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INTRODUÇÃO À

QUESTÃO SOCIAL

autor do original
TAIS PEREIRA DE FREITAS

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  sergio cabral, claudete veiga, claudia regina de brito

Autor do original  tais pereira de freitas

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  rodrigo azevedo de oliveira

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  fabrico

Revisão linguística  aderbal torres bezerra

Imagem de capa  nome do autor  —  shutterstock

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

F849i Freitas, Tais Pereira de


Introdução à questão social / Tais Pereira de Freitas.
Rio de Janeiro : SESES, 2015.
126 p. : il.

ISBN: ISBN 978-85-5548-065-2

1. Sistema capitalista. 2. Questão social. 3. Expressões da


questão social. 4. Serviço Social. I. SESES. II. Estácio
cdd 301

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 7

1. Questão social: Histórico e Manifestações


Concretas 10
Modo de produção capitalista 11
A questão social: conceitos e história 17
Questão Social e suas expressões 19

2. Classes Sociais e Questão Social 34

Pensando Classes Sociais 35


A questão social no âmbito da luta de classes 40
O trabalho do assistente social: aproximando a questão social 43

3. Reestruturação Produtiva e Questão


Social no Século XXI 54
O mundo do trabalho 55
A reestruturação produtiva 59
Os rebatimentos da reestruturação produtiva na vida
dos trabalhadores e as expressões da questão social 63
O assistente social e a atuação nesse contexto 64
4. A Classe Trabalhadora: Desigualdades e Vulnerabili-
dades como Expressões da Questão Social 74
O conceito de pobreza 75
A condição de vulnerabilidade no mundo do trabalho 78
A desigualdade no contexto do modo de produção capitalista 83
A assistência social: reflexões iniciais 85

5. Questão social: Transformações Contemporâneas e


o Trabalho do Assistente Social 100
As novas expressões da questão social e o trabalho
do assistente social 101
O caráter propositivo, investigativo e interventivo da
atuação do assistente social 108
Prefácio
Prezados(as) alunos(as)

O profissional de Serviço Social trabalha diretamente com as problemáticas


presentes na sociedade na qual desenvolve sua práxis profissional. Contudo es-
sas problemáticas não existem deslocadas, desconectadas, como se fossem na-
turais. Mesmo que por vezes se apresentem de forma particularizada nos mais
diversos espaços de trabalho do assistente social, elas fazem referência à uma
dimensão maior e mais profunda: a questão social.
Mesmo não sendo um objeto de estudo específico do Serviço Social e mes-
mo que os profissionais de Serviço Social não sejam os únicos a trabalhar com
essa questão, ela acaba por caracterizar o trabalho do assistente social, na me-
dida em que esse profissional encontra na questão social e suas diversas for-
mas de expressão o objeto de seu trabalho profissional.
Tendo em vista essa fundamentação, é essencial que o assistente social en-
tenda os aspectos principais que caracterizam tal questão social bem como as
particularidades de suas expressões na realidade brasileira e ainda a articula-
ção entre questão social e trabalho profissional.
Assim essa disciplina visa oferecer aos alunos a possibilidade de estudo e
compreensão dos elementos sócio-históricos, políticos, econômicos e cultu-
rais que caracterizam a origem e o agudizamento da questão social, contribuin-
do para o entendimento dos processos de desigualdade e exclusão social. Nesse
estudo os alunos poderão compreender a diferenciação entre questão social e
problemáticas sociais, podendo assim analisar criticamente porque essa ques-
tão social constitui-se objeto de trabalho do assistente social e ainda as parti-
cularidades brasileiras para o trabalho profissional do Serviço Social tendo em
vista esses determinantes.
Esse material está estruturado em cinco unidades que permitirão ao alu-
no aproximar-se do debate teórico metodológico acerca dessa temática ofere-
cendo subsídios para a intervenção técnico-operativa no cotidiano do trabalho
profissional. Inicialmente abordam-se as origens e os determinantes da ques-
tão social, apontando o modo de produção capitalista como base para seu sur-
gimento para em seguida estudar-se as particularidades históricas no que diz
respeito a essa temática, abordando classes sociais, reestruturação produtiva,
desigualdades e o mundo do trabalho. Finalizando relacionaremos o trabalho

7
do assistente social frente às expressões da questão social a partir das especifi-
cidades de diversas dimensões da realidade brasileira contemporânea.
Desejamos que esses sejam momentos ricos de estudo e compreensão dessa
dimensão que caracteriza o trabalho do assistente social no Brasil. Aproveite as
indicações de leituras complementares (livros, revistas, sites, blogs) ao longo
do material e construa as suas análises e interpretações acerca dessa temática.

Lembre-se: O aprimoramento intelectual é compromisso ético do assistente social


e, portanto, a formação não pode limitar-se ao que é visto em aula. Ouse, sonhe e
construa uma carreira pautada no diferencial do compromisso com a excelência.

Uma ótima leitura e bons estudos.


Vamos lá?
1
Questão social:
Histórico e
Manifestações
Concretas
1  Questão social: Histórico e Manifestações
Concretas

Esse capítulo irá permitir que você conheça os fundamentos e origens da ques-
tão social, diretamente relacionados ao modo de produção capitalista. Procu-
ramos trazer alguns elementos de análise histórico-sociológica de cunho mar-
xista, tendo em vista que Karl Marx foi o teórico que melhor estudou o modo de
produção capitalista e que orienta a teoria social crítica apresentando elemen-
tos que contribuem para a análise critica das relações sociais.
Ao longo desse capítulo você irá estudar os determinantes históricos que
constituíram o modo de produção capitalista, bem como as fases desse referi-
do modo, possibilitando então o entendimento de que a questão surge a partir
da estruturação do capitalismo.
A partir dessa discussão teórica inicial, mais densa, apresentamos então
a formulação conceitual da questão social, como ela é entendida pelo Serviço
Social e destacamos a questão agrária como uma das principais expressões da
questão social, tendo em vista que a questão da terra é central para o modo de
produção capitalista.
Encerramos o capítulo com a reflexão acerca da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, propondo a discussão sobre como a negação dos direitos ali
propostos, configura-se em diversas expressões da questão social.
Desejamos que você aproveite ao máximo os indicativos de leituras com-
plementares e que através desse capítulo, seja possível o início do estudo da
temática “Questão Social” tão importante para o Serviço Social.

OBJETIVOS
A partir do estudo desse Capítulo o aluno terá uma leitura crítica acerca do surgimento histó-
rico da questão social, entendendo tanto os seus fundamentos como a forma através da qual
essa questão se manifesta na realidade concreta. Dessa forma, espera-se que ao término
desse capítulo o aluno possa:

•  Desenvolver análises teórico-críticas dos aspectos históricos, culturais do modo de produ-


ção capitalista.

10 • capítulo 1
•  Apreender a gênese da questão social, bem como o conceito de questão social e suas
transformações.
•  Compreender as manifestações concretas da questão social, entendendo suas particula-
ridades.

REFLEXÃO
Na apresentação da disciplina, destacamos que o objetivo era oferecer aos alunos a possi-
bilidade de estudo e compreensão dos elementos sócio-históricos, políticos, econômicos e
culturais que caracterizam a origem e o agudizamento da questão social, contribuindo para o
entendimento dos processos de desigualdade e exclusão social. Neste capítulo vamos pen-
sar as origens desses elementos e compreender os principais aspectos para a conceituação
de questão social.

1.1  Modo de produção capitalista

O Serviço Social é uma profissão de formação generalista, ou seja, utiliza-se de


conhecimentos de diversas áreas para a análise e a intervenção que realiza. Dessa
forma, para entendermos a questão social, que constituiu-se o objeto de trabalho
desse profissional, é preciso utilizarmos alguns elementos da teoria econômica.
Esses irão nos ajudar a compreendermos o conceito de modo de produção e as-
sim, pontuarmos as características do modo de produção capitalista.
As análises histórico-econômicas apontam que modo de produção é a for-
ma, ou a maneira através da qual a sociedade de determinada época se organi-
za, não apenas no aspecto econômico mas também social. Assim o conceito de
modo de produção reúne elementos do mundo do trabalho, da economia, das
relações sociais e de todos os aspectos da organização de determinada socieda-
de em determinado período histórico.
O capitalismo é um modo de produção. Já existiram outros modos de pro-
dução (escravista, feudal) e mesmo na atualidade alguns países ainda buscam
resistir a esse modo de produção, implementando estratégias para o desenvol-
vimento de outros modos de produção, entre eles o comunismo e o socialismo.

capítulo 1 • 11
Mas o que é capitalismo? O que caracteriza esse modo de produção? Trata-se
de uma tarefa no mínimo complexa definir o sistema capitalista. Todavia, para
o estudo acerca da questão social é necessário que você, tenha no mínimo uma
concepção acerca do assunto, definição essa que vai permitir que você se apro-
prie de discussões e reflexões sobre os demais temas que se interrelacionam.

O sistema capitalista caracteriza-se especialmente por ser


um modo de produção (formas de organização da sociedade
a partir de relações econômico-sociais) que tem como maior
objetivo a acumulação de capital que é o principal fator para
o processo de reprodução das riquezas. (CATANI, 2011, p. 10)

Mas é preciso antes de pensarmos como se forma esse sistema, entendermos


que existe uma diferença essencial entre dinheiro como moeda de troca e capital.
Diversas outras sociedades e outros modos de produção utilizam-se de moedas de
troca, sem por isso serem capitalistas.
Quando uma pessoa vai ao supermercado, faz as compras para sua família
e paga R$ 500,00 (quinhentos reais) ao caixa, ela não está entregando capital,
mas sim dinheiro. Nessa sociedade a moeda de troca é o dinheiro que pode ser
em papel, moeda, cartão magnético, cheque. Em outras sociedades essa moeda
de troca pode ser pedras preciosas garimpadas, um dia de serviço ou quaisquer
outras formas de troca. Mas quando o dono de uma mercearia do bairro vai a
esse mesmo supermercado, gasta os mesmos R$ 500,00 em mantimentos que
ele vai comercializar em sua mercearia, tirando daí um lucro, esse valor que ele
entregou não é mais apenas dinheiro, moeda de troca, mas sim capital.
Ainda para entendermos as definições acerca de capital, podemos distinguir
também capital e bens/riqueza a partir do seguinte exemplo: A família tem 03 ca-
sas, sendo uma na cidade onde residem, e as outras duas para lazer, sendo uma
no litoral e uma na fazenda. Essas casas de lazer são utilizadas apenas quando
alguém da família viaja de férias ou para descansar. Essas casas são bens/rique-
zas. Mas se essa mesma família tem essas três casas, mas residem em uma e as
outras duas eles alugam/arrendam, elas se constituem capital. Temos então que
o capital visa a acumulação do lucro, ou seja enquanto dinheiro e bens relacio-
nam-se com o valor de troca, capital implica na acumulação que permite a repro-
dução desse mesmo capital. Poderíamos sintetizar da seguinte forma:
Mas de onde surge esse sistema?

12 • capítulo 1
Karl Heinrich Marx (1818-1883) ou simplesmente Karl Marx é o principal teórico que
estudou o sistema capitalista. Marx escreveu diversos textos fundamentais para a com-
preensão desse sistema, mas sua obra magistral é “O Capital” (1867) onde ele apro-
funda essa análise. Vale ressaltar que apenas o primeiro volume foi publicado com
Marx ainda vivo, sendo que os demais foram publicados postumamente, organizados
por Friedrich Engels, amigo e colaborador. Marx e Engels são considerados os funda-
dores da corrente teórica denominada Marxismo, visto que ambos escreveram juntos
diversos textos que marcaram o início de uma corrente sociológica crítica.

Karl Marx vai discutir de forma mais rápida e de mais fácil entendimento
o surgimento do sistema capitalista no livro “A origem do capital: a acumula-
ção primitiva”. Nesse livro, ele destaca que para a produção capitalista existe
a necessidade da mais valia e para existir mais valia é preciso que haja a pro-
dução capitalista. O conceito de mais valia é essencial para Marx e nos ajuda a
entender o processo de surgimento do sistema capitalista. Mais valia é o lucro
acumulado a partir da produção de mercadorias. Considerando que a matéria
prima e as condições objetivas para a produção da mercadoria (espaço físico,
ferramentas) tem um valor X, após acrescentar-se o trabalho, esse valor eleva-
-se. Ou seja, é o trabalho que agrega esse valor. Mas esse trabalho não é remu-
nerado a partir do valor que produz, mas é sempre menor que isso, gerando um
lucro, um excedente. Esse lucro é então conceituado como mais valia.

CONCEITO
O termo mais valia é bastante utilizado quando se discute trabalho e exploração do trabalho
na sociedade capitalista. Para a discussão da questão social ele é também fundamental,
visto que tal questão tem origem na sociedade capitalista que se estabelece a partir da ne-
cessidade do lucro, obtido também da exploração da mais valia. Para a compreensão desse
termo e de outros importantes para o Serviço Social, o Dicionário de Filosofia pode contribuir
de forma significativa, na medida em que nesse dicionário encontra-se o termo junto com
a explicação histórica que dá sentido ao mesmo. Dessa forma recomendamos a leitura do
verbete MAIS VALIA no Dicionário de Filosofia de Nicola Abbagnano, edição revista e am-
pliada, publicada em 2007. A descrição do termo encontra-se na página 638 e o Dicionário
está disponível para download na http://charlezine.com.br/wp-content/uploads/2011/11/
Dicionario-de-Filosofia-Nicola-ABBAGNANO.pdf

capítulo 1 • 13
É possível apontar a partir da leitura do texto de Marx que a causa da acumu-
lação primitiva pode ser definida a partir do momento histórico em que o traba-
lho é separado daquelas condições, que são exteriores a ele mas são indispen-
sáveis para sua realização, tais como espaço físico, ferramentas, matéria prima.
Ou seja, o trabalhador renuncia a propriedade do produto de ser trabalho
porque nada possui além de sua força física e alguém detém a posse das con-
dições necessárias para a produção: o chamado capitalista. Dessa forma fica
explícita a separação radical entre produtor e meio de produção, separação esta
que representa os fundamentos do sistema capitalista.
Em relação aos aspectos históricos, é preciso destacar que o modo de pro-
dução capitalista surge com a decadência do modo de produção feudal. O tra-
balhador para poder vender sua força de trabalho não pode mais estar ligado a
terra, como no sistema feudal, e então sai desse espaço, convertendo-se então
de produtor a assalariado.
Mas esse processo de saída da terra é muito mais expulsão tendo em vista
que o processo de transformação de produtores em assalariados, vendedores
de sua força de trabalho é mais profundo. Eles só irão vender-se “depois de terem
sido despojados de todos seus meios de produção e de todas as garantias de
existência oferecidos pela antiga ordem de coisas” (p.12), o conhecido processo
de expropriação.

Tendo como referência a Inglaterra, Marx aponta que tal processo de expro-
priação desenvolve-se já a partir de fins do século XIV com o roubo das terras
comunais (eram terras formadas por pastos, florestas e bosques, sendo que de-
las se podia tirar ervas medicinais, lenhas e ainda levar o gado para pastar) que
engrossar as grandes fazendas, os despojos dos bens da Igreja, a alienação de
maneira fraudulenta dos domínios do Estado, a pilhagem dos terrenos comu-
nais, a transformação da propriedade feudal em propriedade moderna foram os
processos que levaram a acumulação primitiva, que “conquistaram a terra para
a agricultura capitalista, incorporaram o solo ao capital e entregaram à indústria
das cidades os braços dóceis de um proletariado sem lar nem pão”. (p.50)
Vale destacar que esse povo, expulso da terra, não se habituou tão facilmen-
te as novas determinações da economia que se formava, mas com legislações
violentas, açoites, tortura e escravidão essa população foi submetida a discipli-
na do sistema assalariado.

14 • capítulo 1
É preciso apontar ainda que na gênese da produção capitalista, o Estado é
o grande aliado da burguesia que nascia (é o Estado que vai regular salários,
prolongar a jornada de trabalho), sendo esse um momento essencial da acu-
mulação primitiva. Ainda de acordo com Marx a classe assalariada na segunda
metade do século XIV era uma parte muito pequena da população mas que es-
tava socialmente unida e o modo de produção ainda não possuía caráter espe-
cificamente capitalista.
Marx afirma que a origem do sistema capitalista é um processo que se de-
senvolve lentamente. Tem-se como referência do surgimento desse modo de
produção a partir da ordem feudal, o arrendatário capitalista, desenvolve-se
inicialmente como servo, sendo que a partir da segunda metade do século XIV
esse lugar é ocupado pelo arrendatário livre a quem o proprietário de terras for-
nece tudo o que lhe é necessário: gado, sementes, instrumentos da lavoura e
ele torna-se com o tempo meeiro, partilhando com o proprietário o produto
total de acordo com a proporção fixada no contrato. Esse sistema vai dando lu-
gar a um novo tipo de arrendamento, onde o arrendatário “adianta o capital”,
emprega assalariados e faz produzir, pagando ao proprietário em espécie ou
dinheiro uma parte do produto líquido, a título de renda da terra. A Revolução
Agrícola do fim do século XV enriquece esses arrendatários. Marx aponta al-
guns fatores para esse enriquecimento:

•  A pilhagem dos pastos comunais permite o aumento do gado possibili-


tando consequentemente grande lucros, seja com a venda ou com o em-
prego desse gado como animais de carga ou para adubação do solo;

•  A desvalorização dos metais preciosos e consequentemente da moeda


fez baixar as taxas de salários, sendo que então uma parte dos salários
vai para os arrendatários;

•  O encarecimento dos produtos agrícolas aumenta o capital-dinheiro do


arrendatário;

•  Como os contratos eram de longo prazo (em média 99 anos) a renda da


terra que tinha que pagar diminuía devido a desvalorização do dinheiro.
Ou seja, o arrendatário enriquecia as custas do assalariado e do proprie-
tário de terras.

capítulo 1 • 15
Esse processo vem acompanhado do aumento da produção, pois apesar da
diminuição da população camponesa, de cultivadores, a terra continua forne-
cendo a mesma quantidade de produtos (até mais) porque a Revolução Agrícola
veio acompanhada do aperfeiçoamento nos métodos de cultivo. A expropriação
e transformação dos camponeses em assalariados desenvolveu o processo de
separação da agricultura de toda espécie de manufatura.
Podemos então apreender a partir do que Marx coloca que quando olhamos
para o surgimento do sistema capit ao fundo da acumulação primitiva vamos
encontrar a expropriação do produtor imediato, a dissolução da propriedade. O
regime de produtores independentes tem como pressuposto o parcelamento da
terra e a dispersão dos meios de produção. O movimento de eliminação deste re-
gime é o que transforma os meios de produção individuais (dispersos) em meios
de produção socialmente concentrados, transformando a propriedade pequena
de muitos em propriedade colossal de poucos. A propriedade privada baseada
no trabalho pessoal será “suplantada pela propriedade privada capitalista fun-
dada sobre a exploração de trabalho de outrem, sobre o assalariado” (p.109)
O modo de produção capitalista desenvolve-se em especial a partir dos anos
1500, a partir da Europa e mesmo que não seja possível precisar exatamente o
marco cronológico de início desse sistema, pode-se para fins didáticos marcar
os anos 1500 como referência para o início do desenvolvimento desse sistema.
A partir do surgimento dele, podemos destacar que o mesmo têm três grandes
fases ou períodos históricos:

•  Capitalismo Mercantilista (1500 a 1780, aproximadamente): A acumulação


advém das atividades comerciais, para isso sendo fundamental a con-
quista e expansão territorial. Vale ressaltar nesse processo as Grandes
Navegações empreendidas especialmente por Portugal e Espanha que
resultou na conquista do território brasileiro e outros territórios, espe-
cialmente na América do Sul.

•  Capitalismo competitivo, concorrencial ou de livre concorrência (1780


a 1890, aproximadamente): A acumulação advém principalmente da
mais valia, obtida pela exploração da mão-de-obra assalariada den-
tro do panorama das diversas inovações tecnológicas, originadas na Re-
volução Industrial. Daí é possível apontar a preocupação dos países eu-
ropeus com a libertação de escravos, não por questões humanitárias mas

16 • capítulo 1
para a garantia de mão de obra assalariada e que portanto teria também
condições de consumir.

•  Capitalismo Monopolista ou Imperalista ( aproximadamente 1890 até os


dias atuais): A acumulação advém principalmente pela ação de grandes
empresas que através de acordos monopolistas dominam o mercado,
eliminando a concorrência. É possível apontar como destaque a partir
desse período a fusão de grandes empresas, em especial com capital es-
trangeiro envolvido.

1.2  A questão social: conceitos e história

A questão social e suas expressões na contemporaneidade é uma discussão fun-


damental no Serviço Social e que perpassa praticamente todos os demais temas.
Contudo é essencial destacar que essa discussão não se limita ao Serviço Social,
sendo que diversas profissões e ciências têm buscado entender os significados e
amplitudes desse conceito. Dessa forma, existem diversos entendimentos, des-
de os que defendem que essa questão não é mais a mesma, e outros que defen-
dem que ela continua igual, mudando apenas as suas formas de expressão.
No Serviço Social, considerando que a profissão tem um caráter plural po-
dem existir diversos entendimentos, mas aquele que é o mais utilizado, ou seja,
aquele que é considerado hegemônico é o que estabelece que essa questão con-
tinua a mesma, tendo contudo alterado suas formas de expressão na contem-
poraneidade.

CONEXÃO
Ampliando a análise da questão social para além do Serviço Social podemos apontar o artigo
“Questão Social: um conceito revisitado” publicado na Revista “Contribuiciones a las Ciên-
cias Sociales”, onde trabalha-se essa questão a partir de Robert Castel, Pierre Rosanvallon,
Amartya Sem destacando as especificidades que cada um aponta para o entendimento da
temática. Essa pluralidade é importante para que você, aluno, compreenda que podem haver
entendimentos diferenciados e daí a necessidade de formação teórica continuada buscando
sempre desvendar os meandros da realidade. O estudo da questão social configura-se es-
sencial não apenas durante o período de estudos mas também para o exercício profissional.
Na introdução do texto tem-se:

capítulo 1 • 17
Originalmente, a questão social foi constituída em torno das transformações econômicas,
políticas e sociais ocorridas na Europa do Século XIX, devidas à industrialização. Inicialmente
essa questão foi levantada quando com a tomada de consciência da sociedade, ou parte
dela, dos problemas decorrentes do trabalho urbano e da pauperização como fenômeno
social. Hoje a “questão social” é a expressão das desigualdades e lutas sociais em suas
múltiplas manifestações e todos os segmentos sociais envolvidos (trabalhadores e despro-
tegidos) são heterogêneos.O presente artigo tem o objetivo de apresentar uma breve retros-
pectiva da evolução do tratamento teórico da questão social por autores ligados a diferentes
disciplinas da área social. São abordados os trabalhos de três autores que tratam da questão
social de forma diferenciada. Primeiramente, o sociólogo francês Robert Castel, que defende
que a questão social sofreu modificações ao longo do tempo, mantendo-se em essência a
mesma. Em segundo, é apresentado o trabalho do historiador e cientista social Pierre Rosan-
vallon, que afirma que a questão social se modificou e exige uma nova postura política na sua
solução. Finalmente, são apresentadas algumas idéia do economista indiano Amartya Sen
que faz uma análise do desenvolvimento econômico tratando sempre da questão social sem,
no entanto, cita-la diretamente. Disponível em: http://www.eumed.net/rev/cccss/03/fpod.
htm Acesso em Setembro de 2014.

É preciso destacar que, conforme apontado anteriormente, o Serviço Social,


de forma geral, trabalha com uma concepção de que a questão social é fruto da
sociedade capitalista e que, em essência não se modificou ao longo da história
mas sim vem apresentando configurações e expressões diferenciadas.
Para entendermos como o Serviço Social discute a questão social podemos utilizar
a sistematização de Iamamoto (2005, p.27/28):

Questão social apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da so-
ciedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais
coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus
frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade. A globalização
da produção e dos mercados não deixa dúvidas sobre esse aspecto: hoje é possível ter
acesso a produtos de várias partes do mundo, cujos componentes são fabricados em
países distintos, o que patenteia ser a produção fruto de um trabalho cada vez mais cole-
tivo, contrastando com a desigual distribuição da riqueza entre grupos e classes sociais
nos vários países, o que sofre a decisiva interferência da ação do Estado e dos governos.

18 • capítulo 1
Essa contradição fundamental da sociedade capitalista entre o trabalho coletivo e a
apropriação privada da atividade, das condições e frutos do trabalho - está na origem do
fato de que o desenvolvimento nesta sociedade redunda, de um lado, em uma enorme
possibilidade de o homem ter acesso à natureza, à cultura, à ciência, enfim, desenvolver
as forças produtivas do trabalho social; porém, de outro lado e na sua contraface, faz
crescer a distância entre a concentração/acumulação de capital e a produção cres-
cente da miséria, da pauperização que atinge a maioria da população nos vários países,
inclusive naqueles considerados “primeiro mundo”.

Nessa definição estão presentes os conceitos bases para o entendimento da


questão social, na perspectiva da teoria social crítica, ou seja compreendendo
que tal questão é fruto da sociedade do capital e sua contradição fundamen-
tal entre capital e trabalho. Ou seja, a sociedade se desenvolveu de forma es-
plendorosa, com avanços em praticamente todas as dimensões (tecnológicas,
científicas, culturais) mas o fruto desse desenvolvimento não está ao alcance de
todos. Assim, temos um problema, uma questão fundamental a partir da qual
se desenvolvem todas as demais: A produção social é cada mais coletiva, mas
os seus frutos são apropriados por uma parcela cada vez menor da população.
Assim, a questão social historicamente se desenvolve com o próprio modo
de produção capitalista, na medida em que não é possível o desenvolvimento
desse sistema sem essa contradição entre quem produz e quem tem os meios
de produção. Ou seja, a questão social está na gênese do sistema capitalista e
para resolvê-la seria necessário a mudança no modo de produção.
Dessa forma, o Serviço Social trabalha especificamente com as expressões da
questão social, que é uma só, mas que se manifesta a partir de diversas formas.

1.3  Questão Social e suas expressões

Considerando que a questão social é a contradição fundamental entre capital e


trabalho e se expressa de formas variadas é possível apontar que na sociedade
brasileira atual temos diversas formas de expressão dessa questão, todas elas
vinculadas a essa questão maior. O assistente social precisa compreender que
as demandas que lhe são colocadas no cotidiano do trabalho profissional são
expressões dessa questão e não apenas problemáticas sociais ou questões in-
dividuais. Elas manifestam essa problemática maior e mais profunda que é a

capítulo 1 • 19
questão social. Para melhor compreensão dessas expressões, vamos apontar
um exemplo entre elas, qual seja a questão agrária, visto que ela configura-se
como fundamental para a compreensão da questão social atual no Brasil, e
caso o profissional de Serviço Social não atente-se para uma leitura crítica e de
totalidade, pode ter o entendimento de que se trata de uma problemática isola-
da, quando na verdade ela está no cerne da questão social do Brasil.

Questão Agrária
A questão agrária é uma expressão central da questão social no Brasil. Ela é fru-
to do processo que se desenvolve quando o pequeno produtor rural, ou as pes-
soas que sobrevivem do cultivo da terra se veem obrigados a deixar essa terra
que passa a servir para a monocultura, para os grandes grupos empresariais.
Esse trabalhador/produtor não encontra outra alternativa senão a ida para o
espaço urbano ou ainda a organização em movimentos de luta pela terra, bus-
cando assegurar a sua permanência nela. Essa questão agrária no Brasil, pode
ser entendida aqui a partir das transformações nas relações de produção. Tal
questão agrária está e sempre esteve ligada a posse da terra, a propriedade pri-
vada daquilo que em termos clássicos é entendido como bem natural. O ponto
de partida para este debate deve passar pelo conceito de propriedade e pelas
dimensões históricas da posse da terra no Brasil. O conceito de propriedade, da
forma como foi apropriado para o entendimento da posse da terra, traz subja-
cente a lógica do sistema capitalista; é um termo essencial ao capital, é o con-
ceito usado na justificativa da exploração, expropriação e violência. O conceito
de terra como propriedade privada está arraigado à forma de pensar e organizar
a sociedade brasileira.
A questão da posse da terra sempre foi central na reflexão acerca da socie-
dade brasileira e ocupa lugar de destaque nos diferentes momentos históricos
brasileiros, a partir de diversas dimensões de análise. Importante citar algumas
destas dimensões a partir da análise de José de Souza Martins (1980). A aboli-
ção (oficial) da escravatura abre caminho para a chegada dos imigrantes, prin-
cipalmente europeus (Itália, Alemanha, Suíça, Portugal, Espanha) e japoneses
que vinham para o Brasil através de acordos firmados entre o governo brasileiro
e o governo de seus países de origem para substituir a mão de obra escrava. Es-
ses imigrantes recebiam terras (afastadas das grandes fazendas e de qualidade
inferior) para desenvolver a pequena propriedade através da agricultura fami-
liar, principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e

20 • capítulo 1
Espírito Santo. Mas longe de permitir uma melhor distribuição de terra no Bra-
sil (como poderia se supor), essa política de colonização nunca permitiu que es-
tas pequenas propriedades competissem com as grandes fazendas no que diz
respeito à produção e análise histórica permite reconhecer que essas pequenas
propriedades de agricultura familiar foram sendo tomadas pelas grandes fa-
zendas e o trabalhador, expropriado e expulso do campo.
Outra dimensão importante para a análise da posse da terra no Brasil diz
respeito à Amazônia, o conflito dos posseiros, conflito este que segundo José
de Souza Martins (1980) pode ter origem a partir do regime de sesmarias que
vigorou até 1822 onde as terras eram concedidas a homens de condição e san-
gue limpos (não-negros) que deveriam trabalhar nestas terras para se apropriar
definitivamente delas. Os que não estão incluídos neste sangue limpo (os bas-
tardos, mestiços, filhos de brancos e índias) eram obrigados a buscar novas
terras, a abrir uma posse nova: podem ser caracterizados como os primeiros
posseiros.
Assim, tem-se que a questão agrária, que pode ser visualizada nos conflitos
por terra, no trabalho dos boias-frias, na monocultura que toma conta das ter-
ras férteis do país é uma expressão da questão social.
O profissional de Serviço Social ao trabalhar com os Movimentos de luta
pela posse da terra, com os sindicatos de trabalhadores rurais, nas empresas
responsáveis pelo agronegócio precisa visualizar nesses espaços as contradi-
ções que caracterizam a questão social, e que nesse contexto expressam-se sob
a forma da questão agrária.
Assim, a questão social pode ser visualizada em todas as problemáticas pre-
sentes na realidade brasileira contemporânea, cabendo ao assistente social e
demais profissionais que lidam com essa questão em seu cotidiano de trabalho
a compreensão de todos esses indicadores.
Cumpre destacar que essa é apenas uma das expressões da questão social
no Brasil, escolhida para ilustrar esse capítulo por ser central na compreensão des-
sa temática, na medida em que para o modo de produção capitalista a posse da
terra configura-se como elementar para seu desenvolvimento.
Contudo, temos diversas outras expressões dessa questão e que serão tra-
balhadas ao longo desse livro, como o desemprego gerado pela reestruturação
produtiva, a questão habitacional, a questão de gênero, de raça, geracional.

capítulo 1 • 21
Considerações Finais
Essas são algumas reflexões que possibilitam melhor compreensão de como a
questão social se manifesta, em especial no Brasil. Vale destacar que existem
diversas outras formas de expressão, que cotidianamente são colocadas para o
assistente social, cabendo a esse profissional não atentar-se apenas ao imedia-
to e considerar essas situações como problemáticas individuais mas perceber
e trabalhar com o entendimento de que elas fazem parte de um totalidade que
se configura na apropriação cada vez mais privada do fruto do trabalho coletivo.

ATIVIDADE
1. Em relação ao modo de produção capitalista, existe algum elemento central que o
caracteriza?

2. Em relação ao município onde você reside, quais são as principais expressões da ques-
tão social?

REFLEXÃO
Para nossa reflexão vamos trazer a Declaração Universal dos Direitos Humanos, Documento
adotado pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) em 1948 e que sintetiza em 30
artigos os direitos básicos dos seres humanos. A escolha desse texto para reflexão se dá
porque ele representa na atualidade um dos documentos mais aceitos em matéria de direitos
humanos no cenário mundial como um referencial dos direitos que todos os seres humanos
possuem. Ou seja, estabelece-se o que se espera e se deseja para o ser humano no mundo
todo. A reflexão que surge a partir da leitura dessa Declaração é: Esses direitos estão garan-
tidos para todos? E se não estão, a que se deve essa não garantia? Teria alguma relação com
a desigualdade presente no modo de produção capitalista?

Preâmbulo

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os mem-


bros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o
fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;

22 • capítulo 1
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem
conduziram a atos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e
que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar
e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta ins-
piração do Homem;

Considerando que é essencial a proteção dos direitos do Homem através de


um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo
recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;

Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amis-


tosas entre as nações;

Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de


novo, a sua fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor
da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e
se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores
condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;

Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em-


cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e
efetivo dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais;

Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da


mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:

A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos


Humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações,
a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a
constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por
desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medi-
das progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e
a sua aplicação universais e efetivos tanto entre as populações dos próprios
Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.

capítulo 1 • 23
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos.
Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em
espírito de fraternidade.

Artigo 2°
Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclama-
dos na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça,
de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem
nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.
Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político,
jurídico ou internacional do país ou do território da da naturalidade da pessoa,
seja esse país ou território independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a
alguma limitação de soberania.

Artigo 3°
Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Artigo 4°
Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o
trafico de escravos, sob todas as formas, são proibidos.

Artigo 5°
Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desu-
manos ou degradantes.

Artigo 6°
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da
sua personalidade jurídica.

Artigo 7°
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual proteção da
lei. Todos têm direito a proteção igual contra qualquer discriminação que viole
a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

24 • capítulo 1
Artigo 8°
Toda a pessoa direito a recurso efetivo para as jurisdições nacionais compe-
tentes contra os atos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela
Constituição ou pela lei.

Artigo 9°
Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.

Artigo 10°
Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja eqüi-
tativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que
decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação
em matéria penal que contra ela seja deduzida.

Artigo 11°
1. Toda a pessoa acusada de um ato delituoso presume-se inocente até que
a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo
público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asse-
guradas.

2. Ninguém será condenado por ações ou omissões que, no momento da sua


prática, não constituíam ato delituoso à face do direito interno ou internacio-
nal. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era
aplicável no momento em que o ato delituoso foi cometido.

Artigo 12°
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua famí-
lia, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e
reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a
proteção da lei.

Artigo 13°
1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residên-
cia no interior de um Estado.

capítulo 1 • 25
2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, in-
cluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.

Artigo 14°
1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de benefi-
ciar de asilo em outros países.

2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente
existente por crime de direito comum ou por atividades contrárias aos fins e
aos princípios das Nações Unidas.

Artigo 15°
1. Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.

2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do


direito de mudar de nacionalidade.

Artigo 16°
1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de
constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Du-
rante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.

2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento


dos futuros esposos.

3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à


proteção desta e do Estado.

Artigo 17°
1. Toda a pessoa, individual ou coletiva, tem direito à propriedade.

2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.

Artigo 18°
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de
religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção,

26 • capítulo 1
assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em
comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo
culto e pelos ritos.

Artigo 19°
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que
implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar,
receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por
qualquer meio de expressão.

Artigo 20°
1. Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.

2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Artigo 21°
1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direção dos negócios, pú-
blicos do seu país, quer diretamente, quer por intermédio de representantes
livremente escolhidos.

2. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às fun-


ções públicas do seu país.

3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e


deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por
sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente
que salvaguarde a liberdade de voto.

Artigo 22°
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social;
e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e
culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação interna-
cional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.

capítulo 1 • 27
Artigo 23°
1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condi-
ções eqüitativas e satisfatórias de trabalho e à proteção contra o desemprego.

2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho
igual.

3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração eqüitativa e satisfatória, que


lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade huma-
na, e completada, se possível, por todos os outros meios de proteção social.

4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de


se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.

Artigo 24°
Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma
limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.

Artigo 25°
1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar
e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação,
ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços
sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na
invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsis-
tência por circunstâncias independentes da sua vontade.

2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais.


Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma
proteção social.

Artigo 26°
1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo
menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elemen-
tar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o aces-
so aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em
função do seu mérito.

28 • capítulo 1
2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao
reforço dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais e deve favore-
cer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos
os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades
das Nações Unidas para a manutenção da paz.

3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o gênero de educa-


ção a dar aos filhos.

Artigo 27°
1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da
comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos
benefícios que deste resultam.

2. Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a


qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.

Artigo 28°
Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacio-
nal, uma ordem capaz de tornar plenamente efetivos os direitos e as liberda-
des enunciadas na presente Declaração.

Artigo 29°
1. O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possí-
vel o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. No exercício deste
direito e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações
estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento
e o respeito dos direitos e

2. liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral,


da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.

3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contraria-


mente e aos fins e aos princípios das Nações Unidas.

capítulo 1 • 29
Artigo 30°
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de ma-
neira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de
se entregar a alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os
direitos e liberdades aqui enunciados.

Disponível em http://www.dudh.org.br/declaracao
Acesso em 15 de Setembro de 2014

LEITURA RECOMENDADA
Recomendamos a Leitura do Capítulo I “O Serviço Social na Contemporaneidade” do Livro “O
Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e Formação Profissional” de Marilda Vilela
Iamamoto. Nesse Capítulo, a autora aborda de forma aprofundada o entendimento da ques-
tão social e a forma como o Serviço Social trabalha com ela.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5 ed. revista e ampliada.São Paulo: Mar-
tins Fontes Editora, 2007.1026 p.

ANTUNES, Ricardo (org) A Dialética do Trabalho: escritos de Marx e Engels. Volume I.


São Paulo: Expressão Popular, 2013.136 p.

ANTUNES, Ricardo (org) A Dialética do Trabalho: escritos de Marx e Engels. Volume II.
São Paulo: Expressão Popular, 2013.232 p.

BARBOSA, Alexandre de Freitas. (org) O Brasil real: a desigualdade para além dos indica-
dores. São Paulo: Outras Expressões, 2012. 149p.

CATANI, Afrânio Mendes. O que é Capitalismo. Coleção Primeiros Passos. Ed revista e


ampliada. São Paulo: Brasiliense Editora, 2011, 144p.

30 • capítulo 1
IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e For-
mação Profissional. 8 ed. São Paulo: Cortez Editora, 2005. 326p.

IAMAMOTO, Marilda Vilela. CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no


Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. 33 ed. São Paulo: Cortez Edi-
tora, 2011. 400p.

MARX, Karl. A origem do Capital: a acumulação primitiva. São Paulo: Global Editora,
1977.140p.

NETTO, José Paulo. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. 8.ed. São Paulo: Cor-
tez Editora, 2011.

MARTINS, José de Souza. Expropriação & Violência: a questão política no campo. São
Paulo: Hucitec Editora, 1980. 190 p.

PONTES, Reinaldo Nobre. Mediação e serviço social: um estudo preliminar sobre a ca-
tegoria teórica e sua apropriação pelo serviço social 3.ed. São Paulo: Cortez, 2002. 350p.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No capítulo 2 apresentaremos a reflexão sobre o conceito de classes sociais e sua relação
com a questão social. Bons estudos.

capítulo 1 • 31
2
Classes Sociais e
Questão Social
2  Classes Sociais e Questão Social
Este capítulo sobre classes sociais e questão social complementa a análise inicia-
da no capítulo anterior, apresentando os elementos necessários para a compre-
ensão da luta de classes dentro do modo de produção capitalista e quais os rebati-
mentos dessa luta nas configurações da questão social.
A partir de referenciais críticos da filosofia busca-se analisar o conceito de
classe social, entendendo que esse é bastante amplo e necessita-se de um cui-
dado maior ao analisá-lo. Apresentamos a definição a partir do Dicionário de
Filosofia e discutimos como esse conceito está presente na atualidade, pon-
tuando então como se desenvolve o conflito de classes e como isso rebate na
questão social.
Encerrando o capítulo trabalhamos as relações do Serviço Social nessas
questões, pontuando como o Serviço Social trabalha com a questão social. Fi-
nalizando, trazemos para a reflexão um texto bastante importante, que apre-
senta alguns parâmetros para o entendimento de classe social no Brasil con-
temporâneo.
Esse texto, na verdade uma reportagem, sistematiza as classes sociais no
Brasil usando como parâmetro o critério de renda e comparando com o crité-
rio utilizado pelo Governo Federal. É interessante porque possibilita uma apro-
ximação mais pontual com a realidade concreta brasileira e contribui para a
compreensão dos elementos que compõem a ideia de classe social.
Ao longo do capítulo temos algumas indicações de textos e leituras com-
plementares que vão te auxiliar no entendimento de mais essa dimensão im-
portante para a compreensão da questão social no Brasil, e consequentemente
para a análise do trabalho profissional do Serviço Social, na medida em que
essa questão constitui-se base de fundação do trabalho do assistente social.
Desejamos bons estudos e temos certeza de que a leitura desse texto base,
bem como dos indicativos complementares e ainda as reflexões propostas na Ati-
vidade e no Texto de Reflexão possibilitarão um estudo aprofundado das classes
sociais e questão social no Brasil.

34 • capítulo 2
OBJETIVOS
A partir do estudo desse Capítulo o aluno compreenderá a luta de classes dentro da lógica
capitalista, conceituando esses entendimentos, e ainda a questão social e suas expressões
no âmbito da acumulação capitalista, contextualizando também o trabalho do assistente so-
cial. Dessa forma, espera-se que ao término desse capítulo o aluno possa:
•  Definir o conceito de classes sociais
•  Conceituar questão social
•  Compreender a luta de classes na lógica capitalista
•  Estabelecer relações entre Serviço Social e a Questão Social

REFLEXÃO
No primeiro capítulo nós estudamos as origens do modo de produção capitalista e as deter-
minações históricas que constituem a questão social, apontando algumas de suas formas
de manifestação na contemporaneidade. Encerramos com a reflexão acerca da Declaração
Universal dos Direitos Humanos que estabelece diversos direitos que acabam sendo cerce-
ados no modo de produção capitalista, contribuindo para o agudizamento da questão social.

2.1  Pensando Classes Sociais

O Serviço Social é uma profissão liberal, ou seja, que possui um Código de Ética
e uma Lei que regulamenta profissão. Dessa forma, qualquer pessoa que deseje
ser assistente social precisa cumprir as determinações estabelecidas na Lei, ou
seja, concluir um curso superior em Serviço Social e cumprir as normativas do
Código de Ética.
Para a profissão o conceito de classe social é fundamental, na medida em que
a profissão desenvolve-se no processo histórico de desenvolvimento da socieda-
de e em um processo dialético influencia e é influenciada por essa sociedade.
Tendo em vista que o Código de Ética é a sistematização dos compromis-
sos éticos da profissão, podemos apontar que nos princípios fundamentais, em
pelo menos dois deles fica explicito que no Serviço Social tem uma discussão
muito presente acerca de classes sociais.

capítulo 2 • 35
III. Ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial
de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e polí-
ticos das classes trabalhadoras;

VIII. Opção por um projeto profissional vinculado ao processo de constru-


ção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de clas-
se,etnia e gênero;

IX. Articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que


partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as traba-
lhadores/as; (Código de Ética do Assistente Social, 2011)

Ora, a profissão evidencia que está comprometida com a construção de uma


sociedade onde não haja a exploração e a dominação de classe, deixando claro
que essa construção se dá no cotidiano, na ampliação da cidadania, buscan-
do garantir os direitos das classes trabalhadoras. Temos aí, que na leitura do
Serviço Social essa sociedade organizada sob o modo de produção capitalista
explora e domina uma classe social e que essa classe que é dominada/explorada
é a classe trabalhadora. Mas afinal de contas, o que é classe social?
Como tantos outros conceitos, esse é bastante complexo, compreendendo
diversos entendimentos. Contudo, para termos um ponto de partida vamos tra-
balhar a partir do entendimento do Dicionário de Filosofia de Nicolas Abbag-
nano (2007) onde esse conceito não é criado pelas teorias clássicas ou mesmo
por Marx, como se acostumou entender atualmente. Marx cria a teoria da luta de
classes e que essa se dá tendo em vista o modo de produção capitalista. Contudo,
a discussão de classe é bastante anterior a isso, como descrito no trecho abaixo:

CLASSE (in. Class; fr. Classe, ai. Klasse, it.Classe). Em sentido sociológico, corresponde
ao que os antigos chamavam de “parte da cidade” e designa um grupo de cidadãos
definido pela natureza da função que exercem na vida social e pela parcela de vanta-
gens que extraem de tal função. Platão admitia três Classes, ou melhor, três partes da
sua cidade ideal: a dos governantes ou filósofos, a dos guerreiros e a dos agricultores
e artífices; confiava à primeira a tarefa de distribuir os indivíduos entre as classes. Aris-
tóteles enumera oito Classes: agricultores, operários mecânicos, comerciantes, servos
agrícolas, guerreiros, juizes,ricos e magistrados. (...) A noção de C. ficou muito acentua-
da no séc. XVIII, por obra da Revolução Francesa e de todo o movimento cultural que a
promoveu e a acompanhou.

36 • capítulo 2
Em filosofia, porém, ela só ganha destaque graças a Hegel, que considerava a divisão
das Classes como um ajustamento necessário da sociedade civil, devido a bens privados,
ou seja, ao capital, à aptidão dos indivíduos que, em parte, é condicionada pelo capital, a
circunstâncias contingentes devidas à diversidade das disposições e das necessidades
físicas e espirituais. Hegel atribuiu às Classes a função mediadora entre o governo e o
povo; sua determinação exige nelas tanto o sentido e o sentimento de Estado e governo,
quanto o dos interesses dos grupos particulares e dos indivíduos. O conceito de Classes,
assim elaborado por Hegel, foi usado por Marx como fundamento da sua doutrina da
luta de classes. (ABBGNANO, 2007, p.144/145, grifo nosso. Retiramos do texto as
indicações de notas bibliográficas presentes no original para facilitar a leitura)

Temos assim que o conceito de classes vem desde os antigos gregos e im-
plica um grupo de cidadãos, classificados e definidos a partir da função que
exercem na sociedade onde estão inseridos, mas também pelas vantagens, ou
privilégios que tal função lhes permite. Tem-se que algumas classes possuem
diversos privilégios, enquanto outras não possuem nem mesmo os direitos bá-
sicos garantidos.
No modo de produção capitalista, em especial a partir do liberalismo eco-
nômico, mesmo que as classes sociais estejam bastante definidas, busca-se tra-
balhar com a ideia de que essa divisão não existe e depende apenas do esforço
individual de cada um.

CONCEITO
O liberalismo econômico é uma teoria surgida no final do século XVIII que pregava que o
Estado não deveria intervir nos rumos da economia, tendo em vista que o mercado se regu-
laria automaticamente. Essa ideia é expressa no termo “mão invisível do mercado”, difundida
por Adam Smith. Segundo Smith, a prosperidade econômica e a riqueza são conquistadas
através do trabalho livre, sem nenhuma espécie de intervenção ou regulação estatal. Assim, o
enriquecimento e a acumulação de riquezas vai depender exclusivamente de cada indivíduo,
do esforço que ele emprega para a conquista de seus objetivos. Dessa forma, o liberalismo
econômico e a partir do final do século XX, o neoliberalismo prega o individualismo negando
a existência de classes sociais, e pontuando que cada pessoa depende apenas dela para
garantir seu desenvolvimento.

capítulo 2 • 37
Contudo, como afirmamos anteriormente, o Serviço Social baseado na te-
oria crítica, trabalha com a ideia de que no modo de produção capitalista exis-
tem classes sociais e que essas classes estão em correlação de forças buscando
assegurar os seus interesses.
Assim, conforme apresentado no Capítulo 1, o modo de produção capitalis-
ta se desenvolve a partir de um grupo de pessoas que possuem os meios neces-
sários para produção (matéria prima, ferramentas, espaço físico), ou seja, os
capitalistas, ou proprietários, e outro grupo de pessoas que por não possuírem
esses meios de produção precisam vender sua força de trabalho para garantir
sua sobrevivência. Esses são os trabalhadores, assalariados, ou em uma leitura
mais crítica, os explorados pelo modo de produção capitalista. Assim, no âm-
bito da leitura marxista acerca do modo de produção capitalista temos duas
classes sociais fundamentais: os capitalistas e os trabalhadores.

CONEXÃO
Para aprofundar a discussão acerca de classes sociais no Brasil podemos apontar de forma
especial as mudanças em relação a classe trabalhadora. O texto indicado é “A classe traba-
lhadora frente às mudanças no perfil do assalariamento no Brasil” de Rita Matos Coitinho. No
texto, fruto de seu mestrado em Sociologia, a autora discute as modificações na chamada
classe trabalhadora.

Contudo, na contemporaneidade essa definição não é tão fácil de ser ela-


borada, visto que entre os trabalhadores existem diversas outras estratificações
(trabalhadores assalariados, trabalhadores autônomos, trabalhadores infor-
mais, profissionais liberais, micro empreendedores individuais, entre outros)
e entre os capitalistas também (empresários, banqueiros, investidores).
Assim, o assistente social precisa estar atento para fazer uma leitura crítica
e atual acerca da realidade, para não correr o risco de utilizar um discurso ultra-
passado acerca das classes sociais no Brasil.

RESUMO

O presente trabalho discute a atualidade e a aplicabilidade


do conceito de classes sociais para a análise da sociedade

38 • capítulo 2
brasileira contemporânea e procura demonstrar quem são
os componentes da classe trabalhadora na atualidade.

Em um primeiro momento, a partir da discussão de textos


sociológicos clássicos e contemporâneos, procuramos en-
contrar um modelo adequado ao estudo das classes sociais
no Brasil. Nosso entendimento foi de que as classes sociais
definem-se pelas relações de produção, ou, mais precisa-
mente, pela posição ocupada na divisão social do trabalho.
Em relação à classe trabalhadora, consideramos a necessi-
dade de se pensar o conceito de forma ampliada, de modo
a abarcar a totalidade dos indivíduos cuja sobrevivência de-
pende exclusivamente da venda da sua força de trabalho e da
de seus familiares, aí incluindo-se também o contingente de
pessoas desempregadas. Em um segundo momento mostra-
mos como, historicamente, o Brasil tornou-se um país ple-
namente capitalista, podendo por isso ser estudado a partir
do instrumental sociológico construído para a análise dessa
formação social, particularmente com base no entendimen-
to de que são duas as classes mais importantes nas socieda-
des capitalistas: a classe dos capitalistas e a classe dos traba-
lhadores. Com o objetivo de chegar a uma delimitação mais
aproximada da classe trabalhadora brasileira, elegemos o
assalariamento como principal objeto de análise. Na análi-
se de duas décadas (1980 e 2000), feita com base nos dados
dos censos do IBGE, observamos que o assalariamento é o
principal meio de inserção dos brasileiros no mundo do tra-
balho e que o emprego industrial vem perdendo espaço para
o setor terciário. Por conta disso ganha relevância o entendi-
mento de que o conceito de classe trabalhadora transborda
os limites do trabalho fabril, abarcando todas as formas de
trabalho assalariado, da mesma maneira como o capital se
expande para os mais diversos tipos de atividade econômica.
Nossa conclusão aponta para a permanência da centralidade
do trabalho assalariado no Brasil contemporâneo e mostra
que as mudanças ocorridas nas últimas décadas tornaram

capítulo 2 • 39
mais complexa a análise da classe trabalhadora, uma vez que
esta se encontra mais fragmentada. Palavras-chave: classes
sociais, classe trabalhadora, assalariamento.

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pi-


d=S0102-69922008000100015&script=sci_arttext Acesso em 18 de Setembro de 2014.

2.2  A questão social no âmbito da luta de classes

Considerando que a questão social tem sua origem na contradição entre ca-
pital e trabalho e que agudiza-se a partir do desenvolvimento econômico, que
amplia os horizontes para a sociedade com avanços tecnológicos, científicos,
culturais, mas que não garante que todos tenham acesso ao fruto desses avan-
ços, podemos apontar que a existência das classes sociais está diretamente re-
lacionada com a questão social.
No último século a Medicina se desenvolveu de forma espetacular, crian-
do-se os mais modernos tratamentos, cirurgias e remédios para praticamente
todas as doenças existentes. Contudo, esses tratamentos estão disponíveis ape-
nas para uma parcela bem pequena da população, sendo que os demais estão
excluídos desse processo.
O que exclui essas pessoas do acesso a esses bens? A estrutura da socieda-
de com base no modo de produção capitalista, que cria classes detentoras de
todos os recursos e classes que trabalham produzindo a riqueza, mas que não
possuem acesso a ela.
Assim, classe social está diretamente relacionada à questão social. E a luta
de classes é uma forma de enfrentamento da questão social, na medida em que
conforme Iamamoto, a questão social é também rebeldia.

(...) Questão social, que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos
que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opõem. É nesta tensão entre
produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência que trabalham os
assistentes sociais, situados nesse terreno movidos por interesses sociais distintos,
aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade”.
(IAMAMOTO, 2005.p.28)

40 • capítulo 2
Nesse contexto, mesmo que a classe social limite e exclua as pessoas do
acesso a bens e serviços produzidos coletivamente nessa sociedade, essas pes-
soas resistem também a essas desigualdades, produzindo essa luta de classes
e contribuindo ainda para a caracterização da questão social, também como
resistência.
É possível portanto entender que a luta ou conflito de classes não é apenas
os conflitos armados, ou protestos, ou movimentos que acontecem eventual-
mente, mas que trata-se de um processo que desenvolve-se cotidianamente no
âmbito da sociedade que se desenvolve sob o modo de produção capitalista na
medida em que não é possível harmonizar totalmente os interesses, visto que
eles estão sempre em oposição.

CONCEITO
Em relação ao termo luta de classes vale esclarecer que o mesmo foi criado por Karl Marx
e não se resume a uma ou outra dimensão da vida em sociedade mas envolve aspectos
econômicos, políticos, culturais, ambientais, enfim, toda a sociedade que se estabelece sob
o modo de produção capitalista. Essa luta/conflito se desenvolve porque os capitalistas, pro-
prietários dos meios de produção ou burguesia, conforme denomina Marx, exercem seu
poder de mando em todos os aspectos da vida em sociedade, determinando (também a partir
da ideologia) a forma como a classe trabalhadora deve viver. Assim, tem-se um conflito his-
tórico, que de acordo com a teoria crítica só se resolve quando houver a superação do modo
de produção capitalista. Ou seja, o conflito, a luta de classes é parte do modo de produção
capitalista. Referência: MARX, Karl. O Capital : Crítica da Economia Política. Livro 1, Volume
2. 25 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Editora, 2011. 966p

Assim, mesmo que o termo luta de classes inicialmente pareça significar


algo violento no sentido do embate físico, essa luta acontece cotidianamente,
seja nas negociações para ajustes salariais, por exemplo, ou ainda na busca por
um tratamento medico que existe mas não está disponível na rede pública e
que só tem acesso a ele quem dispõe de recursos financeiros.
O assistente social está todo o tempo trabalhando no âmbito da luta de clas-
ses, buscando assegurar aos trabalhadores as condições necessárias para seu
desenvolvimento, contribuindo para a alteração do quadro de correlação de for-
ças, ou conforme apontado nos princípios do Código de Ética para a ampliação
e consolidação da cidadania, garantindo os direitos das classes trabalhadoras.

capítulo 2 • 41
O projeto ético político hegemônico do Serviço Social estabelece que a pro-
fissão tem o compromisso maior com a classe trabalhadora, ou seja, de acordo
com o direcionamento político da categoria, o assistente social defende sim
apenas um lado na luta de classes: o dos trabalhadores.
O compromisso ético da profissão em relação à luta de classes é evidente-
mente pela classe trabalhadora e assim o profissional posiciona-se de forma
clara a favor dos trabalhadores.
Evidente que isso não significa o rompimento com a classe capitalista, até
porque isso não seria possível tendo em vista a necessidade de condições objeti-
vas que assegurem a própria sobrevivência do profissional. Contudo, o assisten-
te social precisa compreender que ele próprio é um trabalhador, e que portanto,
seus interesses não são os mesmos dos detentores dos meios de produção.
Trabalhar com a defesa dos interesses das classes trabalhadoras, mas sem o
rompimento definitivo com a classe capitalista só é possível com o desenvolvimen-
to da competência ético-política. Não se trata de duas caras, ou ser um profissional
“em cima do muro”, mas sim de encontrar as estratégias necessárias para o diá-
logo com as classes detentoras do poder. A opção em favor da classe trabalhadora
deve ser sempre radical, ou seja, não pode haver dúvidas quanto à sua necessidade,
mas o discurso pode ser devidamente apropriado para o momento presente.

CONEXÃO
A dissertação de Mestrado em Serviço Social de Tais Pereira de Freitas, intitulada “Entre as
safras da cana-de-açúcar: desafios para o profissional de Serviço Social na agroindústria ca-
navieira”, trata do trabalho do assistente social em defesa dos direitos dos trabalhadores do
corte da cana-de-açúcar, apresentando a necessidade de um trabalho efetivo do assistente
social junto aos trabalhadores, sem desconsiderar o necessário diálogo com os proprietá-
rios e empregadores. Em especial no capítulo 03 a autora aponta os desafios presentes,
mas destaca também as possibilidades para o trabalho. Cumpre destacar um trecho final do
capítulo 03, onde a autora destaca a competência política do assistente social, ou seja, os
significados de uma intervenção tendo em vista o conflito de classes.

42 • capítulo 2
Sobre a competência política do assistente social é preciso destacar que a prática pro-
fissional está atrelada ao fazer política entendida na concepção para além de política
partidária, no conceito de formas de organização, direção, administração. Fazer política
para o Serviço Social é estar no jogo de forças que se estabelecem entre trabalhadores
e empresa, entre Poder Público e usuários dos serviços sociais entre outros. (FREITAS,
2009, p.93)
Disponível em: http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/ServicoSocial/Dis-
sertacoes/tais.pdf (Acesso em 18 de Setembro de 2014)

Assim, o trabalho do assistente social está diretamente relacionado ao en-


frentamento das expressões da questão social e no que diz respeito ao conflito
ou luta de classes o assistente social tem o compromisso ético de sempre posi-
cionar-se a favor da classe trabalhadora.

2.3  O trabalho do assistente social: aproximando a questão social

O “trabalho profissional” sempre é bastante discutido e ocupa relativa cen-


tralidade na reflexão acerca do Serviço Social no Brasil, sendo que as razões
para tal destaque não remetem apenas ao caráter notadamente interventivo da
profissão, mas também aos desafios que comumente são encontrados no coti-
diano da práxis profissional.
A especificidade dos espaços de trabalho do Serviço Social na contempora-
neidade não só amplia o lócus da ação, mas chama para a reflexão sobre o com-
promisso com a leitura crítica da realidade entendendo tanto a universalidade,
expressa no modo de produção capitalista, na luta de classes e na própria ques-
tão social, mas também as singularidades trazidas no cotidiano da intervenção.
Pensar o trabalho profissional do Serviço Social requer, todavia, uma refe-
rência à gênese e consolidação da profissão no Brasil. Conforme Netto (2011,
p.17) sempre é encontrado na literatura que se refere ao surgimento do Serviço
Social no Brasil, o vínculo desse surgimento com a questão social. Mas confor-
me destacado no capítulo anterior, a gênese da profissão não se esgota nesse
atrelamento a questão social, antes, articula-se ao modo como essa questão foi
tratada no momento de trânsito ao estágio monopolista do sistema capitalista,
cuja essência pode ser encontrada na separação radical entre produtor e meio
de produção, ou seja, separa-se o trabalho das condições exteriores indispensá-

capítulo 2 • 43
veis a sua realização, quais sejam matéria prima e instrumentos, entre outros,
ficando de um lado o trabalhador e, de outro, o que possui essas condições.
O trabalho do assistente social na contemporaneidade exige um profissio-
nal competente na leitura atenciosa e crítica em relação às configurações da
sociedade, uma vez que o trabalho profissional só tem sentido na história da so-
ciedade na qual está inserido e da qual faz parte, e, portanto as mudanças que
ocorrem nesta incidem sobre a práxis do Serviço Social. “Pensar o Serviço Social
na contemporaneidade requer os olhos abertos para o mundo contemporâneo
para decifrá-lo e participar de sua recriação”. (IAMAMOTO, 2005, p.19)
Pensar o trabalho profissional do Serviço Social na realidade brasileira atu-
al não pode prescindir da leitura que iniciamos no capítulo anterior, ou seja,
de considerar sobretudo a macro estrutura brasileira, assentada sobre as bases
de um estado capitalista monopolista, estado esse mínimo no que diz respeito
ao bem social, mas ao mesmo tempo um Estado máximo para o capital, finan-
ciando o desenvolvimento das grandes empresas e bancos e repassando para a
sociedade civil a responsabilidade de atuação frente às demandas decorrentes do
agudizamento da questão social.
O mundo do trabalho também sofre alterações significativas. Conforme ve-
remos no próximo capítulo, atualmente visualiza-se um retrocesso em relação
aos direitos trabalhistas, mas com o discurso do moderno, da eficiência econô-
mica e administrativa, reduzindo gastos e aumentando os lucros. Com isso, as
empresas vão sendo terceirizadas e as relações de trabalho precarizadas, com
a retomada de formas de trabalho arcaicas como o trabalho em casa, trabalho
familiar, além do não reconhecimento de direitos sociais e trabalhistas.
Considerando que o trabalho profissional do Serviço Social tem interlocu-
ção com todos esses aspectos da realidade brasileira contemporânea, é possível
tecer algumas considerações/reflexões sobre os determinantes desse trabalho.
No cotidiano do trabalho profissional do assistente social por vezes sobres-
saem as ações emergenciais, ou mesmo socioassistenciais, ou seja, aquelas
de atendimento direto à população usuária de serviços, compreendendo por
exemplo, entrevistas, acolhimentos, visitas domiciliares, encaminhamentos,
garantia de acesso a benefícios.
Contudo, esse não é (ou pelo menos não deveria ser) o foco de ações do Ser-
viço Social na medida em que o assistente social trabalha fundamentalmente

44 • capítulo 2
com as ações socio-educativas, ou seja, aquelas voltadas para o enfrentamento
da problemática atual mas que tem como foco o futuro; ações que buscam ga-
rantir a emancipação dos usuários.
Nesse contexto, o assistente social é o profissional competente para atuar nos
mais diversos segmentos, com planejamento, organização, implementação, exe-
cução, avaliação, pesquisa, consultoria, assessoria e gestão.
Mas essas ações estão sempre voltadas para atender às demandas dos usu-
ários dos serviços buscando-se garantir o acesso aos direitos que estão garanti-
dos em toda a Legislação Brasileira.
Cumpre destacar que dessa forma, o assistente social tem como foco de seu
trabalho as expressões da questão social, ou como afirma Iamamoto, (2005,
p.27) “O Serviço Social tem na questão social a base de sua fundação como es-
pecialização do trabalho”.

Exatamente por isso, decifrar as novas mediações por meio das quais se expressa a
questão social, hoje, é de fundamental importância para o Serviço Social em uma dupla
perspectiva: para que se possa tanto apreender as várias expressões que assumem, na
atualidade, as desigualdades sociais - sua produção e reprodução ampliada - quanto
projetar e forjar formas de resistência e de defesa da vida. Formas de resistência já pre-
sentes, por vezes de forma parcialmente ocultas, no cotidiano dos segmentos majoritá-
rios da população que dependem do trabalho para a sua sobrevivência. Assim, apreender
a questão social é também captar as múltiplas formas de pressão social, de invenção e
de re-invenção da vida construí das no cotidiano, pois é no presente que estão sendo
recriadas formas novas de viver, que apontam um futuro que está sendo germinado. Dar
conta dessa dinâmica supra referida, parece ser um dos grandes desafios do presente,
pois permite dar transparência a valores atinentes ao gênero humano, que se tornam
cada vez mais opacos no universo da mercantilização universal e do culto do individua-
lismo. Enfim, decifrar as múltiplas expressões da questão social, sua gênese e as novas
características que assume na contemporaneidade, atribuindo transparência às iniciati-
vas voltadas à sua reversão e/ou enfrentamento imediato. (IAMAMOTO, 2005, p.28/29)

Portanto, é necessário que o assistente social compreenda que para o seu


trabalho profissional cotidiano ele necessita entender a questão social em suas
múltiplas formas de expressão.

capítulo 2 • 45
ATIVIDADE
1. Faça uma pesquisa bibliográfica acerca da história das classes sociais e aponte quais
os determinantes que mudam com o modo de produção capitalista

2. Pesquise acerca do trabalho do assistente social na política pública de saúde e como


se dão as expressões da questão social nesse espaço.

REFLEXÃO
Considerando que o conceito de classes sociais está sempre sendo discutido, e que o as-
sistente social precisa atentar-se para essas reflexões apresentamos a reportagem “Veja
Diferenças entre conceitos que definem classes sociais no Brasil”, publicado em Agosto de
2013, no portal G1.A reportagem é de Gabriela Gasparini.
Um novo critério para a definição das classes sociais no Brasil será adotado a partir de
2014 pela Associação Brasileira de Empresas e Pesquisas (Abep), que representa a ativida-
de de pesquisa de mercado, opinião e mídia do país. O conceito está no livro “Estratificação
Socioeconômica e Consumo no Brasil”, lançado no último dia 15, e foi elaborado pelos pro-
fessores Wagner A. Kamakura (Rice University) e José Afonso Mazzon (FEA-USP).
O critério contrasta com o usado pelo Governo Federal, lançado em 2012 pela Secreta-
ria de Assuntos Estratégicos (SAE). Um dos pontos é que estabelece sete estratos sociais,
enquanto o da SAE aponta 8.
A faixa de renda familiar em cada um também varia. No da SAE, por exemplo, a renda
familiar do grupo “extremamente pobre” (a base da pirâmide) é de até R$ 324, quanto o novo
modelo determina uma base com renda média familiar de R$ 854 (que por ser média, pode
variar um pouco para cima ou para baixo).
O G1 conversou com Mazzon, que apontou as principais diferenças entre os critérios.

46 • capítulo 2
GRUPOS DE RENDA DA POPULAÇÃO
CLASSIFICAÇÃO DO GOVERNO (SAE)
NOVO CRITÉRIO
GRUPORENDA
RENDA PER RENDA A SER ADOTADO
GRUPO MÉDIA
CAPITA FAMILIAR PELA ABEP EM
FAMILIAR
2014

Extremamente
Até R$ 81 Até R$ 324 1 R$ 854
pobre

Pobre, mas
não extrema- Até R$ 162 Até R$ 648 2 R$ 1.113
mente pobre

Vulnerável Até R$ 291 Até R$ 1.164 3 R$ 1.484

Baixa classe
Até R$ 441 Até R$ 1.764 4 R$ 2.674
média

Média classe
Até R$ 641 Até R$ 2.564 5 R$ 4.681
média

Alta classe
Até R$ 1.019 Até R$ 4.076 6 R$ 9.897
média

Baixa classe
Até 2.480 Até R$ 9.920 7 R$ 17.434
alta

Acima de
Alta classe alta Acima de 2.480 --
R$ 9.920

Fontes: Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e livro


“Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil”

Renda corrente X renda permanente


De acordo com ele, a primeira grande distinção é o conceito de renda corrente, usado pela
SAE e no antigo critério da Abep, e a permanente, usado no novo critério. “A renda perma-
nente é a capacidade que uma família tem de manter o mesmo padrão de vida por determina-
do período de tempo, mesmo que mude a renda corrente”, explica. A renda corrente é aquela
que a família tem garantida mensalmente, como salário, aluguel ou a pensão.

capítulo 2 • 47
O professor explica, contudo, que mesmo que uma pessoa deixe o emprego, ela continua
com o antigo padrão de vida por um determinado período de tempo, mesmo que a renda
corrente seja zero – para isso ela pode usar, por exemplo, recursos de um dinheiro guardado
na poupança, crédito etc. “Eu consigo viver mantendo o meu padrão [por um determinado pe-
ríodo], mas a renda corrente caiu para zero, se essa pessoa fosse medida pelo outro critério,
ela saiu da linha”, explica.

Renda corrente declarada X renda comprovada


Mazzon explica que o novo critério usa dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares
(POF), que é mais criteriosa do ponto de vista de comprovação de renda (usa a renda com-
provada).
Na prática, isso significa que quando o pesquisador entrevista as pessoas, ele exige
uma comprovação de que o entrevistado de fato recebe o que falou, explicou. “As pessoas,
mesmo honestas, dão um conceito muito limitado [da renda] (...). Nós usamos a renda com-
provada, o pesquisador fala, ‘me mostra o holerite para ver o quanto está ganhando’”, explica.
De acordo com o professor, a SAE utiliza a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad) para seus padrões, que não exige a comprovação e se vale apenas da declaração do
entrevistado. “A Abep atualmente usa a renda corrente declarada também”, diz.

Regionalização e composição familiar


Uma terceira distinção destacada pelo professor é a regionalização das famílias. “A SAE
tem oito estratos socioeconômicos, a renda corrente é igual tanto para quem mora em São
Paulo quanto para uma família que mora na beira do Rio Amazonas. Só que o poder aquisitivo
de quem tem R$ 300 de renda per capta é diferente nos dois lugares”, explicou.
Ele cita ainda, que o novo critério leva em conta a composição familiar - isso porque a
mesma renda permanente em um domicílio permite padrões de vida diferentes de acordo
com a quantidade de pessoas que vivem no local. Ou seja, com a mesma renda, dois adultos
conseguem manter um padrão de vida mais elevado do que um domicílio com três adultos e
duas crianças.
“Se você combina as duas coisas, de um lado a variável que é a região demográfica e tipo
de domicílio e de outro a composição familiar, eu faço correção da renda entre duas caracte-
rísticas e pessoa que em São Paulo estaria no estrato 3, de repente ela vai estar classificada
como estrato 2 no interior do Piauí’, explica.
De acordo com Mazzon, os novos critérios são mais precisos do que os usados ante-
riormente pela associação e dão subsídios às empresas na realização de campanhas de

48 • capítulo 2
marketing e decisões estratégicas que dependem de análise de potencial de mercado. “Claro
que serve para política pública, não há a menor dúvida que pode ser usado também na área
de marketing social”, explica.
O professor explica, ainda, que a definição criteriosa de classes sociais no Brasil é im-
portante por uma questão de ‘Justiça social’. “As classes que nos quereremos mostrar tem
perfis diferentes, quando eu falo em perfil estou falando de um padrão de vida como um todo,
se a gente quiser uma sociedade menos desigual a gente teria que reduzir distâncias entre
classes socioeconômicas”, avalia.

Disponível em http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/2013/08/veja-diferen-
cas-entre-conceitos-que-definem-classes-sociais-no-brasil.html Acesso em 18 de Setem-
bro de 2014.

LEITURA RECOMENDADA
Para sistematizar as discussões que foram realizadas nesse capítulo, em especial no que diz
respeito a classes sociais e o conflito de classes recomendamos a leitura do livro “O que é
Marxismo” da Coleção Primeiros Passos. O livro é de autoria de José Paulo Netto e trabalha
de maneira bastante clara os fundamentos da teoria marxista, que é onde discute-se o con-
ceito de luta de classes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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capítulo 2 • 49
BRASIL. Lei 8.662 de 07 de Junho de 1993. Dispõe sobre a profissão de assistente social
e dá outras providências. Brasilia: Presidência da República, 1993.

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CATANI, Afrânio Mendes. O que é Capitalismo. Coleção Primeiros Passos. Ed revista e


ampliada. São Paulo: Brasiliense Editora, 2011, 144p.

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IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na Contemporaneidade: Trabalho e For-


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50 • capítulo 2
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PONTES, Reinaldo Nobre. Mediação e serviço social: um estudo preliminar sobre a ca-
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REIS, Marcelo Braz Moraes dos. Notas sobre o Projeto ético político do Serviço So-
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RODRIGUES. Maria Lúcia. Ações e Interlocuções: estudos sobre a prática profissional do


assistente social. 2ed. São Paulo: Veras Editora, 1999.131p.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No capítulo 3 discutiremos o mundo do trabalho e as mudanças ocorridas no mesmo, enten-
dendo as suas contradições enquanto expressões da questão social e como se dá o trabalho
do assistente social nessa dimensão. Te esperamos lá. Bons estudos.

capítulo 2 • 51
3
Reestruturação
Produtiva e Questão
Social no Século XXI
3  Reestruturação Produtiva e Questão
Social no Século XXI

Neste capítulo, aprofundamos a discussão acerca da questão social, abordando


uma temática que é bastante importante para o trabalho do assistente social:
a classe trabalhadora. Inicialmente apresentamos as configurações gerais do
mundo do trabalho, ressaltando a origem dessa categoria, ou seja, o trabalho
constitui-se eixo fundante da vida em sociedade. Destacamos inicialmente que
o homem, ser natural, ao transforma a natureza, transforma-se a si próprio e se
constitui ser social.
Assim, a partir dessa análise, estudamos de forma geral as transformações
no mundo do trabalho, culminando na reestruturação produtiva que limita e
cerceia direitos dos trabalhadores, criando diversos sub postos de trabalho e
aumentando a situação de vulnerabilidade da classe trabalhadora.
Encerrando o capítulo trazemos a temática do trabalho profissional do assis-
tente social frente a essa realidade, ressaltando que ao longo do capítulo apre-
sentamos alguns indicativos de leitura que permitem o aprofundamento da dis-
cussão.
Finalizamos com a apresentação do texto “CFESS MANIFESTA Tempo de lu-
tar pelos direitos da Classe trabalhadora”, onde o Conselho Federal de Serviço
Social (CFESS) apresenta alguns dados e análises acerca da classe trabalhado-
ra no Brasil e ainda os desafios para o assistente social efetivar direitos nesse
campo.
Desejamos bons estudos e um ótimo aproveitamento desse capítulo.

OBJETIVOS
O estudo desse capítulo permitirá ao aluno compreender a relação entre questão social e
mundo do trabalho, possibilitando a discussão acerca das expressões da questão social no
cotidiano dos trabalhadores, relacionando com o contexto neoliberal e apontando possibi-
lidades para o trabalho do assistente social nesse cenário. Dessa forma, espera-se que ao
término desse capítulo o aluno possa:
•  Entender as mudanças no mundo do trabalho dentro do contexto neoliberal
•  Entender as expressões da questão social no mundo do trabalho
•  Identificar estratégias de atuação do assistente social nesse contexto

54 • capítulo 3
Você se lembra?

REFLEXÃO
No capítulo anterior nós estudamos acerca das classes sociais e a relação com o modo de
produção capitalista, destacando que o conflito e luta de classes nesse sistema constituem-
-se também como formas de expressão da questão social, e que o assistente social precisa
atentar-se para as mudanças ocorridas em relação às manifestações da questão social para
assim construir sua práxis profissional.

3.1  O mundo do trabalho

As dimensões do trabalho na contemporaneidade remetem as configurações


atuais do sistema econômico vigente. A forma como se estabelecem as relações
econômicas de produção, sinalizam também formas de convivência, de trabalho,
e porque não dizer, da maneira como a sociedade está organizada.
A análise histórica do sistema de produção da sociedade brasileira atual,
mostra que, como discutimos no primeiro capítulo, trata-se do modo de produ-
ção capitalista, que apresenta uma capacidade significativa para se reorganizar
e reestruturar mas ao mesmo tempo mantendo a lógica de acumulação. Essas
reestruturações conservam as contradições fundamentais do sistema, poten-
cializando algumas e resignificando outras em uma organização societária
também dinâmica e que, portanto, altera-se cotidianamente.
Contudo, o que vale destacar é que o trabalho não é fruto do modo de pro-
dução capitalista. Ele é a forma através do qual o ser humano, antes ser natural,
vai transformando a natureza e assim transformando-se a si mesmo, construin-
do-se ser social.
Conforme Antunes (2013, p.07 e 08):

Sabemos que é a partir do trabalho, em sua realização cotidiana, que o ser social se
distingue de todas as formas pré-humanas. Os homens e mulheres que trabalham são
dotados de consciência, uma vez que concebem previamente o desenho e a forma que
querem dar ao objeto do seu trabalho. (...)

capítulo 3 • 55
O trabalho é também fundamental na vida humana porque é condição para a existência
social. Conforme disse Marx, em O Capital: Como criador de valores de uso, como tra-
balho útil, é o trabalho, por isso, uma condição de existência do homem, independente
de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de mediação do metabo-
lismo entre homem e natureza e portanto, vida humana.” (Marx, K. O capital, V.I, p.50).
E ao mesmo tempo em que os indivíduos transformam a natureza externa, têm também
alterada sua própria natureza humana, num processo de transformação recíproca que
converte o trabalho social num elemento central do desenvolvimento da sociabilidade
humana. (ANTUNES, 2013, p.07/08)

Temos, portanto, que trabalho é forma de sociabilidade, maneira através


da qual o ser humano se constrói ser social. Assim, trabalho é uma maneira de
os seres humanos se relacionarem, se desenvolverem enquanto sujeitos. Mas
o trabalho não é apenas esse trabalho que conhecemos hoje, como forma de
subsistência. O pintor quando pinta um quadro está trabalhando, mesmo que
esse quadro não vá ser vendido, mesmo que seja para seu lazer. O músico quan-
do de posse de um instrumento musical produz uma canção, está trabalhando.
Ou seja, o trabalho não é apenas aquilo que produzimos quando precisamos de
alguma renda para nos mantermos. Trabalho é a atividade humana que produz
valores, não apenas econômicos, mas culturais, artísticos, entre outros.
E por que então entendemos trabalho na atualidade como algo penoso,
como aquilo que fazemos para ter uma renda financeira? Por que temos dificul-
dades em perceber algumas atividades, realizadas por prazer, como trabalho?
Antunes (2013, p.08 e 09) a partir dos estudos de Marx vai destacar que:

Mas, se, por um lado, podemos considerar o trabalho como um momento fundante da
vida humana, ponto de partida do processo de humanização, por outro, a sociedade
capitalista o transforma em trabalho assalariado, alienado, fetichizado. O que era uma
finalidade central do ser social converte-se em meio de subsistência. (...) O trabalho,
como atividade vital, se configura então como trabalho alienado, expressão de uma
relação social fundada na propriedade privada, no capital e no dinheiro. Alienado frente
ao produto do seu trabalho e frente ao próprio ato de produção da vida material, o ser
social torna-se um estranho frente a ele mesmo: o homem estranha-se em relação ao
próprio homem, tornando-se estranho em relação ao gênero humano, como também
nos mostrou Marx.

56 • capítulo 3
Ou seja, Antunes nos mostra que é o modo de produção capitalista que
transforma o que era uma finalidade central do ser humano, o que dava prazer,
o que permitia que o ser humano se reconhecesse no que produzia (fosse mú-
sica, poesia, ou uma ferramenta) em algo deslocado do ser humano, alienado,
separado do ser social.

Essa alienação do trabalho, em um entendimento simplificado o agir sem o conheci-


mento do todo, pode ser visualizado em diversas dimensões do mundo do trabalho.
Exemplificando com a questão do trabalhador rural empregado no corte manual da
cana-de-açúcar, ele corta toneladas de cana para a usina, mas, via de regra, não sabe
o processo que transforma essa cana em álcool ou açúcar. O pagamento por produção
nos canaviais ganha as cores da exploração da força de trabalho, já que se tem um piso
salarial muito baixo e que os trabalhadores se vêm na obrigação de cada dia produzir
mais visando garantir seu trabalho frente à concorrência com as máquinas colheitadei-
ras e o mínimo de condições de sobrevivência. Além disto, a sazonalidade do trabalho
obriga os cortadores de cana a se esforçarem muitas vezes além de seus limites físicos
já que precisam garantir sua sobrevivência, também nos meses da entressafra quando
ficarão sem trabalho. Assim, configura-se um trabalho alienado, sem perspectivas, exe-
cutado apenas para garantia de sobrevivência. (FREITAS, 2009, p.35)

Essa forma alienada com vistas apenas a garantia de sobrevivência vai ca-
racterizar o trabalho no modo de produção capitalista, em especial a partir da
Primeira Revolução Industrial e das duas demais Revoluções que seguiram, na
medida em que com a Primeira Revolução (Século XVIII) surgiram transforma-
ções importantes como a máquina a vapor, com a Segunda Revolução (Mea-
dos do século XIX) começam as modernizações de equipamentos e produtos,
produzindo-se carros, televisores e na Terceira Revolução (Século XX, a partir
da década de 1920) conhecida como Revolução Tecnólogica desenvolve-se a
produção de sofwtares, robôs e diversos produtos eletroeletrônicos que recon-
figuram de maneira significativa a forma de produção e consequentemente de
trabalho no mundo.

CONEXÃO
Acerca das Revoluções Industriais ocorridas no mundo, vale destacar a leitura do texto “Revolu-
ções Industriais: Primeira, Segunda e Terceira Revoluções” de Anselmo Lázaro Branco que faz

capítulo 3 • 57
um resumo simples e objetivo desses momentos históricos apontando as principais transfor-
mações ocorridas. Abaixo trechos do texto e a indicação do link para leitura do artigo completo.

A partir dessas considerações é possível afirmar que o mundo do trabalho


não é mais o mesmo, passando por mudanças significativas ao longo dos sécu-
los e apresentando na atualidade configurações que precisam ser estudadas,
na medida em que configuram-se no âmbito das expressões da questão social.

Nos primórdios da presença humana na Terra, as modifica-


ções que o homem produzia eram muito pequenas, sobretudo,
antes do desenvolvimento da atividade agrícola. No decorrer
da história da humanidade, com o crescimento populacional e
com o desenvolvimento de novas técnicas, o domínio de novas
tecnologias e os novos instrumentos de produção, as interven-
ções nas paisagens foram sendo cada vez mais intensas e am-
plas. Nesse sentido, um marco na relação sociedade-natureza e
no estabelecimento de novas formas de produção foi a Primei-
ra Revolução Industrial.

Na Segunda Revolução Industrial, entre meados do século 19


e meados do século 20, diversos inventos passaram a ser pro-
duzidos e comercializados: automóvel, telefone, televisor, rá-
dio, avião. Essas situações de avanço tecnológico contínuo e
modernização de equipamentos e produtos podem contribuir
para que as pessoas desvalorizem o que não é moderno, inclu-
sive, as sociedades que têm uma grande riqueza cultural, nas
quais a criatividade humana está presente de forma marcante,
como nas diversas sociedades indígenas que habitam o Brasil.

Logo após a Segunda Grande Guerra, a economia internacio-


nal começou a passar por profundas transformações. Elas ca-
racterizam a Terceira Revolução Industrial, diferenciando-a
das duas anteriores, uma vez que engloba mudanças que vão
muito além das transformações industriais.

Disponível em http://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/revolucoes-industriais-primei-
ra-segunda-e-terceira-revolucoes.htm Acesso em 21 de Setembro de 2014.

58 • capítulo 3
3.2  A reestruturação produtiva

A estruturação do mundo do trabalho brasileiro apresenta configurações di-


ferenciadas na atualidade, destacando-se formas flexibilizadas, informais em
contraposição ao padrão industrial de produção que vigorou durante as últi-
mas décadas do século XX.
Destaca-se que com Henry Ford e Frederick Taylor tinha-se um padrão de
produção quase mecanizado, na medida em o trabalhador tinha que se adequar
a máquina, adotando inclusive os movimentos dela como seus. Esse padrão de
produção ficou conhecido como taylorista/ fordista, marcado pela produção
em massa, trabalho fragmentado e hierarquizado, com cada trabalhador ocu-
pando uma função específica e sendo especializado apenas naquela função.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma experiência adotada nas fábri-
cas de automóveis da Toyota marca um novo padrão de produção, que ficaria
conhecido como Toyotismo. A partir desse padrão de produção, o trabalhador
precisava ser capaz de desenvolver mais uma função e a produção já não era
mais em massa, mas sim de acordo com a demanda, eliminando-se assim os
estoques e tendo como principal a marca o compromisso com a qualidade total.
A partir do Toyotismo tem-se o desenvolvimento de um padrão de produção
conhecido como acumulação flexível e que marca o último século, com empre-
gos cada vez mais escassos, e a necessidade de que o trabalhador seja mão de
obra física, mas também sua subjetividade.
Todavia o que é preciso entender é que essas alterações não se limitam ao
mundo do trabalho, mas antes originam-se nas mudanças ocorridas na forma
de se produzir e a partir das quais ocorrem alterações significativas expressas
em fatores como por exemplo, o retrocesso em relação aos direitos trabalhistas,
mas com o discurso da modernidade: a eficiência econômica e administrativa.
Para tal eficiência, reduzem-se gastos, aumentam-se os lucros, terceirizando
empresas e precarizando as relações de trabalho com a retomada de formas
como o trabalho em casa, trabalho familiar, além do não reconhecimento de
direitos sociais.
Essas alterações na forma de produzir levam a questionamentos acerca da
continuidade do trabalho, como foi pensado até o presente. Indaga-se sobre a
“crise do capital” e a possibilidade de o trabalho não ter mais centralidade na
organização da vida em sociedade. Todavia, uma análise mais acurada aponta

capítulo 3 • 59
que essa crise, que se mostra em alterações significativas no modo de produ-
ção, nas formas de trabalho e em outras configurações da sociedade não ace-
nam o fim de um sistema, mas adequações na sua estrutura produtiva objeti-
vando fundamentalmente sua manutenção. Teixeira (1996, p.73-74) sintetiza essas
reflexões no seguinte trecho:

Hoje o capital revolucionou sua estrutura produtiva ao ponto de tornar o trabalho vivo
evanescente dentro da estrutura produtiva da empresa. Por conta disso, o trabalho dire-
to, imediato, não é mais a unidade dominante dentro das grandes unidades de capital. E
não é mais porque essas unidades retêm as tecnologias mais sofisticadas e avançadas,
a alma do segredo da produção, e repassam para trabalhadores, tornados “independen-
tes e autônomos”, a tarefa de produzir o grosso do produto. (TEIXEIRA, 1996, P.73-74)

A forma como se “repassa” essa tarefa de produzir, se deteriorou ainda mais


na última década. Em especial no que diz respeito ao Brasil, de acordo com Al-
ves (2000), a partir dos anos 1990 têm-se no país a instituição de um “novo (e
precário) mundo do trabalho”. Todavia, historicamente, segundo o autor é pos-
sível identificar no país três grandes “surtos” de reestruturação produtiva que
vão levar ao panorama atual. Assim, tem-se:

•  Após 1945, particularmente em meados dos anos 1950 identifica-se um


período marcado por intenso desenvolvimento industrial, com a instau-
ração nas indústrias de orientação taylorista-fordista, e uma industriali-
zação baseada em substituição de importações.

•  O segundo “surto” de reestruturação produtiva no Brasil seria na passa-


gem dos anos 1970, com o que ficou conhecido como “Milagre Brasilei-
ro”, no período da Ditadura Militar;

•  A partir de 1980 teria-se então outra fase dessa reestruturação que confi-
guraria o mundo do trabalho precarizado da contemporaneidade. Tem-
-se o predomínio de um padrão de acumulação capitalista, bem como
uma “mundialização do capital” e ainda o que se pode ser chamado de
Terceira Revolução Industrial, ou Revolução Tecnológica.

60 • capítulo 3
Esse momento irá trazer em seu bojo alterações profundas na estruturação
do mercado de trabalho, reduzindo-se oportunidades de emprego, exigindo-se
trabalhadores polivalentes, multifuncionais e que se disponham a “colaborar”
com a empresa. Segundo Alves (2000, p.66/67):

Em termos relativos desenvolve-se a economia do trabalho vivo, por meio do desen-


volvimento crescente da produtividade (e da intensificação) do trabalho, que tende a
“enxugar”, cada vez mais a participação dos operários industriais no núcleo do complexo
de produção de mercadorias. Desse modo surge um novo proletariado industrial, com-
plexo e heterogêneo, cuja redução numérica em seu centro produtivo tende a ocultar
sua expansão periférica, interpenetrada por unidades de subcontratação industrial e de
“serviços” (vale dizer, um neoproletariado “pós moderno”, com estatutos sociais precá-
rios). (ALVES, 2000, p.66/67)

A partir dessa reestruturação, e considerando também os estudos de Mota


(2008), têm-se então no mundo do trabalho, a implementação de medidas de
redução de custos (mão de obra, matéria prima, impostos) e de aumento de
produtividade, o que significa muitas vezes a utilização pelas empresas de força
de trabalho terceirizada e precarizada.
Este período tem sido marcado pelas privatizações e fusões de empresas,
por novas formas de produzir mercadorias, por exigências de produtividade e
rentabilidade que reduzem os postos de trabalho e implicam na adoção de pa-
drões mais rígidos de controle do desempenho do trabalhador. As terceiriza-
ções, a precarização, a flexibilização do trabalho e consequente desregulamen-
tação das leis trabalhistas são características de um movimento mais geral da
economia mundial que redirecionam as estratégias empresariais no sentido de
criar uma cultura do trabalho adequada aos requerimentos de produtividade,
competitividade e maior lucratividade. (MOTA, 2008. p.155)
A partir dos anos 2000 configuraram-se ainda o que pode ser entendido
como ampliação da terceirização, onde as fases da produção se fragmentam
em momentos e espaços os mais diferenciados, formando um panorama, onde
empresas já terceirizadas, terceirizam os trabalhos essenciais. Para os traba-
lhadores empregados nesse processo de produção pode-se criar inicialmente
uma falsa ilusão de trabalho livre, onde parece não haver mais antagonismos.

capítulo 3 • 61
Todavia as contradições continuam inerentes a esse modo de produção,
mudando apenas a forma como isso se apresenta no concreto, aparentemente
não mais compradores e vendedores de força de trabalho, mas “produtores in-
dependentes de mercadorias” (TEIXEIRA, 1996, p.73), o que parece mascarar a
exploração da mais valia. Contudo, essa ilusão não resiste a análise detalhada.
O trabalhador continua produzindo para outrem, só que agora longe do espaço
empresarial/industrial, desvinculado do “patrão”, mas ainda assim sem acesso
aos rendimentos reais dessa produção o que desconstrói a idéia de “fim do
trabalho” e mostra que o que ocorre é uma busca de assegurar as condições
para a prevalência da exploração, para que se mantenha na atual configuração
societária, a lógica de obtenção de lucro através da produção de mercadorias.

CONEXÃO
Uma das expressões da reestruturação produtiva é o trabalho informal. As dificuldades para
conceituação do que é o trabalho informal devem-se em grande parte à heterogeneidade
de manifestações de trabalho não formal, não regulamentado, onde não estão garantidos os
direitos preconizados nas legislações específicas, no caso brasileiro, a Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT). Dessa forma, pensa-se trabalho informal em oposição a trabalho formal.
Todavia, esse entendimento não contempla a amplitude das possibilidades conceituais acerca
da categoria “trabalho informal”. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) em documento
da série “Trabalho Decente no Brasil” (OIT,2010) vai discutir algumas das questões relaciona-
das ao trabalho informal, iniciando por um histórico da dificuldade de definições acerca do tra-
balho informal e apontando então as razões para o emprego do conceito “economia informal”,
em substituição a trabalho informal. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT),
economia informal é o termo que melhor traduz essa heterogeneidade das expressões da in-
formalidade, visto que abrange tanto a definição de “unidade produtiva”, quanto à definição de
“ocupação”. No entanto, para as reflexões acerca dos impactos em relação ao agudizamento
da questão social que volta-se prioritariamente para as problemáticas relacionadas a ocupa-
ção e não a unidades produtivas, podemos utilizar o conceito de trabalho informal, entendido
como condição construída a partir de situações prejudiciais ao trabalhador: flexibilização de
direitos trabalhistas e previdenciários, rendimentos baixos e irregulares, locais de trabalho não
definidos, jornadas extensas de trabalho, baixos níveis de qualificação.
Para essas e outras as discussões acerca do trabalho informal recomendamos a leitura da
cartilha “Economia Informal: aspectos conceituais e teóricos” de José Dari Krein e Marcelo
Weihasput Proni.

62 • capítulo 3
Disponível em http://www.oitbrasil.org.br/sites/default/files/topic/employment/pub/eco-
nomia_informal_241.pdf Acesso em 22 de Setembro de 2014.

3.3  Os rebatimentos da reestruturação produtiva na vida dos


trabalhadores e as expressões da questão social

O processo de reestruturação produtiva expressa o paradoxo da mudança das


formas tradicionais de trabalho (desenvolvidas principalmente a partir da in-
dustrialização da produção) para manifestações heterogêneas de ocupações
com objetivo de geração de renda e garantia de sobrevivência, mas que ao mes-
mo tempo assegura a continuidade do sistema econômico do capital não sendo
alteradas as condições essenciais para seu desenvolvimento.
Considerando a reestruturação na forma de se produzir, o que significa al-
terações profundas no mundo do trabalho, trabalhadores com baixas qualifi-
cações diante do exigido para ocupação no mercado de trabalho formal, encon-
tram dificuldades para ingressarem e/ou permanecerem em postos de trabalho
que lhes garantam a subsistência.
Na sociedade estruturada sob o modo de produção capitalista, a manuten-
ção e reprodução da vida só é possível a partir da disponibilidade de recursos
financeiros para a alimentação, moradia, saúde e outras necessidades básicas
e o trabalho é a maneira pela qual os indivíduos garantiram esses recursos nos
últimos séculos.
Assim a reestruturação produtiva agudiza as expressões da questão social na
medida em que os trabalhadores são excluídos do mercado de trabalho, que já não
comporta todos e cobra cada vez mais trabalhadores polivalentes.
O trabalhador na atualidade encontra-se cerceado por diversas situações ori-
ginadas a partir do processo de reestruturação produtiva, tendo a necessidade de
adaptar-se a essas situações para permanecer ativo, garantindo sua subsistência.
Nesse processo são constantes as referências a adoecimentos, a dificuldades
de permanência no mercado de trabalho e diversos outros elementos que vão
caracterizar as problemáticas enfrentadas pelos trabalhadores na atualidade.
Essa configuração contemporânea do mundo do trabalho torna mais agu-
das as expressões da questão social, entendida aqui a partir da concepção de
Iamamoto (2005), estudada no primeiro capítulo, como o conjunto de desigual-
dades produzidas pela sociedade capitalista, onde têm-se a produção social cada

capítulo 3 • 63
vez mais coletiva enquanto que a apropriação do que é produzido mantém-se pri-
vada, monopolizada por alguns grupos e indivíduos. O processo de reestrutura-
ção produtiva expressa o paradoxo da mudança das formas tradicionais de tra-
balho (desenvolvidas principalmente a partir da industrialização da produção)
para manifestações heterogêneas de ocupações com objetivo de geração de ren-
da e garantia de sobrevivência, mas que ao mesmo tempo assegura a continuidade
do sistema econômico do capital não sendo alteradas as condições essenciais
para seu desenvolvimento.
Assim, as problemáticas que envolvem as relações trabalhistas na contem-
poraneidade podem ser entendidas também a partir da análise da questão so-
cial e seus diversos rebatimentos cabendo ao assistente social entender essas
determinações e se preparar para nelas intervir, como veremos no próximo item.

ATENÇÃO
O assistente social, qualquer que seja o espaço socioocupacional onde esteja inserido pre-
cisa preparar-se para a intervenção junto aos trabalhadores, sejam formais ou informais.
Assim, cabe ao profissional procurar informações acerca das leis que regem as relações as
trabalhistas bem como os direitos e garantias gerais dos quais os trabalhadores são sujeitos.
Assim, é importante o conhecimento acerca da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT),
das normativas previdenciárias e das resoluções e normativas do Ministério do Trabalho. O
assistente social deve procurar informar-se em especial acerca da principal ocupação eco-
nômica do município onde atua e assim acompanhar resoluções, acordos coletivos e demais
informações importantes para os trabalhadores, na medida em que o Serviço Social trabalha
diretamente com a garantia de direitos.

3.4  O assistente social e a atuação nesse contexto

O Serviço Social, profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho tem


como um dos princípios fundamentais de seu Código de Ética a ampliação e
consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda a sociedade,
com vistas a garantia dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalha-
doras, o que implica na escolha da classe trabalhadora pela profissão, confor-
me discutido no capítulo 2.

64 • capítulo 3
Para entendermos como o Serviço Social historicamente se posicionou a fa-
vor da classe trabalhadora, é preciso olhar para a história da profissão no país,
que começa a desenhar-se a partir da década de 1930, quando o país vive um
momento de vinculação da economia ao mercado mundial, a passagem de um
modelo agrário-exportador para a formação de um polo industrial.
Aggio e Barbosa (2002), analisam esse período destacando que até 1930, as
relações econômicas, políticas e sociais no Brasil são marcadas pela economia
agrário-exportadora de café, e pela República na qual a participação política se
limitava a São Paulo e Minas, o que entre outros aspectos vai culminar na Revo-
lução de 1930. Após disputas políticas, e mesmo disputas armadas, o processo
culmina na posse de Getúlio Vargas em 03 de Novembro de 1930, em caráter
provisório, mas que na verdade vai perdurar por 15 anos.
Com a chegada de Vargas ao poder “inaugura-se nova fase na relação Esta-
do-Sociedade, privilegiando o papel do Estado como garantia do bem comum”
(AGGIO, BARBOSA, 2002, p.21). O país busca entrar na fase de desenvolvimento
industrial, tomando-se todas as medidas necessárias para tal desenvolvimento.
O Estado que desponta nesse período traz para si a responsabilidade de
cuidar da reprodução da força de trabalho e nessas configurações surge o que
Iamamoto (2011, p. 175) denomina protoformas do Serviço Social. A profissão
surge dessa forma em conseqüência do desenvolvimento do sistema capitalis-
ta, das forças produtivas, das relações sociais.
A orientação filantrópica, caritativa e religiosa dos primeiros anos da pro-
fissão direcionou o agir profissional para o desenvolvimento de ações que visa-
vam prioritariamente amenizar os efeitos das relações sociais desiguais sem,
entretanto questionar a origem das desigualdades e mesmo a intervenção nos
espaços financiados pelo Estado também se orientava pelo conceito de filan-
tropia, uma vez que a assistência social era considerada benefício do Estado e
não direito do cidadão, e o profissional, inserido neste contexto, reproduzia em
suas ações este conceito de assistência social como repasse de benefícios.
Nesse contexto, o Movimento de Reconceituação a partir da década de 1960
estabelece novas bases teórico-metodológicas para o agir profissional, questio-
nando o que estava posto em relação tanto a aspectos teóricos quanto às práti-
cas profissionais que até então caracterizavam a profissão.
Desde o Movimento de Reconceituação, transformações ocorreram na so-
ciedade e também na profissão e na atualidade pensar o Serviço Social implica

capítulo 3 • 65
em considerar sobre tudo a macro estrutura brasileira, assentada sobre as ba-
ses de um Estado capitalista com forte orientação neoliberal, o que propõe de-
safios amplos para o trabalho, exigindo competências que se relacionam com
as dimensões téorico, técnica, ética e política.
O compromisso com as classes trabalhadoras, sempre foi a tônica do dis-
curso da profissão, ainda que em seu surgimento no Brasil, este discurso ser-
visse mais para legitimar o trabalho comprometido com o capital, com a ame-
nização das desigualdades por ele criadas. Com os movimentos de ruptura, a
profissão foi sendo pensada e construída de forma que o compromisso com as
classes trabalhadoras não estivesse apenas no plano do discurso, mas que se
tornasse efetivo na atuação cotidiana, nas orientações teóricas e nas concep-
ções políticas. O grande marco dessa mudança de rumos ainda é o Movimento
de Reconceituação, mas desde lá, outras mudanças foram acontecendo e a pro-
fissão hoje tenta construir uma atuação mais dinâmica, comprometida com as
classes trabalhadoras, mas que consiga dialogar com o capital, com o Poder
Público, com as classes historicamente detentoras do poder.
A opção é radical, também conforme destacamos no capítulo anterior, mas
os profissionais já percebem a necessidade de entender a resistência que por
vezes se processa mesmo na operacionalização de práticas pensadas pelas clas-
ses detentoras de poder e capital e que significa instrumentalizar, preparar-se
para o diálogo e a defesa e garantia de direitos historicamente conquistados. O
Serviço Social tem condições de encarar esse desafio sem que os princípios éti-
cos, políticos e ideológicos da profissão sejam perdidos, para isso necessitando
que o profissional se disponha a mobilizar-se, enquanto categoria, construindo
projetos de ação marcados pela competência técnica, teórica, ética e política.

O assistente social deve estar capacitado para apreender, pela perspectiva da tota-
lidade, as determinações da vida social da sociedade burguesa, o processo histórico
da sociedade brasileira, o significado social da profissão e das suas demandas, a sua
inserção na divisão social do trabalho e, principalmente, compreender a estatura política
que envolve a profissão. (Lara, 2009, p.57)

O mundo do trabalho passou por transformações significativas nos últimos


séculos, sendo que a reestruturação produtiva implicou em mudanças profun-
das que implicaram no agudizamento da questão social e a consequente ne-

66 • capítulo 3
cessidade de o profissional de Serviço Social estar antenado e preparado para a
intervenção junto às classes trabalhadoras.

ATIVIDADE
1. Faça uma pesquisa em seu município acerca dos espaços de trabalho, apontando se
aconteceram mudanças nos últimos anos nesses espaços, como por exemplo venda de
empresa, entrada de investimentos estrangeiros entre outros aspectos.

2. Quais as possibilidades para o trabalho do assistente social junto aos trabalhadores,


sejam formais ou informais?

REFLEXÃO
O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e os Conselhos Regionais de Serviço Social
são os órgãos que representam a categoria profissional de assistentes sociais no Brasil.
O CFESS possui um boletim informativo denominado “CFESS Manifesta” onde discute-se
questões fundamentais acerca do trabalho do assistente social, em especial em datas co-
memorativas. Em 2009, no dia 01 de Maio o CFESS lançou o boletim “CFESS Manifesta
Tempo de lutar pelos direitos da Classe trabalhadora” que reproduzimos aqui para a reflexão.
Disponível em http://www.cfess.org.br/arquivos/diadotrabalho2.pdf Acesso em 22 de Se-
tembro de 2014.

No final do século XIX, nos Estados Unidos, trabalhadores e trabalhadoras


foram massacrados ao lutarem pela redução da jornada de trabalho. Ao
longo dos últimos séculos, no mundo afora, o 1º de maio é comemorado
como sinônimo de luta e resistência da classe trabalhadora.

Mas, na vertente neoliberal, com a lógica de cooptação do indivíduo e nega-


ção da classe trabalhadora, as comemorações do 1º de maio muitas vezes
são mistificadas. Nas grandes capitais brasileiras, por exemplo, grandes
showmícios, sorteios de apartamentos e carros ganham o cenário! Nada
contra festa! Porém, a história mostra que as conquistas alcançadas pelas
forças organizadas do trabalho no mundo se deram com o enfrentamen-

capítulo 3 • 67
to dos conflitos e dos interesses antagônicos entre o capital e trabalho.
Entendemos o trabalho como elemento fundante da sociabilidade huma-
na, mas sob as particularidades da sociedade capitalista prevalecem pro-
cessos intensos de exploração e de alienação. Ao invés da emancipação
humana, temos dois terços da humanidade sem acesso a uma vida digna,
vivendo a partir da inserção precária no mundo do trabalho ou em situação
de desemprego,que tem levado parcelas significativas da população a viver
sem esperança e perspectiva de futuro. Mais do que nunca, é necessário
desmistificar as relações sociais presentes no mundo capitalista, comba-
tendo sua naturalização. A realidade mundial, neste contexto histórico, com
a lógica perversa do capital financeiro, protagoniza uma das maiores crises
do capital da história, cujas consequências já impactam milhões de traba-
lhadores(as). Serão aproximadamente 23 milhões de postos de trabalho
que desaparecerão em todo o mundo somente em 2009 e sem perspectiva
de criação de novosempregos a curto e médio prazo. A restrição de acesso
aos direitos sociais e ao trabalho implica profundas mudanças em suas
vidas cotidianas.

Trabalhadores e trabalhadoras perderam suas casas; encontram-se sem


condições objetivas para o atendimento das necessidades mais básicas
e são profundamente atingidos(as) em sua subjetividade, submetidos(as)
que ficam às tensões produzidas pelo ambiente hostil do desemprego e da
inserção precária no trabalho. Isto tem gerado inúmeros agravos à saúde
e também a perda dos vínculos com outros companheiros e companheiras
construídos no dia a dia do trabalho. Na nossa realidade capitalista de país
periférico, com o aprofundamento das desigualdades sociais e da concen-
tração de renda em pequena parcela da população, este cenário ganha ex-
pressões próprias, dentre as quais destacamos: não cobertura dos direitos
previdenciários de 47.69% da população economicamente ativa (PEA) que
não contribuem para a seguridade social; aumento da violência urbana e
rural, atingindo impiedosamente a juventude negra que reside nas grandes
periferias; tendência de criminalização dos movimentos sociais combativo-
se de suas lideranças; não realização da reforma agrária e criminalização
da pobreza. Vivenciamos não só a violação de direitos, mas também de
sonhos e desejos. Diferentes dimensões humanas são submetidas à lógica
do capital, que culpabiliza e responsabiliza trabalhadores e trabalhadoras

68 • capítulo 3
pela falta de acesso a uma sociedade cuja própria concepção não é de
abranger a todas e todos.

“Tempos bicudos”, como diz o poeta, que exige de nós ousadia de continuar
acreditando na construção coletiva e em uma sociedade compromissada
com a emancipação humana, ousadia para resistir a toda forma de explo-
ração e de opressão e as tentativas de aniquilação do indivíduo enquanto
ser social.

E nós, assistentes sociais, comprometidas/os com os princípios elencados


no nosso Código de Ética, reafirmamos a defesa dos direitos humanos e
a luta pelo acesso aos direitos sociais. Mais do que nunca, precisamos re-
afirmar cotidiana e incessantemente a defesa de trabalho com qualidade
para todos/as, a universalização da seguridade social; a redistribuição de
renda e riqueza; a educação pública e laica em todos os níveis; moradia e
acesso aos serviços urbanos para todos/as; reforma agrária; democratiza-
ção dos recursos públicos. O momento exige de nós, assistentes sociais,
conhecimento teórico, capacidade técnica e compromisso ético e político,
mas também exige sensibilidade, indignação e criatividade, fortalecendo
os espaços coletivos em que atuamos na condição de profissionais e tra-
balhadores(as). É nesta perspectiva que o CFESS parabeniza a todas/ os
trabalhadores(as) do mundo e do nosso país.

LEITURA RECOMENDADA
Para a ampliação das reflexões acerca da reestruturação produtiva, recomendamos a leitura
do livro “Neoliberalismo e Reestruturação Produtiva: As novas determinações do mundo do
trabalho” organizado por Francisco Oliveira e Manfredo Araújo. O livro é composto de 05
ensaios acerca da reflexão crítica sobre as radicais transformações na base material da so-
ciedade capitalista e suas repercussões no campo das idéais. No prefácio tem se a reflexão
sobre a atualidade do tema e um panorama do que seria então essa reestruturação produtiva
e a crise do capital. Celso Fredeiro autor do Prefácio traz a reflexão para o cenário brasileiro,
onde segundo ele “os ecos da ofensiva neoliberal ganham tonalidades próprias” (p.7) e nesse
cenário o que se questiona é o Estado Providência (inciado com a Revolução de 30, como
uma pálida versão do Welfare State). Frederico faz uma análise do Brasil pós Revolução

capítulo 3 • 69
de 1930, como sendo um período marcado pela “realização prática de uma filosofia social”,
onde o Estado é remodelado, para ser o Estado Providência, objetivando uma ordem que
protegesse “os humildes da voracidade das leis de mercado”. (p.08) Essa referida crise traz,
segundo Frederico “o retorno do velho liberalismo”(.p.09) e é a partir dessa crise do capital
que se desenvolvem os 05 ensaios: Modernidade e crise: reestruturação capitalista ou fim
do capitalismo? (Francisco José Soares Teixeira); Desemprego e luta de classe: as novas
determinidades do conceito marxista de exército industrial de reserva (José Meneleu Neto);
Nova ofensiva do capital, crise do sindicalismo e as perspectivas do trabalho – o Brasil nos
anos noventa (Giovanni Alves); A nova problemática do trabalho e a ética (Manfredo Araújo
de Oliveira); O neoliberalismo em debate (Francisco José Soares Teixeira).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5 ed. revista e ampliada.São Paulo: Mar-
tins Fontes Editora, 2007.1026 p.

AGGIO, Alberto. BARBOSA, Agnaldo de Sousa. COELHO, Hercídia Mara Facuri. Política e
Sociedade no Brasil (1930-1964) – São Paulo: Annablume, 2002, 230p.

ALVES, Giovanni. O Novo (e precário) mundo do trabalho: Reestruturação produtiva e


crise do sindicalismo. São Paulo: Boitempo, 2000. 258p.

ANTUNES, Ricardo (org) A Dialética do Trabalho: escritos de Marx e Engels. Volume I.


São Paulo: Expressão Popular, 2013.136 p.

ANTUNES, Ricardo (org) A Dialética do Trabalho: escritos de Marx e Engels. Volume II.
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BRASIL. Constituição 1988. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília,


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70 • capítulo 3
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assistente social. 2ed. São Paulo: Veras Editora, 1999.131p.

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truturação produtiva. As novas determinações do mundo do trabalho. São Paulo: Cortez;
Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 1996. 218p.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No capítulo 4 continuaremos discutindo algumas questões relacionadas à classe trabalhado-
ra, mas enfocaremos a questão da pobreza relacionada a desigualdade e ainda as primeiras
questões acerca de vulnerabilidade e questão social. Até lá. Bons estudos.

72 • capítulo 3
4
A Classe Trabalhadora:
Desigualdades e
Vulnerabilidades
como Expressões da
Questão Social
4  A Classe Trabalhadora: Desigualdades
e Vulnerabilidades como Expressões
da Questão Social
Nesse capítulo, continuando as análises anteriores iremos aprofundar a discus-
são acerca da classe trabalhadora, apontando como as mudanças no mundo do
trabalho, em especial a partir da reestruturação produtiva, contribuem para o
aumento da condição de vulnerabilidade da classe trabalhadora.
Para isso, apresentamos inicialmente a discussão do conceito de pobreza,
pontuando que esse é multifacetado e comporta diversas dimensões. Discuti-
mos também nesse item como o Serviço Social entende e trabalha a pobreza.
Continuando, pontuamos a vulnerabilidade no mundo do trabalho, e por
fim, destacamos a assistência social como forma de combate a pobreza. No
texto de Reflexão, apresentamos uma sistematização da Política Nacional de
Assistência Social (2004) contribuindo para que o aluno possa ter uma visão
global dessa política e seus objetivos. Desejamos bons estudos.

OBJETIVOS
Esse Capítulo apresentará ao aluno a reflexão acerca dos novos conceitos de pobreza e a
condição de vulnerabilidade no mundo do trabalho, buscando entender como o surgimento
do modo de produção capitalista cria também a desigualdade. A partir dessas reflexões bus-
ca-se ainda apresentar a assistência social como forma utilizada no Brasil para o enfrenta-
mento da pobreza. Espera-se que ao término dessa unidade o aluno possa:
•  Entender os novos conceitos de pobreza
•  Relacionar questão social e condição de vulnerabilidade no mundo do trabalho
•  Compreender a relação entre modo de produção capitalista e desigualdade
•  Entender a assistência social como forma de combate a pobreza

REFLEXÃO
No capítulo anterior nós estudamos acerca do mundo do trabalho e do processo de reestru-
turação produtiva, entendendo que os desdobramentos desse agudizam a questão social na

74 • capítulo 4
contemporaneidade. Buscamos entender também como se desenvolve o trabalho do assis-
tente social tendo em vista esses referenciais.

4.1  O conceito de pobreza

As discussões acerca da pobreza sempre estão na pauta de programas sociais e


político partidários, e se constituem temas de estudo e reflexão dos mais diver-
sos profissionais.
Podemos observar que historicamente a ideia de pobreza sempre esteve
sempre presente no mundo, associada na maioria das vezes à falta de alimen-
tos ou de recursos materiais. Atualmente, ganha destaque também os debates
acerca da criminalização da pobreza.
Mas o que é pobreza? É possível definir de maneira sucinta esse conceito?
A guisa de uma definição como ponto de partida, utilizaremos a do Dicioná-
rio online Que Conceito, que vai trazer as seguintes considerações:

A pobreza é uma situação social e econômica caracterizada por uma carência marcada
na satisfação das necessidades básicas. As circunstâncias para especificar a qualidade
de vida e determinar se um grupo em particular se cataloga como pobre tem o costume
de ser o acesso a recursos como educação, moradia, água potável, assistência médica,
etc. Mesmo assim, é costume que se considerem como importantes para efetuar esta
classificação às circunstâncias de trabalhos e nível de recursos. A variedade de elemen-
tos citada faz com que a tarefa de medir a pobreza seja regida por diversos parâmetros.
Sabe-se que existem dois critérios: o chamado “pobreza absoluta” que se enfatiza nas
dificuldades para alcançar níveis mínimos de qualidade de vida (nutrição, saúde, etc.) e
o chamado “pobreza relativa”, que se enfatiza na ausência de recursos para a satisfação
das necessidades básicas, seja em parte ou em sua totalidade. (Disponível em http://
queconceito.com.br/pobreza Acesso em 24 de Setembro de 2014., grifos nosso)

Essa conceituação nos interessa bastante na medida em que traz indicati-


vos para a compreensão da pobreza enquanto fenômeno complexo, composto
por diversas dimensões e que, portanto, não pode ser visto de forma isolada
da realidade social onde desenvolve-se. Dessa forma, partindo do texto citado
podemos apontar que a pobreza se desenvolve fundamentalmente a partir da

capítulo 4 • 75
ideia de carência de condições objetivas para a satisfação das necessidades bá-
sicas. Vale destacar que essas necessidades básicas, apesar de variar de acordo
com a constituição cultural de cada povo, tem alguns elementos comuns, dos
quais podemos apontar que Declaração Universal dos Direitos Humanos, apre-
sentada como texto de reflexão no Primeiro Capítulo faz uma síntese.
Assim, temos que a ideia de pobreza implica na carência de condições para as-
segurar as necessidades básicas. Mas ampliando a análise, o texto citado também
aponta que esse fenômeno tem as dimensões econômicas e sociais. Ou seja, a ca-
rência de condições não é apenas econômica (mesmo que essa seja determinante)
mas implica em carência também no aspecto social, cultural, político. A pobreza
é portanto uma situação que se constrói a partir do momento em que o indivíduo
não tem renda, não tem trabalho, não tem acesso a direitos, informações, cultura,
esporte, lazer. Enfim, trata-se de uma situação de exclusão, de carência de todos os
recursos necessários para o desenvolvimento da vida, pessoal e social.
Maria Carmelita Yazbek, no livro “Classes Subalternas e Assistência Social”
(1993) vai trabalhar esse conceito de pobreza de forma ampliada tendo como refe-
rência teórica a obra de Gramsci, que aponta a ideia de classe subalterna, no sen-
tido de quem perdeu o poder de decidir sobre sua própria vida, quem perdeu o
direito de escolha.
Em especial no segundo capítulo do livro, intitulado “Classes Subalternas
como expressão de um lugar social: a exclusão integrativa” a autora vai inicial-
mente discutir a noção de pobreza, que nas palavras dela é “ampla, ambígua
e supõe gradações”, mas que para a caracterização das situações de pobreza é
fundamental o recurso a análises sociológicas e antropológicas. A autora sin-
tetiza a discussão apontando o que pode ser indicado como as três principais
dimensões da pobreza no Brasil: renda, exclusão e subalternidade.

A pobreza brasileira constitui-se de um conjunto heterogêneo, cuja unidade buscamos


encontrar na renda limitada, na exclusão e subalternidade. Do ponto de vista da renda,
o que se evidencia é que para a grande maioria dos trabalhadores, com registro em
carteira ou não, com contrato ou por conta própria, predominam os baixos rendimentos
e a consequente privação material daí advinda.

76 • capítulo 4
Do ponto de vista da exclusão e da subalternidade, a experiência da pobreza constrói
referências e define “um lugar no mundo”, onde a ausência de poder de mando e de-
cisão, a privação de bens materiais e do próprio conhecimento dos processos sociais
que explicam essa condição ocorrem simultaneamente a práticas de resistência e luta.
(YAZBEK, 1993, p.63)

Dessa forma, quando há a referência a pobreza no Brasil torna-se necessário


entender que ela não se limita as questões de renda, mas conforme destacado
pela autora citada, trata-se de um processo complexo que envolve também a
exclusão e a subalternidade.

CONEXÃO
Para o debate acerca da pobreza no âmbito do Serviço Social indicamos a leitura do número
especial de revista Katalysis, volume 13, número 02, 2010 que teve como eixo temático o
Serviço Social e a pobreza. Apresentamos alguns trechos do Editorial e recomendamos a
leitura dos artigos para auxiliar no entendimento da relação da profissão com esse debate.
Este número da Revista Katálysis traz como eixo temático o Serviço Social e a pobreza.
Trata-se de uma relação histórica, que, com diferentes conotações, acompanha o exercício
profissional desde os anos de 1940 quando a profissão se institucionaliza na sociedade
brasileira como um dos mecanismos acionados pelo Estado e pelo patronato, em sua in-
tervenção reguladora frente à emergente questão social no país.Efetivamente, a pobreza é
parte da experiência diária do trabalho dos assistentes sociais. Convivemos muito de perto
com a experiência trágica de pertencer às classes subalternizadas em nossa sociedade;
conhecemos esse universo caracterizado por trajetórias de exploração, pobreza, opressão
e resistência, observamos o crescimento da violência, da droga, e de outros códigos que
sinalizam a condição subalterna: o desconforto da moradia precária e insalubre, as estraté-
gias de sobrevivência frente ao desemprego, a debilidade da saúde, a ignorância, a fadiga, a
resignação, a crença na felicidade das gerações futuras, o sofrimento expresso nas falas, nos
silêncios, nas expressões corporais, nas linguagens além dos discursos. (...)
Do ponto de vista conceitual, é fundamental não perder de vista que a pobreza é expressão
direta das relações vigentes na sociedade, relações extremamente desiguais, em que convivem
acumulação e miséria. A pobreza brasileira é produto dessas relações que, em nossa socieda-

capítulo 4 • 77
de, a produzem e reproduzem, quer no plano socioeconômico, quer nos planos político e cultu-
ral, constituindo múltiplos mecanismos que “fixam”, os pobres em seu lugar na sociedade. (...)
Quanto mais os assistentes sociais forem capazes de explicar e compreender as lógicas que
produzem a pobreza e a desigualdade, constitutivas do capitalismo, mais condições terão
para intervir, para elaborar respostas profissionais qualificadas do ponto de vista teórico, po-
lítico, ético e técnico (o conhecimento teórico é a primeira ferramenta do trabalho do assis-
tente social). Mas, se fundamental é decifrar as lógicas do capital, sua expansão predatória e
sem limites, desafiante é, também, saber construir mediações para enfrentar as questões que
se colocam no tempo miúdo do dia a dia da profissão. É nesse tempo que podemos partejar o
novo, construir resistências, construir hegemonia, enfrentar as sombras que mergulham esta
imensa parcela de humanidade explorada, enganada, iludida, massacrada, gente que fica à
espera em longas filas para receber os “benefícios” que os assistentes sociais operacionali-
zam. (Maria Carmelita Yazbek)
Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-49802010
000200001 Acesso em 24 de Setembro de 2014.

4.2  A condição de vulnerabilidade no mundo do trabalho

Em relação a pobreza, enquanto fenômeno multifacetado, podemos discutir


ainda que um conceito que vem sendo cada vez mais utilizado nas últimas dé-
cadas é a vulnerabilidade que pode ser entendido como uma condição onde a
pessoa se encontra, condição que a coloca em risco, que a deixa vulnerável, ou
seja, fragilizada, exposta.
Dessa forma, mesmo que não exclusivamente atrelada a pobreza (ou seja,
não são apenas os pobres que ficam em condição de vulnerabilidade) a vulne-
rabilidade constituiu-se também como uma das formas para visualizarmos a
pobreza no Brasil hoje.
Em especial no que diz respeito ao mundo do trabalho, como vimos no
capítulo anterior, é possível destacar que com o processo de reestruturação
produtiva temos cada vez mais o aumento da condição de vulnerabilidade dos
trabalhadores.
O fechamento de diversos postos de trabalho, a flexibilização dos direitos
trabalhistas, o enfraquecimento dos sindicatos tem contribuído para a classe
trabalhadora esteja a cada vez mais fragilizada e expostas aos desmandos da
classe detentora dos meios de produção, classe essa cada vez mais reduzida e
internacionalizada.

78 • capítulo 4
Essas situações, fragilizam os trabalhadores tanto individualmente, quanto
como classe, uma vez que eles não encontram mais elementos para articularem-
se na defesa de seus interesses coletivos, estando cada vez mais em voga a indivi-
dualização,a disputa entre os próprios trabalhadores por produção cada vez mais
elevada, prêmios e reconhecimento por parte da empresa da sua colaboração.
Assim a classe trabalhadora hoje não possui as mesmas configurações do
século passado. Antunes e Alves (2004) vão discutir esses aspectos apontando
mutações no mundo do trabalho, mutações essas que fragmentaram e comple-
xificaram o entendimento acerca da classe trabalhadora e que em nossa leitura,
contribuíram para a vulnerabilização desses trabalhadores.

Desse modo, para se compreender a nova forma de ser do trabalho, a classe trabalha-
dora hoje, é preciso partir de uma concepção ampliada de trabalho. Ela compreende a
totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de
trabalho, não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos, incorporando também
a totalidade do trabalho social, a totalidade do trabalho coletivo que vende sua força
de trabalho como mercadoria em troca de salário. Ela incorpora tanto o núcleo central
do proletariado industrial, os trabalhadores produtivos que participam diretamente do
processo de criação de mais-valia e da valorização do capital (que hoje, como vimos
acima, transcende em muito as atividades industriais, dada a ampliação dos setores
produtivos nos serviços) e abrange também os trabalhadores improdutivos, cujo traba-
lhos não criam diretamente mais-valia, uma vez que são utilizados como serviço, seja
para uso público, como os serviços públicos, seja para uso capitalista. Podemos tam-
bém acrescentar que os trabalhadores improdutivos, criadores de antivalor no processo
de trabalho, vivenciam situações muito aproximadas com aquelas experimentadas pelo
conjunto dos trabalhadores produtivos. A classe trabalhadora, hoje, também incorpora
o proletariado rural, que vende a sua força de trabalho para o capital, de que são exem-
plos os assalariados das regiões agroindustriais, e incorpora também o proletariado
precarizado, o proletariado moderno, fabril e de serviços, part-time, que se caracteriza
pelo vínculo de trabalho temporário, pelo trabalho precarizado, em expansão na totali-
dade do mundo produtivo.Inclui, ainda, em nosso entendimento, a totalidade dos traba-
lhadores desempregados. (ANTUNES, ALVES, 2004, p. grifos nossos)

Partindo das análises dos autores citados podemos destacar que essa clas-
se trabalhadora, ou classe que vive do trabalho, conforme denominação deles,

capítulo 4 • 79
passa por transformações e podemos entender que essas transformações in-
cluem processos de vulnerabilização.
A grande maioria dos trabalhadores brasileiros da atualidade não possuem
mais as garantias trabalhistas asseguradas pela Consolidação das Leis Traba-
lhistas e para além disso tem-se acompanhado o crescimento de formas preca-
rizadas de trabalho, além do aumento da pressão para produção como forma
de manter o trabalho, contribuindo para o aumento de adoecimentos advindos
de relações trabalhistas marcadas por assédio moral, perseguições e diversos
outros elementos.

O assistente social também é um trabalhador e como tal muitas vezes é exposto a


situações de cerceamento de direitos trabalhistas. Para tanto o profissional precisa
conhecer seus direitos estabelecidos tanto nas leis gerais (Consolidação das Leis Tra-
balhistas, Estatutos de Servidores Públicos), como nas leis específicas da Profissão, em
especial a Lei que Regulamenta a Profissão (Lei 8.662 de 1993) e o Código de Ética.
São assegurados ao assistente social a carga horária semanal de 30 horas e entre os
direitos do assistente social estão aqueles assegurados no artigo 2º do Código de Ética,
entre eles:

•  livre exercício das atividades inerentes à Profissão;


•  participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e
implementação de programas sociais;
•  inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documentação, garantin-
do o sigilo profissional;
•  desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional;

Em relação a situação de vulnerabilidade experimentada no mundo do traba-


lho, pode-se destacar ainda a problemática que envolve trabalhadores que estão
inseridos no mercado de trabalho informal (vendedores ambulantes, motoboys,
camelôs), os trabalhadores idosos (que se veem obrigados a permanecer no mer-
cado de trabalho para garantir um envelhecimento com o mínimo de dignidade),
os trabalhadores rurais (a cada dia mais expropriados em seus direitos) as situ-
ações que envolvem o trabalho infantil e também as situações que envolvem as
questões relativas as mulheres negras.

80 • capítulo 4
Em relação a essa última situação, vale destacar que a condição de gênero e
raça ainda constitui-se no Brasil como elemento que dificulta o acesso a espa-
ços e oportunidade, configurando-se um panorama que prejudica as mulheres
negras em praticamente todas as dimensões da vida em sociedade, entre elas
a do trabalho.
Considerando de forma mais detalhada o mercado de trabalho, no docu-
mento “Igualdade de Gênero e Raça no Trabalho: avanços e desafios” (OIT,
2010, online) afirma-se que homens e mulheres, negros e brancos tem experi-
ências diferenciadas em relação ao mercado de trabalho, sendo que a condição
de raça é muitas vezes fator que irá determinar as oportunidades de acesso e
permanência no mercado de trabalho, incluindo-se aí as condições de trabalho
(remuneração, direitos, proteção social).
Em relação ao desemprego os números apontam de forma nítida a vulnera-
bilidade da mulher negra. Segundo o estudo, em 2006, entre as pessoas acima
de 16 anos, a taxa de desemprego total foi de 8,4%, sendo que entre os negros
essa taxa é dois pontos percentuais maior que entre os não negros (9,4% para
os negros e 7,4% para os não negros). Contudo, se a análise combina gênero e
raça, a situação mais vulnerável é a das mulheres negras. Os números da taxa de
desemprego em 2006: 5,6% para os homens não negros e 7,1% para os homens
negros; 9,6% para as mulheres não negras e 12,5% para as mulheres negras.
(OIT, 2010 online, p.62)
Se a análise volta-se para informalidade, as taxas são elevadas para todos os
trabalhadores brasileiros, chegando a 51, 7% dos trabalhadores maiores de 16
anos, ocupados em 2006. Todavia, novamente se tem o aumento das condições
de vulnerabilidade para as mulheres negras inseridas no mercado de trabalho.
Os números (em percentagem) dos trabalhadores na informalidade em 2006
no Brasil: 42,8% dos homens não negros e 57,1% dos homens negros; 47,5%das
mulheres não negras e 62,6% das mulheres negras. (OIT, 2010, online). Se con-
siderarmos a média nacional da informalidade em 2006, a taxa entre homens
e mulheres negros é maior do que a média nacional, o que indica a existência
real de mecanismos de exclusão dos trabalhadores e trabalhadoras negras no
mercado de trabalho formal brasileiro.
Finalmente, quanto aos rendimentos, os números apontam uma vez mais
a desigualdade de gênero e raça presente nas relações de trabalho no Brasil. O
estudo faz distinção entre trabalho formal (aquele com carteira assinada e di-
reitos trabalhistas garantidos) e trabalho informal (sem carteira assinada e sem

capítulo 4 • 81
direitos trabalhistas garantidos). A base para a análise é o ano de 2006 e a uni-
dade de moeda o real. Assim, tem-se: Rendimentos por hora dos trabalhadores
formais: R$ 9,09 para os homens não negros e R% 5,16 para os homens negros;
R$ 7,44 para as mulheres não negras e R$ 4,69 para as mulheres negras. Em
relação aos Rendimentos por hora dos trabalhadores informais: R$5,14 para os
homens não negros e R$ 2,83 para os homens negros; R$ 3,87 para as mulheres
não negras e R$ 2,46 para as mulheres negras. (OIT, 2010, online)
Esses são apenas alguns dados e exemplos que mostram como o mundo do
trabalho está afetado na atualidade pelas situações de vulnerabilidade, originá-
rias da contradição fundamental entre capital e trabalho, ou seja a questão social.

CONEXÃO
Uma das ocupações atuais no mercado de trabalho caracterizada cada vez mais pelos pro-
cessos de precarização e negação de direitos é a de operador de telemarketing e call cen-
ters. Esses trabalhadores, que muitas vezes causam irritação ao ligarem oferecendo serviços
ou nos atenderem em situações de reclamações como consumidores estão no centro de
uma cadeia de exploração da força de trabalho. Recomendamos a leitura do artigo “O tele-
marketing e o perfil sócio-ocupacional dos empregados em call centers” de autoria de Daniel
Gustavo Mocelin e Luis Fernando Santos Correia da Silva. O artigo apresenta uma pesquisa
sobre o perfil desses operadores de telemarketing, conforme destacado no Resumo do arti-
go, que transcrevemos abaixo:
Este artigo traz resultados de pesquisa sobre trabalhadores de um call center, em Porto
Alegre, buscando analisar combinadamente como se trabalha e quem trabalha em atividades
de telemarketing. Os call centers são organizações empresariais de prestação de serviços
de telemarketing. Seus operadores são trabalhadores com escolarização elevada, frente aos
níveis do mercado de trabalho brasileiro, o que apontaria para uma profissionalização da
atividade. Paradoxalmente, as condições de trabalho, caracterizadas pela intensificação do
trabalho e baixa remuneração, mas com exigência de qualificação média, influenciam as
estratégias e os sentidos desse emprego para jovens trabalhadores, acabando por defini-lo
como “emprego trampolim”, que responde apenas a uma superação transitória da condição
material e simbólica e não a busca de profissionalização e estabilidade, mesmo com as exi-
gências de conhecimentos técnicos especializados e reciclagem constante. As característi-
cas do setor e a emergência desse novo tipo de trabalhador auxiliam compreender o trabalho
no setor de serviços.

82 • capítulo 4
Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-497920080
00200012 Acesso em 25 de Setembro de 2014.

4.3  A desigualdade no contexto do modo de produção capitalista

A ideia/noção/conceito de igualdade ganha destaque em especial a partir da


Revolução Francesa mas desde lá, tal conceito também tem sido revisitado e
reconfigurado.
É possível afirmar que, em se tratando de Brasil a temática igualdade é uma
das mais recorrentes discussões, seja no âmbito político, social ou jurídico e,
para a reflexão aqui proposta, é deveras importante, na medida em que bus-
cam-se compreensões acerca do panorama da desigualdade social.Todavia,
mesmo que de forma sistemática haja a referência à igualdade, seja no âmbito
estatal, mercantil ou da sociedade civil organizada, as intencionalidades são
também as mais variadas, sendo que na contemporaneidade ganha destaque o
atrelamento à sociedade de consumo, característica da ordem do capital e que
busca se referendar especialmente na dimensão da igualdade jurídica.
Sob o panorama da igualdade jurídica, compreendida limitadamente na
perspectiva da norma, não existe no Brasil problemáticas quanto a desigualda-
de. A Constituição Federal de 1988 estabelece em seu artigo 5º que “todos são
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.
Contudo, mesmo uma análise superficial da realidade brasileira vai apon-
tar a falácia dessa afirmação constitucional, ou seja, o que está na lei não acon-
tece de fato. É preciso portanto pensar as significações do conceito de igualda-
de na sociedade que se constitui sobre os fundamentos do modo de produção
capitalista. Não se trata da igualdade cuja finalidade maior seja permitir que
todos consumam igualmente, ou seja, concepção circunscrita a dimensão da
manutenção e reprodução da ordem social do capital.
Trata-se antes do entendimento de que todos os seres humanos tem direi-
tos iguais, e portanto, devem ser asseguradas condições objetivas para que pos-
sam acessar e usufruir desses direitos, que relacionam-se com todas as esferas
da vida social (renda, trabalho, lazer, saúde, educação, moradia, convivência
familiar e comunitária, acolhida). Desigualdade pode ser compreendida dessa
forma, na afirmação de que pessoas que em tese, deveriam ter os mesmos direi-

capítulo 4 • 83
tos (sejam eles de que natureza forem) estão submetidas à condições que lhes
limitam/impedem o acesso a tais direitos.
Igualdade deveria constituir-se dessa forma principio para a vida social,
mas é possível observar que historicamente foi se transfigurando e reduzin-
do-se apenas a busca de garantia para condições iguais de consumo. Torna-se
necessário a ação a partir da perspectiva do acesso e usufruto de direitos que
são comuns a todos os seres humanos, mas que na sociedade contemporânea
estão acessíveis a alguns e inalcançáveis para outros, o que objetivamente torna
aqueles sujeitos e esses seres descartáveis e invisíveis. Nesse sentido, igualdade
relaciona-se diretamente à concretização da ideia de justiça social.
Assim, conceituando igualdade percebemos que no Brasil temos um qua-
dro instalado de desigualdades, oriundo da constituição capitalista do país. É
possível portanto afirmar que pobreza, vulnerabilidade e desigualdade estão
intrinsecamente relacionadas no Brasil com a forma de produção que cada vez
mais separa os poucos que possuem dos muitos que não possuem, restando
para esses a exclusão social.
Para o entendimento do conceito de “exclusão social”, faz necessário consi-
derar a complexidade do mesmo, que não limita-se a fatores econômicos (ain-
da que esses predominem) e nem pode ser simplificado como sendo o oposto
de inclusão. Exclusão é fenômeno que se manifesta de formas distintas, em
realidades as mais diversas, comportamento rebatimento também diferencia-
dos. Sawaia (2008, p.09) sintetiza essa idéia no seguinte trecho:

Em síntese, a exclusão é processo complexo e multifacetado, uma configuração de


dimensões materiais, políticas, relacionais e subjetivas. É processo sutil e dialético, pois
só existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela. Não é uma coisa ou um
estado, é processo que envolve o homem por inteiro e suas relações com os outros.
(SAWAIA, 2008, p.09)

Dessa forma, essa exclusão social da qual são vítimas muitos dos trabalha-
dores é fenômeno que precisa ser estudado e discutido, buscando-se o entendi-
mento das dimensões que constituem tal processo. Faz-se necessário entender
que as condições de vida e trabalho a que muitos trabalhadores se submetem
para garantia de sua sobrevivência são dimensões desse processo de exclusão.
Muitas vezes trata-se de trabalhadores excluídos do processo econômico, do

84 • capítulo 4
processo social da produção de mercadorias, das relações formais de compra e
venda dessas mesmas mercadorias.
Essa exclusão acarreta outras criando-se um estigma em torno desses tra-
balhadores, colocados a margem do sistema econômico e nessa sociedade es-
truturada em torno desse mesmo sistema, estar a margem do mesmo significa
estar a margem da vida em sociedade.
É preciso pensar as questões relacionadas a pobreza, vulnerabilidade, desi-
gualdade sob a perspectiva da ética, na medida em que o enfoque ético permite
o questionamento acerca dos propósitos da existência humana, os objetivos da
vida em sociedade, a necessidade de construção/preservação de relações sociais
assentadas sob pressupostos que estão para além da simples sobrevivência mas
da garantia de condições dignas para reprodução da vida. Eticamente, é preciso
questionar como faz Teixeira e Oliveira (1996, p.192) o propósito para o qual pla-
neja-se a economia e quem são os sujeitos para esse planejamento. Estabelecer
que existem sujeitos necessários e sujeitos desnecessários para a ordem econô-
mica e que o planejamento contempla apenas os considerados necessários (leia-se
úteis), restando aos desnecessários encontrar alternativas para sua mantença, é
sem dúvida uma lógica perversa que não pode ser ética, na medida em que não
parte do entendimento da responsabilidade com a vida de todos. Ético é o cui-
dado, o sentir-se responsável pela vida humana buscando, no entendimento mí-
nimo, a sua conservação e, na perspectiva máxima, o seu desenvolvimento. Para
uma reflexão ética das relações sociais no âmbito do trabalho faz-se necessário
garantir que os frutos desse trabalho sejam coletivamente apropriados e que ga-
ranta aos trabalhadores as condições necessárias a sua sobrevivência. Mesmo
que tal reflexão se apresenta de forma utópica, é prá esse horizonte que deve se
apontar na busca da superação da imediaticidade do real.

4.4  A assistência social: reflexões iniciais

A assistência social configura-se como uma forma de atendimento as necessi-


dades sociais, ou seja, um atendimento em situações de vulnerabilidade e po-
breza e uma forma de tentar amenizar os efeitos da desigualdade. No Brasil,
ela está estabelecida como uma política pública, portanto, dever do Estado e
direito do cidadão.
De acordo com Yazbek (1993, p.37) essa política, assim como as demais no
Brasil desenvolve-se sob a ótica do estado neoliberal. Segundo a autora, no Bra-

capítulo 4 • 85
sil as políticas sociais se voltam para a perspectiva do enfrentamento da “ques-
tão social” mas que permitem apenas o “acesso discriminado a recursos e ser-
viços sociais” e assim são políticas “ casuísticas, inoperantes, fragmentadas,
superpostas, sem regras estáveis ou reconhecimento de direitos” (p. 37) e para
a compreensão desse caráter das mesmas é preciso pensá-las no panorama das
transformações econômicas , sociais e políticas do Brasil.
Para isso, faz-se necessário apontar um breve histórico dessa política no
Brasil. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 constituiu-se
marco no entendimento da assistência social como política pública e direito do
cidadão, ao estabelecer os contornos jurídicos da política, pontuando o dever
do Estado de garantia do atendimento as necessidades sociais.
O ordenamento definido na Constituição pontua o reconhecimento legal/
institucional do dever estatal na condução da assistência social, iniciando o
processo de construção de política pública, e não mais apenas ações filan-
trópicas e benemerentes executadas especialmente pelas instituições de ca-
ridade existentes no país ou ainda, mesmo quando executadas pelo Estado,
impregnadas do caráter de filantropia e benesse, como pode ser encontrado
nas propostas da Legião Brasileira de Assistência (LBA).
Em 1993, regulamentando o direcionamento dado pela Constituição à Po-
lítica Pública de Assistência Social, têm-se a Lei Orgânica da Assistência Social
(LOAS) que em seu texto, vai explicitar os objetivos, principios e diretrizes dessa
política, e ainda a forma de gestão da mesma, destacando as competências de
cada uma das esferas de governo e a possibilidade de ações não governamen-
tais na execução da política.
Ainda na dimensão dos marcos da história da política pública de assistência
social, têm-se em 2004 a aprovação da Política Nacional de Assistência Social
(PNAS) e, em 2005, o início da implementação do Sistema Único da Assistência
Social (SUAS) que constitui-se sistema descentralizado e participativo, forma
de organização da gestão das ações na área da assistência social. O Sistema Úni-
co da Assistência Social (SUAS) aprovado pela Lei 12.435 de 2011 é para onde
convergem-se os caminhos percorridos para efetivação da assistência social
como política pública.
É preciso destacar que, como existem muitas normativas e orientações téc-
nicas acerca da política de assistência social, muitas vezes o (a) aluno não sabe
exatamente o que estudar. Quando não são solicitados textos específicos, é
preciso ter a visão geral sobre a temática e quais são os principais documentos
relativos a essa política.

86 • capítulo 4
DOCUMENTO ASSUNTO
Estabelece a Assistência
Constituição Federal de 1988- Artigo 203
Social como Política Pública

Regulamenta a Política de
Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS – 1993)
Assistência Social

Política Nacional de Assistência Organiza a Política de As-


Social (2004) sistência Social

Norma Operacional Básica da Assistência Social


Normatiza a Política de
(NOB SUAS 2005) Revogada pela Norma Opera-
Assistência Social
cional Básica da Assistência Social de 2012)

Resolução 109 do Conselho Nacional de Assis- Tipifica/Classifica os servi-


tência Social – Tipificação Nacional dos Serviços ços da Política de Assistên-
Socioassistenciais cia Social

Lei 12.435 de 2011 – Estabelece o SUAS- Siste- Sistematiza a Política de


ma Único de Assistência Social Assistência Social

Todavia, todo o aparato jurídico institucional estabelecido para a execução


da referida política ainda não conseguiu romper definitivamente com o histó-
rico de concessão de benefícios atribuído a assistência social. Na operaciona-
lização da LOAS, da PNAS, e do próprio Sistema Único da Assistência Social
(SUAS) ainda existem ranços do caráter emergencial, filantrópico, caritativo e
descontinuado anteriormente atribuído à assistência social.

4.4.1  A assistência social e os desafios contemporâneos

Dentro do panorama destacado anteriormente, é possível apontar então, que


no aparato legal institucional têm-se, sobretudo na primeira década do século
XXI, uma preocupação com a gestão dos serviços, benefícios, programas e pro-
jetos da assistência social. Pode-se inclusive, discutir a centralidade que essa
categoria passou a ocupar na implementação e avaliação da Política, instituin-

capítulo 4 • 87
do-se, particularmente no âmbito federal, recursos exclusivos para auxiliar na
gestão da política, tais como o Índice de Gestão Descentralizada do Sistema
Único da Assistência Social (IGD SUAS) e Índice de Gestão Descentralizada do
Programa Bolsa Família (IGD Bolsa Família) através dos quais se repassam aos
municípios valores mensais como incentivo para melhoria na gestão.
Tal ênfase coloca para os trabalhadores na política da assistência social no-
vos desafios, passando a requerer maior atenção na administração de tempo,
recursos, pessoal, além do acompanhamento sistemático da efetividade das
ações executadas, através da construção de indicadores, elaboração de relató-
rios, planejamentos, pactuações, adesões, enfim, elementos que caracterizam
a gestão, e que até recentemente eram relegados a segundo plano na Assistên-
cia Social dado a construção histórica do caráter de benefício.
Evidente que esse direcionamento para a gestão responde a determinações,
pautadas na necessidade de se atingirem metas internacionais, propostas por
organismos mundiais e que precisam ser refletidas, todavia, faz-se necessário
também pensar sobre a necessidade de gestão para a efetividade do trabalho
que é desenvolvido, independente de metas impostas ou não. Para os gestores
da política pública de assistência social é imprescindível o entendimento da
gestão como ferramenta para a melhoria dos serviços, benefícios, programas e
projetos disponibilizados a população e dessa forma, o enfoque não é apenas o
proposto pelas instâncias internacionais através do Governo Federal, mas sim
a qualidade dos serviços prestados a população, conforme preconizado no Có-
digo de Ética do Assistente Social.
Podemos concluir esse capítulo apontando que o conceito de pobreza não
pode ser compreendido a partir de um único determinante e que historicamen-
te ele contempla também as discussões acerca de vulnerabilidades e desigualda-
de. Além disso podemos destacar que assistência social é uma forma de enfren-
tamento a essas situações e que no Brasil ela estrutura-se como política pública.

88 • capítulo 4
ATIVIDADE
1. Faça uma pesquisa bibliográfica acerca do histórico da pobreza no Brasil e as formas de
atendimento dessa população.

2. Elabore uma reflexão acerca da vulnerabilidade social no Brasil e como ela se manifesta
no município onde você reside.

REFLEXÃO
Considerando que Assistência Social hoje constituiu-se uma forma de atendimento as situ-
ações de pobreza e vulnerabilidade social, expressões da questão social e que no Brasil ela
configura-se como política pública, estando organizada no Documento “Política Nacional de
Assistência Social” de 2004 vamos apresentar uma sistematização desse Documento elabo-
rado por nós para fins didáticos.
Esse texto sintetiza as principais concepções da Política Nacional de Assistência Social e
foi elaborado para fins exclusivamente didáticos a partir do texto da própria política aprovado em
Outubro de 2004, através da Resolução 145 do Conselho Nacional de Assistência Social. As
ideias e conceitos aqui apresentados são reproduções/transcrições do texto da Política, sinteti-
zados para facilitar o estudo.

APRESENTAÇÃO
Destaca-se que o propósito da Política é transformar em ações diretas os pressupostos da
Constituição e da Lei Orgânica da Assistência Social.

INTRODUÇÃO
Os avanços na construção da Política decorrem também de seu reconhecimento como direi-
to do cidadão e dever do Estado. Tem-se o reconhecimento de direitos, mas é fundamental
a construção e implementação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) que vai or-
ganicamente estruturar a Política de Assistência Social, a partir daqui denominada apenas
POLITICA. Para a gestão da POLITICA, a proposta é baseada no pacto federativo, sendo
detalhadas as atribuições e competências dos três níveis de governo através das delibera-

capítulo 4 • 89
ções das conferências, conselhos e comissões (CIB, CIT). A gestão deve ser descentralizada
e participativa. Finalmente, na concepção da POLITICA está presente a perspectiva da infor-
mação, monitoramento e avaliação.

1.  ANÁLISE SITUACIONAL


Entender a assistência social como política de proteção social implica considerar três verten-
tes de proteção social: as pessoas, suas circunstâncias, e entre elas o “núcleo primeiro”, isto
é, família. Além disso é fundamental a maior aproximação possível do cotidiano das pessoas
e assim relacionam-se pessoas e seus territórios, no caso os munícipios. A POLITICA tem
perspectiva socioterritorial e assume a centralidade sociofamiliar no âmbito de suas ações,
sendo referência para as análises os mais de 5.500 municípios brasileiros. De acordo com o
proposto na POLITICA, existem os seguintes grandes grupos de municípios: Pequenos I: até
20.000 habitantes; Pequenos II: entre 20.001 e 50.000 habitantes; Médios: entre 50.001 e
100.000 habitantes; Grandes: entre 100.001 a 900.000; Metrópoles: Superior a 900.000
habitantes. Utilizam-se como bases para a análise situacional as informações do Censo
2000, a Síntese dos Indicadores Sociais de 2003 e o Atlas de Desenvolvimento Humano de
2002. A partir desses dados analisa-se a concentração de indigência e de pobreza, discutin-
do-se também (de forma breve) as transformações em curso nas famílias com o crescimento
de famílias cuja pessoa de referência é a mulher. Na continuidade, analisam-se dados relati-
vos a crianças, adolescentes e jovens, no que diz respeito a escolaridade, trabalho e gravidez
na adolescência. Discutem-se também a concentração de idosos (mais de 65 anos) e de
pessoas com deficiência para então apontar-se os investimentos da esfera publica federal
na assistência social.

2.  POLITICA PÚBLICA DE ASSISTENCIA SOCIAL


A concepção de assistência social como política pública trazida pela Constituição e regula-
mentada pela LOAS traz a assistência para o campo dos direitos, da universalização do aces-
so e da responsabilidade estatal. A assistência tem também caráter de política de Proteção
Social que por sua vez deve garantir as seguintes seguranças: Segurança de Sobrevivência
(Rendimento e Autonomia): garantia de que todos tenham uma forma monetária de garantir
sua sobrevivência; Segurança de Acolhida: opera com a provisão das necessidades huma-
nas básicas (alimentação, vestuário, abrigo), visto que alguns indivíduos, em algum momento
podem não obter de forma autônoma essas provisões e assim demandarem acolhida; Se-
gurança de convívio ou vivência familiar: implica a não aceitação de situações de perda das
relações , de afastamento familiar.

90 • capítulo 4
A POLITICA tem princípios, diretrizes, objetivos e usuários definidos. Os Princípios são
os mesmos da LOAS e podem ser sintetizados da seguinte forma: DIVULGAR TODOS OS
BENEFICIOS, SERVIÇOS, PROGRAMAS E PROJETOS, GARANTINDO A IGUALDADE DE
ACESSO NO ATENDIMENTO, RESPEITANDO A DIGNIDADE DOS CIDADÃOS E UNIVER-
SALIZANDO OS DIREITOS SOCIAIS PORQUE O ATENDIMENTO AS NECESSIDADES SO-
CIAIS É MAIS IMPORTANTE DO QUE AS EXIGÊNCIAS DE RENTABILIDADE ECONÔMICA.
As Diretrizes estão em consonância com a LOAS, mas abordam também a família e
podem ser sintetizadas na seguinte frase: DESCENTRALIZAR, INCENTIVANDO A PARTICI-
PAÇÃO POPULAR MAS SEM ESQUECER A PRIMAZIA DO ESTADO E A CENTRALIDADE
NA FAMILIA PARA CONCEPÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DOS BENEFÍCIOS, SERVIÇOS,
PROGRAMAS E PROJETOS.
Quanto aos Objetivos, a POLITICA vai PROVER benefícios, serviços, programas e pro-
jetos de proteção básica e/ou especial; CONTRIBUIR com a inclusão e equidade dos usuá-
rios; ASSEGURAR a centralidade na família e garantia de convivência familiar e comunitária.
Em relação aos USUÀRIOS, são “CIDADADÃOS E GRUPOS QUE SE ENCONTRAM EM
SITUAÇÕES DE VULNERABILIDADE E RISCOS”.
Quanto a organização dos serviços da POLITICA, estão estruturados em dois tipos de
proteção social: básica e especial.

PROTEÇÃO SOCIAL BÁSICA


Objetiva PREVENIR situações de riscos por meio do desenvolvimento de potencialidades e
aquisições e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Fazem parte da proteção
básica os benefícios (prestação continuada e eventuais), serviços, programas e projetos locais
de convivência e socialização de famílias e indivíduos. Os serviços de proteção social básica
serão executados de forma direta no CRAS e em outras unidades básicas e públicas de
assistência social e de forma indireta nas entidades e organizações. O CRAS é a unidade
pública estatal com base territorial localizado em áreas de vulnerabilidade. Abrange um
total de até 1.000 famílias/ano. Atua com famílias e indivíduos em seu contexto comuni-
tário, visando a orientação e convívio sociofamiliar e comunitário. É responsável por ofe-
recer além do Programa de Atenção Integral as Famílias (PAIF) os serviços de proteção
básica de assistência social, ou seja, “aqueles que potencializam a família como unidade
de referência, fortalecendo seus vínculos internos e externos, através do protagonismo
de seus membros e da oferta de um conjunto de serviços locais que visam a convivência,
a socialização e o acolhimento em famílias cujos vínculos familiares e comunitários não
foram rompidos, bem como a promoção da integração ao mercado de trabalho”. São exem-
plos de serviços da proteção social básica: Centros de convivência para idosos, programas de

capítulo 4 • 91
inclusão produtiva e projetos de enfrentamento a pobreza, serviços para crianças de 0 a 06
anos, serviços socioeducativos para crianças, adolescentes e jovens na faixa de 06 a 24 anos,
centros de informação e educação para o trabalho voltados para jovens e adultos.

PROTEÇÃO SOCIAL ESPECIAL


Contextualiza-se no processo de exclusão social que envolve situações de pobreza, miséria,
desigualdades e indigência. As diversas situações socioeconômicas vivenciadas pelas famí-
lias induzem a violações de direitos de seus membros e as linhas de atuação com famílias
em situações de riscos “devem abranger desde o provimento de seu acesso a serviços de
apoio e sobrevivência até sua inclusão em redes sociais de atendimento e solidariedade”.
Dessa forma, a proteção social especial destina-se a famílias e indivíduos que se encontram
em situação de risco pessoal e social “em decorrência de diversas situações. Os serviços
de proteção social especial organizam-se em média e alta complexidade, sendo que os de
média voltam-se para famílias e indivíduos com direitos violados, mas com vínculos familiares
e comunitários preservados e os de alta garantem proteção integral para famílias e indivíduos
que “se encontram sem referência ou em situação de ameaça, necessitando ser retirados do
seu núcleo familiar e, ou comunitário.” São exemplos de serviços de média complexidade:
orientação e apoio sociofamiliar, plantão social, abordagem de rua, cuidado no domicilio, ha-
bilitação e reabilitação na comunidade de pessoas com deficiência, medidas socioeducativas
em meio aberto. Envolve também o Centro de Referência Especializado da Assistência Social
(CREAS),com um atendimento de orientação e convívio sociofamilair voltado para situações
de violações de direitos. São exemplos de serviços de alta complexidade: atendimento inte-
gral institucional, casa lar, república, albergue, família substituta, família acolhedora, medidas
socioeducativas em meio fechado.

3.  GESTÃO DA POLITICA NACIONAL DE ASSISTENCIA NA PERSPECTIVA DO


SUAS
A POLÍTICA se organiza a partir do Sistema Único da Assistência Social (SUAS) que tem
como foco a família, seus membros e indivíduos e como base de sua organização o territó-
rio. O SUAS organiza-se a partir dos seguintes eixos (ou bases organizacionais): Matri-
cialidade sociofamiliar, descentralização politico administrativa e territorialização, novas
bases para a relação entre Estado e Sociedade Civil, Financiamento, Controle Social,
Politica de Recursos Humanos, Informação, monitoramento e avaliação. Os serviços se
organizam nas seguintes referências: Vigilância, Proteção e Defesa, sendo que vigilância
relaciona-se com conhecer a realidade, proteção com as seguranças de sobrevivência,
convivência e acolhida e defesa com o conhecimento e acesso dos usuários a seus di-

92 • capítulo 4
reitos socioassistenciais.

Matricialidade sociofamiliar: Reconhece-se as famílias como espaço privilegia-


do e insubstituível de proteção e socialização primarias, provedoras de cuidados aos seus
membros mas que precisa também ser cuidada e protegida; e independente dos forma-
tos ou modelos que assume é mediadora das relações entre os sujeitos e a coletividade.
As transformações em relação a família mostram que as dimensões clássicas utilizadas
para definir família (sexualidade, procriação e convivência) já não tem o mesmo grau de
imbricamento que se acreditava e portanto pode-se entender famílias como conjunto
de pessoas que se acham unidas por laços consanguíneos, afetivos e/ou de solidariedade.
Diante disso, na POLITICA destaca-se a matricialidade sociofamiliar no SUAS, ou seja, a
formulação da politica é pautada nas necessidades das famílias, seus membros e indivíduos.

Descentralização politico administrativa e territorialização: As ações são organizadas em


sistema descentralizado e participativo. Para a gestão da POLITICA cada nível da Federação
tem comando único e são elementos fundamentais, o conselho, o plano e fundo. São pressu-
postos para a concepção da assistência como política a territorialização, a descentralização e
a intersetorialidade, ou seja é preciso operacionalizar a politica em rede, com base no território.

Novas bases para a relação entre estado e sociedade civil: A sociedade civil participa
na POLITICA sendo parceira na execução dos serviços e exercendo o controle social. To-
davia a supremacia das ações é do Estado, que deve desenvolver habilidades específicas
destacando-se a formação de redes, espaços de colaboração, ações integradas multiplican-
do os efeitos e chances de sucesso. A rede não substitui a ação do Estado mas deve ser
alavancada a partir de decisões políticas do Poder Público em consonância com a sociedade.

Financiamento: De acordo com a Constituição de 1988, a fonte de custeio da assistên-


cia social (assim como a Saúde e Previdência Social) deve ser financiada por toda a socieda-
de, com recursos advindos dos Orçamentos da União, Estados, Distrito Federal e Municípios,
além das contribuições sociais de empregadores, trabalhadores e demais segurados da Previ-
dência, receita de concursos de prognósticos,e importadores de bens e serviços do exterior. A
instância de financiamento é representada pelos Fundos, sendo que o repasse de benefícios
se dá diretamente aos destinatários e o financiamento da rede através de aporte próprio e
sistema de repasse fundo-a-fundo. Buscam-se superar práticas centralizadas, genéricas e
segmentadas, como a fixação de valores per capita, as emendas parlamentares, propondo-se
o financiamento com base no território considerando o porte dos municípios e a complexidade
dos serviços, o co-financiamento baseado em pisos de atenção e a proposta de vinculação

capítulo 4 • 93
constitucional de percentuais mínimos do orçamento da seguridade para a assistência social.

Controle Social: A concepção de controle social tem sua origem na constituição de


1988, sendo entendida enquanto instrumento de efetivação da participação popular no pro-
cesso de gestão politico administrativa, financeira e tecnicooperativa. No SUAS, os conse-
lhos e as conferencias são os espaços privilegiados para essa participação além de instân-
cias como os fóruns de gestores, as comissões bipartites (CIB) e tripartites (CIT). Quanto aos
conselhos, são paritários e, portanto há a necessidade de se construir formas de incentivo a
participação dos usuários e habilitação dos mesmos para essa participação.

Política de Recursos Humanos: A produtividade e a qualidade dos serviços oferecidos


estão relacionados com os recursos humanos envolvidos. Todavia esse eixo não tem recebido
a devida atenção. Dessa forma é fundamental a implantação de uma política de recursos huma-
nos, estabelecendo-se novas relações entre gestores e técnicos e uma politica de capacitação
de forma sistemática e continuada. Paralelo a isso há que se pensar a criação de um plano de
carreira e de uma Norma Operacional Básica (NOB) para a área de Recursos Humanos.

Informação, Monitoramento e Avaliação: Para a implementação do SUAS é funda-


mental a implantação de politicas articuladas de informação, monitoramento e avaliação que
promovam novos patamares de desenvolvimento da POLITICA no Brasil, das ações realiza-
das e da utilização dos recursos, favorecendo a participação, o controle social e uma gestão
otimizada. Dessa forma são necessárias estratégias como a construção de um sistema de
informações e a implementação do sistema de acompanhamento da rede socioassistencial.
Ou seja, é preciso que a informação, o monitoramento e avaliação não sejam vistos apensas
circunstancialmente, mas que sejam setores estratégicos na gestão.

O texto da POLITICA encerra com as CONSIDERAÇÕES FINAIS onde são propostas


iniciativas para implementação da mesma, as referências bibliográficas e o re-
gistro dos órgãos que contribuíram para a elaboração da POLITICA.

LEITURA RECOMENDADA
Recomendamos a leitura do Livro “Classes Subalternas e Assistência Social” de Ma-
ria Carmelita Yazbek publicado pela Editora Cortez em 1993 e que trabalha a pobreza e a

94 • capítulo 4
assistência social no âmbito do debate acerca da questão social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No capítulo 5 será discutido de forma mais detalhada as expressões da questão social na
contemporaneidade e como se desenvolve o trabalho do assistente social nesse contexto.
Bons estudos e até lá.

capítulo 4 • 97
5
Questão social:
Transformações
Contemporâneas
e o Trabalho do
Assistente Social
5  Questão social: Transformações
Contemporâneas e o Trabalho
do Assistente Social
Ao longo desse livro temos estudado os principais aspectos relacionados à
questão social, desde sua origem, intrinsicamente relacionada ao modo de
produção capitalista, até seus rebatimentos mais diretos e visíveis como a desi-
gualdade social, a pobreza e a exploração.
Estudamos também de forma detalhada os rebatimentos da questão social
no mundo do trabalho, abordando a reestruturação produtiva e ainda como o
trabalhador na atualidade encontra-se em situação de vulnerabilidade tendo
em vista as alterações no padrão de produção, que alteram também as relações
sociais e trabalhistas.
Assim, com essas reflexões fomos em cada capítulo apresentando algumas
reflexões acerca do trabalho do assistente social no que diz respeito a questão
social em suas múltiplas formas de expressão.
Nesse último capítulo iremos trabalhar algumas dessas expressões da ques-
tão social, destacando o trabalho do assistente social frente a essas questões.
Apresentamos algumas considerações acerca da questão habitacional, da
questão racial, da questão de gênero, geracional e da inclusão da pessoa com
deficiência, destacando que as expressões da questão social são inúmeras e que
no cotidiano de seu trabalho profissional o assistente social é desafiado a de-
senvolver estratégias de enfrentamento a todas elas.
Acerca do trabalho profissional do assistente social apresentamos a reflexão
acerca das competências da profissão, quais sejam, competência teórico meto-
dolológica, competência ético-política e competência técnico operativa, discu-
tindo a partir daí o caráter investigativo, propositivo e interventivo do trabalho
profissional.
Encerramos esse capítulo com a reflexão de IAMAMOTO acerca da
questão social, apontando os elementos que caracterizam essa questão na
contemporaneidade. Através desse estudo, complementado com as leituras
indicadas, acreditamos que você poderá encerrar essa disciplina com novos co-
nhecimentos apreendidos e uma base sólida para o entendimento da questão
social enquanto objeto de trabalho do assistente social.

100 • capítulo 5
OBJETIVOS
Esse capítulo possibilitará que o aluno sintetize as principais discussões apresentadas no
livro relacionando-as com o trabalho do assistente social nos diversos espaços sóciocupa-
cionais. Espera-se que ao término dessa unidade o aluno possa:
•  Entender as transformações no mundo do trabalho e os rebatimentos da questão social
•  Relacionar novas expressões da questão social na contemporaneidade
•  Estabelecer relações entre as transformações no mundo do trabalho e o trabalho do as-
sistente social
•  Compreender as especificidades do trabalho do assistente social nos mais diversos espa-
ços sociocupacionais

REFLEXÃO
No capítulo anterior nós estudamos acerca do conceito de pobreza bem como o quadro de
vulnerabilidade que pode ser visualizado no mundo do trabalho como formas de expressão
da questão social. A partir dessa reflexão apresentamos a política de assistência social como
uma das formas de enfrentamento dessas problemáticas.

5.1  As novas expressões da questão social e o trabalho do


assistente social

O trabalho profissional do assistente social desenvolve-se na


contemporaneidade marcado pelo surgimento de diversas
novas demandas que requisitam cada vez mais um profissio-
nal sintonizado com os novos tempos, como afirma Iama-
moto (2005, p.20)

Esse profissional desenvolve sua práxis no contexto da realidade atual e para


tanto precisa compreender que o Serviço Social na atualidade trabalha com as
mais diversas expressões da questão social e que estas desenvolvem-se de for-
ma resignificada na atualidade, pois mesmo que não tenha havido mudança na
questão social, ela se manifesta de novas formas na atualidade.

capítulo 5 • 101
Exemplifiquemos inicialmente pelo mundo do trabalho, que já discutimos
em dois capítulos anteriores. As relações trabalhistas da atualidade, mesmo
apresentado elementos históricos como a separação radical entre trabalhador
e detentor dos meios de produção, se reconfiguram em um cenário cada vez
mais complexo, onde muitas vezes a exploração se transmuta em um discurso
de colaboração, ou seja, quanto mais o trabalhador produz, mais colaborador
ele se torna, sem que contudo perceba econômica, social e culturalmente os
frutos dessa colaboração.
Mota (2008, p.2/22) faz uma análise bastante crítica desse processo, apon-
tando que esse convite à colaboração na verdade objetiva a destruição da subje-
tividade do trabalhador.

É importante ressaltar, como já destacado no início desse Prefácio, que novas e reno-
vadas questões afetas às condições de trabalho se apresentam no contexto da agres-
siva e obstinada “inflação participativa” (Linhart, 2007) das empresas, cujo propósito é
a destruição da subjetividade e individualidade do trabalhador, tecida na sua vivência
de trabalho, em prol de uma subjetividade empresarial com o propósito de emancipar
os assalariados de seus coletivos naturais e envolvê-los em outras comunidades mais
harmônicas com o espírito das empresas. (Idem). (...) Salienta-se, portanto, que, se
as contradições do mundo do trabalho não mais emergem sob a forma de conflitos e
confrontos abertos e coletivos, elas se expressam agora da única forma possível: como
manifestação individual. Sombrio prognóstico para uma sociedade cuja cultura está as-
sentada no trabalho alienado.

Assim, nas relações trabalhistas da contemporaneidade, as problemáticas vi-


venciadas pelos trabalhadores são vistas como manifestações individuais. Assim,
o trabalhador “promovido” a colaborador deve manter sua produção nos níveis
solicitados, esforçando-se para a cada dia superar seus próprios limites e caso não
consiga fazer isso, deve procurar resolver seus problemas de forma individual. Au-
mentam-se os casos de adoecimento no trabalho, depressão, assédio moral.
Essa é uma nova forma de configuração da questão social no mundo do tra-
balho. Ou seja, a problemática é mesma: a contradição fundamental entre ca-
pital e trabalho, mas ela se apresenta de forma diferenciada, individualizada.
Cabe ao assistente social, desvendar e desconstruir esse individual e singular,
mostrando o seu caráter coletivo, total, universal.

102 • capítulo 5
Assim, o trabalho do assistente social envolve as mediações, ou seja a cons-
trução da particularidade através da desconstrução da singularidade, tendo vis-
ta a universalidade.

O debate da categoria mediação no Serviço Social “aparece” particularmente após o


Movimento de Reconceituação. A proposta, fundamentada na teoria social crítica mar-
xista, é apreender a totalidade dinâmica, não como soma das partes. Todavia, nesse
processo, nem sempre se consegue entender as mediações, ou seja, as passagens
móveis, abertas, em transformação entre as partes em face da realidade.
Assim:

•  A totalidade é um complexo constituído de complexos subordinados.


•  Para aprender o modo de ser desses complexos são necessárias aproximações su-
cessivas.
•  As relações no interior de cada complexo, que é relativamente total e entre esses e a
totalidade, é o que podemos entender como MEDIAÇÕES.

Nesse contexto, o assistente social desenvolve sua práxis tendo como refe-
rência a necessidade de construir mediações que possibilitem o desvelamen-
to da questão social e que na contemporaneidade envolve pensar as diversas
formas através das quais ela se manifesta. Assim, vamos apresentar algumas
dessas formas de expressões, entendendo que na origem de todas as ditas pro-
blemáticas existentes na sociedade brasileira, está a contradição fundamental
entre capital e trabalho, a questão social.

5.1.1  Questão Habitacional

Atualmente, na maioria das cidades brasileiras, existe o problema da falta de


habitação para os munícipes. Na última década temos assistido o aumento de
programas e projetos sociais voltados para a garantia da habitação, mas mes-
mo assim existe uma defasagem muito grande, sendo que muitos são obrigados
a residirem em condições insalubres, expondo-se a riscos pessoais e sociais.
Essa questão não pode ser vista apenas como mais uma problemática so-
cial mas deve ser vista como expressão da questão social na medida em que ela
ocorre porque a distribuição do que é produzido não é justa, ficando concentra-
da nas mãos de alguns poucos.

capítulo 5 • 103
Assim problemáticas como a falta de habitação, o elevado preço dos alugu-
éis, os movimentos de ocupação urbana, as moradias precárias são formas através
da qual podemos visualizar a questão habitacional no Brasil.

5.1.2  Questão racial

A questão racial no Brasil pode ser considerada uma expressão da questão so-
cial na medida em que a desigualdade racial é processo que se desenvolve e (re)
configura-se nas relações sociais e econômicas no Brasil, desde sua constitui-
ção como nação, com a ocupação do território pelos portugueses, o genocídio
da população indígena e a escravização de povos africanos no contexto de ori-
gem e desenvolvimento do sistema capitalista na Europa.
Vamos utilizar como exemplo desse processo de desigualdade o que pode
ser visualizado nas análises acerca do Indice de Desenvolvimento Humano das
Organizações das Nações Unidas. O Indice de Desenvolvimento Humano, elabo-
rado pela Organização das Nações Unidas (ONU) possui uma escala que varia de
0 até 1,0, sendo que a partir desse critério quanto mais o indice se aproxima de
1, maior o desenvolvimento humano de um país. A metodologia utilizada para o
IDH contempla três dimensões e quatro indicadores, sendo: Saúde (esperança
de vida ao nascer), Educação (média de anos de escolaridade e anos de escolari-
dade esperados) e Padrões de Vida (Rendimento Nacional Bruto percapita).De
acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano 2011, o Brasil ocupa a 84ª
posição entre os 187 países avaliados e apresenta um índice de 0,718.
Se considerarmos, contudo, dados de 2000, percebe-se que existe desigual-
dade nas condições de vida de negros e brancos no Brasil. O Indice de Desenvol-
vimento Humano do Brasil de 2000, apontava que o país ocupava a 74ª. posição
num ranking de 174 países. Contudo, segundo o estudo elaborado pelo eco-
nomista Marcelo Paixão (apud CARNEIRO, 2011, p.57) se fossem levados em
conta apenas os dados da população branca, o Brasil ocuparia a 48ª. posição (o
mesmo da Costa Rica naquele período). Caso fossem considerados apenas os
dados da população negra o IDH brasileiro levaria o país a ocupar a 108ª. posi-
ção no ranking, igualando-se a Argélia.
Essa desigualdade expõe o abismo entre a população negra e branca no Bra-
sil. Há que se ressaltar que pode-se referir relativa melhoria nas condições de
vida da população negra nos últimos 10 anos (segundo o apresentado pelo pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística a partir do Censo 2010) mas ainda

104 • capítulo 5
persiste a desigualdade.
O Relatório de Desenvolvimento Humano do ano de 2010 da ONU, aponta
um relativo progresso no desenvolvimento brasileiro, mas não se apresentam
elementos relacionados com a questão racial no país. Apesar de melhorias nas
condições de vida para a população de forma geral, os negros e negras no Brasil
ainda continuam nas situações de maior vulnerabilidade, mas essa dimensão
não é analisada dentro dos indicadores do Indice de Desenvolvimento Huma-
no avaliado pela Organização das Nações Unidas.

CONEXÃO
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) trabalha com o Indíce
de Desenvolvimento Humano (IDH) construindo os Relatórios de Desenvolvimento Humano
(RDH). Esses indicativos são utilizados tanto para a construção de pesquisas e análises
acerca do desenvolvimento humano ao redor do mundo, como também como a análise e
implementação de políticas públicas. O assistente social pode utilizar-se desses dados para
o seu trabalho cotidiano. Indicamos o site do PNUD como referência para essas análises.
http://www.pnud.org.br/IDH/DH.aspx Acesso em 29 de Setembro de 2014.

A desigualdade vivenciada pela população negra em praticamente todas as


dimensões da vida em sociedade é uma realidade que afeta o desenvolvimento
do país de forma geral, e daí o Estado e a sociedade civil organizada precisam
encontrar caminhos para a ação coletiva que garanta direitos, buscando-se a
superação do quadro de desigualdades que está posto.
Essa questão racial configura-se portanto também como expressão da ques-
tão social, cabendo ao profissional de Serviço Social compreendê-las em seus
meandros, na busca pela garantia de direitos.

5.1.3  Questão de gênero

As diferenças entre homens e mulheres são apropriadas pelo sistema capita-


lista que as resignifica, construindo uma desigualdade que configura-se como
expressão da questão social.
Entre essas desigualdades podemos apontar a “a divisão sexual do traba-
lho” que pode ser considerada uma das principais formas através da qual o
modo de produção capitalista explora o trabalho, na medida em que reserva as
mulheres os trabalhos mais precarizados e portanto desprestigiados. Segundo

capítulo 5 • 105
CISNE (2012) é preciso perceber que a classe trabalhadora não é homogênea,
que tem dois sexos e que os significados atribuídos ao ser homem/ser mulher
interferem no mundo do trabalho. Divisão sexual do trabalho pode ser compre-
endido como “atribuição de atividades sociais diferentes e desiguais segundo
o sexo, como fruto de uma construção sócio-histórica, com nítido caráter eco-
nômico/de classe sobre a exploração e opressão da mulher” (p.114). Nessa pers-
pectiva processa-se uma naturalização dos ditos papéis femininos e a mulher
passa a ser responsável tanto pelo trabalho tanto nas fábricas quanto nos lares,
pois seu trabalho doméstico é essencial para a reprodução da força de trabalho
(diminuindo os custos da mesma) mas esse trabalho não e remunerado. Assim,
o capitalismo apropria-se e refuncionaliza desigualdades a ele anteriores.
Ou seja, as problemáticas relacionadas as questões de gênero são também
expressão da questão social.

5.1.4  Questão geracional

O envelhecimento da população brasileira hoje é um dado que necessita ser


considerado em todas as dimensões do trabalho social. Tem-se cada vez mais
idosos, sem que a sociedade de forma geral esteja preparada para lidar com as
questões oriundas desse processo.
Os idosos estão cada vez mais participando das dimensões da vida em socie-
dade, assumindo responsabilidades como o cuidado com as crianças menores,
e mesmo em algumas situações a mantença financeira da família.
Contudo, como apontamos a sociedade não está, de forma geral, preparada
para cuidar dessas pessoas da forma que elas necessitam. A estrutura urbana,
as políticas sociais, entre elas a previdência social e a saúde não estão estrutu-
radas para o atendimento a esse público.
Assim, o idoso nesta sociedade não é reconhecido como parte dela, mas
como alguém que não é útil. Assim, as problemáticas relacionadas aos idosos
também são expressões da questão social na contemporaneidade.

5.1.5  Questão da Inclusão da Pessoa com Deficiência

A sociedade que se estabelece sob a lógica da produtividade torna desejáveis as


pessoas pela utilidade que elas apresentam para esse modo de produção. Dessa

106 • capítulo 5
forma, caso não possa contribuir nos moldes esperados, a pessoa é considera-
da inútil, e portanto excluída do acesso a benefícios e direitos.
Essa infelizmente ainda é a realidade para as pessoas com deficiência no
Brasil. Na educação, de maneira especial, a inclusão de pessoas com deficiên-
cia constituiu-se um desafio histórico.
O direito a educação formal no Brasil é garantido para todos, em especial às
crianças e adolescentes na modalidade de educação básica, que compreende
a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e Médio. Todavia, para as pessoas
com algum tipo de deficiência, esse acesso historicamente foi negado, sendo-
lhes oferecida uma educação “especializada”, fora do espaço público escolar, e
assentada sobre o paradigma da normalidade/anormalidade.
O histórico dessa educação “especial” aponta que no Brasil as duas pri-
meiras instituições voltadas para o atendimento das pessoas com deficiência
foram o “Imperial Instituto dos Meninos Cegos” (1854) e “Instituto dos Surdos
Mudos” (1857). Pode-se apontar também como marco da educação especial na
contemporaneidade a criação da primeira Associação de Pais e Amigos dos Ex-
cepcionais (APAE) em 1954. (Brasil, 2008, p.06, online)
Todavia, a partir ampliação da discussão acerca dos direitos humanos e do
conceito de cidadania fundamentado no reconhecimento das diferenças e na
participação dos sujeitos, surge uma preocupação mundial com a educação in-
clusiva e no Brasil, têm-se os marcos legais da Constituição Federal de 1988, do
Estatuto da Criança e do Adolescente em 1993 e da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação em 1996.
Enquanto a Constituição e o Estatuto da Criança e do Adolescente apontam
preocupação maior com o acesso de todos a educação, sem nenhuma espécie
de discriminação, a lei de Diretrizes e Bases da Educação, vai abordar especifi-
camente a educação especial , entendida no artigo 58, como “a modalidade de
educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para
educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas ha-
bilidades ou superdotação” (Brasil, 1996, online)
A legislação vigente estabelece o direito da pessoa com deficiência a edu-
cação, todavia, a garantia desse direito ainda não é concretizado de fato. Não
se trata apenas de assegurar vagas nas escolas regulares mas garantir que essa
escola esteja preparada para atender o aluno com deficiência em todas as suas
especificidades. Dessa forma, são necessários investimentos na estrutura físi-
ca e arquitetônica, na capacitação de educadores e todos os funcionários, na

capítulo 5 • 107
adaptação de recursos e técnicas pedagógicas, enfim, uma reestruturação que
não se efetiva de forma emergencial.
Assim, entre o que está previsto na legislação e a inclusão que de fato ocorre
nas escolas brasileiras existe uma abismal diferença. Apenas para exemplificar,
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) em seu artigo 59, inciso I, pre-
coniza que para os educandos com deficiência, transtornos globais do desen-
volvimento e altas habilidades ou superdotação, devem ser assegurados, entre
outros, “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização espe-
cíficos para atender as suas necessidades”. Todavia, as escolas brasileiras não
estão preparadas nem mesmo para trabalhar com as dificuldades de aprendi-
zagem, empregando, por exemplo, um único método para alunos com as mais
diversas potencialidades e fragilidades.
Assim, se faz necessário, bem mais que assegurar o direito legal, mas ainda
a conjugação de esforços para garantia de uma educação que seja efetivamente
inclusiva, e o assistente social pode contribuir nesse processo ao reconhecer
que essa também é uma expressão da questão social na contemporaneidade e
que, portanto, necessita ser devidamente trabalhada.

ATENÇÃO
Em relação a educação especial é importante destacar que conforme a Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, essa educação tem como obje-
tivos:Acesso ao ensino regular, com participação, aprendizagem e continuidade nos níveis
mais elevados do ensino;Transversalidade da modalidade de educação especial desde a
educação infantil até a educação superior; Oferta do atendimento educacional especializado;
Formação de professores para o atendimento educacional especializado e demais profissio-
nais da educação para a inclusão; Participação da família e da comunidade; Acessibilidade
arquitetônica, nos transportes, nos mobiliários, nas comunicações e informação e articulação
intersetorial na implementação das políticas públicas.

5.2  O caráter propositivo, investigativo e interventivo da atuação do


assistente social

O Serviço Social é uma profissão regulamentada, possuindo reconhecimento


jurídico. A Regulamentação se dá através da Lei 8.662 de 07 de Junho de 1993.
Trata-se, como já apontamos anteriormente de uma profissão de formação ge-

108 • capítulo 5
neralista, abrangendo conhecimentos básicos de diversas áreas, para qualifi-
car a intervenção junto às expressões da questão social, objeto de trabalho do
profissional de Serviço Social.
A profissão trabalha com três formas básicas de competências profissio-
nais, separadas apenas para fins didáticos, mas que no cotidiano da formação
e exercício profissional são indissociáveis e que formam o caráter propositivo,
investigativo e interventivo da profissão.

•  Competência teórico-metodológica: É o que permite ao profissional fa-


zer a leitura de realidade crítica e consciente, indo para além do que está
posto, mas buscando fazer as mediações necessárias ao entendimento
da Universalidade, Individualidade, Particularidade. É o conhecimento
teórico, fundamental para a análise crítica, para a práxis profissional.

•  Competência ético-política: É o compromisso profissional com um pro-


jeto societário com vistas à transformação do que está posto. Pode tam-
bém ser definida através do conhecimento profissional com vistas a in-
tervir na correlação de forças.

•  Competência técnico-operativa: É a habilidade profissional em seu cará-


ter interventivo, ou seja, a possibilidade de construir respostas frente às
demandas da realidade.

Essas competências são construídas no cotidiano do trabalho profissional


do assistente social e incluem a necessidade de o profissional estar sempre
comprometido com o processo de transformação da realidade que está posta.
Na atualidade o Serviço Social encontra no planejamento, implementação,
execução e avaliação de políticas públicas espaço privilegiado para o desen-
volvimento de sua práxis e antes de apresentarmos os aspectos principais em
relação ao trabalho do assistente social, vale destacar algumas considerações
quanto ao conceito de política social dentro da configuração do estado neolibe-
ral, entendendo que a origem da política social está também na questão social.
Política é a forma como se conduz determinada ação. Podemos dizer que
são os caminhos, diretrizes, formas de se realizar determinado tipo de atendi-
mento. Exemplificando: Política de Recursos Humanos da empresa: É a forma
através da qual a empresa gere as relações com os seus funcionários. Política

capítulo 5 • 109
Pública é aquela realizada pelo Poder Público, o Estado. Política Social é a for-
ma de o Estado gerir as necessidades básicas dos indivíduos, não atendidas
pelo sistema econômico.
Assim, a origem da Política Social está também na questão social, ou seja
na contradição fundamental capital e trabalho. A Política Social é a forma en-
contrada pelo Estado para amenizar as expressões da questão social. Todavia,
não deve-se perder de vista o entendimento de que a política social é também
paradoxal, pois mesmo realizada pelo Estado para apenas amenizar as expres-
sões da questão social, ela é também fruto das reivindicações da população. A
organização atual do Estado Brasileiro permite o entendimento de que segue-
se uma orientação neoliberal, ou seja, o afastamento desse Estado das proble-
máticas sociais, com uma intervenção mínima, focalizada.
Dessa forma, trabalhando seja com políticas sociais, ou em outros espaços,
o assistente social deve desenvolver suas competências concretizando o cará-
ter investigativo, propositivo e interventivo da profissão. Em relação ao caráter
investigativo, vale destacar que na investigação, a pesquisa é uma das formas
através do qual o assistente busca conhecer a realidade. Esse conhecimento
pode ser utilizado para a produção de conhecimentos com vistas à socializa-
ção, ou com vistas exclusivas a melhoria dos serviços prestados. Qualquer que
seja a finalidade, a pesquisa é fundamental para o trabalho do assistente social.
No que diz respeito ao caráter propositivo, o assistente social não pode limi-
tar-se a execução, tornando-se mero executor de serviços, programas e projetos.
Mesmo considerando as condições históricas objetivas que acabam por limitar
o trabalho profissional, o assistente social pode encontrar no próprio cotidiano
formas de superação dessa realidade.

Responder a tais requerimentos exige uma ruptura com a atividade burocrática e ro-
tineira, que reduz o trabalho do assistente social a mero emprego, como se esse se
limitasse ao cumprimento burocrático do horário, à realização de um leque de tarefas
as mais diversas, ao cumprimento de atividades preestabelecidas. Já o exercício da
profissão é mais do que isso. É uma ação de um sujeito profissional que tem compe-
tência para propor, para negociar com a instituição os seus projetos, para defender o
seu campo de trabalho, suas qualificações e funções profissionais. Requer, pois, ir além
das rotinas institucionais e buscar apreender o movimento da realidade para detectar
tendências e possibilidades nela presentes passíveis de serem impulsionadas pelo pro-
fissional. (IAMAMOTO, 2005, p. 21, grifo nosso)

110 • capítulo 5
Em relação à intervenção, como pontuamos desde o primeiro capítulo, o as-
sistente social trabalha diretamente nas expressões da questão social e portan-
to, para tal precisa estar comprometido com a transformação, como estabelece
o projeto ético político da profissão. O termo projeto ético político profissio-
nal do Serviço Social, se refere a uma construção ou esforço de construção, en-
volvendo sujeitos individuais e coletivos, orientados por princípios éticos (di-
mensão ética do projeto) e profundamente relacionados a projetos societários
(dimensão política do projeto). Dessa forma o projeto ético político do Serviço
Social não existe desvinculado da sociedade onde está inserido, mas se articula
com projetos para esta sociedade.
No que se refere à caracterização do projeto ético político do Serviço Social,
algumas considerações são fundamentais. Segundo REIS (2005) o termo pro-
jeto ético político profissional se refere a uma construção ou esforço de cons-
trução, envolvendo sujeitos individuais e coletivos, orientados por princípios
éticos e profundamente relacionados a projetos societários.
Dessa forma, o primeiro aspecto a ser considerado diz respeito ao fato de não
ser possível desvincular o projeto ético político do Serviço Social do contexto so-
cial em que está inserido e que se articula com as políticas sociais introduzidas
neste contexto. Ainda segundo REIS (2005), os projetos societários podem ser de
natureza conservadora ou transformadora, que se constitui na proposta do pro-
jeto ético político do Serviço Social. Uma reflexão crítica a cerca da dinâmica da
sociedade brasileira, mostra que a legislação do país faz uma caminhada histó-
rica no sentido de um esforço de construção de uma nova ordem societária, não
se pode negar o avanço que representaram as mudanças na legislação a partir
de 1988, com a Constituição da República Federativa Brasileira. Mas, entende-se
que é preciso garantir a efetivação do que está posto na legislação.
Dentre os avanços conquistados, pode se destacar a mudança na concep-
ção da assistência social, que passa a ser entendida pelo Estado como direito
do cidadão, rompendo, ainda que teoricamente, com o conceito de filantropia.
Em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), representa um avanço,
ao garantir às crianças e adolescentes direitos até então desconsiderados. Em
1993, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) vem para regulamentar a po-
lítica de assistência social e assim garantir o desenvolvimento de programas,
projetos, serviços que realmente entendessem a assistência social como direito
do cidadão. É preciso mencionar ainda, o Estatuto do Idoso, introduzido em
2003, da Legislação para a Pessoa Portadora de Deficiência (1989/1999) e da Lei

capítulo 5 • 111
Maria da Penha (2006), que protegem grupos minoritários, até então desprote-
gidos pela efetividade da legislação brasileira.
No que se refere à atuação do assistente social, cumpre discutir o Código
de Ética dos Assistentes Sociais que tem como princípios fundamentais o re-
conhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas
a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos so-
ciais que aponta para um compromisso com a construção de uma nova ordem
societária, diferente da que ainda está posta.
Na concepção de REIS (2005) é nítido que o projeto ético político do Serviço
Social está comprometido com um projeto de transformação da sociedade prin-
cipalmente porque a intervenção profissional apresenta uma dimensão políti-
ca, situada nas relações estabelecidas pelas classes sociais, no direcionamento
das ações. Uma atuação que se proponha comprometida com o Projeto ético
político da profissão deve caminhar no sentido da construção de um modelo de
sociedade diferente do que está posto, seja qual for o contexto de atuação.

CONEXÃO
A discussão acerca do Projeto Ético Político do Serviço Social é bastante recorrente quando
se discute o trabalho profissional, na medida em que este projeto é o que subsidia as ações
profissionais. Como se trata de um tema também fundamental no Serviço Social, muitos
autores já fizeram essa discussão, mas pode-se destacar José Paulo Netto, como o primeiro
que fez referência a esse termo (Projeto ético político) em especial no texto “A construção do
projeto ético político do Serviço Social”, originalmente publicado no módulo 1 de Capacitação
em Serviço Social e Política Social (Brasília, CFESS/ABEPSS/CEAD/UnB, 1999) e que
constituiu-se um dos primeiros materiais para a discussão acerca do “projeto ético-político
do Serviço Social brasileiro”, nas palavras do próprio autor.
Disponível em: http://pt.slideshare.net/deyselfreire/a-construo-do-projeto-tico-poltico-do-
servio-social-jos-paulo-netto. Acesso em 29 de Setembro de 2014

112 • capítulo 5
Considerações Finais
A questão social origina-se na contradição fundamental entre capital e traba-
lho, onde a produção social é cada vez mais coletiva enquanto a apropriação do
que é produzido continua sendo privilégio de poucos. Essa questão manifesta-
-se de formas variadas, sendo o mundo do trabalho, a questão racial, de gênero,
geracional, de pessoas com deficiência algumas de suas formas de expressão.
O assistente social para trabalhar com as múltiplas formas de expressão des-
sa questão precisa necessariamente desenvolver as competências teórico-me-
todológicas, ético-políticas e técnico-operativas, que se expressam no caráter
investigativo, propositivo e interventivo da profissão.

ATIVIDADE
1. Em relação a realidade de sua região, como se manifesta a questão social?

2. Como o assistente social trabalha no cotidiano com as expressões da questão social?

REFLEXÃO
O Documento “Atribuições Privativas do Assistente Social em Questão” publicado pelo
CFESS em 2012 reúne diversas reflexões acerca do trabalho profissional do assistente so-
cial na contemporaneidade. Compõe esse documento o texto “Projeto Profissional, espaços
ocupacionais e trabalho do assistente social na atualidade” texto transcrito da palestra de
Marilda Vilela Iamamoto no XXX Encontro Nacional do CFESS/CRESS em 2001. Assim,
apresentamos para a reflexão o trecho onde ela aborda a questão social na contemporanei-
dade, pois entendemos que ele sintetiza algumas das discussões feitas nesse livro.

A questão social na cena contemporânea -


Marilda Vilela Iamamoto

Como pensar a produção da questão social na cena contemporânea? Quais


as mediações históricas que reconfiguram a questão social na atualidade?

capítulo 5 • 113
Importa destacar quatro aspectos centrais que atribuem novas mediações
históricas à produção da questão social na cena contemporânea:

1. Como sustenta Salama (1999), a lógica financeira do regime de acumula-


ção tende a provocar crises que se projetam no mundo, gerando recessão. É
resultante dessa lógica a volatividade do crescimento que redunda em maior
concentração de renda, da propriedade e aumento da pobreza, “não apenas
nas periferias dos centros mundiais, mas atingindo os recônditos mais sagra-
dos do capitalismo mundial, expressando um “apartheid social”. A abertura
abrupta da economia nos países da periferia dos centros mundiais, conforme
orientação dos organismos multilaterais, vem redundando em uma ampliação
do déficit da balança comercial, no fechamento de empresas nacionais, na ele-
vação da taxas de juros e no ingresso maciço de capitais especulativos. A eco-
nomia passa a mover-se entre a reestruturação de sua indústria e a destruição
de parte do aparato industrial que não resiste à competitividade dos grandes
oligopólios e à grande expansão das exportações e importações. Cresce a
necessidade de financiamento externo e, com ele, a dívida interna e externa,
os serviços da dívida - os pagamentos de juros -, ampliando o déficit comercial.
As exigências do pagamento dos serviços da dívida, aliada às elevadas taxas
de juros, geram escassez de recursos para investimento e custeio. Favorece
os investimentos especulativos em detrimento da produção, o que se encontra
na raiz da redução dos níveis de emprego, do agravamento da questão social
e da regressão das políticas sociais públicas.

2. Na esfera da produção, o padrão fordista-taylorista tende a ceder a lide-


rança à “especialização flexível” ou “acumulação flexível” (Harvey, 1993). A
“flexibilidade” sintetiza a orientação desse momento econômico, afetando os
processos de trabalho, as formas de gestão da força de trabalho, o mercado
e os direitos trabalhistas, as lutas sociais e sindicais, os padrões de consu-
mo, etc. Atinge visceralmente a luta sindical em um quadro de recessão e
desemprego. Estabelece-se uma ampla competitividade no cenário interna-
cional e a qualidade dos produtos é erigida como requisito para enfrentar a
concorrência. A exigência é reduzir custos e ampliar as taxas de lucratividade.
Nesta lógica, o rebaixamento dos custos do chamado “fator trabalho” tem
peso importante, envolvendo o embate contra a organização e as lutas sindi-
cais, os cortes de salário, cortes na contratação e direitos conquistados. Esse

114 • capítulo 5
processo, que afeta a divisão social e técnica do trabalho, atinge o conjunto
dos trabalhadores, inclusive os assistentes sociais. A necessidade de redução
de custos para o capital revela-se na figura do trabalhador polivalente, em
um amplo enxugamento das empresas, com a terceirização dos serviços e
a decorrente redução do quadro de pessoal, tanto na esfera privada quanto
governamental. A concorrência entre os capitais estimula um acelerado de-
senvolvimento científico e tecnológico, que revoluciona a produção de bens
e serviços. Apoiada na robótica, na microeletrônica, na informática, dentre
outros avanços científicos, a reestruturação produtiva afeta radicalmente a
produção de bens e serviços, a organização e gestão do trabalho, as con-
dições e relações de trabalho, assim como o conteúdo do próprio trabalho.
Verificam-se, em decorrência, mudanças nas formas de organizar a produção
e consumir a força de trabalho, envolvendo amplo enxugamento dos postos
de trabalho e a precarização das condições de trabalho. Reduz-se assim a
demanda de trabalho vivo ante o trabalho passado, incorporado nos meios de
produção, com elevação da composição técnica e de valor do capital. Entre-
tanto, é importante relembrar que a reestruturação produtiva convive, no país,
com um fordismo incompleto e com formas tradicionais e arcaicas de explo-
ração da força de trabalho, enraizadas na particular formação econômica e
política da sociedade brasileira — como o trabalho clandestino, o trabalho es-
cravo, as grilagens de terra, as invasões de territórios e nações indígenas etc.

3. Complementam esse quadro, radicais mudanças nas relações Estado/


sociedade civil, orientadas pela terapêutica neoliberal, traduzidas nas políti-
cas de ajuste recomendadas pelos organismos internacionais. Por meio de
vigorosa intervenção estatal a serviço dos interesses privados articulados
no bloco do poder, contraditoriamente, conclama-se, sob inspiração liberal,
a necessidade de reduzir a ação do Estado ante a questão social mediante
a restrição de gastos sociais, em decorrência da crise fiscal do Estado. A
resultante é um amplo processo de privatização da coisa pública: um Estado
cada vez mais submetido aos inte-resses econômicos e políticos dominantes
no cenário internacional e nacional, renunciando a dimensões importantes da
soberania da nação, em nome dos interesses do grande capital financeiro e
de honrar os compromissos morais com as dívidas interna e externa.

capítulo 5 • 115
A crítica neoliberal sustenta que os serviços públicos, organizados à base de
princípios de universalidade e gratuidade, superdimensionam o gasto estatal
(Grassi et alai, 1994). A proposta é reduzir despesas (e, em especial, os gastos
sociais), diminuir atendimentos, restringir meios financeiros, materiais e huma-
nos para implementação dos projetos. E o assistente social, que é chamado a
implementar e viabilizar direitos sociais e os meios de exercê-los, vê-se tolhido
em suas ações, que dependem de recursos, condições e meios de trabalho
cada vez mais escassos para operar as políticas e serviços sociais públicos.

4. Tais processos atingem não só a economia e a política, mas afetam as


formas de sociabilidade. Vive-se a “sociedade de mercado” (Lechner, 1999) e
os critérios de racionalidade do mercado - este tido como o eixo regulador da
vida social -, invadem diferentes esferas da vida social. Uma lógica pragmática
e produtivista erige a competitividade, a rentabilidade, a eficácia e eficiência
em critérios para referenciar as análises sobre a vida em sociedade. Forja-se
assim uma mentalidade utilitária que reforça o individualismo, segundo a qual
cada um é chamado a “se virar” no mercado. Ao lado da naturalização da so-
ciedade — “é assim mesmo, não há como mudar”-, ativam-se os apelos morais
à soli-dariedade, na contraface da crescente degradação das condições de
vida das grandes maiorias. Esse cenário, de nítido teor conservador, atinge as
formas culturais, a subjetividade, a sociabilidade, as identidades coletivas, ero-
dindo projetos e utopias. Estimula um clima de incertezas e desesperanças. A
debilitação das redes de sociabilidade e sua subordinação às leis mercantis
estimula atitudes e condutas centradas no indivíduo isolado, em que cada um
“é livre” para assumir os riscos, as opções e responsabilidades por seus atos
em uma sociedade de desiguais.

Nesse quadro é muito importante o rumo ético-político do projeto pro¬fissio-


nal, estimulando uma cultura democrática, o apreço à coisa publica, - atentan-
do à dimensão cultural do trabalho cotidiano do assistente social -, contrapon-
do-se à difusão dos valores liberais que geram desesperança e encobrem a
apreensão da dimensão coletiva das situações sociais presentes na vida dos
indivíduos e grupos das diferentes classes sociais, embora não eliminem sua
existência objetiva.

116 • capítulo 5
As configurações assumidas pela questão social são condicionadas pela for-
mação cultural brasileira, em seus traços de clientelismo, em que os trabalha-
dores foram historicamente tratados como súditos, receptores de benefícios
e favores e não cidadãos, portadores de direitos. Mas aquelas configurações
passam também pelas suas expressões singulares presentes na vida de cada
um dos indivíduos atendidos pelo assistente social. Estas situações singulares
vivenciadas pelos indivíduos são portadoras de dimensões universais e parti-
culares da questão social, condensadas na história de vida de cada um deles.

É importante desenvolver a capacidade de ver, nas demandas individuais, as


dimensões universais e particulares que elas contêm. O desvelamento das
condições de vida dos sujeitos atendidos permite ao assistente social dispor
de um conjunto de informações que, iluminadas por uma perspectiva teórico-
-crítica, lhe possibilita apreender e revelar as novas faces e os novos mean-
dros da questão social que o desafia a cada momento no seu desempenho
profissional diário. É da maior importância traduzir esta re¬flexão no “tempo
miúdo do trabalho cotidiano”, como diz Yazbek, pois a questão social está
ai presente nas diversas situações que chegam ao pro¬fissional como ne-
cessidades e demandas dos usuários dos serviços: na falta de atendimento
às suas necessidades na esfera da saúde, da habitação, da assistência, nas
precárias condições de vida das famílias, na situação dos moradores de rua,
na busca do reconhecimento dos direitos trabalhistas e previdenciários por
parte dos trabalhadores rurais, na violência doméstica, entre inúmeros outros
exemplos. Importa ter clareza que a análise macroscópica sobre a questão
social, tal como efetuada acima, expressa uma realidade que se materializa
na vida dos sujeitos. Este reconhecimento permite ampliar as possibilidades
de atuação e atribuir dignidade ao trabalho do assistente social, porque ele
não trabalha com fragmentos da vida social, mas com indivíduos sociais que
condensam a vida social.

capítulo 5 • 117
LEITURA RECOMENDADA
Recomendamos a leitura completa do Documento “Atribuições Privativas do Assistente So-
cial em Questão” publicado pelo CFESS em 2012, pois ele reúne algumas das principais
discussões acerca do trabalho profissional do assistente social na contemporaneidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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YAZBEK, Maria Carmelita. Classes Subalternas e Assistência Social. São Paulo: Cortez, 1993.
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EXERCÍCIO RESOLVIDO
Capítulo 1

1. 
O sistema capitalista pode caracterizado especialmente pela necessidade de acumula-
ção e lucro. Conforme citação:

O sistema capitalista caracteriza-se especialmente por ser um modo de produção


(formas de organização da sociedade a partir de relações econômico-sociais) que
tem como maior objetivo a acumulação de capital que é o principal fator para o pro-
cesso de reprodução das riquezas. (CATANI, 2011, p. 10)

2. 
Exercício livre. O aluno deve apontar as principais problemáticas sociais de seu municí-
pio entendendo que elas possuem uma origem comum: a questão social.

Capítulo 2

1. 
A principal proposta desta atividade é que o aluno reflita acerca das classes sociais enten-
dendo que elas existem antes do capitalismo, conforme trecho:

Temos assim que o conceito de classes vem desde os antigos gregos e implica
um grupo de cidadãos, classificados e definidos a partir da função que exercem na

capítulo 5 • 121
sociedade onde estão inseridos, mas também pelas vantagens, ou privilégios que
tal função lhes permite. Tem-se que algumas classes possuem diversos privilégios,
enquanto outras não possuem nem mesmo os direitos básicos garantidos.

Mas prosseguindo é necessário que o aluno explicite que a principal mudança trazida
pelo capitalismo é que mesmo as classes estando bem definidas (trabalhadores e
burguesia) tenta-se divulgar a idéia de que elas não existem, dependendo apenas do
esforço individual de cada um.

2. 
O aluno deve apontar as principais atividades do assistente social na política de saúde,
entre elas o atendimento assistencial, os encaminhamentos e as atividades socioeduca-
tivas. Em relação às expressões da questão social, deve apontar entre outros elementos:
o número de pessoas não atendidas pelo serviço público de saúde, a baixa qualidade
dos serviços públicos de saúde, a não existência de tratamentos específicos, a diferença
no atendimento particular e público.

Capítulo 3

1. 
Exercício livre. O aluno deve pesquisar de forma geral as mudanças no mercado de
trabalho em seu município, para assim fixar o conteúdo apresentado no texto em relação
às mudanças gerais no mercado de trabalho no cenário mundial.

2. 
O assistente social vai construir sua atuação a partir da realidade que se lhe apresenta,
buscando efetivar o compromisso profissional com a classe trabalhadora, mas garan-
tindo o diálogo com as classes historicamente detentoras do poder. O trecho abaixo
sintetiza essa construção.

(...) os profissionais já percebem a necessidade de entender a resistência que por


vezes se processa mesmo na operacionalização de práticas pensadas pelas classes
detentoras de poder e capital e que significa instrumentalizar, preparar-se para o diá-
logo e a defesa e garantia de direitos historicamente conquistados. O Serviço Social

122 • capítulo 5
tem condições de encarar esse desafio sem que os princípios éticos, políticos e ide-
ológicos da profissão sejam perdidos, para isso necessitando que o profissional se
disponha a mobilizar-se, enquanto categoria, construindo projetos de ação marcados
pela competência técnica, teórica, ética e política.

Capítulo 4

1. 
Na pesquisa o aluno deve apontar dados históricos da pobreza no Brasil, como um
fenômeno complexo, mas destacando que ela foi tratada às vezes de forma caritativa,
às vezes com a intervenção policial, e só recentemente (em especial a partir da Consti-
tuição de 1988) como alvo da intervenção do Estado. Destacamos a citação:

A pobreza brasileira constitui-se de um conjunto heterogêneo, cuja unidade busca-


mos encontrar na renda limitada, na exclusão e subalternidade. Do ponto de vista da
renda, o que se evidencia é que para a grande maioria dos trabalhadores, com registro
em carteira ou não, com contrato ou por conta própria, predominam os baixos rendi-
mentos e a consequente privação material daí advinda. Do ponto de vista da exclusão
e da subalternidade, a experiência da pobreza constrói referências e define “um lugar
no mundo”, onde a ausência de poder de mando e decisão, a privação de bens ma-
teriais e do próprio conhecimento dos processos sociais que explicam essa condição
ocorrem simultaneamente a práticas de resistência e luta. (YAZBEK, 1993, p.63)

2. 
O aluno deve construir uma reflexão que aborde a questão da vulnerabilidade no Brasil,
entendida como uma condição onde a pessoa se encontra, condição que a coloca em
risco, que a deixa vulnerável, ou seja, fragilizada, exposta. No Brasil isso se dá devido
entre outros aspectos à questão do emprego, da condição de gênero, raça, idade e que
de forma direta relacionam-se com as expressões da questão social. A partir daí deve
relacionar esses elementos com a realidade de seu município.

capítulo 5 • 123
Capítulo 5

1. 
O aluno deve apontar a partir de sua realidade regional expressões da questão social.
Pode ser aquelas apontadas no texto (questão habitacional, questão racial, questão de
gênero), mas com dados específicos de sua região.

2. 
Deve-se discutir que o profissional de Serviço Social trabalha cotidianamente com as
expressões da questão social e que para isso preciso entender a origem comum dessas
problemáticas, qual seja a contradição fundamental entre capital e trabalho. Destacamos
em especial o trecho.

Nesse contexto, o assistente social desenvolve sua práxis tendo como referência a
necessidade de construir mediações que possibilitem o desvelamento da questão
social e que na contemporaneidade envolve pensar as diversas formas através das
quais ela se manifesta.

124 • capítulo 5