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Teosofia e Gnose

TEOSOFIA E GNOSE

Sergio Carlos Covello

Na literatura teosófica, encontram-se várias referências à gnose e ao gnosticismo,


havendo até obras específicas sobre o tema produzidas por teosofistas de primeira
geração. Só na Doutrina Secreta e em Isis sem Véu, Helena Blavatsky dedicou páginas
e páginas aos antigos gnósticos e endossou muitas de suas idéias. Da mesma forma,
os escritores gnósticos modernos têm em alta conta a teosofia e a fundadora da
Sociedade Teosófica. Um erudito de nossos tempos, Stephan Hoeller, professor de
estudos gnósticos em Los Angeles, afirma, em recente livro, que Helena Blavatsky
foi gnóstica e contribuíu para o renascimento do gnosticismo como praticado na
atualidade. Outro autor, o alemão Arnold Krumm Heller, sacerdote da igreja
gnóstica, diz que a gnose pode ser assimilada “nos ensinamentos da mestra
Blavatsky”.

Em verdade, tanto a teosofia como a gnose constituem um conhecimento religioso


diferente da fé ou crença. Há um aforismo gnóstico que diz: “Primeiro compreender,
depois acreditar”. E, em teosofia, o lema é: “Não há religião superior à Verdade”.
Cabe, pois, indagar se teosofia e gnose se equivalem, e se não, qual a diferença
entre os dois sistemas filosóficos. Para responder à pergunta, é necessário
examinar a natureza e as idéias básicas dos sistemas gnósticos, desde suas origens
no século 1º.

Gnose é palavra grega – gnôsis, do verbo gnosko (conhecer e, também,


experimentar). Esse verbo aparece na célebre inscrição do Templo de Delfos:
“Conhece-te a ti mesmo” – gnothi sauton – que Sócrates adotou como divisa de sua
pedagogia. Em sentido etimológico, significa qualquer conhecimento, sendo o termo
empregado com essa acepção nas antigas fontes escritas. Mas, no decorrer dos tempos
(possivelmente a partir de Pitágoras), o vocábulo foi adquirindo a conotação
específica de conhecimento espiritual obtido intuitivamente, uma iluminação
interior ou visão imediata das Verdades Supremas ou mistérios divinos.

A busca da iluminação, entre os cristãos primitivos, deu início a várias facções


gnósticas dentro do Cristianismo, com doutrinas diferentes daquelas ensinadas pelos
apóstolos. Os gnósticos misturavam os ensinos apostólicos com idéias da tradição
judaica, da religião persa e sobretudo da filosofia helenista, interpretando de
maneira alegórica as Escrituras Sagradas. Não há uniformidade de pensamento entre
as escolas gnósticas, pois a interpretação dá margem a doutrinas variadas. Grandes
doutrinadores da gnose foram Basilides e Carpócrates que atuaram na cidade sagrada
de Alexandria, o principal centro do gnosticismo e também da teosofia neoplatônica
e do judaísmo helenizado. Em Roma, distinguiram-se Valentino e Marción, os quais
ganharam muitos adeptos na capital do Império. Entre os judeus de Samaria,
notabilizou-se Simão, o mago, que é mencionado em Atos dos Apóstolos como aquele
cristão que fazia prodígios e quis comprar o dom do Espírito Santo, sendo por isso
duramente repreendido por S.Pedro. Na Pérsia, originou-se uma das mais populares e
duradouras escolas gnósticas, o maniqueísmo, do profeta Mani, que atraiu muitos
adeptos e deixou marcas profundas na filosofia ocidental. S. Agostinho, o grande
pai da igreja predominante, foi ouvinte, durante oito anos, da religião maniqueísta
e, depois, confutou veementemente a tese sobre o mal.

Os diversos sistemas gnósticos de que se tem notícia organizaram-se em igrejas ou


comunidades religiosas com diáconos, presbíteros e bispos que celebravam missas e
ministravam sacramentos como o batismo e a eucaristia considerados práticas
iniciáticas facilitadoras da gnose.
Entre os cristãos gnósticos e os não-gnósticos travou-se acirrada disputa pela
supremacia, de que saíram vencedores os cristãos não-gnósticos, os quais
perseguiram os adversários como hereges, reduzindo-os a uma minoria. Na Idade
Média, a Igreja Católica promoveu uma cruzada contra os gnósticos do sul da França
(os “cátaros”), incluindo-os, tempos depois, na Inquisição.

Apesar das constantes perseguições, esses cristãos de pensamento divergente


produziram muitas escrituras em idioma grego que não constam do Novo Testamento,
perdendo-se com o passar dos séculos. Até há bem pouco tempo, o que se dispunha
sobre os gnósticos eram referências em obras apologéticas escritas por opositores
do gnosticismo. Em 1945, todavia, descobriu-se por acaso no deserto egípcio de Nag-
Hammadi, uma coletânea de cerca de 50 escrituras gnósticas traduzidas em copta do
século 4º e atribuídas a personalidades bíblicas como o Evangelho de Tomé, o
Apocalipse de Pedro, o Evangelho de Felipe e o de Maria Madalena, dentre outros.
Para os gnósticos, “evangelho” é todo e qualquer texto que ensine ou revele a
gnose.

Há nesses livros, cuja tradução ocorreu na primeira metade do século passado,


princípios básicos que norteiam a maioria das escolas gnósticas:

1º) Princípio da salvação pelo conhecimento. A gnose é salvífica e tem como tese
fundamental o autoconhecimento. O conhecimento de si mesmo (de sua natureza e
destino divinos) faz com que o homem se liberte da ignorância e do erro e se
desfaça dos apegos à matéria: “Quando o homem vier a conhecer a si mesmo e a Deus,
– diz o Testemunho da Verdade – ele será salvo e receberá uma coroa incorruptível”.

2º) Princípio da divisão tripartida da espécie humana. Não são todas as pessoas que
podem adquirir a gnose, pois esta não se aprende pelo acúmulo de informação, mas é
um despertar. Os gnósticos dividem a humanidade em três raças ou castas: a dos
homens materiais (que não cogitam de uma realidade além da matéria e, por isso, não
têm salvação nem remédio); a dos homens psíquicos (mentais e emocionais) que com
esforço conseguem salvar-se, se praticarem o asceticismo e as virtudes morais; e,
finalmente, a dos pneumáticos (de “pneuma” = sopro, vento, espírito), os quais
compreendem os mistérios divinos e já estão salvos. Os pneumáticos ou espirituais,
uma reduzida elite, não só têm a gnose como a revelam aos outros. Em uma de suas
epístolas, o apóstolo Paulo fez a distinção entre os homens psíquicos e os
pneumáticos, dizendo que as coisas espirituais se discernem espiritualmente e não
pelo frio raciocínio, por isso só os últimos as compreendem.

3º) Princípio do dualismo. Há, na doutrina gnóstica, a convicção de um dualismo em


todas as coisas: dualismo cósmico (Deus “versus” matéria ou mundo material);
dualismo moral (Bem “versus” Mal) e antropológico (Espírito e corpo material).

O Mal não é, para os gnósticos, a ausência do Bem, como sustentam muitos doutores
da Igreja, mas um princípio operante que milita contra o Bem, gerando dor e
sofrimento. O homem foi feito de matéria vil, porém guarda em si uma centelha
divina (o Espírito) pela qual pode retornar ao Deus transcendente, libertando-se
dos laços materiais, visto que embora a matéria milite contra o Espírito, este tem
capacidade para vencê-la.

4º) Princípio da emanação eônica. Em geral, os sistemas gnósticos consideram Deus


como incompreensível pela razão humana e absolutamente transcendente, sem nenhum
contato com a matéria. Entre o Absoluto Transcendente e o mundo material se
interpõe um mundo intermediário habitado por éons (anjos, na tradição judaico-
cristã), que são emanações sucessivas de Deus e progressivamente degradadas, as
quais exercem o governo do Universo. Nosso mundo material foi criado por um desses
éons bem distanciado do Absoluto, um eón operário e pouco sábio (demiurgo) que
criou o mundo de uma substância corruptível, que acarreta a dor, a doença, o
sofrimento e o erro. O demiurgo, no entanto, arvorou-se em Deus único, exigindo
total obediência às suas ordens. Alguns povos (p.ex., os judeus) o adoram como se
fosse o Sumo Bem, da mesma forma procedendo os cristãos ortodoxos.

Uns eóns são bons, outros são maus; uns são masculinos, outros femininos, uns
constroem, outros destroem. Um dos mais importantes eóns é Cristo, emanado
diretamente do Absoluto para revelar a Divindade verdadeira e libertar o homem do
erro. É o mestre, por excelência, da gnose.

Mas há outros deuses no panteão gnóstico. Uma deusa distinta é Sophia, o princípio
feminino de Deus e, também do homem. Trata-se da sabedoria divina personificada. É
a padroeira da gnose, sendo representada por uma mulher com asas (visto que é anjo
ou eón) com coroa na cabeça, sentada em um trono ladeado por Maria, mãe de Jesus e
S. João Batista. No alto do trono, aparece Cristo acompanhado de seis anjos. Os
gnósticos costumam chamá-la de Santa Sophia e Nossa Senhora Sophia. ABRAXAS, filho
de Sophia, é um deus misterioso que rege o ciclo solar. Seu nome é palavra bárbara,
pois não tem origem em nenhuma língua conhecida, sendo formada por sete letras que,
no alfabeto grego, equivalem numericamente a 365. Nas jóias e talismãs gnósticos,
Abraxas aparece representado com cabeça de galo, corpo e braços humanos e membros
inferiores em forma de serpente. Traz em uma das mãos um escudo e na outra, um
chicote. A simbologia é evidente: o galo, o despertar; corpo humano para denotar
que é uma pessoa. Com o escudo, protege; com o chicote castiga. As serpentes
indicam a ligeireza, a esperteza e a astúcia.

A teosofia de Blavatsky assemelha-se, sem dúvida, à gnose. Primeiro, por ser, como
se disse, um conhecimento religioso diferente da fé. Segundo, por seu um sistema de
pensamento eclético que reúne elementos de várias tradições religiosas do Oriente
como do Ocidente. Terceiro, por endossar a tese da emanação, que é compartilhada
também pelo neoplatonismo. Mas, difere da gnose, por ser eminentemente teórica. Já
o teósofo Plotino, no século 3º, repelia os cultos e os rituais próprios das
religiões, fazendo da investigação filosófica um caminho espiritual de retorno ao
Uno. A teosofia é, sem dúvida, um caminho de espiritualidade, porém, desprovido de
culto, de rituais e de dogmas, ao passo que o gnosticismo constitui religião com
igrejas, sacerdotes e sacramentos. Com exceção do próprio nome de origem grega, a
teosofia moderna é hinduísta, sendo o sânscrito a sua língua, enquanto a gnose é
helenista com predomínio da linguagem filosófica (“logos”, “nous”, “eóns”,
“demiurgo” etc). Além disso, a gnose é cristã, tendo em Cristo seu grande Mestre.
Conforme Blavatsky, a teosofia e a Sociedade Teosófica têm como mentores os mestres
de sabedoria (Mória, Maha Chohan, Kuthumi, Serapis, Hilarião etc), entre os quais
pode até figurar o Cristo, mas sem nenhum relevo. A teosofia não se considera um
conhecimento salvífico, antes sustenta a lei do carma, afirmando que o homem recebe
aquilo que semeia.