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ROTTA, N. T. ET AL. TRANSTORNOS DA APRENDIZAGEM.

CAP. 9 – Introdução aos Transtornos da aprendizagem.


Dificuldade de aprendizagem <> Transtorno de aprendizagem.

Dificuldades de aprendizagem, percurso, podem ser causadas por problemas da escola e/ou da
família. Também se incluem nesta categoria problemas pontuais, como em determinada
matéria ou momento da vida, além de problemas psicológicos, como falta de motivação e
baixa autoestima. Ela pode ainda ser secundária a outros quadros diagnosticáveis, se
destacando seu surgimento em casos de TDAH, deficiência mental, transtorno de espectro
autista e epilepsia.

Transtornos de aprendizagem compreendem uma inabilidade específica, seja de leitura, escrita


ou matemática, com resultados significativamente abaixo do esperado para o seu nível de
desenvolvimento, escolaridade e capacidade intelectual. Ele pode ser conjecturado nos casos
em que a criança apresente características como: (a) inteligência normal; (b) ausência de
alterações motoras ou sensoriais; (c) bom ajuste emocional; e (d) nível socioeconômico e
cultural adequados. No DSM-V se chamam Transtornos Específicos de Aprendizagem.

Nos transtornos da aprendizagem, os padrões normais de aquisição de habilidades estão


perturbados desde os estágios iniciais do desenvolvimento – isto implica considerar que eles
não são adquiridos em decorrência da falta de estimulação adequada ou de qualquer forma de
traumatismo ou doença cerebral.Consideram-se características como: (i) início do transtorno,
(ii) o comprometimento fortemente associado à maturação biológica do SNC e (iii) curso
estável. Observa-se que, mesmo com atendimento, o sintoma persiste, muitas vezes por toda a
vida.

É importante para o diagnóstico o grau de comprometimento, que deve ser avaliado por
intermédio de teste padronizado, referindo-se à média de dois anos abaixo do desempenho
esperado para uma criança da mesma idade, nível mental e de escolaridade.

De uma maneira geral, identificado o distúrbio por meio de avaliação neurológica e de


testagens necessárias, para classificá-lo como um determinado transtorno, utilizando os
manuais disponíveis, deve-se considerar que:

 O grau de comprometimento deve estar substancialmente abaixo do esperado para


uma criança com a mesma idade, nível mental e escolarização;

 O transtorno deve estar presente desde os primeiros anos de escolaridade;

 O transtorno persiste, apesar do atendimento específico adequado;

 A avaliação cognitiva afastou deficiência mental;

 Foram afastadas causas como dificuldades de percurso e/ou secundárias;

 Existe história de antecedentes familiares com dificuldades de aprendizagem.


Acredita-se que a etiologia dos transtornos da aprendizagem encontre-se na interligação de
informações em várias regiões do cérebro, mas não possuem causa definida. Eles são
totalmente ou parcialmente irreversíveis (o que leva à suposição de fatores biológicos). Aliás,
qualquer fator que seja capaz de alterar o desenvolvimento cerebral do feto facilita o
surgimento de um quadro de transtorno da aprendizagem. Considera-se ainda que lesões
precoces e localizadas não afetam o desenvolvimento das funções cerebrais superiores, por
conta da plasticidade cerebral, uma vez que esta permite a reorganização do tecido nervoso.

CARACTERIZAÇÃO DOS PRINCIPAIS TIPOS DE TRANSTORNOS ESPECÍFICOS DA APRENDIZAGEM

 Transtorno da leitura: caracterizado por dificuldade específica em compreender


palavras escritas, d’onde caracterizá-lo como transtorno específico das habilidades de
leitura.

 Transtorno da matemática: também chamado discalculia, não se refere à ausência de


habilidades matemáticas básicas, como contagem, e sim à forma com que a criança
associa essas habilidades com o mundo que a cerca. Esse transtorno afeta a aquisição
de conceitos matemáticos, além de outras habilidades que exigem raciocínio, tendo
sua baixa capacidade de manejar números e conceitos matemáticos não encontra sua
origem em lesão ou outra causa orgânica.

 Transtorno da expressão escrita: refere-se apenas à ortografia ou caligrafia, na


ausência de outras dificuldades de expressão escrita. Costuma-se combinar neste
transtorno dificuldades na capacidade de compor textos escritos, evidenciada por
erros de gramática e pontuação dentro das frases, má organização dos parágrafos,
múltiplos erros ortográficos, na ausência de outros prejuízos na expressão escrita.

Outra classificação seria entre dificuldades primárias e dificuldades secundárias. As primeiras


seriam aquelas não associadas ainda a causas psiconeurológicas bem estabelecidas ou claras,
como os transtornos da leitura, da matemática, da expressão escrita, além dos transtornos da
linguagem expressiva e o misto. As secundas se referem àquelas conseqüentes de alterações
biológicas específicas e bem estabelecidas e de alterações comportamentais e emocionais bem
esclarecidas.

Pennington reconhece cinco módulos relacionados com funções cognitivas, relacionadas a


áreas ou circuitos definidos do cérebro:

 Região perissilviana esquerda – funções neurolinguísticas – sua disfunção ocasiona


transtornos disléxicos;

 Área hipocâmpica de ambos os hemisférios – função de memória – sua disfunção


ocasiona transtornos amnésicos;

 Região posterior do hemisfério direito – Síndrome de disfunção hemisférica direita


provoca sintomas de discalculia e disgrafia;

 Sistema límbico, região orbitofrontal – Síndrome de disfunção hemisférica direita


provoca alterações de conduta, cuja expressão mais grave entra no espectro autista;
 Alteração no lobo frontal – síndrome disexecutiva – caracterizada por déficit
atencional, falhas na planificação e antecipação e déficit nas abastrações.

Os transtornos das áreas específicas do SNC que se relacionam ao esquema corporal, de


espaço e de tempo, são as bases anatomo-patológicas das alterações perceptomotoras ou
dispractognósticas que podem levar aos quadros de dislexia, disgrafia e discalculia.

Importante no processo neusopsicológico de aprender (a) a atenção, (b) a memória, e (c) as


funções executivas. Os distúrbios atencionais e das funções executivas acarretam prejuízos nas
funções corticais de percepção, planejamento, organização e inibição comportamental.

Sobre o Transtorno de Espectro Autista (TEA) sugere na variedade de suas manifestações uma
heterogeneidade neurobiológica. Possui como característica primordial prejuízo persistente na
comunicação recíproca e na interação social e padrões estritos e repetitivos de
comportamento, interesses ou atividades. Possuem sintomas presentes desde a infância,
ocasionando prejuízo ao funcionamento diário. TEA envolve transtornos anteriormente
nominados como autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto
funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento SOE, transtorno
desintegrativo da infância e transtorno de Asperger.
CAP. 10 – Transtorno de linguagem
LINGUAGEM NORMAL

Peabody Picture Vocabulary Test-III (PPVT) – teste que avalia tal tipo de transtorno.

13% das crianças entre dois e quatro anos apresentam transtornos de linguagem. Das crianças
com transtornos de linguagem com pelo menos 5 anos, 60% terão algum grau de déficit
intelectual ou transtorno do aprendizado aos 9 anos de idade, tendo aqui uma incidência de
maior de dislexia. 85% dos disléxicos tiveram ou têm algum comprometimento na linguagem
oral. Elas possuem elevado risco (crianças disléxicas) para dificuldades residuais persistentes de
linguagem e alterações de comportamento e da conduta, destacando-se o TDAH.

Para Gleason e col., a ”linguagem é a recepção e expressão de idéias e sentimentos”.

Localização anatômica da linguagem – com Broca, no século XIX, no hemisfério esquerdo, na


terceira circunvolução frontal;

Assimetria hemisférica – observada com a observação da dominância de uma das mãos, pé,
olho, etc., atribuído ao hemisfério esquerdo características de dominância para os três
seguimentos. Esta assimetria já é observada na vida fetal.

Sabe-se hoje que o hemisfério esquerdo é responsável, na maior parte das vezes, pelo controle
da sequência temporal do ato de falar. Assim sendo, a função do hemisfério esquerdo seria
mais lógica, procedendo a uma análise seqüencial da informação, o que está em acordo com o
conceito de processamento sucessivo de Luria.

Wernicke encontrou, no século XIX, mais dificuldades na compreensão e menos na expressão,


em casos de comprometimento do lobo temporal, ao que ele chamou afasia receptiva. Hoje
tem-se claro que no hemisfério esquerdo a área de Wernicke está relacionada, em casos de
lesão, com a dificuldade para encontrar o significado da palavra e sua relação com as outras
palavras da frase. A região temporal correspondente, no hemisfério direito, é responsável pela
musicalidade da fala, pela compreensão da emoção contida no ato de falar, ou seja, de
compreender a carga afetiva da linguagem.

No fim do século XIX James juntou as áreas da linguagem já conhecidas a circunvolução


suprapiramidal e angular do lobo parietal inferior esquerdo.

Atualmente se compreende que as áreas anatômicas da linguagem são mais complexas e


constam:

 Área de Broca, ou área 44, e parte da área 45 de Brodmann, situada no pé da


circunvolução frontal ascendente, responsável pelo planejamento motor da linguagem
oral;

 Área de Wernicke, ou área 42 de Brodmann, situada nas porções mediana e superior


do lobo temporal, responsável pela percepção auditiva envolvida na linguagem;

 Fascículo arqueado que liga as duas áreas anteriores;


 Circunvolução angular ou prega curva, que corresponde à área 39 de Brodmann,
responsável pela interação gnósico-práxica dos lobos parietal, occipital, frontal e
temporal. Está situada no entroncamento parietotemporooccipital, mas também tem
ligações com as áreas motoras da fala e da escrita;

 Circunvolução supramarginal, situada no lobo parietal inferior mais anterior que à


área 39;