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Expediente

Expediente

Editor
Amaral Cavalcante
Produção
Cândida Oliveira
Design Gráfico
Adriano Mendes
Guto Arcieri
José Clécio
Revisão
Yuri Gagarin
Coordenador de Pré-impressão
Marcos Nascimento
Assessoria Técnica
Jeferson Melo
Gerente Editorial
Ana Carolline Oliveira

Colaboradores - Neste Número


Maria Carolina Barcellos (estudante) • Augusto Luitgards (crítico de arte) • Álvaro Müller (jornalista) • Pascoal Maynard (jornalista) • Juliana Almeida (jornalista)
Lindolfo Amaral (doutor em teatro) • João Augusto Gama da Silva (escritor) • Bruno Pinheiro (poeta) • Francisco Pippio (poeta) • Chico Varella (escritor) •
Adiberto de Souza (jornalista) • Gilfrancisco (pesquisador) • Lindvaldo Sousa (pesquisador)

Cumbuca
Ano V | Número 13
cumbuca@segrase.se.gov.br
(79) 3205-7421
Rua Propriá, 227 - Centro
Aracaju - SE

Governo do Estado de Sergipe Serviços Gráficos de Sergipe

Governador Diretor-Presidente (em exercício)


Jackson Barreto Ricardo José Roriz Silva Cruz

Secretário de Estado de Governo Diretor Industrial


Benedito de Figueiredo Mílton Alves

Secretário de Estado da Comunicação Diretor Administrativo-Financeiro


José Sales Neto Ricardo José Roriz Silva Cruz

Cumbuca conta com o apoio da Secretaria de Comunicação Social do Governo do Estado de Sergipe.
sobrevivência e arte
Clínio & Tabaréu

Passos: luteria,

de Notre Dame
Elias Santos:

Lindolfo Amaral
O Corcunda
Maria Carolina
das coisas

Álvaro Müller
Chico Varella
o tempo

Barcellos
carta ao leitor
su
m 04 16 28 48
A diretoria da Segrase, através da
Editora Diário Oficial de Sergipe/EDI-
SE, apresenta a edição nº 13 da Revista

ár
Cumbuca ao seu público leitor, cumprin-

20 36
do, mais uma vez, o dever de divulgar a

10 54
literatura sergipana nos seus mais diver-
sos aspectos e o de promover a atividade

io
cultural em nosso estado.
Como Empresa Estatal no âmbito
do Governo Estadual criada para produ-
zir e publicar o Diário Oficial do Estado
de Sergipe, a Segrase amplia suas fun-
ções institucionais implementando con-

A arte

Cataluzes
multicultural
de Ismael

Augusto
Luitgards

Pascoal Maynard
Pereira

Los Guaranis:

João Augusto
Gama da Silva
Juliana Almeida
os reis de baile

de Holanda:
Gilson Cajueiro

uma lembrança
tinuamente as atividades da sua editora,
a EDISE, responsável por trazer a lume
publicações essenciais à melhor com-
preensão da sergipanidade.
Assim, contribui efetivamente com
a arte e a cultura locais, promovendo o
registro de fatos históricos que nos dizem
respeito, difundindo a produção artística
contemporânea e oxigenando o ambien-
te cultural sergipano com a circulação de
novas ideias.
A revista Cumbuca, pela diversida-
de de temas abordados e pela excelência
dos textos produzidos por jornalistas e 44 - Poesia
intelectuais comprometidos com a difu- Bruno Pinheiro
são das nossas características culturais, Francisco Pippio
cumpre o compromisso do Governo do
Estado de trabalhar pelo desenvolvimen- 58 - Fernando Sávio: jornalista,
to integral do povo sergipano. amigo, intelectual e boêmio
Adiberto de Souza

64 - Imprensa Popular,
Ricardo José Roriz Silva Cruz
Presidente da Segrase
capa Comunista em Sergipe (1949-1964)
Gilfrancisco
Nº 13 - O Mistério da Sorte
Adriano Mendes 72 - Jesuítas como vilões
da História de Sergipe
Antonio Lindvaldo Sousa
Elias Santos
Maria Carolina
Barcellos O tempo das coisas

N o ano de 1983, o jovem Elias Santos


não pensava em outra coisa além de
desenhar e devia ter jeito para a coisa:
garagem, ao mesmo tempo em que seu ir-
mão Geziel tocava saxofone. Elias perce-
beu que a quebra dos ritmos sonoros in-
conquistou seu primeiro ateliê, no Co- fluenciava sua pincelada. Era o início de
légio Estadual Francisco Rosa. Com 19 sua necessidade da experimentação e que
anos incompletos e um All Star furado, deu origem à série “Os músicos”.
o adolescente competitivo descobriu que Aprofundou seu conhecimento téc-
poderia ter suas obras expostas e pre- nico sobre as diversas linguagens das artes
miadas. Ao começar a pintar, conheceu plásticas como bolsista da Escola de Belas
pessoas com quem podia dialogar – co- Artes da UFBA e em seguida foi convi-
mo Ludovice, que o incentivou a produ- dado para uma residência em Rhode Is-
zir paisagens, Osvaldo (da Galeria Zé de land, nos Estados Unidos. Posteriormente
Dome), Florival Santos, entre outros – e graduou-se em História pela Universida-
que o inseriram no mercado de arte em de Tiradentes e fez especialização em Ar-
Aracaju, bastante movimentado na épo- te-educação. Ganhou vários prêmios em
ca. Ainda na casa dos pais, no conjunto Salões de Arte pelo país e fez diversas ex-
Bugio, em Aracaju, começou a pintar na posições individuais e coletivas.

Série: Janela
4 | Cumbuca 2017 para Bispo - 2014. 2017 Cumbuca | 5
Viva Dominguinhos - 2014.

Série: O Prático, Zé Peixe - 2013.

Apesar do domínio em diversas técnicas de desenho, xilogravura, pintura e escul- Gonzagão, Dominguinhos e o bando de
e materiais e do reconhecimento de sua tura. Hoje dá aulas particulares em seu Lampião), mas há qualquer coisa que se-
habilidade precoce, sua produção conti- próprio ateliê, o Espaço de Arte 745. Sua para as gravuras de Elias Santos das tra-
nuaria bem mais ligada ao conceito de atividade profissional vem sendo dividi- dicionais, que remetem à Literatura de
Arte Bruta, em vez de aderir às facili- da há algumas décadas entre a produção Cordel. “Ruídos” (2011) é uma amostra
dades de composições que tenham mais de sua obra e o ensino, algumas vezes do uso da técnica com traços muito par-
apelo comercial, uma escolha consciente. unindo as duas atividades, como no ano ticulares e com abordagem temática com-
Mesmo requisitado com a encomenda de de 2005, quando criou o projeto Gravu- pletamente contemporânea.
retratos e esculturas, Elias Santos pare- ra de Inverno, gerando ações para a di- A trajetória artística de Elias Santos
ce preferir focar sua energia na produção fusão da arte da xilogravura em Sergipe. tem uma marca muito peculiar: ao conse-
de obras que não lhe oferecem nenhum Na última década, aliás, tem pro- guir atingir um domínio técnico que lhe
adiantamento financeiro, e às vezes são duzido com sucesso séries de xilogravu- proporcionaria mercado para viver exclu-
frutos de meses ou anos de estudo sobre ras – muitos com o apoio de editais de sivamente de suas criações, o artista viu-se
temas não encomendados, ou seja, não cultura. Em 2012, criou a série “Bom diante da produção contemporânea, com
fazem apologia a nada além da forma e dia, Gonzagão”, em homenagem ao cen- a qual sentiu verdadeira identificação.
da própria estética. tenário de Luiz Gonzaga, aprovado pe- Com a necessidade de experimentar para
Paralelamente à sua produção ar- lo Ministério da Cultura, que circulou criar uma poética própria, sua obra dei-
tística, passa adiante seu conhecimento, em Exu (PE) e em Sergipe. Ainda com xou de ter como objetivo agradar o gosto
ministrando aulas. É professor do SE- a xilogravura, expôs no Museu Casa da de uma crítica média ou possíveis com-
NAC (SE) desde 1983. Atuou no Nú- Xilogravura, em Campos do Jordão (SP) pradores. A consistência de suas séries de
cleo Arte (no Cultart), na Galeria Álvaro e circulou por diversos museus do país, criações reside exatamente na necessidade
Santos, na Sociedade Semear, com aulas convidado pelo curador e também artis- de não se repetir. O impulso de gerar no-
ta Bené Fonteles, como único sergipano vas sensações submete a técnica, já domi-
a participar da mostra “Nordeste Rein- nada. Mesmo dentro de um universo apa-
ventado na imagem gravada”, ao lado de rentemente definido e confortável, como
nomes como Samico e Mestre Noza. Es- o da xilogravura, existe um traço inquieto
pecificamente no campo da xilogravura, na execução, que transforma uma técnica
há uma aceitação quase imediata da es- tradicional (e com temas que poderíamos
tética ligada aos temas tipicamente nor- chamar de familiares) em produto único
destinos (como as séries homenageando e absolutamente original.

2017 Cumbuca | 7
Série: O Prático, Zé Peixe - 2013.
Gonzaga e o Rio São Francisco
vão bater no meio do mar - 2012.

Foto: Walter Chou.

Em sua maneira de realizar intervenções res, formas e texturas têm muito a dizer Em silêncio, com pregos porosos de ferru-
urbanas, na escolha dos materiais, no viés para quem se dispuser a ouvir. gem, cheiro de borracha desprezada, Elias
que busca para dispor sua composição, Em 2014, foram expostas obras de Santos desperta nos olhos do expectador
Elias Santos sempre recorre ao inusitado, diferentes fases do artista, na exposição in- o que fuzis e bombas, espadas e lanças
o asfalto em vez do sagrado, o ruído no titulada: “O tempo das coisas”, no espaço abrem nos corpos. A ferida aberta da te-
lugar da melodia limpa. Abrindo mão do Semear. As obras ali dispostas apontavam la, a arqueologia da imagem. O sangue é
conforto do público, o artista se mantém para esse caminho sinuoso. Materiais que fictício, mas assombra. Corpos de animais
fiel à proposta de ele próprio não se aco- podiam estar enterrados ou descartados, abandonados. O grito pressentido fica es-
modar. Por isso suas fases parecem dis- ossos que podiam findar esquecidos po- tagnado na violência das formas. Não é
sonantes (ou até mesmo uma negação do savam para o artista como outrora damas mais a morte que vibra: o esqueleto é a paz
momento anterior): o tempo, o espaço e o e naturezas mortas em penumbra. O ero- final do corpo. E a obra é a possibilida-
olhar recusam o rótulo, e o criador prefere tismo e violência sutil de vermelhos, bor- de de vértebras convertidas em surpresa.
não comprometer a recepção do público racha e plástico unidos em aparente caos, Opacidade, absorção, invenção. Arte sem
criando legendas sobre as imagens. As co- mas que é minucioso e árido. moldura, sem prefácio.

Qual desses falta em você?,


8 | Cumbuca 2017 da série A Cor do Osso - 2000. 2017 Cumbuca | 9
A arte multicultural
Augusto
Luitgards de Ismael Pereira

Iemsmael Pereira integra o grupo dos artistas


plásticos em que vida e obra se fundem
prol de nossa fruição estética. A cada nam diante de esquemas de sucesso fácil,
uma de suas criações, o artista agrega as a familiaridade excepcional com as cores e
inúmeras referências estéticas de que ele a capacidade de harmonizar elementos das
tem apropriado ao longo de uma trajetória culturas local e global. Permito-me afirmar
rica de vivências. São, ainda, constituintes que o artista produz uma arte “glocal”. O
desse universo peculiar a inquietação ca- termo é um neologismo cunhado por meio
racterística dos artistas que não se resig- da fusão dos termos global e local para
nomear a presença da dimensão global na
constituição de uma cultura local.

2017 Cumbuca | 11
Dados biográficos
Ismael Pereira Azevedo nasceu no Estado de Sergipe, sem nunca
em 1º de outubro de 1940, na ci- abandonar suas experiências como
dade de Capela-Sergipe, filho de artista plástico.
Pedro Joaquim de Santana, ferrei- A primeira exposição indivi-
ro/mecânico e de Joana Pereira de dual de Ismael aconteceu na Gale-
Azevedo, doméstica. Ainda crian- ria de Arte Álvaro Santos, na época
ça, Ismael já demonstrava inte- em que era presidente o professor
resse pelo desenho, revelando a Clodoaldo de Alencar Filho. Co-
sua nascente vocação em rabis- mo artista plástico, Ismael Perei-
cos espalhados pela casa. ra já foi várias vezes catalogado e
Aos 18 anos, ingressa nas filei- premiado, sendo considerado pela
ras da Força Aérea Brasileira onde crítica especializada como um dos
o seu talento foi mais amplamen- maiores expoentes do chamado
te reconhecido e coroado de pleno “Neo-regionalismo Nordestino”. É
êxito, assumindo a função de dese- filiado a Associação Internacional
nhista do Esquadrão da Base Aérea de Artes Plásticas com sede em
do Salvador. Ao dar baixa da Força Paris – “AIAP”, realizou várias ex-
Aérea, consegue emprego de dese- posições coletivas e individuais no
nhista publicitário em Salvador nu- Brasil e no exterior.
ma fábrica de letreiros luminosos, Chegou um tempo, porém,
onde labora cerca de três anos, e, em que os condicionamentos figu-
após aprender tudo concernente- rativos regionalistas começaram
mente ao ramo, resolve voltar para a sufocar a criatividade do pintor,
Aracaju, com suas economias, ad- ele teve coragem de renovar-se,
quire o maquinário básico e monta formalmente. Primeiro, criou a sé-
seu primeiro negócio, constituindo- rie Guerreiro das Alagoas, na qual
se assim o pioneiro na fabricação os característicos chapéus dos in-
No exercício de apurar a beleza, que, pos- Recebem a atenção da rica paleta do artis-
de letreiros luminosos em acrílico tegrantes desse folguedo popular
teriormente, plasma em suas obras, o ar- ta tanto as convencionais telas quanto ob-
tista lança mão dos arabescos tão presen- jetos de arte popular, muitos deles de ar-
tes na arte islâmica, das volutas utilizadas tifícios anônimos, que são recolhidos em
profusamente na Grécia antiga e no Bar- suas andanças. Notáveis nos trabalhos em
Guerreiros de Alagoas - acrílico sobre tela.
roco e de elementos do pontilhismo carac- tela são as mandalas, elaboradas com pa-
terístico dos impressionistas. ciência monástica e muito apuro técnico.
Ao apropriar-se dessas referências A essas formas primordiais circulares, que
clássicas, Ismael Pereira as ressignifica por povoam o inconsciente coletivo de várias
meio da aproximação com elementos tipi- civilizações, são agregados os já mencio-
camente locais. Essa aproximação não se nados arabescos e volutas, minuciosos ele-
dá de maneira subserviente e nem envolve mentos filiformes e elementos geométricos
qualquer tipo de reprodução acrítica. Pelo dispostos de forma muito peculiar.
contrário, o artista, com muita maestria, Ao migrar das telas para objetos tri-
emprega, refinadamente, o legítimo recur- dimensionais, Ismael generosamente, em-
so do citacionismo, esse procedimento tão prega muitos dos elementos presentes em
usual na alta modernidade e que envolve suas mandalas agregando novos sentidos
o emprego, na concepção e elaboração de a esculturas antropomorfas e zoomorfas,
novas obras, de referenciais já consagrados objetos utilitários e devocionais. No esta-
na História da Arte. belecimento da cumplicidade entre Ismael

12 | Cumbuca 2017
inspiraram-lhe instigantes compo- emprestou um “sotaque” nordesti-
sições geométricas; depois, a Série no àquela linguagem.
Jangada das Alagoas, mostrando Vale ressaltar que, paralela-
velas reduzidas a simples triângu- mente à pintura de cavalete, Ismael
los, agrupadas em sobreposições, Pereira vem transformando objetos
ou servindo de suportes de ele- de cerâmica popular em autênticas
mentos decorativos e até mesmo obras de Arte, ao revesti-los com
logomarcas empresariais. Mais ino- um tratamento pictórico persona-
vadora, ainda, a Série dos Cajus, na líssimo, que os torna peças únicas.
qual não hesitou em desconstruir a Uma prática que, indubitavelmen-
fruta-símbolo de sua terra natal. te, configura uma ligação umbilical
De repente, o artista “des- com as tradições regionais.
cobriu” a mandala e dela se apro- É membro da Academia Ma-
priou para criar composições de ceioense de Letras, sócio honorário
tamanha minudência de detalhes da Associação dos Ex-Combatentes
que mais parecem saída das mãos do Brasil. É Mestre Instalado, Grau
de fada das nossas bordadeiras e 33 da Maçonaria, condecorado com
rendeiras. a “Medalha do Mérito Montezuma”.
Mandala - acrílico.
Aos poucos, porém, as cores Recebeu a Medalha do Mérito Iná-
– que o artista vinha mantendo re- cio Barbosa; a Medalha do Mérito
baixadas e aprisionadas pelos tra- Militar do Corpo de Bombeiros do
ços fortes do seu desenho, liber- Estado de Sergipe; a Medalha Seri-
taram-se, como na Série “Galos gy; a Medalha de Ordem ao Mérito
de Briga”, na qual as cores já cria- Parlamentar do Estado de Sergipe
vam sozinhas as formas pretendi- e o Título de Cidadão Aracajuano
das – isoladas ou afrontadas. Dan- outorgado pela Câmara Municipal
do mais um passo, Ismael Pereira de Aracaju. É Membro da Acade-
dispensa essas últimas referencias mia de Letras de Aracaju, bacharel e variada gama de suportes sobre os quais
miméticas, deixando que as cores em Direito pela Universidade Tira- faz intervenções, o artista transmuta-se
explodissem, com estupefacien- dentes, continua pintando profis- em um demiurgo, na acepção platônica do
te riqueza de nuances, em compo- sionalmente nos suportes tela e termo, pois, ao observar as formas, empre-
sições resolutamente abstratas, cerâmica, escrevendo, publicando nha-se, denodadamente, no trabalhar de
chegando, assim, ao abstracionis- crônicas e artigos e realizando ex- potencializar as possibilidades estéticas de
mo informal onde Ismael Pereira posições periódicas. cada uma delas.
Nesse ofício de potencialização das
possibilidades estéticas, Ismael tem como
aliados a habilidade de estabelecer harmo-
nicamente a composição de suas obras, a
exploração sensível dos recursos óticos, a
criteriosa seleção de cores e as combina-
ções mais produtivas entre elas. Arremata
esse conjunto de elementos formais a lu-
minosidade que o artista tão bem trans-
põe do seu Nordeste para obras.

14 | Cumbuca 2017 2017 Cumbuca | 15


M enos de 30 anos após sua libertação
como escravos, os negros, agora li-
vres, ampliaram sua cultura musical. Das
ninguém aprende samba no colégio...”, arre-
matando:”o samba na realidade não vem do
morro nem lá da cidade...”. Conclusão: o
danças e ritmos do Brasil: polca, lundu, samba é o samba. Ponto!
xote, maxixe, gradativamente, evoluíram. E permanece sendo o baluarte da
Até que, em 1916, na casa da Tia Ciata, nossa cultura musical. Ao seu redor, so-
Ernesto dos Santos - Donga- gravou o brevivem também outras modalidades
inédito Pelo Telefone, que é considerado imortais: choro, samba-canção, sertane-
o marco inicial, o nascimento formal do jo, brega e a imbatível dor de cotovelo - a
samba. Já lá se vão 101 anos. À época, dor de corno, no dizer do populacho. O
nas casas das tias – muitas delas negras resultado dessa miscigenação, desse amál-
forras – a novidade musical se fortaleceu. gama cultural e racial, que se funde num
Donga, Pixinguinha, Sinhô, Heitor dos cadinho de gandaia, é a nossa brasileirís-
Prazeres, João da Baiana fizeram a gran- sima seresta. Nesse universo eclético, nes-
de transição do batuque, para o samba. E sa atmosfera pândega, com grande desen-
o eternizaram. voltura, orbitam dois músicos sergipanos,
A tenra semente, aos trancos e bar- dois grandes amigos de juventude que se
rancos, germinou. Daí em diante foi discri- conhecem desde 1968 e, desde então, di-
minada, considerada música de marginal, gladiam-se em rodas de boêmia, numa
de malandro. Ora proibida formalmente. festança infinda: Clínio Guimarães (voz
Ora tolerada. Entretanto, encorpou. So- e surdo) e Nelson Guimarães – o Taba-
breviveu a tudo e a todos. Atravessou o sé- réu (violão de 6 cordas). Ainda que tendo
culo XX, onde nasceu, e entrou gloriosa- o mesmo sobrenome Guimarães, não tem
mente no atual século. Frondosa árvore de em comum nenhum grau de parentesco.
nossos costumes. Em 1975, Edson Con- São coisas do destino. Coincidências da
ceição e Aloísio Silva, pediam: “não deixe vadiagem. Da vadiagem, advirto. E, por
o samba morrer, não deixe o samba acabar... serem também meus amigos, é sobre eles
“ e, em 1979, Nelson Sargento, tranqui- que falarei.
lizava:”... o samba, agoniza, mas não mor- Pouco menos de 30 quilômetros se-
Chico Varella re...”, Cartola esnobava:”...o samba, com a param Simão Dias de Lagarto, no interior
mesma roupagem que saiu daqui, exibiu-se de Sergipe. Embora cidades limítrofes, a
para a Duquesa de Kent, no Itamaraty...”. distância entre elas, nas décadas de 50 e
E, desde os anos 30, o magistral Noel Ro- 60 era enorme, pela dificuldade de trans-
sa doutrinava:”...batuque é um privilégio, porte. Assim viveram suas infâncias nos-

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1. 2. Clínio e Tabaréu

sos personagens. Clínio, em Simão Dias. musical e uma amizade que completa
Tabaréu, em Lagarto. Clínio recebeu sua meio século de existência. A arte, a cul-
- tura sergipana e os fabricantes de cerveja,
bosa, tipo faz tudo na Filarmônica Lira penhoradamente, agradecem ao Sérgio
Santana podendo-se, inclusive, considerá- por esta aproximação. Daí em diante, foi
-lo leaderband. Tabaréu, recebeu também só alegria.
do pai, o Dr. Guimarães, exímio violinis- Donos de memória musical inve-
ta, tocava na Orquestra Sinfônica de Ser- jável, Clínio e Tabaréu tocam por horas,
cobrindo uma enorme gama de músicas
Ambos nasceram bafejados pelo sopro de de seresta, sem repetição. Vale esclarecer, a
Euterpe, Musa da Música. existência de um caderno usado pelo Clí-
Corria o ano de 1968 e, em Ara- nio que, segundo as más línguas, tem le-
caju, Sérgio Botto promovia agitação tras que vão do maxixe ao cantochão me-
cultural na música de Sergipe. Maestro, dieval, do choro à dança kuarup. Falam
arranjador, compositor, pianista, do alto também que o violão do Tabaréu não é de
dos seus 1,60 metros, era, na realidade 6 cordas. Na realidade, tem sete cordas.
cultural, um indócil gigante. Inventou Sendo a última, invisível. Somente audível
uma roda de música que rolava na Praça nas baixarias e nos acordes.
da Bandeira, bucólico recanto da cidade Audições gratuitas podem ser de-
de Aracaju. Num desses eventos, formal gustadas no Bar e Restaurante do Camilo,
e musicalmente, Clínio e Tabaréu se co- em Aracaju, sextas-feiras às tardes. A alma
nheceram. Estavam criadas uma dupla e o estômago, agradecem de coração.
1. Clínio na bateria de Seu Barbosa, o pai
2. Com Sérgio Botto e Amaral Calvacante na década de 70
2017 Cumbuca | 19
cataluzes Pascoal Maynard

Cataluzes em Portugal, 2007

20 | Cumbuca 2017 2017 Cumbuca | 21


O ano é 1981. Naquele ano, duas bom-
bas explodem em um carro no Pavi-
lhão  Riocentro, no Rio de Janeiro, du-
ro Santo Antônio, aconteceram no início
da década de 70, quando se reuniam nas
imediações da Igreja do Espírito Santo,
de Sergipe, do FLAMP – Festival Lagar-
tense de Música Popular. O nome do gru-
po era “Tempo Concreto” e interpreta-
da história da música popular de Sergipe, o
LP Viagem Cigana”.
Contando com as assessorias da pro-
rante um show comemorativo do Dia do para tocar violão e cantar as músicas de ram a música “Ilhas Olhos”(Essas ilhas lá dutora sergipana, radicada no Rio de Janei-
Trabalhador, matando o sargento Gui- sucesso da época. Esse fazer musical vai no céu / Me fazem pensar nos teus olhos ro, Siomara Madureira, e do agente cultu-
lherme Pereira do Rosário e ferindo o ca- continuar, na segunda metade dos anos / Azuis / Infinitamente mágicos / Brilhos ral da UFS, Luiz Eduardo Oliva, esse disco
pitão Wilson Dias Machado, ambos do 70, na Universidade Federal de Sergipe, brincando no céu / Me lembram rostos contou com arranjos e regência de Paulo
Exército Brasileiro, no chamado Atentado onde Antonio e José participavam ativa- das retinas: / Negros / Magicamente pé- Moura. Teve, ainda, as participações, en-
do Riocentro. mente do movimento estudantil, em que rolas / Ah ! Se eu fosse um pássaro / Dan- tre outros, de Jacques Morelenbaum, Tú-
Luiz Inácio Lula da Silva e outros eram promovidos pequenos shows que çando em volta dos teus olhos / Dessas
sindicalistas são condenados a três anos aconteciam durante as manifestações pro- ilhas azuis / Infinitamente mágicas! / Ilhas
de  prisão,  por incitamento à desordem movidas pelo Diretório Central dos Estu- / Olhos / Olhos / Ilhas / Ilhas / Olhos /
coletiva. dantes (DCE), nos quais Cláudio e os ir- Ilhas / Olhos / Lanternas para minhas tri-
Pelé recebe o título de Atleta do Sé- mão apresentavam-se. lhas ), de autoria de Cláudio e Antonio do
culo, eleito pelo jornal francês  L’Equipe. Começaram a surgir, então, as pri- Amaral. Classificaram-se em segundo lu-
O país vive sob a angústia do golpe mili- meiras composições, carregadas de poética gar e obtiveram, ainda, os prêmios de me-
tar de 1964. social, em sintonia com acordes que eram lhor arranjo e melhor intérprete.
A censura militar dita o que a popu- verdadeiros gritos de liberdade. Essa musi- Após o festival ocorrido em Lagar-
lação brasileira deve ver, ler e ouvir. Não se calidade conquista rapidamente o público to, o grupo resolveu continuar o trabalho
pode pensar em justiça, liberdade, e cida- universitário. A primeira música “Depoi- musical, todavia com o nome “Cataluzes”.
dania. Tudo é proibido. mento” (Cubículo / Clube da loucura / Contando com um extenso volu-
Surgidos no final dos anos 60, os Diverte torturadores, apenas / Mas, curar me de composições, reconhecido e aplau-
festivais de música, espalharam-se pelos ideais / Ah ! Jamais ! / Oh ! Essa pressa, dido em seus espetáculos, principalmente
quatro cantos da nação e continuaram, pressão / Verde opressão de sangue / Gueto pela sua qualidade musical, em meados de
durante quase três décadas, revelando favela, fivela de fogo / amarelo-bandeira / 1983, o grupo entendeu que tinha chegado
grandes nomes da nova música popular Corpo, rastro de pó / És tu, regime ban- o momento de gravar o seu primeiro disco.
brasileira. Muitas dessas músicas cons- dalheira !) foi composta exatamente para Por meio de empréstimo tomado
truídas por meio de versos de “protesto”, servir de pano de fundo aos movimentos pelo grupo à rede bancária e com o apoio
ecoavam pelo país como um grito de resis- grevistas, o que tornaria a participação de- cultural do Banco do Estado de Sergipe
tência ao regime. les cada vez mais solicitada no meio. e da Universidade Federal de Sergipe, se-
Os primeiros encontros musicais Durante o ano de 1981, Cláu- gundo Antonio do Amaral, “ em janeiro
entre Cláudio Miguel e os “Irmãos Ama- dio Miguel, os irmãos José e Antonio do de 1983, o Cataluzes entrava nos estúdios
ral”, como eram chamados os irmãos An- Amaral, juntamente com Valdefrê, parti- Transamérica, no Rio de Janeiro, para gra-
tonio e José, todos eles residentes no bair- ciparam, na cidade de Lagarto, no Estado var as dez faixas do disco mais emblemático

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Cláudio Miguel
Dezoito anos passaram-se entre o
primeiro disco e a produção do CD “San-
gue D’Alma”, gravado no estúdio A Casa
do Som, no Rio de Janeiro, em 2001. Os
arranjos e regência ficaram a cargo de Ruy
Quaresma e Jayme Vignoli. Contou com
os músicos Paulo Moura, Cristóvão Bas-
1. tos, Jurim Moreira, Victor Neto, Andrea
Ernest Dias, Joel Nascimento, Rildo Hora
lio Mourão, Joel Nascimento, Jorge Degas, e Mary Barreto.
além do próprio Paulo Moura. Em 2007, através de um projeto de
Em 1985, com o sucesso do disco intercâmbio cultural Brasil – Portugal, o
“Viagem Cigana” o Cataluzes foi con- Cataluzes realizou uma turnê àquele país,
vidado a participar do a convite do grupo por-
programa Som Brasil, tuguês “Cavaquinhos
produzido pela Rede “Em meados de 1983, e Cantares à Beira”.
Globo, em São Paulo, o grupo entendeu Atuando em seis espetá-
e apresentado por Ro- que tinha chegado o culos em São Pedro do
lando Boldrin. momento de gravar o Sul, Vasconha, Póvoa
Tempos depois, seu primeiro disco”. do Lanhoso e Torres Ve-
retornou a São Pau- dras. No ano de 2009,
lo para realização do por conseguinte, rece-
show de lançamento da campanha tu- beu em Sergipe os cantores e músicos portu-
rística do Governo do Estado de Sergi- gueses para diversas apresentações em Ara-
pe, “Venha Conhecer Sergipe”, no Hil- caju e cidades interioranas. Dois fados fo-
ton Hotel. ram gravados pelo grupo Cataluzes em seus
No ano 2000, Oswaldo Gomes, discos: Fardo de Léguas e Porto de Veias.
violonista e guitarrista, passou a integrar a Em 2013, patrocinado pelo Institu-
formação de base do grupo “Cataluzes”, to Banese, com o apoio da Petrobras e do
substituindo José Amaral, que há época Sebrae, o Cataluzes gravou o seu terceiro
dedicou-se a política sindical. Oswaldo disco, dessa feita pelo selo Fina Flor. Re-
2. trouxe para o grupo a sua experiência mu- cebeu o título “Voltar à Aldeia”. O estú-
sical de muitos anos dedicados a conjuntos dio escolhido foi Alcatea, também no Rio
1. Cláudio Miguel, Oswaldo Gomes. Valdefrê e Tonho Amaral de bailes na cidade de Estância.
2. Projeto Novo Canto (1986) de Janeiro. Teve a produção e regência de

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3.

Ruy Quaresma, direção musical e arranjos


de Valdefrê, a participação dos músicos,
Leo Amuedo, Fernando Merlino, Jurim
Moreira, Andrea Ernest Dias, Marcelo
Caldi e David Chen.
No ano de 2015, o Cataluzes foi
homenageado pelo Governo do Estado de
Sergipe, com a Medalha do Mérito Cul-
tural Tobias Barreto, em solenidade reali-
zada no Museu da gente Sergipana, com a
presença do Governador Jackson Barreto.
Segundo o músico, arranjador e pro-
dutor musical, Ruy Quaresma, o Catalu-
zes realiza um trabalho original com uma
personalidade marcante e em termos de so-
noridade, não aproxima de nenhum grupo
ou artista no cenário musical brasileiro”.
O Cataluzes é composto atual-
mente por Valdefrê (voz e violão), Cláu-
dio Miguel (voz e violão) Oswaldo Go-
mes (voz e violão) e Tonho Amaral (voz
e percussão). A música de maior destaque
do grupo é “Cheiro da Terra”(Lá vem o
dia / Despertando a natureza / Vou se-
guindo a correnteza / Na incerteza de 4.
chegar / Dia após dia / Noite dia sem ces- 3. Projeto Sexta no Parque (1985)
sar / Tanta dor, tanta agonia / Eu assim 4. Cataluzes
não vou ficar / Eu quero o cheiro / Das
manhãs da minha terra / Ver o sol nas-
cer na serra / E o vento norte soprar / Eu
quero mesmo / É ficar bem juntinho dela
/ Na praia de Atalaia / Mirando as ondas
do mar), de autoria de Cláudio Miguel /
part. na letra: José de Gouveia.

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De uma oficina modesta no inte-
rior de Sergipe, Passos cria e re-
cria instrumentos musicais para
o Brasil e para o mundo

Álvaro Müller
Fotos: Valéria Bonini

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ilenciosa, a Ladeira do Açougue vi- diu retornar a São Cristóvão para abrir o renascentistas a pedido do grupo musical
gia o dorso de um imóvel abandonado, próprio negócio. Em 1988, aceitou o con- Renantique, que chegou a fazer um con-
que já serviu de sede para a Prefeitura de vite para restaurar um piano no Conser- certo em 2008 em homenagem ao luthier.
São Cristóvão. No estreito caminho, pe- vatório de Música de Sergipe, mesmo sem O cartaz, já corroído pelo tempo, ele ain-
dras seculares ainda guardam verdades e ter o mínimo de conhecimento em lute- da exibe em duas paredes da oficina. “O
lendas da quarta cidade mais antiga do ria. “Quando cheguei lá, eu vi um violi- pessoal primeiro mandou buscar a planta
Brasil. Alguns moradores garantem: foi no ‘véio’ no porão. Achei o instrumento de uma viola de gamba na Inglaterra, me
exatamente por ali que o Imperador Dom bonito e comecei a ‘futucar’, querer fazer perguntou se eu fazia e respondi que sim.
Pedro II chegou à primeira capital de Ser- igual. Aí veio um pessoal da Paraíba e per- Essa viola é tipo um violoncelo mais traba-
gipe, durante visita, em janeiro de 1860. guntou se eu queria fazer um curso lá. Eu lhado e com cordas feitas de tripa. Depois
Os estudiosos da história jamais aposta- digo: ‘Óia’, rapaz, chegou a oportunidade! que fiz a primeira, já produzi uns oito ins-
riam nisso. Certo mesmo é que hoje são os Passei um ano na Paraíba e, quando re- trumentos para o Renantique. Também
violões, violoncelos, violinos, banjos, ban- tornei, comecei a produzir e vender meus faço serviços para a Orquestra Sinfônica.
dolins, cavaquinhos e pianos que sobem e instrumentos”, relembra. Conserto arco de violino, instrumentos e
descem o vetusto pendor. Agora, tanto tempo após criar os tem muita coisa lá feita por mim”.
O endereço de chegada ou partida é primeiros violões, o luthier franzino, de  
sempre o mesmo: a casa humilde, número pele morena e olhos esverdeados, cabelos O dom
33, de fachada descascada e paredes sem meio grisalhos e jeito pacato, precisa fazer
reboco, onde um senhor de 61 anos todos um esforço natural para apontar até on- Passos constrói e conserta todo ti-
os dias vai inventar e reinventar o som. Lu- de sua arte chegou. “Teve um ano que eu po de instrumento de cordas. É um dos
thier há quase três décadas, José Santos de vendi muito instrumento pra fora. Teve raros restauradores e afinadores de piano
Araújo é a gênese das harmonias perfeitas. até para a... foi para a Espanha, não foi?”, em Sergipe, mas não sabe absolutamente
Tem o dom de esculpir instrumentos de recorre à memória de um amigo. Mas, lo- nada de música. “É o ouvido. O piano foi
cordas que já ganharam o mundo. Só não go em seguida, retoma a narrativa. “Foi o início de tudo. Eu conheço a sonorida-
espere encontrar seu nome de batismo isso mesmo. Nino Karvan e Pedro Men- de, se ‘tá’ boa, ruim, se não presta mais”,
gravado em um deles. “Me chamam donça, músicos sergipanos – você conhe- resume. Depois, pega um tampo de violi-
Passos ou Passinho só porque eu nasci no ce, ‘né’? –, encontraram um cavaquinho no, aproxima da orelha e começa a bater
dia de Nosso Senhor dos Passos. Nada a assinado por mim nas mãos de um ins- levemente com o dedo indicador. “Quan-
ver”, explica, bem-humorado, a origem da trumentista lá. Depois o cara até postou do você ‘tá’ fazendo o instrumento certo,
alcunha que lhe furtou a identidade. um vídeo tocando e me agradecendo. Foi pega, bate aqui, pra ver se ele vai dar um
Passos aprendeu o ofício da marce- o mais longe pra onde já vendi. Agora, no som bem grave ou agudo. Tem que sentir
naria com o pai e começou a fabricar mó- Brasil, já vendi pra tudo”, atesta. o timbre da madeira. Isso é outra ciência
veis ainda menino. Tentou a vida no Rio Em Sergipe, Passos empresta o dom do instrumento”, diz, como se fosse sim-
de Janeiro durante a juventude, mas deci- à fabricação de instrumentos medievais e ples – e, para ele, é.

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“Restauração de piano em Sergipe,
que faça o que eu faço, não tem. O cava-
lete, por exemplo, ninguém sabe esculpir.
Tem um segredo danado: a corda tem que
dar uma volta, senão não faz a afinação.
Quem me ensinou foi um senhor, quan-
do eu fui para o conservatório, chamado
Mosquito, um ‘veinho’ baixo. E tinha ou-
tro cara também, formado na Itália, só que
ele não queria ensinar o segredo da máqui-
na do piano. Quando chegava nessa hora,
mandava a gente comprar um refrigerante
pra não ver. Mas, num final de ano, ele ti-
nha mais de dez pianos pra entregar, ‘tava’
acuado, mandou a gente pegar na máquina Arte compartilhada
e explicou tudo. Se não fosse isso, ninguém
aprendia”, rememora Passos. violino, compro o kit pronto, que é o bloco Além de construir e reformar instru-
Hoje, em outro imóvel localizado na de madeira. Depois é só selecionar o veio mentos, Passos dá aulas gratuitas de luteria.
parte alta de São Cristóvão, o luthier man- pra poder colar e trabalhar. Se você olhar a “Muita gente vem aqui na oficina e não tem
tém um espaço exclusivo para restauração de madeira, vê que ela é toda trigada, então o nem condições de pagar, rapaz. E eu tam-
pianos. “Este aqui é de Dom João, que subs- veio são as linhas, entendeu? Você não po- bém não faço questão de cobrar a ninguém.
tituiu Dom Lessa como arcebispo de Araca- de inverter, ‘né’? Tem que colar a madeira e A pessoa pode ter a situação financeira boa,
ju. Quando ficar pronto, vai pra Lagarto”. deixar as linhas no mesmo sentido, porque pra mim não importa. Eu quero mesmo
é isso que dá a vibração”, detalha. é passar adiante o que aprendi. Já tive de
A matéria-prima Provavelmente por não saber tocar uns 30 alunos pra lá. Alguns hoje estão na
um instrumento, a grande satisfação de Bahia, em São Paulo. Tem um senhor cha-
Os instrumentos de cordas assina- Passos é ouvir um músico profissional elo- mado Genaro que passou um ano e pouco
dos por Passos podem custar entre R$ 1,5 giar o seu trabalho. “Quando chega aqui aqui e agora tem uma escola de luteria no
mil e R$ 8 mil. Quem os adquire garante pra mim e diz: ‘Rapaz, ficou maravilhoso, Mato Grosso do Sul, vende instrumentos
que são mais baratos e têm melhor sono- melhor do que certos famosos que eu vejo eruditos para o Brasil todo”, orgulha-se.
ridade se comparados aos modelos seme- por aí’, é muito gratificante. Tinha uma Na oficina simples da Ladeira do
lhantes, produzidos pela grande indústria. senhora do Conservatório de Música, já é Açougue, um aprendiz de luthier leva pelo
O luthier explica que o tipo de madeira é falecida, chamada dona Nadja, ela tocou menos seis meses para concluir o primeiro
um dos segredos para a perfeição. na Orquestra Brasileira e tinha um violino instrumento. “Logo no início, o ruim é amo-
“Os melhores violões são feitos de de R$ 30 mil. Só quem mexia nos instru- lar e manusear a ferramenta. Às vezes acon-
abeto e jacarandá. O jacarandá está em mentos dela era eu. Isso não tem preço”. tece acidente aqui, com os meninos apren-
extinção e às vezes consigo reaproveitar Por mais que o reconhecimento ve- dendo, mas depois que pega intimidade fica
de móveis antigos. O abeto eu compro em nha, Passos parece não se enxergar enquan- mais fácil. Instrumentos populares, que são
São Paulo, no Espírito Santo, ou reaprovei- to artista. “Todo dia a gente ‘tá’ aprendendo, feitos de madeiras mais planas, o aluno con-
to sobras de pianos que pego pra restaurar ’né’? Nunca aprende, mas eu já tenho um segue fazer com menos de um ano. Já um
e faço um cavaquinho, um bandolim. São bom desempenho com instrumentos clássi- instrumento erudito, mais esculpido, é de
madeiras de 80, 100 anos. Já no caso do cos. Dá pra sobreviver do meu trabalho”. um ano pra lá”, explica o professor.

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N
Predestinado a transformar em ar-
te tudo o que faz, Passos, além de luthier,
é nautimodelista e artista plástico. Apren-
deu as técnicas de construir miniaturas de
barcos com o pai, a exemplo da marcenaria.
Já o dom de pintar paisagens em óleo sobre
tela nasceu com ele. “Não fiz curso não, en-
autimodelismo e pintura:
a arte de Passos e suas
facetas
te metros, fui chamado para ministrar uma
oficina. As embarcações dos meus alunos
continuam expostas na Casa do Iphan. Tem
também uma réplica do submarino alemão
U-507 no Museu da PM. Esse submarino
afundou navios na costa sergipana durante
a Segunda Guerra Mundial, daí surgiu o ce-
mitério dos náufragos”, conta.
Agora Passos prepara uma exposição
de embarcações. “Vou fazer um tototó, um
bem imaterial do nosso Estado; a canoa de
tolda, lusitana, tombada como patrimônio
– aquela que passou na novela Velho Chico
–; o navio gaiola, que chamavam de gaiola
tendeu? Mas vendi uns quadros que deu pra encantada; o Marcílio Dias, considerado por
inteirar e comprar essa casa ‘véia’”, aponta muito tempo o principal navio da Marinha.
para a oficina da Ladeira do Açougue. Então eu tenho réplica desses barcos tudinho
Passos começou a pintar ainda jovem, pra fazer. Uns 15 trabalhos. E ‘tô’ fazendo”.
antes mesmo de aprender a lidar com ins- Com tanta vontade de produzir arte,
trumentos de cordas. “Só que eu não levei Passos desconversa quando o assunto é pa-
a sério, porque não dava pra viver na época. rar de trabalhar. “Enquanto tiver com saú-
Aí parei, fui fazer móveis com meu pai, mas de, a gente vai tocando o barco”.
sempre que tinha um tempo livre eu pintava.
E até hoje pinto. Todos os meus quadros são
vendidos”, assegura.
Já o interesse pelo nautimodelismo foi
aguçado após um convite feito pelo Iphan
para ministrar um curso em São Cristóvão.
“Em 2015, depois que eu fiz um barco de se-

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los Juliana Almeida

guar
-anis Os reis de baile
A década de 1960 foi sui generis para o mundo sob
vários aspectos políticos, econômicos, realizações
de projetos culturais, alternativos e, principalmente,
musicais. É nos anos 60 que o rock no Brasil recebe
o nome de Iê, Iê, Iê. O movimento intitulado Jovem
Guarda, encabeçado por Roberto Carlos, Erasmo
Carlos e Wanderléa, dá aos adolescentes um espaço
importante no cenário cultural.

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“Bahia e Sergipe ficaram pe-
quenos para a Los Guaranis. Já
com cerca de vinte integrantes,
entre músicos, pessoal de apoio

l g
e empresários, a orquestra co-
meçou a viajar pelo país”.

Formação de 1966

Ano de 1963. Diante de tantos aconteci- cujas músicas ao piano eram modas nos quela época tinham conjuntos chamados Sociedade da Bahia divulgavam ampla-
mentos históricos na política mundial, no bailes da época. ‘Los Românticos’, ‘Los Mexicanos’ e ‘Los mente os bailes que lotavam. No reper-
esporte, foi o ano que marcou uma efer- Eram amadores e tocavam para se Mariachis’, então resolvemos mudar pa- tório havia música brasileira, americana,
vescência musical onde os Beatles chegam divertir. Com poucos instrumentos – es- ra Los Guaranis para chamar a atenção”, cubana, tudo que era sucesso. “Começa-
pela primeira vez ao topo da parada britâ- sencialmente de sopro que pegavam em- explica Bosco. mos a expulsar as bandas que tocavam
nica, com a canção “Please Please Me” e o prestado da Lira - se inspiravam no que Inicialmente apenas com músi- nos clubes. Todos queriam Los Guaranis.
Brasil perde um dos seus maiores compo- ouviam nas emissoras de rádio para for- cas instrumentais, Los Guaranis come- Tocamos em todos os clubes de Salvador,
sitores, Lamartine Babo, autor de famosas mar um repertório e se apresentar em pe- ça a expandir suas apresentações para os do pior ao melhor”, relembra Bosco.
marchinhas de carnaval e hinos de clubes quenos bailes em Lagarto e outras cidades clubes de Salvador. Com um repertório Bahia e Sergipe ficaram pequenos
tão representativos como Flamengo, Vas- sergipanas como Itabaiana. Desde cedo já mais exigente, logo vem à necessidade para a Los Guaranis. Já com cerca de vin-
co e Botafogo. A juventude da época se cruzavam as divisas da Bahia para se apre- de colocar um cantor. Mas não podia ser te integrantes, entre músicos, pessoal de
divertia ao som dos bailes em clubes e as sentar em cidades como Adustina, Cícero qualquer cantor. Além da boa voz, tinha apoio e empresários, a orquestra começou
emissoras de rádio traziam os sucessos de Dantas e Paripiranga. que ser bonito e ter presença de palco. O a viajar pelo país. Apresentou-se nos no-
todos os lugares. Em 1967 entra no grupo João Bos- primeiro cantor foi Boaventura ainda no ve estados nordestinos. Chegava a fazer 10
Foi justamente o rádio que alimen- co de Oliveira para ser guitarrista e logo final dos anos 60, depois vieram Alceu shows por mês. A elegância dos músicos
tou o desejo de adolescentes que partici- acaba se tornando empresário da banda. Monteiro, Roberto Alves, Petrúcio, Adal- chamava a atenção. Nos bailes, as apresen-
pavam da Lira Nossa Senhora da Pieda- Viajou para São Paulo e trouxe na mala venon... os clubes de Salvador eram os tações eram impecáveis e difícil era ficar
de, na cidade de Lagarto, distante 75 km teclado e acordeom para incrementar o principais objetivos. Inicialmente foram parado. O aposentado Francisco Macha-
de Aracaju, de formar uma banda para repertório. No início o nome da orquestra o Plataforma, Clube 6 e Piripiri. Não do, 68 anos, morador de Lagarto, lembra
se divertir e interpretar os clássicos dos era apenas “Conjunto Guarany”, referên- eram ainda os clubes mais famosos, mas que começou a acompanhar a Los Gua-
grandes mestres de orquestras america- cia a uma das mais representativas etnias foram suficientes para que a Los Guara- ranis aos 21 anos (idade permitida para ir
nas como Ray Conniff, francesas como indígenas das Américas. Como se tornou nis conquistasse um público baiano cati- aos bailes desacompanhado dos pais), nos
Paul Mauriat e o brasileiro Ed Lincoln, Los Guaranis? Pra ficar “na moda”. “Na- vo já nos anos 70. As rádios Excelsior e bailes “grã-finos”, como diz, nada se com-

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Apresentação em 1970 Iníco da década de 80

parava à qualidade da orquestra. “Quando nhava inclusive os ensaios. Ele se intitula camarim do rei com muitas fotos e boas 50 anos depois
vejo essas orquestras famosas na televisão, fá número um e relembra a importância conversas. “Sem dúvida esse foi um dos
logo penso: ganhar para a Los Guaranis tá do carnaval na popularidade da orques- momentos mais importantes e marcantes Não só de um passado glorioso vi-
difícil”, destaca. tra. “Quando a Los Guaranis ia receber o da nossa carreira. Fomos elogiados pelo ve a Los Guaranis. Claro que com o pas-
dinheiro do carnaval, já estava contratada rei”, relembra emocionado Osman. sar do tempo a orquestra acompanhou as
Carnavais para o próximo ano”, ressalta. A rica trajetória da Los Guaranis traz mudanças de estilos musicais e de público.
shows acompanhando O baile de quatro horas
Nos anos 80 e 90, os músicos da Los Artistas famosos grandes nomes da mú- da Los Guaranis agra-
Guaranis também foram os reis do carna- sica popular brasileira. “O baile de quatro horas da gente de todas as
val de clubes de Aracaju. Era difícil con- Não demorou muito para a Los Cito alguns com enor- da Los Guaranis agrada idades. Não é à toa que
ciliar a agenda com tantos bailes. Foram Guaranis chamar a atenção de artistas na- me risco de muitos fica- gente de todas as ida- seu slogan é “Música de
muitos anos consecutivos nos carnavais do cionais. As apresentações abriam shows de rem de fora: Silvio Cé- des. Não é à toa que seu todas as gerações”. Das
Vasco, Associação Atlética de Sergipe e Iate estrelas da música brasileira como Roberto sar, Nelson Ned, Sérgio slogan é ‘Música de to- tradicionais músicas
Clube de Aracaju. Multidões ficaram até o Carlos. Só com o rei foram três apresenta- Reis, Antônio Marcos, das as gerações’”. americanas, cubanas,
sol raiar ao som das mais famosas marchi- ções. Uma das mais marcantes é relembra- Wanderley Cardoso, mexicanas e da jovem
nhas de carnaval. Foram tempos em que os da por um dos fundadores e ainda tocan- Jerry Adriane, Fagner, Cláudio Fontana. guarda brasileira aos mais novos sucessos
clubes eram os principais locais da folia de do na orquestra, Osman Carvalho. O ano Chegaram a fazer uma tournée de quinze do forró, axé e arrocha.
momo. Sejam nos bailes noturnos ou nas era 1974. O Tênis Clube do município de dias – de Pernambuco à Bahia - acompa- Também com uma nova geração de
famosas matinês, crianças e adultos apro- Feira de Santana, na Bahia, ficou pequeno nhando Benito di Paula, Perla e Alcione. músicos, a orquestra se renova, se atualiza
veitavam os quatro dias de pura alegria. para uma apresentação memorável de Ro- Os artistas mandavam os discos e a orques- e continua a fazer sucesso com um públi-
O músico Reinaldo Prata, segue a berto Carlos, com o show de abertura da tra sergipana ensaiava o repertório. Quando co fiel e conquistando novas platéias. Faz
Los Guaranis desde os anos 60. Acompa- Los Guaranis. Depois do show visita ao as estrelas chegavam já estava tudo pronto. ensaios semanais para manter um reper-

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“Das tradicionais músicas americanas, cubanas,
mexicanas e da jovem guarda brasileira aos mais
novos sucessos do forró, axé e arrocha”.

tório impecável. Ainda hoje grande parte


das apresentações acontece na Bahia. Da
orquestra original estão ainda na ativa Cí-
cero, Osman, Foguinho, Queimadinho e
Alexandre. João Bosco, que nos recebeu
no escritório da banda com muitas fotos
memoráveis e premiações recebidas, não
mais acompanha os bailes, tem a função
de empresário.
O entusiasmo de quem já acompa-
nhou ou ainda acompanha os bailes da
Los Guaranis é impressionante. Na cidade
de Lagarto, a orquestra já é um patrimô-
nio. Difícil encontrar alguém que nunca
tenha ido a um baile dançar. Assim co-
mo é difícil “ficar sentando quando a Los
Guaranis toca”, como bem disse o fã Rei-
naldo Prata. A história conta que ele tem
toda razão!

Bosco e o cantor Benito de Paula Sicero e Roberto Carlos na década de 70

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POESIA
PONTE ESTRELAS ESSE VAPOR
Ela é uma bruxa. Há estas velas, e elas Estes velhinhos chineses
Viu o futuro e me disse: se entendem pessoas. moram aqui, entre duas vértebras.
Consomem-se ao vento Às vezes se beijam,
Nós construímos esta estrutura fantástica. e restam cera. às vezes esquecem.
Em cima, embaixo, por todo lado. São, de fato, chineses.
Há essas pessoas, e elas
Erigimos escolas de liberdade e amor, se percebem fogueiras. O que dizem, não sei.
dispusemos as casas segundo as Linhas de Ley, Em vez de ceder sua luz, Como eu, incompreensíveis.
a acupuntura da Terra. Né, a palavra não diz de nós.
Cidades verdes, legislações avançadas, queimam madeira.
um novo conceito de saúde. Mas o que eles fazem de mim
Ultrapolimos as engrenagens da política. KĀLIKĀ é o mais profundo
Esquenta o aço, — e arroz.
Esta grande obra tinha como objetivo olha em redor.
nossa transformação mais profunda, Sentada na morte, JANEIRO
a resolução do problema do Ser Humano a Deusa do Espaço. Arqueou o peito esta ave estranha.
sobre a face deste planeta, Sem pena, sem bico, sem asas.
em relação com ele, Todos aqui perguntam: Um pássaro sem ideias.
Bruno Pinheiro nasceu em em relação conosco. “que cabeça, minha senhora, Assemelhava-se mais a um livro.
Recife, em 1981, no Hospital arrancarás antes da minha?”
da Polícia Militar. É revisor de Mas não, amigos. Arqueou o peito como se fosse voar,
texto profissional e jornalista Não adiantou. Não pergunto nada. mas, claro, não conseguiria.
formado pela Universidade Que me importa a ordem? Não por lhe faltar asas, coisa à toa,
Federal de Sergipe. Costuma Esta estrutura fantástica, Sei muito bem ser eu mas porque pássaro, para voar, não se
escrever em bares e bancos exterior a nós e nossa criação, a própria vida. prepara
de praça — mais em bares que não poderia nos resolver.
em bancos de praça. Publicou SÃO JOÃO — apenas parte e voa.
pouco em vida, mas como está Os sistemas políticos, Eu junho sem cuidado onde piso.
vivo, organiza seu primeiro as leis, Dança, passo feito som
livro, que se chamará “Yezo”. as instituições, — não é isso?
Anos atrás, arremessou o a educação, Não, não me solte.
coração em direção ao Oriente a tecnologia, Neste tempo, faço minhas suas voltas.
e, assim, prefere escrever a lâmina do pensamento. É uma certa curva, e aí me acho.
sobre paisagens internas, .
silêncios e naturezas vivas. Nada disso funcionou. A dança
é o gozo
Ela me disse: do espaço.
não virá de fora.
A única revolução possível é psicológica.

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ODE À CHUVA
POESIA Francisco
Somente a chuva fazia
desfaltar as ausências
dos dias desalegres de estio
Pippio
de nossa meninice.

Quando a gente
esperava o inverno
não esperava água, apenas. PROBIDADE
Nasci pedra
E havia sempre e, principalmente,
um enorme prazer vivi pedra, Francisco Pippio, nasceu em
na incerteza dessa espera apesar do furtivo rio Graccho Cardoso – Sergipe.
que se multiplicava no lombo das formigas de imponderável água mole. Professor de Sociologia da rede
que se abasteciam das minguadas estadual de ensino de Sergipe, é
palhas verdes de capim, CAVALO DE PAU bacharel em Direito e bacharel
prevendo o tempo de desestio. O cavalo de pau insone enviesou-se e licenciado em Ciências Sociais.
até se postar de frente para a lua. Autor do livro de poemas As
Quando a estação do inverno nascia, Cidades, Editora 7 Letras, 2006
MODO DE FALAR ÀS COISAS O cavalo de pau encarava a largueza do mundo e do livro infantil Cutucando a
Desaceitando vaqueirar vacas (ela nascia primeiro roncando
em nossos peitos), com um olhar aguado onça com vara curta, Cortez
José quis ser vaqueiro de borboletas. de quem julgava que se desarborizou por Editora, 2016. Premiado
As borboletas viviam ocultadas o céu se emborcava
e a chuva papocava nos telhados punição. no Concurso de Contos e
em suas ausências de verão Poemas Manuel Bandeira, do
e não aceitaram ser atangidas feito vacas. das casas que sofriam de abafação.
O cavalo de pau se desimportou Centro Acadêmico de Letras
José encasquetou de vaqueirar as casas com São Jorge montado em seu cavalo branco da Universidade Federal de
que descansavam acocoradas no morro Até que muito depois
uma nesga de sol surgisse no desenho prata da lua. Sergipe - UFS, em 1997 e nos
com suas paredes indesatavelmente azuis Concursos Literários Santo
e de madeira bruta descabida nos portais. das mãos de nossas mães
que estendiam seus arco-íris de chita Ao cavalo de pau interessava apenas Souza de Poesia, 2003 e Núbia
Mas as casas desaceitaram que a lua fosse vista pela coruja Marques de Contos, 2004, da
o laço desavizinhador. nas janelas dos quintais.
que mora no marmeleiro que o pariu Secretaria de Estado da Cultura
José, então, se encegueirou no tanger e que havia lhe emprestado os olhos. de Sergipe.
das palavras devolutas recolhidas na rua. HORIZONTE
As palavras, descompromissadas Onde estiveste de manhã
que não viste o sol, na crista do galo, DESPEDIDA
de protocolos, se desimportavam com o Do amor que me desacompanhou
modo extraordinário de José falar às coisas. avermelhar o horizonte?
na partida, nenhuma falta.
Bem assim, por que Porque o amor permanece no depois.
não acordaste quando
o canto alvar do galo ecoou, É da aridez do abandono,erguido
apesar de não sabermos onde? entre nós como parede chapiscada
escorando o rosto, que me queixo.
O sol, feito lâmina afiada
afastou-nos o galo, É da garapa do beijo,
mas por hora basta-nos que não me lambuzou,
que o horizonte esteja lá. que padeço.

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O Corcunda de Notre Dame
Teatro musical de Sergipe
Lindolfo Amaral para o Brasil

O menor Estado brasileiro tem as suas


ousadias no campo das artes. Além de
ter o mais antigo grupo de Teatro de Rua
do país, que influenciou o surgimento de
dezenas de coletivos em diferentes regiões,
tem também uma companhia dedicada ao
teatro musical. Trata-se da “Companhia
das Artes Tetê Nahas”, que em 2014 fez a
sua primeira turnê, com o espetáculo “O
Corcunda de Notre Dame”. Texto original
do escritor francês Victor Hugo, publicado
em 1831. Pois bem, nos últimos anos gran-
des produções têm ocupado as principais ca-
sas de espetáculos do Rio de Janeiro e São
Paulo, para apresentarem musicais que estão
em cartaz na Europa e nos Estados Unidos.

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Tetê Nahas resolveu ousar, criou uma adaptado pela própria Tetê Nahas, conta companhia e alcançou o seu objetivo. O
companhia em Aracaju para enveredar a história ocorrida na idade média e tem projeto foi selecionado para ser apresenta-
por esse caminho, excursionar pelo in- como cenário a catedral de Notre Dame, do nas cidades de São Paulo, Rio de Janei-
terior sergipano e por algumas capitais localizada nos arredores de Paris. Quasí- ro, Maceió e Recife. E assim aconteceu.
brasileiras. modo, um corcunda que mora enclausu- Em 2014, a companhia realizou a turnê
A “Companhia das artes Tetê rado, desde a sua infância, nos porões da que foi aplaudida pelo público. Esse fato
Nahas” foi fundada em 2012, com o ob- igreja, certo dia decide sair da escuridão e seria comum se fosse uma produção do
jetivo de montar espetáculos musicais. E conhece Esmeralda, uma bela cigana, por Sudeste. Mas, trata-se de um grupo ser-
o seu primeiro trabalho, “O Corcunda de quem se apaixona. Mas para conseguir gipano que resolveu enveredar pelos ca-
Notre Dame”, teve sua estreia em dezem- concretizar seu amor terá que enfrentar o minhos dos grandes musicais, experiência
bro daquele ano, no Teatro Tobias Barre- poderoso Claude Frollo e seu ajudante Fe- ímpar na história do nosso teatro.
to. Com cerca de vinte e cinco integran- bo. Toda a trama é pontuada por músicas A Companhia também foi con-
tes. O espetáculo surpreendeu a todos e coreografias. vidada pelo Governo do Maranhão pa-
pela qualidade da sua produção. Cenários Em 2013, Tetê Nahas resolveu ra apresentar-se no secular Teatro Arthur
gigantes, figurinos e maquiagens impecá- inscrever o espetáculo no edital de teatro Azevedo, dentro da programação da Se-
veis, interpretações cuidadosas e coreo- Prêmio Myriam Muniz, da FUNARTE, mana de Teatro de São Luís, em 2014.
grafias simples, mas eficientes. O texto, a fim de excursionar pelo país com a sua É mais uma prova da repercussão do

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trabalho de Tetê Nahas que tem longa de João Augusto, adaptado por Valdice
trajetória no teatro sergipano, iniciada Teles. A personagem Urânia, marcou de-
na infância, no final da década de 1970, finitivamente a carreira de Tetê Nahas e
quando participou do Grupo Check Up, a tornou reconhecida pelas aparições em
do saudoso Diretor Bosco Scaffs. Foi vários programas de TV. A montagem
uma das fundadoras do Grupo Imagem, dirigida por Ivaldo Bertazzo, em 1999,
idealizado por Cícero Alberto, na déca- “Além da linha d’água”, em que con-
da de 1980. Participou também, do Gru- tracenou com Marília Pêra, ao lado dos
po Asas de Teatro, dirigido pelo baiano seus companheiros do Imbuaça, foi outra
Paulo Barros. Teve sua maior experiên- grande experiência.
cia no Grupo Imbuaça, onde permane- Hoje, Tetê Nahas, formada pela
ceu 17 anos, atuou em vários espetáculos Universidade Federal de Sergipe, em Li-
e excursionou pelo Brasil e exterior. Vale cenciatura de Teatro, prepara mais uma
destacar o trabalho realizado sob a dire- produção com a sua companhia. E den-
ção de Mariano Antônio, em 1995, na tro em breve, os palcos serão invadidos
montagem de “Antônio meu santo”, texto por mais um grande musical.

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Gilson Cajueiro de Holanda Em 1970 Gilson Holanda era o secre- estudantil em Sergipe” estava na pauta
João Augusto
Gama da Silva uma lembrança tário da fazenda do estado de Sergipe
no governo de João Garcez que, em um
para julgamento.O regime havia endure-
cido. No final de 1968 o regime militar
mandato-tampão concluía o governo de edita um monstro jurídico, o ato institu-
Lourival Batista que havia renunciado cional nr. 5. Em 1971 a auditoria militar
para concorrer ao Senado Federal. Cheio de Salvador condena o estudante poti-

J osé Borba Pedreira Lapa havia sido


juiz-auditor da Sexta Região Mili-
tar, em Salvador. Em 1969, no período
militar, para usar quando das “alega-
ções finais”.
O casal Manoel e Lurdes de Ho-
de receios para não criar constrangimen-
tos, procurei Gilson, na secretaria da Fa-
zenda, no edifício Walter Franco para
guar Theodomiro Romeiro à morte por
fuzilamento pelo assassinato do sargento
da aeronáutica Walder Xavier de Lima.
mais duro do regime militar, era advo- landa e os filhos chegaram em Sergipe lhe pedir uma declaração que me conhe- As condenações nas auditorias militares
gado de presos e processados políticos em 1952. Manoel e Lurdes vinham de cia, atestando a minha “boa conduta”. de Salvador, Recife e Ouro Preto se tor-
na auditoria militar, na Bahia. Capaz, Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Disse-lhe que compreenderia se houvesse naram rotineiras.
conciliador, Borba sabia transitar em Químico dos mais conceituados, Dr. problema. Ele apontou para uma máqui- Em novembro de 1970, no domin-
um ambiente sombrio, cheio de arma- Holanda como era conhecido, pertencia na de escrever dizendo que eu fizesse a go que antecedeu as eleições, a policia
dilhas. Fui apresentado a ele por Viana aos quadros do IAA (Instituto do Açú- declaração com eu achasse conveniente federal passou na minha casa para me
de Assis. car e do Álcool) e fora transferido para que ele assinaria. E assim o fez. Eu tinha prender. Era uma tentativa de intimi-
José Borba era meu advogado na Sergipe. A família chegou completa. Ou passado por diversas negativas. Até de dar o MDB( Movimento Democrático
auditoria militar de Salvador, no pro- quase. Aqui em 1953 nasceu Maneca. pessoas que, na minha visão de jovem, Brasileiro). Não me encontrou. Passara
cesso que respondia com diversos com- Gilson Holanda chegou em Sergipe no não teriam problema em me fornecer as o dia na casa de Marcos Melo com Be-
panheiros por “agitação no movimento início da sua adolescência. Nascido em tais declarações. Eram tempos difíceis, nedito Figueiredo e Ariosvaldo Figuei-
estudantil em Sergipe” e me pediu que 24 de outubro de 1939. Estudou, como tempo de medo e solidão. redo, na av. Barão de Maroim. Naquela
conseguisse algumas declarações escri- todos os seus irmãos e irmãs, no Co- O processo que eu respondia por época Marcos Melo tocava violão. Não
tas de pessoas de projeção social, dizen- légio Tobias Barreto, formando-se em “atividades subversivas no movimento tinha ainda se dedicado ao sax. Preocu-
do que eu não era perigoso ao regime ciências econômicas em 1963.

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pado com a prisão procurei Gilson ime- da Faculdade de Ciências Econômicas e
diatamente disse que iria à policia fede- Reitor da Universidade Federal.
ral. Foi impedido por Jaime Araújo que Como economista de orientação
ponderou, acertadamente que evitasse a cepalina, de Raul Presbich, acreditava na
exposição. Afinal, Gilson era secretário tese do crescimento econômico da Amé-
de estado. O próprio Jaime, cassado, em rica Latina pela famosa teoria da “ subs-
uma atitude temerária, foi até o órgão tituição da pauta de importação”. O Bra-
de repressão. O delegado lhe informou sil deveria começar a sair do modelo de
que não havia mais nenhuma ordem de exportador de produtos primários e fa-
prisão contra mim. Por via das dúvidas bricar aqui dentro, com capitais públicos
dormi na casa de Gilson Holanda. A re- e privados o que importava do “primeiro
pressão do regime militar funcionou. O mundo”.
MDB sofreu um massacre nas urnas. Em Discreto, recebeu quando Reitor
Sergipe, José Carlos Teixeira, o segundo a cidade universitária de São Cristóvão
candidato mais votado no estado para inaugurada com apenas a reitoria fun-
deputado federal não se elegeu. cionando. Com grande esforço, transfere
Gilson Cajueiro de Holanda, ser- o Centro de Ciências Exatas e Tecnolo-
gipano nascido em Pernambuco, era um gia, instalando efetivamente o Campus
homem tranquilo. Solidário na nossa Universitário. Com problemas de saúde
adversidade entendia a aflição que vivía- afastou-se ainda com plena capacidade
mos. Exerceu com equilíbrio e sensatez intelectual do serviço público. Foi uma
os diversos cargos que ocupou. Foi pro- pena. Tinha muito a contribuir. Sabia
fessor universitário, economista, auditor das potencialidades de Sergipe e acredi-
e conselheiro do Tribunal de Contas de tava que era possível fazê-lo crescer. Sua
Sergipe, Secretário da Fazenda, Diretor presença faz falta.
Gilson Holanda, Angélica
Valadão, Aparecida Gama e
João Augusto Gama - 1970.

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N ascido em Aracaju, Fernando Sávio
Brandão de Oliveira morou em Pe-
nedo dos tenros oito meses aos 17 anos
terceiro botão, o que o tornava mais notá-
vel entre nós”.
Quando retorna para Aracaju com
de idade. E foi naquela cidade alagoana, os pais e irmãos, Fernando Sávio não ti-
banhada pelo rio São Francisco, que ele nha dúvida que seria jornalista. E dos
teve o primeiro contato com o vírus do bons. Começa a trabalhar como “foca”
jornalismo. Coroinha, ajudou a celebrar (era assim que os veteranos chamavam o
missa em latim no Convento Nossa Se- repórter iniciante) no Jornal da Cidade,
nhora dos Anjos. Neste ofício juvenil, pô- com a sede ainda localizada na rua Santo
de manusear os livros do frei Libório, des- Amaro, quase em frente à Maçonaria. A
pertando logo o gosto pela leitura. Embo- partir de então, passou por todos os jor-
ra muito jovem, editou um jornalzinho, nais da capital, trabalhando como repór-
escrito a mão, que abordava o cotidiano ter e editor. No prefácio do livro “Notas
penedense e circulava entre os amigos de Silas Pelapapa – crônicas de Fernando
próximos. Uma enorme cabeça de galo Sávio”, o jornalista Luciano Correia lem-
ladeava a logomarca do periódico Abra- bra que o amigo e compadre também tra-
xas, palavra grega de significado místico balhou nas TVs Atalaia e Sergipe.
no sistema gnóstico.
Uma das melhores definições sobre Citado na UFBA
Sávio é do poeta e jornalista Amaral Ca-
Adiberto de Souza valcante: “Gostava de ser chamado com Luciano conta que Fernando brilhou
todos os efes e erres, um nome de quatro no jornal A Tarde da Bahia, “onde pelejava
costados como exigia sua imponente figu- com o editor-chefe Reynivaldo Brito, que
ra de brancuras europeias e olhar ultrama- nas aulas do curso de jornalismo da UFBA
rino. Caía-lhe sobre os ombros uma viçosa o apontava como modelo de eficiência”.
cabeleira de fios negros e sedosos, largados Na crônica “Perdão, Luz Del Fuego”, Sá-
ao desalinho para acentuar a rebeldia que vio lembra que em A Tarde “recebia um
imperava nele todo. Grandão, malandro modesto salário de repórter, de maneira
de conversa fácil e boa praça, Fernando que era forçoso economizar o bastante pa-
trazia no peito uma marca inquietante: a ra pagar o apartamento do Beco Maria da
enorme cicatriz que lhe deixara uma ci- Paz, roupa lavada, transporte, essas coisas,
rurgia coronária, riscando-lhe o tórax de e ainda sobrar dinheiro para as beberragens
cima a baixo, e que ele gozava prazer em na Cantina da Lua”, reduto de jornalistas,
mostrar, abrindo sempre a camisa até o músicos, boêmios e intelectuais.

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Com Luciano Sávio, o filho

Na passagem pelo principal jornal seu texto”, lembra Aberto, jornalista cari-
baiano, Fernando também impressionou rense radicado em Salvador.
o jornalista sergipano Alberto Oliveira:
“Ele tinha pelo menos duas qualidades: Salvo pelo texto
um texto exuberante e a humildade de
aceitar modificações nele; e um defeito: foi A irreverência era uma marca em
jornalista 20 anos depois do que deveria Fernando Sávio. Segundo Amaral, “talvez
ter sido. Escrevia respeitando as vírgulas, a porque nunca se importasse com as conse-
concordância, lapidando o estilo, buscan- quências do que fazia”. E o poeta tem ra-
do as palavras certas e a ordem exata delas; zão. Certa feita, nosso jornalista se juntou
o jornalismo de sua época, no entanto, co- a uma hippie e, depois de todos os goles
meçava a considerar tudo isso uma perda e fumos, foram à penitenciária de Aracaju não deixando nada a dever aos grandes da
de tempo”. insuflar os policiais a soltarem os detentos, literatura, como Garcia Marques e João
E Alberto prossegue: “Em A Tarde, “estes pobres injustiçados”. Foram presos! Ubaldo Ribeiro. Era um excelente editor
trabalhamos em editorias diferentes. Eu, O sargento que lavrou o flagrante propôs e pauteiro. Um repórter completo, levan-
em Economia; ele, em que os enquadrassem tava tudo sobre a notícia e escrevia de for-
Cidade. No carnaval, na Lei de Segurança ma objetiva e factual. Irreverente, possuía
no entanto, quando to- “O coronel respon- Nacional. O coronel um humor cortante, mas era também um
das se fundiam porque sável pelo caso também responsável pelo caso amigo doce e cativante, frisa.
a edição tinha um úni- achou uma insubordina- também achou uma Carlos Magno lembra de como ter-
co tema – a folia, pude ção sem limite a atitude insubordinação sem li- minou com Fernando uma noitada de
editar suas reportagens. de Sávio, mas ponderou: mite a atitude de Sávio, boemia: “Na madrugada, o convidei para
Lembro de uma delas, “Só não ferro com você mas ponderou: “Só não dormir no meu apartamento, que era vizi-
em que narrava terem porque adoro suas crôni- ferro com você porque nho ao escritório de um advogado traba-
colocado uma fantasia cas na Folha da Praia”. adoro suas crônicas na lhista. Ali, desempregados faziam fila logo
(então conhecida co- Folha da Praia”. Dito cedo para serem atendidos. Acordei às 8
mo mortalha) na estátua do poeta Castro isso, encerrou o Inquérito Policial Militar. horas, com dezenas de peões dando risa-
Alves. Troquei a legenda da foto para al- Colega de Sávio na Gazeta de das. Deitado na sala, com a porta aberta
go como ‘antes te houvessem rasgado na Sergipe e na Folha da Praia, o jornalis- para espantar o calor, meu amigo estava
avenida que servires ao poeta de mortalha’, ta Carlos Magno diz que “ter convivido nú em pelo e roncava igual a um porco. A
empréstimo deslavado de verso célebre do com Fernando foi um privilégio. Ele foi síndica, uma senhora de óculos fundo de
Navio Negreiro. Nunca esqueci da alegria o cara mais inteligente e interessante que garrafa, batia palmas bem forte para acor-
de Fernando, pulando na Redação, por conheci na vida. Escrevia com estilo in- dá-lo. Quando Fernando abriu os olhos,
considerar que a edição havia valorizado confundível, seu texto era deslumbrante, ela bufou: ‘Bonito isso, né, moço?’. Ainda

60 | Cumbuca 2017 Com a esposa Dina


bêbado, ele apenas resmungou: ‘Ahhhh!’. fictícia candidatura de Fernando Sávio a
Virou de lado e voltou a roncar bem alto. governador de Sergipe. O ano era 1986.
Pedi desculpas à síndica e fechei a porta”. Ao perceber chegando para almoçar o en-
Segundo o jornalista Nestor Amazo- tão prefeito de Capela, Zé da Bomba, nos-
nas, Fernando não era um único ser. “Ele so “candidato” o indagou: “Prefeito, sabe
possuía vários personagens, talvez cópias qual meu primeiro ato como governa-
dele mesmo, como no filme Multiplicity, dor?”. Diante da negativa do político, ele
que no Brasil se chamou Eu, Minha Mu- emendou: “Nomeá-lo secretário da Fazen-
lher e Minhas Cópias. As cópias que habi- da. E sabe qual será meu segundo ato?”.
tavam Fernando se parecem, mas sempre Ao ouvir um outro não, Fernando arre-
há uma característica diferente que predo- matou: “Exonerá-lo como ladrão”. Precisa
mina. Assim vi e vejo Fernando Sávio. O contar a confusão que se formou?
corpo é o mesmo, mas mudam o olhar, o A jornalista Ilma Fontes lembra que
humor e a forma de viver a vida. Impres- Fernando lhe contou “como fumou folhas
sionava-me como o jornalista ácido, quase de alface e curtiu o maior ‘barato’ só de pen-
brutalizado por seus valores, se adocicava sar que estava de fato’ lombrado’. Eu sempre
quando minha filha Nara, então com dois soube que Fernando Sávio bebia para ficar
anos de idade, alisava a barba dele... Fer- mais terreno, mais pesado, menos voador”.
nando se derretia, era ternura pura. Em to- A propósito, ninguém melhor do que o
dos, se destacavam a inteligência intensa, a poeta Amaral Cavalcante para fechar estas
disposição para o embate e o humor como mal traçadas linhas sobre este inesquecível
“Era um excelente editor arma ferina. Deixou saudades em todos amigo, que morreu em 21 de maio de 1989,
e pauteiro. Um repórter eles, Fernando, o Sávio...”. com apenas 35 anos de idade: “Fernando
completo, levantava tudo Sávio Brandão de Oliveira era, sobretudo,
sobre a notícia e escrevia Candidato a governador um boêmio consciente da sua genialidade,
de forma objetiva e factual. um homem emocionado com a sua própria
Irreverente, possuía um No bar e restaurante Cacique Chá, capacidade de alumbramento, um escritor
humor cortante, mas era localizado no centro de Aracaju e reduto completo de bem humoradas convicções,
também um amigo doce e de jornalistas, boêmios, empresários e po- um letrado de bem com a sua escrita e um
cativante”. líticos, funcionou o “comitê político” da amigo bom pra caralho”.

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João Batista L. e Silva

João Melo Armando Domingues

Carloman Carlos Borges

Fragmon Carlos Borges


Austrogesilo Santana Porto José Waldson O. Campos A té hoje não se sabe nada sobre a ori-
gem e trajetória do Partido Comunis-
ta em Sergipe, os primeiros companhei-
(1905-1991) que inconformado com os
versos de Marighella que o ridiculari-
zavam, manda prendê-lo e espancá-lo

Imprensa
ros, as primeiras reuniões, as detenções ou na terra dos irmãos Gorender, Leôncio
prisões, o ano em que chegou aqui na pro- Basbaum, Mario Alves, Edison Carnei-
víncia e se estabeleceu como agremiação ro, Maurício Grabóis, Ruy Facó, Milton

Popular política. Temos registro que alguns acadê-


micos do Atheneu, Joel Silveira e Carlos
Garcia, colaboravam na Voz Operária, ór-
Cayres de Brito, João Falcão, Diógenes
Arruda e tantos outros dirigentes comu-
nistas baianos.
Márcio Rollemberg Leite Comunista gão do Centro Operário Sergipano.
Nenhum dos membros do PCB,
Nos anos trinta as ideias comunis-
tas e integralistas já estavam nas páginas

em Sergipe
na época se interessou em registrar a da- dos jornais sergipanos, divulgadas atra-
ta nem os nomes dos companheiros fun- vés de artigos dos acadêmicos do curso
dadores. Não há registros em jornais ou de Direito da Faculdade da Bahia, Carlos
Carlos Garcia
1949-1964 documentos até o momento descoberto.
Na Bahia as ideias se afloram no início
Garcia (1915-1971), Sinval Palmeira mi-
litantes comunistas presos em 1935. Em
dos anos 30. Dois anos depois Carlos 1937 é criada na Bahia a primeira revista
Gilfrancisco Marighella (1911-1969) ingressa na Ju- comunista do país, Seiva, criada em 1937
ventude Comunista e participa de mani- e dirigida por João Falcão, onde colabo-
festações contra o regime autoritário e o ram intelectuais sergipanos como Carlos
interventor (cearense) Juracy Magalhães Garcia e João Carlos Borges.

Renato Mazze Lucas

2017 Cumbuca | 65
A Verdade (1949-1951) de Bombeiros, utilizando-se de viaturas da Secretaria de Segurança Pública, do Esta- sergipano: “pela paz, contra as guerras
Prefeitura a do D.E.R., invadiram a reda- do de Sergipe, prendem dezenas de comu- de agressões, e o envio de tropas brasi-

O rador da turma de formandos em de- ção e oficinas do jornal, apreendendo a sua nistas. O jornal A Verdade teve a porta leiras para a Coréia ou qualquer outra
zembro de 1945 da Escola Técnica de edição especial que devia circular naquele arrombada por três ou quatro investigado- parte, por melhores dias para os traba-
Comercio - Sergipe, José Waldson de Oli- dia. De arma em punho, num acinte de res que, exorbitando da sua autoridade de lhadores e todo o povo”.3
veira Campos (1926), teve como colega o violência, os policiadores praticaram toda lá arrancaram o seu diretor: A imprensa popular sergipana não
companheiro de luta Fragmon Carlos Bor- sorte de arbitrariedade, ameaçando mesmo “Alguns foram presos e agarrados se intimida com as constantes ameaças e
ges que não se formou na mesma turma. depredar as oficinas e máquinas daquele ór- em plena Rua João Pessoa sem nenhum continua enfrentando as dificuldades fi-
José Waldson é o primeiro diretor de um gão da imprensa sergipana. A brutal agres- flagrante de atividade ilegal. Outros foram nanceiras para mantê-la e recorre ao po-
jornal comunista que circulou em Sergipe, são da polícia incomodou, inclusive, o sos- trazidos à Chefatura quando discursavam vo sergipano para conseguir recursos na
A Verdade, que sobreviveu com muitas di- sego da vizinhança, que foram tomadas de em ônibus coletivos, numa atitude, aliás, compra de novos equipamentos gráficos.
ficuldades tendo seus jornalistas e operários pânico, sob a ameaça de terem as suas casas responsável porque, mesmo num regime Contando com o apoio da Imprensa Ser-
presos por várias vezes e suas oficinas des- revistadas pelos desordeiros policiais”. 1 em que se respirasse um clima de liberda- gipana, por uma imprensa popular e de-
truídas pela força policial do estado de Ser- Segundo o que foi apurado os pre- de ideal, poderia suscitar a parte, discus- mocrática, publica quase que diariamente
gipe. Alguns colaboradores: Renato Mazze juízos montam a mais de Cr$300.000,00 sões e tumultos com graves perigos para os apelos como este, “Cem mil cruzeiros para
Lucas, Fragmon Carlos Borges, José Wald- e os membros da comissão, responsabili- passageiros, senhoras e trabalhadores que, a Imprensa Popular”:
son, Carlos Prestes, Astrojildo Pereira zam o Governo do Estado e o seu Secretá- cuidavam apenas de se transportar ao tra- “Mais uma vez nos dirigimos ao po-
Na manhã do dia 7 de janeiro, nu- rio de Segurança por esses danos. balho ou ao repouso. vo sergipano, após os graves atentados so-
merosos policiais, inclusive investigadores, O jornalista do Sergipe-Jornal, J. É necessário que as autoridades fridos pela imprensa democrática de nosso
dirigidos pelo inspetor de segurança, in- Gusmão de Andrade publica o artigo Os compreendam os limites que separam a Estado por parte dos grupos dominantes,
vadiram as oficinas do jornal A Verdade, inimigos da Liberdade de Imprensa, defesa da ordem e os direitos dos cidadãos com que mandaram depredar e incendiar
apreendendo a edição que devia circular que assim inicia: inclusive de liberdade de imprensa (quer a tipografia onde era impresso o jornal
em homenagem à data da Independência, “Em terras sergipanas novamente a sejam comunistas ou não), como também popular A Verdade. Com o crescente pe-
além de ameaçarem de prisão jornalistas e liberdade de imprensa está sob o arbítrio os que os comunistas não confundam agi- rigo de guerra e agravação da situação de
operários das oficinas. O Correio de Ara- das autoridades policiais. tação da ordem com agitação de proble- miséria e pauperismo das grandes massas
caju, também registrou este atentado que Repetem-se agora os mesmos aten- mas que eles julguem necessário adverti- populares, se torna urgente e inadiável a
culminou com a invasão da redação e ofi- tados, as mesmas violências do passado rem ou defender. necessidade de fazer voltar à circulação os
cinas do jornal: estadonovista, quando eram crime e liber- O que é que o povo não pode ser jornais que defendem realmente a paz e são
“Esteve nesta manhã em nossa re- dade de pensar, falar e escrever. joguete de um e outro lado”.2 os porta vozes firmes e – consequentemente
dação uma comissão de jornalistas de A Naquela época, durante o período As perseguições continuam meses dos operários, camponeses e de todo o po-
Verdade, composta dos Srs. José Waldson, intervencionista do Sr. Maynard Gomes, depois a Associação Sergipana de Aju- vo, que lutam por alcançar dias melhores e
Fragmon Borges, José Rosa de Oliveira e era Secretário de segurança o Sr. Manuel da à Imprensa Popular, dirige-se a todos mais justas condições de existência”.4
Renato Chagas, para protestar contra as Ribeiro, sobre quem pesa ainda hoje, a para protestar contra os graves atenta-
últimas violências da polícia culminadas responsabilidade da invasão e fechamento dos à Imprensa democrática verificada Jornal do Povo (1945-1948)
ontem com invasão da redação e oficinas por longos dias, do Sergipe-Jornal e Cor- em nosso Estado, que culminou com a
daquele jornal. Às 10 horas e meia de on- reio de Aracaju.” bárbara depredação e incêndio da tipo- Tendo iniciado a sua publicação no
tem, justamente quando o povo se prepa- No final do mês de agosto de 1951 grafia que imprime A Verdade, jornal final do mês de novembro, o semanário
rava para comemorar as solenidades do um grupo de investigadores, por ordem da profundamente ligado às lutas do povo
Dia da Independência, cerca de 40 policia- 3 Sergipe-Jornal. Aracaju, 29 de setembro, 1951.
dores, investigadores e soldados do Corpo 1 Correio de Aracaju. Aracaju, 8 de setembro, 1951. 2 Gazeta Socialista. Aracaju, 1º de setembro, 1951. 4 Sergipe-Jornal. Aracaju, 31 de outubro, 1951.

66 | Cumbuca 2017 2017 Cumbuca | 67


sergipano foi dirigido por vários jorna- vogado da defesa o militante comunista vos das constantes perseguições por parte colaboradores que assinam produções em
listas, começando pelo advogado Márcio Carlos Garcia. O jornalista Paulo Cos- do governo: Época, a maioria são membros do Partido
Rollemberg Leite seguido pelo filósofo João ta, diretor do Sergipe-Jornal, contesta a “O fechamento do Jornal do Povo Comunista ou simpatizantes. Muitos de-
Batista Lima e Silva e finalizando com o invasão do jornal popular, através do ar- foi uma medida desesperada do peque- les haviam atuado no Jornal do Povo, di-
advogado Carlos Garcia. O periódico al- tigo Uma Medida Arbitrária: “Tivesse o no grupo fascista que sonha o retorno rigido por Walter Sampaio. A capa, de cor
cançou em edição de abril de 1946 uma cuidado de verificar o registro do Jornal de nossa Pátria à ditadura estado-novista amarelada, desenho de Álvaro Santo sobre
tiragem de dois mil exemplares, caso raro do Povo e logo se aperceberia, a polícia e, principalmente, de serviçais do Estado Monteiro Lobato é uma homenagem do
para um semanário. A única coleção exis- sergipana, que ele não é propriedade de Novo enquistados no Governo do Sr. José pintor sergipano ao intelectual criador de
tente no Estado, pertencente ao acervo do nenhum partido político”. Rollemberg Leite, que se prevalecendo de Jeca Tatu e Zé Brasil, por sua luta em de-
Instituto Histórico e Geográfico de Sergi- O fechamento do Jornal do Povo uma circular capciosa, inconstitucional e fesa do nosso petróleo e da independência
pe, encontra-se incom- mereceu um artigo bri- ilegal do ministro de chumbo Costa Neto, econômica e política do Brasil.
pleta iniciando a partir lhante e esclarecedor, apressaram-se em ultrapassar as sugestões Impresso na Tipografia Nacional –
do número 7, Ano I, 3 “Fechado pela polícia em publicado no Correio ditatoriais do Ministro da Justiça, a fim de Rua S. Vicente, 86 – Aracaju, conforme
de janeiro de 1946 in- 14 de maio de 1945, o de Aracaju, provavel- fazer média perante o ditador Dutra e sua anúncio publicitário, no número 2. O Ex-
do até o nº279, Ano III, Jornal do Povo impetrou mente escrito pelo re- “entourage” de banqueiros e tubarões dos pediente da revista era constituído da se-
31 de dezembro, 1947.5 uma ordem de habeas- dator Carlos Garcia. lucros extraordinários, a serviço do impe- guinte forma: Diretor (Walter Sampaio),
Foram muitos os seus corpus ao Egrégio Tribu- Vejamos na íntegra: rialismo ianque”. Secretário (Nélson de Araújo), Redator
colaboradores durante nal de Apelação, tendo “Somente nos Na reabertura do Jornal do Povo em (Fragmon Carlos Borges). Tinha como
os três anos de existên- como advogado da defe- regimes ditatoriais se 3 de junho foi publicado um pequeno ar- ilustradores (Álvaro Santo e Jenner Au-
cia, veja alguns: Aus- sa o militante comunista amordaça o pensamen- tigo esclarecendo o fechamento do mesmo: gusto). A redação da revista Época ficava
trogesilo Porto, Aluy- Carlos Garcia”. to. A censura de im- “Após quinze dias de fechamento à Rua de Laranjeira, 224, Ed. Santos, Sa-
sio Sampaio, Armando prensa e a suspensão de arbitrário e ilegal, Jornal do Povo volta la 4 – Aracaju. Nos números subsequen-
Domingues, Astrojildo Pereira, Antonio jornais são medidas promovidas por autori- hoje a circular, fiel à sua linha de conduta tes passou a funcionar na Rua Laranjeira
Clodomir, Bonifácio Fortes, Camilo de dades prepotentes que não admitem crítica de órgão da imprensa popular, fiel aos in- nº87. No lançamento, já anunciava repre-
Jesus Lima, Carlos Garcia, Franco Freire, aos seus atos públicos, pois desejam gover- teresses do povo e da democracia, baluar- sentantes nos Estados do Rio de Janeiro
Florival Ramo, Hugo Tavares, Hernane nar a seu bel prazer, sem dar contas ao povo. te da defesa da Constituição que o grupo (Paulo de Carvalho Neto), Bahia (Walter
Prata J. Santiago, José Waldson Campos, O Estado Novo, cópia fiel do fas- fascista, que tem à frente o general Dutra Filizola) e São Paulo (João Menezes Cam-
João Batista Lima e Silva, Luiz Carlos Pres- cismo da Itália de Mussolini, instituiu tenta liquidar”. pos). A partir do nº 2 ganhou mais uma
tes, Mauricio Grabois, Márcio Rollemberg no país órgãos de compreensão, como o representação no Estado de Santa Catari-
Leite, Monteiro Lobato, Nélson de Araújo, D.I.P., por exemplo, para que a imprensa Época (1948/1949) na (Renato Ribeiro).
Pedro Pomar, Robério Garcia, Santos Mo- tivesse tolhida a sua liberdade e perdeste o O número inicial de Época abre-se
rais, Walter Sampaio e outros. direito de criticar os atos das autoridades, Época (Mensário a Serviço da Cul- com a Carta da Redação – Apresentação,
Fechado pela polícia em 14 de maio de analisar os fatos á luz da verdade. tura e da Democracia) tem rápida dura- apesar de não assinado é de responsabili-
de 1945, o Jornal do Povo impetrou Aqui mesmo em Sergipe, tivemos ção. Aparece o primeiro número em agos- dade do diretor, Walter Sampaio e trás os
uma ordem de habeas-corpus ao Egrégio por várias vezes ameaçados e fechados nos to de 1948, 32 páginas e o terceiro em seguintes colaboradores: Walter Cardoso
Tribunal de Apelação, tendo como ad- últimos dias da ditadura fascista, O Cor- janeiro de 1949. O periódico apresenta o (Luta contra a fome); Walter Sampaio (Pa-
reio de Aracaju e o Sergipe-Jornal”. formato de 27,5x18,5. Nos três números blo Neruda); José Sampaio (Canto de Paz);
5 Uma coleção bastante incompleta do Jornal do Povo,
encontra-se na Hemeroteca da Biblioteca Epifânio
Quando da reabertura do Jornal da revista, a capa não se apresenta uni- Carvalho Neto (Forrobodó); Celso Oliva
Dória que inicia a partir do nº251, Ano II, 25 de abril, do Povo foi publicado esclarecimentos forme e trazia impresso o preço de cada (Meu tipo inesquecível); apesar de não ter
1946, indo até o nº281, Ano III, 3 de janeiro, 1948. aos leitores e população em geral os moti- exemplar, de Cr$2.00 (dois cruzeiros). Os assinado e de autoria de Nelson de Araú-

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jo (Monteiro Lobato- consciência de uma Neste número Nelson de Araújo deixa de estudada encontra-se no acervo do Insti- imprensa, aproveita a oportunidade para
época); Aluysio Sampaio (Debret e a So- ocupar o cargo de Secretário em virtude de tuto Histórico e Geográfico de Sergipe, afirmar que continuará, com decisão e
ciedade Brasileira); Bonifácio Fortes (Ne- sua transferência domiciliar para Salvador, cuja coleção inicia com o número 31, Ano energia na luta em defesa da Constituição,
gação); Márcio Rollemberg Leite (Evolu- sendo substituído por Austrogésilo Porto. II, 28 de maio de 1955 e encerra-se no da democracia e dos interesses dos traba-
ção do Direito Moderno); Paulo de Car- Ilustram a revista, Álvaro Santos, Reinal- nº448, Ano XI, 21 de março, 1964. Devi- lhadores e do povo.
valho Neto (Conto); Louis Aragon (Meu do Siqueira e Jenner Augusto. Ainda neste do a sua longa existência, foram muitos os Finalmente, a direção deste órgão
preço em Rentenmarx); Pintura – Jenner número foi criada duas novas seções: No- seus colaboradores: Alberto Santos, Artur manifesta a certeza de que o proletariado e
Augusto (não assinado); Benedito Cardo- tícias Literárias, que informava sobre livros Silva, Antonio Silva, Antonio Bittencourt, o povo sergipano, compreendendo o papel
so (Olhos de Tísica); Rubem Vergara (Um publicados e Notícias do Mês, informando Antonio Correia dos Santos, Bonifácio que desempenha o Jornal do Povo nas lutas
teatro para Aracaju), além de várias notas acontecimentos diversos. A capa averme- Fortes, Célio Nunes, Clarêncio Fontes, democráticas, intensificarão, cada vez mais
sobre livros e acontecimentos culturais em lhada do nº 2 é uma homenagem ao gran- Gondin da Fonseca, Iran Oliveira, Iza- vigorosamente ajuda a este jornal, bem co-
Aracaju e na última página um indicador de Candido Portinari “Criança Morta”, que Souza, J. Oliveira, João Batista Lima mo que, das fábricas e dos bairros, de to-
profissional, de advogados, médicos, den- um grito de protesto da revista do nordeste e Silva, José Almeida, Luiz Carlos Prestes, do o Estado, se levantará a voz de protesto
tistas, engenheiros civis e contadores. contra o estado de penúria, abandono, fo- Nelito Nunes Carvalho, Nilo Carvalho, de todos os democratas honestos - manei-
A partir do nº 2, outubro/novembro me e miséria em que vivem nossas popula- Nery Reis, Osmar Azevedo, Paulo Men- ra prática de se lutar contra arbitrariedades
de 1948, 46 páginas, há uma padronização ções sertanejas. des, Raul Lima, Reginaldo Sales, Renato dos prepostos estaduais da ditadura.
da capa, apresentando uma grafia com tipo O número 3 de Época, lançado em Mazze Lucas, Robério Garcia, Solon Car- A direção”. 6
e corpo diferente no nome da revista (Épo- janeiro de 1949, saía com apenas 20 pági- doso e outros. O periódico comunista Folha Po-
ca) e o número de cada publicação locali- nas. Colaboram neste último número: Re- A Folha Popular tiveram como seus pular surgiu em dezembro de 1954 e cir-
zado na parte superior esquerda dentro de nato Mazze Lucas (Fome e Êxodo); Dal- diretores, os jornalistas Fragmon Carlos culou até o número 448, datado de 21 de
uma estrela de cor branca. Com expedien- cidio Jurandir (A casa da Gentil); Walter Borges e Robério Garcia, militantes com março de 1964. Era um jornal dedicado
te e sumário impresso no verso da capa. Sampaio (Os intelectuais na luta pela paz); grande experiência com a política partidá- para mobilização da classe trabalhadora,
Colaboram neste número: Walter Sampaio Armindo Pereira (A poesia em Marcha); ria, pois haviam trabalhado no jornal A transmitindo informações políticas e eco-
(Tendência abstencionista no movimento Austrogésilo Porto, Ivan Fontes, Santos Verdade. Era comum os jornais da Im- nômicas no âmbito estadual e principal-
dos novos); Garcia Moreno (Fumadores Souza, Eduardo da Fonseca Sobral (poe- prensa Popular noticiarem em edição se- mente federal. Porta voz do PCB tinha
de Maconha); Alina Paim (Simão Dias); mas; Paulo de Carvalho Neto (O garim- guinte, os motivos da não circulação do sua redação e oficinas por volta de 1964
Fragmon Carlos Borges (O Petróleo e a peiro); Fragmon Carlos Borges (A solução dia anterior. Vejamos um esclarecimento na Rua Professor Florentino Menezes, an-
União Nacional); Austrogésilo Porto (An- Dutra); Manifesto Pró-Paz (vários intelec- do Jornal do Povo: tiga São Vicente. Dentre os seus colabo-
gustia nos Rostos); Antonio Santos Morais tuais) Aluysio Sampaio (Manuel Bonfim); radores estava o contista Renato Mazze
(Jovem poeta morto); Seixas Doria (Presi- Severino Uchoa (O jogo do bicho) e J. R. Ao povo Lucas, único a publicar livro pela Edito-
dencialismo e Parlamentarismo); Rubem de Oliveira Neto (O cinema Nacional). rial Vitória, sediada no Rio de Janeiro, ór-
Vergara (Época entrevista Mário Brasi- Álvaro Santo, Reinaldo Siqueira e Janner “A edição do Jornal do Povo comu- gão divulgador das ideias comunistas no
ni); Jorge Medauar (três poemas); Aluysio Augusto são os responsáveis pelas ilustra- nica aos seus leitores e povo em geral que Brasil, responsável pela publicação de li-
Sampaio (Um inquérito econômico em ções, sendo que a capa de tom azul claro é este órgão deixou de circular ontem em vros de autores comunistas, que edita em
1807); Carlos Montagne e Oscar Cornbtit assinada por Jenner. virtude de estar praticamente interditado, 1961 a obra do autor sergipano, intitulada
(Que é Jean-Paul Sartre?); Sindolfo Cam- sob coação policial, o que impediu a nor- Anum Branco e outros contos, ilustrada
pos Sobrinho (A poesia continua); Jorge Folha Popular (1954-1964) malidade dos seus trabalhos. por Leonardo Alencar.
Amado (Sobre o Congresso de Wroclaw); Ao mesmo tempo em que faz esta
Alves Ribeiro (A lição do mar); J. R. Oli- A única coleção disponível no Es- comunicação, a direção deste jornal, dian- 6 Jornal do Povo. Aracaju, Ano III, nº 279, 31 de
veira Neto (Decadência em Hollywood). tado de Sergipe do periódico comunista te de tão flagrante atentado a liberdade de dezembro, 1947.

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O antijesuitismo de Lima Junior
Antonio Lindvaldo Sousa

Pouco sabemos sobre a presença dos jesuítas nos textos


de História de Sergipe. As informações estão presentes
em assuntos diversos, nos livros gerais da História de
Sergipe e nos capítulos dedicados a determinados temas
do passado sergipano. Felisbelo Freire, por exemplo, em
1891, refere-se aos jesuítas em Sergipe depois de uma
breve introdução sobre esses religiosos no Brasil. Enten-
de os mesmos como aqueles que “entraram com força
poderosa da colonização, protegendo os índios, por meio
de missões, com toda força, se espalharam pelo territó-
rio brasileiro”. Esse termo “proteção” ganha outro sentido
quando Freire se refere a esses missionários como sujei-
tos que desejavam implantar uma teocracia, infiltrando
péssimos hábitos, explorando a mão de obra indígena e
nas aldeias controlando a lavoura e o comércio.
N o seu livro História de Sergipe reservou
um capítulo que se refere aos mesmos
com o título ‘Resultado das Questões de
dicou espaço a presença desses inacianos
em Sergipe em alguns dos dez volumes de
sua obra História da Companhia de Jesus
apresentar datas das nomeações e finaliza- Diz ainda que eles traziam “dessos-
ções das administrações dos capitães-mo- sego aos povos e flagelava a sociedade com
res em Sergipe. Ao lado dessas datas, o au- os suplícios e as fogueiras da inquisição”.
Limites e a Expulsão dos Jesuítas’. Esse no Brasil; José Bezerra dos Santos publi- tor faz anotações de fatos que considerou Fazia isto também usando representação
capítulo possui 14 páginas. Só concede cou em 1955 Tesouro de Jaboatão e Auré- relevante da administração dos mesmos. teatral do inferno e pelo confessionário, seu
informações a eles nas páginas 195 a 197. lio Vasconcellos de Almeida escreveu Vida Um dos fatos relevantes destacados acon- principal baluarte dessa empreitada. Ainda
Nelas destacam informações da transfor- do Primeiro Apóstolo de Sergipe: Pe. Gas- teceu no ano de 1759, na administração segundo o autor, os mesmos “assenhorea-
mação da missão de Geru em Vila, com par Lourenço na Revista do Instituto His- do Capitão-Mor José de Mares Henrique. vam os espíritos e exploravam todas as clas-
a denominação de Nova Távora ou Tho- tórico e Geográfico de Sergipe (IHGS). Nessa data houve a expulsão dos jesuítas. ses da sociedade em nome de Deus e em
mar. Nessa mesma ocasião houve a expul- Este último autor aborda os jesuítas nu- O autor se apropria da mesma como uma proveito da ordem”. O termo “assenhorar”
são dos jesuítas e o sequestro dos seus bens ma perspectiva que mais se aproxima das das mais significativa da história de Sergi- é bem apropriado na representação dos je-
móveis e de raízes. Mas sobre esse aconte- obras de Leite e de Santos e se diferencia pe. Nesse seu destaque deixa transparecer suítas como ave de rapina que tem objetivo
cimento nada o autor escreveu. Somente da versão apresentada por Freire, Silva e a sua intransigência com os religiosos da de dominar sua presa, de estabelecer o seu
confessou que “desconhece as peripécias Lima Junior. Companhia de Jesus. domínio naquele território.
do fato em Sergipe e o número de jesuítas Lima Junior nos parece ser um dos O sentimento de ódio aos jesuítas “Ricos proprietários e gananciosos
que habitavam a companhia”... mais significativos autores em Sergipe que aparece de forma veemente nas páginas por lucros” são outros exemplos de termos
Dois outros autores, Clodomir Sil- nos permite conhecer uma versão sobre os 53 a 55 do referido livro. Nelas o autor que aparecem nas páginas 53 a 56 do re-
va e Lima Junior, apresentaram parte das jesuítas mais próxima da abordagem que deixa pistas para percebermos a trans- ferido texto. Os jesuítas são retratados co-
informações que Freire não foi capaz de os enxergam como “vilões”. Em Capitães- formação desses reli- mo sujeitos interessados
apontar na obra História de Sergipe, a res- mores em Sergipe - 1590 a 1820 acrescenta giosos como “vilões” somente na riqueza, no
peito da prisão e deportação dos jesuítas. mais informações sobre o período colonial do passado sergipano. “A prisão deles resolve- aumento de suas pro-
Clodomir Silva, por exemplo, no livro sergipano que Freire não apresentou. To- Nessas páginas narra ria muitos dos entraves priedades em benefí-
Álbum de Sergipe, elaborado para fazer davia, trata-se de um trabalho inacabado, a prisão e a deportação da administração do cio da Companhia de
parte das comemorações dos cem anos da provavelmente escrito nos anos de 1920, na dos mesmos como um período colonial, melho- Jesus. Lima Junior cita
independência de Sergipe, em 1920, de- mesma data em que foi publicado o livro único remédio para os rando a administração que os mesmos eram
dicou um capítulo, o número VII, dando Álbum de Sergipe, de Clodomir Silva. Su- males da sua época. A do capitão-mor, vice-rei proprietários mais opu-
mais destaque a expulsão desses padres e a ponhamos que o autor não tenha tido tem- prisão deles resolveria e da Coroa”. lentos e poderosos da
posse dos seus bens. po para finalizá-lo e publicá-lo por ocasião muitos dos entraves Capitania de Sergipe,
Nos anos de 1940 e na década de dos festejos da independência de Sergipe. da administração do período colonial, tinham em suas mãos as principais fá-
1950 a escrita da História de Sergipe pas- O seu texto chegou ao grande público por melhorando a administração do capitão- bricas e fazendas de açúcar. Esta riqueza
sou a contar com mais informações sobre intermédio da direção do Arquivo Público mor, vice-rei e da Coroa. Acabaria como estava espalhada pelo território, acrescen-
a presença desses religiosos em Sergipe, do Estado de Sergipe (APES), em 1985. o poder paralelo desses padres que se es- ta o autor. Eles estabeleceram os peque-
incluindo o último ano deles no solo ser- Capitães-mores em Sergipe é um livro palhava rapidamente pela colônia. O au- nos conventos ou colégios em dois pontos
gipano. Serafim Leite, por exemplo, de- de História político-administrativo. Busca tor se refere a teocracia. principais na capitania de Sergipe: um ao

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Igreja em Tajupeca

sul, junto à cidade de São Cristóvão, e ou-


tro ao Norte, em Jaboatão no Município
de Vila Nova. Edificaram no século XVII
a igreja do Geru, onde estiveram também
estabelecidos. Cita essa e outras edifica-
ções depois que afirma que eles as fizeram
para melhor exercerem a sua ação maléfica
e alargarem as suas conquistas por toda a
capitania desde a sua primeira invasão.
As diligências aparecem como ou-
tro ponto de destaque desse seu texto,
nas referidas páginas citadas acima. Es- publicado em 26 de novembro, mandando Tejupeba, respondida em 17 de março de O autor está mais convicto sobre os
creve sobre as mesmas como se estives- prender os jesuítas e sequestrar-lhes os bens 1760, pelo Vice-Rei. referidos padres como poderosos e malé-
se narrando uma cena móveis e imóveis. Tam- Quase fechando esse assunto, no pe- ficos. Este último termo significa que al-
de guerra. Elas mar- bém cita o alvará de 13 núltimo parágrafo, dar notícia da ida dos guém é malvado; que exerce uma péssima
chavam por caminhos “Não há citação dos no- de setembro do mesmo prisioneiros da Bahia para Portugal, para a influência sobre algo ou alguém. Em ou-
desconhecidos dos mes de quem partici- ano de 1759, onde eles fortaleza de São Julião. No dia 15 de abril tras palavras, o maléfico, é do mal. Ele po-
próprios oficiais, acres- pou das diligências. Não são declarados rebeldes, foram a bordo das naus N. S. do Carmo de ser configurado na figura de um vilão.
centa ele. Somente aponta os conflitos en- traidores, desnaturaliza- e N. S. da Ajuda, 117 presos (indo depois A narração da prisão e deportação dos je-
cercaram os colégios, volvendo esses sujeitos dos e proscritos. os restantes). Conclui que nada mais consta suítas mais parece um roteiro de um filme
prenderam os padres e dessas diligências com O autor afirma sobre o estabelecimento e fim da Compa- da batalha entre o bem e o mal, entre mo-
escravos encontrados, vários potentados rurais que ignora a quantida- nhia de Jesus em Sergipe. cinhos e bandidos. O mal tem se extingui-
após aberto o último interessados na riqueza de de jesuítas presos. Lima Junior não menciona com de- do. O bem deve prevalecer. O mal repre-
ofício e, achando nas desses padres”. Mas diz que nos docu- talhes as propriedades desses religiosos. senta os jesuítas e o bem a coroa portugue-
imediações dos colé- mentos oficiais, o Ou- Não aponta os nomes dos engenhos, nem sa, tendo como intermediário a figura do
gios, em obediência às ordens, sob pena vidor de Sergipe remeteu, em 05 de feve- a extensão deles, o quanto lucravam, tam- Marques de Pombal. Este aparece como
de morte cominada. reiro de 1760, ao Marques do Lavradio, pouco o número de escravos. Nenhum no- um herói. Aos jesuítas são reservados ao
Na página 55 termina sua narração um jesuíta, único encontrado na Fazenda me dos jesuítas é citado. Não há citação dos papel de vilões. A história narrada termi-
da prisão e deportação desses padres, em Tejupeba, pertencente aos prisioneiros. nomes de quem participou das diligências. na com a prisão dos vilões e a deportação
continuação da nota 16 que trata da admi- Prossegue mencionando as prisões. Des- Não aponta os conflitos envolvendo esses deles para Portugal.
nistração de José de Mares Henrique (1756 ta vez se refere aos jesuítas de Japoatão. sujeitos dessas diligências com vários po- O texto parece ter sido feito numa
– a 1759). Diz que o citado alvará relativo O autor menciona que mais três deles tentados rurais interessados na riqueza des- montagem de tesoura e cola ou como se
ao Brasil, foi mandado executar pelo Vice- foram enviados para a Bahia pelo Ou- ses padres. As informações do texto sobre fosse um “ctrl C e ctrl V”, numa redação
-Rei D. Marcos de Noronha, por um bando vidor acompanhados de carta escrita de os últimos dias dos jesuítas são reticentes. de texto com um aplicativo moderno.

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1. 2.

O registro do passado sergipano é fei- intermédio dos agentes ligados ao gover-


to no mesmo modelo do que aconteceu no ou via textos de intelectuais que defen-
em qualquer localidade do território da diam o positivismo, o monismos e outras
América portuguesa. Semelhante ao que correntes de pensamento racionalistas.
vinha fazendo alguns dos pesquisadores Um dos centros radiadores dessas ideias
brasileiros do final do século XIX e iní- eram os clubes republicanos, polos em
cio do século XX que copiava o outro na que essas propagandas se misturavam e
mesma versão sobre os últimos dias dos ganhavam formas diferenciadas, como as
jesuítas. Capitães-Mores em Sergipe, por- batalhas contra a monarquia e a escravi-
tanto, é um desses textos muito próximo dão. Lima Junior era, copiosamente, um
a moda de se falar sobre os jesuítas na- desses defensores árduos da República.
quele período. Ele se aproxima das pro- Foi nomeado orador oficial em Penedo,
pagandas antijesuítas elaboradas pelo Alagoas. Em Sergipe proclamou esse re-
primeiro ministro Marques de Pombal gime em várias vilas.
e sua equipe. O livro Guerra aos jesuí- Certamente como militante e de-
tas: a propaganda antijesuíta do marques fensor dessas ideias, sabia da importância
de Pombal em Portugal e na Europa, de de se construir a data 1769 como impor-
Christine Vogelm, aponta como essas tante marco da História de Sergipe. Foi
propagandas contra esses religiosos fo- nessa data que alguns inimigos da história
ram bem arquitetadas e espalhadas pelo da pátria foram presos e expulsos. É pre- 3.
mundo, transformando os mesmos como ciso relembrá-la. A ideia de que os jesuítas
1. Altar-mor da igreja do Geru, foto Silvio Oliveira
“vilões”, como agentes do mal. tornaram-se inimigos estava em sintonia 2. Igreja de Comandaroba
Essas propagandas chegaram, por com o que eles acreditavam a respeito de 3. Estatuas de jesuitas na cidade de Japoatã,
diversas vezes e de diferentes meios, ao que esses religiosos representavam o obs- Antonio Lindvaldo
Brasil, quando ainda este era colônia de curantismo e, portanto, seriam contrários 4. Conjunto arquitetônico em Tejupeba, foto Silvio
Portugal e ao longo do século XIX, por ao conhecimento científico.
Oliveira 4.

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