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Estudo sobre o poema Os Trabalhos e Os Dias, de Hesíodo

por Gabriela B. Munin


Estudante do curso de bacharelado e licenciatura em História, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo

Mostra como se organiza o mundo dos mortais, apontando sua origem, limitações e deveres a
fim de explicar em que se fundamenta a condição humana.

Tradicionalmente o poema se divide em duas partes: a primeira compreende os 382 versos


que constituem uma espécie de arcabouço mítico-cosmogônico para a segunda parte, que é
constituída de conselhos e calendários relativos à agricultura, à navegação e admoestações
morais.

O poema é destinado a proprietários fundiários, pequenos agricultores e, principalmente, ao


seu irmão Perses, com quem estava em meio a um litígio pelas terras de seu pai.
Perses era um protegido de reis e juízes em tal disputa e após pilhar uma parte a mais da
herança do pai, parece ter caído na miséria e tentou adquirir os bens novamente por meio de
violência, intrigas e mentiras.
Cansado e desiludido com o irmão e com os juízes, Hesíodo faz esse canto em tom de
exortação e denúncia, reivindicando a prática jurídica inspirada na justiça de Zeus para seu
caso pessoal.

A tradução do poema foi dividida em subtítulos.


A primeira parte é a “Invocação”, onde Hesíodo pede a ajuda das Musas para transmitir as
verdades divinas ao seu irmão.
Segue daí a apresentação de “As Duas Lutas”, designadas como labuta, a qual os mortais
precisam fazer cotidianamente e a outra como a guerra má, que amplia o combate.
O sentido deste capítulo é expor a Perses que trate de buscar a primeira luta para melhor
poder ajuntar seus bens materiais, sem que seja às custas das propriedades dos outros, como
visto no trecho a seguir:

“Desperta até o indolente para o trabalho:


pois um sente desejo de trabalho tendo visto
o outro rico apressado em plantar, semear e
casa beneficiar; o vizinho inveja ao vizinho apressado
atrás da riqueza; boa Luta para os homens esta é;
o oleiro ao oleiro cobiça, o carpinteiro ao carpinteiro,
o mendigo ao mendigo inveja e o aedo ao aedo.
Ó Perses! Mete isto em teu ânimo:
a Luta malevolente teu peito do trabalho não afaste
para ouvir querelas na ágora e a elas dar ouvidos.
Pois pouco há em disputas e discursos
para quem em casa abundante sustento não tem armazenado
na sua estação: o que a terra traz, o trigo de Deméter.
Fartado disto, fazer disputas e controvérsias
contra bem alheios poderias. Mas não haverá segunda vez
para assim agires. Decidamos aqui nossa disputa
com as retas sentenças, que, de Zeus são as melhores.”

Logo em seguida, o autor introduz o “Mito de Prometeu e Pandora”.


Segundo Hesíodo, foi dado a Prometeu e seu irmão Epimeteu a tarefa de criar os homens e
todos os animais. Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu encarregou-se de supervisioná-
la. Na obra, Epimeteu atribuiu a cada animal os dons variados de coragem, força, rapidez,
sagacidade; asas a um, garras outro, uma carapaça protegendo um terceiro, etc. Porém,
quando chegou a vez do homem, formou-o do barro. Mas como Epimeteu gastara todos os
recursos nos outros animais, recorreu a seu irmão Prometeu. Este então roubou o fogo dos
deuses e o deu aos homens. Isto assegurou a superioridade dos homens sobre os outros
animais. Todavia o fogo era exclusivo dos deuses. Como castigo a Prometeu, Zeus ordenou a
Hefesto que o acorrentasse no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma ave
dilacerava seu fígado, que, todos os dias, regenerava-se. Esse castigo devia durar 30.000
anos.
Para os homens, o castigo foi Pandora. Pandora foi a primeira mulher que existiu, criada por
Hefesto e Atena, auxiliados por todos os deuses e sob as ordens de Zeus. Cada um lhe deu
uma qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a
inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes,
porém pôs no seu coração a traição e a mentira. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu
recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Diante da beleza de Pandora,
Epimeteu esqueceu o que prometera ao irmão e a tomou como esposa.
Epimeteu tinha em seu poder uma caixa que os deuses haviam lhe dado e que continha todos
os males. Avisou a mulher que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os
males escaparam, sobrando na caixa somente a Esperança (ou Expectação ou Antecipação,
como alguns historiadores preferem). E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os
males.
O mito de Prometeu explica a criação do homem, a aplicação da justiça divina e revela a
relação com o trabalho. Neste mito, o trabalho se apresenta como uma dádiva divina ofertada
pelo Titã Prometeu. O trabalho neste mito é a aplicação de conhecimentos e segredos
revelados por Prometeu aos homens e Hesíodo trata de explicar porque os homens devem
praticar o labor, não evitando este destino imputado pelos seres divinos.

“As Cinco Raças” mostram uma relação diferente com o trabalho e o seu consequente
destino:

A Geração Áurea: Foi à primeira raça, semelhante aos deuses. Vivia uma sequência
constante de prazeres. Conviviam em perfeita harmonia com os Deuses. Desconheciam o
cansaço, doença ou dor. Após longos anos de felicidade, a morte vinha como um suave
adormecer. Esta geração foi totalmente destruída como punição pelos terríveis erros do titã
Cronos.

Geração Argêntea: A raça que se seguiu era formada por fracos e tolos. Incapazes de
administrar suas próprias questões, mesmo de ajudarem uns aos outros. Levavam cem anos
para iniciar a fase adulta. Não faziam distinção de bem e mal; e tinham a vida cheia de dor e
tristeza.
Indispostos para o trabalho, não amavam uns aos outros. Viviam do que tomavam pela força e
era comum se matarem. Não se submetiam aos deuses. Zeus insultado por sua prepotência e
violência, matou a todos.

Geração Brônzea: Zeus criou a esta geração. Homens altos e fortes, guerreiros destemidos.
Moldados em bronze, tinham armas do mesmo material. Tudo era de bronze, pois os homens
ainda não haviam descoberto como trabalhar o ferro. Não cultivavam a terra. Viviam da caça e
da coleta. Tornaram-se arrogantes e vaidosos, cheios de tolo orgulho e uniram-se para tomar o
monte Olimpo. Novamente Zeus matou a todos.

Geração de Heróis e Semideuses: A quarta geração veio ao mundo com Hércules, Teseu,
Orfeu, Jasão, Aquiles, Agamêmnon e todo o exército de heróis da mitologia grega. Seus atos
corajosos originaram o nome da geração: Idade Heroica. Mais justos e mais nobres do que as
gerações anteriores, recebiam frequentemente a visita dos deuses do Olimpo que se
misturavam entre eles compartilhando suas alegrias e tristezas. Muitos heróis e nobres eram
filhos de algum deus e estes os protegiam. Grandes cidades floresceram neste período:
Atenas, Micenas, Esparta, Creta, Corinto, Maratona...
A geração de heróis foi derrubada. Muitos tombaram nas sete portas de Tebas, combatendo
pelas riquezas do rei Édipo, e muitos morreram na luta que se travou durante dez anos nos
muros de Tróia.
Quando todos morreram, Zeus os enviou para a Terra dos Bem-Aventurados. A geração heroica
representa os valores que pesavam para o estereotipo do homem helênico.
Geração de Ferro: A idade mítica chegou ao fim. Zeus gerou da terra a abundante geração
de ferro, que ainda habita a terra em nossos dias. A vida é difícil para estes homens. Tem de
trabalhar para sobreviver, enfrentando problemas e provas. Os deuses não lhes demonstram
amor, pois se retiraram para o Olimpo. Distribuíram algumas alegrias, mas o mal sempre
excede o bem e obscurece a vida dos homens.
A quinta geração vive com a lembrança da que a precedeu. A era mítica deixou uma rica
herança cultural para os seus sucessores. Suas histórias ainda foram contadas por Homero,
Sófocles, Hesíodo, Eurípedes, Ésquilo e tantos outros.

O que Hesíodo mostra é que a relação com o trabalho está cada vez mais distante dos Deuses,
quanto mais às gerações se afastaram dos deuses, maior foi o seu comprometimento com a
sua manutenção.
Esta sequência permite presumir que o trabalho era uma atividade menor, voltada para
homens em situação de inferioridade na escala de valores da sociedade helênica.

Para Hesíodo, não existe uma separação entre os conceitos de trabalho e justiça. Ele aborda o
trabalho como uma necessidade humana e a justiça como um dever, estando um ligado ao
outro. A carência de trabalho (ociosidade) provoca a violência (injustiça) e, por isso, não deve
ser praticada. Em sua concepção, o trabalho deve ser exercitado com o objetivo de alcançar
uma elevação espiritual e material, como pode ser visto no trecho seguinte:

“trabalha, ó Perses, divina progênie, para que a fome


te deteste e te queira cem a coroada
Deméter, enchendo-te de alimentos o celeiro;
Pois a fome é sempre do ocioso companheira
[…]
O trabalho, desonra nenhuma, o ócio desonra é!”

Em “Justiça”, Hesíodo explana que Zeus honrará somente aquele (e toda sua estirpe) que for
fiel em seus juramentos, tanto para os mortais como para os imortais. Ao que parece, apesar
de não estar totalmente explícito no poema, Perses, além de "roubar" o próprio irmão,
subornar os príncipes-juízes do processo, estaria jurando falsamente em nome dos deuses ao
reclamar tanto o suposto valor a que teria direito da herança paterna. Seria possível pensar
também que ele não estaria honrando os imortais devidamente. Desta forma, Hesíodo exorta
para que Perses repense o que anda fazendo, pedido que será desenvolvido em “O
Trabalho”. Hesíodo sugere que Perses arrependa-se do ato que está praticando, senão
somente desgraças abaterão em sua casa e em toda sua linhagem.
Já que é impossível deixar de fazê-lo, porque assim determinaram os deuses, Perses deveria
entregar-se à labuta.
Hesíodo diz estas admoestações não só para seu irmão mas também aos "príncipes comedores
de presentes" que, ao invés de fazerem a justiça, aceitam o suborno do "imoral". Assim estes
são mais imorais, porque além de aceitar o suborno mentem por não seguir uma Justiça que
até os deuses conhecem.

Os Trabalhos e Os Dias é o único poema da tradição grega a se inserir no quadro da


Wisdom-literature (literatura sapiencial), que reúne obras que contém preceitos, conselhos,
admoestações e instruções repertoriadas por um povo que está vivenciando períodos de
profundas crises e tentativas de reconstrução de sua sociedade e patrimônio moral.