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A interpretação das Culturas

Clifford Geertz

O Impacto do Conceito de Cultura sobre Conceito de Homem

I.

Geertz procura aqui encetar um novo campo de reflexões sobre a epistemologia na


antropologia, apontando como referência o argumento levistraussiano que coloca o objetivo
da ciência como de desenovelar campos complexos de conhecimento e torná-los mais
compreensíveis pela capacidade de explanar mais amplamente sobre os temas. Aludindo ao
pensamento antropológico moderno que visava demover a visão naturalista do humano,
demonstra que houve uma grande complexificação sobre tal tema.

Em face do Iluminismo, que alocava o homem em patamar de unificação com a natureza, a


exemplo das leis físicas newtonianas, este poderia ser analisado a partir de uma base
ahistórica, sob um prisma único e intrínseco universal.

Geertz aponta que em face desta posição sobre o conceito de cultura, em que pesem as
circunstâncias em que o homem esteja envolvido, sua localização, sua crença, iram fatalmente
modificar seus aspectos culturais em virtude dos não-culturais. Torna-se, assim, mais
complexo delimitar o que é comum e natural na espécie humana e o que se modifica com os
fatores espaço-tempo.

II.

Apresenta-se o conceito de "estratigráfico”, a ser contestado, o qual se verifica no homem sob


a forma de camadas sobrepostas, fatores, aspectos de vida desde o biológico, o psicológico, o
neurológico, e mais. Estes fatores se dão em níveis independentes “completos e irredutíveis
em si mesmos” (p. 49). O autor aponta que abaixo aos fatores culturais, encontram-se
estruturas de pensamento e funções subjacentes que formam o complexo compartimentado
das áreas da ciência em amostra da unidade humana.

Sob essa linha de pensamento, a qual Geertz conceitua para além discordar, o homem seria
um depósito de aspectos/fatores, dissociáveis e que, respectivamente, seriam abordados pelas
diversas áreas da ciência. A cultura seria um véu último que permitira ao homem apresentar-
se ao mundo tal qual este está nele inserido.

Assume-se aqui o referencial de consensus gentium, dado como noção de coisas que em
relação a todo ser humano teria relação de universalidade nas culturas, na aceitação de
aspectos comuns. Citando exemplos que reforçam este referencial na moderna antropologia,
secundados por Malinowski, estão Murdock e Kluckhohn, todos abordando caracteres
universais do humano.

Desta forma, Geertz começa a abordar de forma pontual a questão dualista que se aprensenta,
trazendo à baila o argumento de que não é possível abandonar em definitivo o argumento da
universalidade criando-se um arquivo de etnologias de diversas culturas, assim como no caso
da cultura Zuñi que “preza o autocontrole” e em face da cultura Kwakiutl que “encoraja o
exibicionismo” (p. 53). O dualismo se apresenta quando se questiona a substancialidade dos
universais em detrimento dos processos particulares abordados anteriormente
(estratigráficos), os quais, colocados como completos e autônomos, não conferem à
experiência humana coesão e unidade.

Sob este ponto de vista, a relação que é, sob esta linha de pensamento, sugerida entre os
universais culturais e a criações institucionais (a exemplo da instituição casamento e a
necessidade de reprodução), em última análise, não significam uma relação maior e
incontestável.

Geertz combate a tentativa de aproximar a definição de humano do maior denominador de


universais atestados nas relações entre fatores culturais e não-culturais (p. 55). Assim, devem
ser tomados com seriedade todos os fenômenos sociais em todas as culturas. Tanto a questão
do casamento, neste caso, como o de um evento complexo em sociedades de menor escala.

III.

Percebe-se que não há o objetivo de desvalorizar a tentativa de tomar os padrões de


comportamento dados no tempo e no espaço, mas que o foco não deve ser direcionado às
estratificações subjacentes, as quais não permitem compreender a realidade unívoca do
homem.

A cultura é para o homem um imperativo de acúmulo de padrões, os quais permitem a


reprodução de significados complexos da vida, orientados pela transmissão de símbolos, os
quais permitiram o avanço em definitivo dos meios orgânicos e biológicos de transmissão
genética, nos sendo os símbolos necessários para atribuição de significado à experiência
humana (p. 58).

Para acrescentar à teoria da evolução biológica do homem a orientação simbólica como ponto
alto da capacidade cognitiva, Geertz assinala o processo mais complexo, o desenvolvimento
neurológico acentuado do Australoptecíneo para o Homo sapiens (p.60). O específico
neocórtex cerebral teria crescido em função do desenvolvimento cultural acelerado dos
últimos 1000 anos, permitindo associações complexas no sistema de símbolos significantes.

Partindo desta reflexão, aproveita Geertz para registrar a continuação intrínseca da


acumulação cultural, como geradora de programas de comportamento baseados em teias de
simbologias significantes, que dão atributo de complexidade ao homem, frente os outros
animais.

IV.

Há um esforço em destacar o homem como uma construção de si mesmo, ligado à sua


inexorável necessidade de associar-se a uma programação cultural, mas permanecendo
agente histórico do processo de transformação e ressignificação cultural. A ideologia iluminista
e modernista, na antropologia, centraram-se em destacar cadeias de comportamento
centradas numa lógica central de culturas normativas. Ser humano é tornar-se humano. Galgar
a complexificação das relações entre agentes culturais e não-culturais.