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Fernando Pessoa: Poesia do ortónimo

A poesia do ortónimo é uma tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta. A realidade
por si percecionada causa-lhe uma atitude de estranheza, e consequentemente, condu-lo a uma situação de negação
face ao que as suas perceções lhe transmitem. Assim, Pessoa recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo
inteligível (platónico).

Esta inquietação dá origem a uma poesia que abrange várias tendências:

Fingimento poético Dor de pensar Sonho e realidade Nostalgia da infância


Este limita a felicidade do poeta
através dos pensamentos.
Para Pessoa, a vida só vale apena
ser for vivida sem pensamentos,
É caracterizado por os sonhos serem O poeta acredita que só
uma vez que este corrompe a
É caracterizado pela dor que o uma forma de durante a infância é que é
inconsciência, inerente à felicidade
poeta sente e depois “finge-a” esquecimento/refúgio/escapatória possível alcançar a felicidade,
de viver. Mais feliz é aquele que
quando transcrevida num poema. ao resto. Todavia, a angústia uma vez que durante a
vive na ignorância, alheio à
Na altura em que o poeta escreve existencial leva-o à realidade amarga infância se é a inconsciente,
realidade da vida, do que aquele
o que sentiu, está a usar a sua através da imaginação/sonho. puro, seguro e inocente. É um
que baseia a sua existência na
mente/imaginação para se Porém, este projeto falha o que traz passado que não se pode
lucidez. O poeta é consciente de
recordar desse sentimento; não é desilusão. Pessoa é atormentado recuperar. O seu presente
que não é feliz, o que o leva ao seu
um produto intelectual pois não pelo desejo de atingir o sonho, mas a reflete que não conseguiu
autorreconhecimento e perda de
resulta do “momento da incapacidade da sua materialização manter a sua felicidade por
identidade.
emoção” mas sim da recordação. faz-lhe mergulhar no tédio/ não ter sido capaz de
A sua obsessão de análise e a busca
frustração. realizar/ter aquilo que queria.
de respostas provocam-lhe
sofrimento e angústia. Isto leva o
poeta a desejar ser inconsciente
para poder atingir a felicidade.

O poeta sente a dor, Limitação de atingir a Surge como um projeto A memória da


finge-a e escreve-a, felicidade por causa dos falhado que lhe traz infância constitui um
tornando-a num poema seus pensamentos desilusão outro modo de fugir à
dor de pensar
Existe uma dualidade
entre sinceridade e
fingimento. Este último
exprime
intelectualmente as
emoções, no entanto o
poeta fingidor exprime
que chega a identificar-
se com a sua própria
poesia.

Os leitores têm acesso Linguagem


apenas a uma “dor
lida” e assim, não têm A lírica ortónima pessoa distingue-se pela musicalidade pela
acesso á dor sentida subtileza do desenvolvimento dos temas através de uma linguagem
pelo poeta. simples mas densa, sugestiva e simbolista.
Alberto Caeiro

Alberto Caeiro nasceu em Lisboa e não teve profissão, nem educação (só escola primária). Apresenta-se como
um “guardador de rebanhos” (que na verdade são pensamentos). Só se importa em ver a realidade de forma objetiva
e natural, com a qual contacta a todo o momento.

Mestre de Fernando Pessoa e dos outros heterónimos, Caeiro dá especial importância ao ato de observar e às
sensações, através de um discurso em verso livre e espontâneo. Vê o mundo sem necessidade de explicações, sem
princípio e sem fim, e confessa que existir é um facto maravilhoso. Aproveita cada momento da vida e cada sensação
que esta lhe presenteia.

Fazer poesia para o sujeito poético é uma atitude involuntária, espontânea, pois vive no presente e não se
interessa por os outros tempos e impressões, sobretudo visuais, e ainda porque recusa a introspeção, a subjetividade,
sendo assim, um poeta do real objetivo.

Caeiro canta o viver sem dor, o envelhecer sem angústia, o morrer sem desespero e combate o vício de
pensar que tanto atormenta Fernando Pessoa.

Sistematização da poesia de Alberto Caeiro:


 Não possuí formações académicas (estudou apenas até ao 4º ano) e nunca teve uma profissão, foi apenas um
camponês;
 Usa o presente do indicativo (uma vez que vive o momento);
 Utilização de figuras de estilo muito simples: comparação, metáfora, polissíndeto (uso excessivo de “e” e
assíndeto (supressão dos “e” por vírgulas”;
 Linguagem e vocabulário muito simples, reduzido e familiar;
 Poucos adjetivos;
 Ausência de rimas (para as usar, precisamos de usar a razão, algo que o sujeito poético se recusa a utilizar);
 Muito espontâneo e objetivo: representa um momento em que se recusa a um envolvimento emocional ou
subjetivo na sua escrita, em que tivesse se projetar a sua “sombra” e a sua presença;
 Realismo sensorial > sensacionismo: o sujeito poético gosta das sensações tais como elas são, sem acrescentar
nem retirar qualquer elemento através do pensamento pessoal, convecção ou sentimento;
 Ligado à natureza, despreza e repreende qualquer tipo de pensamento filosófico, afirmando que pensar é estar
doente dos olhos (anti metafisico). Quando pensamos, entramos num mundo onde tudo é incerto e obscuro;
 Deambulismo: uso da sensação visual;
 Ingénuo em relação aos outros poetas.

Notas:

 Caeiro não segue as regras: é espontâneo;


 O seu pensamento e escrita buscam alcançar a naturalidade/espontaneidade e simplicidade;
 “Olho” e “comovo-me” (no poema XIV) são exemplos de sensações; e “árvores e “flores” de objetos da natureza;
 No poema XXXVI, Caeiro critica os poetas que não sabem “florir”, isto é, aqueles que não sabem ser espontâneos
na sua escrita poética.
Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu no Porto em 1887 e formou-se em medicina. Foi um poeta sensista, materialista e
neoclássico. É um poeta epicurista triste, pois defende o prazer do momento “carpe diem” (aproveite o momento)
como caminho para a felicidade.
Apesar de procurar este prazer e de querer alcançar a felicidade, considera que nunca se consegue a verdadeira
calma e tranquilidade, ou seja, sente que tem de viver em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor,
conseguida pelo esforço estoico (naturalismo).

Epicurismo
Busca da felicidade Fuga à dor
Moderação dos prazeres Ataraxia (tranquilidade que evita as perturbações)

Estoicismo
Aceitação das leis do destino (leis da natureza) Indiferença face às paixões e à dor
Abdicação de lutar Autodisciplina

Horacionismo (Horácio foi um grande autor clássico e uma referencia para os artistas renascentistas)
“Carpe diem”: viver o momento Aure mediocritas – a felicidade está na natureza

Sistematização da poesia de Ricardo Reis:


 Uso frequente do hipérbato;
 Caracterizado por angústias e tristeza;
 Uso do gerúndio e do imperativo;
 Aceita a crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos (recurso à mitologia);
 Uso de latinismos;
 Figuras de estilo: metáforas, eufemismos, comparações;
 Estilo construído com muito rigor e muito denso;
 Poeta intelectual que sabe contemplar;
 Aceita a relatividade;
 Verdadeira sabedoria da vida: vive de forma equilibrada e serena;
 A sua escrita é fiel aos cânones clássicos;
 Efemeridade: a vida é breve, passa rápido.

Notas:
 O Eu lírico dirige-se muitas vezes à segunda pessoa do singular (no poema “Não tenhas nada nas mãos” por
exemplo) fazendo o uso do imperativo, a quem aconselha uma vida estoica e desapegada de perturbações
(paixões);
 Quando morremos, o Homem resume-se a nada mais, nada menos do que uma lembrança. Não interessa o
quanto rico e quando poder possuía;
 O poeta usa muitas vezes a figura de estilo eufemismo (atenuação da realidade > morte);
 Uso muitas vezes advérbios como: tranquilamente, silenciosamente, sossegadamente… que reforça a ideia da
ausência total de perturbação (ataraxia = epicurismo);
 No poema “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, verso 5 (Depois pensemos…) > uso da razão;
 Usa também o sensacionismo (“ouvindo” e “vendo-o”…);
 O SP apresenta á Lídia um programa de relacionamento determinado pela aguda consciência da dor que a
natureza precária do Homem provoca (efemeridade da vida);
 Preferência pela natureza a qualquer outro valor > nega emoções intensas;
 A natureza cumpre o seu ciclo; o tempo passa a caminho para a morte;
 A ataraxia e o desejo de indiferença revelam a angústia do SP com a ideia de antecipação da morte. O SP não
reage ao fluir do tempo, fica indiferente.
Álvaro de Campos: O poeta da modernidade

Nasceu em 1890 em Tavira e é engenheiro de profissão. Pessoa considera que Campos se encontra no
“extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ambos serem discípulos de Caeiro (Campos conheceu
Alberto Caeiro, numa visita ao Ribatejo e tornou-se seu discípulo: «O que o mestre Caeiro me ensinou foi a ter clareza; equilíbrio,
organismo no delírio e no desvairamento, e também me ensinou a não procurar ter filosofia nenhuma, mas com alma»).
Distancia-se, no entanto, muito do seu mestre ao aproximar-se de movimentos modernistas como o futurismo
e o sensacionismo. Distancia-se do objetivismo e perceciona as sensações distanciando-se do objeto e centrando-se no
sujeito, caindo, pois, no subjetivismo que acabará por enveredar pela consciência do absurdo, pela experiência do
tédio, da desilusão .
O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar
tudo o que tem ou teve existência ou poderá vir a existir.

1ª Fase: fase decadentista


Desilusão e tédio de viver Procura de novas sensações
Busca de evasão Atitude desafiadora das normas instituídas

2ª Fase: fase futurista e sensacionista


O Futurismo
Apologia da civilização tecnológica, da força e da
Exaltação do presente
modernidade
O Sensacionismo
Experiência e expressão excessiva das sensações Sadismo e masoquismo
Euforia emocional

3ª Fase: abúlica e intimista


Tédio existencial Desalento, cansaço e abulia
Angústia e frustração Solidão e isolamento
Desajustamento face ao presente, à realidade e aos
Dificuldade de socialização
outros;
Dor de pensar Tom introspetivo e pessimista

Sistematização da poesia de Alberto Caeiro:


 Usa frequentemente o presente no modo indicativo;
 É o mestre das sensações (sensacionismo);
 Espontaneidade;
 Poeta da natureza;
 Simplicidade na construção frásica;
 Deambulismo (poeta observador) >> uso da sensação visual;
 Linguagem simples e repetitiva; frases longas e coordenadas;
 Figuras de estilo: comparação, metáforas, polissíndeto (emprego repetido de conjunções coordenadas “e”) e
assíndeto (uso repetido de vírgulas).

Tópicos de análise do poema Ode Triunfal:


 Real–exterior e emocional-interior: presença obsessiva da civilização moderna e identificação do sujeito
poético nessa mesma civilização;
 Expressão de uma emoção excessiva: desejo de acolher todas as sensações.
 Articulação passado/presente/futuro: fusão dos tempos
- A exaltação com que é vivido o contemporâneo futurista, conduz à fusão do passado e do futuro no
presente.