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A ORDEM DO DISCURSO1

Marcelo Pinheiro Martins2

Em A Ordem do Discurso, o autor Michel Foucault, define o discurso como forma de


poder e controle, nesta obra originada da aula inaugural no College de France, pronunciada em
2 dezembro de 1970. Foucault, apresenta o discurso de forma falada e escrita. Em suas palavras
Foucault questiona como explicar o discurso através do discurso. Neste pronunciamento o autor
demonstra o desejo de não discursar nesse tema, porém a instituição reforça e também afirma
que o poder que pode vir do discurso, ele advém “é de nós, só de nós, que ele lhe advém”
(FOCAULT, 1996, p.7).
O discurso na visão do autor tem poderes e perigos, que o discurso em sua forma de
dominação pode ser conduzido pelo homem a valores e interesses, dentre outros fatores que
influenciam na sua abordagem e entendimento. Que o discurso é forma de controle, seleção e
organização, também pode ser exclusivo de grupos, além de através do procedimento de
exclusão que ele classifica em interdição, a separação e a vontade de verdade, definir quem,
quando e o que pode e como deve dito. Interdição, onde três subdivisões aparecem:

Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que


fala: temos aí o jogo de três tipos de interdições que se cruzam, se reforçam ou se
compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar.
(FOCAULT, 1996, p.9).

Como destaque neste momento é citado na obra a sexualidade e a política. Como uma
proibição no tema sexualidade e a exclusividade na política, onde a sexualidade recebe uma
comparação com buracos negros e política como pacificadora, atribuindo também a esses
temas, um privilégio, e que a estes atribui temíveis poderes. Pode-se entender que o poder de
um discurso referente a esses temas, como algo que não revela o seu interesse, e que nesta forma
oculta traz interesses de poder e dominação.
Neste outro principio separação e rejeição, o autor faz referência a Idade Média, onde
aquele que pronuncia seu discurso e faz referência a algo que não pode ou deve ser dito,
disseminado, como outros discursos, ele era tomado como louco, que suas palavras não tinham

1
Resenha da obra A ORDEM DO DISCURSO. Disciplina Direitos Humanos, Relações Étnicos Raciais, Diversidade
e Gênero – Prof. Sebastian Ramos
2
Aluno do curso de Psicologia – Faest | 3º Semestre | Matutino
valor e nem verdade. A maneira que o autor coloca a sabedoria de um, que não pode ser
percebido por outros, também era tomado como louco.
Como terceiro sistema de exclusão, o verdadeiro e o falso. Foucault questiona a
definição de verdade, sendo que logo de saída, são arbitrárias ou se organizam em torno da
história. A verdade em seu tempo, descolocando, se modificando sendo sustentadas por um
sistema que as impõe e reconduzem. Poderia entender que neste ponto, a verdade é conduzida
através dos tempos, conforme os acontecimentos, a necessidade de poder, assim as instituições
determinam a verdade e o falso. Vale a pena destacar, que a verdade pode ser aquilo que a
sociedade aceita e falso aquilo que ela nega, desta maneira atendendo a grupos específicos.
Na busca pela verdade, desde o marco do período de Hesíodo e Platão que separou o
discurso verdadeiro do falso, onde discursar em virtude do precioso e desejável não é mais o
verdadeiro. Fato do desejo da verdade, do desejo de saber. Ainda em outros períodos, o autor
apresenta a “verdade” em meios regidos por técnicas e mecanismos de verificação, porém pode-
se entender que a verdade não pode ser absoluta em campo algum, o que hoje se apresenta na
ciência como uma verdade, pode ser mudada com uma nova descoberta, porém é a base, é
começo e não poderia ser tomada como falsa, mas também não seria uma verdade absoluta.
Foucault também apresenta outros procedimentos, interno, externo e sistema de
restrição. Como procedimentos internos, poderia entender como interno àqueles que
determinam seus próprios discursos e disseminam estes de alguma forma, ou como comentários
ou disciplinas, talvez em meios de comunicação, que determinam seus temas, verdades, desejos
e utilizando-se desses como forma poder, também controlando, interditando, excluindo e
propagando “verdades”, em momentos oportunos, também nas áreas da ciência e outros como
críticos comentando discursos de outros autores.
Como referência a discursos que já foram pronunciados, estão sendo e serão ainda
pronunciados, o autor apresenta os textos religiosos ou jurídicos, Foucault apresenta esses
temas como algo incessante que na sua visão se modifica o discurso com tempo, porém
apresenta-se de forma a não se anular, mas sim se apresentar conforme a época que é discursado.
Como procedimentos externos estão os procedimentos de exclusão citados
anteriormente.
Como terceiro procedimento, o sistema de restrição:
Creio que existe um terceiro grupo de procedimentos que permitem o controle dos
discursos. Desta vez, não se trata de dominar os poderes que eles têm, nem de conjurar
os acasos de sua aparição; trata-se determinar as condições de seu funcionamento, de
impor aos indivíduos que os determinar as condições de seu funcionamento, de impor
aos indivíduos que os pronunciam certo número de regras e assim de não permitir que
todo mundo tenha acesso a eles. Rarefação, desta vez, dos sujeitos que falam; ninguém
entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início,
qualificado para fazê-lo. (FOCAULT, 1996, p.34, p.35).

Como no exemplo do marinheiro que possuía conhecimento em matemática e que foi


convidado a vir ao palácio, onde o “rei” em particular tomou lições com ele, e reteve este
conhecimento e consequentemente o poder. Agora é apresentado como a exemplo das
“sociedades de discurso”, que existem regras que selecionam os que podem discursar assuntos
específicos, como profissionais de áreas diversas, que além do conhecimento para discursar é
acompanhado de um ritual, onde se diferenciam com gestos, comportamentos, e tem como
finalidade controlar o que é dito, fazendo com que alcance a respostar desejada naqueles que
os ouvem.
Estes que discursam devem seguir rituais e assumir papéis pré-estabelecidos, podendo
aqui entender que discursos religiosos, judiciários, terapêuticos seguem um processo
preparatório e que estes discursos são exclusivos de um grupo e que fazem parte de desses
grupos, aqueles obedecem a normas, e como citado anteriormente, o discurso neste sentido é
tido como algo valioso e contribuem entre si em um espaço fechado e protegido. A doutrina
tem um objetivo diferente, que é a divulgação e propagação do discurso, que para isso deve ser
aceita como verdade e seguir um conjunto de regras mais ou menos rígidas. Enquanto nas
disciplinas se define um campo específico e restrito o qual se define como verdade a doutrina
reúne e une indivíduos em grupos, por outro os afastam dos demais.
A educação é o canal onde todos têm acesso a diversidade de discursos, porém esses
discursos são regidos por linhas marcadas, pelas oposições e lutas sociais, podemos entender,
que apesar da diversidade de discursos disponíveis, são direcionados e guiados por pretensões
ideológicas, políticas e limitadas por interesses de grupos sociais.
Foucault apresenta estas divisões que regem por interesse o discurso, porém afirma
que estão todos ligados em algum momento, de certa forma, fazendo com que se construa uma
estrutura de distribuição de diferentes discursos e que categorias de sujeitos se utilizam dele.
O autor expõe a ideia de sujeito fundante, como aquele que é o fundador do discurso,
porém sem passar por ele, se referindo a alguma experiência anterior a regras escritas, que
originaram pensamentos e posteriormente deram origem aos escritos, que ele chama de
experiência originária, também expõe a ideia da mediação universal, onde se explica um
discurso com base em um outro discurso, que os discursos são intercambiáveis, e são reinscritos
tornando se nulos diante da realidade e tomando ordem do significante. “O discurso nada mais
é do que a reverberação de uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos;” (FOUCAULT,
1996, p. 46),
“[...] funda novos horizontes de significações, que a história não terá senão de explicar
em seguida”, “e onde as proposições, as ciências, os conjuntos dedutivos encontrarão,
afinal, seu fundamento”. (FOUCAULT, 1996, p. 44),

seria uma nova abertura para o discurso referente a um tema, que possibilitaria retomar uma
experiência original com novas possiblidades e traria oportunidade de uma nova análise e
conhecê-lo, de forma verdadeira. Foucault parece dar entender que retomar o discurso a partir
do acontecimento original, seria uma maneira para abrir novas possibilidades e que não tomaria
o discurso inicial como verdadeiro, porém através dessa abertura de discussão pudesse alcançar
a verdade.
Outros princípios aplicados ao discurso que os distorcem ou distanciam da verdade,
são eles, inversão, descontinuidade, especificidade e exterioridades. Na inversão, Foucault
aponta um jogo negativo, onde o indivíduo que discursa, acredita que o discurso segue a linha
original como do autor, fazendo recortes de rarefação do discurso, faz com ele seja o inverso
do sentido original. No princípio da descontinuidade, mesmo com os sistemas de rarefação não
significa que o discurso se limita apenas a um recorte, nem que são contínuos, “Os discursos
devem ser tratados como práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se
ignoram ou se excluem.” (FOUCAULT, 1996, p. 50). No principio da especificidade, há uma
orientação, a de não aceitar o discurso como verdades absolutas, que a nossa vontade de verdade
não deve ser cumplice de nosso conhecimento, “Deve-se conceber o discurso como uma
violência que fazemos às coisas” (FOUCAULT, 1996, p. 50), a não aceitação de interpretação
ligada a inspiração “logofilia-logofobia”, rege o princípio da regularidade do discurso.
Foucault aponta quatro noções de princípio regulador e através destes analisar e buscar
a verdade no discurso, noção de acontecimento, a de série, a de regularidade, a de condição e
possibilidade, e esclarece através de uma de um contraposto: “[...]acontecimento à criação, a
série à unidade, a regularidade à originalidade e condução de possibilidades à significação”[...].
(FOUCAULT, 1996, p. 51).

REFERÊNCIA

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso: aula inaugural no Collège de France,


pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. –
24.ed. -- São Paulo: Edições Loyola, 2014.