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Jean-Jacques Paul

ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR:

DOSSIÊ
experiência brasileira e internacional1

Jean-Jacques Paul*

Este artigo traça um panorama das diversas experiências de acompanhamento de egressos do ensino superior,
destacando as metodologias utilizadas nos diferentes países ou em projetos internacionais. Os dispositivos
de acompanhamento resultam de políticas governamentais ou de instituições autônomas e visam a dar maior
visibilidade ao sistema de ensino superior cada vez mais complexo. Fornecendo subsídios essenciais para a
avaliação dos resultados dos sistemas educativos, os dispositivos de acompanhamento atingiram os melhores
indicadores de funcionamento no caso italiano, Alma Laurea. No Brasil, há experiências díspares, começando
nos anos 1970, passando pelos estudos na USP e UFC no início dos 1990, até o estágio atual, com a prolife-
ração de portais de egressos. Constituem exigências metodológicas do acompanhamento, conforme indica a
experiência: caráter institucional sistemático e participativo; periodicidade regular e atualização permanente;
utilização de tecnologias da informação para coleta de dados; definição clara e adequada da população a ser
atingida, segundo os tipos de diplomas; produção de escalas adequadas para a avaliação dos destinos ocupa-
cionais e sua relação com a formação; e disponibilização dos bancos de dados para a comunidade acadêmica.
Palavras-chave: Ensino Superior. Dispositivos de acompanhamento. Avaliação. Egressos. Destinos ocupacionais.

INTRODUÇÃO poradas em sistemas autônomos nacionais –


como nos casos da Grã-Bretanha e da Itália. No
Já faz mais de quarenta anos que as pes- Brasil, embora algumas pesquisas tenham sido
quisas de egressos do ensino superior se ge- realizadas na década de 1980 e os “Portais do
neralizaram. Com exceção de alguns estudos Egresso” tenham proliferado nos últimos anos,
sobre os egressos em países socialistas e em os estudos de egressos continuam esporádicos,
outros países em desenvolvimento,2 a maior pouco utilizados e com insuficiências metodo-
parte deles tratava, sobretudo, dos países de- lógicas que podem estar associadas à falta de
senvolvidos liberais, cujos sistemas de ensi- observação das experiências internacionais.
no superior viram seus efetivos (matrículas, Começaremos recapitulando alguns es-

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egressos, docentes) multiplicarem-se nos anos tudos pioneiros nos países desenvolvidos, de
1960. Essas pesquisas, muitas vezes iniciadas orientações políticas liberais, assim como as
por sociólogos e economistas interessados na experiências internacionais mais significativas
transformação do ensino superior e nas evolu- atualmente, para abordar, em seguida, a situa-
ções do mercado de trabalho, foram, gradual- ção das pesquisas de egressos do ensino supe-
mente, retomadas pelos centros estatísticos rior no Brasil.
governamentais – como na França – ou incor-

CONTEXTO E PRIMEIRAS EXPERI-


* Universidade da Borgonha em Dijon, França. Universi-
dade de Galatasaray. Istambul, Turquia. ÊNCIAS
Ortaköy, Çırağan Cd. No:36, 34349 Beşiktaş/İstanbul, Tur-
quia. jjpaul.gsu@gmail.com
Excetuando-se alguns trabalhos precur-
1
Trabalho apresentado no Seminário Internacional sobre
Democratização do Ensino Superior, realizado no PPGSA/ sores e ocasionais nos Estados Unidos na déca-
UFRJ em novembro de 2013. Tradução de Malou Paul, re-
visão M. Ligia Barbosa da de 1930, as primeiras pesquisas de egressos
2
Ver, especialmente os trabalhos de Sanyal, do Instituto surgiram apenas nos anos 1960, estendendo-se
Internacional de Planejamento da Educação, referenciados
neste texto nos anos 1970 e 1980. Os Estados Unidos e a

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792015000200005 309
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França se distinguem quanto ao início dos es- municipais – e privados, com ou sem fins lu-
tudos: enquanto os primeiros, nos anos 1960, crativos, religiosos ou não, etc.) e departamen-
iniciaram amplas pesquisas longitudinais, a tos com níveis de prestígio muito diferentes.
França começou, nos anos 1970, por meio da É particularmente o caso do Brasil, sobretudo
implementação de dispositivos nacionais de com a chegada de universidades privadas gi-
pesquisa. Mas a situação atual apresenta um gantescas, ligadas a grupos internacionais e
quadro diferente, no qual se destacam outras com capital aberto, cotadas em bolsa.
experiências nacionais. Os títulos associados aos diplomas po-
dem ser muitos. Na França, havia mais de 300
certificados diferentes de Licence générale, o
CONTEXTO que levou o Ministério do Ensino Superior a
editar um texto legal, em julho de 2013, redu-
O interesse pelo futuro profissional dos zindo o número desses títulos.
egressos do ensino superior, o qual se afirma Simultaneamente, as modalidades de ob-
nos anos 1970, inscreve-se em um contexto de tenção dos diplomas se diversificaram. Além do
transformação quantitativa e organizacional do sistema de aprendizagem tradicional nos paí-
ensino superior, situado, por sua vez, em uma ses de cultura germânica, os estágios se mul-
profunda evolução do mercado de trabalho. tiplicam por toda parte. Na França, 30% dos
Desde os anos 1960-70, as matrículas do estudantes do último ano de Licence générale
ensino superior dispararam. Na Europa, em es- estagiam em empresas, sendo que essa propor-
pecial na França, eles triplicaram entre 1970 ção sobe para 60% entre os alunos do 2° ano
e 2010.31 Na América Latina, os números de de Master, nível de estudos pós-graduados (Ca-
matrículas foram multiplicados por onze e no pelle, 2014). As viagens ao exterior, durante os
Brasil por quinze. Na França, em uma geração, estudos, são também cada vez mais frequentes.
42% dos jovens estão saindo do sistema educa- Atualmente, na França, 16% dos estudantes de
tivo com um diploma do ensino superior, con- ensino superior já tiveram uma experiência de
tra 15% em 1985 e 32% em 1995. estudos no exterior diretamente relacionada ao
As estruturas do ensino superior tam- curso superior que estão realizando. São tam-
bém evoluíram significativamente no decor- bém cada vez mais numerosos os estudantes
rer dos últimos trinta anos. Se a universidade que decidem interromper temporariamente os
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continua sendo a instituição de referência na estudos para dedicar um ano a uma experiên-
maioria dos países, outras instituições surgi- cia profissional específica, em geral associada
ram ou se consolidaram. De acordo com Tei- a uma viagem ao exterior. Recorrer à internet
chler (2011), o processo de Bolonha, iniciado mediante cursos on line abertos e em massa
em 1999, que levou à implantação do Espaço (em inglês, MOOC: massive open online cour-
Europeu de Ensino Superior em 2010,42 está se) também representa uma mudança nas mo-
longe de ter alcançado um modelo universitá- dalidades de transmissão de conhecimentos.
rio único. O conjunto desses elementos, que fazem
A organização institucional também do ensino superior um universo cada vez mais
continua bastante complexa, com instituições complexo num contexto evolutivo de trabalho,
de estatutos diversos (diferentes tipos de esta- exige um sistema de informação confiável e
belecimentos públicos – nacionais, estaduais e transparente quanto ao seu modo de funcio-
3
Cálculos feitos pelo autor a partir dos dados do Instituto
namento e aos seus resultados. Essas infor-
estatístico da UNESCO, http://www.uis.unesco.org. mações são necessárias tanto para entender o
4
Trata-se de uma estrutura em três ciclos do ensino supe- funcionamento social do sistema como para
rior, sistema comum de créditos, mesmo modelo de suple-
mento ao diploma. ajudar os poderes públicos, as famílias e os es-

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tudantes a definirem suas opções em termos respeito a essas exigências crescentes em ma-
de financiamento e de carreira. téria de prestação de contas: desde as primei-
Na França, foi a criação de novos diplo- ras experiências de avaliação dos programas
mas que suscitou as primeiras pesquisas na- de doutoramento e de mestrado efetuadas pela
cionais de inserção de graduados do ensino CAPES em 1977, até a implantação do sistema
superior.53 Naquela época, essa abordagem nacional de avaliação do ensino superior, regi-
inscrevia em uma preocupação mais geral de do pela lei de avaliação institucional de 2004.
monitoramento do sistema de formação vincu- As avaliações feitas, desde 1997, por comitês
lado a um sistema de planejamento indicativo paritários das universidades e dos programas,
nacional. se generalizaram. Todavia, os critérios de qua-
E foi nesse contexto que nasceu, em lidade de acesso ao mercado de trabalho não
1970, o Centro de Estudos e de Pesquisas sobre são, em geral, levados em conta, embora te-
as Qualificações (Céreq), sob a tutela do Minis- nham surgido algumas experiências pontuais
tério da Educação e do Ministério do Trabalho. que veremos mais adiante.
O Céreq tem como base de estudos as Certos governos procuram também aten-
der claramente às necessidades de informação
[...] condições de passagem dos indivíduos do apa-
relho de formação à atividade, segundo os tipos e os
dos estudantes e de suas famílias em matéria
níveis de formação e qualquer que seja a natureza de inserção profissional. O UK Quality Code for
dos estabelecimentos de ensino: escolas técnicas, High Education, estabelecido em 2012 na Grã
centros de formação para adultos, universidades. O -Bretanha, pretende ajudar as instituições de
objeto desses estudos é o de identificar os canais de ensino superior a responder às expectativas dos
acesso à profissão e as ocupações de início de carrei-
estudantes tendo em vista a preparação da fu-
ra nas empresas, como também o de realçar os pon-
tos críticos e de empreender estudos longitudinais
tura carreira, e a preparar seus formandos para
de evolução das carreiras (Flavigny; Grelet, 2012).64 enfrentar as demandas flutuantes do mercado
de trabalho. Para que os serviços de orientação
As exigências de prestação de contas possam esclarecer os estudantes, as instituições
por parte das universidades tornaram-se tam- são convidadas a recolher informações sobre o
bém cada vez mais constringentes, acentuadas futuro deles, as quais devem ir além de dados
pelos procedimentos de acreditação em certas sobre os primeiros empregos costumeiramente
áreas (faculdades de administração e de en- solicitados por agências estatísticas.

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genharia) e em inúmeros países. Na França, a Desde muito tempo, os pesquisadores
partir da lei relativa “à liberdade e às respon- em economia e sociologia participam do de-
sabilidades das universidades” de 2007, as senvolvimento de pesquisas de inserção e de
universidades devem publicar suas estatísti- trajetória no mercado de trabalho e delas tiram
cas incluindo os indicadores de aprovação nos proveito. Na França, foram dois demógrafos –
exames e no fim dos ciclos, de prosseguimento Girard e Bastide – que iniciaram as primeiras
de estudos e de inserção profissional dos es- coletas. Na Europa, pesquisas importantes fo-
tudantes; devem ainda publicar um relatório ram dirigidas a partir de estudos sobre o futuro
sobre a quantidade e a qualidade dos estágios profissional dos formandos. Deve-se salientar,
realizados pelos estudantes com o objetivo de a esse respeito, a contribuição extraordinária
auxiliá-los em sua inserção profissional. de Ulrich Teichler, do International Center for
O Brasil não fica muito atrás no que diz Higher Education Research, da Universidade
5
Isso aconteceu em 1969, com as entrevistas dos egressos
de Kassel, Alemanha. Esse pesquisador não
das duas primeiras promoções do novo diploma universi- apenas desenvolveu as pesquisas com egres-
tário de tecnologia, instaurado em 1965 (Flavigny; Grelet,
2012). sos do ensino superior na Alemanha, como
6
Dossiê Céreq n. 5, 1973. também é o responsável por vários projetos

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internacionais baseados nelas. O projeto mais procedimento. Na verdade, os resultados dos


famoso é, sem dúvida, “Ensino Superior e Em- testes, assim como a análise da vida acadêmica
prego dos Graduados na Europa”, mais conhe- e dos empregos ocupados, permitiram a elabo-
cido por CHEERS, cujo objetivo foi o de ana- ração de um esquema de correspondência en-
lisar o emprego e o trabalho dos egressos de tre características individuais e características
instituições de ensino superior em nove países do emprego, cujos riscos de erros podem ser
europeus nos primeiros anos após a formatura. facilmente imaginados se não se leva em con-
ta a margem de incertezas que acompanha os
resultados dos testes, tampouco a evolução do
AS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS sistema econômico.
Os National Longitudinal Surveys foram
Os Estados Unidos ocupam um lugar realizados pelo Center for Human Resource
especial, pois realizam, há muitos anos, pes- Research da Universidade do Estado de Ohio,
quisas em grande escala e em vários lugares EUA, contratado pelo Ministério do Trabalho.
sobre o futuro dos estudantes. Trata-se, fre- Iniciadas em 1966, essas pesquisas tinham por
quentemente, de pesquisas baseadas em po- objetivo explicar o comportamento e a experi-
pulações oriundas do ensino secundário, e são ência profissionais de quatro coortes da popu-
poucas as que se referem aos graduandos do lação civil dos Estados Unidos, definidas por
ensino superior. É o caso, por exemplo, do pro- idade e sexo: homens entre 45 e 59 anos e de
jeto TALENT, com certeza o dispositivo mais 14 a 24 anos em 1966, mulheres entre 30 e 44
ambicioso em termos de abrangência. Houve anos em 1967 e mulheres que tinham entre 14
ainda pesquisas longitudinais de amostras de e 24 anos em 1968. As amostras foram inqui-
população de graduados do ensino superior, ridas regularmente ao longo de quinze anos.
como o National Longitudinal Survey, que será De acordo com H. Parnes (1978) “[...]
apresentado mais adiante. pode-se afirmar, com toda sinceridade, que os
O projeto TALENT nasceu da vontade de National Longitudinal Surveys reúnem os da-
se obter, a partir de uma visão global dos Es- dos mais completos, nunca antes recolhidos
tados Unidos, uma boa compreensão dos me- nas amostras da população nacional, que per-
canismos de escolha de carreira e das relações mitem a análise do comportamento e da expe-
entre a formação e o emprego, que poderiam riência profissionais.”
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servir de base a um sistema de informação pro- Outros estudos foram feitos com popu-
fissional. Em março de 1960, cerca de 400.000 lações mais circunscritas de estudantes. Um
alunos passaram por uma bateria de testes du- dos primeiros dizia respeito ao futuro dos gra-
rante dois dias, o que correspondia a 5% de duados do ensino secundário do Minnesota,
todos os alunos de segundo ciclo das escolas no final dos anos 1930, sendo até mesmo pro-
secundárias dos Estados Unidos. Esses alunos longado por um estudo longitudinal.
foram acompanhados longitudinalmente por Em 1957, cinco mil graduados (homens)
um, cinco e onze anos depois de formados. No do ensino secundário do Wisconsin foram sub-
que diz respeito à interpretação dos resulta- metidos a uma pesquisa que também serviu de
dos, alguns autores utilizaram os dados para base aos trabalhos de Sewel e Hauser (1975).
analisar expressamente a evolução da situação Em 1975, foi feito novo contato com a mesma
dos antigos estudantes do superior (French; população, por telefone, e 88% desses homens
Cook, 1969). Mas a principal utilidade do pro- foram entrevistados.
jeto refere-se à construção de um guia de infor- A pesquisa do National Opinion Resear-
mação profissional. A consulta desse guia re- ch Center dirigiu-se a uma população de estu-
vela, entretanto, os perigos da utilização de tal dantes do ensino superior. Tratava-se de uma

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amostra de graduados de junho de 1961 e, an- Com o dispositivo Génération 92, que
tes que saíssem do sistema de ensino, foram inquiriu, em 1997, uma amostra de 27 mil jo-
inquiridos a respeito de seus projetos profissio- vens egressos em 1992 do sistema educativo, o
nais. Durante três anos consecutivos, essas pes- Céreq operou a uma mudança de metodologia:
soas foram contatadas, e uma quinta entrevista uma amostra de jovens egressos no mesmo ano
foi ainda realizada em 1968 para conhecer a si- da formação inicial passou a ser entrevistada
tuação profissional após sete anos da obtenção por telefone apenas três anos após a inserção
do diploma. Dessa forma, cerca de cinco mil deles no mercado de trabalho. Uma subamos-
questionários puderam ser explorados. tra foi também entrevistada cinco, sete e dez
A França apresenta um caso bastante anos após a formatura. Até o momento, seis
singular de dispositivo nacional, coordenado pesquisas “Génération” já foram realizadas.
do começo ao fim pelo Governo. Se o Céreq foi
o responsável por empreender, no início dos
anos 1970, as primeiras pesquisas junto a po- ALGUMAS EXPERIÊNCIAS ATUAIS
pulações específicas – titulares de novos tipos DE PESQUISAS FEITAS COM GRA-
de diplomas –, seus pesquisadores deduziram DUADOS DO ENSINO SUPERIOR
rapidamente que, para analisar a situação pro-
fissional dessas populações, seria necessário França
posicioná-las considerando o conjunto de to-
dos aqueles que ingressaram na vida ativa; so- As pesquisas realizadas pelo Céreq, por
mente dessa forma seria possível comparar a mais interessantes que possam ser no âmbito
situação desses formados em relação a outros nacional, não permitem estudar detalhada-
graduados e comparar os efeitos de concorrên- mente o futuro dos formandos das distintas
cia e de substituição entre os diplomas. universidades. O Céreq, apoiado por sua rede
Da mesma forma, para que fossem le- de centros de pesquisas associados, bem que
vados em conta os efeitos conjunturais, seria buscou, por intermédio de um Grupo de Tra-
também necessário repetir regularmente as balho formado em 1993, desenvolver um me-
pesquisas. Para analisar os efeitos da especia- canismo que lhe permitisse sistematizar os es-
lização do diploma e de sua origem em termos tudos realizados pelas universidades. As pri-
geográficos, é preciso dispor de pesquisas jun- meiras observações do Centro resultaram em

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to a uma vasta amostra de formandos. Para um documento que é, ao mesmo tempo, um
atender a essas exigências, foi criado, em 1975, guia metodológico e uma reflexão sobre a ex-
o Observatoire National des Entrées dans la Vie ploração e análise dos resultados – Parcours de
Active (Affichard; Gensbittel, 1984). Dirigido formation et insertion professionnelle des étu-
pelo Céreq, o Observatoire pretendia, inicial- diants, sources et méthodes, coordenado por
mente, sondar toda uma geração de egressos Françoise Stoeffler-Kern e Daniel Martinelli.
do sistema educativo francês de um mesmo Esse grupo, filiado ao Céreq e a seus centros
ano, nove meses após terem se formado (pes- associados, não considerou uma evolução im-
quisas de inserção) e quatro anos mais tarde portante, que foi a iniciativa de as universi-
(estudos de acompanhamento). Um primeiro dades, nos anos 1990, criarem seus próprios
ciclo de pesquisas de inserção ocorreu de 1976 observatórios universitários, encarregados de
a 1979, seguido do segundo ciclo, de 1980 a acompanhar a trajetória de seus estudantes
1983, ao mesmo tempo em que se realizavam como, posteriormente, do desempenho deles
os primeiros inquéritos de acompanhamento na vida profissional.
(Flavigny; Grelet, 2012). Todas essas pesquisas Atualmente, cada uma das 75 universi-
foram feitas por via postal. dades possui um observatório desse tipo e se

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reúnem numa associação – Observatoires de Grã-Bretanha


la Vie Etudiante. Uma primeira reunião desse
grupo foi organizada em 1997, por iniciativa da A The Higher Education Statistics Agency
Universidade da Borgonha, mas os estatutos (HESA) é a agência oficial encarregada de cole-
da associação foram estabelecidos oficialmen- tar, analisar e divulgar as informações quantita-
te apenas em dezembro de 2006. A associação tivas referentes ao ensino superior na Grã-Bre-
possibilita o debate sobre as metodologias uti- tanha. Embora, desde 1963, algumas universi-
lizadas e a conduta de trabalhos comparativos, dades já empreendessem algumas pesquisas
os quais não são sempre fáceis, uma vez que os sobre o primeiro emprego dos graduados, elas
questionários são, em geral, específicos a cada não revelaram uma visão clara e exaustiva das
estabelecimento. Esses problemas são idênticos condições de acesso ao emprego (Clark, 1973).
àqueles já apontados em 1981 por Jean-Claude Em 1993, um acordo entre os ministé-
Eicher em relação às pesquisas-piloto realiza- rios envolvidos, os conselhos encarregados do
das nas Universidades de Nice, Lille e Toulou- financiamento do ensino superior e as institui-
se, no início dos anos 1970 (Eicher; Paul, 1981). ções de ensino superior deu origem à HESA,
Com o intuito de facilitar as compara- com o objetivo de coletar, analisar e divulgar as
ções dos resultados, o Ministério do Ensino informações quantitativas referentes ao ensino
Superior da França tomou a iniciativa de en- superior. A HESA também surgiu em consequ-
trevistar titulares de Masters (pela primeira vez ência de um “Livro Branco” que cobrava mais
em 2009 com os formandos de 2007). Esses es- coerência nas estatísticas educacionais. Trata-
tudos são dirigidos pelos observatórios das uni- se de uma associação sem fins lucrativos, fi-
versidades. Os resultados da primeira pesquisa nanciada pelas assinaturas de todas as Institui-
provocaram uma grande polêmica, em que o ções de Ensino Superior (IES) do Reino Unido.
Ministério foi acusado de fazer comunicação A HESA encarrega-se de dois tipos de es-
política e de transformar os resultados em uma tudos: uma pesquisa de inserção dos graduados
hit-parade das universidades, tendo como úni- seis meses após a formatura (The Destinations
co indicador a taxa de desemprego. O corolário of Leavers from Higher Education, DLHE) e um
disso foi a rejeição do projeto da segunda pes- estudo longitudinal realizado três anos e meio
quisa pelo Conselho Nacional de Informação depois de formados. As pesquisas de inserção
Estatística, que apontou grandes riscos de des- são feitas pelas IES, e os dados são enviados à
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vio dos resultados, principalmente em relação HESA. Os estudos longitudinais, ao contrário


às classificações. A comissão advertiu ainda das pesquisas de inserção, não são recensea-
sobre a ambiguidade entre a estatística pública mentos, mas são baseados numa amostra dos
e a comunicação política.75 Os resultados da se- estudantes inquiridos na pesquisa de inserção.
gunda pesquisa também serão utilizados para O quarto estudo longitudinal foi realizado em
estabelecer um ranking, apesar da existência de 2012-2013, com os formandos de 2008-2009.
dúvidas sobre a representatividade da amostra Os dados são coletados pelo IFF Research (ins-
(que envolveu 38% dos graduados e não consi- tituto britânico privado de pesquisas).
derou os que prosseguiram os estudos) e sobre No que diz respeito à coleta dos dados
a interpretação dos dados, uma vez que nem das pesquisas de inserção, as IES, independen-
todos os mercados de trabalho regionais ofere- temente de seu tamanho ou estatuto, seguem o
cem as mesmas oportunidades. procedimento estabelecido pela HESA. As infor-
mações recolhidas no momento dos levantamen-
7
Ver, a esse propósito, as crônicas de Pierre Dubois em tos são acopladas ao registro acadêmico existente
http://blog.educpros.fr/pierredubois. Nesse blog, são apre-
sentadas as análises sobre o sistema francês, bastante cri- nas IES, em que se mencionam o diploma, a es-
ticado na comparação com outros dispositivos europeus,
particularmente o italiano, discutido mais à frente. pecialização e o modo de ensino dos estudantes.

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Em 2011-2012, a taxa de respostas dos a profissionalização dos levantamentos junto


411.000 formandos foi estimada em 77%. As aos egressos e a promoção da pesquisa sobre o
modalidades dos levantamentos combinam ensino superior, por intermédio da disponibi-
questionários on line com entrevistas realiza- lização de uma base de dados anônimos prove-
das por telefone e pelo correio. nientes de diferentes instituições.
Em 2012-2013, foram entrevistados os
egressos de 2011. Esses graduados deverão ser
Alemanha novamente entrevistados em 2015-2016. De
acordo com os autores desse dispositivo, essa
A Alemanha apresenta a situação para- segunda fase é necessária por quatro grandes
doxal de um país de onde provêm importantes razões. Primeiramente, porque os graduados
pesquisadores em matéria de estudos sobre alemães começam a trabalhar em um emprego
os egressos do ensino superior e, ao mesmo que corresponde à sua formação somente de
tempo, contando com instituições que ficaram três a cinco anos depois de formados. Em se-
muito tempo fora do sistema unificado de pes- gundo lugar, em alguns setores, é exigido um
quisas. Sem dúvida, trata-se de uma consequ- estágio de um ou dois anos antes de ingressar
ência do próprio sistema político federal que na profissão escolhida (em direito, por exem-
confere uma ampla autonomia aos Estados na plo). Somente essa fase pode informar sobre
organização de seus respectivos sistemas de as formações seguidas após a obtenção do di-
ensino superior. ploma e sobre as etapas iniciais da carreira, o
Teichler (1979) mostrou que, na Alema- que possibilita também que se estabeleçam re-
nha, nos fins dos anos 1970, não se dispunha lações entre as condições iniciais de inserção e
de qualquer informação sistemática sobre o a continuação da carreira profissional.
nível de formação da mão de obra, como tam- As instituições solicitam a seus forman-
bém era desconhecido o número de egressos dos que respondam às entrevistas por via pos-
do ensino superior. Depois disso, inúmeras tal ou eletrônica. Elas são responsáveis pela
IES tomaram a iniciativa de entrar em contato atualização das pastas de endereços. Os egres-
com seus egressos (150 pesquisas foram reali- sos podem responder ao questionário elabora-
zadas nos anos 1990), mas demorou o surgi- do por INCHER-Kassel em linha ou por escri-
mento de um sistema coordenado. Somente no to. São enviados três lembretes, e as taxas de

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final dos anos 1990, foram recompensados os respostas das primeiras levas de questionários
esforços de Harald Schomburg (pesquisador (cerca de 50%) deixam os autores do projeto
de INCHER-Kassel), com a criação de um sis- bastante otimistas.
tema parcialmente integrado de pesquisas so- Mesmo se o Ministério Federal de Educa-
bre os egressos: o projeto Kooperationsprojekt ção e de Pesquisa da Alemanha não apareça em
Absolventenstudien (KAOB). Nesse projeto, primeira linha nesses trabalhos, foi esse órgão
cada uma das universidades afiliadas à rede que financiou o INCHER-Kassel para que as pes-
elabora um questionário a partir de um mode- quisas fossem realizadas com egressos do ensino
lo comum estabelecido pelo INCHER-Kassel, superior quatro a cinco anos após a formatura.
responsável por compilar os resultados e re-
alizar uma síntese geral. Algumas regiões, no
entanto, não se associaram à rede e pouco mais Itália
de 50% de todos os graduados da Alemanha
acabam participando do projeto. O exemplo italiano é particularmente
A cooperação entre as IES e uma equi- interessante. A Itália se manteve, por muito
pe de pesquisa tem dois objetivos principais: tempo, afastada das pesquisas de egressos e

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apresenta hoje um sistema que é considerado conjuntos de informações, obtidas a partir


por muitos, sobretudo por agências e pesqui- dos registros acadêmicos (estudos realizados,
sadores internacionais, o melhor que existe dados demográficos e aprovação na universi-
atualmente. dade), ou então a partir dos questionários pre-
Criado em 1994 por iniciativa do Ob- enchidos pelos estudantes (origem social, con-
servatorio Statistico dell’Università di Bolog- dições de estudo, trabalho durante os estudos,
na (Observatório Estatístico da Universidade avaliação da experiência universitária, compe-
de Bolonha), AlmaLaurea experimentou um tências linguísticas e informáticas, estudos em
crescimento exponencial e reúne, atualmente, vista, projeto profissional). O relatório de 2013
78% dos graduados universitários italianos. É (15° da série) engloba 227.000 estudantes que
administrado por um Consórcio das Universi- terminaram seus estudos em 2012 em uma das
dades Italianas, com o apoio do Ministério da 63 universidades do consórcio (80% do total
Educação, da Universidade e da Pesquisa. Os dos graduados italianos). A taxa de respostas
fundadores de AlmaLaurea souberam identifi- aos questionários chega a 90%. Todas as infor-
car as necessidades dos diferentes atores, de mações são acessíveis em linha, por universi-
modo a estabelecer as incitações adequadas dade, por faculdade e por diploma.86
para cada um deles. Um segundo relatório, Condizione occu-
A ideia fundamental é criar uma base de pazionale dei laureati, apresenta a situação dos
dados confiável e atualizada de curricula vitae egressos no mercado de trabalho, um ano, três
(CVs) dos egressos que seja acessível às em- anos e cinco anos depois da formatura. O rela-
presas. Os estudantes, da sua parte, têm todo tório de 2013 (15°) abrange 400.000 graduados.
o interesse em ter os seus CVs nesse arquivo e, As taxas de respostas são excelentes: 86% para
portanto, respondem aos questionários que os a pesquisa de um ano, 80% para a de 3 anos e
alimentam; as universidades, por sua vez, têm 77% para a de 5 anos após o diploma. Os da-
interesse em dispor de informações sobre o fu- dos englobam as informações da base dos CVs
turo dos seus alunos e em contar com dados e as coletadas no momento da pesquisa: elas
confiáveis; por fim, as empresas têm interesse relatam a situação profissional atual, revelan-
em utilizar os CVs dos egressos no intuito de ga- do se o egresso encontra-se desempregado ou
nhar tempo nos procedimentos de contratação. não, o tipo de contrato, o salário, a profissão,
Em junho de 2013, a base de dados de as características da empresa, sua apreciação
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

AlmaLaurea dispunha de quase 1.800.000 CVs sobre a eficácia do seu diploma, a intensidade
de egressos de 64 universidades italianas. Em da utilização das competências adquiridas na
termos práticos, os estudantes do último ano universidade, dentre outras. As informações
das universidades pertencentes ao consórcio também são acessíveis em linha, segundo o
são convidados a se conectarem ao portal de ano de obtenção do diploma, por universida-
AlmaLaurea para obter sua identificação e de, por faculdade e por tipo de diploma.
senha. Nesse momento, eles fornecem uma O AlmaLaurea é acolhido positivamente
primeira série de informações. Após a obten- por inúmeros atores. Para Elizabeth King, dire-
ção do diploma, suas universidades enviam tora do setor de educação do Banco Mundial,
os dados de seus registros acadêmicos, o que o dispositivo permite a redução das dissonân-
permite também controlar os dados fornecidos cias de informações: dos empregadores que
pelos estudantes. Essas informações compõem não conhecem as qualificações dos egressos,
a primeira parte dos CVs (dados pessoais e dos estudantes que não conhecem os resulta-
acadêmicos) e constituem a base do relatório
elaborado anualmente, desde 1999, intitulado 8
As referidas informações podem ser encontradas em
<http://www.unibo.it/it/servizi-e-opportunita/servizi-online/
Profilo dei Laureati. Nele, são analisados dez guida-servizi-online-studenti/almalaurea-questionario>.

316
Jean-Jacques Paul

dos das universidades, dos egressos que não questionários de acompanhamento, e, para os
conhecem os empregos aos quais podem pos- empregadores, os elementos-chave para a rea-
tular. Para Francisco Marmolejo, coordenador lização das pesquisas junto aos egressos.
do ensino superior no Banco Mundial, e que Dentre as instituições europeias que
diz já ter visto inúmeros dispositivos e meto- participaram do projeto, destacamos o Céreq, a
dologias pelo mundo afora, “nenhum apresen- Universidade de Ciências Sociais de Toulouse
ta o tipo de abordagem de AlmaLaurea”, que e a Universidade de Nice (pioneiras nas pes-
resulta em tão ampla participação dos gradua- quisas de egressos), na França, a Universidade
dos nas pesquisas, em um forte compromisso de Kassel, na Alemanha, e o consórcio Alma-
da parte das IES, no interesse das empresas e Laurea, na Itália.
da comunidade científica.
O sociólogo francês Pierre Dubois, cria-
dor de um dos primeiros observatórios uni- DOIS PROJETOS DE PESQUISAS
versitários dos estudantes, critica fortemente INTERNACIONAIS: CHEERS e RE-
o dispositivo francês de pesquisas de egressos FLEX
em seu blog e não poupa elogios ao dispositivo
italiano. Ele destaca, sobretudo, a alta taxa de CHEERS
respostas, a rapidez na divulgação dos resul-
tados e a independência da organização com O objetivo do projeto de pesquisa Carrer
relação às autoridades políticas. Essa indepen- after Higher Education: a European Research
dência permite que se exponham claramente Study (CHEERS) era o de analisar a situação
os problemas crescentes de inserção com os profissional dos egressos das IES em nove pa-
quais os egressos se confrontam. íses europeus durante os cinco anos após a
Pelo lado contrário, Dubois considera obtenção do diploma. A coordenação foi assu-
que o sistema francês é muito lento na produ- mida por Ulrich Teichler e Harald Schomburg,
ção de resultados e, às vezes, sensível às pres- ambos da Universidade de Kassel. Do final de
sões do poder político. 1998 a meados de 2000, cerca de 3.000 gradu-
ados de nove países da União Europeia, de um
país da Associação Européia de Livre Comér-
OS PROJETOS INTERNACIONAIS cio (Noruega) e de um país economicamente

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015


avançado fora da Europa (Japão) responderam
Columbus a um questionário postal sobre as relações en-
tre o ensino superior e o emprego. As respostas
Columbus, uma associação fundada referiam-se à dimensão sociodemográfica, aos
em 1987 pela Associação Europeia das Uni- estudos concluídos, à transição dos estudos ao
versidades e pela Associação das Universi- emprego, à primeira fase da carreira, aos vín-
dades Latino-americanas a fim de promover culos entre a formação acadêmica e o emprego
a cooperação entre as universidades dos dois ocupado, à satisfação no emprego e também à
continentes, tomou a iniciativa de um projeto visão retrospectiva sobre o ensino superior.
que visa ao desenvolvimento das pesquisas de Tal pesquisa, dirigida a partir de um ques-
egressos. Desse projeto, do qual participaram tionário único para todos os países (levando-se
universidades e instituições das duas regiões obviamente em conta as particularidades nacio-
(10 da América Latina e 11 da Europa), resul- nais), permitia, pela primeira vez, examinar em
tou um manual que apresenta as bases dos in- que medida as relações entre a formação e o em-
quéritos de acompanhamento, os diferentes ti- prego eram semelhantes ou distintas em países
pos de pesquisas, os principais elementos dos desenvolvidos com as mesmas características.

317
ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR...

REFLEX dos egressos alegam que seus conhecimentos


e suas qualificações são suficientemente utili-
Research into Employment and profes- zados. Excetuando-se os “suspeitos habituais”
sional Flexibility (REFLEX) é um projeto inter- (ciências humanas e sociais, e países do sul
nacional de grande escala que cobriu dezes- da Europa), a Grã-Bretanha apresenta-se como
seis países. Preocupa-se com as demandas que um país onde os egressos, mesmo cinco anos
a sociedade do conhecimento exerce sobre os após o diploma, têm dificuldades em encon-
egressos do ensino superior, e em saber em que trar um emprego no qual suas competências
medida o ensino superior transmite aos gradu- sejam plenamente utilizadas. Isso pode ser
ados as competências necessárias para satisfa- explicado pelo fato de que o sistema de ensi-
zer a essas demandas. no superior britânico é bem menos ligado ao
A pesquisa baseou-se em uma amostra mundo do trabalho do que muitos dos siste-
representativa de 30.000 graduados, que foram mas de ensino superior do continente europeu
entrevistados em 2005, cinco anos depois da (Allen; Van der Velden, 2011).
formatura. Foi coordenada por Rolf van der Vel- Os autores tiraram algumas recomenda-
den, da Universidade de Maastricht, Holanda, ções sintéticas da pesquisa segundo os diferen-
e participaram desse estudo pesquisadores de tes atores interessados. Dessa maneira, para a
onze países: Alemanha, áustria, Espanha, Fin- Comissão Européia, a principal mensagem é o
lândia, França, Itália, Japão, Noruega, Holan- interesse do dispositivo para se conhecer me-
da, Reino Unido e Suíça. Essa vasta pesquisa lhor os sistemas europeus de ensino superior,
articulou-se em torno de quatro interrogações: seus pontos comuns e suas fraquezas. Reco-
Que competências os estudantes do ensino mendam, ainda, a replicação do instrumento
superior buscam para integrar o mercado de a cada cinco anos, em razão da necessidade de
trabalho? Quais são as que foram adquiridas e se acompanhar a expansão da globalização.
as que são exigidas pelos empregadores? Como Aos governos nacionais os autores re-
as instituições de ensino superior os ajudam a comendam a necessidade de se reforçarem as
desenvolvê-las? E, por conseguinte, quais são orientações essenciais do ensino superior e de
as tensões em jogo entre os estudantes, as ins- se incentivarem, durante os estudos, as experi-
tituições e os empregadores? (Allen; Van der ências profissionais, desde que ligadas a eles.
Quanto aos empregadores, a recomendação é
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

Velden, 2011).
Alguns resultados desse projeto pare- a de que tomam mais consciência das reservas
cem contradizer um discurso geralmente pes- de capital humano à disposição, às vezes não
simista sobre a situação dos egressos do ensi- utilizadas, bem como desenvolvam políticas
no superior no mercado de trabalho: os dados que considerem a feminização do mercado de
mostram que eles se saem bem na maior parte trabalho.
dos países pesquisados. Apesar das diferenças Quanto às IES, considerando o êxito dos
entre os sistemas educativos, os resultados egressos no mercado de trabalho, os autores as
encontrados nos países também parecem con- convidam para desenvolver programas de es-
vergir. Uma proporção importante do capital tudos mais exigentes. Os egressos tiram mais
humano produzido no ensino superior integra proveito de programas que insistem na espe-
o mundo do trabalho. Uma proporção relati- cialização profissional. As avaliações continu-
vamente baixa de estudantes ocupa empregos adas parecem ser benéficas ao êxito profissio-
no topo da hierarquia, mas a maioria exerce nal. Finalmente, as IES deveriam procurar dar
funções que exigem uma formação superior sistematicamente créditos para as experiências
geral ou especializada. A taxa de desemprego profissionais relacionadas com os estudos.
é relativamente baixa, e mais de três quartos Quanto aos estudantes, os autores os

318
Jean-Jacques Paul

instigam a buscar as experiências de trabalho superior brasileiro a partir do sistema cearen-


durante os estudos, pois elas se revelam bené- se, o projeto envolvia as universidades existen-
ficas no início da carreira. Destacam, ainda, a tes em Fortaleza e propunha-se a conhecer a
importância de se manterem numa boa rede de realidade desse sistema a partir de três perspe-
relacionamentos. ctivas importantes: a dos vestibulandos, a dos
matriculados e a dos graduados.
O principal resultado da pesquisa most-
O CASO BRASILEIRO ra que, tanto do ponto de vista da procura
dos cursos no momento do vestibular quanto
As primeiras iniciativas da origem social dos alunos e do desempen-
ho dos egressos no mercado de trabalho, não
Uma das primeiras pesquisas de egres- existe uma polarização “universidade pública”
sos foi a realizada junto aos graduados de di- versus “universidade privada”. Ficou clara a ir-
reito da Faculdade de Direito do Vale do Pa- relevância de se compararem as universidades
raíba, no Estado de São Paulo, a qual estudou globalmente, sem levar em conta as dimensões
a situação profissional de 122 graduados no “curso” e “turno”, principais responsáveis pe-
período 1958-1976 (Paul, 1989). las diferenças observadas. Existe, isso sim,
Em 1982, a Coordenaçao de Aperfeiço- uma continuidade entre os cursos e, no inte-
amento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) rior deles, entre as turmas (cursos diurnos e
desenvolveu uma pesquisa com graduados de noturnos, cursos prestigiados ou menos presti-
5 cursos (administração, biologia, educação, giados, de elite ou de classe pobre, de bom de-
medicina e química) de 48 IES para os anos sempenho e de fraco desempenho no mercado
1972, 1975, 1978 e 1980. Infelizmente, é difí- de trabalho) (Paul e Ribeiro, 1997).
cil achar análises no Brasil que utilizaram os No que diz respeito à pesquisa com os
resultados dessa pesquisa. Uma exceção é a a egressos, foram entrevistados, em 1989, por
dissertação de mestrado de Simões (1985). via postal, os graduados de 1984 a 1986, con-
Em 1986, a Universidade Federal do Ce- cluintes dos 74 cursos superiores de Fortaleza
ará (UFC) promoveu uma pesquisa de egres- naquele época, e foi analisada uma amostra
sos com os graduados de 17 cursos nos anos representativa de 2.000 egressos. Também foi
de 1978, 1980 e 1983. Provavelmente outras selecionada uma amostra de não-respondentes

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015


experiências foram desenvolvidas no país, li- que foram posteriormente entrevistados por
deradas por outras universidades, mas não fo- telefone a fim de garantir a confiabilidade das
ram divulgadas. Geraldo Ribas Machado, por inferências e generalizações.
exemplo, evoca, em sua tese de doutoramento O projeto “A trajetória acadêmica e pro-
(2010), quatro pesquisas dirigidas pela UFR- fissional dos alunos da USP” é um do conjunto
GS junto aos graduados nos períodos 1970-72, de três pesquisas paralelas, desenvolvidas pelo
1973-75, 1976-78 e 1979-81. Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da
Desse conjunto de trabalhos pioneiros, Universidade de São Paulo (NUPES/USP):
distinguem-se duas pesquisas: uma primei- a. início de um estudo longitudinal sobre a tra-
ra dirigida em 1989-1990, na UFC, e a outra jetória profissional dos alunos, pela aplica-
em 1991-1992, na Universidade de São Paulo. ção de questionários ao universo de alunos
A primeira faz parte de um amplo projeto de que ingressaram na USP em 1991, nos cur-
pesquisa idealizado pela Coordenadoria de sos de graduação, em quatro áreas de forma-
Análise Institucional e Avaliação da Pró-Rei- ção selecionadas (cerca de mil entrevistas);
toria de Planejamento da Universidade Federal b. estudo sobre a vida profissional dos estudantes
do Ceará. Na busca da racionalidade do ensino de graduação formados pela USP nos últimos

319
ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR...

dez anos, com uma amostra de mil entrevista- do egresso” em inúmeras IES. Examinando-se
dos, de quatro áreas de formação selecionadas; os sites acessíveis na internet, chega-se a iden-
c. estudo sobre alunos e ex-alunos de pós-gra- tificar 32 instituições de ensino superior que
duação da USP que iniciaram seus cursos possuem seu “Portal do egresso”. São quatro
nos últimos dez anos, em quatro áreas sele- universidades federais, três universidades es-
cionadas (cerca de mil entrevistas). taduais, uma universidade municipal, dois
O objetivo imediato desses estudos era institutos federais, onze universidades par-
desenvolver indicadores e permitir análises ticulares e doze faculdades privadas. Essas
sobre a funcionalidade, o desempenho e a iniciativas representam, sem dúvida, como é
rentabilidade social e econômica dos cursos bem ilustrado no portal da Universidade Es-
de graduação e pós-graduação da Universida- tadual de Londrina, uma “aproximação com
de de São Paulo. Várias análises foram extraí- os ex-alunos, intenção que foi reforçada pelas
das dessas pesquisas97 (Schwartzman; Castro, exigências do programa de autoavaliação ins-
1991; Schwartzman, 1992; Schwartzman et titucional determinado pelo Sistema Nacional
al., 1992; Castro; Paul, 1992) de Avaliação do Ensino Superior”. Pode-se di-
Quanto às iniciativas institucionais, zer, portanto, que essas iniciativas procuram
Geraldo Ribas Machado (2010) destaca “Um responder a uma demanda explícita ou implí-
dos levantamentos pioneiros sobre egressos”, cita das autoridades encarregadas das avalia-
estudo realizado pela Universidade de Brasí- ções e das acreditações das IES. O Portal de
lia em 2006, junto a 614 formandos de 1994 a Egressos do Instituto Federal de Educação,
2002. Ainda de acordo com Machado (2010), a Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte
UFRGS implantou, em novembro de 2003, um também expressa esse ponto de vista: “A Pes-
sistema de acompanhamento dos ex-alunos; quisa de Acompanhamento de Egressos (PAE)
também a Universidade Estadual de Londrina é considerada pelo Ministério da Educação
(UEL, 2006) inaugurou o seu portal do egres- (MEC) como de fundamental importância para
so para os 12.000 estudantes que se formaram o desenvolvimento das políticas de educação e
entre 1998 e 2003; desse montante, 2.253 se evolução das Instituições de Ensino no país”.
registraram, disponibilizando dados pessoais, Trata-se, portanto, mais de um procedi-
acadêmicos e profissionais. mento administrativo do que de uma tomada
de consciência generalizada sobre a importan-
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

te contribuição das informações prestadas pe-


Panorama das experiências em andamento los egressos para a estratégia de formação das
IES. Certas instituições até mesmo utilizam
A observação das experiências em anda- o portal para fazer propaganda dos cursos de
mento evidencia a multiplicação dos “portais pós-graduação ou de extensão universitária
junto aos ex-alunos, propondo-lhes reduções.
9
Geraldo Ribas Machado (2010) menciona inúmeros tra- Assim, a maioria dos portais não oferece
balhos ocasionais sobre egressos. Um deles é o de Mon-
teiro (1988), que entrevistou 640 egressos do curso de ad- aos ex-alunos mais do que um simples cadas-
ministração da UPE nos anos 1980; outro é o de Duarte
et al. (1999), em que os autores contataram, por telefone, tramento. Alguns deles apresentam depoimen-
891 graduados de 1997-2001 da Universidade de Pelotas; tos de ex-alunos ou conselhos para quando
Gambardella et al. (2000), que entrevistaram 217 do cur-
so de nutrição da USP; Callegari (2001) com 110 egressos se candidatarem a um emprego. Somente um
em 1998 e 1999 de uma universidade particular do Rio
Grande do Sul. Machado também remete à tese de Teixeira portal disponibiliza uma análise dos dados
(2002), com 26 entrevistas com 252 graduados em 2000-
01 (de 24 cursos), o trabalho de Saurin (2006), junto a 52 recolhidos (Universidade Gama Filho, RJ),
egressos do curso de Administração da Universidade do mas, ainda assim, os indicadores são bastante
Oeste do Paraná em 1997 e 2004, como também o de An-
driola (2006), com 101 formandos dos cursos de graduação toscos. O êxito no mercado de trabalho só é
de 2003 e 2004, ou ainda o trabalho de Pires (2008), junto
a 87 egressos da UNEB de 1987 a 2007. ilustrado através de um gráfico, onde se dis-

320
Jean-Jacques Paul

tinguem “ocupados”, “desempregados”, “apo- rios, informações confiáveis e de qualidade, e


sentados” e “outros” segundo o curso seguido um melhor funcionamento do mercado de tra-
pelo egresso. balho, aproximando oferta e demanda de tra-
Alguns portais apresentam um questio- balho. A vantagem do sistema de AlmaLaurea
nário em linha, sugerindo que as informações está em utilizar os dados dos registros acadê-
recolhidas visam mais a obter opiniões sobre micos e, dessa forma, conseguir reduzir o ta-
os cursos seguidos do que a conhecer a situ- manho do questionário e garantir a qualidade
ação profissional dos egressos. Nota-se um das informações sobre os diplomas obtidos.
interesse restrito das instituições em saber se Uma condição essencial ao funciona-
os seus graduados atuam profissionalmente na mento do sistema é a atualização constante dos
área do curso em que se formaram: esse inte- endereços, sendo que, hoje em dia, o endereço
resse limita-se à formulação de uma questão eletrônico do egresso tornou-se o mais impor-
à qual os egressos devem responder “sim” ou tante. Mas o conhecimento de um número de
“não” . Voltaremos a tratar mais adiante sobre telefone também pode ajudar no contato com
os limites dessa avaliação. os egressos para verificação ou aprofundamen-
to de certas informações.
O recurso a um questionário on line per-
CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS mite que se disponha de um sistema pouco
oneroso (as IES brasileiras parecem tê-lo en-
O sistema tendido muito bem): sem inquéritos impressos,
sem custo por via postal, sem custo de chama-
As pesquisas não podem ser considera- das telefônicas, sem custo de tratamento dos
das apenas como um dispositivo para satisfazer dados. Mas é necessário incentivar os egressos
as autoridades responsáveis ou responder a um a se conectarem regularmente. Também, nesse
efeito de moda. As instituições devem conven- ponto, o sistema de AlmaLaurea, que disponi-
cer-se de que as pesquisas são ferramentas es- biliza os CVs em linha, parece oferecer uma in-
senciais para melhorar o funcionamento do en- citação eficaz. Os pedidos para se conectarem
sino superior e que proporcionam importantes e atualizarem as informações podem ser feitos
informações aos estudantes e a suas famílias. por mensagens eletrônicas, tweeter, ou pelas
Elas devem estar atentas à qualidade do questi- redes sociais, que são cada vez mais utilizadas

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015


onário e das respostas, como também à qualida- pelas associações de ex-alunos.
de do tratamento das informações solicitadas. Para que as IES se apropriem das infor-
Duas armadilhas devem ser evitadas: a) mações, elas devem dispor, em seus estabele-
as iniciativas individuais de IES que lançam cimentos, de pessoal capacitado para analisá
estudos a partir de seu próprio questionário, -las e repassá-las aos alunos e professores que
impedindo qualquer possibilidade de compa- não são necessariamente familiarizados com
ração dos resultados, e b) um sistema centrali- essas áreas. No que diz respeito aos estudan-
zado em que as IES não se sentem participan- tes, é preciso que trabalhem com os serviços
tes. Nesse caso, as taxas de respostas correm o de orientação mais adequados para ajudar na
risco de ser mais baixas, e as IES não se aprop- escolha da carreira (mesmo se for necessário
riarão dos resultados para uso interno. distanciar-se um pouco para levar em conta as
Nesse contexto, a experiência de Alma- possíveis mudanças no mercado de trabalho).
Laurea aparece como um modelo capaz de en- Quanto aos docentes, é desejável que os dados
volver todos os atores (IES, estudantes, empre- recolhidos alimentem as reflexões sobre as for-
sas, Ministério do Ensino Superior) e alcançar mações a serem desenvolvidas, transformadas
uma elevada taxa de respostas aos questioná- ou até mesmo encerradas, o mesmo ocorrendo

321
ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR...

em relação aos instrumentos pedagógicos a se- se o diploma de referência contituir somente


rem implementados. um dos diplomas obtidos por certos egressos,
Outro ponto importante refere-se à pe- que voltaram a estudar ou que foram reorienta-
riodicidade das pesquisas. As informações só dos, por exemplo). O estabelecimento de uma
podem ser significativas se restituídas em uma data comum de obtenção do diploma facilita
comparação intertemporal dos resultados, de a análise, oferecendo um mercado de trabalho
modo a salientar as evoluções. com condições homogêneas no momento da
A questão da periodicidade das pesqui- formatura (mesmo se alguns egressos já traba-
sas e das análises continua aberta. Um disposi- lhavam quando da obtenção do diploma).
tivo permanente, em que os egressos atualizam Existem, hoje, muitos exemplos de
constantemente o seu currículo, reduz ou até questionários corroborados por inúmeras pes-
pode eliminar a questão da frequência das pes- quisas. Aconselhamos a leitura do guia meto-
quisas, uma vez que a informação é inserida de dológico elaborado por Harald Schomburg na
forma contínua. Mas a questão da periodicida- Universidade de Kassel (2003), ou o manual
de da análise continua sem resposta: quanto preparado pelo projeto Columbus (Columbus,
tempo após a graduação é conveniente esperar 2006). O tamanho do questionário dependerá
para analisar a situação? dos objetivos do projeto e dos meios colocados
Nota-se, aqui, muitas vezes, uma contra- à disposição.
dição entre dois tempos diferentes: a dos de- Se quisermos exemplificar com o questio-
cididores políticos, que querem informações nário utilizado nos projetos CHEERS, veremos
rápidas, e a dos pesquisadores que, levando que ele continha dez seções que abrangiam:
em conta as dinâmicas internas do mercado de a. Os estudos concluídos antes daqueles relati-
trabalho dos egressos, preferem esperar pelo vos ao diploma de referência.
menos três anos para avaliar a situação (confe- b. Os diferentes estudos universitários segui-
rir o dispositivo alemão). Um acordo pode ser dos.
encontrado na articulação de diferentes levas c. A procura de emprego e a lista sequencial
de pesquisas, como o dispositivo Génération das atividades profissionais.
do Céreq na França, ou as análises de Alma- d. As atividades e o emprego no momento da
Laurea na Itália, efetuadas um, três e cinco pesquisa.
anos depois da formatura). e. As competências e sua utilização.
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

Enfim, é importante que as informações f. Relações entre o ensino superior e o empre-


coletadas sejam reunidas em bancos de dados go.
acessíveis à comunidade científica. Os pesqui- g. Expectativas em relação ao trabalho e a sa-
sadores poderão tirar ensinamentos teóricos tisfação no emprego.
das informações coletadas, contribuir na iden- h. Formação ulterior.
tificação das tendências subjacentes e melho- i. Dados sociobiográficos.
rar os instrumentos de investigação. j. Avaliação retrospectiva dos estudos realiza-
dos
Cada uma das seções pode ser mais ou
A população e o questionário menos detalhada, ou mesmo suprimida, de-
pendendo das perspectivas da pesquisa. É
A população a ser atingida pelos inqué- verdade que, quanto mais longo for o questio-
ritos junto aos egressos deve ser definida clara- nário, mais difícil será atingir uma taxa de res-
mente a partir do tipo de diploma e da data de posta elevada. Mas devemos mencionar que o
sua obtenção. O diploma garante certa homoge- questionário de AlmaLaurea, que obtém, con-
neidade, que dá sentido aos resultados (mesmo forme já vimos, as excelentes taxas de respos-

322
Jean-Jacques Paul

ta, inclui cerca de 45 questões (algumas das a. Se você levar em consideração todas as ta-
quais com mais de 10 itens). refas do seu trabalho atual, em que medida
Convém lembrar também que é melhor você usa os conhecimentos e as competên-
deixar as perguntas mais fáceis de responder cias adquiridas durante os seus estudos? (de
para o fim do questionário (por exemplo, da- 1 “não uso” a 5 “em grande escala”).
dos sociobiográficos, avaliação retrospectiva b. Como você caracteriza a relação entre a sua
dos estudos: “se tivesse que recomeçar, esco- área de formação e a área de trabalho? (Mi-
lheria o mesmo diploma?”). nha área de formação era a única possível /a
Tendo em vista alguns questionários re- melhor opção; outras áreas também podiam
produzidos nos portais das IES brasileiras, al- preparar bem para esse domínio de trabalho;
gumas observações podem ser feitas. Por um uma outra área teria sido mais útil; a área
lado, é melhor combinar informações precisas de formação não tem muita importância; os
(salário) com uma opinião: “Em que medida meus estudos superiores não estão em nada
você está satisfeito com o seu emprego atual?” ligados à minha área profissional).
(nota de 1 para “muito insatisfeito” a cinco c. Se você considerar todas as dimensões do
para “muito satisfeito”). Isso permite combinar seu emprego (status, posição, salário, tarefas,
a informação objetiva sobre a situação e o ca- etc.), em que medida o seu emprego e o seu
ráter subjetivo da sua percepção. Além disso, trabalho estão apropriados ao seu nível de
é preferível utilizar as escalas de Likert, que educação? (de 1 “nem um pouco apropria-
aperfeiçoam as respostas de escolha binária dos” a 5 “totalmente apropriados”).
(sim, não). As questões do projeto CHEERS d. Qual é o nível de formação mais apropriado
utilizaram as escalas de Lickert com 5 níveis, e para o seu emprego em comparação ao nível
o projeto REFLEX recorreu a uma escala de até do seu diploma do ano de referência da pes-
sete posições para certos ítens. quisa? (um nível mais elevado do que o meu;
Por fim, uma cilada a ser evitada e que o mesmo nível; um nível de ensino superior
está profundamente enraizada na mente dos mais fraco; sem nenhum diploma universi-
diferentes atores (docentes, poderes públicos, tário).
famílias) é a do uso demasiadamente simplista e. Se você considerar o seu emprego como pou-
da adequação entre a área do emprego e a da co apropriado e sem ligação com o seu di-
formação. ploma, por que o escolheu (várias respostas

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015


Já havíamos lembrado, neste artigo, os possíveis)? (não pude encontrar um emprego
limites do conceito de desvio ocupacional mais apropriado; tenho melhores oportuni-
(Paul, 1989), que supõem uma visão extrema- dades de carreira ocupando este emprego;
mente limitada das competências desenvolvi- prefiro um emprego que não esteja intima-
das através da educação e não leva em conta mente relacionado com os meus estudos; fui
as dinâmicas internas do mercado de trabalho promovido a uma posição menos ligada aos
(principalmente com relação aos gostos do tra- meus estudos do que a anterior; eu posso ter
balhador, à estrutura das carreiras e ao nível de um salário mais alto no meu emprego atual;
remuneração). Havíamos dado como exemplo meu emprego atual oferece mais segurança;
o curso de administração, que apresentava, em meu emprego atual é mais interessante; o
uma dada pesquisa, a taxa de desvio ocupa- meu emprego atual oferece possibilidades de
cional mais elevada e também os salários mais trabalhar meio período; meu emprego atual
elevados. permite que eu trabalhe em um lugar que eu
Para ilustrar a complexidade do tema, prefiro; o meu emprego atual permite que
apresentaremos a abordagem do projeto leve em conta minhas obrigações familiares;
CHEERS que recorreu a cinco dimensões: no início da carreira que pretendo seguir, eu

323
ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR...

devo aceitar um emprego pouco relacionado cia de toda a comunidade acadêmica e uma
com os meus estudos). formação adequada dos funcionários universi-
tários. Parece que o desinteresse, ou até mesmo
a desconfiança da comunidade acadêmica em
CONCLUSÃO relação a essa abordagem, pode ter sua origem
na ideia, ainda presente em algumas pessoas,
Esse panorama histórico e internacional de que a universidade não deve se preocupar
de pesquisas realizadas junto aos egressos do com a economia nem com as expectativas dos
ensino superior revela uma evolução efetiva empregadores. No entanto, os ensinamentos
nos métodos de investigação. Se o sistema ita- de um projeto internacional, como o REFLEX,
liano nos leva a refletir por oferecer taxas de confirmam a utilidade, para os alunos, de que
respostas inigualáveis, além de rapidez e com- os empregadores potenciais sejam associados
parabilidade dos resultados, deve-se também à formação, principalmente através de proje-
avaliar sua utilização efetiva pelos diferentes tos e (ou) estágios. Além disso, os depoimen-
atores e seu impacto sobre as decisões tomadas tos colhidos junto aos empregadores fornecem
por uns e outros. É verdade que a Itália tem elementos úteis e complementares às informa-
a vantagem de possuir um ensino superior de ções dadas pelos egressos.
dimensão relativamente modesta, sobretudo Em um mercado de trabalho com exi-
se comparada à do Brasil. gências que evoluem constantemente, as IES
No Brasil, podem ser encontradas situa- devem repensar regularmente a sua oferta de
ções bastante díspares, segundo as regiões e o formação e sua pedagogia. Se as pesquisas jun-
status das universidades. As universidades do to aos egressos não constituem a única fonte
sul do país parecem ter sido mais propensas a dessa reflexão, elas podem representar um ele-
desenvolver o “Portal do Egresso”. O mesmo mento essencial para que ela ocorra. É por isso
ocorreu em relação às universidades particula- que um melhor conhecimento de seus proces-
res. Um primeiro ponto de recomendação seria sos e de suas contribuições pode vir a ser uma
o de promover sistemas harmonizados de co- ajuda importante para melhorar o funciona-
leta e de tratamento das informações no âmbi- mento das instituições.
to dos Estados, o que também permitiria uma
maior homogeneidade dos mercados de tra-
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

Enviado para publicação em 09 de dezembro de 2014


balho. No que diz respeito ao segundo ponto, Aceito em 18 de março de 2015
as instituições privadas, mais sujeitas à con-
corrência, têm a tendência de se mostrar mais
próximas de seus formandos e mais sensíveis REFERÊNCIAS
às condições de inserção dos ex-alunos. No en-
tanto, o aparente baixo nível de utilização das AFFICHARD, J.; GENSBITTEL, M. H. Mesurer l’entrée des
jeunes dans la vie active. Formation-Emploi, n. 8, p. 61-71,
informações poderia sugerir uma abordagem 1984.
de tipo marketing. Por outro lado, as institui- ALLEN, J.; VAN DER VELDEN, R. (Eds.) The flexible
professional in the Knowledge Society: new challenges for
ções federais parecem se mostrar bastante con- higher education. Higher Education Dynamics, Dordrecht:
Springer. n. 35, 2011.
servadoras quanto a esse aspecto, pois raras
ANDRIOLA, W.B. Avaliação diagnóstico de 2003 e 2004 dos
são aquelas que oferecem tal portal. cursos de graduação da UFC. Revista da Rede de Avaliação
De qualquer maneira, a aceitação do Institucional da Educação Superior. Campinas, 2006.
processo de coleta de informações de ex-alu- CALLEGARI, M.M. A inserção profissional de egressos
universitários. Porto Alegre: PUCS-Faculdade de Psicologia
nos e a internalização de tais informações por (dissertação), 2001.
parte das instituições, na sua abordagem estra- CAPELLE, O. Les stages effectués dans les universités en
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Jean-Jacques Paul

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325
ACOMPANHAMENTO DE EGRESSOS DO ENSINO SUPERIOR...

HIGHER EDUCATION graduates SUIVI DES DIPLOMES DE L’ENSEIGNEMENT


MONITORING: Brazilian and international SUPERIEUR: expériences brésilienne et
experiences internationale

Jean-Jacques Paul Jean-Jacques Paul

This article provides an overview of the various Cet article donne un aperçu des diverses expériences
experiences of monitoring of higher education de suivi des diplômés de l’enseignement supérieur,
graduates, highlighting the methodologies used en soulignant les méthodologies utilisées dans
in different countries or international projects. différents pays où des projets internationaux. Les
Monitoring devices are the result of government dispositifs d’enquête sont le résultat de politiques
policies or autonomous institutions and are gouvernementales ou d’ institutions autonomes et
intended to give greater visibility to the higher sont destinés à donner une plus grande visibilité à un
education system increasingly complex. Providing système d’enseignement supérieur de plus en plus
essential data for the evaluation of the results complexe. Fournissant des données essentielles pour
of educational systems, monitoring systems l’évaluation des résultats des systèmes éducatifs,
achieved the best health indicators in the Italian les dispositifs d’enquête ont obtenu les meilleurs
case, AlmaLaurea. In Brazil there are disparate indicateurs dans le cas italien, AlmaLaurea. Au
experiences, starting in the 1970s, through the Brésil, il ya des expériences disparates, qui ont
studies at USP and UFC in the early 1990s to the commencé dans les années 1970, à travers des études
current stage with the proliferation of graduates’ à l’USP et l’UFC dans le début des années 1990
portals. The methodological requirements of jusqu’au stade actuel de la prolifération des portails
monitoring, as shown by experience: systematic pour les diplômés. Les exigences méthodologiques
and participatory nature, institutionally; regular de suivi selon les observations de l’expérience:
intervals and continuous updating; use of caractère institutionnel, systématique et participatif;
information technologies for data collection; clear intervalles réguliers et mise à jour continue; utilisa-
and appropriate definition of the target population tion des technologies de l’information pour la
according to the types of diplomas; production collecte de données; définition claire et appropriée
scales adequate for evaluation of occupational de la population cible selon les types de diplômes;
destinations and its relation to training; availability échelles adéquates pour l’évaluation des situations
of databases for the academic community. professionnelles et leurs liens avec la formation;
disponibilité des bases de données pour la
communauté universitaire.

Key words: Higher education. Monitoring systems. Mots Clés: Enseignement supérieur. Systèmes de suivi.
evaluation. Graduates. ​Occupational destinations. Évaluation. Diplômés. Destinations professionnelles.
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 74, p. 309-326, Maio/Ago. 2015

Jean-Jacques Paul - Economista da educação. Professor e pesquisador do IREDU, da Universidade da


Borgonha em Dijon (França). Desde setembro de 2012, ocupa o cargo de reitor-adjunto da Universidade
Galatasaray, em Istambul. Anteriormente, ocupou funções idênticas na Universidade Real de Direito
e de Ciências Econômicas de Phnom Penh (Camboja). Sua carreira de professor, de pesquisador e de
consultoria levaram-no a dividir seu tempo, de 1978 a 2008, entre a Universidade da Borgonha e cerca
de vinte outros países. É autor de oito livros, de uma centena de artigos e comunicações, e dirigiu vinte
teses de doutoramento. 
Ele foi principalmente vice-presidente da Universidade da Borgonha, decano da faculdade de economia
e de administração desta universidade e diretor do Instituto de Pesquisas CNRS sobre a economia da
educação (Irédu). No Brasil, dirigiu pesquisas sobre o ensino superior no âmbito da Universidade Federal
do Ceará, do NUPES na Universidade de São Paulo, e em cooperação com a Universidade Federal do Rio
de Janeiro.

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