de grandes incorporadoras e construtoras
para a região.

Figura 27 – AEVN (Bairro Parque São Pedro)

Fonte: Foto do autor


265

A alteração da morfologia socioespacial da área força o deslocamento dos


grupos de menor potencial econômico para áreas menos desejadas, em que os custos
de vida permitem-lhe a manutenção e sobrevivência (SMITH; WILLIAMS, 2010).
Como resultado, há a ruptura dos laços sociais e o acirramento da segregação
espacial, tanto física quanto simbólica, no espaço urbano.
A partir dos depoimentos dos entrevistados, é possível ilustrar como as
mudanças na AEVN e no Vetor Norte da RMBH, aliadas a outras alterações de ordem
conjuntural, impulsionaram os preços dos imóveis da região, criando uma situação em
que a competição é desigual para moradores que necessitam de imóveis e aluguéis
mais baratos (SILVA, 2006). De forma que a valorização do ambiente construído se
torna determinante na definição do local de moradia dos residentes locais e, também,
daqueles que se deslocaram para aquela região:

A gente ia olhar os preços, aí a pessoa até falava que os preços estavam


daquele jeito, por causa do local, da localização dos prédios, a qualidade é
melhor, perto de alguma coisa melhor, shopping, esses trens assim. E, muitas
vezes, também falavam que a nossa renda não dava pra continuar o
processo, porque era bem menor do que o valor que necessitava. Ou, então,
dava pra gente comprar na planta, mas para entregar daqui 3, 4 anos. Aí
também não compensava (EXM-1)295.

Eu, por exemplo, eu até parei com essa ideia. Eu estava com a ideia, em
2014, de fazer uma aquisição de imóvel. E eu havia feito uma pesquisa no
final de 2013. Quando eu voltei, que eu retornei à Caixa Econômica e falei a
localização, eu levei um choque. Porque tinha subido tanto, mas tanto, mas
tanto, que a minha renda não dava mais. Como não dá até hoje. Porque eu
não pretendo sair dessa região. (..). Era uma diferença, assim, de uns R$20
mil. A diferença de preço. De uns R$20 mil, em menos de 1 ano. Então, eu
engavetei esse projeto, porque eu não quero morar fora da região. Além de
eu gostar muito daqui. A minha vida está toda aqui (MR-6)296.

Na época que a gente comprou, o que motivou a gente escolher, porque tinha
as outras opções dos bairros mais próximos, era o eminente crescimento que
Venda Nova iria ter a partir da construção da Cidade Administrativa. Porque
tinham outros apartamentos em outros lugares, mas, por exemplo, de 3
quartos, com o mesmo valor daqui. Só que eram num lugar que não iria
crescer tanto. [...]. A estrutura aqui de comércio é ótima. Tanto comércio
quanto hospitalar é ampla mesmo. [...]. Eu acho que tudo aqui, até de escola
mesmo, vai nos atender. Futuramente vai nos atender. Eu vejo, a cada dia,
melhorias aqui em Venda Nova [AEVN]. [...]. Eu sou apaixonado com esse
lugar. Eu falo com todos que Venda Nova é o melhor lugar que eu já morei.
A possibilidade, nossa aqui, de crescimento é muita boa, principalmente
porque tem uma unidade do meu serviço aqui perto. Tem um setor da minha
empresa aqui perto, na Estação Vilarinho e na Estação Venda Nova. Então,
o que possibilitaria a minha transferência pra cá e consequentemente a
melhoria na qualidade de vida (MR-5) 297.

295
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 09 jul. 2015.
296
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 30 jun. 2015.
297
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
266

Ao contrário da reestruturação urbana, a gentrificação é um processo lento. No


início, quase imperceptível. Em que, paulatinamente, as mudanças se manifestam na
AEVN, seja pelo aparecimento de novos estabelecimentos comerciais, seja pela
verticalização advinda dos novos condomínios residenciais (Figura 28). Enfim, por
novos pontos de referência da vizinhança, que alteram a morfologia do espaço.
Assim, para além dos beneficiados298 pela transformação socioespacial da
AEVN, busca-se, aqui, identificar aqueles que estão sendo negativamente impactados
pelas intervenções realizadas e previstas para a região. Na medida em que, por conta
da pressão imobiliária, as pessoas carecerão de certo tipo de renda para
permanecerem nesse ambiente em (re)construção.
A valorização do entorno e o estímulo à especulação imobiliária acaba por
provocar processos de “higienização social”. “Higienização” que, mediata ou
imediatamente, “expulsa” as camadas mais pobres da população, cujos rendimentos
mensais não são compatíveis com os novos preços praticados no mercado imobiliário
da região (SMITH, 1996; LEES, 2008, 2010; ATKINSON; BRIDGE, 2005). Como
ressalta uma das moradoras entrevistadas na pesquisa:

Há um deslocamento dos moradores da baixa renda, porque ele não tem


consciência do imóvel que ele tem e está se desfazendo dele. Porque ele não
tem condições, hoje, por exemplo, aquele caso que a gente vê em São Paulo,
tá doando imóvel pra poder pagar o IPTU. Então, houve esse expurgo dessas
pessoas pra outro morador de condições financeiras. Vamos dizer, até de
financiamento de um condomínio residencial. Mas eu tirei aquele casebre e
coloquei uma edificação aprovada, com "habite-se", com imposto, tudo. A
prefeitura ganhou com isso, né. Mudou a renda e a qualificação. E aí vem o
asfalto, [...] aquele lugar melhorou, a igreja melhora, o comércio melhora, todo
mundo melhora. [...]. Tem uma mudança do perfil dos moradores. Uma renda
média, né. São pessoas, é, são pessoas simples. Mas, do que era antes,
melhor. [...]. Tem gente que, historicamente, de família, morava ali, a mãe, o
pai, a bisavô e tudo, e ficaram chateados de deslocar do que era eterno ali.
Mas, em função do crescimento. Aí, na verdade, você por livre espontânea
pressão, você tem que sair. O progresso é em função do benefício de quem?
De muitos. Então, essa situação, [tem] muitas histórias tristes sim. Mas, é o
custo da vida (MA-7)299.

298
Aqui incluídos os proprietários fundiários e imobiliários que, diante da valorização da terra, venderam
seus imóveis a fim de se beneficiarem do superlucro gerado pelas intervenções espaciais. Embora se
reconheça que, nem sempre, o valor obtido pelo proprietário-morador possibilite a aquisição de outro
imóvel na mesma região.
299
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
267

Figura 28 – AEVN (Bairro Venda Nova)

Fonte: Foto do autor


Nota: Condomínio Edilício localizado às margens da Avenida Vilarinho.

Assim, afora os casos em que há o deslocamento direto da população residente


(desapropriação, remoção ou despejo), verificam-se casos de deslocamentos
indiretos – mediatos e imediatos –, na forma de “deslocamento de exclusão”. Primeiro,
ante o avanço do preço da terra (aluguéis e preço de venda) que impede o acesso à
propriedade imobiliária pelos grupos de baixa renda. Segundo, pela exclusão
sociocultural, em decorrência dos custos de vida da região e do enfraquecimento das
relações interpessoais e identitárias, como a quebra das relações de vizinhança, do
sentido de coletividade e da vivência do espaço público (DAVIDSON; LEES, 2005,
2010; LEES et al., 2007; ÁLVAREZ-RIVADULLA, 2007; ATKINSON, 2010).
É de se esperar que, no decorrer desse processo de enobrecimento, a
população com menores rendimentos se esforce para permanecer na área, utilizando-
se de toda sorte de estratégias para se adaptarem aos novos contextos de um
ambiente urbano cada vez mais caro e valorizado. Nesses casos, os resilientes
moradores experienciam os impactos sociais do processo de gentrificação e as
diferentes pressões (econômicas, culturais) que tornam difícil ou desconfortável a
sobrevivência na região. De maneira que, o efeito da gentrificação não se restringe ao
268

deslocamento (“expulsão”) em si, mas, também, as pressões e privações que os


moradores de baixa renda têm de suportar para se manterem na vizinhança
(MARCUSE, 2010).

Se continuar do jeito que tá, vai chegar num ponto que isso aqui vai virar,
como se diz, um bairro de gente só rica. Porque, as pessoas que estão aqui
não vão conseguir manter. Não vão conseguir. [Antigamente], você podia
sair, você podia comprar, é, lanchar na rua, você podia comprar várias coisas.
Hoje em dia não. Você tem que selecionar o local. Porque, eles sabem que
aqui estão, é, vindo mais executivos. Eles sabem, também, que as pessoas
que estão vindo pra cá são pessoas que têm um poder aquisitivo maior do
que as de antigamente. Então, eles estão realmente começando a cobrar por
isso, também. Então, provavelmente vai virar um bairro de gente rico. A não
ser que alguma coisa governamental mude, pra que aí as pessoas voltem,
né. Vamos supor, no meu caso, se surgir alguma oportunidade da gente
voltar, pode ser. Mas, eu acredito que a tendência é valorizar cada vez mais.
[...] Vou te dar um exemplo da minha prima. Essa prima que eu te falei que
comprou um apartamento aqui [Figura 29]. Lá no prédio dela, é, muita gente
querendo alugar. As pessoas que trabalham, os executivos que trabalham na
Cidade Administrativa, eles querem morar perto. A pessoa não quer
atravessar a cidade para poder trabalhar. Ela quer morar perto do trabalho
dela (EXM-2)300.

Figura 29 – AEVN (Bairro Parque São Pedro)

Fonte: Foto do Autor

A partir dos depoimentos dos moradores e ex-moradores da AEVN, é possível


perceber como eles experienciam(ram) o processo de reestruturação da região, as

300
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
269

tentativas de resistência e os subterfúgios que normalmente foram ou são adotados


para mitigarem os danosos efeitos da gentrificação. Tratando-se de um processo de
transformação de longo prazo, os esforços de adaptação e sobrevivência dos
residentes englobam, inclusive, a degradação da sua qualidade de vida. Desse modo,
práticas individuais, e também de cooperação coletiva, são empreendidas com o fim
de evitar o deslocamento e garantir a permanência na região em que nasceram e
cresceram, onde fixaram suas raízes e construíram seus laços afetivos e identitários.
Em relação à aquisição da casa própria, a forte valorização da terra na AEVN
torna-se um fator de exclusão do mercado imobiliário, impossibilitando que os
moradores com menores rendimentos adquiram imóvel na região. Nesses casos,
segundo os entrevistados, pode haver a formação de “comunidades familiares”, em
que o terreno da família é partilhado entre os filhos, pelos genitores, à medida em que
eles constituem novas entidades familiares. Ou seja, a existência de mais de um
domicílio em uma mesma propriedade, com intenso uso horizontal do terreno. Em
regra, a divisão do terreno em lotes é realizada de maneira informal, sem observância
às normas urbanísticas pertinentes.

[Com os novos empreendimentos], eles estão tentando atrair um público que


tem uma renda maior. Porque aqui a gente não tem indústria. [...]. Eles
chamavam aqui até de cidade dormitório, porque todo mundo tinha que sair
de Venda Nova [AEVN] pra trabalhar fora. Então, eu acho, assim, que a
Cidade Administrativa atraiu, né. Um lugar que as pessoas têm possibilidade
de trabalhar e tem um salário que possibilita comprar essas residências. E,
com certeza, muita gente de Venda Nova [AEVN] não vai conseguir comprar
esses apartamentos. [...]. É, imóvel tá muito caro. [...]. O dito
desenvolvimento, às vezes, ele trás um ônus, também, né. Não é só melhoria.
[...]. Algumas pessoas não vão conseguir ficar aqui mais, por causa dessa
valorização. O quê que acontece aqui? As pessoas vão verticalizado assim,
informalmente. Ou, quem tem um lote maior, vai construindo. [...]. De ir
construindo dentro do espaço que tem, como forma de se manter aqui.
Porque se ele for alugar ou comprar, não teria condições financeiras de fazer
isso. [...]. Meu vizinho de frente, os filhos foram casando e construindo, cada
um, uma casa dentro do lote, que era grande. Como não tem essa
fiscalização, que a maior parte da cidade é informal mesmo, não tem o projeto
aprovado, pra ver se as construções ficaram dentro do que a lei exige, né. Aí,
eles vão construindo, assim, um condomínio familiar. Vão construindo.
Absorve um pouco, essa impossibilidade de comprar. Eu acho que todo
mundo teria a intenção de morar fora do lote dos pais. [...]. Eu vejo muito isso
aqui. Porque, nós mesmos, se a gente não tivesse tido condições de comprar
o lote nem aqui. A gente poderia ter construído no lote da minha família ou
da família do Júlio (MA-8)301.

Foram meus pais mesmo. Eles moravam de aluguel e adquiriram esse imóvel
e em seguida eu me casei. [Hoje, eu] moro no imóvel dos meus pais. Ele veio

301
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
270

a óbito e como o imóvel, a área, o território do bairro [...] é muito extenso. Eles
são de 600, 800 e até 1000m², lotes que hoje não se tem, né. Então, lá, ele
executou 6 residências, das quais cada um filho ficou com uma residência.
[...]. Então, eu reformei uma pequena casa que eu morei na minha infância e
transformei ela na minha casa atual. [...]. Eu moro numa residência que é
herança do meu pai. É uma comunidade familiar. [...] E, hoje, também temos
as unidades vagões, que são 6, 7 ou 8 residências num imóvel ou as
chamadas, anteriormente a isso, quando o imóvel não era tão valorizado,
você fazia geminadas, né [Figura 30]. E hoje não. Hoje você faz é um conjunto
habitacional residencial horizontal ou prédio vertical. A divisão do lote entre
membros da família se confirma. E, também, tá tendo, assim, muito mais
desmembramentos. Ou seja, venda de meio lote, 1/3. [...]. Isso seria uma
prática destinada a manter às pessoas em Venda Nova [AEVN], também. E,
também, porque é difícil adquirir outro [imóvel] sozinho. O imóvel tá com um
valor de aquisição muito elevado, né. O valor dele tá muito elevado. Houve
uma supervalorização dos imóveis ultimamente (MA-7)302.

Figura 30 – AEVN (Bairro Europa)

Fonte: Foto do Autor


Nota: Casas geminada com cinco unidades residenciais.

A partilha do terreno é uma tática comum entre as famílias da AEVN, que veem
na construção conjunta uma forma de se manterem próximos dos familiares e não
terem que se mudar para localidades distantes, em razão do crescente preço dos
imóveis. A prática se configura como uma estratégia de manutenção da moradia na
AEVN e, ao mesmo tempo, de postergação do deslocamento relacionado ao processo
gentrificativo.

Nós chegamos a procurar imóvel pra morar em Venda Nova [AEVN]. Apesar
de que, assim, a nossa família, ela é muito antiga lá. Tanto a minha, quanto
a dela. Meu pai mora em Venda Nova [AEVN] tem, deve ter, uns 40 anos ou

302
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 14 jul. 2015.
271

pra mais. Bem mais de 40 [anos]. E o meu sogro também. Então, assim, na
época, quando eles foram pra lá, não tinha nada. Compraram os imóveis, os
lotes, e foram construindo, né. E, naquela época, você comprava era 2 lotes,
né. Então, você comprava 2 lotes de 360 [m²] ou comprava um terreno de
mais de 1000 m². E, eles construíram tudo ali e os filhos acabam que moram,
moravam próximo. Então, nós chegamos a procurar imóvel, sim. Mas, na
época que nós casamos, [...] lá para o ano 2000, no início de 2001, nós
chegamos a procurar imóvel aonde é, hoje, a Estação Vilarinho. E, tava até
bem barato se for comparar com os valores de hoje. [...]. Em 2001, um
apartamento próximo à Estação Vilarinho, do metrô, ele era R$27,5 mil, um
apartamento de 60-70 m². Hoje, ele custa por volta de R$160-R$170 mil. E,
eu não comprei porque na época achei caro. É verdade. Então, acabou que
a gente construiu do lado, num espaço no lote do pai dela. E a gente foi morar
lá. [No lote] que já era da família. [...]. Na verdade, [os imóveis] têm valorizado
muito. Acho que, agora, que deu uma estabilizada no crescimento, né. Mas,
de 15 anos pra cá os imóveis, eles têm subido muito o valor deles. Inclusive
os novos, né. [...]. Pra você ter ideia de como foi a questão da valorização de
imóveis. Quem tem imóvel em Venda Nova [AEVN] não quer vender. Ou
vende assim: eu tenho uma casa num lote grande e você é dono de uma
construtora, eu vou vender pra você minha casa e você ainda vai me dar um
apartamento do prédio. Aí eu vendo (MA-2)303.

Aqui, assim, acho que quase ninguém praticamente vai conseguir morar aqui
perto, né. Assim, pensando na minha infância, nas pessoas com quem a
gente cresceu. Não vejo ninguém morando aqui perto. Só se for morar com
os pais, ou construir na casa dos pais. Ou, sai mesmo. [...]. Porque Venda
Nova [AEVN] tem um valor diferenciado (EXM-5)304.

Há casos em que a permanência dos moradores na região está atrelada a


arranjos familiares em que mais de uma família divide o mesmo imóvel, com ou sem
a divisão das despesas domésticas, em imóveis próprios ou locados. De igual modo,
observa-se o estabelecimento de redes de solidariedade, de amparo e cuidado
mútuos entre vizinhos, amigos e familiares, que se exteriorizam na concessão de
favores que amenizam as pressões imobiliárias enfrentadas pelas camadas de menor
renda (ROLNIK, 1997). Como na locação de imóveis mediante a cobrança de aluguéis
simbólicos e a flexibilização dos encargos, de maneira a viabilizar a moradia e a
permanência dos vulneráveis na vizinhança.

Eu me adaptei [na AEVN]. Eu me mantive lá mais por questão de trabalho.


Pra me manter mais próxima de onde eu trabalho. Porque eu trabalhava,
nesse período, em Justinópolis, Ribeirão das Neves. [...]. Eu procurei um
[imóvel] que coubesse dentro do meu orçamento. E eu consegui um bom
preço. [...]. Então, tanto pra mim, quanto pra pessoa que dividia [o aluguel do
imóvel] comigo, a Região de Venda Nova era estratégica. Porque nós duas
trabalhávamos na região de Ribeirão das Neves. Então, ficava prático. [...].

303
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na cidade de Betim em 01 jul. 2015.
304
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
272

[O valor do aluguel, em 2002] devia ser uns R$300 reais. Era um barracão,
com 2 quartos, sala, cozinha, banheiro e 1 vaga de garagem. [Em 2006, a
entrevistada se mudou para outro imóvel na AEVN, em que o valor do aluguel
era, inicialmente, de R$600 reais]. Nesse imóvel que eu fui já não era só 2,
nós éramos 3. Por isso que a gente pôde locar um imóvel mais caro. [Em
2013, a entrevistada sai da AEVN e passa a residir no Bairro Itapoã, na
Região Administrativa da Pampulha], em virtude do mercado imobiliário ter,
dos preços terem subido muito ao longo do tempo. Mas, eu tinha percebido,
né. Os preços tanto de imóveis quanto de aluguéis estavam ascendentes.
[...]. Na hora de renovar, algumas pessoas se queixavam. Quem tava de
aluguel, né. Elas falavam que tinha imóvel nas mesmas condições, ou em
condições melhores, porém com um preço mais acessível [fora da AEVN]
(EXM-4)305.

Na verdade, como eu morei na casa do meu vizinho de vida toda. Ele fez um
preço, assim, bem camarada pra gente. A luz e a água da gente eram juntas
com a deles. Então, assim, eu não tive muito problema de falar, assim, eu tive
que pagar um aluguel caríssimo em Venda Nova [AEVN]. Mas eu sabia da
realidade. Se eu fosse procurar uma casa ali, se eu fosse pagar realmente o
que devia, eu iria pagar um aluguel bem mais caro. Na época, se eu não me
engano, eu pagava a ele R$300 ou R$400, já com a água e já com a luz. Mas,
tipo assim, aquele preço super, hiper, camarada, porque era vizinho de janela
da minha mãe. Mas, eu tenho plena consciência de que não era esse o valor
que deveria ser cobrado. [...]. [A recente reestruturação urbana da AEVN],
pra mim, impactou na valorização. Valorizou tanto, tanto, que eu, por
exemplo, que gostaria de ficar aqui, eu não consigo mais ficar aqui pelo preço,
o valor dos imóveis. [...]. O que eu vejo que de mais, de melhor trouxe,
realmente foi isso. A valorização pra quem tem. Agora, para as pessoas, igual
eu por exemplo, que quero ficar, eu realmente não consigo (EXM-2)306.

Na verdade, a gente deu muita sorte, porque é uma casa de pessoas


conhecidas e que já tinha gente da família que morava. [...]. Então, a gente
paga um valor totalmente fora da realidade do bairro. Porque a média do
aluguel de uma casa do tamanho da nossa tá mais ou menos R$600. Que é
uma casa de 2 quartos, sala, cozinha, copa e a área de garagem. Atualmente,
o valor é esse. E aí, o nosso [aluguel] é R$450. A minha irmã mora em
Ribeirão das Neves hoje. E também foi [para Ribeirão das Neves] por conta
dos preços do aluguel. Ela tá tentando voltar [para a AEVN]. Inclusive, assim,
de certa forma, ela tem buscado, mas tá difícil. [...]. Estou satisfeita de morar
em Venda Nova [AEVN]. Se eu tivesse condições financeiras eu ficaria no
bairro. O nosso projeto [de aquisição de um imóvel] é para o meio do ano que
vem. Seja para permanecer em Venda Nova [AEVN], seja para ir para
Ribeirão das Neves (MA-4)307.

É de se notar que, mesmo havendo a oportunidade de residirem em local


diverso, com redução dos custos da habitação e dos demais encargos da manutenção
familiar, os moradores resistem à hipótese de deslocarem-se para local diverso da
AEVN. Sobretudo quando consideradas as melhorias recentes. Já que seriam

305
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 06 jul. 2015.
306
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
307
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 01 jul. 2015.
273

privados de fruírem os benefícios que a reestruturação urbana trouxe para a região,


após um longo período de desinvestimento. Ou seja, excluídos das vantagens
coletivas da nova política urbana, a nova infraestrutura e disponibilidade de serviços
irá beneficiar, a princípio, somente os novos moradores da AEVN (BONDUKI;
BONDUKI, 1979; SINGER, 1979).
Como assevera Santos (2007. p. 141), “a localização das pessoas no território
é, na maioria das vezes, produto de uma combinação entre forças de mercado e
decisões de governo”, que independe da vontade dos indivíduos. A reestruturação
espacial, os investimentos em infraestrutura e a regularização da ocupação (inclusive
com o aumento do coeficiente de aproveitamento do terreno) configuram novos eixos
de valorização do solo, delimitando um território social exclusivo para aqueles que
podem pagar (ROLNIK, 1997). Enquanto as classes mais abastadas têm a faculdade
de ocupar as regiões mais privilegiadas da cidade, de acordo com as suas
preferências individuais e respectivas capacidades econômicas, a alta do preço dos
imóveis na AEVN inviabiliza a permanência dos moradores com menores
rendimentos. Então, para se manterem na região, alguns entrevistados utilizam
estratégias e sacrifícios que, buscando contrabalancear a instrumentalização
econômica do espaço, acabam comprometendo a sua qualidade de vida.

Meu marido tem um imóvel, mas a gente ainda tem que construir.
Infelizmente não [é na AEVN]. É no bairro Ribeiro de Abreu. Próximo
ao Ribeiro de Abreu. É um loteamento recente. [...]. Ainda é Belo
Horizonte. [...]. Acho que é nordeste. [...]. Por isso a resistência, um
pouquinho, de fazer a construção lá. Mas aqui está inviável de comprar
um imóvel por enquanto. Ah, os preços são muito altos. Geralmente
apartamento, a gente já tem resistência um pouco com apartamento,
né. E hoje você não compra um imóvel em Venda Nova [AEVN] por
menos de R$500 mil. [...]. Eu gosto de morar aqui. Tem algumas coisas
que me trazem satisfação de estar aqui, né, que é a família. [...]. A
gente vai crescendo junto com Venda Nova [AEVN]. Algumas coisas,
a gente sente mais, e outras parece que já tá conosco. [Meu marido]
não quer ir pra lá [bairro Ribeiro de Abreu], ele quer ficar aqui em Venda
Nova [AEVN]. Mas, por uma questão de continuar pagando o aluguel.
Por uma questão financeira, econômica. [Meu marido não quer se
mudar para o bairro Ribeiro de Abreu], porque ele vê em Venda Nova
[AEVN] todo um progresso que lá no bairro Ribeiro de Abreu não teve
ainda. Aí ele vê o progresso (MA-1)308.

[Aumentou] muito, muito. Tá exorbitante. Não só o aluguel, né, Luciano.


O custo de vida aqui em Venda Nova [AEVN], ele deu, assim, uma
guinada. Uma coisa horrorosa. Como eu sou a mantenedora do lar, eu

308
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 22 jun. 2015.
274

percebo muito isso no supermercado. Percebo muito isso quando eu


vou fazer compras. E a gente vê a diferença até no sacolão nessa
região aqui. Você vai num determinado sacolão aqui na região é um
preço, quando você sai do território aqui, você atravessa um certo
limite, você entra num certo limite, você vê que a mesma verdura, as
vezes o mesmo sacolão, que tem uma outra loja mais distante um
pouquinho, o preço é diferenciado. [...]. Quando eu entrei em 2008, eu
pagava R$250 reais [de aluguel]. Hoje, eu pago R$600. [É um
apartamento] de 2 quartos. É, R$220, o meu primeiro recibo é de
R$220. Hoje eu pago R$600. [Nesse período], fui tirando tudo que
podia tirar, né. Eu tive que fazer uma readaptação da minha vida para
eu não perder qualidade de vida. Então, eu não tenho mais na minha
casa telefone fixo, tv a cabo e internet. Para conseguir continuar
pagando aluguel, honrando meus compromissos, né, e conseguir
manter o meu filho na faculdade. Porque na UFMG ele tem que pegar
ônibus e tem que almoçar lá, porque não pode levar. E pra mantê-lo e
a gente não perder qualidade de vida. Continuar alimentado, vestindo.
Tem que cortar. Então, eu tenho o quê, o celular, né. E eu não tenho
um plano assim. Quando dá eu ponho crédito [pré-pago], quando não
dá, fica sem. E a gente vai levando. Então, assim, a gente teve que
cortar mesmo, que readaptar tudo. [...]. Aqui em Venda Nova [AEVN]
não acha mais barato que isso não. Não acha. O preço lá tá excelente.
Excelente. Os outros aqui [...] já é R$900, R$850. [...]. Olha, se
chegasse ao ponto de eu não conseguir [pagar o valor do aluguel], eu
teria que pensar. Sabe por quê, Luciano. Como eu não tenho a casa
própria, a passagem é muita cara e o Estado não me dá dinheiro da
passagem, eu teria que fazer o que eu fiz. O quê que eu fiz pra mudar
pra cá? Eu pus o valor que eu gastava pra vir do São Francisco pra cá
no papel e procurei aluguel. E o quanto ficou, eu vi que compensava
eu vir. Então, se isso acontecesse, eu teria que fazer novamente essa
conta. Compensa eu ir para um bairro e gastar tanto ou compensa eu
continuar e... você está entendendo? Porque a passagem, realmente,
ela tá muito cara. Então, se de repente, ficasse abaixo eu mudaria.
Senão, eu continuaria aqui e readaptava. E vai readaptando. Aí a gente
vai ter que cortar coisa básica, né, carne. Comer carne 2 vezes por
semana. Aí a gente vai fazendo é isso, né. Fazer o quê? (MR-6)309.

O conflito entre o valor de uso da terra almejado pelo residente e o valor de


troca emanado da mercantilização do espaço, em regra com a primazia do segundo
(LEFEBVRE, 1972; SANTOS, 2011), faz com que a permanência do domicílio na
AEVN se converta em um autêntico ato de resistência: resistência contra à
especulação e contra à valorização imobiliária. Nesse contexto, a ausência de
deslocamento direto da população original de baixa renda não implica na inocorrência
do fenômeno da gentrificação na área de estudo. Por se tratar de um processo de
longo prazo, o deslocamento em si configuraria o resultado último do fenômeno,

309
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 30 jun. 2015.
275

significando que os antigos moradores perderam a batalha para se manterem no local


onde se encontram suas raízes (DAVIDSON; LEES, 2010).

Se for pensar, eu fui expulsa né. [...]. Quem não tem condições, tem que sair
mesmo, né. Não tem condições de ficar e de se manter. E tá alto [o custo] pra
se manter, principalmente aqui para o lado de Venda Nova [AEVN], na região
de Venda Nova mesmo, fica caro você morar aqui. Então, ou você sai para
os bairros um pouco mais distantes [do centro] de Venda Nova [AEVN] ou vai
pra fora mesmo (EXM-5)310.

Na realidade, eu não queria sair de Venda Nova [AEVN], não queria, não
queria, não queria. Bati o pé que eu não queria. Só que a gente começou a
achar imóveis, no valor que a gente poderia pagar, muito ruins. Imóveis muito
velhos, que a gente teria que fazer uma obra muito grande. Então eu comecei
a ver que não compensa. Aí a gente começou a olhar mais afastado um pouco
de Venda Nova [AEVN]. O mais próximo que a gente achou foi esse que a
gente comprou. Tanto é que quando eu fechei negócio, eu acreditava que lá
era Belo Horizonte. Eu não sabia que já era Ribeirão das Neves, que é bem
na divisa mesmo. Eu não sabia. Aí eu falei assim, não, então aqui pra mim tá
ótimo. Porque lá também é bem fácil. Tanto é que gasta 10 minutos pra
chegar aqui [no local de trabalho]. O acesso lá é bem fácil pra essas coisas.
Mas eu queria realmente em Belo Horizonte. A gente achou um pouco assim,
a questão do tempo só de locomoção (EXM-2)311.

Venda Nova [AEVN] cresceu muito. Haja vista à questão da especulação


imobiliária. [...]. Então, essa questão de Venda Nova ser um local muito pobre,
onde abrigava pessoas de baixa renda, isso tá mudando com o tempo, em
virtude do crescimento da região. Eu tenho uma prima, que casou há pouco
tempo. [...]. Ela foi criada ali. Quando ela casou, [...], eles não tiveram
condições de comprar em Venda Nova [AEVN]. Eles compraram um terreno,
uma casa, na região de [Ribeirão das] Neves. Porque, o desejo deles era
comprar ali, mas não tiveram condições de comprar em virtude desse
crescimento. E eles casaram após a ida do Centro Administrativo. Depois de
2008. Então teve esse crescimento violento na área e no valor do imóvel.
Então, minha prima mora em Ribeirão das Neves. Mas a vida dela está
totalmente ligada à Venda Nova [AEVN]. Ela trabalha em Venda Nova
[AEVN]. Tudo lá. Certa vez, ela comentou isso: que ela vai em casa pra dormir
e volta (MR-3)312.

Alguns dos moradores que se mudaram da AEVN ressaltam, em seus relatos,


o forte vínculo com o local de morada originário, a ponto de manterem antigos hábitos
e permanecerem frequentando a região em que estabeleceram suas relações sociais.
Ou seja, os “lugares” que, segundo Augé (2005), integram suas respectivas histórias,
suas lembranças e que, carregados de simbolismos, são resultado de suas vivências
pessoais – o “espaço vivido” (LEFEBVRE, 2006).

310
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
311
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
312
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 01 jul. 2015.
276

“Dessa forma, o nomadismo dos desterrados, desalojados, só seria aceitável


se fosse opção”. Mas, em inobservância ao direito de ir, vir e, sobretudo, permanecer
do cidadão, não é isso que tem ocorrido, dada à voragem do capital imobiliário em
remodelar essa área da cidade (VÉRAS, 2010, p. 89). Como resultado, há pouca ou
nenhuma inter-relação com o local para o qual os entrevistados emigraram, nem
esforço para a formação de novas redes de sociabilidade na comunidade. Falta-lhes,
portanto, o sentimento de pertinência ao lugar, ao território, enquanto espaço
identitário e de memória (VÉRAS, 2003a).

A gente mora num condomínio novo. Então, no meu prédio, se eu não me


engano, tem umas seis pessoas só morando. [...]. A gente não construiu essa
relação [de amizade] ainda. Os do meu andar a gente pelo menos sabe,
assim, né, quem é, tal. Mas não tem aquela relação de amizade ainda não. A
gente só sabe o nome, cumprimenta e tal. [...]. Então, eu não tenho muita
relação com eles lá. E, no início, também, foi meio que gradual. Porque, igual,
morei do lado da casa da minha mãe. Aí, eu praticamente eu almoçava lá. Aí,
depois, passei a morar aqui, mas, como pra mim é bem mais fácil ficar no
centro de Venda Nova [AEVN], eu almoçava na minha mãe, tomava café na
minha mãe. De lá, eu já ia pra faculdade e só ia pra casa dormir. Porque muito
mais fácil pra mim ali. Aí, minha mãe mudou. Minha mãe foi para o interior.
Foi para Matozinhos. Não mora mais aqui. Aí, pra mim, que eu senti a
diferença de locomoção. Então, tem dia que eu nem vou em casa. Tem dia
que eu almoço na rua, por facilidade. [...]. Eu prefiro ficar onde que eu tô, do
que voltar em casa, pra ter que voltar. [...]. Aí eu senti mais. Mas, realmente
foi gradual. Primeiro eu mudei de casa, depois eu passei a só almoçar na
casa da minha mãe, aí, agora, por último, é que eu vou pra minha casa todos
os dias. [...] Tudo eu continuo fazendo em Venda Nova [AEVN]. Porque lá
[onde moro] realmente não tem. [...]. Então, pra mim, é tudo envolvido aqui,
meu trabalho, as compras, tudo. O que eu posso fazer aqui, pra mim é bem
mais fácil (EXM-2)313.

Então, nós namoramos 9 anos, né. E aí, imóvel aqui em Belo Horizonte, para
o lado de Venda Nova [AEVN], [era] muito caro. [Eu] tinha uma amiga que
sempre estudou comigo e ela foi morar nesse bairro chamado Severina. É
um bairro novo de Ribeirão das Neves. Não é um bairro muito antigo e não é
tão longe. Eu lembro que eu fui na casa dela, gostei do bairro e falei com ele
[esposo]: nossa, vamos lá pra você conhecer! [Ele] gostou também, nós
compramos o lote, construímos e fomos morar em Ribeirão das Neves. [O
bairro] fica no meio termo, ele divide Belo Horizonte, Venda Nova e
Vespasiano. [...]. [Na época], procuramos lote em Venda Nova [AEVN]. Mas,
eu lembro que era bem mais caro. Bem mais caro. Sim, sim, bem mais caro.
[...]. Eu falo que lá é só pra dormir. E minha mãe fala também. Que lá é pra
eu dormir. [...]. Então, assim, a gente fica aqui o dia inteiro, aí eu vou embora
pra dormir mesmo. [...]. Praticamente todos os dias. [...]. Quando eu fui morar
lá, lá não tinha correio, lá não tinha lixeiro. Então, assim, é um choque muito
grande, né. [...]. Aí eu não mudei nada, meus endereços todos são daqui. [...].
Eu ainda não me desvinculei daqui [da AEVN] e acho que nem vou me

313
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
277

desvincular. Até porque, também, minha família é muito unida, todo mundo é
daqui de Venda Nova [AEVN] (EXM-5)314.

Importa considerar que, apesar da mudança para região diversa, os moradores


emigrantes são enfáticos ao manifestarem o desejo de tornar a residir na AEVN. Os
relatos expressam um sentimento de não pertencimento ao local de destino, uma
sensação de desconforto por não estar próxima dos seus familiares, da sua
vizinhança, da sua “história”. Numa perspectiva de permanência transitória no atual
domicílio, a depender de uma oportunidade para retornarem ao seu território
identitário, ao espaço onde inscreveram sua história. Envoltos “num nomadismo sem
direito às raízes” (VÉRAS, 2003a).

Mudaria, com certeza. Sem pensar 2 vezes, sem pensar 2 vezes. Voltaria [a
morar aqui], com certeza. Sinto [muita falta]. Falta assim, é porque eu cresci,
um perto do outro, vizinho dentro da casa da gente. Os meus vizinhos são os
meus padrinhos de casamento, são os meus padrinhos de batismo, são os
meus padrinhos de consagração. Todo mundo. Eu sou madrinha das crianças
hoje em dia, que tá com 13, 14 anos. Eu sou madrinha delas. Então, é um
convívio muito legal que teve, assim, pelo menos da minha, da nossa parte.
Foi um convívio muito legal. Então, isso, pra mim, eu sinto falta. Então, se eu
pudesse voltar, eu voltaria. (..). Às vezes eu posso até conseguir, né. Eu tô
lutando bastante pra ver se eu consigo. Mas, no momento, eu queria ficar no
centro [da AEVN] e eu não consigo (EXM-2)315.

Eu queria ficar em Venda Nova [AEVN]. E não ficamos por conta da questão
financeira. [...]. Meu sonho ainda é voltar pra Venda Nova [AEVN], pra Belo
Horizonte. Eu falo: eu quero morar em Belo Horizonte! Eu tô cansada de
morar em Ribeirão das Neves! [...]. [Mas], tem hora que eu acho que ele [o
sonho de residir na AEVN] está tão distante, ele está tão longe. [...]. Eu falo
que eu sou venda-novense, né. Então, assim, eu fico aqui de carteirinha. [...].
É uma ideia, assim, de morar mesmo e de gostar. É o lugar que eu gosto, que
eu me sinto bem. E, eu gosto mesmo de Venda Nova [AEVN]. Então, eu acho
que é isso. [...]. Tanto que eu não [me] vejo [em] outro lugar. Tipo: ah, vou
morar no Santo Antônio, vou morar no... não quero! Meu desejo maior é morar
por aqui, próximo daqui (EXM-5)316.

314
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
315
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 24 jun. 2015.
316
Dados da entrevista. Pesquisa de campo realizada na AEVN em 07 jul. 2015.
278

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a última década foi


marcada por uma série de intervenções na organização do seu espaço, a partir da
constituição de um novo arranjo institucional de gestão e planejamento metropolitano.
O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Belo
Horizonte (PDDI-RMBH) constitui o instrumento referencial de ordenação da
reestruturação econômico-espacial prevista para a Região Metropolitana de Belo
Horizonte, tendo como horizonte temporal de médio prazo o ano de 2023, e de longo
prazo o ano de 2050.
As concepções de espaço expressam a organização específica da produção e
reprodução, do consumo e da circulação, em determinado grupo social, e, conforme
esta organização se modifica historicamente, altera-se também a configuração do
ambiente construído. Enquanto processo, a produção do espaço consiste em um
arranjo perene de “lugares” e “não-lugares” (AUGÉ, 2005), mediante estruturações e
reestruturações que emanam das práticas espaciais e temporais reveladas pela
triplicidade percebido-concebido–vivido (LEFEBVRE, 2006).
Num tempo em que tudo tende à mercantilização e que o valor de troca se
sobrepõe ao valor de uso, a apropriação hierárquica do espaço se dá para e pelo
dinheiro – favorecida, a propósito, pelo papel de planejador e regulador do Estado –,
com consequências na configuração social e no desenvolvimento (desigual) do
espaço urbano. Como “máquinas de crescimento” (LOGAN; MOLOTCH,1987), as
cidades – seus espaços e respectivas condições gerais de produção (LOJKINE, 1997)
– são organizadas de modo a intensificar o uso da terra e, por conseguinte, aumentar
os níveis de renda.
Diante da reorganização econômica provocada pela flexibilização e
desconcentração espacial da produção, as cidades capitalistas do atual período
monopolista ajustam a sua configuração espacial às novas necessidades da
economia. A partir de ambiciosos projetos estratégicos, as cidades flexibilizam suas
estruturas produtivas e comerciais, num cenário de competição interurbana por
recursos, empregos e capital (HARVEY, 1982). E, mediante ações de city marketing,
“vendem” sua imagem no exterior, a fim de atrair investidores, turistas e consumidores
que intensifiquem seu crescimento econômico e desenvolvimento. Esse movimento
de reestruturação urbana e provisão de vantagens localizacionais (espaço físico
279

atrativo, oferta e qualificação da força de trabalho, infraestrutura, rede de transportes


e de serviços) objetiva a inserção e/ou maior competividade das cidades na rede
urbana global (HARVEY, 1989; CASTELLS; BORJA, 1996; WARD, 2004; FERREIRA,
2005).
Em regra, os planos estratégicos preveem políticas integradas de médio e
longo prazo, destinadas à execução de grandes projetos que conciliam crescimento
econômico e desenvolvimento urbano, com tomadas de decisões de caráter
especulativo, formulação de diagnósticos que evidenciem os aspectos internos e
externos da cidade (forças, fraquezas, oportunidades e ameaças) e “parceria público-
privada” – PPP (KOTLER et al. ,1993; SALGUEIRO, 1999b; SÁNCHEZ, 1999;
FERREIRA, 2005). O que, em muitos casos, ao contrário do desenvolvimento
racionalmente planejado e coordenado, implica na assunção dos riscos pelo Poder
Público e dos benefícios pelo capital privado (HARVEY, 1989, 2005a).
Como assinalado por Harvey (2005a, 2005c, 2011a, 2011b, 2012), os
processos de destruição criativa constituem parte necessária do processo capitalista
de crescimento urbano e se perfaz redesenhando a estrutura espacial de fixos e de
fluxos, com relevantes transformações na vida cotidiana das pessoas e dos lugares.
Por vezes, o processo de reestruturação das cidades, com valorização-desvalorização
do solo (rent gap) (SMITH, 1988), resultam enfrentamentos entre agentes econômicos
(associados às lógicas de reprodução do capital) e sociais (ligados a processos de
permanência-resistência) que se articulam dialeticamente nas deliberações que
envolvem o planejamento, a ocupação e o uso do solo urbano.
As estratégias de desenvolvimento urbano do Vetor Norte da Região
Metropolitana de Belo Horizonte envolvem, basicamente: a criação de infraestruturas
físicas de produção, circulação e consumo, inclusive com PPPs; a reestruturação e
fortalecimento da base econômica da região; o estímulo à criação de produtos de alto
valor agregado e novas tecnologias; a redução dos custos locais, com concessão de
subsídios e renúncias fiscais; a qualidade, quantidade e custos da oferta local de mão-
de-obra; a consolidação metropolitana no cenário nacional e internacionalização
competitiva no mercado global. Conforme ressaltado, a agenda estratégica do Estado
“articulador e facilitador” prevê “a construção de um ambiente econômico competitivo,
estável, seguro ao investidor e atrativo ao desenvolvimento de negócios” (MINAS
GERAIS, 2007, p. 11-12).
280

Diante disso, a pergunta da presente pesquisa foi: As intervenções realizadas


pelo Poder Público no Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a partir
de 2005, deram início ao processo de gentrificação da Área de Estudo Venda Nova –
AEVN?
Para tanto, adotou-se como área de análise uma Unidade de Desenvolvimento
Humano (UDH), do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Brasileiro. Tal área
é composta pelos bairros Candelária, Cenáculo, Europa, Minas Caixa, Parque São
Pedro e Venda Nova, todos localizados na Região Administrativa Venda Nova – eixo
norte do Município de Belo Horizonte. A Área de Estudo Venda Nova (AEVN) foi assim
denominada para diferenciá-la das demais subdivisões espaciais homônimas, a
saber: a região Venda Nova (Região Histórica Venda Nova – RHVN e Região
Administrativa Venda Nova – RAVN) e o bairro Venda Nova.
A pesquisa demonstrou que a consolidação do “espaço concebido” do Vetor
Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte se dá com o objetivo de garantir a
reprodução ampliada do capital, com a oferta de novos empreendimentos/serviços
urbanos (instalados ou em via de implantação), decorrentes dos investimentos,
públicos e privados, que se estruturam a partir de grandes equipamentos, como: o
Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais (CAMG); a “Linha Verde”; a
ampliação das funções do Aeroporto Internacional Tancredo Neves (AITN); a
implantação do Anel Viário de Contorno Norte; a implantação do Parque Tecnológico
de Belo Horizonte (BHTEC), entre outros.
A reinvenção da periferia norte de Belo Horizonte, com alocação da sede do
poder do Estado na RAVN, promove uma mudança no significado das relações
simbólicas e no locus tradicional da centralidade urbana, reorientando a ocupação, os
usos, as funções e as estruturas ao derredor (MINAS GERAIS, 2006a). As
intervenções procedidas pelo Poder Público redesenham as estruturas espaciais da
AEVN, abrindo novas frentes de investimento e acumulação, com renovação do
estoque imobiliário e significativa valorização da terra. As melhorias na infraestrutura
urbana são acompanhadas de mudanças nas instalações comerciais e na prestação
de serviços públicos e privados, atraindo moradores com patamares de renda mais
elevados para a região. Em contrapartida, a majoração da “renda da terra” e dos
custos de bens e serviços ameaça a permanência dos antigos moradores de baixa
renda, explicitando o início do processo de gentrificação da AEVN.
281

Relacionada, originalmente, às cidades do pós-guerra do mundo capitalista


avançado, a gentrificação clássica é entendida como um processo de enobrecimento
urbano que afeta as áreas centrais da cidade, tidas como decadentes, mediante
reinvestimento de capital privado e renovação do ambiente construído,
transformando-as em uma região de habitação de classe média. A revalorização da
área e o aumento dos custos de vida força o deslocamento dos moradores originais
de baixa renda, sendo, então, substituídos por outros (proprietários e inquilinos) de
melhor poder aquisitivo (filtering up) (SMITH, 1996).
No contexto globalizado da pós-modernidade, a concepção do fenômeno é
ampliada, envolvendo novos elementos: (i) deixa de ser um processo de restruturação
eminentemente residencial passando a incluir, também, usos comerciais; (ii) além da
atuação espontânea dos agentes sociais na reestruturação da área, verificam-se
iniciativas de agentes econômicos e estatais, com suas diversas formas de
intervenção espacial; (iii) o fenômeno não mais se restringe às áreas centrais e
históricas das cidades, podendo ocorrer em áreas periféricas e zonas rurais, não só
em cidades anglo-saxãs, mas em cidades em todo o mundo, inclusive naquelas de
países menos desenvolvidos (ATKINSON; BRIDGE, 2005; LEES et al., 2010; SMITH,
1996, 2010c; CLARK, 2010; BOURNE, 2010; DAVIDSON; LEES, 2010; LEES, 2012).
Mas, sempre, resultando em mudanças no ambiente construído, pelo reinvestimento
em capital fixo, e na substituição da população residente por novos moradores-
usuários, cujo status socioeconômico é mais elevado que o dos usuários anteriores.
Isto posto, corroborando os apontamentos de Smith (1996), Savage et al.
(2003), Atkinson e Bridge (2005), Criekingen (2006); Lees et al. (2007), Clark (2010),
Bourne (2010), Rose (2010), Hamnett (2010), Beauregard (2010), Marcuse (2010),
Smith e Williams (2010), Davidson e Lees (2010), Lees (2012), Casgrain e Janoschka
(2013) e Betancur (2014), o processo de gentrificação em curso na AEVN apresenta
as seguintes características:
(i) processo estimulado pelas intervenções do Poder Público no Vetor Norte
da RMBH;
(ii) ocorrência de reinvestimento de capital público e privado no ambiente
circundante e alteração da ordem fundiária, com elevada majoração dos
preços de venda e locação dos imóveis;
(iii) transformação do ambiente construído, com a oferta de novos serviços
e tipologias construtivas;
282

(iv) reorganização da cartografia social da área, com a chegada de


moradores com níveis socioeconômicos mais elevados; e
(v) deslocamento indireto dos moradores de baixa renda.
Em relação ao reinvestimento de capital, a pesquisa apontou um incremento
na infraestrutura urbana, a alteração da ordem fundiária no ambiente circundante e a
instalação de grandes equipamentos de uso coletivo na AEVN, como o CAMG, as
Estações de Integração Venda Nova e Vilarinho, o Shopping Estação BH e a Catedral
Metropolitana Cristo Rei, que funcionam como catalizadores da reorganização
socioespacial da região.
Ressalta-se que as alterações de zoneamento e a flexibilização das normas
relativas ao parcelamento, ocupação e uso do solo, com elevação do potencial
construtivo da circunscrição territorial da AEVN, inserem-se entre as medidas
adotadas pela articulação Estado-capital privado para a reprodução do espaço urbano
da região. Nesse processo, agentes e promotores imobiliários buscam melhorar o
valor de troca da terra, como forma de reforçar os lucros decorrentes da promoção do
desenvolvimento desigual na escala intra-urbana (JOHNSTON et al., 1994).
Partindo dessa consideração, as vantagens localizacionais implementadas na
AEVN, decorrentes da melhoria da infraestrutura urbana e de serviços e da alocação
de empreendimentos até então inexistentes na região, atraem para esta área
demandas de empresas e moradores que anteriormente, pela sua ausência, davam
preferência a outras regiões da cidade. Tais “consumidores” estão dispostos a pagar
os novos preços praticados no mercado imobiliário, os quais se mostram
consideravelmente superiores aqueles pagos pelas demandas que, anteriormente, se
dirigiam à AEVN, quando a região ainda não estava dotada dos novos equipamentos
urbanos.
Haja vista aos percentuais de aumento nos valores de venda (629,3%) e
aluguéis (286,7%) dos imóveis da região entre 2001 e 2013, conforme apontado pela
pesquisa na seção de classificados de imóveis do jornal Estado de Minas. Patamares
de valorização em muito superiores aos percentuais de aumento do IPCA (127%) do
IGP-M (175%) e do aumento acumulado do salário mínimo nesse mesmo período
(277%).
No que toca à valorização da terra, interessante observar três momentos de
inflexão no mercado imobiliário da AEVN, cuja elevação dos preços dos imóveis se
mostrou mais significativa: (i) no biênio 2005-2006, em que o valor dos imóveis
283

aumentou em 91,8%, coincidindo com o anúncio da implantação do CAMG, da


Catedral Cristo Rei, do Shopping Estação BH no Vetor Norte da RMBH, bem como da
execução das obras da “Linha Verde”; (ii) no biênio 2008-2009, com aumento de
38,7%, coincidindo com o início das obras do CAMG e a inauguração da “Linha
Verde”; e, por fim, (iii) no biênio 2012-2013, cuja majoração foi de 24,4%, coincidindo
com a inauguração do Shopping Estação BH.
A pesquisa demonstrou, ainda, a intensificação da verticalização e a instalação
de condomínios residenciais fechados na AEVN, que se diferenciam segundo a
tipologia dos imóveis (apartamentos, casas geminadas), a melhoria do padrão
construtivo (P3, P4, P5) e a infraestrutura disponibilizada aos moradores (sistemas de
segurança, equipamentos de lazer, instalações desportivas, áreas verdes, etc.). De
maneira que as novas demandas de consumo formal do espaço, por pessoas com
melhores condições financeiras, influem determinantemente na arrancada do
processo gentrificativo, alterando as características do tecido social e a configuração
físico-espacial da região.
Atraídas pelo cenário de desenvolvimento e pela melhoria dos patamares de
renda e poder de compra da população da AEVN, grandes lojas de departamento de
alcance nacional/regional e forte potencial de atração do público consumidor, se
deslocaram para a região, diversificando o seu tradicional comércio de rua. O
movimento de expansão dos empreendimentos voltados ao comércio é acompanhado
pela implantação do Shopping Estação BH, pelo incremento na prestação de serviços
públicos e privados, com disponibilização de novos centros culturais, de lazer e
desporto; instituições financeiras; faculdades e universidades privadas;
estabelecimentos de saúde públicos e privados, redes de supermercados e farmácias;
concessionária de veículos, entre outras atividades comerciais que, até então, eram
inexistentes ou bastante limitadas na região. Há, então, uma significativa alteração na
paisagem urbana da AEVN, transformando-a em um espaço fragmentado,
caracterizado pela coexistência de zonas de ocupação residencial e comercial,
formais e informais, em diferentes "ilhas" de consumo e produção.
O processo de gentrificação advindo da reestruturação do espaço
metropolitano expressa-se, também, nas mudanças da cartografia social da AEVN,
com a chegada de moradores com níveis econômicos mais elevados que a ampla
maioria dos residentes de baixa renda da região. De acordo com o perfil das pessoas
entrevistadas na presente pesquisa, o mix de moradores recém-chegados à AEVN,
284

exemplificado por intermédio do grupo de moradores recentes (MR), é constituído por


pessoas com renda familiar entre 8 e 15 salários mínimos. Em contrapartida, o grupo
de ex-moradores (EXM) possui uma renda familiar composta de 2 a 5 salários
mínimos. Patamares de renda, portanto, incompatíveis com os novos preços
praticados no mercado imobiliário da região.
Nesse aspecto, embora o nível socioeconômico da “população invasora” da
AEVN não se assemelhe ao dos afortunados gentrifiers anglo-saxãos ou às parcelas
mais ricas da população belo-horizontina – caracterizando o processo que Rose
(2010) denominou como gentrificação marginal –, os indicadores do IDH-M
evidenciam uma substancial melhora nas características sociodemográficas da AEVN.
O que pode ser indicativo da incorporação de população com faixas de rendas mais
elevadas em substituição à população originária, cujos níveis de renda eram mais
baixos.
Diante da excessiva valorização imobiliária da AEVN, a população de baixa
renda se vê diante de uma complexa situação, em que precisam sopesar os custos
da habitação, do deslocamento casa-trabalho, de subsistência e dos demais encargos
decorrentes de sua manutenção, e o desejo de permanência na vizinhança onde
fixaram suas raízes. Com o tempo, aqueles que não conseguem resistir ao
encarecimento imobiliário e de manutenção, acabam se deslocando dessa região para
outra, em regra, mais carente, em que os custos de vida são inferiores. O que, em
última análise, contribui para a perpetuação da redistribuição desigual dos serviços
públicos e o consequente aumento dos custos sociais.
Como resultado, a composição social da AEVN apresenta-se de forma bastante
heterogênea, agrupando: (i) moradores antigos (MA), que conseguiram permanecer
na região, em virtude da relação de propriedade imobiliária, do patamar de renda
familiar ou pelo perfil socioeconômico (escolaridade/profissão/ocupação); (ii)
moradores recentes (MR), cujo perfil de ocupação, renda e qualificação profissional
são compatíveis com a valorização imobiliária e com o custo de vida da região; (iii)
moradores antigos/recentes com perfis de ocupação, renda e qualificação mais baixos
e que, a duras penas, mediante laços familiares e de amizade ou corte de custos de
manutenção, têm conseguido prolongar a permanência na área. A título de exemplo,
citam-se os relatos dos moradores MA-1, MA-4 e MR-6, os quais, por designíos
diversos, têm adotado diferentes estratégias para mitigarem os danosos efeitos da
gentrificação e, bem assim, permanecerem residindo na região.
285

Por outro lado, como efeito negativo desse processo, há a formação do grupo
de ex-moradores (EXM) da AEVN, integrado pelas camadas de baixa renda, com perfil
socioeconômico e profissional deficiente. Para esses, o deslocamento é
acompanhado do enfraquecimento das relações interpessoais e identitárias (quebra
das relações de vizinhança, do sentido de coletividade, da vivência do espaço público,
etc.), em ofensa ao direito à moradia e à cidade. Ainda, conforme ressaltado nos
relatos dos ex-moradores EXM-1, EXM-2, EXM-3 e EXM-5, há o manifesto desejo de,
um dia, retornarem ao território identitário, onde concretizaram suas relações de
sociabilidade (familiares, de amizade e vizinhança).
Principia-se, então, a consolidação de uma nova AEVN, concentradora de
novos investimentos públicos e privados, que cresce em metros quadrados
construídos, mas que, simultaneamente, decai em adensamento populacional, dada
à expulsão das parcelas mais pobres da população. De forma que as novas
infraestruturas e serviços disponíveis irão beneficiar os novos moradores, em
detrimento dos insolventes moradores “expulsos”.
Interessante observar que o período (2001-2013) em que ocorreram algumas
das principais modificações socioespaciais no Vetor Norte da RMBH e, bem assim,
na AEVN, é posterior à aprovação do Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2010),
que regulamentou os artigos 182 e 183 da CR/88 e atribuiu aos Municípios o encargo
de ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade
urbana, de forma a garantir o direito à cidade, a qualidade de vida e o bem-estar de
seus habitantes, como um direito fundamental (art. 5º, CR/88).
Para tanto, o Poder Público deve se valer dos instrumentos de planejamento
urbano oferecidos pelo Estatuto da Cidade (contribuição de melhoria; IPTU
progressivo no tempo; parcelamento, edificação e utilização compulsórios, etc.) para
evitar a especulação imobiliária e garantir um efetivo controle sobre a dinâmica de uso
e ocupação do solo da AEVN. Ainda, a compatibilização da reestruturação
socioespacial com a manutenção dos antigos moradores de baixa renda na região
pode ser alcançada por meio da delimitação de ZEIS ou pelo emprego de instrumentos
legais de controle dos preços dos aluguéis, como adotado recentemente na cidade de
Berlim. De acordo com a lei, o preço dos aluguéis dos imóveis localizados em bairros
com intenso processo de gentrificação não podem subir mais que 10% da média da
região. A medida visa impedir que os custos da locação residencial subam a preços
286

impagáveis, inviabilizando a permanência dos inquilinos na localidade (LEMOS, 2015)


(LEMOS, 2015).
Ou seja, não basta a existência de normas e uma política de planejamento para
ordenar a estruturação urbana e construir uma cidade equilibrada futura, porquanto
as ações modificadoras procedidas pelo Poder Público nem sempre caminham no
sentido de ampliar o direito dos cidadãos à cidade. Por vezes, estas contribuem, ainda
que involuntariamente, para uma limitação desse direito e, via de consequência, dos
demais direitos humanos, criando ou intensificando a segregação de parcelas mais
pobres da população.
As mudanças que ocorreram na estrutura urbana, social e organizacional da
AEVN, embora se relacionem também com fatores externos, foram, em grande parte,
provocadas pela ação de políticas públicas desenvolvidas ao longo desse período.
Nessa perspectiva, a mitigação dos efeitos adversos decorrentes da reestruturação
urbana da AEVN, e de toda a RMBH, dependem de maior eficácia legislativa, de ações
integradas e participativas, na busca de um eixo sustentável de desenvolvimento em
sintonia com os anseios da população. Com estímulo à diversidade funcional e social,
à justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes da reestruturação e à equidade
no uso do espaço público.
Isto posto, a pesquisa concluiu que, de fato, as intervenções realizadas pelo
Poder Público no Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a partir de
2005, deram início ao processo de gentrificação da Área de Estudo Venda Nova –
AEVN. O processo, contudo, apresenta-se em seu estágio inicial, tornando-se
evidente a necessidade de mais estudos e a convergência de esforços para
determinar sua evolução e especificidades, sobretudo se consideradas as
perspectivas de médio e longo prazo dos planos estratégicos de desenvolvimento
socioeconômico previstos para a região.
Evidencia-se que o método utilizado na presente pesquisa circunscreveu-se ao
essencial e factível, deixando em segundo plano questões como: estabilidade
econômica do Plano Real; Programas Governamentais destinados ao financiamento
e ao consumo da “Classe C” (concessão de “bolsas”, reduções de impostos, etc.);
crescimento da renda média das famílias; ausência de indicadores que demonstrem
a origem e o tempo de residência da população local na AEVN, bem como estimativas
quanto ao âmbito e à escala dos deslocamentos de moradores que deixaram a área;
o fato dos dados censitários não contemplarem a informalidade da ocupação da
287

AEVN, apontando suas médias e não suas diferenças e desigualdades internas


(KOGA, 2011); entre outras.
O tema é amplo e merece ser estudado e complementado por trabalhos futuros
que avaliem a evolução e as respectivas especificidades do processo de gentrificação
da AEVN com a finalidade de verificar se as políticas adotadas pelo Poder Público
potencializarão a reconquista de áreas pelo capital corporativo e especulativo, dando
continuidade à valorização imobiliária, à chegada de novos residentes e à a expulsão
dos moradores de baixa renda.
Sugere-se, também, a estudos sobre os moradores de baixa renda afetados
pelo processo de gentrificação da AEVN, como forma de determinar o contexto dos
deslocamentos, a proporção, os impactos nas suas relações sociais e a localidade de
destino.
288

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