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ANAIS DO

S EMINÁRIO I NTERNACIONAL
N OVO M UNDO NOS TRÓPICOS

Organizado por Fátima Quintas

Recife, 2000
© Fundação Gilberto Freyre, 2000

Fundação Gilberto Freyre

Presidente: Sonia Maria Freyre Pimentel


Vice-presidente: Maria Cristina Suassuna de Mello Freyre
Superintendente Geral: Gilberto Freyre Neto

Coordenação Editorial: Jamille Barbosa


Projeto gráfico e diagramação: Mônica Lira

ANAIS do Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópicos


(Recife, 21 a 24 de março de 2000) / Organizado por Fátima
Quintas. Recife: Fundação Gilberto Freyre, 2000.

326 p.
APRESENTAÇÃO

Falar em Gilberto Freyre é penetrar nos linguagem e de metodologia, para assumir a


matizes que compõem o quadro exegético leveza do escritor que persegue o social, sem
brasileiro. A sua obra se desdobra em um cres- o tédio das formulações definitivas. O homem
cente dégradé que vai desenhando o colori- não é imutável, logo, nada também o é. E o
do de rostos de múltiplas gentes. Com o in- olhar freyriano se abre na infinita perspectiva
tuito de apreender o arco-íris étnico, Freyre do que é substância e existência em um cos-
explora ao máximo a sua inclinação para o mos pleno de contradições. Sob a égide do
sentir e para o ver. Enxergou como ninguém a caleidoscópio cultural, a vida, para ele, se
contingencialidade do humano, debruçando- transforma num excitante movimento de sen-
se sobre o tempo, para daí estabelecer vívi- sações, num ambicioso desejo de trazer o uni-
dos nexos de ancestralidade, sem, em mo- verso ao colo, num perceber-se para além de
mento algum, desviar a máquina fotográfica si mesmo. O redemoinho de fecundas inter-
do foco por ele escolhido. Foi um homem rogações, tão freyrianamente legítimas, leva-
profundamente tocado pelo sociológico, por- me a repetir Fernando Pessoa: "Serei eu o in-
que sabia que a sua construção cognitiva ja- tervalo entre o que desejo ser e o que os
mais poderia escapar dos entornos circuns- outros me fizeram?" O seu espírito inquiridor
tanciais. Essa inquietação o acompanhou tão multiplica as perplexidades por entre anteci-
de perto que afirmou sem tergiversar: "Creio pações que o tocam desde menino, quando,
que nenhum estudante russo, dos românti- então, rejeita racionalidades de todo despre-
cos, do século XIX, preocupou-se mais inten- zíveis em nome do processo criador. Faz ques-
samente pelos destinos da Rússia do que eu tão de abraçar jorros introspectivos, apelos
pelos do Brasil. Era como se tudo dependesse intuitivos, impulsos de percepção, como fer-
de mim e dos de minha geração; da nossa ramentas indispensáveis à visão de mundo.
maneira de resolver questões seculares". Ao Para Freyre, o ver e o sentir balizam os cami-
penetrar na malha do passado, envolveu-se nhos recorrentes da sua metodologia. Não
com caminhos reveladores da sua identidade teme expressar-se enfaticamente: " Tenho sido
e, conseqüentemente, da identidade coleti- sociológico, muito mais vendo sociologica-
va. Interessava-lhe romper a fronteira das épo- mente o social, do que lendo a respeito os
cas para garantir continuísmos capazes de te- escritos de outros sociólogos. Tenho lido mui-
cer heranças culturais. Um legado temporal to. Mas tenho visto ainda mais do que lido.
que lhe serviu de lastro estruturante na cap- Visto do Brasil todas as suas regiões mais ca-
tação de vivências e convivências de modos racterísticas. Visto do mundo vários países,
brasileiramente brasileiros. E ninguém melhor vários costumes, vários ritos, vários tipos de
do que Manuel Bandeira para exaltar a capa- homem, de mulher, de criança, várias formas
cidade de transbordar-se, ele, Freyre, em vá- de casa. Visto algumas dessas formas de ho-
rios Freyres e em vários alongamentos de um mens e de casas, desenhando-as. Fixando-as
mesmo homem : "Eu vi os céus! Eu vi os céus!/ mais em desenhos do que em palavras. Te-
Oh, essa angélica brancura/ Nem uma nuvem nho me valido, para tanto, de um gosto pelo
de amargura/ Eu vi o mar! Lírios de espuma/ E desenho que ainda muito pequeno nos meus
vi a Via-Láctea ardente.../ Vi carros triunfais ... primeiros anos de menino em idade escolar,
troféus.../ Pérolas grandes como a lua.../ Eu vi foi bem maior do que meu quase nenhum
os céus! Eu vi os céus!" entusiasmo por ler, escrever e contar... (...)
Freyre e Bandeira viram demais. Ami- Enchi cadernos com garatuja das coisas que
gos íntimos, perseguiram avidamente a essên- via antes de enchê-los com os meus primei-
cia do homem. Se Bandeira enveredou para ros escritos. "
a poesia no seu stricto sensu, Freyre, não me- Ver e sentir. Sentir para a ter a consci-
nos poeta, sempre ávido pelo dizer literaria- ência de deixar de sentir. Mas sentir de todas
mente refinado, seguiu os caminhos da ciên- as maneiras. Sem ferir o chamamento de ir
cia, revertendo noções rígidas e positivistas de além do que se vê. Autobiográfico, proustiano,

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indisciplinado, define-se: "Confesso-me anárquico, um tanto
personalista, um tanto impuro, um tanto contraditório, um tanto
desordenado." Na turbulência das suas ambigüidades, pulsões
se entrelaçam através de um diálogo sistemático entre o tem-
po morto e o tempo vivo, sem que um predomine sobre o
outro, antes, se unam na rememoração de narrativas justa-
postas em passados, presentes, futuros. Fragmentado em va-
riados eus, Freyre oferta autonomia a cada um deles, garan-
tindo a sua condição de homem assustadoramente irrequieto.
A reunião dos textos discutidos no Seminário Internaci-
onal Novo Mundo nos Trópicos, realizado para lembrar os 100
anos de nascimento de Gilberto Freyre, resulta de um esforço
coletivo, por demais gratificante em face da excelente quali-
dade do produto final. São 52 artigos de eminentes professo-
res/pesquisadores brasileiros e estrangeiros, que discorreram
livremente, alguns em concordância, outros em discordâncias,
todos elaborando e reelaborando, nas mais variadas nuances,
os eixos centrais da mística freyriana.
Eis, pois, agora apresentado sob a forma de livro, o rico
efeito dessa mescla plural do pensamento de Gilberto Freyre.
O resultado, de sólida consistência, exibe um passeio nas suas
idéias que vai desde O Mundo que o Português Criou ao Além
do Apenas Moderno, um palco completo em coreografias
interdisciplinares. Percebe-se que as proposições se integram
em interfaces nítidas, o que caracteriza a mandala, quase
freudiana, que Freyre elabora. Falo em mandala, mas não
quero, com isso, reportar-me a fechamentos. Antes, pelo con-
trário, aponto para a dimensão multifacetada do seu idearium,
que, por não se ordenar em tópicos disciplinadores, possui
tantos contrastes que encerra um círculo humanamente hu-
mano. O leitor terá oportunidade de verificar a amplitude das
análises que permeiam as abordagens aqui expostas. Resta
iniciar a leitura e saborear os infinitos desdobramentos que
surgirão do processo reflexivo. O livro é seu.
Por feliz coincidência, o centenário de nascimento de
Freyre transcorre justamente no final do século, quando o olhar
restrospectivo sugere momentos de intensa meditação. O ver
e o sentir freyrianos, tão intrínsecos à sua personalidade, ga-
nham certos fetiches diante da penetrante interpretação da
sociedade brasileira. Tudo isso faz crescer a sedução de ex-
plorar o livro, de um fôlego só, com a volúpia de quem deseja
conhecer em pormenor o retrato da maior civilização tropical
portuguesa. Não direi mais nada. Já me fogem as palavras.
Prefiro voltar aos versos de Manuel Bandeira: "Ser como um
rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas
da noite./ Se há estrelas no céu, refleti-las."

Fátima Quintas

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SUMÁRIO

O SEMINÁRIO, 09
. Apresentação, 11
. Objetivos, 11
. Programação, 12
. Comissão executiva, 15
. Realização, 16

MESA-REDONDA 1 – O MUNDO QUE O PORTUGUÊS CRIOU, 17


. Assombração e Invenção: a Poética do Passado em Gilberto Freyre,
19
. A Cultura Lusófona, uma Cultura Ameaçada?, 26
. Relendo Gilberto Freyre: o Contexto do Romance Os Dois Irmãos de
Germano Almeida, 36
. Sobre O Mundo que o Português Criou: Reflexões no Limiar do
Século XXI, 43

MESA-REDONDA 2 – HOMEM, CULTURA E TRÓPICO, 53


. Basta Recordar os Pés das Chinesas: Notas sobre Gilberto Freyre e o
Carnaval do Brasil, 55
. A Estratégia de Sobrevivência da Caatinga e o Uso Sustentável da
Terra no Nordeste, 65
. Os Judeus no Pensamento de Gilberto Freyre, 67
. Os Povos Indígenas e o Mito da Miscigenação, 71

MESA-REDONDA 3 – O L USO EO TRÓPICO, 73


. O Luso e o Trópico Revisitado, 75
. A Mulher no Universo de Casa-Grande & Senzala, 79
. A Recepção do Luso-Tropicalismo em Portugal, 84

MESA-REDONDA 4 – VIDA , FORMA E COR, 97


. Gilberto Freyre y Alemania, 99
. A Invenção do Brasil entre Clio e o Mythos: Contraponto com
Gilberto Freyre de Interpretación de Brasil, 103
. A Propósito de Vida, Forma e Cor e do Perfil de Euclides da Cunha,
111
. O Significado da Obra de Gilberto Freyre para a Antropologia
Contemporânea, 115

MESA-REDONDA 5 – INGLESES NO BRASIL, 117


. Algumas Influências na Formação Intelectual de Gilberto Freyre,
119
. Alguns Aspectos da Influência Britânica sobre a Vida Brasileira e
Comentários em Torno do Livro Ingleses no Brasil de Gilberto Freyre,
124
. Ingleses no Brasil: um Quase-Manifesto, 131
. The Place of Material Culture in Ingleses no Brasil, 140

MESA-REDONDA 6 – AVENTURA E ROTINA , 147


. Aventuras e Desventuras em Tempo Morto e Outros Tempos, 149
. Castelos no Ar: Notas sobre Portugal em Aventura e Rotina, 155
. Coordenadas Epistemológicas de Gilberto Freyre, 159
. Gilberto Freyre: as Cidades, 163

MESA-REDONDA 7 – REGIÃO E TRADIÇÃO , 169


. Dona Sinhá, o Filho e o Dogmatismo Exorcizado, 171
. Região e Tradição no Jovem Gilberto Freyre, 177
. O Regionalismo da Tradição na Perspectiva Nacionalista: a
Identidade Regional Segundo Gilberto Freyre, 180
. Sol & Açúcar: Ecologia e Processos de Sedução em Gilberto Freyre,
187

MESA-REDONDA 8 – UM BRASILEIRO EM TERRAS PORTUGUESAS , 195


. Eça de Queiroz e Gilberto Freyre: Algumas Aproximações, 197
. Gilberto: Portugal, Brasil e Trópico, 202
. A Incompreensão da Crítica ao Luso-Tropicalismo , 208
. Um Olhar Freyriano Sobre Goa, 213

MESA-REDONDA 9 – ORDEM E PROGRESSO, 217


. Gilberto Freyre: Ciência Social e Consciência Pessoal, 219
. A Inconclusão do Progresso e a Mistura da Ordem: Notas sobre
Gilberto Freyre e o Positivismo no Brasil do Século XIX, 223
. Ordem e Progresso, 227
. Ordem e Progresso e o Tempo do Trópico em Gilberto Freyre, 231

MESA-REDONDA 10 – SOBRADOS E MUCAMBOS, 237


. A Atualidade do Pensamento Freyriano e o Japão, 239
. A Desordem Urbana e os Antagonismos e Acomodações entre
Sobrados e Mucambos, 243
. Revisitando o Mundo que o Português Criou, 248
. Sobre a Pertinência de Sobrados e Mucambos para a Compreensão
da Dinâmica Racial no Brasil Contemporâneo: ou o Sorriso do Mulato,
255

MESA-REDONDA 11 – INSURGÊNCIAS E RESSURGÊNCIAS, 261


. Centenário de Nascimento do Autor de Casa-Grande & Senzala, 263
. Insurgências e Ressurgências Atuais: Cruzamentos de Sins e Nãos
num Mundo em Transição, 267
. O Local e o Universal na Obra de Gilberto Freyre: Notas sobre
Interpretação do Brasil, 271
. A Propósito do Livro Insurgências e Ressurgências Atuais de
Gilberto Freyre, 281

MESA-REDONDA 12 – ALÉM DO APENAS MODERNO , 287


. Além do Apenas Moderno, 289
. Além da Diferença, o que Há?, 293
. Uma Senhora Incoveniente, 299
. O Tempo no Futuro, 303

CONFERÊNCIA 1 – GILBERTO: A TEORIA CIENTÍFICA E A APROPRIAÇÃO PELA


IDEOLOGIA DE ESTADO, 305
. Da Europa nos Trópicos aos Trópicos na Europa, 307

CONFERÊNCIA 2 – A DÍVIDA DE PORTUGAL PARA COM A OBRA DE


GILBERTO FREYRE, 311
. O que Portugal Deve a Gilberto Freyre, 313

CONFERÊNCIA 3 – NOVO MUNDO NO HEMISFÉRIO OESTE, 319


. Giants of the Earth: Brazil and the United States as Successful
Mega-States, 321

CONFERÊNCIA 4 – O T EMPO DO TRÓPICO EM GILBERTO FREYRE /


CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO, 325
. O Tempo do Trópico em Gilberto Freyre, 327
. O Século de Gilberto Freyre, 329

Índice dos Artigos, 332

Índice dos Autores, 334


O SEMINÁRIO

21 a 24 de março de 2000
Recife – Pernambuco – Brasil
Apresentação

O Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópicos constituiu um marco significa-


tivo na análise do pensamento de Gilberto Freyre, oferecendo a oportunidade de discussão
ampla e verticalizada entre as diversas nuanças que perpassam o seu idearium.
A partir de um modelo plural, interdisciplinar e crítico-analítico, congregou-se um nú-
mero relevante de estudiosos do Brasil e do exterior, trazendo à luz variados pontos da máxi-
ma relevância para o entendimento da obra freyriana.
As mesas-redondas e as conferências permitiram uma visão consistente, estabelecendo
contrapontos necessários à crítica e à revisão da obra do escritor.
O público diversificado garantiu o caráter multiplicador da proposta do seminário, pois
acredita-se que o pensamento de Freyre deve fluir e refluir nos mais remotos "redutos" da
intelectualidade universal.

Objetivos

Com o intuito de mergulhar profunda- aos objetivos previamente propostos. A essas


mente na essência do pensamento de Gilber- mesas somaram-se 4 conferências com temas
to Freyre, três perspectivas balizaram o Semi- escolhidos pelos palestrantes. Neste item, pre-
nário: valeceu a plena liberdade de escolha.

a) Extrair, o mais possível, da própria obra do b) Pretendeu-se reunir um número conside-


escritor os elementos necessários a uma rável de estudiosos de diversos pontos da Eu-
“dinamização acadêmica”, isto é, a uma ropa, Japão, Estados Unidos, Índia e África,
polemização de idéias, que, todavia, não se assim como dos estados brasileiros
restringisse a modelos simplistas de aborda- circunvizinhos ou mais distanciados. Uma
gem. Buscando abraçar as versões freyrianas massa de intelectuais respeitados preenche-
na sua totalidade, incursionou-se nos títulos ria o leque de nomes do sul do país. Esses
de algumas de suas obras, de modo a evitar pesquisadores não somente apresentariam
qualquer deslize teórico. Assim, o Seminário seus textos como interagiriam, na qualidade
agregou-se ao tronco germinador e às conse- de público participativo, nas mais variadas ses-
qüentes ramificações que dele cintilam. To- sões acadêmicas, contribuindo sobremaneira
das as mesas-redondas foram inspiradas em para valorizar a discussão. Sociólogos, histo-
livros do autor, procurando-se obedecer a riadores, cientistas, antropólogos, escritores,
uma seqüência temática. Houve, portanto, economistas estariam presentes, elegendo tó-
uma lógica de encadeamento dos assuntos picos que ensejassem múltiplas perspectivas
enfocados. Não se priorizaram atitudes alea- a partir de um núcleo substantivamente
tórias. Partiu-se do Mundo que o Português polivalente. A multi e a interdisciplinaridade
Criou para chegar-se ao Além do Apenas Mo- guiaram os passos dos organizadores, e não
derno. Leia-se: de 1500 a 2000, um processo poderia ser de outro modo, tratando-se de
gradual que se instalou no curso dos séculos um evento cuja finalidade era repensar a obra
colonizadores e pós-colonizadores. O de Freyre, tão plural e tão adepta a versões
somatório de 12 mesas-redondas atendeu humanistas.

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c) Estimular o debate com o público correspondeu à terceira proposição do Seminário. Dian-
te de um grande número de estudantes, fazia-se indicado a interlocução, visando a estabele-
cer um diálogo fecundo em opiniões, não somente de expoentes das Ciências Sociais do
Brasil e dos diversos países assinalados, como também de estudantes universitários, ávidos
por conhecerem de perto os pontos essenciais da “epifania” freyriana.

Programação

DIA 21.3 (T ERÇA-FEIRA)

16H30 – SESSÃO S OLENE I NAUGURAL


Presidência: Governador Jarbas Vasconcelos
Falas de Abertura:
Presidente da Fundação Gilberto Freyre – Sonia Maria Freyre Pimentel
Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações – Edson Nery da Fonseca
Coordenadora Geral do Seminário – Fátima Quintas

Lançamento do Vídeo Seletas Gilbertianas, produzida pela Massangana Multimídia Produções.

17H00 – CONFERÊNCIA DE A BERTURA – GILBERTO: A TEORIA C IENTÍFICA E A APROPRIAÇÃO PELA I DEOLOGIA DE


ESTADO.
Presidente da Sessão: José Aparecido de Oliveira (Secretário de Estado dos Assuntos Internaci-
onais de Minas Gerais - Brasil)
Conferencista: Adriano Moreira (Presidente do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino
Superior / Academia Internacional da Cultura Portuguesa / Professor Catedrático da Universi-
dade Técnica de Lisboa)

Coquetel Regional

DIA 22.3 (Q U ARTA-FEIRA)

10H00 – MESA -REDONDA 1 – O MUNDO QUE O PORTUGUÊS C RIOU


Coordenador: Antônio Pedro de Lucena Pignatelle Correa e Aguiar (Cônsul de Portugal no
Recife)
Participantes:
1. Beatriz Jaguaribe – Professora de Literatura Comparada (Universidade Federal do Rio de
Janeiro – Brasil)
2. José Carlos Venâncio – Sociólogo (Universidade da Beira Interior – Covilhã – Portugal)
3. Fernando Alves Cristovão – Professor Catedrático de Literatura Brasileira (Universidade Clás-
sica de Lisboa – Portugal)
4. Ilídio do Amaral – Geógrafo (Universidade de Lisboa – Portugal)

10H00 – MESA -REDONDA 2 – HOMEM, C ULTURA E TRÓPICO


Coordenador: Levy Cruz – Sociólogo (Fundação Joaquim Nabuco – Brasil)
Participantes:
1. Roberto DaMatta – Antropólogo (Notre Dame University)
2. Marcos Chor Maio – Cientista Político (Fundação Oswaldo Cruz – RJ – Brasil)

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3. Toshie Nishizawa – Geógrafo, Ambientalista (Seitoku University – Japão)
4. Marcos Terena (Coordenador Geral dos Direitos Indígenas da FUNAI – Brasília – Brasil)

14H30 – MESA -REDONDA 3 – O LUSO E O TRÓPICO


Coordenador: Antônio da Costa (Presidente do Real Gabinete Português de Leitura – Rio de
Janeiro – Brasil)
Participantes:
1. Cláudia Castelo – Historiadora (Universidade de Lisboa – Portugal)
2. Cecília Westphalen – Historiadora (Universidade Federal do Paraná – Brasil)
3. Narana Coissoró (Vice-Presidente da Assembléia da República Portuguesa / Professor e Vice
Reitor da Universidade Internacional de Lisboa – Portugal)

14H30 – MESA -REDONDA 4 – VIDA, FORMA E C OR


Coordenador: Cesário Melantônio Neto (Ministro-Chefe de Assessoria de Relações Federati-
vas do Ministério das Relações Exteriores)
Participantes:
1. Hanns-Albert Steger – Cientista Social (Universidade de Erlagen Nuremberg – Alemanha)
2. Maria Alice Rezende de Carvalho – Socióloga (IUPERJ – Rio de Janeiro – Brasil)
3. Gilberto Velho – Antropólogo (Museu Nacional – Rio de Janeiro – Brasil)
4. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes – Escritor (Professor da UFCE – Fortaleza – Brasil)

DIA 23.3 (Q UINTA-FEIRA)

10H00 – MESA -REDONDA 5 – I NGLESES NO BRASIL


Coordenador: Diógenes da Cunha Lima – Escritor (Presidente da Academia Norte-Riograndense
de Letras – Natal – RN)
Participantes:
1. Paulo Donizetti Siepieski – Historiador (UFRPE – Recife – Brasil)
2. Peter Burke – Historiador (Universidade de Cambridge – Inglaterra)
3. Maria Lúcia Pallares-Burke – Historiadora (Universidade de Cambridge – Inglaterra)
4. João Hélio Mendonça – Antropólogo (Universidade de Pernambuco / FJN – Recife – Brasil)

10H00 – MESA -REDONDA 6 – AVENTURA E ROTINA


Coordenador: Alberto da Costa e Silva (Embaixador / Diplomata / Escritor – Rio de Janeiro –
Brasil)
Participantes:
1. Guillermo Giucci – Historiador (UERJ – Rio de Janeiro – Brasil)
2. Mary del Priore – Historiadora (USP – São Paulo – Brasil)
3. Ricardo Benzaquen Araújo – Antropólogo (IUPERJ – Rio de Janeiro – Brasil)
4. José Esteves Pereira – Professor Catedrático de Filosofia (Universidade Nova de Lisboa-
Portugal)

14H30 – MESA -REDONDA 7 – REGIÃO E TRADIÇÃO


Coordenador: Carlos José Garcia da Silva (Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco)
Participantes:
1. Giralda Seyferth – Antropóloga (Museu Nacional – Rio de Janeiro – Brasil)
2. Vamireh Chacon – Cientista Político (UnB-Brasília – Brasil)
3. Elizabeth Marinheiro – Escritora (Campina Grande – Brasil)
4. Raul Lody – Antropólogo (Fundação Gilberto Freyre / FUNARTE – Brasil)

14H30 – MESA -REDONDA 8 – UM BRASILEIRO EM TERRAS P ORTUGUESAS


Coordenador: Marcos Formiga – Economista (Superintendente da SUDENE – Recife – Brasil)

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Participantes:
1. Pedro Borges Graça – Historiador / Especialista em Estudos Africanos (Universidade Técnica
de Lisboa – Portugal)
2. Helena Balsa – Jornalista (Rádio e Televisão Portugueses – Portugal)
3. Sebastião Vila Nova – Sociólogo (Fundação Joaquim Nabuco – Recife – Brasil)
4. Manuel Correia de Andrade – Historiador / Geógrafo (Fundação Joaquim Nabuco – Recife –
Brasil)

17H30 – CONFERENCIA 2 – A DÍVIDA DE PORTUGAL PARA COM A O BRA DE GILBERTO FREYRE


Presidente da Sessão: Edson Nery da Fonseca – Escritor / Crítico Literário / Ensaísta.
Conferencista: Joaquim Veríssimo Serrão – Historiador (Professor Catedrático da Universidade
Técnica de Lisboa / Presidente da Academia Portuguesa da História – Lisboa – Portugal)

DIA 24.3 (S EXTA- FEIRA)

9H00 – CONFERÊNCIA 3 – NOVO M UNDO NO HEMISFÉRIO OESTE


Presidente da Sessão: Gustavo Krause – Advogado (Consultor de Empresas – Recife – Brasil)
Conferencista: Ludwig Lauerhass, Jr – Historiador (Universidade da Califórnia – Los Angeles –
EUA)

10H00 – MESA -REDONDA 9 – ORDEM E PROGRESSO


Coordenador: Creuza Aragão (Fundação Joaquim Nabuco – Recife – Brasil)
Participantes:
1. Élide Rugai Bastos – Socióloga (UNICAMP – Campinas – Brasil)
2. Renato Ortiz – Sociólogo / Antropólogo (UNICAMP – Campinas – Brasil)
3. Luiz Felipe Baeta Neves – Antropólogo (UERJ – Rio de Janeiro – Brasil)
4. Olavo de Carvalho – Filósofo (Diretor do Seminário de Filosofia do Centro Universitário do
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil)

10H00 – MESA -REDONDA 10 – SOBRADOS E MUCAMBOS


Coordenadora: Morvan Moreira (Fundação Joaquim Nabuco – Brasil)
Participantes:
1. Alba Zaluar – Antropóloga (UERJ – Rio de Janeiro – Brasil)
2. Carlos Guilherme Mota – Sociólogo (USP – São Paulo – Brasil)
3. Chiyoko Mita – Antropóloga (Universidade de Sofia – Tóquio – Japão)
4. Peter Henry Fry – Antropólogo (UFRJ – Rio de Janeiro – Brasil)

14H30 – MESA -REDONDA 11 – INSURGÊNCIAS E RESSURGÊNCIAS


Coordenador: Nilzardo Carneiro Leão (Vice-Presidente do Conselho Diretor da FJN – Recife –
Brasil)
Participantes:
1. Enrique Rodriguez Larreta – Antropólogo (Universidade Cândido Mendes – Rio de Janeiro –
Brasil)
2. Omar Ribeiro Thomas – Antropólogo (CEBRAP – São Paulo – Brasil)
3. Barbara Freitag – Socióloga (UnB – Brasília – Brasil)
4. Tarcísio Burity – Advogado – Consultor Jurídico (João Pessoa – Brasil)

14H30 – MESA -REDONDA 12 – ALÉM DO APENAS M ODERNO


Coordenador: Clóvis Cavalcanti – Economista (Fundação Joaquim Nabuco – Recife – Brasil)
Participantes:
1. Antônio Dimas – Escritor (USP – São Paulo – Brasil)
2. João Camilo de Oliveira Pena – Professor de Literatura Comparada – (UniverCidade – Rio

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de Janeiro – Brasil)
3. Bruno Tolentino – Escritor (São Paulo – Brasil)
4. Rosa Maria Barbosa de Araujo – Historiadora (Universidade Cândido Mendes – Rio de
Janeiro – Brasil)

18H00 – SESSÃO S OLENE DE E NCERRAMENTO


Presidencia: Marco Antônio Maciel (Vice-Presidente da República Federativa do Brasil – Brasília
– Brasil)

C ONFERÊNCIA 4 – O TEMPO DO TRÓPICO EM GILBERTO FREYRE


Conferencista: Eduardo Portella – Escritor (Academia Brasileira de Letras / Presidente da Fun-
dação Biblioteca Nacional / Presidente da Conferência da UNESCO – Rio de Janeiro – Brasil)

20H00 – RECEPÇÃO DE E NCERRAMENTO


Lançamento nacional do selo comemorativo do Centenário do Nascimento de Gilberto Freyre
– Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos.
Apresentação da Orquestra Sinfônica do Recife.

Comissão executiva

COORDENAÇÃO GERAL: Fátima Quintas

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO


Ana Arruda
Ariane Riveca
Cláudia Braga
Graças Santos
Jan Souto Maior
Leda Rivas
Uiara Wanderley

FUNDAÇÃO GILBERTO FREYRE


Germana Kaercher
Patrícia Kneip

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Realização

Núcleo de Estudos Freyrianos

Promoção: Fundação Gilberto Freyre

Patrocínio: Governo do Estado de Pernambuco e Secretaria de


Cultura/FUNDARPE

Apoio: Governo Federal, Ministério da Educação (MEC), Ministério da


Cultura (MINC), Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
(SUDENE) e Fundação Joaquim Nabuco (FJN).

A união dos esforços dessas instituições possibilitou a realização do


Seminário, pelo que aqui se externa os mais sinceros agradecimentos.

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MESA-REDONDA 1
O M UNDO QUE O P ORTUGUÊS CRIOU

Dia 22 de março
COORDENADOR:
Antônio Pedro de Lucena Pignatelle Correa e Aguiar
Cônsul de Portugal no Recife – Brasil
Assombração e Invenção: a Poética do
Passado em Gilberto Freyre

Beatriz Jaguaribe – jaguar@ax.apc.org


Professora de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de
Janeiro/Escola de Comunicação – Brasil

Modernidade: nostalgia e ruptura A modernidade constrói e desconstrói


seus próprios referentes interpretativos. Ao
Na prateleira, as fileiras de feijoada em lado do afã do progresso e da consciência de
lata. No Barra Shopping, a réplica fake da Pra- ruptura com o passado, há a necessidade de
ça XV, nosso passado colonial, ladeada por ancorar a fugacidade do tempo através de uma
lojas de fast-food e boutiques. Na televisão, o narrativa do passado. A amnésia promovida
rebolado midiático de Valéria Valenssa, a pela cultura do consumo no seu perpétuo
mulata Globeleza, cuja nudez escultural é desfile de novidades tem sua contrapartida na
vestida de pinturas techno e emoldurada pe- rememoração nostálgica que essa própria cul-
los efeitos especiais do seu criador. tura promove. Mas cada cultura contempo-
A vendagem da comida nacional enla- rânea terá não só suas narrativas específicas
tada, o pastiche arquitetônico colonial e o que buscam construir ambos um diálogo en-
samba da mulata midiática nos falam de uma tre o passado e o presente, como também seus
presentificação da cultura na qual o passado ícones míticos que assinalam tanto o impulso
é aniquilado como experiência vivida e da mudança quanto o afã da continuidade.
reimpacotado como mercadoria? Nessa argu- A nostalgia que permeia a revisitação
mentação, o passado seria um gênero e estilo do passado na cultura de consumo assinala
de consumo passível de ser contido na seção um sentimento de desterro ou descompasso
nostalgia das lojas de disco. Nas estantes das com o presente. Nesse veio, o historiador
videolocadoras, ao lado dos filmes classifica- Peter Fritzsche argumenta que a nostalgia
dos como aventura, comédia, romance, eró- pode ser entrevista não apenas como a
tico, haveria outra categoria: passado. Nos sentimentalização piegas do pretérito, mas
lançamentos imobiliários, os já antigos con- enquanto uma consciência crítica. 1 Essa cons-
domínios convivem com shopping centers ciência crítica lança um olhar sobre o passa-
citativos do passado nacional e europeu. E, do mediante seu estranhamento no presen-
finalmente, na telinha, o desfile narrativo do te. As reflexões de Fritzsche são centradas nas
passado nacional em programas televisivos narrativas memorialistas de figuras ilustres da
abrange desde a colônia em A Muralha, à es- pós-Revolução Francesa e não enfocam a pro-
cravidão na famosa telenovela da Escrava blemática da nostalgia na cultura de consu-
Isaura, até em seriados tais como Anos Dou- mo contemporânea. Entretanto, sua
rados e Anos Rebeldes. reavaliação das poéticas da nostalgia
No escoamento do tempo e na complementam o pensamento de antropólo-
mutabilidade das imagens midiáticas, o mo- gos como Arjun Appadurai que examina a fa-
mento presente está sempre prestes a ser des- bricação da "pátina da história" na cultura de
cartado como notícia velha. O impulso da consumo contemporânea. 2 Nesse sentido, a
novidade liquifaz referentes e o passado se cultura da nostalgia não seria apenas uma fal-
fabrica cotidianamente. Na lógica do consu- sa consciência, mas também uma forma de
mo, entre o passado imediato e o passado reaver os desejos coletivos, os sonhos de rea-
antigo há um achatamento. Imagens, objetos lização contidos nos objetos caducos. Tal é o
e eventos flutuam irreais numa galeria pensamento de Walter Benjamin no seu
descontextualizada, ou padecem no depósi- mapeamento das memórias da modernidade
to de lixo, ou se escondem nos brechós poei- nas passagens de Paris.3
rentos ou são valorizados enquanto monu- No âmago da nostalgia melancólica, há
mentos do tempo nas vitrines do museu. a realização de que o passado jamais voltará,

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de que antigos mundos ruíram e o presente jaz em modernidade na colagem do inesperado, na capaci-
fragmentos destroçados. Esse estranhamento do pre- dade de unir tempos diversos num mesmo motivo sim-
sente cristaliza o passado de forma mais desejável do bólico. Leitor assíduo dos surrealistas, Benjamin, como
que o presente. A nostalgia melancólica abraça um se sabe, admirava enormemente o livro de Aragon,
cadáver esfumaçado, vive numa atmosfera de hálitos Um Camponês em Paris. Os passeios de Aragon e os
antigos e tateia o presente sem palavras para defini- devaneios de Breton por Paris enfatizam um ponto
lo. Há uma assombração, mas esta conversa com os singular. O surgimento de uma nova mitologia do co-
mortos não altera o fato de que o tempo morto jamais tidiano moderno e a revisitação do passado enquan-
voltará e que, quando o último testemunho do preté- to estranhamento. No brechó, no mercado de pul-
rito morrer, este mundo cessará de existir. Ou seja, os gas, nas galerias vetustas das passagens, os objetos
fantasmas vetustos são conhecidos, são espíritos da caducos falam aos surrealistas de uma poética de pas-
memória, uma memória individual e geracional. sado que irrompe novamente no presente.
Em contraposição à essa nostalgia melancólica, Sabemos como a revolta vanguardista foi do-
o século XIX foi pródigo na industrialização da feliz mesticada. A vertente futurista em imaginários técni-
rememoração do passado. Aqui, ao lado das falsas cos-publicitários e o maravilhoso surreal em clichês
ruínas que desde o século XVIII garantiam a "pátina batidos do estranhamento. Uma visita contemporâ-
da história" para os proprietários rurais, temos, para nea aos recantos históricos europeus frustra qualquer
os menos abastados, a fabricação dos souvenirs. As caçador de fantasmas. Mediante a massa compacta
louças comemorativas do jubileu da rainha Vitória, o de turistas acotovelando-se nos corredores históricos
cartão-postal da viagem e a revisitação dos estilos do é impossível assegurar um espaço mínimo para a co-
passado nos edifícios do presente. O kitsch na apro- reografia fantasmagórica. Isso sem mencionar os shows
priação de símbolos de arte ou status do passado, agora de som e luz que recriam passados virtuais, em horá-
feitos em versão barata para o deleite da pequena rios previstos, para os pagantes de ingressos. A indús-
burguesia. E o pastiche da repetição do passado com tria de souvenirs e o comércio fazem das pequenas
os materiais do presente na tentativa de forjar um con- cidades européias shopping malls ao céu aberto. Os
tínuo temporal. Nesses objetos aconchegantes, o pas- museus não são mais os cemitérios como sentencia-
sado volta suavizando a aridez do presente como numa ram os futuristas. Os museus são centros de exibição
filmagem escapista. cultural onde o passado é lançado novamente em
Mas este passado não é o passado da ruptura exposições diversas.
presente na nostalgia melancólica. Este passado ofe- Mas isso significa que no umbral do século XXI
rece um alívio semelhante à excitação produzido pelo iremos viver somente no virtualizado mundo
exótico e à felicidade promovida pela publicidade do baudrillariano do simulacro e não mais no mundo dos
futuro. Numa sala de estar européia do final do sécu- velhos fantasmas? A assombração histórica do passa-
lo XIX, podemos colocar as louças do jubileu da rai- do terminou e estaríamos, pelo menos no Primeiro
nha ou de outra figura oficial, a reprodução de qua- Mundo, vivendo uma nova realidade da tecnologia
dros orientalistas de Alma Tadema e o panfleto virtual, da experiência sempre voyeurística porque
anunciando os benefícios das novas máquinas para o interceptada pela maquinária virtual, dos corpos que
conforto do lar. se comunicam como espíritos na internet sem nunca
Entretanto, o tempo deposita uma "pátina da se encontrarem, da realidade fagocitada pelas ima-
história" aos objetos inicialmente tidos como corriquei- gens?
ros e banais. Assim, essa prateleira dos clichês do final Isso nos traz novamente às imagens da cultura
do século exala uma atmosfera única das memórias nacional suscitadas no início deste ensaio: o samba
de uma modernidade. O olhar da melancolia alegóri- "efeito especial" da Globeleza, a feijoada em lata e a
ca que Walter Benjamin tece sobre esses resíduos do maquete fake da arquitetura colonial. A cultura naci-
passado são do historiador que recolhe os sonhos do onal como mercadoria não oblitera manifestações
cotidiano. 4 A banalidade dos objetos ultrapassados culturais vivenciadas no dia-a-dia. Existem milhares
denota as aspirações coletivas daquele momento his- de mulatas anônimas sambando nos carnavais do Bra-
tórico. Esse olhar, portanto, também possui uma den- sil afora, a feijoada feita em casa e o velho casarão
sidade arqueológica. A escavação de parentescos e em ruínas nos falam da continuidade de práticas cul-
correspondências entre objetos díspares. As passagens turais. Mas o que tornam relevantes esses ícones da
de Paris prestes a ruírem sob a pressão da especula- cultura nacional em sua versão mercadoria é o efeito
ção imobiliária são entrevistas como as catacumbas silenciador e anestésico dos domínios do consumo.
de Pompéia. Mas, em diálogo direto com o inusitado Parece-me particularmente interessante ressaltar a fi-
surrealista, a alegoria de Benjamin revela a gura da mulata como alegoria do corpo nacional. Seu

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corpo sintetiza a ambigüidade entre a Niemeyer. 6
espetacularização do nacional e a conturbada traje- A inovação modernista, portanto, não descar-
tória histórica brasileira. No rebolado da Globeleza tou o passado mas o congelou na monumentalização
não há possibilidade de assombração. Seu corpo patrimonial ou o renegou enquanto legado escravista,
mestiço remonta a uma trajetória histórica colonial – caudilhismo político e colonialismo imitativo. Tanto
a miscegenação racial entre europeus e africanos. Mas, na sátira modernista quanto nas diversas ideologias
na superfície da televisão e na lisura das fotografias, o da modernização brasileira que surgiram em diferen-
que captamos é uma nova versão da alegria carnava- tes versões desde meados do século XIX, o presente
lesca que perde espessura e suor na vinheta fugaz.5 deveria ser diverso do passado para marcar a quebra
entre modorra rural e inovação citadina; atraso cultu-
Poética da assombração ral e cosmopolitismo; subdesenvolvimento e desen-
Nas páginas a seguir quero enfocar como a in- volvimento.
terpretação do passado, na obra extremamente rica Na apropriação surreal que mencionamos an-
de Gilberto Freyre, sugere uma poética da assombra- tes, o passado ressuscita como estranhamento,
ção. Essa poética da assombração inspira uma visão desestabilizando o presente. Semelhantes às imagens
da história, um ethos cultural e uma relativização da estocadas no inconsciente, o passado é reprimido e
modernidade. Ao pensarmos na contribuição excep- irrompe à tona provocando o inusitado. O passado
cional de Freyre na década de 30, pontuada pela apa- não se perfila como continuidade de práticas sociais,
rição de Casa-Grande & Senzala, em 1933, e de So- mas como uma aparição no mundo do novo, no âm-
brados e Mucambos , em 36, vemos como sua bito do moderno, na fantasmagoria das mercadorias.
percepção do passado difere da invenção modernis- André Breton olfateia os mortos nas praças de Paris,
ta dos paulistas Mário e Oswald de Andrade. Com Aragon escuta palavras dos lábios marmóreos das es-
isso não negligencio a diferença fundamental entre a tátuas e Max Ernst coloca o absurdo em suas colagens
pesquisa socioantropológica de Freyre e a proposta de atmosferas decorosas vitorianas – o torso de imen-
vanguardista de construção de um novo vocabulário sa mulher nua, os seios descobertos contrastando com
estético nos modernistas paulistas. Tampouco o educado coque, emerge da biblioteca de ilustre ca-
desconsidero as diferencas estéticas entre Mário de valheiro. Este a contempla como se ela fosse mais uma
Andrade e Oswald de Andrade. Entretanto, ambos lombada de seus livros.7
partilharam um entusiasmo pelas rupturas da vanguar- Nem modernista nos sentidos de Mário e
da, buscaram decifrar o novo mundo maquinico e Oswald de Andrade e nem surreal, a vivência do pas-
inventaram o primitivismo vanguardista literário bra- sado em Freyre possui algumas analogias com a visão
sileiro. Assim com Gilberto Freyre, tratavam o passa- do real maravilhoso do escritor cubano Alejo
do recente da retórica ornamental bacharelesco e o Carpentier. 8 O real maravilloso para Carpentier era a
imitativo da arquitetura belle époque com repulsa e expressão transcultural da fusão entre os legados eu-
chacota. O tupi tangendo um alaúde, o canibal de- ropeus, africanos e indígenas em novas construções
vorando máquinas e a paisagem brasileira pintada arquetípicas. No busto de Sócrates cultuado como um
no quadro técnico-naïf de Tarsila são alguns ingredi- Orixá dos bosques, na construção da fortaleza imi-
entes desta nova agenda. Por outro lado, a viagem tando Versalhes pelos escravos rebeldes no Haiti.
dos modernistas à Ouro Preto e a redescoberta e va- Exemplos que nos evocam as Nossa Senhoras e Anjos
lorização do colonial por parte de Mário de Andrade, Amulatados de Freyre. Entretanto, na literatura e na
dos intelectuais do patrimônio histórico e do arquite- produção ensaística de Carpentier, o real maravilloso
to modernista, Lucio Costa, revelam um apreço pelo se estagna num certo imobilismo cultural. Sobretudo,
barroco enquanto repositório de uma autenticidade a configuração arquetípica se constrói mediante a
cultural. Essa autenticidade se configura no patrimônio revisitação a um ponto de origem, os passos perdidos
histórico da edificação barroca, na colheita do folclo- do encontro colonial. Falta intimidade e subjetivida-
re e costumes brasileiros e na tentativa de construir de na orquestração desta visão da história como um
no "novo" da arquitetura modernista uma nova fun- embate entre configurações míticas e mutações histó-
dação nacional. Os azulejos que adornam o Palácio ricas.
Gustavo Capanema, antigo Ministério da Educação e Na escrita de Freyre o passado se atualiza como
da Saúde no Estado Novo getulista, deveriam ser do presença que anima e permeia o cotidiano pessoal e
mesmo azul dos azulejos portugueses do Outeiro da coletivo. Vendo o tabuleiro de doces das baianas no
Glória. Em Brasília, a tábula rasa da cidade modernis- centro velho de Salvador, observando o cafuné e es-
ta no planalto relembrava, tenuemente, o passado cutando a cadência dos diminutivos na fala brasileira,
colonial nas formas curvilíneas dos edifícios de Freyre relembra as origens da fundação patriarcal e as

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práticas da cultura sincrética. Não há o estranhamento blinha a reação de Lucio Costa diante das casa velhas
surreal do insólito, tampouco existe a noção moder- de Sabará, São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana,
nista do resíduo do passado incongruente, mas aflora das velhas casas-grandes de Minas e cita as palavras
a percepção da matéria plástica da identidade que se do arquiteto: "A gente como que se encontra...E lem-
sedimenta e transforma nas configurações do que bra de cousas que a gente nunca soube, mas estavam
poderíamos chamar de modernidades alternativas. lá dentro de nós; não sei, Proust devia explicar isso
Freyre poderia ter feito suas as palavras de Joaquim direito."12 Niemeyer chega, inclusive, a mencionar sua
Nabuco quando este expressa: "Os filhos de pesca- saudade das velhas casas que guardam memórias e
dores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das vivências: "Uma das coisas que marcam nossa vida de
areais da praia e ouvirão o ruído da vaga. Eu, por ve- forma inesquecível são as casas onde nós moramos.
zes, acredito pisar a espessa camada de canas caídas O ambiente familiar nelas vivido, os problemas en-
da moenda e escuto o rangido longínquo dos grandes frentados pela vida afora... E uma vontade de voltar
carros de bois..."9 Se Gilberto Freyre não teve a vivência atrás, de outra vez viver aqueles velhos tempos, leva-
de infância do engenho de cana-de-açúcar evocado nos a lembrar as casas antigas que, da juventude à
por Nabuco, reteve essa memória como parte de um velhice, nos deram abrigo. Algumas já desaparecidas,
repertório de identidade histórica. outras resistindo ainda, como nós, batidas pelo tem-
Digamos que existem várias "madeleines" po, com as suas paredes sem o antigo vigor, os pisos
proustianas de veio histórico e subjetivo na narrativa em desníveis e os telhados ou lajes vencidos pelas in-
da fundação nordestina de Freyre. Essas epifanias do filtrações inevitáveis."13 A "vontade de viver aqueles
passado animam uma poética de espaços e corpos velhos tempos" em nada altera a realização de que os
que se inscrevem numa trajetória cultural. Essa traje- velhos tempos não voltam e que as casas modernistas
tória cultural brasileira, relembrada desde a casa-gran- criadas na novidade eram parte de um projeto
de ou do sobrado semi-patriarcal, nos coloca diante transformativo de Brasil.
de um dilema central de automodelação escindida Creio que nenhum pesquisador no Brasil tenha
entre amos e escravos. Tendo despendido enorme sido capaz de dar tanto sabor e relevo às correspon-
energias de sua vida pública em prol da abolição da dências entre espaço arquitetônico e moldagem cor-
escravidão, Joaquim Nabuco rememora, em sua au- poral e subjetiva como Freyre. Recriou para si o so-
tobiografia, Minha Formação, sua "nostalgia do escra- brado em Apipucos e soube como ninguém conversar
vo". Com isso, Nabuco não quis sublinhar as sauda- com os fantasmas, os mortos de sobrecasaca, as sinhás
des do ganho econômico proporcionado pelo trabalho engaioladas detrás de gelosias.
escravo, mas a nostalgia de uma gratuidade afetiva Na sua análise da sociologia da assombração
daqueles que nada possuíam. Amamentado pelo "lei- nos Estados Unidos, Avery Gordon enfoca o mundo
te preto", Nabuco torna-se o libertador redentor. O sem densidade da vivência suburbana onde seres
término da escravidão implica a cessação desta desenraizados habitam suas casas com "f urniture
automodelação libertadora de Nabuco. Embora de- without memories". 14 Para Gordon, a assombração e
sejoso de ser um cidadão do mundo e ciente dos avan- a figura do fantasma são "uma figura social... sua in-
ços técnicos expressos nas palavras: "Sou antes um vestigação nos leva ao local onde a história e a subje-
espectador do meu século do que do meu país: a peça tividade constroem a vida social". Gordon julga que
é para mim a civilização e esta se está representando há uma tendência, na narrativa ficcional e sociológica
em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo americana contemporânea, em enfatizar a
telegráfo", Nabuco não renega uma linhagem pater- hipervisibilidade do pós-moderno como sendo: " a
na. Ao contrário, sua grande obra, Um Estadista no realidade estruturada televisivamente, a
Império, é dedicada à figura do seu pai. 10 Para as ge- commodificação do mundo cotidiano, a falta de sen-
rações modernistas das vanguardas dos anos 20 e 30, tido e a onipresença da informação infinita, o fascínio
o legado brasileiro anterior não oferecia o instrumen- inexóravel com catástrofes e o anúncio da morte do
tal crítico e nem os códigos estéticos para forjar uma autor, do referente e da realidade objetiva emoldura-
nova consciência nacional. da pelas imagens que tecem a conexão eletrônica
Quanto aos arquitetos Lucio Costa e Oscar entre a vida, morte, sexo".15
Niemeyer, construtores do novo ethos arquitetônico Gordon problematiza essa imagem totalizadora
brasileiro, a memória do passado se registra nas des- do pós-moderno buscando uma espessura de história
crições das casas da infância e no apreço pelo legado que estilhaça os domínios da virtualidade americana
barroco. Lucio Costa relembra em Registro de uma com as poeiras e os vestígios incômodos do passado
Vivência suas moradas européias.11 Em seu prefácio à nacional. Contra essa realidade do subúrbio
primeira edição de Casa-Grande & Senzala, Freye su- desmemoriado, Gordon aciona o espectro da escra-

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vidão. Os espectros do passado escravocrata ameri- da pesquisa da história que anima a escrita de Gilber-
cano emergem como vítimas exigindo reparações. Há to, pois: "Estudando a vida doméstica dos antepassa-
uma divisória intransponível entre brancos e negros, dos sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro
vítimas e opressores. Nessa dialética americana do amo meio de procurar-se o tempo perdido. Outro meio
e do escravo, as posições são de permanente con- de nos sentirmos nos outros – nos que viveram antes
frontação. Uma das debilidades da análise da soció- de nós; e cuja vida se antecipou à nossa. É um passa-
loga americana é sua moralização dos contrastes en- do que se estuda tocando em nervos; um passado
tre brancos e negros no processo histórico em que que emenda com a vida de cada um; uma aventura
não há uma discussão das ambigüidades sociais e de sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa
identitárias que são fabricadas na tessitura do contá- pelos arquivos."18 Nessa versão, a assombração se
gio cultural. Os espectros negros são vítimas que exi- manifesta em crenças, sabores, práticas, muitas vezes
gem reparações. inconsciente, do passado no presente. A ambigüida-
Na poética do passado gilbertiana, podemos de dessa presentificação do passado no presente se
distinguir pelo menos duas formas distintas de assom- refere às origens escravocratas deste mesmo passado
bração. A primeira se refere à assombração no seu e da superação da dialética do amo e escravo através
literal como sendo a aparição insólita dos mortos no da valorização da cultura híbrida e do contágio. Um
mundo dos vivos. Freyre cita exemplos deste imagi- contágio que tem como cenário os trópicos. A pró-
nário da assombração no mundo patriarcal. As moti- pria prosa sensorial de Gilberto nos envolve no
vações da aparição dos fantasmas ou da movimenta- mormaço deste calor tropical: "É uma natureza, essa
ção de objetos por espectros invisíveis são as injustiças, dos trópicos, a espreguiçar-se toda pelo chão
seja na forma de roubo, suplício ou crime, que foram dolemente e a intoxicar-nos dum como suor viscoso
cometidas contra eles. O culto aos mortos ativando de sexualidade. No meio dela o puro pensar é como
este mesmo imaginário da assombração, pois: "Abai- uma tortura de virgindade de adolescente. De virgin-
xo dos santos e acima dos vivos ficavam, na hierar- dade supliciada. E aqui só os heróis pensam. E são
quia patriarcal, os mortos, governando e vigiando o ainda heróis os que se interessam pelas idéias. Há al-
mais possível a vida dos filhos, netos, bisnetos. Em guma coisa de heróico em ler um soneto de Mallarmé
muita casa-grande conservaram-se seus retratos no ou uma página de Browning ou de Lessing à sombra
santuário, entre as imagens dos santos, com direito à maternal de uma jaqueira".19 Mas a obra de Freyre é
mesma luz votiva de lamparina e às mesmas flores um pensar nos trópicos que se sobrepõe ao espregui-
devotas. Também se conservavam às vezes as tranças çar "Ah, que preguiça" de Macunaíma, herói sem ne-
das senhoras, os cachos dos meninos que morriam nhum caráter, como também se esquiva do
anjos."16 Adiante esclarece: "Os dois fortes motivos das emparedamento do europeizado solitário, do herói
casas grandes acabarem sempre mal-assombradas, romântico agônico, do positivista categórico, do inte-
com cadeiras de balanço se balançando sozinhas so- lectual frustrado, e do importador das "idéias fora do
bre tijolos soltos que de manhã ninguém encontra; lugar".20 O desafio de pensar no trópicos implica en-
com barulho de pratos e copos batendo de noite nos tender o passado no presente, inovar na tradição e
aparadores; com almas de senhores de engenho apa- unir o abstrato ao concreto, o sexo ao pensamento.
recendo aos parentes ou mesmo estranhos pedindo Nessa recuperação e invenção, a paisagem tropical
padres-nossos, ave-marias, gemendo lamentações, ganha signos culturais. Ela não é somente o receptá-
indicando lugares com botijas de dinheiro. ...Noutras culo das afetividades carentes de história e cultura,
casas-grandes só se têm desencavado do chão ossos como delineiou Nabuco, mas uma tapeçaria cultural
de escravos, justiçados pelos senhores e mandados resultante da confluência de vários legados.
enterrar no quintal, ou dentro da casa, à revelia das Ao dotar essa paisagem tropical de valor cultu-
autoridades. ...Os mal-assombrados das casas-gran- ral e histórico, Freyre também a povoa de fantasmas.
des se manifestam por visagens e ruídos que são qua- Fantasmas visíveis em plena luz tórrida sob a forma
se os mesmos por todo o Brasil. ...Eram barulhos de da encenação do passado no presente e fantasmas da
louça que se ouviam na sala de jantar; risos alegres e escuridão saídos dos porões das casas-grandes, do
passos de dança na sala de visita; tilintar de espadas; tronco, das camas de parto, dos confessionários.
ruge-ruge de sedas de mulher; luzes que se acendi- Na narrativa dessa fundação da erótica inter-
am e se apagavam de repente por toda a casa; gemi- racial, há uma desestabilização e, ao mesmo tempo,
dos; rumor de correntes se arrastando; choro de me- uma hierarquização das polaridades entre brancos e
nino; fantasmas do tipo cresce-míngua."17 negros. Essa erótica possui várias tonalidades narrati-
A outra manifestação da assombração é mais vas. Freyre sublinha, diversas vezes, o caráter sádico e
metafórica, mais palpável e mais ambígua. Ela é parte cruel das relações sociais no Brasil. Degradação terrí-

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vel inerente ao próprio sistema escravista onde seres breia o mundo da fazenda de café numa agonia da
humanos são transformados em objetos. Nesse con- irreconciliabilidade já que ela era um mediadora mítica
texto, dá-se a crueldade e o sadismo no estupro da entre a casa-grande e a senzala. Chamada para subs-
escrava negra pelo amo, nos ciúmes e vinganças da tituí-la, sua irmã mais velha, Carlota, não consegue
sinhá sobre a mucama, no abuso do homem branco assumir os contornos míticos da menina adorada. A
sobre a mulher branca e, finalmente, na tirania dos morte da menina paira sobre um mundo rural em
adultos sobre a criança. Por outro lado, celebra, nes- ruição. Sobretudo, sua morte torna visível o que an-
se quadro de degradação, a acomodação cultural en- tes era abafado na retórica da afetividade. Para a ma-
tre casa-grande e senzala, entre sobrados e mucambos. nutenção da ordem sobre o verniz da
Oferece narrativas que retratam como a cultura do consensualidade, era preciso ter a filha submissa ex-
escravo negro penetrou e alterou o legado ibérico do pressando carinho, a esposa dominada demonstran-
amo. A figura fortemente erotizada da mulata do devoção e o escravo explorado cantando alegrias.
condensa ambas narrativas: o suplício e o deleite. No seu estranhamento de mundo, na sua recusa em
Numa colagem contemporânea poderíamos assumir os contornos afetivos da menina morta e na
relacionar a mulata carnavalesca da erótica e da ale- sua impossibilidade de perpetuar o legado paternal
gria nacional com a mulata supliciada. A Globeleza e escravocrata, Carlota sofre uma conversão negativa:
a Escrava Anastácia. Ou seja, a escrava Anastácia como "...ergueu a cabeça e todo o seu corpo vibrou com
uma assombração atual desse legado trágico e surda e irreprimível alegria, e a convicção inescrutável
expoliativo da escravidão. Em sua configuração con- de que espalhava a morte e a ruína em torno dela a
temporânea, a Globeleza oferece a versão midiática encheu de sinistro orgulho".21 Carlota aniquila seu
da pasteurização dos consagrados clichês nacionais: papel de sinhá, de dona de escravos, de senhora da
o exótico, o erótico, a alegria. Mas, na trajetória que casa-grande e com isso declara: "Eu é que sou a ver-
leva à sua invenção, temos uma itinerário povoado dadeira menina morta – eu é que sou essa que pesa
de fantasmas. Entre estes está a escrava Anastácia. Na agora dentro de mim com sua inocência perante
Praça de Benfica, no Museu que leva seu nome em Deus... Aquela que morreu e se afastou, arrancando
Madureira e no modesto salão do Museu do Negro, do meu ser o seu sangue para desaparecer na noite,
anexo à Igreja do Rosário no centro do Rio de Janei- não sei mais quem é... e a mim me foi dada a liberda-
ro, o busto da escrava Anastácia enfatiza seu suplício. de, com sua angústia, que será minha força".22
O busto é de gesso colorido e nos retrata uma jovem Desfechos diversos para o legado escravocrata.
mulher negra com olhos azuis. Olhos espantosamen- A encenação da plasticidade cultural na aproximação
te azuis na pele escura de um rosto sem boca. A boca e no contágio, na fundação miscigenadora, na sexua-
encontra-se amordaçada por uma máscara de flandres lidade inter-racial, na invenção da mulata. E o confli-
e a garganta enlaçada por uma gargantilha de ferro. to social e inter-racial expresso pela reivindicação da
Essa assombração contida na figura da escrava liberdade individual ou coletiva contra as hierarquias
criou impasses ficcionais para a fabricação do roman- do poder.
ce fundador nacional no século XIX brasileiro. Vemos Por último, a assombração do passado no mun-
como, em José de Alencar, o mito da fundação nacio- do das imagens midiáticas e dos anseios de consumo.
nal é realizada através da romantização do par con- Nem todos os fantasmas que ressurgem das sombras
quistador português e indígena. Já romances são vítimas caladas pela história. Muitos espectros se
abolicionistas como A Escrava Isaura, de Bernardo atualizam nos caudilhos políticos, nas práticas
Guimarães, têm o cuidado de empalidecer a heroína patrimonialistas, na violência e na impunidade. Mas,
escravizada ao ponto de, seus dedos, de tão alvos, se no mundo da assombração, há o reencantamento do
confundirem com as teclas de marfim do piano. cotidiano e a intensificação da experiência. A mítica
Coube a Cornélio Pena, com o romance Meni- mulata, a escrava Anastácia atrai milhões de fiéis em
na Morta, escrito em 1954, retratar os conflitos inter- busca de dádivas. Sua saga romanceada foi tema de
nos do sistema escravocrata numa fazenda no Vale minissérie. A escrava Anastácia adquiriu assim maior
do Paraíba no final do império. O livro de Pena ofere- visibilidade e multiplicou seu valor no mercado. Ao
ce um precioso diálogo com a obra de Freyre uma lado da venda de sua oração e das réplicas de seu
vez que ele irá postular impasses na relação amo-es- rosto supliciado, houve também a audiência televisiva.
cravo que cancelam a possibilidade de uma fundação No recanto discreto do Museu do Negro, seu busto é
nacional. Menina Morta é um romance anti-fundador coroado por fotografias daqueles que foram agracia-
da assombração. Sua história se centra na dissolução dos. Nessas imagens, rígidos retratos em três por qua-
do mundo escravocrata após a morte da menina ado- tro, fotos coloridas de cenas familiares felizes ou foto-
rada, filha do fazendeiro. A morte da menina som- grafias de posse mostrando a conquista do objeto

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24
almejado, há uma epifania da identificação e da su- 13
Ver o livro de Marcos Sá Correa, Oscar Niemeyer, Rio de Janei-
peração. A escrava Anastácia, que estudiosos afirmam ro, Relume Dumara,1996, p. 56.
14
Ibid, 5, p. 4 e p. 8.
nunca ter existido, encarna um mito: o mito da liber- 15
Ibid, 5, p. 14.
dade, generosidade e transcendência pairando aci- 16
Ver Casa-Grande & Senzala, p. lix.
ma das torturas da história.23 A assombração do so- 17
Ibid, p. lxi.
frimento e sua redenção. O reencantamento do 18
Ibid, p. ixv.
mundo no diálogo pós-mortem entre vivos e mortos, 19
Ver Gilberto Freyre, em Diario de Pernambuco, 07/10/23.
brancos e negros, homens e mulheres. 20
Para uma discussão sobre a importação de idéias européias pela
elite brasileira do império ver o famoso ensaio de Robert Schwarz,
_______________________ " As idéias fora do lugar", em Ao vencedor as batatas, São Paulo,
Duas Cidades, 1977.
Notas 21
Ver Cornélio Pena, Menina Morta, em Romances Completos,
Rio de Janeiro, Aguilar, 1958, p. 1278.
1
Peter Fritzsche, "Nostalgia as Exile: The Culture of Displacement 22
Ibid, p. 1296.
and the narrative of History" (inédito). 23
Sobre a ficcionalidade da escrava Anastácia ver as declarações
2
Ver Arjun Appadurai, em particular, o capítulo " Consumption,
de Monsenhor Guilherme Schubert, Escrava Anastácia, no Jornal
Duration and History", em Modernity at Large:Cultural Dimensions
of Globalization, Minneapolis, University of Minnesota Press, 1996, do Brasil, 1987, p. 11.
ps. 66-85.
3
Para uma discussão sobre as relações entre assombração,
modernidade e cidade, ver o belo ensaio manuscrito de Kevin
Hetherington, City, Ruin, Ghost: Towards a Theory of Disclosure.
4
Para uma discussão sobre Walter Benjamin e as fantasmagorias
do consumo ver o importante livro de Susan Buck Morss, The
Dialectics of Seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project,
Cambridge, The MIT University Press, 1993.
5
Em seu livro Ghostly Matters: Haunting and the Sociological
Imagination, sobre a fenômeno da assombração enquanto evento
social, a socióloga americana Avery Gordon ressalta a negação do
assombramento na cultura televisiva suburbana americana. Em
contraste ao mundo desmemoriado da virtualidade, Gordon sele-
ciona romances específicos da escritora afro-americana Toni
Morrison e da escritora argentina Luisa Valenzuela como ficções
que problematizam a memória histórica ao evocar as feridas pro-
fundas e os traumas do passado desenterrado. A escravidão ame-
ricana e os desaparecidos na ditadura militar argentina são os exem-
plos escolhidos para configurar um sociologia da assombração.
No seu sentido metafórico, a assombração traz à tona figuras do
passado cujos conflitos foram soterrados, mas não resolvidos. Para
Gordon, o espectro da escravidão se enfiltra nas relações raciais
americanas e os corpos desaparecidos ombreiam a história recen-
te da Argentina. Ver Avery Gordon, Ghostly Matters: Haunting and
the Sociological Imagination, Minneapolis, University of Minnesota
Press, 1997.
6
Para uma discussão sobre a relação modernista com o passado
nacional, ver o livro de Lauro Cavalcanti, As Preocupações do Belo,
Rio de Janeiro, Taurus, 1995. Para um excelente estudo e fontes
documentais sobre o debate cultural em torno do edifício da Edu-
cação e da Saúde, ver o livro imprescindível de Maurício Lissovsky
e Paulo Sérgio Sá, As Colunas da Educação, Rio de Janeiro, Edi-
ções do Patrimônio, 1996.
7
Para uma discussão sobre o estranhamento surreal ver o livro de
Hal Foster, Compulsive Beauty, Cambridge, The MIT University
Press, 1995.
8
Ver os ensaios literários de Alejo Carpentier em La nueva novela
latinoamericana en vísperas de un nuevo siglo, México, Siglo
Veintiuno.
9
Ver a autobiografia de Joaquim Nabuco, Minha formação, Brasília,
Editora da Universidade de Brasília, 1981, p. 130.
10
Ibid, p. 108.
11
Ver Lucio Costa, Registro de uma vivência, São Paulo, Impremsa
das Artes, 1997.
12
Citado em Gilberto Freyre, prefácio à primeira edição de Casa-
Grande & Senzala, Rio de Janeiro, Record, 1992, p. lxv.

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A Cultura Lusófona, uma Cultura
Ameaçada?

Fernando Alves Cristóvão


Professor Catedrático de Literatura Brasileira da Universidade Clássica de
Lisboa – Portugal

A notável capacidade de antecipação no perigos que, tanto na frente internacional,


entendimento dos fenómenos sociais e políti- como no interior do próprio Brasil, ameaça-
cos manifestada por Gilberto Freyre está cla- vam ou tentavam pôr a ridículo a cultura luso-
ramente patente na sua conferência de 1940, brasileira para a enfraquecer ou anular.
Uma Cultura Ameaçada: a Luso-Brasileira,
ponto de convergência de toda a sua obra A ameaça dos imperialismos do século XIX
construída ao longo de quase setenta anos. Não foi esse alarme o primeiro.
Apelidamos essa conferência de ponto Antes dele, e pelas mesmas razões, nos
de convergência, dirigindo para ela também finais do século XIX, outros grandes vultos da
a obra escrita posteriormente a essa data, por- história brasileira lançaram alertas ainda mais
que as idéias ali expostas constituem como veementes que o de Gilberto Freyre: Graça
que uma summa de todas as reflexões sobre Aranha, no romance Canaã 1, e Sílvio Romero,
a colonização portuguesa do Brasil e sobre os em notável conferência intitulada O Elemen-
diversos tipos de relacionamento da cultura to Português no Brasil 2, proferida no Rio de
luso-brasileira com as outras culturas, no con- Janeiro.
texto lusófono e mundial. Observando as movimentações políti-
Seja-me permitido, por coerência para cas das grandes potências européias depois
com a obra de Gilberto, tornar extensiva a das duas Conferências de Berlim, Sílvio
todo o mundo lusófono atual essa interroga- Romero alertava brasileiros e portugueses para
ção de 1940: será a cultura lusófona uma cul- as ameaças dos novos imperialismos sobre as
tura ameaçada? nações pequenas ou pouco desenvolvidas,
Interrogação essa que julgamos legíti- considerando que tanto o Brasil como Portu-
ma, embora seja diferente o teor lusófono das gal estavam ameaçados pela "segunda parti-
nações africanas que foram colônias portugue- lha do mundo": "Nossas regiões do Amazo-
sas, em relação ao Brasil, pois o que está em nas, do Madeira, do Purús e do Acre sentem
causa não são, diretamente, territórios e ri- arregalados enormes olhos sobre elas em
quezas analisáveis quantitativamente, mas os nome dessa brutalidade da força do marco e
laços culturais e históricos que unem os sete da libra esterlina" (p. 23).
países, criando redes de sentimentos e soli- E quanto a Portugal: "o heróico Portu-
dariedades com inevitáveis repercussões so- gal, que também faz parte das nações peque-
ciais e políticas. nas, também pertence ao grupo dos ameaça-
E também porque a História está a de- dos, quando não diretamente, nas suas plagas
monstrar que algumas ameaças que no pas- européias, de modo inequívoco em suas co-
sado pairaram sobre o Brasil não são muito lônias da África" (p. 3).
diferentes das que atingiram, e ainda conti- Com efeito, desde o final do século XVIII
nuam a atingir, do mesmo modo, Portugal e que se generalizou a cobiça imperialista das
as nações africanas. grandes potências, especialmente da Alema-
Até com o objetivo de tirarmos algumas nha e da Inglaterra.
ilações possivelmente válidas para toda a Depois que a Rússia, em 1877 e 1878,
Lusofonia, apesar de ela ainda estar a dar os invadiu a Turquia, apagando grande parte da
primeiros passos. sua influência nos Balcãs pelo tratado que lhe
Em 1940, em plena Segunda Guerra impõe, tudo começou a movimentar-se.
Mundial, Gilberto Freyre lançou o alerta pre- As outras potências européias não acei-
cavendo brasileiros e portugueses contra os taram o tratado, tendo-se realizado então uma

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grande conferência em 1878 para regular o diferendo, ricaturas e teatro de Raul Pompéia, fazendo o mesmo
sob mediação e liderança da Alemanha de Bismark, em relação aos portugueses e seus governantes.
que, logo ali, começou a mostrar as suas ambições, Coragem notável de historiador que sabe des-
somadas às dos outros parceiros europeus. trinçar entre o essencial e o acessório, ou de homem
Ambições essas que tomariam grande amplitu- de Estado a quem não perturbam as pequenas quere-
de na Conferência de Berlim de 1878, também sob a las internas.
liderança de Bismark, e que dividiu a África em várias Coragem e sentido de antecipação, quer ao pre-
zonas de influência segundo regras e princípios que ver a formação de blocos de nações para atuação
pretendiam regular as ocupações territoriais, dando política comum, quer ao perceber, ainda antes de
por não definitivas as anteriores, e abrindo as portas a Fernando Pessoa e dos filólogos em geral, a impor-
todas as cobiças. tância decisiva de uma língua como eixo fundamen-
Dessas decisões de um "imperialismo ávido e tal de culturas, para além de reivindicar para a língua
turbulento que se apoderou da orgulhosa Europa" saiu portuguesa o lugar que só agora lhe começa a ser re-
Portugal gravemente prejudicado e fragilizado, relati- conhecido.
vamente aos seus territórios africanos. São palavras suas, recorde-se, em 1902: "Bas-
Ao identificar os efeitos dessas políticas e o que taria o fato extraordinário, único, inapreciável, trans-
elas constituíram de ameaça para o Brasil, Sílvio cendente, da língua, para marcar ao português o lu-
Romero lamenta os "grandes erros" cometidos duran- gar que ele ocupa em nossa vida, em nossas letras,
te o século anterior, preconizando o regresso ao espí- em nossas aspirações; bastaria a língua para definir-
rito da colonização dos três séculos passados portu- nos e extremar-nos de quaisquer concorrentes estra-
gueses, "cujo espírito foi outro e a cujos ensinamentos nhos que porventura sonhem embaraçar-nos em nossa
é preciso, é indispensável voltar, no intuito de conser- marcha. Ela, só por si, na era presente, serve para in-
var, preponderante, ileso, inapagado o caráter funda- dividualizar a nacionalidade" (p. 12).
mental de principal fator de nossa formação" (p. 8), E, com uma visão algo profética do que viriam
concluindo: "Nossa tese é: da conveniência de forta- a ser cinqüenta anos mais tarde os grandes blocos
lecer no Brasil o elemento português (...) a conveni- linguístico-políticos da Commonwealth, Francofonia
ência de reforçar no Brasil os elementos que o consti- ou Lusofonia, acrescenta: "não deixa de ser coisa dig-
tuíram historicamente uma nação luso-americana, os na de meditação de pensadores e estadistas britâni-
elementos que falam a língua portuguesa, ou ainda e cos aliar e confederar todos os povos que falam a lín-
como conseqüência de tudo isso: de como de todas gua inglesa, por mais separados que pareçam pelos
as colonizações que possam vir ao Brasil a mais con- azares e vaivéns da política. E que outra coisa são es-
veniente é a portuguesa" (p. 6). sas aspirações do pan-germanismo, do pan-eslavismo,
Toda a conferência vai ser a demonstração da esse sonho de pan-americanismo? Este último especi-
verdade dessas asserções, achando ele que uma mai- almente, para ser prático, terá de formar três grandes
or aproximação do Brasil com Portugal era, afinal, tão seções independentes: os anglo-americanos, os luso-
lógica e imperativa como as que se realizavam entre a americanos, os hispano-americanos" (p. 12).
Espanha e os países latino-americanos, entre a Ingla- Por outras palavras, pelas que empregamos
terra e os Estados Unidos e outras nações, entre a Fran- hoje: os povos da Lusofonia têm de agrupar-se como
ça e a Argélia (p. 7), etc. o fazem os da anglofonia do Commonwealth.
Não deixa de merecer o maior apreço à cora- E porque a língua não é só eixo decisivo da iden-
gem manifestada, em toda essa questão, por Sílvio tidade nacional, mas também fator de união entre os
Romero. povos que a falam, bem como fronteira das indepen-
Apesar de se encontrar no auge do seu prestí- dências (da política à cultural), era urgente para Sílvio
gio, não hesitou em pô-lo em causa com uma pro- Romero a sua defesa. E, dentro dela, importava tam-
posta dificilmente aceitável. É que se estava em maré bém a manutenção e valorização das culturas, como
alta de antilusitanismo. a melhor defesa contra a ameaça dos novos imperia-
Incidentes vários entre portugueses e brasilei- lismos.
ros tinham ocorrido, nada favorecendo a aproxima- Seja-nos ainda permitido juntar uma citação fi-
ção: as seqüelas da Revolta da Armada e do rompi- nal a essas considerações: "Em tais conjunturas, numa
mento diplomático entre Portugal e o Brasil, os época de ameaças, imposições, de violências de um
incidentes em questões de imprensa e de pescas e, imperialismo íngreme, não é muito que procuremos
sobretudo, a atmosfera social envenenada tanto pe- revigorar o caráter brasileiro, revivescendo, por assim
las chacotas de Camilo, Ramalho e Eça pondo a ridí- dizer, nele os bons sentimentos portugueses de
culo os brasileiros e o seu Imperador, como pelas ca- intransigência e aferro ao solo, os generosos afetos

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que nos acalentaram durante os fortes tempos colo- de 1824.
niais pela integridade da pátria, digna herança dos Muitos europeus emigrantes sonhavam com a
nossos antepassados" (p. 13). reconstituição das suas pátrias no Novo Mundo do
Brasil e se mostraram não só relutantes em se integra-
A ameaça do racismo xenófobo rem como em falarem a língua do País e aceitarem os
Foi de transcendente importância a decisão de seus costumes e leis. Isso chegou a atingir aspectos
D. João VI de transferir a sua corte de Lisboa para o graves no Rio Grande do Sul, em incidentes com a
Rio de Janeiro, em 1808, no seguimento do Tratado colônia alemã.
de Fontainebleau e da conseqüente invasão de Por- Não só ali estava em perigo a identidade brasi-
tugal pelos exércitos napoleônicos. leira, rejeitada em favor de uma cultura alemã substi-
Apesar de um contexto conjugal e pessoal des- tuta, mas também estava em jogo a própria integrida-
favorável, D. João VI, Rei de Portugal e Imperador do de territorial do Brasil. Contra essa situação se levantou
Brasil, empreendeu obra extraordinária a que se pode a voz de Sílvio Romero, sem que se possa encontrar
atribuir, com inteira justiça, ter sido decisiva para a nas suas palavras qualquer sentimento xenófobo. Síl-
emancipação política, econômica e cultural brasilei- vio Romero não estava só. Outro intelectual, Graça
ra. Aranha, jurista, magistrado, diplomata, escritor, gran-
Para além da abertura dos portos e alfândegas, de agitador cultural do Modernismo, também lavrou
o derrube dos obstáculos aduaneiros permitiu um o seu protesto contra a situação.
desenvolvimento agrícola e industrial sem preceden- Naquele mesmo ano de 1902, editou um ro-
tes, que iria contribuir, decisivamente, para a aboli- mance intitulado simbolicamente Canaã, em que re-
ção da escravatura, pela substituição do braço escra- presentava o Brasil como a nova terra da promissão,
vo pelo braço imigrante e pelo desenvolvimento de para emigrantes ou emigrados políticos de todo o
uma nova mentalidade mais exigente quanto aos di- mundo, que ali encontrariam não só a abundância
reitos do Homem. que lhes era negada em seus países mas, sobretudo,
Até porque com a abertura dos portos veio a uma nova e mais ampla liberdade.
abertura das mentalidades: o estabelecimento do en- Porém, nem tudo estava a correr bem nesse
sino superior, a criação da imprensa régia, o desen- novo paraíso. Algumas perturbações ali ocorriam, es-
volvimento das letras e das artes, a entrada livre de tando na base de todas elas a interrogação sobre o
todas as imigrações, os intercâmbios culturais diversi- que essa pátria aberta a todos iria ser no seu futuro.
ficados, especialmente com a França, a criação das Graça Aranha constrói o romance segundo uma intri-
instituições de base político-administrativas de gover- ga centrada num debate fundamental: que Brasil que-
no. remos?
Esses treze anos de efetivo reinado de D. João No interior de uma colônia de imigrantes ale-
VI foram verdadeiramente decisivos para que a inde- mães, Lentz e Milkau, duas personagens que mais
pendência se realizasse nas condições mínimas de parecem personificações de idéias, debatem os seus
êxito, até porque o próprio rei chegou a sugerir a seu projectos de intervenção. Lentz, em representação do
filho que a protagonizasse. imperialismo e racismo germânicos, quer um Brasil
No caso que nos interessa aqui considerar, a ariano. Milkau, que perfilha as teses monistas e idea-
abertura do País à imigração é particularmente rele- listas da evolução das raças, acredita e aceita um Bra-
vante, tanto para a construção do Brasil como para sil em transformação especial.
pôr à prova a solidez da colonização portuguesa feita O autor de Canaã conhecia, por experiência, o
quase em exclusivo (a presença holandesa em que narrava na ficção, pois tinha vivido em Cachoeiro
Pernambuco é uma exceção honrosa e valorativa, mas de Santa Leopoldina, no Estado de Espírito Santo, onde
curta), durante quase trezentos anos. fora juiz municipal.
Contudo, tão grande mudança e de tão gran- Milkau e Lentz, recentemente chegados ao Bra-
des conseqüência, não podia acontecer sem pertur- sil, procuravam adquirir terras na área dominada pela
bações. Algumas regiões mais densamente ocupadas colônia alemã para aí se fixarem e, naturalmente, di-
por imigração de outras culturas e etnias o iriam fazer alogam sobre o seu futuro e o do país em que se ins-
sentir. Por exemplo, nas regiões do Sul, especialmen- talaram.
te no Rio Grande do Sul. Como em pano de fundo, esses diálogos
Foi em 1818 que a imigração estrangeira co- germânicos decorrem sob a desconfiança e revolta dos
meçou, com a experiência do suíço Sebastião Nicolau brasileiros natos que vivem em condições de pobre-
Gachet, compadre do rei, de que resultaria o núcleo za. Sentem-se discriminados pelos governantes, que
de Nova Friburgo. E depois, com a imigração alemã, mais se interessam pelos imigrantes estrangeiros que

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por resolver os seus problemas, e não admitem ser as raças virgens, selvagens, que está o repouso con-
tratados por esses adventícios com sobranceria e des- servador, o milagre do rejuvenescimento da cultura.
prezo. Arrogância de gente que se julga superior, e O frágil dos povos superiores é o instintivo impulso
nem se dá ao trabalho, sequer, de aprender a língua do desdobramento da cultura, transferindo de corpo
da terra, o português. a corpo o produto dessa fusão (...) o progresso se fará
Lamenta-se Felicíssimo, "brasileiro amável": "há numa evolução constante e indefinida" (p. 42-43).
gente na colônia, entrada há mais de trinta anos, que Fazendo a apologia da liberdade e do amor,
não fala uma palavra de brasileiro. É uma vergonha! acrescenta: "o princípio do amor me sustenta e me
O que acontece é que os nossos tropeiros e trabalha- protege (...) refletindo sobre a condição humana, o
dores todos falam o alemão" (p. 71). meu pensamento se esclareceu quando vi a marcha
Mas a verdadeira ameaça que nesse romance da humanidade partindo da escravidão inicial... No
se perfila é a do racismo claramente inspirado no Essai princípio era o caos (...) mas um dia chegará para es-
sur L' Inegalité des Races Humaines de J. Gobineau, e tes a hora da criação; o amor os reclamará à vida (...)
na filosofia da vontade de poder do super-homem de o mundo é a expressão da harmonia e do amor uni-
Nietzsche, protagonizada por Lentz: "Não vejo pro- versal" (p. 43-60).
babilidade da raça negra atingir a civilização dos bran- Como resulta deste conjunto de idéias e proje-
cos (...) Não acredito que da fusão com espécies radi- to de integração da harmonia do cosmos, Milkau acei-
calmente incapazes resulte uma nova raça sobre que ta de bom grado a miscigenação que Lentz odiava,
se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma mas dentro de um processo evolutivo e, portanto, tran-
cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escra- sitório.
vos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a Mas, no fundo, também Milkau é racista e adep-
raça que é o produto de tal fusão, a civilização será to da superioridade da raça branca, pois, como foi
sempre um misterioso artifício, todos os minutos ro- citado, entende que ela, pela sua superior força, irá
tos pelo sensualismo, pela bestialidade e pelo servilis- purificando as outras, reconhecidamente inferiores,
mo inato do negro. O problema social para o pro- elevando-as e enobrecendo-as porque, em última
gresso de uma região como o Brasil está na substituição análise, não lhes reconhece nem validade nem no-
de uma raça híbrida, como os mulatos, por europeus" breza próprias, a não ser as que forem adquirindo no
(p. 43). processo de transmissão conduzido pela raça branca.
E, continua Lentz, depois de narrar as motiva- Assim, Graça Aranha equacionou em termos
ções familiares que o levaram a demandar a terra bem explícitos as diversas formas de atuação do ra-
brasílica: "E parti então para a virgindade destas sel- cismo germânico no sul do Brasil, a que Getúlio Vargas
vas, com o ímpeto de viver nelas solitário, na exaltação viria a pôr cobro.
do meu ideal ou de um dia as transformar em um Apesar do estilo simbolista, em que o vago e o
império branco que é o que desejo e a razão do meu nebuloso envolvem os diálogos e as ações, são de gran-
sangue" (p. 52). de nitidez os dois tipos de ameaças que pairam sobre
Não admira, pois, que, com tais princípios, se- o Brasil: a do imperialismo racista externo, e a da co-
jam delirantes as suas visões imperiais imaginando que laboração ou conivência interna de alguns grupos de
"os alemães chegariam, não em pequenas divisões imigrantes e de brasileiros, subservientes e medrosos.
humildes de escravos e traficantes, não para lavrar a Sob esse ponto de vista, são esboçadas várias
terra para recheio do mulato, não para mendigar a caricaturas de comportamentos dúbios ou alinhados
propriedade defendida por soldados negros (...) Eles pelo exterior encarnados por funcionários judiciais e
viriam numa ânsia de posse e de domínio, com sua administrativos, mas sempre reprovados pela gente
áspera virgindade de bárbaros, em coortes infinitas, do povo.
matando os homens lascivos e loucos para ali forma- Assim resumirá o juiz municipal, Maciel, o am-
rem um novo império (...) Então, Lentz viu pairar so- biente das conversas dessa classe superior e média:
bre a terra do Brasil a águia negra da Germânia " (p. "é o debate diário da vida brasileira... Ser ou não ser
90). uma nação... Momento doloroso em que se joga o
Diferente é a concepção de Milkau, represen- destino de um povo... Ai dos fracos!... Que podemos
tando a outra face da emigração. fazer para resistir aos lobos? (...) Pobre Brasil!... Foi
Para ele e para a sua filosofia idealista de fundo uma tentativa falha de nacionalidade. Paciência..." (p.
hegeliano, darwinista, embalada pela mitologia do 168).
progresso de Wolff, a evolução era imparável e contí- Tal covardia da classe dirigente, merece ao es-
nua: "O tempo da África chegará. As raças civilizam- crivão Pantoja o seguinte comentário: "Não há mais
se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com patriotismo, não há mais nada. Os senhores podem

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querer entregar a pátria ao estrangeiro, podem vendê- no papel unificador da língua portuguesa.
la, mas, enquanto houver um mulato que ame este Nesse fundo cristão e católico, reconhecia Gil-
Brasil, que é seu, as coisas não vão tão simples, meus berto, como Jaime Cortesão ou Leonardo Coimbra,
doutores" (p. 164). um franciscanismo sociológico e cultural que ultra-
É contra essa ameaça racista e correspondente passava o religioso e o ético, e se projetava num modo
mentalidade derrotista que se insurge Gilberto Freyre muito próprio de se ser português e brasileiro.
em Uma Cultura Ameaçada: a Luso-Brasileira, tornan- Franciscanismo a que também outros acrescentaram
do explícito, numa espécie de manifesto, a sua repul- uma visão naturalista da realidade e um lirismo tipi-
sa, demonstrada por longa e intensa obra de investi- camente lusitano. Particularmente lúcida é a obser-
gação científica pluridisciplinar que se impõe a partir vação do papel desempenhado pela língua portugue-
de Casa-Grande & Senzala, de 1933. sa como elemento aglutinador, aliás em perfeita
Desmitificando os conceitos de raça, de superi- sintonia com Sílvio Romero, que a esse aspecto dedi-
oridade rácica, e exaltando a eficácia e originalidade cou boa parte da citada conferência sobre o "elemen-
da colonização portuguesa do Brasil, equacionou o to português", e com as idéias de Fernando Pessoa
conjunto das suas idéias na teoria luso-tropicalista. sobre um Quinto Império cultural português baseado
Através dela, Gilberto Freyre não só lavrou um pro- na língua.
testo como edificou a refutação dos argumentos ra- E razões muito objetivas tinha para isso, por-
cistas e imperialistas. que o ataque à língua portuguesa, ora ostensivo ora
Nessa notável conferência-manifesto, consagrou disfarçado, fazia parte da estratégia contra uma cultu-
a reabilitação anteriormente feita da colonização por- ra acusada de menor e de degenerada.
tuguesa nos trópicos, por tanto tempo caluniada, rea- A língua portuguesa é para Gilberto "instrumento
bilitando a cultura luso-brasileira, "ameaçada hoje, de intercomunicação entre os elementos de proce-
imensamente mais do que se pensa, por agentes cul- dências diversas de raça e cultura que constituem o
turais de imperialismos etnicocêntricos, interessados Brasil", e mal avisados andam os que fazem a "propa-
em nos desprestigiar como raça que qualificam de ganda contra a língua portuguesa como a língua naci-
mestiça, inapta, corrupta – e como cultura que des- onal e oficial do Brasil inteiro", estejam eles disfarça-
denham como rasteiramente inferior à sua"(p. 28), na dos de geógrafos, estetas ou sociólogos (p. 52).
continuidade da denúncia de Sílvio Romero e de Graça Tão importante considera essa questão que, no
Aranha. breve prefácio que escreveu para a edição de 1980
Cultura em perigo "por parte daquela Europa da conferência, lembra que o ataque à língua "era um
cujas deficiências de organização – algumas na ver- dos argumentos nazifascistas: o Brasil degradamente
dade enormes, mas ainda assim preferíveis aos substi- mestiço não possuía sequer uma língua de valor lite-
tutos mais prováveis, no caso de um triunfo maciça- rário. Fingia-se ignorar Os Lusíadas. Ignorar Fernão
mente neo-pagão etnicocêntrico exclusivista ao seu Mendes Pinto. Ignorar Vieira. Ignorar Machado e
jeito" (p. 43). Euclides" (p. 17).
Daí passou à refutação das justificações teóri- Entendeu ainda Gilberto Freyre que não podia
cas adversas, negando os pressupostos científicos da deixar de exorcizar um tipo de ameaça que lavrava
chamada "raça pura" e dos muitos que a acompanham, no interior do próprio Brasil, a daqueles que, influen-
pois "nenhuma base científica existe a fundamentar a ciados pelas ideologias anti-lusófonas e pelos interes-
existência de raças superiores ou puras". ses das culturas estrangeiras de que eram originários,
Em simultâneo, Gilberto exaltou a democracia sabotavam a identidade nacional.
racial brasileira da miscigenação, o alvo principal das Desses provinham as campanhas de desmorali-
ofensivas e do desprezo das ofensivas arianas, por- zação e desprestígio disfarçadas em análises culturais:
que "Na colonização do Brasil, não dominou, segun- "Ninguém ousará negar o enriquecimento que tem
do as melhores evidências, nenhum tipo físico ou an- resultado para a vida e a cultura do Brasil da actividade
tropológico de português que excluísse outros tipos dos grupos de europeus não-portugueses estabeleci-
de massa ou da elite. Sempre a variedade dos san- dos em vários pontos do território brasileiro, de pre-
gues, a pluralidade das aptidões, a dualidade capital ferência dos estados do Sul. O perigo não está nem
de tendências – a da aventura e a da rotina – a se nunca esteve neles: o perigo sempre esteve e está in-
unirem na América portuguesa como num imenso tensamente neste momento em agentes de organiza-
campo de experimentação biológico e social" (p. 41). ções políticas que os exploram, disfarçados em pasto-
A essa defesa da miscigenação juntou o ilustre res evangélicos, em mestres disso ou daquilo, até em
pernambucano a das características de civilização padres, frades e professores católicos (...) Não exage-
baseadas num fundo cristão de cultura e crenças, e ro nem faço retórica: cada uma das palavras que aca-

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bo de pronunciar se baseia no conhecimento, na ob- de alguns intelectuais pelos problemas da identidade
servação e na verificação de factos e documentos" (p. – cujas múltiplas motivações nem sempre são explíci-
50). tas e que levam à sistemática substituição da palavra
Grande foi a repercussão da atitude de Gilber- "nação" pela palavra "pátria" (não avaliamos bem os
to Freyre nesse ano de 1940. Tão verdadeira e objeti- ganhos semânticos daí resultantes) e da palavra "naci-
va que merece ser reeditada no contexto atual de uma onalismo" pela palavra "patriotismo", esta sim, plena-
lusofonia mais vasta. mente justificada pelas deturpações fascistas e nazis
Não perderam essas palavras e razões força, também denunciadas por Gilberto Freyre – tem leva-
nem por causa dos defeitos pessoais de Gilberto do a incompreensões e má informação sobre as ver-
Freyre, como o da sua enorme e antipática vaidade, dadeiras posições de Gilberto Freyre.
nem pelo fato do próprio ter caído no mesmo erro É caso típico disso a comunicação ao Congresso
dos seus adversários ao querer justificar e patrocinar Luso-Afro-Brasileiro de Lisboa,de 1996, apresentada
um novo imperialismo, o imperialismo africano de pela professora Neide Almeida Fiori. Numa comuni-
Salazar e Marcelo Caetano. cação bem elaborada e cheia de observações muito
Esse foi o erro trágico de Gilberto Freyre, que pertinentes sobre o enriquecimento que representou
mais tarde procuraria emendar, dando cobertura a para o Brasil a imigração estrangeira, são pouco feli-
uma concepção adversa às independências africanas, zes os comentários sobre a conferência de Gilberto
sob o pretexto de, na base luso-tropicalista, a política Freyre a respeito da nossa cultura como ameaçada.
do Estado Novo português poder construir um impé- Segundo a referida professora da Universidade
rio multirracial, esquecendo que o processo em curso de Santa Catarina, entre as causas próximas da toma-
era contrário à vontade das colônias africanas, as quais, da de posição de Gilberto estão o novo tipo de rique-
tal como o Brasil, queriam tornar-se nações indepen- za não resultante da posse da terra, a ameaça
dentes. protagonizada pelos imigrantes estrangeiros que não
Do mesmo modo que a ideologia racista ariana se integravam na cultura do País, a vontade das elites
deu cobertura ao imperialismo germânico, ao qual pôs paulistas em controlarem o poder crescente desses
termo a Segunda Grande Guerra, do mesmo modo imigrantes, o surto de nacionalismo agudo típico dos
que a ideologia marxista adotada pelo leninismo deu governos autoritários de Getúlio Vargas, os "Congres-
força para se edificar o imperialismo soviético, que sos de Brasilidade" dos anos 40, etc.3
ruiu fragorosamente em 1989, também o regime po- No que se equivoca a ilustre professora é que
lítico de Salazar e Marcelo Caetano, com o apoio do as questões levantadas por Gilberto Freyre já vinham
luso-tropicalismo de Gilberto Freyre, pretendeu cons- de antes de 1902, sem que essas situações e
truir um outro imperialismo, o “do first and last protagonismos por ela apontados existissem, como
empire”, a que as antigas colônias da África e a Revo- afirma, tendo sido denunciadas por Sílvio Romero e
lução de Abril puseram termo. Graça Aranha, entre outros. Gilberto Freyre, afinal,
Assim, uma perspectiva antropológica e mais não fez do que constatar e denunciar uma situa-
humanística de grande validade e comprovação his- ção anômala que persistia.
tórica se viu gravemente adulterada e comprometida Adianta a referida professora que a imigração
numa aventura que em muito prejudicou a validade alemã no Sul era sete vezes menor que a italiana, mas
da teoria luso-tropicalista. tal em nada modifica para melhor a questão, antes
Mas, injustamente, porque ela não é, como as pelo contrário, demonstrando até, esse pormenor, que
outras duas ideologias imperialistas, um projeto de o problema não era tanto de natureza quantitativa
domínio, mas uma forma de humanismo válida e fe- mas qualitativa.
cunda como utopia criadora e aglutinadora, tanto nos A dita ameaça cultural não era fruto de um
seus aspectos culturais, como nos sociais da lusofonia. circunstancialismo político de nacionalismo artificial
O lastro científico das suas idéias e a conseqüen- programado, mas resultado de um forte sentir popu-
te adequação à realidade lusófona, ainda que desi- lar e oficial, como claramente o mostrou Graça Ara-
gual nos cinco países africanos, permanece de pé, e nha no seu romance, repita-se, de 1902.
só não é mais evidente porque os novos racismos, os
interesses e os processos, por vezes inconfessáveis, As incompatibilidades do marxismo e de uma cer-
de algumas culturas estrangeiras que procuram no ta negritude
Brasil um lugar de maior relevância, as incompatibili- O marxismo de Marx e Engels, sobretudo quan-
dades das ideologias marxista, da negritude radical e do se tornou a doutrina oficial do comunismo elabo-
outras não o permitem. rada por Lenine, passou a ser a ideologia dominante
Deve ainda acrescentar-se que o atual desfavor do século que terminou, com forte presença e influ-

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ência principalmente nos países do Terceiro Mundo, cráticos, como se comprova nas sociedades livres em
a que pertence boa parte dos países lusófonos. que a conciliação de interesses opostos se pode obter
Não tem sido fácil essa convivência, e não é pela negociação e, não poucas vezes, pela concertação
difícil entender o porquê, e por que motivos não pou- social.
cas vezes essa ideologia se transformou em ameaça. Este é, aliás, o grande obstáculo para os que
Logo a começar pela sua concepção básica da rejeitam a teoria luso-tropicalista: a incapacidade de
realidade. Entende o marxismo que na base de qual- entenderem uma cultura de conciliação, convencidos
quer valoração ou juízo está a matéria, sendo o mate- de que na base da evolução racial está o conflito. E
rialismo dialético a sua forma canônica de evolução. também para aqueles que, isolando do seu contexto
Daí a importância decisiva e infraestrutural dos os erros da colonização, são manifestamente incapa-
fatores econômicos e das relações de produção zes de um juízo de valor desapaixonado.
condicionando as instituições, assim consideradas su- Lucidamente Edson Nery da Fonseca assim re-
perestruturas, bem como os comportamentos sociais, sumiu esta cultura: "Esta permanente conciliação de
religiosos, psicológicos e políticos, em clara oposição contrários (...) é talvez uma atitude inspirada pelo re-
à concepção espiritualista e cristã da cultura lusófona. lacionamento nem sempre conflituoso, mas, ao con-
Não ignora esta que os problemas sociais e a trário, freqüentemente amoroso, entre senhores e
urgência em se vencerem as dificuldades e injustiças escravos, dominadores e dominados na formação so-
devem passar pela prioridade dos valores do espírito cial do Brasil".5
e pela vontade de ser a partir deles que se chegue a Na mesma rota de colisão entre as duas cultu-
soluções justas na repartição das riquezas e na obten- ras, a marxista e a lusófona, está também o entendi-
ção da harmonia e da paz. mento racial da miscigenação, quer biológica quer
Impossível, por isso, conciliar o marxismo e cultural, fora do "diktat" das normas do partido e da
outras filosofias materialistas com os direitos de Deus ideologia determinando o que devem produzir os es-
e do homem, entendido este como ser por Ele criado critores e artistas e castigando os "desvios".
e para Ele orientado, através da religião e de uma con- Depois do colapso do império soviético, o mar-
cepção de amor e de família que nada têm a ver nem xismo perdeu grande parte da sua força, mas ainda
com o materialismo dialético, nem com a luta de clas- subsiste, talvez por inércia, nos hábitos mentais de
ses. Pelo contrário, o marxismo-leninismo é que re- alguns saudosistas.
presenta uma forma de alienação dos maiores valo- Estreitamente ligado ao marxismo e com incom-
res do espírito. patibilidades semelhantes, se processou uma corren-
Resumindo o pensamento de Marx, Henri te radical da negritude, aquela que vem, sobretudo,
Lefebvre afirma: "Il montre que l' aliánation de l' de Aimé Césaire.
homme ne se définit pas religieusement, Com efeito, segundo Fernando Neves 6, na
métaphisiquement ou moralement. Au contraire, les redescoberta da África pelos africanos, três foram as
métaphysiques, les religions et les morales vias principais de acesso: a "via cultural da negritude",
contribuaient à aliéner l' homme à l' arracher à soi- a política do "Pan-africanismo" e a revolucionária do
même, à la détourner de la conscience véritable et de "socialismo científico mundial", tendo-se a negritude
ses véritables problémes". 4 imposto, sobretudo no campo cultural, como de gran-
E a mesma incompatibilidade se passa em rela- de influência entre os intelectuais.
ção à doutrina e prática da luta de classes, o verda- No início era um fenômeno simplesmente lite-
deiro motor da história, para os marxistas, luta essa rário, porém depressa se transformou numa ideologia
que, segundo Marx, conduz à ditadura do proletaria- política e revolucionária, não só defendendo os valo-
do, utopicamente entendida como transitória, desti- res da cultura negra e a emancipação dos povos afri-
nada à abolição das classes e ao restabelecimento de canos, mas também combatendo a cultura e as insti-
uma sociedade sem classes. tuições que, na sua óptica, julgava identificarem-se
Como conciliar essa concepção conflitual da com a opressão e o colonialismo.
sociedade, oposta a uma natural conseqüência do li- Apareceu primeiro a dar continuidade aos mo-
vre exercício da liberdade, com o ideal humanista e vimentos Back to Africa e Black Renaissance america-
cristão da lusofonia que vê na harmonia racial e soci- nos dos fins do século XIX e aos movimentos Haitianos,
al, e na paz, um dos comportamentos a pôr em práti- Cubanos, da Martinica e Antilhanos, mas foi a partir
ca, entendendo que não é pela supressão da liberda- dos anos 30 do século XX que se impôs como movi-
de, pela repressão feita por qualquer tipo de ditadura mento de real significado, com a "legitime défense" de
ou controle que se resolvem os problemas. Mesmo o Aimé Césaire e com Leopold Senghor, em especial.
problema da injustiça é solúvel por processos demo- Na década seguinte, saiu o movimento reforça-

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do com o grupo da revista Présence Africaine, de Sobretudo depois dos anos 50, da Conferência
Alioune Diop, e com o patrocínio de intelectuais fran- de Bandung, de 1955, claramente anti-clerical 9 , de-
ceses com o prestígio de Jean-Paul Sartre e Albert senvolvendo a idéia lançada em 1945 pelo V Con-
Camus. gresso Pan-Africano de Manchester, que tinha acusa-
Embora fosse nas décadas seguintes perdendo do o cristianismo de se identificar, na África Ocidental,
prestígio e influência até aos anos 70, realizou, uma com a exploração política e econômica dos povos
sementeira de incompatibilidades nada favoráveis aos oeste-africanos.
conceitos da lusofonia maximamente na hostilidade Ainda o mesmo Sartre reconhece que "a maio-
militante sempre manifestada para com a teoria ria dos poemas da negritude são de ponta a ponta
gilbertiana do luso-tropicalismo. anti-cristãos".10
É certo que a corrente, originada em Senghor, Assumida como luta de classes e luta de raças,
de um humanismo universal de cultura, é uma como poderia a negritude entender o luso-
negritude de diálogo, mas assim não aconteceu com tropicalismo e as idéias de Gilberto Freyre quando
o radicalismo e racismo de Aimé Césaire, Depestre e afirmou: "a mestiçagem unifica os homens separados
outros. pelos mitos raciais. A mestiçagem reúne sociedades
Até porque a negritude mais em evidência foi, divididas pelas místicas raciais em grupos inimigos. A
desde o começo, inspirada e muito baseada no mar- mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua
xismo. unidade e em seus destinos democráticos pelas su-
Para Aimé Césaire, escreve Senghor: "O branco perstições sociais. A mestiçagem completa Cristo (...)
simboliza o capital, como o negro o trabalho... Atra- A mestiçagem é a democracia social em sua expres-
vés dos homens de pele negra da sua raça, ele conta são mais pura. Sem ela fracassa o próprio Marx no
a luta do proletariado mundial". E Sartre corrobora: que a sua ideologia tem de melhor".11
"sem dúvida não é por acaso que os bardos mais ar-
dentes da negritude são, ao mesmo tempo, militantes As ameaças como estímulos ao reforço da identi-
marxistas". dade
Aliás, na antologia La Nouvelle Poésie Nègre et Quando, nos anos 80, era responsável pelo Ins-
Malgache de Langue Française, editada por Senghor, tituto de Cultura e Língua Portuguesa (Icalp), que atu-
o famoso prefácio de Sartre Orphée Noir, "La question almente tomou o nome de Instituto Camões, publi-
primordiale était, en fait, négritude et marxisme. Les cava o referido Instituto a Revista Icalp. Essa revista,
tenants de la Négritude estiment que leur doctrine em 1986, tomou a iniciativa de realizar um inquérito
est pour le continent africain, la seule réponse valable a relevantes personalidades portuguesas sobre a cul-
au Marxisme, étant entendu qu' il s'agit beaucoup tura nacional. Ao historiador Jorge Borges de Macedo
moins de récuser celui-ci, qui est une méthode, que foi acrescentada uma pergunta sobre o que pensava
de rejeter ses modéles historiques, russe, chinois ou ele da afirmação de Gilberto Freyre de que a nossa
autres, simples masques des néo-impérialismes. Il s' era uma cultura ameaçada. Respondeu o notável his-
agit en quelque sorte d' assimiler le marxisme, de le toriador (perdoe-se-nos que seja extensa a citação)
négrifier. 7 que "as culturas estão sempre ameaçadas. Em minha
Não era esta a negritude de Senghor, que, em- opinião, igualmente, isso não é um perigo, mas uma
bora no início a aceitasse como um racismo anti-ra- vantagem, desde que as culturas tenham consciência
cista necessário, se pautou pela aproximação cultural dessa ameaça e possam estudar e considerar os mei-
e pelo diálogo, naturalmente mal vistos por aqueles os ao seu alcance para lhe responder. Uma cultura
que, seguindo René Depestre, defendiam também sem desafio perde a memória das condições de cria-
uma "negritude de classe", considerando a proposta ção a que esteve sujeita para se constituir e desenvol-
de Senghor como "uma tese irracional, perigosa e ver como proposta autônoma de vida. Tende, nesse
mistificadora, subproduto do nacionalismo [que] ser- caso, a estereotipar-se e a automatizar as respostas,
viria de base cultural à penetração neo-colonialista esbatendo as condições essenciais de observação e
na África e na América".8 criatividade, indispensável à formulação de novas res-
Assim composta de luta de classes e de racis- postas. Uma cultura não é uma oferta, é uma criação
mo, essa negritude radical nunca viu com bons olhos viva (...) Ora o aparecimento de outra cultura a desa-
a Lusofonia, cujos ideais, repita-se, se baseiam no di- fiar uma primeira é um fenómeno constante na histó-
álogo, na concertação, nos princípios espiritualistas e ria das civilizações".12
cristãos. E também não descurou essa negritude a luta Poderíamos acrescentar nós, por outras pala-
contra o cristianismo, tendência que já vinha de Aimé vras, sem que isso seja um truísmo, que a verdadeira
Césaire. cultura quando existe, resiste. Isto é, só as culturas

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não artificiais, possuidoras de força interna e autenti- humanizada.
cidade provada pela história, poderão olhar o futuro Refletindo sobre o que se poderá chamar o luso-
com confiança. Não são as ameaças externas que as tropicalismo pós-gilbertiano, Adriano Moreira cons-
amedrontam. tata a alteração profunda que se deu em Portugal e
Dessa capacidade de resistência tem dado pro- no mundo, e as modificações daí resultantes no en-
vas abundantes a cultura portuguesa ao longo dos tendimento do luso-tropicalismo.
séculos. Agostinho da Silva afirmava mesmo que a Em artigo publicado em 1990 na Revista Ciên-
capacidade de resistência a Castela era uma das ca- cia e Trópico, lembra que, sendo o poder político "uma
racterísticas essenciais da cultura portuguesa. das condicionantes freqüentemente esquecida do
Do Brasil algo de semelhante se pode afirmar, conhecimento daquilo que o Gilberto chamou o mun-
de que é sinal a persistência das suas fronteiras terres- do que o português criou", ele sofreu nos últimos tem-
tres herdadas desde os tempos coloniais e a sua capa- pos alterações muito profundas que obrigam a rever
cidade de integração dos imigrantes na conjugação a "moldura Gilbertiana".
das suas diversidades com a unidade nacional. Alterações decorrentes do 25 de Abril em Por-
Borges de Macedo, como Gilberto Freyre, acres- tugal e da entrada do nosso país, em 1986, na União
centava ainda: "a maior ameaça à nossa cultura é a Européia, acontecimentos vários envolvidos pelo pro-
crise agravada de confiança a que temos estado sujei- cesso histórico da constituição de grandes espaços e
tos". Com efeito, nada é pior que uma cultura blocos de poder criaram uma nova dinâmica interna-
desmotivada, descrente de si própria, situação a que cional.
é especialmente propícia a atual atmosfera pós-mo- Daí que tenha caducado, definitivamente, muita
derna. coisa do projeto político gilbertiano e, porque não
Segundo alguns dos seus melhores teóricos, acrescentá-lo, também do projeto africano de Adriano
Tofler, Lipovetzki, Jean François Léotard, é precisamen- Moreira, pois tudo agora se equaciona de maneira
te nessa espécie de vazio, de ausência de idéias e va- diferente, e em função dos blocos a que se pertence.
lores, de abolição das grandes referências motivadoras Nessa profunda alteração da ordem tradicional,
históricas, metafísicas e religiosas, que caracteriza o Adriano Moreira vê a necessidade de uma nova es-
nosso tempo, que está agora o maior perigo. tratégia, até porque, apesar de tudo, os pequenos
Perigo sublinhado pela moderna ressaca das países não deixaram de ter alguma capacidade de in-
ideologias destroçadas que, sobretudo por ocasião das tervenção.
diversas comemorações do descobrimento das Amé- Sugere, por isso, que "as relações entre o poder
ricas, e utilizando as várias técnicas da desconstrução político e os sistemas ou projetos culturais recebam
e alguma perícia na manipulação dos documentos, uma atenção que anda fora das tradições dessa maté-
tudo põem em causa, numa manifesta incapacidade ria, tendo sobretudo em vista que não estamos agora
de visão histórica, mas de sobeja capacidade de sujei- nos altos domínios dos centros cientificamente domi-
ção ideológica e de radicalismo. nantes, mas na área da língua e dos modelos de com-
É, pois, com alguma preocupação que observa- portamentos da sociedade civil".
mos essa ameaça interna que também se manifesta É que a fragilidade da situação em Angola e
na persistência de uma forma demasiado chocarreira Moçambique e o regresso de Macau à China devem
de evocar as figuras históricas nacionais e outros gran- ter um equacionamento diferente do que poderia ser
des vultos da nossa civilização e cultura. o anterior projeto do luso-tropicalismo.
Atitude esta que tem pouco a ver com a saudá- Como que respondendo a Adriano Moreira, o
vel tradição humorística e irônica no modo de enca- recente acesso à independência de Timor ainda mais
rar a vida e os fatos do passado, ou com o jeito tão vem confirmar a aposta na língua e na cultura que os
luso-brasileiro das cantigas de escárnio e mal-dizer, políticos teimam em não entender.
pois se alimentam principalmente da incapacidade de Referindo-se à importância do papel desempe-
optar e de se ser solidário. nhado pela língua, e na velha tradição de Romero,
A Lusofonia será o que quiserem os lusófonos. Graça Aranha, Gilberto Freyre e Fernando Pessoa, afir-
A cultura lusófona, originada nas relações luso- ma: "Em toda a parte aquilo que avulta como menos
brasileiras, inspirada nos ideais do Quinto Império de vulnerável, e como cimento mais forte, é realmente a
Vieira e Pessoa, apoiada pela teoria luso-tropicalista língua, e com ela, se a capacidade existir e a vontade
gilbertiana e pós-gilbertiana, pode constituir-se como não faltar, o veículo da cultura capaz de disputar o
um espaço linguístico e cultural importante não só seu espaço e de o fazer crescer".13
para a vivência dos que a integram, mas também para Observação esta que vem reforçar a posição que
utilidade no diálogo internacional de feição mais sempre defendemos desde os anos 80 no Instituto de

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Cultura e Língua Portuguesa (atual Instituto Camões),
com Agostinho da Silva e outros de que, embora a
Lusofonia possa vir a ter uma formulação política, não
era por ela que se devia começar nem investir mais.
É que essa outra superestrutura só será possível
depois de consolidadas as suas bases linguísticas e
culturais através de instituições e de medidas de polí-
tica linguística sólidas e atuantes que desde há muito
vimos reclamando, como a da criação do Instituto In-
ternacional da Língua Portuguesa, e de medidas
legislativas favoráveis à "defesa e ilustração" da nossa
língua comum e das culturas que nela se fazem.14
Certos de que as ameaças do exterior só refor-
çam a Lusofonia, importa meditar no significado das
fraquezas e covardias internas para, através de uma
mais clara proposição dos valores, incutir nas novas
gerações, sem postiços ufanismos patrioteiros, o sen-
tido da dignidade da pessoa, do respeito pelos que
nos antecederam e legaram exemplos notáveis de
humanismo, de coragem, honestidade, religiosidade
e de solidariedade cordial, a força acrescida que po-
demos ter estando unidos num bloco de sete, oito
países, contando desde já com Timor.

_______________________

Notas
1
Graça Aranha, Chanaan, Rio, Garnier, 1902.
2
Sílvio Romero, O Elemento Português no Brasil, Lisboa, Tipogra-
fia da Companhia Nacional Editora, 1902.
3
Neide Almeida Fiori, "A cultura luso-brasileira ameaçada? Con-
trovérsias dos tempos da Segunda Guerra Mundial", in Dinâmicas
Multiculturais, Novas Faces, Outros Olhares, Actas do III Congres-
so Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, II Vol., Lisboa, 1996,
p. 621 e segts.
4
Henri Lefebvre, Le Marxisme, Paris, PUF, 1968, p. 39.
5
Edson Nery da Fonseca, "Gilberto Freyre: Conciliador de contrá-
rios", in Ciência e Trópico, nº 2, Recife, Julho-Dezembro de 1987,
p. 171.
6
Fernando Neves, Negritude, Independência, Revolução, Paris,
ETC., 1975.
7
Fernando Neves, Ibidem, pp. 139-140.
8
Apud Eduardo dos Santos, A Negritude e a Luta pelas Indepen-
dências na África Portuguesa, Lisboa, Minerva, 1975, p. 36.
9
Eduardo dos Santos, Ibidem, p. 38.
10
Eduardo dos Santos, Ibidem, p. 30.
11
Gilberto Freyre, O Brasil em face das Áfricas Negras e Mestiças,
Lisboa, 1963, p.
12
Jorge Borges de Macedo, "Questões sobre a Cultura Portugue-
sa", Revista Icalp, nº 4, Março de 1986, p. 72.
13
Adriano Moreira, "O futuro da população de Expressão Portu-
guesa (o Luso-tropicalismo hoje)", in Ciência e Trópico, Recife, nº
1, Junho /Julho, 1990, p. 51.
14
Fernando Cristóvão, Notícias e Problemas da Pátria da Língua, 2ª
ed., Lisboa, Icalp, 1987.

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Relendo Gilberto Freyre: o Contexto do
Romance Os Dois Irmãos de Germano Almeida

José Carlos Venâncio – rop88985@mail.telepac.pt


Sociólogo/Antropólogo – Universidade da Beira Interior – Portugal

O presente artigo tem por objeto o es- da Academia"), de que apenas se publicaram
tudo do contexto social e estético da obra ro- dois números por interdição das autoridades
manesca do escritor cabo-verdiano Germano coloniais. Este grupo passou à história das le-
Almeida. Dar-se-á especial relevo ao roman- tras cabo-verdianas com o nome de "geração
ce Os Dois Irmãos (Lisboa 1995; 1998), con- de 40" e nele destacou-se, conquanto à data
frontando o contexto social que o legitima, da publicação fosse já estudante de medicina
em termos estéticos, com a leitura que Gil- em Lisboa, o escritor Henrique Teixeira de
berto Freyre fizera da realidade cabo-verdiana Sousa, de certa forma o patrono ideológico
há cerca de cinqüenta anos, no seu livro Aven- do grupo (Venâncio 1992: 20). Afastando-se
tura e Rotina: Sugestões de uma Viagem à Pro- do fatalismo e da resignação da geração dos
cura das Constantes Portuguesas de Carácter "claridosos", para quem as difíceis condições
e Acção (Lisboa: Livros do Brasil s.d.). Mesmo de vida a que o arquipélago sujeitava as suas
que indiretamente, haverá ainda a ocasião gentes radicavam sobretudo na sua geografia,
para se tecerem algumas referências aos dois entendida então como elemento catalisador
tipos de discurso em apreço, o romanesco e de uma identidade e de uma cabo-
o ensaístico, ainda que este apresente carac- verdianidade expiável no chamado
terísticas de literatura de viagens. evasionismo2, os da geração da Certeza pro-
Germano Almeida é um escritor cabo- curam ser politicamente mais engajados e
verdiano da nova geração. É hoje provavel- nesse fato residiu, aliás, a proibição da sua
mente o escritor cabo-verdiano mais conhe- publicação por parte das autoridades coloni-
cido em Portugal. Os seus romances têm sido ais. Diferentemente dos "claridosos", respon-
publicados pela Editorial Caminho, uma das sabilizaram, mesmo que timidamente, o sis-
maiores editoras do país, numa coleção que, tema político vigente pelo statu quo do
ao longo dos anos, tem vindo a granjear pres- arquipélago.
tígio no panorama literário português. Refi- Outras diferenças poderão ainda ser
ro-me à coleção Uma Terra sem Amos, onde apontadas aos dois grupos ou gerações. A da
tem igualmente publicado Mia Couto, outro Claridade teve particulares afeições pela ex-
escritor lusófono, de origem moçambicana, periência da revista Presença, sem que, com
igualmente conhecido. isso, os seus membros descurassem a leitura
Germano Almeida trouxe com o seu pri- do semanário Diabo (cf. entrevista a Manuel
meiro romance, O Testamento do Sr. Lopes in Venâncio 1992: 69), que, enquanto
Napumoceno da Silva Araújo, publicado ini- jornal de crítica literária e artística, foi mais
cialmente em Cabo Verde 1 e depois em Lis- heterodoxo do que a Presença. Pois nele tan-
boa (1991), um novo alento à literatura cabo- to colaboraram presencistas, neo-realistas,
verdiana, continuando embora a tradição da como até figuras ligadas ao integralismo lusi-
Claridade, revista de arte e letras, cujo pri- tano, tais como Antônio Sardinha. A par des-
meiro número foi publicado em 1936 e, à sua tas influências, vindas de Portugal, os
volta, reuniu nomes como o de Baltasar Lopes, "claridosos" foram ainda influenciados pelo
Jorge Barbosa e Manuel Lopes. As conquistas modernismo brasileiro, mormente pelo cha-
estéticas deste movimento, por vezes apeli- mado "romance do Nordeste". Menos
dado de "claridoso", foram posteriormente prolífero em influências foi o grupo da Certe-
continuadas, salvaguardadas as diferenças za, mantendo-se fiel ao ideário neo-realista
adiante apontadas, pelos jovens liceais que (Ferreira 1977: I/45; Venâncio 1992: 20).
estiveram na origem da revista Certeza ("Fôlha A grande diferença, porém, entre os

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dois grupos ou gerações não reside tanto nas suas tes romances, às tendências estéticas experimentadas,
filiações estético-ideológicas em nível externo, mas, a seu tempo, pela sua geração, não deixou de ser
sim, na interpretação que fizeram do destino cabo- notória a aproximação de Teixeira de Sousa do ideário
verdiano, eventualmente sob alguma influência des- político do Partido Africano para a Independência de
sas filiações. Olhando ambas Cabo Verde a partir de Cabo Verde – PAICV, 5 o que é sobretudo visível nos
dentro da natureza humana e social do arquipélago, últimos romances, sem que, contudo, deles se possa
donde emerge – aliás – a autenticidade estética de inferir o entendimento de Cabo Verde como uma re-
ambos os olhares, Certeza afastou-se do grupo da Cla- alidade africana, uma das tendências interpretativas
ridade ao posicionar-se, mesmo que timidamente, da cabo-verdianidade, sustentada, como vimos, pelo
como antievasionista, o topos que, mais tarde, se cons- menos até certo momento, pelo PAICV, enquanto
tituirá como uma das bandeiras da "geração de 50", a herança ideológica de Amílcar Cabral.
"geração nacionalista". Este é, em traços gerais, o ambiente estético-
A ruptura propriamente dita em relação à tra- literário em que emerge O testamento do Sr.
dição "claridosa" é, pois, ensaiada mais tarde nas pá- Napumoceno da Silva Araújo. A breve referência que
ginas do boletim Cabo Verde, publicado na cidade da fiz ao arquitexto cabo-verdiano permite-nos, pois,
Praia, no qual Amílcar Cabral fizera, em 1952, (28:5- localizar a obra de Germano Almeida e entender os
8) apelo a uma literatura politicamente mais empe- motivos que me levaram, no início do texto, a consi-
nhada e onde Gabriel Mariano e Ovídio Martins, desta derar o romance em apreço como uma lufada de ar
feita no primeiro e único número do Suplemento Cul- fresco nas letras cabo-verdianas. Seguiram-se outros
tural do referido boletim, saído em 1958, publicaram títulos6 que vieram confirmar a promessa de O testa-
poemas onde era notória a influência do movimento mento do Sr. Napumoceno... que, como igualmente
nacionalista que, nessa altura, dominava a vida políti- tive a preocupação de frisar, não é propriamente de
ca e social do continente africano. Um ano depois, ruptura em relação à tradição "claridosa". Desses títu-
em 1959, coube aos que deram voz ao Boletim dos los, por razões de apreciação estética e por motivos
Alunos do Liceu Gil Eanes percorrer, a partir do que se prendem com o objeto do presente texto, des-
Mindelo, os mesmos trilhos estético-políticos. tacarei dois: O meu Poeta (Lisboa 1992) 7 e Os Dois
O antievasionismo acentua-se com essa gera- Irmãos, sobre o qual, aliás, me debruçarei, em por-
ção. "Gritarei / Berrarei / Matarei / Não vou para menor, no âmbito desta análise.
Pasárgada", versos de Ovídio Martins, confirmam-no. O meu Poeta é, na minha apreciação, o melhor
Mas mais. Com esses jovens, certamente por impulso romance do autor. Confirma a inovação estética anun-
de Amílcar Cabral, o rumo da cabo-verdianidade, ciada com O Testamento do Sr. Napumoceno... Nele
enquanto interpretação do destino cabo-verdiano, o autor expõe, em termos satíricos, senão sarcásticos,
começa a passar por África, pelo continente africa- a postura dos governantes e das elites culturais cabo-
no3 . Conseqüentemente ganha expressividade a verdianas após a independência. Sendo uma crítica
dualidade entre a tradição estético-política inaugura- ao entendimento da cultura e da literatura pelo pris-
da pelos "claridosos" e, de certa forma, continuada ma da política, do politicamente correto, posição apa-
pelos da "geração de 40", e a posição da "geração de rentemente defendida pelo PAICV enquanto go-
50", no fim, a "geração nacionalista", como referi, vin- verno, o romance não deixa de ser igualmente uma
do muitos dos seus elementos a integrar as fileiras do crítica, conquanto sutil, mas não menos mordaz por
Partido Africano para a Independência da Guiné e isso, ao regime de partido único. A vítima, ou seja, o
Cabo Verde – PAIGC, o movimento que conduziu, anti-herói do romance é o meu poeta. De tão perso-
quase que exclusivamente, a luta de libertação nos nificado que é, pensaram alguns críticos literários, com
dois países. alguns conhecimentos da vida cultural e política do
Entretanto Teixeira de Sousa manteve acesa até arquipélago, que tal personagem teria um nome civil.
aos anos 90 a chama da Certeza. É, após a indepen- Das conversas que mantive com o autor a esse res-
dência e, pelo menos, durante uma década, o roman- peito, negou-me tal fato.
cista cabo-verdiano de referência. Deve-se-lhe um Um dos excertos mais elucidativos do que aca-
conjunto de romances, escritos e publicados numa bei de mencionar é provavelmente o que a seguir
fase avançada da vida. Refiro-me a romances como transcreverei:
Ilhéu de Contenda (Lisboa s.d.), Capitão de Mar e Ter- "Pelo caminho fui-lhe contando que o Meu Po-
ra (Lisboa 1984), Xaguate (Lisboa 1987), Djunga (Lis- eta pretendia ser uma espécie de embaixador
boa 1990), Na Ribeira de Deus (Lisboa 1992) e Entre itinerante da nossa cultura, quer através da própria
Duas Bandeiras (1994), todos publicados pelas Publi- sua pessoa, quer através da sua poesia e da música
cações Europa-América. 4 Dando continuidade, nes- nacional, até porque descobrira que arranhava alguns

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instrumentos. Claro que vai ser, disse logo Vasco. Lem- parado contra João a uma distância de 20 metros. Ain-
bra-te que politicamente a nossa cultura nasceu com da segundo os autos, João ter-se-á prostrado de ime-
a independência ou pelo menos só a partir daquele diato, o que levou as testemunhas oculares a pensa-
marco ela é válida. Assim, um texto, um poema, uma rem que fora tal devido ao tiro. Tanto mais que, depois
música valem em beleza, graça e harmonia e até em de João estar no chão, começou a sangrar do ouvido
utilidade à medida que glorificam o regime, atacam o direito. A autópsia, porém, não confirmou o veredic-
colonialismo ou louvam os dirigentes. Por isso o teu to das testemunhas oculares. "O relatório (...) acabou
Poeta tem largo futuro à sua frente, até porque de finalmente por dar como assente que João não tinha
burro nada tem" (p. 196). sofrido qualquer agressão com arma de fogo" (...)
A ironia implícita nesse excerto é de uma ri- (p.173).
queza semântica e de uma sutileza espantosa. Mostra Pouco interessam estes pormenores para o al-
e critica a superficialidade inerente a um olhar sobre cance estético da obra. Eles mais não são do que
o fenômeno cultural e literário pelo ângulo político. mestrias do autor para enriquecer o enredo do ro-
Evidentemente que há um grande exagero na mance, relevando, por oposição, a verdadeira trama
caricaturização da postura estética em questão, da res- da história que narra: um fratricídio que é mais devi-
ponsabilidade do Estado pós-colonial, cujo governo do à comunidade que envolve os dois irmãos do que
era liderado pelo PAICV. Germano Almeida procura propriamente ao fratricida. Em termos sociológicos
ridicularizar o que se poderá considerar como estéti- poder-se-ia dizer que as razões sociais que explicam
ca marxista, que, estando presente em movimentos o ato de André, explicariam igualmente o seu suicí-
como o realismo socialista, o neo-realismo, influen- dio, caso ele tivesse optado por essa via. Estaríamos
ciou, como vimos, a seu tempo, a "geração de 40" e o então perante o que Durkheim designa por suicídio
grupo da Certeza, [por via do neo-realismo português altruísta.
(cf. entrevista de Teixeira de Sousa in Venâncio 1992: Enquanto fratricídio socialmente imputável, o
73 e segs.)], e que foi perpetuada, para além da inde- julgamento de André foi inconclusivo. Melhor, o au-
pendência, pela ação de alguns dos literatos da "gera- tor, trazendo a sociedade de André para dentro da
ção nacionalista". Distanciando-se de tal postura es- textura narrativa, não teve outra opção, sob perigo
tética, acaba também por se afastar da orientação de empobrecer semanticamente o texto, senão dei-
política então dominante e é, com este duplo senti- xar em suspenso a decisão do tribunal e do juiz sobre
do, que O Meu Poeta consolida, numa feliz simbiose a culpabilidade de André pelo ato que cometeu. Sig-
entre forma e conteúdo, a renovação anunciada com nifica este procedimento que muita da valorização
O Testamento do Sr. Napumoceno... estética de Os Dois Irmãos reside assim na expectati-
Os Dois Irmãos continua o percurso inaugura- va e nos valores da sociedade de André. Trata-se de
do pel'O testamento... O enredo do romance anda à um romance social, remetendo para um certo tipo de
volta de um fratricídio causado por uma relação adúl- sociedade, que, não obstante o arquipélago cabo-
tera de um dos irmãos, João, com a mulher do outro, verdiano pertencer em termos de coordenadas geo-
André, que entretanto vivia emigrado em Portugal. gráficas ao continente africano, a sua sociedade e a
Pelas palavras iniciais do autor, o acontecimento ter- sua cultura não podem, de modo algum, ser tidas
se-á, na verdade, passado na ilha de Santiago "pelos como tipicamente africanas ou, talvez melhor, não
anos de 1976". A pressão social exercida sobre André correspondem totalmente ao padrão cultural reinan-
era intensa, vinda nomeadamente da parte do pró- te no continente.
prio pai, que praticamente o ignorou por ele tardar A constelação social que está por detrás do ato
em repor a honra desfeita, o que só seria consumado de André cumpre o que alguns antropólogos, anglo-
com o assassínio do irmão adúltero, como, na reali- saxônicos sobretudo, designam por síndrome da honra
dade, veio a acontecer. e vergonha, com que procuram justificar a área do
Evidentemente que, pela descrição do autor, fei- mediterrâneo como uma unidade cultural (Gilmore
ta sobre o decurso do julgamento a que André foi 1987). Independentemente da justificada crítica a esta
submetido, a causa direta da morte do João não fo- teoria ou proposição teórica, por invocação nomea-
ram as facadas que o irmão lhe deu. Depois de esfa- damente da postura reducionista e de dominação que
queado, levantou-se e dirigiu-se para a frente da casa lhe subjaz (Cabral 1991: 69 e segs.), o certo é que,
dos pais, onde começou a blasfemar contra o próprio enquanto elemento de contextualização e de com-
pai, acusando-o do sucedido, o que fazia acompa- paração (nomeadamente com o universo africano),
nhar com o arremesso de pedras. Dos autos constava não deixa de ser útil. Permite-nos, aliás, definir o con-
que, nesse momento, André, que se refugiara na casa texto social para que remete o romance Os Dois Ir-
dos pais, terá saído com uma arma de caça e terá dis- mãos.

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Nunca, na verdade, na África, isto é, no mundo Osvaldo P. Maurício e de Antônio J. Silva. 10
rural africano, como é o do romance em apreço, da- A morna, a coladera, a coexistência de instru-
ria azo a que uma relação de adultério tivesse tal des- mentos musicais como os ferrinhos e a gaita de foles,
fecho. É essa, aliás, a opinião de Asúa Altuna (1985), ambos portugueses, com o batuque africano na Ilha
autor que alia a sua experiência, enquanto missioná- de Santiago (Mariano 1991: 48), assim como tantos
rio, ao estudo das culturas banto, junto das quais exer- outros elementos culturais são outras provas do cará-
ce a sua atividade, e que, a esse propósito, nos diz ter híbrido das ilhas. O crioulo, não obstante as varia-
que são (...) "exceção os casos em que o marido ciu- ções que regista de ilha para ilha, das ilhas do Barla-
mento mata a esposa" (p. 345). Vejamos, porém, o vento para as do Sotavento, é outro elemento distintivo
que nos diz, em termos mais concretos, Antônio Fon- e culturalmente unificador do arquipélago. Trata-se
seca, um estudioso angolano, a propósito de adulté- de um mundo que, na sua hibridez, se tem reprodu-
rio entre os bakongo, povo do norte de Angola (os zido como tal, deixando antever, por essa razão, uma
protagonistas do chamado Reino do Congo), do qual grande força anímica.
é ele próprio originário: Foi esse mundo que Gilberto Freyre descreveu,
"Entre os kikongo (a designação dos bakongo em notas de viagem, no seu livro Aventura e Rotina:
através da língua que falam), o adultério pode ser re- Sugestões de uma Viagem à Procura das Constantes
solvido pelo pagamento de uma indenização por par- Portuguesas de Caráter e Ação. A viagem, a convite
te do sedutor ao marido ofendido. A esta multa cha- do então Ministro do Ultramar, Almirante Sarmento
ma-se kizumba ou kozi. Caso o marido não queira Rodrigues, inicia-se em agosto de 1951 e termina em
continuar com a mulher, tem direito à devolução par- fevereiro do ano seguinte. O prefácio data desse ano,
cial do mbongo (dote) dado" (Fonseca 1985: 66). isto é, de 1952, assinado pelo autor na sua casa de
Mesmo que tenhamos em conta o fato de os Apipucos, no Recife.
bakongo serem uma etnia onde vigora a filiação Enquanto viajante, a sua descrição de Cabo
matrilinear, podendo-se, por essa razão, levantar a Verde e doutras possessões coloniais portuguesas foi
suspeita de que entre etnias com sistemas de filiação sobretudo impressionista. As suas observações não têm
patrilineares, mormente entre as islamizadas,8 serem outra legitimidade do que a que deriva do fato de ter
mais evidentes as formas de organização social patri- olhado a realidade humana e social em apreço de
arcais e, como tal, o adultério assumir uma significa- fora para dentro, o que seria, aliás, de esperar. Nem
ção próxima da que tem na Europa do sul, o certo é outro propósito, que não esse, o terá movido nessa
que, de modo algum, o adultério na África, enquanto longa viagem pelas então possessões portuguesas à
fator infringidor da honra do marido, assume propor- procura das constantes culturais e antropológicas dessa
ções próximas do que se passa na Europa. Nessa me- presença lusa. Fê-lo sob uma perspectiva ética, em
dida, a honra ofendida de André é-o em função de muito determinada pela sua vivência pernambucana
uma constelação de valores que têm muito mais a ver ou, talvez melhor, do Nordeste canavieiro, a faixa li-
com o ambiente europeu do que com o africano. toral que se estende para o interior numa distância
Aliás, à vigência de tais valores, sem que de não superior a 50 km. Esse compromisso da sua escri-
modo algum tenhamos a pretensão de olhar Cabo ta e da construção teórica que ensaia com a matriz
Verde como uma unidade cultural totalmente homo- social e histórica nordestina é, assim, recorrente em
gênea, corresponde todo um conjunto de formas hí- toda a sua obra, mesmo naquela que se refere espe-
bridas da chamada cultura material, que passam pela cificamente à realidade brasileira, isto é, aos outros
coexistência entre o moinho (europeu) e o pilão (afri- espaços brasileiros que não o nordestino.
cano), que são grandes almofarizes de madeira, 9 cujo As suas impressões do arquipélago, circunscri-
movimento de trituração se processa num vaivém ver- tas às ilhas de Santiago, São Vicente e Sal, chocaram a
tical. sensibilidade dos intelectuais cabo-verdianos. Os co-
Outros elementos de ordem material poderiam mentários que teceu em relação ao grau de
ser adicionados ao moinho para ilustrar de que forma mestiçagem, considerando os cabo-verdianos mais
Cabo Verde sendo, em termos geográficos, parte da africanos do que europeus, a desconsideração do cri-
África, o não é completamente em termos culturais. oulo, enquanto meio de expressão cultural e
A agricultura em terraços, modo de apropriação e de identitário que é hoje, aos nossos olhos, tão digno
aproveitamento do terreno arável em declive que, como o português ou outro idioma qualquer, e as re-
sendo universal, no caso de Cabo Verde, tudo nos ferências à não existência de uma arte popular, uma
leva a pensar que se trata de uma herança européia, (...) "arte popular que seja característica do arquipéla-
mediterrânica, a mesma que se reflete nos terraços go" (...) (p. 252), foram, no fundamental, as observa-
da ilha da Madeira. Esta é, por exemplo, a opinião de ções que feriram a sensibilidade cabo-verdiana. E a

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resposta não tardou. Baltasar Lopes, ausente do ar- tempo houve uma separação rígida entre os objetos
quipélago quando da visita, respondeu-lhe aos mi- de estudo e os instrumentos metodológicos da Socio-
crofones da Rádio Barlavento com apontamentos logia e da Antropologia. Enquanto a primeira discipli-
posteriormente publicados em opúsculo (Lopes 1956). na se dedicava ao estudo de sociedades complexas,
A resposta consistiu fundamentalmente em demons- modernas e industrializadas, constituíam as socieda-
trar a especificidade cultural e social cabo-verdiana, des primitivas o objeto de estudo privilegiado da An-
que, na verdade, passou, por várias razões, desperce- tropologia. "With regard to sociology (...) My work is
bida a Gilberto Freyre. De significativo teve ainda a entirely in anthropology" (...), responde Herskovits a
resposta o fato de ter partido de um dos protagonistas Gilberto Freyre.12
do movimento "claridoso", o movimento que, para No rol de interesses da Antropologia cabia ou,
(re)descobrir a identidade cabo-verdiana, se inspirara talvez melhor, começou a ser igualmente contempla-
no regionalismo nordestino, do qual se destacara a da, por essa altura, a diáspora africana no Novo Mun-
figura de Freyre. Para o grupo da Claridade, as seme- do, alargamento que se deu em muito por iniciativa
lhanças entre as realidades cabo-verdiana e nordesti- do próprio Herskovits, assim como de sociólogos como
na eram, pois, evidentes. Robert Park (1864-1944), o grande impulsionador da
Uma das explicações do comportamento de chamada Escola de Chicago, e do seu discípulo,
Freyre residirá na expectativa que alimentou em rela- Donald Pierson, autor do livro Negroes in Brazil (1942),
ção ao grau de mestiçagem em Cabo Verde. Como o mas que, de qualquer modo, não estudaram propria-
próprio confessa, tinham-lhe dito, pois, que iria (...) mente as sobrevivências culturais dos negros no Novo
"encontrar em Cabo Verde uma paisagem e uma po- Mundo, mas sim as relações raciais despoletadas pela
pulação semelhante às de certas áreas do Nordeste" sua presença no Novo Mundo.
(...) (p. 239). O Nordeste em referência é o da zona De fora, ainda por alguns anos, ficaram as soci-
canavieira de Pernambuco e da Paraíba, onde o grau edades híbridas, isto é, as sociedades onde se verifi-
de miscigenação tende mais para o claro do que para cava uma mistura de culturas e raças relativamente
o escuro, o que é, na verdade, diverso da cor de pele consolidadas e que, como tal, se reproduziam. A abor-
dominante na Ilha de Santiago. dagem a essas sociedades, entendidas, afinal, como
Mas creio que não foram apenas as expectati- sociedades sem futuro, era, por essas mesmas razões,
vas que trazia de Lisboa que o terão levado a inter- feita a partir do ponto de vista ocidental, a cuja cultu-
pretar a sociedade e a cultura cabo-verdianas da for- ra os processos de miscigenação deveriam, em prin-
ma que o fez. Para além da coloração de pele, cípio, ser reversíveis. Nas palavras que Freyre dedi-
referiu-se igualmente, em termos pouco lisonjeiros, cou a Cabo Verde é, pois, possível detectar esse
ao crioulo, a língua de berço em Cabo Verde. Ilídio mesmo princípio orientador. Surge de forma explícita
do Amaral, em conferência proferida na Sociedade em Freyre, e dele não está completamente livre, o
de Geografia de Lisboa, no âmbito do colóquio "Gil- estudo, entretanto tornado clássico, de Michel Leiris
berto Freyre: o Homem, a Obra e a Teoria Social"11, sobre os Contacts de Civilizations en Martinique et
apresentou como justificação de tal inadvertência o Guadeloupe (Paris: Unesco 1955). Insere-se o mes-
fato de não haver na altura uma definição de crioulo mo numa série de estudos patrocinados pela Unesco
enquanto sistema lingüístico. E, na verdade, ao longo (programa de 1952), com o objetivo de se fazer "un
do livro, Freyre apenas emprega o termo crioulo para inventaire critique des méthodes et des techniques
a caracterização (bio-cultural) das pessoas, fazendo- employées pour faciliter l'intégration sociale des
o, aliás, por derivação do sentido que o termo assu- groupes qui ne participent pas pleinement à la vie de
me ou assumiu em algumas partes do continente la communauté nationale" (...) (in préface). Especifica-
americano, mormente no Brasil. mente a propósito da reversibilidade dos processos
Para além dessa, existe ainda uma outra expli- de miscigenação à matriz européia ou ocidental, diz-
cação que não será de somenos importância. Tem esta se ainda no mesmo prefácio:
a ver com o fato de as Ciências Sociais, à altura, não "Il ne suffit pas de s'étonner que les descendants
disporem nem da postura epistemológica, nem dos des esclaves libérés en 1848 soient devenus en trois
instrumentos metodológicos adequados ao estudo e générations des citoyens au même titre que les
à valorização de sociedades socioculturalmente híbri- Normands, les Bourguignons ou les Picards, il faut
das, como era e é Cabo Verde. Na correspondência encore examiner les étapes de cette transformation
entre Melville J. Herskovits e Gilberto Freyre, compi- et, en étudiant la situation présente dans un esprit
lada por Pedro Borges Graça, é possível verificar, so- scientifique, évaluer la nature et l'étendue d'une
bretudo numa carta de Herskovits (datada de 6 de telle assimilation" (negrito meu).
agosto de 1935), como, na verdade, durante muito Postura diferente teve, anos mais tarde, Manu-

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el Ferreira quando publicou o seu livro A Aventura 1
Editado em Cabo Verde, pela Ilhéu Editora em 1989.
Crioula (1967). Abordou por dentro a cultura cabo-
2
Evasionismo traduz-se, no contexto cabo-verdiano, na conside-
ração da partida, eventualmente da emigração, como a panacéia
verdiana, fato, aliás, reconhecido pelo prefaciador,
dos males que afligiam as gentes do arquipélago. Trata-se de um
Baltasar Lopes. E fê-lo, por conseqüência, a partir de sentimento recorrente em quase todos os "claridosos" e que teve
um ponto de vista epistemológico que diferiu das pers- em Baltasar Lopes, no seu poema "Itinerário para Pasárgada", es-
pectivas que orientaram as observações e aproxima- crito sob influência do poeta brasileiro Manuel Bandeira (autor do
poema "Vou-me embora pra Pasárgada"), um dos mais altos mo-
ções quer de Gilberto Freyre (em relação a Cabo Ver-
mentos doutrinários.
de), quer de Michel Leiris (sobre duas ilhas das 3
Um dos pioneiros desse percurso terá sido Aguinaldo Fonseca
Antilhas). Diríamos, aliás, que a atitude de Manuel que, em 1951, quando já se encontrava em Portugal, publica Li-
Ferreira se aproxima da perspectiva epistemológica nha do Horizonte. Excetua-se, nessa apreciação, a expressão de-
dos chamados Cultural Studies. E essa aproximação vida a Pedro Cardoso, poeta da "geração nativista", que, mais por
razões sentimentais do que por conotação política, invocou a Áfri-
dá-se por dois lados; pelo que é consubstanciado pela ca num dos versos do Jardim das Hespérides (1926) (Cf. Ferreira
resistência de uma subcultura [que não é operária, 1977: I/48).
como aconteceu em dada fase do desenvolvimento 4
Essa série de publicações foi antecedida pela publicação de uma
dos British Cultural Studies (Kellner 1997), mas, sim, coletânea de contos, Contra Mar e Vento (Lisboa s.d.), onde o au-
tor republicou o conto Dragão e eu, um conto fundacionista, em
"crioula" e pela valorização das manifestações popu-
termos estéticos, do que veio, na verdade, a ser a "geração de 40".
lares, ou seja, pela inclusão no estudo de manifesta- 5
Sigla que o PAIGC adaptou em Cabo Verde após o golpe de Esta-
ções artísticas e culturais que não pertencem ao do- do de João Bernardo Vieira (Nino Vieira) na Guiné-Bissau, a 14 de
mínio da alta cultura, onde geralmente gravitam os novembro de 1980. Até aí o PAIGC era o partido dirigente dos
interesses das teoria e ciência literárias. dois países, situação que, com o golpe de Estado e com o corte de
relações diplomáticas entre os dois países, naturalmente se alte-
O ensaio de Manuel Ferreira antecipou-se igual- rou.
mente à postura que o pós-modernismo 6
O Dia das Calças Roladas (Mindelo: Ilhéu Editora 1992), A Ilha
(inclusivamente os Cultural Studies, desta feita influ- Fantástica (Lisboa: Caminho 1994), Estórias de Dentro de Casa (Lis-
enciados pelos paradigmas pós-modernistas ou pós- boa: Caminho 1996) e A Família Trago (Lisboa: Caminho 1998).
fordistas) tem vindo a desenvolver em relação à valo-
7
Igualmente publicado pela Ilhéu Editora.
rização do que é culturalmente diferente e, por vezes,
8
É, por exemplo, o caso dos Mandingas (mormente entre os des-
cendentes do Reino de Pakao), descritos por Schaffer e Cooper
marginal. No cruzamento de culturas e gentes que a (1987). Dizem estes autores: como (...) "many peoples, the
globalização proporciona ou condiciona e a que os Mandinko have prohibitions against incest and adultery. Adulterers
paradigmas pós-modernistas procuram dar resposta, are beaten or fined, although in some cases they are not punished
seria hoje, pois, impensável não valorizar o percurso except for the stigma society attaches to them. The punishment
for adultery in previous centuries was more drastic, ranging from
identitário cabo-verdiano (e outros congéneres), não enslavement (...) to execution if the adulterer were a slave or poor
dar a devida atenção à sua crioulofonia. Aí reside a person and the partner of higher rank (...)" (p. 85). Nada é dito
especificidade da sua identidade, fruto de um con- quanto ao fato de ser o "humilhado" a exercer a represália como
texto social e estético que, informando o romance Os forma de lavar a sua honra, como, na realidade, acontece com o
síndrome da honra e vergonha da "cultura mediterrânica".
Dois Irmãos , igualmente o legitima como cabo- 9
Sendo raros em Portugal, são usuais na ilha de Porto Santo, onde
verdiano. são designados por pias ou cochos. P Pe. Eduardo Pereira conside-
A título de conclusão, diria que a legitimação rou o cocho como um "vestígio seguro da influência africana na-
social e estética de Os Dois Irmãos, que não é euro- quela ilha". Cf. Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e
Benjamim Pereira, 1983, Tecnologia Tradicional Portuguesa: Siste-
péia nem africana, mas, sim, cabo-verdiana, no que
mas de Moagem, Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Cien-
se configura a particularidade do arquipélago no sis- tífica: 22.
tema-mundo, não desvaloriza, numa relação de cau- 10
In Breve Historial sobre Conservação de Solos e Água (CSA) em
salidade directa, as observações e as descrições de Santo Antão, in Atas do 1º Seminário Nacional de Conservação de
Gilberto Freyre em Aventura e Rotina. Estas são fruto Solos e Água (Vila da Ribeira Grande, Santo Antão, de 9 a 12 de
Novembro de 1987), editadas por Evert Kloosterboer, Wageningen
de uma época, pelo que dificilmente se poderá esta- 1988, pp. 7 e segs. Agradeço ao Prof. Ilídio do Amaral as informa-
belecer entre os textos em apreço relações de exclu- ções que me prestou a respeito desta matéria, mormente a indi-
sividade ou de complementaridade. Creio ter, contu- cação bibliográfica que citei.
do, contribuído para uma releitura das apreciações 11
O colóquio teve lugar no dia 28 de Abril de 2000. A sua organi-
de Freyre sobre Cabo Verde, apreciações que tanta zação coube ao Centro Português de Estudos do Sudeste Asiático
e destinou-se a comemorar o 1º centenário do nascimento de
polêmica geraram e, provavelmente, continuarão a Freyre.
gerar. 12
O estudo de Pedro Borges Graça intitula-se Gilberto Freyre na
Correspondência de Melville J. Herskovits: o Luso-tropicalismo Fren-
_______________________ te ao Afro-americanismo, in Adriano Moreira e José Carlos.

Notas Bibliografia

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


41
ASÚA ALTUNA, P. Raul Ruiz. Cultura tradicional banto. Luanda:
Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.
CRISTÓVÃO, Fernando. Introdução: para uma teoria da literatura
de viagens. In: CRISTÓVÃO, Fernando. Condicionantes cultu-
rais da literatura de viagens: estudos e bibliografias. Lisboa:
Cosmos, 1999. p.13-52.
FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa.
Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.
FONSECA, António. Sobre os Kikongos de Angola. Luanda: União
dos Escritores Angolanos, 1985.
GONÇALVES, António Custódio. Questões de antropologia social
e cultural. Porto: Afrontamento, 1997.
KELLNER, Douglas. Critical theory and cultural studies: the missed
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Londres: Sage Publications, 1997. p.12-41.
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VENÂNCIO, José Carlos. Literatura e poder na África lusófona. Lis-
boa: Ministério da Educação / ICALP, 1992.

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42
Sobre O Mundo que o Português Criou: Reflexões
no Limiar do Século XXI

Ilídio do Amaral
Geógrafo – Universidade de Lisboa – Portugal

"(...) Mundo que, como conjunto de valores EUA, Venezuela), africanos (África do Sul e
essenciais de cultura, como realidade psico- outros) e australiano. De modo idêntico po-
social, continua a existir. demos dizer de outras diásporas, como ser-
Sobrevive à desarticulação do império vem de exemplos a brasileira e a
simplesmente político. Resiste à pressão de
caboverdiana. Do segundo caso citamos as co-
outros impérios meramente econômicos ou
políticos" (G. Freyre, O Mundo que o Português munidades residuais do Oriente, em Goa,
Criou, Lisboa, 1940, p. 30). Damão e Diu (que foram enclaves coloniais
na margem ocidental da Índia até 1961), na
Em Lisboa, a 17 de Julho de 1996, foi cidade de Macau (no sul da China, no estuá-
constituída, formalmente, a Comunidade de rio do Rio das Pérolas), e de Timor Leste (par-
Países de Língua Portuguesa (CPLP), engloban- te de uma ilha entre a Indonésia e a Austrália,
do, referidas por ordem alfabética, as Repú- muito mais próxima da primeira do que da
blicas de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné- segunda).
Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Timor Leste, antiga colônia portuguesa
Príncipe. (área global de 18 899 km 2, compreendendo
São cinco estados africanos, dois dos a parte oriental da ilha, o enclave de Oe-Cusse
quais microinsulares, e um sul-americano, de na outra parte, a que pertence à Indonésia, a
grandeza subcontinental, que foram partes de Ilha de Ataúro e o Ilheu Jaco; cerca de 875
um vasto império ultramarino, gerado a partir 000 habitantes em 1997) está na ordem do
dos séculos XV e XVI por uma metrópole euro- dia, pelos terríveis acontecimentos que aí ti-
ibérica (Portugal), que após as independênci- veram lugar há poucos meses. Ocupada pela
as das colónias africanas, em 1974 e 1975, e Indonésia nos últimos vinte e cinco anos (1974
a devolução de Macau à China, em dezem- a 1999), a maioria da população optou, por
bro passado, regressou, definitivamente, à sua referendo realizado em finais de agosto do ano
dimensão continental original, com duas re- passado, com a supervisão das Nações Uni-
giões autônomas arquipelágicas (Açores e das, pela autodeterminação, como forma de
Madeira). transição para a independência do mais jo-
Na sua diversidade de tamanhos e for- vem estado do Mundo: Timor Lorosae, isto é,
mas, bem como de importâncias econômica Timor-Terra do Sol nascente.
e política, têm de comum os alicerces históri- Infelizmente, as forças militares
cos da língua portuguesa, usada por cerca de indonésias estantes no território e grupos de
200 milhões de pessoas, e da lusitanidade. São timorenses afectos ao regime indonésio, com-
os povos do espaço lusófono que, num senti- pondo as "milícias" pró-integracionistas, não
do mais amplo, abarca também os núcleos de aceitaram os resultados e, em pouco tempo,
emigrantes de fala portuguesa residentes em mataram, pilharam e destruíram quanto
diversos países de outras línguas dos cinco quizeram e puderam, deixando o território
continentes, num valor global mal conheci- literalmente desvastado. Houve que constituir
do, mas que se sabe ser bastante elevado, e uma força militar internacional, com predo-
algumas comunidades residuais. minância australiana, pela proximidade com
Do primeiro caso são exemplos os im- Timor, para intervir no território, de modo a
portantes núcleos de portugueses e seus des- fazer parar a onda da barbárie que chocou os
cendentes em países europeus (Espanha, Fran- sentimentos de todo o mundo.
ça, Bélgica, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, A ONU assumiu a sua administração,
Grã-Bretanha, etc.), americanos (Canadá, colocando em Díli, a capital timorense, um

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alto funcionário, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, (os de desenvolvimento humano elevado), de 65 a
que está a ser coadjuvado pelo Conselho Nacional da 130 (médio) e de 131 a 175 (baixo).
Resistência Timorense (CNRT), o qual tem como pre- No conjunto dos sete países da CPLP, seis dos
sidente o carismático Comandante Xanana Gusmão, quais situados na faixa tropical, agiganta-se o Brasil
ex-prisioneiro dos indonésios durante vários anos, e em tamanho e em volume populacional, pois tem
pela Igreja católica, representada pelos bispos D. cerca de 80 p.100 do total de um e de outro. Os
Ximenes Belo, de Díli, e D. Basílio Nascimento, de pouquíssimos índices do Quadro I suscitam as gran-
Baucau. des diferenças que vão do enorme país sul-america-
No tateamento de medidas para a reconstru- no ao microestado insular africano de São Tomé e
ção das estruturas físicas e recuperação das comuni- Príncipe. Em relação ao Índice de Desenvolvimento
dades humanas há uma que aqui pomos em evidên- Humano (IDH), apenas Portugal tem lugar no primei-
cia, defendida pelo CNRT: a reposição da língua ro escalão, o dos países de desenvolvimento humano
portuguesa como língua oficial e reforço dos laços com elevado, enquanto o Brasil, Cabo Verde e São Tomé e
Portugal. Bem aceito por uma pequena parte da po- Príncipe estão no segundo, de desenvolvimento hu-
pulação, sobretudo pelas pessoas que nasceram e vi- mano médio, e os restantes três no terceiro, de de-
veram sob o regime português, todavia não se mos- senvolvimento humano baixo.
tram tão favoráveis a isso muitos dos nascidos e
educados em tempos da ocupação indonésia, falan- Num mundo marcado pelo aceleramento dos
tes de tétum, uma língua franca entre os vários gru- processos de mundialização da economia, provoca-
pos etno-lingüísticos do território, e obrigatoriamen- do pela espantosa evolução tecnológica e pela
te escolarizados em bahasa , a língua nacional liberalização da política econômica, iniciada na dé-
indonésia, com aprendizagem do inglês. cada de 80, mas também dividido em grandes blocos
É natural que, numa primeira fase, de cinco a político-econômicos e outros agrupamentos regionais,
seis anos, o bahasa continue a ser utilizado no ensi- sobressaem os do Atlântico Norte.
no, para se evitarem as conseqüências negativas de De um lado está o conjunto de quinze estados
uma ruptura imediata, até porque existem os forma- da União Européia (UE), participantes de um projeto
dores e os instrumentos de lecionação preparados nes- de união econômica, política e social, verdadeira "Tor-
sa língua, particularmente livros de leitura e gramáti- re de Babel" reunindo países de várias línguas, de raízes
cas. Entretanto, é de esperar que a língua portuguesa germânica, anglo-saxônica, latina, grega e nórdica, mas
venha a recuperar o seu lugar em crescendo. tendo como veiculares predominantes a inglesa, a fran-
Mas há mesmo quem se pergunte até que pon- cesa e a alemã; e do outro lado a coligação aduaneira
to Portugal, um país que não é rico, nem proeminen- de três estados do Acordo de Livre Comércio da Amé-
te na teia de negócios internacionais, situado nos rica do Norte (Nafta), dois com predomínio da língua
antípodas, poderá ajudar o desenvolvimento, preten- inglesa e um de língua espanhola.
dido rápido, de Timor Lorosae, pequena parcela lo- Portugal, logicamente, está no primeiro conjun-
calizada entre a Indonésia e a Austrália. to. Com os seus 10 milhões de habitantes (volume
Relativamente ao Índice de Desenvolvimento populacional semelhante aos da Bélgica e da Grécia,
Humano (IDH), nos relatórios do Pnud os 175 países ficando entre o daquele e o da Suécia), na periferia
do Globo estão seriados em três escalões: de 1 a 64 meridional, ocupa o nono lugar dos membros da

QUADRO I – Dados estatísticos dos sete países da CPLP

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União Européia atual, que somam um total de cerca do Sul (Mercosul), visando acelerar o crescimento
de 372 milhões de habitantes: ao lado, cinco grandes econômico, reúne o Brasil, o único país de língua
(Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Espanha), portuguesa, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai e ain-
com populações entre cerca de 82 e 40 milhões de da a Bolívia e o Chile, como estados associados, to-
habitantes, estão dez pequenos cujas populações vão dos de língua espanhola. Em valores globais, assenta
dos 400 mil (Luxemburgo) a 16 milhões (Holanda). numa população de cerca de 230 milhões de habi-
À escala mundial, o volume demográfico não tantes que vive em 13,7 milhões de km 2; só o Brasil
só reflete o peso dos falantes de uma determinada tem perto de 71% dessa população e mais de metade
língua, mas também, quando associado a grande de- da área.
senvolvimento econômico e tecnológico, pode influ- Na África, apesar de numerosas tentativas de
enciar, em certa medida, a decisão política sobre pro- integrações regionais, como as da Comunidade Eco-
jetos de instituições comunitárias. Ora Portugal, pelas nômica da África Ocidental (Ceao), que tem assumi-
suas próprias particularidades e outras que lhe são do outras formas; da Comunidade Econômica dos
exteriores, não está no grupo dos poderosos e isso Estados da África Central (CEEAC); da Comunidade
traduz-se na secundarização dada à língua e cultura para o Desenvolvimento da África Austral (mais co-
portuguesas. nhecida pela sigla inglesa de SADC, inicialmente foi
A associação aduaneira da Nafta, apenas com uma simples Conferência, a SADCC), que visa a coo-
três membros, os EUA, o Canadá e o México, tem um peração entre os seus onze membros, dos quais ape-
mercado potencial de cerca de 394 milhões de habi- nas dois não são de língua oficial inglesa (por ordem
tantes, o que representa um total superior ao da União alfabética, África do Sul, Angola, Botsuana, Lesoto,
Européia. Na associação predomina a língua inglesa, Malavi, Moçambique, Namíbia, Suazilândia, Tanzânia,
na versão estado-unidense, e os EUA têm posição Zâmbia e Zimbábue); e outras, as instabilidades polí-
quase hegemônica, acrescida pelo fato de ser a gran- ticas, que muitas vezes têm degenerado em conflitos
de superpotência mundial, contra a qual se reforça a armados, as dificuldades do desenvolvimento econô-
coligação da UE. mico, os níveis extremos de pobreza não têm sido
Ambas as organizações tendem a crescer. A favoráveis à sobrevivência das integrações regionais
União Européia, inicialmente pensada para seis mem- e, muito menos, à formação de blocos capazes de
bros, os fundadores de 1957, tem sofrido sucessivos competir com os do Norte. Deste modo, o Atlântico
alargamentos com a adesão ou adição de outros paí- meridional continuará a ser como que um fosso, so-
ses, prevendo-se que, em futuro próximo, venham a bre o qual são raras as pontes de ligações econômicas
ser 27 membros (em números atuais, um total de Sul-Sul.
478,5 milhões de habitantes), dos quais a maioria será O estado insular saheliano de Cabo Verde e o
de países pequenos, com volumes populacionais abai- continental chuvoso de Guiné-Bissau, cujas indepen-
xo de 16 milhões de habitantes, contra apenas sete dências, em 1974 e 1975, tiveram o patronato de um
considerados grandes, cujas populações variam entre mesmo partido político (Partido Africano para a Inde-
cerca de 23 milhões (Roménia) e 82 milhões (Alema- pendência da Guiné e Cabo Verde – PAIGC), pouco
nha) de habitantes. Juntar-se-ão, assim, outras raízes ou nada têm hoje de comum, salvo a língua portu-
lingüísticas. A Nafta cresce por insuflação de riqueza guesa. Separados desde 1980, por rompimento dos
e, desde que passe a Pafta, por adesão de países do laços partidários, as trocas são mínimas. A democra-
Pacífico Norte, continuará em posição dianteira. cia caboverdeana tem evoluído serenamente e o
Ainda que apresentados, somente, os valores PAICV já foi substituído por um outro partido no po-
populacionais, estão implícitas as rivalidades econô- der, sem que disso resultassem perturbações na vida
micas dos dois grandes blocos, cujas actividades em- das ilhas. Já o mesmo não se pode dizer da Guiné-
presariais tendem para o gigantismo, que parece ser a Bissau, sede de dois golpes de estado, em 1980 e
opção inamovível das grandes economias actuais. 1999, o segundo dos quais com maior violência e
Entrementes, continua firme o expansionismo da lín- degradação total da economia e da vida social. O país,
gua inglesa na versão estado-unidense, e o way of life bastante pequeno (área total de 36.125 km 2), com
norte-americano vem sendo adaptado universalmen- uma larga faixa litoral insular e de terras baixas (8.125
te. km 2), freqüentemente inundada pelas marés e águas
Mantêm-se as diferenças entre o Norte desen- de estuários fluviais, está encravado entre dois outros
volvido e fortemente industrializado, onde impera o que foram colônias da França, 5 e 7 vezes maiores do
Grupo dos 7, e o Sul menos desenvolvido, endivida- que ele (Senegal e Guiné-Conacri). Para contrabalan-
do e dependente do primeiro, desprovido de blocos çar a sua economia, que é uma das mais pobres do
competitivos. Na América do Sul, o Mercado Comum continente africano, e a reforçar a sua posição políti-

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ca, tem procurado tirar partido das relações com os dos e a sua maior dependência em relação aos mais
seus vizinhos, membros da Comunidade de países de desenvolvidos; a exploração do espaço exterior com
língua francesa, e obter um lugar nesta associação. a utilização de satélites, as viagens à Lua e as pesqui-
Em várias ocasiões a Guiné-Bissau tem sido alvo sas interplanetárias; a tecnologia da miniaturização
de interferências do Senegal e da Guiné-Conacri, com aplicada em inúmeros instrumentos e aparelhos; as
inelutável apoio da França, desejosa de alargar a sua grandes descobertas médicas e farmacêuticas com
área de influência numa porção do continente que já fortes incidências no aumento da esperança de vida à
esteve sob o seu domínio. nascença, mas também a relação entre pobreza e
Na parte meridional da África ficam Angola e degradação do meio ambiente; os progressos explo-
Moçambique, dois grandes territórios separados um sivos dos meios de transporte e das telecomunicações;
do outro por larguras enormíssimas de territórios per- a globalização dos mercados; o fim da bipolaridade
tencentes a três países de língua oficial inglesa: política mundial com a queda do muro de Berlim e a
Zâmbia, Malavi e Zimbábue. Se Angola confina a norte hegemonia da democracia capitalista; o fim de certos
e leste com países de língua oficial francesa, em de- impérios e federações dando lugar ao aparecimento
gradação política e econômica (Congo-Brazzaville e de novos estados, com ressurgimento de nacionalis-
República Democrática do Congo), e a sul com um mos exacerbados, manifestações raciais e xenófobas;
muito estável, onde o inglês é a língua dominante os conflitos regionais em todos os cantos do mundo;
(Namíbia), Moçambique está completamente rodea- etc., etc.
do por países de língua oficial inglesa (Tanzânia, Quanto mais progride a mundialização da eco-
Malavi, Zâmbia, Zimbábué, África do Sul e nomia, quanto mais se acentua a tendência para a
Suazilândia), gozando de situações relativamente es- instauração de um estilo de vida global, mais se evi-
táveis, quando vistas à luz do que se passa na África, dencia um movimento contrário a essa
com os quais mantem trocas comerciais e culturais homogeneização, que se pode chamar de nacionalis-
importantes. Não admira pois que o seu governo ti- mo cultural – a diferenciação por meio da língua,
vesse procurado obter um lugar na Commonwealth das raízes históricas, da cultura – um dos desafios que
britânica. temos de saber entender para encontrar as melhores
Poderá parecer estranha a utilização de refe- soluções. E gostemos ou não, os índices numéricos,
rências demográficas e econômicas quando a nossa as referências descritivas, as intervenções de fundo
preocupação fundamental é a da língua e cultura, mas têm tido as marcas incontestáveis do país onde está
isso justifica-se pelo fato das primeiras existirem com sediada a ONU, organização internacional que tem
elevado grau de fiabilidade e serem facilmente com- em vista salvaguardar a paz e a segurança internacio-
paráveis, o que já não sucede com as informações nais e instituir entre as nações uma cooperação eco-
nos domínios lingüístico e cultural, mesmo quando nômica, social e cultural.
existem. Por outro lado, não esqueçamos que são cada Outros sinais evidentes, mais do quotidiano de
vez mais estreitas as relações entre evolução cada um de nós, traduzem as tendências hegemônicas
demográfica, crescimento econômico e afirmação lin- de uma língua e cultura que invadem todo o univer-
güística e cultural. so. Vejamos alguns exemplos de artigos de produção
Com todo o excurso anterior quizemos chamar em série, visíveis ou audíveis em todas as latitudes e
a atenção para o fato de, no limiar do século XXI, o longitudes, nos países mais desenvolvidos e nos me-
"Mundo que o português criou" estar a confrontar-se, nos desenvolvidos, nas aglomerações urbanas e nos
em todas as frentes, com investidas de processos de meios rurais, nos bairros ricos e nos bairros pobres:
globalização, que não são apenas os do setor econô- Coca-Cola, hamburger, jeans, jazz, rock and roll e pop.
mico, mas também os dos setores lingüístico e cultu- Na era da comunicação instantânea, as nossas crian-
ral. E estes são as bases de sobrevivência daquele ças aprendem mais rapidamente o léxico estranho da
Mundo particular. informática, todo ele em língua inglesa, do que o da
Se quisermos indicar alguns sinais sua língua materna: hardware, software, mainframe,
caracterizadores da segunda metade do século XX, bites, ram, CD, CD-ROM, bug, com a agravante de
depois da Segunda Guerra Mundial, teremos de algumas expressões corresponderem a abreviaturas
elencar, forçosamente, de várias categorias, a multi- esotéricas – CD provem de Compactdisk; Rom de
plicação de estados independentes, muitos deles Readonly memory; Ram de Random access memory;
microestados, empenhados na afirmação das suas pró- e bit e byte de Binary digit byte; www de World Wide
prias identidades culturais e nacionais, que implicam Web, para só citarmos algumas das mais usuais e que
também as lingüísticas e culturais; o crescimento estão na base da utilização de qualquer computador,
demográfico acelerado em países menos desenvolvi- o instrumento que, cada vez mais, constitui o prolon-

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gamento da nossa mão e da nossa memória, já para do Sul, confinante com sete países de língua espa-
não dizer da nossa presença-ausente. nhola (Venezuela, Colômbia, Peru, Bolívia, Paraguai,
Por via dos meios de transporte e de comunica- Argentina e Uruguai), aos quais temos de juntar o
ção modernos os povos do mundo têm sido aproxi- Equador, o Chile e mais três de outras línguas (Guiana-
mados cada vez mais uns dos outros, em todo o Glo- inglesa, Suriname-holandesa e Guiana Francesa, com
bo as distâncias de terra para terra, de indivíduo para os quais o Brasil confina a norte).
indivíduo tendem a ser encurtadas, graças ao uso de Excluídos os três últimos, de certo modo pode-
computadores e das redes a que estão conectados se tomar a América do Sul como uma réplica da Pe-
(com relevo para a Internet), o que faz com que o nínsula Ibérica, com as suas semelhanças e diferen-
telefone, o rádio transistorizado e o televisor percam ças, de onde partiram os argonautas e conquistadores
os espaços que detinham, ou se fundam com aqueles que mudaram a face do mundo nos séculos XV e XVI.
e mais as impressoras e máquinas de fax na indústria Vejamos algumas referências muito sintetizadas.
das telecomunicações. Portugal cresceu de um pequeno condado entre os
Foi propositada a utilização de palavras ingle- rios Douro e Minho, oferecido por soberano de al-
sas nos exemplos anteriormente referidos porquanto, guns reinos do norte da Península como dote de ca-
subjacentes a todos esses processos, superdinamizados samento, de uma filha bastarda, realizado em 1094.
na segunda metade do século XX, estão um suporte e Uma vez conseguida a autonomia em 1140, ainda
veículo lingüístico e cultural: o inglês, na sua variante que o reconhecimento papal demorasse mais 39 anos,
da superpotência estado-unidense, e a cultura forja- os seus soberanos foram expandindo o pequeno rei-
da no caldeamento de gentes de várias origens e ra- no para sul e para leste, por conquista de terras sob
ças que, desde o século XVII, começaram a entrar domínio muçulmano, até ao Algarve, cuja posse total
maciçamente nas terras promissoras do que viria a ser ficou garantida em 1249. Decorridos um pouco me-
a república federativa dos EUA desde o Tratado de nos de 50 anos, isto é, em 1297, Portugal adquiria as
Paris de 1783 e, mais apropriadamente, após ratifica- suas fronteiras, muito próximas das atuais, e Lisboa
ção da Constituição de 1789. Tem sido imparável a ganhava a qualidade de capital do novo país, conver-
expansão do "Mundo que o americano criou". tendo-se, rapidamente, em metrópole internacional,
Recordemos, porém, que a montante dessa lín- graças, em grande parte, à excelência do seu porto.
gua veícular universal e da sua história cultural estão Foi dela que partiram as caravelas das descobertas de
as de origem, do Reino Unido, o construtor do maior outras partes do Globo, marítimas, insulares e conti-
império colonial. Na sua época mais áurea, em finais nentais.
do século XIX / princípios do século XX, da sua altura Em contrapartida, a formação da Espanha, como
meã de cerca de 1 metro e meio, a rainha Vitória po- tal, só teria início em finais do século XV por união
dia olhar, num planisfério, a extensa mancha de terri- dos reinos de Aragão e de Castela, em 1492, na se-
tórios que, em todos os continentes e mares, estavam qüência de casamento dos respectivos soberanos, a
sob a sua soberania: o "Mundo que o inglês criara” e que se juntaram outros (Navarra, Leão, Astúrias e
que continuava em expansão. Catalunha, para só citar os mais importantes). De Se-
Argumentos idênticos poderiamos expender vilha, um porto e cidade no vale do Rio Guadalquivir,
relativamente a outras línguas e culturas do Ociden- sairiam as primeiras naus das descobertas, partilhan-
te, como a espanhola, a francesa e a holandesa que, a do com os portugueses o achamento de "novos mun-
partir dos séculos XV e XVI, também procederam à dos".
criação e expansão dos seus "Mundos". E, se tivermos Compartilhando a mesma Península do sul da
em conta alguns casos do Oriente, com a reserva da Europa, os dois países mantiveram sempre rivalida-
expansão das suas línguas e culturas terem ficado des políticas, exacerbadas pelas "corridas" da expan-
acantonadas no Índico e no Pacífico, chegaríamos a são ultramarina, mesmo quando tiveram de
conclusões muito próximas. contratualizar entre si, pelo célebre Tratado de
Achamos útil esta nota, como ponderação para Tordesilhas, assinado em 1494, a primeira partilha do
o fato de ser necessário ver o "Mundo que o portugu- mundo feita em todos os tempos, ficando para Portu-
ês criou" não como uma parcela isolada, uma "ilha" gal tudo quanto estivesse a oriente da famosa linha
no "oceano" universal, mas sim como uma parte de de 370 léguas traçada a ocidente das ilhas de Cabo
um todo e, sobretudo, descobrir como foram e têm Verde e para a Espanha o que estivesse para ocidente
sido as suas relações com os outros "Mundos". E o dele. É interessante notar que Cristóvão Colombo pro-
melhor caso de estudo está, justamente, no país e no curou nunca citar tal linha ou meridiano, preferindo
continente em que decorre esta reunião: o Brasil, o a referência a "uma linha imaginária que mandaram
único e imenso país de língua portuguesa da América assinalar sobre as ilhas de Cabo Verde e as dos Aço-

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res, cem léguas de pólo a pólo", como se pode ler, ração, pois desintegrou-se ao fim de onze anos; os
por exemplo, no seu testamento de 22 de Fevereiro períodos que precederam e sucederam a indepen-
de 1498. dência da Bolívia foram dolorosos, com perdas de ter-
Portugal saiu beneficiado com a inclusão, no seu ritórios, incluíndo a costa marítima; o Peru foi dos úl-
hemisfério, do canto nordeste subequatorial do Novo timos a ascender à independência, em 1824.
Mundo, fracamente povoado por grupos tupi- De qualquer modo, tal como no "Mundo que o
guaranis, a partir do qual se desenvolveria o imenso português criou", constituem parcelas do "Mundo que
território brasileiro, partilhado, primeiramente, em o espanhol criou", às quais se juntam as importantes
capitanias litorâneas. Para a Espanha ficou o resto, comunidades de emigrantes de língua espanhola que
ganho de forma rápida por conquistadores que residem em países de outras línguas e as residuais (o
raziaram os impérios densamente povoados e ricos, caso das Filipinas).
de variados povos e civilizações (de Mexica e Maya
ao complexo Inca) que iam do México ao Chile. As- Regressemos ao "Mundo que o português criou",
sim, logo desde o princípio da intrusão européia nes- dando maior atenção aos jovens estados africanos de
sas terras das "Índias", como as baptizou Cristóvão língua oficial portuguesa, que procuram afirmar as suas
Colombo em 1492 (recordemos que a designação de identidades próprias, as suas posições políticas,
"América", atribuída pela primeira vez em 1507, não económicas e culturais no contexto da lusofonia e
se deveu a qualquer descobridor ou conquistador, mas numa ordem mundial em transformação dinâmica.
a um obscuro clérigo de Saint Dié, Vosges-Lorena, Os dois microestados, Cabo Verde e São Tomé
Martin Waldseemueller, cosmógrafo e admirador de e Príncipe, fronteiros à costa da África, criados de raiz
Américo Vespúcio, pela leitura das suas célebres des- pela colonização portuguesa, pois que as ilhas esta-
crições de viagens), elas ficaram na posse dos dois rei- vam desertas quando foram achadas, e os três esta-
nos ibéricos. dos continentais, que os portugueses encontraram
O mais curioso é que, decorridos quatro sécu- povoados por gentes em diferentes estádios políticos,
los de colonização, da parte portuguesa nasceu um econômicos e sociais, debatem-se com problemas
estado nacional imenso, mas coeso, que não é exa- lingüísticos e culturais importantes. Após cinco sécu-
gero considerar como uma espécie de réplica de Por- los de colonização, ao obterem as independências
tugal (como estado-nação mais antigo da Europa), mas afirmaram-se como países africanos de língua oficial
de dimensões muitíssimo mais ampliadas. Além dis- portuguesa (Palops), sem contudo deixarem de salva-
so, constituíram casos únicos da história os fatos de a guardar os propósitos de implementação das línguas
colônia brasileira ter sido, durante 14 anos, de 1808 nacionais, problema que o Brasil não teve.
a 1821, a capital do império, quando, por virtude das Pretende-se que a Comunidade de Países de
invasões napoleônicas, a soberana e a sua família, a Língua Portuguesa (CPLP) seja uma instituição aberta,
corte e os ministérios trocaram Lisboa pelo Rio de Ja- que contribua para o reforço dos laços humanos, a
neiro; de D. João VI ter aí ascendido ao trono, em solidariedade e a fraternidade entre todos os povos
1816, por morte de sua mãe, que era a soberana; e que têm a língua portuguesa como um dos fundamen-
de a independência do Brasil ter assumido o caráter tos da sua identidade específica, desenvolva relacio-
de um acto de transferência de poderes na mesma namento estreito e profícuo com outras entidades e
família reinante – em 1822, D. João VI, rei de Portu- organizações internacionais, quer no âmbito univer-
gal, do Brasil e dos Algarves, etc., entretanto regressa- sal, quer no âmbito regional.
do a Lisboa, deixou de o ser do Brasil em favor de seu Dito de outra forma, estatuíram-se como impe-
filho D. Pedro, o imperador aclamado a 13 de outu- rativos a consolidação da realidade cultural nacional
bro. Os levantamentos e revoltas nunca foram tão for- e plurinacional que confere identidade própria aos
tes que pusessem em perigo a coesão do país. países de língua portuguesa, refletindo o relaciona-
O mesmo não se pode dizer do que aconteceu mento especial existente entre eles e a experiência
na parte espanhola. Cedo conheceria a divisão em acumulada em anos de profícua concertação e coo-
vice-reinos que se digladiavam; e, no século XIX, num peração; o empenhamento na progressiva afirmação
processo generalizado de balcanização, as indepen- internacional do conjunto dos países de língua portu-
dências foram obtidas a custo, com muitas revoltas e guesa que, apesar de constituírem um espaço geogra-
guerras sangrentas. Vejamos alguns exemplos: as Pro- ficamente descontínuo, se identificam pelo idioma
víncias Unidas do Rio da Prata proclamaram a inde- comum; a reiteração do compromisso de reforçar os
pendência antes do Brasil, em 1816; em 1819 Simón laços de solidariedade e de cooperação que os unem,
Bolívar criou a federação da Grande Colômbia (atuais conjugando iniciativas para a promoção do desenvol-
Colômbia, Equador e Venezuela), que teve fraca du- vimento econômico e social e para a afirmação e di-

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vulgação da língua portuguesa, que constitui, entre trar na realidade histórica ocidental regiões até então
os povos que a falam, um vínculo histórico e um pa- lendárias, de permitir à Europa o conhecimento de
trimónio comum resultante de uma convivência outras terras e outras gentes, de se assumir em pleno
multisecular que deve ser valorizada, pois é um meio como "transplantador para os trópicos de valores es-
privilegiado de difusão da criação cultural entre os senciais de cultura européia e quase-européia" (G.
povos que falam português e de projecção internaci- Freyre, 1940, p. 40), e de fundar, em meios tão dis-
onal dos valores culturais, numa perspectiva aberta e tantes e díspares uns dos outros, com etnias diversas,
universalista, fundamento, no plano mundial, de uma áreas culturais que se conservam até hoje predomi-
atuação conjunta cada vez mais significativa e influ- nantemente portuguesas nos seus motivos mais pro-
ente. fundos da vida.
Perante tais desígnios, conflui no nosso espírito Gilberto Freyre não se cansava de sublinhar o
o quanto Gilberto Freyre pôs em relevo no seu livro papel importante da mestiçagem dinâmica, ativa,
O Mundo que o Português criou, escrito há mais de diferenciadora, comum às sociedades que o portugu-
cinqüenta anos, sobretudo a esperança depositada no ês criou nos diversos continentes tropicais, como fa-
Instituto Luso-Brasileiro de Alta Cultura, que deveria tor de ligação entre os vários grupos de luso-descen-
abranger estudos muito mais latos do que aqueles que dentes no estabelecimento de unidade psicológica e
se propõe fazer o atual Instituto Internacional de Lín- de cultura, transformado como que numa "consciên-
gua Portuguesa (IILP), cujos objetivos fundamentais são cia de espécie" transnacional ou supranacional daquela
os de incrementar "o intercâmbio cultural e a difusão união luso-afro-asiático-americana (G. Freyre, 1940,
da criação intelectual e artística no espaço da língua pp. 45-46). Ora, a sua história geral e comparada, que
portuguesa, utilizando todos os meios de comunica- inclui formas de mobilidade biológica e de mobilida-
ção e os mecanismos internacionais de cooperação". de social horizontal e vertical, continua por escrever,
A proposta de Gilberto Freyre era muito mais ainda que já haja muitos estudos parcelares, talvez
ambiciosa, no sentido da criação de uma instituição mais abundantes no Brasil do que em Portugal e nos
que se debruçasse sobre a "unidade não só nacional, outros países lusófonos.
como transnacional, baseada em afinidades de cultu- Nas palavras de outro ilustre tropicólogo que
ra e de comportamento que excedem as fronteiras aqui recordamos, o nosso amigo Almerindo Lessa, os
simplesmente políticas para se firmarem em muralhas portugueses dos séculos XV e XVI promoveram, à es-
de cultura viva. Muralhas que, não isolando de ou- cala universal, três grupos de fenômenos cujas dimen-
tros povos, dão-nos personalidade moral entre eles. sões geográficas causaram uma verdadeira revolução
Definem-nos como uma das grandes federações mo- no pensamento científico do Ocidente (A. Lessa, "Se-
dernas de cultura" (G. Freyre, 1940, p. 47). mear a semente", No tempo do meu espaço. No espa-
Consubstanciava assim o seu conceito de ço do meu tempo, Lisboa, 1995, pp. 145-154): do
lusotropicologia, da análise e teorização dos fenôme- achamento e da exploração direta do mundo não-
nos histórico-sociais com características comuns rea- europeu (ações de âmbitos cultural, científico e eco-
lizados por sociedades tropicais marcadas indelevel- nômico), da europeização da faixa tropical (ações de
mente pela língua e cultura portuguesa ou portadoras âmbitos religioso, psicotécnico e também normativo)
de testemunhos evidentes de cultura portuguesa. e da formação do mestiço tropical – americano, afri-
Num mundo de contatos cada vez mais estrei- cano, asiático – simbiose do mundo europeu com o
tos, a caminho da sociedade que se diz da informa- mundo não-europeu (ações cultural, psicossomática
ção, sob o domínio das forças da globalização, que e também genética).
também tendem para a homogeneização cultural, Não esqueçamos que Portugal, pequeno país
cabe-nos a tarefa difícil de preservar e transmitir, en- europeu forjado pelo cruzamento de povos e cultu-
riquecido, esse "sexto continente", não territorial, mas ras, foi receptáculo das ações de vários colonizado-
lingüístico e cultural, de O Mundo que o Português res, que lhe deixaram marcas profundas, definidoras
criou, casa-grande onde terão lugar todos os da sua identidade, de que destacamos, pelas suas
interlocutores que, dotados de verdadeiro espírito de importâncias formativas, a romana, nos séculos II a.C.
ajuda mútua, afetiva e intelectual, queiram dialogar a I d.C., e a muçulmana, nos séculos VIII a XII. Na
sem subterfúgios. construção da língua, que também usam os seis paí-
Gilberto Freyre realçava o fato de Portugal dos ses lusófonos, predominaram os vocábulos de origem
séculos XV e XVI, na ponta mais extremada da Euro- latina, a que se juntaram cerca de meio milhar de pa-
pa, apesar da sua pequenez e relativo atraso econô- lavras herdadas do árabe. A língua e a cultura evoluí-
mico – um país de economia agrária e marítima, em ram graças a contribuições da espontaneidade popu-
circuito quase fechado –, ter sido capaz de fazer en- lar, da diversidade regional, da sabedoria acadêmica

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e da importação estrangeira. ção, dado que, em tempos coloniais, a utilização
No caso dos países de língua oficial portuguesa merecia reservas, e por vezes repressão, das autori-
há que considerar diferenças muito importantes. O dades administrativas, de agentes de ensino e mesmo
cimento da federação do Brasil, imensa nação homo- da igreja católica. Em muitos casos tornaram-se lín-
gênea, o quinto país do mundo em tamanho e em guas oficiais, reconhecidas constitucionalmente, como
população, está na língua portuguesa. Ainda que com sucedeu na Guiné-Bissau. Dada a dificuldade da lín-
diferenças culturais introduzidas pelas gentes de ori- gua portuguesa assumir o papel de língua de comuni-
gens diversas que o povoam e pelos produtos de mis- cação interétnica e à improbabilidade de uma das lín-
cigenação, pelos regionalismos e localismos que guas étnicas preencher o vazio (INDE, Língua de ensino
se foram desenvolvendo, não há dialetos, nem língua na Guiné-Bissau, Bissau 1986), o crioulo adquiriu o
franca que possam competir com a língua nacional. estatuto de língua nacional, capaz de se impôr em
Já o mesmo não sucede nos outros estados da todo o território e de assumir também o papel de sím-
Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Em Cabo bolo nacional; passou a ser utilizado pelos responsá-
Verde e em São Tomé e Príncipe, criações de raiz da veis políticos e pela Rádio Nacional nos seus discur-
colonização feita com a introdução de europeus e afri- sos e programas, com o fim de terem maior eficácia
canos em ilhas desertas, além da língua portuguesa junto das massas populares; e nos centros urbanos,
comum são utilizados os seus crioulos na vida corren- cosmopolitas, é usado como instrumento de comuni-
te, sem que seja falada qualquer língua africana. Em cação num contexto multilingüe.
contrapartida, na Guiné-Bissau, país multiétnico, se o No momento atual expressões como
português é a língua oficial e de relação, o crioulo e crioulidade, crioulismo, crioulófono e crioulólogo ga-
diversos dialetos africanos têm mantido lugares pre- nharam direitos de cidadania nos meios acadêmicos.
ponderantes. E nos dois grandes territórios de Angola Fala-se correntemente de países crioulófonos, uns li-
e Moçambique, habitados por numerosos grupos ét- gados à língua portuguesa (Cabo Verde, Guiné-Bissau
nicos, muitos deles com profundas diferenças históri- e São Tomé e Príncipe), outros à língua francesa (Haiti,
cas, lingüísticas e culturais, que lhes dão todos os atri- Guadalupe e Martinica, Guiana, Maurícia, Rodrigues,
butos de nação, nunca se desenvolveram crioulos; Seychelles, para só citar alguns exemplos), outros à
falam-se o português e línguas africanas. língua inglesa (Jamaica, Barbados, Seychelles, etc.), e
Algumas explicações para essa falta de crioulos ainda outros à língua espanhola (Curaçau, Aruba,
em Angola e Moçambique poderão estar na vastidão Bonaire, etc.), e há quem vislumbre a constituição de
dos territórios e no isolamento relativo em que podi- uma Comunidade de Países Crioulófonos.
am viver muitos dos grupos étnicos, no fato de os con- Relativamente à importância e reabilitação das
tatos entre os portugueses e os autóctones do sertão línguas africanas basta ter em consideração o que se
ter sido menos direto e menos estreito do que nas passa na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique.
outras colónias; houve sempre intermediários, na No primeiro, os cerca de 1 milhão de habitantes dis-
maior parte das vezes agentes de comércio, escravos tribuem-se por numerosos grupos etnolingüísticos,
libertos e mestiços de confiança dos mandantes, co- com relevo para os balanta (cerca de 27% da popula-
nhecidos como "pombeiros", "moçambazes", "sertane- ção total, na sua maioria animistas), fula (23%, na sua
jos", "funantes", todos bilíngües ou plurilíngües. maioria muçulmanos), mandinga (12%, também com
Os especialistas dos crioulos definem-nos, atu- predominância de muçulmanos), manjaco (11%, na
almente, como sistemas lingüísticos autônomos de sua maioria animistas), papel (10%, também com pre-
origens mistas, provenientes dos contatos de línguas domínio de animistas) e, mais distanciados, brame e
européias com línguas indígenas (africanas, asiáticas, beafada (cada um 3%, os primeiros animistas e os se-
etc.) ou importadas, que se tornam línguas maternas gundos muçulmanos) e outros. Apenas 11% da popu-
e línguas principais de comunidades humanas lação total usa correntemente a língua portuguesa,
(Benjamim Pinto Bull, O crioulo da Guiné-Bissau. Fi- 45% recorre ao crioulo como forma de expressão
losofia e sabedoria, Lisboa, 1989). Trata-se afinal de quotidiana, e perto de 46% do total da população é
uma riqueza lexical dinamizada através de processos poliglota, isto é, fala mais de duas línguas.
de relexificação de uma língua de base (a portuguesa, Em Angola, a Constituição da República defi-
por exemplo) e das línguas de substrato (como as afri- niu várias línguas nacionais principais corresponden-
canas), e ainda pelos diferentes processos de neologia tes aos grande grupos étnicos (fiote, humbe, kicongo,
no seio destas. kimbundu, kuanhama, lutchase, mbundu, mucubal,
Com o acesso à soberania de antigas colônias tchokwe, umbundo). Vejamos um pequeno exemplo.
européias de povoamentos mistos, onde se desenvol- No último recenseamento demográfico da cidade de
veram os crioulos, tem-se procedido à sua reabilita- Luanda e da sua região circundante, feito com sufici-

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ente rigor, em 1983, mas de que não foram publica- ências humanas, em muitos aspectos únicas e incom-
dos os quadros analíticos, da população de 5 anos de paráveis, de muita riqueza e profundidade, que ain-
idade e mais que habitava no município urbano de da não foi possível abarcar e compreender em todos
Rangel (um bairro periférico), num total de 103 938 os seus significados, do passado e do presente.
pessoas, quase 99% utilizava vulgarmente a língua Muitos estudos valiosos, apoiados em pesqui-
portuguesa, mas metade preferia uma língua nacio- sas pormenorizadas e cuidadas, têm tratado dos mais
nal; dentre estas, como seria de esperar, o kimbundu diversos aspectos dessas experiências, mas continu-
destacava-se das outras (44 087 dos inquiridos), pois am a faltar as interpretações comparativas que rele-
a cidade está inserida na área dos dessa língua, se- vem a dimensão determinante do "Mundo que o por-
guindo-se o kicongo (4 972) e o umbundo (3 442), tuguês criou", no presente e no futuro, que envolve
áreas confinantes com a primeira. milhões de seres humanos.
Em Moçambique a situação é idêntica à anteri- É urgente retomar o projeto de Gilberto Freyre,
or, com vários grandes grupos etnolingüísticos (swahili, de criação de uma instituição aberta, apolítica, com
macua-lomué, makonde, yao, ngoni, marave, um conselho de sábios que ditem as linhas de rumo
zambeze, shona, thonga, chope, bitonga). de estudos interdisiplinares, sistematizados e articula-
Naturalmente que nesse caso, como no ango- dos, da "cultura transnacional ou supranacional for-
lano e no guineense, ainda são grandes as distâncias mada pelos diversos povos que a capacidade portu-
a vencer para se passar das formas orais originais para guesa" (G. Freyre, 1940, p. 62) espalhou pelo Globo,
as formas escritas das línguas africanas, pois que, na em continentes e ilhas. Este é, porventura, o maior
sua evolução, nenhum dos povos do continente che- desafio que, a par dos outros, nos permitimos lançar,
gou à invenção da escrita. A redação do Tarikh al'Sudan nesta mesa-redonda sobre O Mundo que o Português
e do Tarikh al'Fattash, datados de meados do século Criou, do Seminário Internacional intitulado Novo
XVII e tidos como os textos mais antigos elaborados Mundo nos Trópicos, em ano do centenário do nasci-
por autores nitidamente africanos, da África ao sul do mento do homem mui ilustre que ora homenagea-
Sara, foi feita em escrita árabe. mos, considerado oficialmente "Ano Nacional Gilber-
Contudo, em todos os jovens estados, que fo- to de Mello Freyre".
ram colônias, se arraigou a determinação do desen-
volvimento das línguas maternas como forma de ins- _______________________
truir as suas populações, de afirmação da
transnacionalização das suas diversas identidades cul-
turais, procedendo ao estudo e criação de instrumen-
tos de base, como vocabulários, dicionários, gramáti-
cas, etc. que no futuro possam substituir, ainda que
parcialmente, a língua dos antigos colonizadores, to-
mada como oficial.

Tendo em conta tudo quanto ficou referido e


ainda a velocidade estonteante das modificações glo-
bais, políticas, econômicas, sociais e culturais, é lícito
questionar sobre o que será, no fim do próximo sécu-
lo, ou mesmo antes, o "Mundo que o português criou".
À porta do século XXI, após cinco séculos de
colonização, Portugal regressou, definitivamente, às
suas fronteiras metropolitanas tradicionais, delimita-
das no século XII, o que lhe confere o primeiro lugar
como Estado-nação mais antigo da Europa. Da sua
ação brotaram os estados da Comunidade dos Países
de Língua Oficial Portuguesa e outros territórios, des-
de o Brasil, que acedeu à independência em 1822, à
devolução de Macau à China no dia 19 de dezembro
último.
Foram cinco séculos de participação ativa na
construção do mundo moderno por ações levadas a
cabo em todos os continentes e mares. Foram experi-

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MESA-REDONDA 2
HOMEM , C ULTURA E TRÓPICO

Dia 22 de março
COORDENADOR:
Levy Cruz
Fundação Joaquim Nabuco – Brasil
Basta Recordar os Pés das Chinesas: Notas
sobre Gilberto Freyre e o Carnaval do
Brasil
Roberto DaMatta
Antropólogo – Universidade de Notre Dame – EUA

Meu título rememora uma passagem do trais, fazendo, além disso, que aderissem a
Cap. IV do livro Sobrados e Mucambos, obra "penteados elaboradíssimos"(pag. 98).
na qual Gilberto Freyre faz referência ao Car- A essas observações de cunho
naval brasileiro, mencionando, sem – entre- eminentamente etnográficos, devo acrescen-
tanto estudá-lo exaustivamente – algumas de tar um ponto não tocado por Freyre, a saber:
suas funções sociais em exatamente seis pa- por que, afinal de contas, esse foco nos pés
rágrafos, marcados pelo viés histórico e um das chinesas e das mulheres em geral? Por que
estilo interpretativo pioneiramente freudiano. esse empacotamento em espartilhos, "cintos",
Não deixa de ser significativo que, na- cintas, corpetes, soutiens e penteados extra-
quela ocasião, Gilberto tenha sido levado ao vagantes? A resposta é óbvia: tais modos de
Carnaval e, mais precisamente, ao "baile mas- construção (e "deformação" para usar um ter-
carado" de 1848, realizado no Teatro Apolo mo mais etnocêntrico, valorativo e dramáti-
em Recife, no contexto de uma discussão vol- co, repetindo Gilberto) do corpo feminino sa-
tada para uma das oposições mais marcantes lientam o lugar de flagrante imobilidade da
da "sociedade patriarcal brasileira": a tensa e mulher no sistema. Era uma expressão explí-
dinâmica dualidade entre o homem e a mu- cita de uma sociedade que destinava à mu-
lher. lher um quase-congelamento de movimentos,
É, pois, nesse capítulo, na página 98 da fazendo dela, por outro lado, um símbolo aca-
edição publicada pela Livraria José Olympio bado de estabilidade, de estoicismo e de
Editora, 1 que surge essa frase que é quase um sacríficio, valores mais do que apropriados à
adágio e mais uma prova da notória sensuali- gerência da casa e à manutenção da família,
dade gilbertiana: "Basta recordar os pés das da parentela e do círculo de amigos, em con-
chinesas deformados ao último ponto" – diz traste com a mobilidade e a velocidade e a
ele. mudança constitutivas do mundo masculino
Adágio arrematador do argumento se- e da rua. A honra e a vergonha, como sabe-
gundo o qual, nas relações entre os sexos no mos, ligam-se ao controle e ao ocultamento,
Brasil, a demanda patriarcal de distinção às dimensões e aos espaços internos que,
inapelável entre homem e mulher, distinção como sabem os poetas, operam como mura-
vantajosa para os homens, pois eliminava a lhas e portais. No quadro das representações
mulher da vida pública e da competição eco- ocidentais, o pudor está vestido, coberto, ta-
nômica e política, haveria de criar tanto a pado, escondido. 2
moça pálida e fraca, quase tísica de tanto co- O contraponto complementar e polar
mer caldos e de não apanhar sol, quanto desses modelos de deformação e exagero fe-
matronas de ancas e coxas moles e arredon- mininos – àquele contraponto característico
dadas, pesadas e densas nas suas gorduras, da escrita e da reflexão de Gilberto Freyre –
nas suas rezas e no seu aprisionamento ao seria um tipo de homem dominador e senho-
âmbito da casa, da parentela e das mucamas. rial que moldava e oprimia suas mulheres
Trata-se, deixe-me acentuar, de um estilo de (mais as esposas e filhas, menos as "mães",
construção dos gêneros que tinha como foco acrescentaria eu, refinando a análise), distan-
os pés, as cinturas e os cabelos das mulheres ciando-se delas tanto quanto distinguiam-se
nascidas e criadas no universo patriarcal. Foco pela vestimenta, gestos, insígnias, bengalas e
que promovia uma ênfase capaz de deformar, tetéias dos seus criados e escravos (eis um
tanto quanto numa China igualmente viri- outro contraponto).3
centrada, os pés e a cintura de nossas ances- Na demonstração pioneira de que a

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determinação sexual não se esgota na biologia pois poderiam ter, os pecados e desejos eram "escoados"
"homem" e "mulher" são ideologicamente definidos pelo confessor" (pag. 94) numa cultura que – eis um
em diferentes sociedades e culturas, um ponto que, outro paradoxo – tratava a mulher talvez mais huma-
diga-se de passagem, remete às separações entre de- namente do que a sociedade da América Puritana que,
terminação sexual e orientação cultural, realizadas na sem confissionário ou padre – eis um argumento da
mesma década por Margaret Mead, 4 Gilberto acaba mais pura estirpe weberiana – não tinha espaço para
por independentemente descobrir uma diferenciação o escoamento dos seus desejos e enlouqueciam.6
básica vigente nos bons "estudos feministas" contem- O fato é que:
porâneos: a distinção entre sexo (como dado biológi-
"A extrema diferenciação e especialização do
co) e gênero (como construção cultural).
sexo feminino em 'belo sexo' e 'sexo frágil' fez da mu-
Com isso, Sobrados e Mucambos apresenta uma
lher de senhor de engenho e de fazenda e mesmo a
surpreendente consciência de que as atitudes tradici-
iaiá de sobrado, no Brasil, um ser artificial e mórbido.
onais que vêm a mulher como passiva, intuitiva, pre-
Uma doente, deformada no corpo para ser a serva do
sa à casa e à família (ou a própria "espécie" como quis
homem e a boneca de carne do marido" (94).
Simone de Beauvoir no livro O Segundo Sexo), têm
origem social, fazendo parte de um variado repertó- Outra manifestação do patriarcalismo seria o
rio de formas ou estilos pelas quais o masculino e o "culto pela mulher" que se exprime abertamente na
feminino são culturalmente construídos e marcados. literatura, na música e na pintura, mas que, de fato,
Há culturas com homens femininos e mulheres mas- seria um disfarçado,
culinas, as tais mulheres que destoavam do padrão
"Culto narcisista do homem patriarcal, do sexo
patriarcal e que Gilberto gostava de chamar de
dominante, que se serve do oprimido – dos pés, das
"machonas", mulheres que faziam (eis uma imagem
mãos, das tranças, do pescoço, das coxas, dos seios,
deliciosa) “os seus irmãos padres parecerem moças”.
das ancas da mulher, como de alguma coisa de quen-
Uma ambiguidade, aliás, tabú nos estudos brasileiros
te e doce que lhe amacie, lhe excite e lhe aumente a
da época e que foi elaborado na sua "semi-novela",
volutuosidade e o gôzo. O homem patriarcal se roça
Dona Sinhá e o Filho Padre (publicada em 1964).
pela mulher macia, frágil, fingindo adorá-la, mas na
Tomado, pois, não como um dado biológico,
verdade para sentir-se mais sexo forte, mais sexo no-
mas como uma ideologia, um "sistema cultural" ou
bre, mais sexo dominador" (pag. 98).
um "fato social total" (como diriam, respectivamente,
Clifford Geertz e Marcel Mauss), as relações entre os É, pois, no curso desta leitura culturológica ori-
sexos apresentam manifestações culturais sintomáti- ginal dos sexos e dos papéis femininos que, fala da
cas e sistemáticas, institucionalizadas, que caberia es- moça, sem elaborar muito a virgem e o papel simbó-
tudar no caso brasileiro. lico da virgindade; que desenha mais a matrona do
Uma delas seria a opressão e a repressão da que a mãe e que, curiosamente, não toca na mere-
mulher que, nos confessionários e, posteriormente, triz, na mulher da vida ou da rua – mulher dona do
com os médicos de família, dariam vasão aos seus seu destino, sensualidade e eventualmente de homens
anseios e desejos. Observação que permite Gilberto – ficando somente com as mulheres da casa, que Gil-
aproximar com brilho a "medieval" confissão Católica berto acentua o primado da cultura sobre aquilo que,
da moderna psicánalise, roubando o confissionário à até o advento da Antropologia Cultural Boasiana, sem-
religião e comentando, com muita ironia – certamen- pre foi lido como biologicamente determinado: as
te para assustar ao mesmo tempo os progressistas e os relações entre o homem e a mulher. 7 De fato, um dos
reacionários – o fato paradoxal de como a Igreja, ao subtextos mais importantes deste capítulo, é o foco
"reprimir" pecados, ajudava na "higiene" e no "sanea- na cultura como o operador que deforma e tolhe o
mento mental" das nossas avoengas. Seria esse espa- corpo da mulher porque, para esse pioneirissímo Gil-
ço confessional que se imagina foco de atraso e re- berto, o físico é englobado e constituído pela cultura.
pressão que, muito antes de Freud, permitiu que viesse Se isso ainda não é aceito hoje em dia, imagine em
à luz "muito pecado, muito desejo reprimido que dou- 1936!
tro modo aprodreceria dentro da pessoa oprimida e A prova final deste argumento culturalista, no
recalcada". qual se demonstrava como as roupas, os enfeites, os
Para esse Gilberto revolucionariamente feminis- espartilhos e, sobretudo, os sapatos, moldavam os pés
ta, que obviamente lia de fora e individualisticamente das mulheres, distinguido-os dos pés dos escravos e
essas mulheres (pois nem sempre as pessoas se con- dos seus senhores, era o de que "Basta recordar os
fessam porque têm pecado ou desejos sufocados 5), pés das chinesas, deformados ao último ponto" (pag.
dotando-as de um horizonte psicológico que elas não 98).

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Mas qual é a relação desses pés deformados com brasileira, o jogo do bicho, Gilberto Freyre tem duas
o Carnaval? teorias do Carnaval.8 De um certo ângulo, são teorias
Conforme toquei acima, não deixa de ser curi- complementares, pois uma apela para uma suposta
oso que Gilberto discorra sobre o baile de máscara origem histórica e a outra para a sociologia da festa.
como modernização do velho entrudo, num capítulo Mas de outra perspectiva, elas revelam um ecletismo
dedicado às relações entre os sexos. De fato, nada é teórico que pode ser visto como o limite da originali-
mais flagrante no Carnaval brasileiro do que essa li- dade e do pioneirismo. O desejo especulativo era de
bertação das mulheres do âmbito familiar e caseiro, tal ordem que Gilberto não hesita em insinuar uma
quando a licença ritual lhes faculta uma conduta que origem indiana para o Carnaval brasileiro. Um ponto
as rotinas só permitem aos homens: aos pais, irmãos, que, subitamente transforma o antropólogo boasiano,
maridos e filhos. Conduta marcada por uma imbuido de que cada cultura é um universo a ser vis-
agressividade destoante dos padrões sociais correntes to em si mesmo e assim interpretado, num difusionista
e que não passou despercebida a Thomas Ewbank, vitoriano da estirpe de Elliot Smith e William Perry. 9
viajante americano de Nova York, que, descrevendo Aqueles que traçavam a origem das pirâmides aztecas
o Rio de Janeiro de 1849, revela sua surpresa para e maia ao Egito, esquecidos de que suas funções soci-
com o comportamento das mulheres no entrudo. ais eram radicalmente diferentes. No mundo ameri-
Comportamento desinibido que fazia as mulheres fa- cano as pirâmides eram altares sacrificiais, dedicados
larem com desconhecidos, pregarem peças a estra- a renovarem a vida e o mundo; no antigo Egito eram
nhos, contarem mentiras e, naturalmente, darem ba- túmulos.10
nhos de bola de cera nos transeuntes. "As mentiras Mas é preciso fazer justiça a Gilberto para dizer
do entrudo não são pecados", diz uma senhora a um que a primeira teoria do Carnaval fica mais no terre-
atordoado Ewbank (Cf. Vida no Brasil: Diário de uma no da sugestão e da argumentação; ao passo que a
visita à Terra do Cacaueiro e da Palmeira. São Paulo e segunda tem a convição e a força gilbertianas. Ade-
Belo Horizonte: Editora da USP e Livraria mais, confirmando a mera sugestão, a primeira é apre-
Itatiaia,1976: 82-83). sentada em citações que se sucedem, como num jogo
No plano de uma sociologia brasileira, portan- de caixas chinesas, como que para salvar o autor da
to, não causa espanto que seja justamente num capí- ousadia difusionista. Assim, quando Gilberto sugere o
tulo dedicado à discussão dos elos entre os sexos, o Carnaval como um orientalismo, ele primeiramente
momento escolhido para Gilberto incorporar à tese se refere a Ewbank, mas, ao citá-lo, usa um texto des-
em desenvolvimento a memória de um baile de más- se mesmo Ewbank publicado num obscuro Boletim
caras que facultava, tal como ocorria no entrudo, in- Informativo da Embaixada da Índia no Rio de Janeiro,
verter padrões, liberando a muher da casa e dos reca- em fevereiro de 1949 (Cf. Freyre, 1961: 481), cujo
tos da vida familiar, bem como de comportamentos redator anônimo divide com o viajante americano a
marcados pela hierarquia expressa num enorme res- sugestão que Gilberto ambígua e cautelosamente,
peito e distância social. apóia. 11
Distância que Gilberto analisa como parte de Vejamos essas duas teorias em detalhe.
um "de um cavalheirismo exagerado" que obrigava o
uso dos "Minha Senhoras" e dos "Exma. Senhoras Do- A Primeira Teoria do Carnaval
nas" quando os homens dirigiam-se às mulheres que São as considerações gilbertianas sobre o "Ori-
era dissolvida nos entrudos pelas brincadeiras e, so- ente e o Ocidente" (expostas no capítulo com o mes-
bretudo, pelo combate das bolas de cera que ele toma mo título de Sobrados e Mucambos), 12 que ensejam a
como manifestação patente e importante de referência ao Carnaval. Neste capítulo, como se sabe,
"orientalismo". Deste modo, tanto nos entrudos, quan- Gilberto desenvolve a tese de que havia um "paren-
to nos carnavais dos bailes de máscaras, os carnavais tesco ecológico" entre o Oriente e o Ocidente no Bra-
que, no meu trabalho, chamei da "casa", em contras- sil. Um amálgama antigo e equilibrado que só foi rom-
te com os "de rua", libera-se a mulher das idealizações pido com a vinda da Côrte para o Rio de Janeiro, em
masculinas correntes, seja como "boneca de carne", 1808, e com o posterior domínio comercial inglês e o
seja como matrona mole, ambos os tipos dominados advento da influência francesa.
pelo macho senhorial. Nesse sentido, Gilberto faz uma listagem impres-
Mas o que diz Gilberto Freyre do Carnaval? Qual sionante de objetos ou "coisas" de origem oriental:
a perspectiva pela qual ele enquadra a folia carnava- "O palanquim, a esteira, a quitanda, o chafariz,
lesca? Que considerações e reflexões tece sobre essa o fogo de vista [fogos de artifício], a telha côncova, o
festa? bangüê, a rótula ou gelosia de madeira, o xale e o
Tal como ocorre com outra instituição popular turbante de mulher, a casa caiada de branco ou pin-

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tada de cor viva e em forma de pagode, as pontas de lugar social no qual esses traços se combinam e, aci-
beiral de telhado arrebitadas em cornos de lua, o azu- ma de tudo, recebem novos significados, daí a neces-
lejo, o coqueiro e a mangueira da Índia, a elefantíase sidade de estudar os interesses e a integração dos tra-
dos árabes, o cuscuz, o alfenim, o arroz-doce com ços culturais regularmente importados e exportados
canela, o cravo das Molucas, a canela de Ceilão, a em contexto culturais específicos.
pimenta de Cochi, o chá da China, a cânfora de Qualquer que seja o ponto teórico, porém, é
Bornéu, a muscadeira de Bandu, a fazenda e a louça neste contexto de "orientalismos" ou de influências
da China e da Índia, os perfumes do Oriente, haviam orientais no Brasil onde aparece a sugestão de uma
se aclimatado com o mesmo à-vontade que no Brasil, origem indiana do Carnaval.
e formado com valores indígenas, europeus e de ou- Citemos o texto:
tras procedências o mesmo conjunto simbiótico de
"E não nos esqueçamos – diz Gilberto – de que,
natureza e cultura que chegou a formar no nosso País"
indiana a origem do Carnaval brasileiro, como pare-
(pag. 425 – o grifo é meu).
ceu a Thomas Ewbank, teríamos aí – e não apenas
Listagem que inevitamente traz à mente uma
nos santo-antônios, nos são joões e nos são pedros e
passagem famosa de Ralph Linton, também aluno de
nas festas de igreja celebradas com muito fogo de ar-
Boas, no livro The Study of Man, publicado em 193613
tifício, à moda oriental – tão profunda marca de influ-
quando, no Capítulo XIX, ele dramatiza a realidade
ência oriental sôbre os estilos brasileiros de recrea-
da difusão falando da rotina de um americano co-
ção, como sôbre os estilos de vestuário, de transporte,
mum que "desperta num leito construido segundo
de arquitetura doméstica, de adorno pessoal." (pag.
padrão viginário do Oriente Próximo, sai de cobertas
449).
feitas de algodão cuja planta se tornou doméstica na
Índia (…). Ao levantar – continua Linton – esse cida- Em seguida, vém a nota 41 que diz:
dão, usa mocassins inventados pelos índios das flo-
"Thomas Ewbank, Life in Brazil – or Journal of a
restas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto
Visit to the Land of cocoa and the Palm, Nova Iorque,
de banho cujos aparelhos são uma mistura de inven-
1856. Para o assunto voltou-se ultimamente o reda-
ções européias e norte-americanas (…). De caminho
tor do Boletim Informativo publicado pelo Serviço de
para o breakfast, pára para comprar um jornal pagan-
Informações da Embaixada da Índia no Rio de Janeiro
do-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No res-
(fevereiro, 1949), que salientou:14
taurante, toda uma série de elementos tomados de
'Num livro fascinante, intitulado Life in Brazil –
empréstimo o espera. Prato é feito de uma espécie de
Land of Cocoa and the Palm – Thomas Ewbank nos
cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga
fala duma possível origem indiana do carnaval brasi-
feita pela primeira vez na Índia do Sul, o garfo foi in-
leiro. Dá-nos o autor uma descrição vívida do "Holi",
ventado na Itália medieval, são do Mediterrâneo, o
descrição essa que, por si só, talvez venha a explicar
melão da Pérsia, a melancia africana. Toma café, planta
muito do que hoje ainda sobrevive de uma tradição
da Abissínia.(…)" Acabando de comer, o americano
já esquecida, cujo significado o povo não mais co-
fuma, fazendo uso de um hábito dos indígenas das
nhece.
Américas. Depois ele "lê notícias do dia, impressas em
Segundo Ewbank, o carnaval chamava-se
caracteres inventados pelos antigos semitas, em ma-
Intrudo na época em que ele visitou o Rio de Janeiro
terial inventado na China e por um processo inventa-
– 1849. Da descrição abaixo, do Intrudo, poderá o
do na Alemanha. Ao interar-se das narrativas dos pro-
leitor verificar a relação profunda existente entre o
blemas estrangeiros, se fôr um bom cidadão – conclui
carnaval brasileiro e o "holi" indiano. Diz Thomas
um Linton irônico e relativizador – agradecerá a uma
Ewbank:
divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato
'As estranhas coincidências na linguagem, cos-
de ser cem por cento americano". (Cf. Linton,
tumes e outros hábitos que constituem a intimidade,
1968:350).
ou mesmo a identidade entre os povos primitivos da
Só que Linton não sugere uma redução
Europa Ocidental e da Ásia Central, já foram freqüen-
difusionista, contentando-se em indicar que a impor-
temente observadas. Não me consta que o Intrudo
tação e a exportação de items, traços e complexos é
tenha sido interpretado dessa maneira. Quer me pa-
algo rotineiro nas sociedade humanas. O fato cultural
recer, entretanto, que pouca dúvida resta de que o
a ser levado em conta, não é apenas a indicação do
mesmo seja o Hohlee do Hindustão – festival que data
emblema de origem, mas o fato de que esses traços
de tempos mitológicos, e, portanto, envolto no mais
se combinam e refazem, formando configurações cul-
denso mistério.
turais específicas. Constituindo "complexos culturais"
Mr. Broughton, que teve ensejo de participar
singulares que, conforme afirma Linton, configuram o

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dêsse festival na corte de um principe hindu, nos dá tra semelhança. Consta-nos que o Hohlee 'é festejado
uma descrição detalhada da sua experiência: praticamente ao mesmo tempo que a nossa Quarta-
'O entretenimento do Hohlee consiste em ati- feira de Cinzas, precedendo também a Quaresma ou
rar uma quantidade de farinha feita de uma noz aqu- Época Expiatória dos Indus – coincidência de tempo
ática, o singaram, e tingida de vermelho. É conhecida e finalidade tão extraordinárias, como extraordinário
como abeer. O divertimento principal é jogar essa fa- é o fato de esses dois festivais serem celebrados com
rinha nos olhos, boca e nariz dos participantes, ao pó e àgua – com bolas de arremesso e bisnagas. O
mesmo tempo que se lhes aplica um banho de água Hohlee é celebrado por todas as classes da Índia –
alaranjada. Muitas vezes o abeer é misturado com talco sendo motivo de festejo universal" (pag. 481).
em pó, a fim de torná-lo brilhante, sendo bastante
A par das dificuldades vigentes em toda pro-
doloroso se penetrar nos olhos. Outras vezes, o abeer
posta baseada numa relação histórica puramente
é colocado dentro de pequenas bolas feitas de uma
conjectural, pois, como dizia Edmund Leach, "é tão
substância gelatinosa, do tamanho de um ovo, e que
difícil reconstruir o passado quando prever o futuro",
servem como arma de ataque. Todavia, são tão deli-
o maior problema com essa teoria é o pressuposto
cadas que precisam ser tratadas com o máximo cui-
difusionista de que práticas sociais semelhantes têm o
dado, pois se desmancham sob a menor pressão…
mesmo significado sociológico.
'Alguns minutos após ocuparmos os nossos lu-
Não há nenhuma dúvida que a dissolução de
gares, enormes bandejas de bronze cheias de abeer e
fronteiras entre segmentos e categorias sociais, a
das bolinhas acimas descritas, foram colocadas dian-
neutralização da hierarquia, a invenção de uma igual-
te dos espectadores, juntamente com água amarela-
dade festiva e mítica, ausente das práticas rotineiras,
da e grandes bisnagas de prata. O Muha Raj em pes-
caracterizam tanto o Entrudo (e o Carnaval) quanto o
soa iniciou então o divertimento, lançando sobre os
Holi. 15
assistentes um pouco de água amarela ou vermelha
Mas os ritos de inversão podem estar ancora-
dos goolabdans – pequenos vasos de prata usados para
dos em mitos ou justificativas simbólicas – textos, dir-
pôr água-de-rosas durante as visitas de cerimônia.
se-ía agora – os mais diversos. Parece óbvio que Gil-
Cada um principiou então em atirar o abeer e a jogar
berto compreende essa dificuldade. Tanto que,
água nos vizinhos. A etiqueta proíbe que alguém lan-
conforme assinalei, sendo conhecedor do texto orignal
ce qualquer cousa sobre o Rajá; contudo. Fora ele
de Thomas Ewbank, Gilberto deixa de mencionar o
informado que estávamos determinados a atacar todo
pensamento conclusivo do viajante americano sobre
aquele que nos havia atacado, tendo ele respondido
o Entrudo e o Holi. Uma passagem importante, por-
jovialmente: 'De todo o coração' – disse – 'estaria ele
que revela como Ewbank tinha consciência de como
pronto para nos enfrentar, e veriamos quem sabia ata-
era tênue a sua hipótese difusionista, ligando direta-
car melhor'. Descobrimos logo, porém, que contra ele
mente o festival indiano e o brasileiro. De fato, diz
nada podiamos fazer; pois, além de um pano com
Ewbank, modificando a hipótese indiana e compli-
que os seus servos lhe protegiam o rosto, em poucos
cando substancialmente a tese da difusão do Carna-
minutos havia ele mandado colocar em suas mãos uma
val da Índia para o Brasil:
grande mangueira de extintor de incêndio, cheia de
água amarela, e que estava sendo trabalhada por meia "Em diversos aspectos o festival asiático asse-
dúzia de homens. Os resultados foram tais que den- melha-se à antiga Saturnália e ao moderno carnaval,
tro de pouco tempo não restava um único homem sendo permitidas as maiores liberdades às pessoas de
dentro da tenda que não estivesse encharcado dos todas as categorias. Já foi comparado ao 'Hilaria' cele-
pés à cabeça'. brado em Roma no equinócio vernal em honra da
'Às vezes, voltava ele o jato da mangueira con- mãe dos deuses, quando sua estátua era levada em
tra os que se achavam mais próximos, com tamanha procissão acompanhada por pessoas fantasiadas que
fôrça que, dificilmente, a vítima conseguia se manter por seus trajes e maneiras assumiam então a máscara
no seu lugar. Toda oposição a essa máquina formidá- da personalidade que lhes agradava. Na verdade –
vel era vã. O abeer era lançado aos montões, seguido conclui Ewbank, desmanchando o seu argumento e
imediatamente de uma chuva de água amarela, en- lançando mão de uma hipótese verdadeiramente inó-
quanto que nós nos viámos assim alternadamente cua – quase todas as nossas antigas festas religiosas
empoados e encharcados, até que dentro em o pou- são ligadas a instituições semelhantes da Índia, Egito,
co o chão sôbre o qual estávamos sentados encontra- Grécia e Roma". (Cf. Ewbank, 1976:86; a ênfase é
va-se coberto de uma densa lama rosada. Jamais pre- minha).
senciara cena igual em toda a minha vida'.
Realmente, se focalizarmos sociologicamente o
"O Intrudo e o Hohlee apresentam, ainda, ou-

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festival indiano, veremos que suas semelhanças com se o festival fosse avesso à sua própria historização. O
o Carnaval são muito mais estruturais do que históri- Carnaval, respondemos, liga-se à grande fuga das ro-
cas. Ou seja: ambos os festivais são claras manifesta- tinas diárias e àquilo que Vinicius de Moraes rotulou,
ções de ritos de inversão, de supressão de fronteiras com um inegável ranço marxista, como "uma grande
sociais e de troca de lugar. São festas ilusão". Como uma possibilidade efêmera de mudar
"carnavalizadoras", no dizer de Bakhtin, o que resol- de lugar para logo ser novamente devorado pela "dura
ve a questão de algumas de suas semelhanças, sem realidade" do mundo, do trabalho e da vida. Mas o
ter a necessidade de propor um elo histórico entre fato é que tanto em narrativa quanto na prática, o
elas.16 Carnaval permanece multivocalizado, descentraliza-
Esse argumento é sustentado pelas narrativas do e fragmentado, exprimindo-se por meio de múlti-
míticas dessas festas. O Holi, conforme nos ensina plos eventos, músicas, danças, vestimentas, gestos,
McKim Marriott (1966:200) na sua excelente personagens e "planos", como disse uma vez (Cf.
etnografia, funda-se numa episódio mítico preciso: o DaMatta, 1979: Cap. 2).19
perdão do herói mitológico indiano – Prahlad – quan- Desse modo, se há um "texto de referência" para
do ele escapa da fogueira preparada por sua irmã, o o Carnaval, esse texto remete a própria história do
demônio Holika, que, como é comum nos contos de Deus encarnado e, com ela, a uma temporalidade sin-
fada, acaba devorada pelo fogo que ela mesma pro- gular: o momento situado entre o nascimento (o Ad-
duziu como uma armadilha para Prahlad, numa fla- vento) e a Paixão de Cristo. Àquela Quaresma, desti-
grante traição da solidariedade axiomática que deve nada a penitência, a oração e a abstinência de carne
presidir as relações entre irmãos de sexos opostos, elo que começa depois do Carnaval (donde o nome "car-
crítico do parentesco indiano. 17 Antes de morrer, po- ne levare" [ = carnaval]) e termina com a Ressurrei-
rém, ela pede perdão ao jovem Prahlad. Daí, igual- ção de Cristo. De um lado com a morte da carne pe-
mente, as fogueiras que singularizam o Holi, bem los excessos; do outro, pelo seu englobamento pelo
como a álacre atividade de coleta de materiais com- espírito por meio da penitência. Quaresma que sem
bustíveis por grupos de jovens que vão de casa em nenhuma dúvida exprime a ambivalência do cristia-
casa recebendo doações ou simplesmente furtando nismo católico relativamente ao corpo e ao sexo. Uma
esse tipo de material. Uma "violação-brincadeira" tí- moralidade que oscila na condenação e na exaltação
pica da festividade que tem como pretexto a comuni- do corpo e da alma, da vida e da morte, promovendo
cação desinibida entre as castas. por isso mesmo a sua profunda relação.
Já o vermelho e o amarelo das bisnagas e bolas Não há a menor dúvida que tanto o Holi quan-
que as pessoas jogam umas nas outras, têm ligação to o Carnaval são rituais de inversão. Em ambos os
com o romance entre Krishna e Radha que, diz uma festivais há uma notável reversão de posicionamentos
lenda divulgada pelo Governo indiano, 18 reforçando sociais criando um momento de alegre subversão so-
Marriott, parecia muito branca aos olhos do amante, cial ou "loucura. Ambos os ritos realizando uma
mais escuro. Reclamando dessa discrepância com sua relativização periódica da ordem social e de suas hie-
mãe, ela aconselha a Krishna que pintasse o rosto da rarquias.20
namorada, pois assim ela se aproximaria dele. Daí o Como Ewbank não conhecia a narrativa do Holi,
espetáculo dos pós coloridos; e, certamente, o culto ele não pôde distinguir o estilo performativo do festi-
fálico, a linguagem e os gestos obscenos com que os val da sua justificativa simbólica, uma postura típica
praticantes imitam o comportamento de Krishna nas da atitude difusionista.
suas brincadeiras com suas esposas, e para com as Diante de tudo isso, é inevitável concluir que a
filhas dos seus vaqueiros. teoria difusionista do Carnaval proposta por Ewbank
Em conclusão, o Festival do Amor indiano, tem e marginalmente endossada por Gilberto não passa
um foco e um centro. Trata-se, como ocorre com as de uma sugestão ousada, defendida com gosto, mas
festas de aniversário, as inaugurações, os casamentos, sem muita convicção. Tanto que, nessas reflexões ele
os funerais e as instalações em cargos superiores, de não menciona a outra teoria, exposta no primeiro
um ritual comemorativo, com um foco definido e sem- volume, de que iremos tratar em seguida.
pre referido pelos seus praticantes. No caso do Car-
naval, conforme chamei atenção mais de uma vez no A Segunda Teoria do Carnaval
meu trabalho, trata-se de um festival sem centro e Vimos que a segunda teoria do Carnaval surge
sem dono. O que o Carnaval comemora? Qual o seu quando Gilberto estuda as relações entre os sexos no
mito de origem? Quem são os seus fundadores? Con- Brasil. Mais especificamente, quando trata das mu-
forme sugeri em Carnavais, Malandros e Heróis a res- danças que acompanham o século XIX brasileiro,
posta a essas questões é difusa e não-marcada, como quando começa a surgir uma nova sociedade e um

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outro tipo de mulher. "É certo – êle diz – que êsse carnaval elegante,
Mulher que é sintomaticamente admoestada fino, silencioso, de fantasias de seda, não matou o
por um moralista da época, o Padre Padre Lopes outro: o grosseiro, plebeu, ruidoso, com oportunida-
Gama, porque lê romances franceses, começa a per- des para os moços expandirem sua mocidade, para
der a devoção religiosa, confessa-se menos, fica me- os negros exprimirem sua africanidade (de certo
nos em casa com as mucamas e tem no médico de modo recalcada em dias comuns), para pretos, escra-
família figura mais importante que o padre e, no tea- vos, moças, meninos gritarem, dançarem,e pularem
tro, um espaço mais sedutor do que a igreja. como se não fossem de raça, de classe, de sexo e de
"O próprio 'baile mascarado', diz Gilberto con- idade oprimidos pelos senhores dos sobrados." (pag.
cluindo estes argumentos, atraindo senhoras de so- 110, a ênfase é minha)
brado" (pag. 110).
Mas, além dos moços, dos negros e das mulhe-
Esse baile que seria uma das novidades do sé-
res, quem mais seria oprimido naquela sociedade?
culo XIX e que era realizado "em teatro público e não
Quem seriam esses outros oprimidos que se expandi-
apenas em casa particular ou em casa semiparticular,
am dentro das "fantasias de seda"?
semipública". Esses bailes públicos que seriam, acres-
Seriam, claro está, os "efeminados" que se traja-
cento, prefigurações dos bailes nos clubes modernos.
vam de modo semelhante as mulheres e também ao
Bailes, acrescento, repetindo uma observação reali-
que Gilberto chama de "mulheres meio masculinas"
zada em outros trabalhos (Cf. DaMatta, 1979, 1981),
que se vestiam ou, para ser mais preciso, no contexto
curiosos que, em vez de confirmarem a exclusão
da festa, se fantasiavam como homens.
clubística, marcada por classe social, algum interesse
Mas além desses segmentos e categorias margi-
ou traço particular de um grupo ou segmento social,
nais, o Carnaval atingia o próprio núcleo do sistema,
universalizam-se e, invertendo sua postura, abrem o
dando também "A oportunidade a homens obrigados
clube muitas vezes exclusivo à população em geral,
por ofício ou condição social a uma solenidade quase
pois vendem ingressos como "convites", permitindo
fúnebre a pularem, saltarem e dançarem como se fos-
assim que qualquer pessoa possa, pelo menos no Car-
sem estudantes de curso jurídico".
naval, ir ao Baile do Iate Clube do Rio de Janeiro, do
A essa observação, segue um argumento socio-
Fluminense, do Sírio e Libanês, do Monte Líbano, bem
lógico impecavelmente "estruturalista". Argumento,
como ao grande baile da cidade, realizado em con-
aliás, que eu me penitencio por não ter mencionado
formidade com as desconstruções do momento
quando primeiro me vi as voltas com o mesmo fenô-
Momesmo, no templo de cultura erudita e cosmopo-
meno quando escrevi "O Carnaval como um Rito de
lita da urbe: o Teatro Municipal.
Passagem", ensaio-programa, publicado em 1973.
Mas quais são, mais especificamente, os pontos
Ausência que me custou uma justissíma admoestação
ressaltados por Gilberto?
de Gilberto, intitulada "Talvez uma Omissão do pro-
Primeiro: a partir de 1844, o baile é sintoma de
fessor Roberto da Matta", feita à pag. 71 do ensaio
mudança social. Mudança tanto da posição da mu-
Modos de Homem & Modas de Mulher. Falta da qual
lher, quanto de um modo de celebração social.
aproveito a oportunidade para me penitenciar. Pois,
"Estava lançada – salienta Gilberto – a moda e
àquela época, a não leitura de Gilberto Freyre era
desviado o carnaval fino da cidade no Brasil da tradi-
quase obrigatória. E foram os temas e o estilo de aná-
ção de 'entrudo', ao que parece oriental ou indiana,
lise, mais do que um clima intelectual politizado que
para baile de máscara à maneira francesa ou italiana"
excluía alguns autores em detrimendo da boa produ-
(pag. 110).
ção intelectual, que me aproximaram dos seus livros
Sua segunda observação se expressa num típi-
e de sua reflexão.
co e sábio contraponto. Nele, Gilberto não separa o
Diz, então, nesta segunda teoria, um Gilberto
Entrudo do Carnaval como festividades, tipos e estan-
efetivamente sociológico, mas como acentuei, mar-
ques, diferenciadas entre si, pois acentua que ambos
cado por um viés psicológico, já que as relações entre
tinham como ponto central de suas sociabilidades, um
homens e mulheres na sociedade patriarcal brasileira
espaço onde segmentos e categorias sociais mais opri-
seriam estruturadas pela repressão e opressão:
midos podiam se manifestar. Assim sendo, tanto o
Carnaval como o entrudo seriam englobados pelo "Numa sociedade como a patriarcal brasileira,
"ethos" da inversão e da liberação, um valor que per- cheia de repressões, abafos, opressões, o carnaval agiu,
mitiria a expressão de temas, sentimentos, gestos, rou- como, em plano superior, agiu a confissão: como meio
pas, cânticos e danças, de outro modo marginaliza- de se livrarem homens, mulhres, meninos, escravos,
dos e abafados no cotidiano. negros, indígenas, de opressões que, doutro modo, a
Citemos Gilberto: muitos teria sobrecarregado de recalques, de ressen-

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timentos e fobias. Os bailes de máscaras juntaram-se movida pela festa. Uma inversão que seria menos de
ao entrudo como meios de desobstrução psíquica e, fantasias e máscaras e muito mais centrada num exa-
ao mesmo tempo, social de uma população obriga- gero do feminino, conforme sugeri no livro Universo
da, nos dias comuns, a normas de comportamento do Carnaval. Na sua exibição. Na possibilidade da
que, em muitos, sufocaram tendências instintivas mulher aparecer como mulher e não apenas como
para alegrias ruidosas e tradições extra-européias de esposa, mãe e virgem. Mulher aproximada à figura
dancas sensuais. Que acentuavam um europeísmo latente e paradoxal da prostituta que controla e do-
artificial ou postiço." (pág. 111). mina homens porque pratica o sexo sem subordiná-
lo à reprodução, à paternidade e ao universo da casa
Mas, para finalizar, não seria abusado explicitar
e da família. Mulher que está livre das figuras
o que Gilberto não fez ou não viu.
controladoas dos maridos, pais, irmãos patriarcais ou
Inicialmente deve-se pôr em relevo que as in-
pós-patriarcais.
terpretações gilbertianas do fenômeno carnavalesco,
Ampliar e aprofundar essas diferenças, mostran-
centram-se no psicológico e, dentro dele, nos seus
do a linha interpretativa que descobri e desenvolvi na
efeitos catárticos e terapêuticos. O foco das observa-
minha obra seria – como diria Kipling – uma outra
ções não é no Carnaval como um modo de expressão
história. Seria sobretudo um exercício de leitura do
do Brasil – uma janela pela qual se pode "ler" a socie-
meu próprio trabalho que, no momento, deve ser si-
dade brasileira – mas, sobretudo, na população su-
lenciada diante da gigantesca dívida que todos temos
bordinada que usa o entrudo e os bailes para aliviar
com esse Gilberto Freyre que, mesmo quando
"as opressões" que a "sobrecarregava de recalques, de
tangencia temas, é tão notavelmente original, provo-
ressentimentos e fobias". Trata-se de um conjunto de
cador e intuitivo.
observações originalíssimas, mas que não têm como
sujeito a sociedade e o ritual que permite vê-la de _______________________
certo modo e por um dado ângulo, mas focalizam o
Carnaval como um mecanismo sociopsicológico des- Notas
tinado a desreprimir. 1
Edição revisitada e refeita e, como diz o próprio Gilberto, "de tal
Por outro lado, Gilberto também não usa a idéia modo renovado que, sob alguns aspectos, é trabalho novo". (Pre-
de hierarquia, presente na sua obra, como um ele- fácio à segunda edição, p. xxxiii). O que, sejamos francos, torna
difícil avaliar a originalidade, origem e momento de alguns argu-
mento básico da construção carnavalesca, fundada mentos.
numa igualdade anti-hierárquica e anti-burguesa e, 2
Sobre esse ponto, ver Norbert Elias (1987). Gilberto poderia tam-
por isso mesmo, festiva e licenciosa. Ademais, ele não bém falar da rigidez, do peso, dos fechos problemáticos (impossí-
vê o Carnaval como fazendo parte de um conjunto veis de serem abertos pelos homens, como os dos soutiens) que,
de outros rituais, todos baseados em exibições (desfi- significativamente, pareciam requerer a anuência feminina para
abri-los. E, mais importante, que essa construção da mulher e do
les, procissões, paradas militares) que são, de fato, feminino como uma entidade relativamente imóvel, tem seu lado
outras possibilidades de leitura do Brasil por si mes- positivo. Assim, a constrição dos movimentos, com a exigência
mo. Como eu tenho enfatizado na minha obra, o Brasil dos pés pequenos antigamente e, hoje, com os saltos altos e
não se esgota nem no Carnaval, nem nas festas religi- atamancados, que impedem as mulheres, mesmo as mais atléti-
cas, de correr, ressaltavam e desenhavam áreas do corpo que por
osas, nem nas festas cívicas. Mas esses momentos ce- serem redifinidas eram, por isso mesmo, alvo de desejo e de ad-
rimoniais permitem intuir isso que denominamos "Bra- miração. O fato é que, como diz Ann Hollander (1996), a partir
sil" ou "sociedade brasileira". São momentos em que, do século XVIII a moda masculina retrai-se enquanto a feminina
permitam-me a metáfora estruturalista, o Brasil se se expande, mostrando e escondendo partes selecionadas do cor-
po da mulher. Ou seja, à imobilidade também correspondia um
permite uma auto-reflexão especial – totalizada, sin- conjunto de positividades, tanto quanto à mobilidade correspondia
cronizada, coordenada e coerente – dramática – de si uma quota de deveres e obrigações, entre elas, um famoso e não
mesmo. Para Gilberto, porém, o Brasil é que faz o menos coercitivo noblesse oblige.
Carnaval. Propôr o inverso seria certamente conside-
3
Devo, porém, fazer justiça a Gilberto mencionando suas obser-
vações sobre o poder de controle e domínio moral da maternida-
rado uma démarche impensável ou um erro. de, tanto em Sobrados e Mucambos, quanto de modo talvez mais
Em outras palavras, Gilberto centra sua análise solto, no texto ficcional, por ele qualificado de "semi-novela", Dona
nos aspectos catárticos ou emocionais, deixando de Sinhá e o Filho Padre (Rio de Janeiro:Ediouro, 2000).
lado a dimensão política da festa. Mas ele vê muito 4
Penso sobretudo no livro Sex and Temperament in Three Primitive
bem o Carnaval como mediação simbólica de um Societies, publicado em 1935.
5
Em relação a essa tese que equaciona "desejos sufocados" e con-
conflito entre "normas de comportamento" e como
fissão, penso que seria preciso situar melhor melhor este sacra-
ponte entre tendências endógenas e exógenas. Do mento no contexto do catolicismo patriarcal brasileiro. Formando
mesmo modo, ele vê o Carnaval como instrumento com a Eucaristia, o Batismo, o Casamento, o Crisma, a Ordem e a
de liberação dos segmentos oprimidos, sobretudo da Extrema-Unção, um dos sete sacramentos, a Confissão (ou Peni-
tência) é um sacramento de "cura". Ao lado da Eucaristia, a Confis-
mulher, mas não fala na feminização do mundo pro-

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são não tem ligação direta e obrigatória com ritos de crise de vida obra foi modificada em 1949 e 1961. Infelizmente, nem o Autor
ou "ritos de passagem" como é o caso do Batismo, do Casamento, nem o Editor alertam para as modificações realizadas nessas da-
do Crisma, da Ordem e da Extrema-Unção. Sendo um rito de tas, o que impede uma avaliação mais detida da origilinalidade de
cura, a confissão tem singularidades. A mais óbvia é que ela pode certos argumentos, pois o que seria pioneiro em 1936, não tem o
ser realizada rotineiramente, dependendo da sensibilidade do fiel, mesmo peso em 1949 ou 1961. Veja a nota seguinte.
do elo entre o devoto e o confessor, bem como da rotina religiosa 12
Trata-se, como assinala Gilberto no prefácio á segunda edição,
do grupo. Sabe-se que a confissão semanal obrigatória é comum de capítulo novo que, ao lado dos títulos "Ainda o Sobrado e o
em seminários e colégios católicos. Neste caso, a confissão seria Mucambo"; "Raça Classe e Região"; “Animal, Escravo e Máquina"
um rito terapêutico e catártico, mas também um gesto rotineiro e e "Em Torno de uma Sistemática da Miscigenação no Brasil Patriar-
formal. Deste ângulo, pode-se arguir, contra Freyre, que na socie- cal e Semipatriarcal", constituem essa nova edição que é, reteiro,
dade patriarcal brasileira, as mulheres certamente se confessavam citando Freyre, "trabalho novo"(Cf. Freyre, 1949-1961: xxxiii).
menos por estarem sufocadas de desejo e muito mais não esta- 13
Uso a edição brasileira de 1968, publicada pela Editora Martins,
rem dando a atenção que deviam aos seus maridos repressores, de São Paulo, intitulada O Homem: Uma Introdução à Antropolo-
pois sua auto-estima dependia de uma dedicação abnegada. Ade- gia, traduzida por Lavínia Vilela, numa importante coleção de tex-
mais, a confissão era requerida antes da comunhão, fazendo par- tos de Ciências Sociais dirigida por Donald Pierson, então profes-
te de uma rotina. Esse argumento relativiza a tese central de Gil- sor da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, e um dos
berto, segundo a qual haveria uma associação indiscutível entre divulgadores mais ativos do pensamento sociológico americano
confissão e desejo de cunho sexual. Um ponto, aliás, associado à entre nós.
imaginação masculina – individualista e moderna – para quem a 14
Neste contexto, devo acentuar que existem diferenças no texto
confissão seria uma forma de relacionamento extraordinário. citado por Gilberto e na tradução feita por Jamil Almassur Haddad,
6
Vale lembrar o que diz Max Weber exatamente a esse respeito: na edição brasileira de Vida no Brasil, publicada em 1976, pela
"O sacerdote era um mágico que realizava o milagre da Editora da USP em associação com a Livraria Itatiaia.
transubstanciação e que tinha em suas mãos a chave da vida eter- 15
Em relação a essas inversões, diz, o antropólogo Milton Singer,
na. O indivíduo podia voltar-se para ele arrependido e petinente. falando exatamente do culto comemorativo das relações entre
Ele dispensava reparação, esperança e graça, certeza de perdão Radha e Krishna na cidade de Madras e estranhamente ecoando o
e, assim, garantia o relaxamento desta tremenda tensão à qual o
que eu mesmo disse sem tê-lo lido do Carnaval brasileiro: "O ob-
calvinista estava condenado por um destino inexorável que não
servador americano dos bhajana (cânticos devocionais) de Radha-
admitia alívio algum" (Cf. Weber, 1992: 81).
Krishna tende a interpretar a atmosfera amistosa de sociabilidade
7
O papel e o lugar da prostituta no campo da ideologia brasileira informal, o contato entre as castas e seitas, os abraços e prostra-
foi sem dúvida bem mais elaborada nas suas implicações socioló- ções mútuos, como expressões de um espírito democrático de
gicas na ficção de Jorge Amado. igualdade" (Cf. Singer, 1966:123). Três páginas além, diz um parti-
8
No livro que escrevi com Elena Soárez sobre o jogo do bicho, cipante indiano para o antropólogo Singer: "Esta relação de com-
notei que Gilberto interpreta essa loteria do mesmo modo. Há pleta igualdade entre os devotos é sómente o seu ideal" (pág. 126).
uma teoria histórica, que apresenta o jogo do bicho como uma Mais adiante, no mesmo livro, salienta o igualmente antropólogo
sobrevivência indígena, em Casa-Grande & Senzala; e uma teoria e indianista McKim Marriot: "(…) de um estudo de N. K. Bose, eu
efetivamente sociológica, que lê esse jogo um código de comuni- deduzo que festivais da primavera que apresentam fogueiras, um
cação entre segmentos sociais distanciados pela cor, pela riqueza certo grau de licença sexual e um generalizado comportamento
e pela educação, em Ordem e Proegresso. Nesta segunda teoria, o dissoluto e "saturnálio", tem provavelmente existido em aldeias
jogo do bicho seria um modo brasileirissimo de criar espaços in- em muitas partes da Índia pelo menos por boa parte dos últimos
termediários e mediações entre grupos polares (Cf. DaMaatta e dois mil anos". (Marriot, 1966:210).
Soárez, 1999). 16
A respeitável e sempre precisa Encyclopeadia of Religion and
9
Ou num repetidor de Eneida (1958) quando, com Mario Souto Ethics, editada por James Hastings, no seu artigo sobre "Carnival",
Maior escreve, em 1974, sobre as origens e a história do carnaval assinada por C. Rademacher, nada diz de uma possível relação
brasileiro, deixando de lado seus aspectos sociológicos e culturais. entre o carnaval e o holi indiano. Mas o ensaio obviamente alude
Cf. Freyre e Souto Maior, 1974. sôbre as raízes greco-romanas dos carnavais e Fasenacht europeus.
10
Robert H. Lowie, aluno e seguidor de Boas, diz do mestre a Veja-se Hastings, Vol. III.
respeito de sua atitude vis-à-vis a difusão de elementos culturais: 17
Não será preciso ser especialista no campo do parentesco para
"Boas relaciona culturas como um todo, mas tem como regra o compreender que, na India, o sistema de parentesco é baseado
fato de estarem em regiões adjacentes". (Lowie, 1937:159). Nessa na "troca de irmãs", para seguir o vocabulário clássico de Claude
obra, Lowie lembra como Smith e Perry favoreciam o Egito como Lévi-Strauss (1949). Neste sistema, como ensina Louis Dumont, a
um centro mundial de difusão, pois o ponto de partida desses afinidade é concebida como sendo anterior à consangüidade. O
estudiosos era o postulado de que os seres humanos pouco inven- justo oposto ocorre entre nós dificultando a compreensão dos cha-
tavam. Diante dessa visão cautelosa de Boas, não deixa de ser mados sistemas fundados em "alianças matromoniais" como é o
interessante assinalar que Gilberto abraça explicitamente o caso da Índia (Cf. Dumont, 1961).
difusionismo, evitando contudo entregar ao evolucionismo. Assim, 18
No site: www.http://india.indiagov.org./culture/festival/
não se encontra em sua obra nenhuma referência a escalas de holi.htm .Veja-se também os verbetes "Sacred Rites and
atraso ou progresso ou, ainda, sub ou pré-desenvolvimentismo. Ceremonies" e "Holi", na Encliclopédia Britanica. Sabe-se, ademais,
Evitando uma visão universalista da sociedade humana, Gilberto que Krishna e Radha não são marido e mulher, mas amantes, o
manteve-se fiel aos ensinamentos de Boas, dando mais atenção à que os liberta das obrigações matrimoniais que governam o casa-
difusão de traços culturais de uma sociedade para outra, do que mento indiano, com a mulher sendo englobada pelo marido. É
lendo a dinâmica social por meio de "fases" ou "etapas" inevitáveis claro que o Holi celebra, entre outros aspectos, essa singular
e preestabelecidas, como faz o evolucionismo. Com isso, Gilberto individualização do amorosa entre Krishna e Radha. Para um estu-
foi mais capaz de perceber as diferenças da sociedade brasileira, do notável do amor e destas relações, veja-se Mello, 1994.
do que suas semelhanças relativamente a outros sistemas. O caso 19
Sobre essa fragmentação, veja-se também Bakhtin (1974) e
dos marxistas tem sido o exato oposto.
Goethe (1991), cujas notas sobre o Carnaval Romano dos 1780'
11
Ao leitor atento fica o mistério de como um livro datado de referem-se às suas várias facetas e episódios.
1936, cite uma fonte de 1949 até que ele tenha em mente que a

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20
Não resisto a tentação de dizer que o observador americano e LINTON, Ralph. O homem: uma introdução à antropologia. São
imbuído de espírito e ethos protestante, interpreta a festa de Paulo: Martins, 1968.
Krishna como sendo um exercício periódico de desconstrução do LOWIE, Robert H. The history of ethnological theory. New York:
mundo social, contrastando essa visão com a idéia do Juizo Final Holt, 1937.
Cristão. Deste modo, para McKim Marriot, o Holi indiano seria MARRIOT, McKim. The feast of love. In: SINGER, Milton (Org.).
um exercício periódico de fim do mundo, ao passo que no univer- Krishna: myths, rites, and attitudes. Chicago: Chicago University
so cristão tal momento só ocorreria uma vez. Caso, entretanto, Press, 1966.
McKim Marriot tivesse conhecimento do Carnaval, ele certamen-
MELLO, Josefina Lúcia Pimenta Lobato de. A gestão do amor:
te mudaria sua interpretação pois, no universo católico, o Carna- domesticação e disciplina. Brasília, 1994. Tese (Doutorado em
val (tal como o Holi) ensaia anualmente uma desconstrução do Antropologia). Universidade de Brasília. 1994.
mundo. Só que se trata de uma catástrofe festiva e risonha o que,
por outro lado, aproxima a cosmologia cristã na sua variante cató- SINGER, Milton. The radha-krishna bhajans of madras city. In:
lica de Krishna, pois ambas relativizam e, no limite, rejeitam, este SINGER, Milton (Org.). Krishna: myths, rites, and attitudes.
mundo. Chicago: Chicago University Press, 1966.
WEBER, Max. A ética protestante e o espiríto do capitalismo. São
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______, ______. Sobrados e mocambos: decadência do patriarca-
do rural e desenvolvimento do urbano. 3. ed. Rio de Janeiro:
José Olympio, 1961.
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das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regi-
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transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da mo-
narquia para a república. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.
2v.
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64
A Estratégia de Sobrevivência da
Caatinga e o Uso Sustentável da Terra no
Nordeste
Toshie Nishizawa
Geógrafo/Ambientalista – Seitoku University – Japão

É uma grande honra para mim partici- Recentemente investiguei, ao redor de


par deste Seminário Internacional, por oca- Petrolina e Juazeiro, o uso sustentável de ter-
sião do centenário do Doutor Gilberto Freyre ras agrícolas. Atualmente existem 8 (oito) pro-
e é também um grande prazer apresentar mi- jetos da Codevasf ao redor desstas cidades.
nha idéia sobre A estratégia de sobrevivência A região é freqüentemente chamada de:
da caatinga e o uso sustentável da terra no "a segunda Califórnia", por causa de sua pro-
Nordeste, na seção Homem, Cultura e Trópi- dução de frutas tropicais, que todos conhe-
co. cem.
Durante 30 anos (deste 1971) realizo Na pesquisa ecológica da caatinga, que
pesquisas de campo nos Trópicos Brasileiros: realizei em conjunto com o Dr. Akio Tsuchiya
Amazônia e Nordeste. Nestes trabalhos de (Universidade de Hiroshima) e Profa.
campo aprendi muitas coisas, e não apenas Magdalena Vieira Pinto, identifiquei, através
Ecologia e aspectos do Meio Ambiente, mas das árvores, uma característica especial da
também particularidades da vida Brasileira. caatinga sob o clima semi-árido.
Lembro-me especialmente do termo brasilei- Identifiquei que a taxa de resposta das
ro "bagunça organizada". Em minha primeira árvores ao acúmulo anual de água e a tole-
viagem de pesquisa ao Brasil, minha dileta rância ao "stress" do déficit anual de água,
amiga, que tem sido como uma irmã para podem ser analisados pelos anéis dos troncos
mim, Maria Magdalena Vieira Pinto, que mora das árvores. A figura mostra a relação entre a
no Rio de Janeiro, ensinou-me esta expressão taxa de resposta e o grau de tolerância ao
que impressionou-me. Eu nunca a esqueci e "stress" em 16 espécies. Essas espécies foram
penso que esta seja uma importante idéia para classificadas em três grupos:
a paz no mundo. Grupo A: inclui três espécies, que tive-
Em janeiro passado, fiz uma conferên- ram fracos índices de tolerância ao "stress",
cia para trezentas pessoas no Japão (homens embora com taxa de resposta grande.
de negócio), sobre o seguinte tema: Aprendi- Grupo B: varia um pouco do grupo A
zado sobre o espírito de harmonia e simbioses com respeito à tolerância ao "stress", mas tam-
resultante das pesquisas de campo no Brasil. bém com a taxa de resposta grande.
Quase todos aqueles homens de negócio gos- Grupo C: inclui árvores cuja resposta é
taram da minha conferência. Eu acredito que semelhante ao Grupo B, mas sua tolerância é
tenha ensinado um novo procedimento diri- a maior de todas.
gido à paz do mundo, através do espírito de Quando comparamos esses resultados
harmonia, baseado no significado da expres- com a composição florística mantida pela ca-
são "bagunça organizada" e do conceito de atinga, pode-se estimar que as espécies do-
simbioses. minantes transitam do grupo A para o grupo
Dirigi muitos projetos de pesquisa so- B e do grupo B para o grupo C. Árvores do
bre a seca e suas causas meteorológicas no grupo A são espécies dominantes no primei-
Sertão do Nordeste e além desses trabalhos, ro estágio de sucessão das plantas, o que in-
dirigi pesquisas de campo sobre a ecologia da clui espécies pioneiras.
caatinga, especialmente sobre a composição Árvores do grupo C são dominantes no
de suas espécies e suas estratégias de sobrevi- estágio adulto e árvores do grupo B perten-
vência no clima semi-árido tropical. Por últi- cem ao estágio de transição entre o grupo A e
mo realizei uma pesquisa adicional, sobre as o grupo C.
utilidades das árvores da caatinga. Podemos reconhecer a característica da

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simbiose a partir da estratégia de sobrevivência das prietários sentiram seriamente a necessidade de me-
árvores da caatinga, porque elas têm uma individuali- lhorar os sistemas de drenagem do solo.
dade que é expressa pela taxa de resposta e pela to- Curaçá foi instalada em 1983 e dois anos de-
lerância ao "stress", e cada árvore tem uma ordem es- pois ocorreu o prejuízo da salinização do solo. Afor-
pecial na sucessão vegetal. tunadamente o senhor Mamuru Yamamoto, que é o
Essas características de resistência da caatinga pioneiro do cultivo de uvas no semi-árido tropical, já
exercerão um importante papel, na reabilitação das tinha construído um sistema de drenagem em seus
áreas degradadas da caatinga e no uso sustentável de vinhedos perto de Petrolina. Os outros proprietários
suas árvores. em Curaçá também construíram sistemas de drena-
O desenvolvimento sustentável dos recursos gem, aplicando a experiência do Sr. Yamamoto, e ti-
naturais é muito importante para os limitados recur- veram o apoio financeiro da Cooperativa Agrícola de
sos naturais e de terra do mundo. Para alcançar as Cotia.
metas de desenvolvimento econômico tanto da terra Hoje eles estão capacitados para protegerem-
como dos recursos naturais, necessitamos, não ape- se contra a salinização e praticam a produção susten-
nas do desenvolvimento científico, mas igualmente da tável de frutas tropicais, como por exemplo: uvas,
cooperação entre todos os povos com suas habilida- mangas, acerola, etc. Estes proprietários recebem
des e trabalho, como por exemplo: pesquisadores, igualmente assistência dos técnicos brasileiros para a
fazendeiros, comerciantes, homens de negócio etc. manutenção da sustentabilidade do uso agrícola do
Penso que essa cooperação deve ser estabelecida em solo.
harmonia, a qual pode ser traduzida pelo espírito da A Codevasf reconheceu a necessidade de in-
"bagunça organizada" e pelo conceito da idéia de cluir sistemas de drenagem adequados desde os está-
simbioses. gios de planejamento dos projetos, como podemos
Os projetos de pesquisa da Codevasf no Médio ver nas linhas de drenagem demarcadas no mapa de
São Francisco, próximo de Petrolina e Juazeiro, são planejamento.
excelentes exemplos de como essa harmonia tem sido Atualmente sistemas de drenagem são
praticada. construídos pelos pequenos proprietários com a aju-
Em 1973, fiz minha primeira visita ao Projeto da da Codevasf . Como mencionamos acima, a
Bebedouro – primeiro projeto da Suvale. Depois des- Embrapa está dirigindo as pesquisas de drenagem
sa visita, voltei muitas vezes a essa região para desen- desde 1974 e a Codevasf também tem acumulado
volver minhas pesquisas relacionadas com as medi- conhecimento técnico e científico em drenagem.
ções ecológicas da resistência da caatinga, como o uso Esses conhecimentos científicos e tecnológicos
da terra para agricultura de frutas tropicais e com os estão influenciando as operações agrícolas dos pro-
diferentes projetos da Codevasf . prietários brasileiros e nipo-brasileiros. Além disso,
No começo de meu trabalho de campo, dese- creio que eles estão se relacionando uns com os ou-
nhei e fotografei as árvores da caatinga e suas flores. tros, para a troca de informações sobre o sistema de
Também aprendi os nomes científicos das árvores da irrigação e drenagem, com o objetivo de melhorar o
caatinga com os botânicos, especialistas em plantas uso sustentável das terras do semi-árido tropical no
do Inpe e Embrapa. Quando fecho meus olhos posso NE.
recordar cada árvore da caatinga, como se fosse um Aproximadamente 13 anos se passaram desde
amigo. que o conceito do desenvolvimento sustentável foi
O mais importante no manejo da terra na agri- apresentado em Our common future por World
cultura da região do semi-árido tropical é o controle Comission on Environment and Development –
da salinização do solo, devido a irrigações e drena- WCED.
gens. Sobre isso, a Embrapa está desenvolvendo uma O mesmo tema – desenvolvimento sustentável
pesquisa sobre o sistema de irrigação e drenagem – foi discutido também na UNCD em 1992.
desde o início do Projeto Bebedouro, também dirigi- A cooperação entre as Agências Brasileiras: a
do pela Embrapa. Embrapa e Codevasf , e proprietários e técnicos brasi-
Em 1985, choveu naquela região quantidade leiros e nipo-brasileiros é muito importante para a
maior que o dobro de pluviosidade anual. Por causa agricultura sustentável da terra nessa região e essa
dessa grande quantidade de chuva o nível d'água no cooperação deve se basear no conceito de "bagunça
solo subiu e o sal ficou acumulado junto das raízes. organizada" e simbiose, os quais nos ajudam mais com
Essa salinidade prejudicou muito a terra dos proprie- relação à caatinga.
tários do Projeto Curaçá (japoneses e brasileiros), um
dos muitos projetos da Codevasf . Dessa forma os pro- _______________________

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Os Judeus no Pensamento de Gilberto
Freyre 1

Marcos Chor Maio


Cientista Político – Fundação Oswaldo Cruz – Brasil

Este trabalho tem por objetivo abordar médicos e administradores da burocracia es-
questão controversa na obra de Gilberto tatal. Sobretudo, o exercício da usura e a fun-
Freyre, isto é: a imagem do judeu em Casa- ção de financistas são fontes inspiradoras para
Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos. Gilberto Freyre utilizar a metáfora da "ave de
Ela permite, contudo, contemplar dois aspec- rapina" e a considerar essas atividades como
tos fundamentais: 1º) as relações entre raça e uma especialidade "quase biológica" dos ju-
cultura; 2º) os primórdios da modernidade no deus. A usura, por sua vez, é também consi-
Brasil. Há contenda em torno deste tópico, derada fonte de interação, de casamentos
em função da emergência, em passado recen- entre membros das elites portuguesas
te, de uma produção acadêmica que conce- endividadas e prósperos homens de negócios
be como anti-semita (Needell, 1995; Ferraz, de origem judaica (Freyre, 1938, p. 162).
1995) um conjunto de reflexões sobre o per- Não obstante caracterizar "a poderosa
fil judaico elaborado por Freyre. máquina de sucção [judaica] operando sobre
Tenho uma posição oposta a essa lite- a maioria do povo" um problema "quase bio-
ratura. Ainda que a narrativa do sociólogo dê lógico", Freyre associa, em seguida, circuns-
margem para se evidenciar a presença de uma tâncias históricas que redundaram no perfil
linguagem racialista, sugiro que o argumento de povo afeito ao comércio. Para fundamen-
substantivo de Freyre, influenciado pela con- tar sua tese, baseia-se em Max Weber quan-
cepção neolamarckiana de raça e pelo do o sociólogo alemão, na interpretação de
enfoque weberiano acerca dos fundamentos Freyre, “...atribui o desenvolvimento dos ju-
do capitalismo moderno, leva à incorporação deus em povo comercial a determinações
positiva dos judeus à nova sociedade criada ritualistas proibindo-lhes, depois do exílio, de
nos trópicos. Na verdade, o judeu freyreano se fixarem em qualquer terra e, portanto, na
é mais uma evidência da formação étnica plu- agricultura. E salienta-lhes o dualismo de éti-
ral constitutiva da identidade luso-brasileira ca comercial, permitindo-lhes duas atitudes:
(Maio, 1999). Para dar consistência a minha uma para com os correligionários; outra para
apresentação, investigo, de início, a análise do com os estranhos. Contra semelhante
sociólogo sobre os judeus em Portugal, para, exclusivismo era natural que se levantassem
em seguida, deter-me no quadro da socieda- ódios econômicos. Em virtude daquela ética
de colonial brasileira. Por fim, apresento o ou moralidade dupla, prestaram-se os judeus
papel dos judeus no processo de decadência em Portugal aos mais antipáticos papéis na ex-
do sistema patriarcal que leva Gilberto Freyre ploração dos pequenos pelos grandes” (idem).
a denominá-los como "gente quase de casa". No livro História Econômica Geral, ci-
tado por Freyre, Weber afirma que os judeus,
Os judeus em Casa-Grande & Senzala investidos do "dualismo primitivo universal
Em Casa-Grande & Senzala, na parte entre moral de grupo e moral em relação aos
dedicada ao estudo da sociedade portugue- estranhos", em face dos constrangimentos da
sa, os judeus aparecem como segmento ur- sociedade, por ser minoria no período do exí-
bano munidos de diversas identidades, a sa- lio, foram estimulados a exercitar, com o pú-
ber: agentes da empresa marítimo-colonial; blico externo, condutas comerciais que não
usurários; financistas, uma espécie de judeus eram realizadas com o público interno, como
da corte à serviço de ordens religiosas, dos era o caso da usura. Segundo Weber, o anti-
nobres, dos grandes proprietários; homens de- semitismo medieval estimulou um "capitalis-
dicados às atividades intelectuais, da ciência; mo de párias", diferente do capitalismo racio-

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nal, afinado à ética protestante, que definiu os princi- judaica. O judeu é um ser móvel e, ao mesmo tempo,
pais contornos da modernidade (Weber, 1950 [1927], estável dependendo do vínculo que viesse a estabe-
p. 359-360). lecer com o meio (Freyre, 1938 [1933]).
Freyre não leva em conta o papel do anti- Neste momento, gostaria de matizar mais uma
semitismo tradicional, caracterizado pela exclusão e vez a imagem do judeu como "ave de rapina", agora
tolerância (o "mal necessário") – na perspectiva de confrontado com a de "estoque semita". Entre a defi-
Hannah Arendt – no qual a usura é importante ele- nição de judeu como usurário, ligado à esfera da cir-
mento de mediação. Todavia relativiza a "vocação bi- culação monetária e avesso a atividades produtivas, e
ológica judaica" para a usura, atribuindo importância outra constituída por uma certa plasticidade e voca-
à ética judaica, ou seja, ao mundo da cultura e dos ção empreendedora.
valores. Considero que essas identidades, em certo sen-
Ao se voltar para o processo de colonização do tido opostas, possam ser alinhavadas por meio da con-
Brasil, em Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre cepção neolamarckiana de raça. Como mostra Ricardo
apresenta uma outra versão do papel dos judeus. Nele, Benzaquen de Araújo, em seu livro Guerra e Paz,
aparece a contribuição do "estoque semita". Gilberto Freyre não teria propriamente, como tradicionalmente
Freyre o conceitua como “... gente de uma mobilida- se afirma, operado um deslocamento do foco da “raça"
de, de uma plasticidade, de uma adaptabilidade tan- para a "cultura", mas procurou, na verdade, integrar
to social como física que facilmente se surpreendem esses dois pontos de vista, integração que se tornou
no português navegador e cosmopolita do século XV. possível a partir da adoção de uma perspectiva
Hereditariamente predisposto `a vida nos trópicos por neolamarckiana. Esta concepção parte da possibilida-
um longo habitat tropical, o elemento semita, móvel de de consideração simultânea de elementos tão he-
e adaptável como nenhum outro, terá dado ao colo- terogêneos como as influências biológicas, mesológicas
nizador português do Brasil algumas das suas princi- e culturais na determinação da especificidade de uma
pais condições físicas e psíquicas de êxito e de resis- formação social (Araújo, 1994, cap. 1).
tência. Entre outras, o realismo econômico que desde Desse modo, o português, já influenciado pelo
cedo corrigiu os excessos de espírito militar e religio- judeu, ao deparar-se com a aventura colonial acio-
so na formação brasileira. A mobilidade foi um dos nou sua memória plástica em novas terras. Como afir-
segredos da vitória portuguesa” (Freyre, 1938 [1933], ma Freyre:
p. 5-6). “...Para os portugueses o ideal teria sido não
O judeu, mais uma vez, é um indicador preciso uma colônia de plantação, mas outra Índia com que
da formação híbrida, mestiça do português, de sua israelitamente comerciassem em especiarias e pedras
capacidade de incorporar características raciais e cul- preciosas; ou um México ou Peru donde pudessem
turais de outros povos. É interessante observar, que extrair ouro e prata. Ideal semita. As circunstâncias
os conceitos-chave são: adaptação, plasticidade e americanas é que fizeram do povo colonizador... com
mobilidade. Pelo menos dois desses conceitos são o sentido agrário mais pervertido pelo mercantilismo,
emprestados à biologia e mais especificamente, à tra- o mais rural de todos: do povo que a Índia transfor-
dição lamarckista. É nesta chave explicativa que o perfil mara no mais parasitário, o mais criador” (Freyre, 1938
judaico delineado oferece a possibilidade de enten- [1933], p. 23).
dimento das associações estabelecidas por Freyre en- Por influência dos supostos ideais semitas, o
tre raça e cultura na formação colonial brasileira (Maio, português, a princípio, estaria destituído dos valores
1995, p. 91-94). que associariam trabalho à produção de riqueza. Adi-
A plasticidade do "estoque semita" freyreano se ante, no entanto, curvou-se à nova realidade ameri-
revela na tipologia das formas de ocupação do terri- cana, tropical. Este novo meio ambiente, elemento
tório brasileiro. O primeiro exemplo de domínio so- intermediário entre raça e cultura, condicionou a cri-
bre o espaço é o pré-colonial, uma espécie de estado ação de uma civilização distinta, agrícola e produtiva
de natureza hobbesiano, no qual degredados e cris- nos trópicos. O judeu que já havia influenciado a for-
tãos-novos fazem parte de uma constelação junto com mação étnica portuguesa, em contato com um novo
aventureiros, que não deixaram qualquer traço de ci- meio físico e social teria revelado sua vocação em-
vilização. A segunda forma de ocupação seria a ativi- preendedora.
dade canavieira que, de fato, colonizaria o território.
Através dela aparece o "feitor judeu". Por último, re- Os judeus em Sobrados e Mucambos
vela-se o espírito semita corporificado no bandeiran- Diferentemente de Casa-Grande & Senzala, em
te, atraído pela aventura e o gosto pelo comércio. Em Sobrados e Mucambos os judeus têm uma inserção
todos os exemplos, verifica-se a suposta plasticidade social mais definida, operando assim uma nova inver-

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são do perfil judaico. A análise da decadência do pa- segunda metade do século XIX, com a
triarcado rural brasileiro está associada diretamente "reeuropeização" do Brasil, processo de
ao florescimento da cultura urbana no Brasil. Esse pro- ocidentalização influenciada pela Europa burguesa e
cesso, que se consolida a partir da vinda da família não mais ibérica. Nova formação do Estado, mudan-
real portuguesa ao Brasil, já estava em curso na ex- ças econômicas, materializadas na introdução da má-
pansão da empresa agromercantil do açúcar, na colo- quina e na constituição de um incipiente mercado
nização holandesa, na descoberta das minas, na visi- capitalista, foram acompanhadas também por mudan-
bilidade de algumas cidades coloniais, no crescente ças ideológicas e morais importantes, como a valori-
domínio sobre a esfera privada (familismo e o zação de elementos ocidentais e individualistas. Tão
mandonismo). importantes quanto as mudanças econômicas foram
Gilberto Freyre apresenta uma extensa discus- também transformações sociais amplas implicando
são sobre o caráter parasitário ou produtivo dos ju- novos hábitos, papéis sociais, profissões e, não me-
deus no Brasil Colônia. Eles são identificados com pro- nos importante, uma nova hierarquia social. Neste
cessos de diferenciação, intermediação, urbanização, cenário, Freyre assinala a centralidade do imperialis-
em suma, de autonomia. Seriam um dos agentes do mo inglês, por meio dos interesses comerciais e in-
processo de expansão da economia açucareira atra- dustriais.
vés do poder financeiro. Como Freyre assinala, “...sem Os judeus, "gente quase de casa", de origem
o intermediário judeu, é quase certo que o Brasil não oriental, não participam da reeuropeização à brasi-
teria alcançado domínio tão rápido e completo sobre leira. Freyre não os encontra nos primórdios do capi-
o mercado europeu de açúcar a ponto de só o produ- talismo moderno no Brasil. Neste sentido, coloco em
to dos engenhos de Pernambuco, de Itamaracá e da dúvida a hipótese de Needell (1995) que sugere que
Paraíba render mais à Coroa, nos princípios do século o anti-semitismo de Gilberto Freyre é uma reação à
XVII, que o comércio inteiro da Índia, com todo o seu modernidade. Em Sobrados e Mucambos, a impor-
brilho de rubis e [...] de sedas. (Freyre, 1951, p. 129). tância dos judeus é atribuída ao processo de financia-
O judeu foi também elemento de mediação mento da economia açucareira e à dinâmica da urba-
entre as tensas relações entre a "casa" e a "rua", atra- nização que estariam intimamente ligadas ao universo
vés da presença dos médicos sefarditas que penetra- rural. Talvez por influência de Weber, Freyre, ao tra-
ram na "casa", competindo com os padres no apazi- tar do capitalismo moderno que seria definido pelo
guamento da alma e do corpo das mulheres e, conceito de "reeuropeização" não atribui importân-
limitando assim, o poder patriarcal. Da mesma for- cia alguma aos judeus. Nem os banqueiros da família
ma, os mascates judeus estreitaram as relações entre Rothschild, que tiveram função primordial como agen-
a "casa" e a "rua" mediante a circulação de mercadori- te financeiro no Império e na República Velha foram
as. Intermediários do comércio do açúcar, médicos, privilegiados.2 Pelo contrário, à medida que analisa o
mascates, os judeus adquirem certa visibilidade na incipiente desenvolvimento capitalista brasileiro do
sociedade patriarcal de corte urbano. Estavam longe século XIX, sob forte influência inglesa, Freyre valori-
do estigma do parasitismo. za cada vez mais a presença dos judeus sefarditas e os
Não obstante diferenciações e distanciamentos incorpora ao mundo do Oriente em face do Ociden-
que caracterizaram as relações entre a casa e a rua, te.
entre sobrados e mucambos, Freyre acredita que, até
o século XIX, esse mundo ainda era dominado pelo Considerações Finais
Oriente, apesar das marcas européias. Diversificado, Considero que os judeus são um importante
miscigenado, distintas partes participando de um todo testemunho da "vocação portuguesa" para a miscige-
que se expressava na paisagem colorida do cenário nação. Desta forma, os judeus freyreanos não podem
urbano. Neste quadro, os judeus, que seria sinônimo ser identificados com os estigmas anti-semitas relaci-
de diferenciação, aparecem como seres supostamen- onados ao contexto político-ideológico dos anos 30,
te exóticos. Como observa Gilberto Freyre: “...a colo- a saber: a pouca afeição deste povo à assimilação, o
nização, aparentemente exótica, de Sefardins, no Bra- seu suposto enquistamento, o seu grau zero de
sil [...] foi, na realidade, colonização de gente quase fusibilidade detectado por Oliveira Viana, e, não me-
de casa. Colonização que não viria perturbar nas suas nos importante, a sua suposta vocação parisitária e
raízes o processo da integração social da nova colô- sua capacidade política de dominar o mundo medi-
nia portuguesa. Viria quase equilibrar a diferenciação ante ações conspiratórias.
com a integração” (Freyre, 1951, p. 598). Neste sentido, o uso de metáforas racialistas
A condição dos judeus como "gente quase de atribuídas aos judeus não importa à suspensão do
casa" surge a partir do contraste, principalmente, na exercício de conversão do judeu freyreano à cultura

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69
dominante (ibérica, incorporadora e holista) e, por
conseguinte, à comunidade imaginada nos trópicos.
Em pleno processo de centralização política, de imi-
gração seletiva e de tentativa de construção definitiva
de uma identidade nacional, o judeu freyreano é um
judeu híbrido, mestiço, não escapando ao ideário de
Gilberto Freyre de um Brasil mestiço, objeto de aca-
lorados debates ainda hoje.

_______________________

Notas
1
Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo de investiga-
ção sobre os judeus no pensamento social brasileiro. No caso des-
te texto, trata-se da primeira incursão da pesquisa sobre os judeus
em Sobrados e Mucambos.
2
Em posição oposta, Gustavo Barroso, em seu livro Brasil: Colônia
de Banqueiros (1934), um dos libelos do anti-semitismo dos anos
30, chega a absolutizar a importância da família Rotschild face às
mazelas da economia brasileira. Sobre o pensamento anti-semita
de Gustavo Barroso, ver: Maio, 1992.

Bibliografia
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zala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Edito-
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1995.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família bra-
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neiro: Maia & Schmidt, 1938.
________________. Sobrados e mocambos: decadência do patri-
arcado rural e desenvolvimento do urbano. 2. ed. Rio de Ja-
neiro: José Olympio, 1951.
MAIO, Marcos Chor. Estoque semita: a presença dos judeus em
Casa-Grande & Senzala. Luso-Brazilian Review. Madison, v. 36,
n.1, p.95-110, 1999.
_______________. O mito judaico em Casa-Grande & Senzala.
Arché. v.4, n. 10, p.85-102, 1995.
_______________. Nem Rotschild nem Trotsky: o pensamento anti-
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NEEDELL, Jeffrey. Identity, cace, gender and modernity in the
origins of Gilberto Freyre’s ouevre. American Historical Review.
v.100, n.1, p.51-77, feb. 1995.
WEBER, Max. Historia económica general. México: Fondo de Cul-
tura, 1964.

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


70
Os Povos Indígenas e o Mito da
Miscigenação

Marcos Terena – marcosterena@uol.com.br


Coordenador Geral dos Direitos Indígenas da Fundação Nacional do Índio –
Brasil

Os grandes mitos começam a ser parte dutivos e carentes de tudo. Incapazes para o
das diversas mesas sobre os 500 anos do Bra- trabalho da nova ordem econômica e para a
sil, especialmente no que se refere à forma- cidadania da modernidade. Milhões de pes-
ção daquilo que somos, baseado naquilo que soas indígenas pagaram com suas vidas todo
um dia fomos. A chegada de Pedro Álvares esse processo, e outros tantos que fugiram fo-
Cabral na costa atlântica em busca de novos ram perseguidos, contatados, "amansados" e
investimentos econômicos, novas conquistas transformados em dependentes do
de povos e terras. Tudo em nome de um de- assistencialismo e do paternalismo, que tam-
senvolvimento ou plano geo-político hoje bém foi uma forma de dominação.
conhecido como globalização. Depois de 500 anos, restaram apenas
Existe uma estimativa de que, naquele 350 mil pessoas com direito a 11% do territó-
tempo, havia por aqui mais de cinco milhões rio nacional, falando ainda 180 línguas, en-
de pessoas que falavam mais de mil línguas e quanto na outra face do Brasil indígena, sur-
que faziam dessas terras o Brasil 1005 indíge- giam 160 milhões de pessoas de várias origens,
na. Logo depois do primeiro encontro, das com olhos negros, verdes, azuis, castanhos,
primeiras observações lusitanas, colonizado- que cantam e dançam uma musicalidade que
ras ou catequizadoras, houve um consenso de identifica a maneira de ser brasileiro. São to-
que os primeiros brasileiros, denominados a nalidades diferentes de fazer um Brasil, e nós,
partir desse encontro de índios, deveriam ser os povos indígenas, sabemos que de alguma
"orientados", "pacificamente", para um novo maneira nossos antepassados deixaram suas
modelo de vida onde os valores tradicionais marcas nessa nova conformação, quer seja nos
nada representavam, sendo necessário, olhares, no aspecto físico, como também nas
ensinamentos básicos para a nova vida. As diversas praças, rios, pessoas e áreas que car-
vestes indígenas, a economia sustentável, a regam um nome tradicional como o Kari-oca,
riqueza sociocultural e ambiental, tudo deve- Ipanema, Anhangabau, Piracicaba, etc., o que
ria ser substituído por novos valores, que demonstra que sempre existe, em alguém ou
credenciariam aqueles povos nativos para a em algum lugar, um pedaço de índio.
nova civilização. Por outro lado, era necessá- Em todos esses aspectos, os povos indí-
rio, também, ensinar os valores religiosos, genas destacam a importância, inclusive es-
substituindo a relação direta e sagrada da for- tratégica, da mulher indígena, como ocorreu
ça espiritual com o Grande Criador através na Bahia com Catarina Paraguassu, como
de ritos e cantos, por dogmas cuja palavra ocorreu com Bartira e tantas que foram es-
chave era: pecado. quecidas pelo processo histórico, muitas ve-
Assim, aquilo que poderia ser uma gran- zes utilizando-se da sua inteligência e beleza,
de aliança entre os donos das terras e os sem para proteger os aspectos da sobrevivência e
terras de Portugal virou uma relação antagô- da continuidade de um povo, especialmente
nica, sem nenhuma contrapartida para os do ponto de vista da identidade cultural e lin-
povos indígenas a não ser a obediência, a güística. Uma mulher indígena jamais foi tra-
dominação e a aculturação física e social. tada ou considerada como uma prostituta
Os povos indígenas que sempre vive- nessa relação, mas como uma mulher digna
ram livres, que jamais conheceram o traba- da sua opção na defesa dos valores tribais. Vale
lho escravo, nunca aceitaram a subordinação, ressaltar também que numa relação interna
e, assim, de amigos foram transformados pelo da família indígena, a mulher sempre teve
sistema colonizador em preguiçosos, impro- papel preponderante nas negociações e nas

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71
decisões sobre o controle familiar, administração agrí- nome de um modelo copiado da modernidade que
cola e até nas estratégias da guerra. O homem indíge- separa povos irmãos em nome da religiosidade, da
na nunca menosprezou essa capacidade de resistên- paz e da geografia.
cia da mulher, inclusive por uma relação de afeto Os povos indígenas continuam caminhando na
maternal, também com a mãe terra. direção do futuro, um futuro que possa fazer o Brasil
Dessa forma, apesar de todo o processo de co- de nossos sonhos, com terra demarcada, urbaniza-
lonização que ocorreu contra os povos indígenas, a ção e reforma agrária compatível com as necessida-
raiz da miscigenação oriunda dos aspectos indígenas des de cada um daqueles que formam a grande Na-
foi conduzida por um processo no qual a mulher in- ção, onde os caminhos podem ser diferentes, mas os
dígena teve um papel preponderante, pois apesar de objetivos serão únicos e comuns. O mais importante
muitas vezes forçadas a isso, souberam, com o será o reconhecimento dessa possibilidade. O Índio
surgimento de um filho diferente, não tribal, transmi- não será índio como foi imposto, mas será Xavante,
tir os valores básicos das relações humanas indígenas, Fulni-Ô, Karajá, Terena, etc., com suas formas de se
como os cuidados com o meio ambiente, a família e verem e de serem vistos, muito diferente do modelo
as tradições, o que sempre foi contestado pela nova padronizado de tinturas e formas, afinal, 500 anos
família não indígena, fazendo com que todo um tra- depois, há um Brasil em busca de si mesmo e uma
balho de ensinamento bicultural, como no primeiro geração que precisa saber os valores de ser e de estar
encontro, não tivesse continuidade, pois, apesar de em uma terra que comportava a alegria e a riqueza
tudo, o objetivo de extinção dos povos indígenas con- do bem viver, baseado principalmente nos
tinuava ainda em curso. ensinamentos de cada território e cada povo deve ser
Agora quando olhamos para o Brasil do Século valorizado e respeitados como é, numa homenagem
XXI não podemos deixar de olhar o passado, raiz da ao grande Criador e à própria magia da vida!
origem de todos os brasileiros, e considerar os valores
tirados, mesmo aqueles impostos, que fez surgir um _______________________
povo que faz do seu dia-a-dia uma maneira de lutar
em busca do melhor. O Brasil, terra de nossos ante-
passados, continua com muitos valores íntegros, como
as águas doces, as águas salgadas, o cerrado, a Mata
Atlântica e principalmente o Pantanal e a Amazônia.
Sabemos que não existe uma terra com tantos valores
místicos, culturais, recursos minerais e ambientais,
como a ainda incógnita biodiversidade. Uma terra
protegida pelo sangue de nossos antepassados indí-
genas, mas que possui ainda grande força, pois acre-
ditamos, devido à força espiritual dos povos tradicio-
nais como o negro e o índio, que souberam conduzir
esses valores distante do domínio do colonizador,
indecifrável como arma de sobrevivência.
Quando os povos indígenas falam em demar-
cação das terras, não se deve olhar isso apenas como
um direito histórico, mas como um direito moral e
futurista, pois, na maioria desses territórios onde es-
tão concentrados os grandes mananciais ecológicos,
o olhar dos povos indígenas está no compartilhar dessa
responsabilidade e do usufruto das gerações futuras,
os filhos indígenas e do homem branco também.
O Brasil Indígena, o Brasil Afro ou o Brasil Eu-
ropeu devem ser vistos pela mesma forma como foi
premeditada, profetizada como um país multicultural
e multirracial, onde, segundo os costumes indígenas
deveriam ser mantidos suas diferenças, mas não que
isso devesse ser usado como mecanismo para o pre-
conceito e a discriminação que tanto tempo, deser-
tou povos inteiros, famílias e gerações, por vezes em

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72
MESA-REDONDA 3
O LUSO E O TRÓPICO

Dia 22 de março
COORDENADOR:
António Gomes da Costa
Presidente do Real Gabinete Português de Leitura – Brasil
O Luso e o Trópico Revisitado

Narana Coissoró
Vice-Presidente da Assembléia da República Portuguesa/Professor e Vice-
Reitor da Universidade Internacional de Lisboa – Portugal

O tema que eu queria trazer hoje aqui, ês Criou.


e desenvolver sucintamente, é o caso dos ter- Quem estiver disposto hoje a ler vinte
ritórios do Oriente: o Estado Português da páginas que Goa ocupa no O Luso e o Trópi-
Índia, fundado por Afonso de Albuquerque co verificará facilmente que Gilberto Freyre
em 1510, reconquistado depois em 1515 e vai ali confirmar um conhecimento daquilo
integrado por força das armas, por invasão que ele já pressentia ou, melhor dito, "sentia
militar da União Indiana, em 18 de Dezem- saber". Um grande admirador de Garcia
bro de 1961 na actual República da India, bem D'Horta, um profundo conhecedor da
como de Macau e Timor. epopeia dos portugueses nos séculos XV, XVI
Goa representa um caso especial, para e XVII, principalmente em Goa nos séculos
não dizer excepcional, de lusotropicalismo. XVI e XVII, conhecedor da história pré-portu-
Não me admira nada que Gilberto Freyre te- guesa de Goa, ciente da obra São Francisco
nha ficado não só entusiasmado como encan- Xavier, passando pela Inquisição, e do legado
tado com terras e gentes de Goa, quando, em dos vice-reis e governadores-gerais, avaliador
1951, pisou aquela terra. Diz Gilberto Freyre da forma e substância do poder político, mili-
que foi ali, em Goa, na Academia de Goa – tar e económico que Goa tinha no Extremo
que se chamava Instituto Vasco da Gama, hoje Oriente devido ao facto de ser a sede do Vice-
rebaptizado de Instituto Menezes Bragança, Reinado com domínio e jurisdição para todo
porque Vasco da Gama era um estrangeiro e o Extremo Oriente, incluindo Macau e Timor
o nome tinha de ser de um autóctone depois e, do lado ocidental na costa do Indico, ou
da invasão – que, pela primeira vez, segundo seja Moçambique. O meio-mundo português
ele próprio nos informa, pronunciou a sua que se chamou o Estado da Índia.
conferência na qual tentou demonstrar a Nos poucos dias que Gilberto Freyre
cientificidade do conceito do lusotropicalismo. está em Goa, dedica-se inteiramente a esco-
Diz o sociólogo, que hoje homenageamos, lher as pessoas que o hão-de informar em
que nesse dia sentiu um ímpeto interior que concreto sobre a realidade sociológica local.
não sabe descrever e, depois de ter verifica- É verdade que a maior parte daquilo que ele
do e calcorreado aquele pequeno território, escreve sobre Goa é fruto do seu conhecimen-
sentiu o ânimo necessário para passar de uma to anterior. Descreve os monumentos grandi-
mera intuição, aquilo que ele chama um co- osos da Velha Cidade e explica por que o são,
nhecimento de experiência adquirido, para um explica a razão da Inquisição, detendo-se a
estádio superior da sua doutrina temática, que particularmente no apartheid entre cristãos e
era a cientificidade da sua tese. Isto é, verifi- hindus, cultivado e imposto pelas Ordens
cou em Goa que, afinal, o lusotropicalismo Religiosas estabelecidas, pondera sobre a for-
poderia deixar de ser uma mera explicação ma como Portugal impôs uma cultura, uma
casual, pontual, descritiva, daquilo que, atra- língua e um determinado vestiário para os
vés de outras viagens pelo mundo português, convertidos ao catolicismo, entusiasma-se
tirando o Brasil, está claro, ele tinha acumu- com o intenso intercâmbio que os jesuítas e
lado no seu vasto saber, para dar uma nova outros religiosos fazem entre Brasil e Índia,
dimensão a esta sua conceptualização que trazendo frutas e árvores do Brasil para Índia,
depois desenvolveu em exemplos concretos como, por exemplo, levando caju do Brasil
– a integração portuguesa nos trópicos, e prin- para Goa em troca do coqueiro de Goa para
cipalmente a que já vinha de trás a partir da o Novo Mundo, o grande vai-vem que há das
Aventura e Rotina e O Mundo que o Portugu- ervas medicinais, de espécies de animais, e

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75
obviamente, além das especiarias e outras mercado- Goa, em 1951. Conhecedor daquilo que se passava
rias de consumo das elites europeias da época. A aten- no subsolo político, não há uma linha, no seu relato
ção de Gilberto Freyre, em 1951, vai servir principal- sobre Goa, sobre esse aspecto importantíssimo da
mente para testar a sua tese, com a perfeita consciência "questão de Goa" face à União Indiana e Portugal, que
de que o lusotropicalismo é uma força imanente à vai ocupar as chancelarias dos dois países e a ONU
própria sociedade lusa fixada nas zonas quentes nas durante os treze anos subsequentes. Esta situação, para
margens dos grandes oceanos, independentemente nós sabermos que não o deixou de preocupar, esta
do poder soberano ou do poder político e económico, vaga de fundo que se está a surgir, aparece mais tarde
e onde deixa antever que a língua portuguesa é de- nos seus escritos quando publica outro livro no qual
pendente da soberania para se firmar, e corre ris- fala da Conferência da Bandung, da independência
cos de extinção se não for garantida ou não for da Índia, da morte Gandhi, da possível projecção que
efectivamente apoiada em qualquer modalidade de estes enormes eventos asiáticos podem ter sobre o
poder político. E tinha razões para pensar assim, como futuro do império português do Oriente, devido às
hoje verificamos em muitas partes. independências asiáticas e as independências africa-
Quando Gilberto Freyre desembarca em Goa, nas, mas isso tudo é revisto cerca de dez anos depois.
a situação de Goa politicamente é muito frágil. A Ín- É extremamente consolador ler hoje, como Gil-
dia tinha alcançado a independência em 15 de Agos- berto Freyre visionou com a sua autoridade e experi-
to de1947, portanto três anos antes e o assassinato ência, de que suceda o que suceder a Goa ali estão
de Gandhi, o Pai Pátria Libertada, é de 1948, com lançadas as raízes que Portugal quis deixar para man-
enorme repercussão na Índia. As populações hindus, ter uma cultura goesa própria.. "Fixou-se o português
cristãs, muçulmanas de Goa querem prestar a home- em Goa como quem deitasse raízes nos trópicos, acen-
nagem aos restos mortais do Grande Apóstolo laico tue-se este esforço que nunca mais acabará por pior
do nosso século como em todos os recantos da União que sejam investidas que venham de qualquer outro
Indiana, e é uma das formas que Nehru encontrou lado" escreve com convicção cheia. Essas "raízes" são
para servir-se deste estremecimento colectivo para completamente diferentes na economia da obra
reforçar o sentimento da independência, construir o gilbertiana, diferentes daquilo que ele estudava e da-
difícil projecto da unidade indiana da Índia, passe a quilo que ele pensava e divulgava em geral sobre o
expressão, ao mandar as cinzas de Gandhi, dentro de lusotropicalismo . Por quê? Porque em Goa não há
pequenas bilhas de barro, para as mais variadas terras uma imigração dos europeus como há no Brasil e
para serem deitadas nas águas dos respectivos rios com mesmo em Angola nos meados do século XX.
o cortejo das populações que sentiam a dor do desa- Em Goa não há distinção de raças, não é um
parecimento do "santo politico", segundo os ritos melting pot, não é um cruzamento de etnias diferen-
hinduistas. O Governador-Geral de Goa da altura, tes, não há lá negros nem mestiços nem amarelos. Há
General Bernard Guedes, não deu conta que isso os goeses – indianos de diferentes religiões, mas to-
pudesse realmente fomentar qualquer surto de naci- dos da mesma etnia, ramos da mesma árvore genéti-
onalismo indiano, porque mesmo depois da indepen- ca, não há qualquer cultura imigrante que tivesse pro-
dência de 1947, não se tinham sentido as ondas do vocado o fenómeno forte de sincretismo cultural. Ao
choque em Goa. A vida corria normalmente. Havia, é contrário, encontramos em Gilberto Freyre, como
certo, um grupo integracionista clandestino e os mo- encontramos em todos outros relatos, principalmen-
vimentos dos "satyagratics", mas a maioria da popula- te a partir de Pierre de Lassale, o fenómeno
ção pensava que o problema haveria de ser resolvido multisecular da absorção pela civilização indiana, pela
diplomaticamente entre Lisboa e Nova Délhi, em que cultura hindu, dos atributos civilizacionais dos portu-
a população não teria muito que ver. Portanto, "vivia- gueses ou outros exteriores ao núcleo duro da
se habitualmente", na expressão de Salazar. Mas foi goanidade. Quando o português, nos séculos XV e
esta chegada das cinzas de Gandhi que trouxe, à Praia XVI, se fixa na Índia, adopta os usos e costumes lo-
de Gaspar Dias, isto é, à capital, do pequeno Estado, cais: vestir-se como os goeses, usar o fio sagrado que
na foz do Rio Mandovi onde haviam de ser lançadas era o sinal dos bramanes , andar de palanque, as
ao mar, uma multidão nunca dantes vista em Goa. mulheres enrolam-se em panos garridos, fazem o seu
Parecia que toda a Goa se sentia desolada com a morte darbar, isto é, a assembleia dos dignatários locais, e
do líder de dimensão universal, a quem queria pres- convivem com os brâmanes para se aconselharem.
tar as últimas homenagens . Há conflito surdo entre o poder político com técnicas
A situação política de Goa começa a partir daí a de missionação, a administração quer a cor local, aqui-
dar sinais de que nunca o futuro será como dantes. E lo que se chama a localização hoje em dia, isto é, são
é nessa encruzilhada política que Gilberto Freyre pisa raros, tirando os cargos cimeiros que os portugueses

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76
ocupam no Estado da Índia. Nasce uma economia mo tempo que condena a direita austríaca!.
paralela ao comércio intercontinental e, como hoje Quem visita Goa, não vê , qualquer idéia de
se diria, vigora o principio “um Estado, dois sistemas”; diferenciação religiosa. Hoje há casamentos inter-re-
há o sistema do comércio oceânico, que é inteiramen- ligiosos. O sistema de castas vai-se debilitando ao con-
te dominado pelos portugueses, no Índico e no Atlân- trário do que se passa na Índia onde há casos de quei-
tico e depois no Índico e no Pacífico percorrendo o mar as moças que não trazem o dote pedido pela
Extremo Oriente até ao Japão e em Goa há o sistema família do noivo; o sistema do casamento português
exportado de estrutura de poder português, o Estado civil e do casamento católico vigora ainda hoje duma
moderno europeu, adaptado à realidade indiana. Pen- maneira normal; o convívio com os estrangeiros, prin-
se-se, por exemplo na teoria do governo local através cipalmente com os turistas portugueses, é usual e
das "comunidades aldeãs" e o código de usos e costu- afectivo. Na culinária como nas artes, na arquitectura,
mes de populações não-cristãs de Goa. Os próprios como na literatura local ou mesmo nas relações quo-
hindus renunciam, face à superioridade do código ci- tidianas, quem transpõe a fronteira de Índia com a
vil português ao seu direito tradicional; temos as ins- Goa verifica que transpôs uma fronteira humana. Isto
tituições portuguesas, o Município, os Tribunais com passa-se hoje volvidos trinta anos sobre a integração
a célebre Relação de Goa, o Governador Geral, os de Goa na União Indiana.
administradores no poder local, mas quasi sempre Nos primeiros anos, depois da integração for-
esses últimos lugares são preenchidos pelos próprios çada, foram impostos os chefes administrativos india-
goeses. Esta foi a prática até 1961, principalmente nos em Goa: não duraram cinco anos. Pretendeu-se
quando foi abandonada a cidade da Velha Goa, devi- impor a língua marata do estado Maharastra que cir-
do à peste em 1768 e a capital se deslocou para a cunda Goa, os goeses recorreram ao referendo e ga-
Nova Goa, hoje Panagi, e os poucos portugueses que nharam-no. Quiseram integrar Goa dentro do estado
lá estavam abandonaram a Índia portuguesa. vizinho, os goeses pediram novamente o referendo e
Goa perdeu o comércio oceânico no século obtiveram o seu Estado da União separado. Hoje Goa
XVIII e com ele o principio "um Estado, dois sistemas".. tem deputados seus no governo central da República
Perdeu os portugueses porque não ficaram lá, e o da Índia; tem um governo local, com um ministério
poder, com a excepção do Governador Geral, foi in- local e parlamento local . A cozinha, o turismo e a
teiramente entregue aos goeses embora subordinado arquitectura fazem lembrar os velhos tempos de exis-
totalmente a Lisboa. É essa realidade goesa que, en- tência do poder português, não se mudaram sequer
tregue a si própria, mantém valores da civilização por- os nomes das ruas; simplesmente tiraram a estátua de
tuguesa, onde há mais de umas centenas de famílias, Afonso de Albuquerque e substituiram-na pela de
que falam como língua materna o português, onde se Gandhi, mas a Rua 5 de Outubro, a Rua 31 de Janei-
cultiva a religião católica que representava em 1961 ro, que nenhum goês sabe o que representam, ali
cerca de 30% da população, adoptando os ritos vi- continuam na toponimia da cidade.; a Avenida do
gentes em Portugal. Há casamentos entre goeses e por- Povo de Lisboa foi inaugurada há quatro anos, quan-
tuguesas, que vêm para Portugal para continuar seus do o Dr. Mário Soares, Presidente de Portugal, visitou
estudos e regressam sem qualquer dificuldade . Não oficialmente Goa; a Rua José Falcão lá está a intrigar
há, nem houve, casas-grandes, nem senzalas, nem os naturais; todas essas ruas que eram as ruas princi-
escravatura como disse atrás. Mantém-se até hoje o pais de Goa continuam exactamente com a mesma
sistema das castas, e a religião católica admite em Goa importância. Houve há dois anos, organizado pela
o sistema das castas quando não as fomenta, como Ordem dos Advogados de Portugal com a Associação
fez no século XVI, quando adoptou diferentes formas dos Juristas de Goa, um encontro para estudarem a
para converter os brâmanes e outros autoctones para aplicação não apenas o código civil português – cha-
converter os goeses ao cristianismo. Há uma tolerân- mam-lhe hoje "portugoes"- para as relações privadas,
cia na convivência das três religiões que não se verifi- como organizarem um código administrativo, um có-
ca no resto da Índia. digo comercial e leis de ambiente de feição portu-
Basta abrir hoje os jornais de Índia para ver as guesa. E o exemplo é de tal maneira impressivo que a
guerras que existem por causa do governo que está própria Índia está a pensar em modificar alguma par-
no poder, em Nova-Delhi, um governo nacionalista, te de sua legislação para vir ao encontro da legislação
de direita conservadora, muito mais radical, muito mais de Goa. O que é que isso significa? Significa que, por
nacionalista do que do velho partido de Nehru e onde o português passou, com poder ou sem poder,
Gandhi, mas a Índia é convidada hoje por Portugal quando quis deixar uma marca da sua natural manei-
para uma cimeira portuguesa e indiana, durante a ra de ser, soube trazer para os seus valores aqueles
Presidência de Portugal da União Europeia, ao mes- que lhe estavam próximos ou que podiam ser assimi-

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lados e trazer também para si, para Portugal, muitos ção, a fraternidade com os povos por onde Portugal
dos valores da Índia, que hoje são valores correntes passou e como Jordan fazia a prova sem saber, o por-
tanto na língua, como na culinária, como no vestir, tuguês firmou a cultura própria nas várias latitudes sem
etc. A grande moda portuguesa anunciada do próxi- saber. ..
mo verão é o sari, o traje de Goa com aquelas cores Gilberto Freyre foi o génio que soube antever
vivas que os europeus tanto apreciam. essa realidade. Ninguém terá hoje a coragem de afir-
Portanto, o que nós hoje verificamos é que o mar que fez um favor político ou prestou um serviço
lusotropicalismo não é uma fabricação colonial para ao imperialismo salazarista como foi acusado pelas
o benefício do colonialismo português ou uma dou- esquerdas e os nacionalistas anti-colonialistas da épo-
trina ao serviço de uma ideologia imperial que pas- ca, mas o lusotropicalismo constitui a própria nature-
sou definitivamente. É exactamente quando o poder za do português, a sua própria maneira de ser. Como
colonial em Goa já desapareceu em 1961, o dizia Agostinho Silva, "O brasileiro é um português à
lusotropicalismo ressuscitou e está de boa saúde e está solta", o lusotropical é o português perdido no mun-
a progredir, como Gilberto Freire previu. do. Gilberto Freire provou-o à saciedade. Vale a pena
Em Macau, apesar da transferência da sobera- reler O Luso e o Trópico.
nia, a Escola Portuguesa, pela primeira vez, tem oito-
centos alunos depois de quinhentos anos. Nunca pas- _______________________
sava de trinta, quarenta ou cinquenta alunos no Liceu
Camilo Pessanha. Foi preciso entregar Macau à sobe-
rania chinesa para que os estudantes de cinqüenta ou
sessenta, passassem para oitocentos. Foi preciso nas-
cer a Região Administrativa Especial de Macau da
República Popular da China, para que as mulheres
chinesas começarem a vestir à portuguesa, deixando
as suas cabaias, desde o dia 20 de Dezembro de 1999,
e mostrar ostensivamente, como sinal exterior de sua
identidade cultural macaense, símbolos portugueses:
a cor verde e vermelha, os pratos, as louças, as porce-
lanas e pedirem, segundo confirmei em recente visi-
ta, em alguns restaurantes, garfo e faca que substitu-
em os paus milenários. Não sei se a moda vai passar,
mas há este retomar do lusotropicalismo: a soberania
não existe, mas está ali alguma coisa que nós sabe-
mos que ficará em Macau , menos a língua portugue-
sa.
Lemos o relato do que se passa em Timor. A
grande afeição que há pelos portugueses e como Por-
tugal inteiro se levantou quando foi dos massacres
indonésios de Timor. Os timorenses referem-se aos
soldados portugueses como os "nossos soldados" que
estão ali ao lado dos soldados australianos; a vontade
que há de reintroduzir o Escudo, como moeda nacio-
nal; a adopção do português como língua oficial de
Timor ao lado de tetum; o desejo de que seja só Por-
tugal a reconstruir a administração portuguesa, refa-
zer a alfândega portuguesa, a fornecer os quadros à
universidade timorense, reconstruir a vida económica
com bancos portugueses mostra que novamente o
lusotropicalismo não é uma doutrina ao serviço do
colonialismo português.
Há males que vêm para bem: se a
descolonização foi desastrada, se deixou traumas pro-
fundos no povo português, há uma coisa que se de-
monstra: que a sociedade tem valores culturais, a afei-

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A Mulher no Universo de Casa-Grande &
Senzala

Cecília Maria Westphalen


Historiadora – Universidade Federal do Paraná – Brasil

Ubi tu Caius, ego Caia e a mulher fora de casa, a mulher senhora da


casa-grande, a mulher escrava da casa-gran-
Na amplidão do tema fundamental, a de. Enfim, no rodar desses pares, a mulher e
formação da família patriarcal brasileira, Casa- o homem, envolvendo o namoro, o casamen-
Grande & Senzala abrange incontáveis assun- to, os filhos, a fidelidade, o adultério, a sedu-
tos, situações, comportamentos, de homens ção, os parentes, os amigos, os escravos, os
e mulheres que, no exercício de seus múlti- agregados.
plos papéis, desnudam seu cotidiano, sua vida Não está hoje entre as minhas preocu-
e sua morte. pações, discutir a tese perfilhada por Gilberto
Gilberto Freyre apreendeu e compre- Freyre, no sentido de que, "tanto no sul dos
endeu o que se passava no íntimo da casa- Estados Unidos, em Cuba, como no Brasil, a
grande e no seu entorno, realizando, particu- criança e a mulher sofreram passivamente nas
larmente pelos novos objetos apresentados, casas-grandes dos engenhos e das fazendas
novas abordagens reveladas, novas de café, em virtude do sistema de produção
metodologias praticadas, como já tive opor- econômica e de organização patriarcal da fa-
tunidades de comentar, a antenova história mília" 1.
social do Brasil. Desejo, nos limites do formato da co-
No universo da casa-grande cruzam e municação, circunscrever-me ao conhecimen-
entrecruzam homens e mulheres, meninos e to da mulher na ciranda da casa-grande, se-
meninas, sejam sinhôs e sinhás, escravos e jam as negras seminuas, quase despidas como
escravas, moleques e molecas. Desnecessá- costumavam andar, sejam as negras vestidas
rio será a todos nominar nessa verdadeira de seda, cobertas de jóias e cordões de ouro.
dança e contradança. No rodar, lento ou ve- E, nos seus pares contrastantes, as mulheres
loz dos dias e das noites, todos estão ali pre- brancas simplesmente trajadas de saias de
sentes, seja de frente ou de través, na luz ou chita, e as mulheres brancas vestidas de se-
na sombra. das, cetins, cambraias ou cassas bordadas,
Hoje, entre os historiadores, particular- capas de rebuços, mantilhas de seda ou ren-
mente após as contribuições da demografia da.
histórica, privilegia-se a história de gênero, As mulheres nascidas vivas e salvas da
sobretudo a história da mulher, a história de morte por milagre, desde pequenas, a elas
todas as mulheres, como, aliás, o fez Gilberto "negou-se tudo o que de leve parecesse inde-
Freyre ainda nos anos 30. pendência". Até levantar a voz na presença
Nesta comunicação, procurarei colocar dos mais velhos era objeto de reprovação. As
em evidência no mundo que o luso criou no respondonas eram castigadas com beliscões.
trópico, como o revelou Gilberto Freyre ao O "ar humilde que as Filhas de Maria ainda
nosso conhecimento, a mulher no universo conservam nas procissões", até os meados do
de Casa-Grande & Senzala, um dos temas, ali- nosso século, "... as meninas de outrora con-
ás, de maior recorrência e cuja observação é servavam o ano inteiro", 2 observa Gilberto
substantiva para o seu complexo entendimen- Freyre.
to. Mais do que aos meninos, exigia-se bom
Interagindo diante de nós estão a mu- comportamento das meninas. Não podiam
lher branca e a mulher negra, a mulher casa- correr, saltar, pular, subir nas árvores, andar
da e a mulher solteira, a mulher indulgente e pelo quintal. Ainda me lembro que minha avó
a mulher impiedosa, a mulher dentro de casa Totonha, filha e mulher de fazendeiros, sem-

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pre conservou em seus aposentos, o temível mulher. Aliás, "sempre prisioneira, a menina branca
"Manequinho", chicote com o qual fustigava nossas estava sob as vistas de pessoa mais velha ou de
pernas quando de nossas travessuras de meninas en- mucama de confiança. À noite, a vigilância era redo-
diabradas. brada. Para as meninas e moças, reservava-se na casa-
As meninas, em geral, não tinham brinquedos. grande a alcova, ou camarinha, bem no centro da casa,
Os meninos sempre tiveram a bola, o leva-pancadas. rodeada de quartos de pessoas mais velhas". Era, na
Somente as pequenas negrinhas, filhas das amas-de- verdade, mais uma prisão do que aposento de gente
leite e das mucamas. Afinal, bonequinhas vivas com livre.5
as quais todas as judiações eram possíveis. Interes- As negrinhas molecas podiam gozar de maior
sante notar que a planta do Engenho Noruega não desenvoltura na casa-grande ou na senzala. Muitas
inclui meninas no pátio, mesmo as mulecas. Também, vezes seminuas, outras vestidas com pano da Costa.
os desenhos de Tomás Santa Rosa e os bicos-de-pena Todavia, para elas, a infância era ainda mais breve,
de Poty. logo defloradas e exploradas, sobretudo pelos bran-
Todavia, elas estão presentes nas cantigas de cos. "Foram os corpos das negras, às vezes meninas
ninar, registradas por Gilberto Freyre, entoadas pela de dez anos... que livraram as mulheres brancas do
senhora ou pela escrava mãe-de-leite. assédio sexual". Muito da virtude das senhoras bran-
cas, da sua pureza e castidade, "manteve-se à custa
Senhora Sant'Ana da prostituição da escrava negra... à custa da promis-
ninai milha filha; cuidade e da lassidão estimuladas nas senzalas pelos
vede que lindeza próprios senhores brancos" 6. Muita negrinha virgem
e que maravilha. serviu de depurativo aos brancos sifilíticos.
Esta menina Havia o contraponto, de iaiás solteironas e de
não dorme na cama, senhoras sem filhos que criavam molequinhos. O Pa-
dorme no regaço dre Lopes Gama relata o caso "de uma respeitável Si-
da Senhora Sant'Ana. 3 bila que, criando uma negrinha, que hoje terá os seus
As meninas, como a Virgem Maria, eram entre- 14 anos, esta não vai de noite para cama sem que
gues aos cuidados de Sant'Ana. primeiramente se deite no regaço de sua gorda iaiá..."7.
Sem muitos que fazeres e distrações, logo che- As meninas brancas viviam sob a tirania dos pais.
gava o dia da Primeira Comunhão, quando as meni- Depois de casadas daquela dos maridos. Mesmo an-
nas deixavam de ser crianças: tornavam-se sinhás- tes do desabrochar do corpo feminino, a menina aba-
moças. Tão importante era esse dia que, já no século fada em sedas, babados e rendas, era casada aos tre-
XIX, menina de família tirava fotografia. O próprio ze, aos catorze anos. Solteira ainda aos quinze anos
Gilberto Freyre deu-lhe presença nas ilustrações de era já objeto de preocupações.
Casa-Grande & Senzala. Os maridos eram da escolha ou da conveniên-
Gilberto, aliás, com precisão de cronista de cia dos pais. Em geral, homens mais velhos ou desco-
modas, descreve com pormenores o traje da nova nhecidos. A minha já referida avó Totonha, foi dada
menina-moça: “Vestido comprido todo de cassa guar- em casamento pelo pai, estancieiro de gado no Rio
necido de folhos e pregas. O corpete franzido. A faixa Grande do Sul, ao meu avô Luiz, tropeiro da Lapa,
de fita azul caindo para trás, com pontas largas, sobre duas vezes mais velho e a quem conhecia apenas pelo
o vestido branco. A bolsa esmoleira de tafetá. O véu espreitar nas frinchas das portas.
de filó. A capela de flor de laranja. Os sapatinhos de Namoro quase não havia, pela ausência de
cetim. As luvas de pelica. O livrinho de missa enca- oportunidades e vigilância dos mais velhos e das
dernado de madrepérola. O terço, o cordãozinho de mucamas. Diz Gilberto Freyre que, algumas, mais atre-
ouro. Cruz também de ouro”.4 vidas, namoravam nas festas, sobretudo religiosas, mas,
É verdade, como observa Gilberto Freyre, que "assim mesmo namoro e sinais de leque, de lenço ou
a maioria não sabia ler o seu livrinho. Nesse tempo, de recados trazidos pelas negras boceteiras...".8 Con-
mulher não precisava saber ler. Os pais se opunham tudo, era preciso muito cuidado, pois, havia os fuxicos
mesmo a que as mulheres fossem instruídas. É certo e as delações.
que houve exceções, de meninas alfabetizadas na Havia, é certo, casos de rebelião contra a von-
própria casa ou em Recolhimentos. O Livrinho de tade paterna. "Nem sempre os pais foram obedecidos
Missa, de madrepérola, chegou até a mim, com um nas suas escolhas de noivos para as filhas". Era co-
pormenor, era francês, trazido da Europa para minha mum os casamentos entre parentes, principalmente
mãe, pela sua madrinha, Nházinha. entre tios e sobrinhas, entre primos, motivados pelos
A instrução significava certamente liberação da interesses econômicos da família. Se atentarmos, por

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exemplo, para a genealogia do Barão dos Campos muitas que serviam também para práticas ilícitas e
Gerais, são óbvias estas alianças que efetivam mesmo criminosas.
sem o saber a velha política tu, felix Austria, nube. Temidas e respeitadas foram também as feiti-
Mas o caminho para a libertação das imposições dos ceiras coloniais. Portuguesas de origem, as bruxarias
pais eram os raptos e as fugas, nem sempre românti- foram logo dominadas pelos negros.
cas e bem-sucedidas. Havia sempre um escravo ou As mulheres de cor tiveram maior presença nas
uma mucama para favorecê-los. ruas das cidades, exercendo seus ofícios; o mais fre-
Canta-se muito a beleza de negras e mulatas. qüente, o da prostituição. Entre as negras de ganho,
Mas, as mulheres brancas, casadas, mocinhas ou me- incluíam-se as prostitutas negras e mulatas, muitas
ninas, elas não eram feias. De olhos vivos, dentes bo- vezes exploradas pelas suas próprias senhoras.
nitos, maneiras alegres aos catorze anos. Porém, abor- Também, houve prostituição de brancas, em
tos e filhos, filhos e abortos seguidos, aos dezoito anos geral oriundas de famílias de brancos pobres que "não
eram matronas. Depois dos vinte anos eram, como deixando às filhas outra herança que a da ociosidade
notou Avé-Lallement no baile de 7 de setembro de e do preconceito contra o trabalho manual, depois
1858, em Curitiba, como um lírio murcho. de adultas se valem delas para poderem subsistir".11
"Eram elas que, apesar de mais moças, iam Entre as negras de ganho, escravas ou libertas,
morrendo (primeiro) e eles (embora velhos) casando sobressaíam nas ruas das cidades, as vendedoras de
com irmãs mais novas ou primas da primeira mulher. quitutes. Negras doceiras de tabuleiro e negras de fo-
Quase uns barba-azuis".9 gareiro. Umas percorriam as ruas, outras mantinham
Na vigência do casamento, fuxicos e delações pontos fixos nos pátios ou nas esquinas.
eram o tormento das senhoras da casa-grande, so- Não só prostitutas ou quituteiras, as mulheres
bretudo motivado pelo ciúme do marido em relação negras souberam alcançar a posição de caseiras e de
às negras e às mulatas, as quais foram sempre consi- concubinas de homens brancos. Deixavam de ser ape-
deradas mais bonitas, mais sadias e mais frescas para nas para o prazer físico e aumento de capital. Até de
os brancos da casa-grande. padres que muitas vezes tinham comadres, com as
Não que as iaiás, como já se disse, não fossem quais viviam como casados, criando os afilhados ou
também bonitas. "Nem todas as modinhas celebram sobrinhos. Dessas uniões muitas foram com mulheres
o quindim das mulatas das senzalas, muitas exalta- de cor, escravas ou ex-escravas, mas outras com mu-
ram também as iaiás da casa-grande, filhas de senho- lheres brancas. Não somente as de cor serviam de
res de engenhos. Anjos louros, pálidas madonas, "eram tentação.
de fato umas Nossas Senhoras: quando saíam de De outro lado, se às muitas mulheres negras e
palanquim ou de liteira, nos ombros dos negros de mulatas faltava o comedimento e sobrava a liberação,
libré, eram como se saíssem de andor...".10 outras eram virtuosas; das senzalas, não vinha apenas
Mas, os filhos seguidos, o modo de vida na casa- o desregramento. Também, vinham boas influências,
grande, muito cedo as fazia fenecer, além dos emba- amor, carinho, com as mães negras e mucamas virtu-
tes motivados pelas rivalidades femininas. osas e honradas. Mães negras, cuja religiosidade era
A mulher branca, a senhora da casa, poucos exemplar.
ofícios domésticos exercia diretamente. Sempre hou- Houve quem sustentasse que "castidade, ver-
ve, em relação a homens e mulheres, o preconceito gonha, recolhimento, sisudez e modéstia, foram in-
contra o trabalho manual. signe distintivo das mulheres brasileiras, nelas não
Na organização da família patriarcal, encontrando nenhum traço de leviandade".12
escravocrata, estabeleceu-se uma hierarquia de ser- É certo que não são poucas as histórias de filhas
viços domésticos. Entre as mulheres, a mãe preta, as e esposas assassinadas ou mandadas matar pelos pa-
mucamas damas de companhia, as pagens; as triarcas. Pais e maridos, mais do que flagrantes, deixa-
mucamas arrumadeiras, mulatas bonitas e dengosas. vam-se levar pelas delações, "ou de frade ou de es-
Na cozinha, cada mulher tinha sua função bem defi- crava". Principalmente destas. E, como notou Gilberto
nida, no forno e no fogão: quituteiras, cozinheiras, Freyre, "as mulheres nunca se deviam considerar so-
doceiras. As criulinhas em geral cuidavam do asseio zinhas, nem mesmo para os inocentes namoros de
dos vasilhames. leques ou de lenços".13
Ofício de mulheres era aquele de fazer partos, Não nos iludamos, contudo. Nem sempre as
tanto brancas, negras ou caboclas eram parteiras. Os brancas eram flor que se cheirasse. São conhecidas
anjinhos que subiam ao céu eram incontáveis. As pró- aventuras de meninas-moças com crioulos da casa e,
prias mães não choravam os filhos natimortos. Ou- sobretudo, as judiarias que sinhazinhas ou sinhás pra-
tros filhos viriam e lá estavam as comadres parteiras, ticavam com as negrinhas, suas companheiras de brin-

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81
quedos na infância. das quase do tamanho de reinos...".18
A mulher, "vítima do domínio ou do abuso do Mulheres que, como observa Gilberto Freyre,
homem, reprimida, por sua vez, descarregava os seus foram capazes de exercer o poder patriarcal quase
ódios e frustrações sobre os escravos". É conhecido o com o mesmo vigor dos homens, "às vezes com maior
sadismo da grande senhora, sobre as mulatas, "por energia do que os maridos já mortos, ou ainda vivos,
ciúme ou inveja sexual". Tal sadismo aguçava-se "pela porém dominados excepcionalmente por elas".19 En-
fixidez e monotonia nas relações da senhora com a tre nós, no Sul, os homens ausentes, ocupados nas
escrava...".14 lides do tropeirismo, as fazendas eram dirigidas por
Porém, de outro lado, havia "senhoras que le- elas.
vavam aos próprios seios, mulequinhos, filhos de ne- Estamos distantes "da mulher-esposa que não
gras falecidas durante o parto, alimentando-os do seu se queria ouvir a voz na sala, entre conversas de ho-
leite de brancas finas".15 mens, a não ser pedindo vestido novo, cantando
Na dialética da vida da casa-grande, devem ain- modinha, rezando pelos homens".20
da ser observadas as relações de poder entre o se- E como sabiamente concluiu Gilberto Freyre
nhor e a senhora da casa, não entre homens brancos sobre o tema, "um sistema complexo como foi o pa-
e mulheres de cor, entre os quais, Gilberto Freyre afir- triarcal no Brasil, tinha que ser, como foi, um sistema
ma que "se estabeleceram relações de vencedores e de base biológica superada pela configuração socio-
vencidos",16 mas entre o senhor branco e a senhora lógica. Um sistema em que a mulher mais de uma
branca, sua esposa e mãe de seus filhos legítimos. vez, tornou-se sociologicamente homem para efeitos
A tese que perpassa toda Casa-Grande & Sen- de dirigir a casa, chefiar a família, administrar a fazen-
zala, é a do inteiro domínio do marido e da inteira da".21
submissão da mulher ao poder do patriarca. Todavia, No auge do pater-potestas, os antigos, gregos e
na própria Casa-Grande & Senzala, tais comportamen- romanos, conheciam a posição da mulher. Aquela
tos revelam nuances, do baixo ao mais elevado grau, casada segundo os ritos era a dona da casa.
sobretudo à medida que avançava o tempo para o Fustel de Coulanges, uma única vez ligeiramente
século XIX. referido por Gilberto Freyre, em uma nota, a partir de
A senhora da casa, boa mãe de família, devia Macróbio e de Dionísio de Halicarnaso, define clara-
ocupar-se unicamente com a sua administração. Para mente a posição da mulher, "obedecendo em tudo a
os seus afazeres o dia começava cedo, a fim de super- seu marido, era a dona da casa tanto como êle pró-
visionar os trabalhos domésticos: o rachar da lenha, o prio".22
acender do fogo na cozinha, ver pegar a galinha para A releitura atenta sobre a mulher no universo
a canja, ordenar o jantar das quatro horas. Dirigir os da Casa-Grande & Senzala e ante a complexidade do
trabalhos de costura feitos pelas mucamas e as molecas regime patriarcal no Brasil, apontada por Gilberto
que também remendavam, cerziam, remontavam Freyre, leva-me a concluir com a fórmula ritual que a
peças, alinhavavam a roupa da casa, lavavam, engo- mulher pronunciava no casamento romano Ubi tu
mavam, passavam. Seguia também a fabricação do Caius, ego Caia. 23 Ou seja, a mulher também podia
sabão, da vela, das torcidas. Vigiava o preparo do vi- assumir o comando da casa-grande e da senzala, na
nho, quando era o caso, dos licores, dos doces, das ausência, na omissão do marido e, por que não? Quan-
geléias. Tudo era fiscalizado pela iaiá branca que, às do estava disposta a fazê-lo de modo substantivo,
vezes, não tirava o chicote da mão. mesmo pela tentativa da sua eliminação, como foi o
Todavia, entre essas mulheres, muitas vezes caso da fazenda Fortaleza, nos Campos Gerais, rela-
franzinas, "dentro de casa cosendo, embalando-se na tado por Saint-Hilaire.24.
rede, tomando ponto dos doces, gritando para as
molecas, brincando com os periquitos... houve (aque- _______________________
las) sobretudo senhoras de engenho em que explo-
Notas
diu uma energia social, e não simplesmente domésti-
ca, maior que a comum dos homens. Energia para
1
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala: formação da família
brasileira sob o regime da economia patriarcal. 20ª ed. Rio de Ja-
administrar fazendas, para dirigir a política partidária neiro/Brasília. Livraria José Olympio Editora/INL-MEC. 1980, p. 378.
da família, energia guerreira...".17 São conhecidos os 2
Idem. p. 421.
exemplos das pernambucanas contra os holandeses 3
Idem. p. LXVIII.
e das paulistas contra os emboabas. 4
Idem. p. 344.
E senhoras de engenhos de fazendas desse fei- 5
Idem. p. 338.
tio "não foram raras. Várias famílias guardam a tradi- 6
Idem. p. 450.
ção de avós quase rainhas que administraram fazen-
7
Idem. p. 375.

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82
8
Idem. p. 421.
9
Idem. p. 360.
10
Idem. p. 344.
11
Idem. p. 449.
12
Idem. p. 423, 425.
13
Idem. p. 421, 422.
14
Idem. p. 51, 333.
15
Idem. p. 454.
16
Idem. p. 426.
17
FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: introdução à história
da sociedade patriarcal no Brasil. 2. decadência do patriarcado
rural e desenvolvimento urbano. 9ª ed. Rio de Janeiro. Record.
1996. p. 94-95.
18
Idem. p. 95.
19
Ibidem. Ibidem.
20
Idem. p. 108.
21
Idem. p. 133.
22
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Estudos sobre o culto,
o direito e instituições da Grécia e de Roma. Lisboa. Livr. Clássica
Editora. 1945. v.I. p. 144.
23
Idem. p. 143.
24
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Curitiba de Província de San-
ta Catarina. Belo Horizonte / São Paulo. Itatiaia / Edusp. 1978, p.
42-43.

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83
A Recepção do Luso-Tropicalismo em
Portugal

Cláudia Castelo – claucastelo@hotmail.com


Historiadora – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa –
Portugal

Introdução como objeto de estudo a condição colonial


no Brasil dos séculos XVI e XVII, mais especi-
O presente trabalho aborda a recepção ficamente o Nordeste açucareiro, sob o regi-
em Portugal do luso-tropicalismo, doutrina me de economia de plantação de base
elaborada pelo sociólogo brasileiro Gilberto escravagista, estruturada em torno da casa-
Freyre (1900-1987), e a sua influência na ide- grande e da família patriarcal dirigida pelo
ologia colonial portuguesa entre 1933 e 1961. senhor do engenho. A especificidade dessa so-
As barreiras cronológicas escolhidas relacio- ciedade resultaria da intensa miscigenação
nam-se com o percurso de estruturação do nela efetuada, quer no plano biológico, atra-
luso-tropicalismo: a primeira corresponde ao vés de freqüentes cruzamentos entre brancos,
ano de publicação de Casa-Grande & Senza- índios e negros, quer no plano cultural, pela
la, obra em que são lançados os fundamen- adoção recíproca de valores e comportamen-
tos da doutrina luso-tropicalista; a última, ao tos dos vários povos em contato.
ano de publicação de O Luso e o Trópico, li- Numa época em que o racismo se de-
vro em que a doutrina surge no seu estado senvolve nos Estados Unidos da América e na
'acabado'. Curiosamente, no panorama polí- Alemanha, e, no Brasil, as correntes dominan-
tico português, em 1933 entra em vigor a tes consideram a "mistura de raças" uma das
Constituição do Estado Novo, que considera causas principais da "degeneração" do povo
as disposições do Ato Colonial matéria cons- brasileiro, 1 Freyre valoriza a mestiçagem e vê
titucional (art. 132º); e em 1961 tem início a nela um processo positivo de constituição do
guerra colonial em Angola, é abolido o Esta- tipo ideal de homem moderno para os trópi-
tuto do Indigenato e chega ao fim a sobera- cos. Em Casa-Grande & Senzala , o autor
nia lusa sobre Goa, Damão e Diu. enaltece o contributo africano e ameríndio na
A primeira parte deste texto é dedicada formação da sociedade brasileira, "de todas
à gênese e estruturação do luso-tropicalismo. as da América a que se constituiu mais har-
Analisa-se o processo de construção da dou- moniosamente quanto às relações de raça:
trina, através da leitura das suas obras funda- dentro de um ambiente de quase reciproci-
doras. Depois, estuda-se a recepção ao luso- dade cultural que resultou no máximo apro-
tropicalismo em dois momentos distintos: o veitamento dos valores e experiências dos
do acolhimento inicial à obra de Gilberto povos atrasados pelo adiantado; no máximo
Freyre (anos 30-40) e o da apropriação (recri- de contemporização da cultura adventícia
ação) do luso-tropicalismo pelo Estado Novo com a nativa, da do conquistador com a do
(no pós-Segunda Guerra Mundial). No interi- conquistado".2
or de cada um deles, colocam-se em confron- Por outro lado, propõe uma leitura
to diferentes leituras oriundas dos campos psicocultural do passado brasileiro "escorada
cultural, político e acadêmico. na hipótese geral de que o conquistador por-
tuguês já trazia em si traços de caráter recor-
1. A Construção do Luso-Tropicalismo rentes" 3: plasticidade social, versatilidade,
1.1. As obras fundadoras apetência pela miscigenação, ausência de or-
Uma incursão prévia na bibliografia de gulho racial. O "ajustamento hábil" do portu-
Gilberto Freyre permite constatar que os fun- guês ao mundo tropical é explicado através
damentos teóricos do luso-tropicalismo são de uma interpretação causalista da mentali-
lançados logo na sua primeira obra publicada, dade e da cultura portuguesas. É aqui que se
Casa-Grande & Senzala (1933). Esse livro tem encontram com maior nitidez as raízes do

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


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luso-tropicalismo. O autor 'abre' o livro dizendo que, tem melhor do que os outros europeus às regiões
"Quando em 1532 se organizou economica e civil- quentes da América. "Ao contrário da aparente inca-
mente a sociedade brasileira, já foi depois de um sé- pacidade dos nórdicos, é que os portugueses têm re-
culo inteiro de contato dos portugueses com os trópi- velado tão notável aptidão para se aclimatarem em
cos; de demonstrada na Índia e na África sua aptidão regiões tropicais".10
para a vida tropical".4 A seguir passa a explicar que "a Um segundo momento de maturação do luso-
singular predisposição do português para a coloniza- tropicalismo tem tradução pública em 1937, nas con-
ção híbrida e escravocrata dos trópicos" radica no "seu ferências proferidas por Gilberto Freyre no King's
passado étnico, ou antes, cultural, de povo indefinido College (Universidade de Londres) e nas Universida-
entre a Europa e a África".5 Essa indefinição entre os des de Lisboa, Porto e Coimbra. Essas conferências,
continentes europeu e africano, essa "espécie de divulgadas no ano seguinte no Rio de Janeiro, 11 são
bicontinentalidade" faz do português "O tipo do revistas pelo autor e reeditadas sob o título O Mundo
contemporizador. Nem ideais absolutos, nem precon- que o Português Criou (1940). Nessa obra, o campo
ceitos inflexíveis", simultaneamente "o escravocrata de pesquisa alarga-se do Brasil a todas as áreas de
terrível" e "o colonizador que melhor confraternizou colonização portuguesa. Freyre justifica o alargamen-
com as raças chamadas inferiores".6 to dizendo que "Portugal, o Brasil, a África e a Índia
No comportamento do português sente-se a portuguesas, a Madeira, os Açores e Cabo Verde cons-
tensão entre as duas culturas, a européia e a africana, tituem (...) uma unidade de sentimentos e de cultu-
a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista... ra".12
Só levando em linha de conta esses antagonismos de O autor parte do pressuposto que essa unidade
cultura, e a flexibilidade, a indecisão, a harmonia ou existe e que o português é o seu elemento fundador e
a desarmonia deles resultantes, é que se compreen- aglutinador. As características do português, já anali-
de, na opinião de Gilberto Freyre, o especialíssimo sadas em Casa-Grande & Senzala, é que conferem co-
caráter que tomou a colonização do Brasil, a forma- erência interna ao mundo por ele criado. Entre os
ção sui generis da sociedade brasileira, igualmente povos do "mundo português" ter-se-iam desenvolvi-
equilibrada desde sempre em antagonismos. Desse do "motivos e estilos de vida essencialmente os mes-
dualismo de cultura e de raça decorrem três caracte- mos, dentro da tendência geral para a mestiçagem
rísticas do povo português – a mobilidade, a que importa em pendor para a democratização soci-
miscibilidade e a aclimatabilidade – analisadas nas al".13 O amor do homem pela mulher e do pai pelos
primeiras páginas de Casa-Grande & Senzala. filhos, acima dos preconceitos de cor, de raça e de
A mobilidade, característica herdada de um dos classe, conferiu à mestiçagem, nas áreas de coloniza-
elementos que se juntam para formar a nação portu- ção lusitana, um pendor mais humano e mais cristão,
guesa, os judeus, teria sido um dos segredos da vitó- tendo permitido uma intensa mobilidade e adoçado
ria de Portugal; sem ela não se explicaria que um país as durezas do sistema de trabalho escravo. A atitude
quase sem gente, "um pessoalzinho ralo, insignifican- positiva do português para com o mestiço, considera-
te em número", tivesse "conseguido salpicar virilmen- da "única em povo europeu moderno", revela um "ele-
te do seu resto de sangue e cultura populações tão mento fortíssimo de caraterização psicológica e soci-
diversas e a distâncias tão grandes umas das outras: ológica do bloco de sentimentos e de cultura"
na Ásia, na África, na América, em numerosas ilhas e constituído pelo "mundo português".14
arquipélagos".7 Recorrendo à expressão cunhada por
No convívio com os índios e os negros, e mais Giddings,15 Freyre fala de uma "consciência de espé-
concretamente, na miscigenação, "nenhum povo co- cie" que une os luso-descendentes uns aos outros, e
lonizador, dos modernos, excedeu ou sequer igualou que se baseia num acontecimento social e cultural –
os portugueses".8 "Para tal processo preparara-os a a miscigenação – que é a negação do purismo étnico.
íntima convivência, o intercurso social e sexual com Essa consciência, porém, não anula as diferenças re-
raças de cor, invasoras ou vizinhas da península, uma gionais: "Para o mundo transnacional ou supranacional
delas, a de fé maometana, em condições superiores, que constituimos pelas nossas afinidades de sentimen-
técnicas e de cultura intelectual e artística, à dos cris- to e de cultura, portugueses e luso-descendentes, a
tãos louros".9 mestiçagem representa, ao mesmo tempo que um ele-
A terceira condição que favoreceu o português mento de integração (...), um elemento de diferencia-
na conquista de terras e no domínio de povos tropi- ção e, por conseguinte, de criação, de iniciativa, de
cais foi a aclimatabilidade. Nas condições físicas do originalidade".16 Realidades aparentemente contradi-
solo e do clima, Portugal assemelha-se mais a África tórias, "unidade" e "regiões", harmonizam-se e com-
do que à Europa; daí que os seus habitantes se adap- pletam-se.

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Em Casa-Grande & Senzala, Freyre sustenta a contato com mouros e judeus... No entanto, o "pa-
sua interpretação psicocultural da formação da socie- rentesco sociológico do português civilizador dos tró-
dade brasileira numa leitura pessoal das predisposi- picos com o árabe ou o maometano – dominador mais
ções de caráter do colonizador português. Em O Mun- antigo do mesmo espaço".19 – ganha agora ainda mai-
do que o Português Criou faz o mesmo. Agora para or relevo. 20 Freyre defende que o método mouro de
um universo mais vasto e diversificado. A interpreta- "conquista pacífica" de povos, de raças e de culturas
ção das outras áreas de colonização lusa (na África e foi assimilado pelos lusos e posto ao serviço da ex-
na Ásia) volta a assentar numa interpretação causalista pansão cristã nos trópicos. O português, à semelhan-
da mentalidade e da cultura portuguesas. Sem um ça do maometano, primou não só pela mistura racial,
verdadeiro conhecimento das novas realidades que mas também pela adaptabilidade ecológica e
elege como objeto, o autor limita-se a generalizar a sociocultural.
partir do caso brasileiro. A especificidade das relações estabelecidas pe-
Ao longo dos anos de 1940, o quadro teórico los portugueses com os povos dos trópicos obedecia,
acima descrito não conheceu elementos verdadeira- portanto, a um modelo aprendido com os mouros e
mente novos. Embora Freyre continuasse o seu labor diferente do adotado pelos norte-europeus. A capa-
intelectual e bibliográfico, regressou à interpretação cidade para "confraternizar lirica e franciscanamente"
do Brasil. Os fundamentos do luso-tropicalismo, po- com africanos, ameríndios e asiáticos, para amar as
rém, já estavam lançados; passado o tempo de con- suas mulheres, para incorporar os seus valores é úni-
cepção, aproximava-se o tempo da formulação explí- ca no português. Contudo, ao "dissolver-se amorosa-
cita. A visita de Freyre a Portugal e às colônias mente" noutros povos, ele nunca perdeu "a alma ou o
portuguesas, no início da década de 50, a convite do sentido cristão da vida".21
ministro do Ultramar Sarmento Rodrigues, seria A idéia de que a expansão portuguesa foi ani-
determinante nesse processo. mada por "desígnios cristãos" conhece, no âmbito da
formulação do luso-tropicalismo, novos contornos.
1.2. A formulação de um novo conceito Freyre defende que "só um povo europeu se está re-
É o próprio Freyre que confessa que na sua via- velando nos trópicos mais cristocêntrico do que
gem por "terras portuguesas" sentiu confirmada uma etnocêntrico. Esse povo é (...) o português, tipicamente
intuição antiga17 e encontrou a expressão que lhe fal- português, desde a Ásia conhecido mais por cristão
tava para caracterizar "aquele tipo de civilização lusi- do que por luso ou por português". 22 Também esta
tana que, vitoriosa nos trópicos, constitui hoje toda característica lusitana é associada ao contacto do cris-
uma civilização em fase ainda de expansão (...). Essa tianismo com o islamismo na Península Ibérica. Nos
expressão – luso-tropical – parece corresponder ao portugueses, o modo de ser nacionalmente portugu-
fato de vir a expansão lusitana na África, na Ásia e na ês terá sido superado pelo modo de ser cristão: um
América manifestando evidente pendor, da parte do modo de ser cristão à maneira do mouro ser
português, pela aclimação, como que voluptuosa e maometano.
não apenas interessada em áreas tropicais".18 Aquela Ao mesmo tempo que formula explicitamente
confirmação tem eco, ainda durante a viagem, nas o luso-tropicalismo, Freyre propõe a criação e a in-
conferências lidas em Goa – "Uma cultura moderna: trodução nos currículos universitários de uma
a luso-tropical (Instituto Vasco da Gama, novembro "subciência" capaz de estudar o modo português de
de 1951) – e em Coimbra – "Em torno de um novo estar e se relacionar nos trópicos; chama-lhe luso-
conceito de tropicalismo" (Universidade de Coimbra, tropicologia". Estes novos estudos, eminentemente
janeiro de 1952). O luso-tropicalismo é formulado multidisciplinares, especializam-se na análise e na in-
pela primeira vez nestas conferências, reunidas na obra terpretação do conjunto luso-tropical de cultura: con-
Um Brasileiro em Terras Portuguesas (1953). A intro- junto transnacional a que o autor aplica o critério de
dução a esse livro representa, segundo o próprio au- área. 23
tor, uma tentativa de sistematização da nova doutri- Gilberto Freyre vai escrever mais duas obras
na. sobre a temática do luso-tropicalismo: Integração Por-
As idéias mestras do luso-tropicalismo já apare- tuguesa nos Trópicos (1958) e O Luso e o Trópico
ciam em Casa-Grande & Senzala e em O Mundo que (1961). Relativamente à teorização de 1951, que já
o Português Criou. A especificidade do caráter do por- circulava em meios universitários europeus e norte-
tuguês: as suas predisposições para a "aventura ultra- americanos e obtivera a adesão de estudiosos brasi-
marina ou tropical", para a miscigenação, para a leiros, portugueses e outros, o ensaio de 1958 não
interpenetração de valores e costumes; a "dualidade traz novidades de fundo. Registre-se apenas o tom
étnica e de cultura" da sua formação; a influência do cada vez mais político e menos sociológico, a intro-

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dução dos conceitos de integração e simbiose, o acen- entre as maneiras de estar no mundo de portugueses
tuar da tendência para a generalização e o alargamen- e espanhóis que os diferenciam dos outros europeus.
to do horizonte geográfico a todas as áreas de coloni- O convívio com mouros e judeus na Península Ibéri-
zação ibérica dos trópicos. ca ter-lhes-ia deixado alguns traços comuns. Pelo
Quanto ao primeiro aspecto, cabe a Freyre ex- menos, uma idêntica sensibilidade aos métodos, às
plicar que pretende tornar a luso-tropicologia prag- técnicas e aos valores dos povos tropicais.
mática, funcional, encerrando um projeto de ação e O Luso e o Trópico reúne um conjunto de en-
um sentido político: "Político na acepção de uma po- saios, alguns já divulgados em conferências ou publi-
lítica de cultura e de uma política de migração den- cados em revistas, em torno de diferentes aspectos
tro do mundo lusotropical. No sentido, também, de do luso-tropicalismo: ecológicos, biológicos, sociais,
uma política econômica. No sentido, ainda, de afir- culturais, artísticos, lingüísticos e religiosos. No prefá-
mação ou reafirmação de uma política de democra- cio, o autor confirma que esses ensaios têm um senti-
cia étnica que avigore em todos os membros da co- do comemorativo: assinalar a passagem do quinto cen-
munidade lusotropical a resistência aos etnocentrismos tenário da morte do infante D. Henrique, "que
vindos de povos vizinhos ou de minorias étnico-cul- concorreu decisivamente para dar às relações de eu-
turais que se concentrem dentro da própria comuni- ropeus com não-europeus, de brancos com povos de
dade, em desarmonia com as tradições e os sentimen- cor, um rumo peculiarmente luso-cristão".26 Não dei-
tos castiçamente lusitanos".24 Na verdade, a civilização xa, no entanto, de referir a sua "atualidade", numa
que Gilberto Freyre descreve e interpreta não existe, conjuntura internacional em que se tornava "neces-
é antes uma aspiração, um destino. Ancorando-a em sário e essencial ao mundo que se reorganize o en-
pressupostos psicológicos e históricos, o autor vai nos contro, sob a forma de um encontro entre iguais do
falando das suas características, para no fim agendar Ocidente com o Oriente (...), através da miscigena-
a sua plena concretização para os próximos decêni- ção e da interpenetração de culturas".27
os. Esses ensaios não põem em causa os conceitos
A "integração" inscrita no título refere-se ao pro- e as sugestões em que o autor vem insistindo desde O
cesso simbiótico, iniciado no século XV, de união dos Mundo que o Português Criou. Seguem a mesma li-
portugueses com os trópicos, ou melhor, de fusão, sob nha de raciocínio; para depois a ultrapassarem. Por
a égide de Portugal, de elementos diversos, em ter- outras palavras: à primeira vista parece que o autor se
mos geográficos, biológicos e culturais, numa nova repete, mas, quando nos aproximamos dos textos com
civilização, a civilização luso-tropical. Ao contrário de mais atenção, reparamos que, a par das idéias já nos-
outros europeus, os portugueses teriam utilizado, no sas conhecidas, surge uma conclusão mais ousada.
sistema de relações sociais que estabeleceram nas re- Estaria em curso um processo de formação de um ter-
giões quentes, "métodos de integração" e não de sub- ceiro homem ou de uma terceira cultura,
jugação ou mesmo de assimilação. Souberam buscar simbioticamente luso-tropicais. Uma nova forma de
na experiência dos outros povos, valores, técnicas e civilização, que não tinha sido considerada na tipologia
costumes que lhes permitissem viver em harmonia de Toynbee.28
com as condições físicas e humanas tropicais, sem, A tese luso-tropicalista, assumida como méto-
no entanto, deixarem de ser cristãos e civilizados. do novo e dinâmico de interpretar, mas também de
Refira-se, por outro lado, o acentuar da tendên- reorientar o comportamento dos portugueses e brasi-
cia para a generalização. Do "sucesso" brasileiro, Freyre leiros, em face da nova conjuntura internacional,29
tira ilações aplicáveis a todos os espaços colonizados ganha projeção, sobretudo, por intermédio da vonta-
por Portugal. Os fatores culturais portugueses, em de política dos primeiros. Essa vontade ecoa também
contato com qualquer região, povo ou cultura das em trabalhos de investigadores portugueses de diver-
terras quentes, dão origem ao mesmo processo sas áreas científicas.
simbiótico de criação de sociedades luso-tropicais. No Curiosamente, o luso-tropicalismo, aproveita-
seu conjunto, formam uma civilização com traços pró- do em alguns dos seus aspectos pelo Estado Novo para
prios que a distinguem e individualizam. justificar a permanência de Portugal no ultramar, não
Finalmente, importa chamar a atenção para o contraria, no plano teórico, o desejo de independên-
posicionamento da luso-tropicologia no quadro mais cia das colônias portuguesas. Na comunidade luso-
geral da hispano-tropicologia. 25 Situando-se o Brasil tropical ("unidade de sentimento e de cultura") pode
na América do Sul, parece que Freyre sentiu necessi- haver lugar para diversas realidades nacionais: "Pátri-
dade de alargar o ângulo de análise a todas as áreas as independentes e comunidade interdependente.
de colonização hispânica. O autor chega à conclusão Povos enlaçados numa federação de pátrias e de quase
que existe uma semelhança histórica e sociológica pátrias que se completem tanto com suas diferenças

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como com suas semelhanças".30 bre o trabalho ciclópico executado no Brasil pelos afri-
canos da costa ocidental portuguesa", mas também
2. A recepção inicial (anos 30-40) em perscrutar "até ao âmago uma sociedade criada
2.1. No campo cultural pela colaboração do homem branco e do homem
Com o objetivo de surpreender a recepção às preto".36
primeiras obras de Gilberto Freyre no campo cultural Gilberto Freyre faz parte da delegação brasilei-
português, efetuamos uma pesquisa, tanto quanto ra ao I Congresso da História da Expansão Portuguesa
possível sistemática, em revistas culturais e em pági- no Mundo, realizado em Lisboa no verão de 1937.
nas literárias de jornais portugueses. Durante a sua estadia em Portugal, profere conferên-
A primeira referência a Casa-Grande & Senzala cias nas universidades de Lisboa, Porto e Coimbra e
que encontramos na imprensa portuguesa é da auto- estabelece contatos com intelectuais portugueses.
ria de José Osório de Oliveira, que se correspondia Nessa ocasião, João de Barros manifesta, no Diário de
com Gilberto Freyre desde 1931. 31 A referência surge Lisboa, a sua concordância com a idéia de que a au-
num artigo intitulado O Negro: contribuição brasilei- sência de problemas raciais em Portugal e no Brasil é
ra para o seu estudo, publicado na revista O Mundo um elemento de aproximação dos dois países e exal-
Português, em abril de 1934. O autor refere-se à afir- ta o contributo de Freyre na divulgação desse "con-
mação, entre investigadores e escritores brasileiros, ceito amplo e original".37
de uma nova forma de olhar o negro e de avaliar o Em novembro do mesmo ano, Maria Archer
seu contributo na formação do Brasil. Destaca o pa- publica, na Seara Nova, um texto sobre Sobrados e
pel do psicanalista Arthur Ramos, do poeta Jorge de Mucambos.38 A leitura da mais recente obra de Freyre
Lima, do romancista Raul Bopp e do "livro notável" conduz essa escritora à reflexão sobre a colonização
Casa-Grande & Senzala na valorização do negro e da portuguesa fora do Brasil. O livro despertou-lhe re-
sua cultura. E incita Portugal a "acompanhar de perto cordações de paisagens africanas e de aspectos soci-
os estudos de africanologia feitos no Brasil, pelos pro- ais da presença lusitana na África. "Recordações e in-
gressos já registados no conhecimento psicológico do terrogações. Porque é caso para cismas, este de vermos
negro – elemento da nossa acção ultramarina e valor o português, em face de terra tropical, com o negro
importante do nosso Império".32 escravo domado ao trabalho, e idênticas condições
Em novembro de 1934, Osório de Oliveira vol- de insalubridade no clima e resistência dos naturais,
ta a publicar em O Mundo Português um artigo que, produzir na América uma civilização característica e
embora não inclua nenhuma referência explícita a na África manter a colonização estacionária, incolor,
Gilberto Freyre, reflete a leitura da sua obra e a ade- em regime de exploração e não em gestação de naci-
são a uma das 'traves-mestras' do seu pensamento: a onalidade".39 Os resultados diferentes obtidos no Brasil
importância da mestiçagem na colonização portuguesa e na África intrigam Maria Archer. A autora conclui
do Brasil. 33 A apologia da miscigenação como pro- que "o milagre não deu gêmeo" e propõe duas expli-
cesso colonizador das terras tropicais é, tal como na cações para esse fato: "a política colonial tendente a
obra de Freyre, fundamentada na história. 34 desmerecer a mestiçagem" e a ausência de amor no
Ainda em 1934, Carlos Malheiro Dias inclui um contato do português com o negro e a África. 40
capítulo dedicado a Casa-Grande & Senzala no seu Três recensões críticas assinalam a recepção em
livro Pensadores Brasileiros. Os pequenos reparos que Portugal da obra Conferências na Europa, no ano da
faz ao trabalho de Freyre não comprometem uma sua publicação no Rio de Janeiro (1938).41 Os seus
apreciação global extremamente favorável. Este inte- autores são Antônio Sérgio, Manuel Múrias e Vitorino
lectual monárquico defende que "nunca os trabalhos Nemésio.
anteriores dedicados no Brasil a este complexo capí- Antônio Sérgio reporta-se exclusivamente à pri-
tulo da sociologia (...) atingiram a solidez deste mo- meira conferência incluída no livro: Aspectos da in-
numento de inteligência dirigida pela erudição, tanto fluência da mestiçagem sobre as relações sociais e de
no seu realismo como no senso objectivo que o ani- cultura entre portugueses e luso-descendentes. Con-
ma".35 A ausência de preconceitos na valorização do corda que existe uma "aspiração comum" aos "luso-
papel do negro na formação da sociedade brasileira e descendentes". E cita a este propósito uma passagem
no tratamento de temas como a mestiçagem e a se- da conferência em que Freyre defende que "a nova
xualidade merecem-lhe elogio. A grande novidade e cultura transnacional de origem portuguesa" já se está
principal mais-valia da obra Casa-Grande & Senzala, revelando "em expressões as mais diversas" de "vigor
"logo considerada clássica no sentido da consagração, híbrido", "marcadas por um desejo ou uma aspiração
e que nenhum colonialista português tem o direito comum, ainda indefinida".42
de ignorar", reside não só em projetar "luz intensa so- A citação dá lugar à interrogação: "se é ainda

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indefinida a aspiração comum", "o que nos é dado social, realizada pela criação de um agente de coloni-
fazer para que se defina e afirme, para que realce e zação extremamente móvel: o mestiço".49
avulte"? O problema parece-lhe "bifronte", com uma A primeira referência, contudo, vai para a
face que se volve para a inspeção do passado, e para metodologia utilizada por Freyre: "(...) compromisso
o futuro a outra. Sérgio concorda com Freyre no que entre a construção histórica de tipo heurístico e
diz respeito à primeira face e remete o leitor para o evocativo e o recurso às ciências do físico e do ético,
seu compêndio de História de Portugal (Barcelona, destinadas a dar ao desenho histórico a consistência
Labor). Nessa obra, apresenta um retrato do portugu- de que a fluidez dos terrenos de explicação é a gran-
ês semelhante ao traçado em Casa-Grande & Senzala. de inimiga".50 Depois surge "a idéia mais interessante"
Quanto à face do problema voltada para o fu- que Nemésio retira destas conferências: "(...) a identi-
turo, não a enquadra no domínio da história social, dade fundamental que subsiste, no pensamento his-
mas no domínio da filosofia, da moral e da pedago- tórico de Gilberto Freyre, entre o agente europeu e o
gia. Por isso, considera que Freyre, ao elogiar e exal- reagente sul-americano na formação do Brasil. Gil-
tar o pendor português para a hibridação de povos e berto Freyre vai tão longe nessa linha geral da sua
culturas, para o transnacionalismo, para a democra- visão do Brasil que a integra num arco amplíssimo,
cia social, "não se esquiva à responsabilidade de um transnacional, o que ele chama um ‘bloco de senti-
julgamento ético; e acrescenta assim ao critério do mento e de cultura, uma pátria maior, que é a unida-
sociólogo o critério do filósofo e do moralista: não só de cultural formada pelas várias expressões humanas
diz o que é mas o que deve ser".43 de esforço português espalhadas sobre o mundo mo-
Manuel Múrias, que opta por recensear o con- derno e a tão grandes distâncias umas das outras’.51
junto da obra, considera que esta pode "ajudar a es- Em fevereiro de 1939, José Osório de Oliveira
clarecer alguns pontos ainda obscuros da história por- regressa à problemática da miscigenação. Agora para
tuguesa e do feitio próprio dos portugueses nas suas questionar "a suposta inferioridade do mestiço".52 A
relações com os povos que foram encontrando na favor da sua argumentação, convoca "o autorizado
África, na América e no Oriente, a partir da primeira Gilberto Freyre". Com citações abundantes retiradas
metade do séc. XV".44 Congratula-se com o alargamen- da obra Conferências na Europa, procura evidenciar
to às colônias portuguesas de idéias que Freyre já apre- as qualidades intelectuais, artísticas e morais dos mu-
sentara em Casa-Grande & Senzala para a formação latos brasileiros. Mas faz questão de considerar que
do Brasil. Por exemplo, a predisposição para a essas qualidades se devem à singular colonização lu-
mestiçagem que "se pode verificar ainda hoje em cer- sitana.
tas colônias portuguesas, como Angola (...), apesar de Osório de Oliveira aproveita também para 'es-
já não escassear a mulher branca".45 clarecer' um aspecto do pensamento de Freyre que,
A importância da teoria de Freyre reside, se- em sua opinião, tem sido deturpado e se presta a con-
gundo Múrias, em reconhecer que a tendência geral fusões. Trata-se da expressão democracia social. Com
do colono português para a mestiçagem conferiu aos o uso de tal expressão, o sociólogo brasileiro não pre-
povos da América, da Ásia e da África de formação tendia elogiar a democracia política, nem associá-la à
lusitana, condições especialíssimas de unidade psico- obra de colonização lusitana.
lógica e de cultura. 46 Adverte, no entanto, que "mais Curiosamente, em 1940, não encontramos ne-
importante do que a mestiçagem, em si, [talvez] seja nhuma recensão ao livro O Mundo que o Português
a capacidade de mestiçagem, quer dizer: a carência Criou, publicado naquele ano no Rio de Janeiro. 53 Tal-
de preconceito racista, a consciência de fraternidade vez porque o seu conteúdo já era conhecido dos in-
de portugueses sem diferença de raça ou de cor, que telectuais portugueses mais atentos à vida cultural bra-
foi normal no Brasil-colônia, como é hoje nas provín- sileira. Tratava-se de uma reedição das Conferências
cias ultramarinas de Portugal".47 na Europa, com alterações pontuais. De totalmente
Na conclusão, depois de elogiar a densidade e novo só o prefácio, assinado por Antônio Sérgio.
a riqueza das sugestões contidas nestes estudos, Múrias Leitor atento da obra de Gilberto Freyre, Antô-
critica o vocabulário usado por Freyre, nomeadamente nio Sérgio tem uma perspectiva problematizadora do
a expressão democracia social, que considera enga- seu pensamento e não se deixa obnubilar pelo prestí-
nadora e capaz de dificultar a compreensão das teori- gio que os seus livros deram à capacidade de coloni-
as expostas.48 zação dos portugueses; aliás, porque não se pensa
Vitorino Nemésio, por seu turno, põe em evi- sob a categoria do nacional.54 Depois de um prévio
dência "o que Gilberto Freyre tem como flor do gênio elogio à clareza, à distinção intelectual e à precisão
colonizador do português e, ao mesmo tempo, fer- científica com que Freyre define o aspecto de criação
mento do Brasil": – "a tendência para a democracia social da obra dos portugueses no Brasil e procura a

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explicação desse fenómeno nas características psico- Grande & Senzala e as Conferências na Europa foi acen-
lógicas, etno-culturais e históricas do povo portugu- tuada entre outros por Osório de Oliveira, Malheiro
ês, Sérgio vai levantar a sua questão de fundo: "(...) a Dias e Maria Archer.
amplidão e originalidade da criação portuguesa no Uma recepção favorável, porém, nem sempre
campo propriamente social-econômico em regiões implica leituras idênticas. Parece-nos que os intelec-
tropicais da América do Sul contrasta com a modéstia tuais de direita, sobretudo Osório de Oliveira e Ma-
do que fazemos na Europa".55 nuel Múrias, fazem uma interpretação nacionalista da
Se o êxito do português na colonização do Bra- teoria gilbertiana; põem a tônica na especificidade da
sil provém de certas qualidades intrínsecas que o tor- colonização portuguesa e, de certa forma, manipu-
naram mais apto a triunfar nos trópicos que os outros lam as idéias de Freyre. Por seu turno, os intelectuais
povos europeus, porque é que essas qualidades não de esquerda são geralmente mais críticos; fazem uma
lhe garantiram o triunfo na Europa? leitura mais profunda da doutrina, confrontando-a
Aceitando que o caráter do português é emi- com a realidade histórica e com a prática colonial na
nentemente plástico, e que foi essa qualidade intrín- África no presente. As divergências aparecem em tor-
seca que lhe permitiu adaptar-se aos trópicos, Sérgio no do termo democracia social (repudiado por Múrias,
considera que se terá de buscar em fatores extrínsecos considerado passível de equívocos por Osório de Oli-
as causas do seu insucesso na Europa. Mais concreta- veira e destacado por Nemésio) e da generalização
mente nos factores ambiente físico e relações de pro- do modelo brasileiro a todo o "mundo português", que
dução. Defende que só no Brasil o português encon- agrada a Múrias e levanta dúvidas a Maria Archer e a
trou condições físicas francamente propícias para um Antônio Sérgio.
gênero determinado pela cultura básica; na metró-
pole essas condições agro-climáticas não se verifica- 2.2. No campo político
ram. Nos anos 30 e 40, o pensamento de Gilberto
Em jeito de conclusão, o vaticínio: se no seu Freyre não conhece qualquer aceitação oficial junto
território original o português tivesse, para uma cul- do regime português. Também não colhe adeptos
tura básica, para um produto essencial, as facilidades entre os colonialistas republicanos. "Estava-se na época
de que gozam outros povos, ou aquelas que para a de afirmação do império, dos valores da Raça (uma
cana-de-açúcar lhe ofereceu o Brasil, ver-se-ia agora suposta raça portuguesa)" 58 a impor a povos conside-
noutro nível no seio da civilização européia56. rados selvagens. Acreditava-se que a miscigenação ti-
Nos anos 40, Gilberto Freyre é citado na im- nha consequências negativas e que os mestiços eram
prensa portuguesa, nomeadamente em textos sobre biologicamente inferiores. A solução estaria na colo-
questões coloniais e o intercâmbio cultural luso-bra- nização étnica, isto é, no "povoamento das colônias
sileiro. João de Barros, por exemplo, dedica-lhe al- africanas por uma população branca numerosa, de
guns dos artigos que publica no Diário de Lisboa, a ambos os sexos, para evitar a mistura racial" 59. Esta
partir de 1946. 57 perspectiva é defendida por diversos ideólogos do
No campo cultural metropolitano, a reflexão colonialismo português, nomeadamente por Vicente
sobre a obra de Gilberto Freyre mobilizou intelectu- Ferreira, numa comunicação ao II Congresso da União
ais de origens político-ideológicas muito diversas: dois Nacional (1944) que encerra uma forte crítica às teses
antigos integralistas convertidos ao salazarismo (Osório de Freyre.
de Oliveira e Manuel Múrias), um monárquico con- Para Vicente Ferreira, a mestiçagem produz efei-
servador (Malheiro Dias), um católico progressista (Pe. tos nefastos: "degenerescências dos caracteres psíqui-
Joaquim Alves Correia) e republicanos oposicionistas cos e, porventura, também dos caracteres somáticos".60
(Antônio Sérgio, João de Barros, Maria Archer, Vitorino O retrato que faz dos crioulos e dos mulatos, carrega-
Nemésio). Em comum, tinham o interesse pelas ques- do de preconceitos, é extremamente negativo. Cha-
tões coloniais ou pela atividade cultural brasileira. As ma em defesa da sua tese racista alguns antropólo-
reações foram, em geral, positivas. Saudou-se a gos, nomeadamente os portugueses Germano Correia
metodologia e a temática, a erudição e o estilo literá- e Mendes Correia e o francês René Martial. Demar-
rio, o trabalho histórico e a exortação para o futuro. A ca-se nitidamente das ideias de Gilberto Freyre, autor
centralidade da mestiçagem biológica e cultural no de Casa-Grande & Senzala, obra "de pouco valor ci-
pensamento de Freyre foi reconhecida e bem aceita entífico".61
(principalmente por Osório de Oliveira e Maria Com o objetivo de impedir a miscigenação e
Archer). O retrato do português foi quase consensual. mesmo o convívio entre brancos e pretos nas zonas
A conveniência de divulgar em Portugal, particular- de colonização étnica, assim como a concorrência
mente junto dos "colonialistas portugueses", Casa- econômica entre os trabalhadores das duas "raças",

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Vicente Ferreira propõe que se estabeleça e aplique Osório de Oliveira, 65 é dar a conhecer ao sociólogo
com rigor uma política indígena especial para as regi- brasileiro o "Ultramar português", para que ele o per-
ões de povoamento europeu. Deve promover-se uma corra "com olhos de homem de estudo" 66 e, depois,
política de segregação racial que proibisse, nomeada- produza um trabalho de reflexão sobre as realidades
mente, a utilização de mão-de-obra indígena pelos observadas. Será durante esta viagem, que assinala o
colonos portugueses.62 início da apropriação das teorias de Gilberto Freyre
Essa posição não constitui novidade na época. pelo regime salazarista, que o sociólogo brasileiro usa-
Vinte anos antes, Norton de Matos, como alto-comis- rá pela primeira vez a expressão luso-tropical para
sário da República em Angola, tinha defendido "a mais caracterizar o modo de adaptação dos portugueses
escrupulosa separação" entre europeus e "indígenas", aos trópicos.
"até chegar o dia em que a mesma educação, a mes- A 13 de agosto de 1951, Gilberto Freyre chega
ma instrução igualmente espalhada, a mesma menta- a Lisboa, onde é alvo de uma recepção "calorosa".67
lidade afastem a diferença secundária da cor" 63. Durante a sua estadia em Portugal, Freyre encontra-
Norton acreditava na superioridade da civilização se com largas dezenas de escritores e intelectuais (de
européia; inseria-se numa corrente etnocêntrica. diferentes quadrantes políticos), e com altos repre-
Nas décadas de 30 e 40, a política colonial do sentantes do aparelho de Estado, nomeadamente com
Estado Novo anda longe do etnocentrismo e mais lon- Salazar. 68 e com Craveiro Lopes. Organismos gover-
ge ainda das idéias de Freyre. Armindo Monteiro, mi- namentais, universidades, associações, institutos e
nistro das Colônias (1931-1935) e principal ideólogo homens de letras organizam-lhe recepções e sessões
da mística imperial, filia-se nas teses do darwinismo de homenagem. Sarmento Rodrigues, José Osório de
social. Não concebe o relacionamento harmonioso e Oliveira, João de Castro Osório, Antônio Sérgio, Cu-
fraterno, numa base igualitária, entre brancos e ne- nha Leão, Nuno Simões, Mendes Correia, Henrique
gros. Atribui a Portugal o "dever histórico" de civilizar de Barros, Joaquim Paço d'Arcos, Tomás Kim, Luís
as "raças inferiores" que se encontram sob o seu do- Forjaz Trigueiros, Vieira Machado, os Condes de Au-
mínio. Trata-se de proteger os "indígenas", de os con- rora, o general Norton de Matos, entre outros, rece-
verter ao cristianismo, de os educar pelo (e para o) bem-no na intimidade das suas casas.69 Só "velhos
trabalho, de os elevar moral, intelectual e material- camaradas portugueses" de "Esquerda" não o procu-
mente. A oposição rígida entre "civilizados" e "primiti- ram.70
vos" acarreta a negação dos valores alheios e inviabiliza Vitorino Nemésio, João de Barros e Leitão de
a perspectiva de reciprocidade cultural. Barros, respectivamente em editoriais do Diário de
Outra das resistências ao luso-tropicalismo re- Notícias, do Diário de Lisboa e do Século, congratu-
sulta do peso que Freyre dá ao fundo árabe na cons- lam-se com a viagem do sociólogo brasileiro e refe-
tituição do caráter nacional português. Essa idéia con- rem-se-lhe em termos claramente elogiosos.71 Os jor-
trariava a perspectiva geralmente difundida em nais (oficiais, oficiosos e independentes; da metrópole
Portugal que valorizava quase exclusivamente a "re- e das colônias) fazem uma ampla cobertura do even-
conquista cristã" e, por conseqüência, a influência to: todos os dias saem notícias sobre a visita de Gil-
européia. berto Freyre; a cada nova etapa do percurso, publi-
Parece-nos que o único aspecto do pensamen- cam-se entrevistas ao visitante, contribuindo para a
to de Gilberto Freyre que merece o aplauso unânime divulgação das linhas gerais do seu pensamento junto
dos colonialistas do regime, nos anos 30-40, prende- dos leitores portugueses; sucedem-se os artigos de
se com a confirmação da capacidade especial dos adesão às teses luso-tropicalistas, explicitadas na con-
portugueses para a colonização. Uma idéia muitas ferência lida no Instituto Vasco da Gama, em Goa.
vezes proclamada em Portugal, "sobretudo desde o A visita de Gilberto Freyre a Portugal e às colô-
último quartel do século XIX, face às pressões e ata- nias portuguesas marca também o momento de alar-
ques externos" 64. gamento e consolidação da rede de relações do soci-
ólogo brasileiro com personalidades da vida cultural
3. Apropriação do Luso-tropicalismo (anos 50-60) e política portuguesa, com o é possível confirmar pela
3.1. Um brasileiro em terras portuguesas análise da correspondência que lhe foi enviada por
Em agosto de 1951, dois meses depois da portugueses. O círculo restrito dos que se
integração do Ato Colonial na Constituição Portugue- correspondem com Freyre nas décadas de 20, 30 e
sa e da concomitante afirmação da unidade nacional, 40 (Antônio Sardinha [1923-1924], Fidelino de
Gilberto Freyre inicia uma visita por "terras lusitanas", Figueiredo [1923-1957], José Osório de Oliveira
a convite do ministro do Ultramar, Sarmento [1931-1953], Antônio Sérgio [1940-1955], Hernâni
Rodrigues. O objetivo da viagem, sugerida por José Cidade [1939/1961], Visconde de Carnaxide [1942-

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1952]) reforça-se com largas dezenas de outros no- a clássica e tradicional orientação portuguesa, (...) uma
mes nos anos 50 e 60. 72 espécie de paternalismo". 78
3.1.1. Reacções a Aventura e Rotina Segundo Vilhena, "o conceito de luso-
Da jornada de Freyre por Portugal e pelo ultra- tropicalismo está certo, na essência; o que está erra-
mar português nascem dois livros: Aventura e Rotina, do é o fazer, dentro dele, da miscigenação (...) a con-
diário de um viajante em trânsito pelos "vários dição forçada da ação portuguesa na África e o
Portugais espalhados pelo Mundo",73 e Um Brasileiro remédio para todos os nossos males, presentes e fu-
em Terras Portuguesas, coletânea de conferências e turos".79 O diretor da Companhia de Diamantes repu-
discursos proferidos durante a visita, antecedidos de dia a mistura racial; parece-lhe que "não é necessá-
uma Introdução a uma possível luso-tropicologia, como rio, e que é mesmo absolutamente dispensável, que
indica o subtítulo. Essas duas obras são publicadas no pretos e brancos durmam na mesma cama".80
Rio de Janeiro, em 1953, e em Lisboa, no ano seguin- Norton de Matos, embora por razões diferen-
te. tes, também não esconde as suas reservas de fundo
Embora a generalidade das recensões críticas e ao luso-tropicalismo. Reconhece que a leitura dos li-
das notícias na imprensa portuguesa seja muito vros de Gilberto Freyre lhe permitiu consolidar algu-
elogiosa, as reações negativas não se fazem esperar. mas das suas idéias, nomeadamente sobre a impor-
O escritor cabo-verdiano Baltasar Lopes, em aponta- tância da língua para a unidade nacional.81 No entanto,
mentos lidos ao microfone da Rádio Barlavento, da defende que não se deve repetir em Angola, em
cidade da Praia, critica as páginas de Aventura e Roti- Moçambique e na Guiné a experiência brasileira.
na dedicadas a Cabo Verde. Considera que Gilberto Considera que na formação do Brasil "houve um es-
Freyre visitou o arquipélago "a correr" e transmite uma forço comum de gente branca da Metrópole, de índi-
visão superficial e deturpada das realidades cabo- os brasileiros e de escravos pretos da África", que re-
verdianas. Um dos aspectos que mais desagrada a sultou numa fusão étnica e cultural equilibrada. Ao
Baltasar Lopes é a forma como o sociólogo brasileiro seu "ser fortemente individual, mas também fortemen-
aborda a questão do crioulo, desvalorizando-o (erra- te agarrado à nação a que pertence", repugna-lhe a
damente) enquanto instrumento literário. 74 possibilidade de simbiose luso-tropical na África.
José Osório de Oliveira também fica desapon- Por fim, registre-se o teor da recensão de Óscar
tado com a "superficialidade" de Aventura e Rotina. Lopes, professor da Faculdade de Letras do Porto, a
Num artigo publicado no jornal O Comércio de An- Aventura e Rotina. 82. À semelhança de Gilberto Freyre,
gola, a 10 de janeiro de 1954, destaca os dois aspec- este autor concorda que "a boa tradição portuguesa
tos que mais lhe desagradaram naquele livro: o trata- (pois cada povo tem a boa e a má tradição) não reco-
mento do Museu do Dundo e sobretudo de Cabo nhece o feiticismo da latitude e da longitude como
Verde. Afinal, era na interpretação gilbertiana do ar- divisórias a rasgar a unidade fundamental da experi-
quipélago cabo-verdiano que Osório de Oliveira pu- ência humana"; concorda que a cultura não se reduz
nha mais expectativas.75 à produção literária e artística: "a canela, o café e o
A crítica mais violenta parte do comandante açúcar, como artigos de consumo para milhões de
Ernesto de Vilhena, diretor da Companhia dos Dia- pessoas, são uma criação da cultura portuguesa, fe-
mantes de Angola. Em Aventura e Rotina, Freyre acu- cundada pela experiência de outros povos, do Orien-
sa-o de dirigir "um sistema que em algumas das suas te e do Ocidente"; concorda com a valorização das
raízes e em várias das suas projeções não é sociologi- conquistas anônimas de portugueses como João
camente português, prejudicado, como se acha, por Ramalho, Silva Porto ou Fernão Mendes Pinto. Sali-
um racismo que é de origem belga e por um excesso enta a clareza de certas relacionações: "o muito que
de autoritarismo que é também exótico em sua ori- há de árabe, o muito que há de sombra monástica na
gem e em seus métodos".76 vida portuguesa", por exemplo. Mas a sua posição de
Ernesto Vilhena responde desvalorizando Aven- intelectual comprometido com o marxismo leva-o a
tura e Rotina: "longe do monumental trabalho que é criticar o fato de Freyre exaltar o mundo agrário em
Casa-Grande & Senzala", "é um livro excessivamente detrimento do industrial, divorciar a análise socioló-
longo, confuso e difuso na tradução do que se quis gica da histórica, omitir "a lei de desenvolvimento di-
dizer, hesitante em certas apreciações, pelo receio de nâmico dos fenômenos" sociais, "isolando-os em pai-
ferir à direita ou à esquerda".77 Depois, procura reba- néis pitorescos mas estáticos" 83.
ter as acusações de Freyre. Considera que "afirmar que
a política da Companhia é de racismo e que esse ra- 3.2. Aproveitamento pelo Estado Novo
cismo é de origem belga são duas tolices". E justifica: No seio do regime salazarista, o aproveitamen-
"a política indígena da Companhia é essencialmente to de certos aspectos do luso-tropicalismo não signifi-

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ca a sua adaptação à prática administrativa, nem mes- so de Altos Estudos Ultramarinos, ministrado no Insti-
mo a sua adoção como doutrina oficial. Nos anos 50, tuto Superior de Estudos Ultramarinos/ Instituto de
perante a necessidade de afirmar o caráter uno de Ciências Sociais e Política Ultramarina. 84 A doutrina
uma nação espalhada por quatro continentes, o Esta- freyriana passa a ser sistematicamente ensinada aos
do Novo envereda antes por uma via assimilacionista, futuros quadros da administração colonial portugue-
de cariz etnocêntrico, próxima da defendida por sa e a inspirar numerosos trabalhos teóricos e de cam-
Norton de Matos. A idéia a que se dá maior ênfase é po, dissertações de licenciatura e de doutoramento. 85
a da difusão dos valores da civilização ocidental junto Muitos desses trabalhos são depois publicados pelo
de populações "atrasadas" ou "primitivas", sem expres- ISEU/ISCSPU e pelo Centro de Estudos Políticos e
são cultural a ter em conta. Entre os ideólogos Sociais, na coleção Estudos de Ciências Políticas e So-
arregimentados há quem tema que as premissas do ciais.
luso-tropicalismo se possam confundir com "estímu- Na disciplina de História do Brasil, assegurada
los à desnacionalização" (Mendes Correia) e que o no início dos anos 60 na Faculdade de Letras de
conceito de cultura luso-tropical implique a diluição Coimbra pelo professor brasileiro Guilhermino César,
da cultura portuguesa e a perda da identidade nacio- o pensamento de Gilberto Freyre serve de base à abor-
nal. dagem da formação e evolução da sociedade brasilei-
No contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, ra. 86 Na mesma década, mas na Faculdade de Letras
desfavorável ao racismo e ao colonialismo, a de Lisboa, Vitorino Nemésio divulga nas suas aulas de
receptividade à obra de Gilberto Freyre em Portugal Literatura Brasileira a obra do "mestre de Apipucos".
extravasa o campo cultural e 'contamina' o campo do E na cadeira Portugal contemporâneo, dos cursos de
poder. No entanto, se excetuarmos o breve período língua e cultura portuguesas para estrangeiros, João
em que Adriano Moreira é ministro do Ultramar Pereira Neto dedica o último ponto do programa à
(13.04.1961 – 04.12.1962), o luso-tropicalismo ser- Política de Integração Multirracial, dando especial aten-
ve principalmente objetivos de política externa. O Es- ção ao caso de Angola e reproduzindo as máximas do
tado Novo põe em prática uma estratégia clara no luso-tropicalismo sobre a relação dos portugueses com
sentido de reverter a seu favor o prestígio internacio- os trópicos.87
nal de Freyre. É um trunfo que o regime utiliza peran- O grupo restrito de intelectuais que nos anos
te a comunidade internacional (na ONU, nas campa- 30-40 refletiu sobre a obra de Gilberto Freyre alarga-
nhas de propaganda do país no exterior, nas se agora aos estudantes do ISEU/ISCSPU e das facul-
declarações dos altos representantes do Estado à im- dades de letras de Lisboa e Coimbra. Enquanto a re-
prensa estrangeira) sempre que se trata de defender a flexão inicial se traduzia na produção de recensões
tese da natureza especial da colonização portuguesa. críticas aos livros de Freyre, no período em análise o
Neste cenário, são publicados por organismos luso-tropicalismo é incorporado no discurso acadê-
estatais dois livros de Gilberto Freyre especificamente mico e o critério luso-tropical passa a presidir ao tra-
sobre a temática luso-tropical: Integração Portuguesa tamento das "questões ultramarinas".
nos Trópicos (1958) e O Luso e o Trópico (1961). Esses
livros, largamente divulgados na imprensa nacional, Conclusão
são remetidos às embaixadas portuguesas para que O pensamento de Gilberto Freyre sobre a rela-
os diplomatas portugueses sejam 'iniciados' no luso- ção de Portugal com os trópicos é recebido no campo
tropicalismo e saibam usá-lo na defesa da presença cultural português com interesse e entusiasmo, por
lusa além-mar. intelectuais de diferentes quadrantes político-ideoló-
gicos. Já no campo político, a tese do sociólogo brasi-
3.3. Reflexos no campo acadêmico leiro foi inicialmente ignorada ou rejeitada, devido à
Internamente, nas margens do discurso oficial, importância que conferia à mestiçagem e à
o luso-tropicalismo vai encontrando receptividade interpenetração de culturas. As idéias de Freyre tive-
junto de especialistas de diversas áreas do saber: Jor- ram que esperar pela década de 50 para conhecer
ge Dias (Antropologia), Orlando Ribeiro e Francisco uma recepção mais favorável no seio do Estado Novo.
José Tenreiro (Geografia), Adriano Moreira (Ciência Nessa altura, o regime salazarista adotou uma "vulgata
Política), Mário Chicó (História da Arte), Henrique de luso-tropical" como discurso oficial para consumo
Barros (Agronomia), Almerindo Lessa (Ecologia Hu- externo. À mudança de atitude não foi alheia a con-
mana); António Quadros (Filosofia), etc. juntura internacional saída da Segunda Guerra Mun-
No ano letivo de 1955-56, Adriano Moreira in- dial e a necessidade de o governo português afirmar a
troduz o estudo do luso-tropicalismo no programa da unidade nacional perante as pressões externas favo-
sua cadeira de Política Ultramarina, do 2º ano do cur- ráveis à autodeterminação das colônias. A partir de

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meados dos anos 50, também se assistiu à penetra- João Paulo II, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa).
ção do luso-tropicalismo no meio acadêmico, o que
26
Gilberto Freyre, O Luso e o Trópico, Lisboa, Comissão Executiva
do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1961, p. 3.
determinou a produção de diversos trabalhos teóri- 27
Idem, p. 4.
cos e de campo orientados por aquele quadro 28
Arnold Toynbee (1889-1975) desenvolveu na obra A Study of
conceptual. Desde então, uma versão simplificada do History (12 vols., Londres, Oxford University Press, 1934-1961) a
luso-tropicalismo foi entrando no imaginário nacio- teoria da história das civilizações. Segundo esta teoria, nos últimos
nal contribuindo para a consolidação da auto-ima- seis mil anos houve 30 civilizações, 21 alcançaram pleno desen-
volvimento, 13 morreram, cinco não atingiram a maturidade, qua-
gem em que os portugueses melhor se revêem: a de
tro abortaram, sete ainda vivem, mas estão a ser absorvidas pela
um povo tolerante, fraterno, plástico e de vocação 21ª, a civilização ocidental. Caberá ao cristianismo fazer ressurgir
ecumênica. a harmonia social perdida. As civilizações atravessam quatro fa-
ses: a gênese, o desenvolvimento ou progresso, a decadência e a
_______________________ desagregação.
29
Gilberto Freyre, Op. cit., p. 2.
Notas 30
Gilberto Freyre, O Brasil em Face das Áfricas Negras e Mestiças:
1
A esse respeito ver Lilia Moritz Schwarcz, O Espetáculo das Ra- conferência proferida no Gabinete Português de Leitura do Rio de
ças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil: 1870-1930, Janeiro, Lisboa, 1963, p. 28-29.
São Paulo, Companhia das Letras, 1993. A autora mostra que en-
31
Na primeira carta, datada de Lisboa, fevereiro de 1931, José
tre os "homens de ciência" brasileiros os modelos deterministas Osório de Oliveira pede a Gilberto Freyre um artigo para a revista
raciais foram muito populares até a década de 1930. Descobrimento, da qual é secretário. Explica que só conhece um
2
Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, Lisboa, Livros do Brasil, trabalho do destinatário – Apologia da sua geração [Apologia pro
[1957], p. 99. generatione sua] – que leu "graças à amizade pessoal de Antônio
3
Alfredo Bosi, A Dialética da Colonização, São Paulo, Companhia Sardinha". E esclarece que aquele texto e "as referências do queri-
das Letras, 1992, p. 27. do amigo e poeta Ribeiro Couto bastam para que descobrimento
se sinta honrada com a colaboração" do sociólogo brasileiro. Vd.
4
Gilberto Freyre, Op. cit., p. 17. série correspondência de portugueses, Arquivo Documental Gil-
5
Idem, p. 18. berto Freyre, Fundação Gilberto Freyre (Recife).
6
Idem, p. 191. 32
José Osório de Oliveira, "Negro: contribuição brasileira para o
7
Idem, p. 21. seu estudo", in O Mundo Português, vol. I, n.º 4, abr. 1934, p. 138.
8
Idem, p. 22. 33
Cf. José Osório de Oliveira, "A mestiçagem. Esboço duma opi-
9
Idem, ibidem. nião favorável", in O Mundo Português, vol. I, n.º 11, nov. 1934,
10
Idem, p. 24. pp. 367-9.
11
Cf. Gilberto Freyre, Conferências na Europa, Rio de Janeiro, Mi-
34
Idem, p. 367.
nistério da Educação e Saúde, 1938. 35
Carlos Malheiro Dias, "Gilberto Freyre", in Pensadores brasilei-
12
Gilberto Freyre, O Mundo que o Português Criou, Lisboa, Livros ros, Lisboa, Livraria Bertrand, pp. 105-6.
do Brasil, [1951], p. 39. 36
Idem, p. 105.
13
Idem, p. 43-44. 37
Cf. João de Barros, "Aproximação", in Diário de Lisboa, agosto
14
Idem, p. 45. de 1937, p. 1.
15
Mestre de Gilberto Freyre na Universidade de Columbia, Franklin
38
Cf. Maria Archer, "Aspectos da paisagem social na África portu-
Henry Giddings (1855-1931) ocupa um lugar destacado na escola guesa e no Brasil do passado sugeridos pelos livros de Gilberto
sociológica norte-americana. Giddings procurou estabelecer uma Freyre", in Seara Nova, n.º 536, 20 nov. 1937, pp. 166-70 (conti-
compreensão crítica entre o indivíduo e o grupo, numa perspecti- nuação: n.º 537, 27 nov. 1937, pp. 198-200).
va de ordem humana e social em que interviessem fatores vários, 39
Idem, p. 167.
desde os físicos aos psíquicos (cf. Jorge Borges de Macedo, O Luso- 40
Cf. idem, p. 168.
Tropicalismo de Gilberto Freyre, Lisboa, Icalp, 1989, p. 106-108). 41
O livro, porém, não esteve à venda nas livrarias portuguesas e o
16
Gilberto Freyre, Op. cit., p. 51. número de exemplares enviados para Portugal foi, na opinião de
17
Gilberto Freyre, Um Brasileiro em Terras Portuguesas, Lisboa, Manuel Múrias, reduzido. Cf. Manuel Múrias, "Bibliografia. Con-
Livros do Brasil, [1954], p. 10. ferências na Europa, por Gilberto Freyre, Rio de Janeiro, 1938", in
18
Idem, p. 134. Ocidente, vol. II, Out. 1938, p. 477.
19
Idem, p. 35.
42
António Sérgio, "Para a definição da aspiração comum dos po-
20
Freyre esclarece que o aprofundamento do tema surge na se- vos luso-descendentes (a propósito de uma conferência de Gil-
qüência de conversas com Franz Boas, em 1938. Cf. Idem, p. 29. berto Freyre)", in Ensaios, 3.ª ed., tomo VI, Lisboa, Livraria Sá da
21
Idem, p. 98. Costa Editora, 1980, p. 164. Este texto foi escrito em 8 de agosto
de 1938, em Lisboa.
22
Idem, p. 48. 43
Idem, pp. 173.
23
O critério de área é um critério moderno na época. A área luso-
tropical resulta de um conjunto descontínuo em termos geográfi-
44
Manuel Múrias, "Conferências na Europa, por Gilberto Freyre",
cos, mas marcado por uma unidade psicocultural, biossocial e lin- in Ocidente, vol. II, 1938, p. 469.
güística. Cf. idem, p. 104-106.
45
Idem, p. 471.
24
Gilberto Freyre, Integração Portuguesa nos Trópicos, Lisboa, JIU,
46
Cf. idem, p. 472.
1958, p. 64. 47
Idem ibidem.
25
Pela correspondência trocada entre Freyre e Sardinha, nota-se
48
Cf. idem, p. 477.
que o primeiro foi influenciado pelo conceito de hispanidade des- 49
Vitorino Nemésio, "Crítica ao Ensaio Conferências na Europa,
te último (cf. Espólio de Antônio Sardinha, Biblioteca Universitária por Gilberto Freyre, Rio de Janeiro, Ministério da Educação", in

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Revista de Portugal, Coimbra, n.º 5, out. 1938, p. 129. Século, 27/09/1951.
50
Idem, p. 128. 72
Vd. série correspondência de portugueses, Arquivo Documen-
51
Idem ibidem. tal Gilberto Freyre, Fundação Gilberto Freyre (Recife).
52
Título de um artigo de José Osório de Oliveira publicado em O 73
Idem, p. 9.
Mundo Português, vol. VI, n.º 62, fev. 1939, pp. 57-60. 74
Cf. Baltasar Lopes, Cabo-Verde visto por Gilberto Freyre, Praia,
53
A primeira edição portuguesa só será publicada em Lisboa, pe- Imprensa Nacional – Divisão de Propaganda, 1956.
los Livros do Brasil, em setembro de 1951. 75
Numa informação, datada de 25 de janeiro de 1951, dirigida ao
54
Cf. António Sérgio, "Prefácio à 1.ª edição brasileira", in Gilberto Agente Geral das Colônias por Osório de Oliveira, enquanto dele-
Freyre, O Mundo que o Português Criou, Lisboa, Livros do Brasil, gado da Agência Geral das Colônias junto do Secretariado Nacio-
s.d., pp. 9-10. nal de Informação, este afirma que teria o maior interesse para
55
Idem, p. 10. Gilberto Freyre e para Portugal que ele "pudesse visitar, ao menos,
56
Cf. idem, p. 27. mas com uma certa demora, o Arquipélago de Cabo-Verde, dada
a identidade de formação que apresenta com o Nordeste do Bra-
57
Esses artigos foram compilados na obra Adeus ao Brasil, Lisboa, sil" (cópia enviada a Gilberto Freyre, in Arquivo Documental Gil-
Livros do Brasil, s.d. berto Freyre, Fundação Gilberto Freyre, Recife).
58
Valentim Alexandre, Origens do Colonialismo Português Moder- 76
Gilberto Freyre, Aventura e Rotina, p. 352.
no, 1.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1979, p. 7. 77
Ernesto de Vilhena, Aventura e Rotina: crítica de uma crítica,
59
Idem, pp. 7-8. Lisboa, 1955, p. 7.
60
Vicente Ferreira, Colonização Étnica da África Portuguesa, estu- 78
Idem, p. 38.
do apresentado ao II Congresso da União Nacional, Lisboa, 1944,
p. 39.
79
Idem, p. 8.
80
Idem, p. 39.
61
Idem, p. 41. 81
Cf. Norton de Matos, A Nação Una: organização política e admi-
62
Idem, p. 78.
nistrativa dos territórios do ultramar português, Lisboa, 1953, p.
63
Norton de Matos, A Província de Angola, Porto, 1926, p. 233.
240.
64
Valentim Alexandre, "Luso-tropicalismo", in Dicionário de His- 82
Vd. a rubrica "A crítica do livro" por Óscar Lopes, in Suplemento
tória de Portugal: suplemento, vol. VIII, Porto, Figueirinhas, 2000, de Cultural e Arte, Comércio do Porto, 9 de março de 1954.
p.. 83
Idem.
65
"Devo a José Osório de Oliveira, com o seu generoso e vibrátil 84
Cf. Adriano Moreira, "O Luso-Tropicalismo", in Política Ultrama-
espírito, sempre atento aos rumores que vêm do Brasil intelectu-
rina, col. ECPS, n.º 1, Lisboa, JIU, 1956.
al, o ter-me avisado da provável vinda de Gilberto Freyre à Europa
e da possibilidade do seu interesse em conhecer o Ultramar Por-
85
Veja-se, a título de exemplo, as teses de doutoramento de Óscar
tuguês" (Sarmento Rodrigues, "Discurso de despedida do ministro Soares Barata, A Questão Racial: introdução, Lisboa, ISCSPU, 1964;
do Ultramar de Portugal, comandante Sarmento Rodrigues, no e de João Pereira Neto, Angola: meio século de integração, Lisboa,
salão nobre do ministério", in Gilberto Freyre, Um Brasileiro em ISCSPU, 1964.
Terras Portuguesas, Lisboa, Edições Livros do Brasil, s.d., p. 271).
86
Cf. João Paulo Avelãs Nunes, A História Econômica e Social na
Este propósito, veja-se também a correspondência de Osório de Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra: o historicismo
Oliveira e de Sarmento Rodrigues para Gilberto Freyre no Arquivo neo-metódico: ascensão e queda de um paradigma historiográfico:
Documental Gilberto Freyre, Fundação Gilberto Freyre (Recife). 1911-1974, Lisboa, IIE, 1995, p. 132.
66
Gilberto Freyre, Aventura e Rotina, Lisboa, Edições Livros do
87
Cf. Anuário da Universidade de Lisboa.
Brasil, [1954], p. 13.
67
Diário da Manhã e Diário de Notícias, 14/08/1951, 1.ª p.
68
Antes do encontro, Sarmento Rodrigues emprestou alguns livros
de Freyre ao presidente do Conselho. "Como Vossa Excelência
deve receber na próxima semana o Dr. Gilberto Freyre e para a
hipótese de não conhecer o seu discurso na Assémbleia Constitu-
inte, envio a Vossa Excelência a revista Atlântico que o traz e tam-
bém alguns livros dele, entre os quais O Mundo que o Português
Criou, que eu já tinha, Nordeste e Quase Política, que ele agora
me ofereceu." (Carta de Sarmento Rodrigues, ministro do Ultra-
mar, para o presidente do Conselho, datada de Lisboa, 21 de Agos-
to de 1951, AOS/CP – 242 Pt. 7.242.16, fl. 548). Salazar, no seu
diário, registra unicamente a leitura de Quase política, nos dias 23
e 26 de Agosto de 1951 (AOS/DI – 5). Provavelmente, até então,
Salazar nunca tinha lido nenhum livro de Freyre. Só a partir de
1954 começam a dar entrada na biblioteca do presidente do Con-
selho obras do sociólogo brasileiro (cf. AOS/BP – 4 e 5).
69
Cf. Gilberto Freyre, Um Brasileiro em Terras Portuguesas, p. 223.
70
Gilberto Freyre, na obra Aventura e Rotina, refere-se em parti-
cular a Manuel Mendes. "Noto certo retraimento da parte de ve-
lhos camaradas portugueses como o Mendes: não me procuram.
(...) O fato de eu ser hóspede do Estado deve estar a distanciar de
mim mais de um ortodoxo da Esquerda. Paciência. A mim basta o
fato de ser um governo honrado, intransigentemente honesto, como
é, para eu aceitar dele uma homenagem que é antes nacional que
oficial" (p. 17).
71
Cf. Diário de Notícias, 19/08/1951; Diário de Lisboa, 08/09/1951;

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MESA-REDONDA 4
V IDA , F ORMA E C OR

Dia 22 de março
COORDENADOR:
Cesario Melatonio Neto
Ministro Chefe da Acessoria de Relações Federativas do Ministério das
Relações Exteriores – Brasil
Gilberto Freyre y Alemania

Hanns-Albert Steger
Cientista Social – Universidade de Erlagen Nuremberg – Alemanha

Gilberto Freyre participó activamente en Consecuencia: Alemania busca en el año


los dos Coloquios "de Ultramar", que celebra- 2000 no menos que 70.000 peritos en el
mos en los primeros años de los 60 en la extranjero, más allá de las fronteras de la
Universidad de Múnster en Westfalia/ Comunidad europea (mediante de la famosa
Alemania (1962 y 1967). Era el gran evento 'green card' de los norteamericanos), en el
central de los Coloquios, el ortogamiento del mismo momento en cual tenemos más que 4
grado de Doctor honoris causa a Gilberto milliones de desempleados. Nosotros
Freyre. Era la última vez en la historia de pronosticamos este tipo de problemas, y por
nuestras Universidades alemanas en el oeste eso tratábamos de fundar una nueva
de nuestro país, que se efectuó este rito com Universidad capaz de evitar tal situación. Gil-
los trajes medievales y com los "chapéus" berto Freyre participó muy activamente en las
tradicionales. Gilberto había trajido el "cha- discusiones pertinentes. En el texto de 1966
péu" famoso de su Doctor honoris causa de la del documento oficial proponiendo la
Universidad de Coimbra, y asseguró así el fundación de un centro de investigaciones
accento llamativo del evento, la fotografía que interdisciplinarios en la Nueva Universidad,
dispuse en aquel momento (v. Chacon, C. se dice verbalmente: "Uno de los temas
Furtado, G. Freyre, Fl. Fernandes) há obtenido centrales del Centro sería la investigación so-
posteriormente, motivado por el desarrollo de bre la influencia europea (especialmente la
la historia brasileña, una cierta importancia alemana) en la historia socia y cultural de
histórico-política, muchas veces publicada. América Latina." Sigue el texto: "Seria
Para nuestro público universitario necesario de reunir a un grupo de científicos
alemán de los años 60, todo eso tenía un as- expertos, viniendo de todo el mundo; sería
pecto bastante exótico. Casi todos éramos necesario de llamar en todo caso al Profesor
aislados en un autismo científico y Gilberto Freyre, Brasil, quién es el espíritu
provincionado dentro del cual la investigación central de este tipo de investigaciones para
buscó sus verdades primordialmente en los toda América Latina".
años "20" o antes de la primeira guerra mun- Este programa se puso en marcha com
dial. – Poco tiempo después de '62 empezó 2 primeros pasos:
la implosión de nuestro sistema universitario 1) Gilberto Freyre impulsó los
en Alemania occidental; – quedaron nuestras "Coloquios de Estudos teuto-brasileiros". El
universidades reducidas a escuelas primero se realizó en Porto Alegre entre el 24
postsecundarias y regionales, encargadas de y el 30 de julio de 1963. El Discurso inaugu-
la formación profesional de peritos ral de Gilberto Freyre, leido en Porto Alegre,
académicos, capacitados dentro del marco de se terminó com la frase siguiente: "Esta, a gran-
las exigencias de la sociedad industrial en sua de força do sistema socio-cultural brasileiro:
estructura actual. La concecuencia era (y es), a de ser ao mesmo tempo uno e plural. Di-
que las universidades están preparando namicamente uno e dinamicamente plural (p.
expertos y peritos que van empezar su carrera 20).
profesional 10 o 15 años después de su en- 2) El otro paso era, al mismo tiempo, la
trada en la Universidad. La situación hoy en fundación en Alemania, de um programa de
día es, consecuentemente, que nuestras uni- contactos com la investigación social en Amé-
versidades alemanas no han producido los rica Latina. Gracia a este programa se organizó
expertos en el campo de la infomática, disci- la primera investigación de campo en las
plina que se ha formado en los últimos 5 años. ciencias sociales que jamás se hizo en

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Alemania en los estudios latinoamericanos. El director Melville J. Herskovits, Gilberto Freyre, y otros mas.
de este investigación era nuestro colega Achim Gilberto trató de hacer posible una permanencia
Schrader, quien posteriormente fundó en la prolongada de Thomas Mann en Brasil. El, com la
Universidad de Münster/Westfalia un Instituto impor- madre brasileña, "de la cual", dice Gilberto Freyre en
tante de estudios latinoamericanos, sobre todo su contestación oficial al Embajador Alemán, en la
brasileños. Su asistente era Manfredo Berger de Rio ceremonia del otorgamiento de la Gran Cruz del
Grande do Sul: un "teuto-brasileiro" que escribió su Mérito de la República Federal de Alemania (11 de
tesis doctoral sobre "Educação e dependência" (1976), agosto de 1980), "de la cual se puede decir que no
de mención brillante. Después de su regreso, murió tenía sangre europe", era teuto-brasileiro par
com toda su familia en un accidente automobilítico excelence, pero no conoció Brasil, y en la
terrible y trágico. correspondencia com Gilberto Freyre dijo que sería
Podemos decir, que Gilberto Freyre era el mo- para él una satisfacción enorme de conocer el país de
tor espiritual de las relaciones "teuto-brasileiras" de su madre. Freyre fracasó com su tentativa, porque se
aquel tiempo, es decir, hace apróximadamente 35 dijo en los llamados 'circulos respetados' que no sería
años: es un lapso más grande de tiempo que entre el digno de una invitación brasileña: para los unos sería
comienzo de la primera guerra mundial (1914) y el un Nazi, y para los otros un comunista. – Cito aquí las
fin de la segunda (1945). informaciones escritas por Gilberto Freyre, sin hacer
Con todo eso hay qye ponerse hoyendía 2 ningún comentario al respecto.
preguntas: 1) cual há sido la motivación de Gilberto? En la lista de los miembros destacados del
2) cuales son las consecuencias observables hasta hoy? Seminario de Franz Boas no mencionamos los
1) Para contestar la primera pregunta, es nombres de Edward Sapir (1884-1939) y Benjamin
necesario de referirse a los estudios de Gilberto en la Lee Whorf (1897-1941), los fundadores de la teoría
"Columbia University" en Nueva York. Gilberto lingüística de los contenidos de una expresión verbal,
perteneció al Seminario de Franz Boas. Boas era de nacida directamente del contacto estrecho con el
origen alemán, nacido en Minden/Westfalia, en 1858 Seminario de Boas. Esta teoría de la relatividad
(murió en Nueva York en 1942). Son notables sus via- linguística no correspondió de ninguna manera a la
jes a la isla de Baffinland en el nordeste extremo de "scientific correctness" de la época (hasta hoy en día
Canada, entonces una expedición súmamente está rechazada vehementemente por los próceres de
aventurosa, y sus estudios de los Esquimales (1883/ la "scientific correctness"). La causa del rechazo es la
84, a la edad de 25 años);/posteriormente iba a visi- suposición de la teoría, que finalmente haya una
tar los Indios de la Costa del nord-oeste de América pluralidad de lógicas, y esto contradice
del Norte (1886 y años siguientes). Habia emigrado a diametralmente a la filosofia del ser en la historia
los Estados Unidos en 1887; desde 1899 era Profesor cristiana del Occidente.
de la Columbia University; se especializó en los I con eso estamos en le centro mismo de las
estudios de las culturas y de los idiomas de los Indios preocupaciones científicas de Gilberto Freyre, cuando
de América del Norte, y además organizó estudios habla del complejo "luso-tropical" de civilización. –
antropológicos de inmigrantes en los Estados Unidos. Dentro del marco de la filosofía de Whorf y Sapir –
El problema era la integración de los nuevos elemen- que combina Wilhelm von Humboldt (hermano de
tos en la cultura ya establecida. Com eso tuvo muy Alejandro) y Franz Boas – se dice que la expresión
mala suerte: sus muy 'amables' colegas no podían idiomática no está definida por sua utilización para
comprender porque Boas defendió la neutralidad de entenderse mútuamente, sino se defina como
los Estados Unidos en la Primera Guerra Mundial, "energeia", es decir, energía, una faculdad de
hasta que se divulgó el rumor que Boas haya sido ex- instrumentalización espiritual que se realiza dentro de
pulsado de la "Smithsonian institution" por eso. La las diferentes lenguas maternales: entre el hombre y
realidad bastante divergente explica nuestro amigo y la realidad se establece un mundo intermediario, den-
colega Vamireh Chacon en su "Biografía intelectual tro del cual los aspectos del mundo exterior están 'di-
de Gilberto Freyre" (1993): hubo discusiones feridos' espiritualmente y definen así las valorizaciones
vehementes dirigidas en contra de Franz Boas, hasta de una comunidad humana específica. Se llega así a
que le difamaron de haber sido espía del Imperio una verbalización del mundo (la muy discutida palabra
Alemán. Pero Boas, siempre, hasta su muerte, defendió alemana "das Worten").
vigorosamente su posición anti-racista. Se pueden Es óbvio: Gilberto Freyre interpreta las culturas
descubrir muy bien estos rasgos intelectuales y como 'lenguas' en este sentido: la cultura portuguesa
emocionales, en los escritos de los miembros del (o alemana en nuestro caso) produce un mecanismo
Seminario de Boas: Ruth Benedict, Margaret Mead, (un 'Ergon'), – una lógica 'luso-tropical', es decir, un

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100
mundo intermediario entre lo portugués y lo culturales, para llegar al 'mundo intermediario' del cual
autóctono del Brasil. Gilberto Freyre desarrolló así una ya hablamos. Gilberto Freyre contestaría que esta
teoría (y práctica) de la relatividad de los procesos exigencia se cumple mediante "el elemento vertical
vitales y culturales. de la creencia y de la irracionalidad" que llamamos el
Tengo que confesar que nosotros no sabíamos espíritu, – el "espíritu mesianicamente poético" que
absolutamente nada de esas implicaciones teóricas de conduce a la superación de lo lógico por lo poético; –
los "Estudos teuto-brasileiros" cuando nos veíamos 'Olanda' – lo horizontal, lo técnico, lo racional, – con-
confrontados com el 'Ergon' de Gilbero Gryre; – éra- tra 'Olinda' – lo vertical, lo creencial, lo mítico, que se
mos todavía asfixiados por el trauma de la Guerra. – transforma "en una nación, y – más – en una
El Conde Luis de Schönfeldt, amigo de Gilberto, civilización de un nuevo tipo, ligada a su pasado por
tradujo en 1964/65 Casa-Grande & Senzala y Sobra- la sobrevivencia de la fé católica, e impregnada por
dos e Mucambos en la gaveta durante 15 años; final- un mesianismo activo y creador com una proyección
mente, después de los esfuerzos combinados de hacia el futuro. – Es esta teoría cultural una sublimación
muchos amigos de Gilberto se publicó en otra edito- genial de las ideas del grupo formado por Franz Boas:
rial en 1982. Hay que confesar que estas la teoría de la relatividad linguística, transformada en
complicaciones reflejan la situación intelectual de teoría de la relatividad cultural. Es, finalmente, el
nuestra sociedad exactamente: todavía (en al años descubrimiento de lo brasileño como transformación
2000) no sabemos manejar bien nuestro de una población ingénua, y en parte europea,
comportamiento en Alemani hacia los inmigrantes, mayoritariamente mestiza y perdida en un espacio tro-
sobre todo islámicos (turcos), en nuestra sociedad ca- pical muy amplio, no solamente en una nación, sino
tólico-protestante, y estamos muy lejos de aceptar un – además – en una civilización inédita, nueva, – "luso-
'mundo intermediario' en nuestras ciudades. Com todo tropical".
eso nuestras preocupaciones científicas se concentran En los últimos años se iniciaron muchas
en los estudios latinoamericanos en campos bastante investigaciones 'horizontales' (en el sentido de la
especializados (literatura, geografía, ciencias sociales, argumentación arriba presentada); relativamente poco
etc.), pero olvídan la cohesión colectiva de la se hizo en el campo de los estudios 'verticales'. Gil-
convivencia cultural. Justamente no pueden ver el berto Freyre trató en sus estudios de presentar el
núcleo de la visión de Gilberto; no existe, parece. No cruzamiento de los análisis culturales 'horizontales'
pueden captar lo que Gilberto Freyre quiso decir, com los análisis 'verticales' en una forma ya totalmen-
cuando escribió sobre la diferencia entre 'Olinda y te integrada, o – en las palabras del mismo Gilberto
'Olanda': "Olanda a conquis Olinda; mais Olinda s'est Freyre – con ocasión de la inauguración del Primer
libérée quelques dizaines d'années plus tard" (cito de Coloqui de Estudos teuto-brasileiros, ya citadas mas
la versión francesa de O Luso e o Trópico, que Gilber- arriba: "Este, a grande força dos sistema sócio-cultu-
to me dedicó en 1965, hace 35 años). El subtítulo ya ral brasileiro: a de ser ao mesmo tempo uno e plural.
contiene todo su programa científico: "Sugestões em Dinamicamente uno e dinamicamente plural".
torno dos métodos portugueses de integração de po- Hay continuación, sin embargo, de esta
vos autóctones e de culturas diferentes da européia argumentación de Gilberto Freyre, presentada por sua
num complexo novo de civilização: o lusotropical." ilustre discípulo Vamireh Chacon en un libro obse-
Gilberto describe así "la victoria del espíritu pre- quiado a nuestra Universidad de Erlanger-Nuremberg;
burgués de "Olinda" sobre la técnica burguesa y refi- su título: "Deus é brasileiro – o imaginário do
nada de "Olanda". "Olanda" se encuentra sobre todo Messionismo político no Brasil" (1990); se presentó
en el sur y en el centro de Brasil, – y "Olinda" sobrevi- com ocasión del otorgamiento del grado de Doctor
ve principalmente dentro de los brasileños pobres e honoris causa a Vamireh Chacon en nuestra
desheredados del nord-este y de la Amazonia. La ca- Universidad. En este libro explica Vamireh Chacon
racterística central de Brasil sería un luso-cristianismo para los Brasileños y para los no-Brasileños la
fraternal, una democracia étnica veritable, de la cual 'verticalidad' del ser brasileño en todos sus detalles. El
lo contraria ejemplar sería la 'apartheid' sud-africana. libro tiene dos Prefacios: uno para Brasileños, – y outro
Hasta hoy en día, no nos fué posible en Europa para extranjeros. Vamireh Chacon cita en el texto para
central de liberarnos de nuestro autismo científico y los europeos al escritor cubano Alejo Carpentier com
aceptar el relativismo cultural Gilbertiano; y con todo esta frase: "Mas que é a História de toda América La-
eso ya se anuncia outra, segunda, relatividad dentro tina senão uma crônica do real maravilhoso?"
del processo de la llamada globalización. – Por eso es En los 35 años desde el otorgamineto del Doctor
necesario de preguntarse como sería posible de har- honoris causa a mi muy estimado maestro Helmut
monizar todas estas contradiciones étnicas, raciales, Schelsky aquí en Recife en la famosa Faculdad de

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Derecho , y bajo los auspicios de Gilberto Freyre,
hicimos muchos esfuerzos para captar algo de la 'teuto-
tropicalidad' posible en Brasil. Como ya dije, todavía
no hemos nosotros podido combinar lo 'horizontal'
com lo 'vertical'. Falta mucho. Sin embargo, en
situaciones de esta clase Gilberto Freyre tenía a su
disposición una 'ironia mesiánica' – 'vertical' y 'hori-
zontal' simultáneamente. Eso nos demonstró cuando
festejamos el Doctorado de Helmut Schelsky en una
cena: Habíamos hablado en la tarde anterior de la
importancia de los patos en la realidad cotidiano del
Brasil. Todos sabemos, que Gilberto era un gastrónomo
aficionado a las buenas comidas. No era por eso una
sorpresa cuando se no ofreció un pato nordestino;
sin embargo, cuando leíamos el menú, nuestra
sorpresa era muy sincera: leíamos "pato a la manera
de Helmut Schelsky": el pato nordestino habia sido
transformado en un legítimo pato "teuto-brasileiro".
Siguió una noche muy alegre, de integración, y en
cual todos encontrábamos una nueva identidad, –
"dinâmicamente una e dinâmicamente plural", pasada
y futura al mismo tiempo, y vigente hasta hoy en día.

Posdata: La aplicación del concepto de Gilber-


to Freyre – "dinámicamente uno y dinámicamente plu-
ral" – a la política cultural centro-europea sería más
que viable, si la 'political and cultural correctness' de
la actualidad lo permitiera, lo que lastimosamente no
es el caso.

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A Invenção do Brasil entre Clio e o Mythos:
Contraponto com Gilberto Freyre de
Interpretación de Brasil

Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes


Escritor/professor – Universidade Federal do Ceará – Brasil

Preliminares: Que é isso que chamamos de seu "descobrimento" e de sua construção


Brasil? social, econômica e cultural, nos termos da
“O estudo da literatura e da arte não há semântica cujas regras nos foram impostas pe-
de reservar-se exclusivamente à crítica literá- los que dominaram esta área da geopolítica
ria ou estética; incide também no campo do do Atlântico a partir de 1500. Mas é óbvio
sociólogo, do historiador social, do antropólo- que possuímos também uma longa pré-histó-
go e do psicólogo social: através de sua litera- ria, em particular na sua contribuição indíge-
tura e de sua arte é que os homens mais pare- na, freqüentes vezes velada ou minimizada, e
cem revelar sua personalidade e seu ethos na reposição negro-africana no Novo Mundo
nacional. Através das artes eles descrevem as mediante sua imensa diáspora forçada.
condições sociais mais angustiosas e revelam Assim, se o real se compõe de coisas ou
seus desejos mais revolucionários. E ainda, atra- sistemas de fatos e eventos, ele só se dá para
vés das artes, exprimem os aspectos particu- nossa consciência, como representação cole-
larmente contidos, tanto como os mais tiva, mediante atos e falas. É do
vigorosamente dinâmicos de sua personalida- entrecruzamento de um sem-número desses
de e de seu ethos nacional.” Gilberto FREYRE atos e falas ao longo do tempo histórico e dos
(1945: 165) diferentes espaços sociais que essa realidade
chamada Brasil vem sendo inventada e
A apropriação do real pelo ser humano reinventada, e cujo produto mutante vai sen-
é sobretudo um processo operatório e do transformado por nosso imaginário social
semiótico. Noutras palavras, é algo que se dá e condensado como experiência compartilha-
mediante operações de classificação, de com- da em nossos códigos de sensibilidade e de
paração, de diferenciação, e de atribuição de conduta, valores e crenças que a memória
sentido e de valor às realidades com que se coletiva preserva, assegurando a sua singula-
convive. Dentre estas, destaca-se naturalmen- ridade contrastiva entre outros povos e na-
te a vida social, a coletividade, os grupos, a ções.
nação, enfim, o País. Temos uma ilustração significativa des-
Diferentemente do que acreditavam as se processo de construção ou invenção se
tradições tanto idealistas quanto positivistas e acompanharmos a produção da cartografia do
realistas, o que chamamos de real é sobretu- Brasil desde o século XVI: da ilha presumida
do para nós um construto, uma invenção, ou, nos inícios das primeiras expedições
antes, uma reinvenção permanente, individual exploratórias, pouco a pouco não só as técni-
e coletiva, no plano semiótico e conceptual. cas de elaboração dos mapas e representa-
Com maior razão, isso se dá no caso de uma ções geográficas foram sendo refinadas, mas
realidade histórico-cultural de extrema com- também a ocupação do espaço e o conheci-
plexidade e mutação incessante como é um mento da terra foram sendo retificados e aper-
país, um povo, uma nação. No caso que nos feiçoados. Mas fomos, de começo, a imagem
interessa aqui, quero referir-me ao Brasil, produzida pelo espanto de olhares estrangei-
como problemática interpretativa. ros. E a primeira e saborosa expressão disso
Ao contrário de outras nações cujas ori- está na Carta de Pero Vaz de Caminha, que
gens se perdem em tempos imemoriais, o Bra- Capistrano de Abreu dizia ser nossa certidão
sil atual, resultando da expansão marítima e de nascimento.
mercantil de Portugal na disputa pela coloni- Durante os três séculos do nosso perío-
zação de novas terras, possui uma data oficial do Colonial, foram sobretudo esses olhares es-

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103
trangeiros que construíram a nossa imagem, a consci- tações, etc.) que, muito mais por simplificação e co-
ência do que somos: portugueses, judeus, mouros, modidade, costumamos chamar de cultura brasilei-
espanhóis, franceses, africanos, italianos, alemães, ho- ra.
landeses, e, ao longo do tempo, vieram mais: suíços, Se tomarmos como mera ilustração desse es-
norte-americanos, russos e outros eslavos, etc., que, forço de invenção nacional a recolha de textos signi-
aventureiros, colonos, missionários, comerciantes, ficativos feita por Djacir Menezes, em seu já clássico
prostitutas, traficantes, negreiros, degredados, foragi- O Brasil no Pensamento Brasileiro, veremos que não
dos, escravos, artesãos, naturalistas e homens de ci- passa de simples amostra do que tem produzido a
ência, viajantes e visitantes, foram todos construindo inteligência brasileira que se debruça sobre a tarefa
essa imagem sempre mutante, única e múltipla. de interpretar e criticar as características de nossa re-
É interessante observar que, nos inícios, esse alidade. Na verdade, posto sejam importantes os tex-
olhar de espanto e de deslumbramento em face do tos que a compõem, eles produzem uma imagem ex-
Novo Mundo produziu imagens ora paradisíacas, ora pressiva das qualidades e defeitos do Brasil, porém
negativas, em que sobressaem a terra, a natureza exu- nitidamente parcial e fragmentária. Com efeito, cons-
berante e grandiosa, mas também a sua gente e seus tituem apenas parte da produção ensaística de pen-
costumes. O Padre Anchieta, por exemplo, ao escre- sadores, estadistas, economistas, historiadores, que
ver a primeira arte de gramática da língua geral mais buscaram interpretar a nossa realidade. Estão excluí-
falada na costa do Brasil, na frase inicial de seu texto, das todas as demais expressões de nossa produção
afirma que os primitivos habitantes desta terra não simbólica ou discursiva, tais como a poética, a
possuíam em sua linguagem nem f, nem l, nem r, por- dramaturgia, a crônica, a prosa de ficção, etc. Enfim,
que eles não têm nem Fé, nem Lei, nem Rei. Ou seja, tudo isso que constitui nossa tradição afortunada, a
ele nos definia pela negação, pois em seu viés saber, nossa crítica literária e nossa própria literatura,
etnocêntrico não encontrava aqui as mesmas insti- sempre voltadas para a missão de dizer o que somos,
tuições que conhecia no Velho Mundo. E Narciso sem- e que, sob muitos aspectos, é amplamente superior
pre acha feio tudo que não é espelho... em alcance interpretativo e criativo de nossa realida-
Com o fim do exclusivo português e do pacto de do que toda a nossa produção em economia, soci-
colonial, o Brasil independente ou incipiente abriu- ologia, ciência política, etc. Há muito mais captação
se à curiosidade universal e sobretudo à intensa ex- de nossa gênese e de nosso caráter nacional em
pansão das ciências naturais de que fomos o principal Gregório de Matos Guerra, nos Inconfidentes, num
fornecedor de matéria-prima, por nossa imensa di- Antônio José (o Judeu – trucidado pela Inquisição),
versidade biológica e ecológica. Boa parte do avanço em Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto, José Lins
dos conhecimentos científicos nesse domínio e dos do Rego, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Gui-
acervos das universidades e museus de História Na- marães Rosa, etc. do que em nossas ciências sociais,
tural do mundo todo se formou a partir dessas expe- exceção feita para a ensaística e a história social so-
dições, que duram até os nossos dias. Aliás, isso ocor- bretudo a de inspiração antropológica e do Moder-
re de fato desde os sábios trazidos pela administração nismo para cá.
de Nassau, na primeira metade do século XVII, quan- Destaque-se ainda que os textos escolhidos,
do inclusive se instalou o primeiro observatório astro- embora importantes e até indispensáveis, estão res-
nômico em terras do Novo Mundo. Mas provieram tritos aos escritores pertencentes à nossa ilustração,
também de artistas de todo gênero, que contribuíram à nossa tradição letrada. Toda a riquíssima produção
significativamente para a construção de nossa imagem: de nossa cultura popular está fora de cogitação nes-
é riquíssima a iconografia do Novo Mundo e do Brasil se tipo de escolha. Aliás, diga-se, sumariamente, que
em particular. a desmesurada tarefa de construir um quadro consis-
Paralelamente a essa presença dominante do tente como resposta a nossa aporia ôntica, como povo
olhar, da fala e da conduta dos estrangeiros, e em re- e como cultura, implicaria o cometimento de muitos
lação dinâmica, ora convergente ora antagônica, com especialistas que explorassem a elaboração da ima-
estes, foi se constituindo o nosso povo, com seus sen- gem do Brasil pelo menos nos seguintes segmentos
timentos, normas e valores, códigos e costumes, que discursivos: a) nos que se exprimiram sobre isso nas
se singularizam lentamente e vão pouco a pouco cons- diferentes fases de nossa história; b) nas diversas regi-
tituindo o nosso perfil peculiar, inclusive pela apro- ões de nosso continente sociocultural; c) nos vários
priação dessa realidade por meio de nossa própria fala olhares forasteiros que nos estudaram e apreciaram;
e nosso próprio olhar, mediante múltiplas linguagens d) no pensamento de nossa «ilustração» e nas ima-
(músicas, ritmos, danças, rituais, festas, arquiteturas, gens da literatura ficcional e poética, incluindo aí as
pinturas, decorações, narrativas, poéticas, represen- visões de ufanistas contumazes e as dos críticos pessi-

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104
mistas; e) nas concepções de nossas elites políticas e até desconfio que carecemos de tal escala métrica –,
econômicas e nas das massas e classes subalternas. mas por certo, dentre os cultores das Ciências Sociais
Para não falar de outras formas de expressão tais como no Brasil, nenhum supera Gilberto Freyre em volume
a pintura, a arquitetura, o cinema, a música, a dança, e variedade de homenagens, comendas e referênci-
o carnaval, os esportes, o humor, etc. Em suma, é do as: a maioria destas elogiosas, algumas porém cáusti-
conúbio entre Clio e o Mythos que nasce a invenção cas ou preconceituosas. Guerreiro Ramos, por exem-
de um país, produto de ciência e arte, trabalho e de- plo, em seus cursos, no finado ISEB, sempre se referia
vaneio, análise e utopia. a Gilberto Freyre como «o romancista de Apipucos»:
pretendia ele com isso menosprezar sua obra socio-
Gilberto Freyre e seu estilo cognitivo: uma dialética lógica, sem saber que prestava a maior homenagem a
da medianiz ou uma acrobacia hermenêutica quem fora antes de tudo excelente escritor.
“Gilberto Freyre não procura fabricar uma uni- Mas cheguemos mais próximo do nosso autor.
dade ideal dos fenômenos isolados em si mesmos, mas Gilberto Freyre é sobretudo um escritor saboroso e
busca, de um modo que deve servir de exemplo (aos envolvente. Mestre em enumerações pitorescas e ilus-
sociólogos europeus), a unidade efetiva desses fenô- trações de perfil folclórico, que no entanto operam
menos, seguindo uma pluralidade de métodos-chave.” um efeito de sedução sobre o leitor. Mesmo quando
Jean POUILLON (Paris) este é mais crítico e discorda de várias de suas con-
cepções, não há negar o encanto ou o fascínio que a
Dizia Karl Jaspers, referindo-se a Max Weber, riqueza plurívoca e temática de seu pensamento exer-
que «a maneira de honrar a um grande homem está ce sobre ele.
em apropriar-se de sua obra e tentar trabalhar em suas Eis por que intitulei este tópico de minha fala
idéias para prosseguir a realização, que ele tornou com a expressão «acrobacia hermenêutica». De fato,
possível, de cada uma de suas distintas partes.» [1953: nas suas elaborações teóricas, ele se move num espa-
1]. ço epistêmico que inclui sempre o território da Histó-
Portanto, não prestam tal homenagem ao seu ria, iluminado pela perspectiva socioantropológica,
real valor aqueles que se excedem ao qualificar Gil- estética, literária, psicológica, etc. – ele até se aventu-
berto Freyre com hipérboles do tipo desta: «o desco- ra a freqüentes ousadias de interpretações psicanalíti-
bridor do Brasil» – visto que só por amnésia cultural cas, quase sempre um tanto inconsistentes –, ou seja,
profunda é possível apagar todas as gerações que o ele é livremente multidisciplinar. Seu estilo cognitivo
precederam nessa tarefa ingente de esclarecimento é dominantemente estético e se elabora num movi-
de nossa formação, de quem ele era o primeiro a re- mento metodológico do quase, do talvez e sobretu-
conhecer a contribuição. Tampouco segue o judicio- do do semi-, inclinação metodológica que se expres-
so conselho de Jaspers alguém que, como João sa na constância com que emprega esses termos, que
Gabriel, assevera não ser «exagero dizer que seu livro são os mais freqüentes de seu discurso intencional-
Casa-Grande & Senzala está para a sociologia nacio- mente oscilante, sinuoso, nietzschiano e talvez
nal assim como o Gênesis para a Bíblia» [VEJA, 15/09/ dialético. Uma dialética da medianiz, pois, como
99, p.70]. Mais sóbrio foi o gesto da Universidade de sabemos, a medianiz é o espaço em branco entre duas
Poitiers, na França, que, no dia 15 de março do cor- linhas ou duas páginas impressas, aquele espaço em
rente ano (2000), realizou um colóquio internacional torno da costura. Tomo pois a sugestão metafórica da
«Gilberto Freyre e a França», em comemoração ao seu costura dos extremos para ilustrar essa capacidade de
centenário. Gilberto Freyre de se apropriar dos interstícios do pen-
Por decreto da Presidência da República, pu- samento para construir sua própria interpretação.
blicado no Diário Oficial de 13 de julho de 1999, o Além disso, seus termos dizem sempre mais do que
ano 2000 foi proclamado Ano Nacional Gilberto de impõem as tradições semânticas sedimentadas. Tudo
Mello Freyre. Doutor honoris causa de uma dezena se passa como se, em sua lucidez intuitiva, visasse aos
de universidades americanas e européias, professor tons em claro-escuro, entre o preto e o branco, entre
convidado de quase todas as grandes universidades o bem e o mal, entre o lícito e o proibido, entre es-
da Europa e das Américas, recipiendário de numero- querda e direita, entre tradição e transformação, en-
sos prêmios literários e científicos, membro honorá- tre estrutura e processo. Uma espécie de dialética
rio das mais importantes sociedades científicas em ci- particular que tenta apanhar uma realidade cambian-
ências humanas, poucos intelectuais souberam te e pendular, como o Brasil, com o jogo de cintura
administrar tão bem, como Gilberto Freyre, a própria de nossas carnavalescas mulatas: isso que foi fixado
imagem, e isso desde cedo até sua morte. num momento arquitetônico, naquela forma levíssima
Não saberia eu avaliar se o mais importante – e e bela com que Oscar Niemeyer fechou a Praça da

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Apoteose, no sambódromo do Rio, evocando por trás vícios, erros, prazeres, lazeres, etc., para construir, ain-
o movimento da passista que se curvasse para tocar o da que imperfeito, um novo retrato do Brasil.
chão telúrico de seu país natal.
Sem dúvida, o pensamento gilbertofreyriano é Interpretación de Brasil, primeiro ensaio de sínte-
sinuoso e nada linear, sem conotação pejorativa, já se
que se trata de deliberada astúcia de seu espírito, que “Somos, por tudo isso, uma República Mestiça,
bebeu, talvez, nos oxímoros da obra-prima de étnica e culturalmente; não somos europeus nem "la-
Euclydes da Cunha, seu parceiro de ginástica mental, tino-americanos"; fomos tupinizados, africanizados,
para dar conta de uma realidade que exprime a tor- orientalizados e ocidentalizados. A síntese de tantas
tuosa aventura histórica de um povo e não um teorema antíteses é o produto singular e original que é o Brasil
de elementar geometria. Assim, ao longo de seus tex- atual.” José Honório RODRIGUES [1982]
tos, ele costuma afirmar algo, para logo em seguida
negá-lo sob outra forma; reafirmando mais tarde o Não podemos esquecer que, na inteligência
anterior, para negá-lo mais uma vez, e assim, sucessi- brasileira, Gilberto Freyre é um dos maiores exem-
vamente, ele vai construindo um quadro claudicante plos de fidelidade a uma paixão e a um projeto con-
que é expressão do nosso próprio movimento históri- cebido desde a juventude, visto que dedicou toda a
co e social. Sua argumentação nasce da lógica da sua vida consciente à tarefa de compreensão e inter-
finesse pascaliana, existencial, cultural, e não daque- pretação empática, mas também analítica, deste País
la do rigor formal e cartesiano. Seu pensamento dis- em sua complexidade, na unidade de sua variedade,
tancia-se da lógica dicotômica, de termos mutuamente conforme costumava dizer. E de sua rica e numerosa
exclusivos. O que eu chamei sua dialética da medianiz obra, eu escolhi um dos seus livros, talvez um dos
admite o terceiro excluído mediante a costura do 'é' e menos conhecidos, para o exercício desse contraponto
do 'não é', do sim e do não, espécie de terceira mar- intelectual.
gem do rio eqüidistante dos extremos. Por isso ele Portanto, não elegi de propósito trabalhar com
causa incômodo às mentes acantonadas em suas for- Casa-Grande & Senzala, visto como essa estrada real
talezas ideológicas. está repleta de estudos e ensaios. Não é, pois, por aí
Enfim, a vigência cultural de sua contribuição que quero desenrolar meu percurso mais modesto.
teve um efeito inovador sobretudo em nossa Pretendo simplesmente empreender uma releitura de
historiografia. Esta até então tinha como espinha dorsal um livro seu, um só, que caiu em minhas mãos, quan-
seu eixo político-administrativo, que tendia a ocultar do ainda jovem estudante, já lá vão quarente e qua-
todas as demais dimensões que entretecem a trama tro anos, adquirido, se não abuso da memória, numa
da existência coletiva. Embora utilizando conceitos por livraria do Recife à extremidade oriental da Ponte da
demais amplos e do nosso senso comum – nação, raça, Imperatriz. Refiro-me a Interpretación de Brasil, as-
cultura, homem brasileiro, caráter nacional, cultura sim mesmo em sua versão em espanhol, editado pelo
brasileira, etc. – embora usando de preferência um Fondo de Cultura Económica, do México, em 1945,
estilo ensaístico em busca de harmonias criadoras que, e que traz esta nota editorial: «Traducción del original
posto não desconheça a tradição marxista, deixam de inédito por Teodoro Ortiz». A edição original em in-
lado as análises histórico-estruturais que privilegiam glês sairia no mesmo ano, pois que o livro resultara
o modo de produção, o conflito, os antagonismos de das notas de aula do curso que Gilberto Freyre minis-
classe e as relações de dominação; suas contribuições trara na Universidade de Indiana, no ano anterior.
renovaram de forma inusitada o modo de escrever a Sabe-se que um princípio básico de leitura re-
História. É, nesse sentido, um continuador de side em tomar em consideração as condições de pro-
Capistrano de Abreu, enriquecendo-o ao acentuar o dução de uma obra. Assim, a um primeiro exame,
valor da dimensão sociocultural, da vida quotidiana, estranha a ausência de fontes brasileiras nas referên-
do povo, da mulher, das crianças, do negro, da misci- cias do autor. Todavia, se atentarmos ao fato de que
genação, no modo de considerar a historiografia bra- este texto se destinava na origem, fundamentalmen-
sileira; realiza uma como deseroicização dessa te, a um público norte-americano, entenderemos por
historiografia, tomando como unidade básica a famí- que ele menciona sobretudo trabalhos em língua in-
lia, empregando amplamente as fontes populares e glesa. Além disso, em face da riqueza de informações
propondo novo fulcro de interesse, centrando-se na e temas que compõem Casa-Grande & Senzala, o pre-
vida íntima e privada. Esboça assim, como pioneiro, sente livro se apresenta bem mais modesto, já que
uma história do desejo e da sexualidade do povo bra- pretendia em particular realizar uma primeira síntese
sileiro. Foi, sem dúvida, o primeiro a ter a ousadia de interpretativa, espécie de balanço resultante dos seus
juntar os fragmentos dessa história, sobretudo em seus estudos anteriores.

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Como quer que seja, uma leitura atenta cons- parte e sobre a qual, como antropólogo e como soció-
tata inevitavelmente estranho silêncio do autor em logo e um tanto historiador, se sentia no dever científi-
relação a outros estudiosos brasileiros que explora- co de ser, quanto possível, objetivo. Daí uma perspec-
vam problemática semelhante, e cuja obra por certo tiva empática, ao mesmo tempo que objetiva, de
ele não ignorava. Menciono, para ilustrar, apenas dois análise. Um tanto, já de análise interpretativa. Mas não
casos significativos. O primeiro é o sergipano Manoel ainda de síntese...» [1971: XVIII]. Portanto, o livro, de
Bomfim que, muito antes dele, assestou como um cru- que darei aqui meu contraponto crítico, nasceu do
zado seus instrumentos analíticos contra o racismo desafio proveniente da recepção à sua obra maior.
dominante da inteligência brasileira de então, como Esquematicamente, essa obra, que realiza uma
chave desqualificada da explicação de nosso atraso primeira síntese interpretativa do seu pensamento
cultural. Com efeito, ele o fez desde 1905, logo após sobre o Brasil, compõe-se de seis capítulos tratando
a obra de Euclydes da Cunha, no seu A América Lati- das seguintes matérias: as raízes européias da história
na – males de origem. É verdade que, com base em brasileira; a fronteira e as plantations no Brasil; uni-
fundamentos históricos da mesma origem, ele chega dade e diversidade regional brasileira; condições ét-
a conclusões radicalmente opostas às de Gilberto nicas e sociais no Brasil moderno; a política externa e
Freyre: enquanto este engrandece a experiência co- a situação étnica, cultural e geográfica; e a literatura
lonizadora de Portugal; aquele, movido de intensa moderna e os problemas sociais. Não me move, po-
lusofobia, põe no legado português a causa dos defei- rém, a pretensão de resumir aqui a riqueza de aspec-
tos de nossa formação. O outro caso é a obra original tos que explora neste ensaio curto mas denso.
e pioneira de Pedro Calmon – História Social do Bra- Respigarei apenas aqui e ali um ou outro ponto que
sil – cujo primeiro tomo, dedicado ao «Espírito da So- forneça os elementos básicos de sua argumentação e
ciedade Colonial», foi publicado na mesma época de que me permitam algum comentário mais significati-
Casa-Grande & Senzala, com uma perspectiva analíti- vo.
ca muito próxima e examinando temas semelhantes No que tange ao tema inicial, o autor sublinha,
aos desta obra, mas sem a mesma grandeza. desde logo, o caráter ibérico e católico do Brasil. Na
O escopo dessa obra, objeto desta comunica- seqüência, porém, do seu desdobramento, ele vai
ção, enquadra-se numa espécie de tese geral adota- matizando e enriquecendo essas duas características,
da por Gilberto Freyre, segundo a qual ele realiza a primeiro mostrando a complexa formação étnica dos
«tentativa de interpretar não apenas o Brasil, como povos ibéricos e do português em especial, acentu-
tal, porém como expressão pioneira de um novo tipo ando em particular seu intenso intercâmbio com
de cultura e de civilização – civilização moderna ao mouros e árabes, bem como a forte presença judia,
mesmo tempo que ecológica – em desenvolvimento sem esquecer as condições físicas e geográficas. Há
em espaço ou dentro de ambiente tropical» [1971: um trecho que, no meu entender, sintetiza sua argu-
prefácio, p. XVII]. Tanto é assim que, no título da nova mentação e expressa o típico de seu estilo: «A diversi-
versão aumentada e modificada deste livro, o autor dade regional das condições peninsulares do solo, da
enfatiza um dos eixos argumentativos da tese: Novo situação geográfica e do clima é algo que devem ter
Mundo nos Trópicos. Título que amplifica sua genera- em conta todos os que estudem as raízes européias da
lidade, porém com a omissão de tratar-se de uma sín- história brasileira, raízes que não são puramente euro-
tese interpretativa do Brasil. Eis por que dou prefe- péias, senão também africanas; não só cristãs, senão
rência, nesta comunicação, à versão original que assim mesmo judias e islâmicas; não só agrárias, como
primeiro me veio às mãos e onde esse desiderato é o indica a importância dos agricultores nos primeiros
claro desde logo. tempos de Portugal, senão igualmente militares; não
Ora, os primeiros críticos do Gilberto Freyre de só industriais, como as desenvolveram os árabes e os
Casa-Grande & Senzala, como o sergipano João Ri- mouros, senão ainda marítimas e comerciais, que de-
beiro, acusavam-na de ser uma obra sem conclusões. senvolveram nórdicos e judeus; notáveis não só pela
E o próprio autor reconhece que o espírito que presi- capacidade para o trabalho penoso, contínuo e mo-
dia aquela fase de seu trabalho era sua tendência «prin- nótono, e pela inclinação à vida sedentária da agricul-
cipalmente analítica ou indagadora, em face do as- tura, mas também o espírito de aventura... e o des-
sunto já, naqueles dias, de sua máxima preocupação: dém pelo trabalho agrícola.» [1945: 12 e 17]. Essas
o Brasil como país – e como cultura – situado em es- duas últimas características evocam idéias desenvol-
paço, quase todo, tropical; o Brasil como cultura, qua- vidas por Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do
se toda mestiça... O que mais buscou naquele livro foi Brasil.
analisar, compreender, fixar sob nova perspectiva, uma Além disso, insiste o autor em que, por maior
situação complexa da qual, como brasileiro, se sentia que tenha sido o papel das camadas dominantes por-

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tuguesas, «deve-se repetir uma vez mais que a força cessos de centralização e unificação política da cultu-
criadora mais constante [em nossa colonização] foi ra estimuladas pelos interesses e pelas forças política e
provavelmente a dos camponeses analfabetos, alguns economicamente imperialistas. (...) O estudo da his-
de sangue norte-africano: árabe, mouro e ainda ne- tória social brasileira e das condições sociais parece
gro. O resultado de sua obra pode apresentar-se hoje indicar que no Brasil, como em outras nações vastas e
ao mundo como um dos esforços mais afortunados de complexas, deve permitir-se a cada um desenvolver
colonização, não já europeus, senão semieuropeus, na uma lealdade particular para sua comunidade básica,
América tropical: no Brasil.» [Ib.: 29-30]. E ele conclui sua região ou sua província. Ainda que em seus afetos
asseverando que na história social do Brasil está por transnacionais possa ir tão longe que chegue a conver-
fazer-se ainda a tarefa de reunir informação suficien- ter-se num verdadeiro cidadão do mundo, contudo,
te sobre a vida, a atividade e a influência das massas sua condição como membro de um grupo primário
populares, informes sobre os contatos socioculturais local parece ser essencial para a saúde pessoal e soci-
básicos, que permitam obter um conhecimento ade- al.» [pp. 74 e 96].
quado do nosso desenvolvimento. Contudo, entre Na verdade, o capítulo que se segue, acerca das
alguns reparos que se pode fazer à sua exposição, está condições étnicas e sociais do Brasil moderno, é um
por exemplo o fato de que ele repete constantemen- desdobramento do antecedente, e é tão denso quan-
te equívocos de Sílvio Romero e sua geração ao qua- to o outro. O autor tem aqui a oportunidade de de-
lificar como "sistema feudal" nosso modo de produ- senvolver seus argumentos a favor da miscigenação e
ção colonial agro-exportador. contra a antropologia racista, de que cita alguns auto-
O capítulo seguinte, posto contenha como sem- res para contestá-los com exemplos e testemunhos
pre algumas observações preciosas, decepciona um significativos. Expõe a divisão das regiões brasileiras
pouco o leitor pela não correspondência ao seu título segundo princípios ecológicos, inclusive de ecologia
que promete tratar de "fronteira e plantations". Na humana, tal como foi proposta por von Ihering, daí
realidade, o autor dedica duas ou três páginas ao pri- derivando longa argumentação em defesa de nossa
meiro tema. Todo o resto do texto é dedicado a uma miscigenação e da fundamental contribuição africana
apologia, um tanto nostálgica, do regime senhorial dos para a nossa formação como povo e cultura. Situa-se
engenhos, entremeada de observações folclóricas: no quadro da Velha República para estudar as trans-
festa de São João, bolos, briga de galo, banhos de rio, formações daí decorrente e caracterizar os grupos em
corrida de cavalo, etc. – adotando um andamento disputa pela liderança política do País e na realização
meio dispersivo, em que qualquer coisa serve a diva- de seus projetos de progresso material, diferencian-
gações, às vezes antropológicas, porém de perfil ca- do-os por sua composição étnica, por seus interesses
leidoscópico. econômicos e intelectuais, e por sua origem social.
Inegavelmente é o terceiro capítulo, sobre a Aqui, ele formula críticas a essas elites políticas que
unidade e diversidade regional brasileira, que consti- no fundo perseguiam os mesmos propósitos, sem re-
tui um dos mais interessantes e densos do livro. Par- alizarem um efetivo contacto «com a realidade brasi-
tindo de definições e distinções conceptuais relativa- leira humana, social e cultural. Creram que se revela-
mente rigorosas, ele analisa as características de nossas riam consumados mestres na arte de governo realista
diferenças regionais e os ajustamentos e antagonis- tratando de resolver os aspectos mesquinhamente eco-
mos entre uniformidade e divergência, centralismo e nômicos e os tecnicamente financeiros e materiais dos
autonomia, etc. Percorre o perfil psicológico de cada problemas sociais brasileiros. Descuidaram seus aspec-
região principal do Brasil, destacando seu caráter do- tos humanos e étnicos, por exemplo, o importantíssi-
minante, e chega a sugerir a hipótese de construção mo de conduzir a transição de um grande número de
de uma tipologia regional brasileira em função do brasileiros do trabalho escravo ao trabalho livre. (...)
modo como cada área festeja o Carnaval. Mais de Daí por que concentraram sua atenção em problemas
meio século depois, com as atuais pressões de progresso material, numa política de empréstimos
globalizadoras, ainda mantêm gritante atualidade al- e de edificações, e de atração do capital estrangeiro...»
gumas de suas observações, como esta: «Alguns dos [p. 113]. Segue-se ainda longa discussão da política
que têm estudado a situação social internacional que de migrações para o País e da ingerência das potênci-
se desenvolveu no mundo após a Revolução industrial as estrangeiras, bem como da velha questão da assi-
na Europa – a conquista industrial do mundo baseada milação de índios, negros e outros grupos à cultura
em ideais de estandardização de todos os lugares de brasileira, que ele examina criticamente desde as po-
acordo com os padrões dos estados capitalistas mais sições dos jesuítas e passando pelo plano apresenta-
poderosos – têm reconhecido a necessidade de um do por José Bonifácio para integração dos índios. Isso
regionalismo criador em oposição aos numerosos ex- lhe fornece a ocasião de examinar e elogiar aberta-

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mente a obra desenvolvida pelo Marechal Rondon cos. Na verdade, sempre que se refere à questão, ele
nesse sentido. emprega sistematicamente o termo «democracia ét-
A política exterior e a situação étnica, cultural e nica e social». Ora, para quem viveu a experiência da
geográfica, que constitui o tema do quinto capítulo, clivagem racial profunda dos Estados Unidos, como
inicia-se por afirmações que são o resultado das refle- ele, é fácil supor a significação que ele atribui à sua
xões desenvolvidas nos capítulos precedentes: «O visão na relatividade comparativa de sua semântica,
status nacional do Brasil não é a expressão de uma inclusive pela fluidez com que usa o conceito de de-
consciência de raça, pois não o fez uma raça única... mocracia quase como sinônimo de tolerância. Toda-
Sua mística de unidade ou pureza foi de status religio- via, mais do que um argumento, esse corolário de sua
so ou de religião – a religião católica romana ou o status tese geral sobre o Brasil vem repetido por ele como
cristão – e não de raça. O status nacional do Brasil é um leitmotiv no conjunto de sua obra, como se ele
etnicamente negativo. Poucas nações modernas são tão fosse uma espécie de pastor evangélico que se vê na
heterogêneas do ponto de vista étnico como a única obrigação de pregar essa nova revelação oportune et
república de fala portuguesa do continente america- importune.
no. No Brasil, nenhuma minoria ou maioria étnica exer- O capítulo final, por sua própria temática – a
ce realmente uma dominação absoluta, sistemática e literatura moderna e os problemas sociais – é
permanente, cultural e social, sobre elementos da po- indubitavelmente o mais saboroso do livro por sua
pulação política e economicamente menos ativos.» [p. riqueza e fecundidade de reflexão. Por isso epigrafei
131]. Mas em seguida, depois de comparar o Brasil, o início deste trabalho com a citação de seu primeiro
nesse particular, à União Soviética, ele faz o reparo parágrafo. Na dificuldade de resumi-lo aqui, sublinho
de que não se deve ver em sua visão a pretensão sua que se trata de suas reflexões originais sobre arte e
de apresentar o Brasil como uma perfeita democracia literatura no Brasil em suas relações com a substância
étnica e social. social e cultural da nação: são observações preciosas
Todo este longo capítulo é uma retomada de sobre Gregório de Matos, uma aguda análise política
seus argumentos e novas ilustrações de sua conheci- da estética de Aleijadinho, apreciações fecundas so-
da posição nesse campo, por isso volta a contestar as bre várias expressões da cultura popular, ou o desta-
opiniões de autores racistas contra a mestiçagem, re- que que atribui à caricatura e à sátira como aspectos
forçando-se com referências a autores científicos que dominantes de várias de nossas expressões culturais,
lhe são favoráveis, incluindo alguns estudiosos brasi- ou quando aponta as deformações de visão de nossos
leiros como Roquete Pinto. Retoma a questão das intelectuais mediante a análise que empreende do
migrações estrangeiras e das novas relações decorren- Canaã, de Graça Aranha, ou enfim seus reparos sobre
tes do desenvolvimento industrial, para terminar pro- o movimento modernista e a originalidade do regio-
feticamente projetando uma posição de liderança do nalismo nordestino do período.
Brasil sobre o conjunto do mundo lusófono e do seu
papel civilizatório por sua experiência singular: «Pa- Preciso concluir esta comunicação. Mas tam-
rece que o Brasil tem que fornecer uma contribuição bém aqui Gilberto Freyre não apresenta bem conclu-
peculiar ao desenvolvimento da personalidade huma- sões, merecendo provavelmente os mesmos reparos
na no mundo moderno. Essa contribuição virá prova- dos críticos de Casa-Grande & Senzala. Ou seja, seu
velmente do tipo extra-europeu de civilização que es- esforço de interpretação do Brasil continuará sendo
tão desenvolvendo os grupos mais dinâmicos e criativos uma obra aberta. Por isso, para fechar sem concluir,
da população brasileira, apesar das inúmeras dificul- gostaria de poder transcrever aqui o lúcido e provo-
dades com que tropeçam. (...) [e o maior grau de tole- cante prefácio de Monteiro Lobato, seu contemporâ-
rância das jovens gerações brasileiras em relação ao neo que talvez melhor compreendeu o significado ou
caráter mestiço da nação constitui prova] de que exis- o espírito de sua obra, prefácio que escreveu para o
te uma capacidade de construir uma civilização nova livro biográfico sobre Gilberto Freyre que fez Diogo
e original no continente americano...» [pp. 159 e 161]. de Melo Meneses [1944]. Como se trata, porém, de
Idéia esta longamente acalentada também por Darcy um texto muito longo, menciono apenas alguns frag-
Ribeiro. mentos:
Antes de passar ao último capítulo, gostaria de “Em todos esses capítulos... outra coisa não fez
sublinhar o fato de que, em nenhum momento deste G. F. senão revelar-nos a nós mesmos, contar o que
livro, Gilberto Freyre fala de "democracia racial" no somos e porque somos assim e não de outro modo.
Brasil. Aliás, do mesmo modo que o "homem cordial" Toma-nos a mão, e vai nos ensinando a ver claro nas
de Sérgio Buarque de Holanda, esta expressão tem coisas do Brasil.
padecido da incompreensão de muitos de seus críti- G. F. tem o destino dos Grandes Esclarecedores.

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Antes de sua amável e pitoresca lição vivíamos num tura Económica, 1945.
caos impressionista, atrapalhadíssimos com os nossos _____________. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a
vida e paisagem do Nordeste do Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro:
ingredientes raciais, uns a negá-los, como os que têm
José Olympio, 1961.
como "patriótico" esconder o negro, clarear o mulato _____________ . Novo mundo nos trópicos. São Paulo: C.E.N. /
e atribuir virtudes romanas aos índios; outros a con- Edusp, 1971. (Coleção Brasiliana, 348).
denar isto em nome daquilo – tudo impressionismo _____________. Novos estudos afro-brasileiros: segundo tomo. Rio
duma ingenuidade absoluta e muito revelador da mais de Janeiro: Civilização Brasil, 1937. Trabalhos apresentados
ao 1º Congresso Afro-brasileiro do Recife (1934)
completa ausência de cultura científica em nossa gen-
_____________. Problemas Brasileiros de Antropologia. Rio de Ja-
te culta e até em nossos sábios. (...) neiro: Casa do Estudante do Brasil, 1943.
G. F. ensinou... essa deliciosa composição que é GILBERTO Freyre, o inventor do Brasil. In: Cult: Revista Brasileira
a ciência misturada com a arte – com todas as artes, de Literatura. São Paulo, a.3, n. 32. Mar. 2000. (Incluí artigos
inclusive a culinária, tão vital nos destinos humanos, e de Stélio Marras, Antonio Dimas, Cláudia Cavalcanti e João
a erótica, a mais cultivada de todas. E tornou-se o Gran- Alexandre Barbosa).
GÖRGEN, Hermann M. Gilberto Freyre: mestre e consciência da
de Desasnador, o delicioso mestre da verdadeira ciên- nação. Cadernos Germano-Brasileiro. a. 19, n. 1, p. 5-8. 1980.
cia sociológica como a entendem os homens de gênio. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 4. ed. Brasília:
(...) UnB. 1963.
A grande inimiga de Gilberto tem sido sempre a JASPERS, Karl. Balance y Perspectiva. Madrid: Revista de Occidente,
mediocridade – na crítica, no governo, no leitor co- 1953.
mum... Podemos até dizer que o melhor teste quanto JUREMA, Aderbal, et al. Homenagem a Gilberto Freyre. Brasília: s.
n., 1980.
ao valor duma inteligência é pô-la diante de um livro
LEITE, Dante Moreira. O Caráter Nacional Brasileiro: história de
de Gilberto. A inteligência medíocre fatalmente o re- uma ideologia. São Paulo: Pioneira, 1969.
pelirá com o mesmo ímpeto com que o acolherá a LIMA, João Gabriel de. O Baú do Gênio de Apipucos. VEJA. São
inteligência de escol.” Paulo, p.70-77, 15 set. 1999.
MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira. São Paulo:
_______________________ Cultrix, Edusp, 1979.
MEDEIROS, Maria Alice Aguiar. O Elogio da Dominação: relendo
Bibliografia Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.
MENESES, Diogo de Melo. Gilberto Freyre: notas biográficas com
AMADO, Gilberto et al. Gilberto Freyre - sua ciência, sua filosofia,
ilustrações, inclusive desenhos e caricaturas. Rio de Janeiro:
sua arte: ensaios sobre o autor de “Casa-Grande & Senzala” e
C.E.B., 1944.
sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos
do 25o aniversário da publicação deste seu livro. Rio de Janei- MENEZES, Eduardo Diatahy B. de. A Cultura Brasileira “desco-
ro: José. Olympio, 1962. 576p. bre” o Brasil, ou ‘Que país é este?!’ uma pergunta à cata de
resposta. Revista USP. São Paulo, n. 12, p. 76-93, 1992.
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110
A Propósito de Vida, Forma e Cor e do
Perfil de Euclides da Cunha 1

Maria Alice Rezende de Carvalho


Socióloga – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – Brasil

O livro Vida, Forma e Cor , como se em uma aproximação empática do autor para
sabe, reúne alguns textos de crítica literária com a qualidade do vivido. E, finalmente, a
elaborados por Gilberto Freyre, sendo, por- terceira – "o que é o Brasil?" –, por ser esta a
tanto, um conjunto bastante variado de en- questão que obseda Gilberto Freyre e que
saios curtos, escritos em circunstâncias e épo- permeia toda a sua obra. Em Vida, Forma e
cas muito distintas, como, aliás, esclarece o Cor há, de fato, a sugestão de um Brasil que
próprio autor, na apresentação que faz ao é, mais do que uma realidade espaço-tempo-
volume. É, por isso, no meu entender, um tan- ral, uma matéria de tradução estética de
to refratário a abordagens que pretendam quantos se debruçam sobre ele; uma "figura",
tomá-lo como peça inteiriça, portadora de um na qual todas as épocas e suas substâncias são
sentido e de critérios homogêneos para o tra- contemporâneas entre si porque as suas res-
tamento de todos os temas arrolados ali. A pectivas existências não se confundem com o
variedade presente na coletânea e a riqueza tempo cronológico, sendo, antes, expressões
de referências históricas, literárias e filosófi- intelectuais conferidas a estados fugitivos ou
cas com que lida Gilberto Freyre recomen- a potencialidades a que se presta pouca aten-
dam, no mínimo, alguma cautela aos leitores ção. O Brasil, portanto, seria um espaço mo-
interessados em fornecer uma visão sintética derno de experiências, que se presta à reve-
da obra. Mas, se me fosse sugerido fazê-lo, lação. Revelação – esse o sentido mais forte
eu diria que Vida, Forma e Cor, é um livro que Gilberto Freyre empresta à literatura,
construído sobre três perguntas: "quem escre- quando praticada por intérpretes geniais,
ve sobre o Brasil?" "o que é escrever literaria- empaticamente mergulhados na matéria
mente?" e "o que é o Brasil?" compósita brasileira. Pareceu-me, então, que
A primeira indagação – "quem escreve os ensaios críticos de Gilberto Freyre poderi-
sobre o Brasil?" – se justifica porque grande am ser interpelados a partir dessas três inda-
parte dos ensaios têm em comum a preocu- gações, cujo efeito resulta ser a produção de
pação em indicar um extenso elenco de au- um amplo quadro de referências para se pen-
tores que, mesmo quando não tratam do Bra- sar o Brasil, os seus intérpretes e suas respec-
sil, inspiram os autores brasileiros, como é o tivas formas de interpretação.
caso de Amy Lowell, que Gilberto Freyre con- Com base nessas afirmações prelimina-
sidera uma forte presença na poesia de Ma- res, creio ser relevante apresentar um desses
nuel Bandeira. A segunda – "o que é escre- autores geniais do Brasil, que embora menci-
ver? " –, porque o livro resulta em uma onado em algumas das críticas que compõem
apresentação de variadas concepções acerca Vida, Forma e Cor, não é tratado aí. O autor é
da escritura literária, ora para combater os Euclides da Cunha que, como se sabe, foi tema
críticos que, segundo o autor, são "demasia- de dois ensaios curtos, que participam do Perfil
do intransigentes" para reconhecerem valor de Euclides e Outros Perfis. O primeiro texto
literário no ensaio social, ora para defender, se intitula O Engenheiro Físico, Alongado em
explicitamente, a literatura contida em ensai- Social e Humano e o segundo, Revelador da
os interpretativos das experiências humanas, Realidade Brasileira. Euclides é tomado aqui
mediante a observação de aspectos particu- como referência porque Gilberto Freyre re-
lares, desordenados, de fragmentos conhece nele um autor que atingiu a qualida-
descontínuos dessa experiência. Uma litera- de literária da revelação – por isso entendida
tura, pois, da experiência, apresentada sob a a capacidade, por exemplo, de surpreender
forma do ensaio social e elaborada com base no Brasil de sua época, isto é, da passagem

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do século XIX ao XX, regiões inteiras vivendo um tem- história geográfica e colonial do Nordeste, junto a
po social diverso, retrógrado, distinto do que poderia geólogos e ao próprio Pimenta da Cunha, primo de
ser considerada a contemporaneidade da Rua do Euclides e engenheiro também. Enfim, para a elabo-
Ouvidor, um tempo, enfim, sem qualquer sintonia com ração de Os Sertões Euclides teria mobilizado vários
a cronologia litorânea. É como se Gilberto Freyre iden- de seus amigos e conhecidos, certamente que mais
tificasse na obra de Euclides uma antecipação da sua informados sobre alguns aspectos envolvidos naque-
própria forma de figurar o Brasil, certamente que mais le empreendimento. Gilberto Freyre fala ainda das
rudimentar do que a que seria elaborada por ele, dado dificuldades que Euclides encontrava no ato de es-
que Euclides mantinha-se preso à noção de "realida- crever, o "caráter pensado" de todos os seus registros,
de" e a uma idéia de revelação ainda muito próxima inclusive dos seus bilhetes e cartas íntimas, a serieda-
da noção de descoberta, de verificacão científica da de que emprestava à atividade intelectual.
existência de um espaço de experiências que, afinal, O contraponto que Freyre faz a esse perfil do
se mantivera subtraído da história por força da intelectual rigoroso e sistemático é, claramente, Lima
impenetrabilidade dos sertões. De qualquer modo, a Barreto, que, no livro Vida, Forma e Cor, é apresenta-
admiração com que Gilberto Freyre se refere a Os do como um escritor que, com o seu poder de obser-
Sertões permite sugerir que ele reconhece em Euclides vação, teria chegado ao plot de Casa-Grande & Sen-
um antecessor da sua abordagem, no que ela tinha zala em 1903. A ambição de Lima Barreto em produzir
de reveladora empática da pluralidade de tempos bra- uma reconstituição do Brasil patriarcal e escravocrata
sileiros. Há, assim, a pretensão de estabelecimento é confessada no seu diário íntimo e citada por Gilber-
de uma linhagem, de uma linha sucessória entre os to Freyre: "não realizou Lima Barreto, de modo espe-
intérpretes do Brasil, pela qual Gilberto Freyre procu- cífico, seu sonho de obra-prima. Nem sob a forma de
raria se alinhar. E é sobre o pertencimento de Gilber- história, como a princípio pretendeu, nem sob o as-
to à linhagem euclidiana que vou procurar tecer algu- pecto de romance, no que depois desejou adoçar
mas considerações, ainda que um tanto improvisadas. aquela tarefa, na verdade, áspera. Talvez lhe faltasse
Para um leitor mais exigente, essa proposição sistema de estudo ou critério de pesquisa que lhe per-
talvez pareça absurda, dada a disparidade de objetos, mitisse elaborar livro tão difícil e complexo". E, mais à
de estilos, de recursos intelectuais, de concepções frente, Freyre continua: "a Lima Barreto faltou forma-
acerca, principalmente, da questão racial e até mes- ção universitária ou seu justo equivalente. O conhe-
mo de preferências estéticas entre os dois autores. cimento que reuniu sobre os assuntos de sua predile-
Assim, por exemplo, na caraterização que Gilberto ção, vê-se pelo seu diário íntimo, que foi um saber
Freyre faz de Euclides, está presente o fato de que a desordenado e, como ele próprio, boêmio. No ro-
este "como que repugnava na vegetação tropical e na mancista mulato o poder de observação dos fatos era
paisagem dominada pelo engenho de açúcar, o gor- quase sempre agudo; mas quase nenhuma sua assi-
do, o arredondado, o farto, o satisfeito, o mole das milação desses fatos em saber sistemático."
formas. Atraía-o o anguloso, o ossudo, o hirto dos re- Em tecendo elogios à obra literária de Lima
levos ascéticos ou, quando muito, secamente mascu- Barreto, Gilberto Freyre registra, contudo, a grande
linos do agreste e dos sertões". Apesar dessa afirma- distância que o separava de Euclides da Cunha. Se
ção tão contundente de Gilberto Freyre acerca das Euclides primava pela disciplina, pelo caráter pensa-
diferenças entre ambos, tentarei sublinhar alguns as- do de sua escritura, pela observância das regras en-
pectos da aproximação entre eles que reconheço volvidas na produção de um conhecimento rigoroso,
como mais evidentes no perfil construído sobre Lima Barreto, ao contrário, era capaz de observar agu-
Euclides da Cunha. damente o mundo a sua volta, sem, no entanto, con-
O primeiro aspecto dessa aproximação, o mais seguir organizar as suas impressões. Essa deficiência,
óbvio e talvez o mais fraco, porém não de todo pois, não o qualificara para o trabalho de reconstru-
irrelevante, diz respeito ao tema do rigor devotado à ção imaginativa da sociedade brasileira, típica do en-
pesquisa, isto é, o elogio ao tratamento rigoroso das saio histórico. Ademais, a figura do boêmio, do inte-
fontes documentais, à atividade crítica, à produção lectual dos cafés, era extremamente negativa para
de uma interpretação concebida como um mix de Gilberto Freyre. Era-lhe desagradável o ambiente das
originalidade e de orientação estritamente escolar. cidades literatizadas e de seus personagens, pois con-
Gilberto Freyre se refere longamente ao auxílio que siderava aquele um mundo convencional, estetizado,
Euclides da Cunha teria buscado junto a alguns espe- de sentimentos decalcados, um mundo em nada com-
cialistas em temas de seu interesse, como, por exem- patível com o cenário do homem íntimo, subjetivo,
plo, junto a Teodoro Sampaio, a quem procurou para sexual. Essa cidade literatizada estava mais próxima,
obter alguns esclarecimentos acerca da geografia e da segundo Gilberto Freyre, de Machado de Assis, por

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112
exemplo, uma espécie de "inglês" desgarrado no tró- nheiro seria autor de uma obra que não está fora dele;
pico, embora resignado à doçura da vida suburbana de uma obra que narra o efeito dos sertões sobre a
do chá com torrada. Era uma cidade mais próxima, alma daquele brasileiro torto, que era Euclides da
também de Joaquim Nabuco, que, segundo Gilberto, Cunha.
mal conseguia se referir às jaqueiras exuberantes e A necessidade de uma paisagem que
quase obscenas de Pernambuco. Era o cenário de um correspondesse às aflições do autor, ao seu estágio de
Afonso Arinos, que conseguiu descrever o sertão mi- desenvolvimento pessoal, à sua dinâmica formadora,
neiro com elementos da paisagem européia. Em suma, parece ser o ponto que mais emociona Gilberto Freyre
porquanto fossem autores e intelectuais apreciados e em sua leitura de Os Sertões. O livro assume, assim, a
merecedores de elogios, Gilberto Freyre guardava em característica de um encontro: uma civilização
relação a eles uma certa distância, atribuindo-lhes uma inacabada e um autor inacabado encontram-se na
excessiva estetização, uma filiação radicalizada à "for- produção de uma obra que, afinal, completa a identi-
ma" e, portanto, uma incapacidade de lidar com a dade do autor pelo reconhecimento público que ela
vida. Aqueles eram homens de Corte, homens de sa- foi capaz de lhe fornecer. Há, aliás, entre Euclides,
lão e da vida mundana. E nessa ambiência, Freyre re- Gilberto e Lima Barreto uma similaridade que não
conhecia a exclusão de muitos dos talentos literários pode ser desconsiderada, embora Freyre sempre fi-
que lhes eram contemporâneos, com as conseqüên- zesse questão de se distinguir do mulato boêmio. Os
cias previsíveis do ressentimento e da boemia que três, de fato, pensaram em escrever uma obra-prima,
nutriam, por exemplo, um Lima Barreto. Em suma, um clássico brasileiro, capaz de marcar o momento
embora fossem considerados antípodas, Machado de de sua entrada, a aparição de cada um, na grande
Assis e Lima Barreto apresentavam, segundo Freyre, a cena intelectual.
mesma dificuldade em associar vida e forma, com a Com Os Sertões , Euclides conheceria a fama –
diferença de que cada um deles habitava um dos pó- autor e obra teriam atingido um acabamento mútuo.
los característicos da Corte literária: Machado, o so- Os Sertões deixavam de ser uma região ignota para se
lar; Lima Barreto, o noturno. constituírem em uma "qualidade" da experiência bra-
A matriz que Euclides inaugura em meio a esse sileira, uma espécie de símbolo de um País em busca
cenáculo de intelectuais da Corte é de outra nature- de afirmação, cujo principal ator passava a ser o, até
za. É uma matriz que Gilberto Freyre definiu como então desconhecido, tabaréu. Valorizados em sua
adequada a um "tapuia presbiteriano". Tapuia era a potencialidade heróica, os caboclos vulgares, anôni-
visão que Euclides tinha de si; a ela, Gilberto Freyre mos e, até certo ponto, canhestros transformavam-
associa o presbiterianismo que participou da forma- se, pela lente euclidiana, em titãs acobreados e po-
ção do engenheiro. Nessa matriz – a do tapuia tentes, figuras hirtas e densas, em um inesperado
presbiteriano –, o aspecto que se afigura mais impor- movimento de assemelhamento ao autor. O Euclides
tante, e que eu diria ser reconhecido por Gilberto tabaréu, tornado um herói da interpretação e das ex-
Freyre como uma antecipação da sua própria abor- pedições científicas que, nas décadas seguintes cru-
dagem, é o que se traduz na capacidade de o autor se zariam o Brasil, concluíra o círculo em que se mistu-
deixar "desmanchar" – ou, para usar uma palavra ravam vida e obra.
gilbertiana, enlanguescer –, diante do seu objeto. Esse, O sertão é o lugar que transforma o
então, o segundo aspecto da aproximação que pro- inacabamento em heroísmo, dimensão que Capristano
curo estabelecer entre Euclides e Gilberto. Tal aspec- de Abreu levará mais adiante, ao apontar a vocação
to consiste na valorização de um procedimento em irredentista de um Brasil desconhecido, de um Brasil
que o autor se dissolve, empaticamente, no seu obje- profundo, interior, "de dentro". Gilberto Freyre, con-
to, na paisagem de sua devoção, deixando-se mergu- tudo, não se estende em suas considerações sobre
lhar no que Freyre considerava "as estridências brasi- Capistrano. Reconhece apenas que ele teria prolon-
leiras", aqueles ruídos que não poderiam ser gado e aprofundado essa percepção do antagonismo
capturados pela contenção da forma a que se viam presente na trajetória brasileira, teria fixado essa di-
obrigados os intelectuais da Corte. Euclides, eviden- mensão da história como conflito, já presente em
temente, austero como a natureza descrita em Os Euclides da Cunha. E embora anote que ambos com-
Sertões, absorvera, em si, a paisagem intelectual, a partilhavam um mesmo parâmetro para a compreen-
paisagem moral, a paisagem estética do seu objeto. são do Brasil, deixa entrever que a caracterização
Era um sertanejo anguloso. Gilberto fizera o mesmo, euclidiana de Canudos como uma potência não rea-
e se tornara farto como os grandes canaviais. O texto lizada, como um movimento que poderia ter ensejado
de Gilberto sobre Euclides, a partir daí, segue de per- a construção de uma nação autêntica e que, uma vez
to a sugestão de Afrânio Peixoto, para quem o enge- desbaratado, adiava, para um tempo incerto, o reen-

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113
contro dos brasileiros com a sua originalidade, con- jo. Raro na palestra se animava, é a informação que
trastava, claramente, com a percepção que Capistrano nos dá Teodoro Sampaio, que acrescenta: não era ver-
tinha daquele processo. É que, com Euclides, a der- boso, nem álacre, nem causticante no discretear ordi-
rota de Canudos assumia as cores de uma epopéia nário. Preferia pensar, refletir, ouvir antes que dizer o
negativa; com Capistrano; as de uma derrota históri- que traía natural propensão, mais para acolher do que
ca. Para este, o final do século XVIII é coincidente para dispartir as jóias do seu espírito".
com a derrota do que havia de genuinamente brasi-
Segundo Gilberto Freyre, o contentamento, al-
leiro, sendo o País, desde então, uma repetição amar-
gum e discreto, que ainda poderia mobilizar Euclides
ga e permanente da civilização que a monarquia luso-
da Cunha era uma certa maledicência, uma certa
brasileira concebeu para nós, isto é, de uma civilização
mordacidade que ele praticava em suas cartas ínti-
luso-brasileira, estrangeira, exógena, artificial, alheada
mas como, por exemplo, a de chamar Joaquim
do Brasil dos sertanejos.
Nabuco de "artista velho": parecia um ator velho, ti-
É claro que, dessa perspectiva, a oposição de
nha pelo menos a voz de um ator velho. Enfim, exce-
Gilberto Freyre em relação a Capistrano e aos moder-
tuando essa prática, nada mais o tornava farto ou lar-
nistas paulistas a quem ele inspirou em sua crítica ao
go. Sua austeridade foi tomada, por Gilberto Freyre,
nosso legado luso estava evidenciada. E, nesse caso, a
como um exemplo de ascetismo e economia, ainda
valorização que faz da obra de Euclides é, também,
que, de passagem, se possa observar que o texto de
de porte a sublinhar as suas diferenças em relação a
Euclides é, notoriamente, o oposto disso – rebusca-
um autor – Capistrano –, a quem se atribuía o honro-
do, barroco, gordo. Mas essa consideração não apa-
so título de continuador da problemática inaugurada
rece em Gilberto. Por que?
pelo Os Sertões. Gilberto preferia, como Euclides, a
Talvez porque Gilberto Freyre estivesse em bus-
sugestão de um Brasil como potência, como possibili-
ca de uma figura contrastante, que, desse modo, es-
dade de afirmação do novo, sem o receituário que
clarecesse a sua própria. Assim, é interessante consta-
Capistrano extraíra da derrota de Canudos, ou seja,
tar a presença freqüente do personagem Dom Quixote
sem a preconização de uma ruptura com a nossa ori-
em seu texto sobre Euclides. E eu concluo essas notas
gem, a nossa marca luso-brasileira.
com a sugestão de que as disparidades entre o ma-
Finalmente, uma terceira e rapidísima sugestão
gro, anguloso, e o farto, gordo; entre o duro e o mole;
quanto à aproximação de Gilberto Freyre à linhagem
entre o discreto e o excessivo pudessem ser identida-
euclidiana. Uma aproximação por contraste, uma
des construídas como um antagonismo em equilíbrio,
reedição marota dos chamados "antagonismos em
como um intérprete coletivo do Brasil, atravessando
equilíbrio", forma típica da construção de Casa-Gran-
diferentes épocas, sem a precedência histórica de um
de & Senzala, por exemplo. Ela remonta à descrição
sobre o outro, de Euclides sobre ele mesmo, Gilberto
da personalidade do autor – um homem triste. É de
Freyre. Na linhagem que Gilberto Freyre está procu-
Gilberto Freyre a caracterização que se segue sobre
rando construir, não cabe uma evolução, já que a
Euclides da Cunha:
temporalidade brasileira é a de simultâneos e não a
"...nem moças bonitas, nem danças, nem janta- de sucessivos. Nesse sentido, o par Dom Quixote e
res alegres, nem almoços à baiana, com vatapá, caruru, seu escudeiro me parece ser representativo dessa di-
efó, nem feijoadas à pernambucana, nem vinho, nem nâmica de identificações que Gilberto estabelece en-
aguardente, nem sobremesas finas, segundo velhas tre Euclides e a sua maneira de produzir o ensaio so-
receitas de iaiás de sobrados, nem churrascos, nem cial literário.
mangas de Itaparica, abacaxis de Goiana, açaís, sopa
de tartaruga, nem modinhas ao violão, nem pescarias _______________________
de Semana Santa, nem ceias de siri com pirão, nem Notas
galos de briga, nem canários do império, nem caçadas
Esse texto foi elaborado a partir da transcrição da comunicação
de onça ou de anta nas matas das fazendas, nem ba- apresentada no Seminário Internacional Novo Mundo nos Trópi-
nho nas quedas d'água dos rios do engenho, em ne- cos, guardando, por isso, a informalidade que caracteriza as ex-
nhuma dessas alegrias, caracteristicamente brasileiras, posições orais. Agradeço, nessa oportunidade, aos organizadores
Euclides da Cunha se fixou. Nem mesmo no gosto de do evento, e especialmente a Dra. Fátima Quintas, a oportunida-
de de participar daquele encontro.
conversar e de cavaquear, às esquinas ou à porta das
lojas, de todos os brasileiros, desde a Rua do Ouvidor
à menor botica do centro de Goiás, principalmente
dos baianos, dos quais, aliás, Euclides procedia, em-
bora sua personalidade se enquadre menos no tipo
regional do baiano do Recôncavo que no do sertane-

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114
O Significado da Obra de Gilberto Freyre
para a Antropologia Contemporânea

Gilberto Velho – gvelho@alternex.com.br


Antropólogo – Departamento de Antropologia do Museu Nacional /
Universidade Federal do Rio de Janeiro – Brasil

Não tenho a pretensão de esgotar nes- educadores, entre outros. Portanto, durante
se texto toda a contribuição de Gilberto Freyre a permanência de Gilberto Freyre em
para o desenvolvimento da Antropologia. Colúmbia, os Estados Unidos viviam um perí-
Quero salientar, todavia, algumas dimensões odo de grande criatividade na área das ciên-
de seu trabalho, que considero, historicamen- cias humanas, tendo como um de seus focos
te, cruciais e que mantêm ainda hoje um ca- principais a temática indivíduo e sociedade.
ráter inovador. Gilberto Freyre, como mostrou Seja sob o ponto de vista da interação social
Sebastião Vila Nova (1998), estudou e teve seja sob o ponto de vista de cultura e perso-
contato, durante sua estadia nos Estados Uni- nalidade, produzia-se um volume de traba-
dos, com os grupos mais destacados da ciên- lhos e idéias que constituíram-se em impor-
cia social daquele país. Numa época em que tantes subsídios para a obra de Gilberto Freyre
as fronteiras disciplinares e departamentais que soube digerí-los e elaborá-los no decor-
eram mais fluidas, teve acesso não só à antro- rer de sua carreira, contribuindo, decisivamen-
pologia e história de Colúmbia, mas também te, por sua vez, para esse campo de debates.
à sociologia de Chicago, associada à antropo- Como intelectual universalista, bebeu em vá-
logia no mesmo departamento, até o final dos rias fontes, na antropologia britânica, na es-
anos vinte. cola sociológica francesa e no pensamento
Essa relativa fluidez permitia e estimu- social e filosófico alemão, além da ciência so-
lava o florescimento de debates cial norte-americana, produzindo, assim, um
interdisciplinares, com implicações para toda perfil singular.
a área que classificamos atualmente como A conjuntura nos Estados Unidos pós-
Ciências Sociais ou até, de modo mais amplo, primeira grande guerra apresentava essa ca-
para as humanidades em geral. A intelligentsia racterística de ser favorável à convivência e
norte-americana do final do século XIX e pri- encontro de várias tradições intelectuais. O
meiras décadas do século XX era fortemente contato com a Europa era freqüente e inten-
marcada pelo darwinismo, ao mesmo tempo so, com intercâmbio permanente desde o fi-
que alguns de seus importantes expoentes nal da Guerra Civil. Esse processo foi se acen-
professavam ou vinham de famílias de religião tuando, envolvendo não só intelectuais, mas
protestante, como Albion Small e George H. variados setores da elite, preocupados com
Mead, figuras fundamentais da Escola de Chi- uma cultura cosmopolita e sofisticada (Simon,
cago (Bulmer, 1984 e Joas, 1997). Essa com- 1998). Sabemos que Gilberto Freyre já tinha
binação de evolucionismo e religiosidade, com um perfil intelectual se delineando quando
todos os conflitos, teve consideráveis impli- parte para Nova Iorque, mas lá, ainda muito
cações para o desenvolvimento de uma atitu- jovem, teve oportunidade de ampliar, signifi-
de e postura de reforma social. Mas é, sobre- cativamente, seu quadro de referências, tor-
tudo, no pragmatismo, com suas diferentes nando-se um sintetizador e um inovador. A
ênfases e correntes, que vai se encontrar a cultura e suas relações com a personalidade
principal tendência do pensamento social individual, certamente, foi um dos eixos fun-
norte-americano da época. Intelectuais do damentais da construção de seu trabalho.
porte de William James e John Dewey assu- Antropólogos contemporâneos seus como
miram um papel proeminente e liderança Edward Sapir, Ruth Benedict e Margaret
notável. O seu impacto nas ciências sociais Mead, influenciados, mais ou menos direta-
foi decisivo, estabelecendo um campo de dis- mente, por Franz Boas, desenvolveram estu-
cussão para filósofos, sociólogos, psicólogos e dos e reflexões sobre esse tema. Cabe, no

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entanto, a Freyre, um lugar de particular destaque, fluências na sociologia norte-americana. Acredito se-
devido à ousadia de sua interpretação do Brasil e dos rem muito fortes as afinidades de Freyre com a sua
brasileiros. Os trabalhos do grupo de Colúmbia, liga- obra, principalmente no que se refere à temática in-
dos ao que veio a ser conhecido como Escola de Per- divíduo e sociedade e à questão da subjetividade. A
sonalidade e Cultura, até os anos trinta tinham como partir daí, encontramos a elaboração de reflexões que
referência principal sociedades tribais, tradicionais e estão no limite entre uma antropologia cultural e uma
de pequena escala, como nos estudos de Margaret psicologia social. O estudo das relações raciais, das
Mead na Nova Guiné e de Ruth Benedict com índios relações entre gêneros e gerações traz essa caracte-
norte-americanos. rística marcante de juntar processos sociais com traje-
A importância de Casa-Grande & Senzala, com tórias individuais, antecipando, por exemplo, o tra-
suas origens na tese defendida em Colúmbia, nos iní- balho de Hans Gerth e C. Wright Mills (1954) e
cios dos anos vinte, foi, no quadro do desenvolvimento enriquecendo a produção da Escola de Personalida-
da Antropologia, ter tido como objeto uma sociedade de e Cultura. O interesse e cultura literários de Freyre,
complexa moderno-contemporânea. Podemos identi- certamente, contribuíram também para a sua preo-
ficar várias razões que concorrem para isso. O inte- cupação estético-afetiva com personagens. As leitu-
resse e cultura históricos do autor, alimentados, espe- ras nas literaturas de línguas portuguesa, francesa e
cialmente, pelo conhecimento da história do Brasil e inglesa influenciaram-no de modo decisivo.
de Portugal e por uma familiaridade com o pensa- Portanto, a preocupação com a singularidade
mento social europeu, levam-no a analisar a socieda- e, simultaneamente, com o significado sociológico da
de brasileira, como um todo, numa visão dinâmica experiência individual é uma das principais contribui-
de transformação e de processo. Assim ções de Freyre para a antropologia contemporânea.
complementam-se as abordagens sincrônica e A sua perspectiva histórica, voltada para o processo
diacrônica, embora a primeira tenha a proeminência social, amplia também o escopo de sua teoria da cul-
da marca antropológica. Com essa perspectiva, privi- tura. A valorização da heterogeneidade sócio-cultu-
legiou a construção de modelo interpretativo de ca- ral brasileira permite-lhe estar atento e valorizar o fe-
ráter mais geral a partir, no entanto, de pesquisas de nômeno da reciprocidade e das trocas socioculturais.
fontes, documentos, entrevistas e observação Não se tratava de desconhecer contradições e confli-
etnográfica. Suas hipóteses são baseadas em dados tos, mas de vê-los como dimensão da vida social, apa-
variados e preciosos, obtidos através do olhar de um recendo tanto na sociedade como um todo, como nas
observador e intérprete possuidor de poderoso apa- próprias trajetórias individuais, aproximando-o de
rato teórico-conceitual. Particularmente importantes Simmel (1964 e 1971). Finalmente, sem esgotar, repi-
são as histórias da vida, as cartas, os diários e os de- to, sua notável contribuição, quero ressaltar a lição
poimentos que confirmam a importância das biogra- de sua prosa, clara e cativante, expressão de um espí-
fias e trajetórias individuais para a compreensão dos rito sofisticado, que busca comunicar-se com os seus
modos de ser, paradigmas e projetos. Certamente seu leitores, sem espantá-los pelo hermetismo ou pelo
conhecimento da Escola de Chicago foi também im- tédio.
portante nesse caminho (Thomas e Znaniecki, 1918).
A preocupação com a mudança social afirma- _______________________
se na investigação dos universos de parentesco, redes
Bibliografia
familiares e de alianças, diante das transformações da
sociedade tradicional. A habitação, a alimentação, o BULMER, Martin. The Chicago School of Sociology:
institutionalization, diversity and the rise of sociological
vestuário, a mobília, as técnicas do corpo, as práticas research. Chicago: The University of Chicago Press, 1984.
sexuais, os sentimentos são expressão de uma cultura GERTH, Hans; MILLS, C. Wright. Character and social structure:
e, por sua vez, atuam de volta, reinventando-a, per- the psychology of social institutions. London: Routledge & K.
manentemente. Assim, o cotidiano é objeto privilegi- Paul, 1954.
ado, como locus de continuidade e também de mu- JOAS, Hans. G.H. Mead: a contemporary re-examination of his
thought. Cambridge, The MIT Press, 1997.
dança. Trata-se, portanto, de um culturalismo
SIMMEL, Georg. Conflict. New York: Free, 1964.
dinâmico, oposto a qualquer idéia de imobilismo so- SIMON, Linda. Genuine Reality: a life of William James. New York:
cial. Os agentes são os indivíduos, não como mônadas, Harcourt Brace Company, 1998.
mas como membros atuantes de redes e grupos soci- THOMAS, William I.; ZNANIECKI, F. The Polish Peasant in Europe
ais. Creio que, diretamente, ou através da escola de and America. Boston: Badger, 1918.
Chicago, com R. Park, W. I. Thomas etc. Freyre reto- VILA NOVA, Sebastião. Donald Pierson e a Escola de Chicago na
sociologia brasileira: entre humanistas e messiânicos. Lisboa:
ma com originalidade o pensamento de G. Simmel.
Veja, 1998.
O grande pensador alemão foi uma das maiores in-

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


116
MESA-REDONDA 5
INGLESES NO B RASIL

Dia 23 de março
COORDENADOR:
Diógenes da Cunha Lima
Presidente da Academia Norte-Riograndense de Letras – Brasil
Algumas Influências na Formação
Intelectual de Gilberto Freyre

Paulo Donizéti Siepierski


Historiador – Universidade Federal Rural de Pernambuco/Núcleo de Estudos
Freyreanos – Brasil

A importância de Gilberto Freyre não mação de nossa identidade nacional, Gilber-


reside no número de obras que publicou nem to Freyre fez, na verdade, uma incursão em
nos diversos prêmios e homenagens que re- seu próprio passado. Passado biológico, pas-
cebeu. A relevância de seu pensamento en- sado histórico. Passado dele e passado nosso.
contra-se no fato de que ele foi um verdadei- Passado que se desdobra no presente e se
ro criador, e como tal, suas conclusões projeta no futuro. Passado, presente e futuro,
ultrapassaram em muito os recursos juntos. Tempo tríbio. Gilberto Freyre saiu de
metodológicos por ele utilizados. Conclusões si mesmo para se aventurar em seu passado e
gerais, intuitivas, geradas pela perspicácia, pela ali se achar, na casa-grande, na senzala, no
inteligência, e que se confirmam, quase to- sobrado, no mocambo-mais na casa-grande
das, pela pesquisa científica mais rigorosa pos- e no sobrado do que na senzala e no
terior, levada a efeito por seus críticos, dos mocambo-para depois se encontrar novamen-
mais simpáticos aos mais hostis. Pesquisa mais te no presente, fruto dessa viagem. Presente
rigorosa e por isso mesmo menos criativa. também movimento, também viagem, cujo
E de onde veio essa criatividade genial destino futuro não é só construção do passa-
de Gilberto Freyre? Ora, um gênio não se cria. do mas também do presente. Daí a importân-
Ele existe e pronto. É necessário apenas des- cia do conhecimento da biografia de Gilberto
tampar a garrafa e ele se revela. Em outras Freyre para a compreensão de seu conheci-
palavras, é preciso que haja condições propí- mento. Homem e obra não se separam. E, se
cias para o florescimento e desabrochar da é verdade, como defendem os estudiosos de
genialidade daqueles que, mais aquinhoados sua obra, que em sua tese de mestrado, de-
pela natureza, conseguem dar vida a novas fendida na Universidade Colúmbia, quando
idéias, novos conceitos. Como em um jardim, contava com apenas vinte e dois anos de ida-
florescimento e desabrochar estão sujeitos a de, ele antecipou basicamente toda a sua
muitas influências. Neste pequeno ensaio genialidade, sendo o restante de sua obra
quero apresentar algumas influências na for- desdobramentos desse fiat lux criador, então
mação intelectual de Gilberto Freyre. Primei- será suficiente, pelo menos por enquanto,
ramente, é bom lembrar que sua genialidade conhecermos seus passos do sobrado em que
está em que ele, melhor do que ninguém, nasceu ao mestrado que alcançou, para com-
conseguiu nos dizer quem somos nós. Foi ele preendermos sua formação intelectual.
quem forneceu um relato coerente da forma- Gilberto de Mello Freyre nasceu no
ção de nossa identidade nacional, nossa bio- Recife em 15 de março de 1900 no seio de
grafia como nação. Ele estruturou um mito uma família descendente da decadente aris-
fundador que nos explica quem somos e por- tocracia do açúcar. O término do século
que somos assim. Mas um mito bastante dife- dezenove assistira ao golpe final na econo-
rente daqueles mitos gregos que invariavel- mia escravista e seu impacto nas relações so-
mente terminam em tragédia. Ao explicar o ciais, mais simbólico do que prático. A Aboli-
passado brasileiro Gilberto Freyre declara uma ção expressara a forma legal última do longo
fé inabalável no futuro deste povo, resultado processo de dissolução das bases de nossa
de experiência singular histórica que fundiu colonização. A introdução do trabalho assa-
em uma só três vertentes raciais, com suas tra- lariado no mundo do açúcar sinalizara que
dições, crenças, genialidades. Fusão ainda esse processo era irreversível, a moderniza-
inacabada, ainda conflituosa. ção inevitável. No grande ciclo dessa transi-
Ao intuir e posteriormente relatar a for- ção dois deslocamentos se destacam altisso-

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119
nantes com todas as suas maiúsculas implicações: o após sua formatura no Colégio Americano Batista para
engenho deu lugar à usina e a casa-grande ao sobra- os Estados Unidos, para a Universidade Baylor, uni-
do. Herdeiro da casa-grande de engenho, Gilberto versidade batista no Texas.
Freyre nasce em um sobrado. Mas o Colégio Americano Batista não era ape-
Menino de sobrado, Gilberto Freyre herda nas proselitismo religioso. Primava também pela alta
imensurável capital social e cultural, tanto do lado qualidade de seu ensino. Ali Gilberto Freyre entrou
materno quanto do paterno. Não obstante, já na sua em contato com as obras de grandes intelectuais como
infância ele se revela contrário aos convencionalismos, Taine, Comte e Spencer. Destes, o que mais o influ-
quase um iconoclasta, resistindo ao aprendizado da enciou foi o último, Herbert Spencer (1820-1903),
leitura. Seu pai, o professor e juiz de direito Alfredo sobre quem fez uma conferência em 1916 na capital
Freyre, ao perceber que alguns consideravam tal re- da Paraíba, intitulada Spencer e o problema da edu-
sistência um retardo mental, buscou outros métodos cação no Brasil e de quem mais tarde diria ter recebi-
para despertar o intelecto do filho. Primeiramente foi do "uma das maiores influências que me orientaram
o desenho, aos pés do famoso paisagista Teles Júnior. ou estimularam a formação intelectual".1 Filósofo e
Depois foi a língua inglesa, junto ao inglês anglicano sociólogo inglês, Spencer abraçou a teoria da seleção
Mr. E. O. Williams, que sendo também desenhista, natural proposta por Darwin e cunhou a famosa ex-
conseguiu compreender e estimular o menino, fazen- pressão “survival of the fittest” ["sobrevivência dos mais
do com que ele aprendesse a ler, a escrever e a con- adaptados"]. Segundo um dos principais biógrafos de
tar. Tudo isso mais na língua de Shakespeare do que Freyre, as influências duradouras de Spencer sobre
na de Camões. ele foram o gosto pelos pormenores do cotidiano e o
Alfredo Freyre, sendo admirador da concepção ecologismo. 2 Eu acrescentaria o mencionado
protestante de ensino, que ele julgava superior à ca- "sobrevivencialismo spenceriano", refletido na percep-
tólica, a ponto de ser professor de latim e de portugu- ção da plasticidade do português que o capacitou para
ês no protestante Colégio Americano Gilreath, fun- vencer nos trópicos, aspecto fundamental da forma-
dado no Recife em 1906, hoje Colégio Americano ção da família brasileira sob o regime de economia
Batista, levou Gilberto Freyre a cursar ali o primário e patriarcal. Plasticidade que faltou aos outros compe-
o secundário, de 1908 até 1917. Anglo-americanófilo, tidores europeus, principalmente os holandeses
Gilberto Freyre aprenderá também a língua francesa, calvinistas.
mas esta não o fascinará tanto quanto a inglesa. De Uma outra influência recebida no Colégio Ame-
seu tempo no Colégio Americano Batista talvez o que ricano Batista foi a do filósofo e psicólogo americano
terá influência mais decisiva em sua formação e na William James (1842-1910), o principal expoente do
análise que fará da sociedade brasileira não será a pragmatismo norte-americano, que formulou uma
educação protestante mas sua experiência religiosa definição funcional de verdade e, na psicologia, in-
puritana. troduziu o conceito de experiência consciente indivi-
Os professores do Colégio eram na sua quase dual, esta considerada como uma série contínua de
totalidade missionários batistas. Homens como H. H. ocorrências. O discurso que Gilberto Freyre profere
Muirhead, professor de história, e W. C. Taylor, pro- como orador de sua turma na formatura de segundo
fessor de grego, que tanto despertaram a admiração grau no Colégio Americano Batista, em 26 de novem-
de Gilberto Freyre, eram além de educadores, bro de 1917, reflete bem o pragmatismo de James,
proselitistas. Estes, juntamente com os clássicos do tão ao gosto dos batistas, que ao culto religioso deno-
protestantismo, como o puritaníssimo The Pilgrim's minam "trabalho", tradução livre do "service" ameri-
Progress [O progresso do peregrino] de John Bunyan cano. Batistas que Freyre mais tarde abandonaria, in-
(1628-88) e a biografia do famoso missionário esco- fluenciado pelo mesmo William James, que em The
cês David Livingstone (1813-1873), conduziram Gil- Varieties of Religious Experiences [ As variedades de
berto Freyre ao batismo, marca indelével dos batistas, experiências religiosas] golpeava o conceito monolítico
na Primeira Igreja Batista do Recife, em setembro de de verdade religiosa, cerne do fundamentalismo reli-
1917. Apenas mais uma etapa de sua experiência re- gioso, apresentando o pluralismo das experiências
ligiosa, uma vez que ainda menino já freqüentava a religiosas.3 O paraninfo da turma foi o ministro Oli-
escola dominical e participava das atividades veira Lima, então residente nos Estados Unidos, para
evangelizadoras da igreja. Jovem, versado no Velho e onde Gilberto Freyre rumaria em breve e onde des-
Novo Testamentos, admirador do misticismo frutaria da amizade do ministro.
eclesioclasta de Leon Tolstoi (1828-1910), prega a Na Universidade Baylor, sustentado em parte
mensagem batista pelo Recife afora e sonha em ser pelos batistas e em parte pela família, Gilberto Freyre
missionário. E é com esse intuito que ele embarca logo conheceu A. J. Armstrong, professor de literatura in-

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


120
glesa e especialista em Robert Browning (1812-89), o eclesioclasta. Não retorna ao catolicismo, mas desen-
grande poeta inglês autor de Men and Women [Ho- volve o conceito de uma cultura luso-católica, plásti-
mens e mulheres] e The Ring and the Book [O anel e o ca e absorvente, e por isso mesmo cristocêntrica.
livro]. Foi nos fortes braços de Armstrong que Gilber- Gilberto Freyre, ao abandonar os batistas, in-
to Freyre tornou-se realmente um verdadeiro escri- verte sua admiração pelo puritanismo, e isso terá enor-
tor, e essa dívida ele jamais esqueceu. Armstrong in- mes conseqüências em sua futura análise da forma-
troduziu Gilberto Freyre ao movimento imagista da ção social brasileira pois esta será, segundo ele próprio,
New Poetry [Nova Poesia]. Esse movimento, em revol- "um conjunto que talvez constitua uma autobiografia
ta contra o Romantismo, buscava clareza de expres- coletiva de quase todo o brasileiro, partindo da de
são através do uso de imagens precisas. Desde cedo um indivíduo não só socializado em pessoa como
inclinado ao desenho, Gilberto Freyre rapidamente aculturado em, além de participante, analista e intér-
acolheu o imagismo, o qual frutificou em Casa-Gran- prete da cultura nacional por ele como
de & Senzala, repleta de imagens. autobiografada".5 Assim, o intérprete é, como povo,
Também foi em Baylor, e novamente por inter- sujeito e objeto de sua interpretação, da interpreta-
médio de Armstrong, que Gilberto Freyre travou con- ção de quem é o brasileiro, este, que é, "como gente,
tato com dois outros poetas cujas influências seriam na sua maioria mais dionisíaca do que apolínea".6
perenes na obra gilbertiana. Quando do jubileu da E nessa interpretação de quem é o brasileiro,
universidade, em 1920, Armstrong organizou uma de quem é si mesmo, Gilberto Freyre utiliza um eixo
série de conferências, trazendo os principais poetas e central que lhe permite se deslocar o tempo todo por
escritores da época. Entre eles estavam a americana todo o tempo, para trás e para frente, tribiamente,
Amy Lawrence Lowell (1874-1925) e o irlandês articulando seus pensamentos, por vezes paradoxais,
William Butler Yeats (1865-1939). Amy Lowell-irmã se tomados em suas singularidades, dando-lhes uma
do famoso astrônomo Percival Lowell (1855-1916), coerência sistemática. Esse eixo central é a religião e
que antecipou a existência de um nono planeta após a religiosidade do brasileiro, e, de certa forma, do bra-
Netuno e por isso, quando Plutão foi descoberto em sileiro Gilberto Freyre. Embora ele mesmo não tenha
1930 seu nome carregou as iniciais de Percival Lowell- produzido nenhum texto de caráter especificamente
seguia a linha imagista, tendo publicado em 1916 Men, religioso, seus mais argutos críticos já observaram a
Women and Ghosts [Homens, mulheres e fantasmas] centralidade da religião em sua interpretação da soci-
no qual realizou diversas experiências com a prosa edade brasileira. De fato, Benzaquen de Araújo, após
polifônica. Gilberto Freyre travará frutífera amizade ponderar sobre o "enorme e quase paradoxal desta-
com Amy Lowell, amizade que se intensificará quan- que recebido pela religião e, mais especificamente,
do de sua mudança para Colúmbia, mais perto da pelo catolicismo em CGS ", prossegue para sugerir que
bostoniana Amy Lowell, e que se perenizará na "a reflexão de Gilberto é atravessada, de ponta a pon-
polifonia de Casa-Grande & Senzala. Já Yeats era inte- ta, por uma referência negativa e raramente explicitada
ressado no simbolismo e, sobretudo, no misticismo e ao puritanismo , referência que se comporta como se
no oculto. Em 1923 seria laureado com o prêmio fosse uma espécie de fio quase invisível que procura
Nobel de literatura. Segundo Vamireh Chacon, Gil- costurar praticamente todas as partes do raciocínio
berto Freyre teria herdado de Yeats a preocupação do nosso autor".7 Semelhantemente, Fonseca, talvez
com o sobrenatural difuso, preocupação essa cristali- o maior gilbertólogo vivo, após notar que "logo no
zada em Assombrações do Recife Velho. 4 primeiro capítulo de Casa-Grande & Senzala Gilberto
Mas em Baylor Gilberto Freyre não foi influen- Freyre observa que 'o Catolicismo foi realmente o ci-
ciado apenas pela literatura. Waco, cidade onde se mento da nossa unidade'", afirma que "o cimento da
localiza Baylor, fica no centro do Texas, não muito unidade freyreana é, na diversidade temática de sua
distante de San Antonio e do famoso Forte Álamo, de obra, a cosmovisão cristocêntrica".8 Cristocentrismo
Davy Crockett e seus voluntários que morreram no cultural, incompatível com o puritanismo.
embate entre as forças mexicanas e os defensores da E assim, abandonando seus planos para ser mis-
independência do Texas. É uma região de encontro sionário batista e rejeitando sua formação puritana,
de duas culturas, a espanhola-mexicana e a anglo- Gilberto Freyre, ao concluir o bacharelado em Baylor
saxã. Ali Gilberto Freyre descobriu sua ibero- parte para a cosmopolita Nova Iorque, para o
americanidade, e esta em conflito com sua anglofilia. mestrado na Universidade de Colúmbia. Mestrado
Duas culturas, uma católica, dionisíaca, a outra pro- possibilitado por uma bolsa de estudos conseguida
testante, apolínea. E ali, numa universidade batista, graças a intercessão dos batistas de Baylor e do diplo-
ele vai abandonar o protestantismo em favor de um mata historiador Oliveira Lima, complementada pela
cristianismo abrangente, sem dogmas nem doutrinas, família. Saindo de Baylor como escritor, será em

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


121
Colúmbia que ele se tornará também cientista social- da morte deste, Gilberto Freyre frisa que o cardeal
sociólogo-antropólogo-historiador sob a orientação de em vida "não se descuidava da etiqueta, da pompa,
Franz Boas (1858-1942), um dos pioneiros da mo- do cerimonial das solenidades." Ou quando do faleci-
derna antropologia. mento do papa Benedito XV, oportunidade em que
Em Nova Iorque Gilberto Freyre travará conta- diz que o darwinismo fizera grande número de pro-
to com o pensamento do jornalista e crítico literário testantes perder o rumo: "uns aceitando-o, renuncia-
H. L. Mencken (1880-1956). Este se opunha forte- ram a mais vaga fé no sobrenatural; outros o recusa-
mente ao domínio da cultura européia na América e ram intransigentemente da torre gótica do seu
em um dos seus mais famosos livros, publicado em literalismo bíblico."9 Para Gilberto Freyre a cultura
1919, no tempo em que Gilberto Freyre estava em católica era mais plástica, mais flexível, com maior
Baylor, intitulado The American Language [ A língua capacidade de assimilação, ao passo que a cultura
americana], despertou a crítica dos puristas literários protestante, mais dura, mais rigorosa, mais intransi-
ao defender o vigor e a versatilidade do uso coloquial gente, era menos receptiva à diversidade e menos rica
da língua inglesa na América. Gilberto Freyre também em termos estéticos. Essa percepção será fundamen-
suscitará críticas semelhantes ao rechear Casa-Gran- tal para a construção do argumento central de Casa-
de & Senzala com coloquialismos. Grande & Senzala.
Também em Nova Iorque Gilberto Freyre lerá E será das boas mãos de Franz Boas que Gilber-
George Santayana (1862-1952), filósofo, poeta e no- to Freyre receberá o instrumental necessário para ela-
velista nascido na Espanha mas radicado nos Estados borar uma argumentação com aspirações de
Unidos. Seguidor do esteticismo, Santayana publica- cientificidade sobre a plasticidade da cultura luso-ca-
ra em 1896 The Sense of Beauty [O sentido da bele- tólica, plasticidade esta que permitira a miscigenação
za], onde ensinava que o ponto fundamental para a do português com o índio e o negro, formando um
nossa vida é a experiência: aceitamos como real aquilo povo adequado à vida nos trópicos. Longe de ser uma
que os nossos sentidos nos trazem; invariável e eter- corrupção, a miscigenação teria sido a solução para a
no não é o reino das idéias, mas a matéria. Não ocupação européia dos trópicos. Tal miscigenação
obstante esse materialismo, Santayana será simpático somente fora possível graças à plasticidade da cultura
ao catolicismo devido, sem dúvida, ao potencial esté- luso-católica. Esse é o argumento básico de Casa-Gran-
tico deste. Em Harvard, onde Santayana lecionou até de & Senzala .
1912, dizia-se que ele não acreditava em Deus, mas Franz Boas era de uma família judaica aculturada
estava convencido de que Deus nascera de Nossa na Alemanha e migrara para os Estados Unidos em
Senhora. Nesse contexto é fácil entender porque Gil- 1888. Em Colúmbia desde 1896, Boas desenvolvia
berto Freyre, escrevendo de Nova Iorque ao irmão estudos antropológicos caracterizados pelo
Ulysses, diz que "Santayana é a minha grande desco- ateoricismo e pela propensão etnográfica. Assim, evi-
berta. É ele quem está me reconciliando com o cato- tando qualquer generalização teórica e buscando des-
licismo. Sinto que a sua interpretação mais do que crever o mais acuradamente possível uma cultura,
filosófica, poética, da concepção católica da vida, Boas se opunha às três escolas que dominavam o ce-
corresponde a alguma cousa de profundo que escapa nário das teorias racistas da época. A primeira era a
aos filósofos simplesmente filosóficos." Não é de ad- escola etnológico-biológica, que afirmava que a pres-
mirar-se, portanto, que da pena de Santayana sairia, suposta superioridade da raça branca se evidenciava
mais tarde, em 1935, uma espécie de epitáfio da tra- nas diferenças físicas (medidas cranianas, estruturas
dição cultural norte-americana, o romance The Last do esqueleto, etc.) em relação às outras raças. Nesta
Puritan [O último puritano]. escola a antropologia física pretensamente fornecia a
A reconciliação de Gilberto Freyre com a cultu- base científica de suas afirmações. A segunda escola
ra católica em Nova Iorque será acompanhada pela lançava mão da História para defender que as raças
ampliação de sua ibero-americanidade em latino- estavam em diferentes estágios civilizatórios, sendo
americanidade quando de sua visita a Montreal. Sen- que a raça branca estava na vanguarda do processo
tido-se em casa no Canadá francês, Gilberto Freyre de civilização. A terceira escola, denominada
aprofunda sua percepção das contradições existentes darwinismo social, defendia que na marcha evolutiva
entre o bloco cultural latino e o bloco cultural anglo- para formas superiores de vida natural apenas os mais
saxônico. E em nenhum outro lugar tais contradições aptos sobreviveriam, num processo de seleção natu-
se expressaram melhor do que na arena religiosa. De ral. Assim, as raças superiores predominariam enquan-
um lado o catolicismo, dionisíaco, e de outro o pro- to as inferiores definhariam e por fim desapareceri-
testantismo, apolíneo. Assim é que, ao falar sobre o am.
cardeal Gibbons, arcebispo de Baltimore, na ocasião Com Boas Gilberto Freyre aprenderá a distin-

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


122
guir entre raça e cultura; os diferentes estágios and experiences of religion seem to me sufficiently met by the
civilizatórios não seriam frutos de relações puramen- belief that beyond each man and in a fashion continuous with him
there exists a larger power which is friendly to him and to his
te genéticas mas da herança cultural e das influências ideals. All that the facts require is that the power should be both
do meio. Em sua tese de mestrado, defendida em other and larger than our conscious selves. Anything larger will do,
1922, intitulada Social Life in Brazil in the Middle of if only it be large enough to trust for the next step." James, William.
the 19 th Century [Vida social no Brasil nos meados do The Varieties of Religious Experiences: a Study in Human Nature.
Nova Iorque, Mentor Books, 1958, p. 396.
século XIX], Gilberto Freyre já expressará tal distinção, 4
Chacon, op. cit., p. 79.
mas será em sua obra-mestra que ele reconhecerá toda 5
Freyre, Gilberto. Insurgências e ressurgências atuais: cruzamen-
sua dívida para com Franz Boas: "Foi o estudo de tos de sins e nãos num mundo em transição. Rio de Janeiro, Globo,
Antropologia sob a orientação do Professor Boas que 1983, pp. 53-54.
primeiro me revelou o negro e o mulato no seu justo 6
Idem, p. 63. Foi Nietzche quem ressuscitou os cadáveres mitoló-
gicos de Apolo e Dionísio na era moderna, identificando o primei-
valor – separados dos traços de raça os efeitos do
ro com a racionalidade moderna em oposição ao segundo.
ambiente ou da experiência cultural. Aprendi a con- 7
Araújo, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz: Casa-Grande &
siderar fundamental a diferença entre raça e cultura; Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro,
a discriminar entre os efeitos de relações puramente Editora 34, 1994, pp. 75 e 98.
genéticas e os de influências sociais, de herança cul- 8
Fonseca, Edson Nery da. "Gilberto Freyre e sua cosmovisão
tural e de meio. Neste critério de diferenciação fun- cristocêntrica", em Ciência & Trópico, Recife, (18), p. 176.
9
Freyre, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jor-
damental entre raça e cultura assenta todo o plano nais na adolescência e na primeira mocidade do autor (1918-1926).
deste ensaio."10 Volume 1. São Paulo e Brasília, IBRASA e INL, 1979, pp. 117 e
Do sobrado ao mestrado, a formação intelectu- 207.
al de Gilberto Freyre foi múltipla e variada. Sua as- 10
Freyre, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 12ª ed. Brasileira e
cendência aristocrática possibilitou-lhe recursos finan- 13ª ed. em língua portuguesa. Brasília, Editora Universidade de
Brasília, 1963, p. 5.
ceiros, uma grande rede de relacionamentos e um
ambiente propício para a expressão de sua
genialidade. Dos primeiros desenhos e letras com Mr.
Williams até as teorias mais complexas com Franz
Boas, Gilberto Freyre esteve sempre em contato com
a vanguarda do pensamento de sua época, o qual lhe
era continuamente apresentado por seus mestres. Sua
experiência com o protestantismo, do qual se afastou
mais tarde, permitiu-lhe um olhar mais distanciado
da cultura luso-católica e posteriormente, quando do
aprendizado com Franz Boas, a construção da teoria
da formação da identidade brasileira. Sua ida para os
Estados Unidos, onde apercebeu-se de sua ibero-
americanidade no encontro com a cultura mexicano-
espanhola e de sua latino-americanidade no encon-
tro com a cultura francesa do Canadá, colocou-o no
circuito intelectual internacional da época. Assim foi
a formação intelectual de Gilberto Freyre e tais foram
as condições propícias para o florescimento e desa-
brochar de sua genialidade, genialidade esta expres-
sa de forma inequívoca em Casa-Grande & Senzala ,
talvez o livro mais importante sobre a identidade bra-
sileira.

_______________________

Notas
1
Freyre, Gilberto. "Advertência do autor", Retalhos de jornais ve-
lhos; 2ª ed. Revista e aumentada de Artigos de Jornal. Recife: Casa
Mozart, 1934, p. XXV.
2
Chacon, Vamireh. Gilberto Freyre: uma biografia intelectual. Re-
cife/São Paulo: Editora Massangana/Editora Nacional, 1993, p. 45.
3
Concluindo seu famoso livro, James diz que "the practical needs

S EMINÁRIO IN T E R N A C I O N A L NO V O M UNDO NOS TR Ó P I C O S


123
Alguns Aspectos da Influência Britânica
sobre a Vida Brasileira e Comentários em
torno do Livro Ingleses no Brasil, de Gilberto
Freyre.
João Hélio Mendonça
Antropólogo – Universidade de Pernambuco/Fundação Joaquim Nabuco –
Brasil

A influência britânica sobre nós brasi- viveu seis anos no Brasil e escreveu um diá-
leiros foi grande, diversificada e remonta mes- rio.
mo ao século XVI ou aos inícios da nossa co- Já no século XVI registrava-se a presen-
lonização. Não se restringiu, como muitos ça dos corsários ingleses ou os históricos
pensam, ao lado puramente tecnológico, às "English privateers" 1 nas costas brasileiras. Fo-
maquinarias, ao desenvolvimento das manu- ram eles, entre os mais famosos, William
faturas, à indústria têxtil, às nossas estradas- Hawkins; Edward Fenton; Walter Raleigh
de-ferro ou ao telégrafo. "Os ingleses, quase (mais tarde Cavaleiro do Império Britânico);
tanto quanto os franceses, madrugaram sob a Cavendish (com suas célebres táticas de guer-
forma de piratas, aventureiros e negociantes, rilha naval) e James Lancaster (com as
nas praias da América tropical descobertas por investidas em Pernambuco). Lancaster, em
portugueses e espanhóis, e distanciando-se dos seguida, iria ser Governador Geral da East
franceses, por largos anos seus rivais, os ingle- India Co, e também agraciado com o título
ses acabaram alcançando entre nós, sob a for- de Cavaleiro ou Sir no Império Britânico.
ma de negociantes e técnicos, uma prepon- A Caesalpina brasiliensis, a ibirapitanga
derância econômica que, ostensivamente nos para os tupis ou o nosso pau-brasil, era ma-
dias de Dom João VI regente e depois rei – deira para marcenaria de luxo e ótimo corante
quando aquela predominância assumiu aspec- para a indústria têxtil européia. Por isso, ele
tos francamente imperialistas e não apenas marcou o primeiro período da vida econômi-
imperiais – acentuou-se de 1835 a 1912, para ca da colônia e foi também um chamariz para
só então começar a declinar lentamente os corsários. As costas brasileiras imensas, o
vencida pela expansão norte-americana e mi- gentio, as feitorias, o açúcar, os portos e as
nada pela alemã", escreve Gilberto Freyre, no cidades foram sempre atração suficiente para
livro Ingleses no Brasil, obra notável de análi- os ingleses, excelentes navegadores. Cessada
se dos aspectos da influência britânica sobre a União Ibérica em 1640, voltam Portugal e
a vida, a paisagem e a cultura do Brasil e, com Inglaterra ao estado de ''ótimas relações”. A
certeza, uma contribuição definitiva para a amizade luso-inglesa tinha se mantido desde
compreensão da história das relações anglo- o início da história de Portugal, quando cru-
brasileiras. zados britânicos haviam ajudado portugueses
Registrando inúmeros aspectos dessa na expulsão dos árabes para o Sul e na toma-
influência, Freyre foi o primeiro autor brasi- da do porto de Tejo.
leiro a transcrever, num livro-ensaio, essa pre- Essa aliança luso-inglesa já fora tão ínti-
sença. O livro, como se sabe, é quase o único ma que várias famílias nobres de Portugal eram
no gênero e é resultado de extensiva pesqui- de origem inglesa. O enlace de Carlos II da
sa em várias fontes. Também conta com ilus- Inglaterra com Catarina de Bragança, em
trações demonstrativas do império inglês no 1622, deu aos britânicos o direito de estabe-
mundo, contém trechos de diários, aponta- lecer feitorias em domínios portugueses como
mentos, notas e referências de obras impor- Goa, Diu, Cochim, Bahia e Pernambuco. Em
tantes e "accurate" sobre o Brasil, seu povo, 1654, no tratado entre Portugal e os ingleses,
seus costumes e hábitos. Sem deixar de estar feito por Cromwell, reservou-se à Marinha
atento a outra grande influência no Brasil, a Britânica o monopólio sobre o comércio das
francesa, Gilberto Freyre já havia escrito o mercadorias inglesas com outros países, inclu-
notável Um Engenheiro Francês no Brasil, so- sive Portugal, sem direito à reciprocidade; e
bre o engenheiro Loius Léger Vauthier que permitia-se, pois, aos ingleses, negociar dire-

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124
tamente entre Brasil e Portugal, rompendo pela pri- indústria têxtil, de usinas de açúcar, de fundição, de
meira vez o monopólio colonial português no Brasil. maquinaria em geral e de eletrificação teve a partici-
Sabe-se que os ingleses tinham um status pação britânica, pois aquele século corresponde ao
privilegiadíssimo em Portugal e nas suas colônias. Ape- auge daquele império, quando existiu uma verdadei-
nas os ingleses dispunham em Portugal de liberdade ra dominação de nossa economia pela Inglaterra. E
de culto e imunidade do alcaide, o que significava Pernambuco, pela sua localização mais oriental, por
que eles só podiam ser presos com mandato judicial. sua maior proximidade em relação à Europa e ao he-
Registre-se que pouquíssimos lusos detinham tal pri- misfério Norte, foi centro de especial interesse inglês,
vilégio. Nas colônias de Portugal, como o Brasil, os como ponto economicamente estratégico para ope-
ingleses dispunham até de seus próprios juízes, para rações comerciais. A documentação é vasta sobre essa
julgá-los ou expedir mandato de prisão e possuíam presença. Ela está na história de nossas agências ma-
total liberdade de culto. rítimas, na história dos bancos, nas associações e jun-
Cedo os ingleses se convenceram de que en- tas comerciais, nas companhias de eletricidade, nos
contrariam no Brasil excelente oportunidade para a transportes, nas fábricas, nos clubes e no bairro do
expansão do seu comércio e de sua indústria e assim porto. E sabe-se que o Porto do Recife chegou ao seu
a sua presença e a sua influência entre nós foram tão auge no século XIX, pois foi este o de seu maior de-
marcantes que mesmo os portugueses que aqui che- senvolvimento, o dos grandes veleiros, das viagens de
gavam vinham contagiados por essa influência2. Mui- estudos e da intensificação da navegação a vapor.
to do Brasil colonial, sobretudo nos aspectos econô- Em luxuosa e exclusiva edição bilíngüe, come-
micos, foi decidido pelos ingleses quando a metrópole, morativa dos 125 anos do Lloyds Bank no País, A Pre-
diante do mercantilismo crescente daquele país, já sença Britânica no Brasil é estudada. O livro, com mui-
potência privilegiada, revendia nossos produtos à Ilha3. tas gravuras, registros e depoimentos, se constitui
Diferente da influência francesa, que foi mais nítida numa amostra das mais significativas sobre essa
nas camadas e na cultura refinada do país, a inglesa temática. Nas suas primeiras páginas, o autor de In-
com seus técnicos, comerciantes, mecânicos, gleses no Brasil, respondendo à pergunta: O que era
telegrafistas, marinheiros e aventureiros chegou tam- inglês no Recife no século XIX?, enumera: o chefe das
bém ao homem do povo. Essa influência é refletida empresas ferroviárias e de navegação; o engenheiro;
em vários aspectos da nossa vida, indo desde o artís- o importador de bacalhau, de vidros, de ferragens, de
tico-literário e os sofisticados das classes altas, mas tam- manteiga, de bebidas, de tecidos; o leiloeiro; o "alto
bém atravessando o médio e chegando ao homem negociante"; a "firma sólida". O que mais o represen-
comum brasileiro. O golfe e o tênis foram influências tava: a roupa de brim branco, a casimira, o boné, o
típicas das classes sofisticadas e altas. O futebol, cer- chapéu de cortiça, o paletó de xadrez à príncipe de
tamente o esporte mais popular do Brasil, foi uma in- Gales, o cachimbo, o uísque, o gim, o rum, as grades
fluência sobre as classes baixas. de ferro nas casas, o rosbife, o sabonete, o pijama,
alguns tipos de barba, o gramado do jardim, o cabo
Influência inglesa no Brasil e em Pernambuco do submarino, o chá, a louça, a novela policial, a casa de
século XIX campo, o sanduíche – já feito, às vezes, alimento
Sobre a influência inglesa no Brasil, embora um aculturado o pão de trigo (comprado na Inglaterra),
tema ainda não muito aprofundado pela historiografia, com salsicha alemã e tomate de Pesqueira (tudo isso
existe, conforme já assinalado, a obra notável de Gil- acabou no cachorro-quente) – o footing, o gosto pelo
berto Freyre, Ingleses no Brasil. Nesse livro está regis- cavalo e pelo buldogue, o piquenique, o presunto, o
trado que com o "mister" o brasileiro aprendeu muita clube, o futebol, o golfe, o olho azul das misses não
coisa e pode-se atribuir a ele a introdução no País do só para inglês ver, os anglicismos, a pontualidade bri-
terno branco, do chá, do pão de trigo, da cerveja e tânica, o cemitério dos ingleses, onde foi enterrado
depois do uisque, do gin, do rum, do bife com bata- Abreu e Lima, a Igreja Anglicana da Rua da Aurora,
tas, do rosbife, da costeleta de carneiro e do pijama com renques de pitangueiras e o livro inglês em tra-
de dormir. Ainda do rifle esportivo, do tênis e de ou- dução francesa.
tros esportes, de métodos modernos de ensino de É que em Pernambuco essa influência foi, entre
meninos, do acréscimo da educação física à intelec- as regiões do Brasil, das mais marcantes, com o algo-
tual, do hábito ou o gosto pelo lanche ou pelo sandu- dão, com a indústria têxtil, com as usinas de açúcar,
íche, do piquenique, do interesse pelas maneiras fi- com as estradas de ferro e com os clubes e os bares
nas, etc. É que, no Brasil do século XIX, quase tudo fundados por ingleses. O bar, até há pouco o mais
do comércio, da importação e da exportação, dos antigo do Recife, o The British Shipchandler foi de in-
transportes marítimos e ferroviários, do algodão e da gleses. No Recife, existe também um cemitério de in-

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125
gleses o The British Cemetery. O historiador James C. Fletcher – deixaram, em língua inglesa, depoimen-
Henderson, autor da History of the Brazil, das primei- tos e relatos interessantíssimos sobre a história e a vida
ras histórias publicadas sobre o Brasil, editada em social do Brasil colonial e são, sem qualquer dúvida,
Londres no ano de 1821, no capítulo sobre uma das fontes mais ricas para a compreensão e o
Pernambuco, além de falar sobre vários subúrbios do estudo da história social do Brasil5.
Recife como Monteiro, Boa Vista e Santo Amaro, cha- O inglês Henry Koster, por exemplo, não foi só
ma a atenção para o cemitério e escreve "the English cronista e visitante de Pernambuco. Aqui ele fixou
have a burying ground at St. Amaro, not far from Boa residência, foi comerciante de tecidos e senhor de
Vista". “Os ingleses têm um cemitério em Santo Amaro, engenho. Durante sua permanência entre nós, de mais
não longe da Boa Vista”.3 de dez anos, o depoimento desse inglês de família de
Noutro trecho dessa história, Henderson escre- Liverpool, que chegou a ser conhecido pelos brasilei-
veu porque a localidade de "Boa Viagem", no Recife, ros como Henrique Costa, é dos mais importantes
hoje importante bairro turístico e residencial, é assim sobre o porto; a vida social e comercial; a etnografia
denominada: tradicional do povo, do sertanejo; os meios de trans-
porte; as viagens; etc. Suas crônicas sobre o Brasil fo-
It was formely the general Antigamente era costume,
custom and is at present not e ainda hoje, que navegado-
ram publicadas no livro Travels in Brazil, editado em
uncommon for navigators and res e outros, antes de embar- Londres no ano de 1816. Transcrevendo pequenos
others previously to embark- carem no oceano apresentas- trechos desse cronista, sobre o porto e o Bairro do
ing upon the ocean, to present sem oferendas nesse lugar, Recife, vê-se sua grande capacidade de observação.
offerings here, receiving in re- recebendo em retorno as ora- Quando chegou ao porto do Recife, a bordo do pa-
turn the prayars of the padre ções do padre para uma boa
quete Lucy, vendo uma jangada, escreveu:
for a good voyage; and hence viagem, daí o lugar ser chama-
the place is called Boa Viagem. do Boa Viagem.
Nothing this day created so much Nada do que vimos nesse dia
Muitos arredores e subúrbios do Recife foram Astonishment on board our ship, Criou tanto espanto a bordo
amongst those who had not been Do nosso navio entre aqueles
marcados pela presença inglesa, pois esses locais eram before upon this coast, as the Que não tinham visitado esta
sempre preferidos por eles para suas residências. É o "jangadas", sailing about in all costa, como as jangadas
caso dos arrabaldes de Parnamirim, Ponte D'Uchoa, directions ( Koster, 1816:3). navegando
Monteiro, Apipucos e Casa Forte, onde se encontra- Em todas as direções.
The town of Santo Antonio do
vam inúmeras moradias de ingleses, formadas por chá- Recife, A Vila de Santo Antônio do
caras e sítios. Houve influência, particularmente in- commonly called Pernambuco, Recife,
glesa também no desenvolvimento dos seus subúrbios. though the lather is properly Comumente chamada
Essa influência "que se iniciou em 1808 e que foi mais the name of the captaincy, Pernambuco, embora
consists Este seja propriamente o nome
suburbana do que propriamente urbana, é suscetível of three compartments Da capitania, consiste em três
de ser observada nos chalés e chácaras mais antigos connected bairros ligados por duas pontes...
dos bairros ribeirinhos", diz Evaldo Cabral de Mello by two bridges...
no seu estudo sobre as formas e as cores do Recife (E. A extremidade sul desse banco se
The Southern extremity of the this alarga e forma o local desta parte
Cabral de Mello, 1951:21). bank da cidade, particularmente
O escritor pernambucano Mario Sette, no seu expands and forms the site of that chamada
livro Maxambombas e Maracatus, faz referência aos part of the town particulary Recife, colocada precisamente
ingleses que habitavam o arrabalde do Parnamirim, called dentro
Recife, as being immeditely dos recifes.
na época formado por magníficas chácaras e sítios e within the reef
preferido por eles para residência (M. Sette, O primeiro bairro da cidade é
1981:224). Daí ser fácil compreender por que no sé- The first division of the town is composto de casas de tijolos,
culo passado foi maior o número de viajantes e cro- composed of brick houses of com
three, four, três, quatro e mesmo cinco
nistas ingleses que visitaram e até residiram no Nor- and even five stories in height; andares.
deste do Brasil. E do Nordeste era a província de most of the streets are narrow, Estreitas em sua maioria, as
Pernambuco, com o seu porto do Recife, que detinha and casas mais antigas que são
a maior importância. some of the older houses in the situadas
minor streets are of only one em ruas estreitas não têm sequer
Nenhum curioso verdadeiro ou amante de story um andar (Koster, 1978:30).
Pernambuco pode deixar de se interessar pela crôni- height (Koster, 1816:6).
ca dos numerosos viajantes que passaram por aqui,
sobretudo os ingleses. Esses cronistas – entre os quais, Koster, como outros viajantes de língua inglesa
Henry Koster, Maria Graham, James Henderson, em Pernambuco no século XIX, comentava e achava
Richard Burton, Charles Darwin, Daniel Kidder, James estranho a altura e o número de andares dos prédios

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126
e casarões dos bairros centrais do Recife. Quase to- by three bridges, and divided de água doce, ligada por três
dos escreveram também sobre as particularidades e a into as many parts; Recife, pontes, e dividida em muitas
formação natural do porto e de seus arrecifes. Sobre properly so called, where are partes; Recife, como é propri-
the castles of defence, and he amente denominado, é onde
o porto anotou Koster: dockyard, and the traders; ... estão os fortes de defesa, o
(M Graham, 1824:100) porto e os comerciantes...
The upper harbour of O porto superior do Re-
Recife, called The Mosqueiro, cife, chamado O Mosqueiro, I was struck by the grat Fiquei chocada pela gran-
as has been already said is como já tenho dito, é forma-
preponderance of the black de preponderância da popu-
formed by the reef of rock do por uma cadeia de rochas, population. By the last census lação negra. Pelo último cen-
which runs parallel with the correndo paralelamente à ci-
the population of Pernambuco so a população de
town at a very small distance. dade e a uma pequena dis-
including Olinda was seventy Pernambuco, incluindo
The lower harbour, for vessels tância. O porto inferior, para thousand, of which not above Olinda, somava setenta mil,
of 400 tons and upwards, navios de 400 toneladas ou
one third are white; the rest dos quais não acima de um
called the Poço, is very danger- mais, chamado Poço, é muito are mulattoes or negroes (M. terço são brancos; e o resto
ous as it is open to the sea, and perigoso, aberto para o mar,
Graham, 1824:125) são mulatos ou negros.
the beach opposite to it is very e a baía oposta é escarpada.
steep.
Péssima impressão teve do Recife o ilustre ci-
A senhora inglesa Maria Graham foi também entista, pai da teoria da seleção das espécies, Charles
presença importante na província de Pernambuco no Darwin, que, a bordo do H. M. S. Beagle, visitou
século passado, escrevendo o livro: Journal of a Voyage Pernambuco e anotou no seu diário, no dia 12 de
to Brazil, and residence there during part of the years agosto de 1832, períodos não muitos lisonjeiros so-
1821, 1822, 1823; publicado em Londres no ano de bre a cidade.
1824, e de valor inestimável do ponto de vista da his-
tória social e da sociologia. Visitando Pernambuco pela On the 12th we ran into No dia 12 aportamos em
Pernambuco, a large city on Pernambuco, grande cidade
segunda vez, na época da revolução de 1824 ou da
the coast of Brazil, in latitude na costa do Brasil, latitude 8o
Confederação do Equador, Mrs. Graham, então viúva 8o South. We anchored out- Sul. Largamos âncora fora dos
do Comandante da fragata inglesa Doris, o Capitão side the reef; but in a short recifes, não tardou porém veio
Thomas Graham, teve relevante papel como interme- time a pilot came on board and ter conosco um piloto que nos
diária entre o Almirante Cochrane e Manuel de Car- took us into the inner harbour, conduziu ao ancoradouro in-
valho Paes de Andrade. Thomas Cochrane, Conde de where we lay close to the terior, onde ficamos bem pró-
town. ximos da cidade.
Dun Donald e Marquês do Maranhão, foi um almi-
Pernambuco is built on Pernambuco acha-se
rante inglês a serviço do governo brasileiro que co- some narrow and low sand- construída sobre bancos de
mandou o bloqueio contra Pernambuco e contra Ma- banks, which are separated areia estreitos e altos, separa-
nuel de Carvalho Paes de Andrade, presidente da from each other by charcoal dos um do outro por canais
Confederação. Mas seu diário ou Journal não se resu- Channels of salt water. The rasos de água salgada. As três
me à sua participação na Confederação. Muito pelo three parts of the town are partes da cidade estão ligadas
connected together by two entre si por meio de compri-
contrário: "seu diário é a descrição viva, movimenta- long bridges built on wooden das pontes sobre pilares de
da, animada, cheia de interesse humano pela sorte piles. The town is in all part madeira. A cidade é por toda
das pessoas, dos bichos, das plantas, das coisas e de disgusting the streets being parte detestável, as ruas estrei-
tudo que formava a paisagem e servia para agitar as narrow, ill-paved, and filthy; tas, mal calçadas e imundas,
cenas a que assistiu", assinalou o escritor Waldemar the houses, tall and gloomy. as casas altas e lúgubres. A es-
The season of heavy rains had tação das chuvas acabava ape-
Valente no livro sobre essa dama inglesa: Maria
hardly come to an end, and nas de findar-se, de maneira
Granham: uma Inglesa em Pernambuco nos Começos hence the surrounding coun- que a região adjacente quase
do Século XIX. try, which is scarcely raised não se acha acima do nível do
Alguns trechos de seu diário: above the level of the sea, was mar e apresenta-se completa-
flooded with water, and I failed mente alagada, pelo que não
The town of Recife de A cidade do Recife de in all my attempts to take long logrei fazer passeios distantes.
Pernambuco, or the Reef of Pernambuco, ou o Recife de walks. No terreno plano e pan-
Pernambuco built by the Pernambuco, construída pelos The flat swampy land on tanoso, no qual se acha
Dutch, under Maurice of holandeses, sob Maurício de which Pernambuco stands Is Pernambuco, está cercado na
Nassau, and by them called Nassau, e então denominada surrounded, at the distance of distância de alguns quilôme-
Maurice town. It is a singular por eles cidade Maurícia. É a few miles, by a semicircle of tros, por um semicírculo de
spot, well fitted for trade; it is um sítio singular, bem dotado low hills, or rather by the edge colinas baixas ou melhor, por
situated upon several sand para o comércio; e é situado of a country elevated perhaps uma crista de elevação, atin-
banks, divided by salt water sobre vários bancos de areia, two hundred feet above the gindo talvez 70m acima do
creeks and the mouth of two dividida por enseadas de água sea. The old city of Olinda nível do mar. A velha cidade
fresh water rivers, connected salgada e na boca de dois rios stands on one extremity of this de Olinda está situada em

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127
range. One day I took a ca- uma das extremidades dessa de que na língua inglesa tem a conotação de título,
noe, and proceeded up one of crista. Tomei um dia uma ca- apólice, bônus ou debênture, veio a significar entre
the channels to visit it; I found noa e segui por um dos canais nós o próprio veículo ou o tram, que é um veículo
the old town from its situation na idéia de visitá-la e encon-
both sweeter and cleaner that trei-a pela sua situação, mais
elétrico de transporte urbano que se move sobre tri-
of Pernbambuco. I must here agradável e mais asseada que lhos. Os bondes operaram até os fins dos anos 50 no
commemorate what hap- Pernambuco. Devo aqui co- Brasil e eram o meio de transporte principal das cida-
pened for the first time during memorar o que aconteceu, des brasileiras. Em Pernambuco, a Pernambuco
our nearly five years wander- pela primeira vez, durante Tramways com seus bondes; em São Paulo, a The São
ing, namely, having met with quase todo espaço de cinco
Paulo Railway Light and Power Co. Ltd; no Rio de Ja-
a want of politeness: I was re- anos em que peregrinamos, a
fused in a sullen manner at two saber: falta de civilidade: fui
neiro a Rio de Janeiro Tramways, Light and Power Co.
different houses, and obtained recusado de uma maneira eram as companhias que forneciam transportes cole-
with difficulty from a third, grosseira em duas casas e ob- tivos às populações.
permission to pass through tive, com dificuldade, numa Em muitas cidades brasileiras, o planejamento
their gardens to an unculti- terceira, permissão para atra- e o desenvolvimento urbano não escaparam da influ-
vated, hill, for the purpose of vés de seus jardins, um morro
ência e participação direta dos britânicos. O caso do
the viewing the country. I feel não plantado, ter visão da pai-
glad that this happened in the sagem. E me sinto contente Jardim América, em São Paulo, projetado por arqui-
land of the Brazilians, for I bear que isso tenha acontecido na tetos ingleses e muitos outros bairros daquela cidade
them no good will a land also terra dos brasileiros, pois não que pertenceram a firmas inglesas como a City of São
of slavery, and therefore of desejo nenhuma benevolência Paulo improvements and freehold Land Co. Ltd. A ci-
moral debasement. para eles – um país de escra- dade de Belém do Pará, na mesma época, foi total-
vidão e conseqüentemente de
humilhação moral.
mente arborizada por mangueiras trazidas da Índia
por alguns ingleses, que comerciavam com borracha,
E já que falamos de cronistas ingleses que visi- e os jardins de algumas praças de São Luís do
taram ou escreveram sobre Pernambuco e suas cos- Maranhão foram remodelados e redesenhados "à in-
tas, por que não citar Daniel Defoe (1660-1731) com glesa". Mas foi na arquitetura que a influência inglesa
seu clássico livro Robison Crusoe? Pois o deixou a marca da revolução industrial no Brasil, cons-
conhecidíssimo personagem Robison Crusoe, inven- truindo uma civilização de ferro em gradis, portões,
tado por Defoe e celébre pela sua experiência de ná- escadarias, abóbodas e estruturas as mais variadas.
ufrago sobrevivente numa ilha deserta, viveu no Bra- Exemplos da arquitetura do ferro dos ingleses: o Palá-
sil. Chegou a falar até português, foi senhor de cio de Cristal, em Petrópolis; a Estação da Luz, em
engenho e negociante de escravos na cidade de Sal- São Paulo; o Mercado Municipal e a Alfândega de
vador, na Bahia. Partindo de Salvador, numa viagem Manaus; chafarizes diversos no Brasil; inúmeras esta-
para compra de escravos na África, juntamente com ções ferroviárias por todo o País e fábricas e vilas ope-
outros senhores de engenho da Bahia, Mister Robison rárias. Muitas construções com influência da arquite-
ou o "Seignor ingles" navegando pelas costas de tura inglesa existem no Recife, em Fortaleza e em
Pernambuco escreveu: Belém. Em Belém, o famoso mercado de Ver-o-Peso.
Em Pernambuco, nas estações ferroviárias, em
We had very good weather Tivemos um tempo muito fábricas, em prédios e em muitas residências subur-
only excessively hot, all the bom, só que excessivamente banas. Residências nos bairros preferidos pelos ingle-
way upon our own coast, till calorento durante todo o per-
we came the height of Cape curso ao longo de nossa cos-
ses como o de Apipucos com a da família Lorimer,
St. Augustine, from whence, ta, até alcançarmos os altos do exemplo de uma casa arquitetonicamente anglo-bra-
keepinf further off the sea, we Cabo de Santo Agostinho, e sileira. Ainda a Estação Central, no bairro de Santo
lost sight of land, and steered daí em diante prosseguimos Antônio, hoje, o Museu do Trem. Inaugurada em
as if we were bound for the isle mar adentro, até perdermos a 1880, possui as mesmas características da Estação Es-
Fernando de Noronha... (p.40 terra de vista e navegamos
trada-de-Ferro Central do Brasil, no Rio de Janeiro.
– Robinson Crusoe by D. como que na direção da Ilha
Defoe Thomas Nelson Printers de Fernando de Noronha.
Foi construída pela concessionária inglesa The Great
Ltd, London and Edinburgh). Western of Brazil Railway Limited, nos mesmos mol-
des das estações ferroviárias da Europa do século XIX.

Ingleses na urbanização do Brasil Futebol, ingleses e brasileiros


Como o bonde ou tram, na língua inglesa, e o Das marcas e influências inglesas importantes
street car para os norte-americanos, os ingleses parti- sobre nós destaca-se o futebol. Trazido e incentivado
ciparam na nossa urbanização com linhas de bonde pelos britânicos que semearam e começaram a orga-
instaladas em várias cidades brasileiras. A palavra bon- nizar os primeiros times e jogos, entre nós, desde 1885,

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o futebol é, hoje, o esporte mais popular do Brasil. tos e trajes, sem ao menos aprenderem regularmente
Charles Miller, anglo-brasileiro de São Paulo é consi- a língua do País, mesmo após longos anos de perma-
derado o pai do futebol no Brasil, pois tendo ido es- nência. O sentimento de conforto, eles o trazem de
tudar na Inglaterra conheceu esse esporte, entusias- sua Ilha para o Brasil e os lugares mais pitorescos e
mou-se e o introduziu no País. Foi no Clube Atlético mais saudáveis são ocupados sempre por essa colô-
de São Paulo ou no "São Paulo Athletic Club", funda- nia. No Rio de Janeiro, na Tijuca, em Santa Tereza,
do pela colônia inglesa em 3 de maio de 1888, onde Laranjeiras ou Flamengo. No Recife, Monteiro,
ele propagou tanto o futebol que a paixão pelo cricket Apipucos, Casa Forte e Ponte D'Uchoa. Sua influên-
no clube diminuiu bastante. E o SPAC terminou for- cia étnica é quase nula, mas sua influência social é
mando uma equipe de futebol que se tornaria famo- considerável. Foram poucos ou raros os ingleses que
sa e vencedora de muitas competições, graças a Miller. no Brasil se dedicaram ao trabalho de campo ou a
Durante três anos consecutivos, Miller foi capitão da quaisquer outros ofícios inferiores. Eles estavam sem-
valorosa equipe do SPAC que detivera o título de cam- pre na direção, na contabilidade das suas casas ban-
peã na capital de São Paulo. Foi, sem dúvida, no "ve- cárias, nas grandes companhias férreas, de navega-
lódromo" aos domingos, na capital paulista, que o fu- ção, de transportes, têxteis, telegráficas, de iluminação,
tebol foi conseguindo mais e mais espectadores e saneamento, exploração de minas e muitas indústri-
tornando-se mais popular. Charles Miller tinha sua as. Os ingleses também trabalharam em grandes fir-
característica própria de jogar, e foi, além de introdutor, mas brasileiras, mas sempre em cargos de chefia ou
popularizador desse esporte para todo o Brasil, pois de muita proximidade com os proprietários.
se tornou um jogador famoso com seus chutes e
dribles. Passou a ser conhecido pela corruptela de _______________________
"chaleira", uma derivativa brasileira de Charles Miller, Notas
que morreu em 30 de junho de 1953, aos 79 anos de 1
A Inglaterra esteve em estado de guerra com Portugal (União
idade, e é incontestavelmente considerado o pai do Ibérica) até 1640. Os privateers eram navios armados, de particu-
futebol brasileiro. lares, com autorização do governo inglês para atacar e capturar
barcos mercantes de bandeiras inimigas.
Uma palavra sobre as colônias inglesas no Brasil 2
Otávio Tarquínio de Souza, no prefácio de Ingleses no Brasil.
Em muitos pontos do Brasil, depois da abertura
3
Gilberto Freyre. Ingleses no Brasil.
4
J. Henderson – 1821 : 385
dos portos (1808), os ingleses se instalaram com insti- 5
São muitos os livros de impressões de viajantes britânicos nou-
tuições e agências de penetração econômica, política tras regiões do país, além de Pernambuco, como os de John Mawe,
e intelectual. Em Pernambuco, além dos inúmeros R. Walsh, G. Gardner, John Luccock, Chamberlaim, Waterton e
estabelecimentos econômicos, eles mantinham con- Mansfield.
sulado, capelas anglicanas, médicos, cirurgiões,
Bibliografia
governantas, hospitais e cemitérios. Noutros pontos
brasileiros, como no Rio de Janeiro e em São Paulo, BURT ON, Richard. The highlands of the Brazil. London: Tinsley
Brothers, 19—.
possuíam ainda professor e escola em língua inglesa,
DARWIN, Charles. The voyage of the beagle: the natural history
hospital, capelas, médicos próprios, bibliotecas, library. New York: Anchor books, 19—.
governantas, juiz conservador, capelões e jornais em DEFOE, Daniel. Robinson Crusoé. London: Thomas Nelson.
língua inglesa. Com a colônia inglesa passa-se justa- FREYRE, Gilberto. Ingleses no Brasil: aspectos da influência britâ-
mente o contrário do que se passa com os portugue- nica sobre a vida, a paisagem e a cultura do Brasil. Rio de
ses e italianos. Pouco numerosos, os ingleses que se Janeiro: José Olympio, 1948.
estabeleceram no Brasil traziam, geralmente, consi- ______________. Um engenheiro francês no Brasil. Livraria José
Olympio Editora Rio de Janeiro, 1940.
go, em vez do braço de trabalho, o capital para ali ser
GRAHAM, Maria. Journal of a voyage to Brazil, and residence there
empregado, e daí resulta que, em vez da situação de during part of the years 1821, 1822, 1823. London: Printed for
dependência em que ficavam os outros, eles adquiri- Longman, Hurst, Rees, Orme, Brown, and Green, Paternoster
am desde logo uma preponderância natural. Eram eles Row and J. Murray Albermale street, 1824.
que ocupavam o primeiro lugar na fundação das in- HENDERSON, James. The History of the Brazil. London, Longman,
Husrt, Rees, Orme, and Brown, Paternoster Row, 1821.
dústrias brasileiras, e o nome inglês numa empresa
KOSTER, Henry. Travels in Brazil. London, Longman Husrt, Rees,
qualquer era, para o nacional, uma garantia de boa Orme, and Brown, Paternoster row, 1816.
administração, como o Made in England, de boa qua- MELLO, Evaldo Cabral de. Recife: uma introdução ao estudo das
lidade. Etnicamente a sua influência foi quase nula, suas formas e das suas cores. Recife: Região, 1952.
sendo raros os casamentos ingleses fora da própria MENDONÇA, João Helio. Cronistas ingleses em Pernambuco no
colônia. Eles formavam uma sociedade à parte, com século XIX. Arrecifes. Recife, n.6, p.83-97, jul/dez., 1992
______________. Robinson Crusoé no Brasil: uma aventura des-
seus clubes esportivos e de diversões, com seus hábi-

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129
conhecida. Diário de Pernambuco. Recife, p.1, 4 fev. 1983.
Secção B.
______________. O Diário e os agentes marítimos. 23 fev. 1994.
______________. Bares tradicionais do Recife (II). Diário de
Pernambuco. Recife, 21 dez. 1994. C6.
PINTO, Estevão. História de uma estrada-de-ferro no nordeste. Rio
de Janeiro: José Olympio, 1949.
PRESENÇA Britânica no Brasil - 1808-1914 (The British Presence
in Brazil - 1908-1914): Loyds Bank - 125 anos de Brasil. S. l. :
Pau-Brasil, 1987.
SETTE, Mario. Maxambombas e Maracatus. Recife: Fundação de
Cultura Cidade do Recife, 1981.
VALENTE, Waldemar. Maria Graham: uma inglesa em Pernambuco
nos começos do século XIX. Concórdia, 1957.

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130
Ingleses no Brasil: um Quase-Manifesto

Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke


Historiadora – Universidade de Cambridge – Inglaterra

Descobri Gilberto Freyre muito tardia- mesmo os vários anúncios que Freyre aí faz
mente. Para mim como para tantos outros de de futuros estudos seus sobre o assunto não
minha geração que freqüentaram universida- parecem ter sido desenvolvidos, e a influên-
de no final dos anos 60, Gilberto Freyre pare- cia inglesa na formação do brasileiro ainda
cia uma figura pouco atraente. Levados por permanece um terreno relativamente
razões ideológicas, talvez muito tolamente, inexplorado.
muitos de nós nos privamos de ler, naquela Antes dessa obra, Freyre já anunciara
altura, as obras mestras de um dos mais emi- seu interesse pelo tema e assumira, por assim
nentes intelectuais brasileiros. Foi só no iní- dizer, sua anglofilia. Em Casa-Grande & Sen-
cio da década de 80 que vim a descobrir Gil- zala, por exemplo, deixara claro que as infor-
berto Freyre, lendo não uma de suas obras mações dos viajantes ingleses eram superio-
mais conhecidas, mas, sim, Ingleses no Brasil. res às dos franceses em "lisura, exatidão e
Na época, estava iniciando meu doutorado honestidade de narrativa"1. Em Sobrados e
sobre um tema da história cultural inglesa e Mucambos são muitas as referências ao papel
esse ensaio de Freyre me descortinou dimen- dos ingleses na transformação da paisagem
sões insuspeitas sobre a influência da cultura cultural brasileira, tanto material quanto inte-
britânica no ethos brasileiro. Nunca o encon- lectual, e já fica evidente que a influência bri-
trei pessoalmente, mas tive, também nessa tânica na formação brasileira era um tema que
ocasião, a oportunidade de conhecer sua ge- o fascinava e para o qual não usava meias
nerosidade intelectual. Tendo lhe enviado palavras. O técnico britânico, o humilde ma-
uma carta para a qual, na verdade, não con- quinista, por exemplo, é equiparado ao Pri-
tava com a resposta, tive a agradável surpresa meiro Ministro de uma monarquia constitu-
de me ver – eu, uma mera doutoranda – pron- cional que tivera o mérito de minar a
tamente atendida no meu pedido de maiores importância do antes todo-poderoso senhor
informações. de engenho e de fazer os mestiços ascende-
Falar sobre Ingleses no Brasil significa, rem socialmente e transformarem-se em classe
portanto, tratar de uma obra que tem para média. 2 Mas é na pequena coletânea de en-
mim um valor especial, pois foi através dela saios, Ingleses, de 1942, que G. Freyre, movi-
que a riqueza e a originalidade da obra do em parte pelo papel liberador que a Ingla-
freyriana primeiramente se revelaram. E o as- terra desempenhava na II Guerra, revela seu
sunto que tem me fascinado nos últimos anos imenso entusiasmo pelo legado britânico e
– o estudo das marcas inglesas na obra de deixa entrever seu grande interesse em difun-
Freyre – talvez tenha me sido sugerido exata- dir a importância do impacto da cultura britâ-
mente pelo entusiasmo com que ele próprio nica no Brasil. É aí tambem que, enaltecendo
discorreu, na década de 40, sobre as marcas o que a Inglaterra fizera e fazia pelo mundo
deixadas pela cultura inglesa na história e no não só político como cultural, Freyre expõe e
etos brasileiro. declara sua anglofilia alto e bom tom. Seu
Qual o lugar que ocupa Ingleses no Bra- olhos, como dizia, talvez estivessem "turva-
sil na obra de Freyre? Seguramente este não é dos por um amor físico e ao mesmo tempo
um de seus livros mais conhecidos. Publicado místico à Inglaterra".3
em 1948 e jamais reeditado ou traduzido, Ingleses no Brasil não segue, no entan-
poucas são as referências a ele em estudos to, a mesma linha de Ingleses, livro composto
sobre a formação da cultura brasileira. As inú- basicamente de flashes variados e, em geral,
meras sugestões de trabalhos aí contidas, e apologéticos, de traços e figuras significativos

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da cultura britânica. Segue, sim, ao invés, obra anteri- cozinheiros franceses que difundiram a cultura fran-
or a Ingleses, publicada em 1940, intitulada Um En- cesa no Brasil do século XIX. Ao mesmo tempo, era
genheiro Francês no Brasil. Nela, a partir da atividade sua ambição desmentir a noção de que a influência
do engenheiro Louis Vauthier durante seis anos (1840- inglesa sobre a cultura brasileira se confinava aos as-
1846) no Recife, Freyre estudara a influência da cul- pectos econômicos e que intelectualmente a influên-
tura francesa sobre a brasileira através de seus agen- cia francesa era soberana.
tes técnicos. Recebida pela crítica nacional com No conjunto da obra de Freyre, pode-se dizer
desconfiança ou indiferença, essa obra, no entanto, que Ingleses no Brasil representa mais um esforço no
fazia um esforço pioneiro para ampliar a perspectiva sentido de recompor o processo de formação do Bra-
dos estudos da formação da cultura brasileira. Focali- sil nos seus aspectos mais íntimos, tal como fora inici-
zando, não a influência grandiosa da alta cultura fran- ado em Casa-Grande & Senzala. Sem um estudo do
cesa, mas, sim, a influência mais trivial ou cotidiana impacto da cultura britânica na nossa fomação, argu-
da cultura técnica, comercial e industrial – ou seja, de mentava Freyre, faltaria um elo importante da histó-
uma cultura dita "menor" – Freyre enfrentava nessa ria íntima do brasileiro e seria impossível compreen-
obra uma questão intrigante e inexplorada: a de sa- der o caráter de um povo tão marcado, como o nosso,
ber como a atividade essencialmente material de um pelos aspectos materiais e imateriais da cultura britâ-
técnico (a construção de pontes e de monumentos, nica.
por exemplo) podia deixar marcas espirituais ou À primeira vista pode parecer que Ingleses no
imateriais numa cultura. Entusiasmado com o feito de Brasil pouco mais é do que um variado, colorido e
Freyre, o sociólogo Paul Arbousse-Bastide foi enfático muitas vezes confuso mosaico descritivo das marcas
ao dizer que Freyre tivera o grande mérito de ter re- materiais aqui deixadas pelos ingleses ao longo de sua
velado todo o interesse sociológico dos contactos téc- aventura colonizadora. Um mosaico pintado, eviden-
nicos em aparência os mais humildes e de ter salienta- temente, por mãos de um mestre na arte de "surpre-
do que este tipo de contacto desempenhou um papel ender a vida onde a vida estiver"8, que conseguia fa-
considerável nas relações franco-brasileiras, habitual- zer com que as "coisas" e hábitos ingleses recuperassem
mente consideradas sob uma luz exclusivamente inte- o frescor da experiência humana fugidia e complexa
lectual e artística. E mais ainda, G. Freyre soube mos- dos brasileiros do século XIX. Descrição, pois, aliada
trar que estes dois aspectos de influência cultural eram a comentários perspicazes e sugestivos feitos num ca-
estreitamente ligados. O mais humilde dos artesãos racterístico tom de conversa e entremeados de algu-
franceses sempre trouxe com seus utensílios uma cer- mas referências pessoais cheias de humor – como a
ta concepção de vida, indissoluvelmente ligada ao exer- autocrítica que faz ao seu feitio "lamuriento" e ao seu
cício de seu ofício. 4 egoísmo de se sentir invadido no seu "latifúndio inte-
Cumpre lembrar que, desde muito cedo, Freyre lectual" por um outro estudioso da influência britâni-
pendia para um tipo de história pouco convencional. ca – comporiam essa obra fundamentalmente infor-
Em 1921, quando já manifestara o desejo de escrever mativa sobre as marcas inglesas na paisagem brasileira.
uma história inédita sobre o menino brasileiro, ele Lendo suas densas páginas, o leitor se inteirava da
reconhece que as histórias eram, em geral, muito genealogia de muitos dos hábitos, modas e objetos,
excludentes, deixando de lado não só as crianças, mas que no século XIX, reeuropeizaram o Brasil e que, de
também as mulheres, os artistas, os comerciantes, os tão notórios, teriam gerado a queixa de que a presen-
intelectuais, os servos e os escravos. Só se importam ça britânica "londonizava nossa terra".9 Eram, por
em glorificar os adultos, "e dentre os adultos, só os exemplo, as vidraças substituindo as tradicionais ve-
homens; dentre os homens, só os importantes como nezianas de madeira, a cerveja e o chá substituindo
políticos e militares".5 E um ano mais tarde, muito es- os sucos de frutas tropicais, os chapéus e as capas subs-
timulado pelo curso que Alfred Zimmern – um histo- tituindo os xales, eram até mesmo fantasmas ingleses
riador "diferente" que tanto marcaria seus futuros tra- de cabelos claros sendo associados aos nossos fantas-
balhos 6 – ministrava na Universidade da Columbia, mas nativos e morenos, e palavras inglesas sendo in-
Freyre fala aos seus conterrâneos no Recife sobre a corporadas ao nosso vocabulário que Freyre fazia
importância da história não excludente para o alarga- descortinar nesse "imenso rol"10 de nossa dívida para
mento dos horizontes intelectuais.7 É, pois, continu- com ingleses.
ando nessa linha que, em 1948, ao introduzir sua obra Esse volumoso e pioneiro trabalho de pesquisa,
sobre o impacto da cultura britânica no Brasil, Freyre por si só extremamente valioso, tem, todavia, uma
deixa claro que procurava com ela continuar o traba- importância muito maior do que faz supor o seu mo-
lho sobre os franceses de 1940. Nela, ele iria evocar a desto subtítulo – "Aspectos da Influência Britânica so-
ação de britânicos tão obscuros como os padeiros e bre a Vida, a Paisagem e a Cultura do Brasil". Diria

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132
que, por trás desse imenso e variado rol ou inventá- ção branca, macia", suave, sem sangue, diz Freyre com
rio, essa obra contém não só na sua introdução, mas admiração. 14
esparso ao longo de suas páginas, o que sou tentada a Pode-se dizer que a ambição de corrigir o que
chamar, mesmo com o risco de ser anacrônica, de via como estereótipos e visões deturpadas dos súdi-
Manifesto para uma Antropologia Histórica. Ou, sen- tos da Inglaterra imperial foi um dos móveis que le-
do mais prudente, um quase-manifesto, consideran- vou Freyre a escrever sobre eles no Brasil. É em tom
do que as características leveza e informalidade do apaixonado que defende os ingleses dos que os acu-
discurso de Freyre, tão pouco afeito à sisudez e ao sam de irremediavelmente hipócritas, etnocêntricos
rigor acadêmico comumente associados a manifestos, e insulares. Os que assim os qualificam, dizia Freyre,
não deixam de estar aí também muito presentes.11 só estão vendo "meias-verdades". “Esses anglos foram
Idéias já lançadas anteriormente são, nessa obra, não às vezes anjos para os brasileiros e para a humanida-
só mais explicitadas e sistemazidas como também de toda”, corrige Freyre.15
acentuadas, um novo conceito é ensaiado e muito do A pesquisa pioneira que era ali divulgada mos-
desenrolar do livro, por mais fragmentário que pare- trava ingleses tenazes e até heróicos que, enfrentan-
ça, pode ser visto como ilustrativo dos princípios de- do com bravura a febre amarela, a cólera, as serpen-
fendidos nesse quase-manifesto. Nele Gilberto Freyre tes e outros desconfortos, desmentiam a idéia de que
esclarece as premissas das quais partem suas pesqui- somente o lucro material era o que os movia. Esses
sas, revela sua visão da história e da natureza humana jovens e destemidos cientistas e técnicos que desbra-
e, em decorrência disso, elege as fontes que conside- vavam terras inóspitas tinham que ser louvados, se-
ra especialmente privilegiadas de acesso ao passado gundo Freyre, como os verdadeiros agentes da mo-
brasileiro. É sobre esses aspectos que gostaria de me dernização brasileira. 16 É com eloqüência que Freyre
deter, ainda que brevemente. se refere aos médicos, professores, engenheiros, mis-
sionários, mineiros e outros desconhecidos ingleses
O Olhar Antropológico de Freyre: "olhos-de-inglês" como guerreiros e revolucionários que no Brasil par-
Ao longo das páginas de Ingleses no Brasil, o ticiparam da "revolução técnica" e "das guerras contra
autor assume suas simpatias e preferências culturais, a rotina, contra a ignorância, contra a doença" que
deixando muito evidente sua profunda empatia para iriam aos poucos liberar o País.17 E mesmo os comer-
com os ingleses, seu objeto de estudo. Como se sabe, ciantes ingleses que aqui se estabeleciam a contra-
Freyre os conhecera de perto quando estivera em gosto dos locais, davam, a maioria deles, verdadeiras
Oxford, num período descrito por ele próprio como lições de "sobriedade e de ética profissional", no que
"a melhor temporada de minha vida".12 Lá, num am- contrastavam com os exageros e até o charlatanismo
biente sofisticado e aristocrático que o fascinou, en- dos demais europeus. Só entre os anúncios de nego-
trara em contato com a elite intelectual e social ingle- ciantes ingleses, lembrava Freyre, poder-se-iam en-
sa, e o que fora inicialmente mera simpatia e contrar exemplos espantosos de lisura comercial como
curiosidade logo se transformou no amor e na admi- os que informavam ao público sobre a venda de "'di-
ração que tão profundamente iriam marcar, desde versas fazendas com algum defeito' ou biscoitos de 'qua-
muito cedo, suas opções intelectuais.13 É assim que lidade inferior'”.18
Freyre passa a vê-los e compreendê-los nos seus as- A tão decantada frieza inglesa também era
pectos contraditórios, nas suas virtudes e fraquezas. contrabalançada com evidências de que, apesar das
Em Ingleses no Brasil, assim como fizera já an- aparências, os britânicos eram, na verdade, "grandes
tes em Ingleses, Freyre os elogia pela sua "habilidade sentimentais, dissimulados em secarrões", neles coe-
de contemporizar, harmonizar e equilibrar antagonis- xistindo muito bem a emotividade e o sentimentalis-
mos". Esse "dom angélico" tão distintamente inglês, que mo "com a sobriedade, a fleuma, a dignidade britâni-
faz com que conflitos de toda ordem – entre homens, ca". 19 Quanto à dita insularidade e etnocentrismo dos
classes, raças, gerações, doutrinas, etc. – sejam sabia- britânicos, Freyre mostrava que não havia nada que
mente harmonizados, faz também com que os ingle- mais desmentisse ou amenizasse esses traços do que
ses se imponham no mundo com uma qualidade a observação das sábias adaptacões dos ingleses à
grandemente apreciada por Freyre: a de serem "ad- cultura local e a leitura dos relatos fiéis e minuciosos
miráveis revolucionários contemporizadores, ou con- que deixaram do país que os acolhia. Não poderiam
servadores". No Brasil, a maioria das transformações ser acusados de alienados aqueles estrangeiros nórdi-
que provocaram não implicou "substituição radical" cos que se adaptavam aos costumes de "matutos ser-
do que aqui existia. Diferentemente dos franceses – tanejos", que sabiam apreciar o que aqui encontra-
esses revolucionários "radicais ou absolutos" – os in- vam (como, por exemplo, as tradições da arquitetura
gleses são exímios na arte de provocar uma "revolu- brasileira) e que traçavam retratos do Brasil que eram

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verdadeiros "modelos de precisão e objetividade". 20 De humano, que a "teia da vida" é composta de fios mis-
fato, salienta Freyre, devemos a muitos desses técni- tos, de "cores intermediárias" e que o modo de tratá-
cos, cientistas e missionários britânicos informações la é, pois, "não tentar provar que tudo é preto ou tudo
imparciais, precisas e perspicazes sobre nossa própria é branco". 26 O que, então, atraía a atenção de Freyre
realidade. Eles "sempre conseguiam surpreender o lado nos documentos estudados sobre a história das rela-
oposto ou oculto dos fatos", comenta Freyre.21 Aos ções do Brasil com a Grã-Bretanha era a evidência de
construtores de estradas de ferro, por exemplo, de- que nem sempre os ingleses apareciam como heróis
vemos, em grande parte, a desmistificação do Brasil, e defensores dos direitos humanos dos escravos, as-
tido pelos ingênuos como um "pedaço do Paraíso per- sim como nem sempre os brasileiros haviam sido vi-
dido", como país de "fertilidade insuperável" e de su- lões desumanos e inveterados.
cesso garantido não fosse ele vítima da "ganância do Da mesma maneira, acompanhando o desen-
chamado 'capital colonizador'". 22 E é também graças rolar dos encontros das duas culturas no âmbito eco-
aos próprios ingleses, mais do que a ninguém, reco- nômico, Freyre pudera apreciar a inadequação de
nhece Freyre, que nos inteiramos de muitos dos abu- muitas das usuais visões extremadas sobre os malefícios
sos do próprio imperialismo britânico, da insolência e do "chamado capitalismo colonizador". Sem negar que
esnobismo de muitos de seus súditos e da "grossa ve- este capitalismo tivesse, às vezes, devastado "com den-
lhacaria" de negociantes ingleses, envolvidos não só tes de piranha" os países que não se protegiam de sua
com o tráfico de escravos como também com o con- ganância exagerada, ele também trouxe consigo be-
trabando de cobre e com a falsificação de moedas.23 nefícios econômicos e sociais, lembrava Freyre. Se é
Anos antes Freyre confessara que vira Portugal inegável, por exemplo, que as estradas de ferro servi-
com os "olhos de inglês", que viajara pelo país "im- ram inicialmente aos interesses da monocultura
pregnado de literatura inglesa". "Erram os que acredi- escravocrata e do capitalismo imperial britânico, elas
tam na frase: para-inglês-ver", afirmara Freyre. "O in- não foram, no entanto, a causa de nossos males eco-
glês não se deixa enganar pelo superficial ou pelo nômicos, como querem os "patriotas sonhadores" .
postiço, mas sabe descobrir na paisagem, na arte po- Com o tempo, na verdade, elas acabaram preparan-
pular, nos vinhos e nas tradições populares dos outros do o caminho para a policultura democrática e para a
povos alguns dos seus encantos mais íntimos, muitas legislação em defesa do trabalhador. 27
vezes desprezados pelos próprios naturais." 24 Acredi- Outro exemplo eloqüente nesse sentido encon-
to que, em certo sentido, o mesmo se repetia no caso tra-se nos resultados positivos das violentas medidas
brasileiro e que Freyre estava a ver seu próprio País, governamentais impostas pelo edito de 1808. Nessa
aí incluindo os ingleses no Brasil, também com "olhos ocasião, provavelmente sob pressão de negociantes
de inglês". Esse seria, por assim dizer, o seu olhar an- ingleses, o governo brasileiro impusera a substituição
tropológico. Guiado e inspirado pelos relatos de in- das urupemas e gelosias das construções brasileiras
gleses sobre o Brasil, bem como pela experiência in- pelas janelas envidraçadas. Num prazo de seis meses
glesa e pelas leituras dos ensaístas ingleses, que tão as casas – pelo menos as da alta burguesia – deveriam
essenciais foram para sua formação, Freyre teria ad- se libertar dessas marcas "bárbaras", "góticas", "turcas"
quirido distância e se predisposto a perceber aspec- e adquirir um dos símbolos da moderna civilização
tos que passavam despercebidos a muitos outros es- européia. Nesse particular, é interessante salientar que
tudiosos.25 isso, ironicamente, acontecia na mesma época em
Uma das coisas que Freyre aprendera a apreci- que, na Inglaterra, o imposto sobre janelas – que vi-
ar e a ter olhos para buscar nos documentos gorou de 1696 a 1851 –, fazia com que muitos pro-
pesquisados era exatamente o caráter contraditório prietários as emparedassem (ou as camuflassem, se
da influência inglesa no Brasil, fruto da própria irre- espertos!) para fugir ao fisco. 28 Assim, enquanto na
gularidade do caráter ou comportamento dos ingle- terra cinzenta dos produtores de vidro as casas se es-
ses, em nada diferentes nisso, como afirma Freyre, de cureciam e se fechavam, aqui, numa terra ensolarada,
todos as outros povos. "Tudo o que é humano é con- as casas se abriam e se clareavam. Ora, lembra Freyre,
traditório, não havendo leis absolutas que definam o se é inegável que a maciça importação de vidro – im-
caráter dos homens ou a história de um povo", diz ele posta pela astúcia ou velhacaria britânica interessada
como se fosse uma profissão de fé, uma filosofia de em manter o nossa economia “passivamente colonial"
vida. É assim que polaridades, absolutos, tudo ou nada, – alterou profundamente a paisagem brasileira, vio-
preto ou branco, são categorias que parecem não fa- lentando uma arquitetura harmonizada com as con-
zer parte da estrutura do pensamento de Freyre. Uma dições tropicais, de outro acabou sendo benéfica para
das lições que o ensaísmo inglês lhe ensinara é que a o desenvolvimento da cultura intelectual brasileira.
complexidade é a marca indelével de tudo o que é Sim, pois ao lado de vidros para portas e janelas, aqui

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134
também chegavam em abundância vidros para ócu- curas, que "sozinhas não se levantam da sepultura dos
los, lunetas e telescópios, novidades que representa- arquivos". Pretende, como diz, livrar do esquecimen-
ram um acréscimo positivo ao País. Como lembra to histórico "os marias-borralheiras da história, consi-
Freyre, "a importação de vidros para ler coincidiu, com derada em seus aspectos menos grandiosos; estudada
efeito, com a maior produção e importação de livros, nas pessoas dos que, junto aos borralhos das fábricas,
revistas e jornais". 29 das fundições, das oficinas, dos armazéns, das loco-
Do mesmo modo, lembrava Freyre que os exa- motivas, dos vapores, das máquinas, também concor-
gerados privilégios econômicos concedidos à Ingla- reram para que culturas diferentes se aproximassem
terra por D. João VI e seus sucessores não tiveram ou se interpenetrassem". Pois, na verdade, os maqui-
somente um efeito devastador sobre o Brasil. Se, de nistas, foguistas, mecânicos, engenheiros, mágicos,
um lado, é verdade que sufocaram as incipientes ati- leiloeiros, e outros "marias-borralheiras" revelam os
vidades industrial e comercial do País (que até dispu- aspectos menos grandiosos, mas talvez mais profun-
nha de seus próprios navios), bem como a sadia damente significativos das influências culturais. Das
policultura que despontava no fim do século XVIII e influências tais como elas se expressam na trivialida-
início do XIX, de outro, fizeram com que o Brasil par- de doméstica, no cotidiano das oficinas, das fundi-
ticipasse desde muito cedo da "revolução com R ver- ções, dos vagões, etc.
dadeiramente maiúsculo", a Revolução Industrial.30 São os detalhes triviais minuciosamente investi-
Com isso, diz Freyre, ficamos na dianteira de Portu- gados que podem nos levar à compreensão de uma
gal, Espanha e mesmo Itália, que, envolvidos em suas realidade que nos escapa, argumenta Freyre, na mes-
"revoluçõezinhas simplesmente políticas de 'liberais', ma linha que seria anos mais tarde desenvolvida por
de 'miguelitas,...'de republicanos'...", etc., ficaram "`a Carlo Ginzburg a partir das idéias de um historiador
margem da civilização carbonífera". 31 da arte, Giovanelli Morelli. Assim como este mostrara
que detalhes triviais como o lobo da orelha e a forma
Uma história feita de nuances da unha permitiam distinguir a pintura original de uma
Enfim, levando em conta esses e outros exem- cópia, "pequenos indícios", diz Ginzburg, podem nos
plos semelhantes, a história que Freyre parece querer levar a fenômenos mais gerais. "Apesar de a realidade
nos contar é uma história multifacetada, feita de poder parecer opaca, há zonas privilegiadas – sinais,
nuances e de resultados imprevisíveis, até mesmo para indícios – que nos permitem penetrar nela”, diz ele.34
seus agentes mais poderosos; uma história complexa Coincidentemente, também é um historiador da arte,
e às vezes desconcertante, que abala a crença em pro- como veremos logo a seguir, que parece ter reforça-
gressos ou em insucessos abolutos. do nessa ocasião a lição que Freyre primeiramente
É em defesa de tal história que Freyre escreve aprendera com os ensaístas ingleses, ou seja, "o infini-
o seu quase-manifesto para uma antropologia históri- to significado das pequeninas coisas". 35 Agora, estu-
ca. Uma história das influências de uma cultura sobre dando o encontro de duas culturas, ele novamente
a outra, feita de nuances, requer que nela se inclua o reconhece que sob uma perspectiva histórica mais
estudo do que Freyre chama de "pormenores signifi- abrangente, os “pequenos nadas das relações entre os
cativos" e de personagens mais ou menos obscuros.32 povos", se revelam como tendo "maior significação
É difícil notar a eloqüência com que tais aspectos são humana que os episódios grandiosos”.36
tratados sem imediatamente nos lembrarmos de E. P. Os franceses Paul Arbousse-Bastide e Roger
Thompson e Carlo Ginzburg, dois dos maiores inova- Bastide já haviam reconhecido o dom freyriano de
dores da história contemporânea. O modo como as chegar ao global a partir do individual, de recuperar
figuras ditas "menores" são anunciadas como impor- o "o clima desaparecido... do velho Brasil" a partir da
tantes "agentes da cultura britânica no Brasil" faz-nos, apreciação de inúmeros detalhes que se mostram, sob
por exemplo, lembrar da famosa frase com que E. P. sua arte de "pintor e de romancista", especialmente
Thompson anunciou seu estudo de 1963 sobre a clas- significativos.37 Entusiasmado com tal elogio, Freyre
se trabalhadora inglesa. O que ele pretendia, como retoma e amplia tal analogia, defendendo, em Ingle-
diz, era "livrar ...da enorme condescendência da pos- ses no Brasil, a idéia de que a história muito ganharia
teridade" os humildes artesãos, tecelões e agriculto- se seus autores se apropriassem da "técnica" ou méto-
res que viveram as ansiedades e tensões da emergen- do dos retratistas, que consiste em atentar rigorosa-
te Revolução Industrial. 33 Freyre, com ênfase mente ao particular, ao detalhe, para atingir o univer-
semelhante, nos diz que os personagens mais ilustres sal. O interesse de Freyre em levar avante essa idéia
e o fatos mais grandiosos contam só uma parte da fica evidente na introdução do livro, quando o vemos
história. O que ele quer, com seu estudo, é resgatar a recorrer à obra que o historiador da arte Lionello
memória daquelas figuras importantes apesar de obs- Venturi acabara de publicar, em 1947, Painting and

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Painters. Apoiando-se em suas considerações sobre outros, não foram jamais completados.41
as retratos de Ticiano, El Greco, Rembrandt e Rafael, Nas quase quatrocentas páginas em que Freyre
Freyre sugere que sua ambição é ser o Ticiano ou o El explora os anúncios e a correspondência, ao mesmo
Greco da história brasileira. Quer, em outras palavras, tempo em que vai tomando corpo o quadro de um
pintar o retrato psicosociológico de seu povo, não a País feito de encontros, trocas e também recusas cul-
partir de um ideal ou abstração a ser imposto sobre a turais, vai também se esclarecendo a importância da-
realidade, como fizera Rafael, mas a partir do registro quelas fontes na metodologia freyriana. A correspon-
de um "momento particular" do retratado, como dência consular, por exemplo, é vista como
Ticiano e El Greco haviam feito. Venturi mostrara que especialmente importante para os estudiosos das re-
o valor dos retratos de Ticiano, El Greco e Rembrandt, lações entre culturas diferentes, tais como elas se
não residia tanto na sua beleza, mas na capacidade manifestam não nos grandes eventos políticos ou di-
que tinham de evocar a vida e a atmosfera que rode- plomáticos, mas no varejo, por assim dizer, no dia-a-
ava seus modelos a partir do registro de momentos dia da sociedade, ou no que aparenta ser, como diz
individuais e "impressões fugidias". 38 É nessa arte que Freyre, “pequenos nadas das relações entre os povos". 42
Freyre os quer imitar. Se fosse bem-sucedido, diz ele, Essa documentação – que diferente da rigorosamen-
seu quadro da sociedade brasileira iria combinar o te diplomática não registra assuntos políticos impor-
social com o pessoal, o universal com o individual. É tantes – mostra que os cônsules, além de suas funcões
interessante aqui salientar que a pintura de Ticiano burocráticas, aqui exerciam papéis de verdadeiros
foi tanto elogiada quanto criticada, em sua própria "detetives" e até mesmo de "caixeiros-viajantes". Tra-
época, por traços semelhantes aos que atrairiam elo- balhando, como diz Freyre, "em mangas de camisa",
gios e críticas à obra de Freyre: por seu estilo fluido e eles obtinham informações tanto de ordem comerci-
até meio grosseiro, que dava a suas pinturas um ar de al como policial. Em sua correspondência, pode-se,
inacabadas e que apesar de "feitas com grande esfor- por exemplo, ter acesso tanto ao declínio de importa-
ço, pareciam não ter exigido nenhum". 39 ção da cerveja inglesa, que vai sendo substituída pela
E levando adiante a apreciação de Arbousse- alemã, como à astúcia dos traficantes de escravos, ou
Bastide sobre sua arte de romancista, Freyre recorre mesmo a informacões sobre ingleses envolvidos no
novamente a Proust – que desde Casa-Grande fora "nefando tráfico" que o seu próprio país tão ferozmente
apresentado como inspirador de seu projeto de es- combatia. Enquanto detetives especializados no tráfi-
crever um "roman vrai"– e o louva como um retratista co ilegal de escravos, eles estavam "à altura do povo
à la Ticiano. Mas agora, ao lado dos franceses Proust que viria notabilizar-se pela sua Scotland Yard", co-
e Goncourts, Freyre nos fala sobre a qualidade retra- menta Freyre. Para os interessados em retratar uma
tista dos romancistas e memorialistas ingleses, como sociedade como Ticiano retratara seus modelos, os
James Boswell e Rebecca West. Esses são também documentos consulares são de inegável valor, exata-
mestres a imitar, sugere Freyre, pois na "técnica da mente porque registram as recorrências, ou seja, "o
fixação do pormenor significativo", em que o social e fato miúdo e sem importância, a princípio", mas que,
o pessoal aparecem se interpenetrando, eles são exí- repetido, torna-se "sociologicamente significativo". 43 E
mios.40 aqui, nessa ligação entre o papel dos detetives na
busca dos "pormenores significativos", cabe, mais uma
Duas fontes privilegiadas e uma abordagem pro- vez, aproximar Freyre a Ginzburg. No conhecido ar-
missora tigo mencionado acima, o historiador italiano discu-
É então com seu olhar antropológico, seus tiu o que chama de "paradigma indiziario" a partir de
"olhos-de-inglês" que Freyre se debruça longamente três mestres na arte da adivinhação: o detetive
sobre as fontes que considera especialmente férteis Sherlock Homes (o famoso personagem de Conan
para recuperar esse pormenores eloqüentes sobre Doyle), Sigmund Freud e Giovanni Morelli. Mostran-
realidade vivida por nossos antepassados e para po- do como esses mestres chegavam a conclusões im-
der traçar o retrato psicos sociológico do Brasil: os portantes a partir de detalhes aparentemente triviais
anúncios de jornais e a correspondência consular. e de evidências indiretas, ao invés de por meio de
Quanto aos relatos deixados por ingleses sobre o Bra- evidências maciças e diretas, Ginzburg defende, por
sil, Freyre se detém rapidamente nas páginas deixa- assim dizer, a idéia de uma história escrita por histori-
das pelo cronista do navio britânico onde se refugiou adores-detetives, exímios na arte de atinar com os
D. Pedro I em 1831. Era, ao que tudo indica, para pormenores significativos. De modo semelhante, mas
servir somente como uma pequena amostra da décadas antes, como vimos, Freyre também ensaiara
potencialidade desse tipo de fonte, a ser explorada tal idéia. Anos mais tarde, e acentuando esta coinci-
mais profundamente num futuro trabalho, que, como dência de perspectiva entre ele e Ginzburg, o vemos

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136
claramente confessar sua admiracão pela "a rt of menores significativos" de nossa história social. As no-
detection", para a qual não há "minúcias desprezíveis. tícias de leilões entreabriam para o público brasileiro
Pois o menor objeto ou gesto ou lapso de linguagem as residências inglesas, e freqüentá-los se tornou um
pode ser a chave de uma descoberta: o indício capaz hábito chic no século XIX, argumenta Freyre. Atraídos
de tornar-se revelação". 44 por anúncios chamativos, os brasileiros ali iam satisfa-
Quanto aos anúncios de jornais, a outra fonte zer seu gosto bisbilhoteiro e adquirir sem grande es-
amplamente explorada por Freyre em Ingleses no Bra- forço o "gosto europeu mais moderno – o gosto da
sil, diria que ela ocupa um papel de proeminência na Europa burguesa e nórdica, da Europa da máquina e
metodologia freyrina, se se levar em conta a eloqüên- da Revolução Industrial". Não há como negar que os
cia com que suas virtudes são louvadas. Os anúncios leilões foram verdadeiras "aulas práticas de
revelam o lado mais humano do passado, aquilo so- europeização" e que foi especialmente por meio de-
bre o que os documentos oficiais em geral se calam, les que o nosso meio social foi se alterando, se
diz Freyre. "Não só o pitoresco, o dramático, o único anglicizando. A essa "revolução branca, macia", que
irrompe nos anúncios: também o comum, o que se Freyre tanto admira, devemos novos gostos, não só
repete, o que em certas ciências se chama o demons- de estilos de móveis e louças, como também de leitu-
trativo em contraste com o denominado atípico". 45 ra (Benthan, Pope, Adam Smith, Milton, etc.), novos
Mas eles não são somente importantes como hábitos de higiene e muito mais.47
veículos de informação de pormenores significativos. Finalmente, um último ponto que gostaria de
Mais do uma imersão no passado, a leitura dos anún- salientar é o que diz respeito ao modo inovador com
cios de jornais nos dá acesso ao fenômeno da que Freyre aborda o encontro cultural entre o Brasil e
anglicização da sociedade brasileira em pleno proces- a Inglaterra nesse quase-manifesto. Sem negar que
so. Sim, pois como argumenta Freyre, se é verdade eram duas culturas desiguais a se encontrar, Freyre,
que a conquista do Brasil pela Inglaterra se deu "sem no entanto, não se satisfaz com a noção de que a
efusão de sangue", sua invasão envolveu, no entanto, influência se deu somente da mais rica e dominante
"muita efusão só de tinta de imprensa: a empregada para a mais pobre, atrasada e subalterna. A penetra-
nos anúncios com que os ingleses, desde 1808, come- ção britânica, tal como ele a apresenta, apesar de em
çaram a surgir aos olhos de parte considerável da po- grande parte macia e suave, encontrou resistências,
pulação brasileira como portadores de mercadorias ou teve que se acomodar, muitas vezes, à cultura local e
produtos das fábricas britânicas de uma sedução foi, em algum grau, também penetrada pela cultura
irresistível para burgueses despertados do seu longo mais pobre.
sono de homens quase segregados do norte da Euro- Na obra anterior sobre o impacto da cultura
pa: o ferro, o vidro, o cobre, a lã, a cutelaria fabricados técnica francesa no Brasil, Freyre parece não estar tão
pela Inglaterra". 46 Ou seja, a anglicização brasileira se alerta para as nuances dos encontros culturais, e mes-
deu pelo processo de imitação, e este se desenvolveu mo Paul Arbousse-Bastide na apresentação do livro
grandemente por intermédio dos anúncios de produ- não se mostra sensível às influências que a cultura fran-
tos ingleses nos jornais da época. Dirigindo repetida- cesa teria porventura recebido no seu contacto com
mente para o público suas ofertas sedutoras, os anún- a brasileira. O que o empolga e orgulha é a novidade
cios teriam finalmente conseguido criar uma nova de encontrar reconstituída na obra de Freyre "uma
demanda e um novo gosto. Gosto por veraneio na parte pouco conhecida da história da radiação france-
serra, pelo chá das cinco, pelas carruagens sa fora da França"; de aí se ver como as ações de um
envidraçadas, por tocar piano, por lições públicas de engenheiro francês revelam "a influência de uma cul-
arte, política, química, pelo uso da tração eqüina (que tura já formada e avançada – a francesa – sobre uma
muito concorreu para o fim da escravidão), pelo ba- cultura nascente, a brasileira."48
nho de mar, e assim por diante. Em certo sentido, pois, Em Ingleses no Brasil o que se nota, no entanto,
os anúncios podem ser vistos como expressão e veí- é um Freyre que vê o País não só se europeizando, se
culos da anglicização do País. afrancesando e se anglicizando, mas também, por as-
Dentre os vários tipos de "anúncios", "avisos" e sim dizer, abrasileirando o "invasor"; o que se nota é,
"notícias particulares" – de negociantes e técnicos bri- pois, um Freyre mais atento às nuances das relações
tânicos anunciando a chegada de mercadorias impor- culturais entre os povos e muito ansioso por encon-
tadas e vendendo seus serviços, de professores anun- trar, no material pesquisado, evidências do papel ati-
ciando cursos de língua inglesa e de lojas vendendo vo da cultura dita pobre e subordinada. Um papel
livros ingleses, desde romances e filosofia até manu- ativo não somente enquanto cultura "misturadora" ,
ais técnicos –, os anúncios de leilões são os que se que funde e recria "tudo a seu jeito", mas também
revelam mais importantes para a recuperação dos "por- como uma cultura doadora, que é conquistada, mas

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137
que também, muitas vezes, conquista a "invasora". 6
M. L. G. Pallares-Burke, "O caminho para a Casa-Grande: Gil-
Talvez inspirado por Fernando Ortiz e seu conceito berto Freyre e suas leituras inglesas", Primeira edição crítica de
Casa-Grande & Senzala, Coleção Arquivos da Unesco (no prelo).
de "transculturação", exposto pela primeira vez em 7
G. Freyre, Tempo de Aprendiz, 2 vol., S. Paulo, Ibrasa, 1978, I, p.
1940, Freyre insiste no que chama várias vezes de 189.
"interpenetração de culturas". 49 Mesmo sem ter usado 8
J. Lins do Rego, Prefácio in Ingleses, p. 11.
o termo de Ortiz, Freyre parece estar vislumbrando o 9
Citado em G. Veiga, História das idéias da Faculdade de Direito
mesmo conceito quando deixa claro que o que en- do Recife, IV, p. 332.
tende por "aculturação" (termo que, ao que parece,
10
O. Tarquinio de Sousa, Prefácio, Ingleses no Brasil, Rio de Janei-
ro, José Olympio, 1948, p. 17 (daqui em diante essa obra será
usa uma única vez no texto) implica mudanças não só abreviada por I. B.)
em uma, mas nas duas culturas que se encontram, 11
Estudando o Manifesto Regionalista, Antonio Dimas também se
tanto na tida como mais superior, como na inferior. 50 refere ao modo pouco convencional com que Freyre usa a noção
Já desde as primeiras páginas, Freyre se refere à reci- de manifesto e cultura, reinventado as palavras e delas subtraindo
procidade de influências. "Pois enorme como foi a in- "qualquer traço de elaboração intelectualizada e, portanto,
inapreensível." (cf. A. Dimas, "Um Manifesto Guloso", Prefácio à
fluência britânica no Brasil, a cultura técnica e literari- 7a. Edição, Manifesto Regionalista, Fátima Quintas org., Recife,
amente superior não agiu de modo absoluto, ou sempre Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 1996, p. 41).
soberanamente, sobre a inferior", diz ele.51 As marcas 12
G. Freyre, Ingleses, p. 116.
deixadas pela cultura brasileira sobre a britânica não 13
Cf. M. L. G.Pallares-Burke, "Gilberto Freyre e Inglaterra: uma
são, no entanto, facilmente reconhecíveis, admite história de amor", Tempo Social, Vol. 9, n. 2, outubro 1997, p.13-
38.
Freyre. É preciso ter olhos muito penetrantes para vê- 14
G. Freyre, Ingleses, p. 24-5; I. B., p. 214-17.
las. Ao longo do texto, encontramos indícios dessa 15
G. Freyre, Ingleses, p. 34.
influência, por assim dizer, de "contra-mão", quando 16
G. Freyre, I. B., p. 97, 106, 128 e passim.
Freyre se refere, por exemplo, a ingleses fazendo siesta, 17
ibidem, p. 61.
imitando o nosso "inteligente uso de guarda-pó" (que 18
ibidem, p. 257, 179.
talvez tenham levado para suas colônias tropicais) e 19
ibidem, p. 109. 242, passim.
abandonando seus móveis angulosos de "linhas 20
ibidem, p. 299, 108-9, 119-20, 184-6, e passim.
anglicanamente secas" em prol de um estilo feminino, 21
ibidem, p. 320.
curvo e gracioso. Era "a Inglaterra modificando-se no
22
ibidem, p, 119-21.
Brasil", diz ele.52 Mas mais do que indícios muito pal-
23
ibidem, p. 360-3, passim.
24
G. Freyre, Ingleses, p. 119-20.
páveis, o que o texto faz com relativa insistência em 25
Cf. M. L. G.Pallares-Burke, "O caminho para a Casa-Grande:
suas páginas é acenar com vivacidade e convicção para Gilberto Freyre e suas leituras inglesas", ob. cit. Darcy Ribeiro se
a relevância de pacientes estudos sobre as marcas bra- refere ao fato de G. Freyre – que era, na verdade, "dois: o
sileiras na cultura inglesa. Pois não há dúvida, segun- pernambucano e o inglês" – ter trazido do estrangeiro " um olhar
do Freyre, que enquanto o Brasil se europeizava e se inquisitivo", que lhe permitia observar o que era familiar como se
fosse novidade. (D. Ribeiro, Prólogo, Casa-Grande & Senzala, Bi-
anglicizava, os ingleses também se abrasileiravam.53 blioteca Ayacucho, Caracas, 1977, p. XVIII).
Resta saber o que eles levavam da cultura brasileira 26
W. Hazlitt, Lectures on the English Comic Writers, London,
na sua bagagem de volta, além dos tão estimados pa- Everyman's Library, 1910, p. 91-105.
pagaios e macacos, do gosto pelo doce com queijo, 27
G. Freyre, I. B., p. 107-9; 119-21; 122-133, passim.
das vitórias-régias e dos móveis arredondados e sen- 28
Cf. M. Medlycott, "Window and other assessed taxes", in J.
suais, com pernas que lembravam pernas de moças Gibson, M. Medlycott, D. Mills, Land and Window tax assessments,
second edition, London, 1998, 13-14.
robustas ou, ao menos, mais cheinhas do que as in- 29
G. Freyre, I. B., 194-204, passim.
glesas. Dentre os muitos estudos sugeridos por Freyre, 30
ibidem., 204-220, passim.
este seguramente ainda está para ser feito. 31
ibidem, p. 220.
32
ibidem, p.295.
_______________________ 33
E. P. Thompson, The Making of the English Working Class, London,
V. Gollancz, 1963, p. 12.
Notas 34
C. Ginzburg, "Clues: Roots of an Evidential Paradigm", Myths,
1
G. Freyre, Casa-Grande & Senzala, 29a. Ed., Rio de Janeiro, Ed. Emblems, Clues, London, Hutchinson Radius, 1986, p. 123-24.
Record, 1992, p. 424. 35
Cf. M. L. G.Pallares-Burke, "O caminho para a Casa-Grande:
2
G. Freyre, Sobrados e Mucambos, 2 volumes, Rio de Janeiro, José Gilberto Freyre e suas leituras inglesas", op. cit.
Olympio, 1961, II, p. 533-34. 36
G. Freyre, I. B.,p. 39, 44, 295, passim.
3
G. Freyre, Ingleses, Rio de Janeiro, José Olympio, 1942, p. 21. 37
P. Arbousse-Bastide, Prefácio, Um Engenheiro Francês no Brasil,
4
P. Arbousse-Bastide, Prefácio, Um Engenheiro Francês no Brasil, I, p. 4-6; R. Bastide, cit. In P. Arbousse-Bastide, ibidem, p. 5-7.
2 vols., Rio de Janeiro, José Olympio, 1960, I, p. 27. 38
L. Venturi, Painting and Painters – How to look at a Picture, from
5
G. Freyre, Tempo Morto e Outros Tempos – Trechos de um Diário Giotto to Chagall, London, C. Scribner's Sons, 1947, p. 72, 84,
de Adolescência e Primeira Mocidade 1915-1930, Rio de Janeiro, 112-15.
José Olympio, 1975, p. 60. 39
Cf. H. P.Chapman, Rembrandt's Self-Portraits – A Study in

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Seventeenth-Century Identity, Princeton, Princeton University Press,
1990, p. 75.
40
G. Freyre, I. B., p. 27-29, 37-38.
41
ibidem, p. 383-394.
42
ibidem, p. 295-6.
43
ibidem, p. 296-8; 309-11, passim.
44
G. Freyre, Dona Sinhá e o Filho Padre, Rio de Janeiro, Ediouro,
2000, p. 72.
45
ibidem, p.149.
46
ibidem, p. 212.
47
ibidem, p. 217, 220, 228, passim.
48
P. Arbousse-Bastide, Prefácio, Um Engenheiro Francês no Brasil,
I, p. 1, 22.
49
F. Ortiz, Contrapuenteo cubano del tabaco y el azucar, (1a. ed.,
1940), Havana, Universidad Central de las Villas, 1963.
50
G. Freyre, I. B., p. 231.
51
G.Freyre, I. B., p. 35.
52
ibidem, p. 192, 222-23, passim.
53
ibidem, p. 214, 231, 278, passim.

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The Place of Material Culture in Ingleses
no Brasil

Peter Burke
Historiador – Universidade de Cambridge – Inglaterra

Ingleses no Brasil (henceforth IB) can be everyday, on on private life, or as Freyre


discussed from many points of view: the one I himself said, stories of interesse humano (294),
shall privilege today is that of Freyre”s or (following the Goncourt brothers) História
description and interpretation of material Íntima. História Íntima was a reaction against
culture, especially in the second of the book”s the traditional assumption of the “dignity of
four essays, Os Ingleses nos Anuncios. What I history” and a plea for the study of ordinary
should like to do now is to discuss what he people, humble objects, and apparently trivi-
says about material culture in two contexts. al details, pormenores. A project which has of
The first is that of his other books, his lifetime course enlisted many recruits in the last few
of a interpretação do Brasil (35). The second years under the banner of the new cultural
context into which to place the book is that history, but one which in the 1940s was still
of other studies of material culture, whether relatively unusual, if not downright eccentric.
by architects, historians, sociologists or Freyre’s interest in everyday things
anthropologists, whether concerned with began early in his career. Originally, perhaps,
South America or with Europe, or indeed with it was an aesthetic or a sentimental response,
other regions such as Japan. A comparative encouraged by his reading of English essayists
approach comes naturally to an outsider like and especially of Walter Pater 1. By Freyre’s
myself and is what I can best contribute to early adulthood, however, this interest was
this collective re-assessment of Freyre”s work. already taking an anthropological or
If Gilberto”s books were like paintings, sociological turn. Already in 1922, on a visit
such as the portraits of Titian he mentions early to Berlin, he confessed himself to be Deliciado
in IB (27), they were especially like the Dutch com os museus da antropologia e etnologia
paintings of the seventeenth century, by artists da Alemanha que venho visitando, orientado
such as Pieter de Hooch or Frans Post, pelo meu mestre Boas 2. Boas, it should be
recording careful observations of things as well remembered, had begun his career in the
as people. Of all the major works of Gilberto museum world before turning to teaching and
Freyre, Ingleses no Brasil is the one in which becoming a professor at Columbia University,
most attention is devoted to what Henry James and he wrote extensively about the material
called the empire of things, to material culture. culture of the American Indians as well as
The author also has much of interest to say about the idea of race. Freyre1’s social history
about people, such as engineers and consuls of things owes something important to his old
(and even un “mágico”); about language; teacher in anthropology.
about practices, from football to parliamentary Boas paid great attention to detail but
democracy; and about values, from religion he was often reluctant to make generalisations.
to the dignity of labour, comfort and Oswald Spengler, on the other hand, whose
punctuality (itself something of a religion, as inspiration Freyre acknowledged in the
Africans observed about Englishmen whose preface to the first edition of Casa-Grande &
god was their watch). All the same, things Senzala , produced grand generalisations
dominate the book. illustrated with occasional concrete examples.
The study of things, Freyre’s archaeology In his famous Decline of the West (1918),
of Brazil as we might call it, was clearly part of Spengler asserted that “of all expressions of
his lifetime project of a social history or race, the purest is the house”, which reflects
historical sociology or historical anthropology. “every trait of original custom and form of
Essential to this project was the focus on the being”, including family organisation 3. He

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140
made a similar point about what he called “the their furnishings).
completely unstudied basic (i. e. customary) forms of It was only to be expected that the author of of
pots, weapons, clothing”. For example, “the evolution a study “em torno da Etnografia, da História e da Soci-
of the Northern seat-furniture is, right up to the club ologia do doce no nordeste canavieiro (1939) would
arm-chair, a piece of race-history and not of what is have something of interest to say about food, on one
called style-history” 4. As we might say, an analysis of side the entrance into Brazilian life of British beef and
the changing forms of furniture should be located cheese, beer and tea, bread and biscuits, and on the
within the context of cultural history. other the discovery (on the part of a few Englishmen
I also suspect, though I cannot prove this, that at least) of the delights of cachaça and carne seca. A
Freyre learned something about the social meanings fascinating but tantalisingly brief passage introduces
of things from the American sociologist Thorstein readers to the social history of snuff: “o uso do rapé
Veblen, whose work he knew well and whose Theory não era então um simples requinte volutuoso: tam-
of the Leisure Class, published in 1899, includes some bém unm hábito profilático ou de higiene pessoal quem
striking passages about what Veblen was the first to sob ese aspecto, talvez não tenha tido ainda o estudo
call “conspicuous consumption”, especially que merece” (234).
consumption on clothes, ranging from the top hat to Clothes are less prominent in IB than in some
the corset and viewed as the insignia of leisure 5. other places in Freyre’s work, but this book too has
As for Freyre, the articles he wrote in the 1920s something of interest to say about the introduction
for the Diario de Pernambuco are sufficient testimony into Brazil of the dinner jacket, the redingote, the xale,
to his interest in the social and historical significance the casaca de casemira, the chapéu-de-sol and the
of toys, food, clothes, buildings and their furnishings. chapéu redondo, replacing traditional items such as
The points which he originally made in these early the chapéu triangular, the mantilha, the capuz, the
articles were to be developed more fully in Casa-Gran- casaco de brim and so on (57, 182, 189, 194, 278).
de & Senzala and in Sobrados e Mucambos – as the It was once more only to be expected that the
titles of these books indicate; in Nordeste, which was author of CGS and SM would have remarks to make
built around the idea of a “civilização de açúcar”; in about housing, or more generally about what is known
later studies such as Ordem e Progresso; and most fully today as “vernacular architecture”. About the
in IB. bungalow, for example (65-6), the railway station
What follows is divided into three parts, (118), the sobrado (for the third time), and more
beginning with a description of the aspects of materi- especially about the suburban chácara (184-6, 216).
al culture on which Gilberto concentrates his attention ML has already mentioned the importance given by
in IB; in the second place, discussing the interpretation Freyre to the replacement of traditional gelosias by
he gives to them; and finally, considering the influence glass windows imported from England. Another
of his work, especially on more recent studies of novelty were iron varandas, a topic to which I shall
Brazilian culture in the nineteenth and twentieth return.
centuries. Freyre devoted even more attention to the
Faithful to the informal tradition of the essay, interiors of houses than to their exteriors. For example,
Freyre presents his ideas and examples in a deliberately he noted the rise of the hall and the W. C. in the chá-
unsystematic way. He has something of interest to say caras modernised by their new English owners (186).
about a wide range of material objects, for example He discussed the interest shown by early nineteenth-
the history of the body or the history of various means century Brazilians in the style of interior decoration
of transport such as carriages, trains, trams and which had been developed in late eighteenth-century
bicycles. More generally, the author points out that England by Robert Adam (1728-92) and his brother
the Brazilians owed to the British “as primeiras fundi- James, following the model of ancient Roman interiors
ções modernas, o primeiro cabo submarino, as primei- recently rediscovered following excavations at Pompeii
ras estradas de ferro, os primeiros telégrafos, os pri- and Herculaneum.
meiros bondes, as primeiras moendas de engenho Turning to furnishings, Freyre has even more to
moderno de açúcar, a primeira iluminação a gás, os say about the use in Brazilian homes of English cutlery
primeiros barcos a vapor, as primeiras redes de esgo- and crockery (including aparelhos de chá ), and
tos” (52, the first example in IB of Freyre’s extensive furniture, from the mesa de chá to the bufete or apa-
use of what might be called the rhetoric of lists, cf. rador (56), not forgetting the piano, which receives
56f, 76, 111, 154, 169, 200). However, what follows particular attention as a symbol of civilization (220f).
will emphasise the classic trilogy of topics, food, There will be more to say about pianos later. The
clothes, and houses, especially houses (not forgetting author does not forget his favourite brinquedos (156-

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141
7), objects which had enticed him into social history, “acculturation” (231). These concepts are all associated
since the book which eventually became CGS had with the attention which Freyre gives, as usual, to so-
originally begun as a project on the history of cial symbols, to things as expressions of mentalities
childhood in Brazil. and values.
It was in the context of the interiors of Brazilian This student of material culture was not a
houses that Freyre praised the traveller Maria Graham materialist. Indeed, he pokes fun at the místico do
for her remarkable powers of observation, “olhos que Materialismo Histórico com M e H maiúsculos(121),
lembram os das boas romancistas inglesas, tal a sua while continuing, semi-seriously, to describe
capacidade para destacar os pormenores significati- nineteenth-century England as a civilização carbonífera
vos”(188, cf 217). The eye for domestic details is (220), in the same way as he had described the North
perhaps a predominantly feminine one, illustrated by East as a civilização de açúcar. His attitude to the
Jane Austen and George Eliot as well as by Maria relation between material and immaterial culture offers
Graham. Yet the phrase, “capacidade para destacar a typical example of Freyre’s many-sidedness
os pormenores significativos” is one which applies (otherwise known as his conceptual “fluidity”), his
equally well to Gilberto himself. capacity to look at the same phenomena from a variety
For IB is not a work of antiquarianism, like the of points of view, which, perhaps on purpose, he never
few earlier studies in the field such as Clado Ribeiro reconciles in a definitive synthesis.
de Lessa’s article on mobiliário brasileiro 6. What makes To return to the velvet revolution. It is presented
the details in IB significant is the author’s awareness as a consequence of an encounter between unequals,
that they reveal something about the whole culture, a “superior” and “inferior”. On many occasions this
point which he had been repeating in articles and encounter is described by the author in the strong
books from the early 1920s onwards. Culture, he still language of “imperialism” (31), “domination” (33),
found it necessary to warn his readers in 1948, “no “invasion” (133), “conquest” (164) and “penetration”
sentido sociológico” (66) including the Condições (238), in the sense of the “substitution” of traditional
Materiais de Vida (90). The lessons he had learned items of culture for new ones (278). At times, as in the
from Boas and Spengler nearly thirty years earlier had case of the introduction of glass windows into Brazilian
not been forgotten. houses, Freyre argues that cultural change came about
The integration of a multitude of concrete details for economic reasons, that the British were in a
into a general picture, which makes the great strength position to impose their supplies without waiting for
of IB, was assisted by the author’s interest in the local demand (196f).
analysis of the process of cultural change. The book However, faithful to the author’s many-
moves from the a first stage describing what the English sidedness, this strong thesis about British cultural
did in order to create homes for themselves in Brazil, imperialism is qualified in two important ways. Freyre
to a second stage, describing how the Brazilians notes not only the penetration of the weak by the
transformed their houses and their habits following strong but an “interpenetração de culturas”. He argues
the English example. The author introduces two that “a cultura técnica e literariamente superior não
important ideas. The first of these, mentioned only agiu de modo absoluto, ou sempre soberanamente,
briefly, is the idea of an old regime, a semi-oriental sobre a inferior. Do contacto dos britânicos com a so-
old regime in houses and furnishings, “a arquitetura ciedade brasileira resultaram também influências bra-
das casas, cheia de reminiscencias orientais, móveis sileiras sobre a cultura do povo imperial” (35).
de estilo indiano”, and “louça da mesa ... da China, da For example, Freyre quotes examples of indivi-
India ou do Japão(182). The second key idea, repeated dual Englishmen who “went native”, as their
several times, is that of a revolution, a gentle, velvet compatriots would have said, developing a taste for
revolution (a revolução branca, macia), inspired by the carne seca, feijoada, farinha, or doce de goiaba (103,
British (195-6, 198, 217, 220). 107), not to mention “as doçuras do pecado quase
The idea of “revolution” is accompanied by a nefando de possuir escravos” (231). He also hints at
whole arsenal of other concepts. “Modernisation” the influence of Brazil on the English people in gene-
occurs on occasion (90, 215, 220), though the idea ral (35, 136), although he only produced anecdotal
does not receive much emphasis. Among the most evidence and admitted that “as expressões inconfun-
important concepts which recur in IB are three: in díveis de influência brasileira sobre britânicos” were
the first place, “europeanisation” (or “re- rare (one reason for the difficulty, one might add, was
europeanisation”); secondly, “influência ”(a term because the influence of the tropics entered England
already used in the book’s the sub-title); and in the in the age of imperialism from Asia and Africa as well
third place, following the anthropologists, as from the Americas).

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142
Still more important a qualification to the other scholars concerned with the consequences of
imperialism thesis is Freyre’s stress on active reception: cultural encounters in different parts of the world, just
on the transformation, adaptation (186-7, 193), or as he was aware of the ecological theories of the
domestication (233) of the foreign in order to fit into a American sociologists Robert Park and Ernest Burgess.
new environment, “o Brasil misturando, fundindo, re- It is obvious that IB, the first volume of a planned
creando tudo ... a seu jeito” (231). The ecological series of essays, could have been developed further
approach already apparent in Nordeste can also be in all sorts of ways. So far as method is concerned,
found in IB (167-8, 183, 213). The old missionary term texts describing things could have been supplemented
of “accommodation” is one which Freyre sometimes by the study of the things themselves. The use of
likes to use in this context (33, 216, 233). His famous images, which generally do little more than decorate
concern with processes of hybridisation, mixture or the text of IB, could have been more systematic. For
mestiçagem is here expanded and developed to example, a reference to an engraving of Recife (218)
include Anglo-Brazilian cultural relations (the emphasis is not accompanied by an illustration. Topics such as
falls on culture, for examples of Englishmen marrying the social history of snuff or the anglicising architecture
Brazilians are mentioned only in passing). Not so much of hotels or railway stations deserved – and still deserve
“substitutions” as “meias substituições” (278). – to be discussed at greater length. A chapter on
One form of mixing described by Freyre offers railway stations might have been illustrated with
Brazilian examples of what writers on nineteenth and photographs, including the Estação da Luz in São Pau-
twentieth-century Japan have called the “double life”. lo 8. It was of course inevitable that a volume of essays
The phrase refers to the segregation of innovations to on a large subject would leave many aspects of its
a particular domain of life, with the private sphere topic unstudied, and in any case the author had plans
remaining traditional long after the public sphere has for further volumes (plans which are printed in IB itself).
been modernised. For example, films as well as Freyre was always extremely fertile in suggestions for
sociologists have shown the Japanese office worker or future research, for himself or for others.
“sarariman” wearing a western suit in the office but Alas, few of his suggestions have actually been
slipping into a traditional kimono at home. In similare taken up, though his remarks on the piano have found
fashion, Freyre shows us some nineteenth-century an echo. Independently of Freyre, a history of Australia
Brazilians wearing a casaco de casemira and a tie in published in 1970 discussed the import of pianos in
the street, but a traditional casaco de brim in their the nineteenth century as a “symbol of higher values”
own house (189) 7. and “the inevitable accompaniment of colonial hopes
Adaptation is one of the major themes in IB. and despairs” 9. The more recent film, The Piano
On one side, there is anglicisation: the English in Brazil (1993) set in nineteenth-century New Zealand, also
adapted houses to their own tastes. “Uma vez instala- uses the instrument as a symbol of the civilisation
dos em chácaras ou em sitios, os ingleses os inglesavam which the heroine has left behind her.
no que era possível. Procuravam dar as baixas de ca- Yet, extraordinary as it may seem, there is no
pim o aspecto de gramados” (215). On the other side, book like IB – at least no book known to me – which
there is brasilianisation. Freyre described the style of deals in this manner with the cultural influence of the
the new Brazilian interior in the style of the brothers English in other parts of the world; in China, in Japan,
Adam as that of “um Adams já portuguesado”, and or in their formal empire in Africa and above all in
claimed to see “O estilo inglês de móvel arredondan- India, the country which most influenced the English
do-se no clima brasileiro” (223), in place of “Essas li- in return. No discussion of parliamentary procedure
nhas anglicanamente secas”. In similar fashion, so he in India, or the Sandhurst-trained officer class in
argued, the evidence concerning the posessions of Pakistan, or the rhetoric of Indian newspapers (which
Brazilian families derived from the advertisements in remind an English visitor like myself of The Times of a
the Jornal do Comércio and other papers of hundred years ago). Today, more than half a century
forthcoming auctions of their goods, suggested that after Indian independence, some upper-class
the crockery and cutlery imported from England were Englishmen, including Prince Charles, still wear
“domesticated” or adapted to their new environment jodhpurs and play polo. Some middle-class families
in the New World. live in bungalows with verandas (Indian words referring
Beyond domestication, there was a place in the to Indian things before they gradually became part of
book’s conceptual apparatus for the idea of English culture) 10. Even the English working-class now
“resistance” (133, 172, 249). Freyre wears his theory enjoys eating curry with papadums and mango
lightly but it is clear enough that he is familiar with the chutney.
work of Bronislaw Malinowski, Fernando Ortiz and Despite the temptation to say more about both

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143
a British India and an Indian Britain, I should like to investment” in the purchases, so many signs of Europe,
end this paper by returning to Brazil. A few of Freyre’s in other words civilisation. The point is a fair one, but
points about the English in Brazil have been developed it is not confined to Brazil, or even to peripheries.
by later historians, notably by two Americans, Richard Needell might have added that clothes carry a load of
Graham and Jeffrey Needell, though with less social symbolism in most cultures, in London and New
reference to Freyre than he surely deserves. York just as much as in Rio de Janeiro or Buenos Aires.
Graham focusses on a later period, 1850-1914, To conclude. IB was not Freyre’s best book but
and his main theme is “modernisation”. He is an it made an essential contribution to his enterprise of
economic historian who argues that “It was the export- interpreting Brazil, a contribution which has not been
oriented economy that drove Brazil into the modern taken as seriously as it deserves. Plans are afoot for an
world” 11. In the fourth chapter, “the urban style”, he English translation, and I wish this project success. Let
looks at imports from England, from football to town us hope too that Freyre’s book inspires imitators and
planning (for example, Higienópolis in São Paulo, laid that points which he made only briefly will be
out from 1911 onwards by the City of San Paulo developed further. Such a social history of things might
Improvements and Freehold Land Company 12 . take advantage of technological change and make
Graham’s first footnote to this chapter refers to IB and more use of images, as well as of objects themselves
the author subsequently cites Ordem e Progresso, but as sources for their own history.
these two brief references are scarcely an adequate There is also a need to look at the twentieth
expression of what the author owes to Freyre’s century in the same sort of way. Gilberto himself was
example. He draws on the same sources, such as the part of this story, with his whisky, the tweed jacket he
Jornal do Commercio; makes similar points about the wore in the hot summers of Recife and his beloved
Brazilian enthusiasm for foreign products and about bicycle. More recent developments such as the con-
similar products, such as cheese, soap, umbrellas, pi- domínio and the shopping all deserve an analysis in
anos, sideboards, wash-stands; and advances a simi- the manner of Freyre on the chácara and the
lar interpretation, though he has rather more to say bungalow. The Brazilian cult of the foreign continues,
about modernity, concluding that “Plumbing and although England is no longer the principal object of
soccer, beer and pianos, umbrellas and streetcars were devotion. So when will a Brazilian historian write about
the ritual dress and sacred instruments in the rites of the influence of the USA on Brazil? To write a true
passage from traditional to modern” 13. social history of Coca-Cola and McDonald’s, of T-shirts
Unlike Freyre, Graham has little to say about and Levis, of Cadillacs and Chevrolets, integrating them
adaptation to local circumstances. In his Tropical Belle into the history of Brazil in the 20th century – that
Epoque, which refers to Freyre only in passing, Jeffrey would surely be a task worthy of a new Gilberto Freyre
Needell focusses on late nineteenth-century Rio and 16.

the Brazilian failure or more exactly their refusal to


adapt imported articles, French or English, to their tro- _______________________
pical environment. Needell’s favourite examples
Notas
concern clothes, such as thick black frock coats. He
quotes, for example, the remark of G. Amado that “A
1
Maria Lúcia G. Pallares-Burke, “Gilberto Freyre e a Inglaterra”,
Tempo Social 9 (1997), 13-38, especially 27f.
well-to-do family was distinguished by the thickness 2
Gilberto Freyre, Tempo Morto, 88.
of the cloth that it wore”, and L. E. da Costa’s memories 3
Oswald Spengler The Decline of the West (1918: English
of wearing “English cashmere, thick, stiff and very hot translation London 1924), vol. 2, 120-1, 329-30.
for a climate like ours” 14. The examples are vivid ones, 4
Spengler (1918), vol. 2, 121-2.
which Veblen would have appreciated – since the use 5
Gilberto Freyre, Sociologia (4th edition, 1967), vol. 2, 364, 419.
of heavy clothes in a hot climate doubtless signified, 6
Ribeiro de Lessa (1939).
among other things, that the wearer was a lady or
7
On the double life, J. Witte, Japan zwischen zwei Kulturen (Leipzig,
1928); Edward Seidensticker, Low City, High City: Tokyo from Edo
gentleman of leisure. But it should be added that Freyre
the the Earthquake, 1867-1923 (London, 1983).
too was aware of the use of objects “fora do lugar”, 8
An example of a photograph relevant to Freyre’s theme, the image
and that he had already discussed “a falta de adapta- of the ferry terminal at Rio, with the word FERRY in capitals on the
ção do trajo brasileiro ao clima” in CGS, and once pediment, a photograph by Gilberto Ferrez, is reproduced in Robert
again in Ordem e Progresso, noting the medical criti- M. Levine, Images of History (Durham and London, 1989).
9
Humphrey McQueen, A New Britannia (Harmondsworth, 1970),
ques of fashion 15.
117-9.
Following Marx and Benjamin, Needell 10
Cf Anthony D. King, Colonial Urban Development (London,
describes this type of consumption as “consumer 1976).
fetichism”, noting what he calls the “fantasy 11
Richard Graham, Britain and the Onset of Modernisation in Brazil,

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144
1850-1914 (Cambridge, 1968), 123.
12
Graham, 119ff.
13
Graham, 124.
14
Jeffrey Needell, A Tropical Belle Epoque (Cambridge 1987), 156-
77: the reference to Freyre on p. 153. G. Freyre, Casa-Grande &
Senzala (1933: Rio, 19xx, 581); G. Amado, Influência, 23-4; L. E.
da Costa, Rio, vol. 1, 74-7.
15
Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala (1933: 29th ed., Rio
1992), 415f; id, Ordem e Progresso (Rio, 1959), 707.
16
Once again, Gilberto himself shows the way, for example in his
remarks on the “ianquização” of Brazil in Ordem e Progresso, 196,
682.

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146
MESA-REDONDA 6
AVENTURA E ROTINA

Dia 23 de março
COORDENADOR:
Alberto da Costa e Silva
Escritor – Embaixador – Brasil
Aventuras e Desventuras em Tempo
Morto e Outros Tempos

Mary del Priore


Historiadora – Departamento de História da Universidade de São Paulo –
Brasil

“Um diário não é só registro de sucessivos uma vida plena de momentos excepcionais a
encontros – ou desencontros – de um ser desfrutados, gozados, fruídos.
indivíduo alongado em pessoa, consigo Em 1915, a aventura é um dos concei-
mesmo. Envolve outros indivíduos. Outras tos que exsudam da pena do jovem Gilberto
pessoas. Instituições. Conflitos de indivíduo Freyre para tratar com nostalgia de sua infân-
ou de pessoa com grupos, convenções, cia. O trem elétrico, os blocos de madeira com
tendências do seu tempo e do seu meio os quais construiu cidades, igrejas e "castelos
social. Revoltas. Resistência a esse tempo e a das fantasias vãs". "Também os soldados de
esse meio. Quixotismo. E também chumbo desmilitarizados em simples e paisa-
pancismos: acomodações, transigências, nos homens e mulheres e tornados a parte
subordinações” (Gilberto Freyre, prefácio a viva e humana do meu mundo – diz ele – um
Tempo Morto e Outros Tempos, 1975). mundo que durante anos criei à minha ima-
gem como se sozinho, em recantos quase se-
Esse texto começa com várias pergun- cretos da casa, e depois num sótão que se
tas. Por exemplo, teria jamais Gilberto Freyre tornou meu quase domínio absoluto, eu brin-
sonhado com aventuras, tal como o fez o jo- casse de ser Deus".2 Constrangidos por uma
vem Flaubert ao embarcar, em 1849, para o vida excessivamente feliz, os sonhos de ex-
Egito? O que terá encontrado de suas própri- plorações impossíveis do então menino de
as projeções, daquelas vividas em sonho ou quinze anos eram realizados nas batalhas ima-
nascidas de coisas lidas, espécie de espirais ginárias ou nos esconderijos criados por ve-
do presente no passado, no mundo que des- lhos móveis de madeira, abandonados nos
bravou entre seus quinze e trinta anos e cujo desvãos do telhado. Apelo à plenitude ou à
registro nos legou em Tempo Morto e Outros incandescência de viver, o desejo de aventu-
Tempos? Um diário onde se escreve e se des- ra do adolescente exigia o despojamento das
creve uma vida não é também a invenção da antigas fidelidades, o abandono de "bugigan-
existência e de seu sentido? Não é o diário o gas e brinquedos amados" que o ridiculariza-
espaço mesmo da descrição de aventuras vam frente a primos e vizinhos. "Agora – con-
marcadas pelo imprevisto e pelo inesperado, fessa o menino ao diário – esse mundo se
como afirma o próprio autor no prefácio do desfez, o meu novo mundo só conserva do
livro? velho as minhas garatujas".3 Gilberto deixava
Esclareçamos, contudo, o ponto de par- para traz os parâmetros de segurança da casa
tida de nossa análise: a aventura não existe patriarcal para mergulhar num universo de
em si. Ela existe, sim, no espírito de quem a incertezas: "Como se explica que me faça cho-
persegue. A aventura celebra o encontro do rar o fim do carnaval? " pergunta-se, ansioso
homem com o imprevisível, arrancando-o da por construir uma personalidade sem entra-
quietude que o protege de si mesmo e do ves, endossando o papel de múltiplos perso-
mundo. As circunstâncias nas quais se vivem nagens condensados dentro de si, para vivê-
aventuras, desarmam as rotinas ventilando a los nem que fosse por um dia. Tais
existência com um sopro inédito, novo, súbi- personagens se alternavam. Havia o que fre-
to1. A aventura é o dom de sonhar, parte es- qüentava a "república" de estudantes de Di-
condida em cada indivíduo, fazendo-o vibrar reito leitor de Nietzche e Conte, dando aulas
com a escuta ou a leitura de uma narrativa de de latim e grego aos alunos mais velhos, um
perigos e prazeres. A aventura o deixa pres- "prodígio" de erudição4 capaz de dirigir, como
sentir uma existência sem "tempos mortos", redator chefe, "O lábaro", o jornal da escola. 5

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149
Havia o que se esgueirava até a enferrujada cama de ele, a aventura não chegaria de forma intempestiva.
vento da "Mulatinha A.", "sereia de cuja voz parecia Seria, pelo contrário, conquista. Seria avanço caute-
correr mel irresistível"6, – confessa – para cometer loso sobre terras incógnitas, seria desbravamento de
pecados de menino7. Havia o que mudara a relação novos saberes, seria mergulho num mundo quase
com a mãe e as irmãs em função das descobertas do desconhecido para seus contemporâneos brasileiros.
sexo. Os vários personagens só comprovam as múlti- E essas terras e esse mundo eram os novos autores
plas facetas do adolescente cuja aspiração era ser o que freqüentaria nas universidades americanas: Mil-
que ainda não era. "Lendo Kant com toda a intensida- ton, Bacon, Dryden além do que chamava "leituras
de de atenção e toda a vontade de compreensão de mais aventurosas do que dirigidas"12, das obras de
que sou capaz", anotava, sério, desejando-se outro. Ruskin, Swift, Macaulay entre outros. A torrencial pro-
Outro mais velho e mais forte, capaz de perder-se no dução estrangeira, velha, ou melhor, madura por sé-
corpo a corpo com o mundo. culos de interpretação, não atemorizava a juventude
Mas a vida mais tranqüila, mesmo num sono- do leitor. O desejo de comunicar-se, de estabelecer
lento e "pobre" Recife8, não estava ao abrigo de en- trocas intelectuais marcaria, por outro lado, o conta-
contros como o que o leva à Paraíba "quase fugido de to com professores como Franz Boas ou Amy Lowell.
casa, quase secretamente"9, – registra – para fazer uma A ausência de malícia e de dissimulação na maneira
conferência. Seu quotidiano tampouco se encontra- de ser de Gilberto só acentuavam o frescor do conta-
va ao abrigo do desejo irreprimível, nascido de uma to entre os intelectuais e o menino. Ensaios exausti-
imagem: "Preciso sair daqui. Esta guerra é o diabo", vamente relidos, a percepção de que os estudos po-
queixa-se, ansiando por uma Europa que para ele não diam ter uma dimensão simultaneamente sociológica,
passava, então, de "uma lua refletida no espelho de biológica e psicológica, 13 o nível de exigência de mes-
bolso".10 Menos ainda ao abrigo do tédio que exigia tres como Amstrong, professor de literatura, a clan-
pronta reação, pois para o jovem de quinze anos, a destinidade da língua portuguesa e de seus autores,
adolescência era – como ele mesmo declarava – a tornavam a aventura americana uma sucessão de obs-
idade da "busca de aventuras e de ânsias de glória". táculos a serem vencidos. Um abismo de tempo in-
"Eu próprio escaparei à mediocridade tribal para me vestido e de esforços sem limites. A aventura ainda
portar como herói em alguma guerra ou revolução",11 não exaltava o precoce aventureiro. Só importava a
perguntava? A decisão não estava fora de sua iniciati- missão que o transformaria, em menos de um ano,
va, mas ela não dependia tampouco só dela. A aven- em "genius".14 Gênio, que segundo ele mesmo, era
tura implicava uma luta contra as adversidades, aque- "apelido nada simpático [...] dos que criam distâncias
las dos homens ou a dos elementos. Ela projetava entre os distinguidos por eles e a massa".15
Gilberto, ainda menino, numa outra dimensão da exis- A aventura nos Estados Unidos o obrigara, tam-
tência, longe dos apoios familiares e de toda a forma bém, a olhar o Outro: o americano. E a experiência,
de rotina pessoal. Ela induzia a uma intensidade de o vivido, o confronto com outros homens e hábitos
existir, sem par na vida quotidiana. funcionavam como uma verdadeira iniciação, mudan-
Nesse quadro, ele parte. Tinha, então, dezoito do a consciência do mundo que o cercava. Seu olhar
anos. A bordo do Curvelo, registra: "Viajo cheio de avaliava, fundado na distinção puramente relativista,
saudades. Mas também animado de uma grande cu- entre o bom e o ruim16. A mesmice culinária o fazia
riosidade: saber o que me espera nos Estados Uni- crer estar comendo "papelão". Julgava negativamente
dos. Como serão meus estudos?" Tinha a convicção o tipo físico igualmente "estandartizado", ("o tipo de
que mais do que um fato biográfico, a ida aos EUA, óculos é um só. Único. Uniforme. O penteado tam-
ou seja, a aventura americana, seria o advento cuja bém. A barba quando aparece é convencional [...]
privilegiada duração – o tempo de estudos – daria à nenhuma barbicha que marque de personalidade um
luz um novo homem, homem transfigurado pelas cir- rosto menos estandartizado"). O bairro negro de Waco,
cunstâncias, estrangeiro ao fastio e ao aborrecimen- habitado por gente "amarga, mas resignada", criticava
to. decepcionado, era "imundo e nojento. Uma vergo-
Tendo passado sua juventude num colégio in- nha para a civilização filistina que enviava missionári-
glês e protestante, o jovem Freyre devia entender a os aos pagãos".17 E o que dizer das reuniões de cren-
aventura não como uma jazida esperando para ser tes em igrejas rurais, repletas de gritos, desmaios e
explorada graças a certa forma paradoxal de labor e uma "exibição tremenda de histeria religiosa" de uma
tenacidade. Tal como a graça do luterano não bastava gente que queria converter os "católicos supersticio-
reclamá-la do convés do navio, enquanto sucediam- sos”? 18 Nova York, diagnosticava, era uma cidade de
se as coloridas paisagens antilhanas ou cruzavam-se homens em tudo "médios: na inteligência, na cultura,
os submersos e silenciosos submarinos alemães. Para na moralidade, no corpo".19 A experiência de convi-

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150
ver com o Outro nutria-se de conflitos originando um antecedem os estudos em Oxford. Na Europa dos anos
"aprendizado” como diria Goethe, ou uma 20, assistiu ao descarte dos valores pictóricos tradici-
"fenomenologia", segundo Hegel. Essa "educação", onais, das imagens poéticas e da tonalidade musical.
como bem diz Jean Duvignaud, 20 ou seja, o percurso Ouviu a estrutura harmônica pura e fria de Debussy
de um ciclo de peripécias que são simultaneamente impor-se contra o romantismo. Impressionou-se com
para o indivíduo um ciclo de mortes e nascimentos, o teatro alemão que alterara a noção de tempo. Lera
espécie de embriologia contínua, inseriam a aventura Joyce e Kafka, que discorriam sobre a absurdidade da
na vida quotidiana de Freyre, desnudando uma per- vida. Em tudo, percebera o abandono de enredos, o
sonalidade em nada prisioneira de uma carreira fe- abandono de heróis, marca, aliás, da produção artís-
chada. Como ele bem diz, "Conheço aqui vários re- tica do entre-guerras. Outra característica, era a pre-
cém-formados no grau de Ph.D. Quase todos uns sença, em todos os gêneros e tendências da arte, da
cretinos. Ignorantes como eles sós".21 Mas ele, ao con- noção bergsoniana de tempo. Tempo que, para o fi-
trário, era alguém atraído pelo tormento do possível, lósofo parisiense, filho de pai polonês e de mãe ingle-
do acaso e desdenhoso das calmas evidências do pre- sa de confissão judaica, era "simultaneidade dos esta-
sente. Rebelde contra a pasmaceira ordem das coi- dos das alma".23 Em toda a parte, esbarrava em
sas. Hei-lo em Nova Iorque, afirmando altaneiro em assustador niilismo: "Em literatura, sua expressão mais
1921: "Sem escravizar a eles (os graus da universida- nítida, me parece que é o espírito enxuto – enxuto,
de americana) meus livres e aventurosos estudos. Fa- mas não ósseo – dos Gide e dos Joyce”.24 Sua grande
zendo, neste particular, muito espanholamente, o que preocupação era o estilo, isso que para os europeus
nos dá la gana". fora substituído quer pela descrição direta dos fatos
Na verdade, a aventura começara para Gilber- da vida, quer pela experiência irracional ou pela ima-
to Freyre, quando este vira o vapor afastar-se do gem mitológica e metafísica. Gilberto queixava-se;
lamarão, deixando no rastro salgado igrejas e coquei- "Dentre os modernos – no sentido lato da palavra mo-
ros do Recife. Tomava aí consciência de que nada o derno – Alphonse Daudet foi estilista; estilistas foram
impediria de perseguir seu caminho. Era o único a os Goncourt; [...] foi Chateaubriand; foi Vigny; foi
decidir que significado imprimiria à sua existência. Sua Musset; foi Renan; foi Rimbaud. Até chegarmos aos
aventura consistia no espaço de liberdade que se da- superestilistas ou perfeccionistas do tipo que culmi-
ria ao trabalho de escalar. Com Oliveira Lima, amigo nou em Mallarmé. Como não admirá-lo. Mas como
que o adotou como a um filho, repete um aforismo não sentir nele uma letra que, por vezes, reduz a vida
cujo sentido vai orientar sua vida e sua reflexão: cada a uma insignificância? Um verbo a que falta a vibra-
homem é um mundo. É preciso estudá-lo e descobri- ção da carne? Ou como nos mais que modernos Péguy
lo. Na América, ele descobre outra América: a portu- e Psichari – a vibração da alma?" 25 Essa vibração da
guesa, a sua, seus homens, suas raças misturadas, suas alma ele ia buscar na pintura de El Greco, nas carran-
culturas imbricadas, sobrepostas, mestiças. Quando cas da catedral de Notre Dame, no museu de escul-
instado a trocar de cidadania, reage, pois já tinha fei- turas de Rodin.
to sua escolha: "Será que ele (Amstrong) pensa que o Recém-terminada a primeira guerra, o estado
Brasil é uma terra de bárbaros?" Elíptica, fechada em de espírito nos países vencedores era, de maneira
si mesma, a vida americana amarrada a padrões bur- geral, de confiança contínua. A atmosfera em que vi-
gueses e pouco criativos o incitava, volta e meia, a via a burguesia, excetuando a baixa classe média,
pensar o Brasil: o valor da língua, a inserção cultural obrigava-a a lutar contra contrariedades, nem sem-
do mundo ibérico, a valorização do mulato "que mui- pre desesperadoras. O mesmo não se dava no país
tos brasileiros chamam hoje o brasileiro Jeca". vencido. Não escapara a Gilberto a situação grave nas
Em 1922, Freyre chega à Europa, Eldorado de ruas das cidades germânicas: "Pobre Alemanha! A in-
conhecimentos, em plena Idade de Ouro de entre- flação vai chegando aqui a extremos terríveis. Há muita
guerras. As primeiras reações à continuação de sua miséria ostensiva. Alemães com bigodões imperiais,
aventura merecem realce: "A Europa é para um brasi- majestosos de porte, kaiserianos de feitio, mas, repi-
leiro verdadeiramente outro mundo: o "Velho Mun- to, sapatos cambados e rotos e fatos remendados ou
do" da frase feita, em contraste com o modo do Brasil já rasgados".26 A verdadeira crise, contudo, só viria em
ser novo; parte nem sempre nova do chamado Novo 29, com a derrocada, na América, crise que encerra-
Mundo. Enfim, dois mundos distintos do Brasil da ria o período de prosperidade do após-guerra. Crise
América do Sul".22 Novas leituras a fazer, novos auto- reveladora da falta de planejamento internacional da
res a descobrir, a presença do expressionismo alemão produção e da distribuição. No plano das idéias, o
no teatro e na pintura, os japonismos de Vicente do momento era delicado e convém situá-lo. Nesse iní-
Rego Monteiro. Paris, Berlim, Munique e Londres cio de década, começava a tomar forma um período

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151
de crítica social, de realismo, de ativismo, de mento em que freqüentou os bares filibistes, (ou seja,
radicalização de atitudes políticas, disseminando a "de gente que em literatura segue Mistral e hoje, em
crença de que os partidos moderados eram ineficientes política, Maurras e Leon Daudet – explicava o jovem
e apenas uma solução extremada poderia ter utilida- viajante) na companhia de Regis de Beaulieu, Maurras
de. De maneira geral, explica Hauser, 27 as camadas colocava a energia de suas polêmicas e sua pena a
intelectuais tomavam posição ao lado das formas au- serviço de intelectuais liberais e estudantes
toritárias de governo, exigindo ordem e disciplina. A antigermânicos. É apenas a partir de 30, depois da
atração que o fascismo exercia sobre as camadas condenação pelo papa Pio XII, em função de suas acu-
enervadas, em confusão provocada pelo vitalismo de sações consideradas anticlericais e da publicação de
Nietzche e Bergson, consistia na mera aparência dos obras consideradas perigosas e postas no Index, que
valores absolutos, sólidos, inquestionáveis que nele muitos elementos do movimento maurrasiano passa-
existem e na esperança de se libertarem da responsa- ram ao fascismo, participando em milícias
bilidade de tudo que estivesse relacionado ao colaboracionistas. Germanófobo convicto, Maurras
racionalismo e individualismo. Ainda, segundo Hauser, atraia às suas palestras e conferências, um público jo-
do comunismo as classes intelectuais vão haurir um vem e arejado, mas ansioso por afirmar sobretudo a
possível contato direto com as massas e a redenção superioridade da cultura francesa sobre a alemã. Sua
de seu próprio isolamento da sociedade. Nada é mais influência, assim como a da Action Française nas eli-
típico da dominante filosofia da cultura do período tes intelectuais do mundo de língua francesa, é
do que a tentativa de tornar a que Ortega y Gasset explicada por Philippe Chenaux29 como fruto do em-
denominava, em 1930, de "rebelião das massas"28 res- bate entre duas nações, ou melhor, duas civilizações:
ponsável pela alienação e degradação da cultura mo- a latina e católica de um lado, a germânica e protes-
derna e pelo ataque que contra essa se desencadeia, tante de outro. Em 1924, já de volta ao Brasil, Gilber-
em nome da mente e do espírito. A maioria dos ex- to, por correspondência, fica sabendo que Maurras
tremistas professa a crença no criticismo da cultu- perdera a sua indicação para a Academia Francesa,
ra, criticismo um tanto confuso que encontrava-se na sendo substituído por político favorável à "americani-
base dessa filosofia. É certo que os dois lados consi- zação" da Europa, fato que lhe parecia, bem como ao
deravam aquele criticismo como significando coisas missivista, lamentável. Que fique claro: foi esse o
totalmente diferentes e fazem a guerra ao conceito Maurras freqüentado por Gilberto aos 22 anos.
de "mundo desprovido de alma", tendo na mente por François Furet30 demonstrou largamente que nessa
um lado o positivismo e por outro, o capitalismo. Mas década, podia-se ser ao mesmo tempo antiliberal e
é muito desigual o modo como os intelectuais, na não comunista sem ser forçosamente fascista. Havia
época em que Freyre estava na Europa, se dividem um espaço ideológico que as correntes de pensamento
entre os dois campos. A maioria é tradicionalista e nascidas do catolicismo ocuparam com tantas outras,
abre caminho para o posterior fascismo sob as idéias sem confundir-se com o fascismo e seus derivados.31
de Bergson, Maurras, Ortega y Gasset, Spengler e tan- Aos 23 anos, Freyre retorna ao Brasil. A aventu-
tos outros. ra física que começara há cinco anos passados volta
Se Gilberto teve contato com tais leituras e tais ao seu ponto de partida. Na bagagem emoções, coi-
autores, é bom que se diga, ambos, leituras e autores sas do espírito, conhecimentos. Outra aventura, a in-
estavam, nesse momento, longe de identificar-se com terior, esculpira um Freyre cioso de compreender seu
a forma que tomou o nazi-fascismo, posteriormente. país, sua cultura e de encontrar plenitude – por que
Charles Marie Photius Maurras, o mais citado em Tem- não dizer, felicidade?– nesta compreensão. Desta du-
po Morto e Outros Tempos talvez seja o melhor exem- pla jornada, emergia a excelência do viajante das pa-
plo. Muito provavelmente uma indicação de Oliveira lavras e das leituras, a engenhosidade daquele que
Lima, também um monarquista, defendia uma dou- sabia interpretar a mestiçagem de nossa cultura, a as-
trina "nacionalista integral" em artigos publicados, túcia do explorador capaz de decifrar os segredos dos
desde 1908, no jornal L'Action Française. Ou seja, uma elementos de nossa geografia humana. A aventura de
monarquia tradicional, autoritária, hereditária, um herói que se moveu no tempo e no espaço, acom-
antiparlamentar e descentralizada. Antes de 1914, panhou-se do inventário de viagens interiores, ultra-
seus textos prepararam a guerra de revanche contra passando barreiras da alma. Sua aventura foi também
os alemães. Depois dessa, o fecundo jornalista esgri- inventário de maravilhas percebidas, de coisas vistas,
miu contra o acerto de contas pacífico dos litígios eu- de curiosidades e de amostras intercambiadas. Mas,
ropeus propostos por Jaurès e depois de 1918, contra sobretudo, um inventário em que a noção de apego à
a política de reconciliação franco-alemã inaugurada terra, de amor à pátria – isso que hoje chamaríamos
por Briand. Enquanto Gilberto esteve em Paris, mo- de brasilidade – é nevrálgica. "Voltarei ao Brasil mes-

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152
mo para o pior fracasso intelectual ou artístico32" di- ra com Franz Boas, a essência brasileira deveria ser a
zia-se quando elogiado e convidado a permanecer resultante do estudo de estruturas materiais somadas
em Oxford. "Se nasci brasileiro e dentro do Brasil e ao estudo de representações de valores e crenças atra-
dos limites de Pernambuco, não será dentro das fron- vés das quais os homens modelariam seus comporta-
teiras do Brasil e dos limites de Pernambuco, e se- mentos. Mais.
guindo as imposições das minhas origens que devo Era preciso dar a essas informações um texto
viver? Este é o meu ideal para um indivíduo da minha capaz de devolver ao leitor, tal como fizeram os ir-
formação não só intelectual, como até certo ponto, mãos Goncourt, "...os homens no seu saber intima-
pessoal. Minha mãe, meu pai, minha cidade, minha mente psicológico, os segredos mais sutis da natureza
terra, me reclamam pelo que há em mim, de outras humana".37 Essa tarefa, ou nova aventura, exigia dele
raízes que, não sendo as intelectuais, parecem ser a disposição ímpar de "reintegrar-se completamente"
raízes ainda mais fortes. O que me faz querer reinte- ao país – e sublinha – atolando-se "na sua carne e no
grar-me no Brasil não é um senso puritano de dever, seu massapé",38 mergulhando em suas próprias raízes.
mas uma necessidade de ser, ou desejar ser, autênti- Era esse o verdadeiro significado de voltar ao Brasil.
co, na minha condição de homem" 33. Não apenas estar aqui, mas compreender e interpre-
O retorno marca a inflexão entre o menino e o tar seu chão, sua gente, seu corpo e sua alma. Indig-
homem: "Vejo agora o Capiberibe com olhos de ho- nava-se, inclusive, com os que, sem jamais ter deixa-
mem e a impressão que me dá repito que é, ainda, a do a terra brasileira, teimavam em adotar modelos
da mais tremenda realidade recifense. Também alguns estrangeiros, dando continuidade ao europocentrismo
dos velhos sobrados azuis, encarnados, verdes, ama- tão vivo entre os da nossa elite: "É curioso como os
relos, do Recife do meu tempo de menino, volto a inquietos hoje de vinte e trinta anos – anotava – bus-
contemplá-los agora, com olhos de homem, sem que cam, talvez com mais intensidade do que nunca, mun-
eles tenham perdido o prestígio que outrora tiveram dos ideais distantes ou remotos; Regis de Beaulieu,
para minha imaginação de criança de província. Con- meu amigo francês, chega a admitir que eu no Brasil
tinuam profundos e misteriosos".34 O objetivo da aven- esteja num mundo paradisíaco em contraste com o
tura que ora se iniciava será decifrá-los. Sua identifi- francês que, com seus Anatole France, teria resvalado
cação com as coisas de sua terra era total: as mulheres, a extremos de mediocridade impotente. Enquanto
os sobrados, os engenhos, as assombrações, a comi- isso, os chamados modernistas do Rio e de São Paulo
da dos tabuleiros, as ruas, a influência negra ou é para a França, para a Europa, alguns para os Estados
mourisca, os velhos papéis na Biblioteca Pública ou Unidos, como Ronald de Carvalho, que se voltam
nos baús das Casas-Grandes. "A verdade é que eu me como para mundos ideais, dando as costas ao Brasil;
sinto identificado com o que o Brasil tem de mais bra- ao que no Brasil há de verdade de ser descoberta ou
sileiro",35 confessava, enquanto fazia pesquisa de cam- redescoberta por jovens poetas, por jovens críticos,
po sobre crenças e devoções dos pescadores ribeiri- jovens pensadores dispostos a fazer alguma coisa de
nhos, ou freqüentava a mesa de Adão, o todo diferente, de novo, de moderno; de contrário ao es-
poderoso babalorixá. Sua obsessão pela língua, lín- tabelecido, de oposto ao aceito"39. Não era esse o
gua que fosse capaz de traduzir a complexidade cul- modelo que queria para si, mas um outro. Outro que
tural do país era total: "Entretanto – argumentava – lhe permitisse ressuscitar "o passado brasileiro mais
falta a grande parte de nossa literatura – ou quase íntimo [..] até – afirma – esse passado tornar-se carne.
literatura? – para ser regionalista, sem caipirismo, uma Vida. Superação de tempo".40
língua como que tropicalmente brasileira, que não A grande aventura de Gilberto Freyre seria des-
deixe nunca de ser portuguesa, como língua portu- de então o Brasil. Aventura a qual se dedicaria apai-
guesa, para tornar-se subportuguesa, de tão oral. Os xonadamente e cujos rodeios, desvios e descaminhos
temas regionais e tropicais estão à espera de roman- o trariam sempre ao mesmo lugar. Sua aventura não
cistas, contistas, dramaturgos que se exprimam [...] seria mais um parênteses – como foram suas sucessi-
Através dessa língua, se afirmaria entre nós, não só no vas viagens ao exterior – mas um modo de vida, uma
ensaio – gênero tão nobre – como na ficção e no tea- forma de luta, uma escolha sem tréguas, a permanên-
tro, uma maior tendência, da parte da nossa literatu- cia de uma relação com o mundo. Nos anos 30, exi-
ra, para exprimir um sentido social e, ao mesmo tem- lado em Portugal, garatujava desolado no diário "Mi-
po, humano do drama que vem sendo vivido pelo nha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, as aves
Brasil de modo regionalmente diverso, embora sem- que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá". Sim. Sua
pre, em essência brasileiro".36 Gilberto sabia que a aventura continuava viva em seu espírito. Sem ela, a
identidade do País passava pela recuperação de sua grande sonolência – que tantas vezes se abate sobre
memória, de sua cultura histórica. Tal como aprende- os homens quando repetem o que outros pensaram

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153
por eles – transformar-se-ia em trevas. Gilberto Freyre 34
Idem, p. 126.
sabia, contudo, que arriscar-se na complexa e fasci-
35
Idem, p. 128.
nante aventura que era o Brasil, não significaria dei-
36
Idem, p. 130.
37
Idem p. 146.
xar o mundo. Mas, ao contrário, iluminá-lo definiti- 38
Idem, p. 134.
vamente com a luz que lhe faltava. 39
Idem, p. 135.
40
Idem, p. 176.
_______________________

Notas
1
Essa é a opinião de Victor Segalen, Essai sur l'exotisme, Paris,
Biblo-essais, 1986. Empresto a David Le Breton, seu conceito de
aventura no prefácio à L'Aventure – la passion des détours, Paris,
Autrement, 1996.
2
Tempo morto e outros tempos, trechos de um diário de adoles-
cência e primeira mocidade, Rio de Janeiro, José Olympio, 1975,
p. 3.
3
Idem, ibidem.
4
Idem, p. 5.
5
Idem, p. 6.
6
Idem, p. 14.
7
Idem, p. 6.
8
Idem, p. 13.
9
Idem, p. 9.
10
Idem, p. 14.
11
Idem, p. 20.
12
Idem, p. 27.
13
Idem, p. 27.
14
Idem, p. 30.
15
Idem, ibidem.
16
Sobre o relativismo ver o que diz Tzvetan Todorov, in Nous et les
autres, la réflexion française sur la diversité humaine, Paris, Seuils,
1989.
17
Gilberto Freyre, op. cit. p. 32.
18
Idem, p. 25.
19
Idem p. 71.
20
O conceito de aventura é extraído do seu "Sont-ils des
aventuriers, ces írates occidentaux..." in David Le Breton, op. cit.,
p. 161-165
21
Idem p. 52.
22
Idem, p. 81.
23
Arnold Hauser, História social da literatura e da arte, São Paulo,
Meste Jou, s/d, volume II, p. 1135. Sobre Bergson ver, M. Merleau-
Ponty, Éloge de la philosophie, Paris, Gallimard, 1953; H. Gouthier,
Bergson et le Christ des Évangiles, Paris, Fayard, 1961, G. Deleuze,
Le Bergsonisme, Paris, P.U.F., 1989; V. Jankélevitch, Bergson, Paris,
P.U.F., 1975.
24
Gilberto Freyre, op. cit., p. 113.
25
Idem, p. 115.
26
Idem, p. 92.
27
Arnold Hauser, op. cit., pp. 1116 e passim.
28
La rebelión de las masas, 1930.
29
Philippe Chenaux, Maurras et Maritain, une génération
intellectuelle catholique (1920-1930), Paris, Cerf, 1999, p. 227.
Agradeço a José Mário Pereira a gentil indicação dessa obra.
30
Ver seu Le passé d'une illusion. Essai sur l'idée communiste au
XXe. siècle, Paris, Gallimard, 1995.
31
Phillippe Chenaux na introdução ao seu Maurras et Maritain,
une génération intellectuelle catholique (1920-1930), chega a falar
em "déficit historiográfico" sobre essa questão.
32
Gilberto Freyre, op. cit, p. 93.
33
Idem, p. 96.

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Castelos no Ar: Notas sobre Portugal em
Aventura e Rotina*

Ricardo Benzaquen de Araújo


Antropólogo – Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro –
Brasil

"Em Portugal rever talvez seja maior delícia balho que ele vai se demorar na análise de
do que ver" (AR, p. 16). um conjunto de transformações que, preten-
dendo desde o início do século XIX associar o
Este trabalho pretende apenas levantar Brasil ao processo de civilização dos costu-
algumas questões sobre Aventura e Rotina mes típico da modernidade ocidental, substi-
(1980 [1953]), volume que reúne as observa- tui o diversificado e colorido mosaico de tra-
ções de Gilberto Freyre sobre uma viagem dições culturais presentes no período colonial
que, de agosto de 1951 a fevereiro de 1952, – paralelamente ao despotismo e à violência
o levou a visitar Portugal e algumas de suas instaurados pelo regime escravocrata – por um
então colônias na Ásia e na África. Este cará- sistemático, uniforme e inflexível modelo de
ter introdutório do texto, aliás, torna-se ainda inspiração européia, totalmente incapaz de to-
mais saliente pelo fato de que, por limitações lerar a variedade, os excessos e a instabilida-
de tempo, serei obrigado a me concentrar na de que marcavam até então a experiência
fase portuguesa da mencionada viagem, dei- nacional.
xando para outra oportunidade uma avalia- Assinale-se, de imediato, que Gilberto
ção mais ampla e aprofundada do livro como escreve repetidamente contra essa uniformi-
um todo. zação dos costumes, esta "reeuropeização do
Muito bem: apresentadas as necessári- Brasil", tentando sempre encontrar maneiras
as explicações, creio que valha a pena iniciar por intermédio das quais ao menos uma par-
lembrando que, se houvesse necessidade de cela do espírito daquele mosaico colonial
se encontrar uma fórmula que resumisse a poderia ser reanimado, passando assim a
argumentação de Gilberto em AR, ela talvez moderar e portanto a alterar a rígida
pudesse ser retirada da sua página 141, quan- modernidade implantada no País. Ora, a mi-
do nosso autor afirma que procura "explica- nha impressão é a de que são precisamente
ções para costumes ou tendências que pare- essas diferenças culturais, esses antagonismos
cendo às vezes peculiares ao Brasil têm origens em equilíbrio que ele vai procurar em Portu-
lusitanas". Essa fórmula, que converte a via- gal, dando continuidade, em outro contexto,
gem em uma espécie de ponte, um instrumen- a uma das suas mais consistentes preocupa-
to capaz de promover a busca de continuida- ções intelectuais e políticas.
des entre Portugal e o Brasil, precisa, E, realmente, não leva muito tempo
evidentemente, ser complementada por ou- para que Gilberto venha a identificar lugares
tras hipóteses. Afinal, há que se estabelecer e situações aparentemente bastante compa-
não só a natureza dos valores perseguidos por tíveis com os valores que se esforça em de-
Gilberto como também as próprias formas fender. Desse modo, já na página 25, referin-
pelas quais eles poderiam ser percebidos, em do-se aos bosques e jardins das quintas de
Portugal, no meio do século XX. Sintra, ele vai observar que
Na verdade, creio que será possível
"[...] se alguém for reparar em porme-
encontrar um primeiro caminho para respon-
nores, descobrirá, no meio deste arvoredo
der a essa indagação se levarmos em consi-
castiçamente português – sobreiros, salguei-
deração outro livro de Gilberto, Sobrados e
ros, vinhas –, muita planta vinda do Ultramar
Mucambos , publicado originalmente em
tropical e aqui já ajustada ao todo castiço da
1936, mas reeditado, com muitas e sérias
paisagem. Sinal de que a quinta, entre outras
modificações, no mesmo ano dessa sua via-
virtudes, tem tido a de domesticar em Portu-
gem, 1951. Isso ocorre porque é nestes tra-

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155
gal os exotismos vindos dos trópicos, ao ponto de mesmo quando plebeu, um equivalente, na culinária,
harmonizá-los com as velhas árvores desta parte já do que a aquarela é na pintura, com sua harmonização
quase tropical da Europa. A quinta é também uma de cores. Enquanto nas composições espanholas, por
expressão do pendor português para harmonizar va- mais ricas, os ingredientes como que se conservam
lores tropicais com os europeus". dentro de suas fronteiras. Deixam-se decompor, mais
facilmente do que os ingredientes dos pratos portu-
Não cessa aí, porém a proximidade entre cos-
gueses, em cores, sabores, aromas e formas como que
tumes brasileiros e portugueses: deslocando-se de
autônomas: autônomas a ponto de qualquer dos in-
Sintra para o Alentejo, ele se entusiasma diante de
gredientes poder ser saboreado ou apreciado só. O
"Um almoço quase tropical no que junta de chei-
arroz separado da galinha, a galinha separada da ver-
ros fortes a gostos picantes sem que, entre os extre-
dura, a verdura separada dos dois".
mos, deixem de acariciar o paladar menos plebeu na
Assim, só para tornar bem claro o ponto, ele
sua capacidade não sei se diga teológica de distinguir
enfatiza que, por sua vez, o
e subdistinguir, nuanças angélicas de gosto e de chei-
“prato castiçamente espanhol – o puchero, por
ro. Gostos e cheiros que resultam de profunda
exemplo – em sua variedade – mas não harmonia – de
mestiçagem culinária. Pois o Alentejo é uma região de
composição tinha de tudo; e fácil seria decompô-lo
valores mistos – mistos de raça e de sexo – tanto de
em vários pratos – cada qual mais atraente – como se
culinária como de vestuário e de arte popular. A re-
decompõe uma composição cubista. E como se de-
gião de rendas feitas no mais duro ferro – os das va-
compõe, aliás, um puchero: um plato único cotidiano
randas de Évora – por homens com mãos ao mesmo
ou normalmente espanhol. Decompor um prato
tempo de gigante forte e de mulher dengosa e de so-
castiçamente português não me parece tão fácil: cada
pas feitas por mãos como que bissexuais de mulheres
prato português tende a harmonizar valores que sepa-
de buço de rapaz."
rados deixam de atrair ou agradar o paladar e a pró-
Mas será que se pode efetivamente apontar uma
pria vista. A verdura ou o arroz que, em Portugal, acom-
identidade absoluta entre a "mestiçagem" colonial e
panha certos peixes ou certas aves, só tem graça dentro
essa que Gilberto encontra em Portugal? Creio que
das combinações liricamente tradicionais a que per-
há no mínimo um ponto, particularmente importan-
tencem. Separados, perdem quase todo o encanto. A
te, no qual elas parecem divergir, e este diz respeito
culinária portuguesa seria, assim, em termos pictóri-
justamente à intensidade emocional em que aqueles
cos, do caráter da pintura que se convencionou classi-
antagonismos em equilíbrio eram experimentados em
ficar, nos seus exageros mais recentes, 'expressionista';
uma e outra situação. De fato, enquanto a sociedade
a espanhola se deixaria definir melhor como 'cubista'.
organizada em torno da escravidão e das casas-gran-
Picasso talvez tenha-se inspirado numa culinária de
des criava condições para que aquelas distintas tradi-
acentuada tendência à composição como que dramá-
ções se relacionassem em uma atmosfera saturada de
tica de sabores e cores para desenvolver, a seu modo,
paixões, onde excessos de toda espécie podiam su-
e ao modo dos espanhóis e sob o estímulo de várias
ceder, o hibridismo cultural encontrado pelo nosso
outras sugestões, o cubismo que desenvolveu na pin-
autor em sua viagem está envolvido em um clima de
tura. Um cubismo à espanhola" (pp. 81-82).
extrema moderação, no qual, como a passagem so-
Como se vê, refeição espanhola cultiva um es-
bre as quintas de Sintra já sugeria, a harmonização e
tilo bastante próximo daquele que caracterizava, se-
o arredondamento das diferenças permitiam o
gundo Gilberto, o Brasil colonial (cf. Araújo, 1994),
surgimento de um equilíbrio eminentemente estável,
ao passo que os ingredientes da culinária portuguesa
bem distante do nosso turbulento passado colonial. É
parecem seguir uma rota que os conduz à harmonia,
mais ou menos como se, ao contrário da experiência
à suavidade e até mesmo à interdependência, com a
brasileira, onde o vivo colorido das contribuições ne-
conseqüente diminuição do sincretismo e da ambi-
gras, brancas e indígenas foi substituído pelo preto-e-
güidade que tal movimento, quase inevitavelmente,
branco – ou cinza – da elegante moda européia, as
produz.
cores portuguesas tivessem continuado a brilhar, só
Não se imagine, contudo, que essa preocupa-
que desbotadas, esmaecidas, só para frisar, modera-
ção com a moderação esteja meramente associada à
das.
modernidade, ou seja, a necessidade de Portugal ade-
Tal moderação pode ser encontrada ao longo
quar seu variado legado ao sóbrio e homogêneo pa-
de todo o texto, mas é curiosa e admiravelmente re-
drão burguês. Ao contrário, em vez de responsabili-
sumida em um trecho em que Gilberto, comparando
zar qualquer pressão externa por essa alteração,
a cozinha portuguesa com a espanhola, argumenta
Gilberto vai desenvolver um argumento, sobre o des-
que
tino da cultura portuguesa, que coloca em primeiro
"[...] o prato castiçamente português tende a ser,

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156
plano exatamente as duas categorias que dão título postos, limites que fariam com que o seu "primeiro
ao livro, Aventura e Rotina. ímpeto fo[sse] recusar o convite afetuosamente por-
Dessa forma, cabe lembrar, antes de mais nada, tuguês para visitar ... Portugal e o Ultramar". Trata-se,
que a idéia de aventura no texto aparece com fre- por conseguinte, de um "convite que lamento não ter
qüência, por um lado, reduzida ao processo de ex- recebido há vinte anos. Os homens de estudo de cam-
pansão ultramarina desencadeado em Portugal nos po são um tanto como aqueles hotéis e aqueles baila-
séculos XV e XVI e, por outro, estreitamente vincula- rinos de que há pouco falei: têm uma mocidade cur-
da à incorporação pela metrópole de um sem núme- ta. As viagens de estudo são rudes. Para os homens
ro de experiências culturais oriundas dos povos con- de gabinete é que quase não há limites de tempo nem
quistados. Este ponto, que ressalta a permeabilidade restrições de idade à atividade criadora. Mesmo sem
do colonizador lusitano, capaz de construir um impé- saúde, como o débil Rui Barbosa, podem chegar à
rio sem se preocupar em impor uma regra única, acei- extrema velhice, trabalhando, escrevendo, produzin-
tando plasticamente as mais diferentes influências, do obras-primas" (AR, p. 5).
também deixa claro que a mentalidade aventureira Sabemos, naturalmente, que ele desafia os seus
atingiu a sua plenitude apenas quando o português limites e aceita o repto que lhe é lançado, mas esse
era um povo ainda jovem, intenso e disponível, pas- gesto não apaga a imagem que ele começa a cons-
sando daí em diante a ser substituída pela rotina. truir de si mesmo, senão vejamos: visitando o ances-
Acontece que a idéia de rotina, tal como discu- tral do Brasil, Gilberto leva consigo, além de sua es-
tida por Gilberto, não deve de maneira nenhuma ser posa, Dona Madalena, seus filhos e também o avô
entendida como o oposto, a antítese da aventura. deles, seu pai. Essas três gerações de Freyres, todas
Longe disto, ele insiste em ressaltar casos como o de mencionadas na narrativa, relacionam-se todavia com
Dom João de Castro e sua "saudade ... no meio das Portugal de maneira flagrantemente diferente, pois,
guerras no Oriente, da terra que deixara em Sintra ... enquanto o "velho Freyre" e as crianças são claramen-
Pelo seu gosto, depois dos 40 anos, teria vivido entre te associadas, por caminhos distintos, aos portugue-
as árvores de Sintra, vida tranqüila de rotina, e não no ses da época do descobrimento, Gilberto nunca dei-
Oriente, vida de aventura... Caso típico. Como Castro xa de se identificar com a suavidade e a maturidade –
Forte, outros portugueses ... têm sempre sonhado em quase velhice – que define os seus anfitriões.
se aquietarem um dia na doce rotina de vida suburba- Assim, se o Doutor Alfredo sempre marca a sua
namente agrária em alguma quinta, senão em Sintra, presença por "lembrar-se do muito de Camões e de
que é o sítio ideal para as quintas desse tipo, em re- Herculano que sabe de cor, deixa[ndo] de ter setenta
cantos menos famosos pela situação ou pela paisagem e seis anos para sentir-se um adolescente" (pp. 25-
ou pelo solo, mas onde possam cultivar suas couves, 26), e aproximando-se, portanto, metonimicamente
suas vinhas, suas oliveiras" (AR, p. 24). do glorioso passado português, os jovens Sônia e
A rotina, portanto, não é aqui definida como Fernando são metaforicamente vinculados aos aven-
um estado simultâneo, paralelo à aventura, ao qual tureiros
esta irá se contrapor e ao mesmo tempo acentuar (cf.
"sugestionados no Oriente e nos trópicos por
Simmel, 1998). Ao contrário, a aventura acaba sendo
novas ... formas e cores [,] por eles surpreendidas ...
tratada como se fosse um sacrifício, um esforço dota-
com olhos de descobridores. Com olhos quase de
do de uma teleologia, orientado para um objetivo fi-
meninos, como os desses portuguesinhos e
nal, que seria precisamente a possibilidade de se des-
europeuzinhos que vimos hoje os Freyres adultos ao
frutar do "doce" e "suave" cotidiano cujo maior
lado dos nossos dois pequenos já um tanto iniciados
emblema parece ser as quintas portuguesas. Nesse
em coisas dos trópicos como bons brasileiros que são,
sentido, Portugal nos anos 50 do século XX termina
mas admirando pela primeira vez – fora de circos –
sendo descrito por Gilberto como um país pronto,
elefantes, javalis, hienas, macacos grandes da África,
digno e maduro, envolvido por um idealizado clima
camelos, girafas, zebras, hipopótamos, leões, tigres. E
de tranqüilidade, às vezes um tanto ou quanto deca-
regalando-se de contentes diante de tantas formas bi-
dente, mas perfeitamente compatível com a sua defi-
zarras de animais que apenas conheciam de livro ou
nição como um "jardim a beira-mar plantado".
de fita de cinema. Pelo regalo destas crianças diante
O que mais me chama a atenção, entretanto, é
de animais dos trópicos, imagina-se a emoção de me-
que a mesma abordagem que Gilberto dispensa a
ninos grandes que os portugueses experimentaram ao
Portugal será também reservada ao modo pelo qual
verem na África os primeiros elefantes ou os primeiros
ele próprio irá se definir ao longo de AR. Com efeito,
rinocerontes. Ao que parece, foram os portugueses,
desde as suas páginas iniciais, nosso autor já mencio-
que, antes de que qualquer outro europeu, avist