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DESAFIOS AO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO


NA EDUCAÇÃO INFANTIL

RESUMO

A educação infantil pode ser definida como a etapa que antecede a entrada da criança no ensino
obrigatória, sendo oferecida a crianças com idade inferior a seis anos. Embora seja historicamente
relacionada ao simples cuidado e assistência, esse tipo de instituição exerce um importante papel de
desenvolver habilidades educativas, entre elas a alfabetização e o letramento. O presente estudo teve
como objetivo investigar a aquisição desses processos a partir da perspectiva da educação infantil, bem
como discorrer acerca dos principais conceitos e os respectivos desafios impostos à prática docente para
efetivação da alfabetização e do letramento nessa faixa etária, resguardando-se as características do
desenvolvimento dessas crianças. Para tanto, o estudo foi organizado na forma de uma pesquisa de
revisão bibliográfica. A partir dessa pesquisa, foi possível verificar que atualmente a educação infantil
tem sido reconhecida enquanto uma importante etapa do ensino, cujas atribuições não se limitam ao
simples cuidado às crianças. Os conhecimentos relativos ao desenvolvimento infantil mostram que a
aplicação de um projeto pedagógico adequado traz grandes contribuições para o processo educativo da
criança. A alfabetização e o letramento constituem processos que estão inseridos em toda a educação
infantil, cabendo portanto à esse tipo de instituição compreender a complexidade desses processos,
refletindo sobre sua prática pedagógica para o uso adequado das metodologias adequadas a essa faixa
etária. Assim como ocorre em outras áreas da educação, a alfabetização e letramento ainda
compreendem um grande desafio a ser superado dentro da educação infantil. Para superar tais
obstáculos, esse tipo de instituição deve tornar-se um espaço de promoção do desenvolvimento da
linguagem oral e escrita da criança, não com o foco exclusivo de capacitar essa criança a ler e escrever,
mas como forma de garantir um desenvolvimento integral a essas crianças.

Palavras-chave: Educação infantil. Alfabetização e letramento. Desenvolvimento infantil. Práticas


pedagógicas.

1- INTRODUÇÃO

Ao contrário do que ocorria no passado, onde a educação infantil tinha como foco a
assistência e o cuidado das crianças, atualmente esse nível de ensino desempenha uma
importante função pedagógica. Nesse sentido, o ensino da leitura e da escrita representa um
processo de construção do conhecimento que faz parte do desenvolvimento da infância e, por
essa razão, não pode ser ignorado.
Impulsionada pelas pesquisas no campo do desenvolvimento infantil, a alfabetização e
o letramento foram ganhando força no processo educativo dessas crianças. Soares (2009)
defende tal prática ao afirmar que essas crianças devem ter acesso à atividades de inclusão ao
sistema alfabético e as práticas sociais a partir do uso da leitura e da escrita antes mesmo do
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ensino fundamental. Essas ideias fizeram com que o tema ganhasse maior espaço dentro da
legislação educacional brasileira e passasse a ser aplicada na prática das instituições que
oferecem esse tipo de atendimento.
Kramer et al (2007) considera que a educação infantil consiste num espaço de grande
potencialidade de desenvolvimento das habilidades da criança, sobretudo no campo da
comunicação e da expressão. Com isso, ao se promover o acesso ao mundo da leitura e da
escrita, coloca-se a criança diante de práticas que irão contribuir para o seu papel social e suas
capacidades de articulação com o mundo.
Apesar da importância da alfabetização e do letramento no desenvolvimento humano,
incluindo na infância, esses elementos ainda se constituem como grandes desafios tanto para os
professores como para os alunos nas mais diversas faixas etárias.
Diante da importância e do papel desempenhado pela alfabetização e o letramento no
desenvolvimento das habilidades educativas, o presente estudo teve como objetivo investigar a
aquisição desses processos a partir da perspectiva da educação infantil. Buscou-se ainda
discorrer acerca dos principais conceitos e os respectivos desafios impostos à prática docente
para efetivação da alfabetização e do letramento nessa faixa etária, resguardando-se as
características do desenvolvimento dessas crianças.
Para atingir aos objetivos propostos, esse estudo consistiu de uma pesquisa de revisão
bibliográfica para o levantamento das principais ideias existentes em relação ao tema. A
execução da pesquisa ocorreu através da consulta a livros e artigos científicos relacionados a
problemática estudada. Esses textos foram selecionados segundo a sua adequação aos objetivos
da pesquisa.

2- DESENVOLVIMENTO

2.1 A EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL

Para se compreender a Educação Infantil no país é necessário, inicialmente, discorrer


sobre a trajetória histórica que levou a construção do atual modelo educacional adotado para
essa faixa etária no país. Durante muitos anos, a educação na infância era uma atividade
designada apenas para a família, sobretudo para a mãe que exercia o papel de cuidadora do lar
e uma de suas funções era zelar pela educação dos filhos. (KUHLMANN JR., 2010)
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A própria concepção vigente relativa a infância e os cuidados necessários à esse período


é que ditavam a forma pela qual essas crianças deveriam ser educadas. Nunes, Corsino e
Didonet (2011) afirmam que com o passar do tempo os especialistas ligados ao
desenvolvimento infantil foram reconhecendo nesses indivíduos não apenas a figura de um ser
único e integral mas que a criança consiste num ser como um todo, reunindo aspectos físicos,
sociais, emocionais e intelectuais que dão forma a esse sujeito.
Além desses aspectos, é importante considerar ainda que a instucionalização da
educação para a infância foi se desenvolvendo na medida em que o próprio contexto sócio-
econômico passou a promover mudanças no âmbito das famílias, levando a necessidade de
assistência essas crianças. Para Andrade (2011), o advento das instituições de educação infantil
está relacionado ao surgimento da escola e do pensamento moderno, o que ocorreu por volta
dos séculos XVI e XVII. Ela se relaciona também a mudança nas exigências educativas
provocadas pelas transformações resultantes da sociedade industrial e suas relações produtivas.
Essas alterações oriundas do desenvolvimento da sociedade industrial fizeram com que
a mulher passasse a ocupar um novo papel dentro da estrutura familiar, deixando de ser
simplesmente a cuidadora do lar e dos filhos e ingressasse efetivamente no mercado de trabalho.
Essa saída da figura feminina do ambiente doméstico e sua inclusão no mercado de trabalho fez
com que se demandasse a oferta por instituições que pudessem cuidar dos filhos dessas mães
trabalhadores durante o seu expediente de trabalho. (KUHLMANN JR., 2010)
Destaca-se ainda outra instituição voltada para o atendimento às crianças na primeira
infância conforme Oliveira (2002), os jardins de infância. Se por um lado as crianças filhas de
mães trabalhadoras fossem encaminhadas para as creches para assistência e cuidados durante o
período de trabalho dessas mulheres, aos filhos de pessoas com maior capacidade econômica
era reservado outro tipo de instituição, os jardins de infância, que se caracterizam como por ser
uma instituição educativa por excelência enquanto as creches prestavam somente um papel de
assistência, sem a realização de atividades educativas.
Nascimento (2015) afirma que uma das características da educação infantil nesse
período era que, de forma geral, não existia qualquer participação do Estado seja na implantação
ou no funcionamento dessas instituições, de modo que por muitos anos essa tarefa ficou a cargo
de entidades filantrópicas, religiosas e privadas.
Gasbarro (2011) relata que no decorrer do tempo, as instituições de educação infantil
passaram por distintas funções em relação ao seu papel e sua função, tendo percorrido um
caráter assistencialista e chegando a cumprir também uma função educativa. Essas
transformações foram sendo alimentadas por avanços na legislação educacional que levou ao
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reconhecimento da criança enquanto um indivíduo cidadão e, consequentemente, um ser


carregado de direitos, principalmente em relação ao direito de educação de qualidade desde o
seu nascimento.
Um importante marco para a educação infantil no Brasil foi a promulgação da
Constituição Federal de 1988, sobretudo ao reconhecer o acesso a creche como um direito da
criança e ao definir claramente que esse tipo de instituição não deveria possuir apenas um
caráter assistencialista, mas que a creche deveria cumprir também um papel educacional. Além
disso, a Constituição inseriu a Educação Infantil como parte integrante do Sistema de Ensino
do país. (OLIVEIRA, 2002)
A partir do reconhecimento constitucional da Educação Infantil, novos avanços foram
promovidos, impulsionados por novos elementos como o Estatuto da Criança e do Adolescente,
a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB e também o Referencial Curricular Nacional da
Educação Infantil – RCNEI.
A LDB, instituída no país através da Lei nº 9394/96, traz em seu artigo 29 a educação
infantil como elemento de desenvolvimento integral da criança, envolvendo tanto os seus
aspectos físicos, como também o intelectual, social e psicológico. Segundo essa lei, cabe a esse
nível de ensino complementar a ação da família e da comunidade na formação desses
indivíduos. (STEIN, 2017)
No âmbito das mudanças promovidas pela LDB, a Educação Infantil tornou-se a
primeira etapa da Educação Básica brasileira, passando a ser organizada através de dois
seguimentos, sendo o primeiro as creches e outras instituições similares, que realizam o
atendimento a crianças de até três anos de idade e as pré-escolas que se destinam ao atendimento
de crianças com idade de quatro a seis anos de idade. (BRASIL, 2010a)
Complementando as transformações promovidas na Educação Infantil do país, destaca-
se ainda o RCNEI que trouxe, entre outros aspectos, essa etapa educacional como sendo um
espaço de construção da identidade e da autonomia da criança, possibilitando assim o seu pleno
desenvolvimento. (KUHLMANN JR., 2010)
Segundo Silva e Tavares (2016), a atualização da LDB, ocorrida no ano de 2013 com a
Lei nº 12.796/2013, trouxe algumas modificações nos conceitos da Educação Infantil no Brasil,
entre essas alterações destaca-se o ponto que define a educação básica como sendo obrigatória
e gratuita desde o quatro até os dezessete anos de idade. Com isso, passou a ser obrigatório que
as crianças com mais de quatro anos passassem a frequentar uma instituição de Educação
Infantil e assim a família não tinha mais a opção de não matricular seus filhos até os seis anos
de idade, passando a ser obrigatória assim a matrícula das crianças nessa faixa etária.
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Apesar de todos os avanços que marcaram o desenvolvimento da Educação Infantil no


país, Kuhlmann Jr. (2010) destaca que a incorporação das creches nos sistemas educacional
brasileiro ainda não permitiu uma efetiva superação da concepção assistencialista desse tipo de
instituição. O autor relata que seja pela falta de verbas e ainda pela pouca preocupação dada a
esse nível educacional, a oferta da educação à essas crianças é ainda muito deficiente em boa
parte do país.

2.2 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO: ASPECTOS CONCEITUAIS

Etimologicamente o termo alfabetização significa levar a aquisição do alfabeto, isto é,


consiste no ato de ensinar a ler e escrever. Desse modo, pode-se entender a alfabetização como
sendo o processo de aquisição de um determinado código alfabético e ortográfico, com a
respectiva construção de habilidades de leitura e escrita. (SOARES, 2011)
Ao contrário do que fora concebido durante muito tempo, a alfabetização não significa
um simples processo baseado na percepção e memorização para a respectiva reprodução através
da leitura e da escrita. Num olhar mais amplo e abrangente, ao tratar da alfabetização num
conceito mais moderno, inclui-se a ideia de construção de conhecimento de natureza conceitual,
de modo que o indivíduo não apenas saiba o que é a escrita, mas que ele desenvolva ainda a
capacidade de compreender como rela representa graficamente a linguagem. (GONTIJO, 2017)
Ao tratar do termo alfabetização, Morais e Albuquerque (2007) consideram que ela
representa um conjunto de técnicas, procedimentos e habilidades necessárias para que o
indivíduo desenvolva a prática de leitura e da escrita. Nesse mesmo sentido, Morais (2014)
complementa ao afirmar que encontra-se incluído na alfabetização a habilidade na codificação
de fonemas em grafemas, bem como a decodificação de grafemas em fonemas, ou seja, ela
compõe todo o domínio de um determinado sistema de escrita.
Segundo o entendimento de Soares (2011), a prática da alfabetização envolve a
aquisição de várias habilidades que vão desde a escrita e a leitura, passando por outras ações
como interagir com o meio, ampliar conhecimentos, relacionar-se como o imaginário,
interpretar e produzir distintas formas e gêneros textuais, orientar-se segundo os protocolos de
leitura que marcam um texto, ou seja, diversos recursos que irão permitir ao indivíduo uma
efetiva inserção no mundo escrito que o cerca.
Diante dessa visão mais ampliada da alfabetização, é possível reconhecer então nesse
processo uma forma construção conceitual, que ocorre de forma contínua e que se desenvolve
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de forma simultânea nos mais diversos espaços de convivência do indivíduo, seja na escola ou
nos demais ambientes. Trata-se de um processo interativo, que ocorre a partir dos primeiros
contatos da criança com a forma escrita. (TEBEROSKY e GALLART, 2007)
Retomando assim os diversos pensamentos convergentes acerca da alfabetização
defendidos até então, verifica-se que esse processo representa um aprendizado da escrita
alfabética, mas não se reduz simplesmente a um processo de associação entre letras e sons.
Tendo em vista a multiplicidade de sentidos relacionados a alfabetização, faz-se
necessário também discorrer acerca de outro processo que também apresenta grande
importância para o desenvolvimento educativo do sujeito, o letramento. Ao tratar do tema,
Kleiman (2005) esclarece que letramento não pode ser confundido com alfabetização, embora
esse esteja incluído nela. Logo, o letramento e a alfabetização são processos encontram-se
associados.
Logo, a alfabetização designa aquele indivíduo que aprendeu a ler e a escrever, não
representando necessariamente à aquisição de habilidades de apropriação da leitura e a escrita,
com a incorporação de práticas sociais que derivam desse processo. Com a nova realidade social
emergente, passa a não ser suficiente a simples aquisição da leitura e da escrita, passando a
exigir dos indivíduos o bom uso da leitura e da escrita, num processo que se consolida naquilo
que atualmente se entende por letramento. (SOARES, 2009)
De acordo com Soares (2009), o letramento consiste num conceito ainda muito recente,
inserido há poucas décadas no cenário da linguagem educacional e das ciências linguísticas.
Seu surgimento se deu como forma de configurar e nomear comportamentos e práticas sociais
relacionadas a prática da área da leitura e da escrita, num processo que ultrapassa o domínio
dos sistemas ortográfico e alfabético.
Seguindo as ideias de Morais e Albuquerque (2007), a prática de alfabetizar e letrar
representam duas ações distintas mas que por suas características tornam-se inseparáveis. Para
esses autores, um cenário ideal é quando a se alfabetiza letrando, isto é, quando se ensina a ler
e escrever dentro de um contexto de práticas sociais para leitura e escrita, fazendo com que o
indivíduo se torne alfabetizado e também letrado.
Acrescenta-se ainda o fato de que para que o indivíduo possa se caracterizar como
letrado, é necessário que ele tenha experiências culturais através da prática da leitura e da
escrita, as quais são geralmente adquiridas antes mesmo do processo de escolarização da
criança.
Conforme entendimento de Kleiman (2006), é possível inferir que o letramento tem
características distintas segundo o contexto onde se encontra inserido. Dessa maneira, no
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ambiente escolar o sujeito irá apropriar-se dos códigos escritos e funções conforme trabalhados
na salada de aula. Por outro lado, no âmbito familiar, esse contato com o mundo letrado ocorre
por meio de fatos cotidianos e que fazem parte do convívio da família.
Baseando-se assim nos conceitos apresentados relativos a alfabetização e ao letramento,
verifica-se que se tratam de elementos de grande importância, principalmente para as atuais
características da sociedade. Da mesma forma, se impõe como processos desafiadores e que
merecem de especial atenção por parte dos educadores. Nesse sentido e de acordo com as ideias
de Soares (2009) o mundo moderno exige que os indivíduos além de serem alfabetizados, que
também dominem os múltiplos letramentos, desenvolvendo todas as habilidades inerentes a ele.
Trata-se, portanto, de uma importante tarefa a ser cumprida pela escola nos mais diversos níveis
de ensino, incluindo-se a educação infantil.

2.3 EDUCAÇÃO INFANTIL COMO PORTA DE ENTRADA À ALFABETIZAÇÃO E


LETRAMENTO

Embora já se reconheça, na atualidade, a alfabetização e o letramento com elementos


importantes no desenvolvimento infantil, até a década de 60 ainda predominava no Brasil o
discurso no qual as crianças somente deveriam entrar em contato com o mundo da leitura e da
escrita quando já tivessem amadurecido em determinadas habilidades. Essa preparação somente
era adquirida por volta dos seis anos de idade e a alfabetização antes dessa fase poderia ser
prejudicial ao seu desenvolvimento. (BRANDÃO e LEAL, 2010)
Ainda segundo esses autores, essa lógica fazia com que se rejeitasse qualquer contato
com a leitura e a escrita durante a educação infantil por considerar que esses indivíduos ainda
não dispunham de habilidades tais como “coordenação viso-motora, memória visual e auditiva,
orientação espacial, articulação adequada de palavras” (BRANDÃO e LEAL, 2010, p. 15), ou
seja, a aquisição de elementos tidos como fundamentais para o desenvolvimento da
alfabetização.
As novas concepções sobre a infância e o desenvolvimento infantil levaram a
desconstrução da ideia de que os indivíduos nessa faixa etária necessitassem apenas de cuidados
assistenciais. Logo, tornou-se necessário também oferecer às crianças condições para promoção
de seu desenvolvimento físico, cognitivo, psicológico e social. Nesse sentido, o RCNEI
estabelece que a educação infantil deve proporcionar um desenvolvimento integral da criança,
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envolvendo a dimensão afetiva, aspectos biológicos, cuidados com a saúde, além de oportunizar
o acesso aos variados conhecimentos das ciências. (BRASIL, 1998)
Ao defender essa ideia, Soares (2009) afirma que a alfabetização e o letramento na
educação infantil insere-se como forma de oferecer a esses sujeitos a oportunidade de serem
introduzidos no sistema alfabético, além das práticas sociais da leitura e da escrita através do
letramento.
Apesar da divergência de ideias quanto a aprendizagem na educação infantil, uma vez
que não se trata de uma exigência para essa faixa etária, seguindo os preceitos do
desenvolvimento infantil, tal como defendido por Vygotsky, evidenciam que é importante para
a criança a aquisição da linguagem escrita de forma que esta seja percebida como algo
importante para a criança. Nesse sentido, as atividades que fazem parte do cotidiano escolar,
tal como os desenhos, rabiscos, jogos e outras atividades lúdicas, embora não representam
atividades de alfabetização, já se tratam de partes desse processo. (SOARES, 2011)
Scarpa (2006) destaca a necessidade de que enquanto prática pedagógica, a
alfabetização na educação infantil não deve substituir a aprendizagem lúdica, processo
necessário ao desenvolvimento infantil. Com isso, ainda que esteja incluída no cotidiano
escolar, as atividades de alfabetização não devem suprimir as atividades realizadas com outras
formas de linguagem como a música, o desenho, a brincadeira, entre outras.
Sobre o tema, Kramer et al (2016) consideram que para as crianças inseridas no contexto
da educação infantil, a orientação pedagógica através de práticas lúdicas e adequadas às
características desses alunos, permitem que essas possam evoluir de forma rápida para um nível
alfabético. Esse ideia garante uma ligação e uma continuidade no processo de alfabetização a
partir da adoção de práticas lúdicas.
Segundo o entendimento de Martins Filho (2009), na educação infantil a leitura e a
escrita devem ser inseridos como instrumentos culturais, atrelados à distintas experiências
sociais e culturais envolvidas no cotidiano infantil. Com isso, para que a alfabetização seja
efetiva para essas crianças, é necessário que se mostre a elas a função social da leitura e da
escrita, de modo que elas possam compreender a importância desse processo para o
funcionamento da sociedade.
Esse papel sociocultural da alfabetização na educação infantil encontra ressonância
também no RCNEI que orienta as instituições e profissionais a organizar a sua prática como
meio de promoção e desenvolvimento de capacidades de comunicação oral, interação e
expressão através da linguagem oral, familiarização com as diversas formas de escrota em seu
cotidiano, ampliar suas possibilidades de comunicação através do intercâmbio social, entre
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outras formas de habilitar essas crianças de acordo com as possibilidades inerentes a esta etapa
do desenvolvimento. (BRASIL, 1998)
Tal como ocorre no caso do alfabetização também representa um processo que produz
efeitos positivos no desenvolvimento infantil. Para Souza (2008), no contexto da infância, as
atividades da sala de aula devem criar os meios para a aquisição das diversas formas e tipos de
linguagens orais, incluindo livros infantis, revistas, jornais, receitas, entre outros. Essas
atividades vão desenvolver e estimular a construção da leitura e da escrita na criança, além de
proporcionar um impacto positivo sobre o seu meio sociocultural.
Ao tratar da importância do letramento na educação infantil, Soares (2009) afirma que
a leitura frequente de histórias representa uma atividade indispensável e que permite a ela uma
familiarização com a materialidade do texto escrito, além permitir um enriquecimento do
vocabulário e oferecer uma melhoria no desenvolvimento da capacidade de interpretação e
compreensão de textos escritos e o estabelecimento de relações entre os fatos.
No RCNEI, a defesa do processo de letramento na educação infantil está pautado no
fato de que desde o início da infância as crianças já apresentam a capacidade de utilizar lápis e
papel para imprimir marcas e traços, na tentativa de imitar a escrita, da mesma forma que
utilizam os livros emitindo gestos e sons como se de fato estivessem fazendo a sua leitura. Isso
faz com que seja de grande importância o manuseio de materiais como livros, revistas, cartazes
e jornais pelas crianças, oferecendo a elas a possibilidade de observar e, gradativamente,
reconhecer as diversas características da lingual escrita. (BRASIL, 1998)
Outro documento, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, por sua
vez também apontam a importância do letramento no processo de desenvolvimento infantil,
sobretudo nas habilidades de ensino-aprendizagem. Contudo, essas atividades não devem focar-
se simplesmente no ato de leitura e escrita, utilizando-se doas demais formas de linguagem
desde como a oral e escrita, além da linguagens não verbal, musical, visual, entre outras. Ainda
de acordo com esse documento, existe uma clara tendência no sentido de que as práticas de
letramento na Educação Infantil ocorram de modo a possibilitar às crianças um conjunto de
experiências narrativas, apreciação e interação com a linguagem oral e escrita, bem como por
meio do convívio com os distintos suportes e gêneros textuais orais e escritos. (BRASIL, 2010b)

2.4 DESAFIOS PARA A ALFABETIZAÇÃO E O LETRAMENTO NA EDUCAÇÃO


INFANTIL
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Atualmente a educação, nas suas diversas formas e interfaces, compreende um dos


grandes desafios para a sociedade moderna, exigindo um novo olhar para o processo de ensino
como forma de proporcionar a ele a qualidade e a eficiência necessária. No caso da educação
infantil, por ser uma etapa do ensino que historicamente apresentou um aspecto puramente
assistencialista, de acordo com o entendimento de Teberosky e Gallart (2007) passou a receber
maior atenção por se destacar em relação às outras etapas da educação por apresentar algumas
vantagens como o maior êxito escolar dos alunos e a melhor adaptação social e acadêmica do
aluno inserido nela.
Cagliari (2008) aponta todo o processo de alfabetização e letramento como algo muito
desafiador tanto para o discente como para o docente, independentemente da etapa educativa
que ocorra. Um desses desafios reside no fato de que, para que ocorra, ela exige a aquisição de
alguns conceitos prévios como o desenvolvimento do pensamento simbólico, a partir da
interrelação de sons da fala e as letras do alfabeto. Com isso, faz-se necessário ao professor
buscar meios de desenvolver na criança a compreensão da relação simbólica entre os objetos.
No caso da educação infantil, deve-se considerar o estágio de desenvolvimento da
criança, que interfere diretamente nas habilidades de leitura e escrita e também na forma com
que essa criança contextualiza esses conhecimentos com suas práticas sociais de leitura e
escrita.
Outro desafio que se impõe ao desenvolvimento desses processos é o fato de que as
constantes transformações da sociedade tem alterado as formas de alfabetizar. Para Andrade
(2009), o modelo tradicional de alfabetização, onde o eixo principal era o professor enquanto
detentor do conhecimento e o aluno como mero receptor desse conhecimento já não se sustenta
mais. Para esse autor, a concepção atual da educação alterou o eixo, passando o professor para
uma condição de mediador do conhecimento.
Ao tratar dos desafios do processo de letramento, Santos e Mendonça (2007) afirmam
que esse processo demanda a leitura e produção de diversos gêneros para a formação de leitores
críticos e cidadãos. Nesse sentido, deve-se oferecer situações de aprendizagem onde o aluno
tenha acesso aos diversos textos e situações sociais que com eles se relacionam, na tentativa de
construir a concepção do funcionamento do sistema alfabético. Tratar tais questões dentro da
educação infantil requer portanto uma maior organização e planejamento das atividades
pedagógicas, de modo que o trabalho seja disposto segundo as capacidades inerentes ao nível
de desenvolvimento da criança.
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3- CONCLUSÃO

A partir da pesquisa bibliográfica realizada verificou-se que atualmente a educação


infantil tem sido reconhecida enquanto uma importante etapa do ensino, cujas atribuições não
se limitam ao simples cuidado às crianças. Os conhecimentos relativos ao desenvolvimento
infantil mostram que a aplicação de um projeto pedagógico adequado traz grandes contribuições
para o processo educativo da criança.
Nesse sentido, a alfabetização e o letramento inserem-se como elementos precisam ser
trabalhados na educação infantil como forma de oportunizar a construção de conhecimentos
sobre o mundo da leitura e da escrita, bem como a relação que eles estabelecem com seu
convívio social e cultural.
De acordo com os diversos autores pesquisados, a alfabetização e o letramento
constituem processos que estão inseridos em toda a educação infantil, cabendo portanto à esse
tipo de instituição compreender a complexidade desses processos, refletindo sobre sua prática
pedagógica para o uso adequado das metodologias adequadas a essa faixa etária.
Merece destacar por fim que assim como ocorre em outras áreas da educação, a
alfabetização e letramento ainda compreendem um grande desafio a ser superado dentro da
educação infantil. Para superar tais obstáculos, esse tipo de instituição deve tornar-se um espaço
de promoção do desenvolvimento da linguagem oral e escrita da criança, não com o foco
exclusivo de capacitar essa criança a ler e escrever, mas como forma de garantir um
desenvolvimento integral a essas crianças.

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