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Panteras

Negras

Todo poder ao povo!

São Paulo. 3ª edição. 2018.


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Raízes da America

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autorizaçao por escrito da Raízes da America sob penas criminais e
açoes civis.

EDIÇÕES CIÊNCIAS REVOLUCIONÁRIAS–


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Todo poder ao povo! Artigos, discursos e documentos do


Partido dos Panteras Negras. 3ª Ediçao. 2018.

ISBN: 978-85-69401-46-9

Tradução: Carlos Magnum


Revisão, diagramação e capa: Klaus Scarmeloto

RAIZES DA AMERICA
Rua Godofredo Furtado, numero 25
Sao Paulo – SP – Brasil CEP 02308-110
(11) 2203-1312 - contato@raizesdaamerica.com.br

Conselho de Redação: Cleide Regina Scarmeloto, Klaus


Scarmeloto,

Conselho Editorial: Joao Claudio Platenik Pitillo -


doutorando em Historia Social pela UNIRIO, mestrado em
Historia Comparada pela UFRJ, licenciado em Historia pela
UERJ e pesquisador do NUCLEAS - UERJ.

Direitos exclusivos para Língua Portuguesa cedidas a Editora


Raízes da America.
Índice
Nota de Abertura................................................................. 9

Introdução........................................................................... 12

0 anos dos Panteras Negras: a luta contra o racismo


no coração do Império .................................................... 41

Documentos, Artigos e Textos

O Manejo correto de uma Revoluçao ......................................59


Revoluçao na Metropole Branca e Libertaçao Nacional na
Colonia Negra ...................................................................................66
Corrigindo ideias erroneas .........................................................73
Em defesa da Auto-defesa ...........................................................76
Expurgo Pantera ..............................................................................81
O que e Democratismo?................................................................83
Sobre o Nacionalismo Cultural ..................................................85
Poder onde quer que esteja o povo .........................................90
Capitalismo negro e o que isso significa ............................. 101
Alimentar nossas crianças ....................................................... 114
Servindo ao Povo.......................................................................... 116
Porque apoiamos a China? ....................................................... 118
Verdadeiros Revolucionarios .................................................. 120
Discurso de Field Marshall D.C. .............................................. 122
Declaraçao do Comite Central do Partido dos Panteras
Negras ............................................................................................... 129
Carta aberta a Ronald Reagan ................................................. 133
Expurgo de Boston ...................................................................... 135
Colaboraçao entre Washington e Moscou se
intensifica ........................................................................................ 137
Carta Aberta a Stokely Carmichael ....................................... 141
Mensagem as mulheres revolucionarias ............................ 147
Uma carta a minha esposa ....................................................... 149
E uma luta de classes, porra! ................................................... 151
Capitalismo + drogas = genocídio ......................................... 177
Voces podem matar o libertador, mas nao a libertaçao 191
Sobre a crítica a Cuba ................................................................. 202
Se querem a paz, voces tem que lutar por ela .................. 204
A Ideologia do Partido dos Panteras Negras .....................208
Venceremos! ...................................................................................212
Sobre a viagem do Partido dos ...............................................219
Panteras Negras a Coreia Popular .........................................219
Sobre a libertaçao gay e feminina ..........................................231
Carta a Frente de Libertaçao Nacional do Vietna do
Sul .......................................................................................................235
Resposta a William Patterson .................................................239
Camarada caído: Elogio a George Jackson..........................246
Sobre o Intercomunalismo .......................................................255
Capitalismo Negro re-analisado .............................................266
A Revoluçao e a “Esquerda Branca” na America..............275
A China traiu a Revoluçao? .......................................................282
Os verdadeiros revolucionarios brancos avançam .........287
Progressistas estadunidenses, liderados pelos Panteras,
voltam da China ............................................................................291
“No ultimo ano seu Partido e o povo negro
progressista da America corajosamente resistiu a
intensificaçao da opressao fascista e perseguiçao
dos imperialistas ianques e conquistou uma
grande vitoria na luta pela liberdade, democracia
e direitos vitais. O povo coreano enxerga com
profunda simpatia e expressa sua solidariedade
militante como sua justa luta para abolir o atual
sistema de discriminaçao racial dos imperialistas”
[...]

Mensagem de Kim Il Sung ao Black


Panthers Party em 1970
Nota de Abertura
Prof. Lincoln Secco
Universidade de São Paulo (USP) -
Departamento de História

O Partido dos Panteras Negras atuou nos Estados


Unidos entre 1966 e 1982. A leitora e o leitor verão nas
páginas deste livro os debates partidários sobre o
marxismo, o Livro Vermelho de Mao Tsetung e a política
externa chinesa, a Guerra do Vietnã, a questão do
lumpemproletariado, a negritude, o apoio à luta dos
gays e à libertação da mulher e os preconceitos no
interior da própria organização, apesar da consciente
tentativa de suplantá-los.
As mulheres conquistaram espaço por si mesmas
no Partido e produziram muitos textos (alguns
traduzidos aqui). Se uma mulher negra assumisse um
papel de liderança, estaria atrapalhando o movimento,
como dizia Elaine Brown. Todavia, ela própria se tornou
presidente do Partido das Panteras Negras entre 1974 e
1977 depois que Huey Newton teve que ir a Cuba,
devido às acusações de assassinato que pesavam contra
ele.
O Partido foi uma ameaça permanente ao
governo estadunidense. Não porque pudesse em algum
momento conquistar o poder, mas porque danificava a
imagem de uma suposta democracia apoiada em séculos
de escravidão, numa legislação racista e em pelo menos
100 anos de intervenções imperialistas no mundo
inteiro.
Para combatê-lo as agências de segurança do
governo assassinaram seus militantes, aprisionaram
seus líderes e difundiram as drogas nos seus bairros.
Qualquer distinção entre o tráfico e o capital é
puramente acadêmica e há neste livro uma análise das
relações indissociáveis do crime organizado com o
capitalismo.
Diante de uma perseguição implacável e de um
sistema eleitoral de fachada, os Panteras Negras sabiam
que uma decisão política não podia ser implementada
com uma cédula (ballot), somente com uma bala
(bullet), segundo a forte expressão de Kathleen Cleaver.
Não proclamavam a ideia de assassinar seus
inimigos. Suas principais armas foram os livros
marxistas e a autoeducação política. Denunciavam a
promoção de uma verdadeira caçada por parte dos
policiais contra a população negra e propunham a
organização armada para se proteger de uma polícia
cruel a serviço da classe dominante.
Usavam uma combinação de autodefesa com as
brechas da própria Constituição dos Estados Unidos.
Exigiam que se lhes fosse reconhecido o direito
constitucional de se armar e de serem julgados por
iguais. Demandavam um juri de pessoas negras.
Todo poder ao povo!
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Introdução
Em relação a colocação do marxismo-leninismo
no século XXI, faz-se importante o restabelecimento do
arcabouço da tradição comunista, e, somente por sua
aplicação ortodoxa, combater a fobia revolucionária
causada pelo revisionismo. Com a difusão do
revisionismo, acirrou-se ao invés de se resolver, as
principais contradições no seio do povo, e os efeitos
gerados na teoria marxista propagadaga são diversos:
academização do marxismo, excluindo sua faceta
revolucionária, com adestramento aos interesses
dominantes, faz-se constante o processo que adormece
movimentos leninistas, levando-os a cena sem sua
substância revolucionária. Infelizmente, este é o caso
das tentativas de se abortar o Black Panther Party, nos
dias atuais.
Neste contexto, para o selo Nova Cultura Popular,
coloca-se como vital a tarefa de estudar o partido dos
panteras negras, e as razões são fáceis de se
compreender: sendo partidários do leninismo, e da
causa da revolução mundial, da defesa da luta dos
povos, aplicaram decididamente o instrumento do
leninismo as experiências concretas do povo negro;
lutaram contra deturpação histórica, combatendo todos
que tentavam remover o conteúdo revolucionário do
leninismo, como foi o caso do kruchevismo soviético; o
partido conseguiu extrair as respostas para o problema
do povo negro na teoria leninista, fornecendo meios de
combater a opressão racial da forma mais eficaz, assim
nos dando ensinamentos importantes para o combate à
opressão racial sob os princípios do marxismo-
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 13 |

leninismo. A atuação do partido dos panteras negras


serve de exemplo a todos os comunistas, progressistas
e anti-imperialistas brasileiros na luta contra o
chauvinismo racial, devendo ser observada sem
dogmatismo e mecanicismo por todos os brasileiros.

Os primeiros anos
Fundado em Oakland, no dia 15 de outubro de
1966, California, por Bobby Seale e Huey P. Newton, o
Partido dos Panteras negras não só viria a tomar a
frente da liderança na luta contra a opressão racista,
uma das principais forças mundiais a aplicar o
leninismo a questão da opressão de raça.
As mais de diversas revoltas espontâneas dos
negros nos EUA, a partir de 1964, contra a lei de
segregação racial Jim Crow, foram importantes
precedentes para a formação do partido. O ponto mais
alto seria a rebelião de 1967 em Detroit em agoso. Um
dos pontos altos dessa revolta foi a rebelião de Detroit
de agosto de 1967. Sob este paradoxo, diante da dura
repressão, é que o partido se configurou como principal
vanguarda dos negros, em abril de 1968, a rebelião
aumentou e ocorreu em mais de 100 cidades dos
Estados Unidades.
Neste sentido, o presidente Mao descreveu o
período de 1964-68 como “uma tempestade nunca
antes vista na história daquele país. Demonstra que
existe uma força revolucionária extremamente
poderosa nos mais de 20 milhões de negros dos Estados
Unidos”, em sua declaração de apoio à luta dos afro-
americanos “Uma nova tempestade contra o
Imperialismo”. É nesse período também que são
assassinados Malcolm X e Martin Luther King.
Inspirados pela atuação de Malcolm X e
norteados pelo patriotismo negro mais avançado,
seguem organizando o partido e as massas. Do
camarada Malcolm X, herderam, principalmente a
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premissa “ganhar a liberdade por qualquer meio


necessário”, sendo fundamental a eles, o que é
reconhecido por Newton:“um testamento vivo para o
trabalho de Malcolm X quando era vivo”.
Logo, o partido nasce, propondo tanto a
autodefesa armada das comunidades, em resposta à
frequente violência policial que as comunidades negras
sofriam, quanto a libertação armada da nação negra e
explorada. Sendo que, num contexto primário, o BPP
afirmava a necessidade de converter as rebeliões
espontânea do povo negro em autodefesa armada e
organizada para a revolução. Newton passou, para
dirigir tal processo, a escrever o programa do partido.
Dizendo, antes de tal tarefa: “precisamos de um
programa. Nós temos que ter um programa para o povo.
Um programa que se relacione com o povo. Um
programa que o povo possa entender. Um programa que
o povo possa ler e enxergar, que expresse suas
aspirações e necessidades ao mesmo tempo. Deve se
relacionar com o significado filosófico de para onde no
mundo estamos indo, mas o significado também terá
que se relacionar com alguma coisa específica”.
Destarte, Newton edificou o programa dos Panteras
Negras como se pode ver nos seguintes textos “o que
queremos” (pautas materiais e imediatas) e “no que
acreditamos” (propostas de longa duração):
1. Queremos liberdade. Queremos o poder para
determinar o destino da nossa comunidade negra. Nós
acreditamos que o povo preto não será livre até que nós
sejamos capazes de determinar nosso destino.
2. Queremos emprego para nosso povo. Nós
acreditamos que o governo federal é responsável e
obrigado a dar a cada homem um emprego e uma renda
garantida. Nós acreditamos que se o homem de negócios
estadunidense branco não nos dá emprego, então os
meios de produção devem ser tomados dos homens de
negócios e ser colocados na comunidade de modo que o
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povo da comunidade possa organizar e empregar todas


as pessoas e dar-lhes um padrão elevado de vida.
3. Precisamos acabar com a exploração do
homem branco na comunidade negra. Nós acreditamos
que este governo racista tem nos explorado e agora nós
estamos demandando a quitação do débito de 40 acres
de terra e duas mulas. Quarenta acres e duas mulas
foram prometidos 100 anos atrás em restituição pelo
trabalho escravo e assassinato em massa do povo preto.
Nós aceitaremos o pagamento em moeda corrente, que
será distribuída às nossas muitas comunidades. Os
alemães estão agora reparando os judeus em Israel pelo
genocídio do povo judeu. Os alemães assassinaram seis
milhões de judeus. O racista americano tomou parte no
massacre de mais de 20 milhões de negros;
consequentemente, nós sentimos que esta é uma
demanda modesta nossa.
4. Nós queremos moradia, um teto que seja
adequado para abrigar seres humanos. Nós acreditamos
que se os senhores de terra brancos não dão moradia
descente para a nossa comunidade negra, então a
moradia e a terra devem ser transformadas em
cooperativas de maneira que nossa comunidade, com
auxílio governamental, possa construir e fazer casas
descentes.
5. Nós queremos uma educação para nosso povo
que exponha a verdadeira natureza desta decadente
sociedade americana. Queremos uma educação que nos
mostre a verdadeira história e a nossa importância e
papel na atual sociedade americana. Nós acreditamos
em um sistema educacional que dê a nossos povos um
conhecimento de si mesmo. Se um homem não tiver o
conhecimento de si mesmo e de sua posição na
sociedade e no mundo, então tem pouca possibilidade
de relacionar-se com qualquer outra coisa.
6. Nós queremos que todos os homens negros
sejam isentos do serviço militar. Nós acreditamos que o
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povo preto não deve ser forçado a lutar no serviço


militar para defender um governo racista que não nos
protege. Nós não lutaremos e mataremos os povos de
cor no mundo que, como o povo preto, estão sendo
vitimizados pelo governo racista branco da América.
Nós nos protegeremos da força e da violência da polícia
e das forças armadas racistas, por todos os meios
necessários.
7. Nós queremos o fim imediato da brutalidade
policial e assassinato do povo preto. Nós acreditamos
que nós podemos terminar a brutalidade da polícia em
nossa comunidade negra organizando grupos pretos de
autodefesa que são dedicados a defender a nossa
comunidade da opressão e da brutalidade da polícia
racista. A segunda emenda da Constituição dos Estados
Unidos dá o direito de portar armas. Nós acreditamos
consequentemente que todo o povo preto deve se armar
para a sua autodefesa.
8. Nós queremos a liberdade para todos os
homens negros mantidos em prisões e cadeias federais,
estaduais e municipais. Nós acreditamos que todas as
pessoas negras devem ser libertadas das muitas cadeias
e prisões porque não receberam um julgamento justo e
imparcial.
9. Nós queremos que todas as pessoas negras
quando trazidas a julgamento sejam julgadas na corte
por um júri de pares do seu grupo ou por pessoas de
suas comunidades, como definido pela Constituição dos
Estados Unidos. Nós acreditamos que as cortes devem
seguir a Constituição de modo que o povo negro receba
julgamentos justos. A 14ª emenda da Constituição dá ao
homem o direito de ser julgado por seus pares. Um par
é uma pessoa com um acúmulo econômico, social,
religioso, geográfico, ambiental, histórico e racial
similar. Para fazer isto, a corte será forçada a selecionar
um júri da comunidade negra de que o réu é oriundo.
Nós fomos, e estamos sendo julgados por júris todo
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branco que não têm nenhuma compreensão “do


raciocínio do homem médio” da comunidade negra.
10. Nós queremos terra, pão, moradia, educação,
roupas, justiça e paz. E como nosso objetivo político
principal, um plebiscito supervisionado pelas Nações
Unidas a ser realizado em toda a colônia negra no qual
só serão permitidos aos negros, vítimas do projeto
colonial, participar, com a finalidade de determinar a
vontade do povo preto a respeito de seu destino
nacional.
Em pouco tempo, o partido foi crescendo e se
extendendo a várias regiões. Entretanto, não demorou
muito para que o partido fosse seguido por segmentos
não revolucionários. Do Partido dos Panteras Negras
pela autodefesa, posterioremente em São Francisco
nasce um novo grupo, o The Black Panther Party of
Northern California. Ao saberem disso, Newton e Bobby
dirigem-se até lá para se reunirem com eles. Durante o
encontro Huey questionou a eles “O que vocês estão
fazendo pela comunidade no que tange a luta
revolucionária? Se estão fazendo algo pela comunidade
na luta revolucionária, nos juntaremos a suas fileiras,
mas não vemos vocês fazendo isso, então nos deixem em
paz”.
Segundo os Panteras Negras, o nascente grupo
era umbilicado ao que denominavam negativamente de
“nacionalismo cultural”. David Milliard, e os membros
do partido naquele tempo, passaram a chamar este
outro grupo de “Panteras de Papel”, em nítida analogia
ao Timoeiro do Leste, o termo usado por Mao acerca dos
“tigres de papel”.
Infelizmente, com o passar do tempo, aumentam
as contradições entre “Paper Panthers”, sobretudo, no
momento que Betty Shabazz, viúva de de Malcolm X, se
dirigiu a Oakland destinando-se a Conferência em
memória do do histórico Little Malcolm. O BPP contatou
os “Panteras de papel” para garantir a segurança Betty
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Shabazz. Em tal contexto de discussão, Newton


abordava a essencial questão da ligação entre a política
imperialista estadunidense e a violência policial,
tratamentos dados a todos os colonizados pelo
imperialismo, tanto dentro como fora de seu território.
Ao contrário do BPP, as panteras de papel,
negligenciavam este aspecto, em última instância,
separando a política nacional e internacional
colonialista da violência policial.
No ínicio da conferência, notou-se que tais
contradições entre ambos os grupos eram antagônicas,
já que, em última instância, a política dos panteras de
papel levariam a deixar comunidades sem qualquer
autoproteção armada, por se focar apenas no
identitarismo cultural. Linda Harrison, em seu artigo
publicado em 02/1969, viu-se forçada a criticar de
maneira aberta os chamados “Nacionalistas culturais”.
E assim conclamava:
“o nacionalismo cultural, manifesta-se de várias formas,
mas todas elas se fundamentam em um fato: uma
negação universal e o ato de ignorar as atuais realidades
econômicas, políticas e sociais e a concentração no
passado como quadro referencial. Este fenômeno não é
único nesta etapa da revolução na qual nos encontramos:
tampouco é único para a luta por liberdade dos ‘cidadãos’
negros dos Estados Unidos. Frantz Fanon – em
Condenados da Terra – disse sobre esse fenômeno: ‘Não
existe nenhuma ofensiva, e nenhuma redefinição das
formas de se relacionar. Existe uma crispação em um
núcleo da cultura cada vez mais estreito, que está se
tornando mais e mais inerte e vazio.’ (...) E porque o
nacionalismo cultural não possui uma doutrina política
como orientação geral – os limites de ser Black and
Proud, são imediatos. (...) Como pode um nacionalista
cultural afirmar amar um país – e um continente que
sofreu com centenas de anos de colonialismo e
escravidão, e ainda sofre sob as formas inteligentemente
disfarçadas e abertas destas instituições. Como ele pode
negar a realidade política da sua própria vida nos EUA ao
se vestir com um avental ganês de maternidade (todo
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colorido e brilhante) para participar da cultura de um


povo mergulhado em revolução e revolta? Como pode um
nacionalista cultural afirmar aderir à cultura de África,
quando esta cultura é uma cultura revolucionária? A
solidariedade com todos os povos revolucionários do
mundo trouxe uma cultura comum para povos que nada
sabem uns dos outros, exceto o fato de que sofrem sob
sistemas semelhantes de exploração, degradação e
racismo. Que seu povo passou pelas mesmas mudanças e
que de maneira alguma seu povo irá recuperar sua
dignidade e encontrar sua liberdade a não ser através de
um confronto de igual para igual e de cara a cara através
de tática e ação revolucionárias. Uma cultura
revolucionária é a única cultura válida para os
oprimidos!”

Neste momento, após a expansão do partido


nacionalmente, dirigem os protestos contra a lei de
proibição do porte de armas, que deblitaria a prática da
autodefesa armada nas comunidades negras. Após seu
crescimento e evolução organizacional, o Partido passa
a oferecer café de manhã gratuitos (breakfast for school
children) as crianças nos locais de sua atuação, serviço
médico gratuito, programas de educação e
alfabetização, ambulâncias, atendendo assim o básico a
população em seus locais de atuação, aplicando a
premissa maoísta de servir a povo de todo coração,
como um dever de seu programa máximo. Tais
programas eram denominados de Serve the People.
Huey P. Newton, assinala sobre seu caráter:

“reconhecemos que a fim de trazer as pessoas para o


nível de consciência necessário para elas seria necessário
servir aos seus interesses de sobrevivência
desenvolvendo programas que as ajudariam a atender
suas necessidades diárias. Por muito tempo, tivemos tais
programas não apenas por sobrevivência, mas também
por motivos organizacionais. (...) Todos estes programas
satisfazem as profundas necessidades da comunidade,
mas não são as soluções para nossos problemas. É por
isso que chamamos de programas de sobrevivência, ou
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seja, a sobrevivência pendente de revolução. Dizemos


que o programa de sobrevivência do Black Panther Party
é como o kit de sobrevivência de um marinheiro de pé em
uma jangada. Ajuda ele a se sustentar até que consiga sair
completamente daquela situação. Então os programas de
sobrevivência não são respostas ou soluções, mas nos
ajudarão a organizar a comunidade em torno de uma
verdadeira análise e entendimento da situação. Quando a
consciência e a compreensão se elevar para um nível
superior então a comunidade aproveitará o tempo e se
livrará da bota de seus opressores”.

Absorção do marxismo-leninismo
O Crescimento do Partido era inevitável:
“Até o final de fevereiro de 1968, o BPP ainda era uma
pequena organização regional. Mas, até dezembro o
Partido havia aberto escritórios em vinte cidades... e até
1970, o Partido havia aberto escritórios em 68 cidades”.
Conforme o processo de expansão nacional se
desenvolvia, também se moldava sua linha política e
teórica, seu norte ideológico. A partir de 1968, o Partido
passa a adotar o marxismo-leninismo como ideologia
oficial do Partido, conforme Kathlen Cleaver, Secretária
da Comunicação do Partido, coloca: “Como marxista-
leninistas, o Partido dos Panteras Negras defende a luta
revolucionária para estabelecer uma sociedade
socialista. Os Panteras se voltaram para o marxismo-
leninismo como guia na oposição do Partido ao racismo,
sexismo e ao capitalismo. Por exemplo, os princípios do
socialismo ditavam a igualdade de gênero entre os
membros do Partido, assim como a solidariedade
interracial e internacional. Bobby Seale explicava, “a luta
contra o chauvinismo masculino é uma luta de classes –
isso é difícil para as pessoas entenderem”. Estes
princípios também orientaram o Partido dos Panteras
Negras para a noção de partido de vanguarda de Lenin.
Os membros do Partido dos Panteras Negras obviamente
se viam como disciplinados, revolucionários
profissionais comprometidos na mobilização de apoio
para uma revolução socialista”.
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O partido passa a afinar relações com o


leninismo, em maior grau qualitativo, a partir de 1968.
Um dos fatos que comprova tal acirramento de, ocorre
quando editam o livro vermelho de Mao, para vender,
arrecadar fundos e como leitura obrigatória, junto de
Frantz Fanon, a autobiografia de Malcolm X, além de
obras de Che Guevara, Lenin, Stalin e outros
revolucionários.
Huey P. Newton havia estudado as obras
escolhidas de Mao na faculdade e para ele foi o ponto de
partida para ter se tornado um comunista. Foi por sua
proatividade que tais leituras passaram a ser
compulsórias no Partido. Bobby Seale afirma por uma
conversa que
“Newton defendeu que os princípios
revolucionários tão concisamente citados no Livro
Vermelho deveriam ser aplicados onde pudesse. Ou
seja, onde quer que pudessem ser aplicados dentro da
margem deste sistema. Huey dizia ‘bem, este princípio
não é aplicável à nossa situação neste momento’. Onde
o livro dizia ‘O povo chinês do Partido Comunista’, Huey
diria ‘mude isto para Partido dos Panteras Negras. Mude
de povo chinês para povo negro’. Quando ele via um
princípio particular sendo esclarecido em termos
chineses, ele iria mudá-lo para aplicá-lo para nós”.
Continuando, ele cita uma conversa que teve
como Huey: “Bobby, você e eu sabemos que os
princípios neste livro são válidos, mas nossos irmãos e
companheiros negros não, e eles não vão pagar nem um
dólar e nem trinta centavos pelo livro. Então, o que
temos que fazer é chegar nos revolucionários brancos
que são intelectualmente interessados no livro, vendê-
lo, arrecadar o dinheiro, comprar as armas e ir para as
ruas com estas. Iremos proteger uma mãe, um irmão, e
proteger a comunidade dos policiais racistas. E, em
troca, os irmãos irão querer entrar na organização e se
relacionar com o livro vermelho. Irão se relacionar com
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a igualdade social, política e econômica em defesa da


comunidade”.
Nesse processo, a forma que viam a questão da
opressão racial nos Estados Unidos também passa por
algumas mudanças, indo além do nacionalismo
revolucionário. Sua análise então passou a se aproximar
muito da visão dos comunistas negros dos Estados
Unidos dos anos 30 ao analisarem a supremacia branca
e a Jim Crow, que também era a visão do Komintern,
inclusive com documento sobre escrito pelo principal
líder negro do CPUSA, Harry Haywood, com apoio de
Lenin. Para Haywood, a questão negra nos Estados
Unidos se tratava de uma questão colonial, de um
“colonialismo interno”, que se baseava na região do
Cinturão Negro, no Sul dos EUA, onde majoritariamente
residiam os negros, que basicamente eram os ex-
escravos que foram trabalhar nas plantações de
algodão. Os negros, com a diáspora, foram excluídos
tanto de sua identidade de cada região que residiam no
continente africano ao serem levados para serem
escravos nas colônias, como, no processo da formação
nacional estadunidense, foram excluídos da identidade
nacional dos “americanos” a partir das leis de
segregação da Jim Crow, sendo relegados à condição de
cidadãos de segunda classe, subalternos. Por isto, as
palavras de ordem de “autodeterminação” na região do
Cinturão Negro, na época, levantadas pelo CPUSA.
Na época que o BPP surge, a situação em torno
do Cinturão Negro mudou, com a migração em massa
dos negros do Sul para os Estados do Norte após a
Segunda Guerra Mundial, mudando também da vida
rural para vida urbana. Ainda assim, os Panteras ainda
consideravam que a questão dos negros nos Estados
Unidos era uma questão colonial e nacional, sendo uma
luta fundamentalmente de libertação nacional (que se
ligava ao socialismo), onde os guetos negros seriam
parte de uma minoria nacional colonizada internamente
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por uma potência imperialista e racista. Assim se


referem aos guetos negros onde se organizavam, como
“colônias negras”, onde podemos ver tais referências à
“colônia do Harlem”, por exemplo. Podemos ver um dos
panfletos distribuídos nas comunidades que atuavam:
“Em nossa luta por Libertação Nacional, estamos agora
na etapa de libertação das comunidades. Para libertar
nossas comunidades negras do controle imperialista
exercido pelos grupos racistas e exploradores no
interior das comunidades brancas, para libertar nosso
povo, trancado nas masmorras urbanas do
imperialismo dos bairros brancos. A nossa luta é contra
o imperialismo nas comunidades. Nossas comunidades
negras são colonizadas e controladas por fora, e é este
controle que necessita ser esmagado, quebrado,
despedaçado, por quaisquer meios necessários. A
política nas nossas comunidades é controlada por fora,
a economia nas nossas comunidades é controlada por
fora, e nós mesmos somos controlados pela polícia
racista que vem de fora às nossas comunidades e as
ocupa, patrulha, aterroriza e brutaliza nosso povo como
um exército estrangeiro em uma terra conquistada”.
Em outro documento, divulgado em seu jornal:
“o povo negro na América possui o direito moral de
afirmar sua nacionalidade, porque somos um povo
colonizado. Mas a história não permitirá nos afirmar
enquanto nação, porque concedeu a nós uma obrigação;
levar o desenvolvimento socialista até sua etapa final,
livrar o mundo da ameaça imperialista, a ameaça dos
capitalistas e dos warmongers. Uma vez que ele é
destruído, então não haverá necessidade de nações,
porque as nações não precisarão se defender do
Imperialismo”. Em um documento onde escrevem sobre
a coalizão entre o Partido Peace and Freedom (Paz e
Liberdade) e o Black Panther Party, Elridge Cleaver,
Ministro da Informação do Partido usa o termo
“Revolução na Metrópole branca, libertação nacional na
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colônia negra” para atender à esta posição tendo em


vista a derrubada do capitalismo-imperialismo nos
Estados Unidos. Apesar de tudo, deve se lembrar que
esta posição de que o povo negro, dentro dos limites
territoriais dos EUA era uma nação oprimida que sofria
de “colonialismo interno”, antes dos Panteras, também
fora retomada por Malcolm X, que exerceu grande
influência sobre o Partido.
Assim então o Partido dos Panteras Negras se
enxergava não apenas como parte da revolução
proletária mundial, mas também que estava na mesma
condição dos povos oprimidos do Terceiro Mundo – da
Ásia, África e América Latina –, e que então também
faziam parte do mesmo processo que fazia estes povos
pegarem em armas contra o domínio colonial, se vendo
então como parte da revolução anticolonial
tricontinental. Nisto, passam a divulgar as lutas de
libertação nacional, principalmente da África, em seus
veículos e documentos. Também passam a procurar
contatos internacionais e organizar viagens. Nestes
contatos, focavam nos países recém libertados, com
governos progressistas (Argélia, por exemplo), e os
países socialistas, particularmente a China, Coreia e
Vietnã. No que tange a URSS, consideravam que estava
se degenerando em social-imperialismo a partir do
processo de consolidação do revisionismo na direção do
Partido Comunista. Huey, em particular, concebia a
União não como uma potência imperialista em
concorrência com os Estados Unidos, mas como um
satélite do imperialismo norte-americano no Leste
Europeu. Neste processo, cada vez mais se viam textos
de revolucionários como Ho Chi Minh, Fidel Castro, Kim
Il Sung e principalmente Mao Tsé-tung, em seus jornais.
Stalin chegava a ser citado também em alguns textos de
lideranças (David Hilliard, Chefe de Gabinete do Partido
mantinha um quadro de Stalin em seu escritório e
chegou a defendê-lo publicamente em entrevista).
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 25 |

Nisto, os Panteras chegaram até mesmo a oferecer


contigentes de soldados para a Frente Nacional para a
Libertação do Vietnã e seu Governo Provisório
Revolucionário da República do Vietnã do Sul. Nguyen
Thi Din, Vice-Comandante da Frente chegou a enviar
uma carta em resposta à iniciativa dos Panteras:
“Estamos profundamente movidos por sua oferta... Esta
notícia foi comunicada a todos os quadros e
combatentes da FNLV no Vietnã do Sul; tão valentes
como vocês, no próprio território dos Estados Unidos.
Consideramos-na como uma grande contribuição, um
importante evento... No espírito da solidariedade
internacional, levaram adiante a responsabilidade com
a história, com a necessidade de ações unidas,
compartilhando alegrias e tristezas, participando na
luta contra o imperialismo norte-americano... Nos
últimos anos, a sua justa luta nos EUA nos estimulou a
fortalecer a unidade, e a avançar rumo a maiores
sucessos”.
Apesar da principal influência dos Panteras
evidentemente ser o pensamento de Mao Tsé-tung, é
interessante analisar a forma como viam a Coreia
Popular e Kim Il Sung. Elridge Cleaver, em particular,
era um entusiasta da República Popular Democrática da
Coreia, de Kim Il Sung e da ideia Juche e chegou a viajar
algumas vezes para lá. Para Cleaver, a Coreia era um
“farol na vanguarda das massas em luta no mundo”, e a
ideia Juche uma “posição criativa, desenvolvendo e
aplicando o marxismo-leninismo nas suas próprias
condições revolucionárias”, e chegou a afirmar que
“após investigação criteriosa acerca do cenário
internacional, nossa opinião é que ninguém menos que
o camarada Kim Il Sung que fornece brilhantemente a
análise marxista-leninista, estratégia e método tático
mais profundos para a total destruição do imperialismo
e a libertação dos povos oprimidos do nosso tempo”.
Cleaver chegou a editar um livro com textos
|26 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

selecionados de Kim Il Sung, escrevendo o prefácio e


alegando que o livro deveria ser lido por todos os
revolucionários dos Estados Unidos. Os discursos e
textos de Kim Il Sung e a história da Revolução Coreana
passaram a ser leitura obrigatória nas aulas de
educação política do Partido. Nisto, a Coreia passou a
divulgar a luta dos Panteras para o povo coreano
também; em 6 de julho de 1970, um veículo coreano
publicou uma manchete falando que a prisão de
centenas dos membros do BPP “representa uma
barbaridade fascista sem pudor contra os 30 milhões de
negros americanos e um obstáculo intolerável e nefasto
para as forças progressistas dos Estados Unidos e os
povos revolucionários de todo o mundo”. O próprio Kim
Il Sung chegou a enviar uma carta para o Partido
desejando “sucessos em sua justa luta para abolir o
maldito sistema de discriminação racial dos
imperialistas e ganhar liberdade e emancipação”.
A viagem de Huey P. Newton para a China
Popular de Mao, em 1972 também marcou bastante a
sua visão sobre a questão negra nos EUA, como ele
afirma: “Eu vi, com meus próprios olhos, como podemos
começar a reduzir o tipo de conflitos que estamos tendo
aqui. Eu vi um exemplo disso na China... o que vi foi o
seguinte: quando fui para lá, estava muito não
esclarecido e achava que sabia algo sobre a China.
Pensava, como tanto já foi dito, que a China seria um tipo
homogêneo de território étnico/racial. Então descobri
que 50% do território chinês é ocupado por uma
população de 54% de minorias nacionais, grandes
minorias étnicas. Eles falam idiomas diferentes,
parecem muito diferentes, e comem comidas diferentes.
Ainda assim, não há nenhum conflito. Eu observei um
dia que cada região – podemos chamá-las de cidades – é
realmente controlada por essas minorias étnicas, mas
estas ainda são chinesas. Estou falando de uma condição
geral na China, onde as minorias étnicas que eu
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 27 |

observei, controlam todas suas regiões. Elas possuem o


direito de ter representação no Partido Comunista da
China. Ao mesmo tempo, têm seus próprios princípios.
As cidades deste país poderiam ser organizadas desse
modo, com o controle da comunidade. Ao mesmo
tempo, não o controle negro de modo que brancos não
pudessem entrar, nenhum chinês pode entrar. Eu estou
dizendo que haveria democracia no interior da cidade.
A administração deve refletir os povos que ali vivem”.
Apesar de ter os convidados para alianças na
época da “Frente Única contra o Fascismo”, combatiam
o revisionismo do CPUSA, que os atacava a partir do
oportunismo de direita. Cleaver afirmou que o CPUSA
“desafiava o direito do BPP de adotar o marxismo-
leninismo – poderíamos fazê-lo apenas se estivéssemos
em seus bons escritórios. Então, este princípio do Juche,
reforçou a nossa própria autoconfiança. Quando um
revolucionário começa a utilizar o marxismo-leninismo,
se não é cuidadoso pode ser levado a sentir que está
roubando alguma coisa ou que não tem realmente o
direito daquilo, e este tipo de coisa leva a abordagem
dinâmica que você precisa”. Além disso, William
Patterson, dirigente negro do CPUSA, chegou a escrever
um artigo defendendo que os Panteras se focassem mais
em seus programas de Serve the People do que na
autodefesa armada (que para ele, era algo “infantil”),
eles estariam mais maduros. Huey respondeu a ele: “Ele
é um revisionista e se opõe à luta armada... afirma que
porque a nossa linha é provocativa, então se dá à ordem
estabelecida uma desculpa para nos matar. Bem, qual
desculpa o povo vietnamita lhe deu? Patterson diz que
‘os Panteras aprenderam que nem os negros e nem as
massas brancas dos EUA estão prontas para a arma
como um instrumento de liberdade, ou para a guerra de
guerrilhas, e nem estava a liderança dos Panteras’.
Concordo com ele; aparentemente todos não estão
prontos para as armas. Mas eu também perguntaria se
|28 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

quer dizer que deveríamos parar de falar sobre as


armas? Deveríamos parar de nos defender? Ele está
dizendo que a arma não é uma ferramenta que
eventualmente teremos que usar? Não deve ser
introduzida para o povo? Se a sua resposta à estas
questões forem afirmativas, então se segue que o PCUSA
deveria largar sua linha Marxista-Leninista e começar
uma nova linha. E suponho que sua nova linha seria a
linha política eleitoral democrática burguesa que o
Partido Comunista Americano abraçou.
Os Panteras levam sua teoria para a prática (...)
[O resultado foi que] as massas negras deram aos
Panteras a maior base de massas que qualquer
organização revolucionária dos Estados Unidos já teve.
Na festa de aniversário para Huey, o auditório de
Oakland abrigou muitos milhares de pessoas negras em
aplausos, incluindo não apenas a juventude lumpen,
mas famílias, velhos, crianças pequenas, operários,
trabalhadores. Em maio de 1969, dezenas de milhares
de negros, junto com muitos brancos, latinos e asiáticos,
protestaram para exigir que Huey fosse solto.
Seguraram o livro vermelho e gritaram ‘Liberdade para
Huey, fora os porcos!”, e proclamaram que as duas
principais ferramentas de libertação eram a arma e o
livro vermelho. Ao levarem adiante a arma, os Panteras
despertaram a consciência das massas para o
marxismo-leninismo, e abriram o caminho para
derrotar o social-pacifismo não apenas na nação negra,
mas também na nação chicana, Porto Rico e até mesmo
entre os brancos”.
Esta mudança também alterou as leituras
obrigatórias do Partido nas aulas de Educação Política.
Junto da autobiografia de Malcolm X, Condenados da
Terra, de Frantz Fanon, mas também textos de Mao, Che
Guevara, Lenin, Marx e Engels, Nkrumah, etc. Entre a
direção as leituras obrigatórias eram de 6 livros de Mao
ou sobre a Revolução Chinesa, três de/sobre Malcolm X,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 29 |

e um de cada de Huey P. Newton, Fanon e Marx. Em


seguida, cada membro deveria auxiliar o outro membro
a compreender estes textos. Criticaram também o que
chamavam de “esquerda branca”, que eram os setores
majoritariamente ligados ao movimento hippie da
época que denunciavam o marxismo-leninismo e os
países socialistas: “Muitos destes mesmos
provocadores culturais também denunciam
democracias populares como China, Cuba, Albânia,
Coreia Popular, e o Vietnã Democrático porque estes
países defendem uma cultura proletária revolucionária
e não uma cultura contrarrevolucionária, liberal-
burguesa do ‘faça o que você quiser’ que certos
‘esquerdistas’ nos EUA advogam”. Assim o partido
deixou de ser um partido baseado apenas na autodefesa
das comunidades oprimidas e no nacionalismo negro
revolucionário, e se tornou um partido revolucionário
de vanguarda, orientado pelo marxismo-leninismo
aplicado de maneira viva às suas condições concretas,
tal como coloca Elridge Cleaver: “Nós afirmamos: a
ideologia do Black Panther Party é a experiência
histórica do povo negro e a sabedoria forjada em sua
luta de 400 anos contra o sistema de opressão racista e
exploração econômica, interpretado através do prisma
da análise marxista-leninista feita pelo nosso Ministro
de Defesa, Huey p. Newton (...) Quando dizemos que
somos marxista-leninistas significa que estudamos e
compreendemos os princípios clássicos do Socialismo
Científico e que adaptamos estes princípios à nossa
própria situação”.

Fred Hampton e a Coalizão Arco-Íris


O estabelecimento de alianças, tanto com grupos
“brancos” como com outros partidos e organizações, foi
um dos aspectos que marcou a história dos Panteras
Negras. Uma das suas primeiras coalizões foi com o
Partido Paz e Liberdade, inclusive com o BPP lançando
|30 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

candidatos eleitorais pelo Partido. Em uma Conferência


de três dias chamada de Comitê Nacional contra o
Fascismo em julho de 1969, fizeram esforços em juntar
os principais partidos e organizações de esquerda da
época, chamando inclusive o Partido Comunista, como
já mencionamos. Entre os grupos majoritariamente
brancos (principalmente ligados ao movimento
estudantil, com exceção do Young Patriots e do Rising
Up Angry) que trabalharam conjuntamente com os
panteras, estavam o Peace and Freedom Party, o Young
Patriots, o Rising Up Angry, Students for a Democratic
Society, Patriot Party, White Panther Party, etc. O BPP
orientava o grosso desses grupos a organizarem os
brancos em suas comunidades e educar o povo de
maneira antirracista. Em âmbito organizacional,
brancos não eram permitidos nas fileiras do Partido,
mas asiáticos e latinos sim; estes de forma geral
possuíam suas próprias organizações nacionalistas
(Young Lords, Red Guards, La Raza Unida, etc.) que
cooperavam com o BPP, mas existe o caso bastante
conhecido de Richard Aoki, o único não-negro que fazia
parte da direção do Partido. Apesar de tudo, ainda assim
a aliança com grupos brancos gerou contradições
dentro do Partido, como por parte de Stokely
Carmichael que se desligou do Partido por conta dessas
divergências, afirmando que temia que o “Partido
poderia se tornar tropas de choque negras da nova
esquerda e da contracultura”. Huey respondeu aos
membros que eram contra estas alianças: “Enquanto o
ponto de vista (de trabalhar estritamente com negros)
era compreensível, falhou em levar em consideração as
limitações do nosso poder. Precisávamos de aliados, e
acreditávamos que a aliança com operários e estudantes
brancos valia o risco. Em alguns anos, quase metade da
população americana seria composta de jovens, e se nós
desenvolvêssemos alianças fortes e significativas com a
juventude branca, eles iriam apoiar nossos objetivos e
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 31 |

trabalhar contra o Establishment”. Huey prossegue: “Os


jovens brancos revolucionários se juntaram ao coro
pela retirada das tropas do Vietnã, de tirar as mãos da
América Latina, contra a ingerência na República
Dominicana e também pela retirada da comunidade
negra ou colônia negra. Então você tem uma situação
onde jovens revolucionários brancos estão tentando se
identificar com os povos oprimidos das colônias e
contra o explorador”. Exprimindo a linha de Huey, Fred
Hampton fez um discurso onde coloca que “o nosso
programa de dez pontos está em processo de ser
mudado agora mesmo, porque usamos a palavra
‘branco’ quando deveríamos ter usado a palavra
‘capitalista’.”Acreditamos que o ponto mais alto destas
alianças, bem como o momento mais avançado do
movimento revolucionário estadunidense, tomou forma
na Coalizão Arco-íris (Rainbow Coallition), levada a
cabo por Fred Hampton, dirigente do Partido de apenas
20 anos em Illinois, Chicago. Partindo da análise dos
Estados Unidos como uma prisão de nações, onde se
encontravam várias minorias nacionais oprimidas em
torno de uma nação, se tentou juntar os vários grupos
nacionalistas radicais que organizavam minorias
nacionais em torno de uma frente única. Também se
juntaram organizações “brancas”, como o White
Panther Party e os Young Patriots, organização dos
brancos pobres da região de Appalachia, que inclusive
usava a bandeira confederada (é sobre eles que Huey P.
Newton fala quando fala positivamente sobre “poder
branco para o povo branco” em um discurso bem
conhecido).
Entre os grupos que se juntaram na frente
fundada por Hampton, estavam os Young Lords, grupo
portorriquenho, Brown Berets, de chicanos, Red Guard,
chineses, American Indian Movement, povos
originários, etc. Para além de uma frente multirracial,
era uma frente que unia diversas nacionalidades
|32 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

oprimidas em torno de uma unidade programática que


visava a derrubada do capitalismo-imperialismo nos
Estados Unidos e a construção do socialismo. Como
parte da perseguição do FBI ao Black Panther Party,
Fred Hampton foi fuzilado enquanto dormia pela polícia
de Chicago em colaboração com o FBI, quando entraram
pela janela em seu quarto. De seu lado dormia a sua
esposa, grávida, que saiu ferida, e seu filho, que
sobreviveu. Na mesma casa, também estavam outros
membros do Partido. Mark Clark, de 17 anos, também
foi assassinado enquanto dormia em uma cadeira na
sala da casa. Os outros membros sobreviveram, mas
ficaram feridos. Segundo documentos do Júri Federal,
foram disparados 90 tiros no apartamento aquela noite,
sendo apenas um da arma de algum pantera. Com a
morte de Hampton, os esforços dentro da Coalizão Arco-
íris continuaram, mas sem o mesmo ritmo.
Lumpensinato enquanto sujeito histórico
As tentativas de desenvolvimento da aplicação
do marxismo-leninismo às condições e experiência
concreta do povo negro nos EUA, também implicaram
na elaboração de quais sujeitos levariam a cabo uma
revolução socialista, tanto as forças principais como as
forças dirigentes. Isso levou os Panteras Negras a fazer
uma reavaliação do papel do Lumpensinato na
revolução. O grosso das massas que o BPP mobilizou e
organizou era de pobres urbanos, do qual um
contingente importante era composto de “lumpens”.
Muitos, inclusive, eram antigos criminosos e bandidos,
da qual o BPP reeducava (Fred Hampton mesmo
reeducava muitos ex-criminosos para organizá-los pelo
Partido em Illinois) para trazê-los para suas fileiras.
Sobre as análises marxista-leninistas com
relação ao lumpensinato, existiam dois trechos de
textos de Mao que colocam a questão de maneira
distinta da que Marx trata no 18 Brumário; em Análise
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 33 |

das classes na sociedade chinesa, Mao diz: “a atitude em


relação a esse grupo constitui um dos problemas difíceis
que se apresentam à China. Tais indivíduos são capazes
de lutar com a maior coragem, mas são propensos a
ações destrutivas. Conduzidos de maneira correta,
podem converter-se em uma força revolucionária”. Em
outro texto, A Revolução Chinesa e o Partido Comunista
da China: “A situação de colônia e semi-colônia deu
lugar na China ao aparecimento de uma multidão de
desempregados, no campo e nas cidades. Sendo-lhes
recusados os meios de levar uma vida honesta, muitos
deles veem-se forçados a recorrer a meios ilícitos,
entregando-se a pilhagem, banditismo, mendicidade e
prostituição, assim como a exploração profissional da
superstição. Essa camada social é instável. Enquanto
uns se mostram capazes de ser assoldados pelas forças
reacionárias, outros são suscetíveis de aderir a
revolução. Tais indivíduos não têm espírito construtivo,
são mais aptos a destruir do que construir. Quando
intervêm na revolução, convertem-se em fonte da
mentalidade de bando rebelde errante e anarquismo no
interior das fileiras revolucionárias, razão por que
precisamos saber remodelá-los, guardando-nos contra
o seu espírito destrutivo”. Fanon, que era influência
considerável para os Panteras Negras, pegou estes
pontos de Mao e desenvolveu sobre o papel do
lumpensinato nas revoluções anticoloniais. Para Fanon,
o lumpen tanto abre margem para ser massa de
manobra dos colonialistas, sendo uma força
contrarrevolucionária, como também por conta do que
Mao chama de “capacidade de lutar com maior
coragem”, pode ser ponto de apoio para as forças
revolucionárias, principalmente na cidade como forma
de apoio ao movimento revolucionário no campo.
Por conta do processo de colonização interna, as
massas negras dos Estados Unidos sofriam do mesmo
processo que o grosso dos povos do Terceiro Mundo
|34 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

sofriam, de empobrecimento e pauperização em massa,


gerando uma massa de lumpens numerosa, com
condições de vida muito inferiores ao grosso da classe
operária estadunidense, da qual existia um setor bem
considerável como parte da aristocracia operária.
Assim, Huey P. Newton presta bastante atenção e
revisita o papel do lumpensinato na revolução. Para
Huey, o lumpensinato negro nos Estados Unidos não era
apenas os criminosos, ex-criminosos e desempregados,
mas também aqueles que estavam em subempregos e
alguns que trabalhavam na construção civil e até mesmo
alguns setores da indústria. Ou seja, os setores mais
pobres do povo que ficam de fora da economia formal
ou setores mais baixos desta economia formal.
Algumas análises marxistas consideram que isto
levou a uma “ideologia lumpen” como hegemônica
dentro do Partido, e que este foi o principal fator da
derrota do BPP. Consideramos tais visões errôneas. De
fato, é evidente que a ideologia lumpen, dada a base
social do Partido, possa ter exercido alguma influência
dentro da sua linha política, no processo natural da luta
de linhas. Mas a compreensão hegemônica sempre foi a
de que esta base lumpen (que dado o contexto, era mais
semelhante ao lumpensinato que Mao e Fanon se
referem) estava submetida à orientação ideológica do
Partido. Assim, ao invés de fazer os lumpens, como Mao
considerou acertadamente, serem autodestrutivos,
estavam sendo conduzidos por uma linha correta, o que
faz esta base ser inclusive remodelada.
Além disso, o BPP mobilizava tanto vastos
setores de trabalhadores negros, como camadas médias,
e pequena burguesia além do lumpen, sendo os
pequenos criminosos uma minoria do Partido, que era
reeducada e remodelada.
Se observarmos os principais discursos de Fred
Hampton, por exemplo, veremos que a sua posição é
nitidamente uma posição proletária, como em seu
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 35 |

famoso discurso de “Eu sou um revolucionário, eu sou o


proletariado, e vocês tem que entender a diferença, eu
não sou o porco”. Em um discurso feito na Igreja de
Olivet em 69, ele fala abertamente: “Temos que encarar
alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas
pertencem a o que se chama de classe mais baixa, e
quando eu falo das massas, estou falando das massas
brancas, estou falando das massas negras, e das massas
latinas e massas amarelas também. Temos que encarar
o fato que algumas pessoas dizem que se luta melhor
fogo contra fogo, mas dizemos que se combate o fogo
com água. Dizemos que não se combate o racismo com
racismo. Vamos combater o racismo com solidariedade.
Vamos dizer que não se combate o capitalismo
com o capitalismo negro; se combate o capitalismo com
o socialismo. (...) Não vamos lutar contra porcos
reacionários que andam pra lá e pra cá pelas ruas sendo
reacionários; vamos organizar e nos dedicar para o
poder político revolucionário e ensinar a nós mesmos as
necessidades específicas de resistir à estrutura de
poder, nos armar, e combater os porcos reacionários
com a Revolução Proletária mundial. É assim que tem
que ser. O povo tem que ter o poder; ele pertence ao
povo”.
E em outro discurso: “Sabe, muitas pessoas se
desligam do Partido porque o Partido fala de uma luta
de classes. Dizemos primariamente que a prioridade
desta luta é a classe. Que Marx e Lenin, Che Guevara e
Mao Tsé-tung e qualquer outro que já disse ou sabia ou
praticou qualquer coisa sobre revolução sempre disse
que uma r
evolução é uma luta de classes. Era uma classe –
os oprimidos, e aquela outra classe – o opressor. E isso
deve ser um fato universal. Aqueles que não admitem
isso são aqueles que não querem se envolver em uma
revolução, porque sabem que enquanto estiverem
lidando com uma questão apenas de raça, nunca se
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envolverão em uma revolução”. Hampton coloca


evidentemente o ponto de vista da classe operária, da
maneira com que esta dirige as outras demais classes
que podem vir a ter um papel na revolução socialista.
Apesar disso, podemos colocar que o Partido
errou ao colocar que o lumpen estava substituindo o
papel do proletariado. O lumpesinato é uma classe que
não pode se portar enquanto classe independente.
Como é uma classe impossível de se manter
independente, deve assumir ligações com uma classe
superior, e esta pode ser tanto a linha política do
proletariado revolucionário como da burguesia, a
auxiliando na contrarrevolução. O determinante no
processo de organização do lumpen por parte do BPP
era justamente a sua submissão à uma linha que
exprimia a missão histórica do proletariado, que é o
marxismo-leninismo. O BPP, assimilando o socialismo
científico, e apreendendo os escritos de Fanon e Mao,
conseguiu dar direcionamento correto para organizar o
lumpen, superando seus aspectos destrutivos e
contrarrevolucionários.

Intercomunalismo revolucionário
A aplicação do marxismo-leninismo para a sua
realidade concreta também levou Huey P. Newton, a
partir do método dialético a desenvolver aspectos
novos para a verdade geral do socialismo científico
tendo em vista seu caráter vivo. Huey assim coloca: “O
Black Panther Party é um partido marxista-leninista
porque seguimos o método dialético e também
integramos a teoria com a prática. Não somos marxistas
mecânicos. Algumas pessoas pensam que são marxistas,
quando na verdade estão seguindo o pensamento de
Hegel. Algumas pessoas pensam que são marxista-
leninistas, mas se recusam a serem criativos e, portanto,
estão amarrados ao passado. Se amarram à uma
retórica que não mais se aplica às atuais condições. Se
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 37 |

amarram a uma gama de pensamentos que se


aproximam de dogma – o que chamamos de
‘servilismo’.” Huey então desenvolve, a partir do
marxismo-leninismo, o que chama de
“Intercomunalismo revolucionário”. Para Huey, este
termo exprimia a contradição se desenvolvendo entre o
“pequeno círculo que controla e se enriquece do
Império dos EUA e os povos que querem determinar seu
próprio destino”. Para Huey, o “imperialismo não pode
existir sem explorar colônias e forçadamente mantê-las
dentro do panorama do ‘todo integral’; porque o
imperialismo pode trazer nações juntas apenas pelos
meios da anexação e conquistas coloniais, sem a qual o
imperialismo é, de maneira geral, inconcebível”. Para
Huey então, com o processo de hegemonização dos EUA
como potência imperialista de primeira ordem, os
limites nacionais estavam cada vez menos evidentes,
com as nações se tornando “comunidades”, as quais os
Estados Unidos estariam submetendo os povos
oprimidos do mundo a um domínio neocolonial, com um
imperialismo mais centralizado.
Huey concebe que as posições da burguesia
nacional seriam impossíveis de serem concretizadas no
marco deste imperialismo, dado que a posição dos EUA
no cenário mundial faria o mundo todo estar
interligado, e a saída era ou o “intercomunalismo
reacionário”, posição do domínio global dos EUA, ou o
“intercomunalismo revolucionário”, que seria a unidade
entre “comunidades” oprimidas contra este
imperialismo, e em defesa de uma ditadura do
proletariado global que derrubasse tal poder político e
construísse o socialismo e o comunismo.

Conclusão
O Black Panther Party, desde sua fundação, foi
alvo da forte repressão das classes dominantes do
imperialismo estadunidense. Edgar Hoover, diretor do
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FBI, classificou o Partido dos Panteras Negras como a


“maior ameaça à segurança interna do país”. O FBI, em
1967, criou o COINTELPRO, programa destinado a
“neutralizar” grupo “nacionalistas negros”. Seus
objetivos eram colocados abertamente: “prevenir uma
coalizão de grupos nacionalistas negros; prevenir a
ascensão de um messias que poderia unificar e
eletrificar o movimento nacionalista militante... Martin
Luther King, Stokely Carmichael e Elijah Muhammad,
todos aspiram a esta posição; prevenir violência por
parte de grupos nacionalistas negros; prevenir grupos
nacionalistas negros militantes e líderes de ganharem
respeito ao desonrá-los, prevenir o crescimento a longo
alcance de organizações nacionalistas negras militantes,
principalmente entre a juventude.
Após 1969, os Panteras Negras foram o principal
alvo, com inúmeros de seus membros assassinados ou
presos a partir deste programa. Além disso, forjaram
cartas e infiltraram membros a fim de semear confusão
nas fileiras do partido.
Quando Huey estava preso, forjaram cartas suas
alegando a necessidade do fim da luta armada, e que o
foco deveria ser exclusivamente nos programas de café
da manhã e outros do “Serve the People”. Elridge
Cleaver, que estava exilado na Argélia, também recebeu
várias cartas falsas de supostos panteras, criticando a
direção de Huey e clamando para que voltasse para
tomar a direção do Partido. Depois de Huey ter saído da
prisão, em uma entrevista a um programa de TV,
Cleaver acusa o programa do café da manhã para
crianças de reformista e ataca os atuais rumos do
Partido.
Como resposta, é expulso do Comitê Central, e sai
do Partido. Outra forma de destruição dos Panteras
Negras que o FBI usou, foi a difusão de drogas pesadas
(principalmente heroína) nas comunidades que o
Partido controlava. Dado o problema com dependência
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em drogas ser uma constante nos bairros que atuavam,


o Partido enfatizava a crítica às drogas como uma “praga
contra o povo”, que semeava a autodestruição para o
povo negro. Huey se exila em Cuba em 1973 para fugir
de mais uma condenação. A partir dali, Elaine Brown
estaria na direção do Partido, fazendo o Partido focar de
maneira mais profunda nos programas de
sobrevivência, em contraste com as aspirações de Huey,
que queria um Partido militarizado. Quando retorna em
1977, não consegue mais a hegemonia dentro do BPP.
Abanadona a vida política e vicia-se em cocaína e
heroína, e acaba morto em 1989, assassinado por um
traficante. Elridge Cleaver voltou do exílio em 1975 com
visões mais próximas de Martin Luther King e se
declarou culpado pelo tiroteio com a polícia em 1968,
do qual era acusado. Também se tornou dependente de
cocaína.
Este processo, que termina de maneira trágica foi
uma experiência breve, mas cheia de ensinamentos e
com muitas posições avançadas do ponto de vista da
questão negra enxergada sob o prisma do marxismo-
leninismo, e que deve ser efetuado um balanço com base
na luta em defesa da emancipação do povo negro sob o
socialismo científico.
Do ponto de vista da luta contra o racismo, tendo
em vista a superação não apenas da opressão racial, mas
também do capitalismo e pelo socialismo, a apreensão
correta do marxismo-leninismo, em seu processo de
sistematização, de luta contra as tendências
chauvinistas e social-imperialistas da II Internacional,
da elaboração de um verdadeiro internacionalismo, em
defesa dos povos coloniais e enquanto marxismo da
época do imperialismo, além das experiências históricas
das Revoluções Coreana e Chinesa, implica
necessariamente na luta contra o racismo colonial, em
defesa da unidade dos povos, como fator fundamental
para todos os revolucionários marxista-leninistas.
|40 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Nesse sentido que podemos compreender a assimilação


do marxismo-leninismo por parte do BPP, de maneira
que deu ao povo negro um norte ideológico para que
pudesse levar a cabo até as últimas consequências as
aspirações do seu povo por emancipação, e como parte
da revolução proletária mundial.
Assim, podemos conceber a experiência
estabelecida pelos Panteras Negras, ainda que curta,
como uma tentativa extremamente avançada de
desenvolver o marxismo-leninismo se moldando
enquanto vanguarda do povo negro nos EUA. Disso se
origina esta edição, cujo objetivo é oferecer uma seleção
da rica produção prática e teórica do Partido.
Uma contribuição do selo Edições Nova Cultura
Popular para que se desenvolva o estudo desta
experiência revolucionária do povo negro no coração do
imperialismo ianque.

Nova Cultura Popular


| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 41 |

0 anos dos Panteras Negras:


a luta contra o racismo no
coração do Império

AUGUSTO C. BUONICORE
historiador, presidente do Conselho
Curador da Fundação Maurício Grabois

No dia 15 de outubro comemoramos os 50 anos


de criação do Partido dos Panteras Negras. Esta foi um
dos principais movimentos de resistência negra dos
Estados Unidos na década de 1960 e influenciaria a luta
antirracista e anticapitalista em várias partes do mundo.
Desde o início, adotou o marxismo como referência
teórica da sua ação e logo se transformou no inimigo
público número um do FBI. Através do uso sistemático
da infiltração policial, espionagem e repressão, o Estado
imperialista conseguiu destruí-lo. Dezenas de militantes
foram mortos e centenas presos. Contudo, o seu
exemplo ficou para as gerações que os sucederam. E,
hoje, os “Panteras Negras” são um símbolo da luta
antirracista e anticapitalista na América do Norte e no
mundo.
Panteras Negras em protesto na Assembléia
Legislativa da Califórnia contra o desarmamento dos
negros.
Na metade da década de 1950 conseguiu-se
derrubar na Suprema Corte dos Estados Unidos as leis
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segregacionistas (“iguais mais separados”) que


impediam o acesso da população negra às melhores
escolas, universidades e repartições públicas. Alguns
anos depois – entre 1964 e 1965 –, foi aprovada uma
série de leis garantindo os direitos civis e o voto a todos
os negros. Aquelas haviam sido importantes conquistas
democráticas – fruto de uma luta centenária que custou
milhares e milhares de vidas –, mas a condição social
dos negros, especialmente a dos mais pobres, não
melhorou e, em muitos casos, piorou. A igualdade
formal (apenas perante a lei) não tinha o condão mágico
de eliminar por si só as profundas desigualdades sociais
criadas pelo capitalismo. A situação nos guetos
estadunidenses continuou explosiva.
Em agosto de 1965 eclodiu uma sangrenta
revolta em Los Angeles, no estado da Califórnia.
O conflito teve início quando policiais brancos
abordaram de forma violenta um jovem negro acusado
de “direção perigosa”. Aquela foi a gota d’água para uma
comunidade que vivia sendo humilhada e agredida
cotidianamente.
Após duros confrontos entre a população e as
forças de repressão, seguiram-se saques, incêndios de
carros e de estabelecimentos comerciais. Aterrorizadas,
as autoridades estaduais solicitaram a intervenção da
Guarda Nacional. Como resultado desses conflitos,
houve: 34 mortos, 1.032 feridos e 3.952 presos. E os
prejuízos ultrapassaram a cifra dos 40 milhões de
dólares. Este era o clima reinante na ensolarada e liberal
Califórnia quando alguns jovens negros começaram a se
auto-organizar para defenderem sua comunidade da
ação truculenta da polícia.

Nasce o Partido Panteras Negras para


Autodefesa
A história dos Panteras Negras começa em 15 de
outubro de 1966 na cidade de Oakland, próximo a São
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 43 |

Francisco no mesmo estado da Califórnia, quando Huey


P. Newton e Bobby Seale (ambos na foto ao lado) criam
o “Partido dos Panteras Negras para Autodefesa”. Os
dois se conheceram no Merrit College e ali ingressaram
numa das muitas associações afro-americanas. Depois
disso Newton, cursou Direito e Seale entrou para o
exército, onde ficou por quatro anos, passando os
últimos seis meses detido por se confrontar com um
oficial racista. Newton também conheceria a prisão por
oito meses por ter se envolvido numa briga. Ao se
reencontrarem, chegaram à conclusão de que era
preciso organizar um partido que defendesse a
comunidade negra da cidade.
Em pouco tempo a nova organização mudaria a
face do movimento negro dos Estados Unidos e
influenciaria a luta antirracista e anticapitalista em
várias partes do mundo. O objetivo inicial,
aparentemente, não tinha nada de revolucionário. Um
dia, Huey e Bobby descobriram que podiam usar a
própria legislação existente para defenderem-se das
sucessivas investidas policiais. Uma dessas leis
autorizava qualquer cidadão a ostentar arma de fogo
com a finalidade de proteger-se. Outra dava-lhes o
direito de acompanhar de perto a atividade policial. Os
jovens viram nisso uma brecha que lhes permitiria
montar um grupo negro de autodefesa.
Nas suas rondas noturnas, quando presenciavam
cenas de abusos do poder, saíam armados dos seus
carros e com sua presença inibiam as ações mais
truculentas da polícia. Ao serem questionados pelas
autoridades, recitavam bem alto os seus direitos.
Aqueles que assistiam à cena insólita passavam a
espalhar a notícia sobre a existência de um bando de
jovens negros corajosos que não temiam enfrentar os
policiais racistas.

O programa dos Panteras Negras


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O grupo, além de um nome, precisaria de um


uniforme que impusesse respeito. Então,os “Panteras
Negras” passaram a se vestir com camisas azuis, calças
e boinas pretas e casacos de couro. Eles desde o início
tiveram consciência do papel estratégico da agitação e
da propaganda na luta pela libertação da comunidade
negra. O primeiro e principal documento produzido foi
o Programa de 10 pontos (O que queremos), do qual
fizeram uma primeira edição de mil exemplares. Nele,
se afirmava:
1º Nós queremos liberdade. Queremos poder
para determinar o destino de nossas comunidades
negras.
2º Queremos pleno emprego para nosso povo.
3º Queremos o fim da ladroagem dos capitalistas
brancos contra nossas comunidades negras.
4º Queremos casas decentes para abrigar seres
humanos.
5º Queremos educação para nosso povo! Uma
educação que exponha a verdadeira natureza da
decadência da sociedade americana. Queremos que seja
ensinada a nossa verdadeira história e nosso papel na
sociedade atual.
6º Queremos que todos os homens negros sejam
isentos do serviço militar.
7º Queremos um fim imediato da brutalidade
policial e dos assassinatos de pessoas negras.
8º Queremos liberdade para todos os negros que
estejam em prisões e cadeias federais, estaduais,
distritais ou municipais.
9º Queremos que todas as pessoas negras
levadas a julgamento sejam julgadas por seus pares ou
por pessoas das suas comunidades negras.
10º Queremos terra, pão, moradia, educação,
roupas, justiça e paz.
Este programa sofreria modificações
importantes conforme reforçava a adesão do grupo ao
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marxismo e ao anti-imperialismo. Entre essas


mudanças está a inclusão das “comunidades oprimidas”
ao lado da “comunidade negra”, sinalizando que os
“Panteras” lutavam pela emancipação de todos os
oprimidos e não apenas dos negros. Também ocorreria
a fusão de alguns itens e a inclusão de outro: “Queremos
o fim imediato de todas as guerras de agressão”, numa
clara referência crítica às intervenções do imperialismo
estadunidense no terceiro mundo, especialmente no
Vietnã.
Estabeleceram uma série de regras que deveriam
ser seguidas à risca pelos militantes da organização,
como a proibição do uso de drogas. Também era vetado
o uso de bebida alcoólica durante o trabalho partidário.
Outro item dizia: “nenhum membro do partido
cometerá qualquer crime contra outros membros ou a
população negra em geral; não poderá furtar ou tomar
do povo, nem mesmo uma agulha ou pedaço de linha”.
E: “todos os membros em posição de liderança devem
ler no mínimo duas horas por dia”. O trabalho de
formação teórica e política era uma das marcas dos
“Panteras Negras”.
Uma das primeiras atividades foi fazer uma
coleta entre os poucos militantes e alugar uma sede, que
foi inaugurada em 1º de janeiro de 1967. Poucos meses
depois, criaram o semanário The Black Panther, que
teve 537 edições (1967 e 1971), chegando a 150 mil
exemplares. Ainda em 1967 esta frente partidária
ganhou um importante reforço com o ingresso do
escritor e jornalista Eldridge Cleaver.
Os “Panteras” não passavam de um grupo de
autodefesa negra local com algumas dezenas de
membros. Contudo, um fato os projetaria
nacionalmente.
No começo de 1967, temendo pela existência de
milícias negras, os deputados estaduais da Califórnia
passaram a discutir um projeto de lei proibindo a
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exibição pública de armas por civis, o “Mulford Act”.


Ironicamente, até então o direito de andar armado era
uma das bandeiras dos conservadores e o governador
era justamente o direitista Ronald Reagan.
No dia 2 de maio, dezenas de Panteras Negras,
liderados por Seale, realizaram uma demonstração
armada no recinto da Assembleia Legislativa, mas por
engano entraram no plenário causando pânico entre os
parlamentares. Assim, o pequeno grupo de Oakland
ganhou as primeiras páginas dos principais jornais do
país. De um lado, isso atraiu a simpatia de milhares de
jovens negros e, de outro,chamou a atenção dos órgãos
de investigação e repressão do Estado, especialmente
do FBI.
Logo a mídia conservadora procurou difundir a
falsa ideia de que os “Panteras Negras” eram racistas –
um racismo às avessas – e que odiavam todos os
brancos. Seale, numa entrevista, respondeu a essas
acusações infundadas:
“- Quando alguém me diz que sou antibranco,
coço a cabeça e penso: antibranco, o que quer dizer com
isso?
- ‘Quero dizer que odeia os brancos’, retruca o
jornalista.
- Eu, odiar os brancos? Mas o ódio é contra nós.
- É a KKK que me odeia e quer matar-me devido
à cor da minha pele. Eu não quero matar nem maltratar
ninguém pela cor da sua pele. Sim, há alguma coisa que
odiamos. Odiamos a opressão de que somos vítimas.
Odiamos os policiais que agridem e matam os negros. A
nossa energia queremos consagrá-la não a odiar quem
quer que seja em virtude da cor da pele, mas à luta para
acabar com a opressão”.
Os “Panteras Negras” não realizaram apenas
demonstrações armadas, eles também montaram um
eficiente sistema de assistência social, com refeitórios
que serviam café da manhã para crianças e
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adolescentes, clínicas médicas, escolas primárias e


cursos de formação política. Fizeram campanhas contra
o alcoolismo e as demais drogas, pois acreditavam que
contribuíam para a desagregação das comunidades
negras. Possivelmente, o exemplo do movimento de
libertação da Argélia, vitorioso em 1962, os tenha
inspirado. De um grupo exclusivamente masculino, ele
logo passou a aceitar o ingresso de mulheres, que
chegaram a representar mais da metade da militância. A
ativa participação delas – como Kathleen Cleaver, Elaine
Brown e Assata Shakur– mereceria uma página especial
na história dessa organização.
Os Panteras Negras tinham uma forma de
organização original. Seu órgão dirigente denominava-
se Comitê Central, seguindo a antiga tradição
comunista. Mas este não se organizavaatravés de um
secretariado, comandado pelo secretário-geral ou
primeirosecretário. Uma concepção militarista (com
influência de Régis Debray) e nacionalista-negra (que
entende a população negra como uma nação dentro da
nação) leva que o cargo principal seja o de ministro da
Defesa, assumido por Newton. Seguido pelo presidente
(Seale). Depois vinha o ministro da Informação
(Eldridge Cleaver), o chefe do Estado-Maior (David
Hilliard), o marechal de campo (Don Cox), o ministro da
Educação (Ray Massai Hewitt), o ministro da Cultura
(Emory Douglas), a secretária de comunicações
(Kathleen Cleaver, primeira mulher a assumir um cargo
na direção nacional).Em fevereiro de 1968,foi
anunciada a integração do Comitê de Coordenação
Estudantil da Não Violência (SNCC, na sigla em
inglês)aos “Panteras Negras”. Três dirigentes daquela
organização passaram a compor o Comitê Central:
Stokely Carmichel (primeiro-ministro), H. Rap Brown
(ministro da Justiça) e James Forman (ministro de
Assuntos Exteriores).
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Marxismo e terceiro-mundismo
Inicialmente, o partido era influenciado pelo
exemplo de Malcolm X, morto em fevereiro de 1965,
mas ao contrário deste não tinha relação como
islamismo negro. Sua perspectiva era laica, marxista e
terceiro-mundista. O assassinato de Luther King em 4 de
abril de 1968 representou um duro golpe nas correntes
que advogavam a resistência pacífica contra a opressão
à comunidade negra e levou a uma radicalização maior
de setores do movimento, inclusive os “Panteras
Negras”. Estes passaram por um momento de rápida
ascensão, com um aumento significativo da abrangência
da sua organização e no número de militantes.
Os “Panteras Negras” foram muito influenciados
pelo maoísmo e faziam proselitismo do Livro vermelho
do camarada MaoTse-tung, mas também mostravam
simpatias por outros revolucionários. Como disse Ray
(Massai) Hewitt: “Aprendemos com o presidente Mao,
com Ho Chi Minh e temos um profundo carinho por
Fidel Castro”. Outro de seus líderes, George Murray, já
havia dito: “nosso pensamento se inspira em Che
Guevara, Malcolm X, Lumumba, Ho Chi Minh e Mao Tse-
tung”. Don Cox, por sua vez, afirmou: “aprenderemos
com todos aqueles que anteriormente mantiveram bem
alto a chama (revolucionária): Marx, Lênin, Stalin, Mao,
Fidel, Che, Lumumba e Malcolm X. E continuaremos
aprendendo com todos que continuam mantendo essa
chama bem no alto: Ho Chi Minh, esses irmãos e irmãs
do Al Fatah, essas guerrilhas palestinas, e todos os
camaradas em armas, da Ásia e da América Latina”.
Theodore Drapper, no seu livro Nacionalismo
Negro nos Estados Unidos, constata que “até o final de
1969, para os ‘Panteras Negras’, o comunista
estrangeiro favorito parecia ser Kim Il Sung, presidente
da Coreia do Norte, a julgar pelo espaço (no jornal)
dedicado às suas declarações e a seus discursos”. Como
podemos notar, a ideologia dos “Panteras Negras” era
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marcada por certo ecletismo – uma mistura nem


sempre bem articulada de diversas correntes marxistas.
A aceitação do marxismo os levou, corretamente,
a que fossem contrários às teses de retorno à África,
defendidas por grupos minoritários, herdeiros de
Marcus Garvey. Para os “Panteras”, o país materno dos
atuais negros era os Estados Unidos e não a África.
Discordavam de certo nacionalismo pan-africano, que
pretendia estabelecer a cultura africana como a
verdadeira cultura do negro estadunidense. Newton e
Seale achavam que era preciso realizar uma
incorporação seletiva do que tinha de revolucionário e
progressista na cultura africana (e de outros povos do
mundo) e não os seus aspectos atrasados. Newton diria:
“O que a nós concerne cremos que é importante
reconhecer nossas origens e nos identificarmos com os
povos negros revolucionários da África e os povos de
cor de todo o mundo. Porém, quanto a retornar aos
antigos costumes, não vemos necessidade de fazê-lo”.
George Murray, ministro da Educação, seria mais
contundente ao considerar o nacionalismo pan-africano
“reacionário, insensato e contrarrevolucionário”. Outro
artigo do jornal dos “Panteras Negras” ridicularizaria
“os tontos que andam por aí declarando que estão
‘simplesmente tratando de ser negros’ por usar
turbantes e túnicas e dizem aos negros que eles devem
se vincular aos costumes africanos e à herança africana,
que deixamos faz trezentos anos, que isto os vai fazer
livres”.
Eles não acreditavam que o combate principal
era entre a totalidade da comunidade negra e a
totalidade da comunidade branca. Eles acreditavam que
o motor das transformações sociais era a luta de classes,
a luta contra o imperialismo e o capitalismo, que tinham
à sua cabeça o governo e as classes dominantes dos
Estados Unidos. A derrota do racismo e da opressão
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estava vinculada diretamente a uma vitória nesse


campo.
O presidente dos “Panteras”, Bobby Seale,
afirmaria: “Os nacionalistas culturais e os Panteras
estão em conflito em muitas áreas. Basicamente, o
nacionalismo cultural vê o homem branco como
opressor e não faz distinção entre brancos racistas e
brancos nãoracistas, como os Panteras fazem. Os
nacionalistas culturais dizem que o negro não pode ser
inimigo do povo negro, enquanto os Panteras acreditam
que os capitalistas negros são exploradores e
opressores. Embora os Panteras Negras acreditem no
nacionalismo negro e na cultura negra, eles não
acreditam que levarão à liberdade negra ou à derrubada
do sistema capitalista, e são, portanto, ineficientes”.
Seale reafirmaria essas ideias em outras
oportunidades: “não combatemos o racismo com
racismo. Combatemos o racismo com solidariedade.
Não combatemos o capitalismo explorador com o
capitalismo negro. Combatemos o capitalismo com o
socialismo de base. Não combatemos o imperialismo
com mais imperialismo. Combatemos o imperialismo
com o internacionalismo proletário”. Referindo-se à
relação entre racismo e dominação capitalista,
insistiria: “o racismo e as diferenças étnicas permitem
que as estruturas de poder explorem as massas
trabalhadoras, porque é a chave através da qual
mantém o controle. Dividir o povo e submetê-lo é o
objetivo da estrutura de poder (...). É realmente a classe
dominante, pequena e minoritária, que domina, explora
e oprime os trabalhadores e o povo laborioso (...). Então,
esta não é de todo uma luta racial (...). Na nossa visão é
uma luta de classes entre a massiva classe trabalhadora
e a pequena minoria da classe dominante, exploradora
e opressora. Deixe-me enfatizar novamente:
acreditamos que a nossa luta é uma luta de classes e não
uma luta racial”.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 51 |

Era essa concepção que permitiria aos “Panteras


Negras” fazerem alianças com outros grupos radicais e
socialistas, compostos predominantemente por
brancos, como o Partido Comunista dos Estados Unidos,
sem se subordinarem a eles. Muitas vezes se dirigem ao
conjunto do povo e não apenas aos negros. “O Partido
dos ‘Panteras Negras’ é um partido do povo. Estamos
fundamentalmente interessados em uma coisa: libertar
todo o povo de todas as formas de escravidão, com o
objetivo de que cada homem seja seu próprio dono”.
Como vemos, os “Panteras Negras” – como
partido revolucionário e socialista – não se restringia à
defesa dos negros estadunidenses, pois sabiam que –
apesar de mais oprimido – representavam apenas 12%
da população. Por isso, incorporaram bandeiras mais
amplas. Estiveram na linha de frente da campanha
contra a guerra do Vietnã, conscientizando os jovens de
que aquela era uma guerra imperialista e não devia ser
apoiada. Fizeram frentes de ação política com várias
entidades, como a dos “Estudantes por uma sociedade
democrática”. Contribuíram para a formação do
“Partido da Paz e da Liberdade” – uma organização
multiracial–, que lançaria Eldridge Cleaver como
candidato à presidência da República nas eleições de
1968, obtendo 50 mil votos.
Em julho de 1969, os “Panteras” patrocinaram a
Conferência nacional pró-frente única contra o
fascismo. Dela, participaram representantes do Partido
Comunista dos EUA, e entre eles o doutor Herbert
Aptheker, especialista na história dos negros
americanos, que fez um longo discurso. Diante das
críticas feitas por alguns grupos negros, Seale afirmou
que os comunistas haviam trabalhado mais pelo sucesso
da conferência contra o fascismo que qualquer outra
organização e, por isso, garantiram o direito de estarem
ali e utilizarem a palavra. Isso, é claro, não eliminava as
diferenças teóricas e políticas entre as duas
|52 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

organizações de esquerda, que mantinham entre si


relações respeitosas. Sabiam que o inimigo era outro.
Por isso, chegaram mesmo a propor a
constituição de “um partido novo, um novo partido dos
trabalhadores, ou como o queiram chamar-lhe (...) uma
frente de libertação norte-americana, composta por
todos os povos dessa nação”, afirmou Seale.
A posição de Newton e Seale em fazer alianças
com organizações radicais e socialistas brancas –
inclusive em constituir um partido de frenteúnica – fez
com que surgisse uma divergência no interior da
organização. Estas, por exemplo, foram as causas da
demissão de Carmichael e de outros militantes da
direção dos “Panteras Negras” em julho de 1969. “Não
posso aprovar politicamente as alianças realizadas pelo
partido, porque a história dos africanos que vivem nos
Estados Unidos tem demonstrado que qualquer aliança
prematura com radicais brancos tem levado à completa
submissão dos negros aos brancos, mediante o controle
direto e indireto da organização negra”, declarou
Carmichael. Em 1966, quando ainda era presidente do
SNCC, ele havia afastado todos os estudantes radicais
brancos e agora via o seu novo partido se aproximar
desses mesmos estudantes e propor-lhes a construção
de uma organização política de frenteúnica. Seale
rebateu afirmando que Carmichael tinha um temor
paranoico em relação à militância radical branca, fruto
das dificuldades encontradas no passado no interior da
SNCC. Os “Panteras”, que tinham outra história, não
carregavam tais preconceitos.
Num discurso, Newton chegou a afirmar: “Houve
um tempo em que acreditávamos que só os negros eram
colonizados. Porém agora creio que devemos mudar o
nosso discurso em certa medida, porque todo povo
norte-americano tem sido colonizado, se consideramos
a exploração como um efeito do colonialismo, já que
esse povo é explorado”. O líder dos “Panteras”
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 53 |

amalgamava os conceitos de exploração e colonização.


Assim, todos os trabalhadores brancos e negros eram
explorados e, portanto, colonizados pelo capitalismo na
sua fase imperialista. Uma argumentação original,
embora bastante imprecisa.
Novamente, contra aqueles que acreditavam ser
possível constituir um cinturão de Estados negros e
socialistas na América do Norte, Newton argumentava
que essa experiência não poderia sobreviver se o
restante dos Estados Unidos continuasse
capitalista. “Atualmente, o Partido dos Panteras Negras
opina que não queremos estar numa situação típica de
enclave, pois ficaríamos mais isolados que estamos
agora”. Ou, como afirmaria Newton: “Não poderíamos
(vencer) somente na colônia (referindo-se à
comunidade negra americana), porque seria como
cortar um dedo de uma das mãos, pois elas
continuariam funcionando (...). Para vencer o monstro é
preciso vencê-lo em sua totalidade”. Para isso, era
preciso unificar a luta dos “radicais brancos e brancos
pobres” dos Estados Unidos para realizar uma
revolução socialista em escala nacional e internacional.
Em um dos discursos feitos na Conferência
antifascista de Oakland, Seale afirmaria: “Não dizemos
que a autodeterminação do povo negro nas
comunidades negras seja incorreta. É necessária.
Porém, não estamos dizendo que o povo negro é uma
nação só por ser negro. Dizemos que é uma nação
porque sofre essa mesma opressão econômica; porque,
em segundo lugar, tem uma característica psicológica
básica em sua forma de reagir ante o meio que vive;
terceiro porque eles se explicam pelo que está
ocorrendo; pois o povo negro na comunidade negra
compreende o genocídio; porque a linguagem, as
características psicológicas, as condições econômicas e
(4) a localização geográfica em que o povo negro vive se
definem geralmente como guetos. Esta localização
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geográfica, juntamente com outros pontos, define o


povo negro como nação (...). Se estamos divididos e
cindidos é porque estamos colonizados, porque os
povos do terceiro mundo estão colonizados. Isto é o que
define uma nação. Não nos baseamos no racismo.
Entendemos o nacionalismo nos termos do que é uma
nação e compreendemos o internacionalismo”. Neste
ponto a ideologia dos “Panteras” demonstra suas
contradições, pois algumas vezes nega o nacionalismo
negro e em outras assume alguns dos seus pontos
centrais: como a ideia de que os negros estadunidenses
formam uma nação à parte no interior da América do
Norte.

O Império contra os Panteras Negras


Em 1968 os “Panteras” possuíam filiais em 20
cidades e dois anos depois esse número subiria para 45
– e calcula-se que no seu auge tenha chegado a5 mil
membros –, tornando-se um dos movimentos da
esquerda revolucionária mais importantes dos Estados
Unidos. É justamente desse período a afirmação de
Edgard Hoover, diretor do FBI, segundo a qual eles
representavam a maior ameaça interna ao país. Desde
então os aparelhos de controle e repressão dos Estados
Unidos colocaram como uma de suas tarefas principais
a erradicação dessa organização, com processos
fraudulentos, prisões e mesmo execuções extrajudiciais.
Contra ela foi utilizado o CounterIntelligence Program
(COINTELPRO) – um programa de contrainteligência
que tinha o objetivo de coordenar o trabalho de
infiltração de espiões e provocadores nas organizações
de esquerda e a criação de um esquema de
contrainformação visando a isolar e desmoralizar as
organizações-alvo de sua ação.
Na metade da década de 1970 – quando o grupo
praticamente não mais existia –, o próprio Congresso
estadunidense formou uma comissão de inquérito que
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 55 |

constatou os abusos cometidos pelo FBI e outros órgãos


governamentais contra os “Panteras Negras”.
Recentemente, por exemplo, se descobriu que um dos
ativistas que fornecia as armas ao grupo, o nipo-
americano Richard Masato Aoki, era na verdade um
agente infiltrado.
Apenas nos primeiros quatro anos de existência
34 de seus militantes foram assassinados – a maioria em
supostos confrontos com a polícia. Em 28 de outubro de
1967, Newton se envolveu num conflito com alguns
policiais que levou à morte de um deles. Julgado por um
tribunal composto exclusivamente por brancos,ele foi
condenado em setembro de 1968 a 15 anos de prisão.
Houve a partir de então uma grande campanha para que
fosse libertado e, em agosto de 1970, ele acabou sendo
solto após novo julgamento.
No dia 6 de abril de 1968, contra a vontade da
direção nacional, uma ala dos “Panteras Negras”,
comandada por Cleaver, resolveu realizar uma ação
armada contra policiais num protesto contra o então
recente assassinato de Luther King. Após o confronto,
que resultou em vários feridos, Cleaver e Bobby Hutton
– de apenas 17 anos – se refugiaram no porão de uma
casa e rapidamente foram cercados. Cleaver, temendo
por uma execução sumária, recomendou que tirassem
as roupas e saíssem nus, demonstrando que estavam
desarmados. Contudo, Bobby tirou apenas a camisa e ao
sair do esconderijo foi morto com vários tiros, inclusive
pelas costas. Ele foi o primeiro membro do partido a ser
assassinado pela polícia. Cleaver foi preso e no
transcorrer do processo fugiu para Cuba, depois seguiu
para Argélia, onde montou um escritório de relações
internacionais do grupo.
Um ano depois do assassinato de Hutton, 21 dos
principais líderes dos “Panteras Negras” em Nova
Iorque foram presos e falsamente acusados de
terrorismo. A fiança estabelecida pelo juiz foi
|56 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

astronômica. Esta foi outra estratégia para enfraquecer


financeiramente a organização, que era obrigada a fazer
grandes esforços para conseguir recursos visando a
pagar as despesas das dezenas de processos que eram
abertos. O processo contra os 21 durou mais de um ano
e foi concluído pela absolvição dos réus.
No mês de setembro de 1969, em meio à
campanha para libertar Newton, Bobby Seale foi preso
em Chicago sob a acusação de conspirar para um motim
e de ter assassinato um suposto informante do FBI
dentro de sua organização. Diante de sua postura
inconformista no tribunal, o juiz determinou que fosse
amordaçado e amarrado na cadeira. Uma atitude
despótica que ocasionou protestos em todo o país.
Nesse ínterim – estando Newton e Seale presos e
Cleaver exilado–, David Hillard tornou-se presidente
interino, mas mesmo ele não escapou das perseguições
da justiça.
Outros casos escandalosos foram os assassinatos
de Fred Hampton e Mark Clark, dois líderes da atuante
seção partidária no estado de Illinois, ocorridos em 5 de
dezembro de 1969. Foram executados dentro do
apartamento de Hampton, possivelmente enquanto
dormiam. Poucos meses antes de ser assassinado – num
comício em defesa da liberação de Newton –, Hampton
havia dito:“vocês podem prender um revolucionário,
mas não podem prender a revolução”. Agora eles não
apenas prendiam, mas matavam.
Quatro dias depois do duplo homicídio, 300
membros da SWAT iniciaram um feroz ataque contra o
escritório dos “Panteras Negras”. O confronto durou
mais de cinco horas e três pessoas ficaram feridas.
Nesse mesmo período, várias outras sedes foram
atacadas com igual furor. Ninguém tinha mais dúvidas
de que ali se travava uma guerra.
Toda essa monstruosa operação de cerco e
aniquilamento levada a cabo pelo Estado surtiu efeito.
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Ocorreram vários rachas internos – uma parte deles


incentivada por infiltrados e pelo pessoal da
contrainformação – e muitos militantes, impactados
pelas sucessivas derrotas, abandonaram o grupo. No
ano de 1971, Cleaver e vários ativistas, especialmente
de Nova Iorque, romperam com a direção. E também um
grupo de tendência militarista funda o Exército Negro
de Libertação, que organizou várias ações armadas.
A última grande campanha dos “Panteras
Negras” ocorreu em 1972, quando o que restava da
organização em todo o país foi mobilizado para eleger
Seale à prefeitura de Oakland. Para isso, fecharam as
sedes em várias cidades importantes e transferiram os
seus militantes para aquela batalha eleitoral local. Algo
que lhes trouxe grande prejuízo organizativo, do qual o
grupo jamais se recuperou. Visando a alcançar o seu
objetivo eleitoral, adotaram um discurso menos radical
e até se ligaram ao Partido Democrático. Apesar das
concessões e dos enormes esforços empreendidos, os
“Panteras” não elegeram nem o prefeito nem a sua
candidata à vereadora, Elaine Brown.
A grave derrota levou ao aprofundamento da
crise interna. Seale e Newton se desentenderam sobre o
rumo do movimento, e o primeiro renunciou à
presidência. Nesse momento, o Partido dos Panteras
Negras estava reduzido a algumas dezenas de
militantes. Para complicar a situação, Newton – acusado
de assassinar uma prostituta – foi obrigado a fugir do
país e se abrigar em Cuba em agosto de 1974, deixando
Elaine Brown no seu lugar. Newton voltou em 1977
durante a administração do presidente Carter, quando o
clima político havia desanuviado – sendo julgado e
absolvido. Contudo, acabou sendo assassinado por um
pequeno traficante em 22 de agosto de 1989. Com esse
episódio – simbolicamente – fechava-se tragicamente
mais uma página heroica da história de luta dos negros
estadunidenses.
|58 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Bibliografia
FRANKLIN, John Hope; MOSS JR., Alfred A. Da
escravidão à liberdade: a história do negro americano.
Rio de Janeiro: Nórdica, 1989.
DRAPER, Theodore. Nacionalismo negro em
Estados Unidos. Madri: Alianza Editorial, 1972.
JOHNSON, Ollie A. Explicando a extinção do
Partido dos Panteras Negras. In:Cadernos CRH, n. 35,
jan.-jun. 2002, Salvador.
PETERSON, John.Que caminho seguir para os
trabalhadores e jovens negros? In:Esquerda Marxista,
2014.
ROCQUES, Marcel. Há uma esquerda nos EUA?
Lisboa: Estampa, 1971.

Filmografia
Panteras Negras; direção de Mario Van Peebles
(1995)
Os Panteras Negras: vanguarda da
revolução;direção de Stanley Nelson (2014)
Panteras Negras: todo poder ao povo; direção de
Lee Lew-Lee (1997)
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 59 |

DOCUMENTOS, ARTIGOS
E TEXTOS
O Manejo correto de uma
Revolução
Huey Newton
A maior parte do comportamento humano é
comportamento aprendido. A maior parte das coisas
que o ser humano aprende é adquirida em uma relação
indireta com o objeto. Os humanos não agem por
instinto, como animais inferiores fazem. Essas coisas
aprendidas indiretamente podem muitas vezes
estimular respostas eficazes para o que pode ser uma
experiência direta posterior. Nesse momento, as
massas negras estão manejando a resistência da forma
incorreta. Quando os irmãos de East Oakland,
aprendem a realizar sua luta de resistência com Watts,
mobilizando o povo nas ruas, jogando tijolos e
coquetéis molotov para destruir a propriedade e criar
distúrbios, foram jogados em uma área pequena pela
polícia da Gestapo e, então, imediatamente contidos
pela força brutal das tropas de choque do opressor.
Ainda que esse modo de resistência seja esporádico, de
curta duração e custoso em termos de violência contra
o povo, foi transmitido para todos os guetos da nação
negra no país.
O primeiro homem que jogou um coquetel
molotov não é conhecido pessoalmente pelas massas,
mas ainda assim a ação foi respeitada e seguida pelo
povo. Da mesma forma, as ações do Partido serão
imitadas pelo povo – se o povo respeitar estas
|60 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

atividades. A principal tarefa do Partido é fornecer


liderança para o povo. Deve ensinar pela prática e pela
teoria os corretos métodos de estratégia de resistência
prolongada. Quando o povo aprender que não é mais
vantajoso para resistir indo para as ruas em grande
número, e quando ver as vantagens das ações do
método da guerra de guerrilhas, irá rapidamente
seguir este exemplo. Mas, primeiramente, eles devem
respeitar o Partido que está transmitindo esta
mensagem. Quando o grupo de vanguarda destruir a
máquina do opressor lidando com este em pequenos
grupos de três e quatro pessoas, e então escapar da
força do opressor, as massas irão se impressionar e é
mais provável que aderirão à esta estratégia correta.
Quando as massas ouvirem que um policial da Gestapo
foi executado enquanto tomava seu café na esquina, e
os executores revolucionários fugiram sem ser
achados, as massas verão a validade deste tipo de
resistência. Não é necessário organizar trinta milhões
de negros e negras em grupos primários de dois ou
três, mas é importante para o partido mostrar ao povo
como conduzir a revolução. Durante a escravidão, em
que nenhum partido de vanguarda existia e as formas
de comunicação eram severamente restritas e
insuficientes, muitas revoltas de escravos
aconteceram.
Existem três formas das quais podemos
aprender: através do estudo, da observação e da
experiência. Como a comunidade negra é composta
basicamente por ativistas, a observação ou a
participação na atividade são as principais formas que
a comunidade aprende. Aprender pelo estudo é bom,
mas aprender pela prática é melhor. O Partido deve se
engajar em atividades que ensinarão o povo. Porque a
comunidade negra não é uma comunidade leitora é
muito importante que a vanguarda seja
essencialmente prática. Sem este conhecimento da
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 61 |

comunidade negra, uma revolução negra na América


racista é impossível. A principal função do partido é
despertar o povo e ensiná-lo o método estratégico de
resistir à estrutura de poder, que é preparada não
apenas para combater a resistência do povo com
brutalidade massiva, mas para também aniquilar
completamente a comunidade negra, a população
negra. Se a estrutura de poder descobrir que o povo
negro possui um número “x” de armas, esta informação
não irá estimular a estrutura de poder a se preparar
com armas; ela já está preparada. O resultado final da
educação revolucionária será positivo para o povo
negro em sua resistência, e negativa para a estrutura
de poder em sua opressão porque o Partido sempre
exemplifica o desafio revolucionário. Se o Partido não
torna o povo ciente das ferramentas e métodos de
libertação, não haverá os meios para que o povo possa
se mobilizar. A relação entre o Partido de Vanguarda e
as massas é uma relação secundária. A relação entre os
membros do partido de vanguarda é a relação
principal. Se a máquina do Partido deve ser eficaz, é
importante que os membros mantenham uma relação
cara a cara uns com os outros. É impossível estabelecer
a máquina operante do Partido ou programas do
Partido sem tal relação direta. Os membros do Partido,
para minimizar o perigo dos informantes do Tio Tom e
de oportunistas, devem ser revolucionários
experientes.
O principal propósito da vanguarda deve ser
elevar a consciência das massas através de programas
educacionais e outras ações. As massas dormentes
devem ser bombardeadas com a correta abordagem
para a luta e o Partido deve usar todos os meios
disponíveis para fazer com que estas informações
circulem para as massas. Assim, as massas devem
saber que o Partido existe.
|62 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Se as massas não têm conhecimento do partido,


então será impossível seguir o seu programa. Um
partido de vanguarda nunca é clandestino no começo
de sua existência; isto limitaria a sua eficiência e seus
objetivos educativos. Como você pode educar o povo se
o povo não o conhece e não o respeita? O Partido deve
ser um partido legal enquanto a estrutura de poder dos
cães permitir e, esperançosamente, quando for forçado
à clandestinidade, a mensagem do Partido já estará
circulada entre o povo. As ações na legalidade terão
vida curta. Assim, o Partido deve causar um enorme
impacto entre o povo antes que seja levado para a
ilegalidade. Até ali, o povo saberá que o Partido existe
e irá buscar mais informações sobre suas atividades
caso seja tornado ilegal.
Muitos ditos revolucionários trabalham com a
noção falaciosa de que o partido de vanguarda deve ser
uma organização secreta que a estrutura de poder
desconhece, exceto por algumas cartas ocasionais que
chegam as suas casas de noite. Partidos clandestinos
não podem distribuir panfletos anunciando uma
reunião clandestina. Essas são as contradições e
inconsistências dos ditos revolucionários. Os ditos
revolucionários têm, na verdade, medo do risco que
defendem que o povo deve confrontar. Esses ditos
revolucionários querem que o povo diga o que eles
mesmos tem medo de dizer, e que o povo faça o que
eles têm medo de fazer. Isso torna o dito
revolucionário um covarde e um hipócrita. Um
verdadeiro revolucionário sabe que se é sincero, a
morte é iminente. As coisas que está dizendo e fazendo
são extremamente perigosas. Sem esta percepção, é
inútil proceder como um revolucionário. Se estes
impostores investigassem a história da revolução,
veriam que a vanguarda sempre começa com o
trabalho aberto e é levada para a clandestinidade pelo
agressor.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 63 |

A Revolução Cubana é um exemplo: quando


Fidel Castro começou a resistir ao algoz Batista e aos
cães estadunidenses, falava publicamente no campus
da Universidade de Havana. Posteriormente, foi levado
para as montanhas. Seu impacto sobre os pobres de
Cuba foi enorme e seus ensinamentos foram recebidos
com muito respeito. Quando se escondeu, o povo
cubano o procurou, indo para as montanhas
encontrando-no e seu grupo de 12 pessoas. Castro
manejou a luta revolucionária corretamente, e se a
Revolução Chinesa for estudada, se verá que o Partido
Comunista atuava abertamente para obter o apoio das
massas. Existem muitos outros exemplos de vitoriosas
lutas revolucionárias das quais podemos aprender a
abordagem correta: a Revolução no Quênia, a
Revolução Argelina discutida por Fanon em Os
Condenados da Terra, a Revolução Russa, as obras do
Presidente Mao Tsé-tung e muitas outras.
As massas estão constantemente procurando
por um guia, um messias, para libertá-las das mãos do
opressor. O partido de vanguarda deve exemplificar as
características de uma liderança digna. Milhões e
milhões de pessoas oprimidas podem não conhecer os
membros do partido de vanguarda pessoalmente, mas
irão conhecer as suas atividades e a sua correta
estratégia para libertação através de um conhecimento
indireto fornecido pela grande mídia. Mas não é
suficiente confiar na mídia da estrutura de poder; é de
importância primoridal que o partido de vanguarda
desenvolva seus próprios órgãos de comunicação,
como um jornal produzido pelo partido, assim como
empregar a arte estratégica revolucionária da
destruição da maquinaria do opressor.
Por exemplo, em Watts, a economia e a
propriedade do opressor foram destruídas de tal
maneira que não importa o quanto o opressor tentasse
apagar as atividades dos irmãos negros através da
|64 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

imprensa, a natureza real e a causa real da atividade


foram comunicadas a cada comunidade negra. Para dar
mais um exemplo, não importa o quanto o opressor,
pela mídia tente confundir e distorcer a mensagem do
Irmão Stokely Carmichael, o povo negro por todo o país
a entende perfeitamente e a recebe de bom grado.
O Partido dos Panteras Negras pela Auto-defesa
ensina que, em última instância, as armas, granadas,
bazucas e outros equipamentos necessários para a
defesa deve ser suprido pela estrutura de poder,
tomadas do opressor, como ensina o exemplo dos Viet
Cong. Assim, quanto maior a preparação militar por
parte do opressor, maior a disponibilidade de armas
para a comunidade negra.
Alguns hipócritas acreditam que quando o povo
for ensinado pela vanguarda a se preparar para a
resistência, isto apenas traz o “homem” contra eles
com maior violência e brutalidade, mas o fato é que
quando o homem se torna mais opressor apenas eleva
o fervor revolucionário. Então se as coisas ficarem pior
para os povos oprimidos, estes irão sentir a
necessidade da revolução e resistência.
O povo faz a revolução; os opressores, a partir
de suas ações brutais, causam a resistência pelo povo.
O Partido de Vanguarda apenas ensina os métodos
corretos de resistência.
A reclamação dos hipócritas de que o Partido
dos Panteras Negras pela Auto-defesa está expondo o
povo a maiores sofrimentos é uma observação
incorreta.
Pelas suas rebeliões nas comunidades negras
por todo o país, o povo provou que não irá tolerar mais
nenhuma opressão pelos cães policiais racistas. O povo
agora procura por uma direção para ampliar e
fortalecer sua luta de resistência. O Partido de
Vanguarda exemplifica as características que o torna
digno de liderança.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 65 |

Huey P. Newton, em sua coluna no jornal


Black Panther
20 de julho de 1967
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Revolução na Metrópole Branca e


Libertação Nacional na Colônia Negra
Eldridge Cleaver
O Black Panther Party acredita que a era em que
lutamos agora pode ser caracterizada como a Era do
confronto – entre os povos oprimidos de todo o mundo
e a estrutura de poder racista imperialista.
Esta era pode ser definida como aquela onde
significantes setores da população explorada se
afastaram do sistema, declararam guerra contra este
que deformou suas vidas e manchou a sua existência ao
mesmo tempo que estava fazendo a mesma coisa e pior
àqueles que os oprime. Reconhecemos estas pessoas
alienada como aliados ou potenciais aliados em uma
luta contra um inimigo comum. Começamos com a
definição básica: que o povo negro nos EUA é um povo
colonizado em todos os sentidos do termo e que a
América Branca é uma força imperialista organizada
que mantém o povo negro nas amarras coloniais. Desta
definição, a nossa tarefa se torna mais clara: o que
precisamos é de uma revolução na metrópole branca e
a libertação nacional para a colônia negra. Para
conquistar estes fins, acreditamos que a maquinaria
política e militar que não existe agora e nunca existiu
deve ser criada. Precisamos de um maquinário operante
que seja capaz de lidar com estes dois conjuntos
interrelacionados da dinâmica política que,
estritamente falando, comportam a total situação
política no continente norte-americano.
Idealmente, precisamos de uma organização
revolucionária que seja capaz, guiada por uma ideologia
revolucionária e compreendendo a necessidade
envolvida, de se mover para duas direções ao mesmo
tempo. Estamos aqui hoje à noite porque acreditamos
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 67 |

que o Peace and Freedom Party é o começo da resposta


para metade desta equação, e que o Black Panther Party
é o começo da resposta da outra metade. Não nos
iludimos com a noção de que encontramos ou que
representamos ou que qualquer outro encontrou ou
representa quaisquer soluções finais para problemas de
anos, mas sentimos que o Partido Peace and Freedom e
o Black Panther Party fizeram um avanço significativo e
indiscutivelmente aceleraram o passo para isso.

A Coalizão
O Black Panther Party e o Peace and Freedom
Party na Área da Baía tem experimentando nos últimos
meses uma coalizão muito estreita em torno de um
assunto bastante amplo. O ponto central da coalizão é
agora, e sempre foi, o caso do Huey P. Newton, Ministro
de Defesa, criador e líder do Black Panther Party. Ainda
que a coalizão tenha sido estrita e limitada, tentadora e
vista com suspeitas mútuas, é fato que lançou forças
políticas com impacto explosivo e implicações
nacionais. É um fato que em um curto período de tempo
estes fatos políticos novos se tornaram forças que as
forças estabelecidas do velho devem conter. Devemos
lembrar que o Peace and Freedom Party entrou nas
eleições apenas dois meses atrás, tem menos de um ano
de idade, e ainda veste a fralda de seu parentesco
liberal-democrático.
O Black Panther Party tem menos de dois anos e
a coalizão da qual falamos tem menos que cinco meses.
Para recém-nascidos, já estamos fazendo um trabalho
de adultos. Isto gera grande otimismo e entusiasmo
para nós, porque se em nossa infância somos capazes de
fazer um trabalho de adulto, podemos sonhar que
quando chegarmos na maturidade podemos fazer o
gigantesco trabalho que a história reservou para nós. A
coalizão entre nossos dois partidos irmãos se baseia na
máxima de Carmichael de coalizões específicas para
|68 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

propósitos específicos. Pensamos que esta máxima é


apropriada e funcional e que fornece uma base para
ações ilimitadas sem restrições. Sob esta máxima,
pensamos que em última análise podemos desenvolver
uma coalizão específica para o propósito específico de
destruir o racismo e a exploração capitalista.
Temos liberdade de nos mover longe e com tal
velocidade que nosso entendimento, imaginação e
comprometimento nos permita. Acreditamos que a
cooperação entre forças revolucionárias na metrópole e
seu homólogo na colônia negra é absolutamente e
inequivocamente desejável e necessária. Acreditamos
que é sem sentido e suicida para aliados tão potenciais
permanecer distantes e isoladas umas das outras. Tudo
que é preciso é para aqueles que cumprem a função de
vanguarda fornecer a forma desta cooperação.
Acreditamos que nesse espaço de tempo a forma
de cooperação entre forças revolucionárias na
metrópole e aquelas na colônia deve ser na base da
coalizão. Acreditamos que todos os subjugados da
colônia negra deveriam ser membros do Black Panther
Party e que todos os cidadãos americanos devem ser
membros do Peace and Freedom Party.
Convidamos outros povos colonizados e
oprimidos nos Estados Unidos a se organizarem e
entrar em nossas coalizões como iguais.
Sentimos que é um erro político de primeira
ordem tentar e desenvolver um partido político
multinacional neste momento; faze-lo aumentaria a
confusão existente e levantaria novos obstáculos ao
trabalho real que pode e deve ser

O duplo caráter do povo negro na Babilônia


O povo negro na América do Norte sempre foi
afligido por um duplo caráter.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 69 |

Somos tanto escravos como cristãos, somos


tanto livres como segregados, somos integrados e
colonizados.
No passado tal condição trabalhou para nossa
desvantagem. Isso nos fez correr em círculos. Hoje nós
propomos que transformemos isto em nosso proveito,
de maneira que transformemos nossa negritude de
desvantagem para um a bandeira que tiremos proveito.
Ontem nós éramos negros e oprimidos; hoje,
nossa condição negra é uma ferramenta para a nossa
libertação. Nosso duplo caráter nos dá um direito mítico
de cidadania e a realidade concreta da nossa situação
nos deu a consciência nacional de um povo colonizado e
oprimido.
Tentamos usar ambas sabiamente. A cidadania
que temos no papel, usaremos através do mecanismo de
nossa coalizão com o Peace and Freedom Party.
Usaremos nosso direito de papel-marchê para
votar e ajudar a fortalecer o Peace and Freedom Party e
ajudá-lo a atingir seus objetivos dentro do panorama
das realidades políticas na metrópole.
Nossa principal ênfase, ou direção, e nossa
perspectiva, entretanto, estão no coração negro da
colônia. Nosso objetivo é organizar o povo negro para a
libertação nacional.
Nisso, a nossa principal tarefa, a realidade
política na metrópole branca só pode ter uma
importância periférica e de apoio. A dualidade de nosso
caráter dita a dualidade de nossa estratégia.

O plebiscito negro
Quanto ao nosso principal objetivo político, o
Black Panther Party está chamando por um plebiscito
negro, um plebiscito supervisionado pelas Nações
Unidas para ser realizado por toda a colônia negra, onde
apenas os subjugados coloniais negros serão permitidos
ter participação. O plebiscito é para o propósito de
|70 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

determinar a vontade do povo negro para seu destino


nacional. No passado, muitas pessoas e organizações
afirmaram o que eles acreditavam que a vontade do
povo negro era.
O Black Panther Party acredita que é um direito
do povo negro afirmar por eles mesmos o destino que
desejam. Sentimos que a questão candente que apenas
tal plebiscito pode fornecer a resposta é: Se o povo
negro quer ser integrado à Babilônia, ou se querem se
separar em uma nação soberana própria, com plenos
direitos com as outras nações do mundo, incluindo a
condição de membro da ONU e o reconhecimento
diplomático pelas outras nações do mundo.
Através do nosso Ministro de Assuntos Externos,
James Forman, conduzimos uma pesquisa preliminar de
alguns membros-chave da ONU e aprendemos com total
satisfação, mas não para nossa surpresa, que são
receptivos à idéia do Plebiscito Negro.
Na nossa perspectiva em nossa luta por
libertação, o Plebiscito Negro jogaria um papel central.
Na analogia colonial, corresponderia ao papel de
primeiro ou a campanha política chave que aconteceu
em todos os países surgidos das amarras coloniais. Na
Guiné, o foco político foi fornecido pela campanha
contra a Constituição do De Gaulle. Em Gana, foi uma
eleição nacional que colocou Kwame Nkrumah à frente
do governo.
A campanha que levaria ao Plebiscito seria os
meios de solidamente organizar a Afro-América em
linhas nacionais. Comitês organizados pelo povo em
ambos os lados da questão nacional irão brotar por toda
a colônia negra.
A questão será fervorosamente debatida, e as
pessoas serão organizadas em torno das questões
envolvidas. Toda a indústria política da metrópole será
jogada em uma crise. O argumento daqueles que se
opõem à independência nacional negra seria de que os
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 71 |

negros não precisam dela porque são cidadãos da


América Branca. Nosso argumento seria simplesmente
apontar os fatos, a realidade da condição do homem
negro na América Branca.
Aqui a nossa coalizão com o Peace and Freedom
Party se tornará funcional porque os seus membros, os
quais estrategicamente ajudaremos a eleger poderiam
defender nossa posição dentro do Senado e do
Congresso, nas legislaturas estaduais e nos municípios.
Para aqueles que veem a questão dos limites
territoriais, ou seja, a falta de limites geográficos da
nossa colônia dispersa, como um obstáculo insuperável
para a nacionalidade, dizemos que iremos manter a
questão da terra em suspenso. Seguimos a máxima de
Nkrumah: “Procurem primeiro seu reino político, e
todas as outras coisas serão acrescentadas a você”. O
que o homem negro na Babilônia precisa é o Black
Power organizado, e com tal poder político pode cravar
seu lugar ao sol – e não será em uma reserva ou nas
câmaras de gás, como certos loucos propõem e outras
pessoas assustadas receiam.

Política eleitoral
Oferecemos o nosso líder, o Ministro de Defesa,
Huey P. Newton, como candidato pelo 7º Distrito
Congressional do Condado de Alameda e oferecemos
nosso Presidente, Bobby Seale, como candidato pelo 17º
Distrito da Assembleia. Em São Francisco, oferecemos
nossa Secretária de Comunicações, Kathleen Cleaver,
como candidata no 18º Distrito da Assembleia.
Os benefícios disso são vários. Primeiro, e acima
de tudo, estamos interessados em libertar Huey.
Lançando Huey P. Newton para o Congresso, estamos
unindo a arena política revolucionária com a arena
política convencional e, portanto, suprimindo a
distinção entre essas duas. Somos capazes de focar
|72 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

atenção em todas nossas campanhas de um líder


revolucionário com um programa revolucionário
dentro do contexto político convencional. Em círculos
“revolucionários” decadentes e ultrasofisticados, isto é
chamado de “elevar a consciência das massas”.
Em termos práticos, este tipo de campanha se
torna outra ferramenta para a organização política pelo
Black Power. Nosso principal propósito ao entrar na
arena política é mandar os tolos de volta para a fazenda
e os elefantes de volta para o zoológico. Queremos
apertar o establishment.
Queremos colocar os negros lacaios e
lambedores de botas do Partido
Democrata/Republicano fora do negócio; alguns deles
serão enviados de volta para as fazendas, e outros
também podem ir para o zoológico com os elefantes.
Queremos tirar as pessoas do Partido Democrata e do
Partido Republicano, engrossar as fileiras do Black
Panther Party e do Peace and Freedom Party, sob a base
já esboçada.

Eldridge Cleaver, texto apresentado para a


discussão entre
o BPP e Partido Peace and Freedom,
julho/agosto 1968
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 73 |

Corrigindo ideias errôneas


Capitain Crutch
Existem várias ideias adversas dentro do Black
Panther Party, no Black Liberation Army, que entravam a
aplicação da correta ideologia do Partido. Mas a não ser que
estas ideias sejam plenamente corrigidas, o Black
Liberation Army não pode possivelmente assumir as
tarefas atribuídas para a grande luta revolucionária da
América Negra. A fonte dessas ideias incorretas é o fato do
Partido ser majoritariamente composto por negros de rua
do gueto, junto com elementos da pequena burguesia
negra. Os líderes do Partido, no entanto, falham em
desempenhar uma luta determinada e planejada contra tais
ideias incorretas, para educar (e reeducar) os membros na
ideologia correta do Partido – que também é uma
importante causa de sua existência e crescimento.
Portanto, eu devo tentar ajudar a apontar algumas
manifestações de várias ideologias incorretas dentro do
Partido. E chamo a todos os membros do Partido a ajudar
na eliminação completa das ideias errôneas e métodos
incorretos.
O ponto de vista puramente militar é altamente
desenvolvido entre alguns poucos membros: a) alguns
membros do Partido consideram os assuntos militares e
políticos como opostos entre si, e se recusam a reconhecer
que as tarefas militares são apenas um dos meios de
realizar as tarefas políticas; b) não compreendem que o
Black Panther Party é um corpo armado para levar a cabo
as tarefas políticas da revolução. Não devemos nos confinar
apenas nos combates. Mas devemos também assumir
importantes tarefas como realizar propaganda entre o
povo, organizar o povo, armar o povo e os auxiliá-los a
estabelecer um poder político revolucionário para o povo
negro. Sem estes objetivos, o combate perde seu significado
|74 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

e o Black Panther Party perde sua razão de existir; c) ao


mesmo tempo, no trabalho de propaganda, negligenciam a
importância dos grupos de propaganda. Também
negligenciam a organização das massas. Portanto, tanto a
propaganda, quanto o trabalho organizacional são
abandonados; d) eles ficam convencidos quando ganham
uma batalha e abatidos quando perdem uma batalha; e)
burocratismo egoísta: pensam apenas no Black Panther
Party e não percebem que uma importante tarefa do Black
Liberation Army é armar as massas locais. Isto é seitismo
em uma forma ampliada; f) a incapacidade de ver além do
ambiente limitado de dentro do Black Panther Party.
Declarações como “nós, os Panteras de São Francisco”, “nós,
os Panteras de Nova York”, etc. Eles têm que perceber que
os Panteras são apenas um sempre. Além disso, alguns
panteras também acreditam que não existem outras forças
revolucionárias. Consequentemente, o enorme vício em
conservar a força e evitar ação. Isto é uma remanescência
de oportunismo; g) alguns Panteras desconsiderando
condições objetivas e subjetivas, sofrem do mal da
impetuosidade revolucionária; não irão tomar cuidado
para fazer notas e trabalhos planificados entre as massas.
Não querem distribuir panfletos, vender jornais, etc. Essas
coisas parecem pequenas, ainda que sejam bastante
importantes. Ainda assim, estão crivados com ilusões e
querem fazer apenas grandes coisas. Isto é resquício de
putchismo. As fontes do ponto de vista puramente militar
são: 1) um baixo nível político; 2) uma mentalidade de
mercenários; 3) uma superconfiança na força militar e falta
de confiança na força das massas do povo. Isso surge dos
últimos três pontos.
Os métodos de correção são os seguintes: 1) Elevar
o nível político do Partido a partir da educação. Ao mesmo
tempo, eliminar os resquícios de oportunismo e putchismo,
e combater o burocratismo egoísta; 2) Intensificar o
treinamento político dos oficiais e militantes. Selecionar
trabalhadores e pessoas experientes na luta para entrar no
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 75 |

Partido; assim organizacionalmente enfraquecendo ou até


mesmo erradicando o ponto de vista puramente militar; 3)
O Partido deve ativamente realizar e discutir o trabalho
militar. Elaborar regras do Partido e regulamentações que
claramente definam as suas tarefas, a relação entre seu
aparato militar e o político, e a relação entre o Partido e as
massas do povo.

Capitão Crutch, publicado no jornal Black


Panther
26 de outubro de 1968
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Em defesa da Auto-defesa
Huey P. Newton
Devemos entender que existe uma diferença entre a
rebelião dos anarquistas e a revolução ou libertação negra
da colônia negra.Se trata de uma sociedade de classes, e
sempre foi. Esta sociedade de classes reacionária combate
os indivíduos, não apenas em termos de seus empregos,
mas também no que tange sua auto-expressão, mobilidade,
e a liberdade de fazer qualquer coisa que queiram fazer. A
sociedade de classes evita isto. É verdadeiro não apenas
para a massa da classe dominada ou subjugada. Também é
verdade dentro da classe dominante. Esta classe também
restringe a liberdade da essência humana das pessoas que
compreendem a classe dominante. Nos EUA, temos não
apenas uma sociedade de classes, temos também um
sistema de castas e o povo negro se encaixa na casta
inferior. Eles não têm mobilidade para subir na escala
social. Não tem privilégios para entrar na estrutura
dominante de maneira nenhuma. Dentro da classe
dominante, estão se negando (resistindo?), porque o povo
descobriu que estão completamente submetidos à vontade
da administração e aos manipuladores. Isto traz um
fenômeno muito estranho para os EUA, ou seja, muitos dos
estudantes brancos e dos anarquistas revoltosos são filhos
desta classe dominante; certamente a maior parte deles
possuem um padrão de vida de classe média e alguns deles
até mesmo de classe alta. Enxergam o jugo ao qual estão
submetidos, e agora estão lutando, assim como todos
homens lutam, para obter a liberdade da sua essência,
liberdade de expressão, e liberdade de movimento sem as
restrições artificiais dos valores antigos. Negros e povos de
cor nos Estados Unidos confinados dentro do sistema de
castas, são discriminados contra todo um grupo de pessoas.
Não é uma questão de liberdade individual como é para os
filhos das classes altas. Não chegamos ao ponto de tentar
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 77 |

nos libertar individualmente porque nós somos dominados


e oprimidos enquanto coletivo.
Parte do povo deste país – que é uma grande parte
– é parte da própria juventude. Mas eles não estão fazendo
isto coletivamente porque coletivamente já são livres em
alguma medida. O problema não é de fato um problema de
grupo porque podem facilmente se integrar à estrutura.
Potencialmente, são mais capazes em termos de
mobilidade na escala social para fazer isto: são os
instruídos, o “futuro do país”, etc. Eles podem realmente
ganhar certas parcelas do poder sobre a sociedade ao se
integrarem no círculo dirigente. Mas eles que mesmo
dentro do círculo dominante, ainda existem antigos valores
que não respeitam o desenvolvimento do indivíduo. Se
encontram subjugados. Não importa de qual classe eles
sejam, se encontram subjugados por conta da natureza
desta sociedade de classes. Então a sua luta é para libertar
a essência do indivíduo. Isto nos traz outro problema. Estão
sendo submetidos a uma fonte exterior que não tem
interesse na liberdade de expressão individual. Querem
fugir disso, superar isso, mas não enxergam nenhuma
necessidade de formar uma estrutura ou movimento real,
de vanguarda disciplinado. Alegam que, ao estabelecer uma
organização disciplinada, sentem que estariam
substituindo a velha estrutura por outras formas de
opressão. Temem que estariam dirigindo o povo e
restringindo o indivíduo novamente.
Mas o que não entendem, ou parece não entender, é
que enquanto o complexo industrial-militar existir, a
estrutura de opressão ao indivíduo persiste. Um indivíduo
estaria ameaçado mesmo se conseguisse conquistar a
liberdade que está buscando. Ele estará ameaçado porque
existirá um grupo menor organizado pronto para arrancar
sua liberdade individual a qualquer momento. Em Cuba,
tiveram uma revolução, tinham um grupo de vanguarda
que era um grupo disciplinado, e perceberam que o Estado
não irá desaparecer até que o imperialismo desapareça por
|78 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

completo, estruturalmente e também filosoficamente, ou o


pensamento burguês não será transformado. Uma vez que
o imperialismo desaparece, podem ter seu Estado
comunista e o Estado ou fronteiras territoriais
desaparecerão. Neste país, os anarquistas parecem sentir
que ao se expressar individualmente e tender a ignorar
opressões contra eles, sem liderança e disciplina, podem se
opor ao organizado e disciplinado Estado reacionário. Isto
é falso. Serão oprimidos enquanto o imperialismo existir.
Você não pode se opor a um sistema como este sem se opor
com uma organização que seja extremamente disciplinada
e abnegada do que a estrutura que se está se opondo.
Eu posso entender os anarquistas querendo ir
diretamente do Estado para o não-Estado, mas
historicamente isso é incorreto. Até onde sei, pensando na
recente rebelião francesa, a razão pela qual o levante
francês falhou foi simplesmente porque os anarquistas no
país, que por definição não tinham organização, não tinha
pessoas que fossem confiáveis o bastante, ao menos no que
tange as massas do povo, para substituir De Gaulle e seu
governo. Agora, o povo era cético em relação ao Partido
Comunista e os outros partidos progressistas porque não
estavam ao lado do povo em geral. Eles ficaram aquém do
povo, então perderam o respeito do povo e este enxergou
como referência e direção os estudantes e anarquistas. Mas
eram incapazes de oferecer um programa estrutural para
substituir o governo de De Gaulle. Então o povo foi obrigado
a se voltar para De Gaulle. Não foi culpa do povo; foi culpa
de Cohn-Bendit e de todos os outros anarquistas que
achavam que poderiam simplesmente ir do Estado para o
não-Estado. Neste país – voltando para cá agora –,
podemos nos aliar aos estudantes revolucionários.
Tentaríamos encorajá-los e os persuadir a se organizar e
converter-se em uma ferramenta de corte bem afiado. A fim
de fazer isto, eles teriam de ser disciplinados e teriam ao
menos alguma substituição filosófica do sistema. Isto não
quer dizer que apenas isto em si libertará o indivíduo. O
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 79 |

indivíduo não será livre até que o Estado não mais exista, e
eu penso – e não quero ser redundante – que isto não pode
ser feito pelos anarquistas de imediato. No que tange a nós
negros, não estamos presos em tentativas de atualizar ou
expressar nossas almas individuais porque somos
oprimidos não enquanto indivíduos, mas enquanto todo
um coletivo, enquanto povo. Nossa evolução, ou a nossa
libertação, se baseia primeiro em libertar nosso coletivo,
libertar nosso coletivo a uma certa medida. Depois de
ganharmos nossa libertação, nosso povo não será livre. Eu
posso imaginar no futuro que os negros irão se rebelar
contra a liderança organizada que os próprios negros
estruturaram. Enxergarão o entravamento a seu
desenvolvimento enquanto indivíduos, e sua liberdade de
expressão. Mas isso apenas depois que se tornarem livres
no âmbito coletivo. É isto que faz o nosso grupo diferente
daqueles dos anarquistas brancos – apesar das suas visões
de que seu grupo já é livre. Agora estão lutando pela sua
própria liberdade individual. Esta é a grande diferença. Não
estamos lutando pelas nossas liberdades individuais,
estamos lutando por uma liberdade coletiva. No futuro,
provavelmente haverá uma rebelião onde os negros irão
falar, “Bem, a nossa liderança está restringindo nossa
liberdade por conta da rígida disciplina. Agora que
conquistamos nossa liberdade, iremos lutar por nossa
liberdade individualista que nada tem a ver com Estado ou
grupo organizado”. E o grupo será desmantelado, e deve
ser. Porém, enfatizamos a disciplina, a organização, não
defendemos drogas e demais coisas que tem a ver apenas
com a expansão individual da mente. Estamos tentando
ganhar a real libertação de um grupo de pessoas, e isto faz
a nossa luta em alguma medida diferente da dos brancos.
Agora, o que tem de convergente? Existem
semelhanças no fato que ambos de nós estamos lutando
por liberdade. Eles não serão livres – brancos anarquistas
não serão livres – até que nós estejamos livres, o que na
verdade faz de nossa luta a luta deles. Os imperialistas e o
|80 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

sistema capitalista burocrático não daria a liberdade


individual enquanto mantêm todo um grupo oprimido
enquanto tal baseado na raça ou na cor. Como podem
esperar conseguir liberdade individual enquanto o
imperialismo oprime nações inteiras? Enquanto não
conquistarmos a libertação enquanto coletivo, não
ganharam nenhuma libertação enquanto indivíduos. Então
isso faz de nossa luta a mesma, e devemos manter isso em
perspectiva e sempre ver as semelhanças e as diferenças
nelas. Existe uma enorme diferença nela, e há certa parcela
de semelhanças nos dois casos. Ambos lutam por liberdade
e lutam pela libertação de seu povo, apenas um está mais
livre que o outro. Os anarquistas estão uma etapa a frente,
mas apenas em teoria. Sobre a exatidão das condições, não
deveriam estar a frente porque deveriam enxergar a
necessidade da derrubada d a estrutura imperialista por
grupos organizados como devemos estar.

Huey P. Newton, publicado no jornal Black


Panther
16 de novembro de 1968
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 81 |

Expurgo Pantera
Virtual Murrell

O corpo dirigente do Black Panther Party, que é


nosso Comitê Central, decidiu que a fins de preservar o
centralismo democrático e destruir o democratismo em
nossas fileiras, que é de absoluta necessidade para
compreender a decadência do democratismo. Primeiro,
deve ficar claro que o democratismo prejudica a
organização partidária e visa enfraquecer o Partido.
Devemos apontar que a aversão individualista da
pequena burguesia à disciplina está diretamente
relacionada a isso. Eles não apenas não estão exercendo
o democratismo, como também são oportunistas, e
estes indivíduos não são apenas oportunistas ou
contrarrevolucionários, mas indivíduos que são
renegados, arrogantes, faccionistas, e com a sua óbvia
estupidez, tentam dividir o nosso povo por suas ações.
É necessário para os Panteras Negras expor estes
tolos que vão contra as regras do Partido. Demonstram
sem dúvida que seu benefício oportunista pessoal vale
mais do que a libertação do povo negro. É necessário
para o Black Panther Party, que é um Partido do Povo,
expurgar membros de dentro do Partido para nos
livrarmos do oportunismo, dos desejos pequeno-
burgueses.
Veja bem, nós acreditamos nos ensinamentos de
nosso líder, o Ministro de Defesa do Black Panther Party,
Huey P. Newton, quando ele diz: “Tenha fé no Partido e
tenha fé no povo”. Se as massas vão ter fé no Partido, é
necessário e um princípio absoluto que sejamos muito
sinceros e honestos com o povo, porque é necessário
restaurar a muito necessária confiança e dedicação que
vinha faltando por centenas de anos. Se nós, enquanto a
vanguarda, falharmos em criticar e denunciar palhaços
|82 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

e patetas, então nos colocaremos em uma posição de


hipocrisia. Na verdade, nós seríamos os tolos por
permitir que isso existisse sem nos mobilizarmos para
remover os que aspiram ao oportunismo. O expurgo é
um processo que deve ser usado, como “definido”, como
um processo de limpeza.
Observando o que aconteceu no passado, estava
bem claro que era necessário expurgar aqueles que por
suas próprias ações abertas, tentam destruir o Partido e
a imagem do Partido. Um dos nossos objetivos é
construir e unir o povo negro e elevar seu nível de
consciência. A fins de conclusão, dizemos que todos
aqueles que aspiram ao oportunismo estão diretamente
relacionados ao repúdio da ditadura do proletariado,
que significa simplesmente “Poder para o povo”. É um
sinal inconfundível de traição em sua mais alta forma, a
traição ao povo negro.
Todo poder ao povo! Poder preto para o povo
preto!

Virtual Murrell, publicado no jornal Black Panther


25 de janeiro de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 83 |

O que é Democratismo?
Field Marshall D.C.
O democratismo é o individualismo se
manifestando como aversão à disciplina. O nosso Ministro
de Defesa, Huey P. Newton, apontou em seu artigo sobre
anarquistas e individualistas que, “esta é uma sociedade de
classes, sempre foi”. A maioria do povo que se tornou
Pantera são da classe mais inferior. Uma das principais
características desta classe é pensar e agir como indivíduos.
Esta tendência foi, e é, perpetuada pela classe dominante
(capitalistas) em sua retórica e em seus documentos de
governo como a declaração de independência, a
constituição, a Declaração de Direitos, etc. Ter o povo
pensando e agindo individualmente é um auxílio para a
classe dominante em sua exploração e opressão do povo
em todo o mundo e geral, e a exploração e a opressão e a
perpetuação do racismo contra o povo negro em particular.
Todas as leis e instituições da sociedade estão estruturadas
para criar o pensamento e ação individual. Isso previne os
povos oprimidos e explorados de enxergarem seu
problema como um problema coletivo, tal como a
exploração e o racismo perpetuados contra todos os
negros. Portanto, o pensamento e ação coletiva são exigidos
se os povos oprimidos e explorados querem levar a cabo
uma luta bem-sucedida para obter sua liberdade e
libertação. Todas as coisas tendo uma natureza dual, vamos
examinar o que podemos chamar de aspectos positivos do
individualismo por parte das massas do povo negro nesta
sociedade atual.
Devido à exploração, opressão e o racismo desta
sociedade, as massas do povo negro são principalmente
desempregadas ou sub-empregadas. Portanto, os meios de
sobrevivência para além do emprego foram desenvolvidos
pelo povo negro. O Primeiro-Ministro, Stokely Carmichael
diz, “você consegue coisas das três formas: você trabalha,
|84 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

pede ou você rouba”. Ainda que o povo negro empregue


todos os três métodos para suprir desejos e necessidades, o
último recebe prioridade. Muitos do povo negro se
tornaram muito revolucionários no processo em suas
práticas se não em seu pensamento. Eles desenvolvem
formas de sobreviver nesta sociedade, mas nessa
sociedade. Isto é feito individualmente ou em grupos muito
pequenos, nunca coletivamente. Estas são as pessoas que
mais facilmente vêem o Partido das Panteras Negras como
um meio para mudar seu destino em particular e o destino
do povo Negro em geral.
Quando tais pessoas entram no Partido, trazem
tendências individualistas com elas. Dentro do Partido que
previnem as políticas do Partido de ser realizadas de
maneira satisfatória ou realizadas de qualquer forma. Por
um lado, um indivíduo tentando sobreviver na sociedade
atual seguindo apenas as leis e regras que servem a você
individualmente e rejeitando as que não são revolucionárias
por natureza. Por outro lado, entrar no Partido e continuar a
obedecer apenas às ordens e diretrizes do Partido que
agradam e satisfazem você individualmente é
contrarrevolucionário e é chamado de democratismo.
Alguns exemplos são: “o Partido deve aplicar o
centralismo democrático de baixo para cima, ou deve
deixar os níveis mais baixos discutirem todos os problemas
primeiro e em seguida deixar as instâncias superiores
decidirem”. A um nível individual, um Pantera recebeu a
ordem de um dirigente para limpar um dos carros dos
Panteras, e ele respondeu dizendo que “eu não dirijo o
carro; então não vou limpar o carro”. Isto é democratismo.
Se não for erradicado, irá prejudicar ou afundar
completamente o Partido.
Alguns métodos de correção são os que seguem: (a)
educação da base para destruir as raízes do democratismo;
(b) assegurar a democracia sob direção centralizada; (1) a
liderança deve dar a correta orientação e resolver
problemas quando surgem a fim de se estabelecer a si
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 85 |

mesmos como centros de liderança; (2) a liderança deve


conhecer a vida das massas e ser familiar com a situação na
base a fim de possuir uma base objetiva para a orientação
correta; (3) em nenhum âmbito no Partido as decisões
devem ser feitas casualmente para resolver problemas; (4)
todas as decisões e políticas maiores feitas pela liderança
do Partido devem ser comunicadas para a base; (5) a base
deve discutir decisões e políticas da liderança do Partido a
fim de compreendê-las e decidir os métodos de aplicá-las.

Field Marshall D.C., publicado no jornal Black


Panther
2 de fevereiro de 1969
Sobre o Nacionalismo Cultural
Linda Harrison
O Nacionalismo Cultural é reconhecido por
muitos que pensam de maneira revolucionária como
uma etapa distinta e natural que as pessoas passam para
se tornar um revolucionário. Não é sempre o caso, e
muitas pessoas permanecem no nível do nacionalismo
cultural por todas as suas vidas. Nos Estados Unidos, o
nacionalismo cultural pode ser resumido nas palavras de
James Brown: “Sou negro e tenho orgulho”. O
Nacionalismo Cultural se manifesta em várias formas,
mas todas manifestações são essencialmente
fundamentadas em um fato: uma negação universal e
uma ignorância das atuais realidades políticas, sociais e
econômicas e uma concentração no passado como
referência. Esse fenômeno não é único deste estágio da
revolução no qual nos encontramos; nem é restrito à luta
dos “cidadãos” negros dos Estados Unidos por liberdade.
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, disse o
seguinte sobre este fenômeno: “Não há ofensiva. Não há
redefinição das relações. Há crispação num núcleo cada
|86 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

vez mais estreito. Cada vez mais inerte, cada vez mais
vazio”.
Aqueles que acreditam na teoria do “Sou negro e
tenho orgulho” acreditam que existe dignidade inerente
em usar o cabelo natural; acreditam que o uso da buba
transforma um escravo em um homem; e que uma língua
comum, o suaíli, faz com que sejamos irmãos. Essas
pessoas normalmente querem uma cultura enraizada na
cultura africana; uma cultura que ignora a colonização e
a brutalização que foram parte integrante, por exemplo,
da formação e emergência da língua suaíli. Em outras
palavras, o nacionalismo cultural ignora as questões
políticas concretas, e se concentra em um mito e em uma
fantasia.
Um homem que vive sob a escravidão e em
qualquer uma das suas extensões raramente reconquista
sua dignidade ao rejeitar as roupas do seu escravizador;
ele raramente ganha sua dignidade de volta, a não ser por
meio da confrontação, em pé de igualdade, com seu
escravizador.
Todos os homens podem morrer, e isso é a única
coisa que os torna iguais. Em diversos sistemas, aqueles
com dinheiro morrem com menos frequência. Qualquer
confrontação que dê aos homens, não importa qual seja
sua posição social ou econômica, uma chance igual de
morrer em condições iguais, é edificante para aqueles
que se consideram por baixo, e degradante para aqueles
que estão no topo. Ver-se no mesmo plano que seu
escravizador é entender que aqueles que escravizam e
oprimem não têm o direito divino de fazê-lo. Não há
razão para se ter orgulho da colonização e escravização,
e por meio da iniciativa dos oprimidos se pode chegar
algo significante, que possa alterar sua existência.
Citando Fanon, “querer apegar-se à tradição ou re-
atualizar as tradições abandonadas é ir não somente
contra a história, mas contra seu próprio povo”. Os
nacionalistas culturais, com seus adornos, apoiam
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 87 |

muitos dos males que os colocaram na posição de


servidão. Na ausência de plataformas e ações
construtivas e corretivas, o apoio e o benefício de “ser
negro”, buscam o lucro vendendo brincos 400% mais
caros e bubas de lojas de um real por preços de grandes
lojas da 5th Avenue. Algo similar a um ladrão tentando se
tornar respeitável, explorando aqueles com mentes mais
fracas – e bolsos mais fracos.
E por conta do fato de que o nacionalismo cultural
não tem nenhuma doutrina política, os limites do orgulho
de ser negro são próximos. Aonde vai uma mulher depois
que conseguiu deixar o cabelo ao natural – para o salão, é
claro! – paga $5,50 pelo penteado, $2 pelo spray de óleo
capilar, $2 pelo condicionador, $3,50 para desembaraçar,
e então para a loja de roupas para uma roupa tradicional
que custa entre $25 e $500. No caminho de ida e volta
dessas compras e gastos, ainda observam a opressão e a
exploração do seu povo – com roupas diferentes. Como o
nacionalismo cultural não oferece nenhum desafio ou
risco contra a ordem social estabelecida, o aumento de
atores, estrelas de cinema, assistentes sociais,
professores, oficiais de condicional e políticos “negros e
orgulhosos” é imenso. A burguesia e uma posição de
classe superior não são obstáculo para o “negro” e vice-
versa.
A estrutura de poder, depois da luta de mandatos,
desculpa e até venera esse orgulho recém encontrado
que utiliza para vender cada produto sob o sol. Até
mesmo seus representantes superiores o recebem bem e
o transformam em um “capitalismo negro” e fenômenos
do tipo. Todo mundo é negro e a burguesia continua a
odiar seus irmãos e irmãs negros menos favorecidos; e os
oprimidos continuam na carência. O assistente social
“negro” continua a trabalhar para um sistema de
seguridade social degradante e os oficiais de condicional
continuam a violar os direitos dos que estão em seus
encargos.
|88 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Não temos uma nação sem uma luta contra


aqueles que nos oprimem. Não temos cultura além da
cultura nascida da nossa resistência à opressão.
“Nenhum sistema colonial toma a sua justificativa do fato
de que os territórios (ou o povo) que domina são
culturalmente inexistentes. Nunca se fará o colonialismo
ficar vermelho de vergonha expondo nossos pouco
conhecidos tesouros culturais aos seus olhos”. Os povos
da África tinham culturas. Foram apenas o racismo, as
necessidades e os desejos econômicos que escravizaram
esses países e povos. A economia transcende as culturas
no contexto capitalista. Isso quer dizer que o capitalismo
sempre vai utilizar a necessidade econômica, real ou
imaginária, como base para a expansão.
Este vai, é claro, se justificar com conclusões e
explicações racistas sobre o progresso que estão
trazendo para os “nativos” e “selvagens” e nenhuma
cultura no mundo, a não ser uma cultura revolucionária,
vai parar ou deter ou destruir tal avanço. O colonialismo,
a escravidão, o neocolonialismo e outras extensões do
capitalismo prosperam por mil e uma culturas. “É em
torno das lutas populares que a cultura negra africana
toma sua substância – e não de canções, poemas e
folclore”.
Uma cultura que não desafie integral e
positivamente as forças dominantes e exploradoras –
forças políticas, econômicas e sociais – é uma cultura que
é ou pré-escravidão, pré-colonialista ou completamente
inventada e, em todos os casos, completamente inútil. E o
nacionalismo cultural é quase sempre baseado em
racismo. Ouvimos “odeie o branquelo” e “mate o
desgraçado”. As declarações ignoram as análises –
análises intelectuais, como as feitas por Eldrige Cleaver
sobre as relações entre o governo e os porcos, os
fuzileiros, etc.; e ignoram a possibilidade de aliados. Em
todos os casos, o nacionalismo cultural – no interior da
luta, busca criar uma ideologia racista. Ser um racista na
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 89 |

América é, com certeza, uma posição justificável, mas


posição débil para se ter como revolucionária.
“A adesão à cultura negra africana e à unidade
cultural da África é conseguida, em primeiro lugar,
apoiando incondicionalmente a luta dos povos pela
liberdade. Ninguém pode desejar sinceramente a difusão
da cultura africana se não dá apoio prático à criação das
condições necessárias para a existência dessa cultura”.
Como pode um nacionalista cultural afirmar amar um
país e um continente que sofreu com centenas de anos de
colonialismo e escravidão, e ainda sofre sob as formas
inteligentemente disfarçadas e abertas destas
instituições.
Como pode negar a realidade política de sua
própria vida nos EUA ao se vestir com uma bata ganesa
de maternidade (todo colorido e brilhante) para
participar da cultura de um povo mergulhado em
revolução e revolta? Como pode um nacionalista cultural
afirmar aderir à cultura de África, quando esta cultura é
uma cultura revolucionária?
A solidariedade com todos os povos
revolucionários do mundo trouxe uma cultura comum
para povos que nada sabem uns dos outros, exceto o fato
de que sofrem sob sistemas semelhantes de exploração,
degradação e racismo. Que seu povo passou pelas
mesmas mudanças e que, de maneira nenhuma, seu povo
irá recuperar sua dignidade e encontrar sua liberdade a
não ser através de um confronto de igual para igual
através de tática e ação revolucionárias. “Uma cultura
revolucionária é a única cultura válida para todos os
oprimidos!”

Linda Harrison, publicado no Black Panther


02 de fevereiro de 1969
|90 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Poder onde quer que esteja o


povo
Fred Hampton
Poder onde quer que esteja o povo. Poder onde
quer que esteja o povo. Deixem me dar um exemplo de
ensinar o povo. Basicamente, eles aprendem por meio
da participação e da observação. Vocês sabem que
muitos de nós andamos por aí e brincamos e
acreditamos que as massas têm doutorado, mas isso não
é verdade. E mesmo se tivessem, não faria qualquer
diferença. Porque com algumas coisas, você tem que
aprender vendo-a ou participando nela. E vocês sabem
que há pessoas andando pela sua comunidade hoje que
têm todos os tipos de graus que devem ser nesta
reunião, mas não estão aqui. Certo? Porque você pode
ter tantos graus como um termômetro. Se você não tem
nenhuma prática, eles sabem que você não pode
atravessar a rua e mascar chiclete ao mesmo tempo.
Deixe me falar como Huey P. Newton, o líder e
fundador, o homem principal do Black Panther Party
enfrentou a situação.
A comunidade tinha um problema na California.
Havia uma interseção, de quatro vias; e muitas pessoas
estavam sendo mortas, atropeladas por carros, e então
o povo foi lá e enviaram suas queixas ao governo. Vocês
já passaram por isso. Eu sei que vocês na comunidade já
passaram. Eles voltaram e os porcos disseram “Não!
Vocês não podem ter nada”. Ah, eles não costumam
dizer que vocês não podem. Eles ficaram um pouco mais
ansiosos do que hoje. É isso que aqueles graus no
termômetro irão te mostrar. Eles te dizem “ok, iremos
trabalhar nisso. Por que vocês não voltam na próxima
reunião e gastam seu tempo?”
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 91 |

E o enrolariam em uma digressão de futilidades,


e você ficaria em um ciclo de insanidade, ficaria indo e
voltando, indo e voltando, indo e voltando, tantas vezes
que já enlouqueceria. Então eles te dizem “ok, negros, o
que vocês querem?” E você se precipitaria e diria “bem,
demorou tanto, não sabemos o que queremos”, e vocês
sairiam da reunião, e eles diriam “bem, vocês negros
tiveram a sua chance, não tiveram?”.
Deixe me contar o que Huey P. Newton fez. Huey
Newton chamou Bobby Seale, o Presidente do Black
Panther Party em âmbito nacional. Bobby Seale pegou
sua 9mm, uma pistola. Huey Newton pegou seu rifle e
pegou umas placas de “pare” e um martelo. Foi até a
insersecção, deu seu rifle para Bobby, que estava com
sua 9mm. Ele disse “segure este rifle. Qualquer um que
mexer com a gente, você estoura seu cérebro”. E assim
ele pregou as placas de “pare”.
Agora estavam se defrontando com outra
situação. Isso não é bom, vejam, porque são duas
pessoas lidando com um problema. Huey Newton e
Bobby Seale, não importa o quão bom fossem, não
podem lidar com o problema. Mas deixe me explicar a
vocês quem são os verdadeiros heróis.
Outra vez, havia uma situação semelhante, outra
intersecção de quatro vias. Huey chamou Bobby, pegou
sua 9mm, pegou seu rifle e seu martelo e conseguiu mais
placas de “pare”. Prendeu as placas, deu o rifle para
Bobby e disse a Bobby: “se qualquer um mexer com a
gente enquanto estamos prendendo essas placas,
proteja o povo e estoure seu cérebro”. O que o povo fez?
Eles observaram novamente. Participaram naquilo. Da
outra vez, tinham outra intersecção de quatro vias, e
haviam problemas? Houveram acidentes e morte. Desta
vez, o povo da comunidade pegou seus rifles, seus
martelos e suas placas de “pare”.
Agora deixe me mostrar a vocês como iremos
tentar fazer no Black Panther Party aqui. Acabamos de
|92 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

voltar do Sul. Fomos até lá. Fomos até lá e entramos em


uma discussão com os porcos ou os porcos entraram em
uma discussão com a gente, e ele disse “bem, Presidente
Fred, você deveria ser tão mau, porque não vai em
frente e atira alguns destes policiais? Você está sempre
falando em pegar suas armas e você tem essa, porque
não segue em frente e atira em alguns deles?”
E eu disse “Você acabou de quebrar uma lei. Na
verdade, mesmo que você tenha um uniforme não faz
qualquer diferença. Porque eu não ligo que você tenha
nove uniformes e 100 medalhas. Quando você sai do
campo da legalidade e vai para o campo da ilegalidade,
então penso que você deveria ser preso”. E eu disse a
ele: “você fez o que eles chamam de lei de
aprisionamento, você tentou me fazer algo que é errado,
você me encorajou, você tentou me incitar a atirar em
um porco. E isso não é legal, irmão, você conhece a lei,
não?”
Eu disse àquele porco, “você tem uma arma,
porco?” Eu disse: “você tem que por suas mãos contra a
parede. Iremos fazer o que chamam de prisão por
cidadãos”. Este idiota não sabia o que era isso e eu falei:
“agora fique calmo o quanto puder e não faça
movimentos bruscos, porque não queremos ter que te
golpear”. E eu falei o que sempre falam para gente, “bem,
eu estou aqui para te proteger. Não se preocupe com
nada, eu estou aqui em seu benefício”. Então falei para
outro irmão chamar os porcos. Você tem que fazer isso
em uma prisão por cidadão. Ele chamou a polícia.
Chegando lá com seus rifles e armas, eles vêm falando
em como vão prender o Presidente Fred. E eu disse “não,
seus idiotas. Este é o homem que vocês têm que
prender. Foi ele que infringiu a lei”. E o que fizeram?
Arregalaram os olhos, e não conseguiram aguentar.
Sabem o que fizeram? Estavam tão irritados, tão
nervosos, que falaram para eu ir embora.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 93 |

E o que aconteceu? Todas aquelas pessoas na 63ª


rua. O que elas fizeram? Elas estavam por perto rindo e
falando comigo enquanto estava fazendo a prisão. Elas
olhavam para mim enquanto eu estava discutindo e me
ouvindo enquanto isso. Então a próxima vez que o porco
estiver na 63ª Rua, por conta do que o nosso Ministro de
Defesa chama de observação e participação, aquele
porco pode ser preso por qualquer um!
Então o que fizemos? Estávamos educando o
povo. Como educamos? Basicamente, da forma que o
povo aprende, por observação e participação. E é isso
que estávamos tentando fazer. É isso que temos que
fazer aqui nesta comunidade. E muitas pessoas não
compreendem, mas existem três coisas fundamentais
que você tem que fazer sempre que tentar ter uma
revolução vitoriosa.
Muitas pessoas entendem a palavra revolução de
maneira confusa e pensam que revolução é uma palavra
ruim. Revolução não é nada mais do que como se tivesse
uma ferida em seu corpo e você coloca algo para curar a
infecção. E eu digo a vocês, que estamos vivendo em
uma sociedade infectada agora mesmo. Eu digo a vocês
que vivemos em uma sociedade doente; E qualquer um
que defenda se integrar a esta sociedade doente antes
dela ser limpa é um homem que está cometendo um
crime contra o povo. Se você vai para um hospital e vê
uma placa que diz “contaminado”, e então você tenta
levar as pessoas para aquela sala, ou estas pessoas são
bem burras, você me entende, porque se não fossem, te
diriam que você é um líder injusto e desonesto que não
pensa nos interesses dos seus seguidores. E o que
estamos dizendo é simplesmente que temos que tornar
os líderes responsáveis pelo que fazem.
Eles estão andando por aí falando de um Pai
Tomás, então iremos abrir um centro cultural e ensiná-
lo o que é negritude. Este negro está mais consciente do
que você e eu, e Malcolm e Martin Luther King, e todos
|94 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

juntos. É isso. São eles os mais conscientes, que irão


abrir o centro. Irão te dizer onde os ossos vieram da
África, lugares que vocês não conseguem nem
pronunciar os nomes. É isso, eles irão falar a vocês sobre
Chaka, o líder dos combatentes Bantu pela liberdade, e
Jomo Kenyatta, e tudo isso. Vão falar tudo isso para
vocês, sabem disso tudo. Mas o ponto é que fazem o que
estão fazendo porque é benéfico e lucrativo a eles.
Vejam, pessoas se envolvem em várias coisas que
são lucrativas para elas, e temos que torná-las menos
lucrativas. Temos que deixar menos benéfico. Estou
dizendo que qualquer programa que é trazido para a
nossa comunidade deva ser analisado pelo povo
daquela comunidade. Deve ser analisado para ver se
atende as necessidades relevantes daquela
comunidade. Não precisamos de negros vindo à nossa
comunidade sem nenhuma empresa, abrindo negócios
para negros. Existem muitos negros em nossa
comunidade que não conseguem tirar nada dos
negócios que vão abrir.
Temos que encarar alguns fatos. Que as massas
são pobres, que pertencem ao que vocês chamam de
classes mais baixas, e quando eu falo das massas, estou
falando das massas brancas, estou falando das massas
negras, e as massas marrons e amarelas também. Temos
que encarar o fato que algumas pessoas dizem que se
combate fogo contra fogo, mas dizemos que se combate
fogo melhor com água. Dizemos que não se combate
racismo com racismo. Iremos combater o racismo com
solidariedade. Dizemos que não se combate capitalismo
com capitalismo negro; se combate o capitalismo com o
socialismo.
Não vamos lutar contra reacionários que andam
para cima e para baixo pelas ruas sendo reacionários;
vamos nos organizar e nos dedicar para o poder político
revolucionário e ensinar a nós mesmos as necessidades
específicas de resistência à estrutura do poder, nos
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 95 |

armar, e combater os reacionários com a Revolução


Proletária Mundial. É isso que tem que ser. O povo tem
que ter o poder: o poder pertence ao povo.
Temos que entender alto e claro que tem um
homem em nossa comunidade chamado capitalista.
Algumas vezes ele é negro e algumas vezes ele é branco.
Mas este homem tem que ser expulso de nossa
comunidade, porque qualquer um que vem para a
comunidade lucrar com o povo, explorando-o, pode ser
definido como capitalista. E não ligamos para quantos
programas ele tenha, quão longa a sua dashiki seja; o
poder político não nasce das mangas de um dashiki; o
poder político nasce da ponta do fuzil. Nasce da ponta
do fuzil!
Muitos de nós andando por aí falando de política
nem sabem o que é política. Você já viu algo e o puxou e
levou o mais longe que podia e quase estica tanto que se
torna outra coisa? Você leva tão longe que ele é duas
coisas? Na verdade, algumas coisas se você esticar tão
longe, vai ser outra coisa. Você já cozinhou algo tanto
tempo que se transforma em outra coisa? Não está
certo?
É sobre isso que estamos falando com política.
Que a política não é nada, mas se você esticar tanto
tempo que não pode ir mais longe, então você sabe o que
você tem em suas mãos? Você tem uma contradição
antagônica. E quando você leva essa contradição para o
nível mais alto e a desenvolve na medida em que você
pode desenvolvê-la, você tem o que você chama de
guerra. A política é guerra sem derramamento de
sangue, e a guerra é política com derramamento de
sangue. Se você não entende isso, você pode ser um
democrata, republicano, você pode ser independente,
você pode ser qualquer coisa que você quiser, você não
é nada. Não queremos nenhum destes negros ou
qualquer um, radicais nem ninguém falando de “Eu sou
independente”. Isso significa que você se vende aos
|96 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

republicanos; independente significa que você está


disposto a ser aliciado e irá se vender para quem mais
pagar. Entendem?
Queremos pessoas que queiram participar do
Partido do Povo, porque o povo irá forjá-lo, gostem ou
não. O povo provou que pode forjá-lo. O fizeram na
China, e o farão aqui. Podem chamar do que quiserem,
podem falar disso. Eles podem chamar de comunismo, e
pensar que isso irá assustar alguém, mas não vai
assustar ninguém.
Tivemos a mesma coisa acontecendo na 37ª
Avenida. Eles vieram para essa avenida onde tem o
nosso programa de Café da Manhã para crianças, e
começaram a abordar estas mulheres que eram mais
velhas, em volta de 58 anos – sabem, eu digo mais velhas
porque eu sou jovem. Eu tenho 20 anos, certo! Mas veja,
eles irão abordá-las e fazer lavagem cerebral. E vocês
não viram nada até ver uma dessas lindas irmãs com
seus cabelos começando a ficar brancos, e elas não tem
muitos dentes, e estavam destruindo o policial! Estavam
os destruindo! Os porcos chegavam nelas e falavam:
“você gosta de comunismo?”
Chegavam nelas e falavam “Você tem medo do
comunismo?” E as irmãs falavam “Não tenho medo,
nunca ouvi falar nele”.
“Você gosta de socialismo?”
“Não tenho medo. Nunca ouvi falar dele”.
Os porcos estavam se abalando, porque
gostavam de ver estas pessoas morrendo de medo
dessas palavras.
“Você gosta de capitalismo?”
“Sim, é onde eu vivo. Eu gosto”.
“E do programa Café da Manhã para as Crianças,
nigger?
“Sim, eu gosto”
E os porcos dizem “Oh-oh”. Os porcos dizem
“bom, o Programa Café da Manhã para Crianças é um
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 97 |

programa socialista. É um programa comunista”.E a


mulher disse, “bem, vou te dizer, garoto, eu conheço
você desde que você tinha o tamanho de um joelho de
um gafanhoto, nigger. E eu não sei se gosto de
comunismo e não sei se gosto de socialismo. Mas sei que
o programa Café da Manhã para as Crianças alimenta
meus filhos, nigger. E se você por suas mãos no
programa Café da Manhã para as Crianças, eu vou sair
daqui e te arrebentar como um...”
É isso que elas estavam falando. Isso que estavam
falando, e isso é uma coisa linda. E é isso que o programa
Café da Manhã para as Crianças é. Muitas pessoas
pensam que é caridade, mas o que ele faz? Leva o povo
de uma etapa para uma outra etapa. Qualquer programa
que seja revolucionário é um programa que faz avançar.
A revolução é transformação. Queridos, se você
simplesmente continuar transformando, antes de
perceber, e na prática mesmo sem saber o que é
socialismo, você não precisa saber o que é, elas estão o
defendendo, estão participando e estão apoiando o
socialismo.
E muitas pessoas irão lhes dizer, bem, o povo não
tem qualquer teoria, precisam de alguma teoria. Eles
precisam de alguma teoria mesmo se não tem qualquer
prática. E o Black Panther Party os diz que se um homem
lhe diz que é o tipo de homem que faz que você compre
chocolate e coma a embalagem e jogando fora o
chocolate, ele faria com que você andasse para o Leste
quando você deveria andar para o Oeste. É verdade. Se
você ouvir o que o porco fala para vocês, vocês estariam
lá fora no sol com um guarda-chuva. E quando estivesse
chovendo, vocês sairiam de casa e deixariam seu
guarda-chuva em casa. Isso é certo. Vocês têm que
juntar as peças. Estou dizendo que é isso que eles fazem
que vocês façam.
Agora, o que nós fazemos? Dizemos que o
programa Café da Manhã para as Crianças é um
|98 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

programa socialista. Ensina o povo basicamente que


pela prática, nós pensamos e as deixamos praticar
aquela teoria e investigar esta teoria. O que é mais
importante? Você aprende algo assim como qualquer
um. Deixe-me mostrar a vocês.
Vocês dizem que este irmão aqui vai para a
escola por 8 anos para ser um auto-mecânico. E aquele
professor que costumava ser um auto-mecânico diz a
ele, “bom, nigger, você tem que passar pelo que
chamamos de treinamento no trabalho”, e ele diz “com
toda essa teoria que eu tenho, eu tenho que ir para o
treinamento no trabalho? Para que?” Ele disse “no
treinamento no trabalho, ele trabalha comigo. Eu fiquei
aqui por 20 anos. Quando eu comecei a trabalhar, eles
nem tinham auto-mecânicos. Eu não tenho nenhuma
teoria. Eu apenas tenho um monte de prática”.
O que aconteceu? Um carro chegou fazendo um
barulho esquisito. Este irmão vai pegar seu livro. Ele
está na página um, ele não chegou na página 200. Eu
estou sentado ouvindo o carro, e ele diz “o que você
pensa que é?” E eu digo “eu penso que é o carburador”.
Ele diz “Não, eu não vejo nenhum lugar aqui que diz que
um carburador faz um barulho como esse”, e “como você
sabe que é o carburador?” Eu disse, “bem, nigger, cerca
de 20 anos atrás, 19 para ser exato, eu estava ouvindo o
mesmo tipo de barulho; E o que fiz foi desmontar o
regulador de voltagem e não era isso. Então desmontei
o alternador e não era isso. Eu desmontei o gerador e
não era isso. Depois que desmontei tudo, finalmente
peguei o carburador e quando cheguei nele, eu descobri
que era aquilo. E eu disse a mim mesmo, a próxima vez
que você ouvir este som é melhor desmontar primeiro o
carburador”. Como ele aprendeu? Aprendeu pela
prática. Eu não me importo com quanta teoria você tem,
se não tem nenhuma prática aplicada a ele, então aquela
teoria se torna irrelevante. Certo? Qualquer teoria que
você tem, a pratique. E quando você a pratica, você
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 99 |

comete alguns erros. Quando você comete um erro, você


corrige essa teoria e então será a teoria corrigida que
será capaz de ser aplicada e usada em qualquer situação.
É isso que temos que ser capazes.
Toda vez que eu falo em uma igreja, eu sempre
tento dizer algo, sabe, sobre Martin Luther King. Eu
respeito muito Martin Luther King. Eu penso que ele foi
um dos maiores oradores que o país já produziu. E eu
ouço a qualquer um que fala bem, porque gosto de ouvir
isso. Martin Luther King disse que pode parecer escuro
as vezes, e pode parecer escuro aqui no lado Norte.
Talvez você pensasse que a sala fosse estar lotada de
pessoas aqui e talvez tivesse pensado que tivesse que
pedir para algumas pessoas saírem e pudesse não ter
pessoas suficientes aqui. Talvez algumas das pessoas
que vocês pensam que deveriam estar aqui e não estão,
e você pensa que, bem, se elas não estão aqui então não
será tão bom como pensamos que poderia ser. E talvez
vocês pensaram que precisava de mais pessoas do que
tem aqui. Talvez vocês pensam que os porcos serão
capazes de te pressionar e colocar pressão suficiente
para esmagar seu movimento antes mesmo de começar.
Mas Martin Luther King disse que ouviu em algum lugar
que quando está escuro o suficiente você pode ver as
estrelas. E não estamos preocupados com escuro. Ele
disse que o braço do universo moral é longo, mas se
inclina para o céu.
Temos Huey P. Newton na cadeia, e Eldridge
Cleaver na clandestinidade. E Alprentice Bunchy Carter
foi assassinado; Bobby Hutton e John Huggins foram
assassinados. E muitas pessoas pensam que o Black
Panther Party em certa medida está desistindo. Mas
vamos dizer isso: Nos comprometemos com o povo em
um nível que dificilmente alguém já se comprometeu.
Decidimos que ainda que alguns de nós tenham vindo
do que alguns de vocês chamariam de famílias pequeno-
burguesas, ainda que alguns de nós poderiam em
|100 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

alguma medida o que chamam de topo da montanha,


poderíamos ser integrados à sociedade trabalhando
com pessoas que jamais teríamos a chance de trabalhar.
Talvez poderíamos estar no topo da montanha e talvez
não teríamos que ficar se escondendo quando vamos
falar em locais como esse. Talvez não tivéssemos que
nos preocupar com tribunais, ir a cadeia e ficar doentes.
Dizemos que mesmo que todos estes luxos existem no
topo da montanha, entendemos que vocês e seus
problemas estão bem aqui no vale.
Nós no Black Panther Party, por nossa dedicação
e entendimento, fomos até o vale sabendo que o povo
está no vale, sabendo que a nossa condição é a mesma
condição da do povo no vale, sabendo que nossos
inimigos estão na montanha, que nossos amigos estão
no vale, e mesmo que seja legal estar no topo da
montanha, voltamos para o vale. Porque nós
entendemos que existe trabalho a ser feito no vale, e
quando levamos a cabo este trabalho no vale, então
temos que ir para o topo da montanha. Estamos indo
para o topo da montanha porque tem um filho da puta
no topo de montanha que está brincando de Rei, e vem
sacaneando a gente. E temos que subir no topo da
montanha não para viver seu estilo de vida. Temos que
subir no topo da montanha para fazer esse filho da puta
entender, que estamos vindo do vale!

Discurso na Igreja de Olivet, fevereiro de


1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 101 |

Capitalismo negro e o que isso


significa
Landon Williams
Enquanto eu estava lendo o jornal outro dia, eu
vi onde em Oakland tem sido uma área alvo para o
astucioso plano de Dick Nixon de Capitalismo Negro.
Me parece que uma análise profunda do capitalismo
em geral e do capitalismo negro em particular é
iminente. Quando vemos a história de vários países
deste planeta, vemos que muitas nações e raças
entraram no saco do capitalismo. Quando vemos a
história da Rússia, vemos que com o fim do governo
do Czar, o capitalismo russo veio ao fim. Quando
vemos a história da China e do capitalismo amarelo,
vemos que com a chegada de Mao Tsé-Tung e do
Partido Comunista da China ao poder, o feudalismo e
o capitalismo burocrático ao qual o povo amarelo da
China estava subjugado foram esmagados. Quando
vemos a história de outros países que passaram pelo
capitalismo, como a Índia e o capitalismo marrom,
vemos que hoje a Índia está em constante turbulência.
Eu acho que ao observar os países capitalistas
devemos levar em consideração as leis básicas, razões
fundamentais e motivações para as coisas que
acontecem nos países capitalistas. Por exemplo,
analisando a economia vemos que em países
capitalistas, uma alta taxa de desemprego, às vezes de
10 a 15%, não é algo espetacular, mas algo que o país
capitalista precisa para manter uma economia
equilibrada; esse tipo de taxa de desemprego é
essencial para um controle da inflação. Indo mais
além, e como o capitalismo se relaciona com o povo
negro neste país, se queremos descobrir o que o
|102 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

capitalismo reserva para todos nós o que temos que


fazer é olhar em volta e perceber que a nossa situação
atual dado que as condições que o povo negro se
encontra aqui são diretamente ligadas ao capitalismo
e à exploração que sofremos nas mãos das classes
dominantes capitalistas racistas aqui na América.
Observamos que na época do comércio de escravos, os
comerciantes capitalistas da costa leste deste país
ficaram podres de ricos com o suor, sangue e lágrimas
do povo negro que foi transportado nos fundos dos
navios, embalados como sardinhas rumo a este país
racista decadente para trabalhar como escravos e
morrer no campo para construir este país.
O capitalismo, como todos sabemos, para
existir, deve ter algo ou alguém para explorar. O que
temos aqui na América é super-capitalismo, super-
exploração; bugigangas e tranqueiras têm sido
vendidas ao povo por preços exorbitantes. Ao lidar
com o capitalismo negro, ou o pouco disso que temos
experienciado nesse país, conferindo no livro “100
Amazing Face About the Negro” de J. A. Rogers, vemos
que antes da guerra havia pequenos capitalistas
negros nesse país. Esses capitalistas negros de certa
forma desfrutaram de alguns benefícios e privilégios
desse país enquanto eram chamados de homens
libertos e, como tal, poderiam possuir escravos e
propriedades. Analisando a história, descobrimos que
muitos desses libertos ou pequenos capitalistas
negros não tinham nenhum interesse ou qualquer
sensibilidade pelo resto dos seus irmãos e irmãs
negras e, em muitos casos, eram mais brutais do que
o senhor de escravo branco e responsabilizava seus
irmãos por impedi-los de desfrutar todos os
benefícios da classe branca capitalista. Durante a
guerra civil, quando o Norte e o Sul supostamente
lutaram para libertar os escravos, constatamos que
alguns desses capitalistas negros inclusive lutaram ao
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 103 |

lado dos Confederados para ajudar a manter a


exploração sobre os irmãos negros. Então, quando
pessoas negras veem palavras como “capitalismo”,
isso deveria assustá-las.
Veja, nós fomos treinados nesse país para que
sempre que vermos a palavra “comunista”, por
exemplo, a maioria do povo negro ficar assustado,
mas quando veem a palavra “capitalismo”, esta não
produz o mesmo efeito. Eles apenas continuam, é só
uma palavra do dia a dia, algo com que já estão
envolvidos. Mas eu acho que se o povo negro parasse
e realmente visse o que a palavra “capitalismo” e o que
o capitalismo significa no cotidiano, começaria a ficar
assustado com isso. Eu mesmo, quando vi essa coisa
de “Oakland está no capitalismo negro”, para mim foi
muito terrível porque, como eu disse, tivemos vários
exemplos do que capitalismo já fez.
O povo negro desse país deve começar a formar
os conceitos corretos em suas mentes quando ouvem
a palavra “capitalismo”. Nesse país, nas escolas, a
pouca instrução que nos dão quando falam da
América ou do capitalismo, falando “capitalismo
democrático”; nos ensinam sobre democracia, não
sobre capitalismo. O resultado é que quando o povo
negro vê as palavras “Oakland no capitalismo negro”,
começa a tocar as estrofes do hino dos Estados Unidos
e veem a bandeira balançando, quando na verdade
deveriam estar vendo os povos de cor carborizados no
Vietnã e o assassinato de Che Guevara na Bolívia pelos
agentes racistas estadunidenses da CIA. Além disso,
quando pensamos sobre capitalismo, deveríamos
pensar em nossos irmãos e irmãs no Congo. Há um
panfleto chamado Revolução no Congo que todo negro
na América deveria ler, e descobrir como o
capitalismo opera. Por exemplo, quando os EUA
interviram no Congo, e Patrice Lumumba, a escolha do
povo para Primeiro-Ministro, foi assassinado por
|104 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

cachorros traidores de Tshombe, que era um cão de


corrida dos capitalistas americanos e belgas, e aquele
maldito liberal do Kennedy.
Na época da intervenção estadunidense, havia
grandes minas de cobre em Katanga e outras
províncias no Congo. Havia uma empresa nos EUA
chamada Minas Kennecut que controlavam a maioria
dos suprimentos mundiais de cobre. Bom, na época da
intervenção no Congo, a oferta de cobre começou a
ultrapassar a demanda, e o preço começou a cair. Bem,
esses capitalistas que sentam e controlam o Banco
Chase Manhattan e outros grandes bancos e
indústrias fizeram milhões vendendo mais de 10 mil
libras de bombas para bombardearem as indústrias
de mineração e o povo do Congo, massacrando então
a competição.
Na América de hoje, capitalistas e proprietários
te exploram nas lojas e em casa, e ao mesmo tempo
vão à igreja e se ajoelham hipocritamente e falam
sobre irmandade e sobre união, e “faça com os outros
o que você faria com você mesmo”. E quando você
pergunta a ele como justifica as práticas
estranguladoras de negócios que realiza, ele
simplesmente te fala que negócios são negócios. Bem,
eu penso que deveríamos olhar bem atentamente o
que é o negócio capitalista. Como eu disse, no Congo,
consiste em derrubar 10 mil libras de bombas no povo
negro ali. Antes da Segunda Guerra Mundial, os
capitalistas neste país que dirigiam os ferros velhos
faziam milhões de dólares vendendo ferro e aço
sucateado para os imperialistas japoneses que
estavam desencadeando uma guerra injusta de
agressão contra o povo chinês. A opinião pública foi
bastante contra esta prática. Porém, novamente, a
desculpa de “negócios são negócios” foi usada; no
âmbito da competição, os capitalistas nesse país se
movem sob várias formas. Com o estalar da II Guerra
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 105 |

Mundial, milhares de nossos irmãos amarelos foram


encarcerados em ditos campos de detenção que eram
simplesmente campos de concentração. O motivo
dado para seu aprisionamento: eram uma ameaça à
segurança, mas na verdade era o racismo e o
capitalismo estadunidense. O racismo foi evidenciado
claramente pelo fato de que centenas de milhares de
alemães e italianos não foram presos, mas ao invés
disso, se permitiu a eles que estivessem livres para
sabotar o esforço de guerra dos EUA.
Os japoneses naquela época possuíam
consideráveis plantações de arroz na California; na
verdade, tinham todo o comércio de arroz. Vemos,
porém, que quando foram movidos, também foram
forçados a vender a ridículos preços e em muitos
casos suas terras foram simplesmente tiradas deles –
novamente, negócios são negócios. Então você pode
ver que foram encarcerados por motivações racistas e
capitalistas. Voltando mais um pouco e observando a
história desse país, vemos que depois que a guerra
civil acabou, ao povo negro foi prometido 40 acres e 2
mulas pela Agência dos Homens Livres. Quando
vemos através da história, percebemos quem levou os
40 acres e as 2 mulas. Quando vamos estudar, vemos
que as grandes indústrias capitalistas, como a
Standard Oil, levaram as terras. Standard Oil levou
meus 40 acres e minhas 2 mulas. Para eles, contudo,
eram apenas negócios. Novamente o massacre dos
índios ou o Destino Manifesto, que o homem branco
glorifica na TV, não era nada mais que “negócios são
negócios”.
Os capitalistas brancos neste país, as
mineradoras, as companhias de petróleo e os barões
de terra que esperavam estabelecer seus próprios
pequenos reinos, estes senhores de guerra na América
a fim de ganhar mais terra instingariam incidentes
com os índios para que pudessem chamar o exército e
|106 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

a cavalaria dos EUA e, portanto, roubar mais terras


indígenas, e o motivo novamente foi que “negócios são
negócios”. Então esta competição estranguladora, e
essa movimentação constante por autorrealização e
satisfação pessoal que é pregada nos países
capitalistas, o povo negro deveria começar a entender
o que isto significa. Quando vamos até a loja da
esquina, vemos que estão sendo cobrados os mais
altos preços pelos menores pedaços de carne, e em
muitos casos a carne está velha e podre. Devemos
começar a formar conceitos sobre o que o capitalismo
significa verdadeiramente, no dia a dia. O povo negro
se depara com isso todos os dias.
O que o capitalismo significou para a vasta
maioria dos povos do mundo? Eu penso que é uma
questão que deveríamos nos perguntar. Quando
olhamos em volta vemos que os países onde os
capitalistas dos Estados Unidos pegam mais recursos,
estas colônias e semicolônias que são chamadas de
países subdesenvolvidos do mundo. Quando olhamos
para elas, vemos que possuem a taxa de mortalidade
infantil e taxa de mortes mais altas do mundo e os
menores padrões de vida. Por que é assim? O povo
negro não pode aceitar o que o nosso inimigo nos diga
para sermos inclusivos. Malcolm X disse que se você
tiver que confiar em seu inimigo para um trabalho
você está em maus lençóis. Também é verdade que se
você tiver que confiar em seu inimigo para informação
você está em maus lençóis. O povo negro deve
começar a formar os conceitos adequados do que o
capitalismo é e sobre o que se trata, para que possa
começar a lidar com a situação da maneira correta.
Observamos novamente ao olhar para a história, que
quando os capitalistas se movem, eles o fazem das
maneiras mais dissimuladas e diabólicas para
controlar e manipular os governos e os povos através
do mundo. Pegando novamente o exemplo do Congo,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 107 |

eles usaram seu truque favorito, do roteiro da falsa


conspiração comunista, e afirmaram que Lumumba
era pró-comunista e Tshombe era pró-Ocidente.
Novamente isto é apenas um truque, um disfarce ou
uma farsa que os capitalistas usam para encobrir suas
transações sujas e dissimuladas.
Na China foi a mesma coisa. Quando os Estados
Unidos estavam apoiando o regime do pirata Chiang
Kai-Shek, disseram que o Presidente Mao Tsé-tung
era pró-comunista e que Chiang Kai-Shek era pró-
Ocidente. Naquela época, o povo negro neste país de
maneira geral aceitou isso sem analisar
profundamente e ver realmente o que significa pró-
comunista ou pró-ocidente. Em um exame mais
profundo dos fatos vemos que o pirata Chiang Kai-
Shek que era pró-Ocidente também era pró-
capitalista e pró-exploração, enquanto Mao que era
pró-comunista era a favor do povo e dos camponeses.
De um lado você tinha Chiang Kai-Shek, que roubava
do povo e era uma ferramenta que o imperialismo
norte-americano usava para manter sua dominação e
exploração sobre o povo chinês enquanto que o
Presidente Mao e o Partido Comunista da China
estavam lutando pelo povo, para por um fim à
exploração do povo.
Nós vemos este mesmo truque hoje nos
noticiários quando J. Edgar Hoover diz que o Black
Panther Party é uma ameaça à segurança dos Estados
Unidos e que estudamos o Livro Vermelho e que
somos pró-comunista – mas que tipo de ameaça ele
diz e o que é o Livro Vermelho? Examinando
corretamente, vemos que o principal objetivo do
Black Panther Party é “estabelecer o poder político
revolucionário para o povo negro”. E que entre os
princípios que estudamos no livro vermelho estão
princípios como “sem um exército popular, o povo não
tem nada”. Huey P. Newton, nosso fundador e
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Ministro de Defesa disse “um povo que não é armado


ou é escravo ou submetido à escravidão a qualquer
momento”. Sabemos que é apenas porque o povo está
desarmado e desorganizado que os porcos racistas
são capazes de passar por cima do povo.
Sempre que vemos uma situação capitalista,
vemos a mesma coisa. Anteriormente eu mencionei a
Rússia czarista; bem, se você for ver a história, verá
que o regime capitalista na Rússia era governado e
dominado por umas poucas pessoas. Você tinha os
podres de ricos no topo junto com a nobreza e os
círculos internos do czarismo. Você tinha os
camponeses que estavam passando fome, e as massas
do povo no pico mais baixo. Quando você vê a história
chinesa você vê a mesma situação aplicada. No Congo,
antes de Lumumba chegar ao poder, e depois após ele
ter sido assassinado, novamente havia poucas pessoas
controlando a economia e a riqueza do país e o resto
do povo passando fome. Eles costumavam mostrar
imagens da China em um programa de TV chamado “O
Século XXI”. Eles mostravam filmagens da China antes
e durante sua guerra revolucionária. Costumavam
mostrar os podres de ricos e os senhores da guerra
que saqueavam o interior da China, ficando cada vez
mais ricos, enquanto que os camponeses, que eram
muito pobres, ficavam cada vez mais pobres. Aqui,
novamente os latifundiários eram pró-ocidente ou
pró-capitalistas, e os camponeses eram pró-
comunistas ou pró-oriente. Quando observamos essa
situação, vemos que em todos os países que se
mobilizaram para obter libertação nacional e
autodeterminação, que o povo lutou contra as fileiras
capitalistas e junto das fileiras socialistas ou
comunistas. Quando o povo nesses países começou a
lutar para controlar seu próprio destino, entenderam
que enquanto o poder continuasse investido nas mãos
de poucos capitalistas, ou nas mãos de uma classe
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capitalista exploradora, o povo nunca teria nenhum


poder.
Quando investigamos situações mais próximas
e nos atualizamos, podemos observar a situação na
América Latina, e vemos a mesma coisa que ocorreu
na China e na Rússia. Toda a América Latina era a
reserva particular dos capitalistas dos Estados
Unidos. Se você olhar para a América Latina, verá que
antes de Fidel Castro e do povo cubano tomar o poder
em Cuba, o poder estava concentrado nas mãos de
Batista. Agora, Batista não era nada além de um
fantoche ou ferramenta do imperialismo e capitalismo
norte-americano. No Hotel Havana Hilton, os porcos
decadentes capitalistas dos EUA costumavam relaxar
sob o sol e continuar com suas práticas decadentes e
outras perversões. Na música de Bob Dylan, “Ballad of
the Thin Man”, é dito que o Sr. Jones foi a um show de
horrores e pagou seu dinheiro para ver o Geak, e o
Geak estava comendo carne crua de um osso. Geak
deu o osso ao Sr. Jones e disse “Como é a sensação de
ser uma aberração?”. Bom, observando isso, vemos
que o Geak quis dizer que estava ali comendo a carne
crua porque essa era a única coisa que ele tinha para
sobreviver; mas o Sr. Jones, que nesse caso seria a
classe capitalista na América, era a verdadeira
aberração, porque estava pagando para ver alguém
performar esse tipo de coisa. Bom, em Cuba, antes do
poder ter sido arrancado do imperialismo americano
e dos seus cães de corrida, toda Havana era um grande
cercado ianque.
Os capitalistas neste país criaram a
prostituição em massa, homossexualidade e crime
organizado com a sua perversa contaminação.
Quando Fidel Castro se moveu e tomou o poder das
mãos dos capitalistas estadunidenses e deu de volta
ao povo, vemos que o capitalismo estadunidense
reagiu de forma bastante violenta. Batista foi apoiado
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até a medula e 10 mil libras de bombas norte-


americanas foram vendidas para Batista e jogadas
contra o povo cubano. Posteriormente, os Estados
Unidos instigaram, financiaram, organizaram e
apoiaram a invasão à Baía dos Porcos de Cuba que foi
esmagada pelo heróico Exército do povo cubano. Hoje,
mais de dez anos depois, vemos que o capitalismo
norte-americano está engajado em outro ato
criminoso contra o povo cubano que como todos os
outros planos capitalistas está fadado ao fracasso.
Nos movendo novamente mais perto de casa, vemos
que aqui em nossas comunidades negras, se o povo
negro quer exemplos do que é o capitalismo e quais
seus efeitos, tudo que devem fazer é olhar as várias
prisões e cadeias. Não é apenas coincidência que em
todas as colônias e semicolônias você veja uma dita
alta taxa de criminalidade. A taxa é diretamente
relacionada à exploração e opressão pela classe
dominante capitalista. A taxa de criminalidade e a taxa
de prostituição em nossas comunidades se devem
diretamente à pobre educação, pobre moradia, pobre
vestimenta, falta de empregos e uma fome no
estômago sempre presente. Estas coisas novamente
são diretamente atribuídas ao capitalismo e à
exploração. Os guetos nesse país não estão aqui por
acidente. Eles são um lugar onde uma fonte
prontamente disposta de força de trabalho barata
pode ser jogada e armazenada até que seja necessária
e como um mercado para despejar bilhões de dólares
em bens inferiores e serviços corruptos. Então os
guetos aqui nos EUA não estão aqui por acidente.
Estão estabelecidos e mantidos por capitalistas neste
país para um propósito e plano específicos.
Novamente, observando a história, vemos que
na época da escravidão haviam duas classificações.
Havia o negro do campo e o negro da casa. O negro do
campo estava sempre em desvantagem ante o negro
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 111 |

da casa, mas o negro da casa trabalhava em conjunto


com o senhor de escravos para ajudar a manter a
opressão dos seus irmãos e irmãs negros. Hoje, vemos
que esses negros capitalistas montados e adotados
por Nixon e pelos círculos dominantes capitalistas
nesse país nada mais são do que concepções
modernas dos antigos negros da casa e, enquanto os
negros da casa recebiam as sobras do prato do mestre,
esses negros capitalistas receberão as sobras dos
pratos dos capitalistas brancos racistas. Para analisar
um caso particular, temos o exemplo do negro que
possui o Lava Jato Rainbow no Leste de Oakland que
diz que a única coisa que salvará a raça negra é se
tornar semelhante à raça branca, e que o povo negro
é inferior ao povo branco. Podemos ver a que
perversão tal busca pelos restos da mesa do mestre
pode se tornar. Também temos os tolos que apoiaram
Wallace na última eleição presidencial. Na Bíblia há
uma parábola que está intimamente relacionada ao
que estamos falando, onde Cristo falava sobre Lázaro
rastejando e implorando na porta. Essa é a mesma
coisa dos chamados negros capitalistas que estão
implorando ao homem negro para deixá-los entrarem
no sistema de exploração, ao invés de se levantarem e
destruírem o próprio sistema de exploração e assim
se livrarem de uma vez por todas de todos esses
problemas. O senhor de escravos, que nesse caso é o
capitalista moderno, não é burro, e enquanto puder
ganhar sem dar nada em troca, ele fará. Agora que o
povo negro tem aumentado seu clamor por justiça e
liberdade e começado a conscientemente fazer a
guerra de guerrilhas, as classes dominantes
capitalistas nesse país, que são os senhores de
escravos do mundo, começaram a oferecer os restos
das suas mesas ao povo. Observando pelo mundo,
vemos que o Premier Thieu e o Vice-Presidente Ky do
Vietnã do Sul estão nas posições de negros da casa.
|112 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Eles são os negros da casa do Vietnã. Do dinheiro,


prestígio e poder que sobra em suas mãos, pouco,
senão nada, chega para o povo. Na China foi da mesma
forma. Chiang Kai-Shek que não foi nada além de um
negro da casa chinês, um capitalista chinês. Nada do
dinheiro e poder investido em suas mãos chegou para
as massas do povo da China. Tudo que eles tiveram foi
a bota de ferro e os paus e balas das tropas banditistas
de Chiang Kai-shek.
Quando vemos em Cuba, a mesma situação
existia. Batista, que era outro negro da casa, e tudo
que deu ao povo foi os mais de 10 mil lb de bombas e
napalm da força aérea americana. E nesse país, os
capitalistas negros têm as mesmas posições de
Batista, de Chiang Kai-Shek e dos negros da casa da
escravidão americana. Dos restos dados a eles pouco,
se não nada, chega às massas famintas do povo. Então
o que o povo negro deve perceber é que qualquer
coisa que o inimigo oferece a você como uma solução
para seu problema não é correto porque seu inimigo
nunca irá te dar nada que te ajudará a derrotá-lo. O
que devemos fazer é traçar nossas próprias definições
e a análise da situação a fim de conseguir as soluções
que concretamente lidam com o problema que
estamos confrontando. No Black Panther Party, nós
temos um trecho do nosso programa de 10 pontos que
lida especificamente com o capitalismo. O ponto nº3:
“Queremos o fim do roubo do homem branco em
nossa comunidade negra”. Quando dizemos isso,
queremos dizer que queremos um fim a todos os tipos
de roubos. Um fim ao roubo da nossa juventude que é
enviada 8000 milhas daqui para serem assassinados e
massacrados e usados como bucha de canhão para
ajudar a sustentar uma guerra de agressão
imperialista. Um fim ao roubo e destruição das mentes
das nossas crianças pelas escolas e administrações
racistas.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 113 |

Um fim ao roubo e estupro dos corpos das


nossas irmãs por capitalistas racistas pervertidos que
não merecem ser chamados de homens. Um fim ao
roubo do homem negro pelo assassinato e
aprisionamento e da cooptação da dita liderança
negra por planos tais como o plano capitalista negro
de Nixon. O Black Panther Party é um Partido que está
determinado a se mobilizar por quaisquer meios
necessários para obter bons fins. Nós, no Black
Panther Party nos recusamos a ser enganados pela
palavra “negro”. Nós enxergamos que o capitalismo e
o capitalismo burocrático que existem no mundo hoje
é o nosso principal inimigo, e não importa qual prefixo
de cor você coloque nele, ainda é o mesmo. Tão
sangrento e tão perverso como sempre foi. E quando
pensamos em capitalismo, nós imediatamente
recebemos fragmentos de imagens do napalm e
ataques aéreos no Vietnã, assassinatos da CIA no
Congo e na Bolívia, nos porcos racistas, nos
paraquedistas dos EUA e as tropas da guarda nacional
correndo soltas na comunidade negra, e nos povos do
mundo sendo assassinados. Se o povo negro de fato
precisa de alguma direção externa em como lidar com
o capitalismo, olhemos para os bravos vietnamitas
para exemplos adequados.

Landon Williams, publicado no Black


Panther
23 de março de 1969
|114 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Alimentar nossas crianças


O Café da Manhã grátis para Crianças de Escola
está para cobrir todo o país e ser instaurado em cada
base e cada célula do Black Panther Party.
Este programa foi criado porque o Partido
entende que nossas crianças precisam de um café da
manhã nutritivo toda manhã para que possam
aprender.
Estes cafés da manhã incluem todos os
nutrientes que precisam para o dia. Por muito tempo,
nosso povo passou fome e sem a ajuda médica adequada
que precisa.
Mas o Black Panther Party diz que este tipo de
coisa deve terminar porque devemos sobreviver a este
perverso governo e construir um novo que sirva a todo
o povo.
Este programa é realizado através de doações de
pessoas interessadas e de capitalistas avarentos que
doa egoistamente um pouco ao programa. Dizemos que
isto não é suficiente, principalmente daqueles que se
beneficiam da comunidade negra como sanguessugas.
Todos os capitalistas gananciosos têm suas
fábricas centradas em nossas comunidades e mesmo a
maior parte do povo que trabalha nesses lugares são
membros das massas oprimidas.
É uma visão linda ver as nossas crianças comer
nas manhãs depois de lembrar das épocas em que
nossos estômagos não eram cheios, e mesmo os
professores nas escolas dizem que ocorre uma grande
melhoria nas habilidades acadêmicas das crianças que
frequentam o programa.
Houve uma época que haviam crianças que
passavam mal nas aulas por causa da fome, ou tinham
que voltar para casa para ter algo para comer. Mas as
nossas crianças devem ser alimentadas, e o Black
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 115 |

Panther Party não irá deixar mais o mal da fome abalar


nossas crianças.
O Programa de Café da Manhã já foi iniciado em
diversas células, e o nosso amor pelas massas nos faz
perceber que deve continuar permanentemente e ser
um programa nacional. Mas nós precisamos de sua
ajuda e isso significa dinheiro, comida e tempo.
Queremos que o programa sirva à comunidade, mas
sem seus esforços e apoio não conseguiremos seguir.

Publicado no Black Panther


26 de março de 1969
|116 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Servindo ao Povo
Marsha
O Black Panther Party é um Partido Político
estabelecido para criar o poder político revolucionário
para o povo negro e continuamente servir ao coração e
alma do povo. A nossa regra cardinal é:“Tenha fé no
povo e fé no Partido”. Esta fé deriva de um amor
imperecível por nosso povo e a consciência da
necessidade de um eclipse governamental.
Nós, enquanto a vanguarda das massas
oprimidas, percebemos que devemos e iremos servir ao
coração e alma do povo. As necessidades e desejos do
povo devem ser supridas e nós, como Huey P. Newton
disse, devemos ser como um boi pronto para ser
montado pelo povo. As necessidades do povo explorado
e oprimido são terra, pão, moradia, educação, liberdade,
roupas, justiça e paz e o Black Panther Party não irá,
nem por um dia, se alienar das massas e esquecer suas
necessidades para sobrevivência, ao invés disso
instituiremos a fé no povo até a morte.
Apenas o povo pode derrubar o atual sistema
imperialista no qual estamos expostos e apenas o povo
pode instituir um governo socialista que irá servi-lo. O
espírito do povo é maior do que a tecnologia do homem,
e este espírito será guiado pelo partido de vanguarda
desta luta de libertação atual. O capitalista, imperialista,
roubo do povo deve cessar neste país sádico e indolente
ou perecer como a Babilônia. O povo deve esmagar estas
baratas gananciosas que governam esta sociedade
decadente e, sob a direção do Black Panther Party, obter
a verdadeira libertação para todos. Não podemos
depender do atual governo para suprir nossas
aspirações e necessidades. Assim, mais e mais
programas devem ser estabelecidos para suprir os
desejos do povo e destruir a ditadura da burguesia
(classe dominante) e seus lacaios. O Black Panther Party
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 117 |

é por tudo que o inimigo (os imperialistas dos EUA) é


contra, e contra tudo que o inimigo defende. Nós
acreditamos em servir o povo de todo o coração em uma
maneira socialista, não gastando dinheiro como os
Estados Unidos para fazer vistoria aos famintos, mas
alimentar o povo. Todas as nossas ações são o exato
oposto desta hipocrisia que chamam de democracia. O
Black Panther Party continuará a servir o povo e suprir
todas as suas aspirações como uma Frente Única
Internacional de revolucionários do mundo,
combatendo esta opressão em massa do capitalismo e
do imperialismo. Quando o povo chama para dizer que
precisa de comida, não usamos alguma retórica
superficial, fazemos com que seja alimentado.

“Nossa tarefa é nos mantermos responsáveis ao


povo. Toda palavra, toda ação e toda política deve se
adaptar ao interesse do povo e, se erros ocorrerem eles
devem ser corrigidos – ser responsável com o povo
significa isso”
Mao Tsé-tung Marsha, publicado no Black
Panther 6 de abril de 1969
|118 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Porque apoiamos a China?


Raymond Jennings

Parece improvável que o envolvimento


intencional da Força Aérea dos EUA na intromissão e no
domínio territorial exercido sobre partes do Laos
conhecido como a trilha Ho Chi Minh, seja aleatório. Este
envolvimento dos Estados Unidos é projetado para
coincidir com os porcos disfarçados da União Soviética.
Tendências para formar laços estreitos e recíprocos
com a URSS e seus cientistas soviéticos são outras
indicações do revisionismo, que levou o povo da Rússia
e os povos sob seu controle, isto é, Hungria, Polônia,
Tchecoslováquia, Romênia, Alemanha Oriental e
Iugoslávia para mais perto das garras do colonialismo e
das presas do capitalismo e produziram as
movimentações agressivas das tropas russas e disputas
diplomáticas lançadas contra os nossos irmãos da
China.
Este movimento deve ser tomado como um
endosso da Guerra do Vietnã, de outro modo como seria
possível campanhas para agir simultaneamente. É tão
diametralmente oposto um do outro quanto o dia e a
noite.
Ou poderia os tolos que ditam a política externa
de ambos os países decidirem que, embora tenham
algumas diferenças, estão lidando com um “país
civilizado”, o que significa qualquer coisa quando que
tem um branco ou um fantoche da ideologia branca
quando se trata de lidar com um país não-opressivo ou
não-branco, tais diferenças deixam de existir. A teoria
marxista-leninista indica que devemos nos unir com os
amigos, para os distinguir os inimigos, e todos nós
sabemos que o capitalismo é o nosso verdadeiro
inimigo. A prática marxista-leninista demonstra que é
preciso nunca se divorciar da prática, comprovando que
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 119 |

a teoria de que qualquer ataque do inimigo contra nós


não é ruim, e tudo que o inimigo não ataque não pode
ser bom para nós, e isto nos faz bem. Sabemos que o
capitalismo é o nosso inimigo. O capitalismo é o governo
dos Estados Unidos e o governo dos Estados Unidos é o
capitalismo.
Os Estados Unidos se preparam para, direta e
atacar a República Popular da China; e não está
atacando a URSS. Unir-se com os amigos para derrotar
os inimigos verdadeiros. Há um denominador comum
evidente no parágrafo anterior, em cada caso há duas
classes dominantes, os que têm e os que não têm, o
opressor e o oprimido. A China se destaca num farol
para os revolucionários do mundo: a luz que nos guia
como caminho a liberdade dos nossos irmãos na África
e na Ásia. Por esta razão é que tem sido alvo de ataque.
Os imperialistas na Rússia e Estados Unidos percebem
que, se não poder parar o impulso e a dinâmica
revolucionária, eles e seus lacaios sem enfrentar os
chineses, podem seguir a subjugar e explorar a África,
Ásia, América Latina, Harlem, Watts, Okland e seu bairro
onde quer que você possa estar, mas o que não
perceberam é que você e eu não vamos deixar fazê-los
isto.
FREE HUEY!
Raymond Jennings, East Oakland branch, publicado
no jornal Black Panther 20 de abril de 1969
|120 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Verdadeiros Revolucionários
Bobby Seale
Para se escrever sobre a revolução aqui nos EUA,
deve se falar de Huey P. Newton e de Eldridge Cleaver. O
Black Panther Party provou através da prática social que
não é uma organização racista e capitalista. O motivo para
isso é que os dedicados membros do Partido seguiram e
ainda seguem atentamente os ensinamentos do nosso
Ministro de Defesa, Huey P. Newton e compreendem bem
as palavras de nosso Ministro de Informação, Eldridge
Cleaver. Aplicamos rigorosamente muitos princípios
revolucionários marxista-leninistas assim como nosso
Ministro de Defesa fez. Quando Huey estava aqui nas ruas
com nós e com o povo, nos ensinou muitas coisas,
principalmente pela prática, aplicando os princípios
revolucionários na prática. Tendo uma ideologia
revolucionária correta, Huey foi capaz de mobilizar uma
nação de irmãos e irmãs negros e negras, que em um nível
elevaram a sua consciência, principalmente onde o Partido
dá exemplo de uma correta visão de mundo revolucionária.
Muitos princípios revolucionários em revoluções
anteriores deste século não se aplicam exatamente aqui nos
Estados Unidos. Mas quando se olha todas as coisas que
Huey P. Newton e Eldridge Cleaver disseram e fizeram,
pode se ver claramente, caso seja objetivo, e não
subjetivista, que estes dois irmãos são os líderes
revolucionários do nosso tempo, confinados aqui mesmo
na América racista-capitalista.
Dentro de Eldridge Cleaver e Huey P. Newton ainda
temos Lumumba e Malcolm X. Temos Kwame Nkrumah e
Stagger Lee (no sentido dos negros do campo que vão para
a cidade, antes de levar a cabo uma luta revolucionária
realmente organizada para seu povo). Huey P. Newton e
Eldridge Cleaver dão o exemplo dos verdadeiros
princípios revolucionários marxista-leninistas. Nosso
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 121 |

Partido pode ver Lenin e Stalin quando queremos


entender Huey e Eldridge. Existem níveis superiores de
marxismo-leninismo com Mao Tsé-tung e Ho Chi Minh,
Castro e Che, e lutas revolucionárias vivas chegando a
níveis superiores a cada dia com toda a genialidade e
compreensão da luta de classes que Frantz Fanon
aprendeu vivendo e trabalhando com a revolução do povo
argelino. Alprentice ‘Bunchy’ Carter, John Huggins e ‘Lil’
Bobby, todos amavam e respeitavam estes dois grandes
revolucionários, Huey P. Newton e Eldridge Cleaver. O
porque do Black Panther Party não ser uma organização
racista negra é porque Huey P. Newton e Eldridge Cleaver
compreenderam e nos ensinaram que não era uma luta de
raças, mas uma luta de classes – uma luta de classe. Huey
disse para mim na noite em que conhecemos o irmão
Eldridge Cleaver: “Cara, o Partido precisa daquele irmão,
ele seria como ouro Malcolm X, do Partido para o povo”. E
Eldridge Cleaver disse para mim: “Sabe cara... Malcolm X
precedeu Huey P. Newton assim como João Batista
precedeu Jesus Cristo”.
Estes são dois dos irmãos mais raros das pobres
massas oprimidas que já existiram nos EUA, e Malcolm X
tem ambos como dedicados revolucionários que eu sei que
servirão os negros pobres e os povos oprimidos. Huey me
ensinou a não odiar uma pessoa pela cor da sua pele, mas
“odiar o que a classe dominante faz conosco”, o que fazem a
nós, o povo negro. Eldridge explicou que não combatemos
fogo com fogo, mas com o fogo com água porque todos
sabem que o fogo é melhor apagado com água. Então irei
resumir sobre do que se trata o Black Panther Party em
nossa justa luta contra a classe dominante que explora os
negros pobres e outros povos oprimidos pelo mundo, ficar
por aqui na decadente América. Todo ser humano deve
entender – todo Stagger Lee – todo irmão e irmã
desinstruído (no sentido de não ter sido instruído pela
educação revolucionária vinda de Huey e Eldridge) devem
perceber que não iremos combater o racismo com racismo,
|122 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

mas iremos combater o racismo com solidariedade. Não


iremos combater o capitalismo com capitalismo (o tal
capitalismo negro), devemos combater o capitalismo com
socialismo. Nós não podemos – e nem elas (outras nações)
podem – nunca nem tentar combater o imperialismo norte-
americano com mais imperialismo, mas iremos combatê-lo
com o internacionalismo proletário.

Bobby Seale, no jornal Black Panther


20 de abril de 1969
Discurso de Field Marshall D.C.
Todo poder ao povo! Todo poder ao povo!
Vocês podem ir ao fundo dessa consigna? Se
vocês não conseguem ir a fundo de Todo o Poder ao
Povo, vocês não podem ir a fundo do que se trata Bobby
Seale, Eldridge Cleaver, David Hilliard e George Murray.
Se vocês não conseguem ir a fundo de Todo Poder ao
Povo, vocês não podem ir a fundo do que se trata o Black
Panther Party.
Porque é isso que Huey P. Newton criou, um
partido político negro revolucionário, para deter a luz e
mostrar o caminho, para colocar todo o poder de volta
nas mãos do povo. E nós vamos a fundo de todos aqueles
que detinham a luz anteriormente: Marx, Lenin, Stalin,
Mao, Fidel, Che, Lumumba e Malcolm. E vamos a fundo
a todos aqueles que detêm a luz agora, Ho Chi Minh, os
irmãos e irmãs do Al Fatah, as guerrilhas palestinas, os
camaradas em armas na Ásia e América Latina, e a carne
da nossa carne e o sangue do nosso sangue dos irmãos e
irmãs na África.
Devemos estudar todos estes e ver o que fizeram
e o que estão fazendo. Devemos aprender com eles, ou
seja, aqueles que estão concretamente colocando o
poder nas mãos do povo. Devemos pegar todas as
fórmulas e princípios que surgem e vem surgindo da
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 123 |

luta do povo pelo poder, e aqueles que são aplicáveis,


devemos aplicar em nossa luta para Todo o Poder ao
Povo! Eu vou abordar um princípio que aprendemos
como Presidente Mao Tsé-tung, que “devemos
combater o liberalismo”.
O liberalismo é como um ácido, ele come ou
destrói a unidade, cria uma atitude de não dar a mínima
e cria discórdia. É uma tendência extremamente nociva.
Um exemplo de liberalismo é quando você conhece uma
pessoa ou um grupo de pessoas que evidentemente
fizeram ou estão fazendo algo de errado, e você não diz
ou não faz nada pelo bem da unidade, pelo bem de
deixar as coisas tranquilas e pacíficas, pelo bem da
amizade ou de manter boas relações, ou você apenas
toca no assunto superficialmente ao invés de discutí-lo
plenamente e profundamente. O Black Panther Party
não defende o liberalismo. É melhor vocês abrirem os
olhos. É melhor vocês tomarem cuidado, porque o Black
Panther Party vai expor todos os porcos da estrutura de
poder, os homens de negócios gananciosos, os políticos
demagógicos e aqueles porcos policiais racistas.
O Black Panther Party irá expor todas as costelas
suínas dos porcos, os nacionalistas culturais, os
capitalistas negros, os cafetões do Black Power, todos os
lambedores de botas, os Tio Toms e os lacaios, todos
esses que são parte do problema, todos os reacionários.
E eu estou aqui, para falar a vocês que eles são de todas
as cores.
Em 1963, o irmão Malcolm X disse “Quando
pessoas negras tem divergências, devem resolvê-los
atrás de portas fechadas, não abertamente”. Naquela
época, Malcolm estava tentando organizar o povo negro
para planejar uma solução para seu problema, por
quaisquer meios necessários, pela primeira vez, e isso
foi uma etapa necessária para trazer uma solução.
Contudo, as coisas se transformaram de um nível
inferior, em 1963, para um nível superior em 1969, e a
|124 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

utilidade desse conceito foi superada. Em 1963 e 1964


quando o irmão Malcolm estava atuando e foi
assassinado, o povo não se engajou em atividades
insurgentes, portanto eu concluí que eles não
necessariamente viram a sua morte como algo ruim. Em
1968, e 1969, quando Martin Luther King foi
assassinado o povo foi para as ruas e cidades
incendiaram por todo o país. Se eles não libertarem
Huey o céu é o limite, e por último, mas não menos
importante, dois honrados Panteras, “Bunchy” e “John”
foram assassinados por um nacionalista cultural, sem
pudor, desprezível, ‘costela de porco’, daquela
organização chamada de US, liderado por aquele careca
covarde e “rei” ‘costela de porco’ chamado Mamalana
Ron Karenga. Basta! Basta de liberalismo. É uma nova
era. É um novo dia. É a hora de chamar as coisas pelos
nomes.
É hora agora de ver além dos artifícios e da
cortina de fumaça do racismo que vem sendo usado
para dividir e conquistar os povos do mundo. É a hora
de ver que o racismo é um instrumento, usado pelos
porcos da estrutura de poder para oprimir e explorar o
povo negro e os brancos da Babilônia, em particular, e
do mundo em geral.
Quando os porcos vão para um país que só tem
uma raça de povos, introduzem o tribalismo como
fizeram em Biafra e na Nigéria. Em 1903, DuBois disse
que “o problema do século XX é o problema da cor”. Em
1953, ele disse que “eu penso que tanto hoje, como
ontem a cor é um grande problema deste século. Mas
hoje eu vejo mais claramente do que ontem, que por trás
do problema da raça e da cor, reside um problema
maior, que tanto o obscurece como o implementa, e é o
fato que muitos civilizados estão dispostos a viver no
conforto ainda que o preço disso for a pobreza,
ignorância e o padecimento de seus semelhantes, do
qual para manter isto, estes homens privilegiados
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 125 |

desencadearam a guerra, e até hoje a guerra tende a se


tornar universal e contínua e a desculpa para a guerra
continua a ser em grande parte a cor e a raça!”.
Também é chegada a hora de ver além do jogo
executado pelos nacionalistas culturais, pelos
capitalistas negros, os cafetões do Black Power, e toda
essa turma do “pense negro e compre negro”. Dizer que
a raça e o racismo são a contradição principal entre o
senhor e o escravo, o opressor e o oprimido, o
colonizador e o colonizado, é ser unilateral e
subjetivista em sua análise. A extensão lógica desta
análise unilateral é a de que se o racismo fosse
eliminado, toda a opressão e a exploração do homem
pelo homem imediatamente acabaria. Uma análise
objetiva da história não corrobora com esta análise
unilateral.
Em tudo e em todas as coisas há múltiplas
contradições. Quando você visa resolver um problema
ou transformar algo, para ser bem-sucedido, você deve
examinar e analisar corretamente as contradições e
ordená-las adequadamente. Após tal processo, é
evidente ver que o capitalismo é a contradição principal.
O capitalismo e o imperialismo são os
exploradores e opressores colonizadores do mundo. O
capitalismo é a doença da humanidade que permite que
5% das pessoas controlem 95% da riqueza. O
imperialismo é o câncer do capitalismo que se espalha e
destrói nações e países inteiros. O lucro é o propósito.
O racismo é a desculpa. Os negros que aderem à
suposição de que a raça é principal são classificados
como nacionalistas culturais ou nacionalistas
reacionários ou nacionalistas ‘costela de porco’. Eles são
inimigos do povo. Eles impedem o povo de ver quem e o
que é seu inimigo. A base do nacionalismo reacionário
‘costela de porco’, é o oportunismo.
Em uma entrevista com The Movement, Huey P.
Newton disse que o “Papa Doc é um excelente exemplo
|126 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

de nacionalismo reacionário. Ele oprime o povo, mas


promove a cultura africana. Ele é contra qualquer coisa
que não seja negro, que na aparência parece muito bom,
mas usa isso para enganar o povo. Ele simplesmente
expulsou os racistas e os substituiu por ele mesmo como
o opressor”.
No nosso país, o nacionalismo cultural age com
coisas como apenas tentar ser negro, pensar negro, etc.,
você sempre ou constantemente ouve “compre negro”.
Não existe nada revolucionário no nacionalismo
cultural. Simplesmente é oportunista e reformista.
O nacionalismo cultural busca apenas que se
permita ser parte do problema. Busca poder escravizar,
oprimir e explorar não importa a raça, o credo e a
religião. Em outras palavras, o nacionalismo cultural
quer um pedaço do bolo. Não é ameaça ao status quo e,
em última instância, concretamente trabalha com o
opressor contra os interesses do povo. Examinemos o
principal vendedor do nacionalismo cultural na
Babilônia, aquele careca sem valor de L.A, Ron Everett.
O Jornal de Wall Street publicou uma história
sobre ele, para informar a classe dominante que aqui
tem um negro que lá fora fala grosso, mas de portas
fechadas é o nosso negro. Aqui vão alguns exemplos dos
seus métodos de lacaio, da sua traição. O Jornal de Wall
Street diz que “é um sagaz político que trabalha por trás
das cenas como um lobbysta do nacionalismo negro
tanto entre autoridades brancas como líderes negros
moderados. Algumas semanas depois do assassinato de
Martin Luther King, por exemplo, o Sr. Karenga foi até
Sacramento para uma conversa particular com Ronald
Reagan, a pedido do governador.
O nacionalista negro também se encontrou
secretamente com o chefe de polícia de Los Angeles,
Thomas Reddin, após Sr. King ter sido morto”. Mais
adiante, no artigo, mencionam que “horas depois da
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 127 |

morte de Martin Luther King, o Congresso Negro, que é


a frente de Karenga, formou um Comitê de Direção.
O propósito do comitê era impedir motins negros
em L.A.. Uma fonte que se sentou em várias reuniões do
Comitê disse que o papel do Sr. Karenga foi crucial”.
Vejam como eles o chamam de Sr. Karenga. Quando o
Muhammad Ali abandonou seu nome de escravo, ainda
insistiam em chamá-lo de Cassius Clay, porque
apresentava uma ameaça ao sistema capitalista dando
um mau exemplo dentro da preocupação dos porcos, se
recusando a entrar no militarismo racista, o
instrumento usado para espalhar o câncer do
imperialismo.
“Pela primeira vez, o militante líder da US, foi
capaz de se encontrar em pé de igualdade com vários
líderes negros moderados”. Agora, quando falam em
“líder negro moderado”, isso significa Tio Tom,
fantoche, lacaio. “Ao mesmo tempo, o Sr. Karenga
estava realizando suas reuniões secretas com o chefe de
polícia Redding bem como com outras autoridades da
cidade”.
Isto foi em abril de 1968, e nove meses depois,
em janeiro de 1969, esta mãe estava tão grávida, das
visões de poder, dadas a ele por toda a graxa de sapato,
engolidas de tanto lamber botas, que chegou ao ponto
de mandar alguns dos seus lacaios, assassinar dois
Panteras da região de L.A., o Vice-Ministro de
Informação, John Jerome Huggins, e o Vice-Ministro de
Defesa, Alprentice “Bunchy” Carter.
Eu estou aproveitando esta oportunidade para
mostrar a vocês e ao mundo, que Bunchy e John serão
vingados. Se informem por estas palavras. A guerra foi
declarada a todos os reacionários, brancos, negros,
marrons, amarelos e vermelhos. Iremos expor ao povo
os inimigos do povo. E quando o povo descobrir que seu
inimigo não é apenas qualquer branco ou qualquer
negro, mas estas pessoas, que estão dispostas a viver em
|128 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

conforto mesmo que seja às custas da maioria da


humanidade, o povo se levantará como uma poderosa
tempestade e irá limpar o estábulo de Aúgias. Todo
poder ao povo!

Discurso de Field Marshall D.C., no Fillmore


Auditorium em abril de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 129 |

Declaração do Comitê Central do


Partido dos Panteras Negras
27 de abril de 1969

21 membros do Black Panther Party de Nova


York foram presos pela estrutura de poder dos
porcos.

Declaração do Comitê Central do Black Panther


Party na sede nacional, Oakland, California,
entregue pelo Vice-Presidente, David Brothers do
Diretório Central do Black Panther Party do Estado
de Nova York.

Historicamente, todas as forças reacionárias


(estrutura de poder dos porcos e lacaios capitalistas
negros “culturalistas”) à beira da extinção
invariavelmente conduzem uma última luta
desesperada contra as forças revolucionárias (todos
os trabalhadores, desempregados, mexicanos, índios,
portorriquenhos, brancos pobres, etc.), mas
principamente negros pobres e povos oprimidos e a
sua vanguarda, o Black Panther Party.
E “alguns revolucionários podem se iludir por
um tempo por este fenômeno de força externa, mas
fraqueza interna, falhando em compreender o fato
essencial que o inimigo está à beira da extinção,
enquanto eles mesmos (povos revolucionários) estão
chegando à vitória” (Livro Vermelho de Mao).
Uma fiança de 2 milhões e 100 mil dólares e as
acusações contra os 21 membros do Black Panther
|130 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Party é absurda e um ultraje. No que tange as


acusações, toda célula do Black Panther Party e
liderança sabe que não gastaríamos dinamite na
explosão de algumas estações de trem e lojas de
departamento simplesmente porque uma parcela do
próprio povo pobre seria morta e sabemos que isto é
completamente errado quando se trata de organizar o
povo contra os políticos demagogos, os capitalistas
gananciosos e os porcos policiais racistas. Eles são os
inimigos dos povos dos Estados Unidos, sejam
brancos, negros, marrons, amarelos ou vermelhos.
Não tentaremos lutar com fogo contra o fogo
porque todos sabem que fogo é melhor combatido
com água. Portanto, o Black Panther Party não
combaterá o racismo com racismo. Mas iremos
combater o racismo com solidariedade.
Não iremos combater o capitalismo com
capitalismo (capitalismo negro), mas com a
implementação do socialismo e programas socialistas
para o povo.
Não iremos combater o governo do
imperialismo norte-americano com mais
imperialismo porque os povos do mundo e as outras
raças, principalmente nos Estados Unidos, devem
combater o imperialismo com o internacionalismo
proletário.
Todos os povos e revolucionários devem se
defender com armas e força organizada quando
atacados pela estrutura de poder dos porcos. “O
sistema socialista eventualmente irá substituir o
sistema capitalista-racista; isto é uma lei objetiva
independente da vontade do homem.
Contudo, quanto mais reacionários tentam
girar para trás a roda da história, mais cedo ou mais
tarde, a revolução ocorrerá e inevitavelmente
triunfará” (Livro Vermelho).
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 131 |

O Black Panther Party está informando e


chamando todas as pessoas das comunidades por
todo o país para repudiar e denunciar as ações da
tentativa deste governo capitalista-racista em tentar
destruir o Black Panther Party que possui células e
unidades por toda a nação.
Repudiar, denunciar e destruir as mentiras dos
capitalistas e racistas, dos Nixons, dos Rockefellers e
todos seus porcos lacaios, até os nacionalistas
culturais e capitalistas negros lambedores de botas.
Eles são os verdadeiros conspiradores onde
vemos suas óbvias tentativas de destruir a liderança
revolucionária do Black Panther Party.
Eles, claro, tentam fazer isso através de
assassinatos, prisões, julgamentos injustos em
tribunais, forçando Eldridge Cleaver a se exilar e a
temporária prisão do Ministro de Defesa, Huey P.
Newton na California. Libertem Huey, a revolução é
aqui, nós, os povos do mundo, devemos libertar Huey
e todos os presos políticos porque se não fosse por
Huey P. Newton, os programas de café da manhã para
crianças antes da escola não se espalhariam por toda
a nação.
Se não fosse por Huey P. Newton a idéia de
remédios de graça e clínicas de saúde de graça não
estaria em processo de implementação.
Se não fosse por Huey P. Newton, o
ensinamento de que “não é uma luta de raças, mas
uma luta de classes” não começaria a ser entendido.
Se não fosse por Huey P. Newton, o programa e
plataforma de 10 pontos do Black Panther Party não
estaria em processo de ser implementado, os
programas práticos socialistas da nação negra estão
onde estão, onde mesmo outros grupos étnicos o
copiam, e os povos do mundo sabem que é deles e que
é seu direito.
|132 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Os 21 membros do Black Panther Party de New


York devem ser postos em liberdade assim como Huey
P. Newton também.
Eles e todos os outros presos políticos devem
receber o apoio do povo como uma resitência nacional
contra a estrutura de poder dos porcos que é
imperialista, capitalista e racista.
Uma campanha nacional está agora em
processo de ser realizada para em conjunto se
estabelecer “libertem os presos políticos pela luta
popular revolucionária”.
Os 21 Panteras de New York devem ser postos
em liberdade. Dinheiro para fiança é necessário para
os 21, Huey P. Newton e Eldridge Cleaver, e “os oito
conspiracionistas” de Chicago, com Bobby Seale,
presidente do Black Panther Party.
Doações devem ser enviadas para: Fundo de
Defesa Legal, Black Panther Party, box 1224.
Poder para todo o povo!
Poder pantera para a vanguarda!
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 133 |

Carta aberta a Ronald Reagan

Ronald Reagan, você é um tolo, o povo diz que


você é um tolo. Você tem de três a cinco mil pequenos
tolos andando por Berkeley com armas chamando você
de tolo.
Agora, como você vai lidar com isso? Havia
muitas pessoas que não acreditaram em mim (e você
ainda não) quando eu disse que dei uma aula do Livro
Vermelho com seus Guardas Nacionais. Eles me
disseram que ver era acreditar. Agora eles acreditam, e
quanto a você, Reagan? Seus próprios pequenos
fantoches estão sendo assombrados pelo conhecimento
do Livro Vermelho do Presidente Mao Tsé-tung. Veja,
Reagan, o Black Panther Party não irá permitir que você
nos engane e nos impeça de ensinar as massas do povo
os corretos princípios e ideologias da revolução. Mesmo
após terem recebido suas ordens fracas de espírito e
arrogantes, de não aceitar ler material do povo, bem, as
suas tropas ainda leem nossos jornais do Black Panther
Party e outros materiais. Quando seus próprios
pequenos fantoches chamam os Panteras Negras para
ensiná-los passagens do Livro Vermelho do Presidente
Mao Tsé-tung, se vê como que o imperialismo não
durará muito porque sempre faz coisas terríveis. Ele
persiste preparando e apoiando reacionários em todos
os países que são contra o povo, forçadamente tomou
muitas colônias e semicolônias, muitas bases militares,
e ameaça a paz com a guerra atômica. Assim, forçados
pelo imperialismo para fazer de tal modo, mais de 90%
do mundo está se levantando em luta contra o
imperialismo. Todavia, o imperialismo ainda está vivo,
ainda agindo solto na Ásia, África e América Latina.
|134 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

No Ocidente, o imperialismo ainda está


oprimindo o povo internamente. Esta situação deve
mudar. É a tarefa dos povos do mundo pôr um fim à
agressão e opressão perpetuada pelo imperialismo, com
o imperialismo norte-americano à frente. E se os grupos
monopolistas estadunidenses persistirem em continuar
suas políticas de agressão e guerra, o dia está fadado a
chegar quando eles forem enforcados pelos povos do
mundo. O mesmo destino espera os cúmplices dos
Estados Unidos. Então Reagan, minha última declaração
é um aviso, nosso Ministro de Defesa Huey P. Newton
diz que o espírito do povo é maior do que a tecnologia
do homem. E o Black Panther Party vai continuar
educando o povo negro na comunidade negra, os
hispano-americanos, os índios, chineses e
revolucionários da metrópole, e mesmo seus próprios
pequenos fantoches que andam pelas ruas em Berkeley
com armas, no Livro Vermelho do Presidente Mao, no
programa e plataforma do Partido, e na revolução
popular. Todo poder ao Povo!

Publicado no Black Panther, 31 de maio de


1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 135 |

Expurgo de Boston
A partir de 24 de maio de 1969, estes
oportunistas renegados, nacionalistas culturais não
são mais membros do Black Panther Party. A unidade
de Boston do Black Panther Party novamente aplicou a
disciplina do Partido e expurgou estes tolos das fileiras
do Partido pelas razões expostas abaixo:
1) falha em seguir os ensinamentos do Ministro
de Defesa, Huey P. Newton;
2) completo desprezo à disciplina do Partido;
3) subjetivismo;
4) oportunismo contra o povo;
5) propagar o delírio nacionalista cultural
dentro do Partido ao invés da luta de classes;
6) racismo;
7) individualismo.
Os seguintes nomem foram expurgados: Chico
Neblett, Marechal de campo; T.D.Pawley, Assistente do
Marechal de Campo; Delano Farrar, Capitão da região;
Frank Hughes, lt. de Informação; Karen Flippen, lt. de
Finanças; Kay Glaspy, Secretária de Comunicações;
Rene Neblett, Lt. de Cultura; Yazid Nzinga, líder de
célula; Mike Claytor, líder de subseção; Paula Firmin;
Les Wood; Monica Millet; Mike Grattan; Roger
Freeman; Bernadette Mount; Pamela Hayes; Maurice
Kalhman.
Em maio deste ano, vários enganadores
nacionalistas culturais liderados por Chico Neblett
tentaram minar a revolução do povo. Estes
contrarrevolucionários estúpidos tentaram ir contra
os ensinamentos do Ministro de Defesa e tomar a base
de Boston do Black Panther Party.
Eles falharam em sua tentativa e foram
expurgados do Partido. Chico entrou no Partido com o
|136 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

outro lambedor de botas, Stokely Carmichael, e desde


então, vem constantemente roubando o povo.
O seu carro Corvett de 1969, seu casaco de pele
e seu caro equipamento para a câmera podem provar
que Chico estava andando em círculos falando do que
chamava de pan-africanismo.
Tudo que realmente era, contudo, era um monte
de besteira para esconder o roubo do povo que vinha
fazendo. Indo contra os ensinamentos de Huey P.
Newton, Chico disse “foda-se o povo, foda-se o Partido,
e a completa e total libertação dos negros aqui nos EUA
fascista”. Todo poder ao Povo e aos membros
remanescentes do Black Panther Party de Boston!

Publicado no Black Panther


19 de junho de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 137 |

Colaboração entre Washington


e Moscou se intensifica

Logo antes e imediatamente após o Nixon ter


tomado posse, os renegados do Kremlin saíram do
seu caminho, para alisar e bajular o novo chefe do
imperialismo dos EUA.
Impacientes em estabelecer conexões com a
nova organização da classe monopolista americana,
se envolveram em uma diplomacia de grande escala
nos bastidores de Washington, New York e outras
cidades.
Eles inclusive enviaram uma delegação do que
chamaram de “líderes públicos” aos Estados Unidos
para “trocar opiniões sobre relações soviético-
americanas e uma gama de atuais problemas
internacionais”.
Tudo isto representa “esforços conjuntos...
para resolver os consumados problemas
internacionais” com o imperialismo de EUA. Mesmo
os jornalistas ocidentais se mostraram “surpresos”
pela ansiedade fervorosa da claque renegada
revisionista soviética em negociar com o
imperialismo na primeira oportunidade.
O jornal britânico Evening Standard publicou
a notícia de Washington de 29 de janeiro, dizendo:
“diplomatas soviético contataram membros da
equipe de Nixon em Nova York logo antes da
inauguração e conversas ocorreram com Henry
Kissinger, o conselheiro da Casa Branca em política
externa.
|138 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

E nos últimos dias, Georgi Zhukov, o


comentador político do Pravda... esteve em
Washington para conversas com membros chave do
Congresso”.
O jornal acrescenta: “o ritmo e a urgência das
abordagens soviéticas surpreenderam os
especialistas aqui”.
Ainda citou um oficial dos EUA: “É tão
promissor... nunca soube que estavam com tanta
pressa”.
A nauseante adulação do novo chefe do
imperialismo estadunidense pela camarilha dos
renegados revisionistas soviéticos e sua impaciência
para fraternizar com o imperialismo norte-
americano não são apenas uma nova exposição de
suas verdadeiras cores como renegados, mas uma
confissão de suas dificuldades e terríveis
dificuldades internas e no exterior.
O imperialismo americano aprecia bastante a
forma que os renegados revisionistas soviéticos
dançam à sua melodia. “U.S. News and World
Report”, um porta-voz do capital monopolista
estadunidense disse “o que está na agenda de Nixon
é a busca por melhores relações com a Rússia”.
Um dos importantes itens nos futuros acordos
globais contrarrevolucionários entre os EUA e a
URSS agora sob preparação é a dita limitação dos
mísseis nucleares.
Como um “presente” para Nixon no dia de sua
posse, a claque renegada revisionista soviética fez
uma “proposta” sobre esta questão para o porta-voz
do Departamento de Estado dos EUA, McClosey que
declarou que o imperialismo ‘está dando prioridade
ao problema das conversas iniciais’ com os
revisionistas soviéticos”.
O próprio Nixon deixou claro ainda em 27 de
janeiro em sua primeira conferência de imprensa
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 139 |

após assumir o cargo que as conversas sobre isso


eram apenas o começo de uma série de acordos
contrarrevolucionários globais entre os países.
Ele disse “o que eu quero fazer é com que
tenhamos negociações estratégicas sobre armas de
uma forma e em um momento que promoverão, o
progresso de problemas políticos pendentes”.
As agências de notícias ocidentais apontaram
que a declaração de Nixon demonstrou que estava
pronto para ter um “amplo diálogo” com os
revisionistas soviéticos e esperou que isto poderia
gradualmente levar a “esforços combinados” pelo
imperialismo norte-americano e o revisionismo
soviético “a uma escala nunca antes alcançada”.
Em sua conferência de imprensa de 6 de
fevereiro, Nixon indicou que os Estados Unidos
concordaram com a recente proposta colocada pelos
revisionistas soviéticos que os representantes dos
EUA, a URSS, Inglaterra e a França deveriam realizar
encontros nas Nações Unidas para discutir uma
assim chamada “solução política” para o problema no
Oriente Médio.
Ele afirmou que a “iniciativa” sobre o
problema “deve ser unilateral”. Isto significa que o
imperialismo quer que os quatro países façam “ações
conjuntas” para pressionar o povo árabe e os obrigar
a engolir uma fraudulenta “solução política”.
Nixon deixou a pista aos revisionistas
soviéticos que se eles quiserem firmar o acordo com
os Estados Unidos, na “limitação” da corrida de
mísseis, devem colaborar no que tange a questão do
Oriente Médio, devem se juntar aos estadunidenses
para sufocar a luta do povo árabe e a luta armada do
povo palestino em particular.
Em resposta ao chamado de Nixon por uma
“sociedade aberta”, os revisionistas soviéticos
garantiram permissão às linhas aéreas nacionais
|140 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

ultramarinas norte-americanas de operarem 20 voos


fretados entre Nova York e Leningrado em 1969, a
partir de março.
Cada voo irá trazer 200 “turistas” norte-
americanos para a União Soviética para disseminar
fétida influência burguesa entre o povo soviético. De
sua parte, o revisionismo soviético enviou delegação
atrás de delegação para os Estados Unidos em
“troca”.
Também é tranquilamente acordado enviar
um “observador” para uma conferência sobre o
“sistema de comunicação via satélite” em
Washington este mês.
Isto significa que os revisionistas soviéticos
irão se juntar aos imperialistas norte-americanos
nas sujas atividades de coletarem informação.
Durante esta intensificada colaboração, o
jornal “U.S. News and World Report”, divulgou o
objetivo criminoso do imperialismo e do
revisionismo soviético, os mais ferozes inimigos dos
povos revolucionários do mundo, que estão
colaborando e lutando entre eles em seus esforços de
redividir o mundo entre si.
Lá se diz: “o que o Kremlin quer do Sr. Nixon é
um acordo de que os EUA e a Rússia deveriam se
juntar e dividir o mundo em esferas de influência e
interesse, com algumas poucas ‘terras de ninguém’
abertas para serem apanhadas”.
Quanto mais o imperialismo e o revisionismo
soviético intensificam seu conluio, mais irão revelar
seus aspectos ferozes diante dos povos do mundo e
rapidamente irão para a sua desgraça.

publicado no Black Panther


19 de junho de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 141 |

Carta Aberta a Stokely Carmichael


Eldridge Cleaver

A Stokely Carmichael – Conakry, Guiné: sua


carta de renúncia ao cargo de Primeiro-Ministro do
Black Panther Party veio, penso eu, com um ano de
atraso. Na verdade, desde o dia da sua nomeação a
essa posição – 17 de fevereiro de 1968 –, os eventos
provaram que você não era apto para a função, em
primeiro lugar. Mesmo nessa época era claro que sua
posição sobre a coalizão com organizações
revolucionárias brancas estava em conflito com a do
Black Panther Party. Mas pensamos que, naquela
época, até você seria capaz de acabar com a paranoia
da SNCC sobre controle branco e seguir para a tarefa
de construir a maquinaria revolucionária que
precisamos nos Estados Unidos a fim de unir todas as
forças revolucionárias do país para derrubar o
sistema do capitalismo, imperialismo e racismo.
Eu sei que esses termos são jogados por aí
como corpos sem vida e que é fácil permitir as
terríveis realidades por trás deles sejam obscurecidas
pela frequente repetição. Mas quando você vê a
miséria da qual o povo vive como resultado das
políticas dos exploradores, quando você vê os efeitos
da exploração nos corpos desnutridos das crianças,
quando você vê a fome e o desespero, então esses
termos vêm à tona de uma nova maneira.
Já que você mesmo fez essa viagem e viu tudo
com seus olhos, você deveria saber que o sofrimento
não vê cor, que as vítimas do imperialismo, racismo,
colonialismo e neocolonialismo vem de todas as cores,
e que estas vítimas precisam de uma unidade baseada
nos princípios revolucionários ao invés da cor de pele.
|142 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

As outras acusações que você faz em sua carta


– sobre a nossa nova ideologia, nosso dogmatismo,
nossa pressão pelas armas, etc. – me parecem de
importância secundária porque, com exceção, talvez,
do ilustre Elijah Muhammad, você é a pessoa mais
dogmática hoje, e eu nunca vi você se opor à pressão
pelas armas ou qualquer coisa. De várias maneiras, a
sua carta me atingiu e refez as acusações contra o
Partido lançadas pelos lambedores de botas diante do
Comitê de McClellan. E já que você escolheu este
momento para denunciar o Partido, nós – e tenho
certeza que muitos de fora do Partido – deve olhar
para a sua carta sob esse prisma. O único ponto da sua
carta onde eu penso que realmente é você é o ponto
sobre a coalizão com os brancos, porque foi o ponto
sob o qual nossas diferenças se voltavam desde o
início.
Você nunca foi capaz de distinguir a história do
Black Panther Party da história da organização que
por um tempo foi presidente – o Comitê de
Coordenação Estudantil Não-Violenta (SNCC). É
compreensível que você tenha todo esse medo de
organização negras ser controladas, ou parcialmente
controladas, por brancos, porque a maior parte de
seus anos na SNCC foram gastos precisamente sob
estas condições. Porque nós nunca tivemos que tomar
o controle da nossa organização das mãos dos
brancos, nunca nos abalamos com o tipo de medo
paranóico que foi desenvolvido por vocês na SNCC.
Portanto, nós somos capazes de sentar com os
brancos e forjar soluções para nossos problemas
comuns sem tremer nas botas se seremos ou não
controlados no processo. Sempre me pareceu que
você deprecia a inteligência dos irmãos e irmãs
negros e negras quando constantemente os avisa para
terem cuidado com os brancos. Afinal, você não é o
único negro na Babilônia que foi vítima do racismo
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 143 |

branco. Mas você soa como se estivesse com medo dos


brancos, como se estivesse fugindo de apanhadores
de escravos, que vão por suas mãos sobre seu corpo e
te jogar em um saco.
Na verdade, foi precisamente a sua exposição
nebulosa do Black Power que forneceu à estrutura de
poder uma nova arma contra o nosso povo. O Black
Panther Party tentou dar a você uma chance de
resgatar o Black Power dos porcos que se apoderaram
dele e o transformaram na base para o Capitalismo
Negro. Com James Farner na gestão de Nixon para
presidir a implementação do Capitalismo Negro sob a
palavra de ordem do Black Power, qual valor tem tal
palavra de ordem agora na nossa luta popular por
libertação? O melhor que você pode fazer para
combater este mal é denunciar o Black Panther Party?
Eu pensaria que a sua responsabilidade vai um pouco
mais além disso. Mesmo que você estivesse certo
quando disse que Lyndon Johnson nunca levantaria a
palavra de ordem do Black Power, o Nixon o fez e está
o financiando com milhões de dólares. Então agora,
seus velhos amigos do Black Power estão lucrando
com a sua palavra de ordem. Efetivamente, seu grito
por Black Power se tornou o lubrificante para integrar
a burguesia negra na estrutura de poder. Ao dar a você
a posição de Primeiro-Ministro do Partido, estávamos
tentando te socorrer da burguesia negra que havia se
apegado a você e montado em ti como uma mula.
Agora roubaram a sua bola e foram marcar um
touchdown: seis pontos para Richard Milhous Nixon.
Em fevereiro de 1968, no protesto pela
libertação de Huey em seu aniversário, onde você fez
seu primeiro discurso público após seu retorno aos
Estados Unidos, de sua triunfante viagem aos países
revolucionários do Terceiro Mundo, você usou a
ocasião para denunciar a coalizão que o Black Panther
Party havia feito com os brancos do Peace and
|144 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Freedom Party. Ao invés disso você chamou por uma


Frente Única Negra que uniria todas as forças da
comunidade negra da direita à esquerda, cerraria
fileiras contra os brancos e todos pulariam para a
liberdade. Dentro das fileiras da sua Frente Única
Negra, você queria incluir os nacionalistas culturais,
os capitalistas negros, e os Tio Toms profissionais,
mesmo que foram precisamente estes grupos que
tentaram acabar com suas coisas mesmo antes de ter
implodido (lembra do que Ron Karenga fez para a sua
reunião em Los Angeles?).
Você tinha grandes sonhos nesses dias, Stokely,
e as suas visões, no superficial, eram heróicas. No
conteúdo, quando se tratava dos detalhes da
realidade, você se cegou. Você era incapaz de
distinguir seus amigos de seus inimigos porque tudo
que você podia ver era a cor de pele das pessoas. Foi
a cegueira que o levou a defender Adam Clayton
Powell, aquele lacaio do Harlem, quando ele esteve
sob ataque dos seus colegas lacaios no Congresso. E
foi essa cegueira que o levou à defesa aquele policial
negro em Washington DC que estava sendo fodido
pelos brancos que eram seus chefes no Departamento
de Polícia quando patrulhava com armas a
comunidade negra. Em suma, seu costume de olhar
para o mundo com óculos que só veem a cor, o levaria,
no âmbito interno, a cerrar fileiras com inimigos do
povo negro como James Farmer, Whitney Young, Roy
Wilkins e Ron Karenga; e no âmbito internacional,
você terminaria no mesmo saco com Papa Doc
Duvalier, Joseph Mobutu e Haile Selassie. Sim, somos
contra esta merda e agora somos contra mais ainda,
principalmente desde que a gerência de Nixon roubou
seu programa e, penso eu, te excluiu. E agora você está
indo libertar a África! Por onde vai começar? Gana?
Congo? Biafra? Angola? Moçambique? África do Sul?
Se você não sabe disso, penso que deveria saber que
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 145 |

irmãos da África que estão envolvidos na luta armada


contra os colonialistas não gostariam de nada menos
do que você arrumar a sua mala cheia de souvenirs
africanos e voltar a Babilônia. Nunca se esqueceram
do monte de lixo que você falou em Dar-es-Salaam
quando você presumiu dizer a eles como conduzir
suas coisas. Me parece agora que você está preso
entre os extremos da sua própria retórica. Por um
lado, você se removeu da luta na Babilônia, e por
outro, você não irá se converter no Redentor da Mãe
África.
Os inimigos do povo negro aprenderam algo
com a história mesmo que você não tenha aprendido,
e estão descobrindo novas formas de nos dividir mais
rápido do que nós estamos descobrindo novas formas
de nos unir. Uma coisa eles sabem, e nós sabemos, que
isto parece ser ignorado por você, é que não haverá
nenhuma revolução ou libertação negra nos Estados
Unidos enquanto os revolucionários brancos, negros,
mexicanos, portorriquenhos, indígenas, chineses e
esquimós não estiverem dispostos ou capazes de se
unir em uma máquina eficaz que possa lidar com a
situação. Suas falas e medos sobre coalizão prematura
são absurdas, porque nenhuma coalizão contra a
opressão por forças que possuem integridade
revolucionária jamais pode ser prematura. Caso seja
algo, é atrasada, porque as forças da contrarrevolução
estão varrendo o mundo, e isso acontece
precisamente porque no passado a unidade ocorreu
sob uma base que promove a desunião entre as raças
e ignora princípios e análises revolucionárias básicas.
Você está irritado porque o Black Panther
Party se norteia com os princípios revolucionários do
marxismo-leninismo, mas se você observar pelo
mundo, você verá que os únicos países que se
libertaram e conseguiram se opor à onda da
contrarrevolução são precisamente os países que
|146 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

possuem fortes partidos marxista-leninistas. Todos os


países que lutaram por libertação unicamente na base
do nacionalismo, foram vítimas do capitalismo e do
neocolonialismo, e em muitos casos se encontram sob
tiranias tão opressoras quanto os antigos regimes
coloniais.
Que você não sabe nada sobre o processo
revolucionário é evidente; que sabe menos ainda
sobre os Estados Unidos e seu povo é mais evidente; e
que você nada sabe sobre a humanidade do que sobre
o resto é ainda mais evidente. Você fala de um “amor
imperecível pelo povo negro”. Um amor imperecível
pelo povo negro que nega a humanidade de outros
povos está condenado. Foi o amor imperecível dos
povos brancos entre eles mesmos que os levou a negar
a humanidade dos povos de cor e que despojou os
próprios brancos de humanidade. Para mim,
pareceria que um amor imperecível pelo nosso povo,
pelo menos, o levaria a uma estratégia que ajudaria a
nossa luta por libertação ao invés de o levar a uma
coalizão com o Comitê McClellan em sua tentativa de
destruir o Black Panther Party.
Então, até logo, Stokely, se cuide. E tome
cuidado com os brancos e com alguns negros, porque
eu garanto que alguns de ambos têm dentes e irão
morder. Lembre-se do que o irmão Malcolm disse em
sua autobigrafia:
“Nós tínhamos a melhor organização que o
homem preto já teve nos Estados Unidos – e os negros
a arruinaram!”.
Poder ao povo!

Eldridge Cleaver, Ministro de Informação


julho de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 147 |

Mensagem às mulheres
revolucionárias
Candi Robinson

Mulheres negras! Mulheres negras, levantai a


cabeça e olhai para frente. Nós também somos
necessárias à revolução.
Irmãs, eduquemos nosso povo.
Combater o liberalismo e combater o machismo.
Despertar nossos homens para o fato de que somos nem
mais nem menos. Somos tão revolucionárias quanto
eles. Durante muito tempo temos estado sozinhas.
Durante muito tempo temos sido mulheres sem
homens, durante muito tempo temos sido duplamente
oprimidas, não somente pela sociedade capitalista, mas
também pelos homens. Agora já não estamos mais sós,
nossos homens estão junto a nós. Nós, mulheres e
homens revolucionários, somos um a metade do outro.
Devemos continuar educando nossos homens, e
conduzir suas mentes desde o nível machista a um nível
superior. Nossos homens precisam, querem e amam
seus filhos, que saem dos nossos úteros férteis.
Necessitam da nossa confiança e nosso ânimo tanto
quanto precisamos dos deles. Precisam de nós para
educar a eles, ao povo e a nossos filhos tanto quanto nós
mulheres precisamos deles para nos educar. Irmãs,
somos chamadas pela própria vida. Somos chamadas
pela revolução. Somos mães de revolucionários,
conosco está o futuro de nosso povo. Nós, minhas irmãs,
somos as mães da revolução e dentro de nossos úteros
está o exército do povo. Irmãs! A revolução está aqui!
Que surja o exército! Que surjam os fuzis!
Nós, irmãs, somos mulheres revolucionárias de
homens revolucionários! Somos as mães da revolução!
|148 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

publicado no Black Panther


9 de agosto de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 149 |

Uma carta a minha esposa


Bobby Seale
Artie, minha esposa, pelo semblante em seu rosto
no tribunal outro dia, tornou-se uma revolucionária
profissional no Black Panther Party. Não se preocupe. O
Partido irá cuidar de suas necessidades como você
aprendeu. E é claro que eu sei, querida, que você
entende como a estrutura de poder fascista federal dos
EUA pode conspirar contra nós, os revolucionários. Mas
quando aprendemos como não ser individualistas, de
repente queremos salvar todo povo. Eu sei que você já
se decidiu que irá trabalhar com o Partido para me
libertar. Mas lembre-se de quando aconteceu com o
Huey. Eu me decidi trabalhar duro para libertar Huey; e
tudo isso nada mais é do que trabalhar para libertar
nosso povo. Artie, lembra de Charles, Landon, Rory,
Ericka? Todos eles serviram ao povo. Se você nunca se
lembrar de nada, lembre disso: Sirva o povo, porque
morrer pelos exploradores imperialistas e capitalistas
pesa menos do que uma pena; mas morrer pelo povo
pesa mais do que o Monte Tai. Em nosso trabalho duro,
lembre-se que se baseia em prezar pelo bem das
massas. Se você lembrar de servir ao povo, você vai se
lembrar da necessidade de libertar todos nossos irmãos
e irmãs que são presos políticos. Artie, querida, leia isso
cuidadosamente: Proletariado significa classe operária.
A classe operária são todas as massas que produzem
toda a riqueza da terra. Mas essa riqueza que deveriam
ter é explorada pela atual classe dominante burguesa. É
por isso que é tão difícil para as pobres massas trabalhar
para viver. Querida, eu sugiro que você termine esse
livro verdo que eu te dei. Então estude mais, e depois
aprenda os princípios revolucionários do Partido que
você puder e realmente saia e os aplique. Se eu não
estou apaixonado por você por ter visto algo em seu
|150 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

rosto no outro dia que dizia que você era uma


revolucionária, então algo está errado. Começando
agora, Artie, uma forma que você pode realmente servir
às massas é aprender tão bem a Petição de Controle da
Comunidade sobre a Polícia que você pode dar aulas de
orientação. Aprender como essa petição é uma base real
para organizar ação revolucionária entre as massas,
para que o proletariado possa tomar o poder do Estado.
E Malik, e os filhos de David e June a juventude dos
trabalhadores possam ajudar a construir um sistema
socialista que sirva o povo. Artie, eu espero que você não
seja individualista guardando essa carta. Eu sei que você
está a lendo para outros membros do Partido. Eu sei que
nosso filho de 3 anos não pode ler, mas leia para ele.
Artie, diga a Huey, Big Man, John, David, Masai, Emory,
Marsha, June, Ericka, Landon, Charles, Shelly, Shirley,
Rosemary, Bobby, Fred, Bay, Rory, Eldridge, Kathleen e
aos membros do Partido que entrou. Eu os amo porque
eles são revolucionários, e é por isso que eu te amo, ok?
O que Malik está fazendo? O ensine a servir ao povo
através de seus exemplos, Artie.Poder ao Povo!

Carta de Bobby Seale na prisão Agosto de


1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 151 |

É uma luta de classes, porra!


Fred Hampton
O que nós vamos tentar, é que vamos tentar
praguejar e educar. Nós estamos felizes de tentar
acrescentar mais alguma informação. E isso será algo
difícil de fazer. A irmã fez um belo discurso até onde eu
sei. Chaka, o Vice-Ministro de Informação, esse é seu
trabalho – informação. Mas eu vou tentar informar vocês
também. Uma coisa que Chaka se esqueceu de informar:
que irmãos e irmãs não fazem exatamente o mesmo. Nós
não pedimos a qualquer irmão para engravidar ou coisa
assim. Não pedimos a nenhum dos irmãos para que
tenham bebês. Então isso é um pouco diferente também.
Depois que nós terminarmos de falar, para aquelas
pessoas entre vocês que não acham que entenderam toda
a ideologia exposta aqui até então, e as ideologias que irei
expor, nós teremos uma sessão de perguntas e respostas.
Para aquelas pessoas que têm seus sentimentos feridos
por negros falando sobre armas, nós teremos sessão de
choro depois da sessão de perguntas e respostas. E para
aquelas pessoas brancas que estão aqui para mostrar
algum tipo de grande manifestação de síndrome de culpa,
e querem que as pessoas clamem seu amor por elas
depois da sessão de choro, se nós tivermos tempo, nós
permitiremos a todos vocês ter uma sessão de amor.
Então agora vamos ao que interessa. Em primeiro lugar,
sobre o que algumas pessoas chamam de julgamento.
Nós o chamamos uma hecatombe, nós o chamamos uma
hecatombe. Que se soletra h-e-c-a-t-o-m-b-e. E eu sei que
há dicionários suficientes circulando por aqui que
provavelmente encheriam toda a sala, então vocês
podem conferir isso. Isso significa um sacrifício. Isso
geralmente significa um sacrifício de um animal. Então
gostaríamos que vocês, se vocês viessem a gostar de fazê-
lo, se as pessoas perguntarem: “vocês já estiveram no
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julgamento”, contem que vocês viram ou ouviram sobre


a hecatombe, porque é isso que ele é. É um sacrifício
público. É uma situação onde estão julgando
injustamente, julgam ilegalmente nosso presidente.
Nós encaramos isso como manifestação de 1969
da Decisão de Dred Scott. 1 Nós olhamos para o
Presidente Bobby como sendo a manifestação de Dred
Scott de 1857. E nós olhamos para o Juiz Hoffman como
sendo uma manifestação do Juiz Taney em 1857. Porque
em 1857 Dred Scott era negro, um ex-escravo – um
escravo, porque nós somos escravos – que foi à corte e
evidentemente teve ume mal-entendido sobre o que ele
era na sociedade americana, onde se encaixava.
Então ele foi à Suprema Corte para que o juiz
Taney respondesse a ele e tentando esclarecer algumas
ideias equivocadas que tivera rodando em volta de sua
velha cabeça. E o juiz Taney fez exatamente isso.
O juiz explicou muito claramente que, “negro,
você não é ninguém, você é uma propriedade, você é um
escravo. Que os sistemas – sistema legal, sistema judicial
– todos os tipos de sistemas que operam na América hoje
foram estabelecidos muito antes de você chegar aqui,
irmão. Porque nós aliciamos você para ganhar dinheiro
para manter o que nós temos em funcionamento, esses
avarentos, gananciosos homens de negócios, para
manter o que nós temos funcionando, e funcionando”.

1. O Caso Dred Scott (também conhecido por Dred Scott vs. Sandford ou Decisão Dred
Scott, sob registro 60 U.S. 393) é o nome pelo qual ficou conhecida uma decisão da
Suprema Corte dos Estados Unidos de 1857, que sentenciou que as pessoas de
ascendência africana, importadas para o país e mantidas como escravas, ou os seus
descendentes, quer fossem ou não escravos, não estavam protegidos pela Constituição
e nunca poderiam se tornar cidadãos daquele país. Também decidiu que o Congresso
não tinha autoridade para proibir a escravidão nos então territórios federais da União.
O tribunal também declarou que, como escravos não eram cidadãos, não poderiam
requerer em tribunais. Finalmente, a decisão estabeleceu que os escravos - assim como
os bens móveis ou propriedade imóvel privada – não poderiam ser retirados de seus
donos sem o devido processo legal. A decisão prolatada foi redigida pelo Chefe de Justiça
de então, Roger B. Taney.
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E Dred Scott não conseguiu entender isso. Houve


uma grande rejeição. E naquela época, o juiz Taney fez
uma declaração que se tornou famosa. E a declaração,
talvez não nas mesmas palavras; mas através de ações e
através de prática social, está sendo manifesta agora no
novo Edifício Reigstag em Jackson e Dearborn. Está se
manifestando através do juiz Hoffman dizendo a mesma
coisa que o juiz Taney disse em 1857. Quando ele contou
a Dred Scott que “negro, um homem preto na América
não possui nenhum direito que um homem branco seja
obrigado a respeitar”. E essa é a mesma coisa que o juiz
Hoffman está contando a nosso presidente todo o dia. E
nós entendemos. Vocês sabem, muitas pessoas se irritam
com o Partido porque fala sobre a luta de classes.
E as pessoas que se irritam com isso são
oportunistas, covardes e individualistas e tudo que são é
qualquer coisa menos revolucionários. E usam essas
coisas como desculpas para justificar e invocar um álibi e
para bonificar sua falta de participação na luta
revolucionária real. Então dizem, “bem, eu não posso
entrar no Black Panther Party porque os Panteras estão
ocupados em trabalhar com radicais do país opressor, ou
brancas, ou bonitões ou o que quer que seja. Eles dissem
que isso são algumas das desculpas que eu uso para
negar realmente porque não estou na luta”.
Nós temos respostas para essas pessoas.
Primeiramente, nós dizemos que a prioridade dessa luta
é a classe. Que Marx e Lenin, Che e Mao Tsé-tung e todo o
resto que já disseram ou conheceu ou praticou alguma
coisa sobre revolução, sempre disse que a revolução é
uma luta de classes. Havia uma classe – a oprimida – e
aquela outra classe – a opressora. E isso tem de ser um
fato universal. Aqueles que não admitem isso são aqueles
que não querem se envolver na revolução, porque sabem
que enquanto estão lidando com coisas raciais, nunca
estarão envolvidos na revolução. Eles podem falar sobre
números, podem pendurar você em muitos, muitos
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meios, mas assim que você começar a falar sobre classe,


então você tem que começar a falar de armas. E isso é o
que o Partido tinha que fazer.
Quando o Partido começou a falar sobre luta de
classes, nós achamos que tínhamos que falar sobre
algumas armas. Se nós nunca negamos o fato de que
havia racismo na América, mas dissemos que quando
você, o subproduto, o que sai do racismo, que o
capitalismo vem primeiro e depois vem o racismo. Que
quando eles trouxeram escravos até aqui, o fizeram para
ganhar dinheiro. Então a primeira ideia a surgir foi que
nós queremos ganhar dinheiro, então os escravos vieram
com o objetivo de gerar aquele dinheiro. Isso significa
que, através de um fato histórico, o racismo tinha que vir
do capitalismo. Tinha que ser o capitalismo primeiro e o
racismo foi um subproduto daquilo.Qualquer um que não
admita que está mostrando através da sua não admissão
e da sua não participação na luta, são pessoas que falham
em estabelecer um compromisso; e a única coisa que
procuram conseguir para eles é a educação que recebem
nessas instituições – educação o suficiente para ensiná-
los alguns álibis e ensiná-los que você tem que ser negro,
e você tem que mudar o seu nome. E isso é maluco.
O ministro da educação do Partido, Raymond
“Masai” Hewitt, e o Chefe de Gabinete, David Hilliard, há
pouco voltaram da África visitando Eldridge Cleaver. E
disseram que os negros lá nunca usarão o tipo de traje
que alguns desses tolos africanizados usam por aqui. Eles
estão usando andrajos ou senão usando nada. E se vocês
querem se vestir como algumas pessoas africanas, então
vocês têm que se vestir como os angolanos ou o povo do
Moçambique. Esses são povos que estão fazendo alguma
coisa. Vocês precisam se vestir como os povos que estão
em lutas de libertação. Mas não, vocês não querem se
tornar africanizados assim, porque assim que vocês se
vestirem como alguém de Angola ou Moçambique, então
depois de vocês vestirem o que quer seja que vistam, e
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 155 |

isso pode ser qualquer coisa dos mal trapilhos a alguma


coisa da quinta Avenida Saks, vocês têm que colocar
algumas bandoleiras e algumas AR-15 e alguns 38; vocês
têm de vestir algumas Smith and Wessons e algumas
Colts 45, porque é isso que estão usando em
Moçambique. E qualquer negro por aqui dizendo para
vocês que quando o seu cabelo está longo e vocês estão
vestindo um dashiki, e vocês tem bubus e todas essas
sandálias, e todas essas formas de ação, então vocês são
revolucionários, e qualquer um que não pareça com
vocês, não o é – aquele homem tem de sair de sua cabeça.
Porque sabemos que o poder não flui da manga de
um dashiki. Nós sabemos que o poder político nasce da
ponta do fuzil. E isso é verdade. E isso tem que ser
verdade. Nós sabemos que para sermos capazes de falar
sobre o poder, que o que você tem de ser capaz de falar
sobre é a habilidade de controlar e definir o fenômeno e
fazê-lo agir de maneira desejada. Isso significa que se
você não consegue controlar e definir um fenômeno e
fazê-lo agir da maneira desejada, então você não tem
mesmo quaisquer relações com o poder, você não sabe o
que o poder é. E nós sabemos o que o poder é, e quem
está fazendo mal ao povo – o inimigo.
E todo mundo quer falar sobre... os costeletas de
porco contarão a você em um minuto. “Os porcos não
querem que você fique negro. Eles não querem você
tenha nenhum dos programas de estudos negros. Eles
não querem que você use dashikis. Não querem que você
aprenda sobre a terra natal e quais raízes comer do solo.
Eles não querem isso porque assim que você tiver isso,
assim que você voltar à cultura do século XI, você ficará
bem”. Confira as pessoas que voltaram à cultura do
século XI. Confira as pessoas que estão usando dashikis e
bubus e pense que isso vai libertá-las. Confira todas essas
pessoas, perceba onde estão localizadas, encontre os
endereços dos seus escritórios, escreva-as uma carta e
pergunte-as se no ano passado quantas vezes o escritório
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delas foi atacado. E então escreva a qualquer Black


Panther Party, em qualquer lugar dos Estados Unidos,
qualquer um na Babilônia, e pergunte-os como muitas
vezes os porcos a atacaram. Então você vai fazer sua
estimativa de ambos, e descobrirá do que os porcos não
gostam. É nesse momento que você descobre do que os
porcos não gostam.
Nós fomos atacados três vezes desde junho. Nós
sabemos do que os porcos não gostam. Temos pessoas
fugindo do país às centenas. Nosso Ministro da defesa
está na cadeia, nosso Presidente está na cadeia, nosso
Ministro da Informação está exilado, nosso Tesoureiro, o
primeiro membro do Partido, está morto. O Vice-
Ministro da Defesa e Vice-Ministro da Informação,
Bunchy Carter, e John Huggins do Sul da Califórnia,
assassinados por costeletas de porco, falando sobre um
programa BSU. Sabemos do que os porcos não gostam.
Nós dissemos que ninguém atiraria em um Pantera
exceto um porco, porque os Panteras não colocam em
risco a ninguém exceto os porcos. E se as pessoas
disserem a vocês que os Panteras representam ameaças,
então as pergunte que tipo de sentido isso poderia ter, a
não ser que seja acordar às 5 da manhã para alimentar o
filho de alguém e então às 3 da tarde pegar uma refeição.
Nós não precisamos fazer isso. Que sentido isso faz para
nós abrir uma clínica gratuita onde o único pré-requisito
para receber atendimento médico de graça é que você
esteja doente. E nós temos estudantes que estão
dançando por aí, falando sobre estarem fazendo algo pela
luta, e eu quero saber o que mais vocês podem fazer? E
vocês eu digo todas pessoas de Chicago. As pessoas estão
falando sobre o Partido ter sido cooptado por gente
branca. Isso é o que aquele mini-fascista, Stokely
Carmichael disse. Ele não é nada mais que um boçal. Até
onde eu sei, é um boçal, porque eu venho conhecendo ele
faz anos, e isso é tudo que ele pode ser, se seguir por aí
atacando o Black Panther Party.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 157 |

Se nós estamos cooptados por gente branca, então


confira as localizações dos nossos escritórios, nosso
programa de café da manhã, nossa clínica de saúde
gratuita será aberta provavelmente este domingo na 16ª
com a Springfield. Alguém não sabe onde a 16ª com
Springfield fica? Não fica em Winnetka, você entende.
Não fica em Dekalb, fica na Babilônia. Fica no coração da
Babilônia, irmãos e irmãs.
E aquela clínica gratuita foi colocada lá porque
sabemos onde está o problema. Nós sabemos que o povo
negro é o mais oprimido. E se nós não soubéssemos disso,
então porque diabos andamos por aí falando sobre a luta
de libertação negra ser a vanguarda para a libertação de
todas as lutas? Se houver algum dia qualquer libertação
na terra natal, se houver qualquer libertação na colônia,
então nós seremos libertados pela liderança do Black
Panther Party e a luta de libertação negra. Nós não
negamos esse fato. Nós não estamos ligados a ninguém
que não seja um Pantera. Nós queremos deixar vocês
pensando isso, porque nós podemos estar com Fred, eu
quero dizer Everett, nós podemos estar com ele. Mas nós
não podemos estar com Ron Karenga e LeRoi Jones. Nós
não podemos. Nós não conseguimos ver nenhuma
prática social da parte deles, irmãos. Nós sabemos que
ambos possuem nomes mais longos que o meu braço. E
ambos supõem ser tão inteligentes e tão espertos. E esse
é o problema agora mesmo.
Nós estamos falando sobre a destruição do
sistema, e eles têm medo de fazê-lo porque estão
comprando constantemente propriedades dentro do
sistema. E é meio difícil queimar na terça o que você
comprou na segunda. Porque eles são um bando de
capitalistas impenitentes. Eles nunca se arrependerão. E
sabem disso melhor. Nós tentamos criar desculpas para
eles – “talvez eles tenham de passar por etapas, Fred”.
Não, não é assim. Porque são muito mais velhos que nós
somos. Eu estou com 21. Nós somos todos jovens. Então
|158 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

sobre etapas, eles não chegaram através delas. Ron


Karenga tem mais graus do que um termômetro. Está
certo, ele tem mais graus do que um termômetro e
continua a fazer o que está fazendo. E como eles enganam
vocês? Porque pegam os líderes que eles querem. E
elevam essas pessoas e as pintam como seus líderes, mas
de fato, não são líderes de ninguém. Nós chamamos de
apologistas oprimidos. Porque depois de alguma coisa
acontecer, todos podem se desculpar por isso. Olhe nos
jornais. Agora eles estão desenhando imagens do
Presidente acorrentado e amordaçado. Você não sabe
que se as notícias da mídia, a imprensa oficial, se
movessem antes disso, que poderiam ter parado o
surgimento da maré fascista anos atrás. Mas endossaram,
se uniram, apoiaram o que os fascistas estavam fazendo
naquele momento. E agora isso está se acumulando sobre
todo o povo. E um monte de pessoas pensa agora que
suas mãos estão ficando sujas. Nós as chamamos de
servos ideológicos do fascismo dos Estados Unidos. E é
isso o que são, porque servem ao fascismo ao não fazer
nada a respeito até que a lei recaia sobre eles e então se
desculparem por isso, se tornam apologéticos. Mas nós
dizemos que esta é a mesma imprensa que olhará e
acreditará e pensará que é genuíno; a mesma imprensa
que nos falou para acreditar que éramos alguém quando
de fato não éramos ninguém.
Eu penso que não há nada mais importante. Eu
penso que o que Malcolm diz é importante. Agora
repensem. Aqueles estudantes estavam rindo de
Malcolm. Vocês sacaram? Eles estavam rindo de
Malcolm. Por quê? Regis Debray diz que os
revolucionários estão no futuro. Aqueles militantes e
costeletas de porco e todas essas pessoas, estudantes
radicais, estão no presente, e que a maioria do resto das
pessoas tenta permanecer no passado. É por isso que
quando surge alguém que está no futuro muitos de nós
não conseguem entendê-lo. E a mesma coisa que vocês
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 159 |

não compreendem em Huey P. Newton agora, vocês não


entenderam em Malcolm quando ele estava vivo. Mas
sabemos que quando Malcolm se foi, o poço quase secou.
Vocês não sentem a falta da água até o poço secar, e ele
quase secou.
Huey P. Newton tem leitura, e não é como muitos
de nós. Muitos de nós lemos e lemos e lemos, mas não
temos nenhuma prática. Nós temos um monte de
conhecimento em nossas mãos, mas nunca o praticamos;
e cometemos quaisquer erros e corrigimos aqueles erros
para que nos tornemos capazes de fazer alguma coisa
propriamente. Então nos parecemos, como dizemos, com
mais graus do que um termômetro, mas nós não somos
capazes de cruzar a rua e mascar chiclete ao mesmo
tempo, porque temos todo aquele conhecimento, mas
que nunca foi exercitado, nunca foi praticado. Nós nunca
testamos como é que realmente funciona. Nós o
chamamos isso de testá-lo com a realidade objetiva.
Vocês devem ter qualquer tipo de pensamento em sua
mente, mas têm de testar com o que está lá fora. Vocês
veem o que eu quero dizer? Eles nos falam em comprar
barras de doce e jogar o doce fora e comer o papelão. Eles
são as únicas pessoas no mundo, vocês compreendem,
isso mesmo, que podem vender caixas de gelo para
esquimós. Podem vender perucas naturais para negros
que já tem cabelo natural. E vejam, essa é a vergonha. Eles
conseguem vender para um homem de só uma perna
provavelmente 24 bilhetes para um concurso de chutar o
traseiro, que sabe que não tem nada com aquilo. Vejam,
essa são as coisas que podem fazer por nós e então nos
mantêm acreditando que o que estão dizendo é certo, que
é genuíno, que é justificado. Nós dizemos que isso é
errado, que é incorreto, que Malcolm, quando falou para
os estudantes, e vocês provavelmente escutaram aquela
gravação, fala a alguns judeus, algumas pessoas lisas, e
contou a elas.
|160 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Vocês podem dizer, “bem, da forma como me


sinto, as pessoas deveriam ser capazes de andar por aí
nuas porque estupro é amor”. Isso é idealismo. Veem o
que eu digo? Vocês estão lidando com metafísica. Estão
lidando com subjetividade, porque não a estão testando
com a realidade objetiva. E o que está realmente errado é
que vocês não testam. Porque se vocês testarem, vocês
vão chegar à objetividade. Porque tão logo vocês andem
lá fora, um grande monte de realidade objetiva vomitará
sobre os seus traseiros e o violará com o que quer que
vocês tenham. Então sempre que isso acontece, é quando
as pessoas chegam a um monte de ideias erradas. É por
causa disso que muitos de vocês não conseguem
entender e concordar com um monte de coisas que nós
dizemos. Vocês nunca o tentaram.
Vocês não sabem se as pessoas apoiam o
programa de café da manhã, porque vocês nunca
alimentaram ninguém. Vocês não sabem nada sobre as
clínicas de saúde gratuitas porque nunca perguntaram a
ninguém. Vocês não sabem nada sobre o bem que uma
arma faz a vocês, porque vocês nunca experimentaram
uma. E nós dizemos que se nasceram e dizem que não
gostam de peras e nunca as provaram, vocês têm que ser
uns mentirosos. Vocês não sabem se gostam de peras,
mas não podem afirmar que vocês não gostam de peras.
O único meio que qualquer um consegue dizer o gosto de
pera é se vocês mesmos as provarem. Esse é o único jeito.
Isso é realidade objetiva. É com isso que o Black Panther
Party lida. Nós não somos metafísicos, nós não somos
idealistas, nós somos materialistas dialéticos. E nós
lidamos com o que a realidade é, gostemos ou não.
Um monte de pessoas não consegue relacionar-se
porque tudo o que eles fazem é amordaçado pela forma
como as coisas deveriam ser. Nós dizemos que isso é
incorreto. Vocês olham e veem como as coisas são e então
vocês lidam com elas. Nós andamos por aí falando sobre
“vamos amar todas as pessoas negras. Nós temos um
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 161 |

amor incondicional por todas as pessoas negras”. E vocês


sabem de uma coisa? Que se Malcolm voltasse, passaria
por um milhão de homens da Klan para chegar até
Stokely e perseguiria aos gritos seus malditos traseiros.
Você me ouviu? Eles não permitiriam nenhuma pessoa
branca lá. Mas Malcolm está morto. Agora, o que
aconteceu? O que tinha a aquele nome bobo, James
Whitmore. Ele não fez a pelezinha? Porque eles tinham
nomes com 37 “X”, 15 “X”, mais negros do que os negros,
e eram capazes de se esgueirar por causa desse potencial
ignorante que estes maníacos estão tentando incitar
sobre nós – “Nós vamos amar todas as pessoas negras
porque todo negro é um homem preto em potencial”.
O homem que testemunhou contra o Presidente
Bobby no julgamento conspiratório em andamento em
Chicago era um homem negro. O homem que enviou o
Presidente Bobby a um julgamento em Connecticut é um
homem negro. O homem que assassinou Malcolm X é um
homem negro. O juiz que negou a fiança de Eldridge
Cleaver depois de um homem branco ter garantido a ele
a fiança – um negro que investigou por sua própria conta
e disse, “Nigger, eu não acho que você deve estar nas
ruas”, era um homem negro, Thurgood Marshall,
Thurgood ‘Not Good’ Marshall, aquele que a NAACP
colocou lá. Essa é uma das coisas sobre as quais sentar e
morrer, esperar e chorar nos pegou. Se Thurgood
Marshall não estivesse lá, então Eldridge Cleaver
provavelmente ainda poderia estar aqui com o povo. Ele
é um negro, um lambe botas, um tonto, um boçal. Vocês
entendem? Vamos lá: “eu não acho que você deve estar
nas ruas”. E nós correndo por aí e deixando negros nos
contar que nós temos de amar a todas as pessoas negras.
Vocês ouviram falar sobre o julgamento
conspiratório no West Side e que eram capazes de
vencer, com Doug Andrews e Fat Crawford, quando
tiveram o grande incêndio em West Side na manifestação
de Martin Luther King? Perguntem a eles! Irmãos, o que
|162 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

há de errado com vocês? Perguntem a eles se era um


homem branco? Não! Porque Doug e eles nos criticam
por nossa posição liberal. Chamam de liberal. Então não
deixam ninguém entrar na irmandade exceto pessoas
negras. Mas eles não sabiam. Alguém já ouviu falar sobre
Glove2 na parte sul de Chicago? Ele não é branco. Vocês
acharam que Buckney era branco? Buckney, está
pegando todos os seus irmãos e todas as suas irmãzinhas
e todas as suas priminhas e priminhos e suas filhas, e vai
continuar a pegá-los. E se vocês não fizerem nada, ele vai
pegar seus filhos e filhas. E um monte de negros está indo
à escola agora tentando fazer um nome. Nós não
escutamos ninguém andando por aí e falando “eu sou
Benedict Arnold III” porque os filhos de Benedict Arnold
não querem falar sobre os filhos dele. Vocês ouviram
pessoas falando sobre poderem ser filhos de Patrick
Henry – pessoas que se insurgiram e disseram “me dê
liberdade ou me dê a morte”. Ou primas de Paul Revere.
Revere disse “pegue suas armas, os britânicos estão
chegando”. Os britânicos eram a polícia.
Huey disse “pegue suas armas, os porcos estão
chegando” A mesma coisa. Haverá um monte de Newtons
andando por aí. Um monte de crianças se chamarão Huey
P. Newton III. Elas não se chamarão de Ooga-Booga ou
Karangatang Karenga, ou Mamalama Karenga – nada
dessa merda. Elas não vão se chamar disso. Vocês veem,
perguntem aos porcos da Califórnia. Perguntem a eles!
Vocês estão vendo? Passe-me um pôster deles, irmão.
Aquele bem ali. Agora se vocês pensam que estou
mentindo, olhem para isso. Deem uma olhada para isso.
Agora todas vocês irmãs aqui, digam-me o que parece
melhor – um negro andando por aí em uma túnica e uma
camisa polo de funcionário, parecendo com Moisés, ou
bem assim – esse é o visual mais ruim... vocês podem

2. Glove Davis foi mais tarde um dos policiais de Chicago que participou no assassinato
de Fred.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 163 |

pensar, vocês devem dizer que são chauvinistas,


chauvinistas organizacionais vocês podem chamar
assim. Vocês podem me chamar de envolvido no ego do
próprio partido. Mas eu estou envolvido na verdade. E eu
acho que a irmã pode verificar que esses são os mais
ruins. Esses são estrelas de cinema da Babilônia,
maldição. Hã? Foda-se John Wayne e as todas outras
merdas.
Está certo. Mas vocês veem, se vocês olham para
aquilo, é como nós ficamos bem. Nós não ligamos se
negros usam dashikis. Vocês entendem? Isso não vai
significar nada na análise final. Mas nós estamos dizendo
que vocês precisam de algumas ferramentas. Vocês já
tiveram a ocasião de ter um médico chegando às suas
casas, ou um encanador chegando às suas casas?
Suponha que um encanador tenha chegado às suas casas,
ele abriu sua bolsa e tinha estetoscópios e termômetros,
agulhas hipodérmicas e seringas. Vocês diriam “Você
veio consertar o encanamento? Irmão, você pegou as
ferramentas erradas. Alguma coisa suspeita está
ocorrendo porque você nem trouxe as ferramentas
apropriadas”. Não é certo?
Suponha que alguém venha entregar seu bebê e
tivesse ferramentas de encanador? Eu sei que vocês,
irmãs, gritariam “assassinato sangrento”. Não, mas vocês
diriam, “isso não está certo, irmão. Não podemos ceitar
isso. Você tem que, entende, você tem de vir mais em uma
boa, tem que me mostrar alguma coisa melhor. Você
precisa ter algumas ferramentas que são mais
apropriadas para essa ocasião, você entende, porque eu
não tenho quaisquer torneiras vazando ou coisa
parecida”. Então quando pessoas chegam à nossa
comunidade com tanques, quando chegam à Babilônia ou
a Warsaw, ou o que quer que vocês queiram chamá-lo,
como fizeram nos projetos Henry Horner – e essa é uma
manifestação, uma manifestação muito clara do que está
acontecendo na Babilônia. Quando fazem aquilo, quando
|164 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

chegam com tanques e aqueles tanques são ferramentas,


são ferramentas de guerra, eles estão declarando guerra
à comunidade. E se vocês, quando eles chegam na
comunidade com tanques, chegam com dashikis e nada
mais que dashikis, bubus e nada mais do que bubus e
sandálias, então vocês estão no lugar errado e na hora
errada e com as pessoas erradas. Seria melhor se vocês
voltassem para casa, se tivessem que se despir, se
tivessem de ficar de traseiro de fora, e colocasse nada
mais que um coldre e uma arma e algumas munições.
Ninguém tentará vocês, entendem, assobiar para vocês,
ou coisa parecida. Porque isso desaparecerá a partir do
minuto... qualquer tipo de atração sexual que vocês
tiveram desaparecerá. Porque eles olharão para o Sr. e a
Sra. Colt.45 e Sra. .357 Magnum. E as formas deles são as
melhores formas que nós temos na Babilônia para lidar
com isso. E vocês irmãos segurando uma .357 Magnum
em suas mãos, não há nada parecido como sentir uma
.357 Magnum, exceto por uma dessas bonitas irmãs
negras. Mas nós precisamos das .357 Magnum também.
Quando nós saímos por aí, nós seremos capazes
de nos proteger. Huey P. Newton emitiu uma ordem
muito tempo atrás. Foi a Ordem Executiva #3. Dizia que
nós precisamos desenhar a linha de demarcação. E
quando os porcos avançam sobre nossos berços, nós
temos que protegê-los com força armada. Porcos não
avançam sobre os berços dos Panteras. Quando avançam
sobre nossos berços, eles têm certeza que os Panteras
estão fora da cidade. Nós tivemos uma situação onde
avançaram sobre um berço dos Panteras e tinham três
helicópteros sobre seu berço. Eu falo sério. Eu falo sério.
Vejam, eles vêm preparados. Porque sabem que quando
estão chegando a um berço dos Panteras que nós
podemos falar um monte de retórica, mas lidamos com o
mesmo jargão básico que o povo na Babilônia lida. Se
precisa de duas pessoas para dançar tango, filho da puta.
Tão logo você arrombe a porta, eu terei de chutá-la de
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 165 |

volta para você. Nós não trancamos nossas portas. Nós


apenas temos algumas boas armas e as deixamos as
malditas portas abertas e quando pessoas chegam lá, nós
colocamos algo que as fará ir até loja de ferragens,
comprar uma tranca, fechar a porta, trancá-la e te
mandar para fora daqui!
Nós vamos nos mover tão rápido quanto for
possível, nos movermos para pessoas com questões e
respostas e as pessoas com síndrome de culpa e as
pessoas que se sentem embaraçadas e envergonhadas e
desgraçadas. E nós falamos sobre os seus líderes como
LeRoi Jones e Mamalama Karangatang Karenga, um
careca bazoomie até onde sabemos. Isso é o que ele é. E
nós achamos que se vai continuar a usar dashikis, vai ter
que parar de usar calças. Porque ele fica muito melhor
em minissaias. Isso é tudo que um filho da puta que não
tem nenhuma arma precisa na Babilônia, e isso é uma
minissaia. E talvez possa se safar de alguma coisa. Porque
não vai atirar caminho afora por nada. Não lutará contra
a tentação, mas ele nunca assassinou ninguém exceto um
membro dos Panteras Negras. Dê o nome de alguém.
Defina para mim a época em que o escritório de
Karangatang foi atacado. A única época que teve a
oportunidade de usar uma arma foi contra Alprentice
Bunchy Carter, um revolucionário. Este irmão tinha mais
poesia revolucionária para um filho da puta do que
qualquer outro. Cultura revolucionária. John Huggins. A
única vez em que eles levantaram uma arma foi contra
essas pessoas. Como Huey disse na prisão, quando eles
levantaram suas mãos contra Bunchy e quando
levantaram suas mãos contra John, levantaram suas
mãos contra o melhor que a Babilônia possui. E vocês
devem dizer isso. Vocês devem sentir em qualquer
momento em que um irmão revolucionário morre. Vocês
nunca ouviram falar no Partido sair matando pessoas por
aí. Vocês sacaram o que eu disse? Pensem sobre isso. Eu
não vou se quer contar. Vocês pensem sobre isso por si
|166 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

mesmos. Nós começamos o Black Panther Party em


1966. Eu vou contar para vocês toda a história em um
minuto. Nós começamos lidando com porcos. Vocês
acham que nós temíamos alguns karangatangs, alguns
estúpidos, alguns machos chauvinistas? Eles dizem às
suas mulheres “Ande atrás de mim”. A única razão para
uma mulher andar atrás de um marica como esse é para
ela poder enfiar seu pé até o joelho bem fundo no rabo
dele.
Nós não precisamos de nenhuma outra cultura a
não ser que seja a cultura revolucionária. O que nós
queremos dizer com isso é uma cultura que o libertará.
Vocês ouviram seu oficial de campo falando sobre um
incêndio na sala, não ouviram? Com o que vocês se
preocupam quando vocês têm um incêndio nessa sala?
Vocês se preocupam com água ou com fugirem. Vocês
não se preocupam com nada mais. Se vocês dizem “Qual
sua cultura durante um incêndio?” “Água, essa é minha
cultura, irmão, essa é minha cultura”. Porque cultura é
uma coisa que te mantêm. “Qual é sua política?” Fuga e
água. “Qual é sua educação?” Fuga e água. Quando as
pessoas nos perguntam sobre a nossa cultura, nós
dizemos que nossa cultura são armas. Nossa cultura é
arte revolucionária, algo assim. E quando você vê aqueles
dois irmãos que pegaram suas armas e saíram pela
Babilônia em 66 quando muitos de nós estávamos
assustados para fazer qualquer coisa exceto nos trancar
no armário e escutar Coltrane – e isso é algo para bater
nesse filho da puta. E isso nos deixou ligados e nos fez
negros o suficiente para sermos maus. Então isso nos
transformou e nos fez negros o suficiente e nós éramos
maus. Então isso nos deixou negros o bastante para sair
e lançar uma acusação geral contra o assassinato do resto
do povo negro. Negro, você não é nenhum pateta. Negro,
como é que seu nome não mudou? Perguntem aos porcos
da Califórnia. Perguntem a eles. “Quem você teme mais?
Ron Mamalama Karenga ou Huey P. Newton, quem
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 167 |

recebeu o nome em homenagem a um político mentiroso,


e demagógico, Huey P. Long?” E os porcos não ligam para
isso. Porque vocês não têm que chamar, se sua pistola é
uma Browning, você não tem que dar a ela um nome
africano, porque me acreditem, ela atira da mesma
forma. Vocês entendem? Atira da mesma forma.
Mudar o seu nome não vai mudar nosso conjunto
de compromissos. A única coisa que vai mudar nosso
conjunto de compromissos é o que nos trouxe a esse
conjunto de compromissos. E o que nos trouxe foi o
opressor. E ele se define em três estágios, nós os
chamamos de “três em um”: gananciosos, avarentos
homens de negócio; políticos demagógicos e mentirosos
e racistas, porcos fascistas e policiais reacionários. Até
que vocês lidem com essas três coisas, então seus
conjuntos de compromissos permanecerão os mesmos. A
única diferença será que vocês ainda estarão sob o
fascismo, mas ao invés de Fred estar sob o fascismo, eu
seria Oogabooga sob o fascismo. Mas eu sentirei a mesma
coisa. Ao invés de eu estar indo para a câmara de gás, eu
irei para a seção africana da câmara de gás. Nós estamos
tão africanizados por aqui que se africanos viessem aqui,
vocês teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o
que diabos estariam comprando. É isso mesmo, vocês
teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o que
diabos eles estariam comparando. Vocês têm pôsteres,
fotos e nomes, nós estamos dando nomes às coisas e a
nós mesmos que eles jamais ouviram. E nós chamamos a
nós mesmos africanizados. E isso não é algo? Vocês
entendem?
Se você é um racista, deixa eu te contar uma coisa.
Ou se você é um nacionalista reacionário. Brancos
praticam isso. Vá para a África do Sul e pergunte a eles.
Vá em frente. Se você quer um exemplo de nacionalismo
cultural, o melhor que eu posso dar a você é Papa Doc
Duvalier. No Haiti, todas as pessoas negras, “nós
precisamos de alguma negritude”. Papa Doc – agora,
|168 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Duvalier – disse “agora, nós precisamos de alguma


negritude. Vamos retirar toda gente branca daqui”.
Retiraram toda a gente branca, e agora está oprimindo
todo povo negro. Quando a gente negra se queixa disso,
ele diz, “bem, maldição, do que vocês estão reclamando
agora? Eu sou negro. Eu não posso fazer nada de errado,
irmão. Nós já qualificamos isso”. É por isso que esses
apologistas como Wesley South vão ao ar, praguejando
coisas que sofisticam o que a irmã estava falando.
Falando a respeito, fazendo propaganda, na verdade.
Apenas praguejando sobre nada porque são boçais em
nossa comunidade permitidos a permanecer nela por
conta da cor de suas peles. Vocês têm Bobby Seale
acorrentado e amordaçado no Edifício Federal. Vocês
têm James e Michael Soto que foram assassinados em
dois dias. A propósito, para todos vocês brancos que se
afirmam radicais, que afirmam que vão apoiar o Partido.
Nós entramos e estamos dizendo que não há melhor, ou
mais avançado marxista do que Huey P. Newton. Não o
presidente Mao Tsé-tung ou ninguém mais. Nós estamos
dizendo que ao menos que as pessoas mostrem-nos
através das suas práticas sociais que se identifiquem com
a luta na Babilônia, isso quer dizer que não são
internacionalistas, não são revolucionários, nem
verdadeiramente revolucionários marxista-leninistas.
Nós olhamos para Kim Il Sung. Nós olhamos para o
camarada Marechal, Marechal Kim Il Sung da Coreia
como se elevando em sua prática social assim como Mao
Tsé-tung. Se vocês conseguem se identificar com isso,
legal. Se vocês não conseguem se identificar com isso,
caiam fora com seus traseiros limpos como fazem as
galinhas, vocês sacaram? Se vocês não conseguem se
identificar com isso. E nós estamos dizendo isso para
vocês.
E vocês, filhos da puta, que pensam que são tão
radicais e que estão tentando radicalizar tudo em
Washington. E eu não sei o que diabos vocês poderiam
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 169 |

radicalizar, porque vocês não vão fazer nada além de


andar entre corpos de dois homens mortos, Lincoln e
Washington. E eu sei que vão se levantar e obter
nenhuma reparação. E há tanta chance para Nixon dar-
lhe alguma reparação. Se vocês não conseguem 200 mil
pessoas para marchar em Washington por algo que está
acontecendo no Vietnã, porque diabos vocês não
conseguem 200 mil pessoas para vir para Jackson e
Dearborn, o Edifício Federal, e marchar pelo Presidente
da Babilônia, o homem que fez mais pela Babilônia, e
mais pelo Vietnã do que sua marcha de maníacos jamais
fará. Porque vocês não estão fazendo nada por ninguém
exceto Florsheims e Stetsons ou Stacy Adams e ninguém
mais, porque vocês vão gastar suas solas – suas almas
metafísicas e as solas de seus sapatos. E nós dizemos que
se vocês não conseguem se identificar com isso, então
fodam-se.
Porque nossa linha tem sido consistente.
Conhecemos o marxismo-leninismo. Pessoas que podem
não querer se aprofundar, dizem que marxista-leninistas
não xingam. Isso é algo que nós pegamos dos senhores de
escravos. Nós sabemos que negros que inventaram a
palavra filho da puta. Nós não estávamos fodendo a mãe
de ninguém. Era o senhor que fodia as mães das pessoas.
Nós criamos a palavra, sacaram? Nós nos relacionamos a
isso. Nós negros marxista-leninistas, e negros marxista-
leninistas praguejadores, e continuaremos a praguejar,
maldição. Porque é com isso que nos relacionamos, é isso
que está acontecendo na Babilônia. Isso é realidade
objetiva. Ninguém está andando por aí na Babilônia
jorrando pela boca um monte de besteira acadêmica,
masturbação intelectual, pregando diarreia pela boca.
Nós dizemos para aqueles filhos da puta que se vocês
querem pegar uma doença na boca, vocês veem e dizem
essas merdas em uma comunidade onde os Panteras
estão, e vocês vão ganhar uma doença na boca com
certeza. Vocês vão ganhar uma sola na boca, sola de
|170 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Pantera na boca. Então se vocês radicais não conseguem


se identificar com isso, então fodam-se, porque nós
sabemos o que o Presidente Bobby fez pela luta.
E nós sabemos que o povo do Vietnã quer a paz,
assim como Huey P. Newton contou sobre nosso lema,
que nós somos pela abolição da guerra. Nós não
queremos guerra, mas entendemos que a guerra só pode
ser abolida através da guerra. Que para baixar as armas,
fazer um homem se livrar das armas, é necessário pegar
uma arma. E vocês, filhos da puta, que estão pela paz no
Vietnã, o Black Panther Party é pela vitória do Vietnã. Nós
dizemos que eles são agressores, um bando de cães
lacaios executores, que são imperialistas. Eles são um
bando de belicistas de Wall Street. E devem ser expulsos
de lá. E o único meio de libertação do povo oprimido no
Vietnã, ou que a liberdade do povo oprimido da Babilônia
possa ser adquirida, tem de ser fundada com o sangue e
os ossos desses porcos e cães agressivos que chegam em
nossas comunidades como tropas ocupando um
território estrangeiro em vão no Vietnã e lutam e
combatem implacavelmente ao povo no Vietnã e seu
direito de autodeterminação. Nós não ligamos se alguém
gosta disso ou não. Essa é a nossa linha. Essa é uma linha
marxista-leninista. Ela é consistente. E vai permanecer
nesse rumo, esse tem sido o rumo. Se vocês não
conseguem que 200 mil pessoas venham se informar
sobre Bobby, então dizemos que vocês são
contrarrevolucionários. O que vocês estão fazendo é
pegar algum tipo de uma rota a partir de DeKalb de onde
vocês estiverem par chegar no Vietnã sem sequer passar
pelo Henry Horner Projects na parte oeste de Chicago.
Isso é impossível. Vocês acham que o Vietnã é ruim?
Confiram as leis. No Vietnã se você perde um filho te
permitem ficar com o outro. Eles dizem “aqui, querida
mãe, segure-o, segure-o bem”. Ele pode ficar em casa,
vocês entendem. Se você tem dois por lá e um morre, o
embarcarão de volta. Eles o embarcarão de volta e vão
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 171 |

tirá-lo da guerra onde não haverá nenhuma chance de


morrer, porque “Sra., essa guerra não vai levar os seus
dois filhos”. E então vocês estão marchando nessa guerra
cruel em Washington, todos vocês radicais, e quanto ao
Sr. Soto, que perdeu dois filhos em uma semana? Isso nos
prova através de fatos históricos que a Babilônia é pior
que o Vietnã, precisamos ter alguma moratória na
comunidade negra na Babilônia e em todas as
comunidades oprimidas.
E Charles Jackson, de Altgeld Gardens. Semana
passada, um garoto de 14 anos que estava atirando
pedras. Os porcos disseram a ele para parar, e os filhos
da puta o balearam e mataram. O assassinaram a sangue
frio. E então vocês, filhos da puta, tem a pachorra de
vagabundear à Washington, marchando entre dois
mortos. O Black Panther Party vai criticar vocês, filhos da
puta. Nós vamos criticar vocês abertamente porque nós
acreditamos na crítica revolucionária de massas. Nós
vamos dizer que vocês estão errados, porque tivemos um
monte de críticas direcionadas a nós por foder com você.
Ou vocês farão parte do problema ou vão fazer parte da
solução. E nós achamos que vocês, filhos da puta, são
parte do problema, nós vamos começar a apontar nossas
armas para vocês seus malditos. Nós vamos ter algumas
perguntas e respostas. Nós vamos fazer uma coisa
também. E essa é outra coisa fora das vistas que mostra
às pessoas de onde nos viemos. Nós viemos da Babilônia.
O Black Panther Party funcionou unicamente pelo povo
negro. Se vocês tiverem uma chance – eu não acho que
vai ser este domingo, mas nós gravamos nesse domingo
e mostramos no próximo sábado, eu tenho quase certeza.
Vai ser gravado nesse domingo e mostrado próximo
domingo. Haverá uma grande roda de debate que vai ser
sobre “Apenas para Negros”, qualquer um de vocês pode
conferir a coisa e ver como é. Ou eu mesmo ou Chaka
estaremos lá. Nós estaremos apresentando o Black
|172 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Panther Party. E se vocês tiverem uma chance, porque


vocês não dão uma olhada nisso?
E se vocês querem fazer algo por mim, nós
gostaríamos de fazer alguma coisa pelo Presidente
Bobby, se vocês só baterem palmas para mim. Isso é o
que chamamos – você não tem que bater palmas tão alto
– é o que nós chamamos de batida popular. Essa é uma
batida que foi iniciada em 1966 por Huey P. Newton e
Bobby Seale. Essa é uma batida que nunca para porque
essa é a batida que tinham porque sabiam que ela não
poderia ser parada. Essa é a batida que está manifesta em
vocês, o povo. O presidente Bobby Seale diz que
enquanto houver o povo negro sempre haverá o Black
Panther Party. Mas eles nunca podem parar o Partido a
não ser que parem a batida. Enquanto vocês
manifestarem a batida, nós nunca poderemos ser
parados. Vocês acham que a batida é perigosa? Nós
sabemos que ela é perigosa. Porque quando a batida
começou na Costa Oeste, o chefe porco de lá, Mafioso
Alioto, disse ao resto de seu povo que o ajudassem com o
seu fascismo por lá, ele disse, “escutem a batida desse
povo. Ei, eles estão batendo muito, rápido demais. Por
que eles não voltam para casa onde pertencem?” Quando
essa batida começou novembro passado, um ano atrás
em Chicago, Illinois, na 2350 W. Madison, quando eu e
Chaka e Bobby Rush e Che e alguns irmão e Jewel nos
juntamos e dissemos nós vamos começar um Black
Panther Party bem aqui. Porque isso é parte da Babilônia,
o Partido existe bem aqui. Que nós podemos estar na
escola agora, podemos pensar que estamos no topo da
montanha, mas vamos descer até o vale, porque o povo
está no vale, o compromisso está no vale, a opressão está
no vale, a agressão, a repressão, o fascismo, tudo existe
no vale. Não importa quão bom seja no topo da
montanha, nós temos um compromisso, então nós vamos
voltar. Nós vamos voltar para o vale.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 173 |

E quando nós fizemos isso, até mesmo Daley e


Narahan e o juiz – nós o chamamos de ‘Adolph Hitler’
Hoffman – o chefe fascista que conhece a arte de tapista,
a arte que Mussolini supunha ter dominado. Nós dizemos
que Hoffmann é melhor na arte de tapista do que
Mussolini jamais fora, porque sabemos o que é a arte de
tapista é: a arte do bom timing. E quando nós começamos
esta batida, o juiz Hoffman e o Governador Daley e o
cabeça de martelo Hanrahan disse, “ei, escute o povo, é a
batida de Chicago. Politicamente estão batendo mesmo
muito rápido, batendo demais. Porque eles não voltam
para casa?” Para viver com todo o povo negro onde eles
pertencem, para viver em dashikis e bubus e ser costelas
de porco nacionalistas e nacionalistas culturais. Por que
não voltam para casa para pensar que “o que você está
usando” vai mudar o que você é? Por que não voltam para
o “poder político flui da maga de um dashiki?” E nós
dissemos: Não! Conquanto que a batida continue, nós
continuamos, porque isso nos dá no Partido um tipo de
intoxicação, que nos deixa entender. Nós somos
proletários revolucionários intoxicados e não podemos
ser astronomicamente intimidados.
Não se preocupe com o Black Panther Party.
Contanto que você mantenha a batida, nós seguiremos
em frente. Se você acha que nós podemos ser apagados
porque assassinaram Bobby Hutton e Alprendice Bunchy
Carter e John Huggins, você está errado. E se você pensa
que porque Huey foi preso o Partido vai parar, está
vendo, você está errado. Se você acha que porque o
Presidente Bobby foi preso o Partido vai parar, está
vendo, você está errado. Se você acha que porque podem
me prender e pensa que o Partido vai parar, você pensou
errado. Porque eles podem “expulsar” Eldridge Cleaver
país afora, você está errado. Porque nós já o dissemos
antes de sairmos e nós dissemos hoje. Que você pode
prender um revolucionário, mas você não pode não pode
prender a revolução. Você pode trancafiar um lutador da
|174 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

liberdade como Huey P. Newton, mas você não pode


trancafiar a luta pela liberdade. Você pode contratar
alguns costelas de porco como Mamalama para
assassinar Alprentice Bunchy Carter, um libertador, mas
você não pode assassinar a libertação, porque se vocês o
fizerem, terão perguntas que não respondem,
explicações que não explicam, conclusões que não
concluem.
Nós dizemos que se você ousa lutar, então você
ousa vencer. Se você não ousa lutar, você não merece
vencer. Nós não iríamos para um ringue com Muhammad
Ali e não lutando imaginaríamos por que nós perdemos,
não é? Se você não luta, então você não merece vencer. Se
você não bota para correr esses fascistas, então você está
louco. Nós dizemos que não é mais uma questão de
violência e não violência. Nós dizemos que é uma questão
de resistência ao fascismo ou não existência dentro do
fascismo. Nós dizemos, vamos parar a guerra no Vietnã.
Vamos pará-la adquirindo a vitória pelo espírito de Ho
Chi Minh. Nós dizemos vamos parar a guerra na
Babilônia. Vamos iniciar a descentralização da polícia.
A única coisa real é o povo, porque os porcos
mordem a mão que os alimenta e eles precisam ser
esbofeteados. E como Chaka disse, quando vocês os
pegam em sua casa, os acertem com alguma coisa. Vocês
não devem argumentar se atingi-los com uma cadeira ou
uma mesa, porque eles estão fora de controle desde o
início. Nós dizemos que o opressor – o fodido juiz Taney
–não tem direitos os quais nós, os oprimidos, sejamos
obrigados a seguir.
Se vocês tiverem a chance, venham se informar
sobre Bobby. Vocês deveriam vir se informar sobre
Bobby porque Bobby veio e se informou sobre vocês.
Vocês deveriam vir e se informar sobre Bobby porque em
1966, quando nós nem sequer pensávamos que éramos
importantes o suficiente para nos protegermos, Bobby e
Huey pegaram suas armas e chegaram à comunidade.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 175 |

Eles deixaram a universidade. Eram estudantes


engenheiros em formação, como Bobby, e Huey era um
estudante advogado em formação. E o que eles leram,
colocaram na prática. Vocês deveriam vir se informar
sobre Bobby porque Bobby veio e se informou sobre
vocês. Eu vou me informar sobre Bobby e se vocês
tiverem qualquer coisa a dizer vocês virão se informar
sobre Bobby. Desçam até Jackson e DearBorn e se
informem sobre nosso Presidente, porque ele é o
presidente da Babilônia. Ele é o pai e o fundador do
programa de café da manhã e das clínicas de saúde
gratuitas, não há nada de errado, nada de errado mesmo
com isso. Todo poder ao povo! Poder ao povo do norte de
Illinois que vem aqui à Northern Illinois University.
Nós dizemos que precisamos de algumas armas.
Não há nada errado com armas em nossa comunidade, há
apenas uma má distribuição de armas em nossa
comunidade. Por uma razão ou outra, os porcos têm
todas as armas. Então todos nós temos de distribuí-las
igualmente. Então se veem alguém que tem uma arma e
vocês não, então quando vocês saírem vocês devem ter
uma. A forma como nós seremos capazes de lidar com as
coisas da forma certa. E me lembro de olhar para a TV e
achar que não somente os porcos brutalizaram o povo no
tempo do velho oeste, tiveram que contratar caçadores
para ir caçá-los. Atiravam em alguém sem a intenção de
prender. Precisamos de algumas armas. Precisamos de
algumas armas. Precisamos de alguma força.
Obrigado.
Eu vou chamar Chaka e a Irmã Joana aqui de volta
para lidar com qualquer questão que vocês queiram
esclarecer, porque nós temos muito tempo para gastar, e
não temos nenhum tempo a desperdiçar. Como disse a
irmã, “o tempo é curto, vamos aproveitar a
oportunidade”. Obrigado.
|176 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Discurso na Nothern Illinois University


Novembro de 1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 177 |

Capitalismo + drogas = genocídio


Michael “Cetewayo” Tabor
I. O Problema
Na colônia negra do Harlem, uma criança negra de
12 anos foi assassinada por uma overdose de heroína. Em
menos de duas semanas após isso, uma moça negra de 15
anos teve o mesmo trágico destino. No ano de 1969, em
Nova York, houve cerca de 900 mortes resultantes do uso
de drogas. Destes, 210 eram jovens que variavam dos 12
aos 19 anos. Dos 900, a imensa maioria eram negros ou
portorriquenhos. Estima-se que existam pelo menos 25
mil jovens viciados em narcóticos em Nova York – e isso
é uma estimativa conservadora. O vício em drogas nos
guetos colonizados dos Estados Unidos constituiu um
grande problema nos últimos 15 anos. Seu uso é tão
generalizado que podemos, sem medo de exagerar, nos
referir a isso como uma “praga”. Alcançou proporções
epidêmicas e é crescente. Mas apenas nos últimos anos
que o governo racista dos EUA considerou a dependência
química “uma questão de grande preocupação”. É
interessante notar que esta crescente preocupação por
parte do governo é proporcional à proliferação da praga
aos lugares sagrados das comunidades brancas de
classes média e alta. Enquanto a praga era confinada ao
gueto, o governo não parecia disposto a considerar isso
um problema. Mas assim que os professores
universitários, políticos demagogos, capitalistas
financistas e industriais loucos por dinheiro descobriram
que seus próprios filhos e filhas foram vítimas da praga,
um “estado nacional de emergência” foi declarado. Isso é
significativo, já que nos fornece pistas para a
compreensão da praga que se refere ao povo negro.
Da Agência Federal de Narcóticos ao clero, dos
membros da comunidade médica, educadores,
psicólogos até os viciados quimicamente escravizados da
esquina, as esperanças em efetivamente conter a
|178 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

propagação da praga são desanimadorasamente


nebulosas.
Apesar das penas de prisão mais duras contra
aqueles que a lei define como “comerciantes de drogas”
(um eufemismo para capitalistas ilegais) existem agora
mais traficantes do que jamais vimos antes. A praga
prolifera apesar do número cada vez maior de programas
de prevenção e reabilitação; ameaça devorar toda uma
geração de jovens.
O simples motivo do porque a praga não pode ser
parada pelos programas de reabilitação e prevenção é
porque estes programas, com sua abordagem arcaica,
burguesa-freudiana e suas comunidades terapêuticas
fora da realidade, não trabalham com as causas do
problema.
Estes programas deliberadamente negam ou, na
melhor das hipóteses, lidam de forma leviana com as
origens sócio-econômicas do vício em drogas. Estes
programas hipocritamente negam o fato de que a
exploração capitalista e a opressão racial são os
principais fatores que contribuem para a dependência
química em relação aos negros. Estes programas nunca
quiseram curar viciados negros. Não podem nem curar
os dependentes brancos, que foi a tarefa que se incumbiu
a eles. Este governo fascista define a causa do vício como
a importação da praga no país por traficantes. Eles
mesmo admitem que é impossível evitar a entrada da
praga no país. Para cada quilo de heroína que confiscam,
ao menos 25 quilos passam batido pelos agentes
alfandegários. O governo está bem ciente do fato que
mesmo se conseguissem acabar com a importação de
heroína, traficantes e dependentes simplesmente
encontrariam outra droga para substituí-la. O governo é
totalmente incapaz de dirigir-se para as verdadeiras
causas da dependência de drogas, pois fazê-lo, seria
necessário efetuar uma transformação radical da
sociedade. A consciência social desta sociedade, seus
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 179 |

valores, morais e tradições teriam que ser alterados. E


isto seria impossível sem mudar totalmente a forma da
propriedade dos meios de produção de riqueza social e
sua distribuição. Apenas uma revolução pode eliminar a
praga. A dependência química é um sintoma monstruoso
do mal que assola o tecido social deste sistema
capitalista. A dependência de drogas é um fenômeno
social que cresce organicamente a partir do sistema.
Todo fenômeno social que emana de um sistema social
que está baseado em e dirigido por antagonismos de
classe devem ser analisados a partir de um ponto de vista
de classe.
II. Escapismo e autodestruição
No que tange o povo negro, nossos problemas são
agravados e assumem dimensões alarmantes devido à
desumanização racial que estamos submetidos.
Para compreender a relação da praga com o povo
negro, devemos analisar os efeitos da exploração
capitalista e da desumanização racista. O hediondo e
sádico programa de devastar a humanidade do povo
negro que começou cerca de 400 anos atrás por Senhores
de escravos sedentos por dinheiro e que continua
inabalável até os dias atuais, deliberada e
sistematicamente.
Existe pelo motivo de justificar e facilitar nossa
exploração. Já que a realidade da nossa existência
objetiva pareceu confirmar as doutrinas racistas de
superioridade branca e de sua antítese, a inferioridade
negra, e já que falhamos no entendimento da nossa
condição, internalizamos a propaganda racista dos
nossos opressores. Começamos a acreditar que éramos
naturalmente inferiores aos brancos. Estes sentimentos
de inferioridade deram origem a um sentimento de
autofobia que encontra expressão em padrões de
comportamento autodestrutivos.
|180 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

A miséria do nosso sofrimento, a nossa sensação


de impotência e o desespero criado dentro de nossas
mentes criam uma pré-disposição para o uso de qualquer
substância que produza ilusões eufóricas.
Estamos inclinados a usar qualquer coisa que nos
permita sofrer pacificamente. Desenvolvemos um
complexo de escapismo. Este complexo escapista é
autodestrutivo.
O imoral opressor capitalista-racista explora tais
deficiências psicológicas e emocionais por tudo que lhes
valha a pena. O opressor encoraja nossa participação em
qualquer atividade que seja autodestrutiva. Nosso
comportamento autodestrutivo e tendências escapistas
constituem uma fonte de lucro para os capitalistas.
Eles também, ao nos enfraquecer, nos dividir e
nos destruir, reforçam a força do opressor permitindo
que perpetue sua dominação. A briga fratricida de
gangues é uma manifestação direta de um padrão
comportamental autodestrutivo. Também é uma forma
de escapismo, na qual os jovens negros despejam sua
raiva, frustrações e desespero ao invés de combater o
verdadeiro inimigo.
Religionismo patológico ou a devoção fanática
em alguma religião é essencialmente escapista porque
encoraja a vítima a concentrar sua atenção, energia e
esperança de salvação e liberdade em cima de uma força
duvidosa, mística. Desencoraja o confronto com as reais
causas da nossa miséria e privação. Estimula o foco da
nossa atenção em um castelo nas nuvens, ao invés de
buscar mais conforto aqui na Terra.
Também serve como fonte de lucros para
charlatões religiosos, pastores e pregadores que
exploram isso. O alcoolismo é, também, autodestrutivo e
escapista. Também é outra fonte de enormes lucros para
os capitalistas. O surpreendentemente elevado número
de bares e lojas de bebidas nas comunidades negras
testemunha este trágico fato. A indústria capitalista de
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 181 |

bebidas pode prosperar só com os negócios que faz nos


guetos negros.

III. O vício em heroína


A atividade mais autodestrutiva e escapista para
nós e uma das mais lucrativas para os capitalistas e,
portanto, a mais encorajada por eles, é a dependência
química, principalmente o vício em heroína. Mais ou
menos em 1898, um químico alemão descobriu
diacetilmorfina, a heroína. Foi saudada como a droga
perfeita para curar viciados em morfina. Mas logo se
tornou visível que era mais viciante que a própria
morfina. Em meados dos anos 20 existiam viciados que
estavam injetando heroína diretamente em suas veias. A
produção de heroína nos Estados Unidos foi
interrompida e a droga não era mais usada como
antídoto para dependência de morfina e como
analgésico. O vício em heroína, a praga, flagelo das
colônias negras da Babilônia. A praga, cujo poder de
destruição das capacidades espirituais, morais,
psicológicas, físicas e sociais excedeu em muito a de
qualquer doença já conhecida pela humanidade. A praga,
ópio da Turquia, enviado para Marselha, convertido em
base de morfina, em seguida, transformado em heroína,
contrabandeado para a América, cortada, diluída, em
seguida, colocada no gueto negro. A praga, venenosa,
letal, substância em pó branco, vendida por feras imorais
loucas por dinheiro, para jovens negros que estão
desesperadamente procurando algo para relaxar, um
meio, qualquer coisa que os ajude a torná-los alheios à
sua miséria, à pobreza abjeta, doença e degragação que
os traga sua existência diária.
Inicialmente a praga faz apenas isso. Sob sua
sinistra influência, a opressora, repugnante prisão do
gueto é transformada em quase que um Valhalla negro. O
usuário se torna insensível ao mau cheiro rançoso de
masmorras de cortiços encharcadas de urina, não
|182 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

afetado pelos gritos penetrantes de angústia dos


companheiros negros levados à beira da loucura por um
sistema social sádico. Não afetado pelo grito
ensurdecedor das sirenes das viaturas dos porcos
policiais enquanto estes rasgam as ruas do inferno negro,
respondendo uma chamada de outro porco policial que
está em um estado de sofrimento merecido. Não afetado
pelas latas de lixo que carregavam o lixo decadente,
portador de doenças que jogaram nas ruas do gueto. Sim,
sob sua influência em êxtase, o usuário se torna alheio à
feia realidade. Mas tem algo em troca, uma trapaça cruel
e monstruosa, uma traição mortal esperando sua jovem,
ingênua vítima, pois, quando a beleza ilusória dos efeitos
induzidos pela heroína começa a desaparecer,
correspondentemente, esta imunidade temporária da
realidade alcançada sob o seu trance químico
desaparece. A realidade que a vítima patética lutou tão
desesperadamente para fugir, novamente volta para
engolí-la. O mau cheiro rançoso das masmorras dos
cortiços encharcados de urina começa a atacar suas
narinas. Os gritos negros de angústia parecem misturar-
se com as sirenes dos carros dos porcos-policiais. Agora
as escutam, em alto e bom som esteorofônico. E eente por
debaixo dos pés aquele lixo que percorria as ruas, dos
lixos não coletados.
A jovem vítima não demora para descobrir que
apenas tomando outra dose, será capaz de encontrar seu
refúgio daquela realidade hedionda. Cada pico da praga
injetado em seu sistema sanguíneo o leva mais próximo
da sua tumba. Logo está dependente, viciado.
Psicologicamente e fisiologicamente dependente da
praga. Tanto seu corpo quanto sua mente se tornaram
viciados em heroína. Agora se tornara um membro de
carteirinha, em tempo integral deste mundo das drogas.
Seu corpo passa a assumir uma aparência destruida. A
desconsideração descarada é evidente em suas roupas.
Sua camisa está suja e seus sapatos sem sola, deixando-o
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 183 |

a andar praticamente em seus pés nus, não importa. Que


o seu corpo sujo agora emite um odor mais sujo o
perturba, mas pouco. Que seus amigos não-viciados
agora o evitam e olham para com desprezo, não importa,
pois, os sentimentos são mútuos. Não têm mais nada em
comum. Tudo não importa. Tudo, exceto a heroína, a
praga. Enquanto prossegue esse caminho, seu corpo
começa a desenvolver uma imunidade à droga. Agora, a
fim de atingir o anterior grau de êxtase, deve aumentar a
sua dosagem. Isso significa que deve ter mais dinheiro.
Agora, escravizado, deve fazer qualquer coisa para um
“pico”. Mentir, roubar, enganar, furtar, não são nada para
ele. Tudo que precisar fazer por um “pico”, ele fará, por
ser um escravo da praga. O ciclo vicioso tortura. Ele viola
o que a classe dominante define como a lei para
conseguir dinheiro para alimentar sua doença.
Inevitavelmente será pego e preso. Vai para a cadeia, e
após ter cumprido sentença, solto. A primeira coisa que
quer é um pico. O ciclo segue. E mergulha cada vez mais
fundo no poço abismal da degradação. E lá, sempre lá e
sempre dispostos, por um preço, é claro, para atender a
demanda do viciado em drogas estão os traficantes,
fornecedores de veneno, distribuidores de morte, sem
piedade, canalhas assassinos, terríveis capitalistas,
vendedores de morte no plano de parcelamento, os
empurradores de narcóticos, o homem da praga.

IV. Capitalismo e crime


O tráfico de drogas é, sem dúvidas, um dos
empreendimentos capitalistas mais lucrativos. Os lucros
chegam aos bilhões. Internacional e naciomalmente, a
venda e distribuição de heroína é controlado em última
instância pela Cosa Nostra, a máfia. Muito dos lucros
acumulados dos comércios de drogas é usado para
financiar comércios chamados de legítimos. Estes
comércios legítimos que são controlados pela máfia
também são usados para facilitar suas atividades de
|184 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

venda de drogas. Dado o fato que crime organizado é uma


forma de comércio que se expande a cada ano,
constantemente buscam novas áreas de investimento
para aumentar seus lucros. Consequentemente, mais e
mais lucros ilegais são canalizados em comércio legítimo.
As parcerias entre a máfia e “capitalistas com boa
reputação” estão na regra geral do dia. Existe uma
relação direta entre capitalistas legítimos e os ilegítimos.
Ao longo dos anos, vários políticos e embaixadores
estrangeiros e capitalistas bem ricos foram presos neste
país por atividades com drogas. Outros, por causa da sua
riqueza e influência, foram capazes de evitar a prisão. No
outono de 1969, descobriram que um grupo de
importantes financistas de Nova York estavam
financiando uma operação internacional de vendas de
drogas. Nenhum dos acusados foi preso. Logo depois um
grupo de grandes capitalistas da América do Sul foi preso
em um Hotel de luxo em Nova York com cerca de $10
milhões em drogas. Por conta da natureza e predatória
dos capitalistas, não deveria ser nenhuma surpresa que
os ditos capitalistas legítimos estão profundamente
envolvidos no tráfico de drogas. Capitalistas são
motivados por uma sede insaciável por lucros. Farão
qualquer coisa por dinheiro. As atividades de crime
organizado e os “legítimos capitalistas” estão tão
indissociavelmente ligados, tão completamente
entrelaçadas, que a partir de nosso ponto de vista
qualquer distinção entre elas é puramente acadêmica. A
legitimação da Máfia, sua ênfase crescente em investigar
e estabelecer corporações, foi acelerada pelas penas mais
duras sendo dadas à vendedores de drogas. Em Nova
York, isto resultou no afastamento gradual da Máfia da
sua posição de liderança do tráfico de drogas de Nova
York. O tráfico em Nova York agora é dominado por
exilados cubanos, muitos antigos militares e policiais no
regime pré-revolucionário repressivo de Batista. Se
igualam à Máfia em crueldade e ganância. Estes novos
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 185 |

chefões do tráfico criaram uma ampla rede internacional


de operações de contrabando. Utilizam as rotas de
mercado tradicionais e criam novas, como indica o
aumento do número de confiscos do Narcotics Bureau de
drogas vindo da América do Sul.
O conceito de Black Power influenciou o
pensamento de cada segmento da comunidade negra.
Passou a significar o controle negro das instituições e
atividades que se centram na comunidade negra.
Professores negros demandam o controle das escolas
dos guetos pela comunidade negra. Comerciantes e
capitalistas negros defendem a expulsão dos capitalistas
brancos do gueto para que possam maximizar seus
lucros. Bicheiros negros estão exigindo controle total dos
jogos do bicho ali. E traficantes negros estão
demandando o controle da heroína da comunidade. É
trágico que em Nova York, os maiores lucros no âmbito
da comunidade negra foram realizados por gangsteres,
bicheiros e traficantes, os capitalistas ilegais negros. Até
uma 1967, era quase impossível achar um traficante
negro que carregasse mais do que 3 quilos de heroína a
qualquer hora. Ninguém ouvia falar de importadores
negros independentes. Agora, existe toda uma classe de
negros que se tornaram importadores, usando a lista da
Máfia de fornecedores das conexões europeias. A
crescente e imediata taxa de lucros colhida da indústria
de drogas poderia causar inveja para a U.S. Steel, General
Motors e a Standard Oil.
Do mais alto nível para o menor, os lucros são
absurdos. Se o indivíduo é suficientemente ambicioso,
astuto, implacável e cruel, pode se formar de vendedor
ambulante de rua para grande traficante e distribuidor
em curto espaço de tempo.
Um aspecto da opressão de classe e racial é a
política das classes dominantes de operar lavagem
cerebral nos oprimidos para que aceitem sua opressão.
Inicialmente, este programa é realizado ao implantarem
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medo nas mentes e plantando as sementes de


inferioridade nas almas do oprimido.
Mas a medida em que as condições objetivas e
correlação de forças se tornam mais favoráveis para o
oprimido e mais adversas para o opressor, se torna
necessário para o opressor modificar seu programa e
adotar métodos mais sutis e tortuosos para perpetuar
seu domínio.
O opressor tenta afetar o psicológico do oprimido
combinando uma política de repressão brutal como
gestos espetaculares de boa vontade e vontade de
prestar serviços.
Como o povo negro abandonou as táticas não-
funcionais e ineficazes da era dos “direitos civis” e agora
resolveram alcançar sua libertação há muito esperada
por quaisquer meios necessários, se tornou necessário
para o opressor implantar suas forças de ocupação na
colônia negra.
O opressor, particularmente em Nova York,
percebe que isto não pode ser feito abertamente, sem
intensificar o fervor revolucionário do povo negro na
colônia. Portanto, um pretexto é necessário para colocar
mais policiais no gueto.
E qual o pretexto? Segue assim: líderes
comunitários negros responsáveis nos informaram, e
seus relatórios concordam com as conclusões da polícia,
que a comunidade negra é devastada pelo crime, assaltos,
roubos, assassinatos e caos. As ruas não são seguras,
comércios são infestados por assaltantes a mão armada,
os mercados não podem funcionar.
A prefeitura concorda com os moradores negros
que a principal causa para esta terrível situação são os
viciados em drogas que agem contra pessoas inocentes.
Sim, os viciados são culpados pela crescente taxa de
criminalidade.
E a prefeitura irá responder o grito de desespero
dos moradores negros por maior proteção – enviem mais
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 187 |

policiais! Que as vítimas da praga são responsáveis pela


maior parte dos crimes nos guetos é um fato.
Que viciados negros perpetuam a maior parte dos
seus roubos, assaltos e furtos na comunidade negra
contra o povo negro não pode ser negado. Antes, por
causa do desespero, de nos precipitarmos e gritarmos
por proteção policial, é melhor nos lembrarmos quem
colocou a praga no Harlem, Bedford Stuyvesant e outras
comunidades negras. É melhor lembrarmos quem em
lucra com o vício do povo negro.
É melhor lembrarmos que a polícia são tropas
hostis enviadas para as colônias negras pela classe
dominante, não para proteger as vidas do povo negro,
mas para proteger os interesses econômicos e a
propriedade privada dos capitalistas e assegurar que o
povo negro não saia do lugar. Rockefeller e Lindsay não
poderiam se importar menos com as vidas do povo
negro. E se não sabemos por ora o que a polícia sente por
nós, então estamos realmente em uma situação crítica.
V. Porcos policiais
A praga jamais poderia prosperar nas colônias
negras se não fosse pelo apoio ativo das forças de
ocupação, a polícia.
O fato das prisões por narcóticos terem
aumentado de maneira nenhuma atenua o fato que a
polícia dá imunidade de prisão aos vendedores de drogas
em troca de dinheiro.
É prática dos porcos policiais, de agentes de
narcóticos, tomar uma quantidade de drogas de um
traficante, prendê-lo, mas apenas entregar uma porção
das drogas confiscadas para provas.
O resto é dado para outro traficante que vende e
dá uma porcentagem dos lucros para os agentes de
narcóticos. Os porcos policiais também utilizam
informantes que são traficantes. Em troca de informação,
recebem imunidade das prisões. A polícia não pode
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resolver o problema, porque ela é uma parte do


problema.
Quando você considera que 1 quilo de heroína
comprado por um importador por 6 mil dólares, quando
cortada e empacotada e distribuída irá trazer o lucro de
300 mil dólares em uma semana se torna fácil de
entender que mesmo se a pena de morte fosse imposta a
quem lucra com as drogas, não iria deter o tráfico.
Os desleais fantoches da classe dominante, os
políticos demagógicos da prefeitura aprovaram agora
uma lei que dá aos agentes de narcóticos o direito de
invadir a casa de uma pessoa sem permissão, sob o
pretexto de procurar narcóticos e “outras provas”.
Esta lei foi ostensivamente aprovada para evitar
os traficantes de destruir as drogas e “outras provas”.
Agora, quem pensar que esta lei será destinada
apenas para suspeitos de serem traficantes está
trabalhando sob uma ilusão trágica e possivelmente
suicida. Supor que apenas suspeitos de serem traficantes
serão afetados por esta lei é negar a realidade atual dos
Estados Unidos.
Se permitir a pensar por um momento que esta
apenas se aplica a suspeitos de serem traficantes é negar
que aprovada a lei as políticas sendo implementadas e os
métodos e táticas da polícia se tornaram,
descaradamente e sem pudor, fascistas.
Não deveria ser surpresa quando as casas de
revolucionários e outras pessoas realmente amantes da
liberdade forem invadidas pela polícia sob o pretexto de
procurarem drogas e “outras provas”.
Uma série de revolucionários já foram presos em
acusações forjadas de narcóticos. Derem 30 anos de
prisão para Lee Oits e Martin Sostre foi sentenciado por
41 anos por falsas acusações de narcóticos.
Podem ter certeza que esta política será
intensificada. Faria bem para todos considerar o que
invadir a casa de uma pessoa em busca de drogas e
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 189 |

“outras provas” realmente significa. O que são “outras


provas”? Os legisladores burgueses e fascistas não
especificaram o que constitui “outras provas”. A lei que
permite invadir sem permissão é uma parte integral do
caminho fascista que este país embarcou.
Antes, quando a casa de um negro era assaltada
por um viciado em drogas, ou uma irmã tinha sua bolsa
roubada, a polícia demorava a noite para responder a
ligação, ou não respondia.
O ladrão dificilmente era pego. Na maior parte das
vezes, quando prendiam alguém, era a pessoa errada.
Mas quando um comércio explorador capitalista naquele
mesmo gueto, de algum branco, é roubado,
imediatamente tem 15 viaturas com sirenes ligadas no
lugar e três dúzias de porcos andando pelas ruas,
apontando armas no rosto de todo mundo. E você pode
apostar que uma em cinco vezes alguém irá para a cadeia
por aquilo. Se a pessoa presa é ou não aquela que
perpetuou o ato é irrelevante do ponto de vista dos
porcos. Os porcos policiais racistas usam os negros como
uma saída para seus impulsos sádicos, inadequações e
frustrações. Agora que mais policiais foram enviados, a
situação foi de mau a pior.

VI. Revolução
Os porcos policiais racistas, os políticos
demagógicos e os grandes capitalistas gananciosos que
controlam os políticos estão maravilhados que a
juventude negra caiu vítima da praga. Eles estão assim
por dois motivos: um, é lucrativo economicamente e,
dois, eles percebem que enquanto podem manter nossos
jovens negros nas esquinas buscando um “tiro” de
heroína, não terão que se preocupar com nós travando
uma luta eficaz por libertação. Enquanto nossos jovens
irmãos e irmãs negros e negras estiverem se drogando, o
domínio dos nossos opressores está seguro e nossas
esperanças por liberdade estão mortas. São os jovens que
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fazem a revolução e os jovens que a prosseguem. Sem


nossos jovens, jamais seremos capazes de forjar uma
força revolucionária. Nós somos os únicos capazes de
erradicar a praga da comunidade.
Não será tarefa fácil. Irá exigir esforço tremendo.
Deverá ser um programa revolucionário, um programa
do povo. O Black Panther Party atualmente está no
processo de formular um programa para combater a
praga. Será controlado totalmente pelo povo. Nós, o povo,
devemos esmagar a praga, e iremos. A droga é uma forma
de genocídio onde a vítima paga para ser morta.
Aproveitar a oportunidade! Intensificar a Luta!
Destruir a praga! Todo Poder ao Povo!

Um dos 21 preso político dos Panteras de Nova York


1969
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 191 |

Vocês podem matar o libertador,


mas não a libertação
Fred Hampton
Temos que começar falando do “cara”. O cara no
Black Panther Party, o cara na luta hoje – nos Estados
Unidos, em Chicago, em Cuba, e qualquer outro lugar –,
o cara na luta de libertação é o nosso Ministro de Defesa,
e o seu também, Huey P. Newton. Ele é o cara porque a
cabeça do polvo imperialista reside bem aqui nesse país
e quem estiver lidando com a cabeça do polvo
imperialista é o cara. Ele está na cadeia agora. Devemos
dizer ao mundo que Huey P. Newton foi julgado pelos
porcos e foi condenado. Foi julgado pelo povo, que não
o condenou, e disse “Deixe ele ir”, “Liberte ele”, porque
não o consideramos culpado. Essa é nossa demanda
inflexível. Não deixaremos passar um só dia, não iremos
desistir da luta para libertar nosso Ministro da Defesa,
Huey P. Newton e iremos continuar a pressionar a
estrutura de poder e constantemente bombardeá-la
com a exigência popular de que Huey seja solto.
Foi Huey P. Newton que nos ensinou como o
povo aprende. Você aprende pela participação. Quando
Huey P Newton começou, o que ele fez? Ele pegou uma
arma e encontrou Bobby que também pegou uma arma.
Eles tinham um problema na comunidade porque as
pessoas estavam sendo atropeladas – crianças estavam
sendo atropeladas – em uma certa intersecção. O que o
povo fez? O povo foi até o governo para remediar suas
exigências e o governo as mandou para o inferno: “Não
vamos colocar nenhum semáforo até nós julgarmos
adequado”. O que Huey P. Newton fez? Ele saiu e foi
avisar o povo sobre as leis e, escrevendo cartas, tentava
disseminá-las todo o tempo? Não! Um pouco disso é
bom, mas as massas populares não leem – eu ouvi Huey
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dizer isso –, elas aprendem através da observação e da


participação. Ele só disse isso? Não! Ele pegou um rifle,
procurou Bobby e deu a ele um martelo e foram para a
esquina. Ele deu o rifle a Bobby e disse que se qualquer
porco filho da puta viesse era para explodir os seus
miolos. O que ele fez? Ele foi até a esquina e colocou uma
placa de “pare”. Sem mais acidentes, sem mais
problemas. E depois que voltou, surgiu outra situação
como essa. O que o povo fez? Eles olharam, observaram;
não tiveram a chance de participar. Da próxima vez, o
que fizeram? O mesmo tipo de problema surgiu. O povo
pegou o seu rifle, a sua pistola e seus martelos. Como
aprenderam? Aprenderam pela observação e
participação. Eles aprenderam uma coisa. Quando tem
um incêndio, se reunem em torno do incêndio. Huey
pegou um rifle e todos se reuniram em torno dele e de
Bobby. Eles viram o que estava acontecendo e viram
uma chance de participar naquilo. Como líder de
vanguarda ele ensinou ao povo sobre a estrutura de
poder; orientou o povo em torno da via correta para a
revolução O que nós estamos fazendo?

Café da manhã para crianças


Nosso programa Café da manhã para crianças
está alimentando muitas crianças e o povo entende
nosso Programa. Nós dizemos algo assim – dizemos que
teoria é bom, mas a teoria sem a prática não vale de
nada. Você tem que ter ambas – as duas andam juntas.
Nós temos uma teoria sobre alimentar as crianças de
graça. O que fizemos? A aplicamos na prática. É assim
que o povo aprende. Muitos não sabem o quão sério a
coisa é. Eles pensam que as crianças que alimentamos
não estão com fome de verdade. Eu não sei se crianças
de 5 anos são bons atores, mas se elas não estão com
fome de verdade, então temos baita atores. Temos
atores de 5 anos que poderiam ganhar o prêmio da
academia de cinema. Semana passada eles ficaram a
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 193 |

semana toda falando da fome em Chicago. Falando da


taxa de fome aqui que subiu 15%. Aqui onde todos
deveriam estar comendo. Por que? Por causa do
capitalismo.
O que estamos fazendo? O Programa de Café da
Manhã para Crianças. Estamos o executando sob uma
orientação socialista. O povo veio e aceitou nosso
programa, o viu sob uma bandeira socialista sem nem
saber o que é socialismo. O povo irá aceitar nosso
programa e nos dizer para prosseguir a um nível
superior. Eles irão pegar esse programa e executá-lo de
maneira socialista. O que o porco disse? Ele disse “hey,
nigger, você gosta de comunismo?”, “não senhor, eu
tenho medo dele”, “você gosta de socialismo?”, “não
senhor, tenho medo dele”, “você gosta do Programa Café
da manhã para crianças?”, “sim senhor, morreria por
ele”. O porco disse “nigger, esse programa é um
programa socialista”. “Eu não dou a mínima se é
comunismo. Se você colocar suas mãos nesse programa,
eu explodo seus miolos”. E ele sabia disso. Nós
estávamos o educando, não pela leitura, mas pela
participação e observação. Deixando ele vir e trabalhar
em nosso programa. Não pela teoria e somente a teoria,
mas pela teoria e prática. Os dois andam juntos. Não
apenas pensamos na teoria marxista-leninista – a
aplicamos na prática. É disso que se trata o Black
Panther Party.

Subversivos
Algumas pessoas falam muito de comunismo,
mas o povo não pode compreender e passar para a etapa
do comunismo de imediato ou por conta de argumentos
abstratos. Dizem que você tem que engatinhar antes de
andar. E o Black Panther Party, como o partido de
vanguarda, pensou que o Programa Café da Manhã para
Crianças era a melhor técnica de engatinhar que
qualquer partido de vanguarda poderia seguir. E temos
|194 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

muitos outros companheiros que irão andar. E depois


uma série de companheiros que irão correr. E quando
você tem isso, o que você tem? Você tem um monte de
porcos que estarão correndo. É sobre isso que se trata
nosso programa.
O Black Panther Party se trata da revolução
completa. Não vamos deixar pela metade. E podem
deixar os porcos sabendo. Eles vêm até aqui e se
escondem – ficam sentados com um gravador e com a
arma escondida em seus cabelos – eles têm que
esconder tudo isso, vem aqui e fazem essas ações
bizarras. Tudo que eles têm que fazer é ir até a West
Madison, 2350, qualquer dia da semana e qualquer um
lá o deixará sabendo: sim, somos subversivos.
Subvertemos essa merda que enfrentamos hoje. Tão
subversivos quanto qualquer um pode ser subversivo. E
pensamos que eles é quem são os criminosos. São eles
que sempre estão se escondendo. Nós estamos no
fronte. Nós que estamos aparecendo abertamente, esses
filhos da puta deveriam começar a usar uniformes. Eles
querem saber se os Panteras vão fazer ações
clandestinas – esses filhos da puta são clandestinos.
Vocês não podem encontrá-los. As pessoas os chamam
de porcos, mas ninguém sabe onde eles estão. Eles estão
nos perseguindo. Estão se escondendo – ninguém pode
vê-los.
Quando o povo tem um problema, eles vêm até o
Black Panther Party procurando por ajuda e isso é bom.
Porque, como Mao diz, nós devemos ser guiados pelo
povo e Huey diz que seremos guiados pelo caminho da
revolução social e essa é para o povo. O povo deve saber
que o Black Panther Party é 100% para o povo. Eles
escrevem muitos artigos, e vocês sabem, os niggers irão
correr até vocês em um minuto – quando digo nigger me
refiro aos brancos como os negros – e falar daquilo
“Cara li no Tribune hoje”, e bom você responde “Cara
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pare agora mesmo. Se você não leu no Black Panther ou


no The Movement, você não leu nada”.

Mickey White
Nós no Black Panther Party temos outro irmão
que usar um tempo para falar dele. Esse irmão está
constantemente em nossas mentes. O nome desse irmão
é Michael White – Mickey White. Esse irmão é lindo. Ele
está na prisão agora com uma fiança de 100 mil dólares.
Alguns de vocês que escutam o rádio devem ter ouvido
sobre os irmãos na célula estadual, nosso Capitão de
Defesa, o irmão Nathaniel Junior e o irmão Merrill
Harvey terem sido pegos em uma acusação falsa com
relação às armas. Não afirmamos que os Panteras não
queremos armas, mas já temos armas e não temos que
roubar ou persuadir para comprar armas de ninguém. O
que estão tentando fazer é eliminar o Black Panther
Party – eles estão tentando eliminar a liderança.
Tentando eliminar Bobby Rush, o Vice-Ministro de
Defesa. Tentando eliminar Chaka e Che, o Vice-Ministro
de Educação.
Mickey White estava naquela armação com
Nathaniel Junior e Merrill Harvey. Na semana passada,
quando estavam no tribunal, até o juiz disse, vocês todos
vão receber um julgamento justo, mereçam ou não. São
esses tipos de ações que estamos enfrentando. Mickey
White está na solitária e não pode sair da sua cela por
nada em nenhum momento. E ele pode ficar preso a vida
toda. Sua fiança é de $100 mil. Mickey White é um
revolucionário testado. Ele não é alguém que pensa que
vai virar revolucionário. Não é alguém que estamos
tentando fazer com que seja um revolucionário. É um
revolucionário forjado. Todos vocês têm que
compreender que Mickey White é um Pantera na
ideologia, é um Pantera nas palavras, e é um Pantera nas
ações. É um Pantera que entende que é uma luta de
classes – não é uma questão de raça. Vocês têm que
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entender as pressões que o Black Panther Party sofre ao


afirmar isso. Vocês podem ver a pressão que o Black
Panther Party enfrenta pela coalizão com brancos.
Quando o Black Panther Party se impôs e disse
que não iríamos combater o racismo com racismo, o US
disse “não, não podemos fazer isso porque é uma
questão de raça e se a tornarem uma luta de classes,
então a revolução pode vir mais cedo. Nós no US não
estamos preparados para uma revolução porque
pensamos que o poder político cresce da manga de um
dashiki”. Eles estão armados com a retórica e somente
com a retórica. E nós descobrimos que quando você está
armado só com a retórica muitas vezes acaba se
machucando. Eldridge Cleaver disse que ainda que se
diga que se combate fogo melhor com fogo, pensamos
que se combate fogo com água. Você pode escolher
qualquer um, mas nós escolhemos combater o fogo com
água. Ele disse que não iremos lutar contra o racismo
com racismo, iremos lutar contra o racismo com
solidariedade. Mesmo que vocês pensem que se deva
combater o capitalismo com o capitalismo negro,
iremos lutar contra o capitalismo com o socialismo.
Temos muitas pessoas sendo presas, e vocês nem sabem
de todas essas pessoas. Existe um que vocês
definitivamente têm que conhecer que é nosso Vice-
Ministro de Defesa, Bobby Rush. Rush foi preso em uma
besteira com algo sobre armas. Ele recebeu três
acusações de armas. Ele foi condenado em uma por seis
meses. Está solto por recurso agora. Eu sei que muitos
de vocês dizem, poxa, vocês têm um fundo de defesa
para Eldridge Cleaver, um fundo de defesa para Merrill
Harvey, um fundo de defesa para Nathaniel Junior, um
fundo de defesa para Huey Newton, um fundo de defesa
para Fred Hampton, Jule, Che, e Chaka – e eu não consigo
acompanhar todos esses fundos de defesa. Mas já que
somos o partido de vanguarda, tentamos fazer as coisas
certo, então formamos um fundo de defesa para que
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 197 |

vocês não se confundam para qual nome enviar. Nós


iremos decidir para quem vai. Vocês podem só enviar
para Fundo de Defesa Político, 2350, West Madison. Se
quiserem enviar algo para o Café da Manhã para
Crianças, podem enviar para West Madison, 2350,
também, e podem identificar que aquele dinheiro vai
para o programa de Café da Manhã para Crianças.
Temos Mickey em nossas mentes hoje a noite – e
todos sabem que temos Huey P. Newton em nossas
mentes. Em nossas mentes temos todos os presos
políticos hoje à noite. Eldridge Cleaver – todas essas
pessoas sejam mortas, ou em exílio, ou nas prisões.
Muitos entendendo isso irão perder a confiança real na
vanguarda por não entender do que estamos falando.
Muitas dessas pessoas em minutos irão até você falando
“Porque todas essas pessoas foram presas, porque não
atiraram nos porcos”. Bom, o que respondemos? Se você
executa alguns, você se satisfaz um ouco. Mas quando
você pode executar todos, então você tem satisfação
plena. É por isso que ficamos parados. Temos que
organizar o povo. Temos que educar o povo. Temos que
armar o povo. Temos que ensiná-los sobre o poder
político revolucionário. Então quando eles entenderem
que não iremos executar alguns poucos para obter
pouca satisfação, estaremos executando todos eles e
obtendo a plena satisfação.

Seguir com o povo


Então o que devemos fazer se somos a
vanguarda? O que é correto fazer? É correto para a
liderança daquela luta ir mais acelerada do que os
seguidores da luta podem ir? Não! Não caíremos no
vanguardismo e não cairemos no reboquismo.
Afirmamos que a velocidade que o povo possa ir, é o
quão rápido podemos correr. Enquanto aplicamos isso
devemos ter certeza que não estamos nos perdendo do
povo no vale.
|198 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

No vale, sabemos que podemos aprender a


entender a vida do povo. Sabemos que com todos os
problemas, vocês podem se considerar no cume da
montanha. Eu mesmo posso me considerar um dia no
topo da montanha. Eu já posso ter chegado lá. Mas eu sei
que no vale estão pessoas como Benny e tem pessoas
como eu, pessoas como Mickey White, e pessoas como
Huey P. Newton e Bobby Seale. E ainda mais abaixo do
vale tem pessoas como Bobby Hutton e Eldridge
Cleaver. Sabemos que ir até o vale é algo perigoso.
Sabemos que quando você vai para o vale, você tem que
ser comprometer.
Muitas pessoas pensam que a revolução é
besteira, mas não é. Muito de nós pensam que quando
você entra na revolução, você pode fazer as coisas do
seu jeito, mas não é verdade. Perguntem a Bobby
Hutton, perguntem a Huey Newton, perguntem a
Eldridge Cleaver, Mickey White e Denis Mora. Pergunte
a essas pessoas se é um jogo. Se você se envolve na luta
revolucionária, então você tem que ser sério. Você tem
que saber o que está fazendo. Você já tem que ter
praticado algum tipo de teoria. É por isso que pedimos
ao povo para seguir a liderança do partido de
vanguarda. Porque estamos teorizando e estamos na
prática. Cometemos erros, contudo estamos sempre os
corrigindo e sempre ficando melhores.
Nós costumávamos sair falando do poder
Pantera – poder para os Panteras. Nós admitimos que
cometemos erros. Nosso Programa de Dez pontos está
em processo de ser alterado agora, porque usamos a
palavra “branco” quando deveríamos ter usado a
palavra “capitalista”. Nós somos os primeiros a admitir
erros. Não falamos mais Poder Pantera porque não
acreditamos que os Panteras deveriam ter todo o poder.
Não defendemos a ditadura dos panteras. Não
defendemos a ditadura do povo negro. Defendemos a
ditadura do povo. A diferença entre o povo e a
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 199 |

vanguarda é muito importante. Vocês têm que entender


que o povo segue a vanguarda. Vocês têm que entender
que o Black Panther Party É a vanguarda.
Se vocês querem ir até o povo, vocês têm que
entender que a vanguarda dirige o povo. Após a
revolução social, através de nossos programas
educacionais – que estão crescendo – o povo é educado
ao ponto de conseguir dirigir por si mesmo. É isso que
se chama educar o povo, organizar o povo, armar o povo
e trazer o poder político revolucionário. Isso significa
poder do povo. Isso significa a revolução do povo. E se
vocês não querem se envolver com a revolução do povo,
então vocês têm de fazer alguma coisa. Vocês têm que
apoiar a revolução do povo.

Satisfação plena
O Black Panther Party é o partido de vanguarda.
É melhor você entrar no Black Panther Party. Se você
não consegue entrar, então é melhor você seguir o
Partido. Se você não consegue seguir, então é melhor
você seguir alguém para que pelo menos você consiga
seguir indiretamente. Não estamos lhes pedindo para
vocês falarem aos porcos para nos deixar em paz.
Sabemos que os porcos estão se metendo conosco
porque estamos fazendo alguma coisa. Porque muitos
escrevem artigos sobre. Eu sei que alguns grupos
revolucionários dizem que esses niggers estão andando
por aí falando essas coisas - os safados do PL falando
essas besteiras não conseguiram nem achar coisas para
criticar. Eles estavam tão longes da realidade. O que eles
estavam fazendo? Organizando marmotas, educando e
armando marmotas e ensinando-as sobre o poder
político revolucionário.
Eu digo que fomos o primeiro grupo a ir para a
superfície onde o povo pode te ver e te seguir. E se você
comete um erro é melhor do que nem aparecer. Quando
eu cometo um erro, eu cometo para o povo, e eu o corrijo
|200 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

para o povo. Você não ouve falar que teve uma invasão
na sede do PL na noite passada. Você nunca ouviu falar
disso. Quando você ouve falar que prenderam membros
do PL em Nova York, que o líder do PL foi preso em uma
cela sem barras, que o dirigente do PL fugiu do país, que
atiraram 18 vezes no dirigente do PL quando ele estava
fugindo de costas com suas mãos amarradas, que o
dirigente do PL dá café da manhã para 1800 crianças
por semana. Vocês já ouviram falar? Nunca ouviram. Eu
quero ouvir. Se vocês ouvirem, será por conta da direção
do Black Panther Party. Eu não estou falando todas
essas coisas e afirmando que o PL não sabe delas. Mas
estou afirmando que quando escrevem algo como isto,
muitos não entendem. E eu queria tomar tempo para
explicar. Existem algumas coisas que o PL diz que são
válidas. Não me entendam mal. Não ficamos bravos
porque em algum ou outra medida o PL tenta aprimorar
o Black Panther Party ao tentar criticá-lo. Mas apenas
quero que vocês saibam, nada está totalmente certo ou
totalmente errado. Não estamos plenamente certos –
ainda que estamos tentando chegar nesse caminho.
Cometemos erros, entendemos que iremos cometer
alguns erros. E iremos tentar corrigir esses erros para
seguir adiante.
Então o que afirmamos? Não mandem os porcos
contra nós porque podemos aguentar eles. Devíamos
deixar prenderem Mickey White, assassinar Bobby
Hutton, expulsarem Eldridge Cleaver do país.
Por que? Porque você pode prender um
revolucionário, mas não pode prender a revolução. Você
pode expulsar do país um lutador pela liberdade, mas
não pode expulsar a luta pela liberdade. Você pode
matar o libertador, mas não a libertação.
Executem alguns e consiga um pouco de
satisfação. Executem mais alguns e você obtém mais
satisfação. Execute todos e você obtém plena satisfação.
Nós falamos “Todo Poder ao Povo” – poder negro para o
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 201 |

povo negro, poder marrom para o povo marrom, poder


vermelho ao povo vermelho, e poder amarelo ao povo
amarelo. Dizemos até poder branco para o povo branco.
E falamos Poder Pantera para o partido de vanguarda e
dizemos não execute alguns poucos e não executem
mais alguns. Na realidade, nós preferimos que vocês não
se movam até verem que estamos prontos para nos
mover, e quando vocês verem que estamos prontos para
nos mover, saberão que não estamos lidando com
poucos, e nem com mais alguns. Vocês sabem que
quando ficarmos prontos para nos mover, estamos
lidando com satisfação plena, total, para todos, para
tudo – é isso que estamos procurando.

Discurso de Fred Hampton


1969
|202 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Sobre a crítica à Cuba


Existem dois tipos de crítica, a crítica
revolucionária e a crítica reacionária. A crítica
revolucionária é feita com base em princípios, no
momento correto, quando as condições objetivas e
subjetivas estão corretas, e é feita para atingir um maior
grau de unidade e fortalecer o campo revolucionário. A
crítica reacionária geralmente assume a forma de
ataque pessoal, por conta de alguma mágoa pessoal. Ela
é geralmente uma crítica unilateral baseada em uma
análise subjetiva, sem ter examinado a situação por
todos os lados e a crítica reacionária só serve aos
interesses dos fascistas e imperialistas.
Sobre a questão do socialismo e do racismo, o
Black Panther Party não disse, nunca, que se o
socialismo for instituído o racismo automaticamente
acaba. Embora alguns críticos do Partido – a saber
Stokely Carmichael – tenham insinuado que é nossa
posição. O que dizemos é que em uma sociedade
socialista condições são mais favoráveis para começar a
luta para eliminar o racismo.
Cuba, a 90 milhas da Flórida em que lançam
aqueles foguetes para Saturno, com uma base naval dos
EUA, Guantánamo, bem na sua ilha, está lutando pela
defesa do povo cubano e a sua revolução debaixo de um
bloqueio econômico que é asfixiante e promete
aumentar. Vemos a Revolução Cubana como uma
grande conquista da revolução mundial, ao estabelecer
uma ilha de socialismo em um oceano, o hemisfério
ocidental, de exploração capitalista, agressão
imperialista e repressão fascista. Desejamos ao povo
cubano vitória na sua luta contra o bloqueio e que o
povo cubano atinja seu objetivo de 10 milhões de
toneladas na sua colheita de cana-de-açúcar de 1970.
Não nascemos em solo cubano. Alguns membros do
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 203 |

Black Panther Party usaram Cuba como meio de escapar


da repressão fascista na Babilônia, e eles estão bem,
vivos e livres hoje. Não seria no interesse de Cuba ou no
da revolução mundial começar a lançar ataques a Cuba
porque não conseguiram eliminar todas as formas de
racismo nos dez anos desde que a sua revolução
socialista começou. A regra central do Black Panthers
Party diz: “Tenha fé no povo, tenha fé no Partido”. Esse
princípio não deve ser aplicado apenas na Babilônia,
mas por todo o mundo. Com base nele e partindo do
materialismo histórico, sabemos que Cuba, os Estados
Unidos e o mundo se livrarão do racismo, e que os
últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os
últimos.
Todo Poder ao Povo!

publicado no Black Panther


27 de dezembro de 1969
|204 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Se querem a paz, vocês têm que lutar


por ela
David Hilliard
Há muitas bandeiras americanas aqui, e o
nosso Ministro da Informação, Eldridge Cleaver, diz
que a bandeira dos Estados Unidos e a águia
americana são os reais símbolos do fascismo. Todo
Poder ao Povo! Black Power para o povo negro,
poder marrom para o povo marrom, poder vermelho
para o povo vermelho, poder amarelo para Ho Chi
Minh e o camarada Kim Il Sung, o corajoso líder das
40 milhões de massas do povo coreano. O Black
Panther Party assume a posição de que queremos
que todo homem negro seja isento do serviço militar
e que acreditamos que o povo negro não deveria ser
forçado a combater no exército para defender um
governo racista que não nos protege. Não iremos
combater e matar outros povos de cor do mundo, que
assim como o povo negro são vítimas do
imperialismo estadunidense em âmbito
internacional, e internamente do fascismo. Então,
reconhecendo isso, o fascismo, a ocupação dos
porcos na comunidade negra, se torna evidente que
ocorre uma guerra aqui, uma guerra de genocídio
sendo levada a cabo contra o povo negro aqui mesmo
na América.
Então, nós gostaríamos de perguntar ao povo
americano se querem paz no Vietnã. Vocês querem?
(público) “Sim”. Vocês querem paz nas comunidades
negras? (público) “Sim”. Bem, vocês podem ter
certeza que não irão conseguir com guitarras, nem
protestando. A única forma de vocês conseguirem a
paz no Vietnã é expulsarem as forças opressoras da
comunidade negra na Babilônia. Então temos uma
sugestão, uma proposta, mensagem para isso. Temos
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 205 |

uma petição que estamos circulando a nível nacional


para controlar os porcos na comunidade negra; e
sabemos que eles não vão sair de lá pela sua vontade.
Sabemos que não pararão de assassinar os negros na
comunidade. Reconhecemos que os brancos são
oprimidos na comunidade branca então a nossa
petição é aplicável na comunidade deles. Mas temos
que traçar distinções em termos de perigo menor e
Maior. Dizemos que o maior perigo está aqui na
América porque a comunidade negra é um território
ocupado e os porcos da estrutura de poder estão
assassinando o povo negro com a mesma falta de
escrúpulos, afronta e ódio que assassinaram o povo
do Vietnã. Não iremos deixar vocês contornar isso.
Não deixaremos vocês falar de realizar uma luta em
apoio a um povo que está 10 mil milhas daqui,
quando têm problemas aqui na América fascista.
Vemos que muitas pessoas não gostam e pensam que
o Black Panther Party está inventando coisa, que
distorcemos a história quando dizemos que este país
é fascista. Mas penso que alguma re-avaliação da sua
história irá mostrar a vocês, o povo americano, que a
história deste país anuncia e estabelece uma
precedência que nenhum fascismo já teve na história
do mundo.
Adolf Hitler era um fascista. O homem era um
animal. um monstro. Era um chauvinista, um senhor
da guerra. Adolf Hitler não criou a Legião Negra. O
povo negro era assassinado e escravizado aos
milhões antes mesmo de Hitler ter surgido. Os povos
vermelhos foram exterminados neste país e Hitler
não foi responsável por isso. Então esse país tem uma
história manchada de sangue. Este país é um país que
foi construído pela guerra, foi construído nas ruínas,
no sangue e suor de seu povo negro. Então, a história
do Black Panther Party, a ideologia do Black Panther
Party não é nada mais do que as experiências
|206 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

históricas do povo negro traduzidas pelo caminho do


marxismo-leninismo. Porque nós reconhecemos que
o marxismo-leninismo não é uma filosofia para os
russos, não é uma filosofia para os chineses, é uma
filosofia para qualquer povo que queria combater
uma estrutura de poder opressora tal como é o
sistema capitalista fascista da sociedade americana.
E nós adotamos isso. E estamos a colocando em
prática porque é provado sem dúvida que está
verdadeiramente a serviço do proletariado.
Apenas gostaríamos de perguntar ao povo
americano, à todas as mães aqui, esposas que têm
maridos que são prisioneiros de guerra, que caíram
em combate, vocês querem que seus filhos voltem?
Vocês querem que seus filhos voltem? (público)
“Sim”. Bom, temos uma proposta para isso. Nosso
Ministro de Informação, Eldridge Cleaver, está na
Argélia. Ele passou dois meses na Coreia, na
Conferência de Jornalistas de Pyongyang, e lá
conversou com membros da Frente de Libertação
Nacional do Vietnã. Então propomos as mães cujos
filhos são prisioneiros ou esposas cujos maridos
caíram que enviem seus nomes e documentos para o
Black Panther Party e entregaremos para o Ministro
de Informação do Black Panther Party e iremos
começar a negociar a liberdade de Huey P. Newton e
Bobby Seale, porque eles são presos políticos do
fascismo dos EUA. É assim que queremos ajudar o
povo. Se vocês podem se identificar com isso, então
podemos nos identificar com o povo americano. Se
vocês não podem se associar com a liberdade para
nosso Presidente Bobby Seale e Ministro de Defesa
Huey P. Newton, então não podemos nos associar ao
povo americano. Dizemos abaixo à sociedade fascista
americana. Tarde para Richard Milhous Nixon, este
filho da puta. Tarde para todos os porcos da
estrutura de poder. Tarde para todos aqui que não
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 207 |

querem me ouvir xingar porque é tudo isso que eu


sei fazer. É tudo isso que eu vou fazer. Eu nunca vou
parar de xingar, não apenas iremos xingar, como
iremos por em prática o que falamos. Porque Richard
Nixon é um homem terrível. Este é o filho da puta que
lançou os grupos contra-insurgentes para cima do
BPP.
É o homem responsável por todos os ataques
contra o Black Panther Party nacionalmente. É o
homem que manda seus perversos cachorros
assassinos para a comunidade negra e invade os
Programas de Café da Manhã do Black Panther Party.
Destroem a comida que damos para crianças
famintas e esperam que aceitemos isso. Foda-se esse
bosta. Iremos matar Richard Nixon. Iremos matar
qualquer filho da puta que estiver no caminho da
nossa liberdade. Não estamos aqui pela paz, porque
sabemos que não podemos ter paz, pois esse país foi
construído sob guerra. E se você quiser paz você tem
que lutar por ela.

Discurso em protesto em São Francisco 15


de novembro de 1969
|208 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

A Ideologia do Partido
dos Panteras Negras
David Hilliard

A ideologia do Partido dos Panteras Negras é a


experiência histórica do povo negro nos Estados
Unidos vista através do marxismo-leninismo.
Quando revemos o passado do povo negro
neste país, vemos que depois de 400 anos somos
vítimas da máquina opressora que amordaça, prende
e aprisiona homens negros que falam em defesa dos
seus alegados direitos constitucionais.
Muitas pessoas se surpreendem com o que está
acontecendo com o Presidente do Black Panthers
Party, Bobby Seale, mas eu penso que uma análise
cuidadosa de quem são nossos perseguidores irá
esclarecer as mentes das massas do povo que não
puderam ir além da cortina de fumaça do dito
judiciário.
Estas pessoas que torturaram, amordaçaram e
prenderam Bobby são os descendentes dos piratas;
assassinos genocidas dos peles vermelhas;
operadores da bomba atômica contra o povo japonês.
Os escravizadores e exploradores dos negros
neste país até hoje.
O BPP desde a sua criação sempre usou a arma
do exemplo para educar as massas.
Quando o Ministro de Defesa Huey P. Newton
enviou uma delegação de Panteras armados para o
Capitólio do Estado da Califórnia, isto foi um processo
de educar o povo pelo exemplo de que os negros não
tinham seus direitos garantidos pela Constituição de
portar armas em defesa das suas vidas contra gangues
racistas e fascistas de uniforme ou sem.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 209 |

Assim, então Huey P. Newton declarou que “um


povo desarmado ou é escravizado ou submetido à
escravidão a qualquer momento”.
Dada a situação que se encontra Bobby, é claro
como a água o que quis dizer. Eu penso que
deveríamos retomar para a legalidade da Constituição
americana quanto ao povo negro.
A retórica da Constituição no primeiro
parágrafo nunca valia para pessoas de ascendência
africana.
Após violarem os direitos de Bobby, garantidos
pela primeira emenda, os seus direitos da 8ª emenda
e daí em diante da 6ª, 13ª e 14ª emendas, me parece
que a coisa toda é inválida no que tange aos negros em
particular.
“Então quando estamos falando da ideologia
dos Panteras Negras, estamos falando das
experiências dos negros na América racista, fascista”.
Enquanto nos prendermos apenas na teoria,
sem nunca experimentarmos por nós mesmos a
realidade das leis dos tribunais deste sistema,
devemos esperar mais Bobby Seales, mais tratamento
cruel e desumano.
Devemos lembrar que este país é governado
por uma oligarquia escravista e bandidos que não tem
nenhum respeito pelo seu povo, seja branco ou negro;
seu interesse é o capitalismo.
Então quando falamos da ideologia dos
Panteras Negras, estamos falando das experiências
dos negros na América racista e fascista.
Às vezes é difícil entender como pessoas
reagem ao termo fascista.
Eles pensam que os fascistas foram embora
quando os hitleristas foram derrotados.
Eu me relaciono com o que Eldridge afirmou,
que “a bandeira americana e a águia americana são os
verdadeiros símbolos do fascismo”.
|210 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

A história americana tem um jeito de justificar


este sistema usando a Alemanha como o inimigo mais
perverso da humanidade, isto talvez seja verdade
para o povo de descendência judaica.
Mas quando vemos realmente a história, a
começar pelo genocídio dos indianos, os 50 milhões
de negros massacrados pelo opressor quando
arrastados contra sua vontade pela ponta das armas,
cerca de 400 anos atrás, bem aqui nos EUA.
E então lembramos da guerra imperialista e
genocida contra o povo vietnamita, a queima de
negros na cruz sagrada da Cristandade.
Então fica mais fácil demonstrar quem são os
verdadeiros chefes do fascismo, imperialismo,
racismo; e a demanda de Bobby Seale pelo direito à
autodefesa.
Imaginem o quão criminosos e culpados estas
pessoas devem ser para descer até o último degrau de
injustiça, na grosseira violação dos direitos humanos
do Presidente do Black Panthers Party; em uma época
que todos os povos oprimidos do mundo estão
pegando em armas contra seus opressores.
Então, para o povo americano, traçamos a sua
primeira aula de educação política.
O corredor da justiça dos porcos, os tribunais
onde homens negros são enviados coercitivamente da
Califórnia para Chicago, porque estes porcos que
julgam outros homens e mulheres, particularmente
homens e mulheres negros e negras, é que são os
culpados.
As leis que tentam nos fazer respeitar são leis
opressoras, escravistas, leis que os protegem e nos
perseguem.
Eu penso que acima e além do velho desonesto
juiz e da mordaça, Bobby deixou uma marca nas
mentes de todos aqueles que se referem às palavras
sem fazer perguntas.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 211 |

Então dizemos isso mesmo, Presidente Bobby,


por, sem ter falado uma palavra, ter exposto a farsa
racista, fascista, horrenda do patriotismo manifesto
no Juiz J. J. Hoffmann, o inimigo número 1 do povo.
Recordem daquele velho filho da puta e racista
do Hoffman, de falar aos porcos do aeroporto de
Chicago O’Hare de tirar a placa que diz “o que você é,
fale tão alto que eu quase não ouço nada que você está
dizendo”.

David Hilliard, Chefe de gabinete do


Partido
discurso no julgamento de Bobby Seale
(Presidente do BPP)
|212 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Venceremos!
Carta de Afeni Shakur da prisão
Pensamos que vocês estão nos indiciando,
detendo, encarcerando, julgando e provavelmente
condenando baseados em uma imagem de nós que
receberam da imprensa, e sabemos que essa
imprensa não apenas é duvidosa como brutalmente
racista.
Pensamos que antes de continuarmos, uma
vez que são nossas vidas que estão em perigo,
gostaríamos de compartilhar alguns fatos sobre a
nossa organização, seus objetivos, e porque essas
acusações são não apenas ilegais e inconstitucionais,
mas também ridículas, para dizer o mínimo.
O Black Panther Party foi fundado três anos
atrás em Oakland, Califórnia, por Huey P. Newton –
ou não? Os próprios historiadores dos Panteras
Negras discutem com relação ao início e ao espírito
do partido.
Alguns dizem que começou há mais ou menos
400 anos, quando vocês decidiram pela primeira vez
que não éramos seres humanos.
Outros atribuem os fundadores aos 100
milhões ou mais que vocês mataram nos navios
negreiros. Outros, o atribuem a Gabriel Posser,
Denmark Vesey, Nat Turner e, é claro, Toussaint
L’Ouverture. Alguns dizem até mesmo que começou
na época da lei do escravo fugido e a decisão de Dred
Scott.
Mas todos concordam que esse espírito está lá
e esteve por um bom tempo. E todos concordam
sobre a sua adaptação moderna – que Frantz Fanon
colocou no papel, Malcolm X colocou em palavras e
Huey P. Newton colocou em prática. É um espírito
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 213 |

que foi sufocado por séculos, mas que não pode e não
vai mais ser sufocado.
Sabemos que vocês estão nos julgando porque
somos a verdade e porque não podem nos controlar.
Sabemos que vocês sempre tentaram destruir o que
não podem controlar. Sabemos que vocês têm medo
de nós porque representamos a verdade do universo.
Não estamos sendo julgados por nenhuma
ação aberta nem por tentar cometer uma ação aberta
– estamos sendo julgados por colocar em nossas
mentes o foco nas ideias dos séculos e tentar
transformar esse conhecimento em um plano
executável para libertar nosso povo da opressão.
Estamos sendo julgados apenas porque não temos
medo de vocês. Sabemos da sua história de mentiras,
enganação e escravidão. Sabemos que vocês agora
mantêm 80% do mundo na escravidão. Sabemos
como vocês jogam nação contra nação, tribo contra
tribo, irmão contra irmão. Sabemos que vocês são
sanguinários, impiedosos e desumanos. Vimos vocês
justificarem os crimes mais desumanos – o pior de
todos sendo a destruição dos corações e mentes dos
homens. Conhecemos a sua ganância. Sabemos que
10 mil bases militares não fazem desse um “mundo
livre”, a não ser que seja livre para sua exploração e
imperialismo. Quantas civilizações vocês
destruíram?
Neste país, sabemos que não somos cidadãos
de segunda classe – sabemos que não somos cidadãos
de modo algum. Sabemos que a 13ª, a 14ª e a 15ª
emendas não nos libertaram – que apenas
legalizaram a escravidão e expandiram a decisão de
Dred Scott para incluir os índios, os que falam
espanhol e os brancos pobres. Sabemos que as coisas
não melhoraram, apenas pioraram
progressivamente. Sabemos que esses são os
tribunais, a justiça e as leis do homem rico. São o seu
|214 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

céu e o seu ar – só podemos olhar para ele e respirar


se disser que podemos. Sabemos que a riqueza não é
fruto do trabalho, mas resultado de um roubo
organizado e protegido. Mas vocês ensinam os
pobres trabalhadores a serem honestos. Sabemos
que o todo-poderoso dólar, que todos são ensinados
a adorar, só é garantido pela escravidão e pela
exploração. Sabemos que vivemos em um mundo
desumano em sua pobreza. Sabemos que somos uma
colônia, vivendo sob o imperialismo em nossa
comunidade. Os EUA que vemos não são um país de
liberdade, beleza e sabedoria, mas de medo, terror e
ódio. Essa é uma nação com as suas leis, tocada pela
sua polícia e baseada na proteção da sua força
econômica. Os pobres são política, econômica e
legalmente inexistentes, e é por isso que nas prisões
80% dos presidiários são não-brancos e são todos
pobres. Ainda assim, mesmo os seus sociólogos e
criminologistas admitem que 80% deles são
inocentes.
Vemos esse tratamento desumano, mas nos
dizem que não. Vemos que homens são espancados
até a morte em presídios, mas se diz que morreram
de “causas naturais”, mas somos mentirosos. Assim
como sempre se presume que somos culpados.
Ouvimos o juiz nos dizer que “a lei não se aplica a
vocês”, mas isso não está nos autos, e é claro que
estamos mentindo. Nascemos mentirosos e
criminosos. Sabemos que somos inocentes, mas
somos mentirosos. O povo sabe que somos inocentes,
mas o povo não conta. Os guardas e até mesmo os
capitães dos guardas sabem que somos inocentes,
mas não podem testemunhar. Eles perderiam seus
empregos. Podemos provar que somos inocentes.
Mas nos perguntamos se isso realmente importa.
Podemos provar em detalhes, e iremos provar, mas
justamente, em geral, as acusações contra nós nesse
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 215 |

processo são ridículas e são contraditórias com


nossas crenças básicas. Nunca fomos perguntados,
como um povo, se gostaríamos de ser governados
pelo seu Deus, as suas leis, a sua justiça, os seus
costumes, a sua fala, as suas roupas e a sua ética. Não
queremos. Não temos nenhum respeito por eles. Não
respeitamos suas leis, impostos, sua gratidão,
sinceridade, honra, dignidade – tenham vocês o
respeito por elas. Vocês não nos respeitam –
portanto, não respeitamos vocês.
Admitimos que não queremos que vocês nos
“ascendam” para sermos trabalhadores que só são
livres o suficiente para vender os seus trabalhos para
vocês. Não seremos mais ou seus assassinos – nem
seremos “ascendidos” para nos tornarmos seus
cúmplices. Vocês não irão reformar nem melhorar
esse sistema – pensamos que não pode ser
reformado e não queremos que seja melhorado –
exigimos que seja transformado. Percebemos que
vocês encheram o exército, as cadeias as listas dos
traficantes, com os nossos jovens – exigimos a sua
libertação. Percebemos que vocês não podem nos dar
o direito a nada; ou nós o temos ou não. Que devemos
ser independentes, que devemos deixar de ser
dependentes, agora. Não podemos simplesmente
fazer isso com moderação – isso é uma contradição e
uma impossibilidade – não se impede uma criança de
morrer de fome com moderação, você não detém um
assassinato com moderação. Percebemos que a
liberdade é um dever e é o nosso dever conquistar
essa liberdade para o nosso povo e para não recuar
para ninguém no processo de conquistá-la. Não
seremos mais pedintes. Vocês criaram o nigger, e
agora nós estamos o destruindo.
Sabemos que o seu sistema econômico é uma
corrente nos nossos pescoços e que estamos
rompendo todas as suas correntes.
|216 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Vamos nos identificar com as necessidades do


povo – os oprimidos. Vocês não querem que nós
governemos vocês, nem nós queremos que vocês nos
governem.
Vamos nos governar a nós mesmos, fazer
nosso próprio progresso, nossos próprios erros,
nossos próprios amigos e nossos próprios inimigos.
Vamos julgar os nossos nós mesmos.
Vamos corrigir as inimizades que vocês
criaram e transformar seus amigos em inimigos.
Vamos viver.
Vamos ter uma cooperação mútua humanista
e disciplinada como nosso objetivo. A questão se
torna: o Estado governa o povo ou o povo governa o
Estado? Vocês são o Estado e nós dizemos “Todo
poder ao povo” e o povo terá o poder.
Mas vocês tentarão nos deter. Vocês irão nos
oprimir até que paremos vocês e nós vamos parar
vocês.
A história mostra que as guerras contra a
opressão sempre são vitoriosas. E haverá uma guerra
– uma verdadeira guerra revolucionária – uma
guerra sangrenta. Ninguém, nem vocês, nem nós,
nem nenhuma outra pessoa nesse país pode evitar
que aconteça agora.
E nós venceremos. E admitimos tudo isso. Mas,
e isso é importante, quanto às acusações que vocês
têm contra nós, somos inocentes.
Vejam, por exemplo, que estudamos Malcolm
X – e ele disse: “eu acredito em qualquer coisa que
seja necessária para corrigir condições injustas...
acredito nisso por tanto tempo quanto isso for
dirigido de maneira inteligente e voltado para
conseguir os objetivos.
Mas não acredito em envolvimento em
qualquer tipo de ação política sem sentar e analisar
as possibilidades de sucesso ou fracasso”.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 217 |

Que sucesso poderíamos ter alcançado, que


resultados teríamos obtidos que poderiam
corresponder ao nosso objetivo? Vocês nos acusam
de termos conspirado para assassinar pessoas
inocentes através do terrorismo.
Vemos isso em si mesmo como um insulto a
nossa inteligência e nossa seriedade.
A técnica do terrorismo é sempre a mesma –
bombas – normalmente contra soldados e sempre
contra os nossos inimigos. As pessoas que compram
nas lojas não são nossas inimigas. Porque
desejaríamos machucar ou matar ou queimá-las?
Todos os trabalhadores e a maior parte dos lojistas,
especialmente em torno de Easter, são o nosso povo.
Como Frantz Fanon diz “a decisão de matar um
civil não é uma decisão fácil, e ninguém a toma
facilmente. Ninguém dá o passo de colocar uma
bomba em um lugar público sem uma guerra de
consciência”.
Porque faríamos isso?
O que nós teríamos ganhado como Panteras
Negras, enquanto povo negro, enquanto pessoas
pobres, como seres humanos? Não somos
melodramáticos – não somos, pelo menos não
voluntariamente, mártires e não somos loucos –
somos revolucionários, e como tais iremos fazer o
que for necessário e apenas o que for necessário –
quando e apenas quando essa ação levar adiante o
interesse de nossa luta. Tudo além disso, como nessa
acusação, é loucura.

Afeni Shakur é uma dos 21 Panteras em Nova York


acusados
de conspiração. A carta foi escrita durante a sua
prisão na
Casa de Detenção para Mulheres, com uma fiança
de $ 100 mil
|218 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 219 |

Sobre a viagem do Partido dos


Panteras Negras à Coreia Popular
Eldridge Cleaver
O Partido dos Panteras Negras, o movimento
antiguerra e um crescente número de progressistas dos
Estados Unidos enfaticamente rejeitam e repudiam o
governo fascista-imperialista dos Estados Unidos e sua
classe dominante. Escolhemos então lançar um
programa de Diplomacia do Povo para contrapor as
perpétuas conspirações perversas e criminosas do
Departamento de Estado do imperialismo norte
americano. A atual visita de nossa Delegação Anti-
imperialista dos Povos dos Estados Unidos marca a
inauguração pelo povo estadunidense deste programa de
Diplomacia do Povo. Acreditamos ser adequado para nós
lançar nosso programa com esta visita de solidariedade à
República Popular Democrática da Coreia, dado que foi
aqui na gloriosa e heroica RPDC a primeira vez que o
imperialismo norte americano sofreu uma derrota.
Acreditamos que quando o imperialismo finalmente for
derrotado e o livro de sua história sem glórias for
encerrado para sempre, se escreverão que foi no sagrado
solo do corajoso povo coreano onde foi programada a
morte e total destruição do imperialismo ianque. Nossa
delegação se sente honrada por ser recebida pelo povo
coreano e que nosso programa de Diplomacia do Povo
tenha recebido apoio tão poderoso e significativo. Se
todos os povos oprimidos e revolucionários do mundo
seguissem o exemplo do povo coreano, liderados pelo
perspicaz Comandante Genial Kim Il Sung, o sempre
vitorioso Camarada Kim Il Sung, então nosso programa
de Diplomacia do Povo terá enorme sucesso, e o
imperialismo estadunidense receberá um pungente e
significativo golpe.
|220 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Reconhecemos que os fronts da luta contra o


imperialismo estão aqui na Ásia. Vinte anos atrás o povo
coreano enfrentou uma batalha sangrenta, mas vitoriosa
contra as forças do imperialismo estadunidense. Por
quase um século o heroico povo vietnamita resistiu à
ofensiva dos japoneses e dos franceses, e agora às armas,
tanques e com as dos imperialistas dos Estados Unidos.
Ainda que sua luta tem sido dura, o povo vietnamita
empreendeu várias ofensivas bem-sucedidas contra os
agressores estadunidenses. Deram um heroico modelo
para a maioria da juventude dos Estados Unidos que
ingressou no movimento antiguerra. Agora os agressores
dos Estados Unidos jogaram sua chuva de bombas em
todo o povo da Indochina. Em um delírio, destruíram o
movimento histórico e sagrado de Angkor Wat. A CIA
arquitetou um golpe militar no Camboja, enquanto o
chefe de Estado Norodon Shandesh Sihanouk estava
viajando em visita à países fraternos, substituindo-o pelo
fantoche lacaio Lon Nol. Vendo que o heroico povo khmer
não cruzaria os braços enquanto o imperialismo
descaradamente instala este regime fantoche em seu
país, os imperialistas norte-americanos e seus fantoches
do Vietnã do Sul invadiram o território de Camboja.
Mas para cada ato de agressão do imperialismo
ianque, o bravo povo da Indochina deu uma resposta
apropriada e contundente. Desta vez formaram uma
frente militar unificada para coordenar todos os aspectos
da sua guerra de libertação. O monstro imperialista dos
Estados Unidos está tão desesperado contra a brava luta
do povo da Indochina que seus próprios movimentos de
ofensiva demonstram a situação de temor da
solidariedade e unidade dos povos da Ásia contra o
imperialismo estadunidense.
O povo da Indochina mais uma vez demonstrou
que mesmo o poder tecnológico dos Estados Unidos
sendo bastante considerável, o imperialismo
estadunidense está fadado a derrota. Huey P. Newton,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 221 |

líder do Partido dos Panteras Negras, captou esta ideia


em uma palavra de ordem: “o espírito do povo é mais
forte que a tecnologia do imperialismo ianque”.
Hoje as prisões dos Estados Unidos estão
superlotadas de presos políticos. Líderes do Partido dos
Panteras Negras como Huey P. Newton e Bobby Seale
apodreceram na cadeia porque se insurgiram em defesa
do povo. Outros foram vítimas de assassinato políticos
por parte das classes dominantes. Em um caso, o brutal e
sádico Departamento de polícia de Chicago invadiu à
noite a casa de um líder do Partido dos Panteras Negras,
Fred Hampton, e o executou enquanto dormia. Então
vemos que os métodos de terror e repressão assassina
são os mesmos onde o imperialismo dos Estados Unidos
coloca o pé, e tentam destruir a justa rebelião e
resistência do povo. O camarada Kim Il Sung disse que
“onde há opressão, há a resistência do povo”.
Aqui na Coreia encontramos um povo que aplicou
os fundamentos do comunismo e agora estão correndo
com a velocidade do método Chollima para transformar
sua sociedade em um paraíso na terra. E a única coisa que
impede o povo coreano de chegar a este paraíso é a
ocupação do exército dos agressores imperialistas dos
Estados Unidos.
Os imperialistas gostam de cantar uma música de
nome “Deus abençoe a América” e em cada cédula de
dólar se encontra o lema “In God we trust”, mas nem o
próprio Deus, caso existisse fora da mente de pregadores
e padres capitalistas, poderia salvar o imperialismo
norte-americano da inevitável derrota que os povos do
mundo estão preparando desferir contra ele. E queremos
mostrar ao mundo que os próprios povos dos Estados
Unidos estão cada vez mais ingressando as fileiras dos
coveiros que estão preparando o terreno onde será
enterrado o capitalismo, racismo, fascismo e o
imperialismo estadunidenses.
|222 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

O mês de julho foi um mês de comemorar a


vitoriosa luta do povo coreano contra o imperialismo
estadunidense. De todos os países fraternos e
movimentos de libertação de todo o mundo vieram
comunicados tenros ao povo coreano e ao Comandante-
Genial, camarada Kim Il Sung, expressando solidariedade
à sua valente luta contra os agressores imperialistas dos
Estados Unidos que dividiram seu grande país em dois.
Todos os povos progressistas e revolucionários do
mundo reconhecem que foi o povo coreano o primeiro a
fazer o imperialismo ianque tremer na base 17 anos
atrás.
Nesta ocasião, nós da Delegação Anti-imperialista
dos Povos dos Estados Unidos temos a honra de fazer
esta primeira viagem histórica à República Popular
Democrática da Coreia. Nossa visita aqui representa uma
enorme contribuição ao invencível Exército Mundial das
forças que combatem o imperialismo norte americano.
Porque não é apenas em cada canto da Ásia, África e
América Latina que os povos estão se insurgindo para
conquistar sua liberdade e seus direitos humanos mais
vitais; agora no coração da besta imperialista,
revolucionários da luta branca e negra estão se
encaminhando para derrubar o perverso sistema
capitalista que oprime o povo dos Estados Unidos e com
certeza é a maldição de todo o mundo.
Dado que vivemos todos os dias dentro dos
confins da besta imperialista – o grande inimigo de toda
a humanidade – compreendemos sua natureza de forma
bem clara. Em nosso país vemos sua opressão fascista e a
exploração capitalista das massas populares – negros,
mexicanos, povos nativos, asiáticos e brancos pobres.
Vemos a grande riqueza do nosso país ser roubada e
consumida pelos monopólios capitalistas sedentos por
lucro, enquanto crianças morrem de desnutrição.
Sabemos que por causa da natureza racista da América
imperialista, as pessoas são presas por nada mais do que
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 223 |

a cor da sua pele. Nossos camaradas foram assassinados


nas ruas por tropas fascistas contratadas que com
audácia clamam nos “servir e proteger”, e estudantes são
espancados e presos porque se recusam a ficar em
silêncio em face da opressão fascista e da agressão
imperialista.
Aqui na Ásia vemos com mais nitidez a outra face
do fascismo estadunidense, nomeadamente a agressão
imperialista. A questão não pode ser apresentada mais
claramente – nosso inimigo é um e o mesmo: o brutal
imperialismo estadunidense que cometeu injustiça,
desumanização, e exploração incalculáveis sobre os
povos de todo o mundo. Unidos com vocês através da
nossa determinação comum em trazer a morte final ao
imperialismo, nós da Delegação Anti-imperialista dos
Povos dos Estados Unidos, representando os
progressistas dos Estados Unidos, nos colocamos em
firme e militante solidariedade com os 40 milhões de
coreanos sob a sagaz liderança do Camarada Kim Il Sung,
em sua luta pela retirada da Coreia do Sul dos agressores
imperialistas e unificar sua gloriosa pátria.
Esta viagem para a Coreia possui significância
histórica para nós não apenas por nos dar a possibilidade
de expressar nossa solidariedade com o povo coreano,
mas também porque será de grande ajuda para o
fortalecimento da nossa luta revolucionária. A classe
dominante dos Estados Unidos trabalha arduamente
para isolar nossa luta e mentir para o povo americano a
sobre a força do movimento anti-imperialista mundial,
constantemente se gabando da iminente vitória da
política externa de agressão dos Estados Unidos. Nesse
sentido tentam tornar as pessoas ignorantes sobre sua
própria força de destruir o sistema capitalista que os
oprime todos os dias das suas vidas! Esta ignorância é
parte do plano traiçoeiro dos imperialistas que tem suas
mãos manchadas de sangue já afetadas com as lutas
revolucionárias dos povos da África, América latina e
|224 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

principalmente Ásia. Os imperialistas temem que


arranquem seu coração por dentro, e por isso perpetuam
essa ignorância. Mas nosso povo, principalmente sua
juventude, está desnudando a traiçoeira teia de mentiras.
Eles estão vendo o imperialismo norte americano ser
derrotado nos campos de batalha da Ásia,
particularmente nas heroicas guerras de libertação dos
povos do Laos, Vietnã e Camboja.
Nossa viagem à República Popular Democrática
da Coreia desempenhará um papel crucial em destruir a
teia de mentiras do imperialismo norte americano.
Vimos aqui com nossos próprios olhos a beleza e a força
do povo coreano sob a sagaz liderança do Camarada Kim
Il Sung, aprendemos em detalhes sobre a gloriosa luta
antijaponesa; a vergonhosa derrota dos Estados Unidos
na Guerra de Libertação da Pátria, as grandes conquistas
da construção do socialismo, e a sua justa e invencível
luta pela reunificação da pátria. Voltaremos para nosso
povo armados com este conhecimento e lhe daremos um
relatório completo. Sabemos que isto será um passo
significante para o objetivo final de destruição do
imperialismo norte americano em todo o mundo.
Nós estudamos a longa e árdua luta que o povo
coreano levou a cabo pela sua liberdade e independência.
E compreendemos o profundo significado que a luta
antijaponesa tem para sua história revolucionária. Ao
visitarmos Mangyondae, o berço espiritual da Revolução
Coreana, aprendemos como o grande líder Camarada
Kim Il Sung empreendeu a luta que levou o povo coreano
à libertação, à revolução e ao socialismo. Em Bongwa, nós
adentramos na história revolucionária da família do
Camarada Kim Il Sung – família que lutou bravamente
por gerações como verdadeiros patriotas da Coreia.
Vimos como a linhagem revolucionária do grande líder
foi corajosamente plantada, e cuidadosamente educado
para que fosse capaz de cumprir com a gloriosa tarefa de
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 225 |

liderar o povo coreano para o caminho da libertação e da


revolução.
Liderando a vitoriosa luta de 15 anos contra o
imperialismo japonês, o Camarada Kim Il Sung foi capaz
de ver aquilo para com o que os outros fechavam seus
olhos, a ascensão iminente do militarismo japonês sob os
ditames do imperialismo estadunidense. De Tojo até
Sato, os objetivos dissimulados e as ambições
gananciosas dos japoneses de dominar toda a Ásia, e a
Coreia em particular, continuam a mesma coisa.
Como o Camarada Kim Il Sung tão sabiamente
apontou “os imperialistas dos Estados Unidos estão
organizando a formação da dita ‘Aliança Pacífica’. Isto
significa rearmamento do imperialismo japonês e a
utilização dele como 'tropa de choque' para uma guerra
de agressão contra a RPDC, a URSS e a República Popular
da China, e para derrubar os movimentos de libertação
dos povos de vários países oprimidos na região do
Pacífico”. As massas populares dentro dos EUA devem
ficar cientes do papel jogado pelo militarismo japonês no
plano do imperialismo norte americano para a
dominação de toda a Ásia.
A histórica pretensão do Ocidente inferior e
bárbaro em conquistar e suprimir sociedades superiores
e civilizadas do Oriente nunca foi abandonada desde o
primeiro dia em que os exploradores do Ocidente
colocaram olhos gananciosos e saqueadores na rara
beleza do Oriente. A abordagem sórdida e predatória do
Ocidente para com o Oriente agora é encorpada nas
tentativas abjetas e desprezíveis do imperialismo norte
americano de conquistar a Ásia.
Lidamos com um monstro arrogante envaidecido
com o falso orgulho de um bandido que identificou seu
saque e pilhagem como se fossem suas próprias
realizações e contribuições para a civilização.
Quando retornarmos para os Estados Unidos
iremos reeducar o povo americano a respeito de um longo
|226 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

capítulo esquecido da sua história, aquele capítulo onde o


povo coreano foi o primeiro a deixar o imperialismo de
joelhos, infligindo a eles uma pesada e humilhante derrota
há 17 anos ao longo do paralelo 38, portanto, acabando
para sempre com o mito de que o imperialismo ianque
jamais seria derrotado. Os agressores imperialistas dos
Estados Unidos se esforçaram muito em esconder está
história por trás de um mar de histeria anticomunistas e
perversas mentiras. Ergueram bem alto a bandeira
manchada de sangue das ditas Nações Unidas em suas
tentativas de justificar a agressiva invasão à Coreia do
Norte. Ensinaram ao povo dos Estados Unidos que a
guerra da Coreia foi uma “cruzada sagrada para libertar o
mundo dos comunistas” quando na verdade foi uma
guerra de expansão imperialista. É dever da Delegação
Anti-imperialista dos Povos dos Estados Unidos destruir
esta rede de mentiras e reconstruir ao povo americano
este período histórico que aprendemos sobre nos museus,
vilas e montanhas de seu país.
Iremos contar a eles sobre o 25 de junho de 1950 –
uma data que deve ir para a história como o começo do
declínio dos imperialistas norte-americanos, mentirosos e
assassinos. E falar sobre o 26 de junho de 1950 – quando
o Marechal Kim Il Sung, o brilhante Comandante, emanou
seu chamado heroico para o povo coreano se erguer e
expulsar os agressores. A história mostrou que naquele
dia ele fez um chamado não apenas para o povo coreano,
mas para todas as massas oprimidas e exploradas do
mundo para começarem sua gloriosa luta para destruir
para sempre as máquinas de guerra imperialistas,
principalmente o imperialismo norte americano.
Queremos que os progressistas dos Estados Unidos
escutem de coração este chamado de 20 anos atrás. E a
Delegação Anti-imperialista dos Povos dos Estados
Unidos fará com que o povo americano ouça a terrível
verdade sobre os 57 dias que os imperialistas dos Estados
Unidos se arrastaram sobre a cidade de Sinchon e várias
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 227 |

outras regiões da sua pátria, cometendo indescritíveis


atrocidades contra pessoas inocentes. Irão ouvir as
palavras de seu amado líder quando disse: “Engels uma
vez descreveu o exército britânico como sendo o exército
mais brutal. Durante a Segunda Guerra Mundial, o
Exército Fascista Alemão ultrapassou o exército britânico
em selvageria. Nenhuma mente humana poderia imaginar
barbaridades mais diabólicas e horríveis do que as
cometidas pelos vis hitleristas naquela época. Mas na
Coréia, os ianques ganharam de longe dos hitleristas”.
É de vital importância que o povo americano
finalmente conheça o resto da história daquela guerra
atroz, da forma que os saqueadores imperialistas dos
Estados Unidos fugiram para o Sul em face das armas e da
determinação de um povo que se recusou ser escravizado
pelo imperialismo. De como governantes mentirosos do
imperialismo norte americano imploraram por
negociações e então fizeram na mesa de negociações suas
traiçoeiras exigências por territórios que não poderiam
ganhar em batalha.
E como o heroico Exército Popular da Coreia
prestou atenção às palavras do obstinado Comandante
Genial, Marechal Kim Il Sung, quando os instruiu a não dar
um pedaço de terra ao inimigo. E como sob sua sábia
instrução, lutaram bravamente, cada lutador de igual para
igual contra cem do inimigo. Iremos dizer a eles como cada
esforço agressivo de guerra foi frustrado pelo Exército
Popular da Coreia no front, apoiados pela ingenuidade,
força e amorosa dedicação daqueles na retaguarda.
Apenas assim, irão compreender o porquê dos generais
dos Estados Unidos finalmente foram forçados a pegar a
caneta e se renderem, em tinta extraída do sangue de
centena de milhares de lutadores coreanos que morreram
para defender sua terra. E com a maior das alegrias que
iremos dizer ao povo americano sobre as gloriosas
vitórias da sua revolução socialista, da milagrosa
construção econômica que construiu um paraíso na terra
|228 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

em um território que havia sido transformada em ruínas e


escombros pelos saqueadores imperialistas dos Estados
Unidos 17 anos atrás. Visitamos suas fábricas e fazendas
cooperativas e vimos os resultados do método Chollima
com o povo indo a mil no simultâneo desenvolvimento da
indústria pesada, indústria leve e da agricultura. Nenhum
outro povo na história foi capaz de conquistar resultados
tão fantásticos de uma vez em todas as áreas.
Quando visitamos Hamhumg, vimos uma cidade
industrial moderna, construída para as necessidades do
povo. Nos EUA capitalista, a tecnologia é altamente
avançada, mas serve apenas para explorar e assassinar
pessoas, humilhar e destruir sua humanidade. Mas na
Coreia, vimos e sentimos como a tecnologia socialista
trabalha para a libertação do seu povo. Vimos que há
muito tempo aboliram a exploração do homem pelo
homem e que agora sua luta para emancipar os homens
do trabalho pesado é outra etapa que em breve será
conquistada pelo povo coreano. Os operários e
necessitados do mundo tem muito a invejar nas vidas dos
trabalhadores na República Popular Democrática da
Coreia – mas como seus filhos cantam em suas músicas,
eles não possuem nada a invejar no mundo todo!
Vimos também os grandes sucessos que tiveram
na emancipação da mulher. Séculos e séculos de opressão
e exploração foram varridos desde a promulgação da lei
de igualdade entre os sexos de 24 anos atrás. O cuidado
especial que é dado às necessidades das mulheres
revolucionárias da Coreia não pode ser equiparado – um
sistema de creches e benefícios na maternidade tão
completo é o sonho das mulheres em todo o mundo. Vimos
nos rostos de suas crianças, as sementes da revolução, a
realização de um outro sonho de séculos de uma vida feliz
sem quaisquer preocupações. Elas são uma geração
incutida com a missão sagrada de uma vez por todas
expulsar os imperialistas norte-americanos da Coreia do
Sul, reunificar a pátria e completar a Revolução Coreana.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 229 |

Do Palácio das Crianças e berçários e jardins de infância


do Chollima até as ruas movimentadas onde jovens
pioneiros marcham vigorosamente e com alegria para
suas escolas, as vozes destes jovens já com o espírito de
Chollima ressoam com sua dedicação àquela luta, com seu
amor por sua gloriosa terra, e sua devoção inabalável ao
amado líder cuja prontidão os vem estimulando desde a
infância. Claro, nós da Delegação Anti-imperialista dos
Povos dos Estados Unidos nos sentimos como se fosse
nosso maior dever construir uma luta militante nos EUA
contra a ocupação dos porcos imperialistas,
principalmente os estadunidenses, da parte sul de sua
pátria. Após duas longas e amargas guerras lutadas pelo
povo da Coreia contra aqueles que os manteriam como
servos coloniais, essa divisão artificial de uma terra, de um
povo, de uma família, continua. O povo norte americano
deve compreender que se não fosse pela armas e aviões e
dinheiro dos agressores imperialistas ianques, a claque do
fantoche Pak Jung Hi não duraria nem por algumas horas.
E como se a própria ocupação da Coreia do Sul não fosse
por si só um ato de agressão, o imperialismo
estadunidense incessantemente introduz provocações
atrás de provocações contra a soberania da RPDC.
A bandeira que iremos levantar entre o povo dos
Estados Unidos é para com que as tropas norte-
americanas saiam da Coreia do Sul para que todos os
coreanos possam decidir sobre seu futuro como uma
nação unificada. Mas iremos falar ao povo dos Estados
Unidos e ao próprio imperialismo norte-americano, que se
não saírem voluntariamente, não resta dúvidas, nenhum
pingo de dúvida, que da próxima vez o povo coreano irá
expulsá-los da Península, para fora de cada bairro de cada
cidade da Coréia do Sul, onde eles estão perpetrando suas
atrocidades. O imperialismo tentará fechar os ouvidos,
talvez tentar nos silenciar, mas terão que saber que seu
tempo é curto, e a cada hora que passa fica cada vez mais
curto. As palavras de nosso brilhante, obstinado
|230 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Comandante, Marechal Kim Il Sung ressoam claramente


com sua inequívoca mensagem aos agressores: “nós não
queremos guerra, mas nunca a temeremos. Nosso povo e
o Exército do Povo pagará com retaliação a retaliação do
imperialismo ianque, combaterá guerra total com guerra
total. Os imperialistas norte americanos devem estar
plenamente cientes que se agravarem a situação e
persistentemente irem pelo caminho da guerra apesar de
nossos avisos, sofrerão uma derrota ainda maior desta
vez”.

Eldridge Cleaver, representante da


“Delegação
Anti-imperialista dos Povos dos Estados
Unidos”, em 1970
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 231 |

Sobre a libertação gay e feminina


Huey P. Newton

Durante os últimos anos fortes movimentos


vem surgindo entre as mulheres e os homossexuais
que buscam sua libertação. Houve alguma incerteza
sobre como se relacionar com tais movimentos.
Quaisquer que sejam suas opiniões individuais
e inseguranças sobre homossexualidade e os diversos
movimentos de libertação entre os homossexuais e
mulheres (e falo de homossexuais e mulheres como
grupos oprimidos), devíamos tentar nos unirmos a eles
sob uma perspectiva revolucionária.
Eu digo “quaisquer que sejam suas
inseguranças” porque como nós muito bem sabemos,
às vezes nosso primeiro instinto é querer bater em um
homossexual e querer que a mulher fique quieta.
Queremos bater no homossexual porque temos
medo de que possamos ser homossexuais; e queremos
bater nas mulheres ou silenciá-las, porque temos medo
de que elas possam nos castrar ou nos levar os culhões
que aparentemente podemos nem ter, para começar.
Temos que nós mesmos nos garantir segurança
e, portanto, ter respeito e empatia por todos os povos
oprimidos.
Não devemos usar da atitude racista que os
brancos racistas usam contra nosso povo, porque são
negros e pobres. Muitas vezes o branco mais pobre é o
mais racista porque tem medo de que possa perder
algo ou descobrir algo que não tem. Então você se torna
uma ameaça para ele.
Esse tipo de psicologia está estabelecido quando
vemos povos oprimidos e ficamos com raiva deles por
causa do seu tipo particular de comportamento ou seu
tipo específico de desvio da norma estabelecida.
|232 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Lembrem-se, nós não estabelecemos um


sistema de valores revolucionários; estamos apenas no
processo de estabelecê-lo. Não me recordo de alguma
vez termos constitudo qualquer valor que dissesse que
um revolucionário deve dizer coisas ofensivas contra
os homossexuais ou que um revolucionário deve se
certificar de que as mulheres não falem sobre sua
própria particularidade de opressão. Na verdade, é
justamente o contrário: pontuamos que reconhecemos
o direito das mulheres de serem livres. Não temos
falado muito dos homossexuais de qualquer modo, mas
devemos nos relacionar com o movimento gay porque
é uma coisa real. E eu tenho conhecimento através de
leitura, e através de minha experiencia empírica e de
observações que aos homossexuais não são dadas
nenhuma liberdade por ninguém na sociedade. Existe
a possibilidade de serem os povos mais oprimidos da
sociedade.
E o que os fez se tornarem homossexuais?
Talvez seja um fenômeno que eu não entenda
completamente. Algumas pessoas dizem que é
decadência do capitalismo.
Não sei se esse é o caso; sinceramente duvido.
Mas qualquer que seja o caso, sabemos que a
homossexualidade é um fato, e devemos entendê-la em
sua forma mais pura, ou seja, uma pessoa deve ter a
liberdade de usar seu corpo da maneira que quiser.
Isso não implica endossar coisas na homossexualidade
que nós não vemos como revolucionárias.
Mas não há nada para dizer que um
homossexual não pode também ser revolucionário.
E talvez esteja agora inserindo um pouco do
meu preconceito, dizendo que “mesmo um
homossexual pode ser um revolucionário”. Muito pelo
contrário, talvez um homossexual possa ser o mais
revolucionário.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 233 |

Quando temos conferências revolucionárias,


comícios e manifestações, deveria haver uma plena
participação do movimento de libertação gay e
movimento de libertação feminina. Alguns grupos
podem ser mais revolucionários do que outros.
Não devemos usar a ação de uns para afirmar
que são todos reacionários ou contrarrevolucionários
em essência, porque não são. Devemos lidar com os
movimentos assim como lidamos com qualquer outro
grupo ou partido que afirma ser revolucionário.
Devemos julgar se estão operando sincera e
revolucionária dentro de uma situação de opressão
real. Se eles fazem coisas que não são revolucionárias
de fato ou contrarrevolucionárias, então há de se
criticar essa ação. Se entendermos que o grupo em sua
essência possui aspirações revolucionárias na prática,
mas cometem erros na interpretação da filosofia
revolucionária, ou eles não entendem a dialética das
forças sociais em funcionamento, devemos criticar isso
e não as criticar por serem mulheres tentando ser
livres. E o mesmo se verifica para os homossexuais.
Não devemos falar que todo o movimento é
desonesto quando na verdade estão tentando ser
honestos. Apenas cometem erros honestos. Aos amigos
é permitido cometer erros. Ao inimigo não é permitido
cometer erros, porque toda a sua existência é um erro
e nós sofremos com isso.
Mas a Frente de Libertação das Mulheres e a
Frente de Libertação Gay são nossos amigos, eles são
nossos aliados potenciais e precisamos de quantos
aliados quer sejam possíveis. Devemos estar dispostos
a discutir as inseguranças que muitos têm sobre a
homossexualidade.
Quando eu digo “inseguranças”, quero dizer o
medo de que eles sejam algum tipo de ameaça à nossa
masculinidade. Eu posso entender tal medo. Devido ao
longo processo que constrói insegurança no homem
|234 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

americano, a homossexualidade pode produzir certas


amarras em nós. Eu mesmo possuo certas amarras
quanto à homossexualidade masculina. Em
contrapartida, não possuo nenhuma amarra quanto à
homossexualidade entre mulheres. E isso é um
fenômeno em si mesmo. Eu acho que é provavelmente
porque a homossexualidade masculina é uma ameaça
para mim e homossexualidade feminina não. Devemos
ser cuidadosos acerca do uso desses termos que
possam afastar nossos potenciais aliados. Os termos
“viado” e “bicha” devem ser suprimidos do nosso
vocabulário e, sobretudo, não devemos atribuir esses
nomes normalmente concebidos para os homossexuais
para os homens que são inimigos do povo, como
[Richard] Nixon ou [John] Mitchell. Os homossexuais
não são inimigos do povo. Devemos tentar formar uma
coalizão operária com a libertação gay e grupos de
libertação das mulheres. Devemos sempre lidar com as
forças sociais da forma mais adequada.

Discurso de Huey P. Newton 15 de agosto de 1970


| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 235 |

Carta à Frente de Libertação


Nacional do Vietnã do Sul
Huey P. Newton
No espírito da solidariedade internacionalista
revolucionária, o Black Panther Party por este meio
oferece à Frente de Libertação Nacional e ao Governo
Revolucionário Provisório do Vietnã do Sul um número
não determinado de tropas para ajudá-los em sua luta
contra o imperialismo norte-americano.
É conveniente para o Black Panther Party
realizar essa ação em reconhecimento que nosso
inimigo comum é o imperialista ianque que é o líder da
dominação burguesa internacional. Nenhum governo
reacionário ou fascista no mundo hoje se manteria sem
o apoio do imperialismo dos EUA.
Portanto o nosso problema é internacional, e nós
oferecemos estas tropas em reconhecimento da
necessidade de alianças internacionais para lidar com
este problema. Tais alianças irão avançar para o ato
decisivo da luta contra o imperialismo norte-americano.
O Black Panther Party enxerga os Estados Unidos
como a “cidade do mundo”, enquanto vemos as nações
da África, Ásia e América Latina como o “campo” do
mundo. Os países em desenvolvimento são como a
Sierra Maestra em Cuba e os Estados Unidos é como
Havana.
Notamos que em Cuba o exército popular
estabeleceu bases em Sierra Maestra e sufocou Havana
porque era dependente das matérias prima do campo.
Após terem ganho todas as batalhas no campo, o último
e decisivo ato que foi a marcha do povo sobre Havana.
O Black Panther Party acredita que o processo
revolucionário irá agir de maneira similar a âmbito
internacional.
|236 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Um pequeno círculo dominante de 76 grandes


empresas controla a economia americana. Esta elite não
explora e oprime apenas o povo negro dentro dos
Estados Unidos; estão explorando e oprimindo todos do
mundo por conta da natureza superdesenvolvida do
capitalismo.
Uma vez expandida a indústria dentro dos
Estados Unidos até que não pudesse crescer mais, e
esgotando as matérias-primas desta nação, avançaram
para o exterior em suas tentativas de estender sua
dominação econômica Para dar fim a esta opressão
devemos libertar as nações subdesenvolvidas – o campo
do mundo – e então nosso ato final será o golpe contra a
“cidade”.
Conforme uma nação for libertada em qualquer
lugar do mundo, nos dá melhores condições para
sermos livres aqui.
O Black Panther Party reconhece que temos
certos problemas nacionais confinados aos EUA, mas
também estamos cientes de que enquanto nosso
opressor possui problemas internos, estes não o
impedem de oprimir os povos por todo o mundo.
Portanto, continuaremos lutando e resistindo
dentro da “cidade” para causar o maior turbilhão
possível e ajudar nossos irmãos ao dividir as tropas da
classe dominante.
O Black Panther Party oferece estas tropas
porque somos o Partido de vanguarda dos
internacionalistas revolucionários que renunciam a
todo nacionalismo. Tomamos esta posição porque o
Estados Unidos agiu de maneira muito chauvinista e
perdeu seu direito ao nacionalismo.
Os Estados Unidos é um império que estuprou o
mundo para construir sua riqueza aqui. Portanto, os
Estados Unidos não é uma nação.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 237 |

É um governo de capitalistas internacionais e na


medida em que exploraram o mundo para acumular
riquezas, este país pertence ao mundo.
O Black Panther Party sustenta que os EUA
perderam seu direito a afirmação de nacionalidade
quando usou seu nacionalismo como a base chauvinista
para se tornar um império.
Os países subdesenvolvidos têm todo direito de
afirmar sua nação porque não exploraram ninguém. O
nacionalismo que falam é sua justa reivindicação à
autonomia, autodeterminação e uma base libertada
para lutar contra a burguesia internacional. O Black
Panther Party apoia as demandas nacionais dos países
subdesenvolvidos e suas lutas a partir da nossa posição
enquanto internacionalistas revolucionários.
Não podemos ser nacionalistas quando nosso
país não é uma nação, mas um império. Defendemos que
é hora de abrir os portões e compartilhar conhecimento
tecnológico e riqueza com os povos do mundo.
A história deu ao Black Panther Party a obrigação
de dar estes passos e avançar o marxismo-leninismo a
um nível superior construindo o Estado socialista, e
depois um não-Estado.
Esta obrigação nasce das forças dialéticas em
operação nesta época como de nossa história como uma
Colônia Negra oprimida. O fato dos nossos antepassados
terem sido sequestrados e forçados a vir para os
Estados Unidos destruiu nosso sentimento nacional.
Porque a nossa longa herança cultural foi
rompida passamos a confiar menos em nossa história
como orientação, e buscar nossa orientação do futuro.
Tudo que fazemos é baseado no funcionalismo e
pragmatismo, e porque olhamos para o futuro para
salvação, estamos em uma posição para nos tornar o
povo mais dinâmico e progressista da Terra,
constantemente em movimento e progredindo, ao invés
de ficarmos estagnados pelos laços do passado.
|238 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Levando estas coisas em consideração, não é


acidental que o Partido de Vanguarda – sem
chauvinismo ou sentimento nacional – deveria ser o
Black Panther Party.
A nossa luta por libertação é baseada na justiça e
igualdade para todos os homens. Assim, estamos
interessados nos povos de qualquer território onde o
estalo do chicote do opressor possa ser ouvido.
Temos a obrigação histórica de levar o conceito
de internacionalismo à sua conclusão final – a
destruição do próprio Estado. Isso nos levará à era em
que definhamento do estado ocorrerá e os homens
estenderão sua mão em amizade por todo o mundo. Esta
é a visão de mundo do Black Panther Party e no espírito
do internacionalismo revolucionário, solidariedade e
amizade, oferecemos estas tropas para a Frente de
Libertação Nacional e ao Governo Provisório do Vietnã
do Sul e aos povos do mundo.
29 de agosto de 1970
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 239 |

Resposta a William Patterson


Huey P. Newton
Quando o Sr. Patterson discute o fenômeno social
que fez surgir o Partido, não menciona o principal: a
exploração econômica dos negros. A sua concepção de
que o Partido era de grupo de autodefesa contra a
brutalidade policial é uma interpretação estreita. Ele
não compreende os precedentes históricos do Partido,
Malcolm X. Ele falha em compreender as lições que o
Partido aprendeu com os fracassos de organizações por
direitos civis como a SNCC, NAACP, etc. (como o poder
político, força das massas). O Sr. Patterson se pergunta
se os negros deveriam ter sua organização para lutar
por libertação. Enquanto diz que é uma luta de
libertação nacional não crendo que os negros nos EUA
sejam uma colônia. Ele diz que os negros cometeram um
erro quando decidiram que tinham que controlar e
liderar a luta por sua liberdade. Ele fala dos “preços a
pagar”. Será que propõe que os negros esperem o
operariado branco dirigir a luta de libertação enquanto
o operariado branco se enxerga como beneficiário do
capitalismo?
Os sindicatos são marionetes dos capitalistas
beligerantes. Em uma tentativa de rotular o Partido
como nacionalista (sem interesse na luta dos povos e
outras raças) falha em entender que nossa liberdade e
dignidade é ligada à liberdade e dignidade das massas
do mundo. O Sr. Patterson nunca especifica o que quer
dizer quando fala do desespero das lutas políticas e
ideológicas do Partido. Eram “desesperadas” ou
intensas, já que buscávamos confrontar o inimigo e
levar a luta a um nível superior? O que o Sr. Patterson
quer dizer quando se refere aos negros como “tropa” na
luta contra o imperialismo? Se negros são “tropas”,
então quem está na linha de frente da luta? É aparente
para qualquer pessoa sã que os negros são a vanguarda
|240 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

da luta contra o imperialismo nos EUA. Patterson tenta


fazer o povo pensar que o Black Panther Party pensava
que o terror policial poderia ser “encerrado” caso fosse
“desafiado”. Isso coincide com sua noção de que o
Partido era organizado por tolos que reagiam à
brutalidade policial que viam a seu redor. Ele ignora
todos meus escritos e todos os escritos de Eldridge
Cleaver sobre a polícia, e implica que o Partido não
compreendia que os porcos são da classe dominante. Eu
escrevi em Definição Funcional de Política (quando o
Partido ainda era BPP por autodefesa) que a “polícia é
um exército ocupante”., coloquei que “existe uma
grande semelhança entre as tropas ocupantes no
Sudeste Asiático e a ocupação das nossas comunidades
pela polícia racista. Os exércitos não estão lá para
proteger o povo do Vietnã do Sul mas para brutalizá-los
e em defesa dos interesses da potência imperialista”. Ou
Eldridge Cleaver em “Alma no Exílio”: “o Departamento
de Polícia e as Forças Armadas são os dois braços da
estrutura de poder, músculos do controle e coerção...
usam a força para fazer o que já decidiram que deve
fazer. Tanto a polícia como as forças armadas seguem
ordens que vão de cima para baixo”. Patterson não irá
admitir que a liderança do Partido dos Panteras Negras
compreendeu essa relação desde o começo porque é um
revisionista e se opõe à luta armada. Ele tenta esconder
a ideia central em “Definição Funcional de Política”
porque não quer enfrentar argumentos cara a cara. O
Black Panther Party pegou em armas e se concentrou no
ponto 7 do programa porque poderíamos comunicar de
forma mais nitida à comunidade negra a necessidade de
se armar para obter liberdade. Não é porque
acabaríamos com o terror policial “desafiando” a polícia.
É claro que isso não quer dizer que não começou a
mostrar que se pessoas com armas enfrentavam a
polícia, poderiam fazer algo, mas isso era feito no
contexto de educar as massas sobre o poder potencial
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 241 |

de uma comunidade negra armada. Nosso programa é


um ataque ao imperialismo estadunidense. Usamos a
polícia como um catalisador porque o povo é mais
afetado por esse instrumento de governo. Chamamos de
instrumento de governo porque a polícia age como um
governo em nossa comunidade. Percebemos que o
departamento policial é um braço dos que tomam as
decisões que dizem a seus cachorros soltos quem e
quando matar. Isso é verdade para os militares e para a
polícia. Os vietnamitas que estão lutando contra os
militares sabem que os militares são apenas soldados de
infantaria com um tomador de decisões por trás dele; os
militares são avaliados da maneira adequada. A polícia
são soldados de infantaria em nossa comunidade e é por
isso que o povo vietnamita chama o povo americano a
se unir e derrubar o regime desse país para vencer sua
luta de libertação. Chamamos os povos do mundo a lutar
conosco para derrubar o imperialismo para que nos
libertemos da perversa aristocracia local e funcionários
corruptos. É a ordem que se segue da linha que vai dos
soldados de infantaria até seus mestres da Standard Oil,
General Motors, Bell Telephone, Chrysler Motors, etc.
Nem reconhecemos o governo civil eleitoral porque são
fantoches dos capitalistas.
O comentário de Patterson sobre a necessidade
da burguesia em esmagar a tendência natural para a
unidade que estava se desenvolvendo entre
trabalhadores brancos e negros é besteira. Que
evidência pode apresentar sobre essa explosão sob o
imperialismo. Os operários brancos
independentemente da vanguarda e da luta negra
automaticamente começaram a ver os interesses em
comum com operários negros? A classe dominante
realmente teve que criar para pintar concepções
racistas dos negros? Essas concepções alguma vez
deixaram de existir? Tal posição parece ser uma
dissimulação para justificar a posição do Partido
|242 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Comunista na II Guerra Mundial e com o Roosevelt. Ele


tenta explicar o Partido com um estigma de
particularismo de Oakland. Como se a opressão não
fosse tão grande quanto ou até maior nos grandes
guetos negros de Chicago, New York, Boston, Newark,
etc. Isso na verdade é uma máscara para dizer que os
trabalhadores sulistas eram mais racistas do que os do
Norte. Como se o racismo não fosse generalizado. Como
se nossos racistas da California não fossem tão
perigosos como os do Sul. Foi Malcolm que apontou que
a linha Mason-Dixon estava na fronteira com o Canadá.
O Partido nunca teve um programa de autodefesa como
Patterson fala. Não consegue compreender que o
Partido explica que o poder político nasce da ponta do
fuzil.
Ele fica preso no formalismo da mudança de
nome do Partido como se isso representasse um
alargamento das visões do Partido. Ele não entende a
concepção de auto-defesa que o Black Panther Party
formulou originalmente. Quando usávamos no nome
“Para autodefesa”, nós entendíamos que todos os povos
oprimidos ou povos revolucionários legítimos nunca
são os agressores; toda sua ação é em autodefesa. O
povo vietnamita está meramente usando autodefesa;
são os exploradores imperialistas, capitalistas que
começaram a violência e agressão. Então o que o povo
fizer por sua libertação, por sua liberdade, é uma tática
de autodefesa. Quando usamos autodefesa, usamos no
sentido mais amplo. Expressamos repetidamente, que
quando usamos as palavras “autodefesa”, também
significava nos defender contra os serviços médicos
precários, contra o desemprego, contra as más
condições de moradia, e todas as outras coisas que os
pobres e os povos oprimidos do mundo sofrem. Pode se
explicar que mesmo quando o partido era o Black
Panther Party pela autodefesa, nós tínhamos o mesmo
Programa e Plataforma dos 10 pontos que temos hoje. O
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 243 |

que temos que fazer é descobrir o que irá mobilizar o


povo. Eu penso que o Black Panther Party em três anos
fez mais para mobilizar as massas do que o Partido
Comunista dos Estados Unidos em 20 anos. Eu
confronto a afirmação do P.C. que eles “prepararam o
caminho para o povo”. O governo dos EUA, exceto por
um breve período, não levou o PC dos EUA a sério; e o
povo não foi considerado de maneira alguma. É
precisamente por isso que os membros do Partido
Comunista dos EUA não foram presos e assassinados em
grande número. Eu penso que em toda a história do PC
dos EUA, cerca de cinco ou seis pessoas ficaram no
cárcere por muito tempo. É isso que leva o Sr. Patterson
a acreditar que o Partido Comunista fez tudo certo? Não
é isso que o Presidente Mao nos ensina. O Presidente
Mao nos ensina que “quando o inimigo te ataca, ataca
selvagemente, então você sabe que está fazendo tudo
certo”. Então eu classificaria que o Partido Comunista
não tem sido uma ameaça. E eles fizeram algo de errado,
porque não foram crucificados da forma que o inimigo
está tentando nos crucificar. Mas evidentemente o Sr.
Patterson pensa que é o contrário. Penso que é porque
sua ideologia burguesa o faz ver as coisas sob uma
perspectiva burguesa. Ele afirma que porque a nossa
linha é provocativa, então se dá à ordem estabelecida
uma desculpa para nos matar. Bem, qual desculpa o
povo vietnamita lhe deu? Eu digo que o único motivo
que os membros do Partido Comunista não foram
amarrados pelos dedos é simplesmente porque o
Partido Comunista não é uma ameaça ao país – não com
a linha clássica que estão ensinando. Eles não
capturaram a imaginação do povo, e no que tange terem
criado uma base para nós, achamos o caminho tão
pedregoso até que tivemos certeza que ninguém tinha
pavimentado o caminho. Se eles o tivessem feito, se
facilitaria as coisas porque tiveram 30 anos para fazer
isso. Patterson diz que “os Panteras aprenderam que
|244 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

nem os negros e nem as massas brancas estão prontas


para a arma como um instrumento de liberdade, ou para
a guerra de guerrilhas, e nem estava a liderança dos
Panteras”. Eu concordo com ele; aparentemente nem
todos estão prontos para as armas. Mas eu também
perguntaria se ele quer dizer que deveríamos parar de
falar sobre as armas? Deveríamos parar de nos
defender? Está dizendo que a arma não é uma
ferramenta que eventualmente teremos que usar? Não
deve ser introduzida para o povo? Se a sua resposta à
estas questões forem afirmativas, então segue que o
Partido Comunista dos EUA deveria largar sua linha
marxista-leninista (da qual as massas evidentemente
não estão prontas) e desenvolver nova linha. E suponho
que a sua nova linha seria a linha política eleitoral
democrática burguesa que o Partido Comunista
abraçou. Eu vejo muito pouca diferença entre a sua linha
e a linha do Partido Democrata, ambas as quais são
arcaicas e prontas para colocar suas posições em um
museu.
Os Panteras colocam sua teoria em prática. Eles
começaram organizando as massas em Oakland na
autodefesa, patrulhando as ruas com armas e
uniformizados. Quando a Legislação da Califórnia se
modificou para impedir isso com a “Lei Pantera”,
proibindo o porte de armas, os Panteras foram até o
Capitólio portando armas. Todo revisionista
pseudorrevolucionário do país começou a gritar “Credo!
Vocês estão alienando as massas! Parem! Tenham
sensibilidade! Guardem essas armas!” E qual foi o
resultado? As massas negras deram aos Panteras a
maior base do que qualquer organização revolucionária
dos EUA já teve. Na festa de aniversário para Huey, o
auditório de Oakland abrigou milhares de pessoas
negras em aplausos, incluso não apenas a juventude
lumpen, mas famílias, velhos, crianças pequenas,
operários, trabalhadores. Em maio de 1969, dezenas de
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 245 |

milhares de negros, junto com muitos brancos, latinos e


asiáticos, protestaram para exigir que Huey fosse solto.
Seguraram o Livro Vermelho e gritaram ‘Liberdade para
Huey, fora os porcos!”, e proclamaram que as duas
principais ferramentas de libertação eram a arma e o
Livro Vermelho. Ao levarem adiante a arma, os Panteras
despertaram a consciência das massas para o
marxismo-leninismo, e abriram o caminho para
derrotar o social-pacifismo não apenas na nação negra,
mas também na nação chicana, portorriquenha e
mesmo entre os brancos.

19 de setembro de 1970
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Camarada caído: Elogio a George


Jackson
Huey P. Newton
George Jackson tinha genialidade. Genialidade já
é algo bastante raro, e deve ser guardada com carinho,
mas quando a genialidade é combinada em um homem
negro com visão e paixão revolucionária, o
establishment irá acabar com ele. O Camarada Jackson
compreendeu isso. Ele sabia que seus dias estavam
contados e estava preparado para morrer como um
verdadeiro crente no suicídio revolucionário. Por 11
anos, insistiu em permanecer livre em um brutal
sistema prisional. Por todo o tempo que passou lá,
resistiu às autoridades e encorajou seus irmãos na
cadeia a se juntarem a ele. O Estado retaliou: a liberdade
condicional era continuamente rejeitada; a solitária foi
imposta a ele por 7 anos; as ameaças à sua vida eram
frequentes – de guardas, de presos que chamavam a si
mesmos de “ajudantes de Hitler”, de “golpes de faca e
picareta de porcos sádicos sem rosto”. E finalmente eles
o assassinaram. Nos meses anteriores à sua morte, tudo
começou a ficar perto do fim. Ele era um dos poucos
prisioneiros que estava algemado e fortemente
protegido em suas raras idas à sala de visitas. Tentativas
contra sua vida se tornaram quase diários. Mas ele
nunca desistiu ou retrocedeu. A prisão foi a dura prova
que moldou seu espírito, e George frequentemente
usava as palavras de Ho Chi Minh para descrever a sua
resistência: “a calamidade me endureceu e transformou
minha mente em aço”.
Eu o conhecia como um irmão. Antes, eu o
conhecia apenas espiritualmente, por seus escritos e
seu número no sistema prisional, quando eu estava na
Colônia Penal e ele estava em Soledad. Então, não muito
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 247 |

depois de minha chegada, recebi pelas grades da prisão


um pedido de George para entrar no Black Panther
Party. Foi prontamente aceito. George se tornou
membro do Exército Popular Revolucionário, com o
posto de General e Marechal. Nos próximos três anos
estávamos em constante comunicação através de
mensagens levadas por amigos e advogados e presos
transferidos de uma prisão para outra. Apesar das
restrições do sistema prisional, conseguimos transmitir
nossas mensagens no papel e em fitas. Entre as
contribuições de George para o Partido estão artigos
que escreveu para o jornal The Black Panther, que
aprofundou a nossa teoria revolucionária e deu
inspiração a todos os irmãos. Em Fevereiro de 1971, eu
recebi esta carta dele:

Camarada Huey,
As coisas estão tranquilas aqui agora, esta noite temos
disciplina e harmonia, amanhã todos podem se separar de
novo – mas esses somos nós. Eu tenho dois artigos que gostaria
que fossem inseridos no jornal, um em seguida do outro na
semana seguinte. O primeiro sobre a Angela. Depois, se você
aprovar, eu gostaria de contribuir com algo para o jornal toda
semana ou quando tivesse espaço para mim. Caso sim, me deixe
saber se há alguma área em particular que você gostaria que
eu cobrisse (comentário)
Então eu comento como observador ou participante?
Um pedido – por favor não deixe ninguém apagar as
coisas que eu disser ou alterá-las, eu não preciso de um editor,
a não ser que o que eu disser não representar a linha do
Partido, não deixe ninguém mudar uma palavra. Quando eu
cometer um erro ideológico, claro, corrija para se encaixar na
posição do Partido. E não deixe ninguém encurtar ou
condensar; se algo for muito longo, coloque como parte um e
parte dois.
Se você quiser me usar para dizer coisas desagradáveis
sobre aqueles que merecem, pode ser melhor para mim
comentar como um observador, dessa forma menos
|248 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

contradições entre você e s pessoas que você pode ter que


trabalhar.
Você disse que eu e você tivemos um “mal-entendido”
uma vez mas que foi resolvido. Quando foi que ocorreu isso?
Tome muito cuidado com mensagens ou qualquer
palavra que supostamente vieram de mim. Eu realmente não
lembro de nenhum mal-entendido.
As pessoas mentem por muitas razões. Tente
memorizar minha grafia, é assim que todas as mensagens
virão no futuro (se tivermos um futuro).
Você sabia que Angela e eu fomos casados um tempo
atrás? E eu quase a levei completamente para nosso campo,
pouco antes de Eldridge fazer aquela declaração? Eu fui tão
bem que na verdade o P.C. (Partido Comunista) tentou cortar
nossos contatos, atacou minha sanidade com cochichos e
olhares ao conversar com ela, e cortaram a minha assinatura
paga por seus dois jornais.
Estranho, pensei que eles estariam com medo do FBI, e
não com medo do homem. Talvez eles chegaram a um acordo.
Alguns deles pelo menos.
É o P.C.? Cara, o que está acontecendo com ela. Ela não
controla a própria boca. Ou o ego.
Arrume um bom contato ou escreva e sele mensagens
com uma impressão digital. Eu tenho ideias que gostaria de
deixar a vocês todos.
Obrigado irmão por nos ajudar. Irmãos lindos, árduos
e disciplinados por aqui. Eu gostaria de enviá-los para você
algum dia.
George.

Nos últimos três anos de sua vida, o Camarada


Jackson se sentiu sustentado e apoiado pelo Black
Panther Party. Ele havia lutado sozinho por tanto tempo
para elevar a consciência de seus companheiros de cela
negros, e seu exemplo encorajou milhares que eram
mais fracos e menos corajosos que ele.
Mas o preço que pagou na alienação e nas
represálias era espantoso. Dentro do Partido não estava
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 249 |

mais sozinho; ele se tornou parte de um vigoroso e


invencível movimento de libertação revolucionário.
Em seu segundo livro, Blood in My Eye, expressou
esta confiança: “O Black Panther Party é a maior e mais
poderosa força política que existe de fora da política do
establishment. Extrai esse poder do povo. É a vanguarda
natural, política do povo”.
George pediu ao Partido para publicar o seu
primeiro livro, Soledad Brother, mas nas difíceis
negociações entre vai e vens e sem contato direto, os
acordos não foram possíveis. Para garantir que esse
erro nunca mais ocorreria, deixou a sua propriedade e
todos seus escritos para o Partido. O mais importante,
nos legou seu espírito e seu amor.
O funeral de George foi realizado em Oakland em
28 de agosto de 1971 – exatamente uma semana depois
de seu assassinato – na Igreja Episcopal de Santo
Agostinho, pastoreada pelo padre Earl Neil. Uma
multidão de cerca de 7000 amigos se reuniu para
prestar suas últimas homenagens para o nosso
camarada caído, e o Black Panther Party enviou um
grande contingente de camaradas para lidar com a
multidão e proteger a família de Jackson. Eu cheguei na
Igreja logo antes da procissão do funeral. O santuário do
segundo andar estava vazio, mas da janela eu pude ver
a multidão se estendendo por mais de um quarteirão em
cada direção, preenchendo todos os espaços disponíveis
e fechando as ruas para a passagem de carros.
Alguns Panteras sentaram nas escadas falando
baixo. Ocasionalmente eles aliviavam os camaradas que
estavam controlando a multidão e dirigindo o trânsito
do lado de fora. As crianças do Instituto Intercomunal
da Juventude estavam ali, e ainda que estivessem no
prédio desde manhã cedo, não reclamaram de cansaço.
As crianças sentiram muito a perda de George;
quando ficaram sabendo de sua morte na semana
anterior, todas elas escreveram mensagens de
|250 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

condolências para a sua mãe. Elas amavam George, e em


seus rostos eu poderia ver a sua determinação em
crescer e realizar seus sonhos de libertação.
Tinha muita tensão. Havíamos recebido muitas
ameaças na semana anterior, de guardas da prisão, da
polícia, e de muitos outros, alegando que o funeral não
aconteceria, e se acontecesse, haveria motivo para mais
funerais de Panteras Negras.
Estávamos prontos para qualquer coisa. Os
camaradas estavam nervosos com as ameaças, e era
justo que estivessem nervosos com a contínua opressão
dos pobres e do povo negro que vivem nesta terra.
Dava para ver em seus rostos, em seus passos
medidos, firmes, em seus punhos cerrados, e em suas
vozes enquanto saudavam o carro fúnebre com gritos
de “Poder ao Povo” e “Viva o Espírito de George
Jackson”.
Quando o cortejo fúnebre chegou, Bobby e eu nos
preparamos para saudar o povo enquanto entravam na
porta da igreja. Foi a primeira vez que Bobby e eu
compartilhamos uma plataforma pública em mais de
quatro anos, mas não havia motivo para se alegrar. Não
dissemos nada entre nós; sabíamos muito bem o que o
outro estava pensando.
Quando o caixão que trazia o corpo do camarada
George foi trazido para o santuário, uma canção estava
tocando – Nina Simone cantando “I Wish I Knew How It
Would Feel to Be Free”. Dentro da igreja, as paredes
estavam rodeadas de Panteras Negras carregando
armas.
George havia dito que não queria flores em seu
funeral, apenas rifles. Ao honrar seu pedido, também
estávamos protegendo a sua família e todos aqueles que
se dedicavam a seguir adiante com seu espírito.
Qualquer pessoa que entrasse naquele santuário com o
propósito de começar alguma provocação saberia que
não teria a oportunidade de ir muito longe. Na morte,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 251 |

assim como na vida, George pensou nos melhores


interesses dos seus companheiros.
Padre Neil fez um pronunciado breve, mas
poderoso sobre a lição da morte de George Jackson, que
o povo negro teria que se levantar e tomar seu destino
nas suas próprias mãos. Bobby leu algumas das
mensagens enviadas de todo o mundo, Elaine Brown
cantou “One Time’s Too Much to Tell Any Man that He’s
not Free”, e eu pronunciei o elogio, que foi em parte:
“George Jackson era meu herói.
Ele deu o exemplo para presos, presos políticos,
para o povo. Ele mostrou o amor, a força, o fervor
revolucionário característico de qualquer soldado do
povo. Ele inspirou os presos, que mais tarde eu
encontrei, a colocar suas ideias na prática e assim seu
espírito se tornou uma coisa viva. Hoje eu digo que
ainda que o corpo de George tenha caído, seu espírito
segue adiante, porque suas ideias vivem. E nós vamos
ver que estas ideias permanecem vivas, porque irão se
manifestar em nossos corpos e nos corpos desses jovens
Panteras, que são nossos filhos. Então é verdadeiro
dizer que haverá revolução de uma geração para a
próxima. Este era o legado de George, e ele irá
continuará, e continuará até a imortalidade, porque
acreditamos que o povo vencerá, nós sabemos que o
povo vencerá, à medida que ele avançar, geração após
geração”.
Que tipo de exemplo George Jackson deu?
Primeiro, era um homem forte, sem medo, determindo,
cheio de amor, força e dedicação à causa do povo. Ele
viveu uma vida que devemos louvar. Não importasse o
quanto fosse oprimido, não importasse o quanto de
errado havia feito, ainda manteve o amor pelo povo. E é
por isso que ele não sentiu dor em dar sua vida à causa
do povo.
Mesmo depois de sua morte, George Jackson é
uma figura lendária e um herói. Mesmo o opressor
|252 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

reconhece isso. Para acobertar seu assassinato,


afirmaram que George Jackson matou cinco pessoas,
cinco opressores, e feriu três no espaço de trinta
segundos. Sabe, algumas vezes eu gosto de esquecer o
fato de que isso seria fisicamente impossível.
Mas afinal George Jackson é meu herói. E eu
gostaria de pensar que era possível; eu ficaria muito
feliz pensando que George Jackson tinha a força para
isso porque isso o teria feito super-homem (claro, meu
herói teria que ser um super-homem.). E vamos criar
nossos filhos para ser como George Jackson, viver como
George Jackson e lutar pela liberdade como George
Jackson lutou pela liberdade.
A última declaração de George, o exemplo de sua
conduta em San Quentin naquele terrível dia, deixou um
exemplo para presos políticos e para os presos da
América reacionária e racista. Ele deixou um exemplo
para os exércitos libertadores do mundo. Nos mostrou
como agir. Demonstrou como o mundo injusto pode ser
criticado pela arma. E isto certamente será verdade,
porque o povo cuidará disso.
George também disse que o opressor é muito
forte, e pode espancá-lo, pode nos bater até ficarmos de
joelhos, pode nos esmagar, mas será fisicamente
impossível para o opressor continuar com isso. Em
algum momento suas pernas ficarão cansadas, e quando
suas pernas cansarem, então George Jackson e o povo
irá arrancar sua joelheira.
Então seremos muito práticos. Não iremos fazer
declarações e acreditar nas coisas que as autoridades da
prisão dizem – suas histórias incríveis sobre um homem
matando cinco pessoas em 30 segundos. Iremos seguir
adiante e viver de forma muito realista. Haverá dor e
muito sofrimento para que nós possamos nos
desenvolver. Mas mesmo em nosso sofrimento, eu vejo
uma força crescer.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 253 |

Eu vejo o exemplo que George deu ainda vivo.


Sabemos que todos nós iremos morrer algum dia. Mas
nós sabemos que há dois tipos de morte, a morte
reacionária e a morte revolucionária. Uma morte é
significativa e a outra não é. George certamente morreu
de maneira significante, e a sua morte terá muito peso,
enquanto as mortes daqueles que morreram naquele
dia em San Quentin pesará menos do que uma pena.
Mesmo aqueles que os apoiam agora não os apoiarão no
futuro, porque estamos determinados a mudar suas
mentes. Iremos transformar as suas mentes ou então no
nome do povo teremos que extirpá-los completamente,
completamente, absolutamente e completamente.
Todo Poder ao Povo!

Todas as palavras são inadequadas para


expressar a dor que se sente por um camarada caído.
Mas em um poema, meu irmão Melvin chegou mais
perto do que qualquer um em dar voz a nossos
sentimentos sobre a perda de George Jackson:
|254 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

O Chamávamos de General

O céu é azul,
Hoje está claro e ensolarado,
A casa que George já
viveu, mirada no túmulo,
Enquanto o Pantera falava
do espírito.
Eu vi um homem se mover como um gato
pelos telhados,
Deslizar pelo horizonte,
Não deixando nem sombra,
apenas correntes no mar,
usando suas mãos calejadas,
e pés quebrados para
quebrar as barreiras.
Os anjos dizem que seu nome
é George Lester Jackson -
El General.

1971
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 255 |

Sobre o Intercomunalismo
Huey P. Newton

Nós, o Black Panther Party, acreditamos que


tudo está em um constante estado de mudança, então
aplicamos uma forma de pensar que nos pode colocar
em contato com o processo das transformações.
Ou seja, acreditamos que as conclusões que
chegamos sempre irão mudar, mas os aspectos
fundamentais do método sob o qual chegamos à nossas
conclusões irão permanecer constantes. A nossa
ideologia, portanto, é a parte mais importante da nossa
forma de pensar.
Há muitas ideologias ou escolas de pensamento
diferentes, e todas elas começam com uma base de
premissas a priori. A humanidade ainda é limitada em
seu conhecimento e é difícil nessa etapa histórica falar
sobre o começo e o fim das coisas sem começar de
premissas que ainda não podem ser provadas ainda.
Isso é verdade para ambas as escolas gerais de
pensamento – a idealista e a materialista. Os idealistas
baseiam seu pensar em certas premissas sobre coisas
das quais tem pouco conhecimento; os materialistas
gostam de acreditar que possuem contato com a
realidade, ou com o mundo material real,
desconsiderando o fato de que apenas assumem que
existe um mundo material.
O Black Panther Party escolheu o materialismo
para fundamentar sua ideologia. Isto é uma escolha
puramente arbitrária. O idealismo pode estar correto,
nós podemos não estar aqui afinal. Nós realmente não
sabemos se estamos em Connecticut ou em São
Francisco, se estamos sonhando e em um estado de
sonho, ou se estamos acordados. Talvez nós estejamos
apenas em algum lugar no vazio; nós simplesmente não
podemos ter certeza. Mas como os membros do Black
|256 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Panther Party são materialistas, acreditamos que


alguns cientistas poderão entregar a informação que
nos dará não só a evidência, mas a prova de que existe
um mundo material e que sua gênese foi material –
movimento e matéria – não espírito.
Até lá, contudo, e para os fins desta discussão,
eu meramente peço que concordemos na condição de
que um mundo material existe e se desenvolve externa
e independentemente de todos nós. Com isso, temos
base para um diálogo inteligente. Presumimos que há
um mundo material e que este existe e se desenvolve
independentemente de nós e presumimos que o
organismo humano, através de seu sistema sensorial,
possui a capacidade de observar e analisar esse mundo
material. O materialista dialético acredita que tudo que
existe possui contradições internas fundamentais. Por
exemplo, os deuses africanos do Sul do Saara sempre
tiveram no mínimo duas cabeças, uma para o mal e
outra para o bem. Agora as pessoas criam Deus à sua
imagem e semelhança, o que pensam em como ele –
Deus é sempre “ele” em sociedades patriarcais – é ou
deveria ser. Então o africano disse, em efeito: eu sou
tanto bom quanto mau; o bom e o mau são as duas
partes da coisa que sou eu. Isso é um exemplo de uma
contradição interna.
As sociedades ocidentais, no entanto, dividem o
bom e o mau, colocando Deus no céu e o Diabo no
inferno. O bom e o mau lutam por controle sobre o
povo nas religiões ocidentais, mas são duas entidades
inteiramente diferentes. Isso é um exemplo de
contradição externa.
Tal luta entre tendências opostas mutuamente
excludentes dentro de tudo que existe explica o fato de
que todas as coisas possuem movimento e estão em
constante estado de transformação. As coisas se
transformam porque enquanto uma tendência ou força
é mais dominante que a outra, a mudança é, no entanto,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 257 |

uma constante, e em algum momento o balanço irá


alterar e haverá um novo desenvolvimento qualitativo.
Novas propriedades irão surgir, e qualidades que
juntas não existiam antes. Tais qualidades não podem
ser analisadas sem que se compreenda as forças em
luta dentro do objeto em primeiro lugar, ainda assim as
limitações e as determinações destas novas qualidades
não estão definidas pelas forças que as criaram.
O conflito de classes se desenvolve pelos
mesmos princípios que governam os outros
fenômenos no mundo. Na sociedade contemporânea,
uma classe que detém propriedade domina uma classe
que não detém. Existe uma classe de operários e uma
classe de proprietários, e porque existe uma
contradição básica nos interesses destas duas classes,
estas estão constantemente lutando uma com a outra.
Agora, porque as coisas não permanecem as mesmas,
podemos ter certeza de uma coisa: o proprietário não
continuará como o proprietário, e o povo que está
dominado não continuará dominado. Não sabemos
exatamente como isto irá acontecer, mas após
analisarmos todos os outros elementos da situação,
podemos fazer algumas previsões. Podemos ter
certeza que se elevarmos a intensidade da luta,
chegaremos a um ponto onde o equilíbrio de forças irá
mudar e haverá um salto qualitativo para uma nova
situação com um novo equilíbrio social. Eu digo “salto”
porque sabemos pela nossa experiência do mundo
físico que quando transformações deste tipo ocorrem,
estas vêm com grande força. Estes princípios do
desenvolvimento dialético não expressam uma lei de
ferro que pode ser aplicada mecanicamente ao
processo social. Há exceções à essas leis de
desenvolvimento e transformação, e é por isso que,
enquanto materialistas dialéticos, enfatizamos que
devemos analisar cada conjunto de condições
separadamente e fazer análises concretas de situações
|258 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

concretas em todas os casos. Nem sempre é possível


prever o resultado, mas, na maioria das vezes, é
possível obter uma percepção suficiente para conduzir
o processo. O método dialético é uma ideologia, ainda
assim acreditamos que é superior a outras ideologias
porque nos deixa mais em contato com o que
acreditamos ser o mundo real; eleva nossa capacidade
de lidar com o mundo e moldar seu desenvolvimento e
mudanças.
Você poderia facilmente dizer, “bom, este
método pode ser aplicado com sucesso em um exemplo
particular, mas como você sabe que é um guia infalível
para todos os casos?”. A resposta é que não sabemos.
Não dizemos “todos os casos” ou “guia infalível” porque
não tentamos falar em termos tão absolutos e
inclusivos. Apenas dizemos que temos que analisar
cada caso, que achamos este método o melhor
disponível no rumo das nossas análises, e pensamos
que o método continuará a provar a si mesmo no
futuro. Algumas vezes temos um problema porque as
pessoas não entendem a ideologia que Marx e Engels
começaram a desenvolver. Elas dizem, “vocês afirmam
ser Marxistas, mas vocês sabiam que Marx era um
racista?” Nós respondemos, “bom, ele provavelmente
era racista; falou uma vez sobre um casamento de uma
mulher branca e um homem negro e chamou o homem
negro de gorila ou algo assim. Os marxistas falam que
ele estava só brincando e que a afirmação mostra a
intimidade de Marx com o homem, mas claro que é sem
sentido. Então parece que Marx era racista. Se você é
marxista, então o racismo de Marx afeta sua própria
avaliação porque um marxista é alguém que idolatra
Marx e seu pensamento. Lembrem-se, no entanto, que
o próprio Marx disse “eu não sou marxista”. Tais
marxistas abraçam as conclusões que Marx chegou
através de seu método, mas jogam fora o próprio
método – os deixando em uma postura totalmente
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 259 |

estática. É por isso que a maior parte dos marxistas são


na verdade materialistas históricos; olham para o
passado para buscar respostas para o futuro, e isso não
funciona. Se você é materialista dialético, contudo, o
racismo de Marx não importa. Você não acredita nas
conclusões de uma pessoa, mas na validade de um
modo de pensar; e nós no Partido, enquanto
materialistas dialéticos, reconhecemos Karl Marx
como um dos grandes contribuidores a este modo de
pensar. Se Marx era ou não racista isso é irrelevante e
imaterial para o fato de se o sistema de pensamento
que ele ajudou a desenvolver nos traz verdades sobre
os processos do mundo material. E isso é verdade para
todas as disciplinas. Em toda disciplina você encontra
pessoas que distorceram visões e estão a um baixo
nível de consciências que, não obstante, isso tem
flashes de percepção e produzem ideias que valem ser
consideradas. Por exemplo, John B. Watson já afirmou
que seu passatempo predileto era caçar e enforcar
negros, ainda assim ele fez grandes avanços na análise
e investigação de respostas condicionadas. Agora que
eu disse algo sobre a ideologia do Partido, irei
descrever a história do Partido e como transformamos
a nossa compreensão do mundo.
Quando começamos em outubro de 1966,
éramos o que podia se chamar de nacionalistas negros.
Percebemos as contradições na sociedade, o peso sob
o povo negro em particular, e vimos que a maior parte
dos povos no passado resolveram alguns de seus
problemas se forjando em nações. Portanto,
argumentamos que era lógico e racional para nós
acreditar que nossos sofrimentos enquanto povo
terminariam quando estabelecermos uma nação nossa,
composta de nosso próprio povo. Depois de um tempo
vimos que havia algo errado nessa forma de resolução
do problema. No passado, a condição de nação era algo
relativamente fácil de se conseguir. Se olharmos agora,
|260 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

todavia, vemos que o mundo – o espaço geográfico, as


partes habitáveis como a conhecemos – está bem
estabelecido. Então percebemos que para criar uma
nova nação teríamos que nos tornar uma fração
dominante nesta, e ainda assim o fato de que não
tínhamos poder era a contradição que nos levou a
buscar a condição de nação em primeiro lugar. É um
círculo sem fim, veja: para conquistar independência
nacional, precisávamos nos tornar uma força
dominante; mas para se tornar uma força dominante,
precisávamos ser uma nação.
Então fizemos uma análise profunda e vimos
que para nos tornarmos uma força dominante,
precisaríamos no mínimo estar em grande número.
Nos desenvolvemos de apenas simples nacionalistas
para nacionalistas revolucionários. Dizemos que nos
juntamos com todos os outros povos do mundo em luta
por decolonização e independência, e nos chamamos
de “colônia dispersa”, porque não tínhamos a
concentração geográfica que as outras ditas colônias
tinham. Mas nós tínhamos comunidades negras por
todo o país – São Francisco, Los Angeles, New Haven –
e há muitas semelhanças entre estas comunidades e o
tipo tradicional de colônia. Também pensamos que se
nos aliássemos com estas outras colônias teríamos um
maior número, chances maiores, uma força maior; e é
isso que precisávamos, claro, porque apenas a força
nos mantinha como um povo colonizado.
Vimos que era não apenas benéfico para nós
sermos nacionalistas revolucionários, mas expressar
nossa solidariedade com aqueles amigos que sofriam
muito do mesmo tipo de opressão que sofríamos.
Portanto mudamos nossas auto-definições. Dizemos
que não somos somente nacionalistas revolucionários
– ou seja, nacionalistas que querem mudanças
revolucionárias em tudo, incluindo o sistema
econômico que o opressor infringe contra nós – mas
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 261 |

também somos indivíduos profundamente


preocupados com os outros povos do mundo e suas
aspirações revolucionárias. Para demonstrar essa
solidariedade decidimos nos chamar de
internacionalistas. Originalmente, como eu disse, nós
supomos que o povo poderia resolver uma série de
seus problemas ao se tornarem nações, mas esta
conclusão demonstrou nossa falta de entendimento do
desenvolvimento dialético do mundo. Nosso erro foi
supor que as condições sob as quais povos se tornaram
nações no passado ainda existiam. Para ser uma nação,
deve se atender certas condições essenciais, e se estas
coisas não existem ou não podem ser criadas, então
não é possível ser uma nação. No passado, Estados-
Nações eram normalmente habitados por um povo de
certo panorama étnico e religioso. Eles eram divididos
dos outros povos seja por uma divisão de água ou um
grande espaço geográfico desocupado.
Esta divisão natural deu à classe dominante da
nação, e ao povo em geral, uma certa quantia de
controle sobre os tipos de instituições políticas,
econômicas e sociais que estabeleceram. Deu a elas
certa soma de controle sobre seu destino e seu
território. Elas estavam seguras ao menos na medida
que não seriam atacadas ou violadas por outras nações
dez milhares de milhas de distância, simplesmente
porque os meios de locomover tropas para tão longe
não existiam. Esta situação, contudo, não poderia
durar.
A tecnologia desenvolvida foi uma
transformação qualitativa nas relações entre as
nações. Sabemos que não se pode mudar uma parte
sem mudar o todo, e vice-versa.
Como a tecnologia se desenvolveu e houve um
crescimento nas capacidades militares e nos meios de
locomoção e comunicações, as nações começaram a
controlar outros territórios, distante das suas
|262 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

fronteiras. Geralmente controlavam estas terras


enviando gestores e colonos, que iriam explorar
trabalho do povo ou extrair recursos da terra – ou
ambos. É o fenômeno que conhecemos como
colonialismo.
O controle dos colonialistas sobre a terra
tomada e sobre o povo cresceu a tal medida que não
era mais necessário ao colonialista estar presente para
manter este sistema.
Ele voltou para casa. O povo estava tão
integrado com o agressor que a sua terra não parecia
mais como uma colônia. Mas pelo fato da sua terra não
parecia também com um Estado soberano, alguns
teóricos começaram a chamar esses territórios de
“neocolônias”.
Argumentos sobre a definição correta disso se
desenvolveu. São colônias ou não? Se não são, o que
são? Os teóricos sabiam que algo havia acontecido, mas
não sabiam o que era.
Usando o método materialista dialético, nós no
Black Panther Party vimos que os EUA não eram uma
nação. Era outra coisa; mais que uma nação.
Havia expandido seus limites territoriais,
expandiu todos seus controles.
Chamamos de Império. Agora, uma época o
mundo tinha um império em que as condições de
domínio são outras, o Império Romano.
A diferença entre os impérios romano e o
estadunidense é que nações foram capazes de existir
externa e independentemente do Império porque seus
meios de exploração, conquista e controle eram
limitados.
Mas quando falamos “império” hoje, queremos
dizer precisamente o que dizemos.
Um Império é um Estado-Nação que se
transformou em uma potência que controla todas as
terras e povos do mundo. Acreditamos que não há mais
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 263 |

colônias ou neocolônias. Se um povo é colonizado, deve


ser possível para este decolonizar e se tornar o que era
anteriormente.
Mas o que acontece quando as matérias-primas
são extraídas e o trabalho é explorado dentro de um
território disperso sobre todo o globo? Quando as
riquezas da terra estão sendo esgotadas e usadas para
alimentar uma gigantesca máquina industrial na casa
dos imperialistas?
Então o povo e a economia estão tão integrados
no império imperialista que é impossível se
“descolonizar” para retornar às antigas condições de
existência. Se colônias não podem se “decolonizar” e
voltar à sua existência original como nações, então as
nações não existem mais.
E também não acreditamos que irão existir de
novo algum dia. E dado que é necessário nações para o
nacionalismo ou internacionalismo revolucionário
fazer sentido, decidimos que teríamos que nos chamar
de algo novo.
Afirmamos que o mundo hoje é um conjunto
disperso de comunidades. Uma comunidade é
diferente de uma nação. Uma comunidade é uma
pequena unidade com coleção abrangente de
instituições que existem para servir a um pequeno
grupo de pessoas.
E dizemos ainda que a luta no mundo de hoje é
entre o pequeno círculo que administra e lucra do
império dos Estados Unidos e os povos do mundo que
querem determinar seus próprios destinos.
Chamamos esta situação de intercomunalismo.
Estamos agora na era do intercomunalismo
reacionário, onde um círculo dominante, um pequeno
grupo de pessoas, controlam todos os outros povos
utilizando sua tecnologia.
Ao mesmo tempo, afirmamos que esta
tecnologia pode resolver a maior parte das
|264 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

contradições materiais que o povo enfrenta, que essas


condições materiais se existissem, iriam permitir aos
povos do mundo desenvolver uma cultura que fosse
essencialmente humana e estimularia aquelas coisas
que permitiriam que os povos resolvessem
contradições em uma maneira que não causaria a
matança de todos nós.
O desenvolvimento de tal cultura seria o
intercomunalismo revolucionário. Algumas
comunidades começaram a fazer isso. Libertaram seus
territórios e estabeleceram governos provisórios.
Reconhecemos elas, e afirmamos que estes
governos representam o povo da China, Coreia do
Norte e o povo nas zonas libertadas do Vietnã do Sul, e
o povo do Vietnã do Norte.
Acreditamos que seus exemplos deveriam ser
seguidos para que a ordem do dia não fosse o
intercomunalismo, mas o intercomunalismo
revolucionário. Os povos do mundo devem tomar o
poder do pequeno punhado das classes dominantes e
expropriar os expropriadores, derrubá-los de seu
poder e torná-los iguais, e distribuir os frutos do
trabalho que foram negados. Sabemos que a tecnologia
para realizar estas tarefas existe e queremos acesso a
esta.
O imperialismo estabeleceu as bases para o
comunismo mundial, e cresceu ao ponto do
intercomunalismo porque o mundo agora está
integrado em uma comunidade. A revolução
comunicativa, combinada com a dominação do
império, criou o que se chama de “aldeia global”. Os
povos, as culturas estão nas mesmas forças e têm
acesso às mesmas tecnologias.
Há apenas diferenças em níveis entre o que
acontece aos negros aqui e o que acontece aos povos
do mundo; Suas necessidades são as mesmas e sua
energia também. E as contradições que sofrem só serão
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 265 |

resolvidas quando o povo estabelecer um


intercomunalismo revolucionário onde partilhem de
toda a riqueza que produzem e vivem em um mundo. A
etapa da história está pronta para tal transformação; a
base administrativa e tecnológica do socialismo existe.
Quando o povo tomar os meios de produção e
todas as instituições sociais, então haverá um salto
qualitativo e mudança na organização da sociedade.
Levará tempo para resolver as contradições do
racismo e as formas de chauvinismo; mas porque o
povo controlará suas instituições, estará livre para se
recriar e estabelecer o comunismo, uma etapa do
desenvolvimento humano onde os valores humanos
irão moldar as estruturas da sociedade.O mundo estará
pronto para uma etapa superior da qual não podemos
saber nada.

Fevereiro de 1971
|266 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Capitalismo Negro re-analisado


Huey P. Newton
Esse é um diálogo em nosso contínuo debate
sobre o novo enfoque do Black Panther Party, à medida
que começamos a levar a cabo a visão original do
Partido. Quando cunhamos a expressão “Todo poder ao
povo”, tínhamos em mente a ênfase na palavra “Poder”,
por entendermos que o desejo de poder é o movimento
básico do homem. Mas é incorreto buscar poder sobre
as pessoas. Temos sido submetidos à exploração e ao
racismo durante anos; e a comunidade negra tem sua
própria vontade de poder também. O que buscamos, no
entanto, não é poder sobre as pessoas, mas o poder para
controlar nossos próprios destinos. Para nós, a
verdadeira definição de poder não é em termos de
quantas pessoas podemos controlar. Para nós, poder é,
antes de tudo, a habilidade de definir fenômenos e,
segundamente, a habilidade de fazer esses fenômenos
agirem da maneira desejada. Vemos que o poder possui
um caráter dual, e não podemos simplesmente
identificar e definir fenômenos sem a ação, pois isso nos
faria filósofos de sofá. E quando Bobby e eu saímos de
Merritt College para organizar os irmãos, o fizemos
porque os estudantes da faculdade estavam muito
conformados em ficar sentados e analisar sem agir. Do
outro lado, poder inclui agir, porque é fazer um
fenômeno agir da maneira desejada. Mas ação sem
pensamento e teoria é igualmente incorreto. Se as forças
sociais no trabalho na comunidade não têm sido
corretamente analisadas e definidas, como você pode
controlá-las para que ajam da maneira desejada? Então
o Black Panther Party sempre fundiu teoria e prática de
maneira que servisse os verdadeiros interesses da
comunidade.
Ao fundir teoria com a prática, reconhecemos
que era necessário desenvolver uma teoria que fosse
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 267 |

válida para mais de uma época e lugar. Nós queríamos


desenvolver um sistema de pensamento que fosse bom
em qualquer lugar, portanto, teria que ser um pouco
abstrato. No entanto, nossa teoria diria respeito à
análise concreta das condições concretas, para que
nossas ações fossem sempre relevantes e rentáveis para
as pessoas. No entanto, ao mesmo tempo, tinha que
avançar seu pensamento para que pudessem se mover
em direção da transformação da sua situação de
exploração e opressão. Nós sempre insistimos em boa
teoria e boa prática, mas nem sempre fomos bem-
sucedidos. Quando o Black Panther Party deserdou da
comunidade negra, nos tornamos, por um instante, uma
seita revolucionária. Uma das principais características
de um membro de uma seita revolucionária é que ele
despreza todos os que não tenham atingidos seu nível
de consciência, ou o nível de consciência que acha que
atingiu, ao invés de agir para trazer as pessoas a esse
nível. Dessa forma, o membro da seita revolucionária se
divide do povo, deserda da comunidade. Ao invés de
servir ao povo enquanto uma vanguarda, ele se torna
um herói. Heróis se envolvem em ações muito corajosas
às vezes, e frequentemente fazem grandes sacrifícios,
incluindo o sacrifício supremo, mas ainda estão isolados
do povo. Suas ações corajosas e sacrifícios não levam as
pessoas a um alto nível de consciência e nem produzem
mudanças fundamentais na exploração e opressão do
povo. Todavia, uma vanguarda irá guiar o povo para
alcançar níveis mais elevados de consciência, e dessa
forma irá trazê-los ao ponto onde irão tomar medidas
mais severas por seus próprios interesses e contra os
daqueles que continuam os oprimindo.
Como disse anteriormente, a revolução é um
processo e não um fim em si. Um verdadeiro
revolucionário não realiza apenas ações corajosas, ele
também irá tentar avançar o povo de maneira de que
eles transformem sua situação. Ou seja, ao entregar o
|268 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

poder ao povo o verdadeiro revolucionário irá ajudá-lo


a definir o fenômeno social em sua comunidade e guiá-
lo ao ponto de que irão aproveitar tal chance e fazer
deste fenômeno agir de maneira desejada. Portanto,
enquanto revolucionários devemos reconhecer a
diferença entre o que o povo pode fazer e o que o povo
irá fazer. Eles podem fazer qualquer coisa que desejem
fazer, mas irão apenas tomar aquelas ações que forem
compatíveis a seu nível de consciência e compreensão
da situação. Quando elevarmos sua consciência, irão
entender ainda mais plenamente o que de fato podem
fazer, e lidarão com a situação de maneira corajosa. Isso
é fundir sua teoria com suas práticas. O ponto 3 do
Programa original de 10 pontos do Black Panther Party
é “Queremos o fim da exploração dos capitalistas contra
a comunidade negra”. Essa era nossa posição em
outubro de 1966 e ainda é a nossa posição.
Reconhecemos que o capitalismo não é a solução para
os problemas que enfrentamos em nossas
comunidades. A exploração capitalista é uma das causas
fundamentais do nosso problema.
O objetivo do Black Panther Party é negar o
capitalismo em nossas comunidades e nas comunidades
oprimidas ao redor do mundo. Contudo, muitas pessoas
ofereceram à comunidade, capitalismo negro como
solução aos nossos problemas. Nós reconhecemos que
as pessoas na comunidade negra não têm uma antipatia
geral ao conceito de capitalismo negro, mas isso não é
porque amam o capitalismo.
De maneira nenhuma. A ideia de capitalismo
negro passou a significar para muitas pessoas o controle
negro das instituições na comunidade. Enxergamos
dentro dessa característica as sementes da negação do
capitalismo negro e de todo o capitalismo em geral. O
que devemos fazer, então, é aumentar as qualidades
positivas até que estas dominem as negativas e então
transformem a situação.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 269 |

No passado, o Black Panther Party assumiu uma


posição contrarrevolucionária com a condenação geral
do capitalismo negro. Nossa estratégia deveria ter sido
analisar as qualidades positivas e negativas desse
fenômeno antes de fazer qualquer condenação. Embora
reconheçamos, e corretamente, que o capitalismo não é
solução ou resposta, nós não fizemos uma análise
verdadeiramente dialética da situação. Nós
reconhecemos que, para trazer as pessoas para o nível
de consciência onde iriam aproveitar a oportunidade,
seria necessário servir a seus interesses de
sobrevivência, desenvolvendo programas que iriam
ajudá-los a satisfazer suas necessidades diárias. Por um
tempo, tínhamos esses programas, não apenas para
sobrevivência, mas também para fins de organização.
Agora não temos apenas o programa de café da manhã
para crianças, temos programas de roupas, clínicas de
saúde que prestam serviços médicos e dentários
gratuitos, programas para prisioneiros e suas famílias,
estamos abrindo fábricas de roupas e sapatos para
fornecer mais coisas que atendam às necessidades da
comunidade. Recentemente começamos um programa
de pesquisa e testes sobre anemia falciforme, e sabemos
que 98% das vítimas dessa doença são negros. Falhar no
combate dessa doença é se submeter ao genocídio;
combatê-la é sobreviver.
Todos os programas satisfazem as profundas
necessidades da comunidade, mas não são soluções
para nossos problemas. É por isso que chamamos de
programas de sobrevivência, que significa
sobrevivência até a revolução. Nós dizemos que os
programas de sobrevivência do Black Panther Party são
como um kit de sobrevivência de um marinheiro preso
em uma jangada. Irá ajudá-lo a se manter até que possa
sair totalmente da situação. Então, os programas de
sobrevivência não são respostas ou soluções, mas
ajudarão a organizar a comunidade em torno de uma
|270 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

verdadeira análise e compreensão da situação. Quando


a consciência e compreensão for elevada a um nível
superior, então a comunidade irá aproveitar a
oportunidade e se livrará das botas de seus opressores.
Todos nossos programas de sobrevivência são
gratuitos. Nós nunca cobramos da comunidade um
centavo para que recebessem o que precisam dos
nossos programas e não iremos fazer isso. Não vamos
ser pegos em um monte de perguntas embaraçosas ou
papeladas que alienam o povo. Se eles têm uma
necessidade, iremos servir suas necessidades e tentar
levá-los a entender as verdadeiras razões pelas quais
passam necessidade nessa terra tão incrivelmente rica.
Os programas de sobrevivência sempre irão operar sem
custos para aqueles que precisam e se beneficiam deles.
Para realizar esses programas, precisamos de dinheiro.
No passado, recebemos dinheiro de ricos
filantropos brancos, humanitários, e seus monopólios
corporativos. Ao mesmo tempo em que estávamos
engajados em uma condenação dos pequenos
capitalistas negros vitimizados encontrados em nossas
comunidades. Essa tática estava errada, uma vez que
recebíamos dinheiro para nossos programas de
sobrevivência de grandes capitalistas brancos, e
livremente admitíamos isso.
Quando dizemos que vemos dentro do
capitalismo negro as sementes da sua própria negação e
a negação do capitalismo como um todo, nós
reconhecemos que o pequeno capitalista negro em
nossas comunidades tem o potencial de contribuir para
a construção da máquina que irá servir aos verdadeiros
interesses do povo e acabar com toda a exploração.
Aumentando as qualidades positivas dos
capitalistas negros, podemos ser capazes de trazer uma
solução não antagônica da sua contradição com a
comunidade, ao mesmo tempo que elevando a
contradição das comunidades oprimidas com o grande
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 271 |

império capitalista corporativo. Isso irá intensificar a


contradição antagônica entre a comunidade oprimida e
o império; e aumentando tal contradição, irá
consequentemente haver uma transformação violenta
do império corporativo. Faremos isso através dos
programas de sobrevivência, que tem o interesse da
comunidade no coração.
Vemos agora o capitalista negro como em um
relacionamento similar à comunidade negra como a
burguesia nacional (nativa) tem com o povo em guerras
nacionais de descolonização. Em guerras de
descolonização, a burguesia nacional apoia a luta de
libertação do povo porque reconhecem que isso é de seu
próprio interesse egoísta.
Então, quando o explorador estrangeiro foi
expulso, a burguesia nacional toma seu lugar e continua
a exploração. Entretanto, a burguesia nacional é um
grupo mais fraco, embora sejam exploradores. Uma vez
que o povo enxerga o capitalismo negro na comunidade
como um controle negro das instituições locais, essa é
uma característica positiva, porque o povo pode trazer
mais foco e direção às atividades do capitalista. E, ao
mesmo tempo, o negro capitalista que tem os interesses
da comunidade no coração irá responder às
necessidades do povo, porque é onde sua verdadeira
força reside. No que tange ao capitalismo em geral, o
capitalista negro tem meramente a posição de vítima,
porque o grande capitalista branco tem as técnicas,
fazem os empréstimos, e de fato controlam o capitalista
negro. Se ele quer ter sucesso em seu negócio, o
capitalista negro deve se voltar para a comunidade,
porque depende dela para fazer seus lucros. Ele precisa
desse forte apoio da comunidade, porque não pode se
tornar independente do controle dos capitalistas
corporativistas que controlam os grandes monopólios.
O capitalista negro será capaz de apoiar o povo
contribuindo com os programas de sobrevivência do
|272 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Black Panther Party. Ao contribuir com esses


programas, será capaz de ajudar a construir o veículo
que acabará por libertar a comunidade negra. Ele não
será capaz de libertar o povo de seus problemas, mas
será capaz de ajudar a construir a forte máquina política
que irá servir como vanguarda revolucionária e irá guiar
o povo a se mover para a sua liberdade.
A nossa re-análise do capitalismo negro e seu
relacionamento com a comunidade, sob a perspectiva
do materialismo dialético, e nosso entendimento
prático das necessidades da comunidade e das atitudes
do povo em relação ao capitalismo negro, nos leva a uma
nova posição.
Empresários negros que tem o interesse da
comunidade no coração será capaz de contribuir com o
povo através dos programas comunitários do Black
Panther Party. Esses programas gratuitos irão ajudar a
comunidade a sobreviver e, assim, impedir o genocídio
que é sempre uma ameaça a nossa existência aqui.
Em troca dessas contribuições, o Black Panther
Party irá colocar anúncios dessas empresas em nossos
jornais e chamar a comunidade a apoiá-las. Nunca
venderemos espaços publicitários no jornal, mas vamos
dar espaço em troca das contribuições aos programas
de sobrevivência, que são oferecidos gratuitamente à
comunidade.
Dessa forma, vamos conseguir uma maior
unidade da comunidade de vítimas, pessoas que são
vitimizadas pela sociedade em geral, e os capitalistas
negros, que são vitimizados pelos monopólios
capitalistas corporativos.
Assim, vamos reforçar as qualidades positivas do
capitalismo negro até que estas dominem as negativas,
e a exploração não será mais a realidade que a
comunidade relutantemente aceita. A comunidade irá
ver aqueles que apoiam sua sobrevivência e vai auxiliar
seus locais de negócios. Ao mesmo tempo, a
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 273 |

comunidade também irá criticar aqueles que se


recusarem a participar em seus programas de
sobrevivência e vai para cima deles.
Se o establishment tentar ir para cima desses
empresários que apoiam os programas de
sobrevivência, então a comunidade irá reconhecer isso
como outra forma de opressão e vai defender de
maneira mais incisiva seus apoiadores. Dessa forma, a
consciência do povo e o nível da luta vai avançar.
Não há salvação no capitalismo, mas através
dessa nova abordagem o capitalista negro irá contribuir
com sua própria negação ajudando a construir um forte
veículo político, guiado por conceitos revolucionários e
que opera como uma vanguarda para o povo. De certa
forma, nossa nova posição tem a simplicidade e
perfeição de uma fórmula matemática.
Quando o capitalista negro contribui com os
programas de sobrevivência e faz uma contribuição à
comunidade, a comunidade o apoiará e, assim,
fortalecer seu negócio. Se ele não fizer nenhuma
contribuição à sobrevivência da comunidade, o povo
não irá apoiá-lo, e sua empresa irá definhar por conta da
sua própria negligência.
Apoiando a comunidade, entretanto, estará
ajudando a construir a máquina política que acabará por
negar sua exploração da comunidade, mas também nega
sua exploração e vitimização pelo capitalismo
corporativo.
Então elevaremos a contradição entre a
comunidade negra e o capitalismo corporativo,
enquanto ao mesmo tempo iremos reduzir a
contradição entre o capitalista negro e a comunidade
negra. Desta forma, o capitalismo negro será
transformado de uma relação de exploração da
comunidade em uma relação de serviço à comunidade,
que irá contribuir para a sobrevivência de todos.
|274 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

5 de junho de 1971
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 275 |

A Revolução e a “Esquerda Branca” na


América
Novamente, gostaríamos de agradecer a Robert Seier de
Nova York (ver artigo da edição de 15 de abril de 1972 do Black
Panther Intercommunal News Service, “A China traiu a Revolução?”)
por contribuir para o jornal do povo, fornecendo sua visão, sobre as
atividades de um segmento da esquerda americana:
O Imperialismo, a etapa superior do capitalismo,
afeta todos os aspectos de uma sociedade: o econômico,
o político, o militar, o social, e o cultural. A fim de
realizar uma luta revolucionária eficaz, o povo deve se
opor ao Imperialismo em todos os âmbitos do Império
maligno. Com o declínio da qualidade de vida e o
subsequente aumento da consciência revolucionária na
América, o povo começou a estudar as obras
revolucionárias de Marx, Engels, Lenin, Stalin,
Presidente Mao, dos Camaradas Kim Il Sung, Ho Chi
Minh, Che Guevara, Malcolm X, e outros grandes líderes
da luta mundial dos povos por libertação. Nos últimos
anos, porém, alguns ditos “revolucionários” brancos e
de classe média, após sofrerem algumas derrotas
iniciais no embate político, e declararam que a política
não é mais relevante e, portanto, vão focar a sua atenção
nos aspectos culturais da luta. Inicialmente, estes
“culturalistas” citavam as obras do Presidente Mao e de
Che e alegavam serem seus discípulos. Agora estes
mesmos provocadores culturais estão denunciando
estes grandes revolucionários, dando a entender que
eles são tão repressores quanto Nixon e sua laia, e que o
marxismo-leninismo não é mais relevante. Estes
provocadores culturais admiram países decadentes
como a Dinamarca, Suécia, Índia, Canadá, Inglaterra,
“Israel” e “Bangladesh”. Estas pessoas não conseguem
distinguir entre certo e errado; entre a “democracia”
liberal-reacionária nos países acima mencionados e a
democracia revolucionária no campo socialista.
|276 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Atividades como fumar maconha, festivais de


rock, encher piscinas com gelatina, adoração de Jesus,
aderir à metafísica, o oculto, e outras formas de
escapismo e comodismo, são a sua ideia de “revolução
cultural”. Esquecendo a opressão e a exploração do
povo na América e no mundo, estes pseudo-
revolucionários burgueses brancos evitam a violência
revolucionária como um meio eventualmente
necessário para obter nossa libertação (mesmo o quão
infeliz pode ser isso) e insistem que a revolução se trata
de “fazer suas próprias coisas”. O Imperialismo Cultural
por parte dos reacionários é muito bem conhecido por
todos que estão sob o tentáculo belicoso e pérfido do
Império dos Estados Unidos. No entanto, agora temos
que lidar com um novo tipo de imperialismo cultural,
dos provocadores culturais e elitistas intelectuais da
“esquerda” da classe média branca (eu devo acrescentar
que eu mesmo sou jovem, branco e de classe média).
Enquanto afirmam ser revolucionários, estas pessoas
são proletárias na forma, mas burgueses em essência;
revolucionários na forma, mas reacionários em
essência. Eles falham em fazer a distinção necessária
entre simbolismo e verdadeira representação, e entre
rebelião e revolução – rebelião da cultura burguesa,
neofascista, e a adesão à uma cultura revolucionária
(exemplos aqui são os desenhos do Camarada Emory no
jornal do Partido, que é um meio de resistir à influência
da mídia reacionária). O tamanho do cabelo de alguém e
os métodos de recreação de alguém já não são sinais de
revolucionarismo de qualquer um, se é que já foram
algum dia. Estas coisas são meramente símbolos de
nossa divina resistência, e não necessariamente um
instrumento de nossa libertação. Estas pessoas não
podem ver que a “revolução” cultural que eles
defendem, além de ser de natureza burguesa, está sendo
explorada por um punhado de gananciosos monopólios
capitalistas ou corporativistas cujo único objetivo é
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 277 |

acumular riqueza. Alguns reacionários também fumam


maconha, se vestem “estranho”, tem cabelos longos,
ouvem soul e rock, e acenam com o sinal da paz, bem
como com a bandeira do governo dos Estados Unidos.
Mas são na verdade diabos disfarçados. Enquanto
apresentam a imagem de estarem do lado do povo, estes
capitalistas “hippies” na verdade estão minando a causa
da luta do povo, sob formas sutis, sendo a mais sinistra
delas a cooptação.
Para citar um exemplo do Imperialismo cultural
de “esquerda”, Jerry Rubin (que uma vez teve a cara de
pau de se chamar de “comunista”, sem saber o que a
palavra significa), e alguns de seus companheiros
“Yippies” visitaram o Chile, um país que começou a levar
a cabo um programa de construção socialista. Rubin
voltou dizendo que os chilenos eram “marxistas
ortodoxos” e condenou as políticas do Presidente
Allende porque ele não defende o uso de maconha.
Muitos destes mesmos provocadores culturais também
denunciam Democracias Populares como a China, Cuba,
Albânia, Coreia Democrática, e o Vietnã Democrático
porque estes países defendem uma cultura proletária
revolucionária e não uma cultura
contrarrevolucionária, liberal burguesa do ‘Faça sua
própria coisa’ que certos “esquerdistas” nos EUA
advogam. Estas pessoas são culpadas da mesma
agressão imperialista que o Governo dos Estados
Unidos comete diariamente a escala global. Eles (os
provocadores culturais) querem impor um certo tipo de
ordem social, cultura, e valores nestes países
independentemente das tradições de um povo que não
são necessariamente contrarrevolucionários ou
opressores simplesmente porque são externas e
diferentes das nossas. A cultura é assunto interno de um
país, de um povo, e só pode ser determinado pelo
próprio povo e não por estrangeiros. Devemos
reconhecer que várias peculiaridades étnicas existem
|278 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

dentro de um país e entre distintos países, e isso não é


ruim, pelo contrário, é bom. Nesse planeta, existe espaço
para várias culturas. Isso pode ser comparado com um
buquê de flores (para parafrasear Huey) onde as ervas
venenosas seriam os primeiros a ser removidos.
Nos últimos anos, estes “esquerdistas”
ostensivamente se opuseram à guerra de agressão dos
EUA na Indochina, alegando que era uma guerra local
que é assunto interno do povo da Indochina, e que os
EUA estão destruindo a sociedade, cultura e costumes
do povo indochinês, assim como consolidando suas
garras nas esferas política e econômica. Eu estou de
acordo com a posição deles. Eles realizaram uma
campanha assídua e prolongada para educar o povo
americano sobre a verdadeira natureza da guerra de
agressão dos Estados Unidos e a intervenção na
Indochina. Não é necessário dizer, a questão da
Indochina foi um alvo primário para certos políticos
oportunistas mirarem para conquistar benefícios
políticos. Quando isso aconteceu –, os “esquerdistas”
não perderam tempo em seguir a música desses
demagogos se registrando como ditos “democratas” e
fazendo campanha para liberais reacionários
travestidos, que fazem um monte de promessas vazias e
falam hipocritamente para os movimentos de libertação
na América. O objetivo destes políticos “liberais” não é
facilitar uma mudança fundamental no sistema
econômico e sociopolítico norte-americano, mas eles
estão trabalhando meramente para “liberalizar” e
reformar a superestrutura capitalista por meio do
parlamentarismo democrático-burguês. Apesar do fato
de que esses políticos capitalistas reformistas
consistentemente traírem a luta do povo, se
“desculparem” para os revolucionários dos Estados
Unidos, e até mesmo rejeitarem alguns de seus próprios
seguidores, seus apoiadores da juventude persistem em
pegar a pedra apenas para deixá-la cair em seus pés.
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 279 |

Além disso, estes “esquerdistas” também se movendo


perigosamente para o campo de organizações
reacionárias como a Sionista Liga de Defesa Judaica, e a
mafiosa “Liga de direitos civis dos ítalo-americanos”
que recebeu o apoio da “defensora da libertação da
mulher” Ti-Grace Atkinson, que foi para o campo do
inimigo. Então na verdade, enquanto afirmam terem
abandonado a política, alguns destes “esquerdistas”
ingênuos abraçaram e se entrincheiraram na política
burguesa. Como resultado, eles ressurgiram no cenário
político, só que dessa vez do lado errado do rio. Na
verdadeira tradição do revisionismo, aqueles que
antigamente eram nossos mais firmes aliados agora são
traidores da causa, incluindo organizações suspeitas
como a dita “Progressive Labor Party” e o trotskista
“Socialist Worker’s Party”.
Dividir e Conquistar é a velha fórmula
maquiavélica e é hoje a principal tática para a oligarquia
dominante da América manter a sua hegemonia. Muitos
“esquerdistas” (como Abbie Hoffman)
inconscientemente fizeram o jogo deles explorando e
tornando pública as contradições no seio do povo (como
a saída de certas pessoas do Black Panther Party). No
entanto, o quão bem-intencionado estes “esquerdistas”
sejam, ainda preservam vestígios da visão de mundo
burguesa, e muitos disfarçam, algumas vezes se
transformando em traços abertos e racistas. A fins de
conclusão, quero dizer que o propósito desta carta não
é enfraquecer e dividir ainda mais um movimento já
dividido (na verdade, uma de minhas esperanças é que
um dia possamos criar uma frente única nacional de
todas as forças progressistas nos Estados Unidos). Mas
ao invés disso, meu propósito é clamar ao povo a
analisar a situação usando o método do materialismo
dialético, examinar as nossas debilidades
objetivamente, resolver nossos problemas
imediatamente, evitar a cooptação capitalista, e nos
|280 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

comprometer à luta contínua e à revolução perpétua.


Devemos perceber, contudo, que pouco pode ser
conquistado por via do individualismo pequeno-
burguês. Pelo contrário, devemos concentrar nossos
esforços em construir uma maior unidade dentro do
movimento revolucionário, uma unidade baseada nos
princípios da luta coletiva e de cooperação com
disciplina revolucionária e crítica interna. Devemos
também expurgar estes elementos renegados dentro
dos partidos de vanguarda que são incorrigíveis, a fim
de garantir a nossa solidariedade na luta.
Ao mesmo tempo, devemos criticar atitudes
ruins dentro do Partido como arrogância,
individualismo, liberalismo, pessimismo, inércia, e
complacência, e retificá-las em tempo adequado. E
devemos ser especialmente vigilantes para prevenir o
aventureirismo de “esquerda” e o oportunismo de
direita, dogmatismo e revisionismo, e desvios
reformistas e liberais de criar e destruir, corromper e
obstruir o trabalho partidário, bem como evitar as
armadilhas do chamado “Comunismo libertário”,
materialismo vulgar burguês, e o autoritarismo fascista.
Dependendo da situação específica em um período
particular, certos desvios são mais predominantes,
assim garantindo a maior parte de nossa atenção.
Seguindo as regras do centralismo democrático,
construíremos uma muito mais firmemente de
princípios e obstinada, porque é na Unidade que reside
a nossa força. A fórmula do Presidente Mao de “unidade,
crítica, unidade” nunca foi mais relevante e importante
como é hoje em nossa luta para construir uma nova
cultura, uma nova sociedade e uma nova nação. A fim
de obter a libertação, devemos primeiro conquistar a
revolução política e econômica antes de podemos
implementar plenamente a ideologia do povo na
revolução social e cultural. Para fazer isso, devemos
primeiro desenvolver uma linha revolucionária correta,
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 281 |

para quando a linha do Partido for assimilada pelas


massas, todas as coisas sejam resolvidas. Quando
tomamos decisões, devemos investigar todos os
aspectos, levar o todo do problema em consideração, e
examinar as coisas em sua perspectiva histórica a fim de
chegar à conclusões corretas e fazer julgamentos
válidos. Devemos usar o conhecimento do passado para
determinar onde estamos, e o conhecimento do
presente para determinar para onde queremos ir e
como chegaremos lá. O mais importante de tudo,
devemos nos lembrar que o Marxismo-Leninismo-
Pensamento Mao Tsé-tung é um guia para a ação, e não
para reflexões intelectuais. Nossa tarefa reside não na
interpretação da história, mas na transformação ativa
dela. De todos os fenômenos do universo, apenas a
transformação é absoluta. E para encerrar, enquanto J.
Edgar Hoover nos rotular como uma ameaça e um
perigo para a segurança interna do imperialismo
estadunidense, sabemos que estamos indo para a
direção correta.
Todo poder ao povo!

Robert Seier, jornal Black Panther 22 de


abril de 1972
|282 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

A China traiu a Revolução?


Na segunda parte da entrevista da camarada
Elaine Brown com a camarada Angela Davis, que
circulou na 11ª edição de março do Serviço de Notícias
Intercomunais Black Panther, Angela indicou algumas
ressalvas sobre a República Popular da China à luz da
visita de Nixon ao país. Infelizmente, uma série de
pseudo-revolucionários, e alguns revolucionários
também, condenaram a China. Nesse ponto, gostaria de
apresentar minhas visões da posição chinesa e ao
mesmo tempo refutar as críticas à China e oferecer
algumas críticas no espírito da camaradagem à Angela.
As conclusões dos detratores da China, da esquerda e da
“esquerda” são incorretas porque se originam de uma
falsa premissa e se baseiam em um discurso falacioso.
Para começar, Nixon mostrou interesse em
visitar a China e, portanto, foi convidado para ir para lá,
o que subsequentemente fez. Isso não é
necessariamente uma traição à revolução.
O Presidente Mao por muito tempo sustentou
que a China iria buscar paz e fazer negócios com os
países imperialistas, mas ao mesmo tempo “não iria
nutrir noções não realistas sobre eles”. Tenham em
mente que foi Nixon que foi para a China, e não vice-
versa.
Foi Nixon que sentou espantado na presença de
Mao Tsé-tung. Foi Nixon quem olhou com cobiça para o
esplendor da arquitetura chinesa como se fosse uma
criança. Foi Nixon que quis conversar. Foi Nixon que foi
obrigado a reconhecer a realidade da República Popular
da China.
E foi Nixon que foi persuadido a concordar com
os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica entre
nações, formulados na Conferência de Bandung em
1955. E isso é bom, porque agora, certos países “não-
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 283 |

alinhados” que possam ter respeitado e/ou temido o


imperialismo dos EUA, agora verão sua verdadeira
natureza pérfida e belicosa quando violar os Cinco
Princípios como já fez anteriormente.
Obviamente, os chineses, assim como nós
mesmos, sabem que Nixon foi para a China para
apresentar a imagem de um apaziguador, para apoiar
sua campanha por reeleição e, se possível, abrir a China
para a exploração capitalista dos monopólios dos EUA.
Também é aparente que os chineses não são tão
ingênuos como nós (os revolucionários) fomos levados
a crer; e que nós os subestimamos.
As críticas à China são inválidas porque o todo do
problema não foi levado em consideração quando
analisaram a situação. A maior parte dos americanos
(incluindo os revolucionários) procederam sua
informação da mídia controlada pela burguesia, com as
visões e interpretações dos “jornalistas” burgueses
como nossos guias, e nisso baseamos nossas opiniões
(infelizmente). É por isso que as críticas estão erradas.
Eu me pergunto quantos deles leem os jornais chineses,
tais como o Peking Review, e vem escutando a Rádio
Pequim? Sem fazer isso, sua visão sobre a China está
incompleta.
Por 50 anos, Mao Tsé-tung trabalhou
diligentemente e sem parar pela Revolução Chinesa;
teorizando sobre suas várias etapas e eventualmente
levando elas até serem completas, com o período da
construção socialista ainda em progresso. Foi dito que
nos anos 30 e 20 (os anos magros da Revolução
Chinesa), o Presidente Mao estava certo quando muitos
outros estavam errados, invariavelmente avançando
pela linha correta, dependendo das condições históricas
específicas da China em um particular período de
tempo. Depois de meio século de luta, um homem como
o Presidente Mao não se abandona seus princípios no
dia para noite.
|284 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

O Presidente Mao, no passado, apoiou a luta do


povo por libertação nos Estados Unidos, e lançou
declarações certificando isso em 1963, em 1968 e em
1970, para nomear algumas recentes. Obviamente, o
Presidente Mao acredita que o curso atual da China é o
melhor caminho para garantir os sucessos da revolução.
E isso não é revisionismo.
Em 1945, Mao foi para Chungking, sentou,
conversou e brindou com Chiang Kai-chek. O Presidente
Mao traiu a revolução quando fez isso? Certamente não.
Ele simplesmente percebeu logicamente que o Exército
de Libertação Popular ainda não era forte o suficiente
para derrubar Chiang. Então sentou, conversou e
estagnou por um tempo.
Quatro anos depois ele conversou pelas armas e
aproveitou a oportunidade. O Presidente Mao sabia
exatamente o que fazer e quando fazer. Ele foi com o
fluxo e refluxo da luta. Ele venceu; Chiang perdeu. A
realidade da China daquele momento provou que Mao
estava correto. À luz da situação mundial em
transformação, o Partido Comunista da China deve
manter o ritmo com a realidade da situação, ou
enfrentar a possibilidade de se tornar obsoleto e
anacrônico.
Falando em revisionismo, eu notei que essas
críticas atacaram a China, mas ficaram calados quanto à
claque renegada soviética. Gritando contra um
revisionismo chinês imaginário, mas ignorando o apoio
soviético à invasão do Paquistão pela Índia.
Obviamente, a URSS se esforça para dividir o mundo em
esferas de influência – metade para eles e metade para
os imperialistas estadunidenses, com o Terceiro Mundo
não tendo voz (em outras palavras, a disputa e conluio
simultâneos entre a URSS e os EUA por hegemonia
mundial).
Entretanto, desde sua chegada nas Nações
Unidas, a China vem ficado ao lado dos direitos da
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 285 |

comunidade do Terceiro Mundo, que foram


flagrantemente violados pelas duas superpotências
(naturalmente, o Partido de Angela, o PC dos EUA, de
orientação pró-soviética, apoia o revisionismo soviético
ao máximo, e vibra com a retórica anti-China ao estilo
da soviética). Os soviéticos nunca apoiaram a justa luta
do povo palestino para recuperar sua terra, ao passo
que a China consistentemente apoiou as guerras de
recuperação nacional do povo palestino e contra a
agressão expansionista de Israel, sob a égide do
imperialismo estadunidense.
Apesar disso, acabei de ler que o negociador-
chefe da URSS, Leonid Ilyichev, recentemente voltou a
Pequim (em apoio ao “caso de amor” entre China e
Estados Unidos). Não podemos culpar o Partido
Comunista da China e jogar nossas frustrações na China
porque fomos culpados e negligentes em levar a cabo
nossa própria revolução. Só podemos culpar a nós
mesmos. Eu penso que muitos revolucionários vêm
vivendo uma revolução de terceiros.
Obviamente, isso é fadado ao fracasso. Devemos
nos importar com os negócios em mãos, e parar de
reclamar de outros camaradas do campo socialista. Eles
estão lidando com seus assuntos internos. É hora de
lidarmos com nossos assuntos aqui. O Presidente Mao
não irá marchar vitoriosamente até Washington. Nós
vamos.
(Eu quero acrescentar, entretanto, que apesar de
minha crítica à camarada Angela Davis, eu a apoio
resolutamente em sua justa luta para obter a absolvição de
acusações forjadas, fabricadas pelo Regime de Wall Street-
Pentágono.)

Todo Poder ao Povo!

Robert Seier, no jornal Black Panther


|286 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

15 de abril de 1972
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 287 |

Os verdadeiros revolucionários
brancos avançam
O Serviço de Notícias Intercomunal Black
Panther é um jornal popular. Com isso queremos dizer
que o jornal tenta disseminar informação para o povo,
particularmente para o povo negro e o povo pobre, que
nos ajudarão em nossa luta por plena libertação;
notícias sobre nossas vidas, que a mídia da estrutura de
poder ignora; artigos que exponham a verdadeira
natureza decadente dessa sociedade; a verdade sobre
situações que a mídia distorceu em defesa dos
interesses do governo e das classes dominantes dos
Estados Unidos. Mais do que isso, esse jornal tenta
expressar as ideias, pensamentos e opiniões do povo,
através da utilização de artigos escritos pelo povo. Em
essência o Serviço de Notícias Intercomunal Black
Panther é um fórum aberto, não apenas expressando a
ideologia do Black Panther Party, mas as variadas
opiniões que existem em nossas comunidades pobres e
negras. Se fôssemos publicar apenas o que o Partido
acredita, o jornal teria apenas uma dimensão,
expressaria um pensamento básico. Através de artigos
enviados por muitas pessoas, o jornal permite um
espectro amplo de opiniões. Na verdade, ainda que o
Black Panther Party possa não concordar com todo ou
parte de um artigo, expressar uma visão particular que
possa servir aos interesses do povo, publicaremos.
Diferente dos medíocres jornal e mídia usuais, o Serviço
de Notícias Intercomunal Black Panther pensa que
diferentes opiniões são válidas de se publicar e
precisam ser lidas, para que o povo possa ter
informação suficiente se baseando em outras opiniões.
É através da utilização de artigos escritos por diferentes
pessoas que essa ideia de fórum aberto pode realmente
ser implementada. Frequentemente, o Serviço de
|288 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

Notícias Intercomunal Black Panther publicou artigos


que na verdade expressam uma visão que o próprio
Black Panther Party não adere. Sem explicar ou nos
desculparmos por tal coisa, iremos publicar a
informação dos autores, como foi mandada para nós.
Isso afasta o jornal de se tornar um grande editorial e
impede o leitor de ser atolado em “retórica pantera”.
Iremos continuar essa política, o quanto for possível, e
encorajar a todos que desejam enviar um artigo que
possa ser nos interesses de nosso povo a fazê-lo.
Para nos aprofundarmos nesse ponto, um artigo
foi publicado na edição do jornal de 22 de abril de 1972,
que ainda que parecesse apoiar, em geral, a filosofia e a
ideologia do Black Panther Party, na prática não
representava as visões do Black Panther Party. Por
conta do jornal ser um fórum aberto, tomamos o
privilégio não apenas de publicar uma diversidade de
materiais, mas de criticar esse material. É com esse
pensamento que desejamos expor a linha reacionária,
coberta de fraseologia revolucionária, expressa no
artigo mencionado acima “A Revolução e a esquerda
branca na América”, escrito por Robert Seier. O artigo
do Sr. Seier criticava movimento radical dos jovens
brancos nos EUA com palavras muito incisivas,
denunciando em absoluto os esforços sinceros dos
jovens brancos pela América em largar uma linhagem
racista e se unir às massas do povo negro e outros povos
de cor na luta pela transformação revolucionária. Ele
deve primeiro ser criticado pela natureza absoluta da
sua crítica e o egoísmo individual de pensar que como
ele mesmo sendo um jovem branco, poderia, contudo,
estar isento de rótulos tão auto-impostos. Ele denuncia
a esquerda branca como um movimento de classe
média, usando alguns exemplos isolados, que exagerou
para caber em seus exemplos mal-tomados. Por
exemplo, diz que a esquerda branca denuncia os líderes
revolucionários, como o Presidente Mao Tsé-tung e o
| Todo Poder ao Povo | Partido dos Panteras Negras | 289 |

Presidente Fidel Castro serem iguais a “Nixon e sua laia”,


enquanto falha em apontar o trabalho progressista,
revolucionário de organizações predominantemente
brancas como o Southern Conference Educational Fund
(atuante em Kentucky) ou Rising up Angry (Chicago,
Illinois). Ambas essas organizações, por exemplo,
trabalham em comunidades de brancos pobres,
minimizando o racismo que é disseminado na mente
dos brancos pobres pelos capitalistas brancos e
servindo às necessidades básicas do povo. O Sr. Seier
estava se referindo à essas pessoas como
“pseudorrevolucionários brancos burgueses”? Essas
organizações atuam com os carvoeiros, os plantadores
de batata, famílias carentes, que dificilmente podem ser
chamadas de parte da burguesia. Talvez o Sr. Seier não
conheça seu próprio povo.
O Sr. Seier não concedeu nenhum lado positivo
aos movimentos dos brancos em sua totalidade, e
enquanto denuncia a esquerda branca, fracassa em
reconhecer que, principalmente, esses mesmos jovens
radicais brancos desempenharam um grande papel em
trazer um despertar em massas e a denúncia da guerra
de agressão dos EUA no Vietnã. O povo vietnamita
certamente não concordaria com essa posição, dado que
saudam os povos que usam de seu talento e tempo para
apoiar suas justas lutas. Os vietnamitas não estão presos
no ego para não reconhecer amigos, e não serem
capazes de distinguir inimigos. Além disso tudo, o Sr.
Seier, em essência, confunde amigos com inimigos.
Evidentemente, críticas podem ser niveladas à dita
“esquerda branca”, mas tal movimento por parte dos
filhos e filhas dos grandes capitalistas, funcionários do
governo, deve ser visto, em sua totalidade, como um
passo positivo e progressista na tarefa de unir as massas
do povo americano em torno da transformação
revolucionária. Certamente os milhares de jovens
brancos que apanharam brutalmente nos campi
|290 | Todo o Poder ao Povo!| Panteras Negras |

universitários dos porcos racistas que detestam seu


apoio às lutas dos povos; certamente esses que andaram
e marcharam por longas horas, dias para protestar
contra a injustiça; certamente os quatro estudantes
assassinados nos tiroteios de Kent State não podem ser
colocados juntos como parte do que Seier chama de uma
cultura “neofascista”. Finalmente, o Sr. Seier deve estar
ciente que existe uma organização de brancos que
trabalham especificamente com o Black Panther Party,
mas na comunidade de brancos pobres, implementando
programas de sobrevivência do povo, sob a direção do
partido de vanguarda. Essa organização, o Comitê
Intercomunal de Sobrevivência de Combate ao
Fascismo, está engajada em muitas atividades que
servem às necessidades e aspirações das comunidades
de brancos pobres. Eles servem suas comunidades
diariamente com programas de café da manhã
gratuitos; deram milhares e milhares de malas de
mantimentos, de graça para seu povo, assim como
roupas, testes de anemia falciforme, etc. Agradecemos
ao Sr. Seier por nos enviar o artigo, mas criticamos suas
visões incorretas e sua óbvia falta de compreensão da
maneira correta de como levar a cabo uma revolução.
Todo Poder ao Povo!

Jornal Black Panther


13 de maio de 1972
Progressistas estadunidenses,
liderados pelos Panteras, voltam da
China
No último 5 de março, vinte pessoas, representando
setores variados da sociedade americana, se juntaram.
Eles se reuniram por um interesse comum, para
embarcar em um avião para a República Popular da China.
Mais que isso, tinham em comum suas aspirações coletivas
em ver transformações progressistas nesse país.
O grupo era particularmente único, porque
demonstrou, pela sua existência, a unidade que pode ser
conquistada pelo povo americano em nossa luta pela
libertação de todos os povos oprimidos.
Representando vários grupos étnicos, e abrangendo
diversas gerações, o grupo virou um, se transformando em
delegação do povo estadunidense, que vieram de seus
diferentes caminhos na vida, para trabalhar e viver sob
tutela do Black Panther Party, como convidados da
República Popular da China. Isso foi um tapa na cara dos
racistas e dos ultradireitistas; e refutou os brados
arrogantes e elitistas dos “guerrilheiros” ultra-esquerdistas
sobre o atraso das massas populares.
O grupo não era composto por indivíduos
“especiais”ou personalidades únicas, dado que cada pessoa
representou um ou outro segmento do povo americano:
Marie Branch é uma enfermeira registrada de
Boulder, Colorado; Allen Brotsky é um advogado de São
Francisco; Miriam Cherry, capelã associada da
Universidade de Stanford; Mari Gushi, uma jovem irmã de
Okinawa, ensina para o Ensino Médio em Los Angeles; o
irmão Ron Haynes, mestre em Matemática pela
Universidade de California em Berkeley; Edna Nelson, uma
secretária e dona de casa em Boston, que tem três filhos;
David Levinson, um jovem que faz trabalho político
organizativo em comunidades de brancos pobres; William
Seid, que faz trabalho semelhante em sua comunidade
chinesa em New York; Dr. Bert Small, um médico que vem
servindo ao povo por bastante tempo na Clínica Grátis de
Saúde e pesquisa médica George Jackson do povo; e Ed Sue,
um arquiteto sino-americano da California. Junto com o
grupo acima foram dez membros do Black Panther Party:
Liderando toda a delegação estava o Ministro de Educação
do Black Panther Party, Raymond Masai Hewitt, junto com
Emory Douglas, Ministro da Cultura; o mais jovem membro
da delegação era Dennis Litzsey de 12 anos de idade,
camarada Dennis e camaradas Rochella Hilliard e Teddy
Hill, todos representaram Instituto Intercomunal da
Juventude Samuel Napier, onde todos eram estudantes.
Os outros cinco vieram de seções variadas do Black
Panther Party: Audrea Jones, de Massachussetts; Mike
Cross, de Ohio; Ronald Satchell, de Illinois; Maurice Powell,
do Tennessee; e Harold Holmes, de Louisiana.
Naturalmente, antes mesmo de entrarem na
fronteira chinesa, para entrar na civilização, essa delegação
progressista foi confrontada com os esforços conjuntos dos
reacionários para destruir tal unidade entre o povo.
Viajando na Canadian Pacific Airlines, a delegação teve que
fazer uma parada de uma hora em Vancouver, British
Columbia, Canadá, antes de ir para Hong Kong (de lá
deveriam pegar o trem para a fronteira com a China). De
repente, foram encurralados na escala em Vancouver por
lacaios dos EUA, os agentes personalizados do Canadá, que
de maneira grosseira (sem a suavidade bem polida dos seus
chefes porcos dos EUA) exigiram que ficassem em
Vancouver para “investigação”. Após várias horas nas quais
estiveram detidos desnecessariamente, perdendo o único
voo para Hong Kong, a delegação foi obrigada a pegar uma
rota completamente diferente, em outra companhia aérea.
Estes patéticos esforços por parte dos Estados Unidos, para
dificultar a visita – que foi feita por amizade pelo povo
americano, após Nixon ter acabado de voltar da China,
representando o governo estadunidense em uma visita
requisitada pelo Estado –, estes esforços só serviram para
frustar os agentes de Nixon, porque logo os 20 camaradas
chegaram ao território livre. Na visita de um mês, a amizade
e solidariedade entre o povo chinês e o povo estadunidense
foi fortalecida, com a delegação graciosamente hospedada
por toda a China, como amigos do Povo.
Após retornarem para os EUA, em 11 de abril, um
grupo de americanos, novo, unificado e mais
comprometido foi saudado no Aeroporto de São Francisco
por membros do Black Panther Party, família e amigos. Os
800 milhões de chineses, assim como o Partido Comunista
da China, irão abrir as portas para o governo dos Estados
Unidos; contudo, como essa delegação do povo americano
pôde observar, a amizade e o amor revolucionário do povo
chinês se estendem ao nosso povo.
Todo Poder ao Povo!

publicado no jornal Black Panther


22 de abril de 1972