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Saul Bellow nasceu em Lachine,

no Quebeque, a 10 de julho de 1915.


Emigrou aos nove anos com a família
para os EUA, fixando-se em Chicago.
Morreu a 5 de abril de 2005
no Massachusetts.
Considerado um dos maiores
romancistas americanos do pós-
-guerra, descreve nos seus romances
a complexidade social e psicológica
do mundo. Influenciado pela
narrativa existencialista europeia
e por Franz Kafka, abordou também
a problemática judaica num estilo
irónico e distanciado.
Saul Bellow foi galardoado com o
Prémio' Nobel da Literatura em 1976.
A Quetzal iniciou a publicação
das suas obras com Morrem Mais
de Mágoa, a que se seguiram
As Aventuras de Augie March
e agora Ravelstein.

www.quetzaleditores.pt
série serpente emplumada:

Martin Amis
A Viúva Grávida
Os Papéis de Rachel
O Segundo Avião

Giorgio Bassani
O Jardim dos Finzi-Contini
Os Óculos de Ouro

Raymond Carver
O Que Sabemos do Amor (Beginners)
Catedral

Christopher Isherwood
Um Homem Singular
Adeus a Berlim

Ismail Kadaré
Um Jantar a Mais
O Acidente

Patti Smith
Apenas Miúdos

Susan Sontag
O Amante do Vulcão
A Doença como Metáfora 1
A Sida e as Suas Metáforas
Renascer
Ao Mesmo Tempo

Darin Strauss
Metade da Vida
1
Abe Ravelstein - intelectual feroz, escritor famoso, confidente
de presidentes e primeiros-ministros, e que cultiva gostos que
levariam um rei à bancarrota - está a festejar o seu sucesso
em Paris. Com o amigo Chick, deambula pelas ruas da cidade
em busca de alta-costura, comidas finas e estímulos novos.
Mas Ravelstein está a morrer e pede a Chick que registe
a sua vida - pondo assim em movimento o último grande
debate entre os dois.
Uma história filosófica sobre o amor, a mortalidade, números
de vaudeville e fatos de 4500 dólares é o que acontece quando
dois velhos patifes escrutinam a sua verdadeira existência.

«Um romance brilhante.»

«Arrebatadoramente indiscreto.»

«Ü regresso de Bellow - com Ravelstein - a uma exuberância


primeva, mais livre, mais guiada pelo discurso, surpreendeu-me.
Fui-me obrigando a lembrar de que é um escritor que
não nasceu em 1950, mas em 1915.»

ISBN 978-972-564-968-8

111111111111111111111111111111
9 789725 6 4 9688
à
QUETZAL ave trepadora
da América Central,
que morre quando privada
de liberdade; raiz e origem
de Quetzalcoatl (serpente
emplumada com penas
de quetzal), divindade
dos Toltecas, cuja alma,
segundo reza a lenda, teria
subido ao céu sob a forma
de Estrela da Manhã.
O seu intelecto tinha -o
tornado um milionário.
Não é um detalhe sem
importância, ficarmos ricos
e famosos por dizer
exatamente aquilo que
pensamos - por dizê-lo nas
nossas próprias palavras, sem
,...,
concessoes.
Esta manhã, Ra velstein trazia
um quimono azul e br~nco.
Tinha-lhe sido oferecido no
Japão quando lá estivera
a lecionar no ano anterior.
Tinham-lhe perguntado o que
lhe agradaria particularmente
e ele disse que gostaria de ter
.
um quimono.
Ravelstein
Tradução de Rui Zink

à QUETZAL serpente emplumada 1 Saul Bellow


Título: Ravelstein

Título original: Ravelstei

Autor: Saul Bellow

Tradução: Rui Zink

Revisão: Carlos Pinheiro

Proieto gráfico original: RPVP Designers

Design da capa: Rui Rodrigues · Quetzal Editores

Fotografia da capa: © Lucien Aigner/Corbis

Pré-impressão: Fotocompográfica

Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.

Unidade Industrial da Maia

© 2011 Quetzal Editores


[Todos os direitos para a publicação desta obra em língua
portuguesa, exceto Brasil, reservados por Quetzal Editores]

RAVELSTEIN

© 2000 The Estate of Saul Bellow

Ali rights reserved

ISBN: 978-972-564-968-8

Depósito legal: 330 697/11

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Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1

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Edição segundo as regras do Novo Acordo

Ortográfico da Língua Portuguesa


A la bella donna de/la mia mente.

Para Janis,

A estrela sem a qual eu não poderia navegar.

E para a verdadeira Rosie.


1.

É CURI O S O QUE os BENEMÉRITO S da humanidade sej am pes­


soas divertidas. Pelo menos na América é com frequência
este o caso . Quem quiser governar o país tem também de
o entreter. Durante a Guerra Civil, as pessoas queixavam-se
das anedotas de Lincoln. Talvez ele pressentisse que a serie­
dade estrita era bastante mais perigosa do que qualquer pia­
da. Mas os críticos consideravam-no frívolo e o seu próprio
Secretário de Estado o achava um brutamontes.
De entre os iconoclastas e ironistas que formaram os gos­
tos e as mentes da minha geração, o mais proeminente era
H. L. Mencken. Os meus amigos do liceu, leitores do Ameri­
can Mercu ry, seguiram atentamente o j ulgamento de Scopes,
tal como Mencken o reportou. Mencken foi muito duro para
com William Jennings Bryan e a Biblialândia e o Bobus Ame­
ricanus. Clarence D arrow, que defendeu Scopes, representa­
va a ciênc i a , a modernidade e o progresso . Para D arrow
e Mencken, Bryan, o Criacionista Especial, não passava de
uma aberração das berças. Na linguagem da teoria evolucio­
nista, Bryan era um ramo morto na árvore da vida. O seu
modelo monetário da prata livre era uma anedota - bem
IO SAUL BELLOW

como a s u a velha orató ria de congressista . Idem para os


enormes j antares ao estilo rancho do Nebraska que devora­
va. As suas refeições, disse Mencken, foram a sua morte. Os
seus pontos de vista sobre a Criação Especial foram submeti­
dos no j ulgamento ao mais extremo ridículo, e a Bry an acon­
teceu o mesmo que ao pterodáctilo - a versão trôpega de
uma ideia que mais tarde resultou -, os répteis planadores
tornando-se pássaros de sangue quente que voavam e canta­
vam.
Enchi um b l o c o de n o t a s c o m c i t a ç õ e s de M e n c k e n
e mais tarde acrescentei notas d e ironistas ou autoironistas
como W . C. Fields ou Charlie Chaplin, Mae West, Huey
Long, o senador Dirksen. Havia até uma página sobre o sen­
tido de humor de Maquiavel. Mas não vos vou envolver nas
minhas especulações sobre a presença de espírito e a autoiro­
nia nas sociedades democráticas. Não se preocupem. Estou
satisfeito por o meu velho bloco de notas ter desaparecido .
Não tenho qualquer desej o de o voltar a ver. Reaparece ape­
nas por vezes como uma espécie de longa nota de rodapé.
Sempre tive uma fraqueza por notas de rodap é . Para
mim, uma inteligente nota de rodapé tem redimido mais de
um texto . E eu dou-me conta de como estou agora a usar
uma longa nota de rodapé para abrir um assunto sério -
mudando num movimento rápido para Paris, para uma suíte
do Hotel Crillon. Princípios de junho. Hora do pequeno-al­
moço. O anfitrião é o meu bom amigo professor Ravelstein,
Abe Ravelstein. A minha mulher e eu, também hó spedes no
Crillon, temos um quarto por baixo, no sexto piso. Ela ain­
da está a dormir . O andar inteiro por baixo do nosso (isto
é absolutamente irrelevante, mas de algum modo não consi­
go deixar de o mencionar ) está ocupado neste mesmo mo­
mento p o r Michael Jackson e a s u a entourage. Ele atua
à noite num qualquer vasto auditó rio parisiense. Dentro em
RAVELSTEIN II

pouco chegarão os seus fãs franceses e uma multitude de ros­


tos ficará voltada para cima, gritando em uníssono Mikell
]ack-soune. Uma ba rreira de polícia mantém os fãs à distân­
cia. Cá dentro, do sexto piso, quando olhamos para baixo
pelas escadas de mármore vemos os guarda-costas de Mi­
chael. Um deles está a fazer as palavras cruzadas no Paris
Herald.
- Fantástico, não é, este circo pop ? - disse Ravelstein.
Esta manhã o professor estava muito satisfeito . Tinha con­
vencido a gerência a pô-lo nesta desej ada suíte. Estar em Pa­
ris - e no Crillon. Estar aqui por uma vez com montes de
dinheiro. Não mais quartos modestos no Dragon Volant, ou
como quer que lhe chamavam, na rue du Dragon; ou no Ho­
tel de l' Académie na rue des Saints Peres em fren te à faculda­
de de Medicina. Não se fazem hotéis mais grandiosos ou lu­
xuosos do que o Crillon, onde as altas patentes americanas
ficaram instaladas durante as negociações de paz depois da
Prim eira Guerra Mundial.
- É ó timo, não é? - disse Ravelstein, com um dos seus
gestos rápidos.
Confirmei que sim. Tínhamos o centro de Paris mesmo
por baixo de nó s - a place de la Concorde com o obelisco,
a O rangerie, a Chambre des Députés, o Sena com as suas
pomposas pontes, palácios, j ardins. Claro que estas eram be­
las coisas para ver, mas eram ainda melhores hoj e por nos
serem mostradas a partir da suíte de Ravelstein, que ainda
no ano passado tinha uma dívida de cem mil dó lares. Talvez
mais. Ele costumava rir-se ao falar-me dos seus « fundos de
amortização » . Diria:
- Estou a amortizar-me com aquilo. Sabes o que signifi­
ca o termo nos círculos financeiros, Chick ?
- Fundos de amortização ? Tenho uma vaga ideia.
Ninguém, nos dias antes de ele ficar rico, tinha alguma
vez questionado a sua necessidade de fatos Armani ou malas
12 SAU L BELLOW

Vuitton , de charutos c u b a n o s , impossíveis de obter nos


EUA, de gadgets Dunhill, de canetas Mont Blanc em ou ro
maciço ou cristais Baccarat ou Lalique para servir o vinho
- ou para o vinho ser servido. Ravelstein era um desses ho­
mens grandes - grande, não forte - cuj as mãos estreme­
cem quando há pequenas tarefas para executar. A causa não
era fraqueza, mas uma tremenda energia sôfrega que o sacu­
dia todo quando era descarregada.
Bem, os seus amigos, colegas, alunos e admiradores não
precisavam agora mais de o socorrer na manutençã o dos
seus hábitos de luxo . Graças a D e u s , ele podia daqui em
diante passar sem as permutas complicadas com os amigos
académicos em prata Jensen, ou Spode ou Quimper. Tudo
isso pertencia agora ao passado. Ele tinha escrito um livro
- difícil, mas popular -, um livro vivo, inteligente, combati­
vo, e o livro tinha-se vendido e continuava ainda a vender-se
em ambos os hemisférios e em ambos os lados do equador.
O obj eto tinha sido feito rapidamente, mas com verdadeira
honestidade: sem concessões comerciais, sem populismos,
sem truques intelectuais, sem desculpas, sem ares de tribuno.
Ele tinha todo o direito a estar como estava agora, quando
o criado nos preparou a mesa para o pequeno-almoço. O seu
intelecto tinha-o tornado um milionário . Não é um detalhe
sem importância, ficarmos ricos e famosos por dizer exata­
mente aquilo que pensamos - por dizê-lo nas nossas pró­
prias palavras, sem concessões.
Esta manhã, Ravelstein trazia um quimono azul e bran­
c o . Tinha-lhe sido o fereci d o no J a p ã o quando lá e stive­
ra a lecionar no ano anterior. Tinham-lhe perguntado o que
lhe agradaria particularmente e ele disse que gostaria de ter
um quimono. Este, digno de um xogum, devia ter sido feito
por medida. Ele era bastante alto. Não particularmente gra­
cioso. O enorme roupão estava mal ap ertado e mais do que
RAVE LSTEIN 13

entreaberto. As pernas eram inusualmente longas, mal for­


madas. Os boxers não estavam lá muito seguros.
- O criado contou-me que Michael Jackson não come
a comida do Crillon - disse . - O seu cozinheiro acompa­
nha-o para todo o lado no seu j ato particular. Sej a como for,
a mostarda subiu ao nariz do chef do Crillon. A sua cozinha
fora boa o suficiente para Richard Nixon e Henry Kissinger,
diz ele, e para um monte de xás, reis, generais, e primeiros­
-ministros. Mas não para este pequeno macaco de feira. Não
há uma página qualquer na Bíblia sobre reis mutilados a vi­
verem debaixo da mesa do seu conquistador ? Apanhando os
restos que caem da mesa ?
- Acho que sim. Creio lembrar-me de os polegares lhes
terem sido cortados. Mas o que tem isto a ver com o Crillon
ou com Michael Jackson ?
O Abe riu e disse que não sabia ao certo. Tinha-lhe apenas
ocorrido. Cá em cima, ao rumor das vozes dos fãs, adolescen­
tes parisienses - raparigas e rapazes gritando em uníssono -,
juntava-se o ruído dos autocarros, camiões e táxis.
Este espetáculo histórico era o nosso pano de fundo. Está­
vamos a divertir-nos, enquanto bebíamos o café. Ravelstein
estava muito bem-disposto . Ainda assim, falávamos baixo
porque Nikki, o companheiro de Abe, ainda estava a dormir.
Nos Estados Unidos, Nikki tinha por hábito ver filmes de
kung fu da sua Singapura natal até às quatro horas da ma­
nhã . Também aqui ele ficava a pé grande parte da noite .
O criado tinha fechado as portas volantes para que o precioso
sono de Nikki não fosse perturbado. De vez em quando eu
espreitava os seus braços redondos e as longas camadas de ca­
belo preto que lhe chegavam aos ombros . Com trinta e tal
anos, o elegante Nikki ainda tinha um ar de rapaz.
O criado entrou com morangos silvestres, brioches, po­
tes de compota e pequenos pires do que me habituei a consi­
derar serviço de hotel. Ravelstein garatuj ou o seu nome na
14 SAU L B ELLOW

conta enquanto levava um pãozinho à boca. Eu era o comen­


sal asseado . Ravelstein, quando estava a comer e a falar ao
mesmo tempo, fazia-nos pensar que algo de biológico estava
a ser posto em marcha, que se rearmazenava o sistema e ali­
mentava as ideias.
Esta manhã, ele estava de novo a tentar convencer-me
a ser mais público, a fugir da vida privada, a tomar interesse
na « vida pública, na política » , pàra usar as suas próprias pa­
lavras. Queria que tentasse o género biográfico, e eu concor­
dara . Por insistência sua, tinha escrito um breve relato da
descrição de J. M. Keynes dos argumentos acerca das repa­
rações alemãs e do levantamento do bloqueio aliado em
1919. Ravelstein apreciara o meu trabalho, mas não estava
ainda completamente satisfeito. Considerava que eu tinha
um problema retórico . Eu respondi que demasiada ênfase
nos factos literais reduzia o interesse da coisa.
Não há razão para não o dizer: tive um professor de In­
glês no liceu chamado Morford ( « O louco Morford » , chamá­
vamos-lhe ) que nos o brigava a ler o ensaio de Macaulay
so bre o ]ohnson de Boswe l l . Se isto era ideia do próprio
Morford ou se fazia parte do currículo aprovado pelo minis­
tério da Educação, não sei dizer. O ensaio de Macaulay, en­
comendado no século XIX pela Encyclopedia Britannica, fora
publicado numa edição escolar americana pela Riverside
Press. Lê-lo pusera-me num estado febril. Macaulay excita­
ra-me com a sua versão da Vida, com a « anfractuosidade »
do espírito de Johnson. Tenho desde então lido muitas críti­
cas severas aos excessos vitorianos de Macaulay. Mas nunca
me curei - nunca quis ser curado - do meu fraco por ele.
Graças a Macaulay, ainda hoje consigo ver o pobre Johnson
em convulsões indo de encontro a todos os candeeiros na
rua e alimentando-se de carne estragada e pudins rançosos.
Que direção tomar, quando se escreve uma biografia,
tornou-se o dilema. Havia o exemplo do próprio Johnson na
RAVELSTEIN

biografia do seu amigo Richard Savage. Havia Plutarco,


é claro. Quando mencionara Plutarco a um estudioso de gre�
go, ele menosprezara-o como « um mero literator » . Mas po­
deria António e Cleópatra ter sido escrito sem Plutarco ?
A seguir considerei as Vidas Breves de Aubrey.
Mas não vou debitar a lista toda.
Eu já tentara descrever o professor Morford a Ravelstein:
o louco Morford nunca ia completamente bêbedo para as
aulas, mas era um óbvio copófono - tinha cara de alcoóli­
co .. Vestia sempre o mesmo fato barato, dia após dia . Não
nos queria conhecer, nem queria ser por nós conhecid o .
O s e u olhar azul e abstrato de alcoólico nunca era dirigido
a ninguém. Debaixo do sobrolho apenas fixava o olhar nas
p a r e d e s , através d a s j a n e l a s , n o l i v r o que e s tava a l e r .
O ]ohnson de Macaulay e o Hamlet d e Shakespeare foram
as duas obras que estudei naquele semestre. Johnson, apesar
da sua escrófula, dos seus andraj os, da sua hidropsia, tinha
as suas amizades, escrevia os seus livros, tal como Morford
vinha às aulas, e nos ouvia recitar de memória: « Quão vãos,
ocos, aborrecidos e improfícuos me parecem todos os modos
deste mundo ! » A cabeça rapada, o rosto franzido, a mão fe­
chada atrás das costas. Completamente aborrecidos e impro­
fícuos.
Ravelstein não estava muito interessado nesta minha des­
crição. Por que motivo o convidei a ver o Morford de que
me recordava ? Mas o Abe estava certo em indicar-me o en­
saio de Keynes. Keynes, o poderoso economista e homem de
Estado que todos conhecem pelo seu As Consequências Eco­
nómicas da Paz, enviava cartas e informação para os amigos
de Bloomsbury, a narrar as suas experiências do pós-guerra,
em particular os diferendos sobre as reparações entre os ale­
mães vencidos e os líderes aliados - Clemenceau, Lloyd
George e os americanos. Ravelstein, um homem pouco dado
I6 SAU L B ELLOW

a elogios, disse que desta vez eu tinha escrito um relato de


primeira água sobre as notas de Keynes para os amigos. Ra­
velstein considerava Hayek superior a Keynes enquanto eco­
nomista . Keynes , dizia ele, tinha exagerado a rudeza dos
aliados e beneficiado os generais alemães e, eventualmente,
os nazis. A Paz de Versalhes fora bastante menos punitiva do
que devia ter sido. Os obj etivos militares de Hitler em 1 9 3 9
não eram diferentes dos do Kaiser em 1914 . Mas, à parte es­
te sério erro, Keynes tinha muitos atrativos pessoais. Educa­
do em Eton e Cambridge, fora polido social e culturalmente
pelo grupo de Bloomsbury. A Grande Política dos seus dias
tinha-o desenvolvido e aperfeiçoado. Suponho que na sua vi­
da pessoal ele se considerava um uraniano - um eufemis­
mo britânico para homossexual. Ravelstein mencionou que
Keynes casara com uma bailarina russa. Explicou-me ainda
que Urano era o pai de Afrodite mas que ela não tinha mãe
- fora concebida pela espuma do mar. Ele costumava con­
tar-me este tipo de coisas, não porque pensasse que eu as
ignorava, mas porque considerava que, em dados momentos,
eu precisava de ser lembrado delas. E assim recordou-me de
q\le, quando Urano fora morto pelo titã Cronos, a sua se­
mente se espalhara pelo mar. E isto tinha de algum modo
a ver com reparações, ou com o facto de os alemães, então
ainda alvo de bloqueio, estarem a morrer à fome.
Ravelstein, que, por razões muito .suas, me pusera na di­
reção do texto de Keynes, lembrava-se melhor das passagens
que descreviam a incapacidade dos banqueiros alemães em
cumprir as exigências da França e da Inglaterra. Os franceses
estavam de olho nas reservas de ouro do Kaiser; disseram
que o ouro devia ser entregue imediatamente . Os ingleses
disseram que aceitariam uma moeda forte. Um dos negocia­
dores alemães era j udeu. Lloyd George, perdendo a paciên­
cia, virou-se contra o homem: fez-lhe uma incrível paródia
RAVELSTEIN 17

do semítico, agachando-se, coxeando, cuspindo, carregando


nos esses, puxando o rabo para fora, uma caricatura cruel
do andar-à-judeu. Tudo isto fora descrito por Keynes aos
seus amigos de Bloomsbury. Ravelstein não tinha boa opi­
nião dos intelectuais de Bloomsbury. Desagradava-lhe o seu
kitsch sofisticado, desaprovava a pose amaneirada e o que
ele chamava de « comportamento amaricado » . Não podia
( e não o fazia) censurá-los pela má-língua, . Ele próprio ado­
rava demasiado a coscuvilhice para o fazer. Mas dizia que
não eram pensadores, apenas snobs, e que a sua influência
era perniciosa. Os espiões recrutados mais tarde em Inglater­
ra pelo GPU ou pelo NKVD1, nos anos trinta, tinham sido ali­
mentados por Bloomsbury.
- Mas tu fizeste bem, Chick, aquela parte da paródia
feia de um youpin pelo Lloyd George.
Youpin é semítico em francês.
- Obrigado - disse eu.
- Não me passaria pela cabeça intrometer-me - disse
Ravelstein. - Mas penso que concordarás que te estou a
tentar fazer algum bem.
Claro que eu compreendia os seus motivos. Ele queria
que eu lhe fizesse a biografia e, ao mesmo tempo, salvar-me
dos meus hábitos perniciosos. Ele achava que eu estava apri­
sionado na privacidade e devia ser devolvido à comunidade.
- Demasiados anos enfiado para dentro! - costumava ele
dizer. Do que eu precisava mesmo era de estar em contacto
com a política - não a local ou a máquina política , nem
sequer a política nacional, mas a política no sentido em que
Aristóteles ou Platão definiam o termo, enraizada na nossa na­
tureza. Não podíamos virar as costas à nossa natureza. Admiti
a Ravelstein que ter lido aquelas cartas de Keynes e escrito
aquele ensaio tinha sido um pouco como umas férias. Reencon­
trando a humanidade, tomando um banho de humanidade. Há

1 GPU e NKVD: polícias políticas soviéticas anteriores ao KGB. (N. do T.)


18 SAUL B ELLOW

alturas em que necessito de andar no metro à hora de ponta


ou sentar-me numa sala de cinema cheia - é isto que enten­
do por um banho de humanidade. Tal como o gado tem de
ter sal para lamber, eu por vezes careço de contacto físico.
- Tenho algumas noções vagas acerca de Keynes e do
Banco Mundial, do seu acordo de Bretton Woods, e ainda
do seu ataque ao Tratado de Versalhes. Sei de Keynes o sufi­
ciente para lhe encontrar o nome numas palavras cruzadas
- d i s s e eu. - Estou conte nte que me tenhas c h a m a d o
a atenção para a s suas notas pessoais. Os amigos d e Blooms­
bury deviam estar em pulgas para saber as suas impressões
sobre a Conferência de Paz. Graças a ele tinham excelentes
l ugares para as sistir à manufatura da História Mundi a l .
E suponho que Lytton Strachey e Virginia Woolf tinham ab­
solutamente de receber a sua dose de informações confiden­
ciais. Eles representavam os mais altos interesses da sociedade
inglesa. Eles tinham o dever de saber - um dever de artistas.
- E quanto ao lado judeu disto tudo ? - quis saber Ra­
velstein.
- Não agradou muito a Keynes . Deves estar recordado
de que a única amizade que fez durante a Conferência toda
foi com um membro j udeu da delegação alemã.
- Ná, eles não se teriam preocupado muito com um ho­
mem tão vulgar como Lloyd George, aqueles Bloomsburies.
Mas Ravelstein sabia o valor de uma tribo. Ele próprio
tinha a sua tri b o . Os seus membros eram estudantes que
fo r m a r a em fi l o s o fi a p o l ít i c a e a m i g o s de l o n g a d a t a .
A maior parte deles tinha sido educada como o próprio Ra­
velstein o fora, sob a tutela do professor D avarr, e usava
o seu vocabulário esotérico. Alguns dos alunos mais antigos
de Ravelstein ocupavam agora posições de importância em
j ornais nacionais. Um número considerável trabalhava para
RAVELSTEIN 19

o Departamento de Estado. Alguns davam aulas na Acade­


mia Militar ou faziam parte da equipa de conselheiros da Se­
gurança Nacional. Um era protegido de Paul Nitze. O utro,
um mafarrico, tinha uma coluna no Washington Times. Al­
guns eram influentes, todos bem informados; formavam um
grupo restrito, uma comunidade. Ravelstein recebia deles re­
latórios frequentes e, quando estava em casa, passava horas
ao telefone com os seus discípulos. Por princípio, guardava­
-lhes os s egredo s . Pelo meno s , não os citava pelo nome .
Mesmo hoje, na suíte do Crillon, o telemóvel estava poisado
sobre os seus j oelhos nus. O quimono j aponês caía so bre
pernas mais brancas do que o leite . Ele tinha as pernas de
um homem sedentário - a tíbia larga e abrupto o músculo,
sem redondezas. Alguns anos atrás, depois do seu enfarte, os
médicos disseram-lhe que tinha de fazer exercício, por isso
comprou um fato de treino caríssimo e um par de elegantes
sapatos de ginástica . Arrastou-se na pista durante alguns
dias e depois desistiu. Estar em forma não fazia o seu géne­
r o . Ele tratava o corpo como se fosse um veículo - uma
motocicleta que conduzia à máxima velocidade ao longo do
precipício do Grand Canyon.
- Não me surpreende a atitude de Lloyd George - disse
Ravelstein. - Era um pequeno filho da mãe. Visitou Hitler
nos anos trinta e regressou com a melhor impressão dele. Hit­
ler era o sonho de todos os líderes políticos. O que quer que
ele quisesse era logo feito, e rapidamente. Sem qualquer ba­
rulho. Muito diferente de um governo parlamentar.
Era muito agradável ouvir Ravelstein falar do que ele
chamava Grande Política. Especulava com frequência acerca
de Roosevelt e Churchill. Tinha um enorme respeito por De
Gaulle. Por vezes excedia-se. Hoj e, por exemplo, falava da
«pungência » de Lloyd George.
- Pungência é uma boa palavra - disse eu.
20 SAU L B E L LOW

- Em questões de linguagem os ingleses sempre nos ba­


teram aos pontos. Especialmente quando a força começou
a esvair-se-lhes e a linguagem se tornou um dos seus recursos
mais importantes.
- Como a prostituta de Hamlet que deve abrir o seu co­
ração com as palavras .
Ravelstein, com a sua poderosa cabeça lisa, estava à von­
tade com as grandes frases, as grandes questões, os homens
famosos, as décadas, as eras, os séculos. Estava, contudo,
também tão à vontade com cómicos como Mel Brooks como
com os clássicos e podia ir da grande tragédia de Tucídides
até ao Moisés de Brooks.
- Ele desce do monte Sinai com os mandamentos. Deus
entregou-lhe vinte, mas dez caem dos braços de Mel Brooks
quando vê os filhos de Israel em alvoroço em torno do Be­
zerro de O uro - Ravelstein adorava estes gags burlescos;
ele próprio tinha um talento especial para isso.
Estava muito satisfeito com a minha descrição de Keynes.
Recordava-se de Churchill ter chamado a Keynes um homem
de uma inteligência clarividente - o Abe adorava Churchill.
Como economista, Milton Friedman era melhor que a maior
parte dos outros, mas Friedman era um fanático do mercado
livre e não tinha qualquer interesse pela cultura, enquanto
Keynes possuía uma inteligência cultivada. Ele estava no en­
tanto errado sobre o Tratado de Versalhes e era deficiente em
questões políticas, um assunto que Ravelstein dominava par­
ticularmente bem.
A « tribo » de Abe em Washington mantinha a sua linha
de telefone tão ocupada que eu aventei que ele devia contro­
lar um governo-sombra. Aceitou esta observação, sorrindo,
como se a estranheza não fosse sua, mas minha:
- Todos estes estudantes que preparei nos últimos trinta
anos ainda me vêm pedir conselho, e de certa maneira o te­
lefone torna possível manter um seminário ininterrupto, no
RAVELSTEIN 2I

qual a s questões políúcas com que lidam em Washington no


dia a dia sej am calibradas com o Platão que estudaram há
duas ou três décadas, ou Locke, ou Rousseau, ou mesmo
Nietzsche.
Era muito gratificante conquistar a aprovação de Ravel­
stein, e os seus alunos continuavam a contactá-lo - homens
agora nos seus quarentas, alguns dos quais com um papel
significativo na condução da Guerra do Golfo, falavam com
ele a toda a hora.
- Estas relações especiais são para mim muito especiais,
da maior importância.
Era tão natural que Ravelstein tivesse de saber o que se
passava em Downing Street ou no Kremlin como tinha sido
para Virginia Woolf ler o relatório privado de Keynes sobre
as reparações alemãs. Possivelmente, as perspetivas ou opi­
niões de Ravelstein logravam por vezes resultar em decisões
políticas, mas não era isso que importava. O que importava
era que ele se devia manter, de algum modo, em controlo da
ininterrupta educação política dos seus rapazes. Também em
Paris tinha seguidores. Gente que frequentara as suas cadei­
ras na École des Hautes Études, apenas regressada de uma
missão em Moscovo, também lhe telefonava.
Havia ainda amizades sexuais e confidências íntimas. Em
casa, ao lado do grande sofá preto onde recebia as chama­
das, havia um painel eletrónico que ele usava com grande
perícia. Eu não conseguiria pôr aquilo a funcionar. Nunca ti­
ve j eito para a alta tecnologia . Mas Ravelstein, embora as
suas mãos não fossem firmes, controlava os instrumentos co­
mo um Próspero.
De qualquer modo, ele agora não tinha de se preocupar
mais com as contas do telefone.
Mas ainda estamos no Hotel Crillon.
- Tu tens bons instintos, Chick - disse ele. - É pena
que não tenhas tido mais niilismo na tua formação. Devias
22 SAUL B ELLOW

ter sido mais como Céline, com a sua comédia niilista, ou


farsa. A mulher desprezada a implorar ao companheiro, Ro­
binson, « Mas por que não podes dizer "Amo-te " ? O que
tens tu de tão especial ? Tens uma ereção como toda a gente.
Quoi? Tu ne bandes pas?» Uma ereção é para ela o mesmo
que o amor. Mas Robinson, o niilista, tem grandes princí­
pios acerca de uma única coisa, que é não mentir sobre as
muito, muito poucas coisas que realmente importam. Ele ex­
perimentará todo o tipo de obscenidade, mas por fim traça
um limite, e esta mulher vulgar, profundamente insultada,
mata-o a tiro porque ele não lhe diz « Amo-te » .
- Céline quer com isto dizer que assim se torna autêntico ?
- Isto quer dizer que, dos escritores, esperamos que nos
façam rir ou chorar. É do que a humanidade está à espera .
A situação deste Robinson é uma reprise do drama da Idade
Média, na qual os criminosos mais perversos e despoj ados se
voltam para a Virgem Maria. Mas aqui não estamos em de­
sacordo. Quero que me faças o que fizeste a Keynes, mas em
maior escala. E foste também demasiado tolerante com ele.
Não é isso que eu quero . Sê tão duro comigo quanto te der
na gana . Tu não és o tipo bonzinho que aparentas ser e, ao
descreveres-me, talvez tenhas uma ocasião para te emanci­
pares.
- De quê, exatamente ?
- Do que quer que sej a que te controla. Uma qualquer
espada de Dâmocles que pende sobre a tua cabeça.
- Não - disse eu. - É a espada de Idiotâmocles.
A conversa, se tivesse tido lugar num restaurante, teria
feito os outros comensais pensar que estávamos a contar
anedotas picantes, divertindo-nos à brava . « Idiotâmocles »
era o tipo de jogo que Ravelstein adorava, e riu às gargalhadas
como o cavalo ferido de Picasso na Guernica, quase caindo
para trás.
RAVELSTEIN 23

O legado de Ravelstein para mim era um tema - ele


pensou que me estava a dar um tema, talvez o mais impor­
tante que eu alguma vez tivera, talvez o único realmente im­
portante . Mas o que um tal legado significava era que ele
iria morrer primeiro que eu. Se eu o antecedesse, ele decerto
não escreveria uma elegia sobre mim. Qualquer coisa para
além de uma página para ser lida na cerimónia fúnebre seria
impensável. E no entanto éramos amigos íntimos, mais ínti­
mo não seria possível. Era da morte que nos estávamos a rir
e, é claro, a morte aguça o espírito cómico. Mas o facto de
estarmos a rir j untos não significava que nos estivéssemos
a rir pelas mesmas razões. Que as mais sérias ideias de Ra­
velstein, enfiadas num livro, o tivessem tornado milionário,
era decerto engraçado. Fora necessário o génio do capitalis­
mo para tornar os pensamentos, opiniões, ensinamentos, uma
mercadoria valios a . Há que ter em conta que Ravelstein
era um professor. Ele não era um desses conservadores que
idolatram o mercado livre. Tinha pontos de vista próprios
sobre as questões morais e políticas. Mas não estou interes­
sado em apresentar as suas ideias. Mais do que qualquer ou­
tra coisa, por agora o que quero é evitá-las . Vou tentar ser
breve, neste ponto . Ele era um educador. Ter compilado
num livro as suas ideias tinha-o tornado absurdamente rico.
Estava a gastar os dólares quase ao ritmo a que entravam .
Neste preciso momento estava a considerar um contrato de
cinco milhões para um novo livro . Podia ainda obter bons
cachês no circuito das conferências. E, acima de tudo, era
um homem culto. Ninguém punha isso em causa. Era neces­
sário ser-se culto para capturar a modernidade em toda a sua
essência e para avaliar o seu custo humano. Em ocasiões so­
ciais podia ser confrangedor, mas no palco podíamos ver o
quão bem fundados eram os seus argumentos . Ficava mais
do que claro aquilo de que nos estava a falar. O público via
24 SAUL BELLOW

uma educação superior como um direito . A Casa Branca


confirmava-o. Os estudantes eram como « os mares cheios de
carapau » . Trinta mil dólares era a média anual de uma pro­
pina universitária . Mas o que estavam os estudantes a apren­
der ? As universidades eram permissivas . O puritanismo de
uma época anterior tinha desaparecido. O relativismo pro­
clamava que o que era certo em San Domingo era errado em
Pago-Pago e que os valores morais eram, por conseguinte,
tudo menos absolutos.
Nada de equívocos, Ravelstein não era inimigo do prazer
ou adversário do amor. Pelo contrário, ele via o amor como
sendo possivelmente a mais elevada bênção da humanidade.
Uma alma despoj ada de desej o era uma alma deformada,
privada do seu maior bem, ferida de morte. Era-nos ofereci­
do um modelo biológico que dispensava a alma e sublinhava
a importâ ncia do a l ívio orgi á stico da tens ã o ( biostática
e biodinâmica ) . Não é minha intenção explicar aqui os ensi­
namentos eróticos de Aristófanes e de Sócrates ou da Bíblia.
Para tal deveríamos ir ter com o próprio Ravelstein. Para ele,
Jerusalém e Atenas eram as fontes gémeas da civilização. Je­
rusalém e Atenas não são a minha especialidade. Boa sorte
a quem se interessar por elas. Mas eu era demasiado velho
para me tornar discípulo de Ravelstein. Tudo o que eu preci­
so agora de dizer é que ele era levado muito a sério até mes­
mo na Casa Branca ou em Downing Street. Era convidado
da senhora Thatcher para fins de semana em Chequers. Tão­
-pouco era negligenciado pelo presidente. Reagan convidava-
-o para j a ntar, e Ravelstein gastara uma fortuna em roupa
de cerimónia, faixas para a cintura, botões de punho em dia­
mante, sapatos de marca. Um colunista do Daily News disse
que para Ravelstein o dinheiro era algo que se atirava borda
fora da última carruagem de um comboio em alta velocidade.
Ravelstein mostrou-me o recorte, rindo às gargalhadas. Di­
vertia-se sempre imenso, em todas as ocasiões. E claro que
RAVE LSTEIN

eu não tinha as mesmas razões para rir. As grandes forças


hidráulicas da América não me soerguiam como a ele.
Embora eu fosse uns bons anos mais velho do que Ra­
velstein, éramos amigos íntimos. Havia no meu carácter ele­
mentos j uvenis, tal como no dele, e estes equilibravam as
coisas. Um homem que me conhecia bem disse-me que eu era
mais cândido do que qualquer adulto tinha o direito de ser.
Como se eu tivesse escolhido ser ingénuo. De resto, o facto
é que até as pessoas muito ingénuas conhecem os seus inte­
resses. Mulheres simples compreendem quando é a altura de
deixar um marido difícil - quando é a altura de desviar
o dinheiro da conta conj unta. Eu nunca liguei muito · à auto­
preservação. Mas, por sorte - ou talvez não tão por sorte
assim -, esta é a época-cornucópia, uma era de abundância
para todas as nações civilizadas. Nunca, no plano material,
estiveram largas populações tão bem protegidas da doença
e da fome. E essa libertação parcial da luta pela sobrevivên­
cia torna as pessoas ingénuas. Por isto entendo as suas fanta­
sias não serem verificadas. Começamos, através de um acordo
não formulado, por aceitar os termos, invariavelmente falsifi­
cados, com que os outros se nos apresentam. Amortecemos
a nossa capacidade crítica. Antes de nos apercebermos, esta­
mos a pagar um desmesurado acordo de divórcio a uma mu­
lher que tinha, ·mais de uma vez, declarado ser uma inocente
e não perceber nada de dinheiro.
Para nos aproximarmos de um homem como Ravelstein,
talvez o mais indicado sej a irmos picando aqui e ali.

Eu tinha vindo à luxuosa suíte de Ravelstein nesta ma­


nhã de j unho em Paris não tanto para discutir a biografia
que ia escrever como para coligir alguns factos sobre os seus
pais e os seus primeiros anos. Eu não queria detalhes a mais e,
SAUL B ELLOW

agora, já estava familiarizado com as grandes linhas mes­


tras da história da sua vida. Os Ravelsteins eram uma famí­
lia de Dayton, Ohio . A mãe, uma força da natureza, tinha
conseguido estudar em John Hopkins. O pai, um homem não
muito bem-sucedido, era o representante local de uma gran­
de organização nacional, banido em Dayton. Um homenzi­
nho gordo e neurótico, um pai histérico, um maníaco da dis­
ciplina. O pequeno Abe, quando era punido, tinha de ficar
completamente nu, e o pai batia-lhe com o cinto das calças.
O Abe admirava a mãe, odiava o p a i , desprezava a irm ã .
Mas Keynes, para o referir uma vez mais, tinha muito pouco
a dizer sobre a história da família de Clemenceau. Clemen­
ceau era um cínico endurecido; odiava e desconfiava dos ale­
mães; calçava luvas cinzentas de criança na mesa de negocia­
ções. Mas ignoremos as luvas - o que pretendo dizer é que
não estamos · a qui a fazer psicobiografia.
Esta manhã, além disso, Ravelstein não estava com dis­
posição para rever os factos dos verdes anos.
A place de la Concorde estava a perder a frescura mati­
nal. O tráfico estava mais aliviado, mas o calor de j unho
a engrossar, a subir. Ao sol, as nossas pulsações estavam de
algum modo mais lentas. Após a primeira leva de sensações,
o bater forte do coração numa vida resgatada por uma vitó­
ria incompleta sobre demasiados a b surdos, tudo se tinha
conj ugado para colocar Abe Ravelstein, um académico, um
mero professor de filosofia política, no topo de Paris, entre
os xeques do petróleo, ou os administradores do Ritz, ou os
playboys do Hotel Meurice. Ao sol, durante uma pausa na
nossa conversação, ele soçobrou ou dormitou por um ins­
tante; as suas sobrancelhas hemisféricas estavam voltadas
para cima. O s lábios, dispostos para continuar a falar, não
disseram nada por uns momentos. Na cabeça calva sentía­
mos que o que estávamos a ver eram as marcas dos dedos do
RAVELSTEIN

seu criador. De momento, ele estava algures noutra parte;


era dado a este tipo de intermitências . Embora os olhos esti­
vessem abertos, era provável que não nos visse. Como rara­
mente tinha uma noite de sono ininterrupto, não era raro,
especialmente com o tempo quente, que desaparecesse por
breves instantes, dormitasse, caísse em colapso, dois grandes
braços caídos sobre os braços da cadeira e as silhuetas estra­
nhas dos seus pés assimétricos. Um dos pés calçava três nú­
meros acima que o outro. E não era só o sono entrecortado,
era a excitação, a tensão dos seus prazeres, da sua vida mental.
A fadiga desta manhã talvez se devesse ao sumptuoso
j antar que nos tinha oferecido na noite anterior, uma festa
extraordinária na place de la Madeleine, chez Lucas-Carton.
Digerir todos aqueles pratos e entradas tinha fatalmente de
nos pôr fora de jogo. O prato principal era galinha temperada
com mel e assada em forno de barro. A antiga receita grega
fora encontrada recentemente por arqueólogos numa escava­
ção do mar Egeu. Comemos esta magnífica refeição atendi­
dos por nada menos do que quatro criados . O sommelier,
o emblema do seu ofício num molho de chaves, supervisio­
nava o encher dos copos. Para cada prato havia um vinho
adequado, enquanto outros criados se moviam como acro­
batas a mudar a louça chinesa e os ta lheres de prata . No
olhar de Ravelstein transparecia uma felicidade desenfreada,
ria e gaguej ava, como fazia quando estava entusiasmado -
começando todas as suas longas frases com um:
- Haa . . . Haa . . . Esta é a melhor cozinha em toda a Euro­
p a . Hee . . . Haa . . . O Chick é um grande cético no que toca
aos franceses. Ele, haa . . . acha que a cozinha é tudo quanto
eles têm para mostrar desde a desgraça de, haa . . . de . . . haa ...
1940, quando Hitler dançou a sua j iga da vitória . O Chick
vê la France pourrie em Sartre, no ódio aos EUA e haa . . .
no culto d o estalinismo e n a filosofia e na teoria linguística.
28 SAU L B E L LOW

A . . . haa . . . hermenêutica. "Ele diz que harmonêutica é uma pe­


quena sanduíche comida por músicos no intervalo de um
concerto. Mas tens de admitir que não consegues ter uma re­
feição destas em mais lado nenhum. Repara como a Rosa­
mund está a brilhar. Ora aqui está uma mulher que aprecia
a excelente cozinha e também haa, haa . . . a apresentação dos
pratos . Tal como Nikki, alguém que sabe dar valor à boa
comida . Não o podes negar, Chick.
Não, nem eu ousaria. Nikki estava a estudar numa escola
suíça de hotelari a . Não posso dizer mais porque não sou
a pessoa ideal para lembrar os pormenores, mas Nikki era
um maitre de creditado. Rebentava de riso quando passeava,
para Ravelstein e eu vermos, a casaca inerente à sua função,
e se adornava com as suas dignificações profissionais.
O j antar tinha sido organizado para mim. Era a maneira
de Ravelstein agradecer ao seu amigo Chick o apoio dado na
escrita do best-seller. A ideia do proj eto todo, disse ele, tinha
sido minha desde o princípio . Nunca teria sido levado a ca­
bo se eu não tivesse insistido com ele. Isto foi sempre reco­
nhecido pelo Abe, e de uma maneira generosa:
- Foi o Chick quem me deu a ideia.
Há um paralelo entre os fenómenos das zonas urbanas
deprimidas e a confusão mental dos Estados Unidos, os ven­
cedores da Guerra Fria, a única superpotência restante. Isso
é uma maneira de ver as coisas. Era isto que os livros e arti­
gos de Ravelstein tinham para nos dizer. Ele levava-nos pela
mão desde a Antiguidade até ao Iluminismo, e depois -
através de Locke, Montesquieu e Rousseau, Nietzsche, Hei­
degger - até ao presente, à América das corporações e da
alta tecnologia, à sua cultura e à sua indústria do entreteni­
mento, à sua imprensa , ao seu sistema educativo, aos seus
gabinetes de assessores, à sua política . Ele d ava-nos uma
RAVELSTEIN 29

imagem desta democracia de massa e do seu característico -


deplorável - produto humano. Nas suas aulas e nas suas
conferências, e as salas estavam sempre cheias, ele tossia, ga­
guej ava, fumava, vociferava, ria, ele punha de rastos os seus
alunos e debatia, desafiava-os para combate singular, exami­
nava-os, demolia-os. Ele não perguntava « Onde vai passar
a eternidade ? » , como faziam os fanáticos religiosos do fim­
-do-mundo-está-próximo, mas antes « Com que instrumen­
tos, nesta democracia moderna, você tenciona cumprir os
desígnios da sua alma ? »
Este grande sujeito, com o seu fato às riscas ou às pintas,
com a sua cabeça calva (tínhamos sempre a impressão de que
havia algo de perigoso na sua palidez, na sua força branca,
nos seus dentes ) não subia ao palanque para nos aborrecer
com a ordem correta das épocas (a Idade da Fé, a Idade da
Razão, a Revolução Romântica), nem se apresentava como
um académico, ou um rebelde universitário encoraj ando com­
portamentos revolucionários. As greves e as ocupações da uni­
versidade nos anos 60 tinham regredido consideravelmente
o país, dizia. Ele não cortejava os estudantes pondo ares pom­
posos ou tentando escandalizá-los - diverti-los, como fazem
os oradores histriónicos, gritando « Merda ! » ou « Foda-se ! » .
Não havia nele nada de um Tarzan académico. As suas fra­
quezas eram bem visíveis. Ele estava ciente, de um modo ob­
sessivo, do que era ser soterrado sob as suas faltas e erros.
Mas, antes de se afundar, ele descrever-nos-ia a caverna de
Platão. Falar-nos-ia da nossa alma, j á diminuída, e a encolher
a uma velocidade assustadora - cada vez mais e mais rápido.
Atraía estudantes dotados. As suas aulas estavam sempre
cheias. Por isso ocorreu-me um dia que lhe bastava pôr no
papel o que fazia viva voce. Nada de mais fácil para Ravel­
stein do que escrever um livro popular.
SAUL B ELLOW

Além do mais, para ser inteiramente franco, estava farto


de o ouvir queixar-se do magro salário, dos seus hábitos bi­
zantinos de pedir emprestado, e dos negócios e esquemas que
arranj ava deixando os seus tesouros como penhor, o seu
bule de chá Jensen ou as suas bandej as antigas Quimper. De­
pois de ter acompanhado com mais exasperação do que inte­
resse a história do belíssimo bule Jensen cinco anos nas mãos
de Cecil Moers, um dos seus próprios doutorandos, dado
como penhor por um empréstimo de cinco mil dólares ( e fi­
nalmente vendido a um antiquário qualquer por dez mil dó­
lares ) , desabafei:
- Quanto tempo mais esperas que eu assista a esta dis­
puta entediante, a este bule entediante, e a todos os teus ou­
tros entediantes artigos de luxo ? Olha, Abe, se estás a viver
para além dos teus meios, como um aristocrata a debater-se
vítima da sua necessidade de belos obj etos, por que motivo
não aumentas os teus meios?
Ao ouvir isto, recordo-me, Ravelstein levou ambas as
mãos às orelhas. As mãos eram delicadas, as orelhas eram
grosseiras.
- O quê ? Achas que me devo oferecer para prestar servi­
ços íntimos ?
- Bem, tu não és grande coisa como dançarino . Talvez
possas arranj ar emprego como conversador em j antares for­
mais. Eras capaz de conseguir uns mil dólares por noite .
Não, o que eu tenho em mente para ti é um livro. Podias fa­
zer um livro bastante vendível com base nas notas das tuas
aulas.
- Pois - disse ele. - Como o pobre pároco Adams, do
Fielding, que vai a Londres para imprimir os seus sermões.
O pároco precisava de dinheiro e não tinha mais nada para
vender senão os sermões. Mas ele ao menos tinha-os escrito.
RAVE LSTEIN 31

Eu nem sequer tenho notas. O conselho que me estás a dar,


Chick, é o conselho de um autor que já publicou muito. Fa­
zes-me lembrar o Dwight Macdonald . Ele disse a Venetsky,
um dos seus amigos, que estava desesperado, mesmo nas Jo­
nas, sem um tostão: « Se estás assim tão mal, por que não
vendes algumas ações ? Se uma pessoa está mal pode sempre
fa zer i s s o . » Nunca l h e ocorreu que Venetsky não tinha
quaisquer ações. Os Macdonalds tinham-nas. Os Venetskys
não.
- Estás a apresentar o Macdonald como se fosse a Ma­
ria Antonieta.
- Sim! - exclamou Ravelstein, rindo . - A . . . haâ . . . ve­
lha piada dos tempos da depressão acerca do pobre que diz
a uma velhota rica: « Minha senhora, há três dias que não
como nada ! » E ela: « Oh, pobre homem, você tem de se for­
çar um poucC?. »
- Não vej o em que pode isto correr mal - respondi-lhe.
- Tudo o que precisas é fazer uma proposta . No mínimo
consegues um pequeno avanço. Nunca poderá ser menos de
dois mil e quinhentos dólares. A minha impressão é de que
será perto de cinco mil. Mesmo que nunca escrevas uma só
linha deste livro que propuseste, poderás pagar algumas das
tuas dívidas e reanimar o teu crédito para pedires empresta­
do. O que tens a perder ?
Ficou entusiasmado. Surripiar uns bons milhares de dólares
a um editor e ao mesmo tempo libertar-se d a s suas d ívi­
das era extremamente apelativo . Em termos gerais, Ravel­
stein era tudo menos mesquinho. Mas ele não acreditava que
a minha genial e utópica ideia chegasse a algum lado. Tinha­
-se habituado ao teatro das pequenas intrigas onde podia,
ironicamente, satiricamente, dramatizar e utilizar a sua esta­
tura e lucidez excecionais. E, assim, a sinopse do livro foi
32 SAUL B ELLOW

preparada e enviada, foi assinado um contrato do livro e pa­


go o adiantamento. O inestimável bule de prata Jensen nunca
mais seria recuperado, mas Ravelstein tinha de novo crédito.
Enviou dinheiro para Nikki em Genebra, que comprou um
fato novo de Gianfranco Ferré. Nikki possuía os instintos de
um príncipe, e vestia como um - em Nikki, Ravelstein via
um j ovem brilhante que tinha todo o direito de se tratar
bem. Não era uma questão de estilo ou autoimagem. Esta­
mos aqui a falar da natureza de um j ovem e não das suas
estratégias.
Para surpresa sua, Abe Ravelstein deu ·Consigo a escrever
o livro a que se tinha comprometido. A surpresa foi geral en­
tre os amigos e as três ou quatro gerações de estudantes que
formara . Alguns desaprovaram. Opunham-se ao que viam
como a popularização, ou a desvalorização, das suas ideias.
Mas ensinar, mesmo que estej amos a ensinar Platão ou Lu­
crécio ou Maquiavel ou Bacon ou Hobbes, é sempre um tipo
de popularização. Os produtos dos grandes espíritos têm si­
do impressos durante séculos e estado acessíveis a um públi­
co em geral alheio à sua significância esotérica. Porque todos
os grandes textos tinham uma significância esotérica, era
o que ele acreditava e ensinava . Isto, penso eu, tem de ser
mencionado, mas não mais do que mencionado. O mais sim­
ples de todos os seres humanos é, por esta ordem de ideias,
esotérico e radicalmente misterioso.
Apenas mais um pormenor curioso daquela noite no Lu­
cas-Carton . Terminou com um digestivo, depois de j antar.
Tínhamos chegado ao estuário da festa e estávamos uma vez
mais em face do golfo da conta comum. Ravelstein a briu
o seu livro de cheques francês. Ele nunca antes tivera uma
conta em Paris. Durante longos anos fora um turista ou um
idólatra mediano da civilização francesa - mas sob um li­
mite orçamental - querendo dar-se grandes ares, mas sem
RAVELSTEIN 33

dinheiro. Do nosso lado do Atlântico havia um vago parale­


lismo. Um j udeu podia ser também americano, mas de certo
modo também não o era . Imaginemos, contudo, que mete­
mos a mão ao bolso para deixar uma gorjeta de grand seig­
neur e deparamos com pouco mais do que nada . Pois Ra­
velstein, com a sua mão trémula, pagou esta noite a conta
em total êxtase. O criado trouxe um prato de trufas de cho­
colate j unto com a conta e Ravelstein comoveu-se ao ver Ro­
samund a a brir a sua mala e a guardar os pequenos bom­
bons cobertos de cacau em pó.
- Leva-os ! Leva-os todo s ! - exclamou Ravelstein, ar­
mado em comediante j udeu. A sua voz adquiriu um tom de
café-concerto . - Estas são lembranças preciosas. Cada um
que comeres recordar-te-á este festim. Podes escrever no teu
diário e recordar-te do quão ousada e decidida foste, ao
guardar estas trufas na mala !
Pisarmos o risco só nos fazia subir na admiração de Ra­
velstein. Mais tarde , ele diria para Rosamund de vez em
quando:
- Não me venhas com esse ar de menina bem comporta­
da. Eu bem te vi a surripiar aqueles chocolates todos no Lu­
cas-Carton.
O facto é que ele apreciava os pequenos crimes e escapa­
delas . Mas, sob a superfície das suas preferências, poderiam
ser sempre encontradas ideias. Neste caso, a ideia era a de
que um eterno bom comportamento era muito mau sinal.
O próprio Ravelstein, além do mais, tinha uma fraqueza por
doces - aquilo a que ele chamava friandise. A caminho de
casa, de regresso do gabinete, costumava parar na mercearia
para comprar um pacote de rebuçados . Enchia-se de gomas
de preferência meias-luas com sabor a limão.
O que tornou particularmente encantador o surripianço
das trufas por Rosamund foi o facto de ela ser uma j ovem
34 SAU L B ELLOW

muito bonita, muito inteligente e muito bem-educada. Agra­


dara-lhe ver que ela se enamorara por um velho farsante co­
mo eu.
- Há uma certa classe de mulheres que naturalmente se
sente atraída por homens velhos - disse-me. Como já assi­
nalei, ele gostava dos comportamentos fora da regra. Espe­
cialmente quando o amor era o motivo . Ele atri b u ía um
grande valor ao desej o. Quando buscávamos o amor, quan­
do nos apaixonávamos, estávamos em busca da outra meta­
de que tínhamos perdido, como tinha dito Aristófanes, mas
também Platão num discurso atribuído a Aristófanes. No
início, homens e mulheres eram redondos como o sol e a lua,
eram ambos macho e fêmea e tinham dois órgãos genitais .
Em alguns casos ambos os órgãos eram machos. E o mito
continuava . Estes eram seres autossuficientes e orgulhosos .
Desafiaram os deuses do Olimpo, que os puniram cortando­
-os ao meio . Foi esta a mutilação que a humanidade sofreu.
De modo que, geração após geração, buscamos a outra me­
tade, ansiando por ser de novo inteiros.
Eu não era um erudito . Tal como muitos, ou a maioria,
dos estudantes da minha geração, li O Banquete de Platão .
Achei-o muito divertido. Mas fui levado por Ravelstein a
relê-lo. Não propriamente levado. Mas se estivéssemos con­
tinuamente na sua companhia éramos repetidamente remeti­
dos para O Banquete. Ser-se humano era ser-se mutilado,
a m p u t a d o . O h o m e m é i n c o m p l e t o . Zeus é u m t i r a n o .
O Monte Olimpo é uma tirania. O trabalho da humanidade
n o seu estado amputado é procurar a metade que fa lta .
E, após tantas gerações, a nossa verdadeira metade simples­
mente não é encontrada. Eros é uma compensação outorgada
por Zeus - provavelmente por motivos políticos próprios.
E a busca pela nossa outra metade é em vão. O encontro
RAVELSTEIN 35

sexual permite um temporário esquecimento de nós pró­


prios, mas a dolorosa consciência da nossa mutilação é per­
manente.
Enfim, já passava da meia-noite e eram horas de irmos.
Do outro lado da rua, havia uma montra brilhante com or­
quídeas. Fomos atraídos pelas luzes e pelas cores da florista
e atravessámos a rua deserta. Havia um corte vertical na vi­
trina - duas linhas de latão - para deixar o odor das flores
sair ao encontro do monóxido de carbono da place de la
Madeleine. Mais um sinal do charme francês. As prostitutas
costumavam congregar-se em frente da grande igrej a, onde
eram celebrados os funerais de Estado. Ravelstein chamou­
-me a atenção para isso.
Ravelstein era assim. Se não soubéssemos isto sobre ele,
não o conhecíamos de todo . Sem desej os a nossa alma não
passava de um tubo gasto, bom apenas para um verão na
praia, nada mais. Homens e mulheres de espírito, acima de
tudo os j ovens, devotavam-se à busca do amor. Em contra­
partida, o burguês vivia dominado pelos medos de lima mor­
te violenta . Eis aqui, da forma o mais breve possível, uma
súmula das mais importantes preocupações de Ravelstein.
Sinto que lhe estou a fazer uma inj ustiça ao falar dele de
uma forma tão simplista. Ele era um homem muito comple­
x o . Partilharia mesmo a noção ( atri buída por Sócrates a
Aristófanes ) de que buscávamos o outro que era uma parte
de nós mesmos ? Nada o podia comover mais do que uma
genuína demonstração dessa busca. Mais ainda, estava sem­
pre a tentar adivinhar sinais dessa busca em todos os que co­
nhecia . Naturalmente, nos seus alunos inclusive . Estranho,
para um professor, pensar nos alunos dos seminários en­
quanto atores deste drama desconcertante. O seu primeiro
SAUL B ELLOW

gesto, quando eles chegavam, era ordenar-lhes que esque­


cessem a s famílias. O s pais eram donos de mercearia em
Crawfordsville, Indiana, ou _Pontiac, Illinois. Os filhos pon­
deravam longa e duramente sobre As Guerras do Peloponeso,
sobre O Banquete, o Pedro, e não estranhavam que, ao fim
de algum tempo, estivessem mais familiarizados com Nícias
e Alcibía des do que com a carrinha do leite ou a loj a dos
trezent o s . Pouco a pouco, Ravelstein também os levava
a confiar nele. Não lhe escondiam nada. Era espantoso ver
o quanto ficava a saber sobre eles. Era em parte a sua paixão
pela coscuvilhice que o levava a obter a informação que que­
ria. Ele não os ensinava apenas, ele formava-os, distribuía-os
por grupos e subgrupos e colocava-os em categorias sexuais,
as que considerava apropriadas. Alguns iriam ser maridos
e pais, outros excêntricos - os regulares, os irregulares, os
profundos, os divertidos, os j ogadores, os ousados; os estu­
diosos inatos, os que tinham um dom para a filosofia; os
amantes, os laboriosos, os burocratas, os narcisistas, os pre­
dadores. Ele refletia um bom bocado em tudo isto . Tinha
odiado e abandonado a sua própria família. D izia aos estu­
dantes que tinham vindo para a universidade com o intuito
de aprender alguma coisa, e isso significava que se deviam
libertar das opiniões dos progenitores . Ele ia direcioná-los
para uma vida superior, plena de variedade e diversidade,
govern a d a pela r a c i o n a l i d a d e - tudo menos arid e z . Se
tivessem sorte, se fossem inteligentes e possuíssem força de
vontade, Ravelstein proporcionar-lhes-ia a maior dá diva
a que podiam aspirar, guiando-os através de Platão, introdu­
zindo-os aos segredos esotéricos de Maimonides, ensinando­
-lhes a interpretação correta de Maquiavel, familiarizando-os
com a sublime humanidade de Shakespeare, até e para além
de Nietzsche. O que lhes oferecia não era um programa aca­
démico - era algo de mais livre do que isso. E, no final,
RAVELSTEIN 37

o programa era eficaz. Nenhum dos seus alunos se tornou


um Ravelstein em estatura. Mas muitos eram bastante inteli­
gentes e muito satisfatoriamente singulares. Ele queria que
eles fossem singulares. Adorava os alunos mais excêntricos
- nunca o seriam demais para ele. Mas claro que tinham de
dominar a matéria e dominá-la diabolicamente bem.
- Não o achas mesmo malandro ? - dizia acerca de um
ou outro aluno. - Enviou-te uma cópia do seu último arti­
go, « Historicismo e Filosofia » ? Eu disse-lhe p ara o pôr na
tua caixa.
Eu tinha dado uma vista de olhos . Tinha-me feito sentir
como uma formiga que se predispõe a atravessar os Andes.
Ravelstein urgia os seus alunos a livrarem-se dos pais.
Mas na comunidade que se formava ao seu redor o seu pa­
pel tornava-se, pouco a pouco, o de um pai. Claro, se eles
não estavam à altura, não hesitava em pô-los fora. Mas, uma
vez que se tivessem tornado seus íntimos, planeava-lhes o fu­
turo. Dir-me-ia:
- O Ali é bastante esperto. O que achas da rapariga que
está a viver com ele ?
- Bem, não reparei muito nela . Mas parece-me inteli­
gente.
- Inteligente é apenas um dos aspetos. Ela desistiu de
uma carreira em Direito para estudar comigo. Tem também
um belíssimo par de mamocas. Ela e o Ali vivem j untos há
cmco anos.
- Eu diria então que ela tem nele um investimento legí­
timo.
- Estou a ver o que queres dizer. Embora o faças soar
como um pedaço de terreno. E não te esqueças, ele é muçul­
mano. A família dele é uma autêntica pirâmide egípcia.
SAUL B E L LOW

Ele perguntava-se se a paixão era algo de incomum para


os muçulmanos . O amor apaixonado com o seu interesse
perene. No Médio Oriente, continuavam a ser tradição os
casamentos arranj ados.
- Ainda assim, a Edna, por direito próprio, bate aos
pontos a tradição. - Ele tinha também estudado Edna. Pres­
tava muita atenção aos acasalamentos entre estudantes. -
Ela é bastante intensa, é óbvio, e também muito bela.
Como eu disse, tínhamos planeado discutir hoj e o livro
que eu ia escrever, mas não era um bom dia para detalhes
biográficos.
- Pensando bem - disse o Abe - não me apetece falar
de novo dos meus verdes anos . A minha eficiente mãe edu­
cou-se em John Hopkins, a primeira do seu curso. E o idiota
do meu pai não me perdoava que eu não tivesse sido admiti­
do na Phi Beta Kappa. No que importava realmente, eu tinha
as melhores nota s . Nos cursos obrigatórios, notas médias
eram mais do que suficientes. Ainda assim, o que quer que
eu fizesse, convidado para Yale ou Harvard para dar confe­
rências, o meu pai no fim atirava-me sempre à cara que não
tinha sido aceite na Phi Beta Kappa. A sua cabeça era uma
espécie de p ântano da Georgia; Okefenokee com luzinhas
neuróticas pairando à volta . Um falhado, é claro que o era,
mas com um qualquer mérito escondido; tão bem escondido
que nunca mais ninguém o pôde encontrar.
Então, Ravelstein deteve-se e disse:
- Acho que esta manhã prefiro ir pela rue St. Honoré . . .
- O u no que resta d a manhã.
- Rosamund vai continuar a dormir. Esgotámo-la com
o encanto da noite d e ontem. Uma bela mulher j antando
com três homens atraentes. Antes da uma, ela não dará se­
quer pela tua falta . Gostava de ter a tua opinião sobre um
RAVELSTEIN 39

blazer Lanvin. Eu disse ao vendedor que passaria por lá ain­


da pela manhã . Estou um pouco zonzo hoj e, estava a cabe­
cear ainda agora. Ficar entorpecido é uma condição que me
desagrada particularmente . . .
Deixámos a suíte. O momento foi bem escolhido, porque,
vários andares abaixo, o elevador parou e entraram Michael
Jackson e a sua corte. Ali estava ele, num dos seus fatos cinti­
lantes, dourado sobre negro - um fato justo. Os caracóis es­
tavam húmidos e o seu sorriso fino era casto. Contra a nossa
vontade, dávamos por nós a estudá-lo em busca de marcas
da cirurgia plástica . O seu ar, pensei, era voluntariamente
transitório . Rapazes dourados desfazendo-se em pó; como
limpa-chaminés.
Ravelstein, que era tão grande como qualquer um dos
guarda-costas - mesmo maior, mas decerto não tão forte -
adorou este breve momento de contacto. Ele era assim -
o prazer de um momento consumia-o.
No rés do chão, os guardas abriram caminho para Jack­
son, como se estivessem a nadar bruços. Havia imensa gente
no átrio. A multidão estava lá fora, na rua, atrás da barreira
policial. Mas nós ficámos comprimidos, detidos atrás de cor­
dões dourados. A estrela saiu delicadamente, acenando às
centenas de ruidosos fãs . Abe Ravelstein não se importou
nada de ficar detido atrás das cordas. Paris estava hoj e o que
Paris devia ser sempre. Os reis que tinham concebido Ver­
salhes ordenaram aos arquitetos que construíssem os magní­
ficos espaços públicos da capital. Estes, hoje, eram o cenário
de Ravelstein. Ele era o grande senhor na nova ordem das
coisas, carregando os seus cartões de crédito e cheques, dis­
posto a gastar os seus dólares - se houvesse um hotel me­
lhor que o Crillon, o Abe ter-se-ia instalado l á . Por estes
dias, Ravelstein era um homem magnífico. As contas eram
pagas com cartão de crédito e creditadas na sua conta no
SAUL B ELLOW

Merryll Lynch. Ravelstein raramente via os extratos. De tem­


pos a tempos, Nikki, que não tinha de o fazer, dava uma vista
de olhos. O seu único objetivo era proteger o Abe. Fora graças
a Nikki que uma vigarice de alto nível fora descoberta em Sin­
gapura. Alguém tinha usado o cartão Visa do Abe para saldar
uma conta de trinta mil dólares.
- A assinatura era uma falsificação óbvia - disse o Abe,
não demasiado preocupado. - No Visa trataram do assun­
to. As burlices internacionais com cartões eletrónicos estão
na ordem do dia . O s vigaristas aprendem a ir um passo à
frente da alta tecnologia, como bactérias inventivas que ba­
tem aos pontos os fármacos, enquanto os cérebros científicos
nos laboratórios tentam perceber como ganhar terreno. Pe­
quenos génios estudantis a dar a volta ao Pentágono.
Na rue St. Honoré, Ravelstein estava perfeitamente feliz.
Í amos de uma montra a outra.
O termo francês para o ver as montras é leche-vitrines -
lamber o vidro das montras. Isto requer completa disponibi­
lidade, e o nosso pequeno-almoço tinha consumido grande
parte da manhã . Ainda assim, flanámos pelas montras de
meias e gravatas e camisas feitas por medida. Depois, cami­
nhámos um pouco mais depressa. Eu disse ao Abe que estas
montras luxuosas me punham um pouco tenso. Demasiadas
atrações. Eu não suportava ser solicitado de todos os lados.
- Já reparei - disse Ravelstein - que desde o teu casa­
mento o teu gosto em roupa decaiu. Em tempos, eras um ja­
nota.
Ele disse isto com pena. De vez em quando, comprava-me
uma gravata - nunca nenhuma que eu escolheria. Estas gra­
vatas de presente eram uma espécie de puxão de orelhas, para
me lembrar de que eu me estava a tornar desleixado . Mas
havia mais do que isso. Ravelstein era bastante maior do que
eu. Ele era capaz de afirmar a sua presença . Devido ao seu
RAVE LSTEIN

maior tamanho, ele podia vestir roupa com um efeito mais


dramático. Nem me passaria pela cabeça negar isto. Para ser
realmente elegante, um homem devia ser alto. Um herói trá­
gico devia estar acima da altura média. Há séculos que eu
não lia Aristóteles, mas pelo menos disto na Poética eu lem­
brava-me.
Na rue St. Honoré, atolada com o encanto da história
e política francesas - com todas as reivindicações especiais
da civilização francesa - o que me veio à memória foi um
velho número de café-concerto intitulado « Ü Homem que
levou à glória a banca de Monte Carla » . Há um flâneur que
se passeia pelo Bois de Boulogne com um ar despreocupado.
Muito elegante. E é claro que toda a gente olha para ele.
As coisas não acontecem de todo se não acontecem em
Paris, ou são trazidas à atenção de Paris. Aquela fornalha
sempre prestes a explodir, Balzac, estabeleceu isto como pri­
meiro princípio. O que Paris não tinha aprovado não existia
sequer.
É claro que Ravelstein sabia demasiado acerca do mundo
moderno para concordar com isto . Ravelstein era, não es­
queçamos, o homem ao comando de um posto privado de
telefones com teclados complexos e luzes brilhantes e uma
aparelhagem estereofónica de primeira qualidade a tocar Pa­
lestrina nos instrumentos originais. A França, contudo, não
era mais o centro das decisões, das luzes . Não era a p átria
do ciberespaço. Já não atraía os maiores intelectos do mun­
do e todo o restante schtuss cultural . Os franceses já eram.
De Gaulle, a girafa humana, farej ando o ar do alto das suas
narinas. Churchill dizendo acerca dele que a ofensa da Ingla­
terra tinha sido socorrer La France. A altiva criatura militar,
fitando por cima as copas das árvores do velho mundo, não
conseguia suportar a ideia de o seu país ter precisado de ajuda.
42 SAUL B E L LOW

O espírito do Abe nunca carecia de elementos para expli­


car ou documentar o nosso tempo:
- « A França sem um exército não é a França . » Chur­
chill, de novo.
O meu gosto pela conversação era similar. Eu não a con­
seguia fazer bem, mas adorava ouvi-la a ser feita. Ravelstein
fazia-a infinitamente melhor. Ele tinha especial interesse na
Grande Política. Nessa linha, era evidente, a França de hoj e
estava na bancarrota. Apenas tinham sobrado os maneiris­
mos, e eles tiravam o máximo proveito dos maneirismos,
mas estavam a fazer bluff, sabiam que estavam a dizer pata­
coadas. No que ainda eram bons era nas artes da intimidade.
A comida ainda era de primeira água - vide, por exemplo,
o banquete da noite anterior no Lucas-Carton. Em qualquer
quartier, havia produtos frescos nas mercearias, boas pada­
rias, a charcuterie com as suas carnes frias. E também a enor­
me exposição de roupa íntima. O amor descomplexado pela
refinada roupa de cama . « Viens, viens dans mes bras, je te
donne du chocolat. » Era maravilhoso ser-se tão público em
relação ao privado, acerca da criatura viva e das suas neces­
sidades. As revistas sofisticadas de Nova Iorque tentavam
imitar isto, mas nunca conseguiam acertar . . . Sim, e depois
havia a vida das ruas francesas.
- Nove em cada dez ruas residenciais americanas são
humanamente estéreis . Aqui, a humanidade ainda está em
atividade - disse Ravelstein.
Ravelstein, o pecador, tinha um apetite por malandrices
sexuais. Adorava encontros louche, tanto os escabrosos co­
mo os equívocos. Para certos tipos de conduta, ou má con­
duta, Paris ainda era o melhor sítio. Se Ravelstein gaguej ava,
ao caminhar, ao sorrir, ao perorar, não era de fraqueza mas
de sobre-excitação. A famosa luz de Paris estava toda con­
centrada na sua cabeça calva.
RAVELSTEIN 43

- Ainda fica longe, o lugar_ onde vamos ?


- Não sej as impaciente, Chick. Fazes-me sempre sentir
que tens alguma coisa mais importante a fazer do que a que
estás a fazer.
Não me defendi - nem sequer tentei. O nosso destino,
Lanvin, ficava perto, mas fomos detidos en route por várias
loj as. Os optometristas tinham sempre um lugar no coração
de Ravelstein. Ele conhecia todo o tipo de armações. Nisso
não estava s ó . Segundo as estatísticas, a americana média
tem três pares de óculos de sol. « Oh, não busquemos razão
à necessidade ! » - a defesa do supérfluo pelo po bre Lear.
O Abe adorava óculos; também os comprava como presen­
tes . Ofereceu-me o género que se dobra e coloca numa pe­
quena caixa feita para o bolso de fora do casaco. Ele desistira
das lentes de contacto depois de perder uma num molho de
esparguete que estava a preparar. Rosamund e eu tínhamos
estado presentes nessa noite, e foram ditas piadas sobre um
novo tipo de visão traseira . O u eram as lentes de contacto
digeríveis ? Tal como se dizia que o ferro era, para as aves­
truzes.
- O que tem este casaco Lanvin que não tenham os teus
outros vinte ? - apeteceu-me dizer. Mas eu sabia perfeita­
mente que na cabeça do Abe havia todo o tipo de distinções
tendo a ver com prodigalidade e avarícia, magnanimidade
e mesquinhez. Os atributos de um homem com uma grande
alma. Eu não queria dar-lhe corda. Nem queria ele, esta ma­
nhã, que eu lhe desse corda.
No Midwest, não há tanto tempo assim, quando ele ain­
da estava nas lonas e se queixava do seu guarda-roupa, leva­
ra-o ao Gesualdo, o meu alfaiate, para lhe fazer um fato. No
armazém de Gesualdo, ele escolheu um belo pedaço de fla­
nela de bom fabrico escocês. Fizemos três ou quatro provas
e, na minha opinião, o resultado final caía-lhe muito bem.
44 SAUL BELLOW

Gastei algum dinheiro naquilo. Nessa altura, um livro meu


encontrava-se na cauda da lista dos livros mais vendidos;
nunca passou da metade, mas eu estava mais do que satisfei­
to. Um filho da grande depressão, eu ficava feliz com um
rendimento razoável. Os meus padrões tinham sido estabele­
cidos nos esquálidos anos trinta . Mil e quinhentos dólares
deviam ter-nos comprado um fato de primeira qualidade.
Mesmo nos meus dias de j anota (tive uma curta fase de ob­
sessão pela moda ) , nunca fora além dos quinhentos dólares
por um fato . Isto, naquela época, era quanto os estudantes
que tinham feito o exame final de Direito pagavam. Quando
mais tarde se tornavam associados, deixavam de ir ao Ge­
sualdo. Encontravam alfaiates com mais classe, do género
frequentado por cirurgiões, atletas profissionais e mafiosos.
Ravelstein e eu pusemos em pratos limpos a questão do
fato do Gesualdo.
- Escuta, Chick - disse Ravelstein. - O valor real da­
quele fato não estava no corte, nem no apuro do alfaiate.
- Tu e o Nikki riram-se quando o vestiste em casa. Não
o puseste uma única vez, nem sequer para me agradar.
- Não posso negar que não o achei próprio para usar.
- Usar não é a palavra. Vocês os dois não vestiriam nem
um boneco com o fato.
Ravelstein, fumador inveterado, acendeu outro cigarro,
puxou o corpo para trás, talvez para evitar a chama, talvez
porque se estivesse a escangalhar de tanto rir. Quando vol­
tou a poder falar, disse:
- Bem, não era um Lanvin. Tu querias fazer algo por
mim. Foi generoso da tua parte, Chick, e o Nikki foi o pri­
meiro a reconhecê-lo . Mas o Gesualdo esta completamente
desatualizado. Ele faz roupas tipo mafioso, não para os pa­
drinhos, mas para os soldados, os gangsters do escalão mais
baixo.
RAVELSTEIN
45

- Obrigado pelo cumprimento ao modo como me visto.


- Tu não te interessas pela moda. Não te importa s com
as marcas. Devias ter-me dado o dinheiro que paga s te n o
Gesualdo e eu teria então ido arranj ar o resto do din heiro
para comprar uma roupa decente.
É ramos completamente abertos um com o outro. Podía­
mos dizer o que nos ia na mente sem receio de ofender. Em
ambos os lados, nada havia para dizer de demasiado pes­
soal, ou embaraçoso, nada de demasiado terrível ou crimino­
so. Eu sentia por vezes que ele me estava a poupar aos seus
j uízos mais severos, se eu não estava então preparado para
os receber. Eu também o poupava. Mas dava-me um �norme
alívio ser com ele tão franco e direto como eu seria comigo
próprio acerca de fraquezas ou vícios. Em termos de autoco­
nhecimento , ele estava bem à minha frente . Mas todas as
discussões pessoais resultavam no fim em divertimento bom,
puro e niilista.
- Talvez uma vida não examinada não mereça ser vivi­
da. Mas o exame da vida de um homem pode fazer com que
ele desej e que estivesse morto - foi o que lhe disse.
Ravelstein estava repleto de felicidade. Riu tanto que os
olhos se viraram para o céu.
Mas ainda não terminei com Paris na primavera.
O belíssimo casaco Lanvin era uma flanela belíssima, se­
dosa, bem como substancial. A cor lembrava a de um Labra­
dor - dourada, com um brilho rico entre as malhas.
- Tu vês este tipo de casacos anunciados na Vanity Fair
e noutras revistas de moda, e estão geralmente vestidos por
modelos machões, com a barba por fazer, e ar de violadores
que não têm nada, mas nada de nada para fazer senão serem
vistos em toda a glória do seu narcisismo rasca. Nunca ima­
ginamos uma tal peça de vestuário num homem íntegro e in­
teligente. Um pouco largo no peito, talvez, ou com alguns
pneus na cintura. Mas é na verdade algo agradável de se ver.
SAUL B E L LOW

Aconselhei Ravelstein a comprar este casaco Lanvin.


O preço era de quatro mil e quinhentos dólares e ele pagou
com o Visa Gold, porque não estava seguro do seu saldo no
Crédit Lyonnais. O Visa protege-nos de ser aldrabados; garan­
te-nos o câmbio legal no dia da transação.
Na rua, perguntou-me que tal era a cor à luz do dia. Fi­
cou imensamente satisfeito quando eu disse que era maravi­
lhosa.
A nossa próxima paragem foi no S U LKA, onde inspecio­
nou as camisas feitas por medida que encomendara. Ficaram
de ser entregues no Crillon, cada uma dentro da sua caixa de
plástico. Em seguida fomos aos salões Lalique, onde ele que­
ria procurar candeeiros para as paredes e o teto do aparta­
mento.
- Vamos por meia hora dar uma vista de olhos no Ge­
lot, a chapelaria.
No Gelot perdi a ca beça e comprei um fedora verde de
pano. O Abe disse que eu tinha absolutamente de o trazer.
- Gosto como te fica. Faz-te falta cuidares um pouco do
teu aspeto - disse. - É s demasiado modesto, Chick. E não
te fica bem, porque qualquer um que te tope vê que, na ver­
dade, és um terrível megalómano. Se és demasiado forreta
para o comprares eu ponho-o na minha conta.
- Os meus pais tinham sofás verdes na sala - respondi.
- Em segunda mão, mas de veludo. Eu pago-o com o meu
dinheiro. Vou comprá-lo em honra dos velhos tempos.
- É capaz de ser um pouco pesado para junho.
- Bem, eu espero estar ainda vivo em outubro.
Ele trazia vestido o seu casaco Lanvin na rue de Rivoli.
O imenso Louvre e os parques ficavam à nossa esquerda . As
arcadas estavam cheias de turistas.
- O Palais Royal - indicou Ravelstein com displicência
- era onde Diderot ia todos os fins de tarde e onde teve as
suas famosas conversas com o sobrinho de Rameau.
RAVELSTEIN 47

Mas Ravelstein n ã o era d e todo c o m o o s o brinho -


aquele professor de música parasita. Estava também acima
de Diderot. Um indivíduo muito mais grave e largo com um
treino extensivo em história, especialmente a história da mo­
ral e teoria política. Sempre me senti atraído por pessoas que
eram organizadas num sentido lato e que tinham cartografa­
do e tornado coerente o mundo. Ravelstein apenas soava in­
coerente com os seus « hees » e « haas » . Tínhamos um amigo
nos Estados Unidos que gostava de dizer que « a ordem por
si só já é carismática » . O que é uma outra forma de dizer
que «a música tem encanto » , e etc.
E calhou que estivéssemos naquele preciso momento a fa­
lar deste homo carismaticus cuj o nome é, ou era, Rakhmiel
Kogon. Rakhmiel era sósia do ator Edmund Gwenn, que fa­
zia de Pai Natal do Macy ' s no Milagre da Rua 3 4 . Mas
Rakhmiel era um Pai Natal não benévolo, um indivíduo pe­
rigo s o , rubicundo, olhos vermelh o s , e um rosto onde os
músculos da ira estavam altamente desenvolvidos. Descia as
chaminés como o Pai Natal, mas o seu obj etivo era causar
problemas.
Nem Ravelstein nem eu tínhamos qualquer vontade de
almoçar - o banquete de dez pratos no Lucas-Carton tira
a qualquer um o apetite pelo menos até ao jantar do dia se­
guinte - mas sentámo-nos a beber um café. Ravelstein ia no
seu segundo maço de Marlboro, e no Café de Flore, que ele
frequentava regularmente, pediu « un espresso trés serré» .
No Flore faziam-no mesmo a o seu gosto . Mas se os seus
dedos grossos tremiam enquanto erguia a chávena não era
por ele ter um problema de nervos. O que ele tinha era uma
overdose de excitação. A cafeína não vinha ao caso.
- Rakhmiel foi um dos meus professores, há muito tem­
po - disse ele. - Na altura ensinava na London School of
Economics. E depois em Oxford, onde se anglicizou. Sempre
SAUL BELLOW

com o tempo dividido entre os Estados Unidos e a Inglaterra.


É um indivíduo sério, desconfortável consigo mesmo . Mas
devo-lhe muito, nomeadamente a minha posição atual. Eu
estava exilado no Minnesota quando ele me conseguiu a co­
locação que eu queria.
- Quase a que tu querias.
- É verdade. Sou o único com estatuto que não tem uma
cadeira com o seu nome. Depois de tudo o que fiz pela uni­
versidade. E a única cadeira que a administração tem para
me oferecer é a cadeira elétrica .
Mas Ravelstein estava inabitualmente livre d e tais preo­
cupações e ressentimentos. E este não é o lugar adequado para
isso. Talvez volte a tocar no assunto mais tarde. Provavelmen­
te não. Sej a como for, não era disso que devia falar aqui. Eu
declarei que faria uma aproximação pari passu a Ravelstein.
Era um homem curioso de se observar à mesa. Uma pes­
soa precisava de se habituar aos seus hábitos alimentare s .
A senhora Glyph, a esposa d o fundador d o seu departamen­
to, dissera-lhe uma vez que nunca mais devia contar que ela
o convidasse para j antar. Ela era uma rica mulher por direito
próprio, cultivada e uma excelente anfitriã das celebridades
visitantes. Tinha recebido à mesa R. H . Tawney, e Bertrand
Russell, e um qualquer tomista francês muito importante cu­
jo nome se me escapa neste momento ( Maritain ? ) , e montes
de literatos, sobretudo franceses. Abe Ravelstein, então pro­
fessor auxiliar, fora convidado para um banquete em honra
de T. S. Eliot. Maria Glyph disse entredentes para Abe Ra­
velstein, quando ele estava a sair:
- Você bebeu Coca-Cola diretamente da garrafa, e T. S .
Eliot estava a vê-lo. Com horror.
O próprio Ravelstein me contou isto. E também falou da
senhora Glyph. Ela herdara uma grande fortuna, e o marido
era um grande orientalista.
RAVE LSTEIN 49

- Gente que se inventa a sua importância à medida que


o tempo passa - disse Ravelstein . - Até que teceu uma
magnífica fantasia. Transformam-se em algo glorioso, como
formidáveis libélulas esvoaçando numa atmosfera de perfeita
irrealidade. Então escrevem ensaios, poemas, livros inteiros
uns sobre os outros.
- Maneiras demasiado vulgares e j udaicas à mesa para
uma aristocrata - disse eu. - Uma visita superimportante e . . .
- E o que irá T. S. Eliot pensar de nós !
Contudo, não acredito que beber Coca-Cola diretamente
da garrafa fosse a história toda. (E, para começar, o que es­
tava uma garrafa de Coca- Cola a fazer em cima da mesa ! )
As mulheres dos professores sabiam bem que quando Ra­
velstein vinha para jantar teriam mais tarde pela frente um
tra balho hercúleo de limpeza - as migalhas, os salpicos,
o péssimo aspeto do seu guardanapo no fim da refeição, os
pedaços de carne espalhados sob a mesa, o vinho entornado
quando ele ria de uma piada; pratos rej eitados depois de
uma garfada e comida deitada para o chão. Uma anfitriã ex­
periente teria espalhado j ornais debaixo da sua cadeira . Ele
não se teria importado. Não prestava muita atenção a essas
coisas. Claro que cada um de nós consegue sempre sa ber
o que se passa. O Abe sabia - ele sabia o que trazer ao de
cima e o que pôr de lado. O bj etar à s maneiras à mesa do
Abe era uma confissão escrita de mesquinhez.
Ravelstein divertia-se, ao dizer:
- Ela não ia deixar um semítico qualquer comportar-se
tão mal à sua mesa.
O professor Glyph, o marido, não tinha tais preconcei­
tos. Era um homem alto e sério. Os seus modos eram decoro­
sos, mas a atenção parecia estar focada algures noutro lado,
em objetos mais distantes e mesmo mais divertidos - quero
dizer, mais divertidos do que Ravelstein. Os seus olhos peque­
nos e afastados eram agradáveis e tolerantes; o cabelo, com
risca ao meio, era o cabelo de um cavalheiro educado, famoso
pela sua erudição. Os seus amigos eram na grande maioria
franceses, e proeminentes, com nomes como Bourbon-Sixte
- ou membros da Academia ou na fila de espera para a no­
meação. Glyph era apaparicado pela mulher e pelos criados
- uma lavadeira, uma cozinheira e uma criada de quarto .
Os Glyphs não eram um casal académico vulgar - estavam
em casa tanto em Londres como em Paris. Em Saint-Tropez,
ou num qualquer sítio do género, os Scott Fitzgeralds ti­
nham sido seus vizinhos. Glyph e a esposa não eram os habi­
tuais satélites de nomes famosos. Tinham sido um rico casal
americano da era do jazz. Tinham conhecido Picasso e Ger­
trude Stein.
Por alguma razão, Ravelstein e eu pusemo-nos a falar de­
les no Café de Flore . Em dias particularmente agradáveis,
sofro uma quebra ao princípio da tarde - o bom tempo só
a torna pior. O brilho que o sol j orra no espaço em volta -
o triunfo da vida, por assim dizer, o florescer das coisas, tu­
do isso me deita abaixo. Jamais serei capaz de acompanhar
o passo dos momentos de triunfo e esplendor. Nunca falei
disto a Ravelstein, mas ele provavelmente pressentiu-o. Em
certas alturas, ele parecia intervir em meu socorro.
- Glyph adorava o Pont-Royal. Era o seu hotel favorito.
Fica muito perto daqui - disse Ravelstein. - E digo-te,
quando a senhora Glyph morreu, Glyp h veio para Paris pas­
sar o luto. Trouxe consigo os papéis dela. A sua ideia era pu­
blicar uma coleção dos ensaios. E pediu ao Rakhmiel Kogon
para o ajudar. Rakhmiel na altura estava em Oxford.
- Por que veio o Rakhmiel ?
- Ele estava em dívida para com o velho. De há muito
tempo. O Glyph salvara o Rakhmiel de ser posto no olho da
RAVELSTEI N 51

rua. Protegera-o, dera-lhe santuário. Isto foi antes do Rakh­


miel se ter tornado o que os idiotas académicos chamam
« uma figura imponente » . Sej a como for, ele veio até Paris,
e ficou também no Pont-Royal, só que não numa suíte. E to­
das as manhãs ele apresentava-se para trabalhar nos papéis
de Maria Glyph . E todas as manhãs o Glyph dizia : « Estou
constipado, e a Maria não quereria que eu trabalhasse hoje. »
Ou: « Tenho de ir cortar o cabelo. A Maria se me visse diria
que já está na altura . » Ou marcaria um encontro com um
Rochefoucauld ou com um Bourbon-Sixte, enquanto Rakh­
miel organizava as notas e lia os ensaios loucos dela . Mas
acabava sempre por ser atraído pelo diário, porque. era lá
mencionado com frequência : « De novo aquele pequeno ju­
deu assustador, o R. Kogon. » Ou: « Faço o meu melhor para
tolerar o repelente protegido do Herbert, esse Kogon, mas
ele torna-se cada dia mais semita e vil e insup ortável -
e aquela carantonha de judeu. »
- Foi o próprio Kogon quem to contou? - perguntei.
- Podes ter a certeza que foi. Ele não podia deixar de es-
tar divertido. Disse que ela era tão Verdurin, uma incansável
arrivista . Quando são educadas, essas pessoas têm ainda
mais uma razão para detestar os judeus.
- Mas ninguém poderia levar a senhora Glyph a sério.
- Conheceste-a, Chick ?
- Apareci pouco depois de ela morrer. Glyph, um bom
homem, generoso, costumava dizer « a minha querida espo­
sa » e depois, em j eito de piada, que ela em viva fora muito
mais querida. Já a segunda mulher era encantadora. Há pes­
soas que melhoram as suas escolhas à medida que o tempo
passa. Ela revelou-se forte, generosa e inteligente. Uma vez,
ele convidou-me para j antar e perguntou-me ao telefone, no
seu estilo francês formal, se eu tinha alguma o b j e ç ã o às
«gens de couleur» . A convidada era uma mulher lindíssima
SAU L B ELLOW

da Martinica - a mulher de um qualquer famoso historia­


dor de arte. Terá sido o Rewald que escreveu um livro sobre
Cézanne ?
- Tu sempre tiveste sorte - disse Ravelstein. - E rara­
mente tiraste o proveito todo da tua sorte.
Eu estava habituado a ouvir isto . Ravelstein acreditava
que eu era dotado e brilhante, mas pouco educado, ingénuo
e passivo - metido para dentro. Ele dizia que, quando eu
estava na companhia certa, era um conversador inspirado,
e contava aos seus alunos que não havia nenhum assunto
importante sobre o qual eu não tivesse já pensado. Sim, tal­
vez, mas o que tinha feito eu com todos esses grandes tópi­
cos ?
Ao seguir a minha sugestão, Ravelstein tinha ficado mui­
to rico. E, no fim da celebração da noite anterior, Rosamund
disse-me:
- Estava tudo preparado para ser uma grande ocasião.
Toda a gratidão e a ternura do Abe por ti foram postas no
simpósio do Lucas-Carton. Comida, bebida e companhia, ao
bom estilo ateniense.
Ela tinha sido uma das fãs dotadas de Ravelstein. Era ex­
celente a grego. Para estudar com Ravelstein, tínhamos de
saber os nossos Xenofonte, Tucídides e Platão, em grego.
Concordei, enquanto ria com a maneira como ela descre­
via o seu professor. Ela distinguia-se do resto das pessoas
observadoras pelo modo como pensava com clareza. Este era
um dos talentos de Rosamund . Mas também ela adorava
Ravelstein. Era uma das suas maiores admiradoras.
O Abe lançou-se sobre o seu terceiro espresso serré mal
o empregado o poisou na mesa; as mãos grandes e pouco
hábeis agarravam a p equena chávena que levava à b o c a .
E u teria oferecido vinte contra u m , c a s o a aposta s e tivesse
RAVELSTEIN 53

proporcionado. Manchas castanhas surgiram na lapela do


casaco novo. Era impossível de evitar - uma fatalidade. Ele
ainda estava a beber o expresso; a c a beça inclinada para
trás. Não abri o bico, desviando os olhos da grande mancha
castanha no casaco Lanvin. O utro tipo de homem ter-se-ia
imediatamente apercebido do que acontecera - alguém, tal­
vez, que levasse mais a sério o dinheiro e que sentisse de
algum modo a responsabilidade implícita no vestir uma peça
de roupa de quatro mil e quinhentos dólare s . As gravatas
Hermes ou Ermenegildo Zegna estavam salteadas de quei­
maduras de cigarro. Tentei em vão interessá-lo por laços
borboleta . Expliquei que lhe protegeriam o queixo . · Ele en­
tendeu, m a s recus ava-se a usar o s laços já feito s : nunca
aprendera a dar o nó a um «papillon » (como lhes chamava ) .
- Os meus dedos são demasiado instáveis - observou.
- Ah, pronto - disse, quando por fim se deu conta de que
tinha manchado a lapela do Lanvin. - Lá fiz outra vez merda.
Eu não ri quando ele disse isto.
Uma decisão tinha de ser tomada neste momento. A man­
cha de café era engraçada, puro Ravelstein. Ele próprio o ti­
nha dito . Mas eu não a tratei como um incidente cómico .
Sugeri, com uma voz um tanto sufocada, que as manchas
podiam ser removidas.
- O serviço de quarto do Crillon deve poder tratar disso.
- Achas ?
- Se não puderem, não pode ser feito em parte alguma.
Tínhamos de ser como que especialistas para lhe seguir
o s movimentos do espírito . Tínhamos de distinguir entre
o que as pessoas tinham aprendido que deviam fazer e o que,
no fundo, desejavam mesmo fazer. Segundo alguns pensado­
res, todos os homens eram inimigos; receavam-se e odiavam­
-se mutuamente. Havia uma guerra de todos contra todos,
54 SAUL B E L LOW

no reino da natureza. Numa das suas peças, Sartre diz-nos que


o inferno « são os outros » - o Abe por sinal detestava Sartre
e desprezava as suas ideias. A filosofia não é o meu ramo.
É verdade que na escola estudei Maquiavel e Hobbes, e supo­
nho que poderia desenrascar-me num concurso de cultura ge­
ral. Eu era, contudo, rápido a aprender, e aprendi bastante
com Ravelstein porque lhe era dedicado. Eu « idolatrava-o » ,
como assinalou um conhecido meu.
Evidentemente, o meu objetivo ao mencionar o serviço de
quarto do Crillon era confortar o Abe por ter entornado
o café forte do Flore no seu casaco novo. Mas o Abe não
queria que eu o consolasse por ser quem era. Ele teria apre­
ciado mais se eu tivesse rido do seu incorrigível desmazelo,
dos seus tremores desaj eitados. Ele apreciava a comédia pura
e dura, os velhos sketches de revista, as frases assassinas,
a rudeza e a sátira cruel . Por isso não tinha boa opinião da
minha bonomia fraca, liberal, ver-tudo-sempre-pelo-lado­
-melhor - da minha delicadeza tonta.
O Abe não tinha paciência para delicadezas. Quando os
alunos não estavam à altura dos padrões, dizia-lhes:
- Enganei-me a seu respeito . O seu lugar não é aqui.
Não o quero ver mais . - Os sentimentos dos rejeitados não
eram da sua conta : - Tanto melhor para eles se me odia­
rem. Isso aguçar-lhes-á o espírito. Bem melhor do que as tre­
tas terapêuticas.
Ele dizia que eu desperdiçava o meu tempo com todo
o género de criaturas.
- Lê qualquer livro decente sobre Abraham Lincoln -
aconselhou-me. - E vê como as pessoas o chagavam duran­
te a guerra civil, por causa de empregos, contratos com o
exército, concessões, cargos consulares e ideias militares
loucas. Enquanto presidente de todos os americanos ele j ul­
gava ser seu dever falar com todos aqueles parasitas, abutres
RAVELSTEIN 55

e empresários . No ínterim, estava com os pés atolados num


rio de sangue. As medidas de guerra tornaram-no um tirano.
Teve de cancelar o habeas corpus, como sabes. Havia neces­
sidades . . . haa . . . hee . . . superiores. Tinha de evitar que Mary­
land se j untasse à Confederação.
Claro que as minhas necessidades eram diferentes das de
Ravelstein. No meu ramo tínhamos de fazer mais conces­
sões, ter em conta todo o tipo de ambiguidades - de evitar
j uízos definitivos. Tudo isto j unto pode parecer ingenuidade.
Mas não é bem assim. Na arte, tornamo-nos familiares com
o processo adequad o . Não podemos simplesmente eliminar
as personagens e mandá-las para o diabo.
Por outro lado, como Ravelstein via, eu estava disposto
a correr riscos - anormalmente disposto.
- Enormes riscos - foi como ele o pôs. - Bem vistas as
coisas, é difícil encontrar alguém menos prudente do que tu,
Chick. Quando considero a tua vida, fico tentado a acreditar
em (atum. Tu tens um (atum. És mesmo capaz de pôr a ca­
beça no cadafalso. E talvez não só, aah . . . aah . . . a cabeça de
cima . O que quero dizer é que o teu sistema de orientação
é extremamente deficiente.
Mas era precisamente esta incongruência que encantava
Ravelstein .
.:___ Tu nunca fazes nada pelo seguro, se existe uma alter­
nativa arriscada. Tu és aquilo a que as pessoas chamavam
um tíbia, nos dias em que tais palavras ainda estavam em
uso. É claro que estamos fartos de perfis profissionais, ou
dos nossos defeitos . Uma razão pela qual a violência se tor­
nou tão popular talvez sej a porque ficámos fartos das gran­
des tiradas psicológicas e nos dê uma enorme satisfação ver
as pessoas voar pelos ares graças às armas automáticas, ou
aos carros que explodem, ou ser estranguladas e empalhadas
por taxidermistas. Estamos tão fartos de ter de pensar nos
SAUL B E L LOW

problemas de toda a gente, que uma destruição empolgante


digna dos mais truculentos desenhos animados é pouco para
os filhos da mãe.
Ele gostava de erguer os grandes braços sobre a luz reu­
nida na sua cabeça calva e soltar um suspiro cómico.
Ocorre-me que este meu relato poderá levar a acusações
de misantropia . Ora Ravelstein era tudo menos um misan­
tropo ou um cínic o . Era de uma grande generosidade -
uma reserva, uma fonte de energia para os estudantes que
aceitava. Muitos vinham com a boa premissa democrática de
que ele os devia aceitar a todos como eram, e partilhar as
suas ideias com todos. É claro que ele se recusava a ser usa­
do, apreciado - abusado por diletantes.
- Eu não sou a fonte em Sara toga Springs onde os j u­
deus do Bronx iam no verão com copos para beber grátis
a água milagrosa, um remédio para a prisão de ventre ou
a arteriosclerose. Eu não sou um banco de j ardim nem um
chafariz público, ou sou ? Já agora, é apenas um pormenor,
mas a tal água milagrosa acabou por se revelar cancerígena.
Má para o fígado. Pior ainda para o pâncreas.
Ele riu ao dizer isto, mas sem prazer.
Se estas personagens não tivessem ido de comboio ou au­
tocarro para beber água de Saratoga, teriam comido ou be­
bido algo igualmente letal em Flatbush ou Brownsville. Não
é possível enumerar os infindos perigos do tabaco, dos con­
servantes n o s alimentos, d o a m i a n t o , dos p e stici d a s -
a E. coli do frango cru nas mãos dos empregados de cozinha.
- Não há nada de mais burguês do que o medo da mor­
te - diria Ravelstein.
Ele pregava estes pequenos antissermões num estilo pica­
· resco. Lembrava aqueles bonecos de pano, p a lhaços dos
anos 2 0 que acenavam com os seus longos braços moles,
RAV E LSTEIN 57

sem vida, e enormes sorrisos pintados nos seus rostos bran­


cos. Assim, « coexistiam » , para usar um termo da política do
século xx, em Ravelstein as suas preocupações sérias com
a sua bufonaria. Só os amigos lhe conheciam esta faceta. Ele
conseguia ser correto nas ocasiões sérias, não como uma
concessão à mesquinhez académica, mas porque havia ques­
tões reais a serem consideradas - a s s untos relacionados
com o sentido da nossa existência: digamos, a ordem correta
da alma humana - e aí ele era tão estável e digno de con­
fiança como qualquer um dos maiores e mais profundos
educadores . Ravelstein era duro e vigoroso. Não obstante,
mesmo quando expunha um dos seus diálogos platónicos, se
permitir uma ou outra piada.
- Sim, eu faço de pitre - dizia por vezes.
- O palhaço rico.
- O bufão.
Ambos tínhamos vivido em França. Os franceses eram
genuinamente educados - ou tinham sido, em tempos. Nes­
te século tinham apanhado uma dura sova. Contudo, ainda
possuíam uma intuição real para as belas coisas, para o lazer,
para ler e conversar; eles não desprezavam as necessidades
do corpo, as necessidades humanas básicas. Nunca deixo de
reconhecer isto aos franceses.
Em qualquer rua podíamos comprar uma baguette, um
par de cuecas taille grand patron, ou cervej a ou brandy ou
café ou charcuterie. Ravelstein era ateu, mas não havia ra­
zão para um ateu não ser influenciado pela Sainte-Chapelle,
não ler Pascal. Para um homem civilizado não havia vivên­
cia, atmosfera, como a parisiense. Pela minha parte, tinha­
-me sentido bastantes vezes desprezado e maltratado pelos
franceses. Nunca considerei Vichy um mero produto da ocu­
pação nazi. Eu tinha as minhas próprias opiniões acerca da
colaboração e do fascismo.
SAUL B E LLOW

- Não sei se é o teu nervosismo judaico ou a tua necessi­


dade exacerbada de te sentires bem-vindo - disse Ravelstein.
- Ou talvez sintas que os franciús são mal agradecidos. Não
acredito que sej a difícil provar que Paris é um lugar melhor
que Detroit ou Newark ou Hartford.
Era um desentendimento menor, que não envolvia gran­
des princípios. O Abe tinha excelentes amigos em Paris. Era
bem recebido pelas écoles e instituts onde dava conferências
sobre temas franceses com o seu sotaque francês. Ele próprio
tinha estudado em Paris, anos antes, com o famoso hegelia­
no e alto funcionário Alexander Koj eve, que educara uma
geração inteira de pensadores e escritores influentes . Entre
estes, o Abe tinha um bom punhado de amigos, admirado­
res, leitore s . Nos Estados Unidos, era controverso . Tinha
mais inimigos lá do que qualquer pessoa normal desej aria,
sobretudo entre os cientistas sociais e os filósofos.
Mas eu tenho destas coisas apenas o conhecimento limi­
tado que um leigo pode ter. O Abe Ravelstein e eu éramos
amigos íntimos . Vivíamos na mesma rua, e estávamos em
contacto quase diário. Eu era habitualmente convidado para
assistir aos seus seminários e para discutir literatura com. os
estudantes graduados . Nos velhos tempos, ainda havia uma
comunidade literária considerável no nosso país, e medicina
e direito ainda eram « as profissões eruditas » , mas hoje j á
não podemos contar que, numa cidade americana, o s médi­
cos, advogados, homens de negócios, j ornalistas, políticos,
personalidades televisivas, arquitetos ou comerciantes sai­
bam discutir os romances de Stendhal ou os poemas de Tho­
mas Hardy. Ocasionalmente, cruzamo-nos com um leitor de
Proust ou um excêntrico que memorizou páginas inteiras do
Finnegan 's Wake. Eu gosto de dizer, quando me perguntam
se li o Finnegan, que o estou a guardar para a casa de repou­
so. Mais vale entrar na eternidade com Anna Livia Plurabelle
do que com os Simpsons a asneirar no ecrã de TV.
RAVELSTEI N 59

Pergunto-me que termos aplicar ao espaçoso e confortá­


vel apartamento de Ravelstein - à sua base de comando no
Midwest. Seria e r r a d o d e s c revê - l o como um santuári o :
o Abe não era d e modo algum um fugitivo. Nem um solitá­
rio. Na verdade, ele tinha uma boa relação com a sua vizi­
nhança americana. As j anelas proporcionavam-lhe uma vista
larga da cidade. Nos últimos anos, raramente tinha de usar
os transportes públicos, mas sabia desenvencilhar-se, falava
a linguagem da cidade. Jovens negros paravam-no na �ua pa­
ra lhe perguntar onde tinha comprado o sobretudo, o cha­
péu. Estavam familiarizados com a moda mais sofisticada .
Falavam com ele de Ferré, Lanvin, sobre a loj a em Jermyn
Street onde ele mandava fazer as camisas.
- Estes j ovens - explicava - adoram a alta-costura. As
roupas extravagantes e outras vulgaridades pertencem ao
passado. São também extremamente exigentes com os auto­
móveis.
- E também talvez com relógios de vinte mil dólares.
E quanto a pistolas ?
- Até mesmo as mulheres negras me param na rua para
comentar o corte dos meus fatos - disse Ravelstein, rindo.
- Têm uma excelente intuição.
O seu coração pendia para tais conhecedores, amantes da
elegância.
A admiração dos adolescentes negros ajudava Ravelstein
a lidar com o ódio dos seus colegas, dos professores. O su­
cesso popular do seu livro enfurecera os académicos. Ele ex­
pusera as falhas do sistema do qual faziam parte, o vazio do
seu historicismo, a sua permeabilidade ao niilismo europeu.
Um resumo da tese era que, enquanto se conseguia obter nos
60 SAUL BELLOW

EUA um excelente preparação técnica, a educação humanísti­


ca tinha sido reduzida ao ponto de praticamente se desvane­
cer. Estávamos ao serviço da alta tecnologia, que transformara
o mundo moderno. A geração mais velha poupava para possi­
bilitar aos filhos o acesso à educação. O custo de uma licencia­
tura chegava aos cento e cinquenta mil dólares. Os pais bem
podiam ter antes deitado esse dinheiro pela sanita, acredita­
va Ravelstein. Não era possível obter uma verdadeira educa­
ção nas universidades americanas, exceto para engenheiros
aeronáuticos, técnicos de informática, coisas do género. As
universidades eram excelentes em biologia e nas ciências físi­
cas, mas em humanidades eram um fiasco. O filósofo Sidney
Hook dissera a Ravelstein que a filosofia estava acabada.
- Temos de arranj ar emprego para os nossos licenciados
como consultores de ética nos hospitais - admitira Hook.
O livro de Ravelstein não era de todo disparatado. Tives­
se ele sido um provocador balofo e seria fácil não lhe ligar.
Mas não, ele era sensato e bem informado, os seus argumen­
tos estavam solidamente documentados. Todos os cretinos
emproados se uniram contra ele (como Swift ou talvez Pope
disseram há muito tempo) . Se tivessem os poderes do FBI, os
professores teriam colocado Ra velstein nos cartazes dos
« mais procurados » , como havia nos edifícios públicos.
Ele tinha passado por cima dos profes e da comunidade
letrada para falar diretamente ao grande público. Havia, afi­
nal d e conta s , milhões de p e s s o a s à espera d e um s i n a l .
E muitas com u m diploma universitário.
Quando os colegas ultraj ados por Ravelstein o atacaram,
ele disse que se sentiu como aquele general americano cerca­
do pelos nazis - teria sido Remagen ? Quando lhe ordena­
ram que se rendesse, a sua resposta fora «Vão bardamerda ! »
Ravelstein estava perturbado, claro; quem não o estaria ? E ele
RAVELSTEIN 6I

não podia esperar ser salvo por um qualquer Patton acadé­


mico. Podia confiar nos amigos e, claro, tinha gerações de
estudantes do seu lado, bem como o apoio da verdade e dos
valores. O livro fora bem recebido na Europa. O s ingleses
estavam tentados a olhá-lo de cima. As universidades encon­
traram erros, algumas delas, no seu grego . M a s quando
Margaret Thatcher o convidou para um fim de semana em
Chequers, ele ficou «aux anges » ( Chequers era divino: o Abe
preferia as expressões francesas às americanas; ele não dizia
« um mulherengo » mas « un homme à femmes » ). Até mesmo
gente de esquerda - mas inteligente - estava do lado dele.
Em Chequers, a senhora Thatcher chamou-lhe a atenção
para um quadro de Ticiano: um leão a rugir preso numa re­
de. Um rato estava a roer as cordas para libertar o leão. ( Se­
ria uma das fábulas de Esopo ? ) Este pormenor tinha ficado
perdido durante séculos, na sombra e sob a poeira acumula­
da. Um dos grandes homens do século, o estadista Winston
Churchill, tinha, com os seus próprios pincéis, restaurado
o mítico rato.
Quando regressou de Inglaterra, o Abe contou-me tudo
no seu próprio boudoir (um ateliê não era de certeza) . Ele ti­
nha alguns quadros, da autoria de artistas franceses, menores,
mas de qualidade. Alguns eram bastante bons. O maior era
uma Judite com a cabeça de Holofernes, um quadro bastante
sangrento. Ela segurava Holofernes pelos cabelos . Os olhos
dele estavam voltados para cima, semicerrados, o olhar dela
era calmo, puro, beato. Por vezes eu ponderava que ele nun­
ca se dera conta do que o atingira. Há maneiras piores de ir
desta para melhor. De vez em quando eu perguntava a Ra­
velstein por que tinha ele escolhido este quadro para domi­
nar o boudoir.
- Não há razão nenhuma em especial - dizia.
SAUL BELLOW

- Tudo o que vemos tra duzimos para a linguagem de


Freud. Afinal, o que está a ser banalizado, o seu vocabulário
ou as nossas observações ?
- Podes sempre recusar-te a ser cooptado.
Ele não era grande conhecedor do que o s americanos
chamam « as artes visuais » . Os quadros estavam ali porque
as paredes tinham sido feitas para as pinturas e as pinturas
para as paredes. O apartamento estava luxuosamente mobi­
lado, e tinham de ser pendurados os quadros adequad o s .
Quando o dinheiro começou a chegar, ele substituiu todas a s
« velhas » c o i s a s . Não e r a m v e l h a s d e todo . E r a m apenas
compras mais antigas, e mais baratas . Mesmo quando ape­
nas vivia com seu salário da universidade, comprara sofás
caros, bom mobiliário italiano, com dinheiro emprestado pe­
los amigos . Quando subiu ao topo da lista de best-sellers,
deu tudo a Ruby Tyson, a mulher negra que vinha duas ve­
zes por semana fazer a limpeza. Ele tratou da mudança, cla­
ro, e pagou o transporte. Precisava urgentemente do espaço
e todo o tempo era pouco.
Devo dizer que os deveres de Ruby eram bastante suaves.
Ela polia as pratas de Ravelstein, lavava o serviço de mesa
azul e branco Quimper, e os cristais de Lalique prato a prato,
copo a copo. Não passava nada a ferro - as camisas eram la­
vadas pelo American Trustworthy Home-delivery Service. Tu­
do menos as gravatas. Essas eram enviadas via correio expres­
so aéreo para um especialista de seda em Paris.
Novos tapetes e mobília chegavam continuamente - to­
dos os serviços de talheres, as escrivaninhas chinesas, có­
modas, eram provavelmente passados por Ruby para as suas
filhas e netos. Era uma velha mulher religiosa, com uma for­
malidade muito sulista quando atendia o telefone. Era uma
presença leal no lar. Ele sabia bem com quem lidava e não
RAVELSTEIN

tinha ilusões quanto a ser admitido na intimidade, acolhido


na alma de uma respeitável pessoa negr a . Além disso, ela
trabalhara no bairro universitário por mais de meio século
e tinha muito para lhe contar acerca dos armários dos lares
académicos. Alimentava o apetite de Ravelstein pela coscuvi­
lhice. Ele odiava a própria família e nunca se cansava de tentar
afastar os jovens estudantes das suas famílias. Os estudantes,
como eu disse, tinham de ser curados dos equívocos desastro­
sos, das « irrealidades estereotipadas » que lhes tinham sido im­
postas por pais mentecaptos.
Aqui levantam-se algumas dificuldades de apresentação.
Não queremos confundir Ravelstein com um desses « espíri­
tos independentes » , comuns nos meus próprios tempos de
estudante. O obj etivo dessa gente era tornar-nos conscientes
da educação burguesa da qual o estudo nos devia li bertar.
Estes professores independentes ofereciam-se a si próprios
como modelos, por vezes viam-se a si próprios como revolu­
cionários. Falavam em j argão j uvenil. Tinham rabos de cava­
lo, deixavam crescer a barba. Eram hippies e boémios com
o título de professor doutor.
Ravelstein não tinha esse tipo de comportamento - na­
da que pudéssemos facilmente imitar. Não nos era possível
começar a apreciá-lo sem estudar, sem aprender, sem efetuar
os exercícios esotéricos de interpretação por que ele próprio
tinha passado com o seu velho mestre, o famoso e controver­
so Felix Davarr.
Por vezes tento colocar-me no lugar de um j ovem dotado
do Oklahoma ou do Utah ou de Manitoba convidado para
se j untar a um pequeno grupo de estudo no apartamento de
Ravelstein, a subir o elevador, para encontrar a porta escan­
carada, tendo então as suas primeiras impressões do habitat
de Ravelstein - os enormes e gastos ( por vezes j á todos
a desfiarem-se ) tapetes orientais, os quadros, as estatuetas
SAUL B EL LOW

clássicas, os espelhos, as vitrinas, os aparadores franceses an­


tigos, os candeeiros Lalique e as lâmpadas na parede. O sofá
de cabedal preto da sala era enorme, baixo . O tampo de
vidro da mesinha de café em frente do sofá tinha uma espes­
sura de mais de dez centímetros. Em cima, Ravelstein espa­
lhava por vezes os seus gadgets - a caneta Mont Blanc de
ouro maciço, o relógio de vinte mil dólares, o utensílio dou­
rado com que cortava os Havanos de contrabando, a caixa
de cigarros XL cheia de Marlboros, os isqueiros Dunhill, os
pesados cinzeiros quadrados - os cigarros neuroticamente
fumados uma ou duas vezes e depois quebrados. Montes de
cinza. Junto à j anela, num parapeito, quase a cair, um com­
plicado aparelho de telefone cheio de botões - o posto de
comando do Abe, operado por ele próprio com a precisão de
um perito. Tinha uso. Paris e Londres chamavam com quase
tanta frequência como Washington. Alguns dos seus amigos
de Paris ligavam para fofocar sobre assuntos íntimos - es­
cândalos sexuais. Os estudantes que o conheciam melhor
retiravam-se discretamente quando ele lhes fazia sinal, um
cigarro entre os dedos. Fazia perguntas precisas, em voz bai­
xa, e, quando escutava, a sua cabeça calva descaía frequente­
mente para trás, sobre as almofadas de couro, os olhos por
vezes semicerrados, absortos, a boca entreaberta - os pés
nos chinelos quase tocando sola contra sola. A todo o instante
estava a pôr os cn de Rossini no volume máximo. Tinha uma
paixão extraordinária por Rossini e também pela ópera do sé­
culo XVIII. A música barroca italiana tinha de ser tocada com
os instrumentos antigos originais. Pagara preços altíssimos pe­
la aparelhagem de alta-fidelidade. Não achava demasiado ca­
ro pagar dez mil dólares por cada amplificador.
Acima e abaixo dele, quer gostassem quer não, três anda­
res no edifício tinham de ouvir Frescobaldi, Corelli, Pergole­
si, A Italiana em Argel. Quando os vizinhos batiam à porta
RAVE LSTEIN

a queixar-se, ele sorria e dizia-lhes que, sem música, não nos


era possível apreciar o que a vida oferecia, e que o melhor
que tinham a fazer era submeter-se e escutar. Mas prometia
arranj ar mais insulamento entre os pisos e, na verdade, con­
tactara um técnico de insonorização.
- Gastei dez mil dólares num sistema de insonorização
Kapok e ainda assim os quartos não estão insonorisées.
Mas, quando fazia a lista dos vizinhos, não havia um
único que ele respeita sse. Anotava os argumentos, estava
preparado para os explicar. Tinha uma frase sobre cada um
dos vizinhos - típicos pequeno-burgueses dominados por
medos secretos, cada um deles um templo de amour propre,
congeminando formas de persuadir todos os outros da ima­
gem que queriam ter de si próprios; personalidades desprovi­
das do mínimo interesse (um termo melhor do que « almas »
- podíamos lidar com as personalidades, mas contemplar
as almas desta gente era algo que quereríamos evitar a todo
o custo ) . Nenhuma razão para viver senão vanglória e estu­
pidez - lealdade zero para com a nossa comunidade, ne­
nhum amor pela polis, incapazes de gratidão, sem nada por
que pudessem arriscar a vida. Porque, não esquecer, as gran­
des paixões eram antinómicas. E as grandes figuras do he­
roísmo pairando terrivelmente sobre as nossas cabeças eram
muito distintas do homem da rua, do nosso contemporâneo
« normal » . O apreço de Ravelstein pelas pessoas com quem
lidava diariamente tinha sempre este fundo de um grande
amor ou de uma cólera infinita. Ele costumava recordar-me
de que « cólera » se encontrava na primeira frase da Ilíada -
menin Achileos. Por aqui se veem as linhas mestras das cren­
ças mais profundas de Ravelstein. Os maiores heróis de sem­
pre, os filósofos, tinham sido - e seriam sempre - ateus .
Depois dos filósofos, na hierarquia de Ravelstein, vinham os
66 SAUL BELLOW

poetas e os homens de Estado. Os enormes historiadores co­


mo Tucídides. Os génios militares como César - «o maior
homem que alguma vez viveu dentro das correntes do tem­
po » - e, j unto a César, Marco António, brevemente seu su­
cessor, «O triplo pilar da Terra » que colocou o amor acima
da política do império. Ravelstein era fascinado pela antigui­
dade clássica. Preferia Atenas, mas respeitava bastante Jeru­
salém.
Estas eram algumas das suas crenças fundamentais, e as
fundações da sua vocação de professor. Se deixar de lado no
meu relato este aspeto da sua vida, o que fica são apenas as
excentricidades, as vaidades, os gags, as gargalhadas estri­
dentes, a marche militaire que encetava quando atravessava
o pátio no seu enorme sobretudo de couro forrado de peles
- eu apenas sabia da existência de um outro casaco assim.
Gus Alex, um assassino profissional e mafioso, vestia um be­
líssimo casaco de marta em Lake Shore Drive, onde vivia, e
onde passeava o seu cachorrinho.
Dizia-se que os alunos de Ravelstein recebiam dele uma
« descarga de energia » - que ele era um ponto. A descarga,
contudo, só superficialmente é que era engraçada ou diverti­
da - no fundo era transmitida uma energia vital . Fossem
quais fossem as excentricidades, os alunos alimentavam a
sua energia, e esta energia era-lhes redistribuída, dissemina­
da, aplicada.
Estou a fazer o que posso com os factos. Ele vivia pelas
suas ideias . O seu saber era real, e ele podia documentá-lo,
capítulo e verso. Ele estava aqui para· aj udar, para esclare­
cer e comover e para ter a certeza, dentro das suas possi­
bilidades, de que a grandeza da humanidade não se evapora­
ria totalment.e no bem-estar burguês, etc. Não havia nada
de vulgar na vida de Ravelstein. Ele não aceitava o vazio e o
a borrecimento . Tão-pouco a depressão era tolerada. Não
RAVELSTEIN

pactuava com maus estados de espírito. Quando tinha pro­


blemas, eram físicos. Houve uma altura em que os seus proble­
mas de dentes se tornaram sérios. Foi persuadido na clínica da
universidade a pôr implantes; estes iam até à raiz das gengivas,
até ao osso do queixo . A operação correu mal e ele sofreu
agonias nas mãos do cirurgião. Ficava acordado toda a noi­
te. Depois tentou tirar os implantes e isto foi ainda mais do­
loroso do que a sua colocação.
- Isto é no que dá em fazer uma aproximação tipo car­
pinteiro à cabeça humana - disse-me.
- Devias ter ido a Boston tratar disto. O s cirurgiões-
-dentistas de Boston são considerados os melhores.
- Nunca te ponhas nas mãos de especialistas medíocres.
Serás sacrificado no altar das suas . . . aah . . . técnicas.
Era impaciente com a higiene. Não havia conta para os
cigarros que acendia num só dia. A maior parte esquecia-os,
ou quebrava-os. Ficavam caídos nos imperiais cinzeiros de
vidro, como pedaços de giz. Mas o seu organismo era imper­
feito. A sua desordem biológica era um dado adquirido - os
pulmões e o coração irregulares, maltratados . Todavia, pro­
longar a sua vida não era um obj etivo de Ravelstein. O risco,
o limite, a mão da morte, estavam presentes em cada mo­
mento da vida. Quando tossia, ouvíamos o eco dos desaba­
mentos no fundo de uma mina .
Deixei de lhe perguntar o que acontecera aos implantes
na sua mandíbula. Assumi que havia dores de quando em
quando, e considerei isto como parte do cenário psicofisioló­
g1co.
Irregular nos hábitos e horários, raramente tinha uma noi­
te inteira de sono . A preparação das aulas mantinha-o fre­
quentemente acordado. Para conduzir os alunos do Oklaho­
ma, do Texas ou do Oregon através de um diálogo platónico,
68 S A U L B ELLOW

necessitamos de qualidades excecionais, bem como de um


conhecimento esotérico . O Abe não era um madrugador.
Nikki, por seu lado, via filmes de k u ng fu d ur ante toda
a noite e ficava habitualmente a dormir até às duas da tarde.
Tanto o Abe como Nikki eram fãs de basquete b o l . Rara­
mente perdiam os Chicago Bulls na N B C .
Quando havia um j ogo importante, Ravelstein convidava
os seus alunos graduados para o apartamento. Encomendava
pizas. Dois rapazes, carregando montes de caixas, batiam
à porta. O átrio de entrada ficava povoado pelos cheiros in­
tensos dos orégãos, tomates, queij o tostado, chouriço e an­
chovas. Nikki presidia à partição, com uma lâmina rolante de
cortar piza. As fatias eram servidas em pratos de plástico. Ro­
samund e eu comíamos sanduíches preparadas por Ravçlstein
com mãos ansiosas, trémulas, e exclamações eufóricas. Havia
como que uma demonstração de perícia no passar das bebi­
das, como se ele estivesse em cima de um arame com uma
bandej a de copos cheios até às bordas. Não era boa ideia in­
terrompê-lo nessa altura.
O telemóvel estava habitua lmente a sair do b o l s o do
Abe. Não me consigo recordar de que chamada ele estava
à espera numa dessas ocasiões. Talvez uma das suas fontes
tivesse informação confidencial sobre a decisão final do pre­
sidente Bush de pôr termo à guerra do Iraque. Tenho a vaga
memória do presidente - rosto longo, magro e alto - inter­
rompendo intermitentemente a transmissão dos preparativos
para o j ogo no campo de basquetebol. Vastas bancadas de
espetadores, todas iluminadas, todas brilhantemente colori­
das, Michael Jordan, Scottie Pippen, Horace Grant, metendo
cestos de aquecimento. O senhor Bush, igualmente alto, mas
sem beleza nos movimentos. Era capaz de não ser o Iraque,
mas uma outra crise qualquer. Sabe-se como é a televisão:
não se consegue distinguir as guerras dos j ogos da N B A -
RAVELSTE I N

desporto, a volúpia de ser superpotência, as operações milita ­


res altamente tecnológicas; tudo isto tocava muito Ravelstein.
Se ele falava de Maquiavel e da melhor maneira de lidar com
um inimigo derrotado, era porque era um professor até à es­
sência do seu ser. Havia também flashes noticiosos com o
general Colin Powell e Baker, o secretário de Estado. E d e ­
pois o breve amortecer das luzes intensas - e, logo e m se ­
guida, o regresso dramático da iluminação total.
Tudo isto lembrava as manifestações de massa organiza­
das e encenadas pelo coreógrafo de Hitler, Albert Speer: o s
eventos desportivos e a s manifestações fascistas de mass a
roubavam-se ideias mutuamente . Os j ovens pupilos de Ra­
velstein tinham um conhecimento apurado de basquetebol .
Em Michael Jordan encontravam, é claro, u m génib p a r a
apreciar. O próprio Ravelstein sentia uma empatia profund a
e vital com Jordan, o artista. Ele costumava dizer que o bas­
quetebol era, j unto com o jazz, uma· das mais significativas
contribuições negras para a elevação do país - para o seu
carácter especificamente americano. Tanto quanto os tourei­
ros em Espanha ou os tenores na Irlanda ou os Nij inskys na
Rússia, assim eram os defesas e os avançados nos Estados
Unidos. Nessa noite, de qualquer modo, o presidente Bush
tinha dado um triunfo aos Estados Unidos; e Ravelstein, co­
mentando os militares, observou quão valiosos eles eram
para o país e para o exército - como falavam bem frente às
câmaras e como dominavam a técnica, o bem que conhecia m
o seu dever. Nisto ele reconhecia mérito ao Pentágono.
Por diversas razões, Ravelstein apreciava soldados. Fala­
va com emoção do piloto abatido no norte do Vietname que
feriu e amolgou o próprio rosto, que deliberadamente partiu
a cana do nariz contra a parede da cela. Fez isto quando lhe
disseram que iria ser filmado com outros prisioneiros na TV
de Ho Chi Minh a fim de denunciar o imperialismo americano.
70 SAUL B ELLOW

Nas suas festas de basquetebol, Ravelstein passava fatias


de piza aos estudantes convidados, a cabeça calva voltada
para o ruidoso televisor a cores atrás de si. O seu grupo,
a sua tribo, os seus discípulos, os seus clones que vestiam co­
mo ele, que fumavam os mesmos Marlboros, e viam nestes
serões um elo comum entre os clubes de fãs da infância e a
Terra Prometida do intelecto ao qual Ravelstein, feito Moi­
sés e Sócrates, os conduzia. Michael Jordan era agora uma
figura de culto americana - havia crianças que guardavam
os restos das maçãs que ele comia como se fossem relíquias.
Uma cruzada de crianças é possível, mesmo na época atual.
Jordan, segundo os j ornais, tinha poderes « biónicos » . Podia
ficar suspenso no ar fora do alcance dos defesas, e conse­
guíamos seguir-lhe os intentos nos seus atos, com tempo su­
ficiente para mudar de mão enquanto planava - um ho­
mem que ganhava oitenta milhões p o r ano, já não uma
figura de culto mas um herói que tocava os corações das
massas.
Inevitavelmente, Ravelstein era visto pelos j ovens que
educava como o equivalente intelectual de Jordan. O homem
que, como mais ninguém, os introduzia ao poder e às subti­
lezas de Tucídides e analisava o papel de Alcibíades na cam­
panha da Sicília - um homem que expunha o Górgias no
seu seminário , literalmente em frente das fá bricas de aço
e das pilhas de cinza e das ruas suj as de Gary, Indiana, os
remos indo e vindo sobre as águas - também se podia sus­
pender no ar, levitar, tal qual Jordan. Este homem de idios­
sincrasias e manias, de uma avidez p atética por bombons
e rebuçados ou charutos cubanos ilegais, era ele próprio um
prodígio homérico.
Ravelstein, o anfitrião, aproximava-se agora com uma
travessa de queijos, dizendo:
RAVELSTEIN 71

- E que tal provarem agora um pouco deste cheddar de


Vermont ? - enquanto enfiava, com inépcia, a faca no Ca­
bot extraforte de quilo e meio, com descargas nervosas e in­
controláveis nos dedos.
Quando o telemóvel enfiado no bolso das calças tocava,
ele retirava-se para trocar uma ou duas palavras com Hong
Kong ou o Havai. Um dos seus informadores estava a enviar
um relatório. Nunca havia violações da segurança. Informa­
ções mesmo secretas, ele nunca ouvia nem pedia para ouvir.
O que ele adorava era ter os j ovens que formara colocados
em postos importantes; a vida real confirmando a avaliação
que ele fizera deles. Ausentava-se com o telemóvel e d epois
regressava para o pé de nós, para dizer:
- Colin Powell e Baker aconselharam o presidente a não
ir com as tropas até Bagdad. Bush vai anunciar isto amanhã.
Receiam algumas baixas. Enviam um exército formidável
e dão uma demonstração da mais sofisticada tecnologia mili­
tar contra a qual a carne e osso nada podem. Mas depois
deixam a ditadura de pé e pisgam-se.
D ava a Ravelstein a maior satisfação conhecer os basti­
dores dos acontecimento s . Como a criança n o poema de
Lawrence sentada sob « um grande piano negro appassio­
nato » .
- Bem, foram a s últimas do Departamento d a Defesa.
A maior parte de nós sabia que a sua principal fonte era
Philip Gorman. O pai catedrático de Gorman tinha-se opos­
to grandemente a o s seminários de Ravelstein nos q u a i s
Philip s e inscrevera. Professores respeitáveis d e teoria políti­
ca tinham dito ao velho Gorman que Ravelstein era chanfra­
do, que seduzia e corrompia os estudantes.
- O pater-familias foi avisado para se precaver contra
o viola-famílias - disse Ravelstein.
72 SAUL B E L LOW

Claro que o velho Gorman era demasiado rígido para es­


tar grato por o filho não ter ido para gestão de empresas,
acrescentou o Abe.
- Bem, Philip é agora um dos mais influentes conselhei­
ros do secretário de Estado. Tem uma mente poderosa e uma
noção clara da alta política, este rapaz, enquanto os colecio­
nadores de estatísticas são tão vulgares como amendoins.
O j ovem Philip era apenas um dos rapazes que Ravelstein
educara ao longo de trinta anos. Os seus pupilos tinham-se
tornado historiadores, professores, jornalistas, especialistas, al­
tos funcionários, consultores. Ravelstein produzira (endoutri­
nara) três ou quatro gerações de estudantes. Mais do que isso,
os seus j ovens adoravam-no. Eles não se limitavam às suas
doutrinas, interpretações, imitavam também os seus modos
e tentavam falar e agir como ele - livre, intensa, violentamen­
te, com um brilhantismo o mais próximo possível que podiam.
Os mais j ovens - e os que podiam pagar aqueles preços -
também compravam as suas roupas em Lanvin ou Hermes,
mandavam fazer as camisas em Jermyn Street por Turnbull &
Asser ( «Kisser & Asser » , na minha versão) . Fumavam com os
mesmos gestos erráticos de Ravelstein. Tocavam os mesmos
discos compactos. Ele curava-os do seu gosto pelo rock e ago­
ra escutavam Mozart, Rossini ou, ainda mais antigos, Albino­
ni e Frescobaldi ( « nos instrumentos originais » ) . Vendiam as
coleções dos Beatles e dos Grateful Dead e, em vez deles, ou­
viam Maria Callas a cantar La Traviata.
- É só uma questão de tempo até o Phil Gorman ser
chefe de gabinete, e isso será excelente para o país - Ravel­
stein dera uma boa educação aos seus rapazes, nesses tem­
pos degradados. - A quarta vaga da modernidade.
Podia ser-lhes confiada informação confidencial, os se­
gredos de Estado que naturalmente eles não passariam ao
RAVELSTEIN 73

professor que lhes tinha aberto o s olhos para a « Grande Po­


lítica » . Era possível vermos as mudanças que a responsabili­
dade lhes tinha suscitado. As cabeças estavam mais firmes
e maduras . Tinham toda a razão em sonegar informação.
Eles sabiam bem o quanto ele era mexeriqueiro . Mas ele
próprio tinha segredos importantes para guardar, informa­
ção de uma natureza privada e perigosa que apenas a alguns
podia confiar. Ensinar, tal como Ravelstein o entendia, era
uma atividade perigosa. Não podíamos deixar que os factos
fossem conhecidos na generalidade. Mas, a menos que os
factos fossem conhecidos, não era possível viver verdadeira­
mente . Por isso tomávamos as nossas decisões com · o cui­
dado de um reloj oeiro . Havia duas pessoas em Paris que o
conheciam intimamente e três deste lado do Atlântico. Eu
era uma delas. E quando me pediu para escrever uma « Vida
de Ravelstein » , coube-me a mim interpretar os seus desej os
e decidir até onde eu ficava livre pela sua morte para respei­
tar o essencial - ou a inclinação d a d a pelo meu tempe­
ramento e pelas minhas emoções a esse essencial, a minha
versão contraditória desse essencial. Suponho que ele pensou
que isso não �inha real importância, porque já não estaria
cá, e nada lhe poderia interessar menos do que a sua reputa­
ção póstuma.
O j ovem Gorman, podemos estar certos, filtrava a infor­
mação que passava a Ravelstein. Não lhe diria mais do que
os dados da conferência de imprensa do dia seguinte . Mas
ele sabia o prazer que dava ao velho professor receber a in­
formação interna, e assim fazia-lhe relatórios, por afeiçoa­
mento e respeito. Sabia também que Ravelstein tinha montes
de informação histórica e política para atualizar e manter.
Isto i a tão longe como a Platão e Tucídides - talvez até
Moisés. Todas aquelas grandes visões do que era dirigir um
Estado - desde as origens, através de Maquiavel, via Severo
74 S A U L BELLOW

ou Caracalla. E era necessário encaixar as decisões de última


hora na guerra do Golfo - tomadas por po líticos obvia­
mente limitados, como Bush e Baker, num cenário tão real
quanto possível das forças em ação - na história política
desta civilização. Quando Ravelstein dizia que o j ovem Gor­
man tinha « uma noção clara da alta política » , era algo deste
género que ele tinha em mente.

Em qualquer oportunidade, ao mínimo pretexto razoá­


vel, Ravelstein dava um salto através do Atlântico até Paris.
Isto não significava no entanto que não fosse feliz na zona
urbana do interior. Estava ligado à universidade, onde se
tinha doutorado sob a direção do grande Davarr. Era um
americano até à raiz.
Eu crescera na cidade, mas a família de Ravelstein não
chegara do Ohio senão no fim dos anos 3 0. Nunca conheci
o pai, que Ravelstein me descrevia como um ogre de brin­
quedo, um pequeno homem iracundo e um déspota neuróti­
co. Um desses pequenos tiranos que controlam os filhos com
gritos dementes, numa espécie de ópera familiar em sessões
contínuas.
A universidade aceitava estudantes de liceu que conse­
guissem passar os exames de admissão. Ravelstein foi aceite
aos quinze anos e ficou então livre do pai e de uma irmã que
ele detestava quase tanto. Conforme eu disse, ele gostava da
mãe . Mas na universidade ficou livre de todos os Ravel­
steins.
- A minha verdadeira vida intelectual começou ali. Para
mim não havia nada melhor do que os lares de estudantes
onde eu aterrava. Nunca percebi o que havia de tão terrível
em « apodrecer numa casa alugada » , como escreveu Eliot.
Apodrecemos melhor numa casa própria ?
RAVELSTEIN 75

Ainda assim, sem ser invej oso ( nunca tive conhecimento


de Ravelstein invejar alguém) , ele tinha um fraco por ambien­
tes agradáveis e gostava de se imaginar a viver num daqueles
apartamentos anódinos antigamente ocupados exclusiva­
mente por professores cristã os, protestantes e . . . branco s .
Quando regressou à universidade como professor associado
após duas décadas em universidades menos qualifica d a s ,
ocupou u m apartamento d e quatro assoalhadas no edifício
mais cobiçado de todos. A maioria das j anelas dava para um
pátio impessoal, mas a oeste podia ver o campus, com as
suas espirais góticas em pedra de Indiana, os laboratórios, os
dormitórios, os edifícios centrais. Podia ver a torre da capela
- uma espécie de colosso de Bismarck com sinos cuj o eco
chegava bem para lá do complexo universitário . Quando
Ravelstein se tornou uma figura nacional (e também interna­
cional - só os seus direitos de autor j aponeses eram, conta­
va com satisfação e sem qualquer modéstia, « ferozes » ) -
mudou-se para um dos melhores apartamentos na zona .
Agora tinha vista em todas as direções. A falecida senhora
Glyph, que o menosprezara por beber cola da garrafa no seu
banquete em homenagem a T. S. Eliot, não estivera mais
bem situada .
Curiosamente, havia no apartamento um tom de retiro
monástico. Entrávamos sob tetos com abóbadas. O átrio ti­
nha as paredes revestidas de mogno. Os elevadores pareciam
confessionários. Cada piso tinha um pequeno átrio com lajes
no chão e um candeeiro gótico pendurado do teto . À porta
de Ravelstein, havia com frequência uma peça de mobília
posta fora, desaloj ada por uma qualquer nova aquisição -
uma escrivaninha, um pequeno armário, um bengaleiro, uma
pintura de Paris acerca da qual ele começava a ter algumas
dúvidas. Ravelstein não podia competir com a coleção de
Matisses ou Chagalls dos Glyphs, iniciada nos anos 20. Mas
SAUL BELLOW

na cozinha foi bem mais longe que eles. Comprou uma má­
quina de café expresso a uma companhia de fornecimento
a restaurantes. Ficou instalada na cozinha, dominando o lava­
-louças, e fumegava e apitava explosivamente. Eu recusava-me
a beber o seu café porque era feito com água da torneira cheia
de cloro . A enorme máquina comercial tornava impossível
usar o lava-louças. Mas Ravelstein não precisava de lava-lou­
ças para nada - apenas a máquina de café importava.
Ele e Nikki dormiam em lençóis de Pratesi e sob peles de
angorá magnificamente tratadas. Ele tinha a perfeita cons­
ciência de que este luxo todo era cómico. Era invulnerável às
acusações de que era também a bsurdo . Ele não ia ter uma
vida longa. Estou inclinado a pensar que tinha ideias homé­
ricas sobre ser ceifado cedo . Não estava inclinado a aceitar
algumas décadas de decadência, não com o seu apetite pela
existência e o seu excecional dom para visões globais. Não
era só o dinheiro - o seu grande golpe de asa com o best­
-seller - que tornava aquilo possível; era a sua habilidade
comprovada nas guerras mentais - a posição que ocupava,
as lutas que provocava, as suas disputas com os senhores da
guerra classicistas e historiadores de Oxford. Ele estava se­
guro de si mesmo, como De Gaulle dissera acerca dos j u­
deus. Adorava uma boa polémica.
Rosamund e eu vivíamos naquela mesma rua num edifí­
cio que nos lembrava a linha Maginot. Os nossos quartos
não eram tão esplêndidos como o apartamento monástico­
-luxuoso de Ravelstein. Eram encafuados, mas eu necessitara
de asilo recentemente. Fora bombardeado - expulso após
doze anos de casamento do que tinha sido a minha casa na
parte nobre da cidade, e tivera sorte em encontrar santuário
num dos caixotes de cimento que ficavam ao pé de Ravelstein,
a cerca de cinquenta metros do seu portão estilo Midwest
RAVELSTEIN 77

e m ferro forj ado e d o seu porteiro e m uniforme. Nós não tí­


nhamos porteiro.
O que eu tinha era cerca de cinquenta anos de percorrer
estes pavimentos rasgados pelo sol, de passar por estes edifí­
cios, em tempos ocupados por amigos. Agora, onde o inqui­
lino era hoj e um teólogo j aponês, tinha vivido há quarenta
anos uma tal Miss Abercrombie. Era uma pintora que tinha
casado com um ladrão hippie e simpático cuj a especialidade
era entreter as visitas reencenando assaltos famosos aos an­
dares de cima. Em cada uma das ruas em volta havia quar­
tos frontais onde tinham vivido amigos meus - e laterais
onde tinham morrido. Havia mais casos assim do qu.e eu
gostaria de recordar.
Na minha idade, não convém sermos demasiado senti­
mentais. É diferente se levamos uma vida ativa. E eu sou ati­
vo, em termos gerais. Mas há vazios, e estes vazios tendem
a preencher-se com os nossos mortos.
Ravelstein reconhecia-me uma espécie de seriedade sim­
plória acerca do que era a verdade.
- Tu não mentes a ti próprio, Chick - dizia. - Podes
fingir que não tens consciência durante bastante tempo, mas
no final enfrentas as coisas. Não é uma virtude muito co­
mum.
Não sou de todo um professor, embora tenha andado pe­
la comunidade universitária durante tantas décadas que al­
guns membros do corpo docente me olham como a um velho
colega. E quando eu saía, num desses dias de sol, pouco de­
pois de regressar à vizinhança da universidade, o tempo seco,
frio, o céu límpido, encontrei um conhecido chamado Battle.
Era um professor, um inglês que percorria as ruas geladas
dentro de um sobretudo velho e fino. Um homem nos seus
s e s s e n t a s , e r a gran d e , r u b i c u n d o , p a r a o forte , o r o s t o
grande e gelado da t e z de pimentos vermelhos . O cabelo,
7 !S SAUL BELLOW

comprido e espesso, lembrava-me por vezes o Quaker estam­


pado nos pacotes de cereais. Tinha energia suficiente para
manter dois homens aquecidos. Apenas os seus ombros reco­
nheciam que a temperatura estava bem abaixo de zero - os
ombros soerguidos, e as mãos enfiadas nos bolsos do casaco,
menos os polegares. Os pés j untos. Não era o que costumá­
vamos chamar « um j anota » , mas calçava sempre sapatos de
qualidade.
Battle era considerado um homem de um imenso saber.
(Tenho de confiar no j uízo dos outros neste campo - como
poderia eu avaliar o seu domínio do sânscrito e do árabe ? )
Ele não correspondia a o típico Oxbridge . Era produto de
uma das universidades inglesas com edifícios de tij olo.
Num caso como o dele não podíamos simplesmente dizer
que n o s tín h a m o s c r u z a d o c o m um p r o fe s s o r ch a m a d o
Battle cuj o cabelo comprido tornava supérfluo o uso de um
chapéu. Na Segunda Guerra Mundial, Battle tinha sido para­
quedista, e também piloto. Uma vez transportara De Gaulle
através do Mediterrâneo. Além disso, na vida civil fora um
j ogador de ténis notável . Tinha também sido professor de
dança de salão na Indochina . Era muito rápido com os pés,
um surpreendente corredor que tinha perseguido e apanhado
um ladrão. Esmurrara o ladrão com tanta força no estômago
que a polícia tivera de chamar uma ambulância.
Battle, um dos favoritos de Ravelstein, gostava do bom
velho Abe. Mas era praticamente impossível dizer como ele,
Battle, via Ravelstein. Não havia pistas para adivinhar o que
se passava por detrás daquela poderosa testa. Cheia de for­
ça, ela descia até ao declive luzidio da borda supraorbital,
intersectando a linha direita do nariz e condizendo com as
duas breves paralelas dos lábios - a boca de um rei celta .
Podia ter sido treina d o como um halterofilista de classe
olímpica. Este era um homem muito forte - mas até que
RAVELSTEIN 79

ponto era ele forte ? B attle não se importava com os seus


dons naturais . O que ele ambicionava era à subtileza - jo­
gadas maquiavélicas, melífluas, complexas, ousadas. O seu
obj etivo poderia ser frustrar um chefe de departamento in­
fluenciando um diretor indiferente a passar uma palavra ao
reitor, etc. Ninguém j amais suspeitaria que tais conspirações
existiam, muito menos preocupar-se com quem estaria por
detrás delas. Ravelstein, que me explicara isto tudo, incoe­
rente de riso e gaguej ando « haas » e « hees » , dissera:
- Ele vem discutir comigo todo o-tipo de assuntos pes­
soais, mesmo assuntos muito . . . haa . . . pessoais, mas nunca
menciona estas operações.
Com um pouco de insistência, Ravelstein revelaria as
confidências de Battle - ou de qualquer outra pessoa. E di­
ria, como um falecido amigo nosso:
- Quando eu o faço não é coscuvilhice, é história social.
O que ele pretendia mesmo dizer era que as idiossincra­
sias eram do domínio público, para ser gozadas como o ar
e outros bens gratuitos. Não gastava tempo em especulações
psicanalíticas ou na análise da vida quotidiana . Não tinha
paciência para esta « treta da perceção » e preferia a ironia ou
mesmo a crueldade pura às interpretações bem-intencio­
nadas e amistosas do tipo liberal convencional.
Nesta rua fria e soalheira - o rosto cheio de rugas ex­
posto ao frio cortante - Battle perguntou:
- O Abe nestes dias recebe visitas?
- Não sei por que não. Ele fica sempre contente de te
ver.
- Eu não me exprimi bem . . . Ele é sempre delicado comi­
go e com a Mary.
Mary era uma mulher pequena, gorducha, inteligente,
sorridente. Ravelstein e eu gostávamos bastante dela.
- Bem, se vocês são bem-vindos e ele é simpático con­
vosco, não percebo qual é a pergunta.
80 SAUL BELLOW

- Ele não está muito bem de saúde, pois não ?


- Ele é desses homens grandes sempre com achaques.
- Sim, mas não está com mais do que habitualmente ?
Battle estava a testar-me, à espera de pistas sobre o estado
de saúde de Ravelstein. Eu não tencionava contar-lhe nada,
embora soubesse que ele gostava de Ravelstein - o admira­
va, de algum modo. Com gente excêntrica apenas consigo ir
até certo ponto . Cada exalar gelado das narinas de Battle
apenas trazia mais rubor ao seu rosto . A cor descia até às
barras de acordeão por baixo do seu queixo. O cabelo preto
parecia manter a parte de trás do pescoço quente o suficien­
te. Trazia sapatos de dançar o tango. Eu simpatizava com as
suas excentricidades . Parecia-me ser uma mistura de suave
delicadeza com volátil brutalidade.
Os Battles, marido e mulher, tinham Ravelstein em eleva­
da conta . Apreciavam-no. Podíamos estar certos de que ti­
nham conversas frequentes acerca dele.
- Bem - disse eu. - Ele tem tido uma série de infeções.
O herpes deixou-o muito abalado.
- Herpes zóster. Claro - disse Battle. - Uma inflama­
ção dos nervos. Horrivelmente doloroso e desagradável. Ge­
ralmente atinge os nervos da espinal medula e do crânio. Já
deparei com casos semelhantes.
As suas palavras fizeram-me ver Ravelstein. Vi-o, deitado
em silêncio, sob o seu edredão de penas. Os olhos negros re­
cuados para dentro. A cabeça assente nas almofadas. A postu­
ra sugeria repouso. Mas ele não estava a ter nenhum repouso.
- Safou-se dessa, não ? - perguntou Battle. - Mas não
foi atingido por nenhuma outra ? Algo novo ?
Havia algo novo . Esta nova infeção fora chamada de
Guillain-Barré pelos neurologistas quando finalmente a iden­
tificaram. Ainda não tinha sido diagnosticada, por essa altu­
ra. O Abe tinha voado de Paris para um jantar em sua honra
RAVELSTEIN 81

dado pelo presidente d a Câmara . Smokings e discursos de


celebridades - exatamente o tipo de ocasião à qual Ravel­
stein, há muito esfomeado por reconhecimento, não podia
dizer não. Em Paris, onde tencionava passar o ano sabático,
tinha arrendado um apartamento numa avenida de embaixa­
das e residências oficiais muito perto do palácio do Eliseu .
Havia sempre polícia p o r perto, e regressar a c a s a de noite
representava um problema, visto que o Abe não conseguia
arranj ar tempo para desperdiçar no burocrático Hotel de
Ville a requisitar uma carte de séjour, e assim, sempre que os
polícias o detinham e lhe pediam a identificação, ele não ti­
nha nada para mostrar e havia longas discussões a meio da
noite. Dava como referência aos polícias o marquês de qual­
quer coisa, o seu senhorio. Uma coisa deve ser dita a respeito
destes acontecimentos nestas ruas. Em Paris, mesmo as in­
conveniências eram de grande nível. Comparados com os
seus verdadeiros problemas, estes corsos ( Ravelstein acredi­
tava que todos os flics - os polícias franceses - vinham da
Córsega, e que, não importava quantas vezes se barbeassem,
os queixos reluziam sempre) eram apesar de tudo divertidos.
Para não me alongar mais, o certo é que Ravelstein dera
um pulo até lá para ir ao banquete oferecido pelo presidente
da Câmara e regressara com uma doença ( descoberta pela
primeira vez por um francês) que o mandara para o hospital.
Os médicos puseram-no nos cuidados intensivos. Davam-lhe
oxigénio. As visitas só eram permitidas uma de cada vez. Ele
mal conseguia falar. Ocasionalmente, lançava-me um olhar
de reconhecimento. Os grandes olhos estavam concentrados
na torre de vigia que era a sua cabeça calva. Os braços, que
nunca desenvolvera muito, rapidamente perderam o pouco
músculo que tinham. Nos primeiros dias do vírus de Barré
não estava capaz de usar as mãos. Ainda assim conseguiu
exprimir que precisava de fumar.
SAUL BELLOW

- Não com a máscara de oxigénio, era o que faltava .


Davas cabo de tudo.
Sem sa ber como, eu dava sempre comigo no papel do
cauteloso, dizendo a s mesmas banalidades de bom senso
a gente que tinha orgulho em desprezar a prudência. Seriam
sempre os outros a pôr-me nesta posição, ou era eu, no fun­
do, exatamente assim ? Via-me, em momentos agudos de
autocrítica, como o porte parole da burguesia. Ravelstein es­
tava ciente dessa minha fraqueza.
Nikki e eu não éramos muito diferentes, neste aspeto .
Nikki era muito mais crítico e severo . Quando Ravelstein
comprara um tapete caríssimo a Sukkumian na zona norte
da cidade, Nikki exclamara:
- Tu pagaste dez mil por estes buracos e fios soltos, por­
que os buracos provam que é uma antiguida de genuín a ?
O que foi que ele te disse, que este foi o tapete sobre o qual
Cleópatra se estendia nua ? És mesmo um daqueles tipos, co­
mo diz o Chick, que pensam que o dinheiro é para ser j oga­
do fora de um comboio. Tu estás na carruagem de primeira
classe do século xx a deitar fora notas de cem dólares.
Tinham telefonado a Nikki e dito que Ravelstein estava
novamente doente . Ainda estava na sua escola de hotelaria
em Genebra, e soubemos que ia regressar imediatamente .
Ninguém questionava a força da ligação de Nikki ao Abe.
Nikki era perfeitamente direto - direto por natureza, um
homem oriental com ar de rapaz, elegante, com pele suave,
cabelos negros. Este protégé de Ravelstein, pensava eu - ou
pensava antes - era de certo modo mimado. Também aqui
eu estava errado. Tratado como um príncipe, sim. Mesmo
antes de ter sido escrito o famoso livro que vendeu milhões
de exemplares, Nikki vestia melhor do que o príncipe de
Gales. Era mais inteligente e tinha mais discernimento do
RAVELSTEIN

que muita gente mais bem-educada. Mais importante, ele tinha


a coragem de afirmar o seu direito a ser exatamente o que pa­
recia ser.
Isto, como observara Ravelstein, não era uma postura .
Não havia absolutamente nada na aparência de Nikki que
fosse decorativo ou· teatral. Ele nunca procurava sarilhos,
note-se, mas . . .
- Está sempre pronto a lutar. E a sua autoconfiança é tal
que . . . Ele vai à luta. Várias vezes tive de o controlar.
Por vezes baixava a voz ao falar de Nikki, para dizer que
j á não havia intimidade entre eles.
- Mais como um pai e um filho.
Em termos de sexo, tive por vezes a sensação de que Ra­
velstein me via como um antiquado, um anacronismo. Eu
era o seu melhor amigo . Mas eu era o filho de uma família
j udaica europeia, com um vocabulário para a inversão que
datava de há dois milénios ou mais. A velha designação j u­
daica para isso era, primeiro, Tum-tum, e datava talvez do
cativeiro na Babilónia. Por vezes a palavra era andreygenes,
obviamente de origem alexandrina, helénica - os dois sexos
fundidos numa escuridão erótica e perversa. As misturas de
arcaísmo e modernidade eram particularmente atraentes pa­
ra Ravelstein, que não podia conter-se na modernidade e
sobrevoava todas as idades do homem . Estranho, mas era
assim.

Regressou dos cuidados intensivos incapaz de andar.


Mas rapidamente recuperou o uso parcial das mãos. Ele pre­
cisava das mãos porque tinha de fumar. Mal ficou instalado
no seu quarto do hospital, mandou Rosamund comprar-lhe
um maço de Marlboros. Ela fora sua aluna, e ele ensinara­
-lhe tudo o que um aluno seu tinha de saber - as fundações
e axiomas do seu sistema esotérico. Ela compreendia, claro,
SAUL BELLOW

que ele só agora começava de novo a respirar sozinho e que


o fumo lhe fazia mal, era perigoso mesmo - e, com toda
a certeza, proibido.
- Não precisas de me dizer que é má ideia fumar agora.
Mas é ainda pior não fumar - disse ele à Rosie, quando
a viu hesitar.
Claro que ela compreendeu, dado que frequentara todos
os cursos dele que pudera.
- E assim fui à máquina de tabaco e comprei-lhe seis
maços de Mar/boro - contou-me.
- Se tu não o tivesses feito, dez outros moços de recados
fá-lo-iam por ti - disse eu.
- Sem dúvida que sim.
No hospital, os melhores alunos - o círculo íntimo -
iam e vinham, j untavam-se a conversar na sala de espera.
No segundo dia após a saída dos cuidados intensivos,
Ravelstein, que não tinha recuperado o uso das pernas, esta­
va uma vez mais ao telefone com amigos em Paris, explican­
do por que motivo não ia regressar j á . O apartamento tinha
de ser devolvido. Os senhorios aristocráticos teriam de ser
abordados com tato para recuperar o dépôt de garantie. Dez
mil dólares . Talvez os vomitassem, talvez n ã o . Ele podia
compreender-lhes os sentimentos, disse . Aqueles eram o s
mais belos, os mais distintos quartos e m que j amais vivera,
acrescentou.
Ravelstein não contava reaver o depósito, embora esti­
vesse altamente relacionado nos círculos académicos france­
ses. Tinha montes de contactos importantes em França -
e também em Itália. Tinha perfeita noção de que não havia
forma legal de reaver o dinheiro.
- Esp·e cialmente nestas circunstâncias, porque o inquili­
no é j udeu, e há um Gobineau na árvore genealógica do se­
nhorio. Aqueles Gobineaus eram famosos antissemitas. E eu
RAVELSTEIN

não sou apenas um j udeu, mas, pior ainda, um j udeu ameri­


cano. Ainda mais perigoso para a civilização, na ótica deles.
Sej a como for, eles deixarão um j udeu viver na rua deles,
mas ele devia pagar por isso.
Num momento em baixo, enfraquecido pela doença, os
olhos apenas entreabertos e numa voz em que as palavras
saíam confusas e os tons tinham de sustentar a maior parte
do significado - vários dias em que a sua fala se parecia ao
seu olhar confuso -, ele tentava dizer-me algo. O que estava
a tentar dizer tornou-se-me por fim claro - que estava a tra­
tar da importação de um BMW.

- Da Alemanha ?
Assim parecia, embora ele não tivesse exatamente dito
que estava a ser enviado. Tive a impressão de que já estava
num cargueiro no meio do Atlântico. Talvez mesmo já des­
carregado, enfiado num camião e a caminho daqui.
- É para o Nikki - disse. - Ele acha que devia ter algo
de especial e inteiramente seu. Consegues compreender isso,
não é, Chick ? Além disso, talvez ele tenha de desistir da es­
cola na Suíça.
Não se tratava de uma pergunta. Isso podia eu ver bas­
tante bem. Por um lado, se vestíssemos - como acontecia
com Nikki - Versace, Ultimo, Gucci, não quereríamos usar
transportes públicos. Mas, tendo satisfeito a minha estranha
necessidade de humor com uma tal observação, eu era agora
capaz de ver a realidade. A realidade era que Ravelstein se ti­
nha safado por pouco, que ainda estava sob o que os médi­
cos chamavam « suportes vitais » , que a parte de baixo do
corpo ainda estava paralisada, as pernas a não funcionarem,
e que, se e quando a paralisia fosse superada, haveria ainda
outras infeções à espera de serem apercebidas.
- Diz-me lá então, Chick, haa . . . hee . . . Que tal te pareço ?
86 SAUL BELLOW

- A cara ?
- A cara, a cabeça. Tu tens olho, Chick. E nada de eva-
sivas.
- Pareces uma meloa ressequida, aí sobre a almofada.
Ele riu. Os olhos fecharam-se e brilharam; sentia uma sa­
tisfação particular com os meus esquemas mentais. Via este
tipo de observação como um sinal de faculdades superiores
em ação. Acerca do carro, disse:
- A agência estava a tentar vender-me um B M W cor de
vinho. Eu prefiro avelã. Ali em cima há um folheto com co­
res - apontou e, quando lho dei, abriu-o. Barras e barras,
cada qual com a sua cor. Estudando sobriamente as amos­
tras, concordei que a cor de vinho não serviria.
- Nunca te enganas em questões de gosto. O Nikki tam­
bém acha o mesmo.
- Isso é simpático, mas nunca tive a impressão de que
ele se desse conta.
- As roupas que vestes podem não ser o último grito,
mas sempre tiveste as qualidades de um j anota, Chick. Em­
bora numa fase anterior, e de um modo limitado. Lembro­
-me do teu alfaiate de Chicago, aquele que me fez um fato.
- Tu mal o vestiste.
- Vestia-o em casa.
- E um dia desapareceu.
- O Nikki e eu morríamos de riso com o corte. Perfeito
para Las Vegas ou para um político na reunião anual da má­
quina dos Democratas no Bismarck Hotel. Não fiques ma­
goado, Chick.
- Não estou. Não invisto muito sentimento nos meus
fatos.
- O Nikki sempre disse que o teu gosto em camisas e
gravatas era perfeito. Kisser & Asser.
- Claro, Kisser & Asser.
RAVELSTEIN

- Sim ! - disse Ravelstein, e fechou os olhos com satis­


fação.
- Não te quero fatigar - disse eu.
- Não, não - os olhos de Abe continuavam fechados.
- Ainda estou vivo e disponível para piadas rascas. Fazes-
-me melhor do que uma dúzia de injeções intravenosas.
Sim, e ele podia contar comigo. Eu também estava pre­
sente, à j anela do hospital. A d sum, como costumávamos
responder à chamada na escola - ou ab est, como dizíamos
em uníssono quando havia um lugar vazio. A cidade apresen­
tava milha após milha de vazio outonal - o endurecimento
frio do solo, as avenidas despidas, o ar de deserto pintado
dos prédios de apartamentos, o verde pálido dos parques -,
a zona temperada e as suas estações, esmaecendo lentamen­
te. O inverno a chegar.
Quando tocou o telefone agarrei-o; eu ia escrutinar as
chamadas. Mas a mulher da BMW estava em linha e ele que­
ria falar com ela.
- Vej amos a lista - disse. - Tem a certeza de que va­
mos conseguir o carro com as mudanças ? . . . Transmissão au­
tomática não serve.
Com os extras, o carro custaria oitenta mil dólares.
- E claro que haverá airbag para o lugar do passageiro,
bem como o do condutor? . . . E quanto à cor do interior. Os
estofos em pele. A aparelhagem CD no porta-bagagens devia
ter capacidade para tocar seis discos ! Oito ! Dez !
« E quanto ao fecho e abertura da porta com o comando
automático ? Nós não queremos andar às voltas com chaves.
Não;, não lhe posso dar um cheque visado, estou no hospital.
Estou-me nas tintas se são as regras da empre s a . Têm de
o ter entregue o mais tardar na quinta . Nikki, o senhor Tay
Ling chega de Genebra quarta à noite. Por isso toda a pape­
lada tem de estar já tratada. Não, conforme acho que já lhe
88 SAUL BELLOW

disse, estou num quarto no hospital. Hee . . . Haa ! . . . Uma coi­


sa lhe posso assegurar, não é um hospital psiquiátrico. Você
tem o número da minha conta no Merryll Lynch. O quê ?
Decerto que verificou o meu crédito e me pode aceitar um
cheque, Miss Sorabh. Escreve-se com bh ou hb ? »
Era provável que houvesse mais de uma dúzia de consul­
tas diárias.
- O Nikki é tão picuinhas - disse ele. - E por que mo­
tivo não haveria tudo de ser perfeito ? Eu quero que ele esteja
satisfeito a cem por cento - o motor, a carroçari a , todo
o material eletrónico . Tudo no seu lugar. Os estabilizado­
res calibrados . Antigamente era «O harmonioso ferreiro » ;
agora são os harmoniosos computadores. Não haverá óperas
barrocas no carro novo . Apenas jazz chinês, ou outra coisa
qualquer.
Nikki, como eu bem sabia, era exigente. Isso era eviden­
te, mesmo nas suas relações informais com as pessoas. E de­
via ser o mesmo com os objetos.
- Não quero parecer que fui enrolado pela BMW por cau­
sa da doenç a . Tenho de tentar a ntecipar como vai reagir
o Nikki. À sua maneira calma, ele pode ser bastante chato .
É apenas natural. Ele partilha a minha prosperidade, claro .
Mas, não há muito tempo, disse-me que gostava de ter um
sinal da minha parte. Um qualquer grande gesto. Não é ape­
nas a minha prosperidade, é a nossa prosperidade.
Não o convidei a entrar em pormenores . Desde que éra­
mos amigos íntimos, cabia a mim fazer a minha análise so­
bre o papel de Nikki na sua v i d a . Eu acreditava que era
atento o suficiente para entender. Embora talvez não fosse.
Ravelstein fazia-me duvidar por vezes das minhas habili­
dades .
RAVELSTEJN

- Todas as garantias que estás a pedir - disse e u . -


Levarias um mês a lê-las.
- Tu falas como se isto fosse a Via Dolorosa - disse
Ravelstein, sorrindo.
- Tu e o Nikki estão seguros com este empório alemão.
É como realeza burguesa. Pergunto-me se eles terão usado
trabalho escravo durante a guerra?
Porque os braços estavam destroçados, as mãos de Ra­
velstein pareciam estranhamente grandes quando acendia
um dos cigarros que Rosamund lhe trouxera. Nesse momen­
to, quando pousou o cinzeiro e sacudiu o fumo, senti q ue al­
guém acabara de entrar no quarto.
Era o Dr. Schley - o cardiologista de Ravelstein. Era tam­
bém o meu cardiologista. O Dr. Schley era pequeno e magro,
mas a sua magreza não era um sinal de fraqueza . Era seco.
A autoridade era-lhe dada pela sua posição no hospital -
o mandachuva nos assuntos de coração. Não falava muito.
Não precisava.
- O senhor dá-se conta, senhor Ravelstein, que acabou
de sair dos cuidados intensivos ? Apenas há algumas horas
o senhor não conseguia respirar. E agora está a encher de fu­
mo os seus pulmões fragilizados. Isto é muito sério - disse
Schley, lançando-me de lado um olhar glacial. Eu não devia
ter permitido que Ravelstein se descuidasse.
O Dr. Schley, também ele, era completamente careca,
com bata branca, e o estetoscópio, pendurado do bolso, pen­
dia como uma fisga na sua mão zangada.
Ravelstein não respondeu. Declinava ser intimidado -
mas ainda não estava suficientemente forte para retaliar. No
fundo, não prestava muita atenção aos médicos . Os médicos
eram aliados da burguesia sempre em pânico de morrer. Ele
não ia mudar os seus hábitos por causa de médico nenhum,
SAUL BELLOW

nem mesmo por Schley, que respeitava. Como entendeu Ro­


samund, quando lhe foi comprar os cigarros, o Abe faria
sempre o que sempre tinha feito. Nunca de valetudinário.
- Peço-lhe, senhor Ravelstein, para deixar de lado os ci­
garros pelo menos até os seus pulmões estarem mais fortale­
cidos.
Ravelstein não respondeu, apenas acenou com a cabeça.
Mas não em assentimento. Ele nem sequer estava a olhar pa­
ra o Dr. Schley - olhava para além dele . Schley não era
o seu médico principal. O médico principal era o Dr. Abern.
Mas claro que Schley fazia parte da equipa; mais do que is­
so, ele era um dos chefes. Quanto a mim, Schley apreciava­
-me razo avelmente - n o meu lugar. Nunca ouvirí:;tmos
o Dr. Schley a falar muito, mas se percebêssemos um mínimo
de acústica mental receberíamos a mensagem em devido tem­
po. Ravelstein era uma figura de topo nos mais elevados cír­
culos intelectuais. Não seria exagero dizer que Ravelstein era
genuinamente importante . Em contrapartida, eu era razoa­
velmente bom, na minha área. Mas estava longe de ser ver­
dadeiramente importante.
Geralmente, Schley dizia-me para manter o nível de qui­
nino no meu sistema, a fim de controlar o ritmo cardíaco .
Eu era propício a fibrilações e, por vezes, falta de ar. As gran­
des doses de Q uinaglute que me prescrevia tornavam-me
surdo, como vim a descobrir. De qualquer modo, o meu pe­
queno problema cardíaco era tudo o que me relacionava
com Schley. Já Ravelstein, em contrapartida, o fascinava. Ele
considerava Ravelstein um grande combatente das guerras
culturais e ideológicas. Depois de o Abe ter proferido a sua
sensacional conferência em Harvard, dizendo à assistência
que não passavam de elitistas disfarçados de igualitários,
o Dr. Schley confidenciara-me:
RAVELSTEIN 91

- Bem ! Quem mais teria a erudição, a confiança, a auto­


ridade para dizer aquilo! E com tanta facilidade, com tanta
naturalidade !
Quanto a Ravelstein, ele simplesmente nunca teria um
médico. Ele necessitava de saber o que pensar de todos aque­
les com quem se relacionava . E tinha uma curiosidade insa­
ciável não só acerca dos alunos que atraía, mas também da
gente dos negócios, ou dos engenheiros de alta-fidelidade ou
dos dentistas ou dos consultores de investimentos, barbeiros
e, claro, médicos.
- Schley é quem m a n d a a q u i - d i s s e . - O mais i n ­
fluente. É ele quem define o s critérios. Ele domina todos o s
balcões e distribui o s pacientes pelos médicos. Tal e qual fez
comigo. Mas, depois, há a sua vida privada . . .
- Nunca pensei n a sua vida privada .
- Alguma vez conheceste a mulher dele ?
- Nunca.
- Bem, segundo todas as fontes, lá em casa é um reina-
do de mulhere s . A mulher e a s filhas controlam a bsoluta­
mente tudo . Ele apenas tem vida própria nas clínicas e nos
laboratórios.
- É mesmo assim ? Isso é frequente com gente rígida . . .
- Como contigo, Chick. T u devias saber, tens bastante
experiência na matéria.
- Uma vez mais a história do filho do homem que não
tem um lugar onde encostar a cabeça - disse eu.
- Bem, não fiques cheio de pena de ti próprio. Tu caíste
porque quiseste, sempre. Não tens nada de que te queixar -
disse Ravelstein.
Eu não podia negá-lo. Tudo o que eu podia dizer era que
o médico não tinha nenhum amigo, nenhum Ravelstein que
o pusesse nos eixos.
- O pobre Schley está a ficar de dia para dia cada vez mais
medicamente correto - prosseguiu Ravelstein. - A mulher
92 SAUL BELLOW

é um osso duro de roer, e depois há as filhas solteiras. Ativis­


tas, as três, ocupadas com causas como o feminismo, o am­
bientalismo . E assim o doutor é um tirano na clínica e um
pau-mandado em casa.
- Eu também o pus furioso - disse eu. - Um verdadei­
ro amigo ter-te-ia tirado o cigarro !
Eu não estava a dizer nada a Ravelstein que ele não sou­
besse j á . Poucas coisas lhe escapavam.

O BMW 740 estava pronto - entregue uma hora antes de


Nikki chegar. Ele veio diretamente ao hospital. Ravelstein
ainda estava incapaz de andar e nos braços e nas pernas ti­
nha apenas mobilidade parcial. Conseguia fumar, conseguia
ligar os números no telefone - fora isso, estava, para usar
a expressão francesa que ele preferia, hors d'usage. Mal Nik­
ki chegou, Rosamund e eu saímos do quarto.
Após algum tempo, Nikki saiu, com lágrimas no rosto .
Ele muito raramente discutia Ravelstein comigo ou com ou­
tros amigos. Aceitava-nos porque tínhamos sido aprovados
pelo Abe. Nós éramos as pessoas com quem o Abe falava
sobre assuntos que a ele, Nikki, não interessavam. É claro,
Nikki tinha a sua própria opinião sobre cada um de nós. E o
Abe tinha aprendido a levar a sério os seus j uízos.
- Tens de ir neste mesmo minuto lá abaixo tomar posse
do teu carro novo - disse Rosamund.
Descemos com ele e vimos Nikki sentar-se atrás do vo­
lante. O motorista da empresa tinha ficado à espera e deu­
-lhe algumas instruções, Nikki explicou-nos mais tarde todas
as características especiais do atraente 74 0. Dei uma esprei­
tadela aos botões e às luzes no painel de controlo - parecia
o cockpit de um j ato. Tudo aquilo estava para além das mi­
nhas capacidades - eu não teria sido capaz de ligar o de­
sembaciador ou levantar a capota.
RAVELSTEI N 93

É claro que, com este incrível brinquedo, Ravelstein que­


ria distrair Nikki dos factos médicos. Só o conseguiu parcial­
mente. Havia um certo prazer em enfiarmo-nos no banco do
condutor, mas Nikki disse-me que não iria regressar à Suíça.
Tudo isso ficava agora suspenso. Teria de desistir do curso
de hotelaria.
Quando chegou a altura de ir para casa, o Abe disse que
não queria ir numa ambulância. Nikki levá-lo-ia no 74 0 .
A posição do D r . Schley era a d e , visto que Ravelstein não
podia andar nem se podia sentar, ele ter de ser levado numa
maca. O Abe disse que não havia necessidade de macas nem
de canadianas nem de ambulâncias. Os estudantes e os ami­
gos tratariam de o transferir de uma cadeira de rodas para
o 740.
Schley bateu o pé. Não lhe daria alta, ameaçou. O Abe
no fim submeteu-se e ergueram-no, com lençóis e tudo, sobre
a maca . Manteve-se silencioso o percurso todo, mas n ã o
sombrio o u ressentido. N ã o tinha o azedume ou o ressenti­
mento dos doentes.
O 740 j á estava na garagem. Um telefonema e ele �staria
à porta dentro de minutos.
Eu estava a reler as memórias de Keynes que Ravelstein
me tinha recomendado como um modelo para eu seguir. Há
sempre um livro para preencher as horas na sala de espera dos
cuidados intensivos, ou quando o paciente estava a dormir ou
a refletir em silêncio - aparentemente a dormir. Enquanto
esperava pela ambulância sentei-me no pátio do prédio de
Ravelstein com Rosamund, lendo J. M. Keynes.
A questão em j ogo nas memórias de Keynes era a entrega
do ouro pelos alemães em 1 9 1 9 para financiar a compra de
mantimentos para as cidades esfaimadas, bloqueadas. A co­
missão encarregue da execução do Armistício tinha a sua se­
de em Spa, a elegante estância b alnear na fronteira belga,
94 SAUL BELLOW

que tinha sido o quartel-general do exército alemão. A villa


de Ludendorff ficava ali, e a do Kaiser e a de Hindenburg -
sentíamos de imediato que Keynes estava a escrever esoteri­
camente para os seus íntimos de Bloomsbury, não para as
massas consumidoras de j ornais.
O solo belga estava assombrado, dizia ele. «Ü ar ainda
estava carregado com as emoções daquele vasto colap s o .
O local era melancólico, com a melancolia teatral d a floresta
negra. » Interessou-me muito saber que Keynes considerava
Wagner diretamente responsável pela Primeira Guerra Mun­
dial . « Evidentemente, a conceção que o Kaiser fazia de si
mesmo estava assim moldada. E o que era Hindenburg se­
não o baixo, e Ludendorff senão o tenor gordo de uma ópe­
ra wagneriana de terceira categoria ? »
Havia, contudo, o risco de a Alemanha ser arrastada pa­
ra o bolchevismo. Com a fome e a doença a aumentarem, os
índices de mortalidade eram nocivos para os aliados, disse
Lloyd George na Conferência. Na sua resposta, Clemenceau
« admitiu que urgia conceder um pouco » . « Urgia conceder »
era uma expressão que agora desaparecera, expliquei a Ro­
samund.
Mas os franceses continuavam a obj etar à proposta ale­
mã de pagar pelos mantimentos em ouro. Clemenceau recla­
mava o ouro alemão para as reparações de guerra . Um dos
ministros franceses, um j udeu chamado Klotz, declarou que
os alemães famintos deviam ser autorizados a pagar pelas
rações de qualquer outro modo, mas não em ouro . Era-lhe
impossível ir m a i s longe sem comprometer os interesses
nacionais, « os quais ( enchendo o peito numa tentativa de
aparentar dignidade) tinham sido colocados à sua responsa­
bilidade » .
Lloyd George - mas por que sou arrastado para isto
uma e uma vez mais ? não sei explicar por que me afeta tanto
RAVELSTEIN 95

- virou-se aqui para o Sr. Klotz com ódio, escreve Keynes.


«Vocês conhecem o Klotz de vista ? É um judeu pequeno, gor­
do, com um grande bigode, mas com um olhar inseguro, er­
rante, e os ombros ligeiramente arqueados numa deprecação
instintiva. Lloyd George tinha-o sempre odiado e despreza­
do. E agora via de repente que era capaz de o matar. Mulhe­
res e crianças morriam de fome, exclamou, e aqui estava o
Sr. Klotz choramingando o seu "ooouro " . Inclinou-se e, com
um gesto de mão, indicou a todos a imagem de um j udeu odio­
so agarrando um saco de dinheiro. Os olhos chispavam e as
palavras jorraram com um desprezo tão violento que parecia
quase cuspi-las. O antissemitismo, não muito fundo abaixo da
superfície numa tal caricatura, ecoou nos corações dos presen­
tes . Todos olharam para Klotz com um desprezo e um ódio
momentâneas; o pobre homem estava curvado no seu lugar,
visivelmente humilhado . . . Então, voltando-se, ele [Lloyd Geor­
ge] pediu a Clemenceau que pusesse cobro a tais táticas obstru­
tivas; de outro modo, exclamou, o Sr. Klotz seria colocado ao
lado de Lenine e de Trotsky entre os responsáveis pela disse­
minação do bolchevismo na Europa. O primeiro-ministro ca­
lou-se. Em toda a sala podíamos ver cada um rindo e sussur­
rando ao vizinho: "Klotsky" . »
Um outro j udeu, este a o serviço do governo alemão, era
o D r . Melchior. Ele não estava tão bem relacionado com
a sua delegação como Keynes; Keynes estava ao lado de Lloyd
George e contra Herbert Hoover sempre que se falava de ce­
reais, produtos porcíneos ou arranj os financeiros. Melchior
parecia sentir o mesmo que Keynes . No relato de Keynes ,
Melchior está « espantado, com grandes olheiras, as sobran­
celhas arqueadas, observando impotente . . . como um digno
animal em sofrimento. Não poderíamos pôr de lado as ocas
formalidades desta Conferência, o portão de três grades das
SAUL BELLOW

das interpretações tríplices, e falar da verdade e da realidade


como pessoas sensíveis e razoáveis ? »
A Alemanha estava faminta, a França sangrara quase até
à morte. Os ingleses e os americanos tencionavam realmente
fornecer comida. Havia toneladas de carne de porco espe­
rando que Herbert Hoover desse ordem de avançar. « Admiti
que as nossas ações recentes não ajudavam a que ele acredi­
tasse na nossa sinceridade; mas implorei que ele [Melchior]
acreditasse que eu, pelo menos, naquele momento, era sincero
e verdadeiro . Ele estava tão emocionado quanto eu, e creio
que me acreditou . Ambos ficámos até ao fim da entrevista.
De certo modo eu estava enamorado dele . . . Ele falaria com
Weimar ao telefone e pedir-lhes-ia algum crédito . . . Falava
com o pessimismo apaixonado de um judeu. »
O lugar onde me sentei a ler, onde Rosamund e eu espe­
rámos que a ambulância trouxesse Ravelstein a casa, era um
pequeno pátio dentro dos portões de ferro forj ado. Um tan­
que de pedra, arbustos, relva - até havia nenúfares . Rãs
e sapos dar-se-iam bem aqui, mas teria sido necessário im­
portá-los . De onde viriam ? Não havia rãs nos quilómetros
de cascalho que rodeavam este santuário. O pátio era como
que uma câmara descompressora . A alguns dos professores­
-inquilinos talvez lembrasse as grutas-retiro construídas pelos
ingleses no século xv m . Precisávamos de alguma proteção
dos acontecimentos brutais. Para estar plenamente conscien­
tes tanto do santuário como do bairro de lata precisávamos
de ser um Ravelstein.
- Lá fora - dizia ele, rindo - os polícias dir-nos-ão
para não parar nos sinais vermelhos. Na terra de ninguém,
poderia ser a nossa última paragem.
Não podemos aceitar ser engolidos pela história do nos­
s o temp o , dizia Ravelstein com frequênci a . Citava, com
RAVELSTEI N 97

o mesmo fim , Schiller : « Vive o teu século, mas não sej a s


a sua criatura. »
O arquiteto, que pusera aqui uma bela arcada ao estilo
A l h a m b r a , com fo ntes e nenúfare s , tivera pra ticamente
a mesma ideia : « Vive nesta cidade, mas não lhe pertenças. »
Rosamund, sentada ao meu lado na beira da fonte de pedra,
não se sentia excluída quando eu estava a ler.
Tinha levado algum tempo até Ravelstein se habituar
a ver-nos, a mim e à Rosamund, como um par conj ugal. Ha­
via aqui algo de estranho, porque ele se interessava de um
modo pouco usual pelos seus alunos, e Rosamund contava­
-se entre eles. Ele teria dito, se lho perguntassem, que dada
a qualidade da educação que estavam a receber, com a sua
ênfase incomum « nos afetos » - no caso do amor, em não
ser melífluo - seria irresponsável pretender que o ensino
podia estar separado da união das almas. Esta era a sua for­
ma antiquada de o exprimir. Naturalmente, havia para tal
uma palavra grega, e não se pode esperar de mim que me re­
corde de todas as palavras em grego que ouvi da boca dele.
Eros era um daimon, o génio ou o demónio de cada um de
nós providenciado por Zeus como forma de compensação
para o cruel separar da forma andrógina completa original.
Estou seguro de ter compreendido bem esta parte do mito
sexual aristofânico. Com a aj uda de Eros vamos caminhan­
do, cada um de nós, em busca da metade que nos falta. Ra­
velstein levava muito a sério esta busca, movida pelo desej o.
Nem todos sentiam esse desej o, essa saudade, ou o reconhe­
ciam quando o sentiam. Na literatura, António e Cleópatra
sentiam-no, Romeu e Julieta também. Mais perto do nosso
tempo Anna Karenina e Emma Bovary, a Madame de Rênal
de Stendhal, na sua simplicidade e inocência, também o sen­
tiam. E, claro, outros, não ensinados, não tocados pelo reco­
nhecimento aberto, o sentem de algum modo obscuro. Era
SAU L BELLOW

disto que Ravelstein estava continuamente à procura e, com


uma tal preocupação, ele ficava apenas a um passo de arran­
j ar casamentos. Fazendo o melhor que podia com esta pode­
rosa, mas incompleta, necessidade. Um bom paliativo para
a dor nem-sempre-consciente da saudade tinha uma impor­
tância significativa em si mesmo. Temos de continuar a viver,
de uma maneira ou de outra. Casamentos têm de ser feitos.
No adultério, homens e mulheres esperam por um breve alí­
vio na dor da privação que dura a vida inteira. O que tornava
o adultério um pecado venal, na opinião de Ravelstein, era
que a dor dos nossos desej os nos arrastava tão cruelmente .
« Almas Sem Desej o » tinha sido o título provisório do seu fa­
moso livro. Mas, para a maior parte da humanidade, os dese­
jos tinham sido, de uma forma ou de outra, eliminados.
- Como chegámos a tal ponto ?
Sou obrigado, enquanto observador honesto, a ser claro
em relação ao modo como Ravelstein operava. Se ele se im­
portasse connosco, seria nesta mesma perspetiva que ele nos
representaria. Ninguém acreditaria o tempo e a energia que
dedicava a cada caso, a atenção com que ele observava os
alunos que aceitara para uma educação superior ou esotéri­
ca, os que estavam dispostos a cortar com a ortodoxia vigente
nas ciências sociais que dominava a profissão. Se os alunos
seguiam Ravelstein, descobriam que lhes seria difícil arranj ar
emprego . Por isso era necessário pensar em como tomar
conta dos j ovens eleitos. Em termos profissionais, eles ti­
nham feito uma escolha arriscada. Ravelstein pedia-me com
frequência a opinião.
- O que achas se puséssemos o Smith com a Sarah ? Ele
tem algumas maneiras amaricadas, mas nunca será um mari­
cas. Já a Sarah é uma jovem muito séria, disciplinada, traba­
lhadora, adora livros. Não é nenhum génio, mas tem montes
RAVE LSTEIN 99

de qualidades. E é capaz d e ter precisamente aquele toque de


masculinidade que era capaz de fazer o Smith feliz.
Estava tão acostumado a fazer este género de arranj o s
que, aparentemente, tinha algo e m mente depois d e a Vela s e
ter divorciado de mim. Os meus erros eram tão óbvios que
não era possível confiar em que eu fizesse alguma coisa cer­
to. Ele tinha profetizado certeiramente há sete ou oito anos:
- A Vela vai fartar-se de ti rapidamente. Ela passa a vi­
da a dar conferências pelo mundo inteiro. Nunca está em ca­
sa nem sequer por uma semana. Enquanto tu és conj ugal por
temperamento, Chick. E tudo o que tens agora para parti­
lhar a tua vida são as roupas penduradas no armário. Ela
apenas precisa de um marido para parecer respeitável. Não
creio que os homens sej am o seu principal interesse. Mas ela
é um caso curioso; tem as características de uma beldade,
mas não é uma beldade, por mais que se vista e se arranje. Já
tu és um artista, Chick, e percebeste algo de belo nela. É ver­
dade que ela tem uns belos olhos, mas, se a virmos com aten­
ç ã o , tem nela uma espécie de correção militar europei a .
E quando te inspeciona, tu simplesmente não estás à altura.
Em termos mentais, ela vem ao teu encontro, mas depois
foge o mais depressa que os saltos altos lhe permitem . Ela
é estranha, Chick. Mas tu também és bastante estranho. Os
artistas apaixonam-se, claro, mas o amor não é o vosso prin­
cipal dom. Vocês amam a vossa alta função, o uso do vosso
génio, não as mulheres reais. Vocês têm o vosso próprio tipo
de força centrífuga. Agora, claro que Goethe tinha o seu dai­
mon, e falava dele a Eckermann o tempo todo. E na velhice
apaixonou-se por uma bela rapariga. Mas é claro que esta
paixão era dérisoire - puramente absurda . . .
Esta era a sua maneira d e expor um assunto - não pro­
priamente lisonj eira, mas ele nunca lisonjeava ninguém, nem
falava connosco para nos achincalhar. Ele simplesmente
I OO SAUL BELLOW

acreditava que a capacidade de deixar a nossa autoestima es­


trutural ser atacada e feita em cinzas era uma medida da
nossa seriedade . Um homem devia ser capaz de ouvir, e de
aguentar, e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dele.
Mas algum tempo antes, à sua maneira maravilhosamen­
te polida mas também completamente desastrada, Vela tinha
começado o processo de divórcio. Ao que parece, tinha con­
tratado uma advogada há j á mais de um ano. Esta advoga­
da, uma mulher que pertencia a uma poderosíssima firma no
centro da cidade, sabia quais eram os meus bens até ao míni­
mo centavo, e a exigência de Vela era vinte e cinco por cento
da minha conta bancária, isentos de impostos. Vela ia regu­
larmente à baixa para tratar do ca belo e das unhas e para
comprar roupas e sapatos. Almoçava regularmente com uma
amiga - ou com a advogada.
Não tínhamos quaisquer hábitos domésticos. O que tí­
nhamos era um vago arranj o - um lar, não o locus do amor
conjugal ou mesmo de simples afeto. Quando faltavam man­
timentos, Vela ia ao supermercado e comprava tudo - ma­
çãs, uvas, carnes para o congelador, bolos, pudins de tapioca
para a sobremesa, atum em lata e arenques em tomate, cebo­
las, arroz, cereais para o pequeno-almoço, bananas, vegetais,
meloas. Tentei várias vezes ensinar-lhe como escolher um
melão pelo cheiro, mas evidentemente ela não queria ser vis­
ta a fazer algo impróprio para uma pessoa bela e delicada.
Comprava pão e bolos, detergente em pó para a máquina de
lavar, esfregões de aço para as panelas. Mercearias no valor
de centenas de dólares eram depois entregues em caixotes.
Após as compras, ela não regressava ao apartamento, mas ia
antes à universidade. Eu recebia as coisas em casa e arruma­
va-as no frigorífico e nas prateleiras da cozinha. Espalmava
as caixas de cartão e descia-as no elevador. Tinha boas rela­
ções com o porteiro e não o queria incomodar com o lixo.
RAVELSTEIN IOI

Kerrigan, o poeta e tradutor que morava com a sogra no


andar de baixo, perguntou-me um dia que motivo havia pa­
ra ser eu a deitar fora o lixo e, quando lhe expliquei a minha
relação com o porteiro, ele respondeu:
- Toda a gente é respeitada menos tu.
A minha resposta foi que isso talvez fosse verdade, mas
que o porteiro tinha de ser poupado e o homem tacitamente
dera a entender que precisava que respeitássemos a sua dig­
nidade. E que eu preferia ser eu próprio a dobrar e a levar
para baixo as caixas, a ter de pensar na sua necessidade de
autoestima.
Para o final, sem me dar conta de quão perto estava o ter­
mo da relação, eu ainda tentava compreender como funciona­
va a Vela, tentava vislumbrar os seus motivos. Ela preferia as
ações às palavras, concedendo que não podia competir comi­
go verbalmente, e, um dia, quando eu estava a ler um livro
(a minha dieta regular de palavras), entrou na sala completa­
mente nua, chegou-se ao pé de mim e roçou os pelos púbicos
pelo meu rosto . Quando reagi como ela sabia que eu reagi­
ria, voltou-se e foi-se embora com o ar de quem tinha dito
o que tinha a dizer. Ela tinha ganhado sem sequer levantar
as m ã o s e sem ter necessitado d e dizer uma só p a l a vr a .
O corpo falava por ela, e muito eficazmente, dizendo que
o fim estava próximo.
Não havia nada no livro que eu estava a ler na cama que
me servisse para alguma coisa. Nem podia eu ir atrás de Ve­
la e perguntar:
- O que significa este teu comportamento ?
O espaçoso apartamento estava dividido em zonas - ela
tinha a sua, eu tinha a minha . Eu teria de ir atrás dela -
e ela de qualquer modo recusar-se-ia a discutir a mensagem
que tinha acabado de enviar.
E, assim, voltei-me para Ravelstein. Telefonei-lhe a dizer
que precisava de falar imediatamente com ele e atravessei
!02 SAUL BELLOW

a cidade, uma distância de dezoito quilómetros. Eu tinha fei­


to as contas - oito quarteirões por quilómetro e meio, tal
como tinha sido previsto nos planos fundadores ou origi­
nais.
A chegada, aceitei por uma vez a oferta de Ravelstein pa­
ra uma chávena de café . Precisava de beber alguma coisa
forte . Eu sabia, é claro, a paixão que ele tinha pelo tipo de
incidentes como o que eu tinha para lhe descrever. As impro­
visações loucas das criaturas sob tensão - quanto mais ex­
travagantes, mais ele as apreciava.
- Toda nua, hem ? Ela estava a fazer uma declaração,
como se costuma dizer. E qual foi a tua impressão ? O que
achas que te estava ela a dizer, à sua maneira primal?
- A minha impressão é a de que ela disse que não estava
mais disponível.
- A mandar-te à merda, eh ? E tu não estavas nada à es­
pera. Ou estarias, no fundo, ciente de que isto estava para
acontecer ?
- Decerto que sabia que estava para acontecer. Nunca
conseguimos pôr isto a funcionar.
- Mas o que me pergunto é se não haverá factos que te
escaparam, Chic k . Não te culpo por esperares que ela se
comportasse como uma esposa devia fazer, segundo os teus
princípios. Mas elas, as mulheres, também têm princípios.
Ela tem uma considerável reputa ç ã o na sua áre a . É uma
cientista topo de gama, disseram-me, e pode não lhe apetecer
cozinhar-te o j antar. Marcar o ponto às cinco para descascar
as batatas . . .
- Ela cresceu num país faminto . . .
- Aos olhos do mundo é muito importante ser-se um
cientista do caos. Eu não faço a mínima ideia do que isso se­
j a, mas é considerado altamente prestigiante. Só tu não lhe
dás crédito.
RAVELSTEIN 103

- Ela veio dizer-me que o seu corpo não mais estaria


disponível. Para comunicar sobre qualquer assunto digno de
menção, ela sempre preferiu os atos às palavras . Quando
contou à mãe que nos tínhamos decidido casar, esperou até
à hora de embarque do voo no qual a m a m ã regre s s a v a
à Europa e, exatamente n o último instante, disse: « D ecidi
casar com o Chick. » A velhota odiava-me . Vela dava a en­
tender que adorava a mãe, mas na verdade enganava-a de
todas as maneiras possíveis.
- Mas o oposto também é verdade ? - inquiriu Ravel­
stein.
- Não sei a resposta certa, nem creio que alguém a sai­
ba. As pessoas dão-se ao trabalho de organizar uma imagem
de si próprias e essa imagem dá-lhes consistência ou a apa­
rência de consistência que a sociedade parece requerer. Mas
Vela não tem propriamente uma imagem organizada . . .
- Está bem, está bem - assentiu Ravelstein. - Mas a tua
ideia era de que ela viria a amar-te. Ela amar-te-ia porque tu
és amável. Mas esta tua Vela reserva o seu intelecto para a fí­
sica . A ideia de ter uma vida de família confortável é a sua
antipremissa número um. E assim passamos para o super­
mercado, onde Vela compra algumas centenas de dólares de
paparoca e a manda ser entregue em caixas de cartão por jo­
vens delinquentes em liberdade condicional. Tu podes cozi­
nhar essa trampa, ou comê-la sozinho, e depois lavar os ta­
chos. Tal e qual fazia a tua mãe depois de dar à família uma
refeição a sério, cozinhada com amor. Tu pensaste que, se
conseguisses fazer com que te preparasse o jantar com amor,
ela acabaria por sentir amor por ti. E, assim, o seu comentá­
rio a esta tua ficção é satírico; envia-te as mercearias. Tal co­
mo se ela pertencesse a um universo completamente diferen­
t e . E tu pertences a um terceiro universo, um em vias de
1 04 SAUL BELLOW

extinção, o dos j udeus à moda antiga. Como dizem os rus­


sos, a alma de outrem é uma floresta negra . . . Tu gostas de
provérbios russos.
- Agora não.
- Bem, asseguro-te que os russos não são tão humanos
como nos querem fazer crer. Todos esses impérios do leste
são controlados policialmente.
- E a floresta negra é a alma. Mas não podemos esperar
encontrar aí refúgio do GPU ou do KGB . Não estou com dis­
posição para fazer espírito, contudo.
- Eu sei - disse Ravelstein. - Ela notificou-te que não
tens mais acesso ao seu corpo. A tua licença expirou . Mas
nunca houve tenção de ser permanente. Não se pode esperar
que as pessoas vivam sem amor ou o simulacro do amor.
Uma ligação sexual simpática e agradável é tudo com que
a maioria se dá por satisfeita.
Eu não contava que Vela pusesse os pés no tribunal quan­
do as formalidades foram concluídas, mas ela apareceu, com
um casaco todo abotoado, mais heráldico do que feminino,
botões dourados da garganta aos j oelhos, com a maquilha­
gem e o cabelo preso de uma dançarina de salão. Provavel­
mente é impossível articular as mensagens que ela estava
a emitir. Eu tivera a minha oportunidade, dada com a maior
das generosidades, e era óbvio que, simplesmente, não preen­
chia os requisitos.
Ela tinha concebido uma racionalidade esotérica profun­
damente inacessível mas que era baseada em princípios de
dezoito carates. Ainda assim, havia um lado defeituoso na
sua majestade. Se pensássemos poder dizer de onde ela vi­
nha, onde é que ela queria chegar, estávamos redondamente
enganados . « Pode ter parecido que um tal homem ( Chick)
RAVELSTEIN

podia ser meu marido, mas não passou de um erro - QED . »


Ela foi-se, no seu passo curioso, cada passo u m toque -
apenas os dedos estavam implicados. Os saltos caminhavam
sozinhos. Isto não era de todo grotesco. Era curiosamente ex­
pressivo, mas ninguém seria capaz de dizer o que significava.
Rosamund não tinha sido uma das estrelas de Ravelstein,
mas à sua maneira fora bastante boa.
- Ela trabalha tão bem como qualquer outro. O seu gre­
go é mais do que adequado, e não perde pitada, compreende
perfeitamente os textos. Muito nervosa e insegura em rela­
ção a si própria. E muito atraente, não é? Não do tipo volup­
tuoso, mas genuinamente bonita.
Por uma vez na vida, eu sabia mais do que ele. E não ia
deixar que Ravelstein me aprovasse Rosamund. Eu não po­
dia deixar que ele me arranj asse o casamento, como fazia
para os seus alunos. Se ele não tivesse qualquer sentimento
por nós, estava-se nas tintas para o que fizéssemos. Mas, se
éramos amigos dele, era uma má ideia , assim pensava, to­
marmos as decisões só por nossa conta. Perturbava-o imenso
ser mantido no escuro em qualquer assunto relacionado com
os seus amigos - sobretudo aqueles que via diariamente.

A ambulância que trazia Ravelstein do hospital para casa


aproximou-se suavemente da curva, e Rosamund e eu levan­
támo-nos. Fechei o livro que estava a ler acerca da carta de
Keynes à mãe a propósito das suas funções como delegado
do ministro no Conselho Supremo de Econom i a . A maca
com rodas saiu em silêncio, e vi o melão nu e macio da ca­
beça de Ravelstein preceder-nos através das arcadas estilo
Alhambra e para lá dos nenúfares e do burburinho da água
no tanque cheio de musgo. Nikki passou logo atrás da maca,
por entre as portas de bronze e vidro.
1 06 SAUL BELLOW

Rosamund e eu tomámos o outro elevador até ao cimo


do edifício. Miúdos mal-intencionados costumavam carregar
nos botões todos de modo a que, com frequência, paráva­
mos em todos os andares. O contínuo abrir e fechar de por­
tas fez com se tornasse uma viagem de quinze minutos,
e quando chegámos lá acima j á Ravelstein estava na cama -
mas não na sua de quatro pés. Tinha sido encomendada uma
cama de hospital, e sobre ela um mecânico estava a instalar
um grande triângulo equilátero de tubos de aço inoxidável.
Ravelstein p o d i a u s á - l o para deslocar o p e s o d o corpo .
Quando tivesse de se sentar numa cadeira para a fisiotera­
pia, a base do triângulo era colocada sob as suas coxas. En­
quanto agarrava , trémulo, no tubo metálico, levantava-se
muito gradualmente com um pequeno zumbido da máquina
aos pés da cama. De súbito víamos as pernas esquálidas a se­
rem içadas, de sob os lençóis. E, porque ele não conseguia
abrir completamente os olhos, a expressão de alarme ficava
apenas sugerida.
Ele poderia estar a ponderar na matéria, na manutenção
física da vida, nas inúmeras maneiras que havia para ela ser
maltratada, ferida, mesmo destruída - uma linha de pensa­
mento fora do habitual nele. Chego u uma enfermeira e o
mecânico ( um técnico do hospital) ficou para aj udar, se ne­
cessário. Ravelstein foi arrastado para o lado da cama e co­
locado, muito lentamente, na cadeira de rodas. O obj etivo
do Dr. Schley era pôr o Abe de novo de pé, para lhe restituir
os músculos. As longas, longas pernas não tinham músculo
e podíamos ver as veias no interior pálido dos braços. Não
conseguíamos deixar de pensar no sangue contaminado den­
tro delas. Enquanto a enfermeira tentava cobrir-lhe os geni­
tais, ele parecia matutar numa questão premente - talvez
sobre se faria sentido lutar tão arduamente pela existência.
Não fazia, mas, ainda assim, continuava a lutar. Agarrou
RAVE LSTEIN 1 07

o tubo, que estava provavelmente muito frio, ambos os pu­


nhos j unto às grandes orelhas, perto dos cabelos que se er­
guiam no occipital, abaixo da linha de calvície. Há cabeças
calvas que proclamam a sua força. A de Ravelstein tinha si­
do assim. Mas agora tornara-se vulnerável. Acredito que ele
sabia o quadro que proporcionava, « cheio de tubos » numa
espécie de rede naval, exposto ao terror - à ridícula histe­
ria. Por agora, contudo, estava solto do triângulo e já senta­
do na cadeira de rodas; o triângulo foi retirado de debaixo
dele, e Nikki levou-o a dar uma volta pelo apartamento. Ro­
samund e eu seguimo-los de quarto em quarto.
Nada tinha sido alterado. Da manutenção do apartamen­
to ocupavam-se duas senhoras - uma mulher polaca, Wadj a,
que fazia a verdadeira limpeza às terças, e a negra senhora
Ruby Tyson ( demasiado idosa para trabalho a sério), que ia
às sexta s . A função da senhora Tyson era manter a digni­
dade das casas onde trabalhava. Para Wadja, Ravelstein não
passava de mais um j udeu extravagante - a sua imaginação
selvagem visualizando o dinheiro que ele controlava, e ele
era turbulento, incompreensível . Ruby compreendia-o me­
lhor: era um professor, uma misteriosa personagem branca.
Tanto quanto conseguia um branco, ele tinha em conta as
necessidades dela com a filha na prostituição, o filho na pri­
são, e o outro filho cuj os problemas com o HIV e confusões
com mulheres e filhos eram demasiado complicados para
descrever . Em tardes calmas ele, Ravelstein, escutava por
vezes, com simpatia, meio distraído, as histórias de Ruby
Tyson - na verdade muito para além do seu alcance ou in­
teresse. A velha mulher apresentava-se como discreta, digna
e tristemente reservada. Podemos imaginar como Ravelstein
a terá escutado; o caos que deve ser a vida de tal gente. Esta
boa mulher tinha aprendido a j ogar o j ogo dos brancos com
1 08 SAU L BELLOW

reitores, decanos e outros burocratas académicos cuj as ca­


mas fazia e cuj os quartos limpava. E, claro, os problemas
familiares deles, os segredos esotéricos, psiquiátricos, das es­
p o s a s , que ela contaria a Ravelstein imediatamente . No
apartamento ela não fazia nada: a maior parte do tempo pe­
lo qual ele lhe pagava ficava sentada num banco na cozinha.
Uma vez ou outra levantava-se e fazia um bolo. A forte, larga,
agressiva Wadj a ocupava-se do lavar e esfregar. Era Wadj a
quem deslocava a mobília, limpava as casas de banho, passa­
va o aspirador, esfregava as panelas, limpava o pó aos cris­
tais. Ficando rapidamente cheia de calor, tirava o vestido e a
combinação. Tra balhava apenas com um gigantesco sutiã
e uns calções inchados tipo zuavo.
Ao vê-lo na cadeira de rodas, o rosto de Wadj a estava di �
vidido entre a compaixão e a ironia - uma sobrancelha er­
guida. Uma massa de comentários suspensos escorregava pelo
promontório narigudo que era o seu rosto. Bem, aquilo estava
muito mal ! Mas depois, bem vistas as coisas, ele não passava
de um j udeu. Por vezes ouvíamo-la murmurar « Moishala »
enquanto limpava ou tirava o pó aos móveis. Bastante fraco
nos primeiros dias, Ravelstein saudava-a com um dedo soer­
guido, dizendo a Nikki:
- Por amor de Deus, mantém-na longe dos Lalique.
- Ela esfrega os cálices de vinho no lava-louças - con-
tou-me Ravelstei n . - Enche-os de riscas . Mostrei-lhe os
estragos . Desatou a choramingar. Disse que me compraria
copos novos no Woolsworth. Eu disse: « Você sabe quanto
custam esses cálices Lalique ? » Quando lhe disse quanto, ela
riu-se: « Ü senhor está a fazer pouco de mim. »
- Disseste-lhe o preço ?
- É impossível deixar de pensar que estas mulheres de-
vem ser igualmente brutas com os pénis dos homens - disse
ele. - Imagina apenas, se fossem feitos de vidro.
1.
.

UMA CERTA D O S E D E I N F O RMAÇÃO P O D E, chegados a este


ponto, ser oferecida para mostrar o que eu era para Ravel­
stein e o que Ravelstein era para mim. Isto nunca foi com­
pletamente claro para nenhum dos dois - os princip ais
interessados. Ravelstein não veria qualquer razão para fa­
lar disto . Ele dizia que se sentia mais do que satisfeito por
eu poder seguir perfeitamente tudo o que era dito . Quando
ficou doente, passámos a ver-nos diariamente e também tí­
nhamos longas conversas ao telefone, como devem ter os
amigos íntimos. Nós éramos amigos íntimos - que mais
é necessário acrescenta r ? Nas gavetas da minha secretária
encontro pastas com páginas e páginas sobre Ravelstein.
Mas estas informações apenas parecem ter que ver c o m
o assunto. N ã o h á termos modernos aceitáveis para discutir
a amizade ou quaisquer outras formas superiores de inter­
dependênci a . O homem é u m a criatura que tem sempre
uma palavra a dizer sobre tudo o que há debaixo do sol.
Ravelstein estava disposto a contar-me tudo. Agora, por
que razão se preocupava ele em contar-me tais coisas, este
I IO SAUL BELLOW

j udeu enorme de Dayton, Ohio ? Porque precisavam urgente­


mente de ser ditas. Ele era seropositivo, e estava a morrer de
complicações afins . Enfraquecido, tornara-se o hospedeiro
de uma lista interminável de infeções. Ainda assim, insistia
em explicar-me uma e outra vez mais o que era o amor -
a necessidade, a consciência da imperfeição, a saudade do todo,
e de como as dores de Eros viviam j untas com os prazeres
mais extáticos.
Esta é uma ocasião tão boa como qualquer outra para re­
cordar que, pelo meu lado, sentia-me à vontade para confes­
sar a Ravelstein o que não podia contar a mais ninguém, os
meus segredos corruptos e vergonhosos, e os encobrimentos
que nos desgastam as força s . A maior parte das vezes ele
considerava as minhas confissões extremamente engraçadas.
E mais engraçados do que tudo eram os meus assassínio'S'
imaginário s . Talvez eu lhes desse um toque cómico, sem
querer. Sej a como for, ele considerava-os hilariantes e dizia:
- Alguma vez leste o Dr. Theodore Reik, o famoso psica­
nalista boche ? Ele dizia que, com um bom assassínio mental
por dia, psiquiatra não havia.
Que eu fosse exigente comigo mesmo era no entanto,
para Ravelstein, um sinal favorável. O autoconhecimento
exige severidade e, se eu estava sempre disposto a entrar no
ringue com esse monstro proteico, o eu, então havia para
mim esperança. Mas eu gostaria de ir mais longe . A minha
impressão era de que não conseguiríamos conhecer-nos intei­
ramente a menos que encontrássemos um meio de comuni­
car certos « incomunicáveis » - a nossa metafísica privada.
A minha forma de levar isto a cabo era lembrar que, antes
de nascermos, nunca tínhamos posto a vista neste mundo .
Lograr entender esse mistério, o mundo, era o desafio ocul­
to . Chegávamos do nada, da não-existência ou vazio pri­
mordia l , até uma realidade completamente desenvolvida
RAVELSTEIN III

e articulada. Nunca tínhamos visto vida antes. No intervalo


de luz entre a escuridão em que primeiro aguardávamos
o n ascimento e depois a escuridão d a morte que nos iria
receber, devíamos agarrar tanto quanto pudéssemos da rea­
lidade, que estava num estado bastante avançado de desen­
volvimento. Eu esperara milénios para ver isto. Depois tinha
aprendido a andar - na cozinha - e fora enviado para
a rua a fim de inspecionar a realidade mais de perto. Uma
das minhas primeiras impressões fora dos enormes postes
elétricos de madeira alinhados ao longo da rua. Eram cor de
castor, macios e apodrecidos. Nos segmentos entrecruzados,
ou braços múltiplos, suportavam muitos fios e cabos pendu­
rados numa queda interminável, caindo e recuperando o pé,
caindo de novo, recuperando o pé. Os pardais poisavam no
sobe e desce dos cabos, voavam, regressavam para descan­
sar. Ao longo dos passeios, os tij olos baços revelavam, ao
pôr do sol, o vermelho original. Naqueles dias raramente se
via um automóvel. O que víamos era coches, carroças de ge­
lo, carros de cerveja, e os enormes cavalos que os puxavam.
Eu conhecia as pessoas pelos rostos - vermelhos, brancos,
enrugados, manchados, ou suaves; sorridentes ou violentos
ou furiosos - os olhos, bocas, narizes, vozes, pés e gestos.
Como se debruçavam para divertir ou interrogar ou troçar
ou torturar afetuosamente um rapazito.
Deus apareceu-me muito cedo . O seu cabelo tinha um
risco ao meio. Compreendi que estávamos relacionados por­
que ele tinha feito Adão à sua imagem, tinha-lhe soprado vi­
d a . O meu irmão mais velho também se penteava daquela
maneira . Entre mim e o meu irmão mais velho havia outro
irmão. Mais velha que todos nós era a nossa irmã. De qual­
quer modo . . . era i sto o mund o . Os obj etos j untavam-nos
a eles através de um imperativo magnético que simplesmente
II2 SAUL B ELLOW

estava lá. Era um privilégio ser autorizado a ver - ver, to­


car, ouvir . Isto não seria impossível de descrever a Ravel­
stein. Mas ele teria respondido, pondo cobro à conversa, que
Rousseau já tinha coberto o mesmo território nas suas Con­
fissões ou nos Devaneios de um Caminhante Solitário. Não
me apeteceu ter estas primeiras impressões epistemológicas
antecipadas ou minimizadas. Durante cerca de setenta anos
eu vira a realidade a partir dos mesmos signos. Tinha também
a sensação de que teria de esperar milhares de anos para vol­
tar a ver, sentir, cheirar e tocar estes fenómenos misteriosos
- para cumprir o meu turno de vida antes de desaparecer
de novo quando terminasse o meu tempo. Eu poderia ter dito
a Ravelstein: « Era a minha vez de viver. » Mas ele estava de­
masiado perto da morte para se lhe falar nestes termos e tive
de abandonar o meu desej o de ser por ele completamente CO"'

nhecido, ao descrever a minha metafísica íntima. Apenas um


pequeno número de almas especiais lograram alguma vez en­
contrar um modo de receber tais revelações.
Mais algumas impressões infantis do mundo externo: na
Roy Street, em Montreal, um cavalo de carga tomba no pa­
vimento gelado. O ar, escuro, como um lençol cinzento. Um
animal mais pequeno talvez reencontrasse o equilíbrio, mas
esta besta, com os seus quadris enormes, apenas pode agitar
os cascos no ar. O Percheron de grande crina, com olhos
aterrorizados e veias salientes, necessitará de um gigante pa­
ra o aj udar, mas na esquina apenas há uma pequena multi­
dão de pequenos homens a lançar alvitres. Dizem à polícia
que o cavalo caiu na Roy Street, mais fácil de escrever no re­
latório do que Lagauchettierre . Então surge uma pequena
e interminável procissão de raparigas de colégio marchando
em pares com uniformes negros . As faces tão brancas que
p arecem tuberculosas. As freiras que as vigiam trazem as
RAVELSTEIN 113

mãos dentro das mangas para a s manter quentes . A s poças


nesta rua suj a são fundas e com uma franj a de gelo.
Esta impressão - a realidade real - é nas crianças tole­
rada pelos adultos. Até uma certa idade não há nada a fazer
quanto a isto. Em famílias prósperas poderá durar mais tem­
po. Mas Ravelstein teria talvez argumentado que havia aqui
um risco de autocomiseraçã o . Ou continuamos a viver em
epifanias ou nos livramos delas e escolhemos profissões e fun­
ções, adotamos princípios racionais e nos preocupamos com
a sociedade, ou com a política . Então, a sensação de se ter
vindo de « um outro lado » desvanece-se. Na teoria platónica,
tudo o que sabemos é recuperado de uma existência anterior
algures. A opinião de Ravelstein era de que, no meu caso,
a precisão de observação tinha ido muito para lá do razoável
e estava sendo cultivada por sua própria conta . A humanida­
de tinha prioridade na nossa atenção e eu deixava-me enro­
lar demasiado na minha « metafísica pessoal » , considerava
ele. A sua severidade fazia-me bem. Na minha idade, eu j á
não tinha energias para me modificar, mas era uma coisa ex­
celente, pensava eu, ter as minhas falhas e faltas apontadas
por alguém que se interessava por mim. Todavia, eu não ti­
nha qualquer intenção de remover, através de uma cirurgia
crítica, as lentes metafísicas com que nascera.
Esta é uma das ratoeiras que uma sociedade liberal nos
arma - mantém-nos infantilizados . O Abe provavelmente
teria dito: «A escolha cabe-te a ti. Ou continuas a ver o mun­
do como uma criança, ou não. »
E, assim, uma vez mais Ravelstein estava a recuperar de
mais uma doença e a aprender pelo que parecia ser a décima
vez a sentar-se. Nikki aprendeu a manej ar o triângulo-eleva­
dor e, quando Ravelstein começou a melhorar, Rosamund
e eu seguíamos Nikki quando ele conduzia a cadeira de ro­
das. Ravelstein, olhos semicerrados, inclinava a cabeça para
1 14 SAUL BELLOW

um lado. Com Nikki a empurrar, rolava através do vasto apar­


tamento - concebido para almas mais felizes e normais. Mas
este era o seu reino, com todas as suas posses.
Rosamund, de lágrimas nos olhos, perguntou-me se ele
alguma vez voltaria a ser o que era.
- C onseguirá bater o Guillain-Barré ? Eu diria que a s
chances estão d o seu lado - disse e u . - O ano passado ele
teve herpes, um herpes de um tipo qualquer. E bateu-o. Des­
sa vez, ele venceu.
- Mas quantas vezes se pode fazer isso ?
- Está tudo como tu deixaste - dizia Nikki a Ravel-
stein.
Os tapetes e os quadros, os cristais Lalique, os quadros,
os livros, os discos compactos. Tinha vendido a velha cole­
ção de discos de vinil, extensa e variada, para acompanhar
os avanços tecnológicos. Tinha catálogos de CD vindos de
Londres, Paris, Praga e Moscovo, oferecendo as últimas gra­
vações de música barroca. Os telefones do que Nikki e eu
chamávamos o « posto de comando » estavam desligados. Só
o instrumento no quarto de Nikki estava, como ele dizia,
« operacional » . Nesta cidade de milhões não podia haver ou­
tro apartamento como este - com tapetes antigos sem preço
por todo o lado e, no lava-louças, uma máquina comercial
de café expresso. Mas Ravelstein já não a podia manej ar. So­
bre a borda da chaminé, Judite ainda segurava a cabeça de
Holofernes pelos cabelos. A boca entreaberta. Os olhos vira­
dos para o céu. O pintor queria que pensássemos em Judite
como a simples filha de Sião, uma casta beleza natural, ain­
da que ela tivesse acabado de cortar a cabeça de um homem.
O que pensava Ravelstein disto tudo ? Havia muito poucos
indicadores no seu espaço privado das preferências sexuais
de Ravelstein. Ninguém tinha motivo, em nenhum aspeto,
RAVELSTEI N 115

para o suspeitar de irregularidades do género mais comum


- os extravagantes comportamentos sedutores de homosse­
xuais à moda antiga. Ele não suportava os maneirismos dos
homens efeminados.
Nestes passeios de cadeira de rodas pelo apartamento,
o que ele estava a sentir era dolorosamente evidente: O que
acontecerá a isto tudo quando eu me for ? Não há aqui nada
que eu possa levar comigo para a cova . Estes belos obj etos
que comprei no Japão, na Europa, em Nova Iorque, em tan­
tas partes, com tantas consultas e discussões com especialis­
tas e amigos . . . Sim, Ravelstein estava a afundar-se. Podíamos
não adivinhar, ao vê-lo na sua cadeira de rodas, enfiado sob
uma manta, as costas largas curvadas e a cabeça em forma
de melão caída de lado, o quão fisicamente impressionante
ele fora, e quão pouco contavam as suas peculiaridades, ti­
ques, e idiossincrasias, e as recentes infeções. Anos antes, ao
visitar a minha casa de campo no New Hampshire, Ravel­
stein perguntara-me se eu tinha alguma emoção de proprietá­
rio pela casa de pedra, os velhos carvalhos e nogueiras, os
j ardins . A resposta honesta fora que, embora os apreciasse
bastante, eu não me identificava como o proprietário desses
campos e objetos. Por isso, se acontecesse o pior e uma milí­
cia local armada se dirigisse a mim e me expulsasse na minha
condição de alienígena j udeu, a sua ofensa seria sobretudo
ao j udeu, não ao proprietário de terras . E num tal caso a mi­
nha preocupação seria com a Constituição dos Estados Uni­
dos, não com o meu investimento . Os quartos , as pedras,
a vegetação não tinham qualquer poder sobre os meus ór­
gãos vitais . Se os perdesse, viveria noutro lado qualquer.
Mas, costumava ele dizer-me, se a Constituição, a fundação
legal disto tudo, fosse destruída, regressaríamos ao caos pri­
mordial.
1 16 SAU L BELLOW

Nessa visita, Ravelstein tinha vindo ver-me desde Hano­


ver pela Interestadual 9 1, arriscando a vida num carro alu­
gado. Era demasiado descoordenado para estar seguro nas
autoestradas - tremia ao volante. Não tinha qualquer rela­
ção com veículos exceto enquanto passageiro, era demasiado
nervoso. E não gostava do campo.
Dizia, repetindo a opinião de Sócrates no Pedro, que uma
árvore, tão bela de apreciar, nunca dizia uma só palavra, e que
a conversa só era possível na cidade, entre homens . Porque
adorava falar, pensar enquanto falava, recostar-se enquanto
o fluxo de ideias transbordava - ele instruía, examinava, de­
batia, apontava erros, celebrava princípios elementares, mistu­
rando o seu grego com uma tradução apressada e gaguejando
loucamente, rindo às gargalhadas à medida que adornava os
seus discursos com piadas judias.
No campo, nunca se dispunha por si só a enfiar-se por en­
tre as árvores. Ele olhava para as árvores e os prados, mas
não tinha nada que ver com eles. De algum modo, Rousseau,
que apreciava tanto os campos e as florestas, estava presente
no espírito do Abe. Rousseau adorava botânica. As plantas,
contudo , não faziam o género de Ravelstein. Comeria de
bom grado uma salada, mas não encontrava razões para me­
ditar sobre isso.
Tinha vindo ao campo para me ver, e a visita era uma
concessão ao meu incompreensível gosto pela solidão e pelo
isolamento . Por que motivo gostava eu de me enterrar na
floresta ? Era seguro a s s umir que ele tinha examinado o s
meus motivos de mais ângulos do que e u poderia alguma vez
fazer, mesmo que eu ficasse a matutar nisso durante um éon.
Era também possível que ele estivesse curioso acerca da en­
tão minha mulher Vela - esses eram os tempos pré-Rosa­
mund - tentando ainda perce ber por que raio tinha eu
casado com aquela mulher. Ora aqui está uma boa questão.
RAVELSTEIN 1 17

Ele tinha uma verdadeira inteligência, é preciso que isto fi­


que claro, uma mente persistente, sempre a trabalhar, en­
quanto eu apenas era inteligente ocasionalmente. O que ele
pensasse, e ponderasse, assentava numa fundação de princí­
pios testados. Como dizer ? . . . Se fôssemos pássaros ele seria
uma águia, enquanto eu não passaria de um pardalito.
Ele sabia no entanto que eu podia compreender os seus
princípios - nem sequer precisavam de me ser explicados.
Se ele tinha alguma ilusão era a de que, de algum modo, eu
era capaz de aceitar ser corrigido, e, é preciso entender, ele
era um professor. Essa era a sua vocação - ele ensinava.
Nós somos um povo de professores. Durante milénios, os j u­
deus têm ensinado e sido ensinados. Sem o ensino, o j udaís­
mo seria uma impossibilidade. Ravelstein tinha sido pupilo
ou, se preferirmos, discípulo de Davarr. É possível que haj a
quem não tenha ouvido falar desse formidável filósofo . Os
admiradores dizem que é um filósofo no sentido clássico do
termo. Eu não sou capaz de j ulgar tais coisa s . A filosofia
é um trabalho duro . O s meus interesses vão numa direção
completamente diferente. Dentro dos meus limites, penso em
D avarr com respeito . Ravelstein falava tanto dele que, no
fim, me senti obrigado a ler alguns dos seus livros. Era ne­
cessário fazê-lo, se eu queria mesmo tentar compreender
o Abe. Eu costumava cruzar-me na rua com Davarr, e era di­
fícil imaginar que este indivíduo franzino, triplamente abs­
traído, os óculos encobrindo os seus ousados j uízos , era
o demónio herético odiado por académicos em todo o lado,
nos Estados Unidos e mesmo no estrangeiro . Enquanto um
dos principais representantes de Davarr, Ravelstein também
era odiado. Mas ele não se importava, de todo, de ser o ini­
migo. Era tudo menos pusilânime. Eu nunca liguei muito aos
professores enquanto classe. Eles não têm tido muito para
II8 SAUL BELLOW

oferecer neste insuportável século que ora termina . Assim


penso eu, ou costumava pensar.
É agradável recordar a semana da ida ao campo de Ra­
velstein. A calma Nova Inglaterra, em recortes longos, finos
- a luz do sol, o verde, o leito de papoilas vermelho-laranj a
lado a lado com o vermelho e branco das peónias.
Espreitando através das cortinas (separava-as com dedos
trémulos) , ele admirava as flores - precisamente naquela al­
tura as azáleas estavam a florescer - e achava tudo muito
bem, mas o drama da estação carecia de real interesse. Nada
de comparável ao drama humano.
- A tua mulher é sempre assim ? - perguntou.
- Assim como ?
- Assim como?, diz-me ele. Catorze horas por dia fecha-
da com os seus papéis e livros, Vela isolada no seu escrito­
riozinho campestre.
- Estou a ver onde queres chegar. Sim . É assim que ela
é quando está às voltas com a sua física do caos.
- Sentar-se sem mexer, sem sequer respirar. Uma pessoa
nunca a vê respirar sequer. Como faz ela para não sufocar ?
- Está a preparar uma comunicação. Tem de ir a uma
conferência para comentar uma pesquisa qualquer.
- Ela deve suster a respiração, e respirar às golfadas. Eu
tenho-a observado - disse Ravelstein. - E não creio que
inale, exceto de um modo muito sub-reptício.
Claro que ele exagerava . Mas havia factos a darem-lhe
razão. Mais ainda, ele tinha-me levado a aceitar o modo co­
mo falava dela. Antes que eu pudesse considerar se concor­
dava ou não, já ele me tinha persuadido. O que ele sugeria
era que eu não tinha de aceitar o comportamento de Vela.
Quando íamos para o campo, ela fechava-se no seu quarto.
Eram então criadas duas solidões. Assim eram os nossos ve­
rões na Nova Inglaterra: debaixo de um sol, num planeta,
RAVELSTEIN 1 19

havia estas duas existências separadas. Vela era particular­


mente bonita quando estava em silêncio. Em silêncio, ela pa­
recia rezar à sua própria beleza. Ravelstein talvez se tivesse
dado conta disso.
Ele veio até New Hampshire para estar muito brevemente
comigo, e imediatamente percebeu no que eu me tinha meti­
do. Ele detestava o cenário rural, mas, por mim, fizera uma
pausa na sua vida. Não gostava de deixar o posto de coman­
do na cidade. Ficar cortado dos informantes em Washington
e Paris, dos estudantes, das pessoas que tinha formado, desse
bando de irmãos, os iniciados, os eleitos, deixava-o extrema­
mente desconfortável.
- Portanto é assim que passas os teus verões ? - lançou.
Tantas vezes quantas possível, ele ia a Paris por uma se­
mana ou, melhor ainda, por um mês. Paris, assegurava, j á
não era a mesma que antigamente. Ainda assim, citava fre­
quentemente a afirmação de Balzac de que nenhum aconteci­
mento em parte alguma do mundo era um acontecimento
antes de ser observado, j ulgado e certificado por Paris. De
qualquer modo, os bons velhos tempos tinham terminado.
Czarinas e reis já não importavam poetas ou filósofo s de
Paris. Quando estrangeiros como Ravelstein falavam a uma
assistência francesa acerca de Rousseau, o anfiteatro estava
cheio. Poderíamos dizer que o génio ainda era bem-vindo em
França . Mas muito poucos intelectuais franceses mereciam
o respeito de Abe Ravelstein. Ele não ligava nada ao anti­
americanismo tonto. Não precisava de ser amado ou apapa­
ricado pelos parisienses. Em termos globais, apreciava-lhes
mais a malícia do que a civilidade.
Paris (e isto é um pormenor importante ) foi onde Abe
Ravelstein e Vela tiveram o seu primeiro desencontro. Ele es­
tava lá quando eu voei para aceitar um prémio atribuído
a escritores estrangeiros . Ficámos no Hotel Pont Royal. Im­
paciente, de bom humor, ansioso por ver-me, Ravelstein
1 20 SAUL BELLOW

chamou-me do corredor e, sem esperar por uma resposta,


entrou porta adentro. Tencionava abraçar-me - ou Vela, se
calhasse encontrá-la primeiro . Mas ela estava em combi­
nação e fugiu a esconder-se, batendo vio lentamente com
a porta da casa de banho . Mas o Abe e eu, felizes por nos
reencontrarmos após tantos meses, mal nos preocupámos
com Vela, ou com a indelicadeza de Ravelstein em entrar
sem mais nem menos. Ele devia pelo menos ter batido à por­
ta. Era o quarto dela, fez questão de me lembrar.
- Bem, ele é impetuoso - j ustifiquei. - Com um ho­
mem como Ravelstein é . . . É um dos seus encantos, agir as­
sim, por impulso . . .
Isto não apaziguou Vela. Cada palavra que e u dizia para
explicar Ravelstein, ou para o defender, ia diretamente para
a pira retaliatória de onde ela retirava as achas para me ati­
rar à cara.
- Eu não vim a Paris para ver os teus amigos - disse .
- Ou para que eles entrem porta dentro quando estou meio
nua.
- Tu na praia mostras mais o teu corpo - respondi. -
Naquilo a que os minimalistas da moda chamam um fato de
banho.
Vela também não aceitou isto:
- É num contexto diferente e temos direito a preparar-
-nos. Falas-me num tom superior, como se estivesses a lidar
com uma mulher ignorante. Devias lembrar-te, por favor, de
que na minha área sou tão considerada como tu na tua.
- Claro que sim. Até mais - admiti.
Estou acostumado a ser diminuído por homens de negó­
cios, advogados, engenheiros, os mandachuvas de Washing­
ton, cientistas vários. Até mesmo secretárias, que obtêm na
televisão as suas noções do que é importante, escondem o ri­
so atrás das mãos e fazem sinais umas às outras quando me
veem aparecer - um tonto patético e incompreensível.
RAVE LSTEIN 121

Por isso, deixei que Vela fosse tão superior quanto qui­
sesse, enquanto Ravelstein dizia que eu devia ter mais amor..,
-próprio e que era errado da minha parte ser tão mole. Mas
eu não estava inclinado a desviar-me do meu caminho para
agradar a tantos críticos. Tinha uma noção razoável da reali­
dade e dos meus defeitos. Tinha permanentemente em mente
a aproximação da Morte, que nos pode surpreender a qual­
quer momento.
Sej a como for, eu devia ter antecipado que Vela transfor­
maria num caso enorme a « impropriedade » de Ravelstein.
Ela tinha-se preparado para ter uma conversa comigo sobre
o Abe, e a entrada intempestuosa dele no nosso quarto de
hotel dera-lhe precisamente a abertura de que estava à espera.
- Não quero voltar a vê-lo nunca mais - disse. - Peço
que te recordes também de que prometeste levar-me a Char­
tres.
- Eu disse que o faria. E claro que o farei, quero dizer,
iremos lá j untos.
- E vamos convidar os Grielescus. São velhos amigos.
O professor Grielescu vai connosco. Nanette, não creio. Ela
deixou de fazer este género de passeios há muito temp o .
Não gosta d e ser vista durante o dia.
Eu próprio me tinha dado conta disso. Madame Grieles­
cu tinha no seu tempo sido uma senhora magnífica, uma
dessas jeunes filies en fleur de que se ouvia falar há muito
tempo. Grielescu era um famoso erudito, não exatamente
um discípulo de Jung - mas não exatamente um não j un­
guiano. Era difícil situá-lo.
Ravelstein, que não fazia acusações de ânimo leve, disse
que Grielescu era referido, por estudiosos que se especializa­
vam em tais coisas, como um membro da Guarda de Ferro
conotada com o governo fascista romeno de antes da guerra.
1 22 SAUL BELLOW

Tinha sido alto funcionário dos serviços culturais em Buca­


reste, durante o regime nazi.
- Tu não gostas de pensar nestas coisas, Chick - disse
Ravelstein. - E estás casado com uma mulher que te assus­
ta. Claro que me vais dizer que ela é uma ignorante em ques­
tões políticas.
- De política percebe tão pouco . . .
- Naturalmente, ela acredita que u m cientista deve estar
acima e para lá de tais coisas. Mas estes são os seus amigos.
Já agora, podemos pelo menos olhar de frente para os factos.
- Devo admitir - disse eu - que Radu Grielescu define
as regras de conduta masculina nesses círculos da Europa de
Leste.
- Queres dizer, toda essa treta do comportamento cava­
lheiresco.
- Sim, mais ou menos isso. O homem atencioso, o único
tipo aceitável, lembra-se dos aniversários, das luas de mel,
e de outras datas queridas. Temos de beijar a mão das se­
nhoras, enviar-lhes rosas; curvarmo-nos, deslocarmos a ca­
deira, corrermos a abrir as portas e tratarmos de tudo com
o chefe dos empregados. Nesse cenário, as mulheres esperam
ser mimadas, idolatradas, adoradas ou galanteadas.
- Esses idiotas brincando ao chevalier à votre service ?
Claro que isso tudo não passa de um j ogo. Mas as mulheres
adoram.
A viagem da estação de Montparnasse até Chartres foi
razoavelmente curta. Se levei Vela a ver a catedral, teria prefe­
rido tê-lo feito num dia de mercado na época dos morangos .
M a s Vela n ã o tinha nenhum interesse por Chartres, exceto
em ser levada lá. Ela estava-se nas tintas para a arquitetura
gótica ou os vitrais. Apenas queria que a sua vontade fosse
satisfeita.
RAVELSTEIN I 23

- Vela impõe-te todo o tipo de condições, não é ? - dis­


se Ravelstein. - Não te fez ir buscar toda a sua bagagem ?
- É verdade. Eu vim por Londres.
- E ela não podia cancelar um qualquer compromisso,
por isso vocês voaram separadamente . E trouxeste os seus
vestidos de noite . . .
Ele não m e admirava por fazer tais recados. Isto deixava
ele superclaro. O retrato que fazia do meu casamento era tu­
do menos lisonj eiro. Os escritores não davam bons maridos.
Reservavam Eras para a sua arte . O u talvez simplesmente
lhes faltasse concentraçã o . Quanto a Vela, j ulgava-a com
ainda maior severidade:
- Talvez eu não devesse ter entrado de rompante no
quarto - admitiu, mas acrescento u : - Não havia assim
tanto para ser visto . De qualquer modo, eu não estava inte­
ressado. Ela estava longe de estar nua . Tinha a combinação
e tudo o resto. Para quê então tanta barulheira ?
- Protocolo - expliquei.
Ravelstein discordava:
- Não, não. Não protocolo. Nem sequer se parece com
protocolo.
Geralmente, não tenho problemas com as palavras. O que
eu queria dizer é que ela simplesmente não estava pronta para
ser vista . A menos que vivêssemos com ela, não saberíamos
o que fazia de manhã ao cabelo, ao rosto, aos lábios ( espe­
cialmente ao lábio superior) - as fases dos seus preparati­
vos. Ela precisava de ser vista como uma mulher bela. Mas
era beleza de passagem de modelos, e precisava de prepara­
tivos de um nível próximo de West Point ou dos hussardos
Habsburgos. Serei talvez suspeito de preconceito. Mas asse­
guro que me confrontei com bastantes excentricidades muito
sérias - acontece que sou um serial marrier e tenho aqui um
problema de autopreservação.
1 24 SAU L BELLOW

- Vela não vem da zona do Mar Negro ? - perguntou


Ravelstein.
- E se vier ?
- Do Danúbio ? Dos Cárpatos ?
- Não sei exatamente de onde.
- Não é muito importante - disse o Abe. - Uma gran-
de senhora segundo o modelo da Europa de Leste. Nenhuma
mulher francesa moderna faria tal escândalo . Muitas vezes
a gente da Europa de Leste agarra-se à França, não tem vida na
sua terra, a terra natal é horrível, e precisam de se ver apenas
sob uma luz francesa. Isto aplica-se a alguém como Cioran ou
mesmo o nosso amigo, o teu amigo, Grielescu. Anseiam tornar­
-se franceses. Mas a tua mulher é ainda mais peculiar . . .
Não deixei que continuasse. Ficaria exposto a acusações
de deslealdade se eu admitisse que ela era de facto o fenó­
meno estranhíssimo que ele acabara de descrever. Eu via-a
com os olhos de um amante. Mas não inteiramente. Também
a via com os olhos do naturalista. Era uma bela mulher. E eu
admitia também que certos aspetos do seu rosto me lembra­
vam Giorgione. Podíamos localizar num pequeno mapa as
origens de Vela na Grécia, ou mesmo no Egito . Claro que
um forte intelecto é um fenómeno universal, e Vela tinha um
cérebro primeiro escalão. A faceta científica merecia o maior
respeito . Ravelstein, contudo, sustinha que eram escassos
os exemplos de grandes personalidades entre os cientistas .
Grandes filósofos, pintores, homens d e Estado, advogados,
sim. Mas homens ou mulheres das ciências dotados de uma
grande alma - isso era extremamente raro.
- É a ciência deles que é grande, não as pessoas.
RAVELSTEIN 1 25

D evo por agora a b andonar Paris e regres s a r ao New


Hampshire.
Alguns dias no campo levaram-me a concluir que a visita
de Ravelstein era prova do seu afeto. Ele não se interessava
pelos prados, árvores, lagos, flores, pássaros: tudo isto des­
perdiçava o tempo de um espírito superior. Por que deixara
ele a sua central telefónica, os seus restaurantes, e todas as
conveniências e atrações eróticas de Nova Iorque ou Chica­
go ? Porque ele queria ver com os seus próprios olhos o que
se passava entre mim e Vela no New Hampshire.
Um dia foi quanto bastou.
- Tenho estado a observar - disse - e vej o que· ela te
tem preso como a um cão pela coleira. Vocês nunca fazem
nada juntos? Passear a pé ?
- Agora que penso nisso, não.
- Nadar ?
- Uma vez por outra ela dá um pulo à piscina do vizi-
nho.
- Churrascos, piqueniques, visitas, festas ?
- Não fazem o seu género.
- Ela não pode falar contigo dos seus principais interes-
ses . . . - O rosto de Ravelstein estava agora muito perto do
meu. Sustendo a respiração, levou-me em silêncio a conside­
rar isto tudo do seu ponto de vista : por que me tinha eu sub­
metido a uma série de tensões diárias que nunca mais teriam
fim ?
Tudo d o que Vela necessitava, como ela dizia com fre­
quência, era de estar sentada com um caderno, num canto
sossegado, a traçar os seus diagramas, de joelhos para cima,
respiração suspensa e . . . imóvel. A beleza desta área do New
Hampshire, com grandes carvalhos e nogueiras seculares -
a pervinca e o musgo nos recantos sombrios significavam . . .
bem, para Vela significavam muito pouco. Ela ficava con­
centrada nas suas grandes abstrações.
1 26 SAUL BELLOW

- Qual é o teu papel no meio disto ? - disse Ravelstein.


- Tu representas talvez tudo o que qualquer homem algu-
ma vez terá dela . . . E assim a fascinante questão é se ela se
concentra na sua ciência ou na sua feitiçaria, porque à tua
ignorância é assim que deve parecer.
Isso pareceu-me uma forma razoável de descrever o caso .
- O seu padrão regular - disse eu - é fazer as malas
de tantas em tantas semanas, inclusive os seus vestidos de
noite, porque há acontecimentos sociais, bem como ciências
duras. Ela desaparece no seu jaguar branco e participa em
conferências científicas para cima e para baixo, ao longo de
toda a costa leste.
- Admitirias que, à parte as sugestões de rejeição, há
também para ti algum alívio quando ela se vai embora ?
Ravelstein podia ser compreensivo . Mas a maior parte
das vezes especulava sobre as minhas incongruências para­
doxais.
- O que tiras deste lugar ? - diria ele. - Isto devia ser
o teu retiro sossegado onde refletes e trabalhas. Ou pelo me­
nos avanças nos teus proj etos . . .
Geralmente, eu era aberto com ele, e disposto a aceitar as
suas críticas. Ele tinha um interesse genuíno pelas vidas dos
amigos, as características, as mais profundas intimidades -
as nossas necessidades sexuais ou fantasias: surpreendia-me
frequentemente com o altruísmo das suas observações. Não
tentava impor-se-nos ao enunciar as nossas faltas. De certa
maneira, eu estava grato por ser observado por ele, e dava
por mim a falar abertamente das minhas peculiaridades.
Posso oferecer uma amostra de conversa .
- Reconheço que este sítio é belo e calmo - disse Ra­
velstein. - Mas consegues explicar o que a Natureza faz por
ti, um típico j udeu citadino ? Tu não és um transcendentalis­
ta renascido.
RAVELSTEIN 1 27

- Não. Essa não é a minha linha.


- E para os teus vizinhos aqui no campo tu és uma da-
quelas bestas que se deviam ter afogado no dilúvio.
- Oh, absolutamente. Mas eu não me preocupo em inte­
grar-me ou pertencer à comunidade. É a calma a toda a volta
qu e me atrai . . .
- J á tivemos esta conversa antes . . .
- Porque é importante.
- A vida foge-no s . Os teus dias voam mais rápido do
que um mergulhão. O u uma pedra lançada ao ar - disse
ele, como um pai indulgente - e acelerando na queda à ve­
locidade de trinta e dois pés por segundo elevados ao . qua­
dra d o . Uma metáfora para a horrível velocidade a que se
aproxima de nós a morte. Tu gostarias que o teu tempo fos­
se tão lento como quando eras criança. Cada dia uma vida
inteira.
- Sim, e para conseguir isso precisamos de algumas re­
servas de paz na nossa alma.
- Como disse um russo - prosseguiu Ravelstein -, eu
não sei qual deles, mas tu sempre tiveste um fraco pelos rus­
sos, Chick, so bretudo quando tentas explicar o que estás
realmente a tentar fazer. Em acréscimo, tens trabalhado du­
rante anos no problema de resolver a tua vida, isto é, a tua
vida privada. E é por isso que dás por ti a ser o proprietário
desta casa e destes carvalhos com trezentos anos, para não
falar das alcatifas verdes dos prados e dos muros de pedra .
Os políticos liberais do nosso país tornaram possível ser pri­
vado e livre, não sermos molestados na nossa vida privada.
Mas os teus dias aceleram-se, e a tua mulher está determina­
da a derrotar os teus planos de tranquila realização. Tem de
haver uma expressão russa especial para esta . . . haa . . . hee . . .
constelação . Consigo ver como ela te conquistou. Ela tem
mesmo classe, quando se arranj a, e um corpo bastante sexy . . .
1 28 SAUL B E L LOW

De início, Ravelstein tivera todo o cuidado para não ofen­


der Vela. Ele queria que nós, por respeito à nossa amizade, nos
déssemos bem, e era caloroso, atento quando ela falava. Era
deferente para com ela. Fazia isto com um ar de virtuoso -
como um ltzhak Perlman tocando canções de embalar para
uma rapariguinha. Mas tinha de suspender o seu sentido crí­
tico. Quando entrou pelo quarto de hotel adentro, ainda es­
tava sob o efeito da entente cordiale que tinha com Vela .
Nunca mentia a si próprio acerca das observações que fazia.
Mantinha registos mentais apurados.
Mas ele e eu tínhamo-nos tornado amigos - profunda­
mente ligados - e a amizade não teria sido possível se não
nos entendêssemos espontaneamente . Nesta ocasião ele re­
costou a cabeça calva nas costas da cadeira . As dimensões
do rosto grande, simpático, pálido, fizeram-me admirar o po­
der dos músculos do seu pescoço e ombros porque as pernas
tinham um mínimo de músculo. Apenas o suficiente para ser­
virem o seu fim, ou para se submeterem à sua vontade.
- Teria sido tão fácil estabelecer uma relação sã. Mas tu
precisas de desafios extremos. E assim dás por ti a tentar agra­
dar a uma mulher. Mas ela recusa ser agradada. Pelo menos
por ti.
«Por sorte - prosseguiu - tens uma vocação. Assim, isto
é apenas um caso à parte. Não é um caso genuíno de escrava­
tura sexual ou de psicopatologia. Da Servidão Humana, sim.
Mas para ti é apenas marginal. Tu podes ter estado apenas
a divertir-te, e a distrair-te defronte da pura e verde inocência
das montanhas brancas com estes vícios menores. Torturas se-
xua1s. »
- Desde que entraste de rompante em Paris ela começou
a dizer que tu e eu andamos enrolados um com o outro.
RAVELSTEIN 1 29

Ele ficou gelado ao ouvir isto. No silêncio, eu podia ver


esta « informação » inesperada a ser processada por um apa­
rato - e estou a falar a sério - de grande poder. Que Ra­
velstein era extremamente inteligente não é uma proposição
discutível. Ele estava no topo da sua escola. Para várias cen­
tenas de pessoas aqui e em Inglaterra, França, Itália, ele era
exatamente isso. Ele interpretava Rousseau para os france­
ses, Maquiavel para os italianos, etc.
Após uma pausa, disse:
- Ah ! E por andarmos enrolados um com o outro ela es­
tá a querer dizer o que eu acho que ela está a querer dizer ?
Após anos de casamento ? . . . Há quanto tempo estão vocês
casados ?.
- Doze anos inteiros - disse-lhe.
- Doze ! Quão patético - disse Ravelstein. - Como
uma pena de prisão a que tu próprio te condenaste. Ainda
por cima és um marido fiel . Cumpriste dia após dia sem
qualquer descanso e sem requerer liberdade condicional por
bom comportamento.
- Eu estava absorto em trabalho - disse eu. - Pela
manhã, ela punha a roupa e a maquilhagem e depois verifi­
cava o cabelo, o rosto, a silhueta, em três espelhos diferentes
- quarto, casa de banho, casa de banho do quarto das visi­
tas. Depois saía pela porta da frente. Eu tinha uma meia dor
de cabeça e uma meia dor de coração. Isto ocupava-me o es­
pírito.
- Ela não sabe vestir-se - ·disse Ravelstein. - Todos es­
ses materiais estranhos . . . O que andava ela a vestir no ano
passado ? Pele de avestruz ? . . . E por fim acusa-te de teres uma
sórdida história de cama comigo. E o que disseste tu ?
- Ri-me. Disse-lhe que nem sequer sabia como se prati­
cava o ato, e que, na minha idade, não estava com disposi­
ção de aprender. Vi aquilo como uma piada. Ainda assim,
ela não acreditou em mim . . .
130 SAUL BE LLOW

- Ela não podia acreditar em ti - disse Ravelstein. -


Tomou-lhe demasiadas energias inventar essa triste acusa­
ção. A visão dela nesta área é extremamente limitada, não
obstante eu ter ouvido dizer que é mesmo muito boa nessa
tal física do caos.
Devia ter sido da rede telefónica do Abe que viera esta
informação. A velha expressão « Ele tem mais ligações que
uma central telefónica » tinha, nos nossos dias, sido enterra­
da sob as carradas de informação tratadas pela formidavel­
mente expandida tecnologia das comunicações.
Ravelstein tinha pedido aos seus amigos em todo o lado
informações acerca de Vela, e estava preparado para me con­
tar muito mais do que eu queria ouvir. Ao ponto de eu apertar
as mãos sobre os ouvidos e fechar completamente os olhos.
Mas não é possível reclamar inocência na minha idade. Nove
décimos da inocência moderna pouco mais são do que indi­
ferença ao vício, a opção de não sermos afetados por tudo
o que tenhamos lido, ouvido ou visto. O prazer do escândalo
torna as pessoas engenhos a s . Vela era engenhosa na sua
ciência e desprovida de culpa na sua conduta.
Não podíamos, enquanto íntimos e amigos de Ravelstein,
evitar ficar a saber bastante mais do que nos apetecia. Mas,
a um certo nível, há lugares na nossa psique que ainda per­
tencem à Idade Média. Ou mesmo à idade das pirâmides ou
à Ur dos caldeus. Ravelstein falou-me das relações de Vela
com gente de quem eu nunca tinha ouvido falar. Disse que
estava preparado para me dar o nome dos meus rivais, mas
eu não quis saber. Desde que percebera que ela não me ama­
va eu tinha-me, com uma capacidade inata, biológica, fecha­
do atrás da minha secretária e concluído alguns proj etos há
muito adiados - citando Robert Frost para mim mesmo:
RAVELSTE I N 13 1

Porque eu tenho promessas a cumprir


E milhas a percorrer antes de dormir.

Por vezes modificando isto para:

Porque eu tenho receitas a cozinhar


E muito a andar antes de acordar.

A piada era para mim, não para Frost - um tipo senten­


cioso cuj a conversa era principalmente acerca do que ele
fazia, dos seus sucessos e triunfos. Não é possível negar que
fazia autopromoção. Tinha génio para as relações públicas.
Mas era também um escritor de raro talento.
Era desestabilizador ouvir falar da alegada má conduta
de Vela. Perco o pé, tropeço, quando recordo o que Ravel­
stein me contou dos seus vários casos. Por que havia tantas
conferências no verão ? Por que não me dava números de te­
lefone onde pudesse ser contactada ? Claro, ele não se teria
importado com estes factos se não fossem factos singulares.
Conforme j á disse, Ravelstein adorava fofocas e os seus ami­
gos recebiam pontos consoante as notícias picantes que tra­
ziam. E não era uma boa ideia partir do princípio de que ele
seria um bom guardião das nossas confidências. Eu não me
importava muito com isto. As pessoas são infinitamente
mais inteligentes do que costumavam ser a tentar descobrir
os nossos segredos . Se nos descobrirem os segredos, o seu
poder sobre nós aumenta . Não há hipótese de as impedir.
Podemos construir quantos labirintos quisermos, é seguro
que seremos descobertos. E claro que eu estava consciente
de que Ravelstein não se importava nada com os meus « se­
gredos » .
Mas dado que Ravelstein tinha uma vida mental em lar­
ga escala - e digo isto sem ironia, os seus interesses eram
realmente latas - ele precisava de saber tudo o que havia
132 SAUL BELLOW

para saber sobre os seus amigos e alunos, tal como um médico


em busca de um diagnóstico tem de nos ver completamente
despidos. A comparação perde-se quando nos recordamos de
que um médico está obrigado por regras de ética a não fofocar
sobre a nossa vida . Ravelstein não estava tão constrangido.
Quando eu era um miúdo, nos anos trinta, a noção de «verda­
de nua e crua » andava no ar. « Vamos ter a verdade nua e
crua. » Uma inglesa de nome Claire Sheridan escrevera um li­
vro de memórias intitulado A Verdade Nua e Crua. Era apro­
priado que ela tivesse visitado a Rússia revolucionária, onde
aparentemente se tornara próxima de Lenine e Trotsky e de
muitos outros bolcheviques proeminentes.
Mas isto é apenas pano de fundo.
Continuemos.
Ravelstein, ao falar de Vela, disse:
- Tu fizeste-lhe uma oferta, verões belíssimos no campo,
mas ela não se interessa por este lugar, Chick, se não passa­
ria aqui mais tempo. E por isso fico curioso em perceber por
que motivo te esforças tanto. Contudo - prosseguiu - dei­
xa-me dizer-te o que acho disto tudo. Eu vejo um j udeu, o fi­
lho de imigrantes, levando a sério as premissas americanas.
Tu és livre de fazer o que quiseres, e podes realizar comple­
tamente os teus desej os. É um privilégio teu enquanto ame­
ricano comprar terra e construir uma casa onde vivas em
pleno regozij o dos teus direitos. É verdade que não há aqui
mais ninguém senão tu. E, assim, construíste este santuário
no New Hampshire, onde estás rodeado pelas memórias da
tua família. O samovar russo da tua mãe é um belo objeto.
É haa . . . hee . . . muito belo. Mas está longe, longe, longe da
cidade de Tula. Tula estava para os samovares como New­
castle para o carvão. O haa . . . hee . . . samovar de Tula nun­
ca esteve num local tão remoto, tão longe das suas raíze s .
RAVELSTEIN 133

Quanto a ti, Chick, tu estás a fazer a tua completa declara­


ção americana de direitos. É muito coraj oso da tua parte,
mas é também completamente absurdo . . . em milhas e milhas
ao redor, tu és o único j udeu. Os teus vizinhos podem contar
uns com os outros. O que tens tu, uma esposa gentia ? Tu tens
uma teoria, a igualdade perante a lei. É um grande conforto
ter do nosso lado as garantias constitucionais; e é certamente
também apreciado por outros devotos da Constituição . . .
Ele estava a divertir-se. Não m e importei muito . Ser-me
apontado um padrão de conduta era uma distração.
- Parto também do princípio de que os teus impostos
são altos . . .
- Decerto que são. E novos aumentos todos o s anos, em
prol da educação.
- Posso imaginar que tipo de educação recebem aqui -
disse ele. - Já alguma vez foste a uma assembleia da comu­
nidade ?
- Uma vez.
- E a tua sofisticada esposa ?
- Ela também foi.
Antes de o ciclo de obscuras ou novas doenças começar,
Ravelstein e eu tínhamos muitas conversas divertidas como
esta. Ele parecia considerar que eu valorizava a sua opinião
sobre as minhas atividades . E, até certo ponto, de facto, eu
descobria que eram úteis . Ele disse, por exemplo, que eu era
tudo menos avesso ao risco. E perguntou:
- Estou fascinado pelos casamentos que fizeste . Lem­
bras-te do Steve Brody, não ?
- O suj eito que saltou da ponte de Brooklyn por causa
de uma aposta.
- Esse mesmo. Um desses indivíduos cheios de genica.
Vale a pena espreitar a República de Platão, especialmen­
te o Livro IV. Eu não estudei com afinco os grandes textos,
1 34 SAUL BELLOW

mas não havia a mínima esperança de seguir os raciocínios


de Ravelstein se os ignorássemos completamente. Eu não me
intimidava verdadeiramente com eles. Atualmente, sinto-me
a j ogar tão em casa com Platão como com Elmore Leonard.
- Não há nada que eu te possa dizer que tu não com­
preendas imediatamente - declarar-me-ia por vezes Ravel­
stein, mas é possível que ele tenha cultivado uma arte de
conversação com o bom velho Chick e que tivesse um certo
cuidado em andar devagar para não o assustar. E é também
possível que, enquanto educador genial, ele soubesse o limite
de tráfego que o meu cérebro conseguia suportar.
No New Hampshire, ele pressionar-me-ia uma vez e ou­
tra a repetir velhas anedotas, velhos gags e cenas de vaude­
ville.
- Imita lá o Jimmy Savvo com aquela canção - ou en­
tão: - Conta lá de novo como é a história do marido furio­
so ? O homem com o coração despedaçado que diz ao amigo:
«A minha mulher engana-me. »
- Ah, sim. E o amigo diz: « Faz amor com ela todos os
dias. Uma vez por dia no mínimo. E ao fim de um ano ela
estará morta. »
- « Não ! » O tipo está espantado. « É essa a solução ? »
- «Uma vez por dia. Com tanta frequência, ela não re-
sistirá . . . »
- Então depois traziam um cartaz ao palco. Deves estar
recordado de que era assim que se fazia. Um arrumador com
um boné redondo e uma fila dupla de botões trazia um tripé
com um cartaz. Em letras grandes, estava escrito no cartaz:
« Cinquenta e uma semanas depois. » E então o marido entra
no palco empurrado pela mulher numa cadeira de rodas .
Tem u m a r muito fraco. Enrolado e m mantas como u m in­
válido. E a mulher está radiante. Está vestida com roupa de
ténis e tem uma raquete debaixo do braço. Ela anda à volta
RAVELSTEIN 135

dele, apaparica-o, beij a-o. Os olhos dele estão fechados. Pa­


rece meio-morto. Ela diz: « Descansa, querido, volto já de­
pois da minha parti d a , não demoro mesmo nada n a d à . »
Quando ela sai, o frágil marido leva as mãos ao rosto e, por
detrás da mão, num belíssimo sussurro de vaudeville, confi­
dencia ao público: « Ela não o sabe, mas tem apenas mais
uma semana de vida. »
Ravelstein j ogou a cabeça para trás ao ouvir isto. Fechan­
do os olhos, todo ele se lançava para trás, torcido de riso.
No meu estilo assaz diferente, eu fazia a mesma coisa. Como
eu disse, foi o nosso sentido do cómico que nos j untou, mas
esta seria uma maneira muito pobre, anémica, de o colocar.
Um alvoroço feliz - immenso giubilo - unia-nos um des­
mesurado acordo tácito, e tentar pô-lo por palavras não nos
levaria a lado nenhum.

Nesses dias, Rosamund percorria um longo caminho no


comboio pendular. Atravessava toda a cidade, e tinha nos
rostos dos outros passageiros com que exercitar os seus pen­
samentos e emoções . Trazia-me o correio da semana e as
mensagens telefónicas. Durante dois anos, tinha sido minha
aluna e assistente - batendo à máquina e enviando faxes
para mim. Vela era condescendente e nem sequer a convida­
va a sentar-se. Eu oferecia a Rosamund uma chávena de chá
e tentava pô-la à vontade. Embora ligeiramente apagada,
Rosamund era ultraeficiente, mas Vela considerava-a uma
pequena sem qualquer interesse. Os ares que Vela se dava
eram grandiosos e aristocráticos. Ofertava-se vestidos carís­
simos em materiais estranhos como pele de avestruz. Houve
uma época em que só comprava avestruz - um grande cha­
p éu de avestruz em estilo bandoleiro, com os folículos do
couro visíveis onde tinham sido tiradas as penas. Trazia uma
SAUL BELLOW

mala de avestruz pendurada ao ombro e botas e luvas de


avestruz . Com o seu salário integral de professora, tinha
imenso dinheiro para gastar. A beleza dela era o único tipo
de beleza que importava.
- A tua pequena Rosamund está a morrer por tomar
conta de ti - disse Vela.
- Acho que ela acredita que eu tenho um c a samento
feliz.
- Nesse caso, por que traz sempre um fato de banho ?
- Porque é uma viagem longa de comboio e ela gosta de
nadar no lago.
- Não, é para tu poderes admirar o seu belo corpinho .
Se não fosse assim, ela iria nadar sozinha na sua própria zo­
na da cidade.
- Ela sente-se mais segura aqui.
- Tu não passas o tempo todo a ditar cartas.
- Todo, não - admiti.
- Bem, então de que é que vocês falam ? Hitler e Estaline ?
Estes, para Vela, eram tópicos desprezíveis. Comparados
com a física do caos, nem sequer existiam. E ela nascer a ,
faço questão de sublinhar, a uma hora de avião d e Estaline­
grado, mas os pais tinham conspirado para a manterem im­
pecavelmente inocente da Wehrmacht e dos gulags. Apenas
os seus estudos esotéricos importavam. Ainda assim, curio­
samente, Vela tinha talento para a política. Assegurava-se de
que as pessoas pensariam bem dela. Era seu desej o que a vis­
sem como uma pessoa calorosa, amistosa, generosa. Até Ra­
velstein dissera dela:
- As pessoas sentem-se lisonjeadas pela atenção que lhes
dá. Compra presentes de aniversário caríssimos.
- Sim. É engraçado como ela atrai conhecimentos e evita
que entrem em contacto comigo. Não me sinto com vontade
de entrar num concurso, a ver quem compra o presente mais
caro.
RAVELSTEIN 137

- O que estás a querer dizer-me, Chick, que ela é uma


espécie de ser vindo de outro planeta ?
Eu estava agora familiarizado com as noções de Ravel­
stein acerca do casamento. As pessoas são vencidas por fim
pelos seus desej os solitários e pelo intolerável isolamento .
Elas precisam da certa, da porção que falta para ficarem
completas e, como em termos realistas não podem esperar
encontrá-la, acabam por aceitar um substituto razoável. Re­
conhecendo que não podem vencer, acomodam-se. O casa­
mento entre espíritos verdadeiros raramente ocorre. O amor
que se busca a si próprio até aos limites do destino não é um
projeto moderno. Mas não havia, para Ravelstein, nada que
competisse com esta vitória da alma . Os estudiosos negam
que o Soneto 1 1 6 sej a acerca do amor entre homens e mu­
lheres, insistindo em que Shakespeare está a escrever sobre
a amizade. O melhor a que podemos aspirar na modernidade
não é ao amor, mas a uma ligação sexual - uma soluçã·o
burguesa, sob vestes boémias. Menciono a boémia, porque
precisamos de sentir que somos livres. Ravelstein ensinava
que, na condição moderna, estamos num estado enfraqueci­
do. O estado forte - e isto foi o que aprendeu com Sócrates
- chega-nos através da natureza. No cerne da alma está
Eros. Eros é inevitavelmente, impreterivelmente atraído pelo
sol. Já antes falei disto. Se falo de novo é porque nunca esgo­
to Ravelstein e ele nunca esgotava Sócrates, para quem Eros
estava no centro mesmo da alma, onde o sol a alimenta e ex­
pande.
Mas, em alguns aspetos, eu tinha melhor opinião de Vela
do que Ravelstein. Ele não era vulnerável ao seu tipo de en­
canto. Eu, em contrapartida, continuava a ver o que os ou­
tros viam nela - atravessando uma sala, vestida com roupas
caras, poisando os pés com tanta rapidez que os calcanhares
mal tocavam o chão. Tinha noções originais sobre o andar,
SAUL BELLOW

o falar, o suspirar, o sorrir. Os americanos que a conheciam


achavam que era a essência da graça e elegância europeias.
A própria Rosamund achava isso. Expliquei-lhe que, sob es­
sa capa, havia um tipo especial de desaj eitamento atrativo.
Mas todo o prestígio, a sua reputação no seu ramo da física,
o grande salário que lhe pagavam, o seu encanto inimitável,
tornavam muito difícil para qualquer mulher competir com
ela. Rosamund dizia:
- Que mulher extraordinariamente bonita ela é. Cintu­
ra, pernas, e tudo.
- De acordo. Mas há um toque de artificialidade em ci­
ma. Como um estratagema. Como uma falta de afeição.
- Mesmo depois de um tão longo casamento ?
Eu tinha esperanças de fazer aquilo funcionar com Vela,
porque tivera outros casamentos anteriores. Mas tinha mais
ou menos desistido do combate e, durante cerca de doze anos,
não pedira nada a Vela. De manhã ela saía porta fora e eu
voltava para as minhas tarefas e passava o dia à volta delas.
Ravelstein, do outro lado da cidade, ficava comigo ao telefone
durante uma hora ou duas. Pelo menos uma vez por semana,
Rosamund vinha de transportes públicos da ponta da cidade
onde vivia Ravelstein. De vez em quando, eu sugeria que apa­
nhasse um táxi, mas ela dizia que preferia o comboio. Rosa­
mund dizia que George, o seu namorado, o considerava per­
feitamente seguro. A polícia vigiava-o com mais eficácia do
que em Nova Iorque.
Adquirindo o hábito de Ravelstein, ensinei-lhe o termo
louche - suspeito . Nada como uma palavra francesa para
neutralizar um perigo americano.

Nessa altura, tudo estava a ir de mal a pior. Tinha regres­


sado do funeral do meu irmão em Tallahassee a tempo de ver
RAVELSTEIN 139

o meu outro irmão sobrevivente, Shimon, no que acabou por


ser o último dia da sua vida. Ele disse-me:
- Que bela camisa trazes, Chick. Tem classe, com essas
riscas vermelho-cinza. - Estávamos ambos sentados no so­
fá. O seu rosto consumido pelo cancro tinha o aspeto habi­
tual de bom humor. - Mas ouvi dizer que queres comprar
um Mercedes a gasóleo. Aconselho-te a não o fazeres. Só te
trará problemas.
Ele vibrava, com uma urgência ou desassossego finais.
Estava praticamente no fim, por isso prometi não comprar
o carro a gasóleo. Então, depois de uma longa troca de olha­
res silenciosos, ele disse que queria voltar para a cama . Já
não o conseguia fazer sozinho. Em tempos tinha j ogado fute­
bol com pernas fortes, mas os músculos tinham desaparecido
completamente. Olhei por detrás, tentando decidir se inter­
vir. Ele j á não tinha nada que obedecesse à sua vontade.
E então a sua cabeça girou na minha direção e o branco dos
olhos ficou à mostra - nada senão o branco cego dos olhos.
A enfermeira gritou:
- Ele está a deixar-nos !
Shimon ergueu a voz e disse:
- Nada de nervosismos.
Isto era o que ele costumava dizer à mulher e às crianças
quando tinham um diferendo ou começavam uma discussão.
Não deixar que as coisas perdessem o pé era a sua função na
família . Não se tinha dado conta de que os olhos estavam
revirados para dentro . Mas eu já tinha visto isto em mori­
bundos e sabia que nos estava a deixar - a enfermeira tinha
razão.
D epois do funeral, na mesma semana, dias depois do
meu aniversário, eu estava desagradável e irritável, aos pon­
tapés à porta da casa de banho de Vela, quando me lembrei
SAUL BELLOW

do apelo à calma do meu irmão, praticamente as suas últi­


mas palavras. E, assim, saí de casa. Quando regressei à noite
deparei com uma nota de Vela; ficava a dormir em casa de
Yelena, uma outra mulher franco-balcânica.
Regressando a casa, na noite seguinte, dei com ela cheia
de grandes autocolantes coloridos - os verdes identificavam
as minhas posses, os cor de salmão estavam colados às de
Vela. O apartamento transbordava destas grandes manchas.
As cores eram incomuns, havia algo de desagradável ou de
bilioso nelas; estavam identificadas numa caixa como « cores
pastel » . Produziam um efeito tipo tempestade de neve -
« um meum et tuum temporal » , como descrevi a Ravelstein.
Um grupo de alunos dele aj udou-me a levar as coisas pa­
ra o meu novo apartamento, quando me mudei. Rosamund
encontrava-se entre eles. Estava naturalmente interessada
nos livros que eu reunira . Nas caixas havia o meu Words­
worth de quando era estudante e o meu Shakespeare e o
Ulysses com os erros curiosos dos impressores parisienses de
Joyce - Molly não diz « D á-nos um abraço, Poldy, meu
Deus, estou a morrer por um » mas sim «Dá-nos um braço » .
Tudo isto porque dois cães estão a copular lá em baixo na
rua . « É assim que a vida começa » , pensa Leopold Bloom.
Neste dia, ele e Molly concebem o seu filho, uma criança
que não viverá muito. Em todas as direções, os muros da vi­
da estão repletos com tantos factos que nunca nos podemos
dar conta de todos, apenas nos apercebemos de alguns dos
mais peculiare s . Por exemplo, o ar que Vela deve ter tido
quando encheu aqueles obj etos todos de autocolantes verdes
e laranj a . Só de olhar para eles dava vontade de fugir aos
grito s . Assim, por que motivo casamos com uma mulher
cuj o último ato enquanto esposa é colocar centenas, senão
milhares, de etiquetas ? E, j á agora, por que motivo Molly
casara com Leopold Bloom ? A sua resposta for a : « Ele ou
outro era igual. »
RAVELSTEI N

Eu pensava em Vela como uma beleza impossível de riva­


lizar. Ela trazia as saias j ustas atrás. Tinha botas de montar,
j unto com um belo busto, e o ruído dos saltos quando entra­
va numa sala era como tambores militares, mas não nos da­
va qualquer pista sobre o que ela estava a sentir ou a pensar.
O lábio superior de Vela era rígido. Sempre me inclinei
a dar uma grande importância diagnóstica ao lábio superior.
Se h o u v e s s e uma tendência despótic a , reve l a r - s e - i a a l i .
Quando examino uma fotografia, é meu hábito isolar os tra­
ços. O que nos diz aquela testa, ou a colocação destes olhos ?
Ou aquele bigode ? Hitler e Estaline, os ditadores clássicos
do nosso século, tinham bigodes muito diferentes. O lábio de
Hitler, agora que penso nisso, era extremamente peculiar.
Um facto curioso: o lábio de Vela picava quando a beij áva­
mos.
Ela tinha uma forma de nos conduzir, de nos mostrar co­
mo ser um macho . Esta tendência é mais comum entre as
mulheres do que poderíamos supor. Ou ela tinha em mente
homens de que tinha gostado no passado, ou tinha um qual­
quer princípio masculino criado por ela própria, um comple­
mentar ma sculino j unguiano, o seu animus p articular o u
uma visão inata d o que devia ser u m homem. Tudo isto in­
conscientemente, claro.
Ravelstein não tinha paciência para esse género de coisas.
- Essa treta j unguiana vem diretamente de Radu Grie­
lescu. Vela é muito amiga do casal Grielescu. Vocês costu­
mavam j antar com e l e s pratic amente todas as sema n a s .
Claro que t u é s um escritor, precisas d e conhecer todo o gé­
nero de pessoas - disse. - Nada de mais natural para um
homem na tua posição. Gente do mundo do desporto, do ci­
nema, da música, agentes imobiliários, e também criminosos.
Eles são o teu pão com manteiga, o teu bife com batatas.
- Então por que não devia eu j antar com Grielescu e a
esp osa ?
SAUL BELLOW

- Não tenho qualquer objeção, desde que estej as a par


dos factos.
- E quais são os factos, no caso dele ?
- Grielescu está a usar-te. Lá na terra, era um fascista.
Ele precisa de se libertar dessa reputação. O homem era fã
do Hitler.
- Vá lá . . .
- Alguma vez ele negou ter pertencido à Guarda de Ferro ?
- Nunca foi assunto de conversa.
- Tu nunca levantaste o assunto. Tens alguma memória
do massacre de Bucareste, quando penduraram pessoas em
ganchos, no matadouro, e as assassinaram, arrancando-lhes
a pele enquanto ainda estavam vivas?
Raramente ouvíamos Ravelstein fal a r em tais cois a s .
Uma vez ou outra, referiria a « História » e m termos gerais
hegelianos, e recomendaria alguns capítulos da Filosofia da
História como sendo muito divertidos. Mas, com ele, con­
versas sombrias acerca dos « acontecimentos concretos » eram
extremamente raras.
- Sabes que Grielescu era um seguidor de Nae Ionesco,
que fundou a Guarda de Ferro. Ele nunca mencionou isto ?
- De vez em quando fala de Ionesco, mas, acima de tu­
do, fala dos seus dias na Í ndia e de como estudou com um
mestre de ioga.
- Isso é a treta do seu charme orientaloide. Tu és dema­
siado indulgente, Chick, e isso também não é completamente
inocente. Tu sabes que ele te está a aldrabar. Há um acordo
tácito entre vocês. Tenho de o dizer alto ?
Por regr a , Ravelstein e eu falávamos abertamente um
com o outro. Verbum sat sapienti est. O s Grielescus eram
socialmente importantes para Vela. Eu tinha um dom consi­
derável para me aperceber dos detalhes, e tinha noção de que
RAVELSTE IN I43

Vela m e dava uma boa pontuação por ser tão delicado com
R a d u e sempre do máximo c a v a lheirismo c o m M a d a m e
Grielescu. A minha conversa de chacha com a Madame, em
francês, dava a Vela uma grande satisfação. Mas Ravelstein
estava a tecer uma observação muito séria sobre as minhas
relações com estas pessoas. Quando estava a morrer parecia
sentir necessidade de falar mais abertamente de assuntos que
nunca tínhamos sentido a necessidade de discutir.
- Eles usam-te como cobertura - disse Ravelstein. -
Tu nunca te farias amigalhaço de antissemitas . Mas estes
eram amigos de Vela, e tu deste a cara por eles, e forneceste
a Grielescu exatamente o que ele queria. Enquanto naciona­
lista romeno, nos anos trinta, ele era violento para com os
j udeus. Não era um ariano; não, era um dácio. 1
E u sabia isso, bem demais. Estava também ciente d e que
Grielescu tivera uma relação próxima com C. G. Jung, que
se considerava uma espécie de Cristo ariano. Mas o que se
podia fazer com estes eruditos oriundos dos Balcãs que ti­
nham uma infinita diversidade de interesses e talentos - que
eram cientistas e filósofos e também historiadores e poetas,
que estudaram sânscrito e tamil e davam aulas de mitologia
na Sorbonne; que poderiam, se intimados a isso, falar-nos de
pessoas que tinham « vagamente conhecido » na organização
paramilitar antissemítica da Guarda de Ferro ?
O facto é que eu gostava de observar Grielescu. Ele tinha
tantos tiques. Era um fumador irrequieto, sempre mexendo
no cachimbo, acendendo-o, enchendo-o de tabaco, batendo
com ele na mesa para o limpar. Era pequeno e careca, mas
usava o cabelo comprido na nuca; atrás do pescoço amon­
toava-se. O escalpe, aberto como um estuário, tinha as veias
salientes; parecia congestionado. Muito diferente da calvície
de melão verde de Ravelstein. Enquanto se entretinha com

1 Os dácios eram para a Roménia o que os arianos eram para a Ale­


manha.
I 44 SAUL BELLOW

a limpeza do seu cachimbo, Grielescu continuaria a dissertar


sobre um qualquer tópico esotérico ou algo do género . As
suas sobrancelhas eram hirsutas e o rosto largo estava prepa­
rado para uma troca de ideias. Mas não havia troca, porque
ele embarcava num qualquer tópico do mito ou da história
acerca do qual não tínhamos nada a dizer-lhe . Eu não me
importava de todo. Não gosto das responsabilidades que nos
caem em cima quando somos nós a ter de fazer convers a .
Mas toda a gente tem u m pequeno j ardim d e conhecimentos
gerais, e é muito agradável vê-lo ser regado e cuidado por al­
guém. Por vezes, Radu falava do xamanismo siberiano; ou
então, uma vez mais, dos rituais de acasalamento na Austrá­
lia primitiva . Partia-se do princípio de que estávamos ali pa­
ra ouvir· ou aprender com Radu. Madame Grielescu tinha
mesmo arrumado a mobília da sala de acordo com este prin­
cípio.
- Era assim que ele levava a conversa para longe do seu
passado nazi - disse Ravelstein. - Mas, apesar disso, o pas­
sado mostra o que escreveu acerca da sífilis judia que infetava
a civilização superior dos Balcãs.
E vim a descobrir que tinha razão. Grielescu estivera liga­
do aos nazis, não à mais suave forma italiana de fascismo.
É difícil dizer quão politizada tinha sido Madame Grielescu.
A minha impressão é a de que, nos dias antes da guerra, era
uma beldade cheia de estilo, uma coquete da alta sociedade.
Podíamos facilmente visualizá-la a sair de uma limusina com
um chapéu redondo. As mulheres que vestiam boas roupas
e batom vermelho-vivo geralmente não se metiam em políti­
ca. Estas senhoras europeias geriam o comportamento social
dos maridos - os machos da sua espécie. Os homens exis­
tiam para abrir portas e puxar as cadeiras à mesa de j antar.
Madame Grielescu nunca estava completamente bem.
A j ulgar pelas suas rugas, estava para lá dos sessenta, infeliz
com o facto, mas também muito exigente com os homens -
RAVELSTE I N 145

um manual ambulante de etiqueta. Era impossível adivinhar


o que sabia do passado do marido na Guarda de Ferro. No
fim dos anos trinta, quando os alemães tinham conquistado
a França, a Polónia, a Áustria e a Checoslováquia, Grielescu
tornara-se uma espécie de guru cultural em Londres e m-a is
tarde tivera o seu papel em Lisboa durante a ditadura de Sa­
lazar.
Mas agora as suas ideias políticas de meados do século
estavam mortas e enterradas. Quando Vela e eu jantávamos
com os Grielescus, a conversa não era acerca da guerra ou
de política, mas de história arcaica e mitologia . O professor,
com uma camisa de seda branca, sem colarinho, sob o smok­
ing branco, puxava as cadeiras para as senhoras se sentarem
e punha-lhes flores ao peito. As mãos tremiam-lhe. Atrapa­
lhava-se à volta do champanhe.
- Pagava as contas em dinheiro, de um molho de notas
de cinquenta dólares. Nunca com cartão de crédito.
- Não o estou a ver no banco a levantar dinheiro - dis­
se Ravelstein.
- Provavelmente, envia a secretária a levantar um che­
que . Sej a como for, paga com notas lisas, nada amachuca­
das. Nem sequer conta o dinheiro, apenas deixa um molho
de notas e faz um gesto de « está bem assim » . Depois salta
para o outro lado da mesa, para acender o cigarro da mu­
lher. Há toda uma galanteria, e as hommages, uma conta
aberta na florista para encomendar rosas, e o beij a-mão e as
reverências.
- E tudo isso em francês. Há uma medida distinta para
os americanos. E ainda por cima tu és j udeu. Era bom que
os j udeus se apercebessem melhor do seu estatuto em relação
ao mito. Por que haviam eles de ter alguma coisa que ver com
o mito ? Foi o mito que os demonizou. O mito do judeu está
diretamente relacionado c o m as teorias da conspir a ç ã o .
SAUL BELLOW

Os protocolos de Sião, por exemplo. E o teu Radu escreveu li­


vros, uma caterva infinita de livros, sobre o mito. E, afinal,
o que tens tu que ver com o mito, Chick ? Estás à espera de
que um dia destes cheguem ao pé de ti e te digam que te tor­
naste um ancião de Sião ? Peço-te apenas que, de vez em quan­
do, te lembres daquelas pessoas nos ganchos do matadouro.

Ravelstein e eu tínhamos discussões intermináveis sobre


a alhada balcânica em que eu estava metido, mas, ao conti­
nuar esta narrativa, dou-me conta de que tenho de me livrar
de Vela. Preciso de a mandar embora de uma vez por todas .
Isto não é tão simples como podemos supor. Ela era belíssi­
ma e vestia-se e preparava-se memoravelmente. Ao telefone
chilreava como Papagena . Ravelstein estava praticamente
isolado ao descrevê-la como despida de gosto no modo co­
mo se vestia. Ele via-a como uma gestora dos traços exter­
nos. Se fosse política, poderíamos dizer que estava pronta
a ganhar as eleições com uma perna às costas. Mas Ravel­
stein discordava :
- Uma vez que comecemos a suspeitar dela, a moldura
cai toda aos bocados. Demasiada planificação - disse. Mas
depois acrescentou: - Ela fez bem em correr contigo.
- Por que dizes isso ?
- Porque tu acabarias eventualmente por a matar . -
Ravelstein não disse isto com ar sombrio. Para ele, a hipóte­
se de um tal crime era uma coisa boa. Valorizava-me. - Ela
tinha-te enfeitiçado sexualmente, por isso tinhas de estar
a pensar numa morte violenta para ela. E escolheu o pior
momento possível, logo a seguir às mortes de ambos os teus
irmãos, para te dizer que ia pedir o divórcio.
RAVELSTEIN 1 47

Ravelstein dizia-me com frequência:


- Há algo no modo como contas histórias que me toca,
Chick. Mas precisas de um tema a sério. Gostava que me es­
crevesses, depois de eu partir . . .
- Isso depende, não achas, de quem chega primeiro que
o outro à meta ?
- Vamos deixar-nos de tretas sobre este assunto. Sabes
perfeitamente que eu estou a morrer. . .
Claro que sabia. Sem dúvida que sabia.
- Podias fazer mesmo uma bela memória, Chick. Não
estou apenas a fazer-te um pedido - acrescentou. - Estou
a colocar-te isto sobre os ombros como uma obrigação. Fá­
-lo à tua maneira, tipo reminiscência pós-j antar, depois de
uns copos de vinho e quando estás recostado a lançar alvi­
tres. Adoro ouvir-te quando estás a dissertar sobre Edmund
Wilson ou John Berryman, ou Whittaker Chambers, quando
foste contratado pela Time de manhã e despedido por ele
à hora de almoço. Já por várias vezes reparei como sabes
contar bem uma história, quando estás descontraído.
Não havia maneira de o recusar. Ele claramente não que­
ria que eu escrevesse acerca das suas ideias. Essas, tinha-as
ele próprio exposto longamente e estão acessíveis nos seus li­
vros teóricos. Eu tornei-me responsável pela pessoa, portan­
to, e, dado que não o consigo descrever sem uma certa dose
de autoenvolvimento, a minha presença terá de ser tolerada.
A morte estava a aproximar-se e começava a transmitir
os sinais habituais, informando-me antes do mais de que, ao
preparar-me para o seu fim , eu não devia esquecer-me de
que era alguns anos mais velho do que ele. Na minha idade
avançada, em cada três pensamentos que eu tivesse, lim de­
veria ser sobre a morte. Mas o estranho era que eu era agora
o marido de Rosamund, uma das alunas de Ravelstein. E Ra­
velstein era uma personalidade tão paradoxal, estão a ver,
148 SAUL BELLOW

que um dos efeitos da sua amizade era tornar-me inconscien­


te da estranheza da minha condição - nos meus setentas
e casado com uma j ovem.
- É estranho apenas quando vemos a coisa de fora -
disse Ravelstein. - Ela enamorou-se por ti e assim foi im­
possível detê-la.
Ao escolher-me o u armadilhar-me para escrever estas
memórias, ele forçou-me a considerar a minha morte tanto
quanto a dele . E não só a sua morte de herpes zóster, Guil­
lain-Barré, etc., mas uma quantidade de outras tantas mortes.
Era altura de regressar à base para uma geração inteira . Por
exemplo: no dia desta conversa ; eu estava sentado ao lado
de Ravelstein na sua enorme, extravagante cama de casal.
A cortina estava aberta na j anela a leste e tínhamos em frente
o vasto azul do lago cujas margens não víamos.
- Em que pensas quando olhamos nesta direção ? - disse
Ravelstein.
- Penso no bom velho, ou no mau velho, Rakhmiel Ko­
gon - disse eu.
- Ele marcou-te mais a ti do que a mim - disse Ravel­
stein.
Talvez. Ainda assim, eu não conseguia olhar naquela dire­
ção - leste - sem ver o edifício de apartamentos de Kogon,
e aí podíamos contar para cima ou para baixo tentando en­
contrar o décimo piso, mas depois nunca estaríamos certos
de estar a olhar para a j anela certa. Rakhmiel, que fazia par­
te da minha vida desde os anos quarenta e desde os cinquenta
na de Ravelstein, era um dos que iam e vinham por interva­
los. Nunca se sabia quem seria o próximo. Ele tinha sofrido
vários tipos de cirurgia; a próstata tinha sido removida no
ano passado - Rakhmiel disse que de qualquer modo tam­
bém não lhe servia de muito. Eu não me sentia na categoria
ameaçada, porque me tinha enamorado por uma mulher j o­
vem e casado com ela. Por isso, ainda não estava preparado
RAVE LSTEIN 1 49

para lidar com o contingente de partida. Era um desses mo­


mentos curiosos de iluminação que eu não me sinto capaz de
reproduzir. Rakhmiel era um erudito, mas de quê ? C a d a
canto d o seu apartamento estava coberto d e livros. Todas a s
manhãs, Rakhmiel sentava-se à secretária e escrevia com tin­
ta verde.
Rakhmiel não era nem um homem grande nem saudável,
mas era fisicamente estranho à mesma - compacto e denso,
prepotente, tiranicamente o b sessivo, opinati v o . As s u a s
ideias estavam definidas d e uma vez por todas acerca d e cen­
tenas de assuntos e talvez isto fosse um sinal de que ele tinha
completado o seu caminho. Senti que o estava a avaliár para
um obituário. Era possível que estivesse a tentar substituir
Ravelstein por Rakhmiel, a fim de não ter de pensar na mor­
te de Ravelstein . Apetecia-me muito mais pensar na morte
de Rakhmiel. E assim revi a sua vida e a sua obra, para um
artigo sobre ele, enquanto Ravelstein repousava sobre a al­
mofada, olhos cerrados, imbuído nos seus pensamentos.
Rakhmiel era, ou tinha sido, ruivo, mas os cabelos ruivos
tinham perdido a cor e o que restava era uma compleição ru­
bicunda - em fisiologia medieval, sanguínea: quente e seca.
Ou, melhor ainda, colérica. O rosto tinha uma expressão po­
licial, e geralmente parecia, no seu passo rápido, que estava a
trabalhar num caso - a caminho de entregar uma convocató­
ria do tribunal, ou fazer uma captura. A sua conversação, pon­
derei, tinha um tom interrogatório. Muito articulado, falava
em frases curtas, rápidas e impacientes. Quando o conhecía­
mos melhor, compreendíamos que havia dois elementos es­
tranhos e conspícuos na sua pessoa - um alemão e o outro
britânico. A sua parte alemã era a dureza estilo Weimar. Supo­
nho que eu conhecia Weimar na versão de cabaret. A Europa
do pós-guerra nos anos vinte era rica em dureza .. Os veteranos
SAUL BELLOW

de guerra eram duros, os líderes políticos eram duros. O mais


duro de todos era obviamente Lenine, ordenando enforcamen­
tos e fuzilamentos. Hitler entrou na competição quando, nos
anos trinta, tomou o poder. Imediatamente mandou matar
o capitão Roehm e os outros colegas nazis. Houve uma altura
em que Rakhmiel e eu discutíamos este tipo de coisas com
bastante frequência.
Montes de factos amargos, demasiado horríveis para se­
rem contemplados pelos contemporâneos . Não nos conse­
guimos dispor realmente a reconhecê-los. Os nossos espíritos
não são suficientemente fortes para os suportar. E, no entan­
to, não nos podemos permitir dizer « passo » . Um homem co­
mo Rakhmiel sentia-se obrigado a enfrentar o facto de esta
malevolência ser universal. Ele acreditava que toda a gente
tinha um lado assim. Podíamos encontrar estes instintos as­
sassinos em qualquer pessoa de idade adulta. Em certos ca­
sos, como no do próprio Rakhmiel, podíamos identificá-los
na nossa estrutura física como equivalentes, não necessaria­
mente da guerra, mas das disseminadas e vergonhosas enor­
midades russas, alemãs, francesas, polacas, lituanas, ucrania­
nas e balcânicas.
Bem, havia o lado germânico dele. E depois, havia o lado
britânico. Rakhmiel, cuj o nome se traduz por « Senhor, sal­
va-me » ou « Apieda-te de mim, Senhor » , tinha-se também
modelado à imagem dos cavalheiros ingleses e, com o tempo,
tinha-se tornado ele próprio um cavalheiro. Estivera em In­
glaterra durante a guerra. Fora bombardeado em Londres,
onde estava a recolher e interpretar informações. Depois en­
sinou na London School of Economics. Mais tarde foi pro­
fessor em Oxford e dividia o seu tempo entre a Inglaterra
e os Estados Unidos . Era autor de muitos livros eruditos .
Escrevia diária, copiosa, interminavelmente e sem hesitação,
com a sua tinta verde. « Os Intelectuais » eram o seu tema
RAVELSTEIN

principal, e o seu estilo era j ohnsoniano. Por vezes lembrar­


-nos-ia Edmund Burke, mas a maior parte do tempo o que
escutávamos era o tom de Samuel Johnson. Não vej o nisto
nada de errado. O desafio da liberdade moderna, ou a com­
binação de liberdade e isolamento que nos confronta, é cons­
truirmo-nos. O perigo é o de se poder emergir do processo
corno urna criatura não inteiramente humana.
As artes do disfarce estão tão bem desenvolvidas que po­
demos estar certos de subestimar o número de sacanas que
conhecemos ao longo da vida. Nem sequer um génio corno
Rakhrniel era capaz de disfarçar a turbulência ou, se prefe­
.
rirmos, a malevolência da sua natureza. Ele tinha noções de
decência que vinham de tão longe corno os romances de Dick­
ens, mas tinha maus REM - tornei o termo emprestado aos
especialistas do sono - movimentos rápidos da pálpebra .
Tinha o ar de um membro de clube inglês, irritável e alta­
mente volátil, muito vermelho no rosto . Na América, onde
as pessoas não estão familiarizadas com tais tipos, as suas
idiossincrasias estavam destinadas a ser mal interpretadas.
As pessoas viam um pequeno, mas forte, homem, um pouco
barrigudo, vestindo um velho casaco de tweed. Andar mal
vestido é urna tradição cavalheiresca que data da Idade Mé­
dia, e em Oxford e Cambridge ainda se viam os buracos nos
traj es académicos tapados com fita adesiva. Havia um bolor
percetível nas roupas de Rakhrniel Kogon. Parecia um tira­
no, com a tirania tatuada no rosto. Isto não se diferenciava
muito da mansidão, clemência ou civilidade . Quando saía
punha um fedora e urna bengala pesada - « para bater nos
camponeses » , costumava gracej ar. E era urna graça, porque
o seu terna forte era a civilidade. Com a civilidade ele tinha
aberto um novo veio e toda a gente na universidade estava
a explorá-lo.
SAUL BELLOW

Rakhmiel era tudo menos estúpido. A minha crença é a


de que ele, num qualquer canto, cuidava de um pequeno j ar­
dim de sentimentos bons e generosos. Ele tinha a esperança,
sobretudo quando estava a seduzir um novo amigo, de pas­
sar por um homem muito decente. Era também muito culto.
Quando entrávamos pela primeira vez no seu apartamento,
o nosso respeito por ele aumentava . Nas prateleiras havia
secções inteiras de Max Weber e todos os Gumplowitches
e Ratzenhofers. Tinha as obras completas de Henry James
e de Dickens e as histórias da Roma de Gibbon e da Inglater­
ra de Hume, bem como enciclopédias de religião e montes de
livros de sociologia. Bons para segurar as j anelas quando se
partia a corda da persiana, como eu costumava dizer. O ver­
de era a sua marca registada.
Ravelstein riu às gargalhadas quando chegámos a este
ponto. Disse:
- É também assim que quero ser tratado. É isso mesmo.
Quero que me mostres como me vês, sem falinhas mansas
nem edulcorantes.
Ravelstein, depois de ler o meu retrato de Kogon, disse
que eu devia ter comentado a sua vida sexual - uma omis­
são grave, acreditava. Observou com autoridade:
- P a s s a ste completamente a o l a d o . Kogon senti a - s e
atraído por homens.
Quando lhe pedi provas, contou-me que fulano, um estu­
dante graduado, j urara a pés j untos que, uma noite em que
tinham bebido demasiado, Rakhmiel tentara beij á-lo. Era di­
fícil ver Rakhmiel aos beij os e eu disse que nem em mil anos
conseguiria imaginar Rakhmiel a tentar forçar assim alguém.
- Então , fizeram-te uma lavagem ao cérebro - disse
Ravelstein. Para ele nada deste género era demasiado impro­
vável, mas falhei todas as minhas tentativas de imaginar
Rakhmiel a beijar quem quer que fosse. Nem sequer o conse­
guia imaginar a beij ar a mãe. Ele costumava gritar-lhe sem
RAVELSTEIN 153

piedade e depois dizer: « Ela é surda . . . » Mas não acredito


que ela fosse surda, a pobre mãe.

De regresso do hospital, Ravelstein estava a recuperar re­


lativamente bem. Claro que não conseguia vencer a infeção,
mas dizia:
- Não estou com pressa nenhuma de morrer. - A sua
vida social refloresceu. Nos melhores dias, voava como um
falcão, como ele próprio disse. - Mas agora esvoaço como
aqueles perus bravos no teu sítio lá no New Hampshire.
Conseguia andar razoavelmente, embora estivesse sem
noção de equilíbrio.
Conseguia também vestir-se e alimentar-se sozinho, bar­
bear-se, escovar os dentes (tinha uma placa no maxilar supe­
rior), apertar os sapatos e pôr a funcionar a máquina expresso
- demasiado grande para o lava-louças da cozinha. As mãos
tremiam-lhe mais quando efetuavam uma operação extrade­
licada, como encontrar o buraco com a ponta do atacador.
Mal tinha forças para vestir o seu sobretudo de general, for­
rado a pele, que arrastava pelo chão quando lho aj udávamos
a vestir. Já não conseguia acertar sozinho o relógio e tinha
de pedir a Nikki ou a mim para o fazermos.
Continuava, todavia, a dar festas nas noites em que os
Bulls, o seu clube, j ogavam na TV. E uma vez por outra leva­
va os alunos favoritos a j antar ao Acropolis na Halsted
Street. Lá os empregados davam-lhe grandes apertos de mão
e gritavam:
- Ei, rapazes, é o professor! - Davam-lhe a beber azeite
puro, num copo. - É demasiado tarde para lhe salvar o ca­
belo, profe, mas ainda é o melho� medicamento !
Também íamos a um clube noturno na baixa: Les Atouts
- os Trunfos. O Abe tinha ali uma relação cordial de longa
1 54 SAUL BELLOW

data com Monsieur Kurbanski - acento no ban. M. Kur­


banski, o proprietário e gerente sérvio, viaj ava para o estran­
geiro várias vezes ao ano. Estava a preparar-se para a reforma
numa villa na costa dalmácia.
Tinha um belo perfil frontal - a cabeça e a barriga cali­
brando um rosto impressionantemente largo e pálido, com
um pequeno nariz ao meio. O cabelo estava penteado para
trá s . Tinha um casaco de bom corte . No conj unto, dava
a Ravelstein o prazer de sentir que estava a lidar com um ho­
mem civilizado.
Ravelstein dir-me-ia:
- O que achas do Kurbanski ?
- Ele diz que lutou contra os alemães. Pertencia à Resis-
tência.
- Dizem todos isso. Mas não me parece que ele fosse
comunista - disse Ravelstein. - Ao ouvi-los falar, eram to­
dos lutadores pela liberdade n o s cumes d a s montanha s .
Qual é mesmo a tua impressão sobre o Kurbanski ?
- Se ele se fosse pôr a lutar, ainda era capaz de enfiar
uma bala na própria cabeça.
- Também penso o mesmo. Mas, sej a como for, é um
excelente maitre d' - disse Ravelstein.
- Quem o vai contestar se ele reclama ter sido um guer­
rilheiro nos seus dias de glória e lutado contra os alemães ?
- É por isso que ele tem aquele ar tão distante. E assim,
o que resta ? - disse Ravelstein. - A questão j udaica. Não
ser j udeu era muito desej ável naqueles tempos, um bem con­
siderável. Nunca se · sabe. Mas o importante, para Kurban­
ski, é ser francês.
- Sim. Nós vimos ao seu estabelecimento e ele conversa
connosco em francês. E esta cortesia é possível, embora sej a­
mos j udeus, porque podemos falar um francês razoável. . .
RAVELSTEIN 15 5

- Gosto de te ouvir falar quando estás bêbedo, Chick,


a falar e a improvisar em estilo livre. Tens razão em insistir
que Kurbanski tem um ar triste . . .
Ravelstein tinha chegado a acordo d e que era importante
observar o aspeto das pessoas . As ideias não eram suficientes
- as suas convicções teóricas e pontos de vista sobre a polí­
tica . Se não tivermos em conta os cortes de cabelo, o modo
como lhes caem as calças, o seu gosto por saias e blusas, o
seu estilo a conduzir um carro ou sentados à mesa de j antar,
o nosso conhecimento fica incompleto.
- Um dos teus melhores textos, Chick, é aquele .sobre
o Krutschev nas Nações Unidas tirando o sapato e batendo
com ele na mesa. E quase tão bom é o teu retrato do Bobby
Kennedy, quando era o senador de Nova Iorque . Levou-te
com ele numa das suas voltas por Washington, não foi ?
- Sim. Durante uma semana inteira . . .
- Esse foi um dos teus retratos que mais m e despertou o
interesse - disse Ravelstein. - Que o seu gabinete no Sena­
do era como que um templo ao irmão . Um enorme quadro
do irmão na parede. E havia algo de selvagem no seu luto . . .
- Vingativo, foi o que e u disse.
- Lyndon Johnson era o inimigo, não era ? Eles tinham-se
visto livres dele ao nomeá-lo vice-presidente. Uma espécie de
moço de recados. Mas depois foi o sucessor de Jack. E Bobby
precisava de braços para reconquistar a Casa Branca. Repleto
de ódio. Eram ambos homens muito atraentes , os dois ir­
mãos. Bob fazia metade de Jack - disse Ravelstein - mas
era um lutador de rua. Muito divertidos, sobretudo aqueles
passeios do gabinete, no Senado, ao Capitólio. As questões
que ele te colocava eram ótimas, como « Fale-me de Henry
Adams » , « Diga-me o que há a saber de H. L. Mencken » . Se
ia ser presidente, achava que devia conhecer Mencken.
SAUL BELLOW

Ravelstein adorava falar de celebridades. Em Idlewild,


uma vez, tinha descoberto Elisa beth Taylor e, durante perto
de uma hora, andara atrás dela por entre a multidão. Agra­
dava-lhe sobretudo o tê-la reconhecido. Porque ela estava
tão apagada, fora um bocado difícil. Ela parecia estar ciente
de ter perdido o encanto.
- Não tentaste falar com ela ?
- N-não.
- Enquanto autor de um best-seller, estavas ao mesmo
nível que as outras celebridades.
Mas não.
Estávamos sentados, como tínhamos feito durante anos,
na sua sala, e ele tinha posto o seu roupão j aponês. Caía-lhe
do corpo para os lados. As pernas nuas lembravam abóbo­
ras com prémio, por causa de os tornozelos estarem tão in­
chados:
- Esta porra de edema ! - dizia ele.
A metade superior de Ravelstein estava tão viva como
sempre. Mas a doença estava a ganhar terreno, e ele sabia-o
tanto como qualquer médico. Não só falava mais das memó­
rias que eu estava encarregue de escrever como tinha coisas
curiosas para me contar. Acerca da persistência dos desej os
sexuais, por exemplo.
- Nunca tive tanta tesão - disse. - E hoj e já é dema­
siado tarde para arranj ar parceiros. Tenho de me aliviar so­
zinho . . .
- O que fazes ?
- Uma punheta. O que mais há para fazer ? Neste mo-
mento do campeonato, estou humanamente fora da corrida.
O simples pensamento fez-me estremecer.
- Estou fatalmente poluído. Penso imenso naqueles bo­
nitos rapazes em Paris. Se apanham a doença geralmente
voltam para a s mães, que tomam conta deles . A minha é
RAVELSTEIN I 57

uma pobre velhota, agora. A última vez que a vi, perguntei­


-lhe: « Sabe quem sou ? » E ela : « Claro. Você é o homem que
escreveu aquele famoso best-seller de que toda a gente fala. »
- Já me contaste isso.
- Bem, vale a pena repeti-lo. O segundo marido dela es-
tá também numa dessas escolas para nonagenários. Vou che­
gar primeiro que eles, contu d o . A este ritmo, vou chegar
à meta antes da minha mãe. Talvez lá fique, à espera dela.
- Essa é dirigida a mim, não é ?
- Bem, Chick, tu sempre falaste d a vida por vir.
- E tu és um ateu confirmado, j á que filósofo nenhum
pode acreditar em Deus. Mas isto para mim não é uma cren­
ça. É apenas a minha sondagem de amador que mostra que
nove em cada dez pessoas esperam ver os pais na vida por vir.
Mas estarei eu preparado para passar a eternidade com eles ?
Suspeito que não. A minha preferência seria ser aceite para es­
tudar o universo, sob a orientação de Deus. Não há nisto na­
da de original, a menos que sej a afinal de contas uma coisa
tremenda, abarcar o desejo coletivo de biliões de pessoas.
- Bem, em breve o saberemos, tu e eu, Chick.
- Porquê ? Vês alguns sinais em mim ?
- Sim, para ser franco, sim.
Como se ele alguma vez fosse outra coisa.
Por estranho que pareça, não me importei de ouvir isto
dele. Ele podia, contudo, ter pensado em Rosamund. Por ve­
zes, a minha ligação com ela não era muito clara para ele -
naturalmente desorientado pela doença. Ele tinha assumido
o papel do intermediário benevolente, do conselheiro, do
conciliador. Isto era, em parte, devido às influências de Jean­
-Jacques Rousseau, o reformista e pensador de teoria políti­
ca. Mas ele tinha inicialmente sido atraído por Jean-Jacques
SAUL BELLOW

devido à sua forte crença no amor que mantém j untos os in­


divíduos e as sociedades . Ocasionalmente, era capaz de ad­
mitir que Rousseau, o génio e inovador cuj as ideias - o seu
grande espírito - tinham dominado poderosamente a socie­
dade europeia por mais de um século, era ( quase necessaria­
mente) ele próprio um caso clínico. Para nos aproximarmos
aqui um pouco mais do tópico principal, fora tomado de
surpresa quando soubera que, ao casar com Rosamund, eu
não me dera ao trabalho de o consultar. Eu não tinha pro­
blemas em admitir que ele podia saber mais sobre mim do
que eu próprio sabia, mas eu não estava disposto a pôr-me
sob a sua custódia e deixar que dirigisse por mim a minha vi­
da. Isso seria também inj usto para Rosamund. Não vou aqui
fazer discursos sobre a dignidade, a autonomia e tudo o resto.
Ela e eu estávamos j untos há mais ou menos um ano antes
de Ravelstein saber que nós tínhamos aquilo a que os jorna­
listas dos tabloides chamariam « um caso » . Tenho a dizer,
contudo, que quando nos casámos ele estava bastante receti­
vo a isso, não mostrando quaisquer ressentimentos. As pes­
soas faziam o que as pessoas sempre tinham feito. Os velhos
continuavam a ter um ataque de loucura atrás de outro, até
que o organismo deixasse completamente de funcion a r .
E u estava perfeitamente disposto a diverti-lo agindo tipica­
mente, fiel ao modelo . . Nos meses finais, ele reviu as suas
opiniões sobre o s amigos íntimos e o s alunos favorit o s ,
e descobriu que estivera certo acerca deles o tempo todo. Eu
nunca lhe contei que estava enamorado por Rosamund por­
que ele teria rido às gargalhadas, e ter-me-ia dito que estava
a portar-me como um idiota . É muito importante, contudo,
compreender que ele não era um desses indivíduos para
quem o amor tinha sido removido do pedestal e desterrado
- para quem era um mito romântico, histórico, que tardara a
morrer, mas hoje se encontrava finalmente morto e enterrado.
RAVELSTEIN 1 59

Ele pensava - não, ele via - que cada alma estava em bus­
ca da que lhe era peculiar, ansiando pela sua complementar.
Não vou descrever Eros, etc., tal como ele o via . Já fiz bas­
ta nte disso: mas há aqui um certo esplendor irredutível sem
0 qual não seríamos inteiramente humanos. O amor é a mais

alta função da espécie - a sua vocação. Isto simplesmente


não pode ser posto de lado quando consideramos Ravel­
stein. Ele nunca esqueceu esta convicção. Ela está presente
em todos os seus juízos.
Falava frequentemente bem de Rosamund. Dizia que era
honesta, trabalhadora, que tinha uma boa cabeça. As mulhe­
res j ovens, dizia, sofriam o peso daquilo a que ele chamava
«manutenção do charme » . A natureza, além do mais, dava­
-lhes um desej o natural de ter filhos, e assim de se casarem,
por causa da estabilidade requerida pela vida familiar. E is­
to, j unto com mais uma série de coisas, incapacitava-as para
a filosofia.
- Há mulheres j ovens que pensam que podem manter
um marido vivo para sempre - disse.
- Achas que isso se aplica ao caso de Rosamund ? Eu
quase nunca penso nos meus anos no calendário. Sinto-me
sempre a caminhar no meio da mesma p l anície sem fim
à vista.
- Há factos significativos com os quais temos de viver,
mas não temos de deixar que eles nos embotem os sentidos.
Quando se referia à doença, era quase sempre deste mo­
do oblíquo. Ravelstein estava a fazer os preparativos finais.
Ninguém se oferecia como voluntário para falar acerca disso
com ele. A única exceção era Nikki . Mas Nikki era, num
sentido muito especial, família. Se Ravelstein tivesse família,
ela teria de ser uma família exótica, porque ele não saberia
o que fazer a uma família. Nikki, o encantador príncipe chi­
nês, seria o herdeiro . Os restantes de nós, de uma maneira
ou de outra, não éramos herdeiros, mas amigos.
1 60 SAUL BELLOW

Nos últimos meses de vida, Ravelstein fez o que sempre


costumava fazer. Deu aulas, preparou conferências. Quando
já não tinha forças para fazer comunicações, convidava os
amigos para as dar por ele: havia sempre dinheiro de uma
qualquer fundaçã o . A sua ca beça calva, no centro da pri­
meira fila, dominava estes eventos. Quando uma comunica­
ção terminava, era invariavelmente o primeiro a colocar uma
pergunta.
Isto tornou-se protocolo. Todos esperavam que ele ini­
ciasse a discussão. No início do primeiro semestre ainda es­
tava bastante ativo, embora, quando eu o acompanhava até
ao campus desde o seu apartamento, ele tivesse de parar em
cada esquina para recuperar o fôlego.
Recordo-me de bandos de papagaios terem poisado num
conj unto de árvores onde cresciam bagas silvestres comestí­
veis . Estes papagaios, que pensávamos serem descendentes
de um par de pássaros escapados de uma gaiola, construíam
os seus ninhos compridos, em forma de saco, na zona do
parque defronte do lago e, mais tarde, colonizaram também
as ruas adj acente s . Viviam centenas de papagaios, nestes
apartamentos para pássaros pendurados dos postes da eletri­
cidade.
- O que estamos a ver ? - disse Ravelstein, virando pa­
ra mim os seus enormes olhos redondos.
- Estamos a ver papagaios.
- Claro que estamos, mas nunca imaginei vê-los assim.
O barulho que eles fazem.
- Bem, costumavam ser só ratazanas, ratos e esquilos cin­
zentos. Agora há guaxinins nas ruas e até opossuns . Toda
uma nova ecologia baseada no lixo das grandes cidades . . .
- Queres dizer que a selva urbana não é mais uma metá­
fora - disse ele. - Mexe mesmo comigo, a barulheira destes
passarocos verdes dos trópicos. A neve não dá cabo deles ?
RAVELSTEIN 161

- Pelos vistos não.


Nada dava cabo deles. Os barulhentos passarocos verdes
que trinavam e mordiscavam entre as folhas, sacudindo a ne­
ve para se empanturrarem de bagas, cativaram a atenção de
Ravelstein por mais tempo do que eu podia esperar. Ele
tinha pouco interesse pela vida natural. Os humanos absor­
viam-no inteiramente . Perdermo-nos em ervas, folhas, ven­
tos, pássaros ou outros animais, era uma evasão a deveres
superiores. E eu penso que os pássaros cativaram inusual­
mente a sua atenção porque não se estavam apenas a alimen­
tar, mas a empanturrar-se, e ele próprio era um comilão voraz.
Ou tinha sido um. As suas refeições agora eram meramente
ocasiões sociais, pretextos para conversar. Jantava fora todas
as noites. Nikki não podia cozinhar para toda a gente que voa­
va até lá para ver Ravelstein.
O Abe estava a tomar a droga ha bitual prescrita para
o seu estado, mas não queria que se soubesse. Lembro-me do
seu choque quando a enfermeira entrou, o quarto cheio de
amigos, e disse:
- Está na hora do seu AZT.
Ele desabafou no dia seguinte:
- Deu-me vontade de matar aquela mulher. - Ainda es­
tava furioso. - Não ensinam nada a esta gente ?
- Vêm do ghetto - disse Nikki.
- Ghetto uma ova ! - disse Ravelstein. - Os j udeus do
ghetto tinham uma alta sensibilidade, nervos civilizados. Mi­
lhares de anos de treino. Tinham comunidades e leis. « Ghet­
to» é um termo ignorante saído dos j ornais. Não é do guetto
que esta gente vem, é de um torvelinho ruidoso, niilístico,
sem sentido.
lJm dia disse-me:
- Chick, preciso que me passes um cheque. Não é muito.
Quinhentos dólares.
SAUL B E L LOW

- Por que não assinas tu mesmo um ?


- Quero evitar confusões com o Nikki. Ele dar-se-ia con-
ta, ao ler o saldo.
- Tudo bem. Como queres que o levante ?
- Em dinheiro.
Não era preciso que Ravelstein dissesse mais.
- Escrevi a morada para onde tens de o enviar. - E deu-
-me um pedaço de papel.
- Considera-o feito.
- Eu depois passo-te um cheque.
- Não te preocupes com isso - disse eu.
Perguntei-me se algumas visitas não teriam metido ao
bolso um isqueiro ou um outro qualquer bibelot, e se Ra­
velstein não estaria a pagar o resgate . Mas decidi que não
valia a pena pensar muito no assunto. Ele j á me tinha falado
do aumento agudo de apetite sexual. Dizia:
- Estou cheio de tusa, e o que devo eu fazer a isto ? E al­
guns destes rapazes têm uma simpatia singular por mim.
Eles percebem o que eu estou a passar. Nunca esperei que
a morte fosse um tão estranho afrodisíaco. Não sei por que
te estou a contar isto. Talvez porque ache que devias ter esta
informação.
Toda a minha vida tive o há bito de protelar as coisas.
Claro que eu sabia que Ravelstein estava na fase final, que
não tinha já muito para viver. Mas, quando Nikki me disse
que Morris Herbst vinha à cidade visitá-lo, senti que era che­
gada a altura de me preparar para o inevitável.
Ravelstein e Morris Herbst falavam todos os dias ao tele­
fone. Com a assistência de Ravelstein, Morris, um viúvo, tinha
conseguido educar duas crianças. Ravelstein tinha estado, de
algum modo, apaixonado pela falecida mãe das crianças, e fa­
lava dela com um respeito e uma admiração singulares. Des­
creveu-me o seu «rosto branco e dramático, olhos negros, uma
RAVELSTEIN

natureza belíssima e sexualmente aberta, mas não promís­


cua » . Hoj e em dia já nada no plano sexual é proibido, mas
o desafio é mantermo-nos nós próprios no meio da anarquia
sexual . Ravelstein a dmirava a falecida esposa de Herbst,
amava - a . Era a única mulher cuj a fotografia ele trazia na
carteira. Por isso era inteiramente natural que se tivesse torna­
do um segundo pai para as crianças. Arranjou bolsas e traba­
lhos no campus para elas, aprovava os seus amigos, e assegu­
rava-se de que liam os clássicos essenciais.
Foi Nikki quem me falou da foto de Nehamah.
- Está j unto com os cartões de crédito e os cartões da
Blue Cross - disse. - Sabes que tem um fraco por pessoas
com paixões básicas, que lhe fazem vir lágrimas aos olhos.
Para o Abe isso conta mais do que tudo.
Se Ravelstein não falava de Nehamah Herbst com fre­
quência, a razão era que, nos últimos meses da sua vida, ele
e Morris tinham construído uma espécie de culto à volta de­
la. O Abe tinha passado muito tempo com ela nas semanas
finais, e ela tinha falado livremente sobre assuntos íntimos
e secretos. Embora não se pudesse confiar nele para respeitar
confidências, nunca me contou do que ele e Nehamah fala­
vam.
A mãe de Nehamah viera de Mea Sha'arim e implorara
à filha para ter uma cerimónia ortodoxa .
- O quê, no meu leito da morte ?
- Sim. Pela saúde dos teus filhos. Estou aqui para os sal-
var.
Mas uma pessoa nunca tem o que é verdadeiramente im­
portante, diria por vezes Ravelstein. O que verdadeiramente
importa tem de ser revelado, não ritualizado. Mas só um pu­
nhado de seres humanos tem a imaginação e as qualidades de
carácter para viver de acordo com o verdadeiro Eros. Neha­
mah não só se recusou a receber o rabi ortodoxo que a mãe
SAUL BELLOW

tinha trazido para o seu leito da morte, como nunca mais fa­
lou com ela, e a velha mulher voltara a Mea Sha'arim sem
o adeus da filha.
- Nehamah era pura e era inamovível - dizia Ravel­
stein na sua voz de profundo respeito.
Estou a tentar transmitir o melhor que posso a relação
singular entre Ravelstein e Morris Herbst. Durante trinta ou
quarenta anos eles tinham estado em contacto diário.
- Agora que há cacau para tudo, tenho a satisfação de
conversar com o Morris sem pensar um segundo na despesa
- disse-me Ravelstein. Fosse como fosse, ele nunca abria as
contas de telefone, disse Nikki. Eram pagas através de Legg
Mason, a grande firma de investimentos na costa leste que
lhe administrava o dinheiro . O Abe disse a Nikki, que lhe
abria o correio: - Detesto os extratos eletrónicos, e era o que
faltava pôr-me a estudá-los. Não me mostres nada, não me
mostres nenhuma conta, a menos que o saldo negativo desça
dez milhões.
Aqui, a reserva oriental de Nikki caía por terra. Desman­
chava-se a rir.
- Nem um tostão menos do que dez milhões - repetia.
Nikki estava à vontade comigo, porque eu nunca o pressio­
nara; nunca falávamos de dinheiro. Ele ter-se-ia sentido, va­
mos ver, como é que ele se teria sentido ? « Afrontado » é a
palavra adequada. Ele tinha o seu ar de suavidade principes­
ca asiática, mas se o ofendêssemos era capaz de nos arrancar
a cabeça.
Morris Herbst, para voltar a ele, estava no topo da lista
de convidados de Ravelstein em todas as conferências que
organizava . Era o primeiro a ser convidado e o primeiro a
aceitar. Lia o j ornal em todos os eventos de Ravelstein. Ti­
nha um ar ponderado, maduro, estável e falava deliberada­
mente sem pressa ou nervosismos. Com a sua barba branca e
RAVELSTEIN

quadrada - sem bigode - tinha o aspeto de um agricultor


do Michigan que eu conhecera cinquenta anos atrás. Herbst
também tinha estudado com o professor Davarr, mas, sem
grego, nunca poderia considerar-se um autêntico produto de
D avarr . Ensinava Goethe, tinha escrito um livro sobre As
Afinidades Eletivas, mas o facto curioso era que - e havia
sempre factos curiosos - tinha também um fraco por cartas
e dados e ia com frequência a Las Vegas. Ravelstein tinha
um respeito extremo por comportamentos compulsivos. E eu
próprio tinha boa opinião de Herbst. Não saberia dizer por­
quê. Ele j ogava, perdia a cabeça quando j ogava o vinte e um,
e, apesar do luto pela esposa, andava também atrás de ou­
tras mulheres, mas nunca reclamara falsos méritos para si
próprio.
Sim, tinha tomado conta da família, tal como prometera
a Nehamah, mas as crianças sabiam todos os detalhes da sua
vida de mulherengo, todos os casos amorosos. Havia sempre
uma ou outra mulher a acampar em casa depois de Neha­
mah morrer, e havia mulheres a telefonarem-lhe de todas as
partes do país. Tinha uma maneira calma - uma forma
quadrada de se sentar direito. O cabelo branco era tanto en­
caracolado como ondulado e tinha um tom brilhante. Pare­
cia estar bem, mas devia a sua vida a uma operação cardíaca.
E, quando lhe púnhamos uma questão, tínhamos de esperar
que organizasse a sua resposta . Era capaz de ficar direito,
considerando a resposta (cronometrei-o várias vezes) por mais
de cinco minutos. Era um conversador sóbrio e circunspecto.
Nascido na Alemanha, especializara-se em pensadores ale­
mães. Nunca se interessava tanto por eles como por mulheres,
mas desde a morte da esposa tinha um caso duradoiro com
uma mulher cujo não-assim-tão-paciente marido tinha de lhes
aturar longos telefonemas à noite. Sem o telefone, o que teria
sido da vida espiritual de Morris ? Ravelstein preferia a ex­
pressão francesa.
1 66 SAUL B E L LOW

- Eu não chamaria a Morris um mulherengo - diria. -


Ele é um autêntico homme à femmes. Se não é uma vocação,
não é nada .
Cinco anos atrás, os médicos tinham dito a Herbst que
o seu coração estava gasto. Entrara com máxima prioridade
na lista de espera para um transplante. Já só tinha uma se­
mana de vida quando um motociclista do Missouri morreu
num des astre . Os órgãos do rapaz foram recolhidos . D o
ponto de vista técnico, estes transplantes s ã o uma proeza
imensa . O lado humano da coisa é que Morris transporta
dentro do peito o coração de outro homem. Uma pessoa po­
de aceitar um enxerto de pele de um estranho compatível .
M a s o coração, estaríamos inclinados a concordar, é outro
assunto . O coração é um mistério. Se tivemos oportunidade
de ver o nosso próprio coração num ecrã de vídeo, como mi­
lhões já o fizeram, podemos ter-nos perguntado por que este
músculo persistente é tão leal na sua função desde o útero
até ao nosso último suspiro. Estes contrair e relaxar rítmicos
prosseguem cegamente. Porquê ? Como ? E quem é que pro­
longou a vida de Morris Herbst � Um adolescente maníaco
da velocidade oriundo de Cape Girardeau, Missouri, acerca
do qual Herbst nada s a b i a . Nada bate certo aqui exceto
o velho slôgane industrial: « Üs componentes são substituí­
veis. » Isto traz até nós a realidade moderna.
Durante a guerra, veio-me com frequência à cabeça que as
tropas russas estavam a empurrar o exército de Hitler através
da Polónia graças à carne de porco enlatada de Chicago.
Porquê porco ? Bem, neste caso era apropriado. Morris
era um j udeu religioso - não inteiramente ortodoxo, mas
observante. E este judeu não praticante devia a sua existência
ao coração do peito de um rapaz que perdera o controlo da
sua mota - desconheço as circunstâncias concretas da morte.
RAVELSTEIN

Tudo o que sei é que os técnicos de cirurgia tiraram o cora­


ção do rapaz e que ele agora substituía o coração defeituoso
no peito de Herbst. Herbst disse-me que aquilo trazia impul­
sos e sensações inéditos à sua vida.
Perguntei-lhe o que queria dizer com isso.
Sentado e circunspecto, a s mãos sobre os j o elhos, o ar
pálido desaparecido com o coração enferruj ado que quase
o matara, os cabelos brancos encaracolando em volta do
rosto agora rubicundo, Herbst disse que, na altura, se senti­
ra como um Pai Natal dentro de uma loj a a perguntar às
crianças o que queriam de presente. Porque o centro da sua
« fábrica física » ( o termo é seu) fora tomado pelo seu ·cora­
ção suplente, e sentia que, com ele, tinha vindo um novo
temperamento - j uvenil, despreocupado, não apenas dis­
posto a, mas feliz em correr riscos.
- Sinto-me um pouco como aquele suj eito que se chama
Evel Knievel e salta so bre dezasseis barris de cervej a com
a sua Honda.
Compreendi isto, estranhamente, porque na altura eu es­
tava a ser tratado por uma fisioterapeuta que me disse que
os órgãos principais do corpo estavam rodeados por ener­
gias e que ela, a terapeuta, estava naquele momento em con­
tacto com a minha vesícula.
- Mas eu já não tenho vesícula - disse eu. E ela:
- Certo, mas essas energias mantêm-se. E manter-se-ão,
enquanto você viver.
Lembro isto, com um toque de agnosticismo, porque me
foi pedido que acreditasse não ter sido apenas o coração do
rapaz a trocar de corpo. Os órgãos são também repositórios
das sombras ou dos impulsos assertivos - ansiosos ou ale­
gres, consoante o caso, e estes tinham entrado no corpo de
Herbst j unto com o coração novo. Teriam agora de chegar
a acordo com as forças do seu novo habitáculo.
1 68 SAUL B ELLOW

Se fosse um transplante de rins ou pancreático seria dife­


rente . Mas o coração carrega demasiadas conotações; é o
centro das emoções humanas - da sua vida superior.
Sej a como for, Morris, um j udeu alemão, fora salvo por
este rapaz do Missouri. E eu tinha de me conter para não lhe
fazer perguntas acerca deste coração originariamente cristão
ou gentio, com as suas energias secretas e os seus ritmos -
como se adaptara às necessidades ou peculiaridades, dores
e ideias j udias ? Nesta altura, eu não podia discutir o assunto
com Ravelstein. Ele não estava em condições de dirigir os
seus pensamentos nessa direção.
O máximo que me atrevi foi a perguntar a Morris, o mais
delicadamente possível, como era isso do transplante. Ele disse
que, em todos os estados, quando nos davam uma carta de
condução pediam-nos para assinalar num quadrado se concor­
dávamos em ser doadores de órgãos.
- Em meio segundo o rapaz fez um X. Que diabo, por
que não ? E assim o coração foi trazido de avião e a cirurgia
foi feita no Mass General.
- E não sabes mais nada acerca do rapaz ?
- Muito pouco. Escrevi uma carta aos pais a agradecer.
- O que lhes disseste, se não te incomoda contar ?
- Disse-lhes, honestamente, o quão grato eu estava, e des-
crevi-me como um americano às direitas a fim de não terem
de se preocupar que o coração do filho estivesse a manter vi­
vo um qualquer pulha estrangeiro . . .
- Deve dar-te que pensar, n a estrada, quando estás subi­
tamente rodeado por um gangue de j ovens em cima de mo­
tas, com lenços, bonés e óculos.
- Estou sempre preparado para isso.
- E a família do rapaz respondeu?
- Nem sequer um postal. Mas devem estar contentes
por o seu coração continuar a viver.
RAVELSTEIN

Baixou o rosto com um olhar hesitante. Os dedos espalma­


dos sobre a testa - como se estivesse à procura de respostas
nos motivos do tapete persa de Ravelstein, ou decifrando nele
uma mensagem singular acerca da extensão miraculosa que lhe
fora outorgada. Eu não tinha qualquer esperança investida no
tapete. Recorri à linguagem do mundo da política nas grandes
cidades - tinha sido montado um estranho esquema. E, as­
sim, a vida - ou sej a, o que incessantemente vemos, as ima­
gens produzidas pela vida - continuava. Isto tinha a ver com
algo que eu dissera a Ravelstein.
Quando ele me perguntara que ideia tinha eu da morte,
como a imaginava, eu respondera que as imagens parariam.
Evidentemente, eu via como imagens aquilo a que os ameri­
canos se referem como Experiência . Não estava na altura
a pensar nas imagens atualmente disponíveis, recentemente
oferecidas pela tecnologia - o tipo de documentário que po­
demos ver sobre o aparelho digestivo, ou o coração. O cora­
ção - afinal de contas apenas um conj unto de músculos .
Mas quão tenaz, começando a bater dentro d o ventre mater­
no e mantendo o ritmo por um século. No caso de Herbst ti­
nha-se ido a baixo nos cinquentas, e o transplante havia de
o manter em j ogo até aos oitentas . Uma vez por ano ia ao
hospital fazer teste s . Mas, no geral, a sua vida continuou
como dantes. Ele parecia bondoso, tolerante, aberto de espí­
rito. O relógio redondo que era o seu rosto benevolente e si­
lencioso, com a moldura encaracolada da barba, era calmo
e saudável . Olhava muito para as mulheres, avaliava-lhes
a figura, os seios, as pernas, os penteados. Era um desses ho­
mens que apreciavam, que podiam fazer justiça às qualida­
des das mulheres. As suas apreciações não pareciam fazer
nenhuma sentir-se desconfortável. Sentia um prazer desinte­
ressado em avaliar as mulheres . Mas os seus modos eram
SAUL BELLOW

suaves, não armava uma cena, e poucas se incomodavam


com o seu interesse.
Quando Herbst chegou, eu tornei-me invisível. Amigos
durante quase meio século, Abe e Morris deviam ter um
mundo de coisas para se contarem. Ravelstein chamou da
cama:
- Trá-lo aqui.
Os lençóis Pratesi tinham sido soltos nos canto s , e a
manta de visom, belíssima, suave, tombara para o chã o .
Nas paredes, o s quadros, por alguma razão, nunca estavam
direitos. Todas as excelentes antiguidades do quarto esta­
vam cobertas de roupa e de manuscritos e cartas. As cartas
faziam-me sempre pensar nas controvérsias em que ele esti­
vera envolvido - os poderosos e rancorosos inimigos que
fizera no mundo académico. Não se importava nada de na­
da com eles.
Herbst chegou-se à beira da cama e abraçou Ravelstein.
- Chick, puxa uma cadeira para o Morris, pode ser ?
Fui buscar a cadeira de couro italiana com as costas re­
dondas. Tínhamos tendência para esquecer que Morris esta­
va vivo graças ao seu transplante . Ele parecia estar bem
o suficiente para funcionar normalmente . Tive por um mo­
mento a vaga suspeita de que Ravelstein teria preferido que
ele, o seu mais antigo amigo, estivesse inválido. Mas esse
pensamento foi muito breve. Não era típico de Ravelstein fa­
zer esses j ogos. Ele estava a morrer, claro, mas não ia haver
cenas de doença. Ele precisava de - ele queria - falar.
Saí, deixando os amigos no que Ravelstein tinha decora­
do como uma espécie de quarto para um homem da sua es­
tatura. Quase imediatamente ouvi-os a rir às gargalhadas -
estavam a contar-se as melhores (as mais reles, as mais bru­
tais ) anedotas que tinham ouvido recentemente. A atmosfera
RAVE LSTEIN 171

solene estilo « Últimos dias d e Sócrates » não fazia o seu gé­


nero . Esta não era a ocasião para ser outra pessoa - nem
mesmo Sócrates. Queria mais do que nunca ser o que sem­
pre fora. Ele não ia desperdiçar as suas últimas horas sendo
outra pessoa .
Quando se acalmaram para ter a sua conversa privada,
fui até casa e fiz a Rosamund o relatório dos acontecimentos
do dia. Ela tinha estado ao telefone com a mulher que estava
a passar à máquina a sua dissertaç ã o . Dentro de semanas
eram a s provas de doutoramento . Tinha estudado cinco
anos com Ravelstein, de maneira que, se eu precisasse de sa­
ber o que Maquiavel devia a Livy, apenas tinha de perguntar
a esta jovem magra e elegante com grandes olhos azuis. Nes­
tes dias, pouco me importavam as dívidas de Maquiavel.
O que era mais importante e, para mim, extremamente re­
confortante, era não haver nada que eu dissesse a esta mu­
lher que ela não conseguisse entender.
- Herbst já chegou ? Eles devem ter tanto para dizer um
ao outro.
- Não duvido que tenham, mas primeiro tinham algu­
mas anedotas porcas para contar. É uma ocasião estranha,
sej a de que ângulo a virmos. Há o Herbst com o coração de
outro homem a b a t e r n o p e i t o e Ravelstein j á lhe d i s s e
adeus. De certa maneira, a s anedotas são mais adequadas do
que uma conversa sobre a alma e a imortalidade . Para sabe­
res o que acontece depois de deixares de respirar tens de
comprar um bilhete.
- De morrer ?
- Bem, haverá alguma outra forma de o bter informa-
ções ?
- Nikki contou-te que o Dr. Schley vai mandar Ravel­
stein de volta para o hospital ?
SAUL BELLOW

- Isso surpreende-me - disse eu. - Ele só agora come­


çou de novo a conseguir pôr-se de pé. Era de esperar que
ainda tivesse um ano, ou mais.
- Não sabias ?
- Sim, mas ele não quer apenas arrastar-se por aí. No
hospital estará mais protegido dos amigos e dos « estimo-as­
-melhoras » .

Não era apenas uma questão de companhia. As pessoas


traziam-lhe também os problemas pessoais, como se, do seu
leito de morte, pudessem esperar algo próximo da informa­
ção divina.
A porta do quarto de Ravelstein estava aberta e eu pude
ver o cabelo comprido do nosso amigo Battle caído sobre os
ombros montanhosos, e as suas belas botas até ao tornozelo.
O rosto dele não estava à minha frente, mas a mulher estava
obviamente a chorar. Estava curvada. Aquilo não podia ser
outra coisa senão lágrimas. Eu tinha um grande respeito pela
senhora Battle e nutria grande simpatia pelo marido.
Os Battles eram fãs de Ravelstein . Nunca iam às suas
conferências públicas e duvido que lessem os seus livros, mas
levavam-no muito a sério. Quando Battle se reformou, anos
atrás, ele e a mulher mudaram-se para as florestas do Wis­
consin, do lado de lá da fronteira do estado, onde viviam
com grande simplicidade, à la Thoreau. Quando iam à cida­
de, Ravelstein gostava de j antar com eles no nosso restau­
rante franco-sérvio.
Eu tinha feito a descoberta de que, se virmos as pessoas
à luz do cómico, elas tornam-se mais apreciáveis - se falar­
mos de alguém como sendo um chuço grosseiro e cheio de
gases, damo-nos depois muito melhor com ele, em parte por­
que temos a noção de que fomos o sádico que lhe retirou os
RAVELSTEIN 1 73

seus atributos humanos . E também porque, tendo sobre ele


exercido alguma violência metafórica, lhe devemos uma con­
sideração especial.
Depois de se irem embora, Ravelstein contou-me ( acoco­
rado na cama, como que divertindo-se interiormente ) que
o objetivo da visita era pedir-lhe conselho.
- Acerca de quê ?
- Vieram falar-me dos seus planos de suicídio. Pediram
desculpa por me incomodar. Ainda por cima numa tal altura ...
- Eu diria o mesmo.
- Não sej as tão duro com eles, Chick. Nos idosos são
comuns as fantasias de suicídio. Acho que eles estavam a fa­
lar a sério.
- Eles j ulgaram que estavam a falar a sério.
- Porque eu estou a morrer ocorreu-me o mesmo, natu-
ralmente . Esta é uma linda ocasião para me virem com os
seus problemas. Eles puseram a questão no estilo «e se » . Se­
rá que eu achava que, em abstrato, neste momento das suas
vidas e tudo o mais, seria uma boa ideia se ? . . .
- Um pacto suicida ?
- Battle explanou o argumento e ela completou-o e acres-
centou o comentário sensato . Disseram que eu era a única
pessoa em quem confiavam o suficiente e que não se riria
deles.
- Portanto, vens ter com um homem que preferiria não
ter de morrer e apresentas-lhe o teu plano de suicídio.
- Battle há semanas que anda a dar deixas. Ele é uma
pessoa muito inteligente, mas tem demasiada personalidade.
A personalidade dele torna-o inarticulado. Ela é mais sensa­
ta, e trazia um vestido azul com filas de botões de alto a bai­
xo. É adorável. Ou é este marido enorme que a faz parecer
pequena ? Seja como for, tem um belo rosto inglês. Acho que
1 74 SAUL BELLOW

quando as crianças a olham devem ver um rosto adorável


e carinhoso . . .
- Então qual é a queixa ?
- A queixa é de que estão a ficar velhos. Todas as pes-
soas educadas cometem o mesmo erro, pensam que a nature­
za e a solidão são boas para elas. A natureza e a solidão são
veneno puro - disse Ravelstein. - O pobre Battle e a mu­
lher estão deprimidos por causa do campo. Essa é a primeira
observação a fazer.
- O que lhes disseste, então ?
- Disse que tinham feito bem em vir ter comigo . Mais
pessoas deviam pedir conselho quando têm impulsos suici­
das. Sentem-se assim porque não há espírito de comunidade,
ninguém com quem falar.
- Talvez sej a a sua ideia de um tributo. Como se estives­
sem a dizer que a vida perderá o valor sem o seu amigo Ra­
velstein.
- Bem, eles são adoráveis - disse Ravelstein, mas esta
era a sua maneira de aligeirar o assunto. Ele adorava coscu­
vilhice, mas o interesse que adquiria pelas pessoas era difícil
de descrever. Tinha uma curiosa ha bilidade intuitiva, mas
sentíamos que, com ele, não era tanto análise como a divi­
nhação, quando falava de personalidades ou as esmiuçava.
- O que eu disse foi que era um erro tornar o suicídio
um assunto de argumento ou debate. Que era infantil argu­
mentar pró ou contra.
- Tu tens uma grande autoridade j unto dos Battles, e se
lhes dissesses para não o fazerem, eles não o fariam.
- Não é esse o meu estilo, Chick, ditar a lei.
Isto era certamente falso.
- Eles queriam ser levados a sério - continuou. - Mas
claro que não falavam a séri o . Queriam distrair-me com
a sua rábula do pacto suicida.
RAVELSTEIN 175

Isto j á fazia mais sentido.


- Eu disse-lhes que tinham tido um grande romance de
amor. Um clássico.
- E que não deviam dar má reputação ao amor - disse eu.
- Algo assim - anuiu Ravelstein. - Conheces a histó-
ria . Depois de uma dança com o Battle, que nunca tinha en­
contrado antes na vida, ela deixou o marido. Deu um passo
na direção dos braços de Battle e pronto. Nesse mesmo ins­
tante, ambas as partes reconheceram que os respetivos casa­
mentos estavam terminados . . . Ele era forte no court de ténis
e na pista de dança, mas não era nenhum sedutor, e ela não
era uma esposa infiel. Ele disse que esperaria por ela no
aeroporto . . .
- Diz-me l á d e novo, onde foi isso ?
- No Brasil. E tiveram uma vida feliz.
- Agora me lembro . O avião foi atingido por um raio.
Tiveram de aterrar no Uruguai.
- E assim ficaram j untos durante muito tempo, quaren­
ta anos sem uma crise sequer. Os Battles contam comigo pa­
ra sintetizar as coisas, e assim cumpri o que esperavam de
mim e contei-lhes a sua própria história . Entre milhões ou
centenas de milhões de pessoas, eles, apenas eles, tinham
acertado na lotaria. Tiveram uma grande história de amor
e décadas de felicidade sem esforço. Cada um divertia o ou­
tro com a s suas excentricidades. Como podiam sup ortar
a ideia de vulgarizem isso com um suicídio? . . . Eu podia ver
que estava a dizer o que a senhora Battle desej ava ouvir. Ela
queria que eu defendesse a causa de continuarem vivos.
- Mas o Battle não estava completamente satisfeito, não
é assim ?
- Isso mesmo, Chick. Ele queria uma discussão acerca
do suicídio e do niilismo. Já por várias vezes pensei que as
1 76 SAUL BELLOW

fantasias de suicídio e as fantasias de a ssassínio se equili­


bram mutuamente na economia mental das pessoas civiliza­
das. Battle não é exatamente um professor, mas sente uma
responsabilidade de se calibrar pelo niilismo . Não percebe
muito de niilismo, mas está no ar. Ele disse qualquer coisa
acerca de as pessoas com sucesso terem tendência para o sui­
cídio. Por verem através das ilusões do sucesso, decidem aca­
bar com a vida . . .
- S e não gostamos d a existência, então a morte é a nos­
sa libertação. Podemos chamar a isso niilismo, se quisermos.
- Sim. À moda americana, sem o abismo - disse Ra­
velstein. - Mas os j udeus sentem que o mundo foi criado
para cada um e para qualquer de nós, e que, quando destruí­
m o s uma v i d a h u m a n a , d e s truímos um m u n d o inte i r o .
O mundo tal como existia para aquela pessoa . . .
De repente, Ravelstein estava incomodado comigo. Pelo
menos, estava a falar com uma ênfase irritad a . Talvez eu
ainda estivesse a sorrir por causa dos Battles e ele tivesse
pensado que eu me estava a dissociar da ideia de que des­
truímos um mundo inteiro quando nos destruímos a nós
próprios. Como se eu pudesse ameaçar destruir um mundo
- eu, que vivia para observar os fenómenos, e acreditava
que a essência das coisas era visível na superfície dessas mes­
mas coisas . Eu sempre disse - ao responder à questão de
Ravelstein, « Como imaginas que será a morte ? » - «As ima­
gens cessarão. » Querendo com isto dizer, uma vez mais, que
na superfície das coisas víamos a essência das coisas.
Para o final, Ravelstein atraía montes de visitantes. Pou­
cos chegavam ao quarto - Nikki assegurava isso. Mas entre
os que importavam estava Sam Pargiter, cuj a presença era
estranhamente significativa. Ele era um dos meus amigos ín­
timos. Graças a mim tinha lido o famoso livro do Abe e as­
sistido a conferência s públicas e participado também em
alguns dos nossos seminários conj untos. Tinha em grande
RAVELSTEIN

conta as opiniões de Ravelstein e as suas piadas. Com um


grande sinal de Não Fumar atrás dele, Ravelstein acendia ci­
garros com a sua chama Dunhill enquanto perorava, dizen­
do « Se abandonarem a sala porque odeiam o tabaco mais do
que amam as ideias, ninguém sentirá a vossa falta. » Ele dizia
isto com uma precisão tão cómica e tal bonomia que Pargi­
ter ali mesmo ficara rendido e pedira-me para o apresentar
a este homem brilhante . Eu disse a Ravelstein que o meu
amigo Sam Pargiter o queria conhecer.
- Bem, formaremos uma dupla de amigos teus inteira­
mente carecas - disse Ravelstein. Ravelstein não me repro­
vou por isto, mas era claro na sua abordagem que, dado que
o tempo agora se tornara bastante curto, eu não devia apre­
sentar-lhe novos conhecimentos .
- Disseste que ele era u m padre católico ?
- Em tempos. Ele pediu para ser libertado dos votos.
Mas ainda é católic o . Tu próprio tens um amigo j e suíta,
o Trimble . . .
- O Trimble e e u partilhámos um apartamento em Paris
e saíamos j untos com frequência. Mas ele era, como eu, um
discípulo de Davarr e falávamos a mesma linguagem.
- Bem, eu não discuti isto com o Sam Pargiter, mas po­
des ter a çerteza de que ele vem aqui porque te leu e podes
também ter a certeza de que nunca te tentaria converter j á
e m período de descontos.
Descubro agora, olhando para trás, que eu estava curio­
samente preocupado com as pessoas que vinham visitar Ra­
velstein nos seus últimos dias e, pelas paredes do quarto,
formavam o grupo silencioso das testemunh a s . Ele já não
tinha forças para aceitar ou rej eitar visitas. De alguns deles
eu posso dizer que ele não queria de todo que estivessem
ali. Um dos seus rivais de longa data, Smith, apareceu com
uma nova esposa que encoraj ava o professor:
178 SAUL BELLOW

- Diz que gostas muito dele. Vá lá, diz.


E o homem, envergonhadamente:
- Gosto muito de si - murmurou, quando era perfei­
tamente evidente que o detestava. Eles detestavam-se mutua­
mente . Ravelstein manteve um sorriso magnífico ao longo
deste momento impossível, mas já não tinha capacidade de
intervir. Nitidamente, Smith estava furioso com a nova espo­
sa. Ninguém tinha autoridade para pedir aos Smiths que dei­
xassem a beira da cama. Por isso, não era pior que Pargiter,
cuj a presença eu teria agradecido, se eu estivesse a morrer,
estivesse sentado ao pé da porta. Pargiter vinha para confor­
tar ou testemunhar - muito simplesmente, para se sentar
j unto à parede e cumprir a tarefa, basicamente tácita, de es­
tar ali.
Aqueles de quem tinha genuína necessidade acorriam re­
gularmente. Os Floods, por exemplo, marido e mulher, um
casal a quem Ravelstein e Nikki estavam bastante ligados .
Flood integrava a administração da universidade - relações
na comunidade eram a sua especial responsabilidade. Repre­
sentava a universidade na câmara municipal e supervisionava
o sistema de segurança do campus - a polícia da universi­
dade respondia perante ele. Uma das suas funções era gestão
de escândalos. Era um homem bom, complexo, sensível, ho­
nesto. Só Deus sabe de quantos assuntos desagradáveis ele
tratara para a universidade. Nem precisávamos de pertencer
à comunidade universitária para lhe estarmos gratos. Havia
o proprietário de um restaurante grego a quem Flood salvara
a vida da filha ao levá-la para o hospital no derradeiro mo­
mento. Por toda a cidade tinha a reputação de « um homem
a quem se podia recorrer num azar » . Tinha feito favores a Ra­
velstein e a mim. Em casa, as portas dos Floods, como a de
Ravelstein, estavam sempre a bertas . As pessoas iam e vi­
nham com um mínimo de restrições ou formalidade. Gilda
Flood e o marido amavam-se, simplesmente . Mais do que
RAVELSTEIN I 79

qualquer outra relação humana, esta, ingénua ( mas indispen­


sável } , era valiosa para Ravelstein. Não é preciso sequer di­
zer isto. Estou simplesmente a anotar a variedade de visitas
atraídas para a beira da cama de Ravelstein, de modo a que,
quando se soerguesse, se sentisse reconfortado por ver pes­
soas que lhe eram familiares, com quem tinha afinidades -
como se fossem mesmo família - a coisa mais próxima pos­
sível de uma família.
Para o fim, Ravelstein impacientava-se frequentemente
comigo. Tinha aprendido com o professor Davarr que as gen­
tes modernas - e, em alguns aspetos, eu era uma pessoa mo­
derna - facilitavam demasiado as coisas para si próprias.
E não lhes fazia mal serem chamadas à pedra - ser-lhes es­
calpelizado o persistente � umor da autoilusão. Assim, podia
ser direto sem haver ofensa.
Os moribundos tornam-se com frequência extremamente
severos. Nós ainda cá estaremos quando eles partirem e não
lhes é fácil perdoar-nos isso. Se eu não merecia ser punido
pela opinião X, claramente merecia uma dupla reguada nos
nós dos dedos por Y. Quanto mais envelhecemos, piores se
tornam as descobertas que fazemos acerca de nós próprios.
Ele teria dado melhor uso aos anos que me estavam a ser
concedidos. Reconhecer os factos evidentes é o mínimo que
podemos fazer. Ele considerava que eu estava a ser leviano
em relação ao pecado do suicídio. quando eu disse que ele ti­
nha dado aos Battles uma resposta muito judia. Mas depois
amainou, dizendo:
- Sej a como for, podes dar-me o crédito de ter salvado
duas vidas.
1 '

MANTIVE D E ALGUM M O D O , com o a uxílio de Rosamund,


a minha promessa a Ravelstein. Ele morreu há seis anos, pre­
cisamente quando estavam a começar as Grandes Festa s .
Quando recitei Kaddish pelos meus pais, tinha-o também
presente. E durante o serviço fúnebre - Yizkor - comecei
mesmo a pensar um pouco nas memórias que tinha prometi­
do escrever e perguntei-me como o faria - como lidar com
os seus tiques, manias, excentricidades, o seu modo de co­
mer, beber, vestir-se e massacrar ludicamente os alunos. Mas
isto não é muito mais do que a sua história natural . Outros
viam-no como bizarro, perverso - escarnecedor, fumador,
professoral, insuportável, impaciente, mas para mim ele era
brilhante e encantador. Determinado a reduzir à sua verda­
deira insignificância as ciências sociais e outras especialida­
des universitárias . Condenado a morrer por causa do seu
comportamento sexual irregular. Acerca disto ele era inteira­
mente franco comigo, com todos os seus amigos próximos .
Era considerado, para usar um termo do passado, um inver­
tido. Não um « gay » . Ele desprezava a homossexualidade es­
palhafatosa e tinha em muito pouca conta o « orgulho gay » .
SAUL BELLOW

H a v i a alturas em que eu simple smente não s a b i a o q u e


fazer c o m as s u a s confidências. M a s e l e tinha-me escolhi­
do para fazer o seu retrato e , quando fa lava comigo, fa­
lava intimamente, mas também para ficar registado . Per­
der a ca beça era a coisa a fazer, se tínhamos uma grande
alma . Suponho que, mesmo nesta época, as pessoas com­
preenderão o termo « uma grande alma » , emb ora já n ã o
tenha o mesmo impacto que antigamente . Ravelstein con­
fiava, de qualquer modo, na minha habilidade para o des­
crever.
- Podes fazê-lo facilmente - dizia-me. E eu concordava,
mais ou menos.
A regra para os mortos é que deviam ser esquecidos. De­
pois do funeral há um processo gradual a caminho do esqueci­
mento. Mas com Ravelstein isto não funcionava inteiramente.
Ele reclamava e ocupava um espaço ainda mais conspícuo na
vida de Rosamund do que na minha. Ela recordava-se de um
texto dos seus dias de estudante que dizia : « Associa-te às
pessoas mais nobres que puderes encontrar; lê os melhores
livros; convive com os poderosos; mas aprende em solidão
a ser feliz. »
Para Ravelstein, isto teria sido a balela habitual bem pen­
sante.
Ainda assim, à sua maneira desprendida, Ravelstein tinha
sem dúvida sido uma dessas « pessoas mais nobres » . Mas,
para mim, o desafio de o retratar (que palavra antiquada se
tornara « retratar » ) tornou-se mais e mais um fardo. Rosa­
mund, contudo, acreditava que eu era a pessoa exata para
o trabalho . E, com efeito, passei por um ensaio da minha
morte . Mas naquela altura estávamos apenas a considerar
a morte de Ravelstein.
RAVE LSTEIN

- É apenas uma questão de começares - disse ela. -


Como ele dizia, é o premier pas qui coute.
- Sim. Um equivalente francês de Ravelstein « com todas
as licenças necessárias » ou sur papier timbré, em perfeita or­
dem legal, solenizado pelo Estado.
- Ora aí está. Exatamente o tom j ocoso que ele esperava
que tu encontrasses . Podes deixar aos outros o comentário
das suas ideias.
- Oh, tenciono fazer isso . Vou deixar os assuntos inte­
lectuais para os especialistas.
- Tudo o que precisas é de encontrar o ponto de partida
certo.
Mas à medida que os meses - os anos - passavam, eu
não conseguia encontrar esse ponto de partida.
- Devia ser fácil. « Fácil ou zero » , ou, como disse fula­
no, « Se não sair como o chilrear de um pássaro, não vale
nada. »
- Será que Ravelstein tem algo que ver com o chilrear
de um pássaro ? - respondia Rosamund ocasionalmente. -
Acho que não.
Os anos foram passando, com trocas deste género, e tor­
nou-se evidente que eu não conseguia começar, que estava
diante de um obstáculo intransponível. Rosamund deixou de
me oferecer encoraj amento ou conselhos. Era sensato da
parte dela deixar-me estar.
Continuámos, todavia, a falar quase diariamente de Ra­
velstein . Era eu quem me lembrava d a s suas festas p a r a
assistir a o s j ogos d e basquetebol, dos jantares c o m os estu­
dantes em Greektown, das suas expedições a fazer compras,
e d o s picantes, mas s é r i o s , s e m i n á r i o s que d a v a . O utra
mulher ter-me-ia pressionado de forma desagradável . « Afi­
nal de contas, era um amigo querido e tu prometeste fazer
SAUL B ELLOW

isto » , ou « Ele deve estar bastante desapontado no lado-de­


-lá. » Mas Rosamund compreendia bem de mais que eu pró­
prio pensava nisso, e com uma frequência opressiva . Por
vezes imaginava-o no seu sudário, deitado ao lado do pai
que odiava. Ravelstein costumava dizer:
- Aquele homenzinho histérico que me dava palmadas
no rabo e gritava alarvidades. E, mais tarde, não importava
o bem que eu me saísse, ele atirar-me-ia sempre à cara que
eu nunca pertenci à Phi Beta Kappa . « Portanto publicaste
um livro e foi bem recebido, sim, mas e a Phi Beta Kappa ? »
Rosamund dizia apenas:
- Mesmo que não fizesses mais do que este pormenor da
Phi Beta Kappa, Ravelstein já ficaria contente no lado-de-lá.
E a minha resposta era:
- Ravelstein não acreditava no lado-de-lá. E mesmo que
ele exista algures, que prazer lhe pode dar lembrar o tonto
do pai ou qualquer outra coisa do que chamamos a nossa vi­
da morta l ? Eu é que imagino encontrar os pais mortos do
outro lado. E os irmãos, amigos, primos, tias e tios . . .
Rosamund geralmente assenti a . E l a admitia que tinha
uma tendência similar. Por vezes acrescentava:
- Pergunto-me o que estarão a fazer no lado-de-lá.
- Se pudesses fazer uma sondagem sobre o assunto, ve-
rias que a maioria de nós espera ver os nossos mortos, aque­
les que amámos e continuamos a amar, as exatas pessoas
a quem, uma vez por outra, enganámos e por vezes desprezá­
mos ou odiámos ou a quem mentíamos habitualmente. Não
tu, Rosamund, tu és excecionalmente honesta. Mas até mes­
mo Ravelstein, um homem que era demasiado duro para so­
frer de tais ilusões, dizia . . . Ele descaiu-se quando me disse
que, de todas as pessoas próximas, eu era o que mais prova­
velmente o seguiria primeiro . Segui-lo para onde? Será que
o conseguia apanhar, e seríamos ainda capazes de nos ver ?
RAVELSTEIN 185

- Não podes cogitar muito em observações como essa -


disse Rosamund.
- É fácil argumentar que o amor infantil é a fonte de to­
das essas ilusões. Esta é a minha maneira de a dmitir que,
passado meio século, sinto que ainda não vi a minha mãe
pela última vez. Freud teria menosprezado isto como senti­
mental e iníquo. Mas Freud era um médico, e os médicos do
século x1x desconfiavam dos sentimentos. Diziam que o ser
humano era sessenta e dois por cento de componentes quí­
micos. Eram racionalistas severos e tipos duros.
- Mas Ravelstein estava longe de ser limitado - disse
Rosamund.
- Claro que estava. Mas vamos um pouco mais longe.
Vou contar-te um pensamento estranho. Pergunto-me o que
aconteceria . Se eu fosse escrever uma biografia de Ravel­
stein, deixaria de haver uma barreira entre mim e a morte.
Rosamund riu às gargalhadas:
- Queres dizer que os teus deveres terminariam, e que
não haveria mais razão para continuares a viver ?
- Não, não. Felizmente ainda te tenho a ti, Rosamund.
O que provavelmente estou a tentar dizer é que, do ponto de
vista de Ravelstein, eu posso não ter mais nada a fazer nesta
vida senão celebrá-lo.
- Isso é um pensamento muito estranho de se ter.
- Ele sentia que me estava a dar um grande tema. O te-
ma dos temas. E isso é um pensamento muito estranho. Mas
nunca parti do princípio de que eu era uma pessoa moderna,
racional. Uma pessoa racional não pensaria encontrar os
seus mortos no ocaso; onde quer que sej a o ocaso.
- Ainda assim - disse Rosamund - o facto de ser tão
persistente faz com que seja algo a ter em conta.
- E porquê eu ? Em menos de um minuto posso nomear
cinco pessoas mais qualificadas.
1 86 SAUL BELLOW

- Acerca das suas ideias, sim - disse Rosamund . -


Mas talvez elas não tenham cor para para lhes dar. E, tam­
bém, vocês os dois tornaram-se amigos tarde na vida e, por
regra, as pessoas mais velhas não criam tais laços . . .
Talvez e l a quisesse também dizer que os velhos n ã o se
enamoravam. Não estávamos aptos a abandonar-nos ao
campo magnético onde já não tínhamos nada que meter
o nanz.
- Durante um ano ou dois, Ravelstein incriminava-me
por Vela e eu vermos com tanta frequência Radu Grielescu
e a mulher - confessei a Rosamund.
- Eles tratavam-te bem ?
- Levavam-nos a bons restaurantes. Os mais caros, pelo
menos. Vela adorava todo o ritual do beij a-mão, do inclinar
a cabeça, ser delicado para as senhoras, os corpetes , e os
brindes. Ela ficava terrivelmente agradada. Grielescu monta­
va um autêntico espetáculo. Ravelstein tinha uma extrema
curiosidade sobre esses j antares. Ele disse-me que Grielescu
tinha pertencido à Guarda de Ferro . Eu não liguei muito
a isso. Não me senti incomodado, e isso aborrecia Ravel­
stein.
- Não te pareceu que ele era um nazi ? - perguntou Ro­
samund.
- Ravelstein foi mais longe e contou-me que, dez anos
antes, Grielescu tinha uma conferência marcada em Jerusa­
lém, mas que o convite fora cancelado. Ainda assim, nem isto
foi por mim registado. Eu por vezes desligo os meus recetores
e decido, de algum modo, não ver o que há para ser visto. Ra­
velstein apercebeu-se disso, naturalmente. Fui eu que não me
dei conta.
« Ravelstein queria saber exatamente como era o estilo de
Grielescu e eu disse-lhe que ele dissertava sobre história ar­
caica, punha tabaco no cachimbo e acendia montes de fós­
foros. Agarramos o cachimbo para ele não tremer, e depois
RAVELSTEJN

os dedos com o fósforo tremem a dobrar. Ele não parava de


encher o cachimbo, com o tabaco a rebelar-se. Quando saía
para fora, não tinha força suficiente no polegar para o em­
purrar para baixo. Como podia uma tal pessoa ser politica­
mente perigosa ? As mangas do casaco davam-lhe pelos nós
dos dedos. »
Rosamund disse:
- A minha impressão é de que ser visto em público con­
ti$ o tinha uma grande importância para Grielescu. Mas isso
é como tu fazes as coisas, Chick: as tuas observações enco­
brem o cerne da questão.
- É exatamente o que Ravelstein acabou por me . dizer.
E quão curioso que eu me tenha deixado usar daquela ma­
neira.
- Tu querias agradar à tua mulher. Querias que ela pen­
sasse bem de ti. E Ravelstein provavelmente sentiu que te
estavas a deixar vigarizar. Escolhendo a saída mais fácil. . ;
- Suponho que disse a mim próprio que isto era um qual­
quer absurdo franco-balcânico. De certo modo, eu não conse­
guia levar a sério os fascistas balcânicos. Quando a conta vi­
nha, Radu saltava da cadeira para a agarrar. Tornou-se um
j ogo que eu nunca conseguisse ficar com a conta. E uma das
coisas que me fascinava era como ele sempre pagava em notas
lisas, novas, acabadinhas de sair do banco, e nunca parecia
ler a quantia indicada . Se tivermos crescido durante a De­
pressão, não deixamos passar uma tal coisa.
- E tu distraías Ravelstein com as tuas descrições.
- Tentei. Mas ele não queria saber de cachimbos ou ma-
neirismos. Ele estava à espera que eu saísse do nevoeiro.
- Bem, tu eras o seu biógrafo escolhido. Que fosses lento
a dar-te conta da realidade não lhe podia ter agradado.
- Claro que não. Quando me falou do convite cancelado
de Radu a Jerusalém eu nem sequer quis saber pormenores.
Vej o que perdi o barco.
188 SAUL BELLOW

- Bom, quando te escolheu para escreveres sobre ele não


pensou que não tinhas defeitos - disse Rosamund.
- Quanto ao básico concordávamos tanto quanto po­
díamos, considerando a minha ignorância - disse-lhe . -
Ele tinha o suporte dos clássico s . Eu certamente que não,
mas, quando eu estava errado, não colocava a minha energia
onde estavam os meus erros. Aprendi tarde na vida o tonto
que é insistir em que estamos certos.
- Tu precisavas de estar certo e não conseguias sobrevi­
ver e estar também certo - disse Rosamund.
- O plano de Vela era de que Grielescu substituísse Ra­
velstein. Em Paris, quando o Abe entrou pelo quarto dentro
e a surpreendeu em roupa interior, ela correu para a casa de
banho e fechou a porta. Tinha uma maneira estranha de cor­
rer, saltitando nas pontas dos dedos. Quando chegou a altu­
ra certa, disse-me que não podíamos mais ver Ravelstein.
- Isso era muito estranho - disse Rosamund. Ao falar
de Vela, era sempre digna e circunspecta. - Foi nessa altura
que Vela chamou a mãe ? Ela levou-a a Paris ?
- Não, não. A velhota tinha morrido uns dois anos an­
tes disto. A tua intuição está certa, contudo. Ela confiava na
mãe para tratar das, como hei de chamar-lhes, relações hu­
manas. Ela não tinha tais talentos. De qualquer modo, a ve­
lhota odiava-me . Ter um genro j u d e u envenenava-lhe a
velhice.
- Agora puseste o dedo na ferida - disse Rosamund. -
Pensaste bastante em todo o tipo de problemas, exceto no
mais importante. Começaste com a questão judia.
- Claro que é por isso que esta conversa anda às voltas .
O q u e significa, para os j udeus, que tantos outros, milhões
de outros, lhes tenham desej ado a morte ? O resto da huma­
nidade expulsou-os. Hitler disse uma vez, há documentos ,
RAVELSTEIN

que quando chegasse ao poder teria patíbulos, fileiras de pa­


tíbulos, montados na Marienplatz em Munique e que os j u­
deus, até ao último, seriam ali enforcados. Foram os j udeus
o bilhete de acesso ao poder para Hitler. Ele não tinha, não
precisava de ter, qualquer outro programa. Tornou-se chan­
celer ao unir a Alemanha, e grande parte do resto da Euro­
pa, contra os j udeus . Sej a como for, tanto quando isto se
relacione com Grielescu, não acredito que ele fosse um antis­
semita malévolo, mas quando lhe tinham pedido para tomar
partido, ele tomara partido. Ele tinha um voto e votara. Tal
como Ravelstein notou, eu recusei-me a fazer o trabalho de­
sagradável de refletir nesta questão.
- Não sabias por onde começar ?
- Bem, eu tinha uma vida j udia a viver dentro da lingua-
gem americana, e esta não é uma linguagem muito útil para
lidar com pensamentos sombrios.
- Alguma vez falaste com Ravelstein acerca deste poder
do mal ?
- Talvez o tenha feito . O carácter do Abe era bastante
mais alegre do que o meu. Uma postura aberta e luminosa.
Ele era mais como uma pessoa normal. Mas também era tu­
do menos inocente.
- Eu d e i Tucíd i d e s c o m e l e - d i s s e R o s a m un d . -
E consigo lembrar-me do que ele tinha a dizer sobre a peste
em Atenas e o amontoar dos pais mortos ou das irmãs nas
piras funerárias dos mortos não identificados. Mas quanto
a estabelecer uma ligação entre isto e as massas de mortos
no século xx, isso é algo que ele não dava na aula. Conse­
gues lembrar-te de algo que ele tenha dito ?
- Como j ulgas - perguntei a Rosamund - que um ho­
mem como Ravelstein pode calibrar a sua existência, a sua per­
ceção diária de que está a morrer, com o facto de a sua aten­
ção ser agora atraída para os milhões que foram destruídos
neste século ? Não estou aqui a pensar nos combatentes ou
SAUL BELLOW

nos camponeses, kulaks, burgueses, ou membros do parti­


do ou aqueles designados como pessoas elegíveis para os tra­
balhos forçados, para a morte nos gulags ou nos campos de
concentração fascistas , gente fácil de j untar e mandar em­
bora em vagões de gado. Estes não atrairiam normalmente
a atenção de Ravelstein. Eram os «vencidos » habituais, gen­
te com quem os governos não tinham de se preocupar, o que
alguém designou de « uma sociedade de areias movediças » ,
que sugava a s vítimas e as afogava o u sufocava. A maneira
mais simples de lidar com tais pessoas era eliminá-las, redu­
zi-las a cadáveres. Havia também os j udeus, que tinham per­
dido o direito de existir e isso mesmo lhes era dito pelos seus
carrascos: « Não há qualquer razão para que vocês não mor­
ram. » E assim, desde o gulag na Ásia russa até à costa atlân­
tica, havia um historial de destruição ou de algo como uma
anarquia disseminadora de morte. Tínhamos de pensar nes­
tas centenas de milhares de milhões de pessoas destruídas
por motivos ideológicos, isto é, com um qualquer pretexto
de racionalidade. Um raciocínio tinha um valor considerável
como manifestação de ordem ou firmeza no propósito. Mas
as mais loucas formas de niilismo são as militares alemãs .
Segundo Davarr, que era um grande analista, o militarismo
alemão produziu o mais extremo e horrível niilismo . A hie­
rarquia rígida conduziu ao mais sangrento e louco tipo de
zelo revanchista e assassino. Porque estava implícito que, ao
seguir ordens, toda a responsabilidade ficava no topo, a fon­
te de todas as ordens. E toda a gente era assim a bsolvi d a .
Eram loucos até dizer chega. E isto e r a a técnica da Wehr­
macht de contornar a respon s a bilidade nos crimes prati­
cados. Suponhamos que havia métodos civis de atenuar a
conduta culposa, disse-me Ravelstein. Acrescentando: « Mas
aqui j á estou a falar por falar. » Ele tinha pontos de vista fir­
mes em relação a todos os tópicos, mas, para o fim, quando
RAVELSTEIN

se referia ao seu estado, era mais triste do que irónico, não


era, Rosie ?
- Ele não se deixava, ainda assim, afundar na tristeza
durante muito tempo.
- Bom, mas havia uma vontade geral de viver a destrui­
ção de milhões. Era um pouco como que a predisposição do
século, aceitar isso. Em combate, estávamos protegidos pela
tolerância especial para os soldados. Mas estou a pensar nas
grandes populações mortas nos gulags e nos campos de tra­
balho alemães. Por que motivo o século, não vejo outra ma­
neira de o colocar, s u b screveu tanta destruiç ã o ? Há um
cansaço que nos invade a todos quando consideramos estes
factos.
Dato esta conversa particular de cerca de dois anos após
a morte de Ravelstein. Depois do Guillain-Barré ele tinha-se
exercitado muito duramente p a r a c a minhar e recuperar
o uso das mãos. Ele sabia que teria de se render, de se incli­
nar, mas fazia-o seletivamente . Não tinha importância se
não era capaz de operar o moinho de café, mas precisava
das mãos para se barbear, tomar notas, vestir-se, fumar, as­
sinar cheque s . Poucos são os que não reconhecem que, se
não nos aplicamos na recuperação, somos um caso perdido,
um cadáver adiado . Na manhã do dia em que deparámos
com os arbustos cheios de papagaios a alimentarem-se de
amoras vermelhas e saltitando na neve, a cama de hospital
com o triângulo metálico estava a ser desmantelada e remo­
vida do quarto de Ravelstein.
- Graças sejam dadas a Alguém - disse, quando o triân­
gulo desapareceu no monta-cargas. - Nunca mais quero ver
aquela geringonça.
Ele estava a caminhar sozinho - não completamente fir­
me, mas um verdadeiro Lázaro, se é que alguma vez tinha
SAUL BELLOW

havido tal coisa. Mal regressados da morte, e deparávamo­


-nos com uma tribo inteira de papagaios verdes, animais tro­
picais sobrevivendo a um inverno do Midwest. Ravelstein
riu e disse-me:
- Até têm um ar j udeu.
Então, embora ele não tivesse praticamente interesse nas
ciências naturais, perguntou-me de novo como se tinham
tornado tão numerosos. De súbito, eu era o especialista da
natureza. E, assim, descrevi-os de novo: aquilo eram casulos
esguios pendurados das árvores e das barras nos postes elé­
tricos. Como meias de nylon demasiado esticadas, os ninhos
onde eram chocados os ovos caíam por quase dez metros.
- Estes ninhos fazem-nos pensar nas vivendas do East­
side - observei.
- Vamos pedir ao Nikki para nos levar a dar uma volta
a ver. Onde é o quartel-general ?
- No Jackson Park . Mas h á uma grande colónia num
beco ao pé da rua 54.
Mas nunca chegámos a ir ver os apartamentos dos papa­
gaios, os tubos pendurados nos arbustos onde faziam ninho.
Ao invés, Ravelstein disse-me, quando nos voltámos a en­
contrar, que ele e Nikki voavam em breve para Paris.
- Mas para que queres tu fazer isso ?
Percebi que tinha colocado uma questão estúpida e ofen­
siva, e que Ravelstein estava desapontado comigo. Mas ele
tinha tendência para encobrir as asneiras dos amigos. E as­
sim era natural que encobrisse a minha.
- Lá no hospital disseram-me que podia ir.
- Disseram ? - perguntei.
O raciocínio dos médicos era transparente. Embora Ra­
velstein estivesse a morrer, ainda estava capaz de voar. Paris
era um dos seus maiores prazeres . Tinha amigos próximos lá
e muitos tipos de negócios humanos inacabados. Se queria
RAVELSTEIN I93

assim tanto ir, por que não deixá-lo ? Os médicos chegaram


à conclusão de que uma viagem de dez dias não faria gran­
des estragos . Para mim, vinte e cinco horas de viagem aérea
teriam sido fatigantes, mas Ravelstein atravessaria os aero­
portos numa cadeira de rodas e, ao contrário de mim, viaj a­
ria em primeira classe. Para ir um pouco mais longe, receio
ter de admitir que me parecia uma coisa pouco séria para
um homem estar a fazer. E ninguém sabia o que « capaz de
voar » significava, num caso como o de Ravelstein. Ele ia via­
j ar num 72 7, ou tinha escondidas, debaixo do casaco, umas
poderosas asas ?
E, embora eu pense que Ravelstein estava desapontado
comigo, não acredito que estivesse surpreendido. Era uma
premissa firme, entre nós, que não haveria nada de escondi­
do nem demasiado vergonhoso para confessar, e não havia
nada que eu não pudesse contar a Ravelstein. Em parte isto
significa que não havia praticamente nada que ele não pu­
desse ter detetado sozinho. E, assim, ter-se-ia também aper­
cebido de que eu, de certo modo, menosprezava Paris. Há
um pensamento de livre-pensador sobre Paris: wie Gott in
Frankreich. Significando isto que até mesmo Deus passava as
suas férias em França. Porquê ? Porque os franceses são ateís­
tas e, entre eles, o próprio Deus podia andar despreocupado,
ser um flâneur, como outro turista qualquer.
O que não consegui perceber nem sequer para o fim foi
que Ravelstein tinha uma segunda, uma vida suplementar
em Paris. Regressou mais alegre desta breve viagem de des­
pedida, não contando nada acerca dos seus amigos france­
ses, mas com o ar de ter feito o que devia ter feito.
Soube, contudo, que o Dr. Schley tinha ordenado a Ra­
velstein que regressasse agora ao hospital para « novos exa­
mes » . Nikki confirmou-o, mas acrescentou que o quarto que
1 94 SAUL BELLOW

Ravelstein queria não estava disponível até à semana seguin­


te. Na tarde de domingo deu uma festa - piza e cervej a, ti­
po piquenique, com copos e pratos de papel. Comprara um
novo equipamento de vídeo - dernier cri, disse ( até mesmo
eu preferia esta expressão «a mais sofisticada tecnologia » ) -,
e cantores e instrumentistas eram mostrados em tamanho
natural e com um ar dos trópicos . O filme que Ravelstein es­
colhera para passar era um dos seus favoritos - A Italiana
em Argel, de Rossini. Os ecrãs onde os cantores e os atores
apareciam eram lisos, altos, largos, insuportavelmente reais
- arte re-forçada pela tecnologia. Os rostos dos cantores
coloridos como cristal de Veneza e as câmaras levando-nos
aos seus belos olhos negros e mesmo até aos seus dentes. Ra­
velstein, no seu roupão de pele de camelo, estava sentado na
cadeira larga admirando e explicando o novo equipamento
- e também troçando da ignorância dos leigos na matéria.
Mas ele não estava com grande disposição para escutar e
passava o tempo a carregar no botão de cortar o som para se
fazer ouvir. Para o fim, era simplesmente demasiado fatigan­
te para ele, e Nikki aj udou-o a levantar-se e levou-o para
o quarto, dizendo:
- É demasiada excitação. Ele pensava que só por esta
vez podia fugir à sua sesta. Mas não pode.
O vídeo sem som e Ravelstein, por si próprio, silencioso
e talvez a rever os factos da doença e da morte de um ângulo
pouco familiar, seguindo atrás de Nikki . Aj udámo-lo a re­
gressar ao quarto com a sua cama confortável com um edre­
dão de seda . Quando se recostou nas almofadas, cobri-o
com todos os linhos e sedas.
O apartamento em breve ficou vazio. Quando chegaram
os retardatários, Nikki pressionou o botão p a r a manter
aberta a porta do elevador e disse:
- O Abe adoraria ver-vos, mas ele está sob o efeito de
todo o tipo de medicamentos e não sabe para que lado anda.
RAVELSTEIN I95

No dia seguinte, quando Ravelstein levantou o assunto,


eu disse:
- Nikki teve muito tato. Não respondia a quaisquer per­
guntas. Mas a festa acabou rapidamente.
- Ele nunca responde a nada, pois não ? Há perguntas
silenciosas em cada esquina, mas ele não lhes liga. Isso exige
uma certa força.
- Ele desligou o vídeo novo . Eu não creio que o conse­
gmsse.
Durante os últimos dias de Ravelstein em casa, eu fazia­
-lhe geralmente companhia pela manhã . Porque vivia no
mesmo quarteirão e não tinha um horário regular, chegava
depois do pequeno-almoço. Nikki, cuj a hora habitual de se
deitar era às quatro da manhã, estaria mergulhado no sono
pelo menos até às dez, enquanto Ravelstein dormitava por
não ter companhia e j azia com os seus grandes joelhos aber­
tos. Os médicos medicavam-no (neutralizavam-no ) , mas isto
não o impedia de pensar - de considerar vários problemas
de maneira racional . E, mesmo quando estava a dormitar,
podíamos aprender imenso sobre ele, observando o seu pe­
culiar rosto j udeu . Não era possível imaginarmos um con­
tentor mais estranho para o seu estranho intelecto. Por vezes
a sua singular, total, quase geológica calvície sugeria que não
havia nele nada a esconder. Ele diria - como sempre, prefe­
rindo dizê-lo em francês - que tinha tido um succes fou,
mas agora estav� face ao cemitério.
Embora eu fosse seu sénior em alguns anos, ele via-se co­
mo meu professor. Bem, era esse o seu ramo - ele era um
educador. Nunca se apresentava como um filósofo - os
professores de filosofia não eram filósofos. Ele tinha tido
uma educação filosófica e tinha aprendido como uma vida
filosófica devia ser vivida. Era disso que a filosofia tratava,
e era por isso que uma pessoa lia Platão . Se tivesse de esco­
lher entre Atenas e Jerusalém, entre as duas principais fontes
SAUL BELLOW

da vida superior, ele escolheria Atenas, apesar do seu enor­


me respeito por Jerusalém, Mas, nos últimos dias, era dos
judeus que queria falar, não dos gregos.
Quando comentei esta mudança, ficou zangado comigo.
- Por que não falar deles ? - exclamou. - No Sul ainda
continuam a falar da guerra entre os estados, que se passou
há muito mais de um século, mas na nossa própria época fo­
ram destruídos milhões, a maior parte deles não diferentes
de ti ou de mim. De nós. Não lhes devemos virar as costas.
Moisés comunicou com Deus, que lhe deu instruções, e o
contacto manteve-se durante milénios.
Ravelstein prosseguiu durante um bocado nesta direção.
Disse que os j udeus tinham sido usados para dar à espécie
inteira uma medida da malvadez humana .
- Dizes às pessoas que uma nova era começará se abo­
lirmos a classe dominante ou a burguesia, se racionalizarmos
os meios de produção, se usarmos a eutanásia nos incurá­
veis. Perante espíritos assim predispostos, propomos depois
que os j udeus sej am destruídos. E têm um começo promete­
dor. Matam mais de metade dos j udeus da Europa . . . E tu
e eu, Chick, pertencemos ao que sobrou.
Não foram exatamente estas as palavras de Ravelstein.
Estou a parafrasear. O que ele disse foi que nós, j udeus, sa­
bíamos agora que aquilo era possível.
- Não há meio de dizer de onde isto virá da próxima
vez. Da França ? Não, não da França. Eles tiveram a sua do­
se de sangue no século X V I I I e não se importariam se tal
acontecesse, mas não seriam eles a pô-lo em prática. Mas,
e os russos ? Os Protocolos dos Anciães de Sião foram uma
invenção russa. E não há muito tempo tu estavas a falar-me
de Kipling.
- Sim, era Kipling. Um escritor maravilhoso - disse eu.
- Mas alguém me mostrou uma coleção das suas cartas ,
RAVELSTEIN 197

e numa delas fazia um ataque furioso a Einstein. Isto foi no


princípio do século. Ele dizia que os j udeus j á tinham distor­
cido a realidade social para os seus fins semitas . Mas, não
satisfeito com isso, Einstein estava agora a desfigurar a reali­
dade física com a sua teoria da relatividade, e os j udeus esta­
vam a tentar fazer um malabarismo j udaico e falsificador do
universo físico.
- Vais ter então de tirar o Kipling da tua lista de favori­
tos - disse Ravelstein.
- Não, não nos podemos dar ao luxo de ter um índex
j udeu. Por uma razão, nunca o conseguiríamos impor, nem
mesmo aos leitores j udeus. Quem podia alguma vez esperar
que deixássemos de ler Céline ? Por sinal, emprestei-te o meu
exemplar do seu panfleto « Les Beaux Draps » . . .
- Nunca consegui ler aquilo.
- Tu tens um fraco pelos niilistas - disse eu.
- Suponho que é por eles não dizerem muitas mentiras
pomposas. Gosto daqueles que aceitam o niilismo como uma
condição e vivem com essa condição. São os niilistas intelec­
tuais que não suporto. Prefiro o género que vive com os seus
fantasmas. Os niilistas naturais.
- Céline recomendou que os j udeus fossem extermina­
dos como bactérias. Era o médico nele a falar, suponho. Nos
seus romances, a influência da arte serve-lhe de modulador,
mas na sua propaganda é um puro assassino.
Aqui esta conversa terminou temporariamente, porque
uma vez mais a ambulância chegou, discreta, à porta de Ra­
velstein e os maqueiros , familiares com a rotina, tocaram
à campainha do monta-cargas . Ravelstein tinha entrado e
saído do hospital tantas vezes que j á mal se dava conta.
O Dr. Schley nunca discutia comigo a doença de Ravel­
stein. Era um daqueles médicos superescrupulosos - peque­
no, rígido, aquilino, eficiente. O pouco cabelo que lhe resta­
va estava em pé, ao estilo iroquês. Não me devia quaisquer
5AUL BELLOW

explicações médicas. Eu não estava ligado a Ravelstein pelo


sangue. Mas agora Schley já tinha visto que Ravelstein e eu
éramos muito próximos e começara a passar-me sinais mu­
dos - o que uma senhora francesa que eu conhecera déca­
das antes, no A B C Music Hall, me ensinara a designar de
chanson à la carpe. Ninguém mais p arecia ter alguma vez
ouvido a expressão, mas a mim convenceu-me - dois gran­
des peixes no meio de bolhas transparentes a comunicar em
silêncio através do abrir e fechar das respetivas mandíbulas.
Esta foi a maneira de o Dr. Schley me informar de que os
dias de Ravelstein estavam conta d o s . E Rosamund tinha
também dito:
- Esta pode ter sido a última viagem de Ravelstein para
o hospital.
Eu concordei . E Nikki, naturalmente, tinha cheg a d o
à mesma conclusão . E l e passava longas horas tratando d e
assuntos, atendendo telefonemas. Era Nikki, n ã o a s enfer­
meiras, quem barbeava Ravelstein com a máquina elétrica
enquanto Ravelstein, os olhos fechados, reclinava a cabeça
para trás para levantar o queixo. Um pequeno tubo de plás­
tico sob o nariz fornecia-lhe oxigénio.
- Não tem bom aspeto, pois não ? - disse-me Nikki, no
corredor.
- Não, de facto não tem.
- Ele tem uma mensagem para o advogado. E pediu-me
para chamar Morris Herbst.
Bem, não havia recuperação possível desta doença, como
todos sabíamos. Quando Ravelstein fora hospitalizado da
última vez, tinha dirigido seminários improvisados da cama
de hospital, presidindo com brilho. O seu ensino-vaudeville
ainda estava então em curso. Mesmo agora, os alunos sen­
tavam-se na sala de espera sob a grande lâmpada no teto
- à espera de serem chamados - mas, embora ele ainda
RAVELSTEIN 199

perguntasse por um ou outro, pelo nome, já não estava a en­


sinar, ou a presidir a nada. O facto era que eu podia vislum­
brar já nos seus movimentos os primeiros sinais da morte
a aproximar-se - a cabeça a tornar-se um fardo para os om­
bros e pescoço, uma mudança na cor, especialmente sob os
olhos. As opiniões eram resumidas, e havia menor preocupa­
ção com o que sentíamos, pelo que era aconselhável ficarmo­
-nos por tópicos neutros . Acerca de Vela, disse:
- Tu vendeste-te. Tentaste impingir-me um retrato boni-
tinho dessa mulher, .c omo as fotografias das celebridades que
costumavam antigamente pendurar nos átrios dos cin.emas.
Sabes, Chick, por vezes dizes que não há nada que não me
possas dizer. Mas falsificaste a imagem da tua ex-mulher.
Dir-me-ás que o fizeste por respeito ao casamento, mas que
raio de moralidade é essa?
- Tens inteira razão - admiti. Apanhara-me com a bo­
ca na botij a. Ele podia ter acrescentado, quando o acusei de
preferir niilistas aos « mais morais » contemporâneos acadé­
micos seus, que ao menos os niilistas não tentavam fazer
passar deformidades mesquinhas e pequeno-burguesas por
exemplos de grandes princípios, ou mesmo beleza.
Nikki, o filho chinês de Ravelstein que não tinha nada
que ver com estas conversas, aproximou-se para lhe limpar
o rosto. Nikki afastava-se apenas para os técnicos que passa­
vam Ravelstein pelo raio X ou recolhiam amostras de san­
gue. Uma vez ou outra levei a mão à cabeça calva do meu
amigo. Eu podia pressentir que ele queria ser tocado. Fiquei
surpreso ao reparar que havia um raspar invisível no escalpe.
Ele devia ter decidido que a calvície total lhe ficava melhor do
que alguns cabelos ralos, e rapava a cabeça, tal como as bo­
chechas. De qualquer modo, esta cabeça estava a caminho da
sepultura.
200 S A U L BELLOW

- Está um dia cinzento - perguntou-me Ravelstein -


ou sou eu que estou de mau humor ?
- Não é o teu humor. Está tudo cinzento lá fora.
Também não era próprio de Ravelstein preocupar-se com
o tempo; o tempo adaptar-se-ia ao que fosse que as pessoas
que importavam estivessem a pensar, e por vezes criticava­
-me por « verificar os fatores externos » - manter as nuvens
debaixo de olho.
- Podes contar com que a natureza faça o que a natureza
tem feito desde sempre. Achas que vais olhar para a natureza
e ter uma visão ? - dizia.
Mas estes momentos de bom humor ocorriam agora
raramente. Mais e mais vezes ele parecia comatoso - e Ro­
samund murmuraria com ansiedade:
- Ele ainda aí está ?
Havia vezes em que eu não podia responder com segu­
rança. Tinha sido repetidamente tornado claro que não po­
deria sobreviver, e ele j azia, respirando irregularmente com
uma mesa cheia de garrafas e tubos j unto à cabeça, arruma­
das atrás das suas grandes orelhas conspícuas. Em certas al­
turas pensávamos que preferiria dormitar durante todo o seu
caminho até à morte . Era capaz de estar a seguir uma linha
de pensamento sobre a qual não lhe apetecia falar. Tinha-se
devotado sobretudo aos dois polos da vida humana, religião
e governo, como o pusera Voltaire. Ravelstein não acredita­
va que Voltaire fosse intelectualmente sério, mas era verdade
que uma vez por outra resumia as coisas de modo conve­
niente. E Ravelstein, agora, teria acrescentado que Voltaire,
famoso pelas campanhas por que combateu - « É crasez /'in­
fame!» - odiava violentamente os j udeus. E havia ainda
mais uma mudança digna de nota. O corpo estendido de Ra­
velstein era muito grande, ele tinha mais de um metro e no­
venta de altura e o seu robe, que dava pelos tornozelos do
RAVELSTEIN 20 I

comum dos pacientes, nem lhe chegava aos joelhos. E o gros­


so lábio inferior tinha um abandono afetuoso, mas o grande
nariz era severo. Respirava pela boca. A pele tinha uma tex­
tura de farinha cozida.
Eu podia ver que ele estavá a seguir uma pista de ideias
j udias ou essências j udias. Era pouco usual que nestes dias,
em qualquer conversa , mencionasse até rriesmo Platão ou
Tucídides . Estava agora cheio de Escritura. Falava de reli­
gião e do difícil proj eto que era ser homem no sentido mais
completo, de nos tornarmos homem e nada senão homem.
Por vezes era coerente. A maior parte do tempo deixava-me
completamente à nora.
Quando mencionei isto a Morris Herbst, ele disse:
- Bem, é claro que continuará a falar do que lhe importa
enquanto tiver um sopro de vida no corpo . E para ele isto
é da máxima prioridade, porque está relacionado com o gran­
de mal.
Eu compreendia bem o que ele queria dizer. A guerra ti­
nha tornado claro que praticamente toda a gente concordava
que os j udeus não tinham qualquer direito a viver.
Isto bate mesmo fundo numa pessoa.
O utros têm alguma escolha de opções - a sua atenção
é solicitada por este ou aquele assunto e, interessando-se por
diferentes assuntos, fazem as suas escolhas segundo as suas
inclinações. Mas, para « os escolhidos » , não há escolha. Um
tal volume de ódio e negação do direito de viver nunca fora
ouvido ou sentido, e a vontade que lhes desej ara a morte
fora confirmada e j ustificada por um vasto assentimento co­
letivo de que o mundo ficaria melhor com o seu desapareci­
mento e extinção. Rismus, que era a palavra do professor
Davarr para a maldade, o ódio, a determinação de ficar livre
desta população intrusiva nas fornalhas ou nas campas cole­
tivas. Não era preciso prosseguir. Mas o que pessoas como
202 S A U L BELLOW

Herbst e Ravelstein concluíam é que era impossível livrarmo­


-nos das nossas origens, era impossível não se continuar j u­
deu. Os j udeus, pensavam Ravelstein e Herbst, seguindo a
linha de pensamento do seu mestre D avarr, eram historica­
mente testemunhas da ausência de redenção.
E assim, à medida que ia morrendo, ponderando nestas
questões, Ravelstein formulava o que queria dizer, mas não
era capaz de formular as conclusões a que chegara. E uma
destas conclusões era de que um j udeu devia ter um interesse
profundo pela história dos j udeus - pelos seus princípios de
j ustiça, por exemplo. Mas nem todos os problemas podem
ser resolvidos. E o que poderia Ravelstein ter feito ?
D e qualquer modo, ele não estaria aqui para o fazer.
Nesse caso, qual era a mais significativa sugestão que podia
fazer aos amigos ? Começou a falar sobre a aproximação das
Grandes Festas e instruiu-me a que levasse Rosamund à sina­
goga . Herbst estava certo de que Ravelstein estava a indicar
o melhor caminho para os j udeus, que não tinham nada de
maior valor do que este legado religioso.
Herbst e Ravelstein tinham sido próximos enquanto estu­
dantes, quarenta anos atrás, e eu podia fazer pior do que vi­
rar-me para Herbst em busca de orientação. M a s , se e u
começasse a fazer perguntas, ver-me-ia envolvido e m explica­
ções sobre mim próprio, e não tinha estômago para isso. Ra­
velstein estava a morrer - j azia completamente embrulhado
nos cobertores, os olhos cerrados . Estava ou a dormir ou
a pensar o que tinha de ser pensado nestes últimos dias .
A minha sensação era a de que ele estava a tentar fazer tudo
o que podia ser feito nestes momentos finais - a fazer, que­
ro dizer, pelas pessoas sob o seu cuidado, pelos seus pupilos.
Quanto a mim, eu estava demasiado velho para ser um pupi­
lo, e Ravelstein não acreditava na educação para adultos .
Era demasiado tarde para e u platonizar. E o que as pessoas
RAVELSTEIN 203

chamavam cultura não era senão um termo mais pitoresco


para a sua ignorância . Ravelstein dizia por vezes que eu era
um zombie por escolha pessoal, mas isto não significava que
eu fosse impossível de ensinar, apenas que cabia a mim deci­
dir quando estaria pronto para fazer as minhas j ogadas.
Podiam dizer-me algo de grande importância, e eu com­
preenderia o suficiente, mas recusava-me a assimilá-lo comple­
tamente. Isto não era uma banal teimosia.
A questão é que há poucas pessoas com quem possamos
discutir tais assuntos . É pena. Como somos tão frequente­
mente chamados a fazer juízos, naturalmente banalizamo-los
devido ao constante uso e abuso. E depois, claro, não vemos
nada de original, nada de novo; ficamos, por fim, incapazes
de nos comover com qualquer rosto, com qualquer pessoa
que sej a. Era aqui que entrava Ravelstein. Ele virava o nosso
rosto na direção do que era original. Ele forçava-nos a rea­
brir o que antes tínhamos fechado.
Um dia cheguei mesmo a ditar algumas notas sobre este
tema e a minha então secretária Rosamund fez um comentá­
rio singularmente pessoal. Ela disse:
- Acho que compreendo a que se está a referir.
Eu estava persuadido mais e mais de que era realmente
assim.

Nikki, o herdeiro de Ravelstein e o seu principal carpidei­


ro - os rivais eram numerosos - ocupou o apartamento,
mesmo ao virar da esquina. Havia um pequeno espaço verde
entre o seu prédio e o nosso, onde crianças pequenas trope­
çavam e aprendiam a j ogar à bola. Da j anela do meu quarto,
eu olhava para o que tinha em tempos sido o quarto de Ra­
velstein. Víamos as luzes. Não havia mais festas. Pior ainda,
Rosamund disse acertadamente:
2 04 SAUL BELLOW

- A comunidade inteira é um cemitério. A comunidade


dos teus mortos . Não podemos sequer dar um passeio sem
apontares as portas e as j anelas de velhos amigos e conheci­
dos. Não podemos dar uma volta ao quarteirão sem te lem­
brares dos amigalhaços ou das ex-namoradas. Ravelstein era
um amigo querido; um num milhão. Mas ele diria que carre­
gas contigo uma sobrecarga de depressão.
Ela sentia que nos devíamos ir embora. Tínhamos a casa
no New Hampshire e um convite válido por três anos de
uma universidade de Boston para dar as cadeiras (o melhor
que eu pudesse, sozinho) que Ravelstein e eu tínhamos lecio­
nado j unto s . O fereceram-no s , a Rosamund e a mim, um
apartamento confortável na zona de Back Bay. Ela trataria
da mudança, eu não precisava de me preocupar com isso .
Dado que o apartamento em Back Bay j á estava mobilado,
podíamos subalugar o do Midwest. Ser-nos-ia ainda possível
regressar se não nos déssemos bem na costa leste. E não pre­
cisaríamos de temer olhar através do recinto relvado para as
j anelas de Ravelstein.
- E como bónus extra . . . - Rosamund segurava na mão
as imagens coloridas da literatura de viagens; praias com sol,
colinas verdes, palmeiras, . pescadores indígenas. Umas férias
nas Caraíbas, eis o que ela estava a sugerir. Deixávamos em
Boston as malas e os caixotes com os nossos bens. Em segui­
da voaríamos para Saint Martin, via San Juan. Ali deixar­
-nos-íamos a torrar ao sol, abandonados ao mar apetecível,
recarregando as baterias.
- Onde arranj aste essa propaganda sedutora toda ? Saint
Martin, eh ? Não é para onde os Durkins costumam ir?
- Não importa . São bons amigos. Eles conseguem ver
exatamente do que estás a precisar.
RAVELSTEIN

- As Caraíbas derreterão estas camadas de stresse, e eu


ficarei de repente restaurado e em forma, e com forças sufi­
cientes para escrever a biografia de Ravelstein.
- Não estou a sugerir umas férias de tra balho - disse
Rosamund. - Suponho que j á estiveste nas Caraíbas.
- Sim.
- E não te agradam ?
- É uma enorme favela tropical. . . Mas eu ia sobretudo
a Porto Rico. Grandes casas de j ogo, uma enorme lagoa nau­
seabunda, escura e lamacenta . . . magotes de nativos infelizes
com ar de viver à custa da segurança social. Depois chegam
os europeus em voos charter. E o que levam no regresso pa­
ra casa é a impressão de que os americanos fizeram asneira
da grossa e de que Castro merece todo o apoio dos escandi­
navos e holandeses inteligentes e independentes.

Mas Rosamund acabou por levar a sua avante. Descobri,


contudo, nos primeiros tempos do nosso casamento, que, ao
levar a sua avante, ela punha os meus interesses acima dos
seus . Os Durkins recomendaram um pequeno apartamento
j unto à praia. Conferimos a bagagem - todos os trapos de
verão, papéis, fatos de banho, creme solar, sandálias, repe­
lente anti-insetos. San Juan parecia mais excitante perto do
mar, de qualquer modo. Tínhamos algum tempo para matar
entre os voos e matámo-lo no bar do grande hotel. Ali, sen­
támo-nos ao lado de um americano embriagado que nos dis­
se que a mulher tinha sido atingida por uma doença não
identificada. O homem disse que passava o tempo entre Dal­
las, onde era dono de uma empresa, e o enorme hospital de
San Juan onde ela estava a ser tratada. Semanas a fio ela ti­
nha estado incapaz de falar, talvez também de ouvir - nin­
gu�m o poderia dizer. Estava inconsciente. Ela não abria, se
calhar não podia, abrir os olhos.
206 S A U L BELLOW

- Não reage. Sinto-me um idiota, a falar com ela.


Quando o nosso autocarro chegou, deixámo-lo no bar. Ti­
nha o ar de um pedaço de areia vermelha com um tufo de er­
va verde por cima. A Rosamund custava-lhe deixá-lo assim,
abandonado, miserável - ela é assim. Mas ele não respondeu
às nossas despedidas.
Meia hora mais tarde, aterrando em Saint Martin, atra­
vessámos o hangar dos serviços de fronteira, uma vasta bar­
raca metálica verde e corroída - tudo nos trópicos me parecia
ter um carácter provisório. Fizemos fila diante de um balcão
oficial e pagámos uma taxa para ter os nossos passaportes
carimbados. Ali, apanhámos um táxi e fomos conduzidos ao
lado francês da ilha. A nossa senhoria esteve apenas um mo­
mento connosco, porque a tínhamos mantido a pé até tão
tarde. Pouco depois de nos termos deitado, um homem fu­
rioso chegou e começou aos pontapés e aos murros à porta
dela, gritando que a matava. Eu disse:
- Se a corrente de segurança não aguentar, isto pode ter­
minar em assassínio.
Mas a polícia apareceu num carro com uma lanterna gi­
ratória no tej adilho e levou-o embora.
- O que te parece ? - disse Rosamund.
Lembro-me de ter dito que era capaz de ser normal com
aquele clima. Encantador, mas instável.
Eu recusava-me a ficar cativado pelo lugar. Talvez fosse
da idade. Eu costumava ser um viaj ante bem-disposto, mas
agora cheirava os lençóis quando me deitava. Aqui eu sentia
o cheiro a detergente nos lençóis e nas fronhas das almofa­
das, e a fossa séptica por baixo do quarto.
Mas despertámos numa clara manhã tropical com lagar­
tos e galos. No oceano, mesmo defronte de n ó s , os iates
rebocavam pequenas lanchas. No aeródromo, os aviões le­
vantavam voo e aterravam. Mas a praia era excelente, firme,
RAVELSTEIN 207

espaçosa, com uma fileira de árvores e arbustos floridos, e


havia bandos de borboletas amarelas de um lado para o ou­
tro. No lado contrário da casa havia uma grande árvore, re­
cheada de limas. Por detrás, uma colina escarpada.
Para o café da manhã caminhámos até ao extremo opos­
to da rua principal. Falava-se nos cafés e nas padarias uma
espécie de francês. Sentámo-nos no terraço a apreciar a vis­
ta. O que havia aqui para ver ? Ou para fazer ? Para começar,
comprámos as coisas básicas . Depois iríamos nadar. Rara­
mente se viam ondas na baía . Podíamos boiar de costas du­
rante uma hora, ou deitarmo-nos na areia a secar. Podíamos
ainda flanar à beira-mar e inspecionar as mulheres em topless
- bronzeando ou exibindo os seus seios. Sendo naturais, su­
ponho . Mas os olhos dessas mulheres informavam-nos de
que, se lhes falássemos, elas não responderiam.
À hora a que voltámos, os sítios para almoçar começa­
vam a abrir. Costeletas, galinha e lagosta eram oferecidas em
cerca de vinte casas de churrasco que estavam amontoadas
j untas, com as chamas a dançar no ar, mais fogo do que ne­
cessitaríamos para cozinhar razoavelmente . Cada uma das
tascas tinha o seu próprio empregado sorridente, chamando­
-nos, rindo e erguendo lagostas vivas, baloiçando-as pelas
antenas ou pela cauda . Se algum pedaço da criatura se solta­
va e caía ao chão, isso fazia parte do divertimento.
- Vamos embora daqui - disse Rosamund. Ela queixa­
va-se do fumo das grelhas. Irritava-lhe os olhos. Mas o que
não suportava era a tortura das lagostas. No New Hampshire,
quando via salamandras no meio da estrada, pegava nelas
e levava-as até um local seguro. Eu brincava:
- Elas talvez não queiram estar onde tu as pões.
Eu estava errado em fazer pouco dela pelos seus impul­
sos humanos. A doçura é um problema desconfortável para
toda a gente. Os ternos deixam aos menos sensíveis o papel
208 SAUL BELLOW

de dizer: « É a lei da vida. Nós temos de comer. E não são os


próprios crustáceos canibalísticos ? » Mas isto é tudo evasão.
Nós borrifamos a nossa « interpretação » com ciência de se­
benta escolar. Terão estas lagostas com armadura a capaci­
dade de regenerarem as tenazes que perdem ? Esta parece ser
a razão para termos aulas de ciência - para disfarçar a nos­
sa falta de sensibilidade. Ou para a refinar, pelo menos. Po­
lónio participa numa refeição, não onde ele come mas onde
é comido, pelos vermes - a fatura por uma vida inteira de
refeições.
Não podemos aplicar a tudo a nossa medida humana.
Antes de os termos digerido, os nossos mortos de repente
cercaram-nos. O que teria Ravelstein a dizer sobre isto ? Tal­
vez:
- Delicadezas de menina prendada. - Querendo com is­
to dizer: - Ela é um ser humano sensível e tem de chegar so­
zinha às suas conclusões. Tais assuntos devem ser pensados
continuamente por qualquer adulto. Quanto às salamandras
vermelhas, são capazes de dar um bom molho de esparguete . . .
E m Saint Martin, estávamos n o lado menos elevado -
o leste - da baía, numa casa de dois andares. Por baixo de
nós, uma família de turistas do norte da França ocupara
o j ardim. Eles estavam en famille, enquanto nós não preci­
sávamos especialmente daquilo. O que nos interessava era
a praia, logo ali atrás do pequeno muro. Estávamos a uns
dez metros da beira da água. Um barco com fundo transpa­
rente levava regularmente os turistas ao recife de coral um
pouco a norte.
Eu estava grato pela baía. Dava-nos um enquadramento.
Fico grato sempre que há fronteiras. Gosto de ter as linhas
definidas ao meu redor. Eu não estava aqui para combater
os mares mas para nadar e boiar em sossego. Para abrir o
RAVELSTEIN 2 09

meu espírito a Ravelstein. Com frequência, Rosamund re­


bocava-me ou carregava-me na água até nos dar pelos om­
bros. Punha os braços à minha volta e andava de um lado
para o outro. Ela não era uma j ovem forte - não precisava
de o ser. A água do mar parece mais densa, não é preciso es­
forço para flutuar, como numa lagoa ou num lago . Rosa­
mund é delicada na estrutura, não magrizelas, não abrupta .
Usa o cabelo castanho pelos ombros. É como um bem ilimi­
tado . Os seus grandes olhos são surpreendentemente azuis,
não castanhos como o cabelo escuro nos levaria a esperar.
A música que ela cantarolava enquanto navegava o meu cor­
po através das águas era do Salomão de Handel. Tínhamo-la
escutado alguns meses antes em Bucareste. « Vive para sem­
pre » , cantava ela, «Ó feliz, feliz Salomão. » Este coro de uma
só voz tinha por baixo o marulhar da águ a . D eitado nos
seus braços eu via as borboletas, às centenas, de um amarelo
pálido, em rodopios contínuo s . Esta devia ser a época de
acasalamento. E sobre a rua principal havia uma nuvem de
fumo, dos churrascos, e os pregoeiros, os filhos de Belial,
rindo às cegas entre o sol e baloiçando lagostas vivas pelas
antenas, para tentar os turistas.
Senti que nunca me afeiçoaria a este paraíso tropical. Em
vez disso, enquanto Rosamund cantava com a sua voz doce
« Vive para sempre, ó Salomão » , eu pensava em Ravelstein
no seu túmulo, todos os seus talentos, a sua personalidade
e o seu intelecto, infatigavelmente irrequietos, agora comple­
tamente imutáveis. Não suponho que, quando me encarrega­
ra de fazer um balanço da sua vida, ele esperasse que eu me
ficasse pelo característico - quero dizer, pelo que me é na­
turalmente característico.
Rosamund e eu trocámos de papéis, e puxava-a agora eu
através da água, a areia sob os meus pés endurecia à medida
que a superfície do mar ia e vinha, e dentro da boca o palato
tinha também as suas durezas .
210 SAUL BELLOW

- Que tal se passarmos pelo Le Forgeron no caminho


para casa e reservarmos uma mesa para logo à noite ? Fica
a cinco minutos da praia .
Roxie Durkin tinha-nos dado uma carta para Monsieur
Bédier, o dono do restaurante. Rosamund já tinha feito a re­
serv a . Em termos de restaurante s , po díamos confiar n o s
Durkins. Tinham s i d o assíduos de Ravelstein nos últimos
anos. Jantávamos com frequência no bairro grego ou no clu­
be de Kurbanski.
Os Durkins tinham sido muito simpáticos. Só tinham pe­
dido um favor em troca. Durkin, que era advogado, trouxe­
ra vários livros para Saint Martin e esquecera-se de copiar
várias passagens relacionadas com um caso que iria em bre­
ve a tribunal. Tinha-nos pedido, como especial favor, para
encontrar as passagens e enviá-las por correio eletrónic o .
Rosamund lembrara-me várias vezes que tínhamos d e encon­
trar os livros . A senhoria mandou uma empregada trazê-los
ao nosso apartamento.
Nessa noite, caminhámos até ao Le Forgeron pela frescu­
ra da praia. Rosamund trazia num saco os meus sapatos e as
suas sandálias. Pusemo-los antes de entrarmos pelo portão
do lado do oceano. Havia um restolhar agradável de água
no j ardim - videiras e arbustos, flores. Madame Bédier, ata­
refada na cozinha; nem deu pela nossa presença. Monsieur
Bédier leu sem real interesse a nota familiar de Roxie . Era
um homem grande, calvo, largo, organizado fisicamente com
uma sugestão de violência potencial. A sua mensagem, se
pudesse ser posta em palavras, seria algo como: « Estou pre­
parado para satisfazer todos os desej os de um cliente ( un
client ), mas estou sob uma enorme pressão e posso explodir
a qualquer momento. » Era o único empregado, e o sítio esta­
va a começar a ficar cheio . Não havia mais ninguém para
RAVELSTEIN 2II

ajudar. A mulher ocupava-se de toda a cozinha. Mas os tu­


ristas, era-nos dado a entender, não eram socialmente seus
1gua1s.
Eu estava ciente da influência de Ravelstein ao fazer estas
observações . Já agora, não há razão para não admitir que
ele figurava com frequência nos acontecimentos do nosso dia
a dia. Isto devia-se ao poder da sua personalidade. E tam­
bém porque a sua vida tinha uma estrutura central superior
à minha - pode também ser porque ele queria persistir.
E para o fazer precisava de mim. Aliás, muitas pessoas que­
rem ver-se livres dos mortos. Eu, pelo contrário, tenho ten­
dência para me agarrar a eles. A minha contínua intuição -
j á deve ter ficado clara - é a de que eles não se foram defi­
nitivamente embora. O próprio Ravelstein teria considerado
infantis tais noções . Bem, talvez o sej am. Mas eu não estou
a defender uma causa, estou apenas a relatar o que acho. Eu
sei que perdemos respeitabilidade intelectual quando reco­
nhecemos tais fantasias. Até eu, como se pode ver, me agar­
ro à opinião dominante. Mas pode haver explicações simples
para a persistência de Ravelstein no meu quotidiano. Quan­
do morreu, comecei a aperceber-me de que se me tinha tor­
nado um hábito contar-lhe o que acontecera desde o nosso
último encontro.
Ainda assim, ele tinha modos estranhos de aparecer, e eu
não pretenderei que não ia e vinha, o blíquo, de onde quer
que fosse que continuasse a existir. Isto não devia adquirir
a forma de uma discussão sobre a vida e a morte. Não estou
com disposição para discutir. Acontece simplesmente que
não posso deixar passar em branco esta informação só por­
que não é informação intelectualmente respeitável.
Agora - o que recomendava esta noite M. Bédier do
Forgeron ? O salmonete, servido frio com maionese . Rosa­
mund pediu um outro peixe qualquer. Nenhum dos pratos
212 SAUL BELLOW

estava bem confecionado. O salmonete, à temperatura am­


biente, estava enfarinhado. A maionese parecia pasta de zinco.
- Que tal ? - disse Rosamund.
- Meio cru.
Ao provar, ela concordou que não estava completamente
cozinhado. Estava cru por dentro.
- Diz ao patron. Tu podes falar com ele em francês.
- O inglês dele é melhor. Ninguém gosta de ficar preso
em conversas que não levam a lado nenhum. Por que havia
ele de falar comigo em francês ? Se eu quiser posso ir tirar
um curso Berlitz, pensará ele.
Não consegui terminar o salmonete. O j antar nunca mais
terminava.
- É uma noite má - disse Rosamund. - Eles não po­
dem cozinhar comida assim tão má num local tão bonito co­
mo este.
Não era possível servir refeições incomestíveis assim à bei­
ra destas águas quentes, tropicais, com uma lua a coroar o ce­
nário. Um restaurante a dez minutos do nosso apartamento
teria sido o sonho de uma recém-casada - nada de compras,
descascar, cozinhar, servir, lavar ou depositar o lixo.
Perto da meia-noite, houve um aumento do tráfego aé­
reo . Eu tinha-me rapidamente apercebido do número de
aviões particulares que poisavam no aeródromo - uma
amostra da riqueza e dos talentos de pilotagem de uma po­
pulação considerável de americanos, mexicanos, venezuela­
nos, hondurenhos, e até mesmo homens de ação italianos ou
franceses - gente que gostava que a sua realidade seguisse
os seus pensamentos. Uma pessoa pensava num sítio e, numa
questão de horas, podia estar nesse mesmo sítio. No sécu­
lo XVI , as viagens por mar dos espanhóis duravam por vezes
meses. Hoje, podíamos j ogar golfe na Venezuela e j antar nessa
RAVELSTEI N 213

mesma noite n o Yucatán. E estar d e regresso a Pasadena pela


manhã, a tempo de assistir à final do campeonato.
Quando começamos a mergulhar em tais pensamentos
acerca de gente suficientemente rica para saltitar de um lado
para o outro e escolher os seus itinerários e calcularem os de­
pósitos de gasolina - muito rapidamente nos damos conta
de que a fadiga das horas de voo que sentimos é a nossa fa­
diga.

O facto é que Bédier do Forgeron me tinha envenenado.


Quando me queixei de fadiga e falta de energia, Rosa­
mund disse-me que era a acumulação de fadiga agravada pe­
las preocupações e pela perd a . Ela também estava a sofrer
pelo pobre Ravelstein, destruído pelos seus imprudentes há­
bitos sexuais. Rosamund não minimizava as minhas queixas
- prestava-lhes inteira atenção sem irritabilidade. Ela disse
que as férias começavam habitualmente com tais sentimen­
tos pesados e dolorosos. Acariciou-me o rosto carinhosa­
mente e disse-me que precisava de recuperar o meu sono.
Fiz isso, mas não me senti melhor. A toxina do peixe era
resistente ao calor, vim depois a saber, e ter sido mais escal­
dado ou cozinhado não a neutralizaria. Como me foi depois
explicado em Boston, a toxina cigua era rapidamente expe­
lida do corpo mas não antes de ter afetado radicalmente o
· sistema nervoso. Muito parecida com o Guillain-Barré de
Ravelstein. Entre os primeiros sintomas há uma súbita falta
de apetite. Eu nem suportava o cheiro da comida. Cheguei
ao ponto de odiar todos os cheiros a comida. Ao j antar, co­
mia apenas cereais com um pouco de leite. Continuava a di­
zer a Rosamund que estava tudo bem. Estava até a perder
peso. Como toda a gente nos Estados Unidos, disse-lhe, eu
estava sobrealimentado.
2 14 SAUL BELLOW

A família francesa no apartamento por baixo de nós ti­


nha vindo de Rouen para estar à vontade e gozar o clima,
usufruindo à vontade os trópicos. Nadavam no mar calmo;
o mesmo fazíamos Rosamund e eu. Secávamo-nos na praia,
conversando animadamente. Mas os odores que subiam da
cozinha deles estavam a ficar insuportáveis .
- Que merda estão eles a cozinhar ? - disse eu a Rosa-
mund.
- É assim tão mau ? - disse Rosamund.
Então perorei sobre o declínio da gastronomia francesa.
- Costumávamos ser capazes de comer bem em qual-
quer bistrot. Talvez o turismo tenha baixado o nível. Ou se­
rá que o desaparecimento do campesinato está a arruinar
a cozinha francesa ?
- Um dos prazeres de viver contigo, Chick, é que tens
tantas ideias acerca de qualquer assunto . Mas p areces ter
perdido o apetite por completo. Eu própria tenho uma teo­
ria: tens andado tão tenso, hipertenso, exausto, que este sítio
calmo é demasiado calmo para ti. Estás demasiado tenso. -
Ela estava evidentemente preocupada com a força e a violên­
cia das minhas reações.
- Tenho de fugir deste cheiro nauseabundo a comida.
- Vamos sair, então.
- Sim, vamos. Tu precisas de comer, Rosamund. Deves
ter um bom j antar. Eu estou sem apetite, mas gostava que tu
comesses.
As minhas noites nesta ilha tinham sido irrequietas -
o meu coração portava-se mal. Tinha aumentado as doses de
quinino prescritas pelo Dr. Schley, o cardiologista . Engolia
tabuleiros com copos de água com quinino. A minha cabeça
estava razoavelmente lúcida, m a s queixava-me de ter a s
plantas dos pés dormentes.
- Tenho uma sensação desagradável nos pés - disse.
RAVELSTEIN 215

- Talvez sej a do modo como te sentas. Tenta ficar mais


de p é . Talvez estej a s a abusar do quinino - disse R o s a ­
mund.
- O Dr. Schley disse que eu podia tomar qualquer quan­
tidade por causa da arritmia . As fibrilações . . . Meu Deus !
Hoj e em dia toda a gente fala como se fosse um médico.
Andámos pela praia para evitar o fedor das bancas de
galinha e de lagosta na rua principal. No Le Forgeron, o pa­
tron, deitado cá fora, fingiu estar a ver o mar e não me retri­
buiu o cumprimento.
- Cinco mil milhas da França, é quanto basta para ele se
emancipar da politesse - disse eu.
- Nós deixámos de comer ali . . .
- Machts nicht. É u m porco a quem ensinaram manei-
ras, mas entraram por um ouvido e saíram por outro . Há
gente horrível em toda a parte. Não podemos fazer uma blu­
sa de seda com o rabo de uma porca .
Eu não me apercebia o quão doente estava . Tudo o que
sabia é que estava permanentemente irritável e um pouco fo­
ra de mim - um pouco perturbado. Tinha consciência de
que me andava a repetir e de que Rosamund estava nervosa.
Ela estava a perguntar-se o que fazer. Provavelmente, culpa­
va-se de me ter trazido ali. Vale talvez a pena descrever uma
das minhas obsessões. Eu dizia com frequência a Rosamund
que um dos problemas do envelhecimento era a aceleração
do tempo. Os dias passavam por nós como « as estações do
metro passavam pelo comboio expresso » . Costumava men­
cionar A Morte de Ivan Ilich para ilustrar isto a Rosamund.
Os dias da infância são muito compridos, mas na velhice eles
voam « mais rápido do que um mergulhão » , como diz Job.
E Ivan Ilich também menciona a súbita ascensão de uma pedra
lançada ao ar. « Quando regressa à terra acelera à velocidade
de nove metros por segundo. » Nós somos controlados pelo
magnetismo gravitacional e o universo inteiro está envolvido
216 SAUL BELLOW

na sua aceleração quando desc e . Se pudéssemos simples­


mente trazer de volta os dias cheios que vivemos quando
crianças. Mas, sugiro eu, tornámo-nos demasiado familiares
com a informação da experiência. A nossa maneira de orga­
nizar a informação que cai sobre _nós ao estilo gestalt - isto
é, em formas cada vez mais abstratas - acelera as experiên­
cias até um perigoso corrupio, como numa comédia com
imagens demasiado rápidas. A nossa necessidade de excreção
rápida elimina os pormenores que enfeitiçam, prendem ou
retardam as crianças. A arte é um refúgio desta aceleração
caótica. O metro na poesia, o tempo na música, a forma e a
cor na pintura. Mas nós sentimos que estamos a acelerar em
direção à terra, quase a chocar com as nossas sepulturas.
- Se isto fossem só palavras - disse eu a Rosamund. -
Mas sinto-o todos os dias. O pensamento impotente devora
ele próprio o que nos resta da vida . . .
Pobre Rosamund, e l a tinha de ouvir tais coisas noite
após noite, ao j antar - e estas férias nas Caraíbas que de­
viam ter sido umas férias românticas - algo como uma lua
de mel extra .
- Discutiste isso com Ravelstein ? - disse ela.
- Bem . . . Sim.
- O que te disse ele ?
- Ele disse que Ivan Ilich tinha feito um marriage de
convenance, e que, se ele e a mulher tivessem sentido amor
um pelo outro, as coisas teriam parecido diferentes.
- Os pobres odiavam-se - anuiu Rosamun d . - Ler
aquela história é como atravessar uma montanha de vidros
partidos. Um inferno.
Ela era muito inteligente, Rosamund. Nós podíamos não
só falar um com o outro, mas também contar que seríamos
compreendidos.
RAVELSTEIN 2 17

Ocupávamo-nos agora dos volumes que o nosso amigo


Durkin nos tinha pedido para ver, procurando j untos as pá­
ginas que nos pedira para copiar. Era uma tarefa fácil, afi­
nal, e Rosamund fez a maior parte do trabalho. Não havia
máquinas de fotocópias para volumes deste tamanho. Eu lia
alto os extratos e Rosamund passava-os no seu computador
portátil . No início eu tinha muito pouco interesse por este
material, mas rapidamente fiquei absorvido. Não o lado legal,
mas a queixa, relativa a uma questão de direitos de autor, do
cliente de Durkin. O autor do diário no qual um livro era ba­
seado era um médico americano que vivera durante anos nas
florestas tropicais da Nova Guiné com uma bolsa do Instituto
Nacional de Qualquer Coisa, e falava o dialeto local. Que ele
soubesse escrever tornava o seu relatório bastante eficaz - su­
permemorável, por vezes. Descrevia uma ravina coberta de
grandes flores como « uma cascata carmim de orquídeas » .
Havia muitas passagens quase púrpura, mas sentíamos que ele
estava a responder ao púrpura da natureza. Ele tinha um obje­
tivo científico firme e o artigo todo era importante - uma
questão humana. Começava por descrever a carência de pro­
teína na dieta das tribos que estudara. Dizia que, nas guerras
primitivas, os nativos não se podiam dar ao luxo de desperdi­
çar os corpos dos inimigos.
Este tipo de especulação científica não era o meu principal
interesse. Já por várias vezes mencionei que os pormenores ba­
nais quotidianos eram a minha especialidade. Ravelstein tam­
bém tinha por várias vezes apontado isto, não os noumena,
ou « as coisas em si mesmas » - deixei todo esse tipo de ques­
tões para os Kants do mund o . Corpos negros decapitados
numa selva onde orquídeas carmim se estendiam por cente­
nas de metros seriam decerto fenómenos, não ? Os homens
eram rapidamente mortos e decapitados. As ca beças eram
postas de lado . O investigador que registou isto tudo disse
218 SAUL BELLOW

que elas eram uma moeda usada na obtenção de uma espo­


sa. Era por isso que os caçadores de cabeças caçavam cabe­
ças. Mas este investigador americano tinha sido atraído para
a emboscada à beira do riacho, não pelos guerreiros envoltos
em combate mas pelo cheiro da carne a assar. « Tal qual o
cheiro vindo da cozinha na nossa terra - uma perna inteira
no forno. Ou um peru do Dia de Ação de Graças. Igualmen­
te apetitoso . A carne humana, também ela, podia estimular
as nossas glândulas salivares . . . Os guerreiros ofereceram-me
um pedaço do seu churrasco humano . As vítimas estavam
deitadas de barriga para baixo. O chão estava impregnado
de sangue. Os vencedores acharam a minha expressão facial
cómica até mais não. Disseram: "É carne, apenas carne, co­
mo outra qualquer. " » E, de facto, o escritor foi mais longe
do que era necessário na descrição da apetitosa fragrância .
Os caçadores disseram que, se tivessem sido eles os embos­
cados, os outros tê-los-iam cozinhado e comido. Para nós, is­
to teria sido uma racionalização. Para eles, era um facto da
vida. As selvas não eram abundantes de caça . Os caçadores
estavam frequentemente exaustos e a necessitar criticamente
de uma refeição. O americano especula então sobre Lenine­
grado nos dias do cerco alemão, e fala também dos soldados
j aponeses isolados nas selvas filipinas, comendo os seus pró­
prios mortos, e menciona ainda os atletas sul-americanos cu­
jo avião caiu nos Andes. E, decerto, os nossos niilistas, que
nos dizem que tudo é permitido, concordariam que o caniba­
lismo é perfeitamente lógico. «Mas o que me criou dificulda­
des » , escreve o investigador americano, « foi o odor saboroso
da coxa humana a assar, cortada do corpo mas ainda a san­
grar neste paraíso florido. Isto é que foi para mim difícil.
Não as cabeças que os caçadores levavam quando iam fazer
a corte, segurando-as pelos cabelos suj os. »
Rosamund, ao ver que eu agora estava mesmo doente -
embora eu o negasse - andou quilómetros por entre o fumo
RAVELSTEIN 2 I9

e o fogo das grelhas à procura de um peru de Ação de Gra­


ças. Não encontrou nenhum. Nas pequenas galinholas locais
parecia crescer cabelo, não penas. No fundo de um congela­
dor n o mercado, encontrou embalagens de a s a s e pernas
congeladas. Ela disse que teriam muito melhor aspeto quan­
do descongelassem. Nesta ilha de inhames e cocos não havia
verduras para cozinhar. Ainda assim, após algumas horas de
esforço, ela conseguiu fazer uma canj a de galinha. Por grati­
dão, tentei fazer uma piada em relação à minha dificuldade
em a engolir - lembrando-me de uma mãe imigrante da mi­
nha infância que gritava: «Ü meu Joey não pode comer um
cone de gelado. Desvia a cabeça. Se ele nem um gelado con­
segue lamber, é porque está mesmo a morrer! »
Talvez porque eu sentia os trópicos como uma ameaça
de morte, o meu instinto era tentar encontrar o ponto de vis­
ta cómico em qualquer questão a ser considerada. Por algu­
ma razão, estava sempre a pensar que o solo era aqui mais
poroso. Não era tão sólido como no Norte. Devia ser difícil
enterrar alguém neste solo podre e coralício. Eu não ia pegar
neste tópico louco com Rosamund. Rosamund estava a cul­
pa bilizar-se por me ter impingido estas férias deliciosas -
mas eu sabia que podia confiar nela para fazer a coisa certa.
Estava a sentir-me muito estranho, mas dizia a mim próprio
que era um desarranj o que eu trouxera do Norte - uma es­
pécie de mal-estar ou deslocação - algo como as misérias
metafísicas. Anos atrás, quando dera comigo em Porto Rico
durante algum tempo, tinha sentido o mesmo tipo de des­
conforto naquele ambiente tropical - os odores das águas
paradas e de matérias marinhas em decomposição a virem
das lagoas - os estranhos maus cheiros da vida vegetal da
selva e da matéria animal a apodrecer. O mangusto era tão
comum em Porto Rico como noutros lados os cães vadios .
Nunca pensamos que animais tão grandes possam viver ao
longo das estradas e nas ruelas das vilas.
220 SAUL BELLOW

À noite havia reminiscências de música tribal vindas da


cidade. Os galos cortavam-nos o sono . Mas eu não andava
a dormir muito, e apenas conseguia comer flocos de aveia.
Queixei-me da água da torneira e Rosamund, agora mesmo
muito preocupada, ia com frequência à loj a comprar pesadas
garrafas de água.
Eu estava obviamente doente, mas não conseguia saber
o que era. Sentia que estava a ter pensamentos anormais, e ca­

da vez mais se foi tornando evidente que me estava a preo­


cupar com a questão da evolução. É claro que acreditava na
evolução - quem se poderia recusar a admitir os milhares
de provas? O que não era óbvio era que ela tivesse aconteci­
do através de mudanças ao acaso, como tantos verdadeiros
crentes científicos estavam convencido s . « Qualquer coisa
pode acontecer, desde que se lhe dê tempo suficiente, e mi­
lhares de milhões de anos dão tempo para todos os erros
e equívocos . » Watson, o geneticista, tinha formulado a lei
em relação a isto. Mas como eu disse a Rosamund, ainda ar­
gumentando com Watson, se tomássemos em conta os subtis
recursos do corpo, milhares deles, demasiado subtis para se­
rem acidentais, Watson estava a falar de brutal carpintaria
- uma oficina de aprendizagem ou de trabalhos manuais,
não de um trabalho aprimorado e preciso.
Em retrospetiva, tenho pena - lamento por Rosamund,
que agora via como eu estava doente . Ela tentou preparar
remédios na pequena cozinha . Cozinhava refeições que eu
normalmente teria comido com prazer. Mas a carne do mer­
cado era horrível. Quando fazia sopas, eu não conseguia en­
golir nem uma colher. A família francesa por baixo de nós
continuava a cozinhar pratos de merda cuj o pivete dava co­
migo em louco.
- Como é possível que gente decente, agradável, civil,
cozinhe, e coma ! , uma porcaria com um tal cheiro !
RAVELSTEIN 221

- Seria a borrecido s e e u lhes pedisse para fecharem a s


j anelas - dizia Rosamund. - Mas não achas que devias ver
um médico ? Há um médico francês não longe daqui. Vimos
a sua tabuleta dezenas de vezes.
Estávamos na varanda bebendo uma taça de vinho antes
do j antar que eu seria incapaz de digerir. Eu comia as azeito­
nas recheadas que Rosamund me dava. Gosto delas recheadas
com anchovas, à espanhola. Aqui havia apenas as de pimen­
tos. Não era possível estudar um entardecer das Caraíbas sem
pensar em Deus, estava eu a descobrir. Nem pensar em Deus
sem trazer à baila os nossos mortos. Então, renovávamos a li­
gação com os nossos mortos e tentávamos chegar a uma esti­
mativa o mais honesta que pudéssemos suportar - revendo
uma vida de atividades, afetos, laços. E eu não me saía muito
bem nisto . E como devia a Rosamund fazer todo o possível
para ir ao fundo científico das coisas, fui no dia seguinte ver
o doutor. Os americanos não confiam muito na medicina es­
trangeira. Estamos inclinados a pensar que um médico francês
dirá que temos uma crise de foie e devemos cortar na nossa
dose de vinho tinto. O médico nada disse sobre vinho tinto.
Disse-me, contudo, que eu tinha dengue. Bem, isso não era as­
sim tão grave. O dengue é uma doença tropical transmitida
pelos mosquitos; tratamo-lo com quinino. E assim adicionei
quinino local ao Q uinaglu te que o médico americano -
Schley, o mesmo médico que tinha ralhado com Ravelstein
por fumar minutos depois de sair dos cuidados intensivos -
tinha prescrito para evitar que o meu coração me levasse com
ele desta para melhor.
Rosamund foi mais uma vez à farmácia - uma ida e volta
de cinco quilómetros sem proteção do sol. Ela parecia meio
aliviada pelo diagnóstico do médico francês. Por muito sério
que o dengue fosse, era tratável.
O s vizinhos, cuj os odores culinários davam comigo em
doido, ofereceram-se para aj udar. Disseram que não tinham
222 SAUL BELLOW

qualquer problema em levar-me ao hospital na cidade de


M., que fic�va a quarenta quilómetros. A estrada era agradá­
vel, mas recheada, como eu bem sabia, de velhos veículos
agrícolas e gtfaguas ( autocarros) .
O médico era suave, « pouco alarmista » , como s e costu­
ma dizer, nada inclinado a fazer diagnósticos melodramá­
ticos. D ecidi por isso aceitar o meu dengue sem qualquer
protesto e beber a mistura de quinino que ele prescreveu .
Rosamund e e u lemos António e Cleópatra j untos, relembran­
do o velho dito de Ravelstein de que as paixões não podiam
ser representadas sem grande polític a . Rosamund chorou
quando António disse: « Estou a morrer, Egito, estou a mor­
rer » , e quando Cleópatra levou a áspide ao peito. Depois fo­
mos para a cama dormir, mas não por muito tempo.
Desmaiei sobre os azulejos frios da casa de banho. Estava
escuro e tinha saído a cambalear do quarto quando tombei.
Rosamund não me conseguia levantar ou arrastar-me para
a cama . Desceu as escadas a acordar a senhoria, que imedia­
tamente chamou uma ambulância. Quando me disseram que
a ambulância vinha a caminho, eu disse que nunca aceitaria
ir para o hospita l . Tinha visto suficientes lugares desse s .
A medicina colonial, especialmente n o s trópicos, era uma
lotaria.
Rosamund disse:
- Tens de ir·.
Mas, quando viu o quão obstinado eu estava, desceu de
novo a chamar o médico ao telefone da senhoria. Ele vivia
a cinco minutos dali. Muito decente quanto ao facto de ter
sido acord a d o , apontou uma l a nterna à minha garganta
e aos meus olhos. Dois enfermeiros gordos ocupavam agora
a entrada com uma maca enrolada. Estes dois negros em fa­
to-macaco já tinham começado a abrir a maca quando eu os
detive, exclamando:
RAVELSTEIN 223

- E u não vou a lado nenhum.


Rosamund pediu a opinião ao médico e ele disse:
- Bem, não é absolutamente nécessaire, se ele se opõe.
Mandou a ambulância embora. Para os enfermeiros não
fez grande diferença, e s aíram em silêncio . Foi o motor da
ambulância que rangeu de irritação.
De algum modo conseguimos passar a noite e, à luz do
dia, sem qualquer menção de pequeno-almoço, sentei-me lá
fora a olhar para os corais negros - a atmosfera e a água
fazendo o que sempre fazem. Uma das atrações da tempora­
da eram as nuvens de borboletas pálidas, uma variedade
amarela. Não eram grandes nem eram belas, ziguezagueando
até ao mar e de regresso à vegetação.
Rosamund estava em baixo, usando o telefone da senho­
ria, que nunca antes tinha estado disponível para connosco.
A senhoria não recebia mensagens para nós. O s inquilinos
não estavam autorizados a fazer telefonemas. Mas agora eu
estava doente, e ela não queria que eu batesse a bota na sua
propriedade. Pareceu-me que isto devia também ser evidente
para Rosamund e, estranhamente, eu não me importava
muito com o que quer que acontecesse. O sol ainda não ti­
nha nascido e havia apenas luz suficiente para distinguir
o fluido do sólido - um mar - uma espécie de oco flácido,
e um correspondente vazio interior. Apenas Rosamund, nor­
malmente flexível, feminina, deferente e gentil, revelava ago­
ra ( não havia dúvidas sobre isso) uma dureza sub-reptícia e a
força de vontade que mostrava quão bem preparada estava
para lidar com o mau carácter da senhoria e a frieza burocrá­
tica dos funcionários da companhia aérea. E quando subiu
as escadas disse, sorrindo ligeiramente:
- Regressamos de manhã cedo. Há montes de lugares
vagos nos voos de San Juan porque é Dia de Ação de Gra­
ças. Os voos para San Juan é que eram o problema. Mas eu
2 24 SAUL BELLOW

disse que era uma emergência médica. Eles disseram que te­
rão uma cadeira de rodas à espera.
Uma cadeira de rodas! Eu nunca adivinharia que estava
assim tão mal. Afinal, a inexperiente Rosamund via os factos
mais claramente do que qualquer outra pesso a . Eu nunca
antecipara crises ou emergências.
Conseguiríamos arranj ar um táxi assim tão cedo ? Sim.
Por uma razão, porque a severa, elegante, expedita senhoria
de meia-idade afro-caribenha tinha tomado nota na noite
anterior da ambulância e do médico. Provavelmente, trocara
uma palavra com o consciencioso, não inteiramente honesto
j ovem francês. Mas ela não precisa do aviso dele: um olhar
nas escadas para o meu rosto engelhado, azarado, fúnebre,
teria sido mais do que suficiente.
Rosamund, agora mesmo assustada, estava aliviada por
partirmos. O seu rosto pálido-escuro estava agora já a pen­
sar em Boston, com os seus milhares de médicos. Ela parecia
ter percebido a mensagem: ficarmos na ilha era morte certa.
Perguntou-me:
- Que livros e papéis podemos deitar fora ?
Esta era fácil demais.
- Vamos deixar os volumes mais pesados. E sobretudo
a Poesia Completa de Browning.
Eu tinha-me virado contra Browning. Classificava-o ago­
ra na mesma categoria que a cozinha dos vizinhos franceses.
O que eu não a bandonaria era a revista do meu amigo
D urkin - a história dos cani b a i s . Estava obcecado com
a carne humana grelhada, os canibais e as cabeças decepa­
das, com os olhos postos na erva manchada de sangue nas
ravinas cobertas de orquídeas. A carne humana a ser devora­
da patinhou - admito-o - pela minha consciência contami­
nada adentro. Era a doença que me tornava particularmente
suscetível. Eu não teria deixado aquelas páginas para trás
RAVELSTEIN 225

por nada. Podia usar a doença como cobertura. Mas elas de­
sapareceram durante a viagem.
O alívio registado pela nossa dura e atraente senhoria fa­
lava por si. Quão satisfeita, quão orgulhosa ela estava de se
ver livre de mim. Deixá-lo ir e morrer noutro lado qualquer
- num táxi ou num avião. Levantou-se antes do nascer do
sol para se assegurar de que partíamos . Os vizinhos france­
ses também apareceram. Deviam ter sido acordados pela
ambulância na noite anterior com as sirenes e as luzes girató­
rias. Com doçura e comiseração, desej aram-me as melhoras
e disseram adeus. Gente decente, afinal de contas. O adeus da
senhoria significava: « Pirem-se daqui . » No lugar dela eu era
capaz de ter concordado. À luz das cinco da manhã, acenou­
-nos adeus - enfim livre !
- Que pesadelo - disse Rosamund, sobre as nossas fé-
rias frustradas. E, do táxi a toda a velocidade, disse adeus
à ilha com uma espécie de alívio selvagem. Pelo menos ia fi­
car livre do motociclista mascarado que uma ou duas vezes
por semana tomava conta da rua principal. Vestido de cabe­
dal até ao pescoço e com um capacete à Buck Rogers. Só os
dentes, cerrados, estavam à mostra . A polícia desaparecia
quando fazia os seus raides. As pessoas refugiavam-se quan­
do ele voava na sua direção. Ele rugia para a frente e para
trás em tempestades de poeira, e decerto que mataria os pe­
destres.
- O maluco local - chamava-lhe Rosamund. - Agora
já não terei de me preocupar com ele, nas minhas idas e vin­
das à farmácia.
No enorme barracão verde de metal que era o aeródro­
mo, cobrindo milhares de metros quadrados, Rosamund aju­
dou-me, o homem doente, a sentar-me na cadeira de rodas.
Eu ainda estava capaz de andar, disse para Rosamund, e fiz­
-lhe uma demonstração subindo as escadas do avião. Depois
226 SAUL BELLOW

aterrámos em San Juan, onde caí, grato, na segunda cadeira


de rodas à minha espera. A maior parte da bagagem estava
empilhada à volta dos meus pés e sobre os meus j oelho s .
Mas depois tive d e mostrar o passaporte, e tive d e m e levan­
tar. O pior de tudo foi a alfândega. Rosamund teve de tirar
as enormes malas e sacos do carrinho e pô-las na mesa de ins­
peção - abri-las, responder às perguntas, depois fechá-las
de novo e carregá-las para serem entregues no balcão do voo
para os Estados Unidos. Ela não tinha força masculina, a mus­
culatura necessária. E aqui descobri de uma vez por todas que
eu já não era o passageiro capaz que tinha sido. Rosamund
disse aos inspetores que eu não estava bem, mas eles não lhe
ligaram particular importância.
Era Dia de Ação de Graças e o avião estava mais do que
meio vazio. A hospedeira disse que eu poderia querer deitar­
-me e levou-nos para a retaguarda, onde levantou os braços
numa fila de lugares. Pedi água e depois mais água . Nunca
tivera tanta sede. O comissário de bordo, que tivera dengue
no Pacífico Sul durante a guerra, tinha muitas coisas sensa­
tas a dizer. Ofereceu-se para me dar oxigénio. Rosamund pe­
diu-me para aceitar, mas eu apenas pedi mais água.
Ela, entretanto, estava a tentar apanhar os meus médicos
de Boston ao telefone. Havia dois destes - o «primário » e um
cardiologista . O cardiologista, no campo de golfe, não podia
ser contactado; o « primário» tinha ido ao New Hampshire
para um j antar em família.
Lembro-me de, durante o voo, ter começado a falar do
j ovem amigo de Grielescu que fora assassinado num com­
partimento da casa de banho dos homens.
- Já me falaste dele.
- Quando ?
- Não há muito tempo.
- Não consigo deixar de pensar nele. Não o voltarei a
mencionar. Mas acho que o relacionei com Ravelstein, de
RAVELSTEIN 227

algum modo. É preciso ver que eu não gostava de Grielescu


mas achava-o um homem engraçado, e para Ravelstein isto
era um logro, e também era característica minha. Dizer que
ele era engraçado era dar-lhe uma aberta . Mas ele era sus­
peito, provável comparsa de assassinos. Eu não consigo per­
ceber gente deste tipo, que pendura outros em ganchos da
carne.
Rosamund esforçava-se por se mostrar atenta. Encoraj a­
va-me a falar. Estava aterrorizada.
- Ele morreu no meio do ato, enquanto evacuava. Dis­
pararam à queima-roupa. Ravelstein acreditava que era um
dos meus erros típicos . . .
- Ele achava que Grielescu estava ligado a assassinos ?
- Exato. Ele disse que eu devia saber isso.
- Mas este crime teve lugar depois da morte de Ravel-
stein.
- Ele tinha razão, contudo. Este famoso erudito, Grie­
lescu, dizia, era afinal de contas um nazi.
Tentando afastar-me do círculo vicioso de Grielescu, Ro-
samund perguntou:
- O que tinham vocês em comum ?
- Ele costumava citar-me coisas que eu tinha dito.
Ele tinha ido buscar uma reflexão que eu fizera sobre
o desencanto modern o . Sob o lixo das ideias moderna s ,
o mundo ainda podia ser redescoberto. E ele formulava isto
dizendo que a grelha cinzenta de abstração (cobrindo o mun­
do a fim de o simplificar e o explicar de um modo que ser­
visse os nossos obj etivos culturais ) se tornara o mundo aos
nossos olhos. Necessitávamos de visões alternativas, uma di­
versidade de pontos de vista - e ele queria dizer pontos de
vista não deformados por i d e i a s . Ele via isto como uma
questão de palavras: « valores » , « estilos de vida » , « relativis­
mo » . Eu concordava, até certo ponto. Precisávamos de saber
228 SAUL BELLOW

- a nossa profunda necessidade humana, todavia, não pode


ser satisfeita nestes termos. Não podemos sair para fora do
poço da « cultura » e das ideias que a expressam. As palavras
adequadas já seriam uma grande aj uda. Mas, mais ainda,
um dom para ler a realidade - o impulso de encostarmos
a ela o nosso rosto disponível e de ficarmos assim de mãos
coladas.
- Mas depois, do lado esquerdo do campo, ou será an­
tes do lado direito ? , chega Ravelstein a urgir toda a gente
a ler Céline. Bem, com os diabos . Céline era extremamente
dotado, mas era também um lunático, e antes da guerra pu­
blicara as suas Bagatelles pour un massacre. Neste panfleto
Céline atacava e denunciava os j udeus que tinham ocupado
e violado a França. Para muitos, em França, os j udeus eram
o inimigo, não a Alemanha. Hitler - isto foi em 1 9 3 7 - li­
bertaria a França da ocupação j udia. Os ingleses, que eram
aliados dos j udeus, conspiravam com estes para destruir la
France. Tinha-se j á tornado um prostíbulo j udeu. Un lupa­
nar ]uif - Bordel de Dieu. O caso Dreyfus era de novo tra­
zido à baila. As autoridades recebiam milhões de cartas de
antissemita s, como no tempo de Dreyfu s . Eu concordava
com Ravelstein em que Céline nunca pretenderia não ter to­
mado parte na Solução Final de Hitler. Nem trocaria e u
o defesa Grielescu pelo lançador Céline . Quando se traduz
para a linguagem do beisebol, podemos ver o quão insano is­
to era.
Rosamund estava a fazer o que podia para me fazer sentir
bem. Eu nunca tinha estado tão doente. E nunca me ocorreu
que estivesse doente. Indisposto, sim; era óbvio que estava um
pouco alterado. Mas tinha vivido o suficiente para poder di­
zer que não estava a morrer, mas a planar. Uma sociedade se­
creta reacionária podia determinar que tinha chegado a altura
de morrermos - uma camarilha dos nossos compatriotas
RAVELSTEIN 2 29

votava que devíamos ser assassinados . E, assim, um proj eto


era feito a partir de um programa . Isto podia ser descrito
como político, mas, de facto, era a vontade d o mal . Um
erudito mundano e errático, com hábitos regulares, senta­
ra-se para atender a uma necessidade natural - diária -
e fora morto a tiro por um assassino escondido no cubículo
do lado.
Rosamund achava que o melhor era irmos logo diretos
do aeroporto para o hospital.
Mas eu insisti em ir a casa . Uma vez na cama eu ficaria
bem. É claro que não conseguia ver o estado em que estava.
Eu não podia já ter noção de quão alta estava a febre - esfor­
çando-me por mostrar como estava bem. Rosamund deu-se
por vencida e empilhou os nossos sacos e malas no porta-ba­
gagens do táxi. No fim da viagem, estava obviamente fora de
questão levar a bagagem para cima depois de termos pago
a corrida, e o motorista, adivinhando complicações, recebeu
o dinheiro e pisgou-se. As nossas complicações eram óbvias
para ele, não para mim. Arrastei-me até lá acima e enfiei-me
na cama.
- Estou contente por termos deixado aquela ilha horrí­
vel - disse eu a Rosamund. - Ainda estamos no mesmo
dia ? É, quê, meia-noite ? Descolámos de madrugada. « A mão
do tempo está no pino do meio-dia » , como disse o Mercúcio
de Shakespeare. Uma das frases favoritas de Ravelstein.
Sob os cobertores, sentindo-me bem e a salvo, disse a Ro­
samund que tudo o que eu precisava era de uma boa noite
de sono. Mas estávamos no princípio da tarde - não na ho­
ra de deitar. Rosamund não conseguia concordar que o sono
fosse a resposta. Por qualquer motivo invisível para mim, ela
conseguia reconhecer que eu estava :p.uma situação desespe­
rada.
230 SAUL BE LLOW

- Terias morrido durante o sono - disse-me mais tarde,


e continuou a tentar encontrar os médicos. - O Dia de Ação
de Graças é um dia de festa. Dia livre, dia de golfe.
Rosamund mantinha-se em boa forma. Meditava, ia a au­
las de ioga. Conseguia tocar na testa com o pé. Mas tinha-se
esgotado ao trazer a bagagem de Saint Martin. Sabe-se lá
como, conseguira arrastá-la pelas escadas até ao nosso apar­
tamento no terceiro andar. Ninguém imaginaria que ela ti­
nha músculos para tal.
Era mais fácil subir as malas, disse, do que obter aj uda
do hospital. Ninguém atendia as suas chamadas. Nos feria­
dos, quando os médicos estão de folga, os residentes deve­
riam encobrir-lhes a ausência.
- Bom, não é tão urgente como j ulgas - disse eu. -
Podes falar com os médicos amanhã.
Mas para Rosamund era claro que eu não sabia o que es­
tava a dizer. Se tivesse ficado em Saint Martin teria morrido
antes da manhã. Se tivesse perdido a ligação com o voo de
Porto Rico, teria morrido em San Juan. E se tivesse levado
a minha avante quanto à boa noite de sono na minha cama,
decerto que eu não passaria de um moribundo. Rosamund
disse que, sem oxigénio, eu não teria sobrevivido à noite.
Quando o sol se pôs, os corvos soavam as suas buzinas.
Aqui tinham-se tornado pássaros urbanos. Um poeta francês
qualquer tinha-lhes chamado les corbeaux delicieux - mas
qual ? Duvido muito de que mesmo Ravelstein soube s s e .
O m e u espírito j á n ã o conseguia s e r coerente . Mas estava
certo de que as minhas mantas e almofadas me salvariam.
Mas Rosamund tinha telefonado ao pai no norte do esta­
do de Nova Iorque.
- Pensa em qual é a pessoa mais influente que conheces
- aconselhou ele. - E pede-lhe aj uda.
RAVELSTEIN 23 1

No meu livro de endereços, Rosamund encontrou por


sorte o telefone de casa do Dr. Starling, o homem que nos
tinha trazido para Boston. Quando ela lhe contou o que es­
tava a acontecer, ele disse:
- Dentro de dez minutos telefonar-lhe-á alguém da par­
te do Dr. Andras, o diretor do hospital. Mantenha a linha
livre.
Pouco depois, o Dr. Andras, um homem bastante idoso,
estava a perguntar a Rosamund quais eram os meus sinto­
mas; em seguida disse que ia enviar uma ambulância para
me buscar. Rosamund disse-lhe que nas Caraíbas eu tinha
recusado ir na ambulância. O velho diretor perguntou se po­
dia falar comigo acerca disto. Bem, sim, eu disse-lhe que esta­
va muito confortável na minha cama, mas que para agradar
à minha mulher admitia ser visto pelos médicos. Mas não se­
ria levado numa maca. Negociando dísparatadamente, acei­
tei ir como passageiro.
- Combinado ! - disse o Dr. Andras . - Precisamos de
si agora mesmo.
E assim, sentado ao lado do motorista, fui levado na am­
bulância com as luzes giratórias e o choro convulso da sirene
até à sala de urgências. Ali chegado, fui levado numa maca
para um canto, onde fui examinado por vários médic o s .
Não tenho uma visão coerente d o que s e seguiu. Lembro-me
sobretudo de ter sido imediatamente posto a oxigénio. Isto
foi seguido por um longo intervalo. Alguns disseram que eu
devia ir imediatamente para a ala de cuidados intensivos na
cardiologia. Outros pensavam que o problema era respirató­
rio. A enfermeira pôs-me uma máscara de oxigénio no rosto,
que eu passava o tempo a tirar. Rosamund estava ali para
tomar conta de mim.
- Tens de ter o oxigénio, Chick - disse. - E não quero
que eles te atem as mãos.
23 2 SAUL BELLOW

- Mas eu estou a sufocar - queixei-me.


Tenho a minha própria versão do que estava a acontecer.
Havia um médico principal que não estava de bata branca
mas sim em mangas de camisa . Conversador e técnico, tinha
um rosto corado e, casualmente, descreveu o meu esta d o .
E m tais circunstâncias os homens e as mulheres revelam-se,
surgem, materializam-se. Este médico falador parecia estar
a falar de pormenores técnicos que não tinham nada que ver
com o meu estado. Mas eu confundi completamente o que se
passou. Fui enviado para os cuidados intensivos e ali, nessa
mesma noite, tive um ataque d e coração . Mas não tenho
memória disto. Nem da unidade de cuidados intensivos pul­
monares para a qual fui deslocado. Rosamund diz-me que
ambos os pulmões estavam, para usar o termo clínico, con­
sumidos por uma pneumonia. Uma máquina ocupava-se de
respirar por mim - tubos pela minha garganta abaixo, no
meu nanz.
Eu não sabia onde estava, nem tinha a noção de que Ro­
samund dormia ao meu lado numa cadeira de recosto. Ela
passava frequentemente as noites acampando entre os fami­
liares nos cuidados intensivos, durante as crises de sobrinhos
ou irmãs. Durante os primeiros dez dias, Rosamund nunca
foi a casa. Comia os restos de comida que encontrava nos
tabuleiros. Recusava-se a ir à cafetaria, não fosse eu morrer
enquanto ela estava a comer. Quando as enfermeiras o com­
preenderam, começaram a alimentá-la.
Tudo isto vim a saber depois. Eu decerto não tinha qual­
quer noção de estar a lutar pela vida . D urante essas sema­
nas, estava sob fortes doses de Verset. Um dos efeitos desta
droga é suspender toda a vida mental. Eu nem pensei se esta­
va vivo ou morto. Todas as aparências (o mundo externo ) se
encontravam canceladas . Os meus falecidos irmãos, ambos,
aproximaram-se, uma vez. Traziam a s suas camisas habi­
tuais, as gravatas, os sapatos, os fatos que os seus alfaiates
RAVELSTEIN 23 3

tinham feito para eles. O meu pai estava mais ao fundo. Não
se aproximou. Os meus irmãos indicaram-me que estavam
satis feitos onde estavam . Não chamei o meu p a i . E le c o ­
nhecia as regras . Não vi r a z ã o p a r a l h e s fazer perguntas .
Sentindo-me a mim próprio j á meio lá, não tinha nenhuma
curiosidade urgente . Queria informação, mas as respostas
podiam esperar. Depois os meus irmãos retiraram-se, ou fo­
ram retirados. Eu não me via como um moribundo. A minha
c a beça estava cheia de ilusões, alucinações, falsas causas
e efeitos. Verset é considerado extremamente nocivo para
a memória. Mas a minha memória sempre foi tenaz. Consigo
lembrar-me de ser tocado várias vezes. Alguma enfermeira
ou enfermeiro que sabia o que estava a fazer bateu-me nas
costas e ordenou-me que tossisse.
Eu visitara Ravelstein e outros amigos e familiares nas
unidades de cuidados intensivos de vários hospitais e, com
a estupidez natural de um homem saudável, tinha por vezes
considerado que algum dia poderia ser eu próprio a pessoa
amarrada à cama, ligada por tubos às máquinas de manu­
tenção dos sinais vitais.
Mas agora era eu o moribundo . Os meus pulmões ti­
nham-me falhado. Uma máquina respirava por mim. Incons­
ciente, eu não fazia mais ideia da morte do que fazem os
próprios mortos. Mas a minha cabeça (parto do princípio de
que era a cabeça) estava repleta de visões, ilusões, alucina­
ções. Isto não eram sonhos mas pesadelos. Os pesadelos têm
uma válvula de escape . . .
Acima d e tudo recordo que andava a vaguear, e passando
um bocado mal com isso. Numa das minhas visões estou nu­
ma rua da cidade à procura do sítio onde devo passar a noi­
te . Encontro-o por fim . Entro no que foi há muito tempo,
nos anos vinte, uma grande sala de cinema . Um palácio .
234 SAUL BELLOW

A bilheteira está fechada. Mas, imediatamente por trás, so­


bre um chão d e azulej o s que s e soergue, há uma fil a d e
camas desdo bráveis . N ã o está a passar nenhum filme . A s
centenas de camas estão vazias . Mas dou-me conta d e que
o ar aqui é especialmente tratado e que será bom para os
nossos pulmões respirá-lo. Ganhamos pontos médicos para
ficar bons, se passarmos aqui a noite. E, assim, j unto-me
a meia dúzia de outros e deito-me. Em princípio, a minha
mulher virá buscar-me pela manhã . O carro está num par­
que de estacionamento ali perto. Ninguém está com sono.
Nem ninguém está com vontade de falar. Alguns levantam­
-se. Vão até ao átrio ou sentam-se na borda de uma cama .
O chão não foi limpo em cinquenta anos, ou mais . Não há
aquecimento . Dormimos completamente vestidos, com o so­
bretudo abotoado. Chapéus, bonés, sapatos, nada é removido.
Mesmo antes de ter alta dos cuidados intensivos, saí da
cama j ulgando que estava no New Hampshire e que uma das
minhas netas estava a esquiar à volta da casa. Eu estava zan­
gado com os pais dela, por não a terem trazido a ver o avô.
Era uma manhã de inverno, ou pelo menos assim eu pensa­
va. Na verdade, devia ter sido no meio da noite, mas o sol
parecia estar a brilhar sobre a neve. Saltei por cima da grade
da cama sem reparar que estava ligado por tubos e agulhas
a frascos pendurados contendo todo o tipo de misturas intra­
venosas. Olhei, como se fossem de outra pessoa, para os
meus pés nus sobre o chão ensolarado. Pareciam sem inten­
ção de suportar o meu peso, mas forcei-os a obedecer à mi­
nha vontade. Então caí, aterrando de costas. Primeiro não
senti dor. O que me vexou foi não conseguir sair da cama
e ir até à j anela. Enquanto eu j azia impotente, apareceu um
enfermeiro e disse:
- Eu sabia que você ia armar sarilhos.
RAVELSTEIN 23 5

Um dos médicos disse que as minhas costas estavam tão


infl a m a d a s que pareciam um incêndio florestal visto d e
avião. Os médicos mandaram-me fazer uma TAC .
Parecia-me que estava num elétrico a abarrotar de pas­
sageiros e que estava a ser apertado e empurrado por trás .
Implorei que m e deixassem sair. Mas ninguém estava inte­
ressado em fazer-me a vontade.
Nessa altura eu estava com doses bastante fortes de an­
ticoagulante e a minha queda foi perigosa. Eu tinha uma
hemorragia interna. Os enfermeiros puseram-me num colete
de forças. Pedi aos meus filhos adultos para chamarem um
táxi. Disse-lhes que ficaria melhor em casa, refastelado · num
bom banho.
- Em cinco minutos eu podia estar lá - disse. - É já
a o virar d a esquina.
Com frequência parecia-me que estava exatamente por
baixo de Kenmore Square, em Boston. A estranheza destes
ambientes alucinatórios era, de certo modo, libertadora. Por
vezes pergunto-me se, à beira da morte, eu não terei estado
a entreter-me despreocupadamente, como qualquer pessoa
normal, apreciando estas ilusões absurdas - ficções que não
precisavam de ser inventadas.
Dei comigo numa vasta cave. As paredes de tij olo tinham
sido pintadas há décadas. Em alguns sítios ainda eram bran­
cas como queij o fresco. Mas o queij o tinha agora endureci­
do. O sítio estava iluminado por tubos fluorescentes - banca
após banca após banca de trapos, roupas femininas, sobretu­
do, doadas ao hospital para revenda: lingerie, meias, camiso­
las, lenços, saias. Uma infinidade de bancas. O sítio fez-me
pensar no Filene 's Basement, onde os clientes dentro em
pouco estariam a empurrar-se e a digladiar-se entre os sal­
dos. Mas ninguém estava aqui para lutar. Ao longe havia
j ovens que pareciam voluntárias a fazer obras de caridade.
SAUL BELLOW

Eu estava sentado, prisioneiro, entre centenas de poltronas de


couro. Estava fora de questão escapar deste beco sombrio.
Atrás de mim, tubos enormes atravessavam o teto e afunda­
vam-se no chão.
Eu estava dolorosamente preocupado com o colete de
forças ou pulôver que estava forçado a vestir. Este casaco
de caqui quente era constrangedor - estava a dar cabo de
mim, a esmagar-me até à morte . Eu tentava, e não conse­
guia, desapertá-lo. Pensei que se ao menos conseguisse pedir
a uma dessas voluntárias do Centro Social para me ir buscar
uma faca ou um par de tesouras ! Mas elas estavam a vários
quarteirões dali, e nunca me conseguiriam ouvir. Eu estava
longe, longe, num canto rodeado de poltronas insufladas.
Uma outra experiência memorável:
Um funcionário do hospital está em cima de uma escada
a pendurar decorações de Natal, azevinho e grinaldas nas
paredes. Este funcionário não se interessa por mim. Ele era
o que me tinha dito saber que eu ia armar sarilhos . Mas isso
não impediu que eu tomasse nota dele. Tomar nota é parte
integrante do meu trabalho. A existência é - ou era - o tra­
balho. E, assim, fiquei a olhá-lo na escada de três degraus -
os ombros descaídos e o rabo grande. Depois desceu e levou
a escada até ao pilar seguinte. Mais azevinho e grinaldas.
Um pouco mais ao lado havia um outro suj eito idoso,
pequeno, nervoso e inquieto, andando para a frente e para
trás em chinelos. Era meu vizinho. A sua cama ficava à beira
do meu quarto, mas ele não se dava conta da minha presen­
ça. O nariz era como uma espátula de plástico, tinha uma
barba rala e uma boina. Ele tinha de ser um artista. Mas pa­
recia-me que os seus traços eram completamente desprovi­
dos de interesse.
RAVELSTEIN 23 7

Após algum tempo, lembrei-me de o ter visto na televi­


são. Era um artista, e bastante respeitado. Falava enquanto
desenhava. Os seus temas estavam na moda - ambientalis­
mo, essências florais holísticas, e assim por diante. Os dese­
nhos eram vagos, sugerindo amor e responsabilidade pelos
nossos espaços naturai s . Num quadro negro, fez aparecer
primeiro uma vaga superfície marinha, e depois, com o lado
do giz, criou a ilusão de um rosto debruçado - os cabelos
ondulantes de uma mulher, como ruibarbo cozido, fragmen­
tos de natureza que sugeriam uma presença humana - algo
mítico ou, igualmente possível, uma proj eção. Talvez uma
ondina ou uma virgem do Reno. Não podíamos propria­
mente acusar este suj eito de mistificação ou s uperstiçã o .
Tudo o que podíamos acusá-lo era d e autoimportância e au­
togratificação - suffisance, em francês. Prefiro suffisance
a suficiência, tal como prefiro o inglês sufocante ao francês
suffoquant - Tout suffoquant et blême. (Verlaine ? ) Se esta­
mos a sufocar, para quê preocuparmo-nos com a palidez ?
Este Ananias, ou falso profeta ( artista ) , estava instalado
aqui - tinha um pequeno apartamento nesta ala do hospi­
tal. O s seus aposentos eram ao virar da esquina, por isso
não os conseguia ver da minha cama . Conseguia ver uma
nesga das suas prateleiras e uma alcatifa verde de parede
a parede. O enfermeiro com o azevinho de Natal era muito
deferente para o artista, que, pelo seu lado, nem reparava
em mim. Nicles! Eu não estava autorizado a deixar uma im­
pressão. Com isto quero apenas dizer que eu não cabia em
nenhuma das suas categorias.
Este TV artiste, de qualquer modo, tinha o ar de estar há
muito aqui instalado, mas em breve se me tornou evidente
que ele se ia embora nesse dia. Estavam a carregar caixas de
cartão do seu apartamento - ou ala. Os carregadores esta­
vam a embalar objetos. Os livros desapareciam das pratelei­
ras, as próprias prateleiras eram desmanteladas com uma
SAUL BELLOW

pressa tremen d a . Entrou uma carrinha e foi rapidamente


carregada, e então, num vestido comprido verde-dourado,
a velha esposa do artista entrou, hesitou, e foi aj udada a en­
trar para a parte da frente da carrinha. Tinha um chapéu de
seda. O artista da TV enfiou os chinelos nos bolsos do sobre­
tudo, pôs galochas e rastej ou atrás dela.
O funcionário estava ali para o acompanhar à saída, e
disse-me então:
- Você é a seguir. Precisamos do espaço, e as minhas or­
dens são para o tirar daqui para fora neste mesmo minuto.
Imediatamente uma equipa desmantelou as prateleiras
e reduziu tudo a pedaços. As paredes em volta foram derru­
b a d a s como cenários de teatr o . Nada ficou intacto . E n ­
tretanto, uma carrinha de mudanças entrou, e a s minhas
roupas de rua, o meu Borsalino, a máquina de barbear, os
artigos de toillette, CD, etc., foram enfiados em sacos de su­
permercado. Aj udaram-me a sentar numa cadeira de rodas
e ergueram-me para dentro de um atrelado. Lá dentro havia
um escritório - não, um gabinete de enfermaria, pequeno
mas completo, com luzes elétricas. A porta de trás foi puxa­
da para cima; as portas não foram completamente fechadas
e a carrinha partiu em direção ao subsolo, através de um tú­
nel. Continuou assim por um bocado, à máxima velocidade.
Depois parámos, o gigantesco motor ainda a trabalhar. Con­
tinuou a trabalhar.
Havia só uma �nfermeira de serviço. Ela viu que eu esta­
va agitado e ofereceu-se para me barbear. Admiti que fazer
a barba vinha a calhar. Assim, ela passou-me espuma no ros­
to e fez o trabalho, com uma Schick ou uma Gillette de dei­
tar fora. Poucas são as enfermeiras que sabem fazer a barba
a um homem . Elas põem a espuma sem primeiro amaciar
a barba, como os antigos barbeiros costumavam fazer, com
toalhas quentes. Quando não fomos ensaboados e humedeci­
dos antes, a lâmina puxa os pelos e magoa a cara.
RAVELSTEIN 239

Eu disse à enfermeira que a minha esposa, Rosamund,


chegava às quatro, e j á passava das quatro no grande relógio
circular.
- Onde j ulga que estamos ?
A enfermeira não sabia dizer. A minha suspeita era que
estávamos debaixo de Kenmore Square, em Boston, e que se
eles tivessem parado o motor poderíamos ouvir os comboios
da linha verde do metropolitano . Agora já eram seis horas,
se da manhã ou da noite, quem poderia dizer ? Estávamos
a acostar ao lado de uma passagem subterrânea de peões por
onde as pessoas - não muitas - iam ou vinham da rua.
- Você parece um guerreiro índio - disse a enfermeira.
- E perdeu também tanto peso que está com mais rugas, e a
barba cresce dentro das rugas . É difícil chegar lá. Você foi
forte, em tempos ?
- Não, mas a minha constituição mudou muitas vezes.
Tenho sempre melhor aspeto sentado do que de pé - res­
pondi, rindo, apesar de estar de coração apertado.
Ela não soube o que dizer destas observações.
E não tinha havido carrinha nenhuma. Eu tive de deixar
vago o quarto - precisavam dele urgentemente - e fui leva­
do durante a noite para outra parte do hospital.
- Onde estiveste ? - perguntei a Rosamund, quando
chegou. Estava irritado com ela. Mas ela explicou que se ti­
nha subitamente sentado na cama, completamente acordada,
e com uma sensação estranha. Telefonara aos cuidados in­
tensivos, soubera que eu tinha sido transferido, apanhara
um táxi e chegara o mais depressa possível.
- É de noite - disse eu.
- Não, é de madrugada.
- E onde estou ?
A enfermeira de serviço foi notavelmente rápida e simpá­
tica. Puxou a cortina à volta da minha cama e disse para a
minha mulher:
SAUL BELLOW

- Tire os sapatos e deite-se ao lado dele. Algumas horas


de sono é do que precisam. Ambos.

Mais uma breve visão, apenas para orientação.


Vela aparece nesta.
Portanto, a q u i e s t a m o s , o s d o i s , e m exp o s i ç ã o p a r a
o mundo j ulgar. A s s u a s mãos a bertas , elegantes, dirigem
a atenção para a minha postura insegura.
Encontramo-nos neste cenário, de pé, defronte da parede
polida do interior de um banco - um banco de investimen­
to. Nesta ocasião estávamos de novo mal. Mas eu tinha vin­
do ao banco a pedido dela . Vinha acompanhada por um
homem de vinte e tal anos com ar espanhol e muito elegante.
Estava também presente um terceiro homem, um banquei­
ro que falava em francês. Diante de nós, incrustadas nesta
magnífica parede de mármore, duas moedas. Uma eram dez
cêntimos americanos, a outra, um dólar de prata com um
diâmetro de três ou quatro metros.
Vela apresentou-me o seu companheiro espanhol. Não
foi uma grande apresentação, porque ele não se dignou cum­
primentar-me. Depois ela disse, à laia de simples explicação:
- Até agora eu nunca tinha experimentado sexo sofisti­
cado, e achei que, tendo em conta aquilo a que tu chamas
a revolução sexual, devia ter uma amostra disso. Para ficar
pelo menos a saber do que fui privada quando vivi contigo.
- É como uma enorme toca de coelhos, milhões de coe­
lhos - disse eu -, com as fêmeas a provarem os machos to­
dos.
Mas esta primeira fase do encontro foi rapidamente ul­
trapassada. O seu objetivo, evidente, era encher-me de culpa
e injetar-me com um solvente ou amaciador mental.
RAVELSTEIN

- Podes dizer-me onde estamos ? - pedi. - E por que


nos reunimos aqui em frente a estas moedas ? Elas significam
o quê ?
Nesse momento, o banqueiro avançou e disse que, dentro
de um período de anos, os dez cêntimos à direita tornar-se­
-iam no dólar com o diâmetro de quatro metros .
- Quanto tempo irá isso levar?
- Um século ou talvez um pouco mais.
- Bom, não duvido de que a aritmética estej a certa. Mas
para quem seria isto feito ?
- Para ti - disse Vela.
- Para mim ? E como pensas tu que ? . . .
- Através d a criogenia - disse ela . - Uma pessoa dei-
xa-se congelar e armazenar. Um século depois eles descon­
gelam-na e ressuscitam-na. Não te lembras de que lemos
num tabloide como Howard Hughes se tinha congelado e se­
ria descongelado e reanimado quando encontrassem uma cu­
ra para a doença que o estava a matar ? Chama-se a isto crio­
gema.
- Vamos ver o que tu queres que eu faça. Não me vou
pôr a adivinhar. O que tens em mente ? Quando contarias
congelar-me ?
- Agora. Eu iria mais tarde. Depois acordaríamos j untos
no século xxn .
O brilho cinzento e o polimento refinado das colunas de
mármore estavam calculados para persuadir as pessoas da
eterna estabilidade do dólar. Mas eram também a fachada
de uma fábrica de congelados - ou de uma cripta . Isto era
louco, se calhar. O nosso corpo estaria armazenado com os
de outros investidores por detrás da fachada de mármore .
Ficaríamos a j azer num laboratório com técnicos-sacerdotes
que se ocupariam de nós geração após geração, regulando
a temperatur a , a humidade, e mantendo relatórios s o bre
a nossa condição.
SAUL BELLOW

- Viverias de novo - disse Vel a . - Calcula os j uros


e multiplica por um milhão. Viveríamos ambos de novo.
- Companheiros na velhice ? . . .
O homem d o banco, vestindo aliás u m fato d e bom cor­
te, disse numa voz treinada:
- Por essa altura, a esperança de vida terá aumentado
para duzentos anos.
- É a única hipótese para o nosso casamento - disse
Vela.
Havia uma certa nota de graça sérvia ( si bemol, lá, si be­
mol, dó) na grande palavra «casamento » .
- Oh, por amor de Deus, Vel a ! Isto não é maneira de
abordar o tema da morte. Adiá-la por um século não serve
de nada.
Devo recordar que eu já tinha morrido e ressuscitado,
e havia uma distância curiosa no meu espírito entre o velho
modo de ver ( falso) e o novo (estranho mas libertador) .
O inglês não era a primeira língua d e Vela, e ela não po­
dia reformular nada por tanto esforço ter sido investido na
composição das formulações que avançara. Tudo o que podia
fazer era repetir o que tinha dito. Colocou de novo a questão
tal como a entendia, o que não adiantou à discussão.
- Eu não posso fazer isso - disse-lhe.
- Por que não podes fazer isso ?
- Estás a pedir-me para cometer suicídi o . O suicídio
é proibido.
- Por quem é o suicídio proibido ?
- É contra a minha religião. Os judeus não se suicidam,
a menos que percam o cerco, como aconteceu em Masada,
ou estej am em vias de ser cortados aos bocados, como nas
Cruzadas. Nessa altura, tiram a vida aos filhos e depois ma­
tam-se.
RAVELSTEIN 24 3

- A ti nunca te d á para a religião exceto quando é para


ganhar uma discussão - disse Vela.
- Vamos supor que mudas de opinião e processas o ban­
co, assim que eu estiver congelado - disse eu. - E depois
reclamas os meus bens porque eu estou morto. Eles não po­
dem provar que eu posso ser descongelado e restaurado à vida.
Ou acreditas que eles me trariam de volta só para ganharem
o processo ? O caso inteiro apresentado perante um juiz inca­
paz de ver um palmo à frente do nariz ?
Quando mencionei a possibilidade de um processo, o re­
presentante do banco ficou pálido e de certa maneira tive pe­
na dele, embora eu próprio não estivesse bem, com o meu
coração tão despedaçado.
- Tu deves-me isto - disse Vela.
O que queria ela dizer com isso ? Mas tenho por princí­
pio não discutir com gente irracional. Simplesmente abanei
a cabeça e repeti:
- Não pode ser feito, não pode, e eu não o farei.
- Não ?
- Tu não compreendes o que me estás a pedir - disse eu.
- Não?
- Estás a insinuar, pelo modo como falas, que eu não sei
o que estou a fazer. Tudo bem.
Eu nunca estivera mais fora de mim do que quando nos
apresentáramos perante o juiz para casar. Um velho camara­
da de escola que eu convidara para o casamento ficara muito
impressionado com Vela. Sussurrara ao meu ouvido, no mo­
mento em que o j uiz procurava a indicação do casamento no
livro oficial:
- Mesmo que não dure seis meses, mesmo que sej a só
por um mês, ainda assim vale a pena. Com um busto e umas
ancas e um rosto daqueles.
244

Voltando ao diálogo no banco com Vela, podia ouvir-me


dizer, com a convicção da maior seriedade:
- Adaptei-me há l argo tempo à ideia de morrer uma
morte natural, como toda a gente . Vi bastantes mortes ao
longo da minha vida, e estou preparado para ela. Talvez te­
nha sido um bocadinho demasiado imaginativo acerca da
sepultura . A humidade e o fri o . Visualizei com demasiado
detalhe e talvez com demasiado afeto, um afeto anormal, os
morto s . Mas não há a mínima hipótese no mundo de me
convencerem a entregar-me às mãos da ciência experimental.
Sinto-me insultado pela tua proposta. Mas, se me conseguis­
te induzir a casar contigo, talvez sintas que também posso
ser convencido a deixar-me congelar por um século.
- Sim, acho que me deves algo - disse Vela, sobrepon­
do-se ao que eu estava a dizer.
Uma das nossas dificuldades, e uma fonte de muitos de­
sentendimentos, era que a minha perspetiva era para ela in­
compreensível . Os cães compreendem uma piada. Os gatos
nunca, mas nunca, têm ocasião de rir. Vela, quando os ou­
tros riam, rir-se-ia também. Mas, se faltavam as pistas ( « Isto
é engraçado » ) , não sorriria sequer. E eu, quando animava
um j antar, era suspeito de fazer dela o alvo das minhas pia­
das.
Eu talvez não estivesse ciente, quando acreditei estar no
banco, com uma pequena moeda de dez cêntimos e um dólar
enorme incrustados numa parede de mármore, que, no mun­
do real, a minha vida estava a ser salva. Os médicos com as
suas drogas, as enfermeiras a tomarem conta de mim, os téc­
nicos com os seus talentos, estavam a trabalhar para o meu
bem. Quando, ou se, eu fosse salvo, continuaria com a mi­
nha vida.
E se não tivesse sido aquele artigo sobre Howard Hughes,
Vela não teria sugerido que ser congelado durante um século
RAVELSTEIN 24 5

era uma ideia maravilhosa - que faria marotices com o na­


morado espanhol (por sinal, ele nunca me disse sequer bom
dia) enquanto eu j azia congelado, um bloco de gelo, aguar­
dando a ressuscitação ou a ressurreição.
E nem por um momento duvidei da realidade deste ban­
co, destas moedas, desta companhia - Vela, o seu garanhão
espanhol, o consultor de investimentos, e as observações de
Vela acerca da revolução sexual.

- Aquele encontro no banco em que tu acreditas - dis­


se mais tarde a minha mulher, Rosamund, a minha verdadei­
ra mulher, quando lhe descrevi a situação. - Por que serão
sempre as piores coisas que te parecem reais ? Às vezes per­
gunto-me se alguma vez te conseguirei convencer a deixares
de ser sádico para contigo mesmo.
- Sim - concordei. - Tem um tipo específico de satis­
fação, a parte má é garantia de que é uma experiência real.
É por isto que passamos e é isto o que a experiência é. O cé­
rebro é um espelho e reflete o mun d o . É claro que vemos
imagens, não a realidade mesma, mas as imagens são-nos
queridas, aprendemos a amá-las mesmo que tenhamos cons­
ciência de quão deformador um órgão como o cérebro-espe­
lho é. Mas esta não é a ocasião para entrarmos em metafísicas.
Eu era o tipo de paciente dos cuidados intensivos sobre
o qual o pessoal teria feito apostas, se fossem do tipo j oga­
dor. Mas estas pessoas são demasiado sérias para apostarem
se sobreviveremos. Cruzar-me-ia com eles mais tarde noutras
secções do hospital, e eles diriam:
- Ah, você conseguiu . . . Fantástico ! Eu nunca acredita­
ria. Bem . . . Foi um combate duro, aquele que você travou. Eu
não apostaria dois cêntimos na sua vida.
SAUL BELLOW

E assim . . . Hasta la vista. Voltaremos a encontrar-nos na


vida do outro lado.
Se estes encontros fossem mais longos ( embora eu os pre­
ferisse o mais curtos possível) , eu teria mencionado a minha
mulher, ter-lhe-ia dado o crédito devido. Aqui e ali materiali­
zava-se um especialista que tinha reparado nela: « Que bela
mulher. » « Que devotada era ela . » Com frequência os fami­
liares dos moribundos são como pássaros, confusos pelas lu­
zes no meio do campo, voando às cegas . Mas não era esse
o caso de Rosamund . Para me salvar, ela teria feito o que
fosse necessário. Fora por esse motivo que, para ela, o pes­
soal contornara as regras. Eles tinham um vasto e complexo
conhecimento de irmãos, irmãs, mães, maridos, esposas. No
meu caso, a sobrevivência não era a opção mais provável,
e ela parecia estar a apoiar um perdedor. Para outros, sobre­
tudo mulheres, terá parecido que Rosamund me estava a
manter deste lado da linha da morte.
Seria o amor creditado entre essas mulheres por salvar vi­
das ? Se estivessem a responder a esta questão num inquérito,
tê-lo-iam negado. Como Ravelstein é sabido ter dito, o niilis­
mo americano era um niilismo sem o abismo. O amor devia
por lógica - ou na ótica moderna - ser hoj e visto como
uma paixão desacreditada, mas as enfermeiras dos cuidados
intensivos, na linha da frente da morte, estavam mais aber­
tas aos sentimentos puros do que aqueles que trabalhavam
nos corredores mais pacíficos . E Rosamund, esta beldade
magra de cabelo escuro e nariz direito, era paradoxalmente
reconhecível como uma autêntica . Embora muito bem edu­
cada - um doutoramento, demasiado esperta para ser leva­
da a sério -, ela amava o marido. O amor encontrava uma
claque secreta entre estas enfermeiras da zona da morte,
onde oitenta por cento dos casos terminavam na morgue .
O pessoal contornava as regras por ela - por nós. Foi-lhe
permitido dormir ao lado da cama, no meu cubículo.
RAV E LSTEIN 24 7

Q u a n d o me licenciei d a u n i d a d e de cuidados intensi­


vos, deixaram Rosamund organizar um pequeno banquete.
O Dr. Bertolucci trouxe de casa a Pasta Marinara. Eu sentei­
-me e comi algumas garfadas e perorei sobre o canibalismo
na Nova Guiné, onde os inimigos esquartej ados eram assa­
dos ao pé de ravinas nas quais flores tropicais caíam por
centenas de metros, como cascatas.
Quando saí dos cuidados intensivos, Rosamund conti­
nuou a ser autorizada a entrar e sair, livre de quaisquer restri­
ções. Depois de jantar ela ia para casa, no Crown Vic. Para
me tirar a preocupação, disse:
- É estável, é seguro . É o carro da polícia por excelên­
cia, e sinto-me segura quando paro num sinal. Tanto quanto
os maus atores sabem, eu sou uma agente da polícia à paisa­
na, e tenho comigo uma arma.
Ainda assim, o vidro de lado foi uma noite partido no
parque de estacionamento por detrás do nosso edifício. Nem
gostava ela de ver todas as noites os ratos sentados em fi­
la onde podiam ver e cheirar os odores dos restaurantes de
Beacon Street.
- Estão em filas, como um júri no tribunal ..,....- dizia. -
E os olhos sorvem a luz toda em volta.
Quando se arrastava até ao terceiro andar, o gato lá esta­
va para a saudar, ou para a acusar de o negligenciar. Era um
gato do campo e tinha vivido à base de ratos e esquilos e
pássaros. Passava agora os dias a olhar os estorninhos, os
gaios e os corvos gigantes. Estes pareciam muito maiores do
que os corvos do campo - talvez por causa da menor escala
da flora domesticada da cidade. Ao fim da tarde grasnavam
no telhado como serras de metal.
Suponho que serviam qualquer propósito biológico, mas
eu não estava interessado. Eu era então surdo à teoria - tal
como recusava pensar no que estava a fazer como sendo um
SAUL BELLOW

combate pela existência . Se me tivesse detido para considerar


isto, teria tomado consciência de que estava debaixo de ter­
ra, a tentar sair, escavando com as minhas mãos nuas. Al­
guns teriam admirado a minha tenacidade ou lealdade para
com a vida . Para mim não havia tal coisa - era tão chato
e óbvio como uma batata.
Rosamund, depois de olhar para o frigorífico vazio (não
havia tempo para ir às compras ) , mastigava alguns pedaços
de queijo e depois, com o cabelo protegido por um cone alto
de toalhas turcas, colocava-se debaixo de um chuveiro quen­
te. Na cama, telefonava aos pais e falava com eles. O desper­
tador estava marcado para as sete, e ela estava no hospital
bastante cedo pela manhã . Podia enunciar todas as drogas
que me tinham sido prescritas, e os médicos descobriram que
ela lhes podia dizer como reagia eu a cada uma, a quais era
alérgico, ou como tinha estado a minha pressão arterial an­
teontem. Havia uma espécie de aparato extensivo na cabeça
daquela bonita mulher. Ela contou-me, confiante, que vive­
ríamos até muito velhinhos, bem dentro do próximo século.
Disse que eu era um prodígio. Eu via-me mais como uma es­
pécie de aberração.
Não havia assunto que ela não compreendesse imediata­
mente . Ravelstein ter-se-ia orgulhado dela . É claro que ele
nunca teria a minha vantagem, o acesso que eu tinha a ela .
E, depois da crise, Rosamund disse que nunca duvidara de
que eu ia sobreviver. E eu parecia acreditar que não ia mor­
rer porque tinha coisas a fazer. Ravelstein contava comigo
para manter a minha promessa de escrever o retrato que ele
me tinha encomendado. Para manter a minha palavra eu ti­
nha de viver. Claro que havia aqui um corolário óbvio: uma
vez que o retrato estivesse escrito, eu perderia a minha prote­
ção, e tornar-me-ia tão dispensável como todos os outros.
RAVELSTEIN 24 9

- Mas isso não se pode aplicar a ti - disse Rosamund. -


Uma vez que tu encontrasses o teu modo de o agarrar, nada
te poderia impedir. Além disso, sobreviverias por mim.
Recordo-me com frequência de perguntar a Ravelstein
qual dos seus amigos era mais provável que o seguisse em
breve.
- Para te fazer companhia - foi assim que pus a questão.
E, depois de ter minuciosamente examinado a minha tez,
as minhas rugas, o meu aspeto, ele disse que provavelmente
era eu. Ele era assim. Se lhe fizéssemos uma pergunta direta,
não nos poupava. A sua lucidez era como um fluido de soli­
dificação rápida. Quereria ele dizer que eu seria o primeiro
dos seus amigos a j untar-me a ele no outro lado ? Era isto
que o tom da nossa conversa �ugeria. Mas ele não acreditava
na existência de um outro lado. Platão, por quem em tais as­
suntos ele era guiado, falava com frequência de uma vida­
-por-vir, mas era difícil perceber quão a sério ele levava isto.
Eu não me ia enfiar no ringue com este campeão de sumo
representando a metafísica platónic a . Um golpe com a sua
poderosa barriga e eu estaria fora do círculo brilhante e de
regresso à ruidosa escuridão.
Ele tinha-me, contudo, perguntado como imaginava eu
que seria a morte - e, quando eu dissera que as imagens
cessariam, ele refletira seriamente na minha resposta, ficara
interdito, e considerara o que poderia eu querer dizer com
isto. Ninguém pode desistir das imagens - as imagens po­
dem, sim, a s imagens podem continuar. Pergunto- m e se
alguém acredita que a sepultura é mesmo tudo o que h á .
Ninguém consegue desistir d a s imagens. A s imagens devem
- e hão de - continuar. Se Ravelstein, o ateísta-materialista,
me tinha dito, implicitamente, que mais cedo ou mais tarde
me voltaria a ver, isso significava que ele não aceitava que
SAUL BELLOW

a sepultura fosse o fim. Ninguém pode aceitar isto e ninguém


o aceita. Apenas nos armamos em duros.
Assim, quando fiz a minha observação sobre as imagens,
Ravelstein deu-me o seu explosivo riso gago:
- Ha ! . . . H-ha ! . . .
Mas ele tinha algum apreço - algum respeito pela res-
posta.
Mas depois não resistiu a acrescentar:
- Tens ar de quem, não falta muito, se vai juntar a mim.
Esta é a involuntária e normal, a secreta, esotérica con-
fiança do homem de carne e osso. A carne há de mirrar e de­
sa parecer, o sangue secará, mas ninguém no fundo acredita
que as imagens cessam mesmo.

Aproximadamente q uarenta por cento dos pacientes


morrem na unidade de cuidados intensivos. Dos restantes,
uns vinte por cento ficam permanentemente inválidos. Estes
são enviados para aquilo a que a indústria da saúde chama
« instituições para doenças crónicas » . Não se pode nunca es­
perar que tenham de novo vidas normais. Do resto, os feli­
zardos, diz-se que « ficam no piso » .
No piso, eu j á não era atendido pela equipa de médicos
da u c 1 . Esgotados por centenas de horas na unidade, dois
deles passaram para dizer que iam de férias. Porque eu era
um dos seus maiores sucessos, passavam pelo piso para me
dizer adeus. A Dra. Alba trouxe canj a de galinha feita na sua
própria casa. O presente do Dr. Bertolucci foi uma lasanha
caseira e uma dose suplementar de almôndegas com molho
de tomate, como aquela que eu tinha comido nos cuidados
intensivos. Eu ainda não estava capaz de me alimentar sozi­
nho. A colher tremia nas minhas mãos e batia no prato; não
a conseguia levar à boca. O Dr. Bertolucci veio j antar comigo
RAVELSTEIN

e com Rosamund. Ainda longe do normal, continuei a trazer


à baila durante a conversa o tema do canibalismo . Mas o
Dr. Bertolucci estava muito satisfeito comigo, e dizia:
- Você acabou de regressar da selva.
Ele tinha-me salvado a vida. Eu estava sentado, a comer
a refeição que o próprio médico tinha confecionado, e a con­
versar, em amena cavaqueira. Também Rosamund estava fe­
liz e excitada. Esta era a minha primeira noite no piso, e eu
não entraria numa instituição para doenças crónicas onde le­
varia uma vida de inválido.
Quando fui transferido para o piso, o neurologista resi­
dente fez-me um exame preliminar. O meu historial médico
estava disponível no gabinete das enfermeiras dentro de uma
grande pasta . Rosamund tinha mantido um diário durante
as semanas da crise e o residente questionou-a também a ela.
Nessa mesma noite, o Dr. Bakst, o neurologista-chefe,
apareceu à meia-noite, e também ele a questionou. Ela en­
contrava-se a dormir na cadeira ao lado da cama.
Eu tinha sido tratado a uma pneumonia e um ataque de
coração. E, embora estivesse no piso, ainda não estava a sal­
vo. Ainda não. Não completamente . Quais eram os meus
problemas só em parte é aqui relevante. Deixem-me apenas
dizer que as coisas ainda estavam longe do normal, e que
o meu futuro ainda era incerto.
O Dr. Bakst trouxe a sua caixa de alfinetes . Ao exami­
nar-me - espetando-me alfinetes no rosto - ele descobriu
que o meu lábio superior estava (para o dizer nas· minhas pa­
lavras) rígido. Mesmo quando eu falava ou ria estava estra­
nhamente imóvel ou parcialmente paralisado. Fez-me alguns
testes simples - e falhei-os. Pediu-me várias vezes para dese­
nhar relógios. A princípio eu era incapaz de desenhar fosse
o que fosse. As minhas mãos eram inúteis. Eu não tinha de
todo controlo sobre elas. Era-me impossível comer a minha
SAU L BELLOW

sopa ou assinar o meu nome. Não conseguia segurar numa


caneta. Quando me disse para desenhar um relógio, um zero
meio torto foi tudo quanto consegui fazer. Os meus sinto­
mas pareceram ao Dr. Bakst ser devidos a envenenamento.
Bédier, em Saint Martin, tinha-me servido um peixe tóxico.
O neurologista disse que eu tinha sido vítima da toxina ci­
gua. Eu estava agora disposto a pensar o pior possível das
Caraíbas. O médico francês que eu tinha visto diagnosticara
o meu problema como sendo dengue. Ele podia, talvez pudes­
se, ter feito um melhor diagnóstico. Um especialista australia­
no da toxina cigua descreveu ao telefone com o Dr. Bakst os
sintomas dessa doença. Alguns dos colegas de Bakst em Bos­
ton não aceitaram o diagnóstico. Eu torcia por Bakst, embora
por razões que, estritamente falando, pouco tinham que ver
com medicina.
Para ser franco, eu tinha de decidir se devia ou não fazer
esforços para recuperar. Estivera inconsciente durante longas
semanas, o meu corpo estava um destroço - irreconhecível.
O meu esfíncter estava confuso e eu não conseguia propria­
mente andar mas tropeçar - agarrado a uma estrutura de
metal. Em tempos tinha sido o mais j ovem da família. Agora
tinha filhos adultos. Quando me vinham visitar, aqueles que
tinham herdado os meus traços davam-me a sensação de
estar a ser visto pelos meus próprios olhos - ainda em
funções, mas a ser em breve substituído por um modelo mais
recente. Ravelstein ter-me-ia aconselhado a manter a cabeça
no lugar. Eu sentia-me quase acabado mas, apesar de danifi­
cado, farto de tudo, ainda não dispensado de serviço.
Rosamund estava determinada a que eu continuasse a vi­
ver. ·Fora ela, claro, quem me salvara - trazendo-me de volta
das Caraíbas mesmo à j usta, acompanhando-me nos cui­
dados intensivos, dormindo numa cadeira ao lado da minha
RAVELSTEIN

cama. Quando eu lutava para respirar, ela levantava a más­


cara de oxigénio para me limpar os cantos à boca. Só quan­
do trouxeram um respirador é que ela foi a casa, por uma
hora, para vestir roupa limpa.
O único médico que me visitava regularmente era o
Dr. Bakst. Vinha também irregularmente - a horas estranhas.
Dir-me-ia: - Desenhe um relógio às 1 0 :47. Ou: - Qual é a
data de hoj e ? Vá, não me diga que vive num plano superior
e que não sabe as datas exatas. Quero de si respostas especí­
ficas. Ou: - Multiplique setenta e dois por noventa e três.
E agora ... divida cinco mil trezentos e vinte e dois por qua­
renta e seis.
Graças a Deus que eu tinha mantido a tabuada em ordem.
Ele não tinha vontade de discutir questões mais «profun­
das » comigo - ou questões que tivessem que ver com a ex­
tensão da minha recuperação.
Aos oito anos, eu tivera de recuperar de uma peritonite
complicada por uma pneumoni a . Voltando do hospita l ,
o que e u precisava d e decidir era s e i a ser u m inválido para
toda a vida, com dois irmãos mais velhos a odiarem-me por
monopolizar o afeto e a atenção dos meus pais. Como são
tais decisões tomadas na infância está para lá da nossa com­
preensão. Apercebo-me agora, no entanto, que escolhi não
ser um fraco. Num qualquer alfarrabista deparei com um li­
vro sobre forma física por Walter P. Camp, e fiz o que o fa­
moso treinador de futebol tinha feito - transportei sacas de
carvão com os braços estendidos desde a cave . Fiz flexões,
treinei no saco, e com bastões índios Turnverein. Estudei um
livro inspirador intitulado Como Tornar-se Forte e Manter
a Forma. Contei a toda a gente que andava a treinar. Isto
não era exagero. E o facto era que eu não era dotado para o
d e s p o rto . A i n d a a s s i m , a e s c o l h a q u e fiz a o s oito a n o s
SAUL BELLOW

manteve-se efetiva. Cerca de setenta anos depois, estava pre­


parado a fazê-la de novo.
Por uma rara coincidência, o Dr. Bakst tinha outra pa­
ciente no piso de cima com a toxina cigua. Ela tinha sido in­
fetada numa viagem à Florida. A toxina consome o sistema
nervoso mas é rapidamente excretada, e assim, em poucos
dias, não há mais traços seus. Felizmente, no caso desta pa­
ciente a doença foi identificada ainda num primeiro estádio
e, depois de o veneno carregado pelo peixe ter sido filtrado
do seu sistema sanguíneo, ela pôde ter alta e ir para casa.
Eu ainda estava a empurrar a estrutura metálica através
dos corredores, determinado a recuperar o uso das minhas
pernas. Seguravam-me para tomar duche e eu sentia-me hu­
milhado e era ensaboado e esfregado por enfermeiras bondo­
sas que já tinham visto de tudo e não se chocavam com o
meu corpo.
Assumi que o meu neurologista sénior era um anj o bom
e que estava familiarizado com casos como o meu e sabia exa­
tamente « em que ponto eu estava » . As minhas mãos e pernas
danificadas anquilosariam e o meu sentido de equilíbrio per­
der-se-ia se deixássemos os músculos atrofiar. Se eu estivesse
para aí inclinado, podia ter decidido não fazer o esforço.
Uma pessoa ficava cansada de fazer habilidades, e encaixar
puzzles apenas para ver, quando nos examinávamos, a pele
engelhada, as veias nos nossos braços desidratados .
Só agora começo a compreender quanto tato h avia na
conduta do médico, e a ver que ele sabia perfeitamente que
eu me desintegraria, se não fizesse os exercícios que me pres­
crevia. Eu detestava os exercícios, mas não me podia permi­
tir ir abaixo. Mais ainda, eu devia isso a Rosamund. Sim, eu
estava tentado a desistir, mas ela tinha consagrado a sua al­
ma à minha recuperação. A minha desistência teria sido para
ela um insulto . E, por último, viver significava necessaria­
mente fazer o que eu sempre tinha feito, e eu tinha de ser
RAVELSTEIN 255

forte o suficiente para efetuar de forma independente as tare­


fas em que a minha vida consistia.
O Dr. Bakst era um excelente diagnosticista, considerei,
mas no meu caso o seu diagnóstico tinha sido contestad o .
A toxina cigua é uma doença tropical. A toxina é incubada
por peixes dos recifes - « piscavores » , chamava-lhes o dou­
tor. Nenhum tipo de grelha ou temperatura poderia destruir
o veneno carregado pelo salmonete posto no meu prato por
Bédier, um rufia armado em campeão da hospitalidade fran­
cesa. Ele tinha vindo para o s trópicos fazer dinheiro para
educar as filhas pequenas - elas hoj e em dia j á não recebem
um dot, recebem uma educação. ( Ravelstein, que detestava
estas personalidades e ocasiões, teria preferido que eu disses­
se dot, não dote . ) À parte fazer o seu papel, Bédier não de­
via mais nada aos clientes. Eles corriam os seus riscos com
os piscavores dos recifes de coral, tal como ele corria com os
seus investimentos. Nem Bédier nem o médico que me tinha
dito que eu tinha dengue responderam aos inquéritos de
Boston.
Na minha idade, uma pessoa tem uma experiência consi­
derável de altos e baixos, os expedientes que acompanham
o interesse próprio. Todas essas considerações têm tendência
para se misturar confusamente.
O diagnóstico do Dr. Bakst de que se tratava da toxina
cigua tinha sido contestado por outros médicos. Por isso ele
tinha um interesse adicional em provar que estava certo. En­
viou-me a todos os cantos do hospital a fazer TAC, ecografias
e dezenas de outros exames esotéricos, que nos fazem sentir
que as forças inteiras do planeta recaem sobre nós. Eu era
capaz, mas só até certo ponto, de separar as suas preocupa­
ções profissionais dos seus outros motivos. O facto é que ele
sabia que eu precisava das suas visitas « pessoais » , da sua
presença diária - que eu dependia dele.
SAUL BELLOW

Ocorreu-me, num dia desesperante e fragmentado, que


eu talvez fosse daqueles pacientes astutos cuj o plano genial
é sorver a atenção toda do médico. O doente apercebe-se de
que o médico tem de a repartir e sente também uma necessi­
dade especial de passar à frente dos doentes e moribundos
seus rivais. O médico tem naturalmente de se proteger con­
tra estes impulsos monopolizadores - talvez eu devesse di­
zer instintos - de gente que está cegamente concentrada na
recuperação, que tem a ganância profunda e especial dos
doentes que decidiram não morrer.
O Dr. Bakst tinha uma constituição sólida, mas com uma
tendência estranha no modo como avançava a cabeça, como
um pugilista. Estava obviamente fora de questão adivinhar
no que ele estaria a pensar. Ia e vinha a seu bel-prazer. Os
óculos podiam virar-se na nossa direção quando os olhos
não o faziam. Isto levou-me a compreender que seria um er­
ro tentar comunicar-lhe o ror de coisas estranhas por que eu
estava a passar. Os problemas de aritmética que me colocava
eram muito parecidos com os desafios lançados a David
Copperfield pelo seu padrasto tirânico e perverso - «Nove
dezenas de queij os a duas libras, oito xelins, quatro centa­
vos; esta conta não te deve levar mais do que três minutos. »
Eu tinha sido bom a fazer contas nos meus tempos de escola,
e aqueles cálculos levavam-me de volta à infância. Também
para os meus dedos eram boa terapia, e em breve eu estava
capaz de assinar cheques e pagar as minhas contas.
O médico adotava agora um estilo mais duro comigo.
- Em que dia da semana estamos ?
- Terça-feira.
- Não é terç a . Qualquer adulto sabe em que dia esta-
mos.
- Então deve ser quarta.
- Sim. E qual é a data ?
RAVELSTEIN 257

- Não faço ideia.


- Bem, você está disposto a dar um palpite, a arriscar.
Mas daqui em diante vai passar a saber a data como qual­
quer pessoa normal. Vai verificá-la todas as manhãs, e a par­
tir de agora estará preparado para me dizer o dia da semana
e a data exata do mês.
P r e g o u e n t ã o , p a r a m i m , um c a l e n d á r i o n a p a r e d e .
O médico tinha visto que os meus dias eram um pântano de
autonegligência e que eu estava desmoralizado, a perder-me
e a perder coragem através do desleixo e da desordem.
É possível que o Dr. Bakst me tenha salvado . Acredito
que lhe devo a vida e também, claro, a Rosamund. Baks't não
achou que tivesse sido um erro terem-me posto « no piso » ,
o u que e u estava condenado a uma instituição para doentes
crónicos. Ele acreditava que eu podia - e portanto devia -
pôr-me em forma. De alguma maneira, considerou-me capaz
de regressar. Pergunto-me o que seria da prática médica se
os médicos a b dicassem de tais intuiçõe s . O Dr. Bakst, tal
como um ardiloso guia índio do século passado, colava o
ouvido aos carris e ouvia a locomotiva a aproximar-se. A vi­
da voltaria em breve, e eu ocuparia o meu lugar no comboio
da vida. A morte recuaria para o seu lugar originário, nas
margens da paisagem. O desej o do paciente é arrastar-se ou
gatinhar ou deslocar-se de algum modo de regresso à vida
que precedera a doença, e entrincheirar-se e fortificar-se na
velha posição.
Se eu tivesse morrido, teria naturalmente ficado livre da
promessa que fizera anos antes, de escrever uma breve des­
crição de Ravelstein, e de fazer um balanço da sua vid a .
Tendo estado e u próprio à beira d a morte, não preciso d e re­
cear a culpa que os vivos frequentemente sentem em relação
aos outros - pais, mulheres, maridos, irmãos e amigos -
nas suas tumbas.
SAUL BELLOW

Acabado de sair da faculdade, nos anos trinta, eu tinha


sido assistente de pesquisa, ajudando a compilar um guia
geográfico, e fiquei a saber que havia uma Atenas pratica­
mente em todos os estados da União. Era também um facto
que A. N. Whitehead profetizara, durante uma estadia em
Chicago, que esta se encontrava destinada a liderar o mundo
moderno . A informação estava aqui para livre uso de toda
a gente, e assim era bastante possível que esta cidade pudesse
ser uma nova Atenas.
Quando contei isto a Ravelstein, lembro-me de ele se ter
rido com exorbitância e dito:
- Se isso acontecer aqui, não será por causa do White­
head. Não havia filosofia suficiente nele para encher um ba­
lão. Não que o Russell sej a muito melhor.

Eu estava interessado em tais opiniões, não porque tives­


se ambições filosóficas, mas porque, sem conhecimentos de
filosofia política, eu estava preparado para escrever, eu tinha
aceitado escrever, uma memória de Ravelstein, um filósofo
político. E não conseguia dizer �e Whitehead e Russell ti­
nham ou não desenvolvido ideias dignas de serem examina­
das. Ravelstein disse-me secamente para não me preocupar
com os estudos, ensaios, opiniões deles. Mas eu já tinha lido
cinco ou seis livros deles. Deveríamos estar gratos pelos bons
conselhos nestas matérias, porque a vida é demasiado curta
para nos arriscarmos a perder tempo - um mês inteiro, di­
gamos, na História da Filosofia de Russell, um livro obvia­
mente deformado e até mesmo doentio, muito moderno no
sentido em que tenta poupar-nos ao estudo de vários filóso­
fos franceses e alemães.
À sua maneira muito pessoal, Ravelstein tentava prote­
ger-me de patinhar nos trabalhos dos pensadores que ele
RAVELSTEIN 259

mais admirava. Ordenara-me que lhe escrevesse este retrato,


sim, mas ele não considerava necessário, para mim, que me
pusesse a mastigar os clássicos do pensamento ocidental. Pa­
ra os obj etivos de uma curta biografia eu compreendia-o
mais do que o suficiente - e eu concordava que ela devia ser
feita por alguém como eu. Mais ainda, sou um grande crente
no poder do trabalho inacabado para nos manter vivos. Mas
a nossa sobrevivência não pode ser explicada por esta sim­
ples equivalência abstrata um-para-um. Rosamund evitou
que eu morresse. Eu não consigo conceber isto sem o olhar
frontalmente, e não o posso olhar frontalmente enquanto os
meus interesses permanecerem centrados em Ravelstein� Ro­
samund tinha estu d a d o o amor - o amor romântico d e
Rousseau e também o Eros platónico, com Ravelstein - mas
ela sabia bastante mais disso do que o seu professor ou o seu
marido.
Mas eu preferia ver de novo Ravelstein do que ter de ex­
plicar coisas que de nada serve explicar.
Ravelstein, ao vestir-se para sair, está a falar comigo, e eu
ando com ele de um lado para o outro, tentando ouvir o que
está a dizer. A música j orra da sua alta-fidelidade - os mui­
tos planos da sua cabeça calva passam por mim no corredor
entre a sua sala de estar e o monumental quarto de dormir.
Ele detém-se diante do seu espelho-móvel - aqui não há es­
pelhos de parede - e põe os pesados botões de punho dou­
rados, abotoa a camisa às riscas Jermyn Kisser & Asser - as
lavandarias American Trustworthy entregam-lhe as camisas
engomadas e envoltas em papel vegetal. Enfia a gravata, levan­
tando os colarinhos cheios de goma. Faz um nó luxuriante. Os
dedos trémulos, grandes, mal coordenados, nervosos ao ponto
de decadência, fazem uma volta dupla . Ravelstein gosta de
um nó grande na gravata - afinal de contas, ele é um ho­
mem grande. Depois senta-se na magnificamente trabalhada
260 SAUL BELLOW

colcha da cama e calça as botas Wellington compradas n a


Poulsen & Skone . O pé esquerdo é alguns tamanhos mais
pequeno do que o direito, mas ele não coxeia . Fuma, é claro,
está sempre a fumar, e afasta a cabeça do fumo enquanto ar­
ranj a e rearranj a o nó da gravata. Os cantores e a orquestra
estão a banhar-nos com A Italiana em Argel. Esta é música
para vestir a roupa, música acessória ou ambiental, mas Ravel­
stein adota um ponto de vista nietzscheano, propício à co­
média e aos palcos. Melhor Bizet e a Carmen do que Wagner
e os Nibelungos. Ele gosta de ter o volume da sua poderosa
aparelhagem no máximo. Veste o fato de cinco mil dólares,
uma lã italiana misturada com seda. Puxa as mangas com
a ponta dos dedos e passa a mão pelo topo da cabeça. E tal­
vez se congratule por ter tantos instrumentos a fazer para ele
uma serenata, tantos músicos a servi-lo. Corresponde-se com
companhias de discos compactos do outro lado da cortina
de ferro. Tem aj udantes que vão aos correios pagar para ele
os custos de alfândega.
- O que achas desta gravação, Chick ? - diz. - Estão
a tocar os instrumentos originais da época.
Ele perde-se na música sublime, uma música na qual as
ideias se dissolvem, refletindo-se depois na forma do senti­
mento. Leva-as - à música e às ideias - para a rua com ele.
Há uma neve prematura nos arbustos altos, os mesmos ar­
bustos cheios com um bando inteiro de papagaios - aqueles
que escaparam das gaiolas e agora fazem os seus longos ni­
nhos nas ruas adj acente s . Estão a comer bagas vermelhas .
Ravelstein olha para mim, rindo com surpresa e prazer, ges­
ticulando, por ser impossível fazer-se ouvir com todo este
chilrear.
Não é fácil entregar à morte uma criatura como Ravel­
stein.
SÉRIE LÍNGUA COMUM

Adriana Lisboa J. Rentes de Carvalho Marcello Matbias


Rakushisha Ernestina Pablo La Noche
Afonso Cruz Com os Holandeses Mário Zambujal
Enciclopédia de Estória A Amante Holandesa Crónica dos Bons Malandros
Universal Tempo Contado Mónica Marques
A Boneca de Kokoschka La Coca Transa Atlântica
Os Lindos Braços de Júlia Para Interromper o Amor
Alexandre Borges
da Farmácia
Todas as Viúvas de Lisboa Paulo Ferreira
João Leal Onde a Vida Se Perde
António Manuel Couto Viana
Alçapão
Tens Visto o Antão? Pedro Paixão
José Luís Peixoto O Mundo É tudo
António Manuel Venda
M°"este-me o Que Acontece
Uma Noite com o Fogo
Nenhum Olhar Viver Todos os Dias Cansa
O Sorriso Enigmático
Uma Casa na Escuridão
do javali Pedro Vieira
Cemitério de Pianos
Arthur Dapieve Última Paragem, Massamá
Cal
De Cada Amor Tu Herdarás Livro Possidónio Cachapa
só o Cinismo Gaveta de Pap.éis O Mundo Branco
Black Music do Rapaz-Coelho
Lourenço Mutarelli
AA. VV. A Arte de Produzir Efeito Raul Brandão
As Mais Belas Histórias sem Causa As Ilhas Desconhecidas
Portuguesas de Natal Reinaldo Moraes
Luís Naves
Christiane Tassis Territórios de Caça Pornopopeia
Sobre a Neblina jardim Botânico Ricardo Dias Felner
Dinis Machado Luiz Ruffato Herói no Vermelho
O Que Diz Molero Estive em Lisboa Sérgio Rodrigues
Reduto quase Final e Lembrei-me de Ti Elza, a Garota
Gráfico de Vendas
Manuel Jorge Marmelo Tony Bellotto
com Orquídea
Sereias do Mindelo Um Caso com o Demónio
Fernando Sobral Uma Mentira Mil No Buraco
L. Vil/e Vezes Repetida Vasco Graça Moura
Ela Cantava Fados
Marçal Aquino Morte no Retrovisor
Filipe Nunes Vicente Cabeça a Prémio Naufrágio de Sepúlveda
Mau-Mau Quatro Últimas Canções
Francisco Duarte Mangas
A Rapariga dos Lábios Azuis

SÉRIE AMÉRICAS

Álvaro Uribe Fumo Sagrado Mempo Giardinelli


A Oficina do Tempo Corpos Divinos Final de Romance
Andrea Blanqué Héctor Abad Faciolince na Patagónia
A Passageira Somos o Esquecimento Milton Fomaro
Eduardo Belgrano Rawson Que Seremos Cadáver Precisa-se
Para lá da Te"a do Fogo Receitas de Amor Pola Olaixarac
para Mulheres Tristes As Teorias Selvagens
Élmer Mendoza
Balas de Prata Karla Suárez Pablo Ramos
Havana Ano Zero A "Origem da Tristeza
Evelio Rosero
Os Exércitos Leila Guerriero Roberto Bolaiio
Os Suicidas do Fim do Mundo 2666
Gonzalo Castro
Hidrografia Doméstica Manuel Puig O Terceiro Reich
Boquitas Pintadas A Literatura Nazi
Gonzalo Celorio
Mario Vargas Llosa nas Américas
Três Lindas Cubanas
O Sonho do Celta Os Dissabores do Verdadeiro
Guillermo Cabrera Infante Polícia
A Ninfa Inconstante
SÉRIE SERPENTE EMPLUMADA

Alberto Torres Biandina François Vallejo Paul Theroux


Coisas Que Nunca Incêndio no Chiado Viagem por África
Aconteceriam em Tóquio · Gérald Messadié O Velho Expresso
Ali Smith A Senhora Sócrates da Patagónia
A Primeira Pessoa Giorgio Bassani Regresso à Patagónia
e outras histórias O Jardim dos Finzi-Contini Mão Morta
Amor Livre e outras histórias Os Óculos de Ouro O Grande Bazar Ferroviário
Bruce Chatwin lrvine Welsh Raymond Carver
Na Patagónia Cola O Que Sabemos do Amor
Regresso à Patagónia Crime (Begginers)
Os Gémeos de Blackhill Ecstasy Catedral
O Vice-Rei de Ajudá Lixo Richard Yates
Canto Nómada Pomo Jovens Corações em Lágrimas
Anatomia da Errância Se Gostaste da Escola Vais Perto da Felicidade
O Que Faço Eu Aqui? Adorar o Trabalho O Desfile da Primavera
Carmen Posadas Ismail Kadaré Onze Tipos de Solidão
A Fita Vermelha Um Jantar a Mais Saia Staniiié
Cees Noteboom O Acidente Como o Soldado Conserta·
A Máscara de Neve Javier Raverte o Gramofone
Christopher lsherwood Deus, o Diabo e a Aventura Saul Bellow
Um Homem Singular Jean D'Ormesson Morrem Mais de Mágoa
Adeus a Berlim A Criação do Mundo As Aventuras
Claudio Magris de Augie March
José Manuel Fajardo
E então Vai Entender Ravelstein
O Meu Nome É Jamaica
Danúbio Susan Sontag
Juan Jose Millás
A História Não Acabou O Amante do Vulcão
Laura e Júlio
Darin Strauss A Doença como Metáfora
Julian Bames Renascer (Diário, 1)
Metade da Vida
O Papagaio de Flaubert Ao Mesmo Tempo
Dave Eggers Nada a Temer
O Sitio das Coisas Selvagens Wei Hui
Jung Chang Shanghai Baby
Zeitoun
Cisnes Selvagens
Conhecereis a Nossa Xiaolu Guo
Velocidade! Martin Amis A Aldeia de Pedra
A Viúva Grávida
David Byme Yoko Ogawa
Os Papéis de Rachel
Diário da Bicicleta Hotel !ris
O Segundo Avião
Elmore Leonard A Magia dos Números
Patti Smith
Cuba Libre Yrsa Sigurdardóttir
Apenas Miúdos
Cinza e Poeira

SÉRIE MEDITERRÂNEO

Amin Maalouf Mohamed Leftah


Leão, o Africano As Meninas da Numidia
Hubert Haddad Mohammed Dib
Palestina O Deserto sem Saída
Mohamed Berrada Predrag Matvejevitch
Como Um Verão Que Não Voltará Breviário Mediterrânico
1
Ravelstein, romance de Saul Bellow,
livro da série serpente emplumada,
publicado por Quetzal Editores,
foi composto em caracteres Sabon,
originalmente criados em 1 967 pelo
alemão Jan Tschichold (Leipzig, 1 902-
-Locarno, 1 974) em homenagem ao
trabalho tipográfico de Jakob Sabon
( 1 5 3 5 - 1 5 8 0 ) , e inspirados nos tipos
desenhados por Claude Garamond
(Paris, 1 4 8 0- 1 5 6 1 ) , e foi impresso
por Bloco Gráfico, Lda. , em papel
Munken Pocket Cream/80g, em
setembro de 201 1 , numa tiragem de
2000 exemplares. A vinheta deste livro
foi desenhada por Rui Rodrigues.