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A sociologia surge, como nova área de conhecimento, após uma série de fatores

históricos e intelectuais, a partir de um contexto histórico específico: a queda do sistema feudal


e a instalação definitiva do capitalismo, com as revoluções Industrial e francesa.

São partícipes do seu processo de criação vários pensadores que tentavam


compreender as movimentações sociais em curso e o surgimento de novos problemas até então
não experimentados pelo ser humano.

A concentração dos meios de produção nas mãos do capitalista e a destruição de


culturas inteiras passam a moldar uma nova forma de organização social. O artesão deixa de ser
artesão e seu trabalho se transforma em manufatura e, depois, em atividade fabril e este
trabalhador independente passa a empenhar sua força produtiva não mais para si, mas para um
patrão, com relações de trabalho muito promiscuas. Mulheres e crianças trabalhavam ao menos
12 horas, sem férias, sem feriado e ganhando menos que os homens.

O resultado desta transformação é a explosão demográfica sem um mínimo de estrutura


para acolher essa população que se deslocava do campo para as cidades industriais. Tudo isso
se converteu em prostituição, suicídio, alcoolismo, infanticídio, criminalidade, violência e
epidemias de tifo e cólera e a consequente dizimação de parte dessa população.

No contexto criado pela revolução industrial, surge a figura do proletariado, com papel
histórico na sociedade capitalista. Ela passa a negar sua condição de vida e se organiza contra
os donos dos instrumentos de trabalho: não era pobre contra rico; era uma nova classe
emergindo, a classe operaria, com consciência dos seus interesses. O proletariado vai dos
movimentos de revolta com atos de destruição de maquinas e sabotagens diversas até a
formação dos sindicatos, com a produção de jornais, literatura própria, com críticas ao sistema
capitalista e se inclinando ao socialismo como alternativa.

Toda essa movimentação, tal sua profundida na mudança da estrutura da sociedade se


constituía em um problema ou um objeto a ser investigado, fundamentando possíveis ações
sobre esta mesma sociedade, fosse para mantê-la ou para transformá-la e criando um novo
saber sobre a sociedade.

A nova estrutura social surgida pós revolução industrial e as discussões e debates sobre
essa nova sociedade e suas contradições levam, em boa parte ao surgimento da sociologia. A
outra parte cabe a uma nova forma de pensamento. O homem renuncia a uma visão
sobrenatural das coisas em detrimento da indagação racional: o método científico para
explicação da natureza se utiliza da observação e da experimentação. Com efeito, nega a
autoridade, o dogmatismo e a percepção de providencia divina das coisas.

No século XVIII, o pensamento social abria novas possibilidades. O processo histórico,


pressupõe-se, possui uma lógica que pode ser alcançada. A partir deste pensamento, a
sociedade podia ser compreendida, porque são os indivíduos nela contidos que a edificam. O
pensamento de Vico influencia historiadores escoceses do período, como David Hume e Adam
Ferguson até ser amadurecida, mais tarde, por Hegel e Marx.

Ferguson, porém, também estuda a sociedade a partir de seus grupos e não apenas a
partir da individualidade.
A função da sociologia com vistas a mudar não apenas as formas do conhecimento, mas
a sociedade em si, é percebido, no século XVIII, entre os pensadores franceses.

Os conflitos constantes entre as classes dominantes da sociedade feudal e a burguesia


revolucionária, levam os iluministas a negarem a sociedade existente.

Estes filósofos indagavam a sociedade a partir de pensadores como Descartes, Bacon,


Hobbes mas com método tomado por influência de Newton (conhecimento baseado na
observação, na experimentação e na acumulação de dados). Desta forma, fazendo uso de
métodos com base na razão e na observação, os iluministas analisaram quase todos os aspectos
da sociedade, na busca de mostrar que as instituições da época eram irracionais e injustas e
impediam a liberdade do indivíduo. Chega aqui a indicação da eliminação das instituições
existentes.

A progressão do conhecimento, ou das formas de pensar, a partir da nova forma de se


produzir e de viver, se desprende totalmente das formas de conhecer baseadas na superstição
e na crença infundada e se debruça sobre a constituição de um saber sobre os fenômenos sócio-
históricos.

Na mesma mão dos filósofos e estudiosos, o cidadão comum também se distanciava das
instituições sociais, do sobrenatural. Esse fenômeno é importante para a ascensão da burguesia
ao poder, em 1789 (início da revolução francesa), uma vez que fazem coro às reivindicações
contrarias à manutenção do estado das coisas, sob a não conformação da manutenção de, por
exemplo, privilégios a uma parcela pequena da sociedade, mantida pela monarquia.

O que os burgueses planejaram, contudo, era uma mudança total na forma da sociedade
vigente. E isso incluía um levante contra as organizações dos trabalhadores (sindicatos), mas
também contra a Igreja, levando ao estado as atribuições que antes eram desta instituição como
a educação, além de confiscar propriedades e suprimir votos monásticos.

Os conflitos que levaram Tocqueville e Duckheim ao espanto, também levou outros


pensadores da época a classificarem as consequências da revolução como um estado de
anarquia, perturbação, desordem e de crise.

Para encontrar um equilíbrio para esta nova sociedade e reestabelecer a ordem e a paz,
os pensadores propõem a necessidade de se conhecer as leis que regem os fatos sociais,
instituindo uma ciência da sociedade. Com vistas a controlar e neutralizar novas investidas de
grupos revolucionários, a burguesia supera o pensamento iluminista: a filosofia agora deve
empreender esforços no sentido de estudar a sociedade na mão de conduzi-la, agora, a
organização. A substituição da revolução pela aceitação (segundo Saint-Simon e Comte).

Tal como na Inglaterra, na França, a investida do capitalismo industrial, sobretudo das


fabricas têxteis, estava na utilização da mão-de-obra barata da mulher e da criança, com
consequência de migração desordenada para os centros urbanos e acumulo de problemas como
habitação, falta de higiene, alcoolismo, prostituição elevada, assim como era elevada a taxa de
mortalidade infantil.

Começam, a partir da terceira década do século XIX, os grandes atos de contestação da


ordem capitalista pela classe trabalhadora, tendo a burguesia usado o aparato do Estado para
reprimir manifestações. A nova ciência assume a tarefa intelectual de repensar a ordem social,
buscando nas instituições atacadas anteriormente o fio condutor que levaria a estabilidade.
Essa guinada aos movimentos de reforma conservadora aborda a importância da
autoridade, da família e da hierarquia social para o estudo da sociedade. Le Play alerta que, com
a industrialização, as famílias estavam instáveis e inseguras e propõe a autoridade do chefe de
família e ataca a igualdade jurídica entre homens e mulheres, colocando o segundo grupo na
condição exclusiva de mãe, esposa e filha.

Nessa busca por estabilizar a sociedade, Comte trata a sociologia como física social, em
que os fenômenos sociais devem ser estudados sob os mesmos aspectos que as ciências física,
química, fisiologia, etc., não submetida a leis mutáveis. Assim, é evidente a ligação entre
sociologia e positivismo. E, sendo positivista, não questionará a sociedade capitalista.

Se não questiona a sociedade dentro do capitalismo, não pode, portanto, orientar o


proletariado em suas diversas lutas práticas. Cabe, por fim, essa orientação teórica ao
pensamento socialista e nesse contexto sim, a sociologia se junta ao socialismo ficando do lado
dos interesses da classe trabalhadora.