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ARTIGO

DE REVISÃO

Transição caminhada-corrida: considerações


fisiológicas e perspectivas para estudos futuros
Walace David Monteiro1,2 e Claudio Gil Soares de Araújo1,3

RESUMO modelos matemáticos; protocolos utilizados nos estudos


de transição caminhada-corrida; aspectos metabólicos do
Freqüentemente, os profissionais que atuam na ativida-
trabalho em esteira e no solo; características antropométri-
de física deparam-se com um dos seguintes questionamen-
cas e transição caminhada-corrida; demanda energética e
tos: Qual a melhor atividade, caminhar ou correr? Quando
transição caminhada-corrida; estabilidade locomotora e
devo parar de caminhar e começar a correr? Seria interes-
transição caminhada-corrida. Em todos, realizou-se um
sante alternar as duas formas de atividade? Se, por um lado,
comentário de seus pontos positivos, controvérsias e limi-
as perguntas podem ser facilmente respondidas para um
tações. Por fim, são apontadas algumas possibilidades que
indivíduo saudável e bem condicionado, para os demais
poderiam ser alvo de investigações futuras.
permanecem dúvidas que devem ser esclarecidas. Enquan-
to andar e correr são mais eficientes em velocidades, res- Palavras-chave: Locomoção humana. Transição caminhada-corri-
pectivamente, abaixo de 6km.h-1 e acima de 8km.h-1, per- da. Economia de corrida. Consumo de oxigênio.
manece indefinida qual a melhor forma de locomoção na Fisiologia do exercício. Condicionamento físico.
faixa intermediária de velocidade, ou seja, na intensidade
de esforço em que ocorre a transição entre a caminhada e a ABSTRACT
corrida. É nesse ponto que recaem dúvidas sobre os meca-
Walking-running transition: physiological considerations
nismos fisiológicos que regulam a seleção da locomoção.
and perspectives for future studies
Além disso, também permanecem sem explicações con-
vincentes quais as implicações que os diferentes modos de Professionals who deal with physical activity are fre-
locomoção podem exercer sobre as variáveis que caracte- quently confronted with one of the following questions: which
rizam a intensidade de esforço. Dessa forma, este artigo is the best activity, walking or running? When should I stop
objetiva revisar os estudos que abordam os mecanismos walking and start running? Would it be interesting to al-
envolvidos na transição caminhada-corrida, apontando la- ternate the two types of activity? Although these questions
cunas que possam ser objeto de pesquisas acerca dos me- can be easily answered for a healthy and fit individual,
canismos e implicações das respostas fisiológicas obtidas some doubts remain and need to be clarified for other cas-
nessa faixa de esforço. O texto foi organizado com os se- es. While walking and running are more efficient in veloc-
guintes tópicos: estudo da locomoção humana através de ities below 6 km.h-1 and above 8 km.h-1, respectively, the
best way of locomotion in the intermediate zone, that is,
when effort intensity is increased in the transition from
1. Programa de Pós-Graduação em Educação Física – UGF, Rio de Janeiro, walking to running, is still unknown. At this point there are
RJ.
some doubts regarding the physiological mechanisms that
2. Laboratório de Fisiologia do Exercício – Nuicaf/Aeronáutica, Rio de Ja-
neiro, RJ.
regulate the locomotion selection. In addition, there is no
3. Clínica de Medicina do Exercício – Clinimex, Rio de Janeiro, RJ.
clear explanation about the implications of the different
Recebido em: 16/5/01 types of locomotion on the variables that characterize ex-
Aceito em: 24/7/01 ercise intensity. This article focus around the following top-
ics: study of human locomotion through mathematical
Endereço para correspondência: models; protocols used in walking-running transition stud-
Claudio Gil Soares de Araújo ies; metabolic aspects of the work on a treadmill and on
Clínica de Medicina do Exercício – Clinimex
Rua Siqueira Campos, 93/102
the ground; anthropometric characteristics and walking-
22031-070 – Rio de Janeiro, RJ running transition; energetic demand and walking-running
E-mail: cgaraujo@iis.com.br transitions; motor stability and walking-running transition.
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In all of them, the positive aspects, as well as the contro- O estudo da demanda metabólica nas atividades físicas
versies and limitations, were discussed. Finally, the authors pode ser realizado de forma indireta através da análise de
point out to some possibilities for future investigations. gases expirados. Dentre as principais variáveis ventilató-
rias fornecidas por essa técnica, podemos destacar o con-
Key words: Human locomotion. Walking-running transition. Run- sumo de oxigênio (VO2), a ventilação pulmonar (VE), a pro-
ning economy. Oxygen uptake. Exercise physiology. dução de gás carbônico (VCO2), o pulso de oxigênio (pulso
Physical conditioning.
de O2), os equivalentes ventilatórios de oxigênio (VE/VO2)
e de gás carbônico (VE/VCO2) e o quociente de troca respi-
INTRODUÇÃO
ratória (QR)2. A interpretação conjunta dessas variáveis for-
O interesse na fisiologia do exercício tem aumentado nas nece informações precisas sobre uma série de mecanismos
últimas décadas. As razões para isso, talvez, envolvam a envolvidos no controle da função cardiorrespiratória, em
publicação e divulgação de estudos científicos em número repouso e durante determinada atividade.
cada vez maior de revistas científicas especializadas. Ou- Embora o emprego da análise de gases expirados favo-
tro aspecto diz respeito ao crescimento do interesse acerca reça o cálculo da demanda metabólica com razoável exati-
do exercício associado à promoção da saúde, fato traduzi- dão em algumas atividades3, persistem lacunas na literatu-
do pelo grande número de pesquisas de cunho experimen- ra. Em particular, desperta-nos interesse o estudo dos me-
tal e epidemiológico publicadas nas últimas décadas. Pode- canismos fisiológicos que determinam a transição cami-
se, ainda, destacar a redução dos custos do instrumental nhada-corrida. Um melhor entendimento desses mecanis-
destinado à coleta e análise de dados, bem como a grande mos pode ser relevante para a prescrição e o controle do
disseminação dos laboratórios de fisiologia do exercício treinamento, principalmente para aqueles praticantes cuja
em universidades, entidades desportivas, centros de saúde faixa de intensidade ótima de treinamento situa-se acima
e clínicas especializadas. do caminhar e abaixo do correr.
Dentre os vários conteúdos referentes à fisiologia do Freqüentemente, os profissionais que atuam na ativida-
exercício, aqueles relacionados à demanda energética e às de física deparam com um dos seguintes questionamentos:
respostas ventilatórias ao esforço têm despertado especial Qual a melhor atividade, caminhar ou correr? Quando devo
atenção dos pesquisadores. Talvez isso ocorra devido à sua parar de caminhar e começar a correr? Seria interessante
aplicabilidade em diversos campos do conhecimento, como alternar as duas formas de atividade? Se, por um lado, as
nos estudos relacionados à aptidão física, ao desempenho perguntas podem ser facilmente respondidas para um indi-
atlético, à capacitação para o trabalho e à saúde. Mas, ain- víduo saudável e muito bem condicionado, para os demais
da que se possa afirmar que essa área específica da fisiolo- permanecem dúvidas que devem ser esclarecidas. Vejamos
gia venha sendo exaustivamente estudada, muitas dúvidas uma colocação que justifica tal afirmativa. Do ponto de
ainda necessitam ser elucidadas. vista estritamente físico, o trabalho para percorrer deter-
O desempenho de atividades motoras diversificadas, ou minada distância independe do modo de locomoção (ca-
mesmo das mesmas tarefas em distintos indivíduos, pode minhar ou correr). Contudo, é possível que a demanda
requerer demandas metabólicas diferentes, implicando metabólica efetiva possa diferir na mesma velocidade en-
graus de sobrecargas diferenciados nos sistemas que com- tre essas duas modalidades de locomoção. Além disso, sabe-
põem o corpo humano, marcadamente o muscular e o car- se há algum tempo que parecem existir velocidades em que
diorrespiratório. Dessa forma, a interpretação das oscila- o andar é mais vantajoso do que o correr em termos de
ções metabólicas constitui um importante elemento na aná- eficiência mecânica e vice-versa4. Segundo o American
lise das implicações acerca dos efeitos fisiológicos em di- College of Sports Medicine5, andar e correr são mais eficien-
ferentes manifestações de esforço. Em se tratando do tes em velocidades, respectivamente, abaixo de 6km.h-1 e
desempenho motor, parece ser consenso que a quantidade acima de 8km.h-1, permanecendo, todavia, indefinida a
total de energia despendida por um indivíduo depende de melhor forma de locomoção na faixa intermediária de ve-
aspectos como as dimensões corporais, a termogênese in- locidade, ou seja, na intensidade de esforço em que ocorre
duzida pelos alimentos e a atividade física1. Entretanto, é a a transição entre a caminhada e a corrida. Analisando esse
atividade física que tende a influenciar mais profundamente aspecto, Hanna et al.6 destacam que ainda não estão claros
o dispêndio de energia. Essa informação torna-se especial- quais os mecanismos que o sistema motor humano utiliza
mente importante ao relacionarmos os efeitos do exercício para controle e/ou otimização da demanda energética, nas
a situações diversas, como, por exemplo, o dimensiona- intensidades de esforço de transição entre a caminhada e a
mento da intensidade do esforço em diferentes atividades corrida. Além disso, também permanecem sem explicações
motoras. convincentes quais as implicações que os diferentes mo-
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dos de locomoção podem ter sobre as variáveis que carac- Conforme aumentamos a intensidade do esforço, atingi-
terizam a intensidade de esforço, na faixa de transição ca- mos uma velocidade crítica a partir da qual passamos a
minhada-corrida. correr. Essa modificação no padrão de movimento caracte-
Uma das teorias mais aceitas pelos pesquisadores é a de riza a transição caminhada-corrida, que tem sido estudada
que as mudanças na forma de locomoção aparecem como através de várias abordagens, com o objetivo de buscar
uma tentativa de minimizar o gasto energético6-21. Contu- maior entendimento do fenômeno. Uma delas é a caracte-
do, vários elementos têm o potencial de influenciar na ve- rização biomecânica da locomoção, realizada através de
locidade de transição. Algumas considerações metodoló- modelos matemáticos. Embora o objetivo do presente tex-
gicas-chaves incluem a forma pela qual a velocidade de to não seja um aprofundamento na caracterização mate-
locomoção está sendo manipulada (adoção de protocolos mática da transição caminhada-corrida, não se pode ex-
em rampa ou escada), a direção na qual a velocidade está cluir a importância desse aspecto no estudo do fenômeno.
sendo aumentada ou reduzida e se a manipulação ocorre Pode-se dizer que o ato de correr é tipicamente modela-
usando a locomoção sobre o solo ou esteira. Pode-se, ain- do como um sistema bouncing ball, em contraste com o
da, acrescentar a influência das dimensões corporais, o efei- ato de caminhar, modelado como rolling egg4,6,26. No pri-
to da idade ou mesmo as diferenças na composição corpo- meiro, observam-se elevadas trocas de energia cinética e
ral. elástica, sendo esta última, possivelmente, gerada pela ener-
Em recente revisão sobre os mecanismos de transição gia armazenada nos tendões e músculos dos membros em
entre a caminhada e a corrida, Patla e Sparrow22 concluí- contato com o solo. Já no segundo, a troca de energia ocor-
ram que múltiplos objetivos são otimizados durante a lo- re de maneira mais suave.
comoção. Nesse caso, a proposição da minimização da
demanda metabólica de energia como único critério de oti- Vários modelos matemáticos têm sido desenvolvidos para
mização do passo humano pode ser uma simplificação exa- o estudo da locomoção humana16,27-34. Andar tem sido des-
gerada do fenômeno. Além disso, não se sabe a extensão crito como um sistema de pêndulo invertido, com trocas
das variáveis que podem influenciar na escolha da forma conservativas de energia cinética e potencial. Exemplifi-
de locomoção, bem como o percentual de contribuição de cando tal transformação, pode-se dizer que, dentro da coor-
cada fator no processo de transição. denação do andar, o centro de massa perde velocidade (ener-
Assim, este artigo objetiva revisar os estudos que abor- gia cinética) ao ganhar altura (energia potencial), ocorren-
dam os mecanismos envolvidos na transição caminhada- do o mesmo no processo reverso. Já o ato de correr, como
corrida, apontando algumas lacunas que possam ser objeto dito, é modelado como um sistema bouncing ball, com ele-
de pesquisas adicionais para melhor entendimento dos vadas trocas de energia cinética e elástica. Uma importan-
mecanismos e implicações das respostas fisiológicas obti- te diferença entre os dois modelos reside na forma pela
das nessa faixa de esforço. A revisão da literatura envolveu qual a troca de energia é realizada. Nesse caso, a troca ocor-
pesquisa no Medline, utilização de referências cruzadas e re de maneira mais suave no modelo de pêndulo invertido
de capítulos de livros específicos sobre o tema em questão. que caracteriza a caminhada6.
O texto foi organizado em sete tópicos, comentando seus Esses modelos têm provado ser quase precisos em pre-
pontos positivos e limitações. Por fim, são apontadas algu- dizer a freqüência e amplitude dos passos, os duty factors
mas possibilidades que poderiam ser alvo de investigações e os padrões da força de reação vertical do solo, tanto para
futuras. o andar quanto para o correr. Todavia, seus maiores defei-
tos têm sido relacionados como o fracasso em predizer,
ESTUDO DA LOCOMOÇÃO HUMANA ATRAVÉS com precisão, a velocidade de locomoção no ponto de tran-
DE MODELOS MATEMÁTICOS sição entre as formas de locomoção27,28,35. Esses modelos
predizem que a transição entre os modos de locomover-se
A locomoção humana é caracterizada pelos atos de an- pode ocorrer no limite mecânico do sistema físico. Mode-
dar e correr, utilizados para os deslocamentos em baixa e los baseados no sistema de pêndulo invertido, como o apre-
alta velocidade, respectivamente. Em baixas velocidades, sentado por McGeer31, assumem que o centro de massa do
a caminhada pode ser acelerada aumentando a freqüência corpo descreve um arco ao redor de uma perna rígida de
ou o comprimento das passadas. Na maior parte das velo- raio L. A aceleração tangencial do centro de massa em di-
cidades que caracterizam essa forma de locomoção, existe reção ao pé é igual à velocidade2/L. Para que o pé perma-
uma relação linear entre o comprimento e a freqüência dos neça em contato com o solo durante a fase de ondulação
passos23,24, apesar de, em altas velocidades, o limite máxi- do membro contralateral, o valor da aceleração tangencial
mo do comprimento dos passos ser atingido primeiro25. não pode exceder a aceleração da gravidade. Daí, é prová-
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vel que a transição entre o andar e o correr ocorra no ponto sa, inicialmente, pela característica específica do protoco-
onde a aceleração do centro de gravidade do corpo em di- lo adotado. Uma das formas de diferenciar o caminhar do
reção ao chão excede a aceleração da gravidade. Isto é, a correr consiste na determinação da fração de duração da
transição ocorre quando: velocidade > (g x comprimento passada em que cada pé permanece no chão. Esse fenôme-
da perna)0,5. Quando essa velocidade de locomoção é atin- no tem sido chamado de duty factor. Alexander28 destaca
gida, o pé não consegue permanecer em contato com o solo, que no momento em que o duty factor é maior do que 0,5,
resultando numa fase de vôo, caracterizando a corrida. a pessoa desempenha a ação de caminhar. Em contraparti-
Entretanto, esse modelo pode ser criticado. Diedrich e da, quando o mesmo é menor do que 0,5, teríamos como
Warren36, por exemplo, salientam que, ao substituírem-se resultado a fase de vôo, evidenciando a corrida. Até a ob-
os comprimentos de uma perna entre 0,8m e 0,9m no mo- tenção de velocidade próxima a 2m.s-1, o modo de locomo-
delo, a velocidade de transição preferida calculada é de ção geralmente é sustentado pelo ato de caminhar. Após
aproximadamente 3m.s-1, o que foi demonstrado ser ex- essa velocidade, ocorreria uma modificação na organiza-
cessivo através de métodos experimentais. ção do movimento, resultando na corrida. Essa reorgani-
A dificuldade com o modelo tradicional, na qual se trata zação, decorrente da introdução da fase de vôo, ocorre pelo
o andar e o correr como um sistema discreto com conser- aumento da força propulsiva no chão. A identificação des-
vação de energia (energia do andar sendo convertida atra- sa velocidade como ponto aproximado na qual a transição
vés de ações em forma de pêndulo e a energia da corrida caminhada-corrida ocorreria tem sido descrita em vários
através de ações de mola), é que modelos de coordenação estudos18,19,38-42. Contudo, quando é necessário identificar
contêm elementos de ambos os métodos de conservação com exatidão o momento em que ocorre a mudança no
de energia. Como conseqüência, modelos híbridos que apre- padrão de movimento, a escolha dos protocolos pode de-
sentam ambos os componentes pendular e de elasticidade sempenhar um papel de suma importância, pois os re-
(inercial e elástico) podem oferecer maior potencial na de- sultados parecem ser protocolo-dependentes. Nesse caso,
terminação de características biomecânicas de cada modo uma correta arquitetura do protocolo representa o primei-
de locomover-se e da transições entre eles – esse é o caso ro passo para uma coleta de dados fidedigna.
do modelo de Holt et al.17,37, apropriado para decifrar um Quando se deseja estudar as respostas fisiológicas em
número-chave de fenômenos típicos da marcha, especial- testes padronizados, uma importante característica a ser
mente aqueles relacionados à caminhada. Contudo, embo- considerada diz respeito à forma pela qual as cargas de
ra o modelo acrescente alguns conceitos que podem ser esforço são manipuladas. Talvez, essa seja a característica
incorporados aos modelos de locomoção anteriores, não mais importante de um protocolo, visto que cargas aplica-
está claro se o melhor entendimento sobre a preferência das de forma inadequada podem mascarar os resultados.
entre o andar e o correr irá necessariamente traduzir-se em Um protocolo pode envolver várias características. Araú-
melhor compreensão do fenômeno de transição entre as jo43, discorrendo sobre esse assunto, assinala que todos os
duas formas de locomoção6. protocolos apresentam virtudes e defeitos, sendo os objeti-
Para finalizar esta sessão, destacamos que os modelos vos do teste a característica da população testada, a dispo-
matemáticos podem ser extremamente úteis ao entendimen- nibilidade de tempo e de material que decidirão a melhor
to de determinado processo. Contudo, os mesmos não são escolha. Esse autor destaca que existem basicamente cin-
completos para descrevê-lo, já que é difícil obter modelos co características de um protocolo de teste de esforço, a
perfeitos, principalmente quando aplicados aos seres hu- saber: a) quanto ao grau de esforço envolvido – teste máxi-
manos. De fato, verifica-se falta de consenso quanto ao mo: quando o indivíduo é levado à exaustão voluntária
modelo que mais se ajustaria tanto à caminhada quanto à máxima ou o teste é interrompido devido a sinais e sinto-
corrida. Além disso (e destacamos a importância dessa cons- mas clínicos importantes; teste submáximo: no qual são
tatação na presente revisão), não pudemos localizar na li- considerados todos os outros protocolos que não se enqua-
teratura modelos que procurassem explicar, especificamen- dram na característica anterior; como exemplo podemos
te, o processo de transição caminhada-corrida. Estudos citar aqueles que são interrompidos após um tempo prede-
nessa linha são, portanto, escassos, representando uma la- terminado de esforço ou pela obtenção de uma freqüência
cuna que deveria ser explorada pelos pesquisadores. cardíaca ou carga alvo; b) quanto ao tipo de esforço envol-
vido – teste estático: envolve contração muscular estática,
PROTOCOLOS UTILIZADOS NOS ESTUDOS DE em que praticamente não existe movimento; um exemplo
TRANSIÇÃO CAMINHADA-CORRIDA típico dessa forma de teste é a dinamometria manual; teste
A diferenciação do momento ou intensidade do esforço dinâmico: envolve contração dinâmica, geralmente reali-
a partir do qual ocorre a transição caminhada-corrida pas- zado em esteira, bicicleta, banco ou pista; c) quanto ao
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número de cargas – única carga: aquele que envolve um vem ser testados para estabelecer o protocolo específico.
único grau de esforço, sendo menos utilizado em função Com esse intuito, uma proposta interessante poderia con-
da menor discriminação fisiológica; duas ou mais cargas: sistir na verificação da confiabilidade dos resultados em
composto por um número variado de cargas, determinadas protocolos com duração de cinco a 30 segundos, variando
em função do objetivo do teste ou da capacidade do prati- o incremento de carga na ordem de 0,1 a 0,5km.h-1. A par-
cante em permanecer no protocolo; d) quanto à duração tir do conhecimento das influências da aplicação das car-
dos estágios – com steady-state: apresentam tempo sufi- gas de esforço na velocidade de transição em determinada
ciente para o organismo ajustar-se à demanda da carga; amostra, o procedimento seria, então, utilizado no estudo.
sem steady-state: não apresentam tempo para o organismo
adequar-se à demanda da carga; com relação a essa carac-
ASPECTOS METABÓLICOS DO TRABALHO EM
terística do protocolo, chamamos atenção para a importân-
ESTEIRA E NO SOLO
cia do tempo em cada estágio e suas possibilidades de dis-
criminação das respostas objetivadas; e) quanto à presença Uma dúvida que freqüentemente surge ao compararmos
e ausência de pausas – teste contínuo: caracteriza-se pela trabalhos realizados em esteira e no solo diz respeito à ex-
ausência de pausas; teste descontínuo: composto por inter- trapolação dos dados de uma situação para a outra. Algu-
valos que caracterizam níveis de repousos ativos (esforços mas evidências sugerem que correr na esteira não muda a
leves entre as cargas) ou passivos (sem esforços entre as energia requerida para a locomoção, quando comparada
cargas). com a obtida no solo45-47. Apesar disso, é aceito que a va-
Outra característica importante na arquitetura de um pro- riabilidade das respostas metabólicas seja menor em estei-
tocolo diz respeito à razão em que as cargas serão aplica- ra48, provavelmente devido ao controle das condições am-
das. Nesse caso, os testes podem ser executados em rampa bientais em situações laboratoriais, fato nem sempre pos-
ou escada. Protocolos em rampa caracterizam-se por apre- sível ao ar livre.
sentar incrementos ou reduções na intensidade de esforço Bassett et al.45, em estudo comparativo do consumo de
de forma constante. Já os protocolos em escada envolvem oxigênio obtido na corrida em superfície plana e em subi-
a manipulação da intensidade do esforço em discretos in- da, reportaram que a demanda de oxigênio na esteira e no
crementos ou reduções, em que o período destinado a cada solo foi similar para velocidades entre 136 e 286m.min-1.
estágio geralmente é constante. Em concordância com esses dados, McMiken e Daniels47
No que toca aos estudos de transição entre a caminhada também não encontraram diferenças significativas na cor-
e a corrida, embora não exista uma opinião consensual na rida em esteira e no solo, quando realizada numa faixa de
literatura, parece ser aceito que, quando aplicados com in- velocidade de 180 a 260m.min-1. Entretanto, essa evidên-
cremento de velocidades de 0,3km.h-1, os protocolos em cia está longe de ser considerada uma verdade absoluta,
escada parecem ser mais consistentes em termos de con- principalmente ao considerar-se uma faixa mais elevada
fiabilidade do que os protocolos de rampa44. No entanto, de esforço. De fato, em altas velocidades de corrida, dife-
em relação ao aumento da velocidade, as limitações das renças no gasto energético, na largura da passada e em cer-
esteiras adotadas em algumas investigações dificultam o tos parâmetros temporais são evidentes49-51. Frishberg52, por
controle preciso do ponto no qual as condições de veloci- exemplo, demonstrou diferenças substanciais no gasto ener-
dade adjacente mudam. A esteira aceleraria muito mais gético no solo e na esteira. Tais diferenças ocorrem porque
rapidamente em altas do que em baixas velocidades e du- corridas rápidas envolvem movimentação muito mais ati-
rante subidas ao invés de descidas. Esse problema meto- va da perna de apoio que outras formas menos intensas de
dológico pode tornar-se uma preocupação particular du- correr, por exemplo, o jogging. Isso pode ocasionar modi-
rante testes em subida, em que a escala de mudança de ficações importantes na mecânica do movimento, alteran-
velocidade pode ser um importante estímulo para a transi- do a quantidade de massa muscular envolvida e afetando a
ção6. É importante estar consciente desse problema, pois a demanda energética. Outros fatores podem ainda ser adi-
variabilidade da escala de mudança requerida do passo pode cionados. Entre eles, pode-se citar a resistência gerada pelo
confundir uma simples comparação da eficácia de diferen- vento, a dificuldade associada à corrida na esteira e uma
tes protocolos de manipulação da velocidade. possível variação na velocidade da esteira a partir do toque
Uma estratégia interessante, normalmente não utilizada de cada pé do indivíduo no tapete12,48,51,53.
nos estudos que investigam o processo de transição cami- O fracasso de alguns estudos para mostrar a completa
nhada-corrida, é a validação do protocolo antes de sua apli- similaridade entre correr no solo e na esteira pode ser de-
cação no estudo propriamente dito. Nesse caso, diferentes vido às diferenças entre as duas condições de andar exis-
razões de incrementos e distintos tempos de estágios de- tentes para alguns, mas não para todos os indivíduos. Com
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respeito a esse assunto, Nigg et al.54, investigando a cine- metros físicos ligados às dimensões corporais possam ser
mática de corrida na esteira e no solo, verificaram que as responsáveis por disparar o gatilho de transição entre a
diferenças medidas nas variáveis cinemáticas podem ser caminhada e a corrida. Vejamos, a seguir, algumas evidên-
subdivididas em sistemáticas e sujeito-dependentes. Segun- cias da possível ligação entre a variação antropométrica
do os autores, na esteira os sujeitos adaptam o seu estilo de humana e suas relações com a velocidade de transição.
aterrissagem para que o pé aterrisse em posição mais reta É sensato pensar que a relação entre as características
do que durante a corrida no chão. Essa estratégia pode pro- corporais e o desempenho em determinada tarefa motora
mover um toque do pé na esteira, que é percebido pelos passa, inicialmente, pela natureza da atividade. No que
corredores como mais estável do que no solo. Além disso, concerne à corrida, a variação da velocidade constitui um
quase todas as variáveis cinemáticas da parte inferior da importante fator a ser considerado. Brisswalter et al.55 rea-
perna mostraram um padrão inconsistente, dependendo do lizaram um estudo com o propósito de inter-relacionar o
estilo de aterrissagem individual do atleta, da velocidade comprimento da passada, a economia da corrida e as medidas
da corrida e da situação do calçado em relação à esteira. antropométricas em corredores de elite. Para tanto, utiliza-
Concluiu-se que a extrapolação dos resultados cinemáti- ram duas velocidades de corrida: uma submáxima, próxima
cos da corrida na esteira para a corrida no chão depende de da usual de treinamento (15km.h-1) e uma não usual (9km.h-1),
aspectos como padrão não sistemático requerido na estei- próxima da velocidade de transição entre o andar e o cor-
ra, a velocidade de corrida e o tipo específico de calçado rer. A economia da corrida foi expressa em ml.kg-1.min-1 e
usado. em ml.kg-0,75.min-1. Além disso, para comparar diferentes
Como destacado por Hanna et al.6, as pesquisas passa- velocidades, o gasto energético foi expresso em unidade
das tenderam a usar testes estatísticos para determinar se de distância. Nove variáveis antropométricas foram medi-
existiam diferenças entre os grupos que andavam na estei- das: massa corporal, gordura corporal (seis dobras), esta-
ra e no solo, as variações individuais tendo sido ignoradas. tura, altura sentado, altura de membros inferiores (altura
Isso pode apresentar um significado importante ao trans- total – altura sentada), comprimento de membros inferio-
portarmos os dados laboratoriais para situações de campo. res, comprimentos tibial e da coxa e comprimento dos pés.
Nesse caso, não é possível determinar se os constrangi- Para as duas velocidades de corrida, a influência das di-
mentos impostos pelas duas condições são os mesmos na mensões corporais na economia de corrida foi diferente. A
maioria das pessoas. Todavia, o aspecto mais importante 9km.h-1, a massa corporal representou a mais importante
em relação à investigação do fenômeno de transição não é variável em uma regressão múltipla. Enquanto isso, a
se uma mesma velocidade crítica de locomoção define a 15km.h-1, os melhores preditores da economia de corrida
transição caminhada-corrida na esteira, comparada com a foram o comprimento da perna e a estatura. Quando a re-
locomoção no solo, mas se as mesmas características tipi- gressão linear foi usada, observou-se relação inversa entre
ficam a transição dentro de cada estilo. as dimensões corporais e a economia de corrida para as
Em se tratando dos estudos na faixa de esforço em que duas velocidades e um efeito do modo de expressar o VO2.
ocorre a transição caminhada-corrida, e até mesmo um pou- A 9km.h-1, não foi evidenciada correlação significativa
co acima desta, as evidências sugerem que os dados obti- entre a economia de corrida em ml.kg-1.min-1 e as dimen-
dos em esteira podem ser transportados para as situações sões corporais. No entanto, quando o VO2 era expresso
de campo. Isso é válido até a obtenção de velocidades em em ml.kg-0,75.min-1 (para minimizar a influência da massa
torno de 260-280m.min-1, em que os valores de consumo corporal), o mesmo foi significativamente e positivamen-
de oxigênio não se diferenciam significativamente entre as te correlacionado com a altura, massa corporal, compri-
duas situações. Todavia, mediante as dificuldades de al- mento da coxa e gordura corporal. Em contraste, a 15km.h-1,
guns praticantes para locomover-se na esteira, bem como o VO2 expresso em ml.kg-1.min-1 ou em ml.kg-0,75.min-1 foi
as diferenças mais acentuadas nas condições ambientais e significativamente e negativamente correlacionado com a
de terreno, a transposição dos dados deve ser feita com massa corporal, altura e comprimento da perna, e positiva-
cautela e, preferencialmente, após alguma fase de adapta- mente associado com o percentual de gordura. Além do
ção à locomoção em esteira rolante. mais, nenhuma correlação significativa foi encontrada en-
tre o gasto energético a 9 e a 15km.h-1.
CARACTERÍSTICAS ANTROPOMÉTRICAS E No tocante às dimensões corporais, apenas a estatura e o
TRANSIÇÃO CAMINHADA-CORRIDA comprimento das pernas mostraram relação significativa
Ao analisarmos os possíveis responsáveis pela modifi- com o VO2 e somente a estatura se relacionou com o com-
cação na forma de locomoção com o aumento da intensi- primento do passo. Para todas as velocidades, a estatura
dade do esforço, é racional sugerir que um ou mais parâ- correlacionou-se positivamente com o comprimento do
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passo. Além disso, nenhuma correlação significativa foi Em outro estudo digno de nota, Hreljac42 correlacionou
verificada entre o comprimento do passo e as dimensões os valores médios da velocidade de transição preferida em
da perna. Uma suposição feita por Alexander35, de que o 28 participantes de ambos os sexos com uma série de va-
comprimento do passo é melhor descrito pela função alo- riáveis antropométricas que incluíram: massa corporal, es-
métrica do que pela função linear, pode explicar esse re- tatura, altura do maléolo lateral, comprimento de membros
sultado. A freqüência de passos preferida representa variá- inferiores, altura da crista ilíaca anterior, comprimento da
veis globais, que não podem ser descritas com variáveis coxa, comprimento da coxa dividido pela altura sentada e
locais, por uma função linear, como, por exemplo, o com- o número Froude1. O estudo evidenciou moderadas corre-
primento da perna. Uma relação inversa, mas significativa, lações (r = 0,57) entre os valores da velocidade preferida e
foi observada entre a estatura, comprimento da perna e eco- das variáveis antropométricas. Níveis relativamente baixos
nomia de corrida para as duas velocidades de corrida. A de associação também foram verificados por Getchell e
9km, quando o VO2 está expresso em ml.kg-1.min-1, nenhu- Whitall57. Esses autores usaram a técnica de regressão
ma correlação foi observada entre as duas variáveis. Quan- múltipla passo a passo para tentar achar variáveis físicas
do o VO2 foi expresso em ml.kg-0,75.kg-1, uma relação posi- que pudessem prever a transição do andar-correr, correr-
tiva foi vista. Dessa forma, o modo de expressão para mi- andar, bem como da transição para o trotar. Dez medidas
nimizar a importância do peso corporal permitiu observar antropométricas foram examinadas (massa corporal, esta-
a relação significativa entre dimensões corporais e econo- tura, altura sentada; comprimentos da coxa, perna e pé,
mia da corrida. Em conclusão, verificou-se um efeito de- amplitude de movimento das articulações do quadril, joe-
pendente da velocidade da corrida na relação entre dimen- lho e tornozelo, e força máxima dos músculos do quadrí-
sões corporais, comprimento dos passos e VO2. Por outro ceps). As melhores correlações obtidas usando a combina-
lado, nenhuma relação foi encontrada entre o custo ener- ção das variáveis estudadas foram: r = 0,35 para a transi-
gético a 9 e a 15km.h-1 e relação inversa foi observada en- ção andar-correr e 0,31 para a transição correr-andar. A
tre as dimensões corporais e o VO2 para as duas velocida- variável que apresentou a melhor correlação individual foi
des de corrida. Além disso, o modo de expressar o VO2 ten- o comprimento da coxa e a melhor combinação entre as
de a afetar essa relação. variáveis antropométricas foi obtida na divisão entre o com-
Para analisar se a relação com a velocidade de transição primento da coxa e a altura sentada. Esses dados parecem
era influenciada pela magnitude da aceleração, desacele- estar em consonância com os de outros estudos aqui apre-
ração ou pelas dimensões do indivíduo, Thorstensson e sentados, revelando baixa associação entre o tamanho dos
Roberthson56 conduziram um estudo envolvendo 18 homens segmentos e a velocidade de transição caminhada-corrida.
saudáveis, divididos em três grupos, de acordo com o com- É interessante observar que as correlações encontradas
primento da perna, a saber: pequena (0,86 a 0,91m), média nos estudos revisados são opostas às observadas em pes-
(0,93 a 0,95m) e longa (1,03 a 1,09m). A locomoção foi quisas envolvendo quadrúpedes. Por exemplo, no estudo
executada numa esteira, acelerada e desacelerada em velo- de Heglund e Taylor15, o comprimento da perna e a massa
cidades entre 1,0 e 3,0m.s-1. A velocidade foi monitorizada corporal foram excelentes preditores para as mudanças no
por um velocímetro e sua variação foi aplicada através de modo de andar. Deve ser notado que a probabilidade de
três diferentes magnitudes: 0,05, 0,08 e 0,11m.s-1 (o tempo achar altas correlações antropométricas com o modo de
de mudança entre 1,0 e 3,0m.s-1 foi de 40, 25 e 18 segun- andar humano é menor, pois os estudos entre as espécies
dos, respectivamente). O modo de locomoção normal a de quadrúpedes consideram a massa, o comprimento dos
1,0m.s-1 era o andar, enquanto o correr foi desenvolvido a membros, a altura e outras características físicas, enquan-
3m.s-1. Logo, as variações de velocidades selecionadas in- to os estudos da variação humana, necessariamente, lidam
cluíram a velocidade de transição natural entre o andar e o com grupos menores de dados dentro das espécies. Em
correr. Como resultado, o grupo com pernas mais curtas adição, é possível que esses estudos possam não ter exami-
mostrou velocidade de transição mais baixa que os outros, nado todas as potenciais características antropométricas
enquanto nenhuma diferença foi encontrada para os gru- críticas que poderiam influenciar na velocidade de transi-
pos com pernas médias e longas. Em todo o estudo, verifi- ção entre o andar e o correr. Em relação a isso, chama a
cou-se fraca tendência em direção ao aumento da veloci- atenção o fato de que as características inerciais do mem-
dade na qual a transição foi obtida e o aumento do compri- bro inferior não foram consideradas em nenhum desses
mento da perna, apesar de a variação dentro de cada grupo
ter sido relativamente ampla, revelando um comportamen- 1 Número Froude é expresso pela seguinte equação: v2/Lg, em que: v =
to individual muito variável dentro de cada faixa de com- velocidade de transporte, L = comprimento do membro inferior e g =
primento de perna estudada. aceleração da gravidade.

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estudos6. Por isso, na tentativa de melhor caracterizar a in- grande quantidade de espécies, passando por cima da di-
fluência das medidas antropométricas na transição entre versidade considerável da forma e do tamanho dos corpos,
os modos de locomoção, estes últimos autores conduziram envolvendo espécies que variavam em massa corporal to-
um experimento no qual foi utilizada uma amostra com tal. Dada a pequena variabilidade da massa corporal nas
grande variabilidade de características antropométricas. amostras humanas, ao menos naquelas utilizadas nas pes-
Além disso, incluíram-se na análise dos dados algumas quisas publicadas, não é surpresa que os coeficientes de
características inerciais e medidas de força dos membros correlação dos estudos nos humanos sejam muito menores
inferiores. Para tanto, avaliaram-se 42 indivíduos, para os do que os encontrados em uma variedade de animais. A
quais a velocidade de transição andar-correr e correr-an- segunda explicação para a discrepância entre as forças das
dar foi determinada previamente. Foram obtidas as seguin- relações entre antropometria e a velocidade de transição
tes medidas antropométricas: massa corporal, estatura, al- preferida, encontrada em estudos com humanos e com qua-
tura sentada, comprimento da perna (maléolo lateral ao eixo drúpedes, envolve o modo de locomoção. Comparações
do joelho), comprimento da coxa e comprimento total da entre a transição caminhada-corrida nos homens e o trote-
perna (trocanter maior até o maléolo lateral). Além disso, galope nos quadrúpedes podem ser inapropriadas, se os
foram medidas a força de extensão e a de flexão do joelho, mecanismos fundamentais desse fenômeno são diferentes.
usando um dinamômetro isocinético. Os dados antropo- Outro aspecto a ser destacado reside na influência da
métricos foram usados para calcular o índice de massa cor- intencionalidade na modificação da forma de locomoção,
pórea, a divisão entre o comprimento total da perna e o que levaria a uma transição entre os atos de andar e correr.
comprimento da perna, e o momento de inércia da perna Fazendo menção a este aspecto, Bonnard e Paaihous58 de-
em posição totalmente estendida. Os coeficientes de cor- monstraram a capacidade da intencionalidade em alterar a
relação de Pearson foram computados para determinar se a relação entre freqüência e amplitude da passada de cami-
velocidade de transferência preferida relacionava-se line- nhada, em intensidade realizada em steady-state. Getchell
armente com qualquer uma das variáveis antropométricas. e Whitall57 estenderam essa proposição para o controle do
As variáveis que mostraram ser mais bem correlacionadas modo de locomoção como um meio de explicar as fracas
com a velocidade média de transição preferida foram en- relações que eles observaram entre as variáveis antropo-
tão submetidas à regressão múltipla, na tentativa de produ- métricas e as várias transições no modo de locomoção no
zir uma equação preditora. adulto humano. Para Hanna et al.6, se a intencionalidade
Poucas das variáveis antropométricas puderam exibir impõe uma dinâmica adicional na dinâmica natural no
coeficientes de correlação com a velocidade de transição modo de locomover-se, e se essa intencionalidade envolve
preferida, mesmo nas que tinham melhores correlações; a primariamente a atividade cognitiva, então é plausível que
diferença na velocidade de transição preferida, explicada o mais alto desenvolvimento cognitivo dos humanos possa
pelas variáveis antropométricas, era pequena. Quando a cor- contribuir para o papel diminuído dos parâmetros físicos
relação significativa entre velocidade de transição média e na determinação no modo de locomover-se preferido nos
estatura foi deduzida para amostras combinadas, a estatura humanos em comparação com os quadrúpedes, especial-
contribuiu apenas para 20% da variação entre indivíduos mente aqueles com desenvolvimento cortical muito limi-
na velocidade de transição. Análises de regressão múlti- tado. Todavia, a literatura ainda é carente de pesquisas que
pla, combinando as variáveis que melhor se correlaciona- venham consubstanciar o papel do efeito cortical na dinâ-
ram dentro da amostra, foram incapazes de produzir uma mica do movimento humano, principalmente em velocida-
equação capaz de predizer a velocidade de transição prefe- des que caracterizam uma transição entre a caminhada e a
rida que fosse melhor do que as obtidas a partir de variá- corrida.
veis antropométricas isoladas. Em conclusão, os autores Sumarizando esta seção, pode-se dizer que as variáveis
salientaram que os estudos em seres humanos parecem antropométricas parecem ser secundárias em relação a ou-
compatíveis com a visão de que as diferenças individuais tros fatores na determinação da transição entre o andar e o
nas dimensões corporais são pequenas, ou que, no máxi- correr nos humanos. Contudo, não se pode excluir sua atua-
mo, pode haver correlação moderada entre diferenças in- ção no processo, sendo necessária a realização de estudos
dividuais e a velocidade de transição preferida. Além dis- futuros para melhor determinar a magnitude de sua atua-
so, os resultados contraditórios nos estudos examinando a ção. Nesse sentido, um interessante aspecto a ser explora-
relação entre a antropometria e a velocidade de transição do diz respeito à possibilidade de as dimensões corporais
preferida nos humanos e em outras espécies quadrúpedes influenciarem de forma diferenciada na seleção do modo
têm várias possíveis explicações. Em primeiro lugar, os de locomoção em indivíduos de diferentes faixas etárias,
estudos que demonstraram forte relação trabalharam com como crianças, adultos jovens e idosos. O mesmo pode ser
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dito em relação ao sexo, devido às diferenças existentes na to, nos estudos envolvendo animais, as evidências ainda
composição corporal. são inconclusivas para apoiar a noção de que a demanda
energética traduz o principal gatilho a desencadear a tran-
sição entre os modos de locomoção.
DEMANDA ENERGÉTICA E TRANSIÇÃO
Mais recentemente, para avaliar o papel da demanda
CAMINHADA-CORRIDA
energética na seleção do modo de locomoção em huma-
Uma das hipóteses mais estudadas, e talvez a mais acei- nos, Hanna et al.6 estudaram 15 indivíduos cuja velocida-
ta, como o principal mecanismo envolvido na transição de de transição preferida era conhecida. Comparou-se a
caminhada-corrida, é a minimização do dispêndio energé- velocidade média de transição preferida obtida pelos par-
tico4,6,9-16,19. De fato, a velocidade de transição experimen- ticipantes com o valor previsto, obtido pela interseção das
talmente observada foi bem próxima da energeticamente curvas metabólicas derivadas de cada um dos testes de an-
ótima, sugerindo que os executantes adotavam espontanea- dar-correr. Todos os participantes correram com velocida-
mente o padrão de locomoção levado pela menor deman- de acima e abaixo dos seus pontos de transição preferidos
da. Em outras palavras, pode-se dizer que, a partir da velo- e, a partir daí, foram obtidas curvas para o VO2 (ml.kg.-1min-
cidade na qual andar implica maior gasto de energia, os 1) e para o gasto energético relativo (ml.kg.-1min-1.m-1) ver-

indivíduos optam por selecionar a corrida como forma de sus a velocidade (% da velocidade de transição preferida).
locomoção. Contudo, as evidências ainda são inconclusi- O mesmo procedimento foi seguido para o ato de andar.
vas para assumir esse mecanismo como o principal gatilho Posteriormente, determinou-se e comparou-se a velocida-
responsável pelo fenômeno de transição entre a caminha- de de deslocamento na interseção dos testes de andar e
da e a corrida. correr com os valores médios da velocidade de transição
No que diz respeito aos experimentos em animais, Far- preferida, obtidos anteriormente. Para os autores, a pre-
ley e Taylor59 sugeriram que a redução do gasto energético missa da comparação baseava-se em duas possíveis for-
pode não ser o estímulo para a transição do modo de loco- mas de análise. Caso esses pontos coincidissem, a transi-
mover-se. Medindo a demanda energética e as velocidades ção ocorreria como um mecanismo para minimizar o gasto
associadas com a transição trote-galope em cavalos, esses energético. Em contrapartida, a discrepância dos pontos
autores demonstraram que os animais mudavam o modo poderia levar à discussão de outros fatores que não a redu-
de locomover-se a velocidades mais baixas que aquelas con- ção da demanda energética a influenciar no modo de loco-
sideradas ótimas. Foi sugerido que o gatilho para a tran- mover-se.
sição trote-galope ocorria devido a um fator de natureza A velocidade ótima de transição, em termos energéti-
mecânica, gerado pela necessidade de reduzir o estresse cos, foi de 99,6% da velocidade de transição preferida.
imposto pela tensão óssea e pelos picos de força muscular. Esses resultados evidenciaram que a minimização do gas-
Essa argumentação foi provada através de evidências ex- to energético tem um papel significativo na determinação
perimentais, mostrando que os cavalos transportando car- da velocidade na qual a mudança dos modos de locomo-
gas faziam a transição para o galope a uma velocidade mais ver-se ocorre. Como apresentado nos dados de consumo
baixa do que as consideradas ótimas. De fato, na grande de O2, a velocidade de transição ótima em termos energéti-
maioria dos vertebrados, os padrões do modo de andar nun- cos coincidiu com a velocidade média de transição prefe-
ca são adotados de forma a causar estresse nas articulações rida. Nesse caso, a velocidade de transição ótima em ter-
e ossos que seja maior que dois terços do necessário para mos energéticos era de 100,5% da velocidade de transição
quebrá-los60. preferida. Enquanto a ação de andar era considerada mais
Contrapondo-se ao estudo anterior, Hoyt e Taylor11 apoia- desgastante que correr, acima do ponto de transição, não
ram a noção de que o custo energético desempenha um foi verificada diferença expressiva na percepção do esfor-
papel crítico na expressão dos padrões de locomoção. Pes- ço entre os modos de locomover-se, antes ou no ponto de
quisando pôneis, os autores mostraram que a auto-seleção transição. Concluiu-se, então, que a otimização da eficiên-
da forma de locomoção para o andar, trotar e galopar re- cia energética é o ponto central para a transição entre os
sultou em menor gasto energético. Isso sugere que os ani- modos de locomoção. A questão que permanece obscura,
mais são sensíveis ao gasto energético da atividade, sendo no entanto, é se os humanos podem perceber esse aumento
capazes de selecionar a velocidade que minimiza o custo no gasto energético sempre, ou suficientemente rápido para
metabólico do transporte dentro de um modo particular de disparar a transição, ou, simplesmente colocado no con-
locomoção. Nas velocidades não ótimas para os mesmos texto fisiológico, qual é o receptor que percebe esse estí-
padrões de movimento, foi observado que o custo energé- mulo. Obviamente, para responder a essa questão, esfor-
tico foi substancialmente mais alto nos pôneis. Como vis- ços adicionais são necessários.
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Em congruência ao estudo mencionado anteriormente, saltar que autores como Mercier et al.19 chamam a atenção
para verificar a hipótese de que, durante o aumento de ve- para o fato de que os mecanismos dessa relação não estão
locidade, a transição entre a caminhada e a corrida corres- ainda completamente claros, necessitando de outras inves-
ponde à velocidade na qual andar torna-se menos econô- tigações para melhor elucidação.
mico do que correr, Mercier et al.19 determinaram a veloci- Os dados até aqui apresentados sugerem que o principal
dade da transição e mediram o gasto energético durante o mecanismo que rege a transição entre a caminhada e a cor-
steady-state na velocidade de transição entre os modos de rida é a minimização da demanda energética. Isso parece
locomoção. Em adição, também foi investigado o efeito estar de acordo com outras observações experimentais18,
do tipo de locomoção nas respostas cardiorrespiratórias nas quais se concluiu que a transição entre os modos de
acima e abaixo do ponto de transição. Para tanto, os indi- locomover-se era dirigida pela redução do custo fisiológi-
víduos caminharam e correram nas velocidades correspon- co. A evidência desses estudos mostrou que, para cada par-
dentes a ± 0,5km.h-1 e ± 1km.h-1 da velocidade de transi- ticipante, havia alta coincidência na velocidade de transi-
ção. A amostra foi composta por sete adultos jovens. Cada ção e o ponto em que a FC e o VO2 para andar e correr
sujeito submeteu-se a quatro testes, a saber: a) teste máxi- ficavam equivalentes. Todavia, assumir esse pressuposto
mo para determinar o consumo máximo de oxigênio e o como o principal responsável pela mudança na forma de
limiar ventilatório; b) teste para determinar a velocidade locomoção, isto é, uma relação causal, não tem sido unani-
de transição espontânea; c) teste para andar na velocidade midade aceita entre os pesquisadores.
de transição, na velocidade de transição ± 0,5km.h-1 e na Brisswalter e Mottet21 estudaram as relações entre o custo
velocidade de transição ± 1km.h-1; d) teste para correr na energético da locomoção e a variabilidade da duração do
velocidade de transição, na velocidade de transição ± passo da velocidade de transição, de acordo com o modo
0,5km.h-1 e na velocidade de transição ± 1km.h-1. de locomoção imposto ou escolhido pelos indivíduos. Um
Vários achados importantes foram verificados nesse es- sensor de pressão foi utilizado nos pés de 10 indivíduos
tudo. Como principal resultado, destacou-se que a transi- para determinar a ocorrência do contato com o solo para
ção entre a caminhada e a corrida correspondia à velocida- cada pé. O gasto energético, por unidade de distância, foi
de na qual correr ficou mais econômico. Então, acima des- calculado de acordo com a equação proposta por Di Pram-
te nível verificou-se que a corrida acarretou redução das pero62 e o procedimento reuniu as seguintes etapas: adap-
respostas cardiorrespiratórias comparadas para o andar a tação à esteira, determinação da velocidade de transição
uma mesma velocidade. O correr ficou mais econômico do preferida, gravação da variabilidade imposta aos padrões
que o andar, em velocidade de transição igual a 2,16m.s-1 de locomoção (correr e andar). A variabilidade da duração
(erro padrão da média de 0,04), o que está de acordo com a da passada foi descrita usando o coeficiente de variação
variação dos valores da velocidade de transição (1,30 – para cada pessoa63. Para calcular a velocidade de transição
2,55m.s-1) reportados por Thorstensson e Roberthson56. Está ótima em termos energéticos, uma regressão foi feita usan-
também compatível com a velocidade (2m.s-1) a partir da do os valores do gasto energético para cada pessoa. Uma
qual outros investigadores evidenciaram que correr era mais função quadrática curvilínea foi escolhida para ajustar os
econômico10,61. No entanto, é difícil determinar, a partir dados da caminhada e uma função linear foi usada para os
desses resultados, se um aumento no custo da locomoção dados da corrida. A interseção entre as melhores curvas de
induziu mudança no padrão locomotor ou se a redução do ajuste individual foi considerada a velocidade de transição
custo da locomoção foi conseqüência da mudança no pa- ótima. Como principal resultado do estudo, os autores des-
drão de movimento. Outro aspecto relevante desse estudo tacaram que a velocidade de transição ótima em termos
é que, apesar de notáveis diferenças terem sido observadas energéticos foi mais alta que a velocidade de transição se-
para o VO2, a FC e a VE, durante a caminhada e a corrida lecionada pelos praticantes (7,89 ± 0,34km.h-1 versus 7,66
abaixo e acima da velocidade de transição, os autores não ± 0,57km.h-1, p < 0,05). Na condição de transição escolhi-
observaram diferenças em R e VE/VO2, sugerindo que, para da pela pessoa, foi encontrado um efeito significativo da
a variação de velocidade estudada, o tipo de locomoção velocidade na variabilidade da duração da passada. Esse
não afeta o substrato utilizado e a ligação entre VE e o gas- resultado foi compatível com o estudo de Hreljac39, indi-
to energético. Em conclusão, verificou-se que a transição cando que a transição entre o andar e o correr não é exclu-
entre a caminhada e a corrida corresponde à velocidade na sivamente um mecanismo fisiológico de economizar ener-
qual correr se torna mais econômico que andar. Acima dessa gia. Reportando-se aos dados da literatura, Brisswalter e
velocidade de transição, correr resultou em redução relati- Mottet21 realçaram o papel das razões locais metabólicas,
va do custo da locomoção e das respostas cardiorrespirató- mecânicas e cinemáticas para a troca no padrão de loco-
rias. Não obstante todos esses achados, é importante res- moção. Nesse sentido, parece existir certo consenso entre
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alguns pesquisadores, apontando na direção de que ainda mente deslocado); apenas o trabalho mecânico interno tem
é difícil identificar os mecanismos completos da transição19, que ser considerado no numerador. O problema é que cal-
20,22,41. cular o trabalho mecânico interno não é fácil. Além disso,
Hreljack39 apresentou evidências de que a transição an- não existe um consenso sobre qual a melhor forma de rea-
dar-correr em humanos também ocorreria a velocidades lizar essa medida.
mais baixas do que as energeticamente ótimas, concluindo
que a minimização do gasto energético não era o mecanis-
ESTABILIDADE LOCOMOTORA E TRANSIÇÃO
mo que dirigia essa transição. Em estudo posterior, Hrel-
CAMINHADA-CORRIDA
jack40, buscando o gatilho mecânico da transição, no qual
algumas variáveis cinéticas foram medidas (percentual de A uma dada velocidade de locomoção, as pessoas sele-
carga máxima, frenagem, impulso propulsivo e força de cionam o comprimento da passada que leva a uma redução
pico), concluiu que os fatores cinéticos também não eram da demanda energética12,64. Se essa velocidade aumenta,
o gatilho para a transição andar-correr nos humanos. chegará um momento em que o padrão de movimento terá
Após análise das pesquisas disponíveis, é sensato assu- que ser alterado. Logo, o custo metabólico como uma fun-
mir que múltiplos objetivos podem ser otimizados durante ção da velocidade para o andar e o correr mostra que as
a locomoção. Nesse caso, a proposição da minimização da economias de energia podem ser atingidas através da troca
demanda metabólica de energia como único critério de oti- do correr para o andar e vice-versa65. Contudo, alguns au-
mização do passo humano pode ser uma simplificação de- tores36,39 têm atribuído a mudança da forma de locomover-
masiada do fenômeno. Patla e Sparrow22, criticando o em- se à estabilidade dos padrões de locomoção. Vejamos o
prego do custo energético como indicador crítico na ex- que as evidências apresentam nesse sentido.
pressão dos padrões de locomoção, destacam alguns pon- A locomoção quadrúpede pode ser considerada estável
tos importantes. Entre eles, podemos citar: a) as curvas de devido à ampla base de apoio oferecida por três membros
consumo de oxigênio versus a velocidade de locomoção, de cada vez66. Já a locomoção bípede apresenta uma carac-
obtidas em estudos realizados com animais, não mostram terística instável para a maioria dos ciclos de passos. Tal
uma velocidade mínima única e singular, apontando a exis- fato ocorre porque o centro de massa do corpo está fora da
tência de mais de uma velocidade de locomoção em que o base de apoio (definida pelos pés) em 80% do tempo. Por
consumo de oxigênio é similar; b) a medida do consumo isso, as considerações da estabilidade são mais desafiado-
de oxigênio implica que o combustível anaeróbio não é ras no ser humano, um bípede, do que em quadrúpedes. Ao
um fator principal durante a locomoção; isso não obrigato- lidar com as questões associadas à estabilidade na loco-
riamente ocorre para a corrida; c) durante a locomoção ocor- moção, temos que considerar tanto o deslocamento quanto
re um débito energético que é reposto pelo sistema car- a velocidade do centro de massa do corpo. Não é surpresa
diorrespiratório após o fim da atividade; quando andamos que recursos consideráveis do sistema sensório-motor se-
devagar, não estamos próximos dos limites do sistema car- jam utilizados para manutenção da estabilidade dinâmi-
diorrespiratório em fornecer combustível de forma aeró- ca22.
bia; porém, quando consideramos andar ou correr em altas Se as mudanças no padrão de locomoção são dominadas
velocidades, esse débito energético não pode ser desconta- pelos mecanismos de economia de energia, poderia espe-
do; além disso, o custo energético anaeróbio que não é uti- rar-se que as transições ocorressem sempre nesses pontos,
lizado na medida do consumo de oxigênio também deve em que o gasto energético é mínimo. Na literatura, existe
ser levado em consideração, pois representa uma demanda crescente evidência contra essa proposta. Como visto an-
de energia; d) a eficiência dos movimentos está associada teriormente, Farley e Taylor59 mostraram que cavalos tro-
ao uso do consumo de oxigênio e a minimização dessa va- cam do trotar para o galopar a uma velocidade na qual o
riável implica que o movimento é mais eficiente; entretan- galopar é menos eficiente que o trotar em termos metabó-
to, esse indicador representa o denominador da equação licos. Nesse estudo, os autores verificaram que, em cava-
de eficiência; o trabalho mecânico é o numerador dessa los treinados para manter o padrão de locomoção a uma
equação. Esse último indicador não inclui apenas o traba- velocidade não usual, a transição espontânea entre o trotar
lho externo de mover o centro de massa de um corpo de e o galopar ocorria a uma velocidade mais baixa em rela-
um ponto para o outro, mas também o trabalho mecânico ção ao mesmo custo metabólico (–26%), implicando uma
interno de mover os membros ciclicamente. Desde que os estratégia aparentemente não econômica. A partir da cons-
estudos do custo energético geralmente envolvem pessoas tatação de que os cavalos com sobrecargas efetuavam a
andando ou correndo na esteira, não estamos lidando com troca do modo de locomoção a velocidades mais baixas,
trabalho mecânico externo (centro de massa não é teorica- levantou-se a hipótese de que a velocidade de transição
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seria escolhida visando uma manutenção das estruturas velocidades acima de 1,39m.s-1 sugere que a metodologia
músculo-esqueléticas. Tanto os cavalos com sobrecarga utilizada para computação do trabalho mecânico não re-
quanto aqueles que não portavam cargas adicionais troca- flete totalmente o trabalho real. Logo, apesar de a metodo-
ram o padrão de locomoção a diferentes velocidades, po- logia utilizada ser a única capaz de fornecer uma explica-
rém, a um mesmo pico vertical de estresse agindo sobre os ção racional da freqüência ótima de passadas para o an-
músculos, tendões e ossos, enfatizando o critério de mini- dar67, outras estratégias deveriam ser desenvolvidas para
mização da força em oposição ao critério da economia ener- obter um conhecimento mais profundo sobre esse assunto.
gética. Em conclusão, os autores assumiram que o modo Numa linha semelhante ao estudo anterior, Minetti et
de locomoção é abandonado em favor de outro, quando o al.20 investigaram a influência dos limites fisiológicos e
último resulta em menor estresse músculo-esquelético a biomecânicos na seleção da velocidade de transição espon-
uma mesma velocidade. Apesar das dificuldades de apli- tânea entre o andar e o correr. Cinco jovens adultos cami-
car os dados de Farley e Taylor59 aos humanos (devido às nharam e correram numa esteira a diferentes inclinações;
diferenças na mecânica da locomoção entre homens e ani- determinaram-se individualmente para cada inclinação na
mais), os argumentos da viabilização dessa hipótese recaem esteira as regressões do custo metabólico versus a veloci-
na possibilidade de ela contribuir para uma possível dis- dade do andar (polinômio do segundo grau) e correr (fun-
tinção dos determinantes da locomoção em steady-state, a ção linear). Pela resolução das equações, a maior veloci-
partir do gatilho que leva à transição. dade na qual o gasto energético em andar era o mesmo que
Poucos estudos têm investigado a influência combinada correr foi determinada. O mesmo procedimento foi aplica-
de indicadores energéticos e de estabilidade na transição do aos dados metabólicos expressos por passada (dividin-
caminhada-corrida. Um deles foi realizado por Minetti et do-se a taxa do trabalho metabólico pela freqüência de pas-
al.64, no qual se mediram simultaneamente o gasto meta- sadas). A velocidade de transição espontânea foi avaliada
bólico e a freqüência do trabalho mecânico do andar a di- através da observação nas mudanças no modo de locomo-
ferentes velocidades, tanto para a freqüência de passos es- ção das pessoas, enquanto a velocidade da esteira variava
colhida, quanto para as freqüências impostas para os indi- para menos e para mais, com estágios de 0,1km.h-1. Apesar
víduos. Seis homens saudáveis andaram em uma esteira de reconhecerem a forte influência da minimização da de-
nas velocidades de 0,69, 1,39, 1,67 e 2,08m.s-1. A cada ve- manda metabólica na escolha da velocidade de transição,
locidade, a freqüência de passos escolhida foi computada. os autores sugerem que considerar a minimização do es-
Posteriormente, as pessoas foram induzidas a variar a fre- forço metabólico como o principal gatilho que desenca-
qüência de passadas, seqüencialmente, ao nível de ± 10% deia a transição caminhada-corrida pode ser um erro, usan-
e ± 20% da freqüência de passadas escolhida. Foram reali- do a seguinte argumentação: considere andar a uma velo-
zadas medidas das seguintes variáveis: a) fisiológica (con- cidade próxima da velocidade de transição espontânea e
sumo de oxigênio); b) biomecânicas: características iner- assuma que um pequeno grupo de músculos (gastrocnê-
ciais dos segmentos do corpo (massa, centro de massa e mios e solear) está começando a trabalhar ineficientemen-
raio de giro; trabalho interno positivo (ou seja, a potência te. Visando enfrentar uma situação desconfortável, sentida
necessária para mover os membros ao centro de massa do pelos mecanorreceptores periféricos (e correspondente a
corpo); trabalho externo positivo (isto é, a potência neces- elevado custo de O2), a pessoa decide trocar para o correr,
sária para mover o centro de massa do corpo em relação ao melhorando a eficiência dos gastrocnêmios, mas aumen-
ambiente). A soma do trabalho interno mais o externo foi tando o esforço metabólico como resultado da contribui-
definida como trabalho total, considerado como a potência ção de mais músculos para permitir a locomoção. Nesse
necessária para sustentar a locomoção. Em conclusão, ob- caso, o indivíduo pode optar por conforto na locomoção
servou-se que o desvio do gasto metabólico em relação à ao invés de economia metabólica. Além disso, a procura
freqüência de passadas escolhida, para uma velocidade de por conforto (mediado por outros aferentes periféricos, tais
caminhada constante, pode ser parcialmente explicado pelo como os proprioceptores nos músculos, tendões e articula-
aumento da taxa de trabalho mecânico. Em todas as velo- ções) pode sugerir a escolha de um modo de locomoção
cidades estudadas, o trabalho necessário para mover o cen- ótimo.
tro de massa do corpo foi o maior determinante. É impor- Outro estudo similar, considerando a estabilidade loco-
tante ressaltar que, para altas velocidades, o trabalho ne- motora conjuntamente com os limites energéticos, foi de-
cessário para mover os membros desempenha um papel senvolvido por Holt et al.68. Inicialmente, foi solicitado que
importante na obtenção de uma freqüência mínima de pas- os voluntários andassem em uma esteira, às suas velocida-
sadas, próximas da freqüência espontânea. No entanto, a des preferidas. Posteriormente, os indivíduos andaram em
pequena confiabilidade da predição da freqüência ótima a suas freqüências de passadas preferidas, acima e abaixo
218 Rev Bras Med Esporte _ Vol. 7, Nº 6 – Nov/Dez, 2001
delas. Os dados mostraram que andar nas freqüências pre- as respostas eletromiográficas ao esforço possam consti-
feridas resultou em gastos metabólicos mínimos. Além dis- tuir-se em uma ferramenta interessante a ser explorada, o
so, os autores também mediram a estabilidade da cabeça e que, aliás, é um aspecto ainda não privilegiado nos estudos
das articulações do membro inferior, revelando uma rela- acerca dos mecanismos envolvidos na transição caminha-
ção complementar entre a estabilidade da cabeça e o custo da-corrida.
metabólico. Apesar de as medidas metabólicas e de estabi-
lidade estarem altamente relacionadas, a máxima estabili-
CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES PARA
dade da cabeça foi obtida antes de atingir-se o mínimo gasto
ESTUDOS FUTUROS
energético. De fato, no andar humano os padrões de coor-
denação envolvendo o tronco (bem como a ligação dos bra- A maior parte das pesquisas que investigaram os meca-
ços e pernas) indicam que existem padrões de coordena- nismos envolvidos na transição caminhada-corrida centrou
ção mais ou menos estáveis acima e abaixo de velocidades seus esforços em uma ou duas características principais
entre 0,7 e 0,9m.s-1, implicando a existência de múltiplos que pudessem explicar o fenômeno. Assim, os estudos fo-
padrões de coordenação no andar. Além disso, no estudo calizaram suas expectativas nas questões relacionadas à
supracitado, diferentes tendências foram observadas no demanda energética, às características antropométricas, ou
custo energético por quilo por quilômetro percorrido, atin- mesmo aos padrões biomecânicos que, em última instân-
gindo o mínimo por volta de 1,0-1,2m.s-1. Em outro estu- cia, estão associados à estabilidade locomotora. Todavia, é
do, a coordenação do tronco mostrou variabilidade máxi- difícil assumir que as mudanças no modo de locomoção
ma antes da velocidade de gasto metabólico mínimo69, mos- ocorrem como resposta a uma única característica. Da
trando que o custo metabólico e as medidas de estabilida- mesma forma, é ainda mais difícil determinar o percentual
de podem mudar significativamente durante o andar. Esses de atuação de cada variável no processo.
achados apontam para a necessidade de estudar a extensão Apesar do relativo interesse em estudar os mecanismos
da relação entre os diversos padrões de movimentos, em envolvidos na transição caminhada-corrida, poucos traba-
diferentes velocidades, para determinar a sua influência na lhos têm sido direcionados em investigar quais os efeitos
escolha da forma de locomoção. Por isso, esses diferentes da opção entre as distintas formas de locomoção no condi-
padrões precisam ser investigados em mais detalhes, dan- cionamento físico. Para os malcondicionados, a caminha-
do maior ênfase às manipulações específicas da estabilida- da pode constituir-se em uma atividade adequada para apri-
de do sistema70. morar a capacidade cardiorrespiratória71,72. Por outro lado,
Apesar da reconhecida importância da estabilidade mo- para aqueles mais bem condicionados, a corrida parece ser
tora na locomoção humana, ainda não está bem estabeleci- mais apropriada em preencher tal requisito, devido à faci-
da a magnitude de sua influência na transição caminhada- lidade para elevar a intensidade do esforço a patamares mais
corrida. Muitos fatores poderiam ser levantados como res- altos que a caminhada. Entretanto, quando é necessário
ponsáveis pela mudança na forma de locomoção, princi- exercitar-se a uma intensidade de esforço entre 6 e 8METs
palmente quando a estabilidade é desafiada a maior grau, (geralmente apontada como área de transição entre a ca-
como na caminhada ou corrida em terrenos irregulares ou minhada e a corrida, compreendendo também a intensida-
mediante a imposição de algum tipo de sobrecarga no cor- de do trabalho na qual as pessoas não sabem se correm ou
po. Para responder a essas questões, ou mesmo àquelas mais caminham), a seleção da forma de locomoção pode ter dis-
básicas em que não existe um desafio acentuado às carac- tintas repercussões.
terísticas normais de estabilidade, estudos futuros devem Com o propósito de investigar a influência da forma de
ser conduzidos. Nesse contexto, seria interessante que as locomoção em algumas variáveis cardiorrespiratórias,
pesquisas considerassem maior tempo de medida do gasto Monteiro et al.73 conduziram um estudo no qual os indiví-
energético, pois os intervalos de tempo adotados até então, duos foram solicitados a caminhar e correr nas mesmas
provavelmente, são pequenos para realizar inferências mais velocidades. Seis indivíduos, propositalmente homogêneos
conclusivas sobre a interação dos aspectos fisiológicos e quanto à idade, estatura, comprimento de membros infe-
biomecânicos na estabilidade locomotora. Isso justifica-se riores e peso corporal, submeteram-se a dois esforços de
na medida em que a influência da instabilidade na realiza- seis minutos (caminhada e corrida). Os testes foram sepa-
ção de tarefas mais demoradas pode ser diferente da verifi- rados por um intervalo de 20 minutos, em quatro dias dis-
cada nas atividades mais curtas. Além de medidas mais tintos, com a ordem das atividades definidas por um qua-
duradouras da demanda energética, outros indicadores que drado latino. A velocidade era de 6,5km.h-1 na primeira
proporcionem o estudo dos limites envolvidos na transi- visita de adaptação ao protocolo e, nos dias subseqüentes,
ção caminhada-corrida devem ser experimentados. Talvez 6, 6,5 e 7km.h-1. Identificou-se que a influência do meio da
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locomoção foi mais relevante do que as variações de velo- constituir uma importante ferramenta para seleção da for-
cidade. A demanda metabólica expressa pela FC, VO2, VCO2, ma de treinamento, principalmente para indivíduos que
VE e pulso de O2 foi maior na corrida do que na caminhada apresentam baixa capacidade funcional.
(10 a 50%) para todas as velocidades testadas (p < 0,05), Outro aspecto não explorado na literatura, e que poderia
enquanto os equivalentes ventilatórios de O2 e de CO2 e a oferecer contribuições relevantes para a seleção da forma
percepção subjetiva de esforço geral e localizada (escala de locomoção em programas de condicionamento físico,
de Borg) não diferiram (p > 0,05). Em conclusão, os auto- diz respeito ao estudo das respostas fisiológicas em popu-
res destacaram que, nesses dados preliminares com adul- lações com capacidade funcional muito reduzida. Anali-
tos do sexo masculino de dimensões corporais homogê- sando os dados disponíveis, observa-se que as pesquisas
neas, para as mesmas velocidades na caminhada e na cor- direcionadas ao fenômeno da transição caminhada-corrida
rida, há respostas cardiorrespiratórias distintas, não se re- não têm enfatizado esse aspecto. Para preencher essa lacu-
fletindo na percepção local ou global do esforço. Os auto- na, uma proposta interessante seria verificar a relação en-
res destacaram que a dissociação entre o fenômeno fisio- tre as variáveis de trocas gasosas respiratórias e as respos-
lógico e a percepção do esforço pode ser explicada pelo tas eletromiográficas na escolha da velocidade de transi-
fato de a intensidade do exercício ter sido abaixo do limiar ção em indivíduos com aptidão cardiorrespiratória elevada
ventilatório, como pode ser observado pelo comportamen- e em indivíduos com aptidão reduzida, como idosos ou
to dos equivalentes ventilatórios e corroborado pelos valo- cardiopatas. Nesse caso, poderiam ser identificadas as va-
res relativamente baixos da escala Borg. riáveis mais significativas a influenciar na velocidade de
Apesar de chamarem atenção sobre a importância des- transição entre os grupos, além de analisadas suas diferen-
ses achados para melhor caracterização metabólica da ca- ças e possíveis implicações para o condicionamento físico.
minhada e da corrida objetivando a seleção da atividade na Finalmente, pode-se apontar uma lacuna de ordem prá-
prescrição do exercício, os dados de Monteiro et al.73 são tica. A seleção dos conteúdos de um programa de exercí-
preliminares, impossibilitando inferências mais consisten- cios passa, inicialmente, pela concepção dos seus objeti-
tes sobre o assunto. Para realização de pesquisas futuras vos – em se tratando de praticantes malcondicionados, a
que possam melhorar a validade externa do estudo, aspec- escolha da forma de locomoção pode exercer influência,
tos metodológicos adicionais devem ser considerados. En- não só nas possibilidades de condicionamento, mas tam-
tre eles, podem-se citar o número de sujeitos envolvidos bém na adesão desses praticantes. Pesquisas conduzidas
na amostra, a adoção de um critério de emparelhamento até o momento tentaram descrever os mecanismos envol-
para aptidão cardiorrespiratória dos avaliados, a aplicação vidos na transição caminhada-corrida, sem, contudo, in-
de um protocolo para estabelecer o ponto individual de tran- vestigar os seus efeitos no condicionamento físico dos in-
sição caminhada-corrida, bem como a adoção de outras divíduos. Acreditamos que essa lacuna mereça atenção, po-
variáveis, além das cardiorrespiratórias, que possam servir dendo ajudar a elucidar os conceitos físicos envolvidos no
como indicadores de intensidade de esforço. Nesse senti- cálculo da demanda energética, mas também os mecanis-
do, as respostas eletromiográficas e de lactacidemia pode- mos e implicações da forma de locomoção para a prescri-
riam trazer contribuições potenciais. ção de exercícios. Em suma, a revisão das pesquisas dispo-
Outra possibilidade de estudo consiste em verificar a níveis sobre a transição entre o andar e o correr sugere
influência de diferentes combinações de atividade motora, que, tanto em termos de descrição teórica quanto em ter-
desempenhadas na velocidade de transição caminhada-cor- mos de aplicação em situações de prescrição do exercício,
rida, nas respostas cardiorrespiratórias, eletromiográficas as dúvidas superam as certezas.
e de percepção subjetiva de esforço. Após delimitação de
um tempo de esforço fixo para coleta de dados, poderiam REFERÊNCIAS
ser analisados os efeitos das seguintes combinações de lo-
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