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Delegação Regional de Lisboa e Vale do Tejo

Centro de Formação Profissional da Amadora

Área de Formação: UFCD: CLC7


Itinerário de Formação: Técnico Ação Educativa 09/2012 Formador: Rui Cravo
Modalidade: Educação e Formação de Adultos

Nome: _________________________________________________ Nº __________


Data:___________
Formador: __________________________ Avaliação: ___________________________

I - Competência Avaliada – Leitura e compreensão do texto

1 . Lê o seguinte texto com muita atenção e responde com clareza e correção ao questionário
seguinte.

Harmonia

Em Boliqueime o mundo era perfeito! Os pombos voavam pelos telhados e tinham medo dos
gatos. Os gatos dormiam pelos poiais e tinham medo do cão. As galinhas tinham medo dos perus
com aquele leque. As mulas tinham medo do cavalo que as escoiceava. Essas relações de força
eram muito importantes porque os grandes venciam os pequenos e tudo era claro.

Por vezes, porém, as regras eram outras. Assim, o ouriço era mais pequeno do que o cão mas
defendia-se, espetando todas aquelas armas. Os gatos eram corpulentos mas fugiam quando em
Junho aparecia a cobra. Até o porco redondo e sujo subia pelas paredes quando ela se lhe enrolava
na pia. Mas essa era venenosa. Por isso o medo provinha não só do peso do grande mas também
do pequeno venenoso.

Aliás, também entre as pessoas a harmonia era absoluta. A bisavó Bina, que não via, andava
devagarinho pela casa e esperava o dia inteiro pela hora em que lhe dessem a pelar os legumes. O
marido dela ainda via e mandava nela, dizendo-lhe, frequentemente: “cala-te”. Ela obedecia e
tinha medo dele. A mãe e as tias tinham medo do pai e dos tios. Todos eles andavam apressados
pela casa, muito mais do que os avós, pois esses, a meio da tarde, ficavam pensativos. Assim
sendo, era a bisavó quem tinha medo de todos, inclusive do cão, da cobra e do peru, e até mesmo
do gato quando o abraçávamos e espremíamos. Sentada, imóvel, ela tinha medo de nós mesmos.

Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. [...]A
toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde
ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão chamado Tobias,
vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás dele e para meu espanto, aquele era o
recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha
era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois
quatro paredes. Abri-lhes as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que
nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa de costura havia uma tesoura e com
ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a
medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior
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perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como
se fosse uma verdadeira janela.

Mas alguém, de repente, estacou em frente da pequena janela. A mãe começou aos gritos, o cão
saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante
com água e panos. Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria
ser o meu último instante! Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó
avançava lentamente perguntando que é, que é. E o que é, que é, era eu, que havia feito uma
horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada numa cadeira? Não a abraçava a tia Maria? O
meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só
a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas
pela mão da minha bisavó que não via? Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-
me dos puxões da minha tia, das inventivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não
chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me a seu lado, e a força da sua
proteção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte do que o pai, o avô que era seu filho, os
tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão e o peru. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio
dia tinha desaparecido sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido. Foi,
pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita
de outra força, aparecia. Para sempre aparecia.

Lídia Jorge in Memórias da Infância, Boletim Cultural da F. C. Gulbenkian, 1994 (texto adaptado)

Grupo I

1. Este texto relata memórias pessoais.

1.1. Refere as características deste tipo de texto, justificando a tua resposta com uma transcrição
textual.

2. Relê os três primeiros parágrafos.

2.1. Mostra que a “harmonia” de Boliqueime se fundamenta numa regra que irmana homens e
bichos.

2.2. Faz o levantamento dos traços caracterizadores da bisavó.

3. Identifica e descreve a sucessão de sentimentos da autora desde “Fui atrás do cão...” até “... da
bisavó que não via”.

4. Diz o que fez a autora para que os seus familiares se insurgissem contra ela.

5. Explica a seguinte expressão: “Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira.”.

6. Atenta nas duas últimas frases do texto.


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6.1. Tenta caracterizar a nova “harmonia” instaurada no mundo da autora.

7. Retira do texto três determinantes. Indica a sua subclasse.

8. Identifica a pessoa, o número e o tempo das formas verbais presentes nas seguintes frases
retiradas do texto. Mencionando a sua importância no tipo de texto em questão.

“Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia tinha desaparecido sem receio da noite e as suas mãos
mostraram um poder desconhecido. Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em
Boliqueime, mas uma outra, (…) aparecia. ”

Grupo II

1 . Lê o seguinte texto com muita atenção e responde com clareza e correção ao questionário
seguinte.

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!

Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!


Quão asinha*1) em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes;
Agora descansais com meus cuidados*2).

Deixastes-me sentir os bens passados,


Para mor dor da dor que me ordenastes;
Então nua hora juntos mós levastes,
Deixando em seu lugar males dobrados.

Ah! Quanto milhor fora não vos ver,


Gostos, que assi passais tão de corrida
Que fico duvidoso se vos vi.

Sem vós já me não fica que perder,


Senão se for esta cansada vida
Que, por mor perda minha, não perdi.

Luís de Camões

(1) depressa
(2) desgostos
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1. Este soneto de Camões poderá ser encarado como um balanço da vida do sujeito poético.
1.1. Indique, justificadamente, o tipo de balanço feito.

1.2. Identifique três marcas gramaticais reveladoras da presença do sujeito poético no


discurso.
1.3. Identifique as palavras/expressões que, ao longo das duas primeiras quadras, sugerem
o tratamento da temática da mudança.

2. Atribua um título ao soneto trabalhado, justificando a sua opção.

II- Competência Avaliada – Produção escrita


A
Num texto estruturado e organizado (entre 20 a 30 linhas) desenvolva uma das
seguintes alíneas:

A- Relembra um dia em que estavas em família e escreve um texto em que contes as tuas
memórias.

B- Relembra um episódio ou uma experiência marcante, positivo ou negativo, que tenhas vivido
(viagem, férias, um grande susto, uma grande deceção).

B
Quer o Diário quer as Memórias são formas de escrita autobiográfica. Aponta as diferenças e as
semelhanças entre um e outro tipo de texto.

Formador:
Rui Cravo