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A força da obra de Federico García Lorca

Laís Modelli disse:

3 de Fevereiro de 2016

A força da obra de Federico García Lorca

O poeta e dramaturgo espanhol García Lorca (Arte Revista CULT/Foto Fundação Federico García
Lorca)

Federico García Lorca nasceu na Espanha, no dia 5 de junho de 1898, em Fuente Vaqueros,
província de Granada. Filho da professora primária Vicenta Lorca, aprendeu cedo a ler e escrever.
Publicou seu primeiro livro, Impresiones y paisajes, em 1918, aos 19 anos. Foi precoce em tudo o
que se propôs a fazer ao longo da curta vida que teve: na música, como pianista; nas artes
plásticas, como desenhista; nas letras, como poeta, e no teatro, como ator e dramaturgo. Adulto,
também foi palestrante e conferencista aclamado.

Em 1918, Lorca mudou-se para Madri para cursar Direito, mas sem vocação para as leis. Passou
também pelos cursos de Letras e Filosofia. Viveu por dez anos na Residência de Estudantes de
Madri, onde dividiu o quarto com o amigo e futuro cineasta Luis Buñuel e foi vizinho do pintor
Salvador Dalí. O livro Querido salvador, querido Lorquito, de Vítor Fernández, reúne cartas que
detalham o relacionamento, com altos e baixos, entre Dalí e Lorca, de 1923 a 1936. O
relacionamento não chegou a ser revelado, principalmente por causa do conservadorismo de
uma Espanha pré-franquista, mas também porque o pintor negava a homossexualidade. Da
relação, nasceram desenhos de Dalí dedicados a Lorca e o cenário da peça Mariana Pineda,
escrita em 1925, durante a época da faculdade.

“Lorca admirava muito Dalí, mas do ponto de vista artístico, ele influenciou mais Dalí do que o
contrário. O poeta já era famoso quando os dois se conheceram, na República dos Estudantes. É
o Lorca quem abre caminho para Dalí, apresentando-o às rodas de artistas da Espanha”, explica
Syntia Pereira Alves, doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP com a tese Teatro de Garcia Lorca:
a arte que se levanta da vida. Convencido por Buñuel a trabalhar em Paris, Salvador Dalí deixa a
Residência de Estudantes de Madri em 1927 e passa a rejeitar o poeta, que se muda para Nova
York, onde viveu como estudante na Universidade de Columbia de 1929 a 1930. Do intercâmbio,
publicou os poemas de O poeta en Nueva York, uma de suas obras mais conhecidas. Seis anos
após regressar à Espanha, Lorca foi brutalmente assassinado, na região de Granada, no dia 19 de
agosto de 1936. Na ocasião, o poeta foi retirado à força da casa de amigos, em uma grande
operação do Governo Civil que cercou todo o quarteirão, foi detido e fuzilado junto a três outros
homens. Era o início da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o acontecimento europeu mais
dramático antes da Segunda Guerra. Até hoje não se sabe o paradeiro do corpo do poeta.

Mesmo com o fim trágico e ainda sem ponto final, Lorca costuma ser lembrado pela genialidade.
“A poesia lorquina cheira a flor de laranjeira”, defende Ático Vilas-Boas da Mota na apresentação
de Obra poética completa de Federico García Lorca, publicada pela editora Martins Fontes. A
verdade é que o poeta era contra a poesia dura e descritiva; contrapôs-se a tal frieza por meio da
construção de metáforas – principalmente nos poemas do famoso Romancero gitano (1924-
1927), em que a lua, “lúbrica y pura”, atrai a atenção de ciganos por exibir “sus senos de duro
estaño”– e da inspiração nos costumes e canções populares da Espanha do início de século –
presentes nos versos do Poema do “Cante Jondo” (1921), com os sinos de Córdoba e de Granada
ouvidos por “todas las muchachas que lloram a la tierna/ soleá enlutada. Las muchachas de
Andalucía/ la alta y la baja/ Las ninãs de España/ de pie menudo y temblorosas faldas”.

A força da obra de Lorca, segundo a professora Margareth dos Santos, da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), não reside propriamente
em seus temas, mas no modo como os trabalha. “O poeta, como poucos, soube reunir em seus
textos, teatrais ou poéticos, uma impressionante condensação simbólica aliada à intensidade
dramática. Não é à toa que em sua obra a anedota, sempre presente de forma fragmentária, se
dilua em palavras, sons, cores e paisagens que ganham a dimensão de símbolos na medida em
que evocam significados múltiplos, que transcendem a fábula que nos é contada de maneira
entrecortada”, pontua Margareth. A omissão do contexto narrativo em Lorca é um convite ao
leitor a preencher tal espaço com sua própria imaginação, “a partir das pistas que vão além do
eixo metonímico da descrição e alcançam a transcendência das inúmeras metáforas e símbolos
que vão se acumulando ao longo de seus versos ou dramas”, explica.

Mas imaginação não basta para entender o mundo poético e dramático de Lorca. Entender o
contexto político e social da Espanha de fim de século também se faz imprescindível. “Lorca, de
fato, foi um grande escritor, no entanto, creio que para compreender o que a crítica designa
como genialidade, é preciso pensar as bases que esse conceito pressupõe. É preciso situá-lo em
seu contexto político, social e literário, com especial atenção para sua obra crítica”, explica
Margareth. “Podemos observar uma articulação frequente entre uma dimensão intelectiva e um
trato afetivo da linguagem poética. A partir desse entrelaçamento, estaria a formulação de um
conflito básico em toda sua obra: a contradição entre opressão e liberdade. Desse núcleo
conflitivo preliminar, poderíamos dizer que confluem questões universais, como o amor (quase
sempre impossível), a morte (frequentemente violenta), a espera e o desejo, para citar alguns
exemplos.” A presença do fim brutal, retratado principalmente na peça Mariana Pineda, e o
pavor que o poeta tinha da morte, levou o escritor Ian Gibson a refletir no fim de Federico García
Lorca, a biografia, publicada no Brasil pela Editora Globo: “Teria ele percebido a semelhança
quase sobrenatural entre seu destino e o de sua heroína Mariana Pineda?”.

Depois de vinte anos censurado na Espanha de Franco (1939-1975), a obra do escritor,


desenhista e dramaturgo Federico García Lorca entra em domínio público a partir de agosto de
2016.

O poeta sem corpo

A monarquia espanhola durou até 1931, ano em que foi proclamada a República. Cinco anos
depois iniciava-se a Guerra Civil. A Europa vivia o embate entre o Fascismo, iniciado na Itália em
1922, e o comunismo, impulsionado pela Revolução Russa de 1917. O conservadorismo na
Espanha do início de século unia Igreja e Exército contra o avanço de socialistas, comunistas,
anarquistas e democratas liberais no país. É nesse contexto que se desenvolve a obra lorquiana.

Segundo Margareth, “Lorca identificou-se profundamente com o projeto educativo e cultural da


República, no qual atuou diretamente como diretor do grupo teatral de estudantes La Barraca,
que, entre 1932 e 1936, percorreu 64 cidades e povoados da Espanha, levando o teatro ao povo
em mais de cem representações de 13 peças do repertório clássico espanhol, em especial do
Siglo de Oro. Essa participação nos ajuda a vê-lo não apenas como um homem de teatro
polivalente e completo (ator, diretor, cenógrafo, figurinista, sonoplasta), mas também como um
indivíduo que se dedicou a uma contundente ação política, não como simples reflexo da
realidade circundante, mas como reflexão sobre esta e suas mazelas”. Apesar de nunca ter se
filiado a nenhum partido político, Lorca explorou as questões sociais em sua obra.

O ano de 1936 é o mais engajado politicamente do escritor; não coincidentemente, é nele que
ocorre seu assassinato. “Ao longo do primeiro semestre daquele ano, García Lorca explicita suas
ideias sobre o teatro e a cultura espanhola, seu posicionamento político e seu apoio à República
em uma série de ações: um pouco antes das eleições, participará de atos em apoio à Frente
Popular; em março, assinará o telegrama enviado a Getúlio Vargas, pedindo a liberdade de Luís
Carlos Prestes; em uma entrevista publicada no jornal madrileno La Voz, denunciará a
profanação que significa o uso do município de Alhambra para ritos cristãos; em maio, ao
mesmo tempo em que anuncia estar trabalhando numa nova peça teatral sobre a fome,
participará das comemorações do primeiro de maio e da organização de um jantar oferecido aos
escritores franceses André Malraux, Henri-René Lenormand e Jean Cassou, que estavam em
Madri como representantes da Frente Popular francesa e, por fim, em junho, na que seria sua
última entrevista, publicada no jornal El Sol, condenará a ocupação de Granada pelos reis
católicos, em 1492, que taxará como um desastre para a história e cultura espanholas”, continua
Margareth. Nessa última entrevista, disse Lorca: “Yo soy español integral, y me sería imposible
vivir fuera de mis límites geográficos; odio al que es español por ser español nada más”, “pero
antes que esto soy hombre de mundo y hermano de todos. Desde luego, no creo en la frontera
política”.

No contexto de sua morte, Lorca se transformou imediatamente em símbolo de luta social na


Europa. “Houve consternação em todo o mundo de língua espanhola, e a imprensa europeia
também noticiou o assunto. Quase da noite para o dia Lorca tornou-se um mártir republicano”,
escreve Ian Gibson na biografia do poeta. Mas de acordo com Syntia Pereira Alves, a imagem de
Lorca tem perdido espaço na discussão política na Espanha atual. “Os estrangeiros se interessam
mais por Lorca que a própria Espanha. Isso é um resquício da Guerra Civil”, afirma Syntia, após
ter vivido um ano no país como parte da pesquisa de campo para o seu doutorado sobre a obra
de Lorca. Segundo a estudiosa, os livros escolares não explicam a causa da morte do poeta
granadino. “A geração atual não sabe da importância de Lorca. Na Festa de Federico [festa anual
em homenagem a Lorca na cidade de Fuente Vaqueros], eu perguntava às crianças e jovens
quem havia sido o poeta e como ele morreu. Eles sabem quem ele foi, mas não sabem que há
uma figura de resistência associada a ele”, conta. Na década de 1960, com a liberdade sexual em
pauta em diversos países, Lorca foi associado prontamente à causa da sexualidade. Syntia explica
que “na época, ele foi considerado o Oscar Wilde da Espanha”. A relação da figura do poeta com
o movimento das liberdades sexuais se deu em razão da justificativa de seu assassinato na
Espanha: o homossexualismo. Com a década de 1970, o escritor passa a ser associado também a
questões políticas e sociais na América Latina, especialmente em países que passaram por
ditaduras.

A causa da morte e o corpo nunca encontrado são assuntos que ainda reviram o passado
sombrio da Espanha. Segundo Ian Gibson, o documento da morte de Lorca foi efetuado no
Registro Civil espanhol quase que um ano após o fuzilamento. “O documento declarava que
Lorca morreu ‘no mês de agosto de 1936 em consequência de ferimentos de guerra’. Para o
mundo, dava a impressão de que o poeta tinha sido vítima de uma bala perdida”, retrata o
escritor na biografia do poeta. Documentos abertos recentemente apontam para uma morte por
questões políticas e não para uma ferida de guerra. “Não foi à toa que Lorca foi assassinado
junto de dois homens que eram anarquistas”, defende Syntia. No momento da prisão de Lorca,
relatos históricos afirmam que um dos guardas teria justificado a ação com a frase: “Ele fez mais
estragos com a caneta que outros fizeram com a arma”. A versão acrescenta um episódio a mais
para a história mais conhecida, que diz que foram disparadas “duas balas no rabo por ser bicha”,
segundo retratou Ian Gibson. Em defesa da justificativa política, Syntia explica que Lorca nunca
revelou abertamente sua opção sexual e, em sua obra, apenas deu pistas da homossexualidade
na peça El público e na coletânea de poemas publicada postumamente, Sonetos del amor
oscuro. “Esses sonetos tiveram sua primeira publicação de forma clandestina, diga-se de
passagem, em 1983. Neles, Lorca expressa seu amor por outro homem e a angústia do amor que
ele considerava ‘estéril’.”

García Lorca (Arte Revista CULT / Foto Fundação Federico García Lorca)

García Lorca (Arte Revista CULT/Foto Fundação Federico García Lorca)

Sobre o desaparecimento do corpo, Syntia conta que “hoje restam ainda cerca de 130 mil
pessoas cujos restos mortais não foram encontrados. A família de Lorca defende que todos
sejam encontrados, e não só o dele, por isso não fazem questão da busca. Acontece que Lorca
foi fuzilado com outras três pessoas e a família desses desaparecidos é que reivindicam os
corpos”. “Até a década de 1980, não se buscava nada na Espanha sobre o corpo de Lorca.
Somente em 2000 é que o governo assumiu a responsabilidade pelo fato.” A primeira escavação
se deu somente em 2009, com base nas pesquisas de Ian Gibson. O local escolhido foi o Parque
García Lorca, localizado na cidade natal do poeta. A segunda escavação aconteceu em 2013 e
2014, em uma região próxima às cidades de Viznar e Alfacar, também localizadas na província de
Granada. Após declarar que não havia encontrado vestígio algum, o governo foi criticado por
diversos ativistas, que lançaram um crowdfunding – financiamento coletivo na internet – para
que se possa realizar uma segunda escavação na mesma região, mas em um novo lugar,
proposto pelo historiador Miguel Caballero. Se as pistas de Caballero estiverem certas, neste ano
– que marca os oitenta anos de sua morte –, o corpo do poeta poderá finalmente ser sepultado
com dignidade.

As mulheres de Federico

Nove das doze peças escritas por Lorca em sua maturidade artística são protagonizadas por
mulheres. “Ele nunca deu uma justificativa”, explica Margareth. Para a professora, “A figura
feminina surge como aquela que é a mais oprimida, não apenas por sua condição social, mas
também pelas premissas oriundas do ponto de vista masculino. Daí que as mulheres de suas
peças não apareçam simplesmente como vítimas, mas também como cúmplices de sua própria
destruição ou como algozes de outras mulheres. Esses perfis estão claramente expostos em três
grandes obras do autor: Bodas de sangre, Yerma e La casa de Bernarda Alba”. Margareth diz se
impressionar com o modo “como García Lorca maneja com contundência e destreza uma
constante que estará presente na produção literária espanhola do pós-Guerra Civil: o
estreitamento do horizonte narrativo, pois no espaço asfixiante de La casa de Bernarda Alba,
todos os conflitos se centram no espaço doméstico, entre quatro paredes fechadas a cal e
canto”, explica. “Em Bernarda Alba, Lorca denuncia os valores que poderíamos chamar de
valores da Espanha eterna: como honra, ordem patriarcal e a repressão dos instintos ou de toda
e qualquer ação que possa representar a desestabilização da ordem social. Nesta obra, como em
Bodas de sangre, esses elementos colidem com o desejo de liberdade dos protagonistas, que
aqui, estão representadas por mulheres.”

Fazendo um contraponto a isso, o ator e diretor de teatro Rodrigo Mercadante, que já encarnou
no palco o próprio poeta andaluz, conta que “Os homens aparecem como algo sedutor: o sujeito
que passa a cavalo na porta, o ex-namorado que vem acabar com o casamento porque é um
homem cheio de desejo; o cigano assassinado. Eu tenho a impressão de que a relação dele com
os homens é mais erotizada”.

Para a atriz Lilian Lima, que viveu três personagens lorquianos no teatro, cada mulher na
dramaturgia de Lorca representa um problema social. “Tem a Noiva de Bodas de sangre, que
está absolutamente apaixonada pelo noivo, prestes a se casar, mas planeja tudo para fugir com
um homem que foi um ex-namorado da adolescência e vive isso até as últimas consequências.
Há a Martírio, de Bernarda Alba, que vive rodeada de mulheres e por isso se sente sufocada; é
angustiada, invejosa em relação à irmã, personagem parecida com a Noiva por querer mudar o
ruma da história e fugir com um homem. E existe a Mariana Pineda, que existiu na vida real, mas
que, sem dúvida, foi romanceada pelo autor, aparecendo na peça com a força de um amor por
um homem e por uma causa”, explica a atriz. “Ele tinha admiração pelo universo feminino. A
prova disse é que o herói da sua infância foi uma mulher, a heroína Mariana Pineda.”

Lorca e Brasil

Em 1968, publicar poemas de Lorca no Brasil e montar suas peças nos grandes centros urbanos
do país significava desafiar, mesmo que indiretamente, a Ditadura Militar. “Lorca se transforma
em uma bandeira de luta. Existem relatos de pessoas declamando seus poemas em lugares
públicos. Declamavam: ‘Verde que te quero verde’, e outros poemas aparentemente não
políticos, interpretados como libelos contra a opressão pela forma como Lorca foi assassinado,
como um mártir na luta pela República”, conta Rodrigo.

Nesse mesmo ano, cidadãos espanhóis exilados no Brasil, membros do Centro Cultural García
Lorca, convidaram o escultor e arquiteto Flávio de Carvalho a fazer uma escultura em
homenagem ao poeta. No dia primeiro de outubro de 1968, com a presença do poeta Pablo
Neruda, a obra foi inaugurada, na Praça das Guianas, no Jardim Paulista, em São Paulo. Uma
exposição na Biblioteca Mário de Andrade e um espetáculo no Theatro Municipal, com a
participação de artistas como Chico Buarque e Geraldo Vandré, completaram as homenagens.
No dia 20 de junho de 1969, contudo, a escultura amanheceu em destroços e cercada de
panfletos onde se lia: “comunista e homossexual”. O atentado foi atribuído ao CCC, o Comando
de Caça aos Comunistas, mas os culpados nunca foram nomeados. Os jornais, que haviam
noticiado durante todo o ano de 1968 assuntos ligados a Lorca, demoraram quase uma semana
para retratar o atentado. A escultura foi levada para o depósito da Prefeitura e lá permaneceu
até 1971, quando Flávio de Carvalho a restaurou, por conta própria, com o intuito de integrá-la à
Bienal de Arte de São Paulo, mas foi impedido de entrar com a obra no pavilhão. De volta ao
depósito da Prefeitura, a obra permaneceu relegada ao esquecimento até 1979, quando alunos
da Escola de Comunicações e Artes e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade
de São Paulo, roubaram a peça e a instalaram no vão livre do Museu de Arte de São Paulo
(MASP), no dia em que o prefeito Olavo Setúbal participaria de um evento no local. Dois dias
depois, a escultura foi recolocada em seu lugar de origem, onde permanece até hoje.

Em 2013, a Cia. do Tijolo jogou luz sobre a memória da Ditadura Militar brasileira ao montar o
espetáculo Cantata para um bastidor de utopias, com base no texto de Mariana Pineda.
“Fizemos uma brincadeira: na porta do teatro é encontrado um corpo morto. Os artistas chegam
a esse corpo, reavivam-no, e descobrem que é o do próprio poeta desaparecido. O corpo,
desaparecido desde 1936, é encontrado na porta de um teatro no Brasil. Então o Lorca entra
para o teatro para ajudar a contar a história da Mariana Pineda. Ao longo dessa cantata, a gente
vai descobrindo que os personagens são desaparecidos políticos durante os ‘anos de chumbo’
do Brasil”, conta o ator e diretor da montagem, Rodrigo Mercadante. “A atriz Heleny Guariba é
uma das personagens que aparecem para contar a história da Mariana Pineda.” Quando a
protagonista é garroteada, a peça é suspensa e todo o público é convidado a se sentar em volta
de uma grande mesa para ouvir o depoimentos de ex-presos e ex-exilados políticos. Para
Rodrigo, tanto a ditadura brasileira quanto o assassinato de Lorca “são histórias muito brutais,
que as pessoas acham que já foram contadas, mas elas não foram contadas. Não, pelo menos,
do jeito que deveriam ser”.
Rodrigo se recorda do desafio de dar vida ao personagem de Lorca. “Ele era um homem de um
carisma incomum. Passa um ano em Nova York e não consegue aprender inglês, então ele se
sentava ao piano e recitava poemas em espanhol mesmo, cantava canções da Andaluzia e se
tornava o centro das festas. Assim também era quando fazia teatro de bonecos. Somos
acostumados a vê-lo como um dramaturgo muito escuro, no sentido do luto, mas Lorca é filho
do teatro popular. Sua primeira grande paixão são os teatros de bonecos nas praças. Ele era, em
uma comparação, se me permite, o mamulengueiro do Nordeste no Brasil.”