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Resenha: Capítulo Premissas Musicais, do livro Feitiço Decente – Transformações do samba no Rio de

Janeiro (1917-1933) / Carlos Sandroni – Rio de Janeiro, RJ : Jorge Zahar Editor / Editora UFRJ, 2001

por Gabriela B. Munin


Estudante do curso de bacharelado e licenciatura em História, Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo

Em seu livro Feitiço Decente, o etnomusicólogo Carlos Sandroni, trata da constituição e


amadurecimento do samba como gênero musical no Rio de Janeiro, combinando análise sociológica,
literária e musical. A definição dessa evolução é marcada por pulsações rítmicas. No capítulo Premissas
Musicais, o autor descreve a principal característica rítmica do samba como o conhecemos hoje, a
síncopa.

Sandroni utiliza como contexto histórico o I Congresso Nacional do Samba, onde foi aprovada uma
carta a fim de preservar as características tradicionais do samba. Neste documento foi dito que o samba
caracteriza-se pelo emprego da síncopa e é a única parte da carta em que existe uma tentativa de definir
através de um termo técnico o que seriam as características tradicionais que os sambistas queriam
preservar. Utilizando da definição mais simples, síncopa é a mudança da acentuação métrica normal em
uma música, ou seja, o ritmo sincopado é contraposto ao ritmo regular.

A fim de entender mais essa característica que marca a tradição do samba carioca, o autor vai
mais a fundo ao estudar a síncopa e suas origens. A partir daí, Sandroni expõe conceitos interessantes.
Primeiramente, a síncopa não é um conceito universal da música, e sim, uma noção gerada para as
necessidades da prática musical clássica ocidental e, portanto, com validade restrita. Partindo desse
pressuposto, é possível analisar que para o caso brasileiro e, muito mais para a música afro, o conceito de
síncopa como irregular é inválido. O irregular é o característico neste ritmo, tornando-se assim, regular.
Ao analisar os estudos do também etnomusicólogo Mieczyslaw Kolinski, percebe-se que, no caso da música
afro, a ideia de uma recorrência periódica de tempos fortes e marcados é estranha a esta música, que já
vem embutida de tradições, como a síncopa realizada através da dança e das palmas juntamente à
música.

A partir daí, o autor começa a indagar a origem deste ritmo e diz que diversos pesquisadores
brasileiros que escreveram sobre a importância da síncopa tendem a atribuir a paternidade dela aos
africanos que vieram com a escravidão. Mas, como expõe através dos estudos de Mário de Andrade, esta
ainda é uma grande dúvida; ainda sugere que o problema das origens é irrelevante, tendo em vista que a
fusão criada em solo americano é sempre algo novo, não somente no Brasil, mas em outros locais onde é
evidenciada a presença da síncopa. Utiliza-se do exemplo do jazz, que pode ser origem de ritmos de
tambores africanos, mas que teve seu significado musical totalmente transformado no contexto em que se
inseriu.

Carlos Sandroni continua pelo capítulo demonstrando fórmulas técnicas de aplicação da síncope,
mas, em geral, o autor se contém a demonstrar diversas teorias para ligar as familiaridades musicais
brasileiras (incluindo não só o samba carioca, mas o tambor-de-mina maranhense, o xangô e o maracatu
pernambucanos, o candomblé e a capoeira baianos e a macumba) com os ritmos africanos. A conclusão
não poderia ser melhor e mais realista: “... mesmo se a noção de síncope inexiste na rítmica africana, é
por síncopes que a música escrita fez alusões ao que há de africano em nossa música de tradição oral. É
nesse sentido, e só nesse, que tinham razão os que afirmavam que a origem da síncope brasileira estava
na África.”.